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resumo
Dada a relevância das operadoras de planos de saúde na prestação de serviços de saúde e sua grande im-
portância para clientes individuais e empresariais, assim como para profissionais e empresas prestadoras
de serviços de saúde, é importante antecipar a capacidade financeira das operadoras que efetivamente
cumprir suas obrigações contratuais (prover serviços a clientes, pagar prestadores). Para isso, desenvol-
vemos um modelo de previsão de insolvência específico para operadoras de planos de saúde. Por meio
de uma regressão logística sobre 17 indicadores financeiros de cerca de 600 operadoras brasileiras de
planos de saúde, desenvolvemos um modelo capaz de prever a insolvência de uma operadora após um
ano, e analisamos a precisão desse modelo específico em comparação com a de um modelo geral bas-
tante popular, o escore Z” de Altman.
abstract Given the relevance of health plans in the provision of healthcare and their high importance for individual and business customers,
as well as healthcare professionals and companies, it is important to predict financial capacity of health plans to effectively fulfill their obliga-
tions. We develop an insolvency prediction model specific for health plans. Through a logistic regression of 17 financial measures of around 600
Brazilian health plan carriers, we develop a one-year insolvency prediction model, and its accuracy is analyzed and contrasted to that of a generic
corporate model, Altman’s Z” score.
palavras-chave Insolvência, gestão da saúde, planos de saúde, capacidade financeira em saúde, regressão logística.
keywords Insolvency, healthcare management, health plans, healthcare financial capacity, logistic regression.
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como insolventes ou solventes. Ele utilizou uma amostra Apesar do baixo desempenho do modelo, Ohlson apre-
pareada que combinava 14 indicadores financeiros de 158 sentou fortes argumentos em favor da regressão logística
empresas (79 insolventes e 79 solventes). em face da AMD. Do ponto de vista estatístico, a regressão
A fim de resolver os problemas verificados na análise logística se adapta bem às características dos modelos de
univariada de Beaver (1966), Altman (1968) utilizou a previsão de insolvência, nos quais a variável dependente
análise discriminante múltipla (AMD, em inglês: multiple é dicotômica (solvente/insolvente) e onde os grupos são
discriminant analysis – MDA) e avaliou um perfil finan- discretos, não se sobrepõem e são identificáveis. Além
ceiro mais completo de 66 fábricas (33 solventes e 33 in- disso, um modelo logit retorna uma pontuação que varia
solventes) que apresentaram pedido de falência entre os entre zero e um, e reflete de forma conveniente a probabi-
anos de 1946 e 1965. Altman examinou 22 indicadores lidade de insolvência da empresa. Por fim, os coeficientes
financeiros potencialmente relevantes em cinco catego- estimados podem ser interpretados como a importância
rias – liquidez, rentabilidade, alavancagem, solvência e ou contribuição de cada uma das variáveis independentes
atividade – e desenvolveu um modelo composto por cin- para a explicação da variável dependente (a probabilida-
co variáveis que, em conjunto, apresentavam o melhor de estimada de insolvência). Após o trabalho de Ohlson
poder de previsão de insolvência das empresas analisadas. (1980), muitos trabalhos acadêmicos passaram a utilizar
Após o estudo de Altman, a análise múltipla de discri- modelos de regressão logística para prever insolvências
minantes tornou-se o método estatístico mais utilizado no (ALTMAN e SABATO, 2007).
