Santos; Gastaldini; Pivetta; Filho Qualidade da água na bacia hidrográfica urbana...
DOI: [Link]
Qualidade da água na bacia hidrográfica
urbana Cancela Tamandaí, Santa Maria/RS
Water quality of urban watershed Cancela-Tamandaí,
Santa Maria/RS
Sizabeli Amaral dos Santos1
Maria do Carmo Cauduro Gastaldini2
Glaucia Ghesti Pivetta3
Osmar Schmidt Filho4
Resumo
Os lançamentos inadequados de esgotos sanitários e resíduos sólidos nos
recursos hídricos promovem a contaminação gradativa das águas. Este
estudo teve como objetivo avaliar a qualidade das águas superficiais do
Arroio Cancela-Tamandaí em período seco. A bacia situa-se na área
urbana do município de Santa Maria-RS, com área de 2,7 km²,
predominando áreas impermeáveis. Os parâmetros de qualidade da água
foram analisados estatisticamente e avaliados de acordo com o coeficiente
de correlação de Pearson. O uso e ocupação do solo influenciaram de modo
acentuado e negativo a qualidade da água, excedendo os limites
estabelecidos pela Resolução CONAMA 357/2005 para a Classe 4. As
concentrações de metais pesados encontradas mostraram que o uso e
ocupação do solo na área de drenagem da bacia estão introduzindo
impactos negativos no curso d’água. Medidas mitigadoras devem ser
adotadas, impedindo que esses impactos se tornem mais significativos. As
fortes correlações entre OD e nitrato (r=0,85), DBO e DQO (r=0,78), EC e
turbidez (r=0,63)confirmama degradação da qualidade da água no arroio.
A alta variabilidade nas concentrações das variáveis analisadas foi devido
às interferências no ambiente, principalmente pela disposição inadequada
de esgotos e resíduos sólidos.
Palavras-chave: Bacia urbana, Monitoramento ambiental, Metais
pesados.
Abstract
Inadequate release of sewage and solid waste in water resources promotes
gradual contamination of water. This study aimed to evaluate the quality
of surface waters of Cancela-Tamandaí Creek in dry period. The basin is
located in urban area of Santa Maria city, in Rio Grande do Sul, with 2.7
km² area, predominating impervious areas. The water quality parameters
1 Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, RS, Brasil. sizabeli@[Link]
2 Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, RS, Brasil. mcarmocg@[Link]
3 Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, RS, Brasil. [Link]@[Link]
4 Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, RS, Brasil. [Link]@[Link]
Artigo recebido em: 07/11/2016. Aceito para publicação em: 16/06/2018.
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were statistically analyzed and evaluated according to Pearson correlation
coefficient. The use and land occupation influenced negatively the quality
of water, exceeding the limits from Class IV of CONAMA 357/2005
Resolution. The heavy metal concentrations found showed that the use
and land occupation in drainage area of watershed are introducing
negative impacts on stream. Mitigating measures should be adopt,
preventing these impacts become more and more significant. Strong
correlations between DO and nitrate (r=0.85), BOD and COD (r=0.78), E.
coli and turbidy (r =0.63) are illustrating the degradation of water quality
in the Creek. The high variability obtained for the evaluated parameters
was due to interference of environment.
Keywords: Environmental monitoring, Urban watershed, Water quality
Introdução
A degradação qualitativa dos corpos hídricos está diretamente
vinculada à poluição orgânica. Os lançamentos inadequados de esgotos
sanitários e resíduos sólidos nos recursos hídricos promovem a
contaminação gradativa das águas, transformando em um grave problema
de saúde pública. Atualmente, os esgotos domésticos representam um dos
principais problemas dos recursos hídricos no Brasil, em função da falta de
rede coletora, de tratamento ou do tratamento ineficiente dos efluentes
coletados. De acordo com o último diagnóstico dos serviços de água e esgotos
(Brasil, 2016), 42,4% das áreas urbanas dos municípios brasileiros lançam
diretamente o esgoto bruto nos corpos hídricos, incorrendo na deterioração
da qualidade da água com consequências econômicas e sociais (ANA, 2012).
A Resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente n°357 de 2005
indica os limites de vários parâmetros para o enquadramento de corpos
hídricos no Brasil. As águas doces são enquadradas como classe especial
(que representa a melhor qualidade e que a água pode ser consumida após
desinfecção), classe 1 (em que a água pode ser consumida após tratamento
simplificado), classe 2 (o consumo humano da água requer tratamento
convencional), classe 3 (a água pode ser consumida após tratamento
convencional ou avançado) e classe 4 (que representa a pior qualidade da
água, sendo destinada apenas para fins menos nobres).
