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Mr. Kill

Kay, um artista de mangá, se vê envolvido em um caso de assassinato em série que espelha suas obras, levando-o a colaborar com o inspetor Phat. À medida que investigam, eles enfrentam desafios que testam sua confiança e revelam segredos do passado. O romance explora a interseção entre ficção e realidade, questionando se uma obra de imaginação pode impactar o mundo real.

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Mr. Kill

Kay, um artista de mangá, se vê envolvido em um caso de assassinato em série que espelha suas obras, levando-o a colaborar com o inspetor Phat. À medida que investigam, eles enfrentam desafios que testam sua confiança e revelam segredos do passado. O romance explora a interseção entre ficção e realidade, questionando se uma obra de imaginação pode impactar o mundo real.

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SINOPSE

Kay, um famoso artista de mangá, se vê sob o olhar atento de Phat,


o inspetor responsável por um caso de assassinato em série, depois que
os perfis das vítimas, os métodos dos crimes e as cenas do delito revelam
uma semelhança suspeita com cenas de trabalhos antigos de Kay.

Unidos pelas circunstâncias, os dois precisam unir forças para


descobrir a verdade, solucionar o caso e encontrar o assassino. Ao longo
do caminho, dois estranhos descobrem lentamente que estão ligados
por algo que se assemelha muito à confiança.

… Mas quanto mais a fundo eles investigam, mais o passado


ressurge, e o que ele revela começa a abalar o relacionamento deles…

À medida que as pistas vão surgindo, o vínculo que construíram é


posto à prova, deixando-os em dúvida se conseguirão seguir em frente
juntos ou se acabarão se tornando as próximas vítimas do assassino.
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SENSÍVEIS AO LEITOR, TAIS COMO: SEXO
EXPLICITO, LINGUAGEM IMPRÓPRIA, VIOLÊNCIA
FÍSICA OU VERBAL, ABUSO SEXUAL E OU
SOFRIMENTO PSICOLÓGICO.
LEIA COM CUIDADO!
PREFÁCIO DO
AUTOR
Quando a injustiça corrói tudo até a ruína, o ser humano
quebrado luta para se curar de feridas acumuladas aos
poucos, até que se tornam o impulso para alguém se levantar e
combater um mal que não nasceu de repente, mas que é uma
fogueira que entra em erupção lentamente a partir do
desespero.
Ao ser abandonado pela justiça, empurrado para fora do
processo legal e rotulado como culpado pela própria ganância,
o que se segue pode não ser a rendição, mas sim o ato de se
erguer para reivindicar a dignidade. Mesmo que para isso seja
necessário abandonar a humanidade, despertando demônios
do mundo das histórias em quadrinhos para servirem de
modelo, distorcendo-os e usando-os como desculpa para jogar
toda a culpa sobre papéis repletos de traços. Isso cria uma
confusão que encobre a mente de personagens como Kay, um
autor de mangá que foi deixado para trás pelo mundo, e Phat,
um inspetor que carrega o peso das expectativas sobre os
ombros. O destino acorrenta os dois às sombras de um
passado sombrio que nunca desaparece.
Este romance não deixa apenas o mistério de um
assassino para ser desvendado, mas também lança a pergunta
sem resposta sobre se uma obra nascida da imaginação pode
afetar o mundo real a ponto de escalar para um grande caso
capaz de mudar as engrenagens da justiça.
MR. KILL: Mangá da Morte está esperando que alguém
desate os nós de cada personagem, conecte as pistas de cada
página e encontre as evidências escondidas em cada linha,
para então retornar ao início de toda a história.
Wednesdaytus
INTRODUÇÃO
O cheiro metálico de sangue impregnava todo o quarto. O
piso de azulejo branco estava manchado de um vermelho
escuro que se espalhava por toda parte. O corpo bem
constituído se encolheu contra a parede, a visão distorcida
pelo sangue viscoso que escorria da cabeça. Duas mãos se
juntaram contra o peito em súplica. A voz que antes insultava,
o rosto que antes desprezava, agora só tinham lágrimas
correndo pelas bochechas e olhos em pânico, cheios de medo.
Se a morte fosse algo normal, lidar com ela não seria
diferente de aprender a conviver com ela em paz. No entanto,
se for uma morte sentenciada pela raiva e pelo rancor de ser
abandonado em uma sociedade indiferente, de ser pisoteado
até não sobrar nada, onde o poder da lei sagrada é dominado
por uma sujeira fétida que não pode ajudar nem um pequeno
inseto, então esse inseto precisa encontrar seu próprio jeito de
sobreviver a essa injustiça. Ele rasteja para fora da lama,
saindo do buraco para criar uma nova crença através de um
processo judicial escrito com gotas de sangue.
— Por favor... me deixe ir.
— ...
— Se... se você quiser qualquer coisa, eu te dou tudo.
É estranho que o que se pede nunca chega, mas no dia em
que não se quer mais, é oferecido sem perguntar. Dizem para
não se arrepender quando for tarde demais, porque não
haverá nem um fragmento de misericórdia.
O corpo alto se agachou para encarar a vítima no mesmo
nível. Um sorriso largo se abriu em seu rosto até mostrar os
dentes brancos alinhados. Com uma mão, ele limpou a
lágrima da pessoa à sua frente, enquanto a outra apertava a
arma afiada que refletia a imagem do dono da primeira
sentença.
Quando a ponta da faca cortou a carne, abrindo uma
ferida longa e admirável, o grito agonizante soou como uma
melodia ocidental. Quanto mais ouvia, mais prazer sentia.
— Aaaaagh!!!
A vítima gritava como uma criança, as lágrimas fluindo
como um rio sem parar. A dor percorria todo o corpo,
estimulando a adrenalina a fluir enquanto ele desenhava
linhas ainda mais belas por todo aquele ser. O demônio
acordou para cumprir seu papel, descontando tudo o que
havia sofrido sob opressão, antes de extinguir aquele fôlego
com o metal prateado de cabo longo, que se encaixava
perfeitamente na mão, como se tivesse sido moldado
especificamente para seu dono. O peso não era excessivo, mas
era forte o suficiente para lavar o rancor que transbordava, até
que o crânio se partisse.
Tum!!
Tum!!!
Tufos de cabelo cheios de sangue atingiram o rosto
sorridente. Em vez de diminuir, o prazer aumentou ao ver a
vítima ter espasmos. Ele golpeou com toda a força, o som da
respiração ofegante alternando com o som do objeto sólido
atingindo o crânio já estilhaçado, até que o corpo ficasse
imóvel.
Fim da sentença. Com um sorriso de satisfação no rosto,
ele se afastou para observar o desenho de mangá que estava
impresso e colado na parede. Era idêntico em cada detalhe,
impecável, provocando uma risada baixa que ecoou solitária
em meio ao silêncio que não oferecia resposta.
O prédio de três andares da delegacia de polícia
metropolitana estava lotado de cidadãos em apuros,
esperando que o processo judicial os ajudasse em um
momento de desamparo. Os policiais em serviço recebiam
ocorrências o dia todo sem descanso. Alguns pegavam suas
armas e corriam para o campo após receberem ordens; outros
corriam a toda velocidade com documentos de novos casos
para a sala de investigação central no segundo andar. Na
mesa, havia uma placa de alumínio com o nome gravado do
Major Yosaphat Traikanawut, que agora, como inspetor,
estava focado na leitura do inquérito de um caso
recém-encerrado antes de assiná-lo e arquivá-lo.
— Inspetor!
— Diga.
— Recebemos uma denúncia de pessoa desaparecida... é
um empresário importante de...
Seus ouvidos captavam os detalhes da longa explicação
enquanto a ponta da caneta escrevia no papel, entregando-o
ao oficial para ser levado ao andar superior para relatório.
— Verifique as câmeras de segurança novamente. Peça ao
TI para rastrear o sinal do celular.
— Sim, senhor.
Ele planejava tirar um dia de folga para descansar depois
de conseguir fechar um grande cassino ilegal no centro da
cidade há poucos dias, mas parece que precisaria recarregar
as energias para buscar pistas de um caso que parecia
comum, mas que talvez não fosse.
1
A ponta da caneta digital deslizava sobre a mesa
digitalizadora. A mão esguia tremia ao segurar a haste para
não deixar o traço torto sair do quadro. A imaginação fluía
rapidamente. Na mesa de trabalho de tamanho padrão,
equipamentos estavam espalhados por todo lado, restando
apenas o espaço central vago o suficiente para o computador de
mesa servir de base para a história que estava sendo
transmitida. A luz da tela batia no rosto úmido de suor, as
pupilas refletiam os traços que se moviam conforme a mão se
mexia.
O som da respiração ofegante seguia o mesmo ritmo do
órgão sob o lado esquerdo do peito. Quanto mais se aproximava
do objetivo, mais a ponta da caneta acelerava, a ponto de a tela
não conseguir acompanhar o ritmo. As rodinhas da cadeira
estavam estáticas no chão desde que seu dono entrou no
mundo dos sonhos. O cérebro, que nunca conseguia dormir
profundamente, ambicionava continuar os traços sem perder o
foco com o que estava ao redor. Não importava o que
acontecesse, pois a pressa não permitia perceber que o
descuido traria um resultado irreversível.
Até o momento em que o cotovelo atingiu o vidro de
nanquim, que caiu da mesa e se espatifou no chão, ecoando por
todos os seus nervos. O som ressoava em looping junto com a
imagem da cena voltando ao momento antes de ele se deitar. A
realidade que fez com que o sonho desta noite fosse mais longo
do que o normal tinha um motivo.
Os cacos de vidro se espalharam em pedaços pequenos
como pontas de alfinetes. O líquido viscoso e preto manchava
todo o chão, e...
Argh!
A luz natural lá de fora passava pela fresta da janela
entreaberta, batendo no pequeno espelho pendurado perto da
porta do banheiro. O ângulo diagonal da luz atingiu os olhos
negros intensos, fazendo com que ele erguesse a mão para
cobrir o rosto. Parecia que esta manhã não o receberia muito
bem, pois, mesmo com o visor do ar-condicionado marcando
menos de 25 graus Celsius, seu corpo suava a ponto de
encharcar sua camiseta favorita. Era como se os mecanismos
internos estivessem em conflito. O dono do corpo esguio
acordou do sonho com os sintomas anormais que ocorriam
com tanta frequência que já haviam se tornado normais. Ele
controlou a respiração, inspirando e expirando lentamente. Os
dois braços se apoiaram no colchão duro antes de ele se
levantar e sentar em uma posição confortável. Sua mão bonita
tateou a cabeceira da cama, pegando o frasco de remédio que
ficava ali por hábito.
A tampa da embalagem cilíndrica se abriu. A ponta dos
dedos pescou a cápsula branca, que ele engoliu com um
grande gole de água, que, por descuido, escorreu pelos cantos
da boca e manchou seu rosto. Com as costas da mão, ele
limpou de qualquer jeito. O corpo estava exausto, os olhos
vagos como os de alguém sem consciência, até que o efeito do
remédio começou a reconstruir seus sentidos. Não demorou
muito para que a dor de cabeça fosse temporariamente
eliminada pela dosagem calculada com precisão para aliviar o
mal-estar.
O rosto estava pálido, o cabelo sem corte há um bom
tempo estava bagunçado. O resultado de dedicar-se
arduamente ao trabalho por meses foi recompensado com
olheiras profundas. O dedo fino apertou o interruptor,
deixando a água correr até quase transbordar. O olhar
melancólico fixou-se no reflexo da água na pia, como se ele
estivesse desanimado da vida, antes que sua consciência
voltasse de vez por causa do líquido que transbordava e
molhava o chão. Com as duas mãos, ele jogou a água fria no
rosto para aliviar os resíduos de sentimentos que afundavam
em seu subconsciente, desviando os inúmeros pensamentos
no cérebro para focar nos números no relógio de parede.
Faltava menos de uma hora para o momento de enfrentar o
mundo fora daquele quarto quadrado.
As pálpebras piscaram para afastar as gotas de água que
embaçavam a visão no espelho. Ele soltou um longo suspiro
após analisar o próprio rosto até se dar por satisfeito. Com as
duas mãos, deu tapinhas nas bochechas antes que os lábios
finos, antes cerrados, se abrissem em um sorriso, como fazia
todas as manhãs. Traços de vivacidade apareceram como
covinhas em ambos os lados do rosto, enviando um brilho
caloroso aos olhos, como se aquela pessoa nunca tivesse tido
uma tristeza sequer.
Finalmente parecia o autor de uma história alegre de um
mangá de romance juvenil...
Rrrr...
O celular enviou uma notificação de que ele precisava
correr para limpar a sujeira de quem dormiu sem tomar banho
desde a noite anterior. O corpo alto passou sob o chuveiro em
pouquíssimo tempo.
Os pés se esquivavam das pilhas de papel acumuladas no
chão, já que na mesa não sobrava espaço para elas. Uma
camiseta preta larga com estampa gráfica e uma calça jeans
foram vestidas sem muito critério. Ele socou os equipamentos
necessários na mochila enquanto calçava os tênis, batendo a
ponta dos pés no chão para ajustá-los. Não esqueceu de pegar
a chave do quarto, que estava misturada com papéis de nota
sobre a mesa como se fossem lixo. O olhar percorreu a
bagunça do quarto, ficando satisfeito ao ver que tudo
continuava desarrumado como sempre.
A ponta do dedo tocou o interruptor de luz ao mesmo
tempo em que a porta se abria. O rapaz ajustou os ombros,
jogando a mochila nas costas e colocando os fones de ouvido.
Deu play no Podcast que não tinha terminado no dia anterior e
seguiu para o destino que fazia com que cada um de seus dias
terminasse de forma exaustiva.
— Bom dia, irmão.
— Quase atrasado.
— O atraso não foi meu, foi do mototáxi.
— É assim mesmo que se fala, todo problema sempre se
resolve culpando os outros.
Uma risada ecoou junto com a voz do editor, que chegara
pouco antes dele. O rapaz o cumprimentou com respeito,
enquanto o outro respondeu com um tapinha no ombro. A
conversa entre os dois homens, ambos altos, aconteceu no
trajeto da porta até a sala de trabalho nos fundos do escritório.
Em poucos passos, o outro já tinha adiantado quase todo o
conteúdo da reunião que aconteceria em instantes. O
conteúdo fez com que aquela manhã, que ele tanto tentava
tornar alegre, paralisasse. Ele ficou estático, olhando para as
costas de quem tinha acabado de falar e o deixado ali, até que
a porta da sala privada se fechou.
— Eu também fiquei chocado que nem você.
— ...
— Onde já se viu organizar um evento tão grande e não
pagar cachê para o autor?
— Só acontece aqui mesmo.
— Não aceita isso, cara.
A mochila foi colocada sobre a mesa em frente ao colega
de profissão, que parecia não ter voltado para casa desde a
noite anterior. O cumprimento indicava que ele já sabia dos
detalhes sobre a divisão de lucros do fan meeting que
aconteceria no fim de semana antes mesmo dele.
O benefício mal compensava o tempo gasto sentado, com
as costas curvadas, desenhando o mangá. A pressão o
obrigava a gastar a pequena renda para cuidar da saúde
precária. Além de ter que correr para entregar o próximo
capítulo, ainda teria que passar quase metade do dia
distribuindo autógrafos sem receber cachê. Não era de se
estranhar que muitos autores que entraram com ele
estivessem começando a dar adeus à empresa. Restava
apenas a pessoa à sua frente, que vivia o incentivando a lutar
contra o sistema capitalista, embora ele próprio também
aceitasse o destino sem sequer abrir a boca para protestar, da
mesma forma.
— Deixa pra lá.
— Pô.
— Vou esperar na sala de reunião.
— ...
— Limpa isso antes de entrar.
Ele disse ao companheiro de ideais, apontando para o
próprio lábio. No mesmo lugar no rosto do outro, havia uma
mancha de saliva seca. O colega cobriu a boca com a mão e
saiu apressado. O autor saiu de sua mesa para ir à reunião
sobre o assunto que era difícil de processar.
No entanto, ele teve que aceitar o plano exploratório que
gerava lucros astronômicos para a empresa, mas nenhum
lucro para ele, que apenas assentia com um sorriso enquanto
recebia cutucões por baixo da mesa periodicamente.
Os detalhes do evento foram explicados longamente até
que, por fim, cada um foi cuidar de suas obrigações para
depois se reunirem novamente. Perdeu metade do dia com
informações que mal absorveu. A única coisa que ficou
gravada na mente ao sair da sala de reunião foi que o
pagamento do manuscrito sairia mais tarde do que o previsto.
Essa frase foi o motivo pelo qual ele buscou um canto isolado
atrás da empresa para tragar nicotina, tentando aplacar a
ansiedade que corroía seu discernimento.
— Kay.
— Fala.
— Me empresta o isqueiro.
O ponto estratégico para os fumantes da empresa ficava
ao lado da saída de emergência, onde uma placa de Proibido
Fumar se destacava na porta. Mas isso não intimidava os
funcionários que usavam o intervalo para o vício. O isqueiro foi
passado para a pessoa que estava encostada no corrimão da
escada. O rosto estava voltado para cima, observando a
fumaça cinza que saía dos lábios, vendo-a se espalhar pelo
espaço fechado. Imaginava que parecia com nuvens em um
céu azul.
— O que aconteceu no seu braço?
— Hã?
— Essas marcas no seu braço. Nos dois lados.
— Bati na porta do quarto.
— Você está perdendo o juízo? Descansa um pouco, cara,
antes de começar o próximo capítulo.
— Como vou descansar? Se eu descansar, como vou ter
dinheiro para as despesas?
Se fosse apenas para si mesmo, a renda seria suficiente
para viver o mês sem dificuldades. No entanto, por ter outras
responsabilidades que precisava carregar, passar por cada
mês era um sacrifício. E terminando a reunião com aquela
surpresa do setor financeiro, nem precisava pensar muito
para saber o quão divertido seria este mês.
— Quer que eu te empreste?
— ...
— Quando tiver, você me devolve.
— Muito obrigado.
— ...
— Mas eu ainda dou conta.
Uma grande mentira saiu de sua boca porque ele não
queria ficar devendo favores a ninguém. Após deixar o tempo
passar junto com o cigarro que se acabou, ele decidiu ir até a
sala do editor, que estava atolado em trabalho, embora suas
próprias tarefas tivessem sido delegadas a outros.
Kay puxou a cadeira e sentou-se a convite do outro, que
não tirava os olhos da tela do computador. O som do telejornal
vinha dos alto-falantes, um ruído que atrapalhava o foco e a
frase que ele tinha ensaiado tanto antes de entrar.
— ...
— Enfim, o que foi?
— É que... eu estou precisando de dinheiro, senhor.
— E?
— Poderia, pelo menos, adiantar uma parte do pagamento
do manuscrito?
O silêncio foi a resposta que ele já previa encontrar. O
dono da sala desviou a atenção da tela quadrada, fazendo
menção de pensar enquanto batucava os dedos na mesa,
competindo com o som irritante do jornal.
— Eu realmente preciso.
— Quanto?
— Metade, pode ser?
— Está em cima da hora. Acho que 20 por cento dá para
conseguir.
— Sim.
— Espere aqui. Vou falar com o financeiro para agilizarem
o cheque.
— Sim. Muito obrigado.
Ele juntou as mãos em agradecimento ao chefe que saía
da sala, deixando-o sozinho com o computador que
continuava com o som alto. Kay encostou-se no encosto da
cadeira, soltando o ar e esperando o tempo passar até
conseguir o que precisava, mesmo que não fosse o valor
esperado. A quantia oferecida era suficiente para as
necessidades imediatas, mas se o próximo pagamento fosse
adiado novamente, ele provavelmente estaria sentado ali de
novo com a mesma frase, que ele deveria começar a praticar
para se tornar natural.
— ... cortamos agora para uma reportagem ao vivo.
— Direto de uma fábrica abandonada em área privada. A
polícia confirmou agora há pouco que o corpo encontrado
nesta manhã é do famoso empresário que estava
desaparecido.
A tela mostrava o rosto da repórter antes de cortar para as
imagens do local do crime. Suas sobrancelhas se franziram
enquanto os olhos focavam na imagem ao fundo que, embora
um pouco embaçada, parecia que...
— Kay!
— S-sim?
— Estou te chamando faz tempo e você não ouve. Ficou aí
viajando.
— ...
— Toma aqui. E não conte para ninguém que recebeu
antes.
— S-sim. Obrigado, senhor.
— Pois é. E que notícia de crime é essa?
— ...
— Assassinato?
— Já vou indo.
Ele não esperou o outro prolongar a conversa. Conseguiu
o que queria exatamente no horário de saída. Não havia motivo
para ficar mais tempo. O rapaz de pernas longas saiu
apressado da empresa, sem esquecer de se despedir dos
colegas pelo caminho com o rosto sorridente de sempre. Por
sorte, hoje o trânsito não estava congestionado. Em pouco
tempo, ele chegou ao seu condomínio.
A luz brilhante do letreiro da loja de conveniência
permitia ver que, no canto das caixas de estoque, havia algo
deitado como todos os dias. Suas mãos bonitas pegaram um
sachê de comida da mochila. Ele pegou o prato de aço antigo
que ficava escondido sob um estrado de madeira, jogou fora os
restos de ontem e colocou a comida nova para a criatura
peluda de quatro patas, que se levantou e se espreguiçou até
ficar inflada.
Miau.
— Dormiu tanto que está até magro.
— ...
— Acorda para a vida.
Miauuu.
O dono dos músculos moles respondeu enquanto
abaixava a cabeça para devorar o jantar. Kay ficou observando
por um momento antes de se despedir com um carinho na
cabeça macia. Embora o expediente tivesse acabado, as
obrigações do dia não tinham terminado. Muitas coisas o
esperavam, como o mangá cujo manuscrito ele tinha acabado
de fechar no dia anterior, mas que precisava continuar o novo
capítulo imediatamente para não perder o engajamento.
Ao colocar a mochila no lugar, ele se jogou na cama. Os
olhos fixos no teto, deixando o corpo aliviar o cansaço por
conta própria até ter forças para se levantar e organizar os
papéis espalhados na mesa. Ele alinhou as pontas,
empilhando-as sobre a montanha de documentos que chegava
quase à altura de sua cabeça quando estava sentado. Seus
olhos negros observaram os desenhos colados de forma
desordenada na parede. Ele criou um cronograma aproximado
da história do novo capítulo na cabeça, recuperando o foco
antes de alcançar seu lápis favorito na caixa de materiais.
Seus dedos finos se esticaram, fazendo as articulações
estalarem como se alguém estivesse amassando um saco
plástico. Era o sinal de que a noite se estenderia até o
amanhecer, como todos os dias.
As horas se passaram. Todos os sentidos de seu corpo
estavam voltados para o mangá de romance juvenil. O lápis
desenhava cada movimento a partir das imagens em sua
mente. Da página 1 para a página 2, levou pouco tempo,
terminando a página 3 no momento em que a lua lá fora já
brilhava intensamente. Kay olhou para o resultado com
satisfação. Apesar de ter tido muitos problemas para lidar
hoje, ao menos o volume de trabalho à sua frente era o
suficiente para fazê-lo esquecer todas as preocupações por um
momento.
— Já são nove da noite?
A voz rouca falou consigo mesmo em um sussurro. Ele
pegou a garrafa de água ao lado e bebeu enquanto se
levantava. Desta vez, a garrafa não foi jogada no chão, mas sim
arremessada com precisão na lixeira.
Os braços esguios se alongaram como os do gato gordo
que ele alimentara à tarde, aliviando a tensão de estar sentado
por tanto tempo. Na verdade, agora deveria ser o momento de
descansar após ter se esforçado até o limite. Mas como havia
algo importante para resolver, ele vestiu um casaco
corta-vento preto e calçou os mesmos tênis de antes. Um boné
da mesma cor do casaco cobria o cabelo desordenado. Com as
mãos, ele pegou a bolsa transversal sem estampas e ajustou o
zíper na frente do corpo. O pequeno fecho prateado foi puxado,
abrindo o compartimento vazio, pois o que era necessário
estava guardado na gaveta ao lado da mesa de trabalho.
Uma ferramenta manual de tamanho ideal, feita de aço
temperado e com cabo revestido de couro, foi retirada. O peso
não era excessivo e não parecia volumosa ao ser carregada
sempre que ele precisava ir a lugares mais distantes.
Assim como nesta noite...

O som das sirenes ecoava por toda a grande área


industrial abandonada. Faixas de isolamento limitavam o
acesso de todos os veículos de imprensa que vinham de todas
as direções após a notícia do corpo encontrado vazar há menos
de uma hora. Dezenas de policiais gritavam contra o som dos
alarmes, reforçando que pessoas não autorizadas se
afastassem, antes que alguém fosse processado por obstruir o
trabalho dos investigadores, que aceleraram além do limite
permitido vindo da cobertura de luxo da vítima no centro da
cidade até a periferia em menos de 30 minutos.
— Boa noite, inspetor.
— Onde está o Nop?
— O oficial Nop já está lá dentro.
O homem alto se abaixou para passar sob a corda de
isolamento que o policial levantou. O rosto bem desenhado
assentiu à resposta do subordinado. Ele empurrou a porta de
ferro, deixando-a entreaberta, e entrou no local que agora
estava repleto de peritos e legistas começando seus trabalhos.
Aquele distrito industrial estava abandonado há mais de
10 anos. A vasta área tinha pequenas fábricas em todos os
cantos, e a última fábrica, ao lado do rio principal, foi
escolhida como o local do crime que o ocupava há quatro dias
inteiros.
— Inspetor Phat, por aqui.
O dono do nome procurou pela voz de quem levantava a
mão ao longe. Em seu campo de visão, surgiu a equipe de
investigação sob seu comando. Seus passos pararam diante
de Nop, um dos membros da equipe. Seus olhos percorriam a
cena do crime atrás de outra camada de faixa amarela. Lá
dentro, peritos e médicos legistas caminhavam lentamente.
— Diga.
— Sim. Quem encontrou o corpo foi um homem em
situação de rua que vive na fábrica da entrada. Ele alega que
vem pescar aqui no rio regularmente, mas hoje viu o portão de
ferro da frente aberto e entrou para conferir.
— ...
— O médico legista supõe inicialmente que a morte
ocorreu há pelo menos 24 horas. A causa foi um ferimento no
crânio causado por um objeto contundente semelhante a um
martelo. Outros ferimentos pelo corpo parecem ter sido feitos
por objetos cortantes enquanto a vítima ainda estava viva.
Nenhuma arma foi encontrada no local, acredita-se que o
assassino a levou ou a descartou em algum lugar.
— Ele torturou a vítima propositalmente antes de matar.
— Sim.
— Me dê um par de luvas.
— Aqui está.
— Enviei as fotos no chat. As pistas na cobertura da
vítima têm vários pontos suspeitos. Quero que ajude a
pesquisar as informações.
— Entendido.
— Ah, imprima todas as fotos. E assim que acharem a
arma usada no crime, me reporte imediatamente.
Phat deixou as ordens enquanto ajustava as luvas, antes
de entrar na área isolada. O lugar onde o corpo do homem
azarado jazia sobre uma poça de sangue seco...