desenvolvimento de modelos de previsão de insolvência. Vale ressaltar que o modelo de escore Z de Altman
No entanto, na maioria dos estudos posteriores ao trabalho (ALTMAN, 1968; ALTMAN, HALDEMAN e outros,
inicial de Altman, os autores apontam alguns problemas 1977; ALTMAN, BAIDYA e outros, 1979; ALTMAN e
com a AMD (ALTMAN e SABATO, 2007). Primeiro, dois HOTCHKISS, 2006) ainda é amplamente utilizado, sendo
pressupostos básicos da AMD são frequentemente violados possivelmente um dos modelos mais difundidos. Neste
quando aplicados a problemas de previsão de insolvência: estudo, adotamos a variante do modelo de Altman conhe-
como a normalidade multivariada e a igualdade de variâncias cida como Z”, que estima a probabilidade de uma empresa
e covariâncias. Além disso, em alguns modelos da AMD, os privada não manufatureira tornar-se insolvente no período
coeficientes normalizados não podem ser interpretados como de um a dois anos. O modelo também foi aplicado com
as “inclinações” de uma equação de regressão e, portanto, sucesso a mercados emergentes (ALTMAN, HARTZELL
não indicam a importância relativa das diferentes variáveis. e outros, 1995, 1997), e é calculado a partir da fórmula:
Considerando as dificuldades associadas à AMD, Z” = 6,56X1 + 3,26X2 + 6,72X3 + 1,05X4, onde: X1 = capi-
Ohlson (1980) desenvolveu o primeiro modelo de regres- tal de giro/ativo total; X2 = lucros acumulados/ativo to-
são logística condicional para previsão de insolvência. Os tal; X3 = Lucro antes de impostos e taxas/ativo total; e X4
benefícios práticos da regressão logística são hipóteses me- = patrimônio líquido/ativo total. Nesse modelo, valores
nos restritivas que as da AMD e um método que permite abaixo de 1,1 indicam alto risco de insolvência, e valo-
trabalhar com amostras desproporcionais ou não parea- res acima de 2,6 indicam um baixo risco de insolvência,
das (não requer que o número de empresas insolventes enquanto valores entre 1,1 e 2,6 representam uma área
na amostra seja igual ao número de empresas solventes). cinzenta (incerteza).
Ohlson utilizou uma série de dados coletados do banco de
dados Compustat, que incluía 105 empresas insolventes e Estudos de insolvência de empresas de planos de
2.058 empresas solventes, com dados de 1970 a 1976. Sua saúde
análise levou em consideração 7 indicadores financeiros A literatura especializada nacional carece de modelos de
frequentemente citados na literatura (Log [ativo total], previsão de insolvência com foco em operadoras de planos
exigível total/ativo total, capital de giro/ativo total, liqui- de saúde. A literatura internacional, por sua vez, concen-
dez corrente, lucro líquido/ativo total, receita operacional/ tra-se nas health maintenance organizations (HMOs) dos
exigível total, e um outro indicador de nível de lucrativi- Estados Unidos, que – como observado pelos revisores
dade), e 2 variáveis binárias (se houve resultado líquido anônimos – apresentam peculiaridades no seu funcio-
negativo durante os dois últimos anos; e se o patrimônio namento em relação às OPS brasileiras, embora ambas
líquido é negativo). No entanto, o grau de acerto da clas- as modalidades provejam acesso a tratamento de saúde.
sificação do modelo de Ohlson foi inferior ao relatado em Entretanto, mesmo consideradas as diferenças estruturais
estudos anteriores baseados na AMD (ALTMAN, 1968; entre OPS e HMOs e as políticas públicas de saúde dos
ALTMAN, HALDEMAN e outros, 1977). dois países, a revisão da literatura internacional ainda é
informativa, pois: 1) mostra que estudos desta natureza empresas. Por outro lado, a concorrência entre médicos,
têm uma tradição já bem conhecida, e 2) auxilia na identi- o percentual da população coberta por OPS e as poucas
ficação de variáveis que possam confirmar sua capacidade restrições para contratação demonstraram-se negativa-
preditiva no contexto brasileiro. mente relacionados com a saída das empresas.