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Os parâmetros mais utilizados para avaliar a qualidade da água são o
oxigênio dissolvido e a demanda bioquímica de oxigênio (indicadores de
proteção da vida aquática e da contaminação por matéria orgânica
biodegradável); o nitrogênio, o fósforo e a clorofila (indicadores de
eutrofização), os coliformes totais e os coliformes termotolerantes e
Escherichia coli (indicadores biológicos). Cada parâmetro influencia de
forma diferenciada na qualidade da água, podendo ter relações entre si.
A contaminação dos recursos hídricos por metais potencialmente
tóxicos está ligada a atividades antrópicas e naturais (GONÇALVES et al.,
2015). Alguns metais, quando em baixas concentrações, são micronutrientes
essenciais ao desenvolvimento dos seres vivos. Porém, é possível encontrar
alguns que são tóxicos ao homem, animais e vegetais, que são introduzidos
nos recursos hídricos principalmente por atividades antropogênicas. Para
Gromaire et al. (2001), Madrid et al. (2002) e Ge et al. (2000) os metais mais
impactantes e comuns em áreas urbanas são cádmio (Cd), cobre (Cu),
chumbo (Pb) e o zinco (Zn). Estes elementos podem entrar na cadeia trófica,
afetando plantas, animais, homens e poluindo os mananciais hídricos
(ACCIOLY e SIQUEIRA, 2000).
Além dos metais, os nutrientes também provocam alterações nos
ecossistemas dos ambientes aquáticos. O nitrogênio é um importante
nutriente para o crescimento de algas e plantas aquáticas superiores,
podendo contribuir para o fenômeno de eutrofização. Dentro do ciclo do
nitrogênio, este elemento encontra-se de várias formas e estados de
oxidação. No meio aquático, as formas mais comuns deste elemento são
nitrato, nitrito, amônia e compostos nitrogenados dissolvidos (TUNDISI e
TUNDISI, 2008). Estes nutrientes podem ter origem antropogênica por meio
do lançamento de despejos domésticos e industriais, excrementos de animais
e fertilizantes.
O fósforo é um nutriente essencial para a produtividade de
organismos aquáticos, sendo muito importante no processo de eutrofização
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dos corpos hídricos. Apresenta-se principalmente na forma de fosfato, onde
sua presença na água pode ser originária de processos naturais (dissolução
de rochas, carreamento do solo, decomposição de matéria orgânica e chuva)
ou de processos antropogênicos (despejos domésticos e industriais,
detergentes, excrementos de animais, fertilizantes e pesticidas, drenagem
pluvial) (TUNDISI e TUNDISI, 2008).
A qualidade da água vem sendo objeto de estudo por vários autores,
tais como, Islam et al. (2010), Bregunce et al. (2011), Sodré et al. (2012),
Basu e Lokesh (2013), Wotany et al. (2013), Sayed e Gupta (2013), Ndamitso
et al. (2013), Rahman et al. (2013), Vishwakarma et al. (2013), Freire e
Castro (2014), Souza e Gastaldini (2014); Pinheiro et al. (2014), Gandaseca
et al. (2014), Saad et al. (2015), Silva e Porto (2015), Figueiredo et al. (2015),
Lima et al. (2015), Souza e Silva (2015), Holgado-Silva et al. (2015) e Souza
et al. (2017). Tais estudos destacam a relevância do estudo da qualidade da
água, pois corpos hídricos contaminados ou poluídos podem tornar-se
vetores de doenças com transmissão hídrica, gerando graves problemas de
saúde pública, e podem afetar a demanda futura por água de boa qualidade.
Diante do exposto, o objetivo deste trabalho foi avaliar a qualidade da
água em uma bacia hidrográfica urbanizada e com intensa atividade
antrópica.
Metodologia
Área de estudo
A área de estudo do presente trabalho foi a sub-bacia hidrográfica do
arroio Cancela-Tamandaí (ACT), pertencente à bacia hidrográfica Vacacaí-
Vacacaí Mirim. A sub-bacia Cancela-Tamandaí, com área de 2,7 km²,
encontra-se entre as coordenadas geográficas 53°47’11’’ e 53°48’17’’ de
longitude oeste e 29°41’35’’ e 29°42’07’’ de latitude sul, e está situada na
área urbana do município de Santa Maria, estado do Rio Grande do
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Sul/Brasil. Destaca-se que para a elaboração das figuras 1, 2 foi utilizado o
software Arcmap 10.1.