O estado do cadáver no chão de concreto batido coincidia


com as fotos do último dia antes de ele desaparecer das
câmeras de segurança da cobertura. Feridas profundas pelo
corpo estavam abertas, revelando camadas de tecido interno.
A camisa polo estava cheia de manchas de sangue e sujeira, a
ponto de mal dar para perceber que um dia foi branca. A
postura estranha do corpo sem vida o fez franzir a testa
involuntariamente.
A cabeça tinha um afundamento que reforçava a hipótese
do objeto contundente. O rosto pálido pela falta de circulação
sanguínea, o corpo esticado até as pontas dos pés que estavam
separadas, mas com os calcanhares encostados. As duas
mãos estavam postas sobre a fivela do cinto, que estava
devidamente colocado. As mangas da camisa e as barras da
calça estavam organizadas, em contraste com os olhos
arregalados e os lábios abertos, como se ele estivesse gritando.
Phat percorreu o olhar ao redor, mudando o foco da forma
da morte para o contexto da cena do crime. Seus olhos
castanhos escuros não deixavam passar nem os pequenos
detalhes, o que o fez parar ao notar que os rastros de sangue
ali eram diferentes dos outros pontos. Parecia que os
calcanhares tinham sido encostados de propósito, fazendo
com que a poça de sangue, que deveria fluir naturalmente,
apresentasse marcas de movimento que a diferenciavam do
restante.
— Posso separar os pés?
Ele se agachou ao lado do perito criminal que estava
usando uma pinça para remover fragmentos estranhos do
tecido.
— Pode mexer, já tiramos as fotos. Mas por favor, coloque
de volta na posição original, inspetor.
O inspetor assentiu. Com as duas mãos, afastou o pé
esquerdo da vítima do calcanhar direito que estava unido. O
sangue parecia ter sido limpo, fazendo com que a área do
calcanhar estivesse quase sem a sujeira presente nos outros
pontos. Seus olhos investigaram junto com o perito sentado ao
lado, até pararem em traços pretos no meio do calcanhar
esquerdo. O formato parecia uma estrela dentro de um círculo,
porém as pontas estavam na direção oposta de uma estrela
normal.
— Ei!
— ...
— Uma tatuagem? Não, espere... isso é marca de caneta
hidrográfica.
— ...
— Uma estrela de cinco pontas invertida... que símbolo é
esse, inspetor?

O som das rodinhas da cadeira gamer movia-se para


frente e para trás diante do quadro branco na parede do
quarto. Canetas coloridas ligavam locais, evidências e
conexões da vítima do assassinato na fábrica abandonada. Ele
se levantou para pegar as fotos que seu subordinado de
confiança tinha imprimido e as colou junto ao grupo que
acreditava seguir a mesma linha. Seu olhar releu o perfil do
empresário de quarenta e poucos anos mais uma vez, em
busca de pistas que pudesse ter ignorado.
O falecido era uma figura pública conhecida no setor
financeiro. As fotos em seu escritório estavam repletas de
prêmios de diversas organizações. Os troféus na vitrine
indicavam que esse empresário era muito prestigiado. No
entanto, as informações obtidas com pessoas próximas não
indicavam nenhum inimigo que tivesse um rancor profundo o
suficiente para cometer um assassinato.
Outra evidência crucial que o deixava intrigado era o
símbolo da estrela de cinco pontas invertida encontrado no
calcanhar do cadáver, desenhado com caneta preta. Phat
lembrava-se vagamente de filmes que vira há muito tempo que
aquele era um símbolo de seitas satânicas. Se a vítima não
fosse do tipo que vendeu a alma ao demônio para obter
sucesso e criou o símbolo para adorar a seita, era possível que
fosse uma mensagem oculta deixada pelo assassino. Este
assassinato poderia ser o começo de...
— Mano! Afinal, você pode ir para a fila da feira do livro
para a Praew amanhã?
— Que susto.
— Sendo policial e tão assustado assim?
A irmã caçula entrou de repente no quarto que não estava
trancado. O primeiro cumprimento, após não terem se visto o
dia todo, foi o pedido que ela vinha tentando fazer a semana
inteira. O dia da orientação do estágio dela coincidia
justamente com o dia da sessão de autógrafos do seu autor
favorito, e ela precisava daquele autógrafo de qualquer jeito
para decorar seu quarto.
— Ai, ai... o mano não está livre.
— É só um pouquinho. Vai lá para a fila para mim.
Prometo que em menos de duas horas eu chego lá.
— Você não pode ir para a fila depois que terminar a
reunião? O evento ainda nem vai ter começado, não é?
— Mas eles só aceitam as primeiras 100 pessoas! Tenho
medo de não conseguir.
— ...
— Por favor... mano, você sabe o quanto os traços do
[Link] são importantes para mim?
— Você é obcecada demais por ele.
— Como não ser? O traço dele tem muito charme. A
expressão dos olhos dos personagens é muito boa. Quando ele
escreve algo triste, é triste de verdade.
— ...
— É a coisa mais triste que eu já li na vida, sério mesmo.
Praew continuou divagando, abraçando o mangá contra o
peito e fechando os olhos, provavelmente imaginando os
traços do tal [Link] pelo qual ela estava implorando para que
ele guardasse o lugar na fila amanhã de manhã.
Phat suspirou, colocando as mãos na cintura e olhando
para os olhos pidões da irmã.
— Tá bom, tá bom, eu vou.
— Eba! O mano Phat é o mais fofo. Não pode sair de casa
tarde. Às 10 horas tem que estar na fila. Os primeiros 100
lugares têm que ser nossos, ok?
— Eu só vou esperar por duas horas.
— Assim que terminar a reunião, eu vou correndo, senhor
inspetor!
Praew fez uma saudação militar antes de entregar o
mangá que deveria ser usado para garantir o lugar na fila.
Phat o pegou e, cedendo ao impulso, deu uma leve batida com
o livro na cabeça da irmã.
— Obrigada! Ei...
— O quê?
— Aquela foto ali atrás é do assassinato que está todo
mundo comentando agora?
— Não, não... não se meta no trabalho do mano.
A teimosia que ela carregava desde o nascimento não
seria contida apenas por palavras, pois ela já estava
observando as fotos do caso no quadro branco sem permissão.
Ele cobriu os olhos de Praew antes de puxá-la para longe dos
detalhes que ainda não deveriam ser conhecidos pelo público,
inclusive por ela.
— Ei, a foto do corpo é igual a um que eu li no mangá!
— Volte para o seu quarto agora.
Phat a levou, quase arrastando, para fora. A resistência
dela, que batia na altura do seu peito, não o incomodava. Mas
antes de a porta fechar, ela ainda repetiu a mesma frase pela
segunda vez.
— É igualzinho mesmo, mano Phat!

O ar estava quente, o lugar lotado. O barulho das pessoas


competia com os anúncios nos alto-falantes e a música de
fundo que animava o evento. Tudo aquilo estava deixando
Phat, que estava na fila há quase duas horas, de mau humor.
O homem alto parecia deslocado em meio a tantas garotas
segurando livros. Ele olhava o relógio periodicamente e
mandava mensagens para a irmã, que respondia dando
esperanças de que já estava saindo há uma hora, mas até
agora nada.
Phat suspirou pela centésima vez antes que toda a
agitação cessasse com a chegada da atração principal do dia, o
tal [Link]. O autor, que parecia ter a mesma altura que ele,
acenou para os fãs tanto na fila quanto na área externa para
quem não chegou cedo o suficiente. Os gritos estridentes o
fizeram franzir a testa. O sorriso largo e o jeito gentil ao apertar
as mãos só aumentavam o fanatismo.
A uma distância curta, Phat conseguia vê-lo claramente.
Ele pegou o celular para tirar uma foto e enviar para a
verdadeira dona da vaga, que respondeu com um grito por
escrito mais longo que um relatório policial. A fila de
autógrafos começou a andar e a irmã sinalizou que chegaria
em 10 minutos. Felizmente, com o início da atividade, o
barulho diminuiu consideravelmente, permitindo que o autor
tivesse um tempo mais privado para conversar com os fãs.
Com o ambiente mais calmo ao redor, os olhos castanhos
escuros tiveram tempo de notar outras coisas. Era um hábito
de Phat observar ao redor em busca de qualquer anomalia
para treinar suas percepções. Foi assim que seu olhar parou
em um homem baixo que estava quase no fim da fila. O
homem olhava para a esquerda e para a direita, antes de tirar
o celular do bolso da calça e movê-lo para baixo, tentando
fazer algo que não parecia boa coisa. O instinto disse que ele
precisava chegar até o sujeito antes que ele parasse com o
comportamento suspeito. A mão de Phat segurou o aparelho
de luxo que estava prestes a ser inserido sob a saia da moça à
frente. Ele apertou com força, puxando o celular para trás de
si para que o dono não o alcançasse.
— O-o que é isso? Esse celular é meu. O que você está
fazendo?
— O que você estava fazendo?
— Devolve, senão vou chamar a polícia.
— Ela já chegou.
— O que está acontecendo aqui?
Uma voz vinda de trás fez com que toda a atenção se
voltasse para o recém-chegado que, de perto, parecia ser mais
alto. Devido à confusão, [Link] interrompeu a sessão de
autógrafos e desceu para resolver pessoalmente. Phat
entregou o celular para o protagonista do evento antes de dizer
o motivo que fez todos olharem para o culpado ao mesmo
tempo.
— Ele estava tirando fotos sob a saia desta moça.
— Eu não fiz nada disso!
— Se for inocente, então diga a senha do celular.
— ...
— Pois é.
Vupt!
A ponta afiada de uma lâmina fina que foi deslizada para
fora do cabo avançou direto em direção ao rosto,
acompanhando o movimento de seu dono que avançava para
perto. Um grito ecoou enquanto ele se movia para proteger o
escritor, que segurava uma evidência importante nas mãos.
A distância era suficiente para que a ponta do pé atingisse
o peito do outro, fazendo o corpo colidir contra o chão. Phat
aproveitou a rapidez para assumir o controle, pisando no
pulso da mão que segurava o estilete até que ele fosse solto. O
segurança guardou a arma para longe. As algemas escondidas
sob o casaco foram usadas no corpo que jazia de bruços no
piso de cerâmica do shopping. Ele pressionou o joelho contra
as costas do indivíduo para que parasse de se debater,
prendendo os dois pulsos atrás das costas antes de travar as
algemas.
— Se queria que o caso chegasse à polícia, chegou
conforme o pedido.
— Me solta, porra!
— Vá esperar na delegacia primeiro, então.
O novo suspeito foi entregue a um policial que chegou
correndo no momento em que tudo terminava. Phat explicou a
situação rapidamente, pois aquela jurisdição era a mesma à
qual ele pertencia, e ele mesmo voltaria para lidar com quem
ainda não parava de gritar após terminar seus afazeres.
A evidência, um celular usado para confirmação, foi
colocada em um saco plástico selado. O oficial prestou
continência e levou o encrenqueiro para fora da cena. Tudo
voltou ao normal rapidamente, graças ao profissionalismo do
apresentador, embora a sessão de autógrafos precisasse de
uma breve pausa para que a atmosfera voltasse a ser alegre,
como convinha a um evento de um quadrinho de romance.
— Você está bem?
— Estou.
— Que sorte você ter percebido, muito obrigado.
— De nada.
— Então, posso retribuir ao fã com um privilégio especial?
— Hã?
— Irmão, tira uma foto para a gente.
Sem tempo para recusar a gentileza, uma terceira pessoa
se aproximou com uma câmera Polaroid, como se soubesse de
antemão o pedido daquele que se aproximava sem permissão.
Um braço largo foi colocado sobre o ombro, abaixando-se para
que os rostos ficassem no mesmo nível. O cérebro de Phat
tentava processar a confusão da situação, e antes que pudesse
decidir qual comando seguir, a contagem regressiva começou
junto com o flash que atingiu seus olhos.
— Contando: 3, 2, 1.
Click!
O ombro foi liberado e a foto autografada foi estendida à
sua frente. Um privilégio que não havia sido solicitado, mas
que, por educação, ele estendeu a mão para aceitar.
— É hora de continuar os autógrafos.
— Sim.
O dono do sorriso na foto Polaroid voltou para o palco de
onde viera. Phat olhou para a foto e depois para o rosto da
pessoa na imagem, que ainda se virava para sorrir para ele.
Apesar da desconfiança, ele acabou sorrindo com aquela
ingenuidade antes de guardar o registro no bolso interno do
casaco. Foi nesse momento que o som celestial esperado por
mais de duas horas ecoou.
— O que você estava conversando com o Kay agora há
pouco, Phat?
— Até que enfim apareceu.
— Conversando o quê?
— Não estávamos conversando nada. Toma aqui.
O livro foi devolvido ao dono, que lançava um olhar
implorante pela milésima vez. Antes que pudesse insistir, o
celular tocou. O nome na tela fez com que ele atendesse
imediatamente, pois sempre que recebia uma ligação em vez
de mensagem, era algo importante.
E parecia que sua intuição estava especialmente
aguçada.
— Alô.
— Inspetor Phat, acabamos de receber um informe de que
o subsecretário do ministério desapareceu de casa há dois
dias. O senhor Chaiwat suspeita que...
— Entendi. Estou indo.
Ele pagava suas multas corretamente, mesmo que
frequentemente dirigisse de forma apressada e fora das
normas. Seus passos pelos corredores não pararam para
cumprimentar ninguém; o destino era a sala de reuniões onde
a equipe de investigação especial aguardava seu chefe, que
acabara de sair de uma fila para conseguir o autógrafo de um
autor de quadrinhos.
— Vamos.
O corpo alto se encostou na borda da mesa central. Suas
mãos receberam os documentos, lendo os detalhes
superficiais sobre o senhor Theerakorn, um alto funcionário
do ministério que fora visto pela última vez há dois dias ao
voltar para casa, antes da denúncia de desaparecimento ser
feita.
— O desaparecimento de alguém com esse cargo neste
momento fez o senhor Chaiwat sinalizar que pode estar
relacionado ao caso do empresário.
— Quem fez a denúncia?
— O marido. Ele disse que o esposo costumava não voltar
para casa com frequência, mas esta foi a primeira vez que não
conseguiu contato, por isso denunciou.
— Processos, inimigos, negócios?
— No ano passado, houve um mandado relacionado a um
caso de corrupção na compra de defensivos agrícolas, mas foi
absolvido.
Ele assentiu ao receber a informação. Seus olhos
percorreram o processo da absolvição. O conteúdo envolvia
corrupção na compra de pesticidas e vários outros detalhes
obscuros alegados nos bastidores. No entanto, tudo foi
descartado, transformando o cinza em branco; de suspeito, ele
passou a inocente.
— Desaparecido há dois dias.
— ...
— Isso significa que temos menos de um dia restante.
— Como o senhor sabe, inspetor?
O rosto sob a armação grossa dos óculos perguntou após
um longo silêncio. Era um dos membros da equipe de
investigação que precisava acompanhá-lo por ordens
contínuas desde o caso do assassinato do empresário. Além de
seu braço direito, o capitão Nop, que trabalhava com ele desde
o primeiro dia, havia também Din e Sing, cujos talentos se
destacavam entre os colegas e que foram recrutados
recentemente.
— Se usarmos o caso anterior como modelo, o empresário
desapareceu dois dias antes da denúncia. A polícia encontrou
o corpo no quarto dia, e o resultado da autópsia mostrou que
ele morreu pelo menos 24 horas antes de ser achado.
— ...
— Já neste caso...
Ele abriu a penúltima página da pasta. Imagens de
câmeras de segurança na rodovia capturaram a última
posição de Theerakorn ainda vivo. O dedo apontou para o
canto superior da foto onde o horário aparecia.
— Se contarmos o desaparecimento a partir daqui, já se
passaram 2 dias e 17 horas.
— Temos apenas mais 7 horas.
— Aproximadamente.
— E o que vamos fazer?
— Voltar para dois dias atrás. Vocês dois pesquisem quais
lugares esse trajeto poderia levar onde ele costumava ir.
Verifiquem as câmeras de segurança com detalhe novamente.
Nop, você vem comigo.
— Entendido.
Após delegar o trabalho aos novatos, ele e Nop saíram
apressadamente em busca de pistas que ocupavam menos de
uma página de papel. Seu cérebro raciocinava durante todo o
percurso pela estrada principal que levava do ministério para
casa. Se tudo seguisse sua suposição — a qual ele torcia para
estar errada —, significaria que o tempo estava se esgotando.
E dar a quarta volta de carro não rendeu nada novo.
— Se ele estava dirigindo sozinho, por que motivo sairia
do trajeto?
— Talvez tivesse um encontro marcado.
— Com quem?
— Eu também não sei.
Era mais um dia de uso intenso do cérebro. Olhando pelo
vidro, Phat passava por aquela placa pela quinta vez. Tudo
começara à tarde, com o sol ainda alto, mas logo a luz
alaranjada encerraria sua missão diária. Diferente dele, que
não conseguia prever quando aquela missão terminaria, a
menos que surgisse alguma pista adicional nesta última hora.
Rrrr...
— Diga, Din.
— Verificamos todas as câmeras. Depois que a última o
capturou, nenhuma outra registrou o carro.
— Entendi.
— Mas tem um detalhe.
— ...
— Normalmente o senhor Theerakorn voltava por outro
caminho. Esta foi uma das poucas vezes que ele usou esta rota
para casa.
— Me mande o mapa do caminho que ele costumava usar.
— Sim.
A ponta do dedo acessou o aplicativo de navegação assim
que o outro enviou o mapa. O celular conectou-se à tela do
carro, e o destino marcado surgiu com o tempo estimado de
chegada.
— 40 minutos. Quer que eu assuma o volante?
— Melhor eu dirigir.
— Então ande logo.
Trabalhar contra o tempo era rotina para a polícia. O
subconsciente dizia que sua intuição dificilmente falharia
quanto ao tempo restante de menos de meia hora, mas a linha
vermelha de trânsito na tela o estava deixando louco.
Sem precisar olhar para o relógio, ele sabia que, se o
padrão do primeiro caso se repetisse, Phat talvez não tivesse
tempo suficiente para salvar a próxima vítima. A iluminação
externa, menos clara que a do dia, tornava o trabalho ainda
mais difícil; a eficiência visual não era a mesma de antes. Ele
enviou mensagens para os demais membros para que se
adiantassem por rotas menos congestionadas até os pontos de
encontro. Com o coração inquieto, tentava manter a calma
para não deixar o colega nervoso também.
Demoraram mais de 40 minutos para atravessar o
cruzamento caótico, mais do que o aplicativo previra. Nop
pisou no acelerador e entrou na rua que levava à casa do
subsecretário desaparecido. Ao notar o contexto deserto, sem
casas e apenas com a luz intercalada dos postes, algo fez Phat
ordenar que o motorista parasse bruscamente.
— Nop, para por aqui.
— Oi?
O carro encostou no acostamento no momento em que
luzes fortes surgiram da curva. Ele desceu do carro junto com
seu subordinado de confiança. A mão subiu para proteger os
olhos dos faróis dos veículos que chegavam e estacionavam
logo atrás. Os demais membros chegaram quase ao mesmo
tempo, de forma surpreendente. Din e Sing se aproximaram do
grupo; não perguntaram nada, apesar da expressão de dúvida.
— Ajudem a procurar ao redor.
— Como?
— Apenas uma busca rápida.
Lanternas foram distribuídas para todos os membros da
equipe. Os quatro se espalharam pela área de plantação de
arroz, onde os pés chegavam à altura dos joelhos. A atmosfera
era silenciosa, quebrada apenas pelo som distante de carros e
pelo ruído dos passos na lama. Phat iluminava o caminho,
pedindo internamente para não encontrar nada que
confirmasse sua intuição. Mas parece que o pedido foi negado
mais rápido do que esperava...
A luz da lanterna focou em um sapato sujo de barro. Mais
acima, uma calça social preta encharcada. A parte inferior do
corpo estava sobre o dique da plantação, enquanto a parte
superior estava submersa no lodo. Apenas o rosto aparecia,
coberto de sangue que começava no meio da testa. Os olhos
estavam arregalados. A camisa, com todos os botões abertos,
revelava um peito cortado com feridas profundas.
Os dois braços estavam caídos ao lado do corpo. Na palma
da mão, entreaberta, havia o símbolo de um culto satânico,
idêntico ao que ele encontrara recentemente. O corpo ainda
não estava rígido; o sangue morno ainda escorria.
O corpo sem vida diante dele confirmava que ele chegara
apenas um pouco atrasado...
No andar superior da delegacia, o sofá era ocupado pelo
dono da sala e pelo convidado, o inspetor responsável pelo
caso e sobrinho único da autoridade máxima daquele prédio
de três andares.
— Agora a sociedade está espalhando a notícia por todo
lado.
— ...
— Antes que as coisas piorem, acho que você precisa
resolver este caso logo, Phat.
— Sim, tio.
— ...
— Você será vigiado porque este caso está despertando
muito interesse.
— ...
— Decida com rapidez e consciência, e isso abrirá o
caminho para nós antes de qualquer outra pessoa.

Os boatos se espalharam mais rápido do que o imaginado,


mas os detalhes eram limitados a fotos do local do crime e do
corpo borrado que vazaram de fontes internas. Agora, todas as
agências de notícias faziam diversas análises. O mesmo
acontecia na agência onde a única irmã do inspetor
responsável pelo caso estagiava.
Praew observava as imagens na tela do computador. Ao
seu lado, Prim, uma colega que estagiava no mesmo período,
tentava forçar a vista para entender como era a imagem
borrada.
— Estranho.
— Sim, estranho. Mas estranho como?
Prim perguntou à dona do computador, que dava zoom
nas imagens. As sobrancelhas estavam franzidas e os lábios
apertados com incerteza.
— Parece um quadrinho que eu li em um blog
underground.
— ...
— O local do crime assim, o corpo posicionado desse jeito.
— Que quadrinho é esse?
— Ei!!
Duas vozes ecoaram em uníssono devido ao susto. Um
rosto se intrometeu com a pergunta que fez Praew dar um
pulo. No entanto, ao ver quem era, o coração que parecia ter
parado voltou ao peito.
Than, um influenciador de notícias popular nas redes
sociais e dono da agência onde ela estagiava, aguardava a
resposta sobre a teoria de Praew.
— Eu acho que é um caso de assassinatos em série
imitando os quadrinhos que eu li. Tanto o sequestro e morte
do empresário quanto este caso recente do subsecretário.
— ...
— Eu lembro que a posição do corpo desenhado era igual.
O local do crime é idêntico.
— Então escreva um roteiro sobre isso para mim...
— Eu?
— Vocês duas... Acho que hoje temos uma lição de casa
para a polícia.
Naquele mesmo dia, tudo foi escrito rapidamente pelas
mãos de uma fã dedicada, que acabara de descobrir a sorte
que teve ao salvar alguns capítulos por medo de que o autor os
escondesse um dia. Embora a página do blog continuasse
aberta, não havia movimentação; cada capítulo havia sido
bloqueado pelo autor com uma senha, impedindo que
qualquer pessoa os lesse. Para completar a sorte, alguns
arquivos de imagem que Praew guardara batiam perfeitamente
com o local do crime e as características das mortes.
Um vídeo de um minuto foi compartilhado rapidamente. A
análise interessante do influenciador Than estava sendo
comentada em larga escala. As ilustrações usadas para
comparação eram muito próximas do caso real. Mas, como o
nome do quadrinho e do autor não foram revelados, os
comentários fervilhavam com suposições. Todos queriam
saber onde ler mais. Surgiram debates e discussões intensas.
A autora do roteiro sorria orgulhosa enquanto o número de
visualizações subia rapidamente.
Rrrr...
O som do telefone interrompeu o momento de Praew, que
estava radiante. Na tela, apareceu o nome da pessoa que ela
precisava atender, pois sabia imediatamente que o conteúdo
que escrevera chegara ao inspetor talentoso, que raramente
ligava para a irmã.
— E aí, Phat? Viu a notícia?
— Foi você quem escreveu? De onde tirou isso?
— Tirei do meu computador. Eu salvei os arquivos.
— Mande tudo para mim.
— Agora você pede, mas naquele dia disse que não estava
interessado.
— Mande primeiro, depois te levo para jantar.
— Só de voltar para o jantar no horário já está bom.
Enviei.
— Muito obrigado. Ei, espera.
A ponta do dedo que ia encerrar a chamada hesitou. Ele
levou o telefone de volta ao ouvido por causa da voz que o
deteve a tempo.
— Diga.
— Qual é o nome do autor desse quadrinho mesmo?
— Mr. Kill.
— ...
— O nome é Mr. Kill.