Hillman, Pauly e Kerstein (1989), estudando empre- Ahern (1991), analisando a experiência de insolvên-
sas de planos de saúde em operação em 1986, estima- cia de OPS na Flórida, afirmou que muitas falências são
ram o ponto de equilíbrio, ou break-even, de uma OPS causadas por gestões amadoras e intensa competição de
por meio de regressão logística. Descobriram que duas preços por uma maior participação de mercado. Ela tam-
variáveis de incentivo financeiro estavam positivamente bém tentou avaliar a capacidade preditiva dos indicado-
relacionadas ao ponto de equilíbrio das empresas: a ex- res financeiros estimando uma regressão entre os índices
posição dos médicos ao custo dos exames de pacientes financeiros e a rentabilidade das empresas. Verificou que
em consulta e a dependência do médico em relação à índices como o endividamento e o percentual de despe-
OPS (medida como percentagem de pacientes dos mé- sas administrativas em relação às despesas totais eram
dicos cobertos por uma OPS). A idade e o número de positivamente associados à rentabilidade, enquanto a si-
beneficiários também estavam positivamente relaciona- nistralidade, a liquidez e a alavancagem demonstraram-se
dos ao ponto de equilíbrio, enquanto a forma organiza- negativamente associadas à rentabilidade.
cional de associações de prática independente (na qual Ambrose & Drennan (1994) desenvolveram um mo-
os prestadores são contratados de forma independente, delo logit para estimar a insolvência de uma OPS, focan-
sem vínculo trabalhista) estava negativamente relacio- do as características observáveis dos planos, da região de
nada ao ponto de equilíbrio. atuação e do ambiente regulatório. Assumindo a igualda-
Stone e Heffernan (1989) relataram e analisaram os de de erros, o seu modelo previu corretamente a situação
resultados de uma pesquisa realizada em 1988 por um de solvência de aproximadamente 75% das operadoras
grupo de trabalho da National Association of Insurance da amostra. No entanto, a validação do modelo em outra
Comissioners (NAIC) – Associação Nacional das Agências amostra não foi testada.
Reguladoras de Seguros dos Estados Unidos – dedicado Ahern e seus co-autores (AHERN, ROSENMAN e ou-
ao estudo de insolvência, em que os reguladores foram tros, 1996) analisaram as OPS da Flórida, e seu ambiente
convidados a apresentar os principais motivos de insol- competitivo entre 1991-1993. Entre as variáveis estuda-
vência de OPS. As razões mais frequentemente citadas por das estavam a natureza dos acionistas (hospital, médico,
ordem decrescente de importância foram: falta de capital seguradoras, empresas), sua natureza jurídica (com e sem
inicial e patrimônio, falta de controle de utilização dos fins lucrativos), modalidade (autogestão, de grupo/rede,
serviços, preços inadequados, insuficiência de capital associações de prática independente, misto), tempo de
permanente e lucro, além de uma estimativa inadequada plano (para refletir experiência), razão entre médicos ge-
de sinistros ocorridos e não avisados. Stone e Heffernan neralistas e especialistas, concorrência (número de OPS
traçaram o perfil de uma operadora insolvente como uma na área de cobertura), taxa de ocupação hospitalar, carac-
associação de prática independente com fins lucrativos, terísticas da população na área coberta (inclusive a den-
em operação há menos de três anos e com menos de 17 sidade populacional e o número de habitantes acima de
mil beneficiários. 65 anos) e a quantidade de médicos per capita na área de
Wholey, Christianson e Sanchez (1990) examinaram cobertura. Eles encontraram indícios de que a proprieda-
a relação entre regulação estadual e o desenvolvimento de, a modalidade, e a natureza jurídica afetam a eficiência
de OPS em cada estado americano, no período de 1979 a da OPS na prestação de serviços de saúde, principalmente
1987. Verificaram a relação entre a probabilidade de saída pela alteração das diárias hospitalares.
de uma OPS das áreas metropolitanas e o número real de Feldman, Wholey e Christianson (1996) analisaram
saídas em função da regulação estatal, das características dados de todas as OPS em operação nos Estados Unidos
da comunidade e do efeito da concorrência. Os resulta- entre 1986 e 1993, e constataram que 80 OPS passaram
dos demonstraram que regulamentações que exigem que por fusões e 149 haviam falido durante esse período.