De acordo com IBGE (2010) a bacia apresenta uma população
contribuinte de 14.293 habitantes e 6.231domicilios. Ressalta-se que o
exutório da bacia coincide com a estação fluviométrica e a estação de
monitoramento da qualidade da água na bacia.
Figura 1 - Localização da bacia hidrográfica Cancela-Tamandaí e estação de
monitoramento da qualidade d´água no ACT
Org.: dos Autores (2016)
Em relação à climatologia do município, a precipitação média anual é
de 1600 mm, sendo bem distribuída ao longo dos meses. A menor
precipitação média ocorre no mês de novembro (120 mm), enquanto que a
maior ocorre no mês de janeiro (160 mm). Quanto à sazonalidade dessas
chuvas, a concentração de chuvas no inverno dá-se de maneira mais
homogênea, sendo mais generalizadas e contínuas, enquanto no verão a
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chuva é concentrada em períodos, sendo mais variáveis e descontínuas
(ADSM, 2018).
O município de Santa Maria conta com 261.031 habitantes, com mais
de 90% da população situada na zona urbana (IBGE, 2010). Para Martins et
al. (2005) o município de Santa Maria apresenta uma ocupação urbana
acelerada e desordenada, cuja expansão, em alguns aspectos, desconsidera o
meio físico e na maioria dos casos, há o uso indiscriminado de espaços como:
encostas íngremes, topos de morros, faixas marginais de cursos fluviais,
áreas alagáveis e inundáveis, gerando deterioração ambiental. As elevações
do terreno na bacia hidrográfica variam desde 81 m até 200 m acima do
nível do mar, possuindo uma declividade média de 6,2%.
Na bacia Cancela-Tamandaí evidenciou-se seis usos do solo, sendo
eles: campos, ruas, solos expostos, áreas impermeáveis (telhados, calçadas),
terrenos/jardins e vegetação arbórea, ilustrados na Figura 2.
Figura 2 - Uso e ocupação do solo na bacia hidrográfica Cancela-Tamandaí no ano de 2014
Org. : dos Autores (2016)
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Observou-se que há predomínio de ruas e telhados/calçadas na bacia
Cancela-Tamandaí, sendo aproximadamente 51% da área total da bacia
composta é de áreas impermeáveis. Em relação à área total da bacia, os
outros usos do solo foram de 6,5% para campos, 2,0% para solo exposto,
17,2% para terrenos/jardins e 23,5% de vegetação arbórea.
Ressalta-se que o arroio Cancela recebe grande parte do esgotamento
cloacal e pluvial dos arredores, contribuindo para a degradação da qualidade
d’água. O arroio não apresenta enquadramento conforme resolução
CONAMA nº 357/2005 e seu curso não se encontra canalizado.
Monitoramento qualitativo e quantitativo
O monitoramento qualitativo e quantitativo na bacia hidrográfica
Cancela-Tamandaí consistiu de coletas manuais e medição do perfil de
velocidade do fluxo no arroio, sendo:
Coleta manual na seção de monitoramento: a coleta manual foi realizada
no centro da seção de amostragem em um ponto representativo da
massa líquida, utilizando-se de recipientes plásticos limpos,
previamente identificados, com enxágue dos frascos três vezes com a
própria amostra e evitando aeração excessiva no momento da coleta.
Medições dos perfis de velocidade na seção de monitoramento: para
determinação das descargas líquidas, por meio do método da meia
seção.
Para a avaliação qualitativa e quantitativa das águas foram
realizadas 29 campanhas, em tempo seco, no período de 31/01/2013 a
18/03/2014, o ponto de amostragem para o monitoramento da qualidade da
água está junto à estação fluviométrica Cancela-Tamandaí. A Tabela 1
mostra as datas das coletas, bem como o período de tempo seco antecedente
(PTSA) às campanhas (em dias).