O reflexo no aço inoxidável que fora amolado até ficar


afiado mostrava um sorriso arrepiante, enquanto a ponta
mergulhava na pele enrugada pela idade do subsecretário
prestes a se aposentar. Gritos de misericórdia misturavam-se
aos soluços. Lágrimas rolavam pelo rosto unindo-se ao sangue
que escorria. Uma imagem marcante e impressionante, como
uma obra de arte prima.
O dono do sorriso estava satisfeito com os cortes por todo
o corpo. Ele deixou o objeto cortante de lado, não por piedade
às mãos que imploravam pela vida, mas porque estava prestes
a finalizar a obra com um martelo de tamanho ideal,
golpeando com toda a força a cabeça da vítima até que ela
colidisse com o chão...
Ele acordou com um pesadelo na cama de seu quarto de
sempre. Um sonho que, mesmo forçando um sorriso diante do
espelho por um bom tempo, não conseguia tornar o dia
normal. O dono do corpo alto e magro estava perdendo o
controle ao ver as notícias em todas as plataformas sobre os
assassinatos em série que ocorriam. Kay fugia das conversas
sempre que alguém mencionava a comparação entre os
quadrinhos, os locais e o estado dos corpos montados pelo
assassino. Por fim, o desconforto causado pelo interesse geral
no caso — que recebeu o nome do quadrinho revelado nos
comentários — fez com que ele voltasse cedo para casa no dia
anterior e passasse a noite encarando seu próprio trabalho.
O arquivo nomeado Nekros.
Embora as fotos do caso estivessem censuradas, ao
colocá-las ao lado dos quadrinhos, elas eram quase idênticas
em cada detalhe, incluindo o perfil dos personagens, como o
empresário ou o subsecretário. Os pelos do corpo arrepiaram;
quanto mais olhava, mais horrorizado ficava com a
possibilidade de o assassino estar copiando os métodos de sua
caneta.
A noite agitada e confusa passou com dificuldade. Ele só
conseguiu dormir quase ao amanhecer, mas no sonho as
imagens que ele mesmo criara o perseguiram até que
acordasse após menos de meia hora de sono. Uma mensagem
de dispensa foi enviada ao grupo da empresa antes de desligar
o celular e se isolar do mundo exterior.
Os olhos pretos fixavam-se na tela do computador aberta
na mesma página. O rosto desolado voltou-se para a estante
ao lado da mesa. Na prateleira de cima, uma pilha de papéis
guardada não recebia atenção há anos, mas hoje Kay não
conseguia desviar o olhar. O dono do quarto levantou-se,
pegou os originais de seu esconderijo e os jogou no chão do
banheiro antes de atear fogo à pilha de papel, criando uma
pequena chama que logo se extinguiu, deixando apenas
cinzas. Observando a evidência destruída, ele voltou para
deletar o arquivo Nekros de todas as pastas e dispositivos de
memória que possuía.
O pavor o deixava cada vez mais inquieto. Ele andava de
um lado para o outro no quarto cheio de papéis, fechando os
olhos e tentando lembrar se restava algo que provasse a
existência daquele quadrinho. A única coisa que surgiu foi o
blog diante dele, que ainda não fora fechado. Apesar de tentar
logar com todas as senhas que conseguia imaginar, nenhuma
estava correta.
Com as costas curvadas e o rosto inclinado, ele
aproximou-se da tela. Seus dedos tocavam o teclado
repetidamente, mas recebia apenas o símbolo de erro como
resposta. As mãos subiram para bagunçar o cabelo; o órgão no
lado esquerdo do peito começou a descompassar, um sinal de
que ele precisava recorrer à cápsula branca na cabeceira
novamente.
O estado mental de querer entender o que acontecia
consigo era mais torturante do que tentar se bloquear. A
ansiedade corroía sua consciência; quanto mais tentava, mais
parecia que uma névoa o cobria.
— Que merda...
Finalmente, após o relógio marcar 23:00.
Ele decidiu se levantar, pegou o mesmo casaco de náilon,
guardou uma ferramenta de tamanho médio na bolsa
transversal junto com um boné da mesma cor para cobrir a
cabeça e saiu do quarto escuro.
Por mais de dois dias, a equipe de investigação especial
espalhou-se para buscar informações sobre o autor de
quadrinhos underground conhecido como Mr. Kill. A melhor
fonte de informação próxima a ele era sua irmã, que tinha
arquivos de imagens salvos ilegalmente. Dezenas de papéis A4
foram impressos e colocados ao lado das cenas das mortes,
reforçando que a história do quadrinho era o modelo que o
assassino usava. Phat percorreu editoras pequenas e grandes.
Os papéis eram estendidos diante de editores, um após o
outro, com a mesma pergunta: se já tinham visto aquele traço.
E a resposta era sempre a mesma.
— E então?
— Dizem que é familiar, mas não sabem quem é o autor.
Ele levou a segunda xícara de café do dia aos lábios,
deixando o olhar vago. Uma caneta vermelha riscava os nomes
das editoras até que quase não restasse nenhuma. Sobravam
apenas algumas que eram sua última esperança. Nop
sentou-se ao seu lado; o rosto exausto do companheiro de
missão mostrava o cansaço acumulado, precisando de
energéticos durante toda a tarde.
Phat carregava a pressão de todos os lados: a mídia que
não parava de inventar notícias e os superiores que
perguntavam quando tudo terminaria. Tudo estava forçando a
equipe a trabalhar com pressa, sem descanso, e ninguém
podia prever o fim do caso ou se o desastre seria ainda maior
com o surgimento da próxima vítima.
— Para qual editora vamos agora?
— Esta aqui. Pelo mapa, não é longe.
Os lábios finos sugaram a cafeína até a última gota antes
de marcar o destino em uma pequena editora no final da lista.
A atmosfera agitada dos últimos dias fez com que Kay não
chamasse a atenção após sair subitamente da reunião e faltar
ao trabalho sem aviso, pois o assunto mais interessante era o
prazo de entrega dos originais, que fora antecipado.
Ele deslizava a caneta sobre a mesa digitalizadora que
ocupava grande parte de sua mesa de trabalho, isolando-se do
mundo barulhento com fones de ouvido que tocavam seu
podcast favorito. Os traços no dispositivo eletrônico ganhavam
forma conforme o esboço; às vezes, outros sons penetravam
sua audição, como o som de outras canetas de autores que
trabalhavam para cumprir o cronograma.
O dono do rosto fino inclinava o pescoço em busca do
ângulo ideal para o movimento do personagem. A tinta preta
cobria a camada de rascunho enquanto ele dava zoom,
adicionando detalhes que faziam a garota da imagem parecer
triste por causa do jovem na página seguinte.
Todos estavam focados no trabalho, inclusive o colega da
mesa em frente, que não o incomodava há quase uma semana
por não estar rendendo. Em quase 24 horas na empresa, o
único tempo de descanso era na saída de emergência, e em
menos de meia hora já tinham de voltar para a frente do
computador, focando na obra e rezando para que o mundo
acabasse logo.
No entanto, o relógio sempre corre mais quando o prazo
se aproxima, e sempre surge algo para atrapalhar a
concentração quando a caneta flui bem.
— Com licença, há policiais querendo falar com o
conselho editorial.
A caneta digitalizadora escapou do controle no instante
em que ele ouviu. Os olhos desviaram da tela em direção ao
som. O editor-chefe apressou-se para receber os visitantes.
Um homem alto, em trajes informais mas ainda com postura
imponente, estava na porta acompanhado de outro oficial que
exibia o distintivo da polícia metropolitana.
— Desculpe interromper. Alguém aqui reconhece ou está
familiarizado com este traço?
Papéis A4 foram erguidos para atrair a atenção de todos,
que se levantaram para analisar os traços dos quadrinhos. O
burburinho de vozes não conseguia ser processado pelo seu
cérebro, reagindo com sua imaginação e fazendo seu coração
bater de forma descompassada. O suor escorria pelo rosto.
Com as mãos trêmulas, ele tentou manter a calma, pegando
um copo de água antes de se levantar da cadeira. Ele planejou
a fuga pela porta de emergência, afastando-se lentamente
antes que a voz de alguém ecoasse atrás dele.
— Espera, esse traço parece com os trabalhos antigos
de...
— ...
O pânico o fez quase cair por falta de atenção. O som da
respiração ofegante competia com o barulho dos passos nos
degraus da escada.
— Hã...
À sua frente estava a porta de emergência, que nunca
ficava trancada. Ele a empurrou, sendo atingido pelo vento frio
da noite de inverno. A pele gelada e arrepiada foi acariciada
suavemente por suas mãos para tentar se acalmar. Os fundos
da empresa deram-lhe um tempo para respirar da crise de
estresse que quase começou. As pálpebras fecharam-se com
força, as costas encostadas na porta de metal. Ele soltou o ar
lentamente até se acalmar, apenas para descobrir que a
inquietude o esperava ao abrir os olhos.
A luz acima de sua cabeça iluminava o corpo alto do
policial que o fizera fugir lá de cima. Ele estava encostado na
parede oposta, de braços cruzados, observando-o sem
disfarçar.
O corpo dele ficou rígido como se estivesse paralisado.
Com a garganta seca, tentou engolir em seco. Os olhos na
escuridão escondiam o medo criado pelo cérebro, mas quanto
mais tentava, mais suspeito parecia para o dono dos olhos
castanhos escuros.
A sombra no chão de cimento moveu-se para perto até
que a ponta do tênis parasse diante dele, acompanhada de
uma voz profunda que perguntou...
— Onde você está indo com tanta pressa, Kay?
2
Phat teve tempo de observar a outra pessoa
minuciosamente porque ela estava parada, imóvel, junto à
porta. O corpo magro parecia alto e esguio em uma camiseta
preta oversized e calças jeans da mesma cor. O cabelo
desalinhado caía sobre os olhos, escondendo um
comportamento suspeito. Phat moveu a mão para a lateral do
corpo. Sob o casaco, havia uma arma legalizada escondida.
Sua mão esguia a apertou com firmeza ao ver que o outro
tentava tirar algo do bolso da calça. Mas, antes que pudesse
sacar qualquer coisa, um frasco de plástico branco caiu no
chão, revelando o que estava escondido ali.
Kay abaixou-se para recolher as cápsulas de remédio
espalhadas pelo chão com dificuldade. Phat não pôde evitar
oferecer uma ajuda que parecia não ser desejada. Ele virou o
frasco para ler o rótulo sem permissão. As propriedades
médicas o fizeram arregalar os olhos para a pessoa que estava
engolindo a pílula. Sua mão forte apertou as cápsulas
restantes enquanto Phat estendia o frasco na frente dele,
antes que o rapaz as devolvesse lentamente.
— Ansiolítico?
— ...
— Mas você parece realmente ansioso.
— ...
— Vamos encontrar um lugar melhor para conversar?
O silêncio tomou conta. O tal lugar melhor, a sala de
reuniões da empresa, tornou-se o ponto de encontro da equipe
de investigação, do editor e de Kay, que ficava olhando de um
lado para o outro, recusando-se a encarar Phat, que o vigiava
como uma câmera de segurança.
Nop colocou duas folhas de papel lado a lado na mesa de
reunião. Uma era o trabalho atual do autor que todos
chamavam de [Link], enquanto a outra era a obra do autor
misterioso conhecido como Mr. Kill, cujo trabalho estava
sendo usado para encenar assassinatos em série.
— Você já viu esse traço em algum lugar?
— ...
— Você é um desenhista profissional. Deve saber que o
peso do traço e a foqrma de riscar são bastante específicos.
— Não, nunca vi.
— ...
— Eu não conseguiria desenhar algo tão cruel assim.
Veja, são estilos opostos.
— É mesmo?
— Se eu desenhasse assim, meus fãs me amaldiçoariam
até a morte, não acha?
— Hunf.
Phat conteve a irritação com aquela atitude, que parecia
ser de uma pessoa completamente diferente da que estava na
porta de emergência. O efeito do remédio devia estar fazendo
com que ele relaxasse mais, a ponto de ter audácia para flertar
com os olhos enquanto respondia perguntas de forma
irritante.
— E por que o editor disse que esse traço é semelhante ao
seu, Kay?
Phat lançou a pergunta para a pessoa sentada ao lado. O
editor endireitou o corpo e colocou a ilustração de Mr. Kill na
frente dele.
— Eu vi esse traço bruto e forte em um concurso há
muitos anos.
— ...
— E, antigamente, o Kay costumava enviar desenhos com
esse estilo antes de decidir seguir carreira com histórias de
romance fofinhas.
A atmosfera na sala ficou em silêncio absoluto. O
ar-condicionado, que já funcionava bem, agora parecia enviar
um frio que gelava a espinha. O editor soltou uma risada seca
e forçada, tentando melhorar a situação, mas acabou
piorando.
— Haha, mas provavelmente não é ele. Como o Kay
conseguiria desenhar algo sobre assassinatos assim?
— ...
— Ele tem que conseguir matar uma barata primeiro,
depois a gente conversa sobre o resto. Não é, Kay?
— É verdade.
O dono do nome deu um sorriso amarelo, negando todas
as perguntas. Mesmo sem obter as respostas desejadas, a
equipe de investigação sentiu que o dia não foi em vão. Após
algum tempo na sala, tudo teve que terminar porque ambos
alegaram ter outros compromissos. Nop entregou um cartão
de visitas ao editor, pedindo que entrasse em contato caso
surgissem novas informações.
Enquanto isso, Phat observou as costas da pessoa que
saía apressada da sala até perdê-la de vista. Depois, voltou-se
para outro cartão sobre a mesa, o qual Kay nem sequer se deu
ao trabalho de olhar.
— Din.
— Sim, inspetor.
— Quero o histórico detalhado. Onde ele mora, como é a
família e imprima todos os trabalhos que ele já escreveu.
— Entendido.
— O resto de vocês, já estão cansados?
— Ainda aguentamos.
— Então, vamos trabalhar.

A ideia maluca surgiu enquanto ele estava sentado diante


da outra pessoa na sala de reuniões, algumas horas atrás.
Mas, como não havia provas suficientes para um mandado de
busca e ele não queria que o suspeito ficasse em alerta, o
restante da equipe de investigação, composta por três pessoas,
teve que se esconder em um carro com película escura para
observar o comportamento do suspeito número um. Kay
estava sentado alimentando gatos de rua em frente a uma loja
de conveniência. O rapaz alto se agachou e esperou até que as
bolas de pelo terminassem de comer antes de guardar os
pratos e subir para o seu quarto.
Phat olhou para o relógio no painel. Já fazia mais de 24
horas que trabalhava sem parar. Mas, como não podia deixar
passar, a falta de sono valeria a pena se conseguissem algo. E
pareceu valer mesmo quando outra pessoa, vestindo um
casaco preto, saiu do condomínio por volta das 11 da noite.
— Nop, leve o pendrive.
— Ok.
— Singh, fique de vigia. Se ele voltar, avise
imediatamente.
— Entendido.
As informações sobre o alojamento foram enviadas desde
que o dono do quarto estava brincando com os gatos embaixo
do prédio. O destino dele e de Nop foi a porta de madeira
entalhada com o número 27. O quarto no fim do corredor, de
frente para a rua, teve a fechadura aberta habilidosamente por
um especialista que ocupava o cargo de inspetor. Ele
empurrou a porta para dentro ao não ver movimento de
qualquer ser vivo. Usou a lanterna do celular para procurar o
interruptor de luz antes de fechar a porta e trancá-la como
estava antes.
A luz de neon revelou um estado de quarto pouco
agradável. Pilhas de papéis e livros estavam espalhadas
desordenadamente pelo chão, pois a mesa de trabalho não
tinha espaço suficiente para eles. Ao lado, havia uma estante
de livros prestes a desabar. As paredes, que deveriam estar
vazias, estavam cobertas por desenhos feitos com caneta e
lápis.
Nop correu para o computador para realizar sua tarefa
rapidamente, enquanto Phat se separou para explorar as
condições de vida do famoso escritor.
Frascos de remédios vazios estavam misturados com
copos de macarrão instantâneo estocados ao lado de uma
panela elétrica e garrafas de água alinhadas contra a parede. A
janela estava entreaberta o suficiente para o vento entrar. Ele
a empurrou e descobriu que a unidade externa do
ar-condicionado, presa à parede do prédio, estava cheia de
bitucas de cigarro e inúmeras pequenas marcas de
queimadura. Afastando-se da janela, ele caminhou até o
guarda-roupa. Ao abrir a porta, viu uma quantidade de roupas
quase todas do mesmo modelo e cor.
O estado geral do quarto e a vida de Kay fizeram Phat
começar a duvidar se o termo artista faminto era real. Mas,
antes que pudesse pensar em uma resposta sobre a renda que
contrastava com o estilo de vida, seu olhar observador notou
uma foto Polaroid, semelhante a outra que ele possuía,
encostada na parede sobre a mesa de trabalho.
— Uma foto de casal em um evento de autógrafos?
— Aquele ao lado não é o senhor, inspetor?
— Não é. Terminou o trabalho?
— Terminei. Instalei um programa de acesso remoto no
computador dele e o HD já foi copiado.
O interesse de Nop voltou para o trabalho. Ele retirou o
pendrive, mostrou-o e o guardou no bolso interno do casaco. A
curiosidade sobre a foto foi guardada como um segredo que
precisava de resposta em silêncio. Ele acenou para o
subordinado de confiança, que começou a explorar o local,
antes que a foto fosse colocada de volta e o rádio de Singh
soasse.
Rrrr...
— O suspeito está voltando.
Phat apagou a luz imediatamente enquanto a outra
pessoa mudava o alvo da porta para a janela. Do térreo até o
quarto não levaria muito tempo. Sair pela porta era arriscado
demais. Nop pulou para a unidade externa do ar-condicionado
ao mesmo tempo que o som da chave girando na fechadura foi
ouvido. Não havia tempo suficiente para Phat, que estava na
frente do guarda-roupa, sair do quarto. Na escuridão, onde
mal se via o rosto pela luz da janela, ele fez um sinal para o
subordinado indicando o que ele deveria fazer enquanto o
próprio inspetor se enfiava dentro do armário e fechava a
porta.
Clique!
— Como pude esquecer?
O dono do quarto entrou no silêncio. A luz se acendeu
novamente, permitindo que Phat, escondido, visse através da
fresta da porta do armário que a pessoa parada diante da
mesa de trabalho estava abrindo uma gaveta trancada. A mão
forte pegou algo de dentro. Mesmo que o objeto tenha
aparecido por apenas um segundo, foi possível identificar
imediatamente que a peça metálica prateada com cabo preto
que o outro segurava era uma ferramenta de construção
chamada martelo.
O contexto ao redor tornava tudo ainda mais suspeito.
Phat ficou imóvel, tentando não respirar, esperando o outro
fechar a gaveta. No entanto, em vez de sair após pegar o que
queria, o dono do quarto ficou parado diante da mesa antes de
ajustar o ângulo da Polaroid para a posição original.
Ficou claro que a noite poderia não terminar bem. E
pareceu ser exatamente isso quando os pés de Kay se
moveram e pararam diante da porta do guarda-roupa.
A distância de apenas um passo era separada pela porta
de madeira da altura de uma pessoa. As mãos bonitas de Kay
seguravam a ferramenta por instinto, assim como Phat
apertava sua arma, mirando no centro do peito de quem
estava do outro lado. Ele contou regressivamente em sua
mente, conforme a mão do rapaz se aproximava da maçaneta.
Contudo...
Rrrr…
— Alô.
— ...
— Estou indo agora.
Clique.
Tum!
Foi uma das poucas vezes em que ele se sentiu aliviado
por seu instinto estar errado. Phat esperou um pouco até ter
certeza de que ninguém voltaria para surpreendê-lo antes de
sair do armário e retornar ao carro que o esperava. A longa
noite terminou com a imagem de Kay colocando o martelo na
bolsa e aquela foto Polaroid gravadas na cabeça de Phat. Tudo
parecia ter perguntas cujas respostas apenas o rapaz sabia.
Sob o rosto sorridente de [Link], devia haver muitos
segredos escondidos...

De nova estagiária, Praew passou a receber muita


atenção do dono da empresa, Than, depois que um vídeo curto
sobre a análise dos assassinatos em série foi lançado, afetando
todas as partes envolvidas a ponto de precisarem convocar
uma coletiva de imprensa oficial. A recepção estrondosa fez
com que Praew e Prim fossem chamadas à sala de Than
novamente para receber ordens do chefe, que exibia um rosto
sorridente e gentil.
— Desta vez precisa ser mais detalhado que a anterior. A
teoria de que o assassino está imitando o quadrinho parece ser
real. Meus contatos na delegacia dizem que a polícia está
trabalhando arduamente, como verdadeiros guardiões da paz.
— Isso é incrível. Você foi muito bem, Praew.
— Er... obrigada.
Praew aceitou os elogios vindo de todos os lados. Seus
olhos, da mesma cor dos de seu irmão, olharam para os
documentos entregues a ela.
— Eu quero uma análise profunda comparando cena por
cena entre o quadrinho... como se chama mesmo?
— Nekros.
— Isso, Nekros. Compare com o caso real. Faça o leitor
acreditar que isso não é uma coincidência, como a polícia
sugere.
— ...
— Quero para amanhã de manhã.
— Hã?
Um trabalho de nível profissional que levaria dias estava
sendo limitado para ser entregue na manhã seguinte. O autor
da ordem levantou-se após expressar seu desejo. Antes de sair
da sala, não deixou de dar um sorriso doce e um tapinha nos
ombros de Praew e Prim como incentivo.
— ...
— Vamos nessa!
— Vamos o quê?
— Se tem que ser de manhã, será! O quão difícil pode ser?
— ...
— Vamos provar ao chefe que não somos apenas
estagiárias que servem café.
O tempo passou e o novo dia chegou, mas nenhuma das
duas garotas que aceitaram o desafio saiu de suas cadeiras.
Ambas colaboravam de forma sistemática. Prim era
responsável por reunir os fatos e organizar a cronologia do
caso, enquanto Praew se concentrava em analisar o quadrinho
repetidamente.
— Veja aqui...
— ...
— Até as marcas de cortes nos braços da vítima na foto da
polícia e neste quadro do desenho são idênticas.
— É verdade.
— O assassino não fez por coincidência. Foi intencional,
ele quis que ficasse igual.
Quanto mais pesquisavam, mais informações
encontravam, o que permitiu que terminassem o trabalho no
prazo estipulado por Than. Faltavam apenas algumas horas
para o expediente começar. Praew e Prim decidiram entregar a
papelada ao chefe antes de irem descansar. Sorrisos largos
foram trocados quando a última página foi impressa. As duas
levantaram as mãos no ar e bateram uma na outra.
— Isso!
— Sensacional!!
O relógio indicava que ainda restava tempo para
descansar os olhos. Os corpos exaustos desabaram sobre as
mesas de trabalho lado a lado. Ficaram assim até serem
acordadas por um toque no ombro de alguém que se deu à
liberdade de ler os documentos sem pedir.
— Hum...
— Bom dia.
— Bo... bom dia, chefe. Prim, acorda.
A dona do nome sobressaltou-se na mesa, endireitou o
corpo e virou a cadeira para onde o patrão estava sorrindo com
o artigo em mãos.
— Excelente. Mais detalhado do que o de alguns
repórteres veteranos.
— ...
— Vocês ainda não foram para casa, não é?
— Não.
— Hoje vamos lançar esse furo. Vocês vão se arrumar e
nos encontramos à tarde na minha sala.
— ...
— E, de agora em diante... vocês duas são a equipe
principal do caso dos assassinatos em série Nekros. Não
percam nenhum segundo.
Apesar de ainda estarem atordoadas com a nova
responsabilidade, não tiveram muito tempo para comemorar.
As duas organizaram a bagunça nas mesas antes de se
separarem para se limparem e voltarem à empresa conforme
as ordens. Prim colocou a mochila nas costas, esperando pela
companheira de jornada que procurava algo na bolsa.
— O que está procurando? Eu ajudo.
— Meu crachá de estagiária. Não sei onde está.
Como precisavam do crachá para registrar o horário na
empresa, Prim se voluntariou para ajudar Praew a procurar
debaixo da mesa. Não demorou muito para encontrar o crachá
problemático caído em um vão quase invisível. Ela limpou a
sujeira na perna da calça antes de virar a frente do cartão para
confirmar se era o que a outra procurava.
— Achei.
— Obrigada, obrigada.
— Mas por que seu sobrenome é tão familiar?
Traikanawut... Você é parente de alguém famoso?
— ...
— Er...
Prim estava apenas brincando, sem saber que tornaria a
situação desagradável. A dona do crachá o arrancou de sua
mão enquanto seu rosto perdia a cor.
— O... o que houve? Eu disse algo errado?
— O sobrenome do Capitão Paphat.
— ...
— Meu pai. O policial corrupto que virou notícia por
causa daquele caso de fraude. É famoso o suficiente para
você?
Ao terminar a frase, ela saiu apressada sem esperar. Prim
viu as lágrimas brotarem nos olhos límpidos da amiga e correu
atrás dela com um sentimento de culpa.
— Praew!
— ...
— Espera, Praew!
A interpelada parou e virou-se para encarar quem a
chamava desde o andar de cima até o estacionamento.
— Você pode parar de falar comigo se quiser. Todo mundo
sente nojo quando descobre quem é meu pai.
— Calma, Praew.
— Meu pai, o policial desonesto que prejudicou tanta
gente... Sorte a dele que foi morto em uma operação sem ter
que lidar com nada. Deixou para mim e para o meu irmão
carregarmos a culpa pelo que ele fez a vida toda.
— ...
— Agora que sabe, ainda quer ser minha amiga?
Prim respondeu à pergunta aproximando-se e abraçando
a pessoa que estava ali, desabafando sobre o fardo que
carregava. Suas mãos acariciaram as costas da amiga
fragilizada, confortando Praew da tristeza que transparecia em
seu olhar e em sua voz.
— Pai é pai, Praew é Praew.
— ...
— É a Praew que me disse que queria ser jornalista, a
pessoa que se dedicou ao trabalho até o amanhecer, aquela
que percebe o que os outros não veem. Essa é a Praew que eu
conheço.
Praew retribuiu o abraço, com o rosto manchado de
lágrimas encostado no ombro de Prim.
— O sobrenome é apenas uma etiqueta na roupa, mas o
que você faz é o que diz quem você é... Para mim, você é a
amiga mais incrível do mundo agora.
— Snif...
— Pare de chorar... Vamos ajudar você a provar que não é
apenas a filha daquele policial.
— ...
— Mas sim a melhor futura jornalista de todas. Ok?