os empregadores contratem planos de saúde, as regras de Desenvolveram um modelo logit, incluindo variáveis de
exigências de qualidade, tamanho da comunidade e dos mercado e a regulação antitruste, para prever se uma OPS
empregadores, e o aumento da concorrência a partir de iria se fundir e sobreviver, fundir e desaparecer ou falir em
um número maior de OPS operando na mesma região me- relação à probabilidade de qualquer outro evento. Seus
tropolitana relacionam-se positivamente com a saída de resultados indicam que o tamanho da carteira de benefici-
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ários e a rentabilidade ajudam a explicar as fusões e ruínas do controle externo, nem sempre os dados são confiáveis.
de OPS, e que as empresas grandes e lucrativas têm mais Outra vantagem importante dos indicadores econômico-
probabilidade de sobreviver em uma fusão. financeiros, além da disponibilidade dos dados e relação
O presente estudo tem como foco a previsão de insol- direta com a questão de estudo, é que sua interpretação
vência em um ano de uma OPS com base em indicado- é objetiva e bem conhecida, o que torna sua aplicação
res financeiros. Vale notar que a literatura avaliada sobre acessível a um público maior.
previsão de insolvência de OPS oferece poucos estudos
baseados em dados contábeis e medidas financeiras. A metodologia Cumulative Accuracy Profile (CAP)
Alguns analistas (AHERN, 1991) opinaram contra o uso A CAP é uma metodologia de avaliação bastante utilizada
de indicadores financeiros como o único instrumento de atualmente para medir o desempenho de um sistema de
previsão de insolvência em virtude da falta de confiabi- classificação de risco de crédito. Para isso, os percentuais
lidade das informações. No entanto, qualquer variável acumulados de contratos por classificação de risco são plo-
está sujeita à falta de confiabilidade das informações, não tados contra os percentuais acumulados de inadimplentes
somente a financeira. De fato, as variáveis financeiras po- em uma curva de Lorenz, com o objetivo de visualizar a
dem, em certos casos, ser mais precisas que outros tipos acurácia da classificação. A curva foi desenvolvida por
de variáveis porque estão sujeitas à auditoria externa e ao Max Lorenz e representa graficamente a proporcionali-
controle de vários interessados, como: acionistas, regula- dade de uma distribuição.
dores e consumidores. Isso não quer dizer que não possa Para construir a curva de Lorenz, as observações são
haver inconsistências em dados financeiros, ou que esses ordenadas da maior para a menor probabilidade de insol-
dados são necessariamente melhores, ou que não estejam vência (ou do menor para o maior escore Z”, por exem-
sujeitos a fraudes. Como alguns casos de grande reper- plo). Se a classificação de insolvência é aleatória, a curva
cussão na mídia (Enron, Worldcom) corroboram, apesar deverá se aproximar da diagonal, e o coeficiente de Gini
Inadimplência
Agregada
Percentual da população inadimplente
Razão de Acurácia:
AR = B (A + B)
– que é a estatística de resumo da curva de Lorenz – deve de contas contábil uniforme que deve ser adotado por
ser igual a zero. Um modelo perfeito de classificação de todas as empresas. Além disso, a ANS dá publicidade aos
risco tem o coeficiente de Gini igual a 1. demonstrativos financeiros e outras informações cadas-
Com base na curva da Figura 1, o coeficiente de Gini trais apresentadas pelas OPS brasileiras (ANS, 2006). Os
– também chamado de accuracy ratio (AR), ou razão de dados disponíveis sobre mais de 1.000 OPS, com cober-
acurácia – é calculado pela divisão da área B pela área do tura razoavelmente uniforme (isto é, compreendendo um
triângulo (A+B). Em outras palavras, o coeficiente de Gini rol mínimo de procedimentos determinado pela ANS) e
capta o quanto a acurácia da classificação de risco diverge seguindo os mesmos padrões de contabilidade, são bas-
de um cenário aleatório, ou ainda a capacidade do mode- tante adequados à análise aqui proposta. A partir desses
lo em maximizar a distância entre clientes inadimplentes dados, selecionamos apenas empresas que oferecem pla-
e adimplentes. nos de assistência médica e hospitalar, deixando de lado
Na prática, as razões de acurácia típicas de sistemas de aproximadamente 300 empresas dedicadas a planos ex-
classificação de crédito encontram-se entre 50% e 90%, clusivamente odontológicos. Essa restrição foi imposta,
mas, além disso, pouco se pode dizer sobre a acurácia que principalmente, para permitir uma melhor comparabili-
um bom sistema deveria atingir (LOEFFLER e POSCH, dade dos dados em nossa amostra.