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Tabela 1 . Datas, horários das coletas e PTSA
Data das Horário da PTSA Data das Horário da PTSA
Coletas Coletas
coletas coleta (dia) coletas coleta (dia)
1 31/01/2013 11:30 7 16 30/10/2013 15:27 4
2 08/02/2013 09:15 5 17 15/11/2013 09:11 0
3 14/02/2013 09:20 0 18 20/11/2013 09:20 0
4 21/02/2013 09:30 0 19 27/11/2013 09:40 0
5 01/03/2013 09:55 5 20 02/12/2013 08:30 0
6 07/03/2013 10:40 3 21 14/01/2014 11:22 1
7 13/03/2013 10:20 0 22 15/01/2014 11:48 4
8 22/03/2013 15:15 2 23 31/01/2014 09:55 5
9 27/03/2013 14:10 6 24 04/02/2014 08:30 1
10 05/04/2013 12:40 0 25 19/02/2014 08:31 3
11 17/04/2013 14:30 0 26 26/02/2014 09:50 6
12 13/05/2013 14:44 0 27 27/02/2014 12:08 0
13 17/07/2013 13:15 2 28 11/03/2014 09:57 0
14 01/08/2013 10:25 2
29 18/03/2014 09:34 0
15 16/10/2013 10:38 0
Org. : dos Autores (2016)
Os parâmetros de qualidade da água avaliados, metodologia utilizada
e o limite de detecção do método de avaliação estão descritos,
resumidamente, na Tabela 2. A metodologia utilizada para as análises
seguiu a descrita no Standard Methods for the Examination of the water
and wastewater (APHA, AWWA, WPCF,2012).
Tabela 2 - Parâmetros de qualidade da água, metodologia analítica, mínimo para detecção
nas análises
Mínimo para
Parâmetros de qualidade da água Metodologia analítica
detecção
Temperatura da água Termometria 0,1°C
Turbidez Nefelométrico 0,1 NTU
Sólidos totais (ST) Gravimétrico 0,1 mg/L
Sólidos suspensos (SS) Gravimétrico 0,1 mg/L
Sólidos dissolvidos (SD) Gravimétrico 0,1 mg/L
pH Potenciométrico 0,1
Condutividade elétrica (CE) Potenciométrico 0,1 μS/cm
Oxigênio dissolvido (OD) Oxímetro 0,1 mg/L
Demanda bioquímica de oxigênio (DBO) Winckler 0,1 mg/L
Demanda química de oxigênio (DQO) Titulométrico-Refluxo 0,1 mg/L
Coliformes Totais (CT) fechado
Ideex-colilert 1 NMP/100 mL
Escherichia coli (EC) Ideex-colilert 1 NMP/100 mL
Cobre (Cu), Níquel (Ni), ICP-MS 0,1 μg/L
Chumbo (Pb), Zinco (Zn) ICP-OES 0,1 μg/L
Nitrito, Nitrato, Fosfato Cromatografia Iônica 0,1 μg/L
Notas: ICP-MS: espectroscopia de massa com plasma indutivamente acoplado; ICP-OES:
espectrometria de emissão óptica com plasma indutivamente acoplado.
Org. : dos Autores (2016)
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Análise Estatística
A partir dos dados de qualidade da água obtidos foram construídos
boxplots com intervalo de confiança igual a 95%. Utilizou-se o software
Minitab 16.
A vazão e os parâmetros de qualidade da água monitorados no ACT
foram correlacionados, através do coeficiente de Pearson. O coeficiente de
Pearson é um indicador que descreve a interdependência linear entre duas
variáveis, que são completamente correlacionadas quando os valores são -1 e
1, negativa e positivamente, respectivamente; são independentes quando o
valor é 0; e são parcialmente correlacionados em diferentes graus para
valores intermediários. Assim, um valor de coeficiente de Pearson próximo
de zero significa que não há correlação linear entre duas variáveis, embora
não exclua outros tipos de correlação (BI et al., 2015). Foram consideradas
correlacionadas as variáveis que apresentaram coeficiente de correlação de
Pearson maior que 0,50.
Resultados e discussão
Durante as campanhas de monitoramento da água no ACT, as vazões
variaram de 0,031 m³/s a 0,142 m³/s, onde a vazão média foi de 0,086 m³/s,
como ilustra a Figura 3. As vazões mais elevadas observadas no período de
monitoramento foram obtidas no turno da manhã (entre 9:20 e 11:22) e as
vazões mínimas foram observadas no turno da tarde (entre 13:15 e 14:44),
indicando que as vazões no ACT podem ser influenciadas pelo horário das
coletas e medições.
As vazões no ACT estão relacionadas com as variações das vazões de
esgoto ao longo dos dias, que são influenciadas principalmente pela hora do
dia. Observa-se esta variação no aumento da vazão de esgoto a partir das 8
horas da manhã, com o ápice ocorrendo no intervalo entre 10 e 12 horas e
um decréscimo a partir das 12 horas, indo de acordo com os hábitos da
população.