Passou-se um dia, e outro, e mais outro em que Phat


ficava de tocaia no carro observando o comportamento que
parecia ser extremamente comum e entediante. Pela manhã,
Kay saía para trabalhar. Ao voltar do serviço, antes de subir
para o condomínio, parava para alimentar gatos de rua que
estavam acima do peso ideal. O rapaz alto ficava sentado
observando-os até que a comida acabasse. A gentileza
demonstrada contrastava com a hipótese de Phat de que Kay
era o assassino.
Na verdade, aquela noite em que ele desapareceu com o
martelo na bolsa poderia responder às perguntas que Phat
tinha. Ele rezou durante dias para que Kay saísse do quarto
tarde da noite como na primeira vez, e desta vez não o deixaria
escapar de vista novamente.
Rrrr...
O som do telefone desviou sua atenção da vista sob o
condomínio. O suspeito já havia retornado ao quarto fazia
tempo. Se fosse como todos os dias, ele só apareceria
novamente perto do horário de trabalho.
— Não o perca de vista.
— Sim, inspetor.
Ele deixou Singh sozinho no carro e se afastou para
atender o telefone do subordinado de confiança, que havia
enviado fotos para o chat antes da ligação aparecer na tela.
— Diga, Nop.
— O senhor viu as fotos que enviei?
— Vi.
— O TI informou que houve várias tentativas de login no
painel de controle do blog Nekros. O IP rastreado é do endereço
do senhor Kay.
— ...
— Mais importante: o TI recuperou quase 70 por cento
dos arquivos deletados da lixeira. São os arquivos originais de
Nekros, com uma resolução altíssima que provavelmente
apenas o desenhista original teria.
— ...
— Acho que estamos no caminho certo. Aquele tal de Kay
é, com certeza, o Mr. Kill.
— Peça o mandado de prisão e me encontre aqui embaixo
do condomínio agora.
— Entendido.
A ligação foi encerrada e Phat sentiu-se esperançoso ao
ver uma luz no fim do túnel. Ele se virou para voltar ao carro
no exato momento em que Singh saiu do veículo com uma
atitude hesitante.
— Não me diga que...
— Não durou nem um minuto, inspetor...
— Apenas um segundo já é o suficiente para perdê-lo de
vista. Por onde?!
— Por ali!!
Phat começou a correr em direção ao beco que o
subordinado indicou. Singh foi por outro caminho para cercar
o homem alto e esguio que vestia o casaco preto e o boné, a
mesma roupa da primeira vez que o vira escondido no armário.
O beco estreito e sinuoso estava cheio de ramificações que
poderiam dar em qualquer avenida principal. Mesmo tendo
corrido por um bom tempo, não via nada, como se Phat
estivesse em um labirinto no qual, se quisesse voltar pelo
caminho original, teria que parar para pensar por onde veio.
Seus passos pararam em uma área iluminada. Ele olhou
ao redor, aguçando todos os seus sentidos. De repente, seu
olhar captou um reflexo na parede de um beco lateral. Uma
sombra se aproximava lentamente. O som de passos parecia
um rastro sendo puxado, e a sombra movia-se um passo de
cada vez, com lentidão. Phat sacou a arma do coldre,
preparou-a e mirou para frente. Não importava o que
aparecesse, se representasse perigo, ele estava pronto para
puxar o gatilho imediatamente.
— Argh...
Com o dedo no gatilho e a arma firme, ele não tirou os
olhos da figura no casaco e na mesma calça jeans que usara
para trabalhar. A cabeça estava sem o boné, revelando um
rosto agora cheio de hematomas e sangue escorrendo da testa.
O rapaz parou e virou-se para ele, que ainda não havia
baixado a arma. Phat olhou para o martelo na mão do outro.
Era o mesmo que ele havia colocado na bolsa naquele dia...
— Você!
Phat correu para o lado da pessoa que desabou no chão.
O estado dele era ruim, com poeira e marcas de pisadas por
toda a roupa. Os ferimentos não pareciam ser apenas na testa;
os cantos da boca estavam roxos e algumas áreas tinham
cores intensas. Ele encarou os olhos negros que se fechavam
lentamente até se apagarem por completo.
O corpo inconsciente foi amparado contra o peito de Phat.
Ele deu tapinhas no rosto do rapaz para chamá-lo, mas, por
mais que tentasse acordá-lo, ele permanecia imóvel. Decidiu
então chamar reforços para não perder mais tempo. A equipe
respondeu imediatamente à sua ordem. Não demorou para
que a equipe de investigação, que havia sido negligente a
ponto de causar aquela situação sem respostas, aparecesse
diante dele.
Phat guardou o martelo, que suspeitava ter sido usado em
algum incidente, na bolsa tiracolo que retirou de si mesmo
para colocar no outro.
— Foi o senhor que deu um jeito nele, inspetor?
— Venham ajudar primeiro.
Singh correu para segurar o outro ombro. O corpo esguio
parecia magro, mas era pesado, e o peso foi dividido com o
subordinado que não parava de fazer perguntas.
— Isso foi obra do senhor, inspetor?
— Não, droga.
— Então por que?
— Tirem ele deste beco primeiro. Se ele acordar, teremos a
resposta de quem fez isso.
— Sim senhor!
A ambulância já esperava na entrada, como esperado.
Nop sempre agia rápido, mesmo que a mensagem tivesse sido
enviada apenas quando Phat avaliou que o rapaz estava
bastante machucado. O corpo alto estava estendido no espaço
da ambulância, com as pálpebras fechadas. Os paramédicos
cuidavam dos ferimentos na cabeça e no rosto, relatando que
não havia nada preocupante e que ele logo acordaria da
fraqueza.
— O que fazemos agora?
— Leve este martelo para a perícia.
— ...
— Quanto a ele, levem-no para a delegacia.

O rosto debruçado sobre a mesa moveu-se lentamente,


sentando-se com dificuldade. A expressão demonstrava a dor
das feridas e hematomas que surgiam pelo corpo com o passar
do tempo. O casaco preto havia sido retirado para servir de
prova, revelando diversos curativos espalhados pela pele.
— Ai...
Um grito escapou quando ele se moveu sem cuidado. O
metal bateu na mesa, fazendo a parede da sala estremecer,
pois seu pulso esquerdo estava acorrentado ao pé da mesa no
centro da sala escura. Seus olhos fitaram o vidro preto à frente
antes de serem interrompidos pela porta que se abriu com a
entrada de outra pessoa.
Estrondo!
Phat jogou uma pilha de documentos sobre a mesa da
sala de interrogatório. Ele se sentou de pernas cruzadas e
cruzou os braços, observando Kay, que havia dormido por oito
horas seguidas.
— Patima ou Chankacha?
— ...
— Mr. Kill ou K. Cupid?
— ...
— O que você foi fazer lá ontem à noite?
— ...
— Meus subordinados disseram que você começou a
correr assim que viu o carro estacionado... por que fugiu?
O silêncio foi a resposta que travou o clima do
interrogatório. Ele observava a pessoa que mantinha a cabeça
baixa, olhando para a mão livre em seu colo. Antes disso, Phat
teve tempo suficiente para estudar o histórico de Kay. O nome
e o sobrenome foram alterados várias vezes, e o pseudônimo
do submundo, Mr. Kill, já havia sido provado como sendo a
mesma pessoa.
— O silêncio não vai te ajudar, Kay...
— ...
— Agora você é o suspeito de um caso de assassinatos em
série. As provas que temos te incriminam totalmente... tanto
os arquivos originais quanto a arma.
— Eu não fiz isso.
— Então me explique por que você fugiu e por que
carregava isso na bolsa...
Um martelo dentro de um saco plástico tipo zip lock foi
colocado sobre a mesa. Embora tivesse sido confirmado que
não era a mesma arma usada nos crimes, era do mesmo
modelo que causou as feridas nos corpos dos dois casos. Havia
uma alta probabilidade de que a arma do crime tivesse sido
descartada em algum lugar. Como o outro não tinha um álibi
claro para o momento dos crimes, a suspeita só aumentava.
— Por que carregava isso? Para usar na próxima vítima?
— Eu já disse que não fiz nada.
— Então por que carregava isso?
— Para me proteger.
— De quem?
— Dos cobradores de dívidas.

O homem alto respirou fundo antes de começar a correr do


condomínio para o beco que conhecia bem. Ele notou o mesmo
carro estacionado do outro lado da rua por vários dias, a ponto
de não ousar sair do quarto para fazer suas obrigações como
nas noites anteriores. Mas, como o tempo de espera foi longo
demais, Kay decidiu sair para fugir da vista do grupo de
policiais à paisana que o vigiava.
No entanto, foi como fugir de um tigre para cair em um
crocodilo. O meio do beco, tanto na frente quanto atrás, foi
bloqueado pela gangue de cobradores que o seguia como uma
sombra. Kay olhou em volta buscando uma saída antes de
perceber que não havia outro jeito senão enfrentá-los.
— Tá difícil de te achar, hein...
— ...
— Acha que só porque seu pai morreu a dívida acabou?
O homem alto e forte se aproximou, bloqueando qualquer
rota de fuga. Kay apertou a bolsa no peito. O medo pressionava
seus nervos, fazendo o corpo suar até sentir a umidade por toda
parte. Suas mãos trêmulas tentaram abrir o zíper da bolsa para
pegar sua arma de defesa, mas foi lento demais.
O martelo voou para longe depois que suas costas foram
atingidas pelo pé de alguém, fazendo-o cair no chão. Ele
levantou as mãos para proteger o rosto, encolhendo o corpo
para se proteger dos chutes que choviam por todo o corpo. Seu
cabelo preto foi puxado, o capuz voou, revelando seu rosto
pressionado contra o chão. Um soco forte deixou feridas até que
sua visão ficasse turva. O sangue viscoso e escarlate escorreu
pelos olhos, da mesma forma que sentia o gosto metálico em
sua boca.
— Argh!
— ...
— Se na próxima vez você ainda não tiver dinheiro para me
pagar...
— ...
— Você vai pagar com a vida.
Kay ficou encolhido no chão frio. A dor externa não se
comparava à interna. Com o corpo machucado, ele se arrastou
em direção ao martelo que havia voado longe. Usou suas
últimas forças para agarrá-lo, apoiando-se com o ombro contra
a parede. As risadas altas daqueles canalhas que estavam de
costas faziam seus olhos arderem de puro ódio. Suas pernas se
moviam lentamente, avançando o quanto conseguia. O martelo
em sua mão trêmula foi erguido no ar, na esperança de atingir o
meio da cabeça de um deles, mas, no fim, o ferro pesado caiu no
chão junto com seu corpo, que desabou contra a parede.
Patético...
Era patético que nem mesmo a coragem para se vingar
fosse suficiente para superar o medo em sua mente. O demônio
dentro dele que costumava ganhar vida no papel não tinha um
pingo de bravura na vida real. Ele engoliu o soluço quando a
vulnerabilidade o dominou completamente. A força que possuía
se dissolveu nas lágrimas que inundaram seus olhos antes de
escorrerem por seu rosto ferido, sem que ele pudesse parar.

Na verdade, naquele momento, o silêncio poderia ser a


melhor resposta. Phat não sabia como reagir àquela confissão.
Ele não acreditava 100%, mas o olhar exausto parecia ter
desistido de tudo, e as palavras que soavam desinteressadas
estavam carregadas de dor.
Mas o dever profissional ainda era o dever. Os
sentimentos foram guardados sob a missão. Ainda havia
muitas respostas esperando por prova caso ele fosse
realmente inocente. A arma foi substituída por ilustrações que
ele mesmo havia desenhado, colocadas ao lado de fotos sem
censura dos cadáveres dos dois casos.
— Então me explique por que a cena do crime é idêntica
ao seu desenho.
A mão livre pegou a foto do cadáver sem censura,
alternando o olhar com a ilustração. Ele deixou o outro
considerar a semelhança precisa em cada ângulo. Tanto a
posição do corpo, os símbolos, até os cortes pelo corpo eram
idênticos. Aquilo reforçava que não era coincidência.
— Eu... eu não sei.
— ...
— Eu só desenhei conforme o... o enredo.
Uma sensação de náusea surgiu e seus olhos se
arregalaram ao ver as fotos reais da cena do crime, fazendo
Kay responder com a voz trêmula. Ele colocou as fotos na
mesa e balançou a cabeça em negação.
— Eu não fiz isso...
— ...
— Eu juro, eu não matei ninguém.
— Seu remédio está no bolso da calça.
As mãos esguias levaram um tempo para conseguir abrir
a tampa. A cápsula branca foi um alívio antes que uma garrafa
de água já aberta fosse estendida para ajudar a descer a
secura na garganta.
Phat se levantou, deixando o remédio de Kay fazer efeito.
A porta da sala de interrogatório foi aberta antes que ele
entrasse na sala ao lado. Uma sala pequena onde era possível
observar o outro através do vidro unidirecional. Quando os
membros da equipe de investigação estavam reunidos, o
Capitão Nop começou a relatar informações adicionais.
— O pai de Kay foi réu em um caso de fraude em uma
instituição financeira há 20 anos, o que gerou uma dívida
enorme até que ele fosse declarado falido... a família foi
marcada como golpista.
— E o que mais?
— Quando não aguentou mais a pressão, o pai decidiu
cometer suicídio com toda a família, incendiando a própria
casa.
— ...
— A mãe de Kay morreu queimada. Já Kay e o pai foram
resgatados a tempo, mas o pai ficou ferido e em estado
vegetativo desde então...
Ele levou a mão ao cabelo, sentindo um peso maior
conforme ouvia. Phat desviou o olhar da conversa para
observar a pessoa que estava sentada olhando para o teto na
sala de interrogatório.
— Ainda não acabou...
— Suspiro.
— Depois que Kay cuidou do pai por quase 5 anos, o
centro de cuidados intensivos onde o pai estava internado
pegou fogo.
— ...
— Desta vez, o pai de Kay morreu.
Pode ter sido negligência ou o carma realmente existe,
como dizem as religiões. Pois qual seria o motivo para a vida de
alguém ter que aprender sobre a dor cada vez mais a cada dia?
Quão forte deve ser a mente humana para suportar problemas
tão pesados antes de criar feridas abertas por toda parte? Se
não receber tratamento suficiente, a infecção se espalha e
corrói cada parte de um sentimento profundo e imensurável. E
muitas pessoas deixam que seja assim.
Muitas pessoas, incluindo o dono do corpo alto na sala de
interrogatório que não mudava de posição, mesmo após um
longo tempo.
— O que faremos agora?
— Fiquem de olho nele.

O interrogatório continuou.
Desta vez foi melhor, pois o outro estava consciente e
levava tempo para processar antes de responder. Pelo menos o
tempo deixado sozinho o fez refletir e decidir cooperar. Phat
ainda não havia descartado a pessoa à sua frente da lista de
suspeitos, mas anotou várias opiniões interessantes que
poderiam conectar os pontos.
— Posso ver a foto do caso mais recente de novo?
Phat tirou as fotos do arquivo do caso e as estendeu para
a pessoa que aproximou a cadeira da mesa. O olhar era fixo,
como se procurasse algo. As fotos restantes foram entregues
também. A cena do crime, o símbolo da estrela de cinco pontas
invertida. Se o outro não fosse o assassino, o que o assassino
fez nasceu do resultado de um cérebro que foi muito usado
pelo próprio Kay.
Por horas ele observou sem perguntar nada, esperando
até que o outro estivesse pronto. E parecia que ele finalmente
estava...
— Veja aqui.
— Por quê?
— No primeiro caso, a poça de sangue aqui parece um
número.
— Onde?
A foto geral da cena do crime mostrava o corpo do
empresário caído no chão, e ao lado havia uma mancha de
sangue que, se não fosse analisada, seria apenas um grande
círculo de sangue.
— O número 10.
— ...
— Agora veja a imagem do cadáver no capítulo 10 do
desenho.
O desenho do cadáver no capítulo 10 da HQ Nekros foi
colocado ao lado da foto da posição da morte, que era idêntica
à do segundo cadáver. Ele olhou para a mancha de sangue
novamente. Ao vê-la como o número 10, como o outro disse,
não era mais possível ver outra coisa.
— E no segundo caso, tente olhar aqui.
A foto ampliada mostrava cortes longos no pulso
esquerdo do cadáver do secretário do ministério que estava
caído no caminho do campo. Phat virou a foto em todos os
ângulos procurando o número antes que o dono da teoria
revelasse.
— Se você olhar os cortes no pulso como o número 1.
— ...
— E a posição dos dedos, com o polegar dobrado para
dentro, restando 4 dedos esticados assim.
— Número 14?
— Eu acho que sim.
— ...
— Vocês recuperaram meus arquivos e acharam o
capítulo 14?
Apesar de terem revistado quase todas as folhas, não
havia nenhuma com o conteúdo do capítulo 14. Ele percebeu
que a equipe de TI só conseguiu recuperar 70% dos arquivos;
talvez os 30% que faltavam fossem justamente essa parte.
Toda a papelada foi recolhida. Kay sabia seu destino: seria
deixado esperando na sala até que o outro encontrasse o
arquivo perdido. No entanto, Phat escolheu se aproximar e
soltar a algema que prendia o pé da mesa, prendendo-a no
outro pulso de Kay, que antes estava livre.
— Venha comigo.
— Para onde?
A sala do departamento de TI ficava no andar seguinte.
Phat entregou o suspeito à equipe de investigação que seguia
seu líder saindo da sala de observação. A pessoa algemada nas
duas mãos foi empurrada para caminhar à frente até chegar à
sala com a placa de Informação acima da porta. Os
documentos foram colocados na mesa de reunião no centro da
sala. Kay foi forçado a sentar em uma cadeira perto do canto
da mesa. As duas mãos presas foram estendidas à frente de
forma submissa. Ele soltou um lado da algema e a prendeu
novamente ao pé da mesa.
— O capítulo 14 está entre os arquivos recuperados?
— Só um momento, Inspetor. Não tenho certeza porque
alguns arquivos foram danificados.
Phat ficou de pé no meio da sala com as mãos na cintura.
O olhar de pressão foi enviado ao técnico de TI, que começou a
sorrir ao descobrir que o capítulo problemático ainda estava
intacto.
— Achei. O capítulo 14 está com o arquivo completo.
— Coloque na tela.
A imagem da capa do capítulo 14 apareceu no projetor na
parede. Todos os olhos se voltaram para o conteúdo, lendo
conforme o funcionário descia a página lentamente. A história
de um advogado famoso que tinha o dom da oratória para
enganar e conhecia as brechas da lei. O personagem advogado
aceitava casos de clientes jogando a culpa em bodes
expiatórios. Na última página do capítulo 14, esse advogado
foi morto com a boca costurada. O assassino usou um
armazém abandonado como cena do crime, deixando o rastro
do símbolo da estrela de cinco pontas invertida no peito, que
foi cortado com uma lâmina afiada.
— A próxima vítima... um advogado que transforma o
preto em branco.
— Deve haver cerca de um milhão deles.
— Assim fica amplo demais.
A resposta de sua equipe deixou o autor da história sem
saber o que fazer. O dono do pseudônimo Mr. Kill estava
sentado, pálido, olhando para sua obra na tela sem piscar.
Phat apoiou os braços na mesa de reunião, batendo a ponta
dos dedos, relembrando as duas vítimas anteriores. O
assassino levava 3 dias para agir a partir do dia em que a
vítima desaparecia. Era necessário tempo para montar a cena
antes de executar conforme a HQ Nekros.
O intervalo entre os dois casos não foi longo.
Encontraram o primeiro corpo e poucos dias depois receberam
a denúncia da segunda vítima. Se fosse como ele pensava, a
terceira vítima poderia estar sendo capturada agora.
— Procurem denúncias de pessoas desaparecidas ou que
não dão notícias e que sejam advogados.
— ...
— No período a partir do dia em que o corpo da segunda
vítima foi encontrado.
— Sim, senhor.
O número de denúncias de desaparecidos que passa de
100 por dia, e que muitas vezes termina com a pessoa não
querendo ser encontrada de propósito, fez com que todos na
sala tivessem que ajudar na leitura, inclusive aquele que
ainda estava preso ao pé da mesa.
A atmosfera na sala de reunião estava tensa, como se
uma bomba pudesse explodir a qualquer momento. As
informações de advogados desaparecidos passavam de 10
nomes. Todos estavam dentro de um período preocupante.
Phat observava os dados selecionados com alta probabilidade
no quadro branco.
— Não temos mais tempo.
— ...
— Não ter um destino significa que não temos tempo para
sentar e separar ou decidir quem é a vítima mais provável.
— ...
— Vão atrás de todos os que estão aqui.
— ...
— Din, fique de prontidão aqui. Nop, vá com Singh.
— E o senhor, Inspetor?
O dia todo, além do caso que não saía da cabeça, havia a
teoria dos números que o outro havia colocado em sua mente.
Toda vez que Kay dizia algo, havia uma alta porcentagem de
estar correto. Phat sabia que sua decisão desta vez poderia
parecer estranha para qualquer um, mas ele, que costumava
seguir o instinto, tinha certeza de que...
O fato de a algema ser solta do pé da mesa para ir para o
seu próprio pulso era uma decisão fruto de um pensamento
que talvez não fosse prudente, mas que certamente não faria
perder tempo.
Clique!
— Hã?
— Você tem que ficar sob minha vigilância.
— ...
— 24 horas por dia.
— E então?
Os pulsos dos gêmeos siameses temporários foram
erguidos ao nível do rosto. O outro parecia não entender, e ele
escolheu não dar mais explicações. O olhar confuso não podia
ser escondido antes de ele ditar as regras que deveriam seguir
juntos até encontrarem a próxima vítima.
— Vamos juntos, comemos juntos, dormimos juntos...
— E... e se eu quiser ir ao banheiro?
— Vamos juntos também.
Kay olhou para as algemas que os prendiam com
amargura. Mas, como aquilo poderia ser a prova de que era
inocente, estar preso ao inspetor à sua frente faria com que
tivesse um álibi claro durante as 24 horas.
— E se pensar em armar algo ou fugir...
— ...
— Bang.
Três dedos foram posicionados imitando uma arma,
apontando para a perna da pessoa que parecia ter um ponto
de interrogação estampado na testa o tempo todo.
— Uma das pernas... eu atiro na hora.
— ...
— Entendido?
3
A lista de nomes de advogados relatados como
desaparecidos foi dividida em dois documentos. A equipe de
investigação se espalhou para procurar pistas desde o final da
manhã até o fim da tarde, mas descobriu que a maioria era
apenas mal-entendido. Phatra e Kay entraram e saíram de
empresas de advocacia, visitaram casas de parentes que
forneceram informações, mas pareciam estar dando murros
em ponta de faca. Algumas pessoas não tinham desaparecido
de fato, apenas haviam cortado o contato intencionalmente,
aproveitando festas ou evitando a família por problemas
pessoais.
Várias horas foram perdidas com menos da metade da
lista riscada, o que fez o inspetor decidir voltar para a
delegacia. A porta do lado do motorista se abriu antes de ele
contornar o carro até o banco do passageiro para destravar a
chave que estava presa ao apoio de mão, prendendo-a em seu
próprio pulso.
— Não vai mais procurar?
Phatra meio que arrastou o único suspeito do caso de
volta para a sala de reuniões depois de terem saído em uma
longa aventura juntos. O olhar de quem fornecia as pistas era
de preocupação ao ver as algemas prendendo-o ao escritor
durante toda a investigação.
Embora fosse um tanto complicado, ter a outra pessoa
acompanhando ajudava na tomada de decisões. O dono do
rosto cheio de cicatrizes costumava ouvir os depoimentos em
silêncio; se houvesse algo que lhe interessasse ou parecesse
plausível, ele perguntava. Mas, se percebesse que o conteúdo
não tinha relação com Nekros, a mão que estava acorrentada
cutucava o outro secretamente para não perderem tempo ali.
Nop e Singh ainda estavam circulando pelas ruas,
enquanto Din provavelmente estava ocupado com a pilha de
casos enviados para algum lugar da delegacia. O quadro
branco encostado na parede foi puxado. Com uma mão ágil,
Phatra pegou a caneta e riscou os nomes dos advogados que já
haviam encontrado, removendo documentos, históricos e fotos
irrelevantes até sobrarem apenas os que ainda não tinham
sido localizados.
— Restam 11 pessoas.
— ...
— Dois dias não serão suficientes.
— E o que o inspetor vai fazer?
Phatra ficou parado olhando para o quadro por um
momento. Ele decidiu começar do zero novamente, pois
pensou que a pressa poderia fazê-los perder algo, e a pessoa
capaz de encontrar esse detalhe talvez fosse quem estava ao
seu lado.
— Quem é o advogado vilão na definição de Nekros?
Seus olhos estreitos o observaram enquanto pedia uma
opinião. Kay desviou o olhar para focar na lista dos advogados
restantes. Com as sobrancelhas franzidas, ele leu os históricos
e analisou as fotos. Com a mão livre, foi retirando as
informações dos advogados que lidavam com casos de
divórcio, problemas familiares ou casos que não pareciam ter
relação com o interesse de Nekros.
— Nekros não mata qualquer um.
Com os olhos focados na mentalidade do personagem
principal, ele concentrou a atenção no histórico de um
advogado antes de apontar o dedo para a foto de um homem de
meia-idade em um terno elegante, com um rosto sorridente
que parecia mais amigável do que qualquer outro no quadro.
— Este aqui... além de casos de drogas, ele também
defendeu o filho do dono de uma empresa que dirigiu bêbado e
atropelou uma pessoa até a morte.
— ...
— Parece que um bode expiatório recebeu dinheiro e
aceitou confessar no lugar dele.
— O advogado Komkrit?
— Se for o Nekros, ele escolheria este.
Um advogado famoso no mundo online, não havia quem
não conhecesse o jovem de lábia doce, mas venenosa. Sua
oratória o levou a ser convidado para vários programas de
televisão. Phatra já tinha ouvido falar da reputação de Komkrit
sobre a defesa de bodes expiatórios em casos de embriaguez ao
volante, mas como o jardineiro confessou firmemente e não
voltou atrás no depoimento, tudo acabou terminando em
silêncio com uma quantia de dinheiro que ninguém sabia de
onde vinha ou para onde ia.
— Então vai ser este mesmo.
Phatra puxou os documentos do advogado Komkrit do
quadro. Suas pernas longas começaram a caminhar sem
avisar a pessoa que ainda estava perdida em pensamentos. O
corpo alto de Kay cambaleou levemente, e assim que
conseguiu se equilibrar para acompanhá-lo, não parou de
reclamar desde o segundo andar até chegarem ao carro
estacionado no pátio da delegacia.
— Se for fazer algo, avisa antes. E se eu caísse da escada?
— Você fala demais.
— Ah, é que você não... vai devagar, senhor inspetor.
As algemas foram presas ao apoio de mão. A porta se
fechou antes mesmo de o outro terminar de falar. Quando
Phatra se acomodou no banco, Kay continuou a ladainha até
que ele teve que desviar o assunto.
— O advogado Komkrit mora sozinho. A empregada chega
de manhã e sai à tarde.
— Mudando de assunto, né?
— Quem relatou o desaparecimento foi a empregada. Ela
disse que o patrão não entra em contato há dois dias. A casa
está trancada normalmente. Se ele fosse a algum lugar, diria
para ela cuidar da ordem, mas desta vez não disse nada.
— Quero fazer xixi.
— Alô, Nop? Cancele tudo o que estiver fazendo e procure
informações sobre o advogado Komkrit. Verifique todas as
rotas desde antes até depois da denúncia.
— Quero fazer xixi.
Ele desviou o olhar do sinal vermelho, perdendo o foco na
conversa com o subordinado que respondia do outro lado.
Olhou para a pessoa que estendia a mão em frente ao vidro,
balançando-a para cima e para baixo, junto com o sussurro da
necessidade que estava começando a deixá-lo irritado.
— Só isso por enquanto. Se houver novidades, me ligue.
Phatra desligou a ligação, mudando sua atenção para o
banco do passageiro. Kay agia de forma inquieta logo após
terem saído com o carro.
— E por que não usou o banheiro na delegacia para
resolver logo?
— Você por acaso me ouve?
O número no sinal de trânsito mudou de vermelho para
verde. Ele soltou o freio e pisou no acelerador. Não muito longe
do cruzamento, seus dedos ágeis acionaram a seta para entrar
no posto de gasolina. O carro particular estacionou em frente
ao símbolo masculino. Phatra soltou o cinto de segurança,
saiu do carro e deu a volta até o outro lado.
— Você vai mesmo me fazer entrar no banheiro assim?
— Vai entrar ou não?
Por sorte, não havia ninguém no banheiro de tamanho
médio, pois aquele comportamento suspeito poderia fazer
qualquer um que visse sair contando histórias. Ele caminhou
até o mictório do fundo antes de se virar de costas para a
porta, deixando o outro fazer suas necessidades.
O puxão no pulso e o som do zíper sendo aberto pareciam
complicados. Phatra levou a outra mão à têmpora, olhando
para o chão de cerâmica antiderrapante por um bom tempo.
No entanto, não ouviu nenhum som que indicasse que a
pessoa atrás dele estava terminando a tarefa.
— Já acabou?
— Não consigo urinar.
— Humpf.
— Com você parado aí me pressionando, quem
conseguiria?
— Como você é problemático.
Como não queria perder mais tempo, ele tratou de abrir a
trava das algemas sem se virar, temendo ver o que não devia.
Ao se ver livre, o dono da roupa casual coberta por uma
jaqueta jeans preta se afastou para esperar em um canto
distante de quem estava de costas se ocupando.
Ele manteve a mão sobre o coldre da arma, preparado o
tempo todo caso a pessoa que se dirigia à pia tentasse alguma
artimanha. Uma bala na perna resolveria tudo rapidamente.
— Toma.
Mas, para sua sorte, Kay estendeu a mão para ser preso
novamente após se ajeitar. O olhar dele seguiu as algemas
balançando à sua frente. Phatra o puxou para prendê-lo ao
apoio de mão do carro e partiu rumo ao destino.
Não demorou muito para o motor ser desligado em frente
a uma casa de alto padrão no centro de um condomínio de
luxo fora da cidade. Ele recebeu um aviso de Nop no caminho,
dizendo que o subordinado estava indo encontrar a tal
empregada para buscar mais pistas sobre o desaparecimento
do advogado Komkrit.
Phatra olhou para o cadeado que trancava o portão pelo
lado de dentro. Normalmente, se estivesse trancado assim,
significava que o dono ainda estava em casa. Seus dedos
apertaram a campainha ao lado do portão pela terceira vez,
mas não houve resposta. No momento em que o sol estava
quase se pondo, se houvesse alguém morando ali, as luzes
internas deveriam estar acesas, mas tudo estava na escuridão.
Seus olhos varreram o redor e encontraram uma caixa de
encomenda caída no chão atrás do portão. Folhas secas e
sujeira cobriam o objeto; parecia que realmente não havia
ninguém naquela casa há algum tempo.
— Tem certeza de que é mesmo o advogado Komkrit?
— ...
— Você não está tentando me enganar, está?
— Se eu fosse fazer isso, não perderia tempo saindo com
você desse jeito.
Phatra olhou fixamente naqueles olhos negros profundos.
Não havia sinal de brincadeira ou intenção de deixá-lo
nervoso. O cérebro cheio de informações processou que ele
estava ali porque confiava no instinto da pessoa à sua frente, e
era uma decisão tomada por seu próprio instinto.
O pulso que estava livre tirou do bolso da calça uma barra
de ferro fina, semelhante a um arame grosso do tamanho de
um dedo indicador. A mão que estava algemada acompanhou
o movimento, ajudando a sustentar o cadeado dentro do
portão antes que o arame fosse inserido no buraco da
fechadura. Phatra moveu o objeto para dentro e para fora até
achar o ângulo certo, sentindo a trava saltar da base e o
cadeado cair no chão de cimento.
— Como você fez isso?
— ...
O portão de ferro se abriu o suficiente para eles passarem.
Ele não esqueceu de fechá-lo como antes. O corpo alto se
abaixou para verificar a caixa de encomenda, que marcava o
envio há três dias. A casa estava silenciosa, com o vento
batendo levemente na pele. Não havia outro som além dos
seus passos e dos passos da pessoa ao lado. O momento em
que a luz natural estava se esgotando e a escuridão começava
a cobrir tudo tornava a atmosfera ainda mais opressora.
— Se falharmos e houver mais um morto... eu vou culpar
você.
— Espera aí, senhor inspetor.
O puxão brusco nas algemas foi o suficiente para fazê-lo
virar o rosto e olhar para Kay, que parecia irritado com o que
ouvira.
— Não é fácil demais querer jogar a culpa em cima de
mim?
— ...
— Você acha que estou te enganando? Acha que me
divirto fazendo algo assim?
— ...
— Acha que eu fico bem sabendo que o que eu desenho se
tornou uma ordem de assassinato na vida real?
A frase longa foi expelida com angústia. Embora não
houvesse provas que incriminassem Kay como o vilão,
também não havia provas que confirmassem sua inocência.
— Isso é algo que você deve saber melhor do que eu.
Kay soltou um suspiro e desviou o rosto. A conversa
terminou ali antes de seguirem para a casa. O mesmo
instrumento destravou a fechadura da porta enquanto seus
pés pisavam no piso cerâmico.
— Não toque em nada sem querer.
— Eu sei.
A casa de um andar os recebeu com uma sala de estar,
seguida por uma mesa de jantar em uma zona de bar luxuoso.
A adega de vinhos e a geladeira ainda funcionavam
normalmente, mas outros eletrodomésticos estavam
desligados. Isso contrastava com o prato de comida deixado
quase pela metade sobre a mesa.
— Uma pessoa comeria com as luzes e o ar-condicionado
desligados?
— É possível.
O arroz frito podre estava sendo atacado por pequenos
insetos. Sobre a comida, havia manchas brancas e pretas que
pareciam fungos, causando náuseas. Ao lado, um copo de
água com mais da metade do conteúdo.
— Você, olhe no lixo.
Ele seguiu o olhar de Kay. Dentro da lixeira que chegava à
altura do joelho, havia sacolas de conveniência, marmitas e
um papel quadrado amassado. Phatra vestiu as luvas que
carregava consigo, com a ajuda do outro, antes de pegar o
papel e ler os detalhes internos.
— Um, dois, três.
— ...
Pela data especificada no papel, se contassem até hoje
conforme Kay estava fazendo, significava que o advogado
Komkrit estava desaparecido há três dias. Referindo-se aos
dois casos anteriores, isso indicava que uma situação terrível
estava acontecendo em algum lugar.