2007, p. 155). O sistema de classificação de crédito da Antes da análise estatística, verificamos a consistência
Moody’s, por exemplo, reporta uma razão de acurácia dos dados. Observações que impossibilitavam o cálculo
média de 74% na América Latina, e 85% globalmente de indicadores financeiros ou que apresentavam valores
(ZAZZARELLI, 2007). extremos foram descartadas. Por fim, por ser desneces-
Neste estudo, fazemos uma breve introdução à meto- sário prever a insolvência de empresas que já se apresen-
dologia CAP. Outros autores (KEENAN e SOBEHART, tam como insolventes (com patrimônio líquido menor
1999; SOBEHART, KEENAN e STEIN, 2000; SOBEHART ou igual a zero), esses casos foram retirados de ambas as
e KEENAN, 2001; ENGELMANN, HAYDEN e TASCHE, amostras (tanto de desenvolvimento quanto de validação
2003; ENGELMANN, HAYDEN, TASHCE e outros, 2003; do modelo). A amostra resultante – compreendendo 17
SÁ FREIRE FILHO, BRANDI e outros, 2004; BASLE indicadores financeiros e 597 OPS – é descrita na Tabela
COMMITTEE ON BANKING SUPERVISION, 2005) 1. Vale notar que o tamanho da amostra e o número de
abordam mais detalhadamente a metodologia CAP, com- observações por variável dependente excedem o míni-
parando-a, inclusive, com outros modelos, como a curva mo recomendado de 100 e 10 casos, respectivamente
ROC (receiver operating characteristic). (HARRELL, LEE e outros, 1984).
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bilidade, alavancagem, cobertura e atividade. Cada uma Anderson, Tatham e Black (2005, p. 260-266), e um trata-
das cinco categorias contém uma série de indicadores mento mais detalhado em Hosmer e Lemeshow (1989). A
financeiros identificados na literatura como sendo mais seleção escolhida foi a backward stepwise (em detrimento
bem-sucedidos na previsão de dificuldades financeiras da forward stepwise, de modo a evitar efeitos supressores),
(ver Quadro 1). Um aprofundamento sobre a interpretação deixando no modelo as variáveis com alfa abaixo de 0,05 e
dos indicadores listados acima está fora do escopo deste retirando do modelo as variáveis com alfa superior a 0,1.
trabalho, mas os interessados encontrarão amplo mate- O modelo resultante (ver estatísticas na Tabela 2, e um
rial em textos especializados em administração financeira resumo prático do modelo no Quadro 2) identificou três
(ROSS, WESTERFIELD e outros, 2002; GITMAN, 2004). variáveis que, em conjunto, prevêem melhor a insolvência
A fim de evitar a multicolinearidade dos dados, que das OPS, com um ano de antecedência.
poderia afetar negativamente o modelo logístico binário, O sinal das três variáveis no modelo segue as expec-
as variáveis que apresentaram correlação muito alta (aci- tativas, verificando-se uma relação positiva entre a situa-
ma de 0,80) foram retiradas da análise. ção de insolvência e os indicadores LnV01 – Ln(Passivo
Circulante / Patrimônio Líquido) – e V13 (Receita Total/
Ativo Total), e uma relação negativa entre o indicador
RESULTADOS V09 (Resultado Líquido/Ativo Total) e a situação de in-
solvência, além disso o teste Wald para cada um dos pre-
Regressão logística ditores é estatisticamente significativo, o que quer dizer
Em seguida, aplicamos uma regressão logística binária. que os coeficientes são significativamente diferentes de
Para uma introdução ao modelo logístico, ver Hair Jr., zero. Além disso, o teste da razão das verossimilhanças
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3). A comparação da amostra de desenvolvimento incluiu verificada na aplicação do modelo de escore Z” aos dados
706 planos de saúde, inclusive 28 insolventes. Vale notar de OPS (68,77%) é praticamente idêntica à verificada em
que, para fins de comparação de desempenho, a validação um teste com dados de micro, pequenas e médias empre-
do modelo foi realizada nas amostras originais, incluindo sas (ALTMAN e SABATO, 2007).