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Contatou-se que as vazões elevadas foram obtidas para período de
tempo seco antecedente (PTSA) menor ou igual a 1 dia, onde a vazão
máxima observada foi obtida com ausência de PTSA (27/02/2014). Diante
disto observa-se que o arroio Cancela-Tamandaí sofre grande influência do
volume escoado na bacia e até mesmo das áreas vizinhas à bacia na
ocorrência de precipitações. O uso e ocupação do solo na bacia, ou seja, a alta
impermeabilização da bacia hidrográfica Cancela-Tamandaí favorece,
durante períodos de precipitação, o escoamento de grandes volumes que
posteriormente são drenados para o corpo d´água.
Figura 3 - Vazões observadas no Arroio Cancela durante as campanhas de monitoramento
da qualidade da água na bacia hidrográfica Cancela-Tamandaí
Org. : dos Autores (2016)
Destacam-se algumas importantes variações da qualidade da água ao
longo do estudo. Durante o período analisado, as variações na temperatura
da água ocorreram em função das variações de temperatura ao longo do dia
e das estações do ano. A menor temperatura da água, 8,10 ºC, foi verificada
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no mês de fevereiro, na coleta do dia 27/02/2014 (verão). Este fato pode ser
explicado pela elevada vazão obtida no arroio, pois neste dia foi registrada a
maior vazão do período de estudo, com PTSA igual a zero, ou seja, houve
precipitação no dia/no dia anterior à campanha. Já a maior temperatura,
como já era esperado, foi verificada no verão, no mês de fevereiro, na coleta
de 14/02/2013.
O OD variou 0,36 a 6,1 mg/L, onde as baixas concentrações estão
relacionadas com altas concentrações de matéria orgânica e vazões baixas.
Girardi et al. (2016) relatam que o aumento na concentração de oxigênio
dissolvido pode ser atribuído ao aumento da turbulência no fluxo do rio.
A CE está relacionada com a presença de sólidos dissolvidos na água,
oriundos de lançamento de resíduos na água. No ACT as variações de CE
foram de 297 a 373 μS/cm-1, sendo que valores acima de 100 são indicativos
da ação humana. Para Souza e Gastaldini (2014) menores valores de
condutividade elétrica (média de 55 μS·cm-1) foram encontrados em uma
sub-bacia com pouca interferência antrópica, e os maiores valores, com
média de 216 μS·cm-1, foram encontrados em uma sub-bacia mais
urbanizada.
Os valores de turbidez variaram de 4 a 30 NTU. Lançamentos de
efluentes domésticos, resíduos sólidos e erosão favorecem o aumento da
turbidez da água, por isso os maiores valores foram verificados com menor
PTSA, ou seja, após ocorrência de precipitação, assim como relatado por
Girardi et al. (2016). O mesmo foi verificado para os ST, SS e SD, que
variaram de 123 a 278 mg/L, 3 a 45 mg/L e 114 a 271 mg/L,
respectivamente.
Em relação aos parâmetros biológicos, os CT variaram de 1,69E+05 a
8,16E+06 NMP/100 mL e as concentrações de EC variaram de 1,00E+04 a
1,39E+06 NMP/100 mL. As maiores concentrações foram verificadas com
PTSA de 0 dias e de 4 dias , sendo 4 dias para os CT e de 0 dias de PTSA
para os EC, pois com a ocorrência das chuvas, os esgotos domésticos
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dispostos incorretamente (a céu aberto e na rede de drenagem urbana) são
transportados através do escoamento superficial para o corpo hídrico. Já
para PTSA de 4 dias as maiores concentrações são verificadas devido ao
despejo continuo de esgotos domésticos no corpo hídrico, que com baixas
vazões tendem a se concentrar.
O indicativo da presença de matéria orgânica na água é dado pelos
parâmetros DBO e DQO, que variaram de 38 a 298 mg/L e de 62 a
519 mg/L, respectivamente. Silva e Porto (2015) atribuem as altas
concentrações de DBO em um corpo hídrico urbano à carga difusa trazida
pelo escoamento superficial da bacia, por isso as maiores concentrações de
DBO e DQO no ACT foram verificadas para PTSA de 1 dia.