Em algum lugar...
— No episódio 14, onde o advogado vilão foi morto?
Phatra perguntou. O outro levou a mão livre para afastar
o cabelo dos olhos. O rosto bem desenhado olhou para o teto,
fechando os olhos para pensar enquanto seus lábios
começavam a murmurar algo.
— No armazém...
— Que armazém?
— Um armazém abandonado...
— ...
— O armazém abandonado no porto.
Phatra enviou a ordem para a equipe de investigação
verificar as coordenadas de todos os armazéns abandonados
perto do porto nas proximidades. Se a vítima fosse realmente o
advogado Komkrit, que desapareceu há três dias, desta vez
talvez ainda houvesse tempo para ajudar antes de
encontrarem apenas um corpo sem vida, como o do
empresário ou do subsecretário ministerial.
Os dois corpos de estaturas semelhantes apressaram o
passo para fora da casa, embora as algemas tornassem cada
movimento um obstáculo. No entanto, desta vez, ambos
correram juntos até o carro. Phatra destravou a algema e Kay
soube imediatamente o que deveria fazer a seguir.
O destino era o armazém perto do porto mais próximo,
que ficava a cerca de 30 minutos de distância. O motor rugiu
ao entrar na via principal. O carro desviava dos veículos que
bloqueavam o caminho com agilidade. A visão à frente mudou
de uma estrada de duas faixas para uma faixa única ao longo
do rio.
Os faróis do carro iluminavam o destino. O portão de ferro
enferrujado estava aberto como se estivesse à espera. Phatra
girou o interruptor para apagar os faróis, contando apenas
com a iluminação dos postes de luz da ponte próxima. A
velocidade do carro diminuiu drasticamente. Ao redor, tudo
estava em silêncio; ninguém dizia nada, apenas os olhos
ajudavam a vigiar através do vidro, inspecionando a fileira de
10 armazéns voltados para o porto que agora era apenas
ruínas.
Quase todos os armazéns abandonados estavam
fechados com portas de metal de enrolar, mas especificamente
o último estava com a porta aberta. O volante girou para
estacionar a uma distância curta da frente do armazém.
Phatra desligou o motor, levando a si mesmo e à pessoa presa
a ele para a frente da porta. Os dois circularam a grande
construção; além da frente, não havia outra entrada ou saída.
O armazém era fechado, com teto alto e sem janelas. Por fim,
ambos voltaram para a frente. O caminho para entrar era um
tanto difícil, pois temiam que o som da porta de metal fizesse o
assassino fugir. Até que conseguissem se abaixar o suficiente
para passar pela porta, acabaram se sujando inteiros.
Óleo de motor, poeira e um cheiro metálico de algo foram
as primeiras coisas a atingir o nariz. Estava tão escuro que
não dava para ver nenhum detalhe, e o silêncio era total, sem
qualquer movimento. Quando tiveram certeza de que o
armazém estava sem vida, a lanterna foi ligada para guiar o
caminho.
Onde a luz apontou, surgiu um corpo sentado encostado
na parede à frente...
A cabeça caía quase encostada no peito, sustentada por
uma corda pendurada no teto. Via-se apenas parte do rosto,
mas era possível confirmar que era a pessoa que procuravam.
Os dois braços estavam largados ao lado do corpo, as pernas
esticadas para a frente. O chão de cimento estava coberto pela
origem do cheiro metálico que inundava o local...
O pulso de Phatra foi puxado para baixo quando a pessoa
ao lado desabou no chão. O braço ágil o segurou para que ele
próprio não perdesse o equilíbrio. Ele afastou a lanterna do
corpo imóvel antes de pegar o telefone para ligar para o último
número discado.
Mais uma vez, a ordem por telefone com poucas palavras
fez Nop entender imediatamente como estava a situação. Ele
aceitou a ordem e desligou ao mesmo tempo em que Phatra se
abaixava para perguntar, pois precisava se aproximar para ver
com clareza.
— Você está bem?
— Não.
Clique.
O som das algemas se abrindo ecoou, e o pulso que antes
estava preso caiu por gravidade. Os olhos aterrorizados se
fecharam lentamente, escondendo os sentimentos. Phatra
deixou o outro esperando no mesmo lugar enquanto avançava
para mais perto do objetivo. O homem alto se agachou ao
chegar à distância ideal. A luz em sua mão iluminou o rosto
que se assemelhava ao do advogado Komkrit, porém, os lábios
estavam costurados.
Não era apenas a pose idêntica à cena da última página
do capítulo 14 do quadrinho, mas até o pentagrama invertido
deixado no meio do peito; o símbolo indicava que aquele era
um assassinato em série onde o criminoso imitava Nekros
perfeitamente.
A teoria dos números escondidos estava realmente
correta, conforme o outro analisara, e ele era realmente
inocente, como viera afirmando o tempo todo...

O som das sirenes ecoou por toda a área. A fita amarela


foi usada para isolar o local como um dejá vu. Reforços e a
equipe de investigação começaram a trabalhar assim que
chegaram. Holofotes reservas iluminavam tudo, tornando a
cena ainda mais pavorosa. Ele ficou parado ao lado de Nop,
esperando a perícia que trabalhava com eles desde o primeiro
caso, fora da linha amarela. Pouco depois, os detalhes
preliminares da morte estavam prontos para serem relatados.
— A vítima faleceu devido a um golpe com objeto
contundente na cabeça. Pelo corpo, há ferimentos de cortes
por objeto cortante. Os lábios foram costurados com linha. O
peito não foi marcado com caneta como nos casos anteriores,
mas sim com cortes de objeto afiado formando um
pentagrama.
— Hora da morte.
— Quase o mesmo tempo em que encontramos o corpo do
subsecretário. Cerca de duas horas atrás.
— ...
— O sangue ainda não secou. O corpo começou a
enrijecer em alguns pontos.
Era frustrante sentir que estavam perto, mas ainda um
passo atrás.
Ele chegou apenas alguns passos atrasado, mas esses
poucos passos significavam que o assassino em série agindo
como Nekros fora bem-sucedido. Phatra colocou as mãos na
cintura, a outra mão bagunçando o cabelo para afastar os
pensamentos caóticos. O rosto exausto desviou do corpo sem
vida, mudando o foco para a outra pessoa sentada em uma
cadeira na entrada.
— E aquele ali?
— Kay?
— Sim. Ele ainda é suspeito?
— Não... não foi ele.
— ...
— Ele esteve comigo o tempo todo.
A confirmação de Phatra dissipou as dúvidas e devolveu a
inocência a Kay, limpando a mancha que o tornara suspeito.
Nop e a equipe de investigação que se aproximou concordaram
que o outro estava livre da acusação de ser o assassino. Kay foi
deixado sentado encostado em um pilar do armazém
abandonado, sem as algemas e sem ser incomodado por
ninguém.

Apesar de estar livre das acusações, Kay não se sentia


bem por ser inocentado. Em sua cabeça, as imagens dos
traços que ele mesmo desenhara se sobrepunham ao estado
do corpo do advogado Komkrit. O barulho e as pessoas
entrando e saindo do armazém não conseguiam tirá-lo do
pensamento de que ele era o modelo para o assassino. Seus
olhos olhavam para o colo; o pulso que antes estava algemado
estava ralado, mas não sentia dor. Ele girava o pulso
observando a marca, isolando-se do ambiente ao redor, mas
foi interrompido por uma garrafa de água estendida pela
pessoa que se sentou na cadeira ao lado.
— Água.
— ...
— Beba um pouco.
Kay aceitou a garrafa da mão do outro, abriu a tampa e
bebeu quase tudo de uma vez. Antes que pudesse procurar
uma lixeira, a garrafa foi pega de volta por quem a trouxera.
— No que está pensando há tanto tempo?
— Quero voltar para tomar banho.
— Está quase acabando. Eu te levo.
— ...
— Desculpe.
— Pelo quê?
— Pelo que eu disse na casa do advogado Komkrit.
— Mas a culpa é minha mesmo.
— ...
— Eu desenhei aquela cena. Eu pensei naquele método de
amarrar a corda. O campo de arroz, o armazém abandonado.
Eu... eu fui quem criou isso. Ergh!!
— Ei, calma.
O líquido que acabara de engolir foi empurrado de volta
para a garganta. Ele levou a mão à boca, a outra apertando o
abdômen que subitamente teve um espasmo de dor. Kay não
tinha uma crise forte assim há anos. Ele esquecera como lidar
com um ataque de pânico. As mãos apertavam a camiseta, os
dedos dos pés se contraíam contra o chão, o corpo se curvava.
— Kay! Kay!! Concentre-se!!!
— Ergh!
O corpo alto foi amparado para longe da frente do
armazém. O braço foi forçado sobre o ombro de Phatra, que
tomou a liberdade de segurá-lo pela cintura para facilitar o
andar. Talvez por estarem grudados o dia todo, os passos de
ambos seguiram em sincronia por todo o caminho até a beira
do rio, que era protegida por uma grade que chegava quase ao
peito. Ao ser solto, as duas mãos se apoiaram no metal. Depois
disso, um líquido transparente foi expelido junto com a
angústia. O abdômen relaxou e os pés pararam de se contrair.
— Bleargh!
— Onde está o remédio?
A mão de Phatra bateu no bolso da calça de onde ele tirou
o frasco. Uma cápsula branca foi colocada em sua mão. Ele a
engoliu imediatamente antes de começar a controlar a
respiração para ajudar o remédio a fazer efeito.
— Argh...
— Concentre-se, Kay. Você não matou ninguém.
O outro falou em tom baixo, enfatizando as palavras para
tirá-lo do transe que criara para se punir. O Mr. Kill, o motivo
de toda essa confusão.
— Se... se eu não tivesse feito aqueles desenhos...
— Me escute.
— ...
— O assassino é quem usou o seu trabalho, não você.
As duas mãos seguraram seus ombros, forçando-o a
olhar. O rosto refletido nos olhos sérios de Phatra mostrava a
exaustão de Kay. Os sentimentos transbordavam de olhos
cheios de significados ocultos. Kay pareceu parar por um
instante, incapaz de desviar o olhar do outro. As costas da
mão de Phatra limparam a sujeira antes de o inspetor dizer o
que queria.
— O que aconteceu não é culpa sua.
— Mas...
— Mas, se isso faz você se sentir culpado a ponto de
querer assumir a responsabilidade...
— ...
— Colabore comigo.
— Colaborar?
A proposta do inspetor de investigação não parecia uma
brincadeira para testá-lo. O tom de voz era de comando, mas o
olhar parecia um pedido, o que causava confusão. As mãos
liberaram os ombros, mas uma delas foi estendida à sua
frente. O ato gerava perguntas enquanto ele alternava o olhar
com os olhos estreitos de Phatra.
— De agora em diante, você não é um suspeito.
— ...
— Mas você será um consultor especial da equipe de
investigação do caso Nekros.
— ...
— Porque só você vai saber o que aquele assassino está
pensando. Se quiser se livrar do sentimento de culpa que você
criou... então vamos colaborar.
— ...
— Colabore comigo.
— ...
— Vamos pegá-lo juntos.
Ele já tinha ouvido muitas histórias para enganar
crianças. Uma vida cercada por pilhas de livros moldara uma
capacidade de processar histórias que não perdia para
ninguém. O hábito de ser retraído o fazia não acreditar
facilmente em nada na vida, além de si mesmo. Kay escolhera
não confiar em ninguém. Mas a sinceridade naquele olhar, a
voz determinada, uma certa condição que estava se
formando... diziam a ele que o que acabara de receber fazia
aquela pessoa ser diferente de qualquer outra. E ele podia
acreditar que aquela colaboração ajudaria a lavar o
sentimento de culpa e a lidar com o monstro que ele
acidentalmente criara sem intenção...
A mão trêmula, então, ergueu-se lentamente antes de
tocar a mão do outro para concordar que o pacto de caçada ao
monstro assassino havia começado...

Kay pegou uma carona no mesmo carro de volta à


delegacia. A princípio, o dono do carro se ofereceu para levá-lo
até em casa, mas alguns compromissos o fizeram ter que
retornar. Sorte que o inspetor não insistiu quando ele recusou
a gentileza, pois ainda tinha muito trabalho a resolver.
O corpo estava exausto e pronto para dormir, mas Kay
não chamou um transporte para casa imediatamente. Suas
pernas longas caminharam pela calçada, parando para checar
o reflexo no vidro e garantir que ninguém o seguia. As pessoas
que passavam não pareciam suspeitas, mas ele ainda temia
que o inspetor tivesse enviado alguém atrás dele.
Longe da delegacia, havia um ponto de mototáxi. Ele
montou na moto e indicou como destino um ponto de ônibus
em uma direção oposta ao seu condomínio. Pegou o celular e
escaneou o pagamento ao chegar, antes de atravessar um
pequeno beco para sair em outro ponto de mototáxi do outro
lado. Kay olhava para trás periodicamente enquanto
caminhava até os mototaxistas. Ele informou o destino e,
desta vez, parou em frente a uma casa de madeira de um
andar, com aspecto antigo e precário. Uma casa que fazia
parte de uma comunidade carente, sem assistência do
governo.
O relógio de pulso marcava quase dez da noite, quase
duas horas após o horário combinado. No entanto, por sorte, a
luz vinda de dentro confirmava que a pessoa com quem ele
marcou ainda esperava. Ele girou a maçaneta da porta que
não estava trancada e entrou em silêncio. O interior da casa
estava na penumbra. Seus pés seguiram a única luz acesa
antes de chamar pela mulher de meia-idade que estava
sentada, de cabeça baixa, fazendo tricô na frente do quarto.
— Tia Sri.
— Você chegou?
— Desculpe o atraso. Tive um pequeno problema.
O rosto cheio de marcas do tempo esboçou um sorriso
suave. As duas mãos guardaram o passatempo na bolsa de
palha antes de ela se levantar. Os dedos delgados de Kay
pegaram um maço de notas de mil que já estavam contadas na
carteira e entregaram à mulher à sua frente.
— Vou indo, tia.
— Sim.
O som da porta se fechando às suas costas e o silêncio
eram a garantia de que ela já havia saído. Ele caminhou até a
porta do quarto que ficava sempre aberta. O cheiro de
desinfetante e um leve odor de talco atingiam seu nariz toda
vez que entrava. Kay sentou-se na cadeira ao lado da velha
cama hospitalar onde repousava o corpo de um homem idoso.
Os tubos do respirador ligavam-se ao corpo magro, onde
as costelas eram visíveis. Ele ajeitou a camisa que havia
subido por causa do vento do ventilador para cobrir a grande
cicatriz de queimadura na barriga do pai. Parecia que,
enquanto esperava, Tia Sri havia limpado tudo perfeitamente.
A mão delicada alcançou o braço que parecia apenas pele
sobre os ossos. As marcas do tempo mostravam cicatrizes de
tecido unido em intervalos. Ele o acariciou suavemente
enquanto mantinha o olhar no rosto imóvel.
— Desculpe ter sumido por vários dias, pai...
— ...
— Está com fome?
— ...
— Dormiu bem hoje?
Obviamente não houve resposta do corpo que vivia
através de aparelhos há mais de vinte anos. No entanto, ele
ainda fazia isso todas as noites em que passava por lá, como se
o pai percebesse tudo normalmente.
— O trabalho está bem corrido ultimamente.
— ...
— Se eu não puder vir te ver com frequência, não fique
bravo comigo, tá?
Ele passou um bom tempo conversando antes de se
afastar para a mesa de trabalho no canto do quarto. Havia
noites em que decidia trazer o trabalho para lá. Na gaveta,
além da caderneta de poupança e das contas de remédios e
equipamentos médicos organizadas, havia também cadernos e
lápis para desenho.
Como precisava dividir as economias para pagar os
remédios e as dívidas que a gangue de cobradores não parava
de exigir, a última linha da caderneta mostrava um número
nada impressionante.
Ele pegou o celular sobre a mesa e abriu um aplicativo.
Digitou uma mensagem para o contato salvo como Editor,
confirmando que enviaria o novo capítulo até o final desta
semana.
Por fim, a noite que deveria terminar em uma cama, como
recompensa pelo cansaço do dia inteiro, acabou diante de
folhas de papel sendo preenchidas para cumprir o prazo
prometido. Ele já havia esquecido como era a vida de quem
dorme as oito horas recomendadas. Agora, só existia uma vida
dedicada ao dinheiro para pagar um tratamento que não se
sabia quando terminaria.

