EME
maria vicente
Para uma mulher, do fascínio
Ao açaime vai muitas vezes
A curta distância de um beijo
E andar a trote de alguém é
Uma escravidão que nenhuma
Mulher merece
Mulher não é sinónimo de mula
Quando os homens que odeiam
As mulheres mandam
O mundo fica mais escuro
E a vida é um joguete sacralizado
Antes de ser e vilipendiado
Depois de nascer
Não quero homens fascinados
Comigo
Para depois como vento
Me fustigarem com o medo
Do meu tamanho de ser mulher
Vou molhar os pés no mar
Vou a seguir mergulhar
Comigo
Na solidão de eu ser
Do tamanho que quiser
sou mulher resolvida
quando morrer
entretanto vou
revolvendo resolvendo
atando e desatando
os laços e nós que à vida
fizer
Os homens amam com os olhos
Cheios de fome
As mulheres
Os homens saciam a fome com as mãos
Feitas garras nos corpos
Das mulheres
Os homens esventram o desejo
Com os olhos e as mãos nos corpos
Das mulheres
Os homens são poderosos quando
Se submetem aos corpos
Das mulheres
Os homens são invencíveis se
Forem capazes de morrer
Pelo amor das mulheres
Os homens são crianças com
O tamanho de crianças a precisar
Do colo das mulheres
Os homens moldam o mundo
Pela sede de poder matar a sede
Às mulheres
As mulheres
Vergadas
Vergastadas
Violadas
Desejadas
Veneradas
Odiadas
Amadas
São o poder supremo
Que põe os homens no poder
Por isso
É preciso
Que as mulheres tomem o poder
Nas suas mãos e transformem
O poder dos homens
Em cura e solução
As mulheres choram para fora
Os homens choram por dentro
As mulheres choram água
Os homens choram mágoa
As mulheres têm a força
De molhar a mágoa
Os homens têm a força
De reter a água
Ambos fortes ambos rios
Que desaguam em mares
Que dão à costa em terra
E vedam a tristeza
E quando dão as mãos
São chuva e vida
Reclamo hoje
Exatamente hoje
O direito
De estar cansada
De não me pentear
De baixar os punhos
E a guarda
De não ser todos os dias
Lutadora e poderosa
De precisar por
Um momento
Do colo que sempre sou
Reclamo hoje
Exatamente hoje
O dever
De parar
Quando é preciso
De chorar
Quando é doído
De ser bela
De ser forte
Pelos moldes
Exclusivos
Do meu olhar
Reclamo hoje
Exatamente hoje
O pensamento
E o desejo
Feitos gesto
Da cooperação
Da não competição
Do valor de ser mulher
Livre do jugo mental
E do desenho espiritual
Que o homem
De mim fez
Reclamo hoje
Exatamente hoje
A liberdade
De ser exatamente
O que quiser
Como fizer
Quando puder
Sabendo
Sem vergonha
Nem medo
Que o meu poder
Não mata nem anula
O homem
E faz florescer
Toda a mulher
(e talvez um dia
Não seja mais preciso
Dia de reclamar)
Aquela mulher olha
o seu rosto no espelho
Não repara em rugas
nem em cabelos brancos
Sem maquilhagem no olhar
foca bem no fundo dos seus
olhos
aquele buraco negro e cheio de
luz
por onde olha vê repara
Aquela mulher olha
no fundo dos olhos o corpo inteiro
da sua vida
a sonhada a vivida a frustrada
a sofrida
Aquela mulher olha
e sabe
que o fundo do buraco negro
dos seus olhos
é um imenso lago
que espelha o vivido
que guarda no seu fundo
o sofrido
mas que tem águas
transparentes
e já não tem nada a
esconder
Aquela mulher olha
para o fundo de si e sabe
que o seu corpo o seu rosto
as suas mãos dão
ao mundo
a sabedoria de quem não lhe deve
nada
e dá
Aquela mulher olha
e fecha os olhos para olhar
melhor
Aquela mulher...
quebrei o espelho à minha
frente
mirei as fraturas nele
Expostas
e olhei
assim quebrado
assim exposta
Reparo
as misérias convocadas
e alimentadas
com esmero e cuidado
para ocultar o medo
de me dar
de me falhar
o medo de ser feliz
-de querer o sabor
e o saber ser feliz
estar aberta e viva
para ser feliz -
enterra-me e preserva-me
Mumificada
de sorriso pintado
na cara
e muro alto e
Transparente
a separar-se do meu
Íntimo querer
Existo
mas as fraturas expostas
no espelho quebrado
Denunciam
muro transparente entre mim
e o meu desejo de ser
a mulher que sou e não me deixo
ser
os grilhões-almofada
com que me prendo
são o alfa e o ómega
da minha querida
Tristeza
que detesto e
amamento
Agora
pouco a pouco
a medo - com muito medo
de mim
Reparo...