Em relação aos limites estabelecidos na resolução CONAMA
nº 357/2005, os parâmetros que se apresentaram acima dos valores máximos
permitidos foram EC (≤4,00E+03 NMP/100mL para Classe 3), DBO (≤10
mg/L para Classe 3), Pb (≤ 33µg/L para Classes 3 e 4) e, de modo indireto,
fósforo total (≤0,15 mg/L para Classe 3), pois o fosfato apresentou-se acima
do permitido para o fósforo total. O OD apresentou-se, na maior parte do
estudo, abaixo do mínimo estabelecido para a Classe 3 (OD≥4,0 mg/L) em
que as concentrações obtidas superiores a 4,0 mg/L foram observadas nas
campanhas de maior vazão, ou seja, o turbilhonamento da água aumentou a
reaeração nas águas do arroio Cancela. No entanto, a DBO permaneceu
elevada mesmo nestas condições de vazão elevada, devido à carga orgânica
adicional oriunda da drenagem urbana.
Os dados de qualidade da água estão apresentados na forma gráfica
de boxplots com intervalo de confiança igual a 95%, ilustrados nas Figuras 4
e 5. Foram obtidos outliers superiores e inferiores (resultados anômalos),
sendo superiores para CT, EC, SS, Cu, Pb, Zn, nitrito e nitrato. Já os
outliers inferiores foram obtidos para temperatura, pH, ST e SD.
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Figura 4 - Boxplots dos parâmetros de qualidade da água avaliados no período de
31/01/2013 a 18/03/2014
Org. : dos Autores (2016)
Em relação aos metais pesados avaliados as concentrações variaram
de: 5 a 7 µg/L para Cu, 5 a 20 µg/L para Ni, 22 a 70 µg/L para Pb e 10 a 66
µg/L para Zn, com médias de 5 µg/L para Cu, 14 µg/L para Ni, 40 µg/L para
Pb e 20 µg/L para Zn (Figura 5).
Gonçalves et al. (2015) avaliaram a distribuição espacial da
concentração cobre, cromo, cádmio, manganês, ferro, chumbo e zinco em
águas superficiais das bacias do rio Cuiabá e São Lourenço-MT,
apresentando características de bacias rurais. Assim como na avaliação
realizada no ACT eles também obtiveram concentrações dos metais pesados
abaixo dos limites estabelecidos pela Resolução CONAMA nº 357/2005. A
exceção foi para o metal Pb, pois é um poluente predominante em áreas
urbanas oriundo de descartes industriais e domésticos. Dentre os metais
avaliados no ACT, a maior concentração média obtida foi a de Pb. Porém, o
Pb não é essencial os seres vivos e é considerado tóxico. A urbanização
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elevada e lançamento de efluentes domésticos sem tratamento prévio no
corpo d’ água foram as possíveis fontes de poluição da água do ACT por Pb.
Em um estudo semelhante a este Beck e Birch (2012) avaliaram as
concentrações de SST, Cu, Pb, Zn em áreas urbanas na cidade de Sidney,
obtendo concentrações de 13,0 mg/L, 8,5 µg/L, 3,0 µg/L, 25,0 µg/L,
respectivamente. Observou-se que a concentração de Pb, obtida no arroio
Cancela-Tamandaí, foi superior a encontrada por Beck e Birch (2012), o
inverso ocorreu para concentração de Zn. Esta situação justifica-se pelo uso
e ocupação do solo, em que na bacia Cancela-Tamandaí não há a presença de
indústrias metalúrgicas e galvânicas, pois o acréscimo do Zn pode ser reflexo
da presença deste tipo de empreendimento. Porém o Pb pode ser oriundo de
efluentes domésticos, situação verificada no ACT devido às altas
concentrações de DBO e EC, juntamente com as baixas concentrações de OD
são indícios do lançamento inadequado de efluentes domésticos, sem que
haja o tratamento preliminar adequado.
Figura 5 - Boxplots dos metais pesados e nutrientes avaliados no período de 31/01/2013 a
18/03/2014
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Na Figura 6 observa-se que as concentrações de DBO e DQO, além
das amplas variações obtidas ao longo do estudo bacia Cancela-Tamandaí,
apresentaram-se elevadas. Estas variações e magnitudes foram
influenciadas, principalmente, pelo PTSA e pela sazonalidade. Em que, as
maiores concentrações foram observadas para PTSA de 1 dia, bem como em
sua ausência, ou seja, o escoamento gerado na bacia lança altas cargas de
DBO e DQO no arroio.