aqueles dados excluídos no desenvolvimento do modelo A fim de comparar os dois modelos, destacamos dois
(valores extremos), daí o maior número de casos quando índices na Tabela 3. O primeiro índice, apresentado na
comparado com o número de casos na Tabela 1. coluna 4, mede a precisão de cada modelo em classifi-
A Tabela 3 resume os resultados, em termos de pre- car corretamente solvência e insolvência das empresas, e
cisão, dos dois modelos, permitindo comparar o mo- corresponde a um menos a média das taxas de erro tipo
delo logístico específico para OPS ao modelo geral de I e tipo II (assume pesos iguais para erros tipo I e II). O
previsão de insolvência – o escore Z” desenvolvido por segundo índice, apresentado na coluna 5, é a chamada de
Altman (ALTMAN, BAIDYA e outros, 1979; ALTMAN e razão de acurácia (AR) (ENGELMANN, HAYDEN e ou-
HOTCHKISS, 2006). Destaca-se que a razão de acurácia tros, 2003), e mede a capacidade do modelo em maximizar
Onde:
AT = Ativo Total
LL = Lucro Líquido;
PI = Probabilidade de Insolvência;
PC = Passivo Circulante (excluindo-se as provisões);
PL = Patrimônio Líquido;
RT = Receita Total (Líquida)
Valores sugeridos para corte:
Vermelho (alta probabilidade de insolvência): maior que 0,040
Amarelo (alguma probabilidade de insolvência): entre 0,025 e 0,040
Verde (insolvência improvável): menor que 0,025
Aplicação:
O modelo pode ser implementado em planilha eletrônica, com a fórmula:
a distância entre solventes e insolventes. As curvas CAP calculados pela determinação de um ponto de corte arbi-
para os dois modelos são apresentadas nas figuras 2 e 3. trário de 25% das amostras e são muito próximos daque-
Os coeficientes de erro apresentados na Tabela 5 são les obtidos a partir da amostra de desenvolvimento (ver
Figura 2 – Comparação da acurácia do modelo logístico específico para OPS e do modelo de escore Z” de Altman na amostra de
desenvolvimento pela metodologia CAP
% de insolventes
Modelo perfeito Logit específico para OPS Escore Z” de Altman Modelo aleatório
Figura 3 – Comparação da acurácia do modelo logístico específico para OPS e do modelo de escore Z” de Altman na amostra de teste
pela metodologia CAP
% de insolventes
Modelo perfeito Logit específico para OPS Escore Z” de Altman Modelo aleatório
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Tabela 5). O indicador de precisão (AR) do nosso modelo permanece elevada em ambas as amostras. Verificamos, po-
específico para OPS foi de 71,60% para a amostra de treino rém, que o modelo geral de previsão de insolvência mostrou
e 69,65% para a amostra de teste, em comparação com, uma variação significativa na precisão (a grande diferença
respectivamente, 36,22 e 68,77 do modelo geral de esco- de precisão para as amostras de desenvolvimento e teste),
re Z”. É importante destacar, porém, que o indicador de sugerindo que sua robustez e confiabilidade pode ser li-
acurácia não depende do ponto de corte escolhido, pois mitada. Reconhecemos que o ponto de corte selecionado
avalia o modelo em relação a todos os resultados apura- pode não ser ótimo, principalmente se forem considerados
dos na amostra analisada. diferentes pesos para erros do tipo I e tipo II (ALTMAN,
Sabemos que todo modelo é uma aproximação imper- HALDEMAN e outros, 1977). No entanto, o objetivo desta
feita da realidade. Como a crise econômica mundial ocor- comparação não é determinar o ponto de corte ótimo, mas
rida no final de 2008 deixou claro, modelos de previsão de apenas utilizar o mesmo ponto de corte a fim de comparar
insolvência e de classificação de risco não escapam a essa a precisão de modelos diferentes.