Quem és tu quando estás só?
Mulher. As mulheres são sempre sós.
Amem os homens que amarem.
Ou não amem nenhum.
Sejam quantos forem os filhos paridos.
Ou não tenham nenhum.
Façam o que que fizerem.
Trabalhem o que puderem.
Lutem e amem e lavrem as vidas
que tiverem.
No final do dia e no final da noite,
quando já todos dormem,
quando ainda ninguém acordou,
a solidão das mulheres ganha corpo.
Batido sofrido largado abandonado
esvaziado por elas
para que sejam capazes durante o dia
de a encher - com filhos e homens
e lidas e suores.
As mulheres são sempre sós.
Abraçam-se açoitam-se ninam-se.
E dormem sempre sozinhas
com os seus homens e filhos e sonhos
engolidos a cuspo e murro.
E acordam com o peso do mundo
cravado no peito, mas ainda assim
são capazes de voar.
Quem és tu quando estás só?
Mulher. Tapete onde o mundo limpa
os pés. Estrada de terra
batida. Interminável.
Infinita.
HIPÁTIA I
no teu peito brilhou
a sabedoria do mundo
antigo e novo como gomos
de sumarenta laranja
pacífica e frágil
perante as espadas
que cortam cerce tudo
o que é diferente
e foste morta e esventrada
com tamanha violência
como maldição de seres
sábia e mulher contrária
ao pensamento obtuso
de quem se crê dono único
da verdade
o mundo é redondo e tudo
volta a ser e acontecer
por mais que se acredite
na evolução e no progresso
e o ódio ao outro apenas
por ser outro germinou
e volta a crescer
penso em ti como vejo
perdida na noite escura
em pleno temporal
a luz cintilante de um farol
que por mais negrume
aço e centelha ofusquem
sempre orienta e brilha
como a esperança feita
de memória razão e amor
que nunca morre
HIPÁTIA II
dos escombros da violência
e da morte renasço
e resisto ao ódio e ao medo
que mata o outro
para continuar a aprender
ANTI-EPITÁFIO
(ou abraço em forma de palavras às mulheres da minha vida)
É verdade:
estamos rotas
mas inteiras
estamos exaustas
mas temos onde deitar a cabeça e o corpo
estamos aflitas
mas fazemos braço de ferro às agruras (e tombamo-las)
sangramos mas estancamos
somos sós
mas temos quem nos ame
e temo-nos umas às outras
O que conta é o dia de hoje
sabendo que tem um dia de ontem
para depositar as raízes
e um dia de amanhã
para depositar as esperanças
MULHERES DE ARMAS
As mulheres-capitãs desejam
Largar o leme
As mulheres-cavaleiras desejam
Soltar as rédeas das mãos
As mulheres-obreiras desejam
Baixar os braços
e despejar as mãos
As mulheres-de-armas desejam
Depô-las no chão...
Só um bocadinho
Só um instante
Só por um momento...
Desejam depositar as cabeças
Num ombro forte
Que assuma o comando
Que tome nas suas mãos
A fortaleza a sabedoria a coragem
Do comando da vida
Só o tempo necessário
Para respirarem
Para chorarem
Para aliviarem
O corpo e a alma
Dos pesos pesados da vida
Depois
Elas voltam
Elas regressam
Agarram no leme
Seguram as rédeas
Erguem os braços
Apertam as mãos
Contra o coração
E fazem dele a arma
Para fazerem a vida
Como se faz uma casa
Como se gera um filho
Como se cria um lar
Como se constrói o mundo
Mulheres de armas
Estão em qualquer lugar
São duras e fortes e flores e belas
Fazem do mundo mundo
Fazem do mundo lar.
Eis-me aqui
Diante de mim
Nua
Despida de estratégias
Com as mãos vazias
De palavras
Frágil e pequena
Perante a imensidão sombria
Dos meus medos
Obrigando-me a abrir os olhos
Para dizer adeus
Ao passado
E ver esse futuro vazio que me
Espera
E agora, mulher?