O efeito de sazonalidade foi observado no período de férias (janeiro a
março), com redução de DBO e DQO em relação aos outros períodos do
estudo. Isso é um indicativo de que a população contribuinte da bacia é
reduzida no período de férias, ou seja, ocorre menor
Figura 6 - Vazões observadas e parâmetros de qualidade da água durante as campanhas
de monitoramento da qualidade da água na bacia hidrográfica Cancela-Tamandaí
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De acordo com Lima et al. (2015) a deterioração da qualidade da água
pode ocorrer de forma mais expressiva quando há lançamentos de efluentes
domésticos. Assim sendo, as altas concentrações de DBO, DQO, CT e EC,
juntamente com as baixas concentrações de OD obtidas no ACT, evidenciam
a degradação da qualidade da água neste corpo hídrico.
Souza e Gastaldini (2014) avaliaram a qualidade da água em bacias
hidrográficas do Rio Vacacaí-Mirim com uso e ocupação do solo distintos, no
município de Santa Maria, RS. A bacia hidrográfica Alto da Colina com o
maior percentual de urbanização, maior número de habitantes e menor área
(2,0 km²) foi a que apresentou os piores resultados de degradação ambiental,
consequência da contaminação por efluente doméstico e da elevada
contribuição de matéria orgânica, agentes patógenos e nutrientes.
Constata-se que a bacia hidrográfica Cancela-Tamandaí, com
características análogas as do Alto da Colina, também sofre com o
lançamento inadequado de efluente doméstico, o grande aporte de matéria
orgânica e a alta contaminação por patógenos, que são ilustrados pelas altas
concentrações de DBO, DQO e EC.
Freire e Castro (2014) avaliaram a correlação do uso e ocupação do solo
e da qualidade da água em sub-bacias tributárias da bacia hidrográfica do Rio
Itapemirim no Estado do Espírito. Seus resultados indicaram que as bacias
hidrográficas com alto grau de atividade antropogênica sobre o solo estão
associadas com um índice mais elevado de degradação da qualidade d’ água.
No ACT ocorre situação semelhante a esta, pois a bacia apresenta alto
grau de urbanização, com aproximadamente 50% da área total da bacia
composta por áreas impermeáveis. Consequentemente o volume do
escoamento superficial é maior, favorecendo o transporte dos poluentes
depositados nas superfícies impermeáveis para o arroio, ocasionando a
diminuição da qualidade da água.
Lima et al. (2015) analisaram a variabilidade espacial da qualidade
de água nos Rios Cuiabá e São Lourenço-MT, onde a maioria dos parâmetros
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de qualidade da água analisados apresentaram significante desvio padrão,
para cada ponto amostral. Situação análoga ocorreu para os parâmetros
avaliados no ACT, devido aos horários diferenciados de coleta, época do ano,
estação seca e estação chuvosa, ilustrando uma variabilidade sazonal dos
parâmetros de qualidade da água na bacia Canela-Tamandaí.
Para uma melhor caracterização da qualidade da água foi utilizada a
correlação de Pearson (r) para analisar a relação entre os parâmetros. Na
Tabela 2 apresentam-se os coeficientes de correlação de Pearson (r) para os
parâmetros de qualidade da água no ACT. Temperatura e DBO apresentaram
correlação positiva (r=0,60), pois a temperatura da água influencia de modo
direto a atividade microbiológica no corpo hídrico. O aumento da temperatura
acelera as reações, facilita a ação tóxica de muitos compostos e diminui a
solubilidade de gases dissolvidos na água, como o oxigênio.
A correlação positiva entre Turbidez e EC (r=0,63) é explicada pela
presença de efluentes domésticos na água, que eleva a turbidez. Sólidos
totais e sólidos dissolvidos (r=0,96), apresentando relação direta entre si. As
correlações entre cobre e nitrito (r=0,99), CE e nitrato (r=0,66), DBO e DQO
(r=0,78), OD e nitrito (r=0,85) reforçam a ação de degradação antropogênica
ocorrida na bacia, como o lançamento de efluentes sem o devido tratamento
prévio e a presença de resíduos sólidos no corpo hídrico. A elevada
correlação entre Cu e nitrito (r=0,99) evidência que estes poluentes podem
estar sendo provenientes da mesma fonte de poluição/contaminação.
Correlações de Pearson (r) positivas, variando de fracas a fortes,
destes parâmetros também foram obtidas nos estudos de Chigor et al.