regra. Testando o modelo apresentado em 2006/2007 (es- A escolha de um ponto de corte envolve um trade-off
timando com base nos demonstrativos contábeis de 2006, entre taxas de erros do tipo I e tipo II aceitáveis. Esta sele-
a probabilidade de insolvência em 2007) numa amostra ção pode ser vista como estratégica e está relacionada com
de 904 operadoras (26 das quais se tornaram insolventes a aversão a risco do analista. As figuras 4 e 5 apresentam
em 2007) observamos uma razão de acurácia de 62,27% um close-up do desempenho dos modelos em diferentes
em 2006/2007. No ano seguinte (2007/2008), aplicando pontos de corte, e pode servir como uma referência para
o modelo numa amostra de 775 operadoras (24 das quais a seleção dos pontos de corte para os dois modelos.
se tornaram insolventes em 2008), observamos uma razão Para o modelo logit específico para OPS, como mostra
de acurácia de 65,09%. Tais resultados são bastante satis- a Figura 4, um ponto de corte de 0,04 apresenta resultado
fatórios considerando-se o cenário econômico e o impacto bastante próximo da classificação apresentada na Tabela
de medidas regulatórias (aumento das provisões, registro 5 (valores superiores a 0,04 têm uma elevada probabili-
definitivo) sobre as médias amostrais. dade de insolvência).
Podemos afirmar que o modelo específico para OPS é Enquanto isso, como vemos na Figura 5, para o escore
estatisticamente robusto e válido, uma vez que sua precisão Z” de Altman, um ponto de corte com poder discriminan-
te próximo ao do modelo específico para OPS requer a escore Z” de Altman podem ser eficazes se utilizarmos
adoção de um ponto de corte próximo a 4,00 (sendo os um valor diferente como ponto de corte, embora sua
valores menores que 4,00 classificados como insolventes), confiabilidade (variação de desempenho para diferentes
um escore consideravelmente superior ao ponto de corte amostras) seja inferior à do modelo específico. Nossos
original do modelo (onde valores abaixo de 1,1 indicam resultados sugerem que a previsão de insolvência de
insolvência). operadoras de planos de saúde é mais precisa e confiável
quando se utiliza um modelo específico. Vale destacar
que modelos de previsão de insolvência com base em
CONCLUSÃO informações financeiras como o aqui apresentado têm
sido aplicados a mais de 50 anos. Porém, sua utilida-
Nesse artigo, desenvolvemos e testamos um modelo de de torna-se ainda maior quando tomados em conjunto
previsão de insolvência para operadoras de planos de com outras formas de análise mais abrangentes (quali-
saúde. Ampliamos a literatura existente por considerar tativas, operacionais etc.). Finalmente, esperamos que
um conjunto completo de indicadores financeiros e ob- estudos futuros possam desenvolver um modelo ainda
ter um modelo de regressão logística para a estimativa mais abrangente, que incorpore medidas financeiras
da probabilidade de insolvência, em um ano, de ope- assim como características estruturais das operadoras
radoras de planos de saúde. Avaliamos o desempenho e sua situação concorrencial.
do modelo específico desenvolvido sobre uma amostra
de validação comparando a sua precisão com a de um
modelo geral de previsão de insolvência bastante co-
nhecido, o escore Z” de Altman. Os resultados confir- Nota de agradecimento
mam nossas expectativas. O desempenho, em termos Esse artigo se beneficiou dos comentários de Dr. Alan B. Eisner e
de precisão, de um modelo específico para OPS é su- Dr. Raymond Lopez (Pace University), e de revisores anônimos da
Academy of Management Conference 2009 e RAE-revista de adminis-
perior ao desempenho do modelo geral. Nossos resul- tração de empresas. Eventuais erros e omissões são de responsabili-
tados indicam, entretanto, que modelos gerais como o dade dos autores.
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