É agora, mulher?
Que acolhes no teu
Coração
A semente desse amor
Por ti
E a deixas
Germinar?
Eis-me aqui
Cheia de frio
Cheia de medo
A despir-me de mim
Pele e osso
A raspar o tutano
Da alma
Fecho os olhos
Estendo as mãos
Para ver...
DERIVA
desatam-se os laços
soltam-se as amarras
desligam-se os cabos
e andas à deriva
menina dos olhos doces
e do sorriso triste
não chores mais
não chores mais
cortaste o cabelo
arrancaste as tranças
menina bonita já pintas
os lábios, já danças
procuras o riso
que faça barulho
afogas a alma inquieta
em cem copos
num mergulho
menina-mulher
não sabe o que quer
fica a mirar o luar
a cismar a sonhar
mulher tão menina
não quer meninar
já está crescidinha
já quer namorar
e um dia acordas
e vais-te espantar
deixaste a inocência
perdida esquecida
em qualquer lugar
e vais entender
com mágoa e ternura
que os laços soltados
os cabos desatados
as amarras da vida
perdida esquecida
eram tão bonitas
como as tuas tranças
e vais perceber
que andar à deriva
não é duvidar
mas antes esquecer
desviver ignorar
os olhos mais doces
o sorriso triste
o cismar e sonhar
da menina-mulher
mulher tão menina
que foste matar
andas à deriva
por não saberes
mais
Sonhar
vi na rua uma mulher
trazia roupas usadas e antiquadas
carregava um pesado saco de plástico
as suas mãos estavam feridas e enrugadas
e tinha o rosto mais bonito…
quando sorria acentuavam-se as rugas
à volta da boca e dos olhos
tinha uma cara lavada mas não maquilhada
e nos seus olhos espelhava o coração…
esses seus olhos negros e tristes
e as rugas e olheiras que carregava
recordavam sofrimento fome e dor
espelhavam o exílio forçado
de um outro mundo puro e negro
mas irradiavam simpatia e amor
a sua voz era suave e trémula
e as suas palavras não tinham rancor
era uma mulher pobre e bela
que tinha no rosto sulcos de lágrimas
e um sorriso de paz e de luz
e da sua dor nasceu o amor
PROVOCAÇÃO INGÉNUA
Ela era louca.
Ria e chorava.
Sentada estava
com a mão na nuca
a rir e a chorar
e a ver a lua.
Ela ria e chorava.
A lua dançava
e brilhava
palidamente
no meio do céu.
A lua tombava
no meio das nuvens
agora chovia
e o dia nascia
e ela chorava e ria.
Brincava com as mãos
fazia momices
estava no telhado
a rir e a chorar
estava na lua
a dançar.
Mas a lua tombou
e ela caiu
e então acordou.
Viu dali o mundo
e a chuva a cair
a lama no chão
confusão
barulho sem fim.
Ela que era louca
parou de chorar
deixou de rir
ficou a olhar…
Foi então apanhada
levada na ambulância
examinada
medicada
torturada
(medicamente…)
e finalmente
devidamente
encarcerada.
Nunca mais riu.
nunca mais chorou.
Deixou de ser louca
e foi libertada.
Visitou a lua.
Voltou ao telhado
e de lá foi cair.
Morreu. A chorar
e a sorrir.
LABUTA DIÁRIA (OU PENÉLOPE INVERTIDA)
cerzir todas as noites
antes de dormir
os fios soltos e desfeitos
as malhas que rompem
a vida
cortar rente as pontas soltas
e ligá-las ao bordado
re-fiar o desfiado
e esperar
que o dia
que amanhece
não rasgue o que
suturei
e se rasgar?
a noite regressa
e volto a costurar
NÚMERO SEM ENCAIXE
Não encaixo
Cheia de arestas pontiagudas
E curvas que vão dar a nada
Não há livro não há texto
Nem palavra
Capaz de me encaixar
As arestas agressivas
Ferem só de olhar
As curvas cheias de sombras
Arrepiam ao passar
Sem sono e sem descanso
Giro e volito num eu
Que depois de se encontrar
Não sabe a que tu se dar
Esta liberdade sem rédeas nem
Formas
Não cabe em lado nenhum
Rebenta com o meu corpo
E com o meu coração
Não encaixo
Não caibo em lado nenhum
Está tudo desarrumado
Amarrotada.
Não caibo em lado nenhum.