(2012), Vishwakarma et al. (2013), Figueiredo et al. (2015) e Souza e
Gastaldini (2014). Diante disto, observa-se que as características das bacias
hidrográficas estudadas e a sazonalidade das coletas podem influenciar o
modo como os poluentes se correlacionam.
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Tabela 3 . Correlação de Pearson (r) dos parâmetros de qualidade da água em tempo seco na bacia Cancela-Tamandaí
Correlação Temp. Turb. ST SST SDT pH CE OD DBO DQO CT E.C Cu Ni Pb Zn NO2- NO3- PO43- Vazão
Temp. 1
Turb. -0,18 1
ST -0,10 0,13 1
SST -0,11 0,50 0,16 1
SDT -0,08 0,03 0,96 0,05 1
pH 0,90 0,01 0,55 0,16 0,54 1
CE 0,20 -0,14 0,50 0,04 0,56 0,27 1
OD -0,36 0,27 -0,15 0,03 -0.20 0,09 -0,75 1
DBO 0,60 -0,14 0,06 -0,26 0,06 -0,26 0,23 -0,23 1
DQO 0,14 0,15 0,33 -0,19 0,32 -0,16 0,50 0,40 0,78 1
CT 0,27 -0,05 0,06 0,02 -0,12 0,15 -0,35 0,15 0,01 -0,20 1
E.C -0,05 0,63 0,06 0,33 -0,07 0,04 -0,32 0,37 -0,10 -0,03 0,23 1
Cu -0,13 0,08 -0,14 0,20 -0,05 -0,12 0,04 -0,02 0,33 0,18 -0,42 0,12 1
Ni -0,18 -0,09 0,43 0,12 0,51 0,40 0,45 -0,32 -0,30 -0,14 -0,34 -0,17 -0,15 1
Pb -0,28 -0,25 0,10 0,16 0,14 -0,06 0,30 -0,18 -0,45 0,04 -0,31 -0,26 -0,25 0,14 1
Zn -0,07 -0,22 0,11 -0,27 0,21 0,34 0,20 -0,11 0,40 0,20 -0,06 -0,12 0,38 0,42 -0,37 1
NO2- 0,04 0,00 -0,14 0,14 -0,12 -0,09 -0,10 -0,02 0,43 0,16 0,10 0,13 0,99 -0,36 0,43 -0,44 1
NO3- -0,62 0,30 -0,16 0,07 -0,23 -0,22 -0,75 0,85 -0,15 -0,32 0,45 0,30 -0,10 -0,25 -0,30 0,00 -0,06 1
PO43- 0,04 -0,05 0,14 0,30 0,20 0,31 0,66 -0,60 -0,16 -0,10 -0,17 -0,20 -0,10 0,34 0,10 0,30 -0,13 -0,60 1
Vazão -0,14 0,08 -0,07 -0,22 -0,08 -0,33 -0,24 0,30 0,14 0,03 -0,23 -0,27 0,16 -0,16 -0,17 -0,12 0,16 0,50 -0,50 1,00
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Conclusões
Considerando o uso e ocupação do solo, as análises mostram que o
ACT sofre interferência de maneira acentuada e negativa na qualidade da
água. O escoamento superficial carreia os poluentes depositados nas
superfícies impermeáveis para o ACT, justificado pelas altas concentrações
de DBO, DQO, CT e EC na água após as chuvas.
As vazões do ACT estão relacionadas com o PTSA, onde as vazões
mais elevadas foram verificadas em PTSA menor ou igual a 1 dia, ou seja,
após a ocorrência de precipitações. Quando ficam muitos dias sem chover, as
vazões do ACT são baixas.
Na maior parte do tempo, as concentrações de OD são inferiores a 4
mg/L. Concentrações de OD próximos a 6 mg/L só foram verificadas após a
ocorrência de chuvas e consequentes vazões altas.
As fortes correlações entre OD e nitrato (r=0,85), DBO e DQO
(r=0,78), EC e turbidez (r=0,63) ilustram a degradação da qualidade da água
no ACT.
As concentrações de metais pesados encontradas na água não indicam
uma contaminação elevada. O chumbo foi o metal presente em maior
concentração no ACT, chegando a 70 µg/L.
A alta variabilidade dos parâmetros de qualidade da água é devido às
interferências no ambiente, tais como, a sazonalidade das coletas, horário de
coletas, do lançamento de efluentes e a acumulação de resíduos nas vias
urbanas da bacia hidrográfica.
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