A imagem do quadro de investigação na parede da sala do


Inspetor Phat, o único irmão de Praew, ainda estava nítida em
sua mente. Praew lembrava do momento em que seu coração
disparou e seus olhos se arregalaram ao ver a linha que ligava
o nome Mr. Kill e K. Cupid à foto de Kay, o autor de quadrinhos
que Praew mais amava na atualidade. Mas antes que pudesse
ler algo mais, o irmão problemático, que estava sumido de
casa há dias, apareceu e a arrastou para fora da sala pela
milionésima vez. Desta vez, porém, Praew não deixou que ele
fechasse a porta. Ela ficou parada no caminho, esperando
uma resposta sobre como seu autor favorito estava envolvido
com um assassino.
Naturalmente, ela não obteve resposta do irmão, que
ficou em silêncio e apenas soltou uma frase curta:
— Espero que não tenha envolvimento.
— Espero que não tenha envolvimento...
— ...
— Esse "espero que não tenha envolvimento" significa que
não tem, ou que você não sabe se tem?
— Aconteceu alguma coisa, Praew? Está aí resmungando
sozinha faz tempo.
— Prim.
— Você já leu este quadrinho?
Praew virou a tela do computador que exibia a obra de K.
Cupid. A personagem feminina tinha um olhar tão triste que
emocionava quem lia. A habilidade de desenhar olhos que
transmitiam emoções era reconhecida por todos.
— Conheço, sim. É o trabalho do K. Cupid. Eu já li.
— ...
— O que tem?
— Se eu te dissesse que o K. Cupid é a mesma pessoa que
o Mr. Kill, você acreditaria?
— Hein!?
Contudo, antes que Prim pudesse se recuperar do
choque, a voz do chefe gentil, que abriu a porta com os olhos
brilhando, chamou a atenção de toda a equipe.
— Todos, escutem aqui!
— ...
— Nekros agiu pela terceira vez.
O barulho na sala parecia um enxame de abelhas. Praew
e Prim se olharam assustadas antes de voltarem a atenção
para o som das palmas pedindo foco.
— Desta vez a vítima é o advogado Komkrit. Aquele
advogado famoso que aparece sempre na televisão.
Comentários sobre a última vítima se espalharam por
todo o andar. Than caminhou até parar na frente de Praew e
Prim. Ambas esperavam ordens, pois sabiam que, se o caso
era sobre Nekros, a responsabilidade seria delas.
— Já sabem o que fazer, certo?
— Sim, chefe.
— Praew... mas desta vez eu não quero uma notícia de
crime seca.
— ...
— Quero uma análise da alma do Nekros. Qual o motivo
para ele fazer isso? Você é uma fã ávida dos quadrinhos, não
é?
— Sim.
— Alguém como você é quem melhor o entende... conto
com vocês duas.
O chefe bateu palmas de alegria como uma criança. Com
o rosto sorridente, ele se afastou, deixando Praew e Prim com o
trabalho pelas próximas horas até que a análise estivesse
pronta para satisfazê-lo.
Prim deslizava a tela lendo o histórico do advogado
Komkrit. Sua expressão mudou de dúvida para nojo.
— O advogado Komkrit é quem defendeu o caso do filho
do dono daquela empresa que dirigiu bêbado e matou três
pessoas. Ele ainda pagou para criar bodes expiatórios...
— ...
— A única testemunha do ocorrido foi ameaçada até
cometer suicídio... O país não tem mais lei para chegar a esse
ponto?
— É por isso que o Nekros teve que nascer...
— ...
— Para fazer a balança que está inclinada voltar ao
equilíbrio.
Prim assentiu, concordando com as palavras de Praew,
que digitava freneticamente sem pausas. Ela recusou até
convites para tomar um café. Praew não se levantou da
cadeira nem por um segundo até que a análise solicitada pelo
chefe estivesse completa.
— Incrível...
— ...
— Realmente incrível. Você escreve muito bem, Praew. Eu
não me enganei ao pensar que você entenderia o coração dessa
história melhor do que ninguém.
Praew fez um gesto de agradecimento pelo elogio. Mais
uma vez, ela se sentia orgulhosa e esperava que o artigo
tivesse mais visualizações do que qualquer outro vídeo na
plataforma.
— Muito obrigada, chefe. Eu apenas escrevi o que senti,
como o senhor sugeriu.
— Ótimo.
— ...
— Ótimo. Então, tenho um trabalho especial para você...

Phat estava imerso nas fotos da cena do crime há dias. Ele


deu zoom em todos os ângulos, analisando cada centímetro do
terceiro caso. Contudo, por mais que tentasse, ainda não
havia encontrado os números escondidos.
— Nop, volta na foto anterior.
— Esta aqui?
— Isso. Tem algum ângulo que mostre uma linha reta
assim, mas que pegue do corpo até o teto?
— Tenho, sim.
Phat estava intrigado com algo na característica da corda
que enforcava a vítima. Ele sentia cada vez mais que a corda
pendurada no teto foi feita daquela forma intencionalmente.
Não haveria motivo para dar dois nós em laço. O primeiro laço
estava acima da cabeça do morto, pendurado pela gravidade,
sem muita forma definida. Já o segundo laço estava em volta
do pescoço da vítima.
— Número 18?
— Como você está vendo isso?
— Olha só. A corda desce e é amarrada formando algo
parecido com um círculo, só que, como está pendurada, fica
difícil de ver. E o outro círculo está no pescoço da vítima.
— E de onde vem o número 1?
— A parte da corda que vem do teto até o primeiro nó é o
número 1. E o primeiro laço junto com o laço no pescoço do
advogado Komkrit formam o número 8.
— Então qual o número da sorte da vez? Ultimamente o
senhor está bom demais em adivinhar números.
— É instinto.
Para ele, o instinto vinha de encontrar algo
repetidamente, ver a mesma coisa com frequência ou
acumular situações semelhantes para analisar de novo até
obter a resposta, aliado a um sentimento de que aquilo fazia
sentido.
Toc, toc.
— Desculpe o atraso.
— Olá, Kay.
— Estávamos esperando por você.
— Sim?
Phat deu espaço para quem acabara de chegar. O
membro honorário da equipe de investigação do caso Nekros
ficou diante do projetor que exibia o corpo do advogado
Komkrit. De uma distância que permitia ver do teto ao tronco,
o olhar afiado percorreu a imagem por um instante antes de
responder, mesmo sem saber a pergunta:
— 18?
— A corda longa do teto é o 1, e o 8 é o laço pendurado
primeiro.
— E o que está no pescoço do advogado Komkrit é o
segundo laço.
Nop abriu rapidamente a pasta Nekros em busca do
capítulo 18 que a TI havia recuperado dos dados deletados. No
entanto, antes de clicar duas vezes, seu olhar parou no
parêntese após o nome do arquivo.
— Dados incompletos?
— O que isso significa?
Nop ligou imediatamente para a TI. A conclusão foi que 30
por cento do conteúdo recuperado havia se perdido. Um dos
capítulos danificados era justamente do 18 em diante.
— Você consegue lembrar o conteúdo do capítulo 18?
— Se eu vir algumas partes, talvez eu lembre.
— Então vamos investigar com o que temos.
O conteúdo do capítulo 18 não chegava nem à metade.
Terminava no momento da captura. A vítima deste capítulo
era um político corrupto. Sinceramente, centenas de nomes
surgiram na cabeça, mas a informação de que Nekros indicava
que, apesar de ter um histórico escandaloso, ele sempre
escapava, reduziu a lista de políticos para apenas aqueles que
haviam se livrado de acusações mais de uma vez.
O político corrupto tornou-se a lição de casa que fez Phat
e a equipe passarem dias buscando históricos compatíveis.
Pistas que geravam reflexão e informações que traziam
questionamentos estavam espalhadas por todo o grande
quadro branco. Os nomes no quadro tinham passados tão
sujos que ele se perguntava como aquelas pessoas tiveram a
oportunidade de trabalhar pelo bem público.
Alguns eram removidos e depois colados de volta por
incerteza. Mais uma vez, Phat sentiu que precisava depender
do criador de Nekros, como Kay, que só aparecia quando não
estava ocupado com seu trabalho fixo, como naquele dia.
O rapaz alto e esguio olhou para o quadro, surpreso. A
quantidade de informações quase transbordava, fazendo Kay
levar a mão à testa. Desta vez, ele não estava muito confiante,
pois o conteúdo perdido era uma parte de que ele mesmo se
lembrava vagamente, e as opções à frente eram todas
igualmente obscuras.
— Nenhum destes foi dado como desaparecido ainda,
certo?
— Ainda não. Ninguém ousa pedir proteção porque não
querem admitir que são pessoas ruins.
Rumores foram espalhados intencionalmente para chegar
aos políticos suspeitos de serem a quarta vítima, o que
certamente causaria ansiedade generalizada naqueles que
exerciam a profissão. Mas nenhum deles admitiu ou pediu
proteção especial à polícia. A lista de quase vinte nomes foi
mantida; nenhum foi cortado.
Kay demorou para decidir mais do que o habitual. Sob as
lentes de Nekros, ele analisava lentamente quem descartar ou
manter. A situação não era urgente, mas a pressão continuou
por vários dias.
O assassino em série Nekros silenciou após o terceiro
caso. Parecia que ele estava ganhando tempo e se divertindo.
Nop continuava monitorando se havia queixas de
desaparecimento de algum político, e durante todos esses
dias, nenhuma foi registrada. Isso poderia significar duas
coisas: ou o assassino ainda não planejava começar, ou eles
estavam no caminho errado.
— Eu acho que é este.
— Deputado Charatpong.
— Por que o Deputado Charatpong?
— Ele tem um histórico escandaloso envolvendo drogas,
fraude em licitações públicas e lavagem de dinheiro. No total,
quase dez casos. Mas veja isso, Inspetor... todos os casos
foram arquivados. Sem contar os boatos de envolvimento com
gangues de golpistas e tráfico humano.
— ...
— Ele é o único de todos que nunca deu uma entrevista
sobre seus processos. Sempre foge da imprensa e da sociedade
indo se ordenar como monge.
— ...
— É esse tipo de coisa que eu acho que interessa ao
Nekros.
Phat leu os dados do Deputado Charatpong. A quantidade
de crimes era média comparada aos outros, mas todos foram
anulados. Além disso, nenhum caso se tornou manchete
principal, embora todos fossem graves o suficiente para
causar impacto.
— Parece que no momento ele está praticando preceitos
em um templo no interior — disse Din, pesquisando no
computador antes de exibir a foto do Deputado Charatpong.
Vestido de branco, sentado em meditação sob uma árvore, a
foto havia sido postada em redes sociais como propaganda do
templo há poucos dias.
— Encontre um jeito de eu falar com o Deputado
Charatpong.
— Sim, senhor.
Phat foi insultado pela voz do outro lado da linha, que
interpretou a preocupação do policial como uma acusação de
que ele seria um político corrupto. Phat passou um longo
tempo explicando, até que encerrou a conversa pedindo
desculpas.
— E não deixe meu nome ser manchado por causa desse
quadrinho idiota.
— Sim.
— E não mande ninguém para me proteger também.
— Sim. Desculpe o incômodo, senhor.
A ligação foi encerrada. O outro lado estava visivelmente
furioso, o que não era inesperado. Na verdade, policiais à
paisana já haviam sido enviados para os arredores do templo
antes mesmo da ligação. Foi assim que souberam que a recusa
de proteção era porque o templo estava cercado por uma
equipe de guarda-costas em número quase duas vezes maior
que o de policiais.
Isso significava que o próprio Deputado Charatpong
estava bastante preocupado. Se até aquele momento nenhum
político havia desaparecido e Nekros ainda não havia agido, ele
poderia ser a próxima vítima, conforme as suspeitas.
Phat desviou o olhar do espelho, por onde via um homem
de meia-idade, corpulento e todo vestido de branco, jogando o
celular no chão após desligar. Ele estava tendo um ataque de
fúria, e seus subordinados nem ousavam se aproximar. O
Deputado Charatpong esteve sob vigilância o tempo todo
durante a conversa por telefone, observado de dentro de uma
van estacionada em um ponto cego do templo. Quando ele
voltou para seus aposentos, Phat voltou sua atenção para a
pessoa que observava a cena ao seu lado.
— Amanhã você não precisa trabalhar, certo?
— Sim, mas não pretendo ficar aqui até o amanhecer.
— Se não houver nada, daqui a pouco vamos embora.
Deixamos os agentes à paisana continuarem o trabalho.
— ...
— Está com fome?
— Não.
Quando não havia um assunto de interesse, Kay
costumava ser monossilábico. Já Phat, se pensava em algo,
preferia perguntar diretamente, não para estragar o clima,
mas porque queria sanar várias dúvidas sobre a identidade de
Kay.
— Por que você escreveu o quadrinho Nekros?
— ...
— Pode me contar?
— E se eu não quiser contar?
— Você que sabe.
— ...
— Mas algum dia vai ter que contar de qualquer jeito.

Centenas de carros passavam pelo cruzamento no centro


da cidade. O calor intenso fazia o rosto mudar de cor. Por
horas, seu pai, sua mãe e ele ficaram segurando cartazes
pedindo ajuda em frente à delegacia metropolitana. A voz do
pai gritando por justiça por ter sido enganado e forçado a
assumir a culpa em um caso de fraude até perder tudo o que
tinha era rouca e persistente.
Ninguém pensou em ajudar os três. Do primeiro dia
segurando cartazes, passou-se para o segundo, e já fazia mais
de uma semana. O pai começou a enfraquecer, tentando
invadir para falar com alguém em posição de autoridade. No
entanto, a resposta que recebeu o deixou ainda mais destruído
e o fez se culpar mais severamente.
A casa de madeira onde viveu desde criança recebeu um
selo de penhora. Foi a primeira vez que ele viu o pai e a mãe se
abraçarem chorando em total desespero. O pai repetia sem
parar: "Nós nunca vamos vencer eles...". Q, aos oito anos, já
tinha idade suficiente para entender que sua casa estava em
apuros, mas não sabia que o caminho escolhido pelos adultos
seria tão assustador, como se estivessem possuídos por um
demônio.
Ele lembrava que, antes de dormir, o pai lhe entregou um
leite morno que ele não tomava há muito tempo. A mão pesada
acariciou seu cabelo e ele conversou brincando até que o
menino adormecesse antes mesmo de chegar à cama. No
entanto, quando acordou no meio da noite devido ao calor
abrasador que parecia o de um micro-ondas, seus olhos se
ajustaram à luz laranja brilhante e ele entrou em choque ao
ver que o que via eram chamas consumindo todo o quarto.
A criança lutou para sobreviver, mas, para piorar, tinha
as mãos e os pés amarrados pelo próprio pai, que estava
sentado de costas. Por mais que gritasse, o outro não
respondia, não pensava em olhar para o único filho que tinha
o rosto banhado em lágrimas.
As faíscas atingiam seu corpo, causando queimaduras.
As vigas de madeira da casa antiga não eram resistentes e
serviram de combustível. O fogo se espalhou rapidamente,
consumindo primeiro a vida de sua mãe, que dormia no sofá
do lado de fora.
Ele não lembrava o quanto gritou pelo pai ou por quanto
tempo, mas foi tanto que desmaiou novamente e só acordou
em uma cama de hospital.
Ele e o pai sobreviveram...
Mas a sobrevivência do pai veio ao custo de um estado
vegetativo. Era apenas um corpo que ainda respirava por
causa de aparelhos. Ele era jovem demais para cuidar do pai,
então o homem teve que ficar em um centro de cuidados
intensivos por muitos anos.
— Mas no fim, parece que o carma alcançou ele.
— ...
— O centro de cuidados onde meu pai estava pegou fogo...
Desta vez, ele pôde ir como queria.
— ...
— Eu pensei nisso quando decidi escrever o quadrinho...
Nekros é quem resolve os problemas de uma sociedade
distorcida.
— ...
— Mas eu não queria que fosse assim.
Phat engoliu em seco com dificuldade ao ouvir o outro
contar o início de tudo o que o levou a escrever Nekros. O
rancor contra um sistema injusto com os pequenos fez uma
criança crescer em meio a feridas que, por mais tempo que
passasse, seriam impossíveis de esquecer.
— Se a lei fosse boa, teria protegido meu pai... e eu não
teria que viver como alguém que está morto por dentro.
O tom de voz soava como se fosse algo normal,
contrastando com os olhos negros profundos cheios de dor.
— A lei não é ruim, mas sim as pessoas que a usam...
— ...
— Eu sei que você sofre. Não importa o que eu diga para
consolar, não vai melhorar fácil... mas quero que entenda.
— ...
— Uma sociedade distorcida acabará punindo a si
mesma, sem precisar de alguém como o Nekros.
— ...
— E agora você não precisa se preocupar com nada. Se
quiser descansar um pouco...
— ...
— Eu estarei sentado bem aqui... não vou a lugar
nenhum.
O cansaço acumulado transparecia. Parecia que ele havia
esgotado toda a energia do corpo para relatar aquela conversa,
o que refletia sua confiança. Por fim, o rosto exausto encostou
no banco do carro antes que as pálpebras pesadas, que ele
forçava a manter abertas, se fechassem. Sua respiração
tornou-se regular, entrando em um sono profundo
rapidamente, como se esperasse por aquele momento há
muito tempo.
Rrr...
Rrrr...
— Suspeito avistado pulando o muro do templo, atrás dos
aposentos do alvo.
— Repetindo, suspeito é um homem alto, vestindo camisa
preta e calça preta, pulando o muro do templo atrás dos
aposentos do alvo.
— Ciente. Reforços a caminho.
4
— Repetindo: suspeito avistado, homem alto, vestindo
camisa preta e calça preta, escalando o muro do templo atrás
da acomodação alvo.
— Entendido. Reforços a caminho.
Kay acordou de sobressalto com o som do rádio na mão
do inspetor. Phat respondeu enquanto abria vagarosamente a
porta da van para sinalizar aos policiais à paisana, espalhados
do lado de fora, que avançassem até o local informado.
A atmosfera dentro do templo era de uma tranquilidade
absoluta, com luzes suaves iluminando apenas alguns pontos.
Após o pôr do sol, o movimento de moradores e turistas era
escasso, o que permitia que vários agentes se escondessem em
cantos estratégicos, longe dos olhos dos guarda-costas que se
agrupavam em frente à casa do Deputado Jaratphong. Phat
abaixou o corpo, pois, pela distância, parecia estar no ponto
mais próximo da residência. Ele desligou o rádio, guardou-o
sob o casaco e, com as duas mãos, sacou a arma,
engatilhando-a e mirando na silhueta que descia do muro.
Tup!
Pah!!
A coronha da arma atingiu a nuca do indivíduo. Ele
aplicou um mata-leão, pressionando o plexo solar para
impedir que o outro emitisse qualquer som, enquanto
encostava o cano na têmpora do sujeito. Ao mesmo tempo, os
policiais à paisana que estavam por perto e aquele que
acabara de despertar de um sono de quase uma hora correram
para dar apoio.
A arma foi guardada no coldre. Tudo ocorreu da forma
mais silenciosa possível. De ambos os lados, havia vigias
atentos para garantir que os capangas da outra facção não
percebessem nada. Phat encarou o rosto do jovem imobilizado
pelos policiais. Ele estava estático, sem resistir. O suor
escorria pela linha do cabelo e seus olhos vacilavam antes de
se voltarem para a bolsa lateral que carregava. Com mãos
ágeis, Phat abriu a bolsa e revistou cada compartimento,
esperando encontrar uma arma letal ou qualquer pista que
servisse para o interrogatório. No entanto...
Além de um celular e uma câmera digital de marca
famosa, havia um crachá de uma agência de notícias
renomada. Embora a foto estivesse quase metade coberta por
uma mão, ainda dava para ver que se tratava da mesma
pessoa. Phat fez um sinal com a mão para que seus
subordinados liberassem o rapaz.
— Jornalista?
— S... sim.
— Quem te avisou?
A voz era grave. Ele agarrou o colarinho do rapaz, fixando
o olhar sem piscar, até que o outro juntou as mãos em prece
no centro do peito, preparando-se para implorar por
misericórdia. Mas, antes que pudesse dizer uma palavra, o
oficial que vigiava a entrada interrompeu a situação no meio
do interrogatório improvisado, acompanhado pelo som de
motores que se aproximavam ao longe.
— Inspetor!! Vários carros de agências de notícias estão
entrando no templo!!
— Agora complicou...

Uma pequena confusão se formou em frente à casa.


Guarda-costas, todos vestindo camisas pretas, barravam o
caminho de dezenas de jornalistas que tentavam entrevistar o
Deputado Jaratphong, que permanecia em silêncio lá dentro.
A situação forçou os policiais à paisana a se revelarem
para tentar manter a ordem, mas o efeito foi oposto. Além dos
portões estarem cercados por quase todas as emissoras e
carros de transmissão ao vivo enfileirados, agora até monges e
moradores das redondezas queriam ver o que estava
acontecendo.
Phat passou a mão pelo cabelo que caía sobre o rosto. Ele
suspirou, tentando localizar o jornalista que havia deixado ir
enquanto se ocupava com o caos. O mais importante agora era
encontrar alguém que explicasse como aquilo tudo aconteceu.
Antes mesmo de terminar o pensamento, seus olhos
encontraram alguém muito familiar.
Sua irmã biológica, que estava estagiando em uma
agência de notícias, parecia ter sido enviada para o meio do
tumulto com os outros repórteres. Phat deu a volta por trás de
Praew e, sem pedir licença, puxou-a para fora da confusão,
arrastando-a para os fundos da casa onde Kay já estava
esperando.
— Maninho!! Você está me machucando... P... P'Kay.
— Praew, o que você está fazendo aqui?
— Hein?
— Por que todo mundo resolveu entrevistar o Jaratphong
agora? O que aconteceu?
— Alguém enviou fotos vazadas do Deputado Jaratphong
para a empresa. Todas as agências devem ter recebido
também, por isso viemos para cá.
Praew estendeu o celular na frente do irmão. A tela
mostrava um homem corpulento vestido de branco, mas
cercado por mulheres com pouca roupa. Na frente deles, uma
mesa cheia de bebidas alcoólicas. Na parede ao fundo,
aparecia nitidamente uma foto do templo.
— Agora, nas redes sociais, o pessoal já deve estar
começando a espalhar a notícia. Isso vai ser o assunto número
um, com certeza.
— Certo. Conversamos em casa depois.
— Ah! Agora que não sirvo mais, você me expulsa assim!
Phat mandou a irmã de volta para onde estava. Ele se
afastou para observar a situação que não parecia ter fim
próximo. Ao seu lado, o corpo alto de Kay permanecia de
braços cruzados, observando os jornalistas sem emitir
opinião.
Quanto mais Phat pensava na foto que Praew mostrou,
mais irritado ficava. O sujeito cometia atrocidades, mas
escapava do julgamento social por tanto tempo, e agora o
escândalo estourava justamente quando ele precisava de
proteção especial. Ele não queria proteger o Deputado
Jaratphong de notícias ruins, mas proteger alguém que
poderia ser uma vítima era um dever maior.
— Inspetor!!
— ...
— Inspetor!!
Um personagem inesperado surgiu do meio da multidão.
Ele levantou a mão para se identificar e gritou para atrair a
atenção de todos.
— Com fotos provando tudo isso, você ainda escolhe
proteger o culpado?
— Calma, senhor.
Phat lembrava vagamente que aquele homem era o dono
da agência onde Praew estagiava. Um influenciador de notícias
famoso que, ultimamente, parecia gostar de abordar o caso do
Nekros em particular. Análises psicológicas do assassino,
análises sobre os quadrinhos... tudo isso passava pelos olhos
de Phat diariamente.
— Se aquelas fotos não forem reais, é melhor o próprio
Deputado Jaratphong vir aqui explicar!!!
— Mesmo estando na área do templo, aqui é a residência
particular do Deputado... Peço que se acalmem, ou podem ser
acusados de invasão e perturbação da ordem.
Quanto mais ele explicava, pior a situação ficava. A
proibição parecia apenas alimentar o fogo. As vaias dos
jornalistas e dos moradores que chegavam de todos os cantos
tornavam o trabalho dos agentes muito mais difícil.
— Nós não estamos invadindo!!!
— ...
— Viemos cobrar ética! O povo tem o direito de saber a
verdade!!!
Os gritos de concordância com o que o jornalista dizia
ecoavam por todo o templo. E, claro, chegavam aos ouvidos do
dono da casa, que andava de um lado para o outro como um
rato encurralado. O Deputado Jaratphong estava em surto,
quebrando objetos e gritando como um louco, xingando seus
subordinados por serem incompetentes.
— Quem tirou essas fotos de mim? Eu vou processar todo
mundo!!!
Ahh!!
Nem mesmo a mulher que era sua favorita ousava se
aproximar. As pessoas na sala se esquivavam freneticamente
dos copos arremessados que se estilhaçavam pelo chão.
— Senhor, acho que precisamos usar o plano dois...
Todas as mulheres sairão pelos fundos, enquanto eu dirijo a
sua van para atrair os jornalistas pela frente.
— ...
— O senhor deve ir com um dos meus homens por outro
caminho...