Não caibo em mim. Tudo desarrumado.
Não sei o que fazer.
Lunar. Lua nova
Não sei o que fazer com esta
Mulher revelada despertada
Em mim
Este corpo é grande demais
Esta pele é alma demais
Este peito é mágoa demais
Estes olhos são rio demais
Não sei o que fazer com
O que descobri o que desocultei o que
Desassombrei em mim
Será que é só isto?
Matar os antigos fantasmas
Para o vazio deixado
Me assombrar?
Farta de tanto eu
Afogado entre pavores aplacados
Desvendados e enfraquecidos por
Os olhar
E aturdido sem destino
Incapaz de encontrar um lugar
Onde ficar
Não encaixo. Tudo desarrumado
Em mim
MEA CULPA
Sou culpada
De amar e não ter sido amada.
De amar e ter sido amada.
De ter dito não ao amor que amava.
De ter sido egoísta junto de quem amava.
De ter dito palavras feias a quem amava.
De ter atirado pedras (mesmo que em legítima defesa) a quem amava.
De ter calado o que devia ter dito a quem amava. Sobretudo quando estava a
ser acusada, acossada, mal-amada.
De continuar a amar quem amava e me rejeitou e eu rejeitei.
De ter deixado de amar quem amava e me rejeitou e eu rejeitei.
De nunca ir ser capaz de deixar de calar o que devia dizer a quem amo.
De ter sido maltratada, injustiçada, violada (e me ter deixado ser maltratada,
injustiçada, violada).
De não procurar ajuda.
De procurar ajuda e sentir que massacro quem aceita o meu pedido de ajuda.
De lembrar o que queria esquecer e esquecer o que queria lembrar.
De ser cobarde. De ser temerária.
De falhar. De não falhar.
De chorar. De querer e não conseguir chorar.
De nunca ser suficiente.
De não encaixar.
De por vezes dormir de menos e beber demais.
De trabalhar demais. De trabalhar de menos.
De fraquejar.
De quebrar e não conseguir arribar sozinha.
De me comparar.
De ser modesta.
De ser arrogante.
De ser...
Como é que se desfaz este novelo viscoso e venenoso
da culpa?
Como é que se quebra este feitiço marmóreo
que me infligi?
Com humildade com persistência
com paciência...
Num britar pedra
com ferramentas de ourives...
DIÁLOGO ENTRE DUAS MULHERES CANSADAS
- Estou triste e cansada.
- Como te compreendo...
- O cansaço é venenoso.
- Turva a alegria.
- Cresce... alastra...
-Contamina corpo e alma...
- É denso, não é?
-É... cinzento...
- É um nevoeiro pegajoso...
- Primeiro, mole e viscoso...
-... depois endurece e fica duro como pedra.
- Duro... e cinzento... como cimento.
-E mole e nojento...
- ... como ranho.
- Como gosma!
- Como gosma!
- De uma espessura que se pega e infiltra em todas as pregas e filamentos
da alma.
- Não deixa respirar, amarfanha e entope os canais de respiração da alegria.
- E o pó que faz?!
- O pó!! Entope o nariz e irrita os olhos!
- E a tosse que provoca??
- Sim... uma tosse espessa e viscosa, a escorrer como ranho.
- Tem mau caráter.
-É vil.
- É -íssimo na sua vileza.
- Superlativamente vil.
- Como é que vencemos este bicho, que nos come as entranhas da alegria e
nos entope as veias da esperança?
- ...
- ...
- Água...
- Monda...
-Ser agricultora da vida.
- Vergar a mola quando é preciso.
- Esperar (e ter esperança) quando o alcance do nosso fazer termina.
- Nunca desistir.
- Ser agricultora de esperança...
-Agricultoras de esperança! Sim!
- Levanta-te! Temos terra para arar!
- A terra das nossas vidas.
-Regada com as mãos dadas.
- As lágrimas feitas rio...
- ... fecundo e feito de líquida paz.
- Alvorada!
- Ao trabalho!
- Mas antes...
- Mas antes?
- É preciso...
-É preciso?
- Sim, é preciso... Descansar do cansaço.
- Descansar o cansaço...
- Está entre o hoje e o amanhã.
-Está entre o sono e a vigília.
- Boa noite.
-Bons sonhos.
- Abraço-te.
- Agora e sempre.
- Até amanhã.
- Até já.