Os portões da residência se abriram e uma van com


vidros totalmente escuros acelerou, rompendo o cerco dos
jornalistas e saindo do templo em alta velocidade.
— É o carro do Jaratphong!!
— Rápido, vamos atrás!!!
Com o grito de alerta, a horda de jornalistas correu para
seus veículos e partiu em perseguição. Phat ordenou que
alguns policiais garantissem a segurança dos repórteres, que
dirigiam sem intenção de pisar no freio, e não esqueceu de
pedir para Nop contatar o departamento de trânsito para
evitar acidentes causados pela sede de conseguir a entrevista.
Enquanto isso, Kay percebeu algo estranho na saída dos
fundos. Suas pernas longas seguiram a silhueta que
desaparecia na curva do muro do templo, até encontrar um
homem vestido de guarda-costas, com um chapéu cobrindo o
rosto, amparando um corpo corpulento vestido de branco e
com a cabeça coberta, caminhando em direção à parte
traseira.
Ele correu de volta para encontrar o responsável pelo
caso, que ainda estava ocupado dando ordens pelo rádio.
Aproximou-se de Phat, que ouvia atentamente o relatório de
que um acidente entre carros de jornalistas havia ocorrido,
exatamente como ele previra.
— Inspetor, eu vi alguém levando o deputado para...
— O motorista está gravemente ferido. Já chamei a
ambulância. Quanto ao carro do Jaratphong...
— Inspetor, e...
— Não percam o carro de vista de jeito nenhum.
Kay demonstrou claramente sua irritação. E o motivo
dessa irritação continuava focado em seu trabalho, sem notar
que alguém esperava para comunicar algo crucial que poderia
levar ao verdadeiro paradeiro do Deputado Jaratphong.
Ele resmungou baixinho, contendo as emoções, e virou as
costas, apressando o passo para seguir o rastro, sem saber se
ainda daria tempo.

— Argh...
— ...
— Argh...
A respiração ofegante de alguém que não costumava se
exercitar, mas precisava correr para acompanhar o segurança
de porte alto e esguio, fazia o Deputado Jaratphong quase
perder o fôlego. Os dois pararam em frente ao crematório, o
local agendado conforme o plano dois.
— Esses jornalistas ficaram loucos... e esses policiais
inúteis. Pode escrever, vou mandar transferir a delegacia
inteira!
O rancor se transformava em palavras misturadas com
xingamentos. O rosto enrugado franziu a testa enquanto ele
olhava para trás para garantir que ninguém os seguia, antes
de procurar o carro que deveria estar esperando.
— Onde está o meu carro?
No meio do silêncio absoluto, a única claridade era o
reflexo da lua nos objetos, somado a um leve cheiro de fumaça
que pairava no ar. Ao recuperar os sentidos, ele percebeu o
quão sombria era a atmosfera.
O corpo alto do guarda-costas virou-se lentamente. A
sombra da aba do chapéu escondia olhos frios e indiferentes.
Ele olhou ao redor devagar, enquanto seus lábios finos
exibiam um sorriso aterrorizante.
— Aqui é bem calmo, não é, senhor?
— ...
— Ideal para se arrepender dos pecados.
A voz era profunda. O olhar percorreu o ambiente e parou
na figura corpulenta à frente. Agora, o Deputado Jaratphong
começava a entender a situação suspeita. Ele recuou,
inquieto, buscando uma saída daquele homem estático que
sorria de forma arrepiante.
— O... o que você está falando? Onde está o meu carro?!
— Carro?
— N... não se aproxime!
Em poucos passos, o homem o alcançou. Uma carga
elétrica da arma que ele havia sacado enquanto o outro
recuperava o fôlego foi aplicada na cintura do deputado. A alta
voltagem percorreu o corpo de Jaratphong. Ele teve um
espasmo, a cabeça pendeu para trás, os olhos se arregalaram
e ele desabou inconsciente no chão.
— O carro para levá-lo ao inferno já está esperando...

Ele acelerou o passo, correndo tão rápido quanto na


época em que fugia de cobradores de dívidas. O cascalho na
curva quase o fez cair, mas ele conseguiu se equilibrar. Kay
não via mais os dois em seu campo de visão. Viu apenas um
espaço vazio, sem sinal de vida. Ele olhou para todos os lados
antes que seus olhos negros se arregalassem ao ver um veículo
estacionado no vão ao lado do crematório.
A porta traseira estava aberta, revelando a figura de
branco encolhida lá dentro. Ela foi fechada diante de seus
olhos pelo homem vestido como os outros guarda-costas. O
sujeito olhou para ele por um breve momento, as mãos
tatuadas puxaram o chapéu para se esconder, e ele
rapidamente assumiu o volante, tirando o carro do esconderijo
e acelerando em direção ao portão traseiro.
— Ei!
Kay sentiu como se estivesse voando enquanto usava
todas as suas forças para perseguir a velha van branca. Ela
não tinha placa e estava cheia de amassados por toda a
lataria. O ângulo em que o carro virou para sair pelo portão
permitiu que ele visse um arranhão profundo na parte traseira
como a última imagem antes de seus pés pararem,
acompanhados por uma respiração exausta.
O suor no rosto embaçava a visão. Ele puxou a barra da
camiseta para secar o rosto por um tempo antes de decidir
voltar ao ponto inicial.
— Ufa...
A noite não terminaria fácil. Kay levou um bom tempo
para arrastar as pernas doloridas de volta para a frente da
casa do Deputado Jaratphong, onde o inspetor responsável
pelo caso o esperava irritado por não encontrá-lo.
O homem alto, exausto, parou para se recompor antes de
contar tudo o que tinha visto. Desde a fuga de Jaratphong
pelos fundos até o momento em que ele subiu na velha van
branca e desapareceu.
— E por que não avisou?
— Não avisei? Tem câmeras de segurança por aqui?
Ele colocou as mãos na cintura, encarando o inspetor
com um olhar de acusação. Phat esfregou o cabelo, frustrado,
antes de levantar as duas mãos em sinal de rendição.
— Desculpa, desculpa.
— Ele saiu pelo portão dos fundos do templo. Uma van
branca.
— Verifiquem todas as câmeras de segurança da região.
Onde encontrarem uma van branca, façam o cerco
imediatamente!
As ordens foram dadas via rádio para que parte dos
oficiais rastreasse a van branca desgastada que sumira pelo
caminho atrás do templo há vinte minutos. Em seguida, ele
ligou para a equipe de investigação e para o restante dos
reforços para organizar uma reunião de emergência.
Não demorou muito para irem do templo até a delegacia.
Ele e o inspetor passaram pela multidão de jornalistas que
começavam a montar câmeras, esperando informações do
responsável pelo caso após descobrirem que o Deputado
Jaratphong não estava na van que saiu primeiro. O inspetor
não deu atenção a nenhum repórter que se aproximava. O
destino de ambos era a sala de reuniões principal, repleta com
a equipe do caso Nekros e mais de dez oficiais de reforço,
alguns sentados e outros espalhados em grupos pela sala.
— Obrigado a todos e desculpem pelo horário... De acordo
com o que temos agora, o Deputado Jaratphong fugiu pelos
fundos acompanhado por um guarda-costas em uma van
branca velha.
— ...
— Meu contato viu que o deputado estava deitado no
fundo do carro, o que é muito incomum. O capitão Nop checou
com a equipe de segurança do deputado e descobriu que
ninguém consegue contatá-lo agora...
— ...
— E o guarda-costas que saiu com ele é alguém que
começou a trabalhar há menos de uma semana.
— ...
— Eu acredito que se trata de um sequestro.
A situação na sala de reuniões ficou ainda mais tensa
após a conclusão da autoridade máxima do caso. Um oficial
levantou a mão em meio à pressão.
— Inspetor, temos a descrição do suspeito ou pistas mais
detalhadas?
O homem alto, à paisana, olhou para Kay assim que a
pergunta foi feita. O inspetor assentiu, sinalizando para que
ele prosseguisse. Kay concordou, endireitou os ombros para
ganhar confiança e tentou resgatar a imagem borrada em sua
mente.
— É um homem consideravelmente alto, pele clara...
posso pegar papel e caneta?
O material foi entregue imediatamente. Ele detalhou a
imagem que viu de perto: a altura aproximada, a expressão
facial, as roupas que o suspeito vestia, o olhar afiado que o
encarou antes de ser coberto pela aba do chapéu e até as
letras formando uma mensagem escondida na parte interna
do dedo indicador esquerdo.
— Mais uma folha, por favor.
Nop entregou o papel que usava para as anotações. Kay
esboçou a van branca: sem placa, com marcas de batidas por
todo o corpo. O ponto de destaque era um arranhão profundo
na traseira esquerda que chegava ao metal, e um pequeno
detalhe desenhado no canto do vidro traseiro.
— No dedo indicador esquerdo do suspeito há uma
tatuagem escrita TILL DEATH. E na van...
— ...
— Na traseira esquerda tem um arranhão fundo que
mostra o metal. No vidro tem um adesivo branco desbotado,
não lembro exatamente o símbolo.
Os olhos de todos na sala brilharam enquanto se
aproximavam para analisar os esboços do suspeito e do
veículo usado no sequestro. Kay ficou parado olhando para o
próprio trabalho na mesa, analisando se havia esquecido algo,
antes de sua concentração ser interrompida por um policial.
— Esse rapaz é um novo investigador?
— ...
— O senhor Kay é o autor dos quadrinhos Nekros e
consultor especial da nossa equipe.
Phat respondeu para sanar a curiosidade geral. Como os
reforços foram trazidos de outros casos às pressas, alguns não
sabiam os detalhes. Não era estranho questionarem por que
alguém que parecia deslocado estava na reunião há tanto
tempo.
— Como todos sabem, o assassino Nekros encena as
mortes conforme os desenhos dos quadrinhos... o padrão dos
três casos anteriores mostra que o assassino mantém a vítima
em cativeiro por três dias após o desaparecimento, talvez para
os preparativos ou para que a vítima se arrependa.
— ...
— Antes de matar a vítima com tortura. As três vítimas
tinham cortes feitos por lâminas por todo o corpo. O laudo da
autópsia confirmou que a causa da morte de todos foi a
mesma arma: um martelo...
— ...
— Vou enviar as informações desse guarda-costas, os
esboços da van e as imagens das câmeras para que todos se
dividam em busca de pistas o mais rápido possível.
— ...
— Porque, pelo padrão dos três casos passados, agora
temos menos de 72 horas.
— ...
— Antes que o Deputado Jaratphong se torne a quarta
vítima.

Do lado de fora da delegacia central, a maior da capital, o


local estava apinhado de agências de notícias com câmeras
bloqueando a entrada, esperando atualizações sobre o caso do
Deputado Jaratphong, cujas irregularidades agora eram
amplamente divulgadas. Mídias de todos os tamanhos faziam
perguntas esperando respostas do inspetor Yosaphat
Traikanawut. Ele saiu da sala de reuniões e foi direto para o
meio dos repórteres, que gritavam seu nome em coro.
— Senhor! Inspetor!
— A polícia já vai abrir processo contra o deputado?
— Inspetor Phat, qual a situação do caso? O Deputado
Jaratphong já está sob proteção policial?
— Há boatos de que o deputado fugiu, é verdade?!
— Não darei entrevistas até que os detalhes estejam
claros.
Phat viu sua irmã no meio dos jornalistas antes mesmo
da reunião. Ela estava com colegas estagiários e seu chefe, o
famoso influenciador. Ele não tinha ido até lá para falar com a
imprensa, mas sim porque precisava falar com Praew, que
agora era levada para dentro da sala de reuniões, onde
restavam apenas ele e o consultor especial sentado em uma
cadeira de rodinhas no canto.
— O que deu em você, maninho?!
— Você entrava no meu quarto direto para passar
informações para ele, não é?
— Para quem?
— Para aquele Than, o dono da agência. Foi a primeira
mídia a noticiar cada caso, a primeira a identificar cada
vítima, a primeira a dizer que o Jaratphong poderia ser uma
das vítimas. Foi você, não foi?
— ...
— Praew, o que você fez torna o meu trabalho muito mais
difícil. Essas notícias criam caos e fazem o assassino ficar em
alerta.
— ...
— E se a vítima morrer porque os detalhes da investigação
vazaram, como você vai assumir essa responsabilidade!
Lágrimas começaram a brotar nos olhos dela, mas
nenhum dos dois cedia. Praew o encarava com um olhar rígido
que ele nunca tinha visto. Ele tentava controlar a fúria,
contendo as palavras que poderiam machucar a irmã teimosa,
e falou da forma mais calma possível, embora ainda soasse
ríspido.
— Você está sendo manipulada por aquele seu chefe
desgraçado.
— Ninguém me manipula!!
Sua única irmã limpou as lágrimas que escorriam pelo
rosto. A voz, antes doce, gritou com o irmão mais velho.
— Aquele deputado é um homem mau! Sendo exposto
agora ou depois, ele teria que pagar de qualquer jeito!!
— E isso é da sua conta? Você é só uma estagiária, nem
jornalista de verdade é ainda.
— É! Sou só uma estagiária, e daí? Quer que eu fique
quieta, fechando os olhos para tudo como os policiais fazem?
Esperando até que as sujeiras apareçam sozinhas, como
aconteceu com o papai?!!
— Praew!!
Ele tentou seguir a irmã que fugia da sala. Ela escancarou
a porta, ignorando os chamados do irmão. Porém, antes que
Phat pudesse resolver a situação, a porta aberta revelou as
figuras de Than e seus companheiros, que pareciam estar ali
fora há tempo suficiente para ouvir toda a conversa...

O som de soluços vinha do banco traseiro da van da


agência, dirigida pelo próprio dono. Praew ainda não
conseguia lidar com o que aconteceu na sala de reuniões. Seu
rosto estava coberto de lágrimas que não paravam de cair,
apesar dos esforços para secá-las. Ao seu lado, Prim tentava
confortá-la.
— Você fez a coisa certa, Praew.
— Snif...
— Se não fosse por você, esses canalhas continuariam
vivendo bem sem que ninguém soubesse.
— A Prim tem razão...
A voz veio da frente, opinando após dirigir em silêncio por
todo o caminho. Than sorriu pelo retrovisor enquanto freava o
carro no sinal vermelho.
— Uma mentira se torna verdade quando quem sabe a
verdade não diz nada.
— ...
— Se formos negligentes com o que sabemos, significa
que estamos deixando os maus continuarem desfrutando da
vida.
— Eu nunca vou permitir isso.
— Vocês são muito corajosas. Mais corajosas do que
qualquer pessoa que já conheci.
— ...
— Muito obrigado por estarem ao lado da justiça comigo.
A questão do caso do Deputado Charatphong tornou-se o
assunto da cidade; por onde quer que se passasse, só se ouvia
as pessoas falando sobre seus atos desprovidos de qualquer
senso de moralidade. Por outro lado, havia vozes de louvor a
Than, um influenciador que teve a coragem de se erguer como
líder da mídia para desafiar o poder de todas as facções sem
medo. Embora houvesse boatos de que ele próprio estivesse
sendo ameaçado pelos comparsas do Deputado Charatphong
— que temiam ser expostos e acabar pagando o pato —, Than
não desistiu e não se importou com quem quer que fosse, até
que o alcance de sua agência de notícias se tornou o número
um, superando todos os grandes veículos de comunicação.
As visualizações nas redes sociais dispararam de forma
contínua e rápida. As hashtags usadas pela agência de Than,
como #ExpondoDeputadoCharatphong e #SigaNekros, foram
os tópicos mais comentados em nível nacional. A análise do
padrão dos assassinatos vinculados à maldade cometida por
cada vítima foi compartilhada e comentada ao longo de toda a
semana.
Quanto mais a agência de notícias era mencionada por
sua coragem em confrontar e expor sem temor, maior se
tornava o poder de barganha da mídia nas mãos de Than. Na
mesma semana, ele iniciou o plano de erradicar o mal pela
raiz, revelando todos os lados obscuros que conseguiu
encontrar sobre o Deputado Charatphong: fossem apostas
online, redes de golpistas, tráfico humano, fraude em
licitações públicas, o uso de canais religiosos para lavagem de
dinheiro ou a ligação do deputado com o caso de instituições
financeiras — um grande conflito que destruiu a vida de
muitas pessoas no passado e cujos reflexos ainda atingem
muitos no presente. Essas informações foram selecionadas
para estimular a raiva da sociedade contra aqueles que
abusam do poder, funcionando como um aviso para que
outros tantos vissem o que acontece.
Os comentários inflamados em todas as plataformas
começaram a se transformar em uma espécie de tribunal em
miniatura. Surgiu um movimento de apoio a Nekros que gerou
caos para as autoridades, com pessoas desejando que as
vítimas morressem de forma agonizante e torcendo para que a
polícia falhasse em seu trabalho, para que Nekros pudesse
punir os perversos de forma implacável.
A sociedade começou a questionar o trabalho dos
policiais; surgiram xingamentos e ironias que fizeram com que
a confiança no processo judicial fosse posta em dúvida.
— Sob o sol, não há nada que a polícia tailandesa não
possa fazer, inclusive o mal.
Dizia uma faixa escrita com letras vermelhas em um
tecido rústico em frente à delegacia de polícia metropolitana. O
ditado imortal foi adaptado para debochar dos protetores da
paz, enquanto o povo se voltava a idolatrar e elogiar o
assassino em série nas sombras como se fosse o verdadeiro
aplicador da justiça. A situação julgada pela sociedade criou
um herói que ceifa vidas, erguendo um tribunal de exceção a
partir de um processo aceito internamente pelo grupo,
decidindo quem está certo ou errado usando o ódio como guia,
como se fossem os próprios juízes.
O retrato falado de Kay fez com que todos os setores
trabalhassem com muito mais agilidade. A equipe de
investigação levou tempo rastreando carros de modelos
semelhantes e detalhes que batessem com o que ele havia
desenhado, descartando as opções confusas até que restasse
apenas um veículo suspeito. Phat observava o trabalho que
começava a dar esperanças após estarem no escuro desde o
início do primeiro caso. Ele admitia que a presença de Kay
trazia clareza ao panorama do crime. O rapaz não era apenas
um cartunista que o assassino por acaso estava copiando,
nem apenas uma testemunha ocular; Kay possuía a
habilidade de registrar os eventos e transmiti-los com
perfeição.
— Inspetor, consegui o histórico do guarda-costas.
— ...
— Mas todas as informações parecem ser falsas. No
entanto, a foto é muito parecida com a que o senhor Kay
desenhou.
— Inspetor!! O reforço informou que encontraram a van
suspeita!
Toda a atividade cessou imediatamente assim que o
relatório da pista dado por Nop soou. Phat acenou para que
Kay o acompanhasse até o local onde a van foi encontrada,
antes de ordenar que os demais membros da equipe
aguardassem instruções na sala de reuniões.
Em uma área de comunidade densa, onde os caminhos
eram estreitos e pareciam sombrios mesmo durante o dia, o
cheiro de esgoto permeava todo o lugar. Em um beco sem
saída pequeno o suficiente para a van, o veículo estava
estacionado ao fundo. Policiais se espalharam pelos arredores
na esperança de que o dono do carro talvez voltasse por acaso.
O corpo alto de Phat inspecionou a van minuciosamente.
Havia um arranhão na traseira e um adesivo no canto do vidro
que, visto de perto, era o símbolo de uma estrela de cinco
pontas invertida. Kay confirmou que era a mesma que ele vira
no dia em que o Deputado Charatphong desapareceu. O
veículo estava vazio de vida ou de qualquer pista; havia sido
limpo perfeitamente.
O antigo prédio comercial foi explorado brevemente pela
primeira equipe que o encontrou. Ele e Kay seguiram o convite
do chefe da equipe de reforço até o segundo andar. Por todo o
caminho da escada, havia restos de lixo, equipamentos de
construção apodrecidos, tijolos espalhados e paredes que
ainda não haviam recebido reboco, revelando as fileiras de
tijolos expostas. O estado sugeria que o edifício nunca fora
terminado.
— Quando chegamos, não havia mais ninguém, nem no
carro nem no quarto dele. Agora minha equipe está espalhada
por toda a comunidade, caso ele esteja escondido em algum
lugar.
— Obrigado.
— Por aqui, Inspetor.
O policial se encostou na parede para deixar Phat entrar
primeiro. A porta de metal, parecida com a de uma câmara
frigorífica, era tão pesada que ele precisou usar o ombro para
empurrá-la. No entanto, uma mão vinda de trás o ajudou a
segurá-la para que não batesse e fizesse todos caírem da
escada.
— Obrigado.
O dono da mão fez uma expressão de indiferença e usou o
pé para calçar a porta com um tijolo, impedindo que ela se
fechasse. Kay o seguiu para dentro. Os dois corpos, de
estaturas similares, pararam no meio da sala que era tão
ampla que ocupava o andar inteiro. Os olhos estreitos de Kay
se arregalaram ao ver a cena que fez Phat soltar um
xingamento.
— Mas que diabos é isso?
Era como um santuário dedicado a Nekros...
Todo o espaço estava coberto pelos traços dos desenhos
de Mr. Kill. Em um lado da parede, fotos das posições das
vítimas no quadrinho foram ampliadas em tamanho real. No
centro, havia um papel rascunho de cor branca fosca
descrevendo detalhadamente a rota do sequestro do Deputado
Charatphong. Sobre uma mesa onde os quadrinhos de Nekros
estavam espalhados, havia um diário em estado precário. Phat
calçou as luvas e entregou outro par para Kay antes de pegar o
caderno.
Cada página estava escrita com canetas de cores
variadas; algumas estavam rasgadas, mas todas descreviam a
fé que o autor tinha em Mr. Kill por ter criado um salvador do
julgamento como Nekros para lidar com a sociedade. O texto
amaldiçoava a injustiça do sistema jurídico que dava
oportunidades para os culpados se defenderem.
Phat viu o olhar de repulsa de Kay após ler apenas
algumas páginas do diário. Uma expressão que mostrava que
ele não estava nada satisfeito em ser louvado por um
assassino que o idolatrava.
— Eu...
— Quer esperar lá fora?
— Hmm.
Ele entregou o caderno do assassino para a perícia que
passava pelo local, reforçando que trabalhassem com rapidez,
porém com o máximo de cuidado, porque parecia que agora o
Deputado Charatphong teria que começar sua contagem
regressiva.
O corpo rechonchudo estava deitado no chão de concreto
gelado. A pele sem roupas estava cheia de marcas de lâminas
que haviam arrancado partes da derme até que se pudesse ver
a camada de carne interna. Os gritos de socorro e os pedidos
de piedade não pareciam causar compaixão em quem
segurava a arma afiada. Ele ouvia tudo com um sorriso no
rosto, como se aquela fosse uma bela canção composta para
adorar seu deus, o Mr. Kill.
Quanto maior a tortura, maior o lamento. E quanto maior
o lamento, significava que as preces para o seu deus ecoariam
ainda mais alto...
Os pés caminhavam pelo concreto coberto de sangue. Ele
se abaixou para encarar os olhos aterrorizados e passou o
dedo no rosto banhado por lágrimas antes que a ponta da faca
começasse a cortar a carne da bochecha lentamente.