COSMÉTICA
A cosmética mais avançada e tecnológica
Estuda o rosto
Analisa os olhos
Abertos fechados franzidos semicerrados
Estuda a boca
Os lábios os seus movimentos a pele à sua volta
Observa a pele
lisa traçada enrugada tisnada cuidada por cuidar
Avalia os cabelos
Lisos encaracolados queimados espigados embranquecidos
E a cosmética luta
Contra a idade o medo de envelhecer a constatação apavorada da
decrepitude
E faz proezas milagres
Mas a cosmética esqueceu-se de uma coisa
A idade de uma pessoa não está nas marcas do rosto
A idade de uma pessoa reside naquilo que a faz agir como pessoa: as mãos.
Hoje, olhei para as minhas mãos e vi nelas escritos todos os passos que
conduziram
Ao meu inexorável envelhecimento
As rugas as manchas as asperezas as linhas mais vincadas - tão mais! - do
que as do meu rosto.
Olhei para as minhas mãos e li nelas a minha vida toda
o que fiz o que senti o que vivi o que venci e o que perdi
Tudo ali escrito, como denúncia delação de tudo o que tentei e falhei.
A partir de amanhã, vou ser mais cuidadosa e usar creme de mãos, que
amacia e alisa a pele
Na esperança de que também o faça à minha vida...
À ESPERA DO FIM
A minha avó é pequenina
Cabe debaixo do meu braço
Quase dentro do meu bolso
Corpinho sólido e pequeno
Olhinhos matreiros a sorrir
Emoldurados
Em rosto curtido do sol
Quase sem rugas
E cabeleira branca como
A neve
Amora madura
De uma doçura
Não de mel
Mas de sal e chocolate
A minha avó é enorme
Com a força parideira de
Nove filhos
As mãos rugosas de trabalhar
Com e sem sol para além do
Sol a sol
A inteligência perspicaz que
Tudo vê tudo percebe tudo
Lê - sem as letras saber...
E a curiosidade de criança
Perante a grandeza e a beleza
Do mundo
A minha avó é finalmente
Velhinha
Pela primeira vez triste
Com uma tristeza silenciosa e profunda
Cheia de olhares para dentro
Como quem sabe que está quase a partir...
A minha avó é eterna
Maior do que a vida que a habita
Maior do que o amor que lhe tenho
Melhor do que o implacável cronómetro
Que espreita a meta a cada hora que passa
A minha avó é tão linda!
Não tem fim por mais que ele chegue
Pode até esperar por ele
Pode até partir com ele
Mas a minha avó não tem
Fim
A minha avó é assim
Sem fim
Quando a minha mãe morrer
Não terei mais de prestar contas
Nem de pensar duas vezes
Antes de me decidir
Quando a minha mãe morrer
Ficarei finalmente livre
De um amor que é devido
Mais ainda do que sentido
Quando a minha mãe morrer
Serei finalmente jovem
Serei finalmente velha
Na linha da frente estarei
Quando a minha mãe morrer
Serei criança serei órfã
Chorarei eternamente
A vida que mata as vidas
Quando a minha mãe morrer
Fico na fila da frente
Pronta para envelhecer
Aprender a desviver
Quando a minha mãe morrer
Vou continuar a viver
E terei de aprender
A ser o leme desta barca
Quando a minha mãe morrer
Não morre não vai desaparecer
A sua vida permanece
Como corrente que nasce
Quando a minha mãe morrer
Levo-a para voar
Para o céu no meio do ar
Até desaparecer
Quando a minha mãe morrer
A vida vai renascer
Pois é assim que tem de ser
Porque a vida nunca acaba de
Viver
Maternidade é a idade
Em que o sentido da vida
Tem olhos e braços e pernas
E coração que não são
Os teus mas são
É a idade sem idade
Em que o amor (querido dorido)
Não tem relógio nem tempo
Contado porque é um estado
De eternidade
É somatório de todas as dores
Despidas de romance e glamour
Vestidas com todas as cores
Tantas vezes com sabores
A terra lágrimas e sangue
Maternidade é exercício
De reciclagem e memória
Sempre igual e renovado
Repositório de beijos e abraços
Mesmo que sujo, lavado
Maternidade é a idade sem idade
Em que o amor é eternidade
A mãe nasceu
Quando o filho nasceu
A mãe pariu
Medos e esperanças
Assim que soube
Ser campo arado
A germinar
Novas heranças
A mãe ficou
Sempre refém
De um novo amor
Que é também
Mal e bem
Maior temor
A mãe sarou
Medos antigos
Com mãos e peito
A rebentar
No corpo inteiro
De tanto amar
A mãe ganhou
Novos terrores
Pés de raízes
Para que o voo
Tenha lugar
Onde aterrar
A mãe é a primeira
Língua que cada um
De nós aprendeu
Maternidade é tempo intemporal
Para o amor prevalecer
Além do bem e além do mal
Quando
Um segundo é um século
O inspirar é o infinito
O expirar é eternidade
DOS HOMENS. DAS MULHERES.
Os homens conversam e fazem Política.
As mulheres conversam e fazem História.
A História que os homens fazem escreve-se nos manuais escolares.
A História que as mulheres fazem escreve-se na memória genética e afetiva
das famílias.
As vozes dos homens têm holofotes.
As vozes das mulheres têm murmúrios.
As mãos dos homens marcham sobre os territórios.
As mãos das mulheres cerzem cortinas na luz das janelas.
Os pés dos homens escalam montanhas.
Os pés das mulheres plantam batatas e melancias.
Os corpos dos homens são tensos de fúrias definidas e desconhecidas.
Os corpos das mulheres são tensos de medos antigos e perenes.
Os homens contêm o sopro das mulheres que poderiam também ser.
As mulheres contêm o grito dos homens que também podem ser.
Dos homens das mulheres
Nada sei
Apenas sei
Que me habitam
No que sou
No que fui
No que serei.
Os filhos e os pais intercambiam
Gestos de força e de coragem
Músculos retesados de medo
Expectativa e coragem
Poucas palavras menos abraços
Vozes graves enrouquecidas
Olhos secos corações domados
As filhas e as mães entretecem
A dura delicadeza de ser fêmea
Mordem-se com palavras
Medem-se em gestos de uma
Dureza que nenhum homem
Percebe e a crueldade
Está cheia de amor
As filhas e os pais partilham
Olhos húmidos de alegria e medo
Trocas de ternura que ninguém
É capaz de traduzir
Elas são as mulheres que eles
Amam sem querer possuir
E eles são mais humanos assim
Os filhos e as mães enlaçam
Mimos e asas protetoras
Palavras que não dão
A mais ninguém e onde são
Cama e colo e cobertor
Onde nunca morre esse amor
Que amolece qualquer guerra
E eu que sou mãe e pai
(e filha ah! e filha também)
Amo filha e filho com o ardor
Que nunca queima só amacia
Os tempos quentes e gelados
De toda a dor - e permaneço
A cada nascer do dia
Quem é esta mulher que me olha do espelho?
De onde veio? Como chegou aqui?
Os cabelos brancos os olhos em molduras
De rugas as manchas na pele
Como é que as ganhou? O que é que perdeu?
Olha para mim como quem quer ler
O que nem eu sei se sou se fui ou serei
Ela quer saber o que não sei dizer
Se o brilho dos olhos é luz ou pavor
É pena ou amor
Desvio o olhar com medo de ver
Aquela mulher
Que me interroga o que ando a fazer
Perdi-lhe o marido fiquei sem amante
Não sei o que faça agora adiante
E ela pergunta ela quer saber
Quando é que me perco quando me encontro
No fundo de mim no fundo do poço
Se estico o pescoço para respirar
Se ainda consigo ou já não sei nadar
E eu que sei tudo não lhe sei dizer
Só tenho o silêncio para oferecer
E um rio profundo quase a rebentar
De dentro dos olhos até ao mar...
Eu peço à mulher que no espelho me olha
Essa paciência feita de ternura
Um sorriso limpo feito do olhar
Que sabe que a espera também é andar
Que não me censure que não me magoe
Que me olhe nos olhos sem me julgar
Que me dê a mão e venha comigo
Nesta aventura do nosso caminhar
RETRATO DE UMA MULHER SÓ
Lambe as manifestações de desejo
Que os homens lhe atiram à boca
E acredita que sabem a amor eterno
Se apurar em lume vivo o seu sabor
Mas acaba cada dia cada vez
(cada dia de cada vez) mais só
E é entre o acre e o doce vazio
Que nutre o seu coração
Só ela sabe - quando ousa pensar
Que a liberdade é a prisão
De viver consigo e dentro de si -
Estar ser viver realmente só
Mas também sabe que essa verdade
Dá ao corpo essa vontade
De rebentar em primavera
Mesmo quando o outono a espera
E a sua vida é sempre eterna