Em meio ao clamor social que, de forma unânime,


condenava o Deputado Charatphong a ser punido por Nekros,
a polícia continuava trabalhando arduamente para
encontrá-lo antes que fosse tarde demais.
A equipe de investigação retornou à sala de reuniões com
as informações das três primeiras vítimas. O fato de terem
encontrado desenhos de Mr. Kill no quarto do suspeito gerou a
hipótese de que aquele homem era o assassino em série
Nekros.
— Conseguiram recuperar o arquivo do capítulo 18?
— Não conseguimos, Inspetor.
Ele assentiu, sem culpar os oficiais que trabalharam
incansavelmente nos últimos dias, e voltou a focar nos dados
que tinha. Agora, a única coisa que precisava saber era qual
local o assassino escolheria para matar o Deputado
Charatphong, e a única pessoa que poderia resolver essa
charada era quem havia criado a história.
— Consegue se lembrar de algo?
— Posso ver os locais dos crimes dos três casos anteriores
de novo?
Phat virou o quadro branco que estava cheio de
informações e, na parte de trás, fixou as fotos das cenas dos
crimes das três primeiras vítimas.
— Os três locais que o assassino escolheu foram uma
fábrica abandonada, um campo de arroz e um armazém perto
do rio. Consegue imaginar como Nekros escolhe o lugar para
executar as vítimas?
Mr. Kill criou Nekros para fazer tudo com um motivo. O
método de expor a maldade de cada vítima era pensado de
forma minuciosa e astuta.
— Monumentos da Maldade...
— O que é isso?
— É o nome dado às cenas dos crimes no quadrinho do
Nekros... Vocês ainda têm o histórico dos processos das três
vítimas?
— Eu guardei.
Din respondeu e correu até a pilha de documentos
organizada. Pouco depois, voltou com os arquivos das três
vítimas.
Phat olhou para os papéis no quadro, lendo cada caso
pacientemente antes que a ponta da caneta começasse a
circular as informações que se conectavam em sua mente,
enquanto Kay também circulava o histórico do advogado
Khomkrit como o último ponto.
— Estamos pensando a mesma coisa?
— Acho que sim. Inspetor, pode explicar.
Ele se virou para os membros da equipe de investigação,
enquanto o consultor honorário foi se sentar na cadeira de
rodinhas que parecia ter se tornado sua favorita.
Pequenos detalhes ignorados costumam ser a chave para
resolver grandes nós em muitos casos. As informações que
acabaram de encontrar nas três páginas não eram diferentes
de um segredo óbvio. Phat retirou as pistas do quadro e as
colocou sobre a mesa antes de começar a explicar a conexão
que fizera.
— O local de cada crime está relacionado ao processo
judicial que cada vítima enfrentou. Se seguirmos o que o
quadrinho chama de monumento da maldade, por outro lado,
pode significar o lugar que foi usado como ferramenta pela
própria vítima. Estou certo?
— Sim.
Ele perguntou ao autor da obra para ter certeza de que
estava no caminho certo antes de começar a ligar os locais a
cada pessoa.
— A primeira vítima era um empresário, encontrado
morto em uma fábrica abandonada. O histórico dele mostra
envolvimento em fraudes que prejudicaram mais de 40.000
trabalhadores.
— ...
— A empresa faliu, os funcionários foram demitidos sem
indenização e todas as fábricas da companhia foram
fechadas...
— ...
— Toda aquela zona industrial acabou virando um
conjunto de fábricas abandonadas... É a mesma fábrica onde
encontramos o primeiro corpo.
— ...
— No segundo caso, o corpo do subsecretário foi
encontrado em um campo de arroz... Esse caso foi arquivado,
mas parece ser o mais conectado ao local.
— Campo de arroz?
— Quando era subsecretário, houve uma disputa sobre
corrupção na compra de pesticidas. As vítimas foram
agricultores que esperavam que o governo distribuísse o
produto, mas a demora fez com que perdessem toda a
produção, levando-os à miséria. Muitos contraíram dívidas e
outros cometeram suicídio.
— ...
— Uma das vítimas que se matou era o dono do terreno
onde o corpo do subsecretário foi encontrado.
— E o terceiro corpo, o do advogado Khomkrit.
— O que o senhor acha, tenente? Como isso se conecta ao
caso que eu circulei?
— ...
— Ele atuava como consultor jurídico da empresa, mas
participava da lavagem de dinheiro com o dono. Manipulava a
estrutura de acionistas e ajudava a gerir bens vindos do tráfico
de drogas.
— O armazém na beira do rio que o assassino escolheu é o
mesmo que costumava ser usado para estocar drogas.
Ele acenou para Nop. Parecia que agora todos entendiam
o método de Nekros: escolher as vítimas por seus crimes e os
locais que foram impactados por essas ações.
— E o quarto caso, o Deputado Charatphong.
Phat virou o quadro de volta para o lado original, onde a
página inteira era dedicada às informações do deputado. Atos
ilícitos, condutas no limite da lei, sem contar os inúmeros
processos que ainda estavam na justiça ou que foram
anulados.
— Agora vamos ajudar a encontrar... onde fica o
monumento da maldade do Deputado Charatphong.
As dezenas de folhas continham apenas histórias de como
ele escapou usando o poder para oprimir os outros. Quanto
mais se lia, mais nojo dava. Por trás do rosto sorridente na
televisão, ele se passava por um homem caridoso que apoiava
a religião com dinheiro sujo que, embora houvesse provas, os
casos acabavam sendo arquivados antes de desaparecerem no
ar.
— Esse sujeito é... podre de verdade.
— Por que estamos tentando proteger alguém assim?
Singh exclamou com indignação reprimida. Todos os
policiais estavam trabalhando dia e noite, sem dormir há dias,
para salvar a vida de alguém com histórico de tráfico humano.
— Se alguém como ele consegue escapar da lei, nosso
dever como policiais é arrastá-lo de volta para pagar por seus
pecados perante a justiça.
— ...
— E não nos tornarmos a própria lei.
Phat alertou o subordinado que começava a concordar
com o clamor social, trazendo de volta a lucidez para que ele
lembrasse qual era sua função, antes que a voz do criador dos
traços de Nekros se fizesse ouvir.
— O Deputado Charatphong é como um cadáver
embalsamado e maquiado com luxo... Por fora parece ter
prestígio e autoridade, mas por dentro está em decomposição.
— ...
— Onde alguém que gosta de prestígio gostaria de estar...
Kay se encostou no encosto da cadeira, inclinando o rosto
com as pálpebras fechadas. Parecia que a lente de Nekros
estava em operação. Em um instante, o corpo alto se
empertigou; seus olhos brilharam antes de pegar um papel em
branco e começar a desenhar rapidamente.
Ele dividiu a página em quadros. Kay foi preenchendo os
detalhes de cada um com agilidade e ordem. Terminado o
primeiro, seguiu para o segundo e depois para o terceiro. Era
exatamente o estilo da história que ele vinha vendo a cada
hora.
— Um sino?
— Espera aí, um campanário?
O desenho dividido em três quadros mostrava um corpo
pendurado em um campanário. Em um dos quadros, via-se a
área ao redor com construções que lembravam o pátio de um
templo. O último quadro mostrava o rosto sem pele da vítima
assassinada.
— Este é o final do capítulo 18.
— Mas um templo não parece ser o lugar...
— O Deputado Charatphong pode ter usado o templo para
lavar dinheiro sujo... leiam aqui.
— ...
— O templo onde ele está escondido foi construído com o
dinheiro dele. E se esse dinheiro veio do tráfico humano?
— Mas esse templo tem um campanário? Ou seria outro
templo?
Enquanto a equipe de investigação tentava se lembrar se
havia visto um campanário ao inspecionar o templo, o dono da
caneta olhou para Phat com um olhar carregado de uma
energia estranha... rígido, firme, mas trêmulo.
— Tem sim!
— ...
— Tem um campanário em frente ao crematório.
Toda a equipe de investigação se dirigiu ao local que
servia de esconderijo para o Deputado Charatphong. Se fosse
um caso de homicídio comum, seria um pouco difícil de
entender por que o assassino escolheria sequestrá-lo para
matar em outro lugar e depois trazer o corpo de volta ao ponto
de origem, mas como o tempo estava se esgotando, todos
optaram por não fazer mais perguntas e apenas seguir o
raciocínio de quem criara Nekros.
No meio da noite, o templo estava em silêncio absoluto.
Após a fuga do deputado, o próprio templo foi alvo de boatos
ruins, fazendo com que os fiéis se afastassem. Todos os
olhares dentro da van da equipe varriam os arredores
enquanto o veículo estacionava em frente à mesma casa de
antes.
— Espalhem-se e procurem. Se virem qualquer coisa
suspeita, por menor que seja, avisem pelo rádio... Nop, vá com
Singh.
— E o Inspetor vai com o senhor Kay?
— Terá que ser assim.
Além de observar tudo ao redor, Phat precisava proteger o
outro, já que Kay não tinha armas. Ele apertou a pistola com
firmeza, os olhos estreitos vigiando todas as direções enquanto
caminhavam em direção ao crematório.
— E se eu estiver errado na minha suposição?
Uma voz baixa, quase um sussurro, perguntou em meio
ao silêncio. Phat não se virou para olhar, optando por
responder enquanto mantinha o foco no que estava à frente.
— Não acontece nada.
— ...
— Teremos que supor algo novo.
— Quem, eu?
— Hmm... você o criou, então deve conhecê-lo...
Dlem!!
Dlem!!!
— O campanário é naquela direção!
Os passos aceleraram automaticamente rumo ao som do
sino. O coração batia descompassado no peito. Quanto mais
se aproximavam do campanário, mais a pressão aumentava.
Phat estava longe de ser uma pessoa religiosa, mas
enquanto corria, ele orava a todas as divindades para que o
som lamurioso que vinha com o vento não fosse a voz da
quarta vítima.
Vupt!!!
A imagem dos três quadros que Kay desenhou na sala de
reuniões ainda estava nítida...
O primeiro quadro mostrava o ambiente ao redor do
campanário erguido em uma área aberta. No segundo, a
distância diminuía até revelar que havia um corpo pendurado
na corda ligada ao sino. O vento o balançava, fazendo a corda
tesa bater contra o sino, despertando a todos daquela noite de
tragédia.
Já o último quadro era um close-up que permitia ver o
rosto do corpo claramente, mas não era possível identificar
quem era a vítima. O rosto estava vermelho vivo porque a pele
fora removida até a carne; a boca estava escancarada, mas
sem lábios, e os olhos estavam arregalados, mas sem as
córneas.
Porque era exatamente a mesma imagem do corpo
pendurado no campanário à frente deles...
— Meu filho, o que aconteceu...
— Monge, aquilo... aquilo é...
Tum!!
A confusão se instalou quando o som despertou todos os
monges de seus alojamentos, reunindo-os em frente ao
campanário nos fundos do templo. Phat entregou um jovem
noviço que havia desmaiado para que os monges o
socorressem após ver o cadáver. Nop e Singh assumiram o
controle da situação, pedindo que todos os religiosos
mantivessem a calma.
— Já entrou em contato com o reforço? Diga para não
usarem a sirene.
— Sim, Inspetor.
— Mantenham os monges afastados. Eu vou vigiar a
entrada do campanário.
— Certo.
Pela primeira vez, ele não queria ver o estado do corpo.
Com o olhar mais baixo que o normal, caminhou até o portão
de ferro que batia na cintura, bloqueando a escada que levava
ao topo. Kay continuava o seguindo em silêncio; ele parecia
precisar de um tempo sozinho para processar algo. Phat
desviou o rosto do líquido que pingava lá de cima, formando
uma poça de sangue escuro no chão.
Procurando um ponto de descanso para a vista, logo o
som de um motor vindo do portão principal do templo parou
no meio do pátio. A perícia, junto com o médico legista e o
reforço, chegou. O número maior de pessoas se movimentava
cumprindo seus deveres. Apenas ele e o homem alto e magro
ao seu lado permaneciam imóveis.
— O senhor vai subir junto com o legista, Inspetor?
— Vá você primeiro, tenente. Eu vou logo em seguida.
— Sim, senhor.
Ele estava tentando se preparar para lidar com a
decepção. Passo após passo, por mais que acelerasse até o
limite, no fim acabava sempre correndo atrás. As mãos se
apertavam ao pensar em onde teria errado ou o que teria
deixado passar.
— O senhor não quer descansar um pouco, Inspetor?
— Não se preocupe.
— Seus olhos estão quase fechando.
— Os seus também.
Na verdade, o estado de ambos era deplorável. Sem
dormir há três dias, e o homem ao seu lado estava em um
período de descanso que não teve descanso algum por quase
uma semana.
— Vamos voltar depois... aquilo é!
A conversa nem terminou e o rapaz alto e magro disparou
em direção a um monge que caminhava para trás do
crematório. Phat não hesitou e correu para alcançá-lo, com o
coração disparado ao notar que a outra figura também
apressava o passo para fugir dali.
— O dedo indicador dele, eu reconheço a tatuagem!
— O assassino?
Kay estendeu a mão para agarrar o suspeito que se
disfarçava sob o manto açafrão. O rosto da memória virou-se
com uma arma afiada em punho, pronta para o combate. O
olhar era de uma crueldade implacável, refletindo-se nos olhos
de quem o segurava. No entanto, em vez da lâmina descer, ela
parou. Os olhos do agressor se arregalaram e ele abriu um
sorriso largo antes de dizer a frase que fez Kay paralisar como
se tivessem desligado seu interruptor.
— Mr. Kill...
Plaft!!!
Não houve mais tempo para hesitação. O impacto do soco
de quem vinha logo atrás atingiu o rosto da figura alta vestida
de monge, que se soltou e caiu no chão.
Phat avançou e pressionou o joelho contra o peito tatuado
do homem, imobilizando as duas mãos dele para forçá-lo a
soltar a faca. Mas o corpo exausto não foi páreo para a força de
quem estava por baixo. O dono do olhar vingativo se libertou
da imobilização e cravou a faca profundamente no ombro de
Phat...
— Argh!!!
O sangue escorria pela lâmina, refletindo a luz fraca que
passava pelo rosto manchado pelo sangue que jorrava do
ferimento. Ele retirou a faca antes que qualquer ajuda
pudesse chegar e a golpeou novamente, desta vez no abdômen
de quem estava sobre ele.
— Argh!!!
— Inspetor!!!
O incidente foi contido pelos policiais que correram para
imobilizá-lo. O assassino não podia lutar contra tantos, mas
em vez de demonstrar medo, seu olhar brilhou ainda mais, e
ele soltou uma risada frenética e horripilante.
Phat ainda estava consciente da dor no ombro e na
barriga, onde a faca continuava cravada. O corpo alto se
curvou, despejando todo o peso sobre quem o amparava. O
suor frio escorria e ele sentia o corpo gelado. O olhar que
recebia era transbordante de preocupação; Kay parecia estar
prestes a chorar enquanto suas mãos trêmulas o abraçavam
para não deixá-lo cair. Os paramédicos assumiram o controle
imediatamente antes de Phat ser colocado na ambulância, que
partiu do templo velozmente.
A maca entrou na sala de emergência em poucos
minutos. Ele parou diante da porta automática. O reflexo no
vidro mostrava uma figura parada como se estivesse sem
sentidos. Kay ergueu as mãos trêmulas; elas estavam cobertas
pelo sangue de quem viera salvá-lo da morte. Sua mente
repetia em looping aquele sorriso que ficou gravado e a voz
chamando seu nome ecoava repetidamente em seus ouvidos.
O cheiro de sangue estava por toda parte, o líquido viscoso que
saiu tanto do ombro quanto do abdômen.
Deveria ter sido ele, que criou aquele monstro...
Deveria ser ele deitado ali...
— Irmão Kay!!
— Praew.
— Como está o irmão Phat?!
Kay foi trazido de volta pelo grito de quem chegava com o
restante da equipe. O rosto de Praew estava banhado em
lágrimas; a jovem as enxugava, mas não conseguia parar de
soluçar.
— Como está o Inspetor?
Nop repetiu a mesma pergunta. A preocupação crescia
como uma nuvem negra em frente à emergência. As
expressões tensas de todos o pressionavam a dizer algo, mas a
resposta foi apenas o seu rosto voltando-se para a mesma
porta, esperando que ela se abrisse novamente com a resposta
que ele e todos tanto desejavam.
5
O tempo sempre passava devagar quando se estava à
espera de algo; cada segundo parecia uma hora. Ele erguia o
olhar para os números no relógio digital, alternando com a
expectativa toda vez que a porta automática se abria. Não
havia notícias boas nem ruins sobre o inspetor que continuava
lá dentro, mesmo que os números já tivessem ultrapassado a
marca da terceira hora.
O corpo alto estava encostado no encosto da cadeira em
frente à sala de emergência. Logo adiante estava Praew, que de
tanto chorar acabou pegando no sono. Os outros policiais
haviam retornado para inspecionar o local do crime e avaliar a
situação, restando apenas o capitão Nop, que lhe estendeu
uma lata de refrigerante vinda da máquina de venda
automática.
— Obrigado — disse ele.
— Eu é que devo agradecer a você, Kay. Se não fosse por
você, talvez não tivéssemos capturado o criminoso.
— É justamente por causa de mim que existe um
criminoso.
— Não é verdade. Se um homem mau decide fazer o mal,
mesmo sem o seu quadrinho, ele encontraria outro motivo
para usar como desculpa.
— E o assassino?
— Já está na cela, mas ninguém o interrogou ainda.
— ...
— Estou esperando o inspetor acordar para ele mesmo
interrogá-lo. Mas se ele não quiser levantar logo, talvez
tenhamos que...
A porta da sala de emergência se abriu. O funcionário
médico percorreu o olhar pelo local antes de chamar o nome
que fez Praew despertar num susto de seu sono profundo.
— Parentes de Yotsaphat?
— Sou eu! — respondeu ela.
— Ele está fora de perigo. A equipe está transferindo-o
para o quarto de recuperação. Peço que o responsável leve os
documentos...
O suspiro de alívio do capitão Nop e as lágrimas que
voltaram a escorrer pelo rosto de Praew mostravam que eles
sentiam o mesmo. As palavras ditas foram como uma
montanha sendo retirada de seus peitos. Pouco depois, o dono
do corpo que jazia imóvel na cama, vestindo o uniforme
azul-escuro de paciente, foi empurrado para fora para ser
transferido para o quarto particular no último andar do
hospital.
O subordinado de confiança do paciente se voluntariou
para agilizar a papelada até que tudo estivesse resolvido, antes
de se retirar para cuidar do trabalho pendente. No quarto
particular de tamanho adequado, agora havia apenas o som
do monitor cardíaco batendo em um ritmo constante. Era o
suficiente para que ele e a irmã do próprio paciente não se
sentissem desconfortáveis com o silêncio que os envolvia.
Praew dormia ao lado da cama do irmão, enquanto ele
ocupava o sofá perto da janela, observando a paisagem
noturna da capital, onde, por mais tarde que fosse, os carros
ainda circulavam.
— O mano Phat parece ter emagrecido bastante.
— ...
— Quando ele estava com você, Kay, ele comia alguma
coisa?
Kay tentou recordar. Foram raríssimas as vezes em que
viu Phat comer. Mesmo quando todos na mesa de reunião
recarregavam as energias com comida pronta, ele apenas
levava um sanduíche à boca.
— Ele realmente não comia muito.
— Pois é — riu Praew.
Ela conseguiu sorrir um pouco após a resposta dele. Seu
rosto estava exausto, os olhos vermelhos; as lágrimas haviam
parado, mas o resultado do choro intenso os deixava
visivelmente inchados.
— Se fosse antigamente, eu teria desmaiado de emoção só
de sentar e conversar com você assim, Kay.
— Por quê? Por saber que eu sou o Mr. Kill?
Praew assentiu em resposta, movendo os braços para
aliviar o cansaço de estar sentada por tanto tempo. Antes de
desviar o olhar de Phat para ele, seus olhos castanhos
escuros, idênticos aos do irmão, transmitiram um sentimento
específico. Uma sensação que o fazia se sentir leve, como uma
criança que foi pega por um adulto escondendo algo.
— Mas agora não é mais assim.
— ...
— Agora eu fico pensando se o quadrinho de romance que
o K. Cupid criou não seria, na verdade, o esconderijo do Mr.
Kill.
— ...
— Você usou a minha querida Nong Tawan como escudo
para proteger a dor, assim como o Nekros.
As palavras de Praew foram como abrir uma ferida que ele
carregava como um fardo. Ele criou a identidade de K. Cupid
para que o Mr. Kill não fosse descoberto por ninguém. A dor e o
rastro de lágrimas foram escondidos por medo de ser olhado
com a mesma piedade que ela demonstrava agora.
— Sinto como se você estivesse lendo a minha mente.
— Talvez seja porque eu e você não somos tão diferentes.
Usamos máscaras não por nós mesmos, mas para que as
pessoas ao redor fiquem tranquilas.
Kay ficou em silêncio porque era exatamente assim que
ele vinha sendo o tempo todo. A máscara não era vestida para
que ele se sentisse bem, mas para que os outros não se
sentissem desconfortáveis ao olhá-lo, para que todos
julgassem que ele estava bem.
— O mano Phat também é assim. Ele tenta ser um bom
policial, sem falhas, sem fraquezas...
— ...
— Sendo uma muralha que nunca cai, para que eu me
sinta segura.
Praew voltou a olhar para o tema da conversa. Parecia que
aquele descanso seria longo, e ninguém ousava acordá-lo para
que voltasse logo a lidar com os problemas pendentes.
— Mas, na verdade, ele também esconde o seu próprio
desmoronamento, da mesma forma que você esconde o Mr.
Kill... Talvez apenas por métodos diferentes.
— Como assim?
— Um escolheu se apegar à retidão até se quebrar,
enquanto o outro escolheu extravasar isso através de uma
identidade que não ousa revelar a ninguém.
— ...
— No fundo, talvez a gente só precise de alguém que
entenda, para curar essa ferida em vez de escondê-la.
Porque guardar um segredo às vezes era mais fácil do que
explicar para os outros entenderem. Julgar a si mesmo, culpar
a si mesmo e consolar a si mesmo podia parecer mais seguro
do que abrir o coração para que alguém entrasse e o julgasse.
Ele não negava que ser compreendido por alguém seria como
ter outro lugar para se abrigar além de uma casa em ruínas,
mas talvez precisasse de mais um tempo até estar pronto para
abrir a porta e sair daquela casa.
Parecia que, naquela noite, a criança pequena dentro da
casa havia sido descoberta por quem ainda velava o sono do
irmão de perto, embora ela já tivesse levado a mão à boca para
bocejar pela segunda vez durante a conversa.
— Você ainda tem que trabalhar amanhã?
— Tenho sim.
— Então vá descansar. Eu cuido dele daqui por diante.
— Se acontecer qualquer coisa, pode me ligar na hora,
Kay.
— Tudo bem. E...
— ...
— Praew, você também...
— ...
— Não pense que você é o motivo que fez o inspetor erguer
essa muralha.
— Obrigada, Kay.

Passou-se um dia inteiro em que o inspetor recarregou as


energias completamente. Praew veio rendê-lo durante a tarde,
antes de trocarem de turno novamente ao pôr do sol. Ela
relatou que ele havia acordado para comer e voltou a dormir
pouco tempo depois. Kay acenou para ela, que saiu pela porta
carregando um monte de documentos. Embora Praew
insistisse que podia cuidar do irmão, como o motivo que o
levara àquela cama fora ele, Kay não conseguia se permitir
viver confortavelmente sem ver com os próprios olhos que o
outro voltara ao normal.
Ele abriu a porta da varanda para respirar o ar carregado
de poluição e poeira. O som de buzinas ecoava periodicamente
da rua lá embaixo, mas o quarto, por ser alto e ter bom
isolamento acústico, impedia que o barulho incomodasse lá
dentro.
Hoje Kay tinha ido resolver assuntos na editora. O
manuscrito ficou pronto mais rápido do que de costume,
permitindo-lhe um tempo para respirar. Com essa brecha, ele
pôde voltar para organizar o apartamento, que antes servia
apenas como um lugar para tomar banho. Após enrolar um
pouco, chegou a hora de cumprir o compromisso, e por sorte
era o mesmo horário em que o gato gordo precisava do jantar.
A bola de pelos branca continuava gordinha como
sempre, mesmo sem se verem há algum tempo. Ele bateu na
tigela antiga e despejou a ração que sempre carregava na
bolsa, deixando a língua rosa clara saborear a comida até ficar
satisfeito, antes de retornar ao hospital para render Praew,
que precisava cuidar do próprio trabalho.
O maço de cigarros bateu contra a palma da mão,
despertando a nicotina adormecida para o trabalho. Kay o
levou aos lábios, protegendo a chama do isqueiro do vento com
a mão. A ponta do cigarro queimou, liberando uma nuvem de
fumaça cinza que flutuou na atmosfera. Kay observou-a
desaparecer lentamente antes de enviar uma nova onda em
seu lugar. O cheiro de menta e o sabor gelado na boca, aliados
à brisa leve contra a pele, relaxavam o cansaço acumulado. O
efeito o ajudava a libertar o cérebro das situações que o
atingiam simultaneamente, mudando o foco para a imagem da
capital refletida em seus olhos intensamente pretos.
As luzes da ponte distante apareciam na superfície do rio
principal. O céu estava sem estrelas; as nuvens o cobriam
tanto que não se via o reflexo da lua. Uma cidade sem imagens
que convidassem ao sonho, apenas com a pressa e a solidão
das pessoas que se cruzavam.
Ele costumava pensar... pensava que, como a realidade
não era bela, e as pessoas não caminhavam sob o mesmo
guarda-chuva de forma romântica quando chovia, não havia
um céu brilhante esperando todas as manhãs, nem tempo
para apreciar o pôr do sol após o trabalho. Por isso, a
imaginação transmitida pelos traços de K. Cupid era lida,
enquanto a realidade cruel escondida em tudo o que o Mr. Kill
criava tornava-se um pesadelo que as pessoas preferiam
ignorar.
— O que está fazendo aqui?
— E você, senhor inspetor? O que faz aqui fora?
O som da porta de correr abrindo desviou sua atenção da
paisagem, fazendo-o olhar para a silhueta alta e esguia no
traje de paciente. A mão que estava com o acesso segurava os
tubos pendurados, arrastando o suporte de soro com
dificuldade.
— Me dá um aí.
— Mesmo que o médico tenha dito que você está fora de
perigo, isso não significa que deveria estar fumando agora, não
acha?
— Eu morro agora mesmo se não fumar.
— Haha.
Ele sempre sentia um aroma suave de uma certa marca
de cigarro vindo do inspetor, mas nunca tinha visto em que
momento ele fumava. Esta foi a primeira vez em quase um mês
de convivência que viu a fumaça ser expelida pelos lábios finos
daquele paciente teimoso.
— Quando finalmente descansei, acabei descansando por
muito tempo.
— Obrigado por ter me ajudado.
— Por que agradecer? É o dever da polícia.
Phat deu de ombros, fingindo desinteresse, mas a luz
neon vinda de dentro era suficiente para mostrar que havia
um sorriso em seu rosto esguio. O inspetor apoiou os braços
no parapeito, deixando o olhar vagar ao redor. Embora tivesse
dito que descansou o suficiente, os vestígios de exaustão ainda
eram visíveis.
— Faz tempo que eu não parava para olhar algo assim.
— Antes deste caso, as coisas estavam pesadas?
A voz rouca perguntou. Kay olhou para o perfil do homem
que descansava a vista no céu escuro. O brilho das luzes em
seu olhar calmo assemelhava-se a um aglomerado de estrelas.
— Nenhum caso foi tão pesado quanto este.
— ...
— Está perguntando porque se sente culpado?
— O senhor inspetor não deveria ter arriscado a própria
vida para proteger alguém como eu. Não deveria ter me
ajudado.
— ...
— Deveria ter deixado que eu sofresse as consequências
do que fiz, deixado que eu me desmoronasse de vez.
— Eu só queria ajudar você...
— ...
— Se fosse para desmoronar, eu só queria ajudar você
antes que você destruísse tudo ainda mais.
A conversa terminou em silêncio. Ninguém disse mais
nada até que ambos os cigarros se apagassem. Phat o
esmagou no vaso de plantas e voltou para o quarto para
dormir novamente, enquanto ele permaneceu no mesmo
lugar, com um novo cigarro recém-aceso para aliviar o peso da
culpa...

Phat voltou ao trabalho após três dias inteiros de


descanso, encontrando uma pilha de documentos à sua
espera como se fossem flores de boas-vindas. Ele pegou o
dossiê do assassino em série do caso Nekros que aguardava
interrogatório para ler primeiro.
Kim era um garoto de rua que vivia com a mãe. Ambos
foram vítimas de uma rede de tráfico humano à qual o
parlamentar Charatpong estava supostamente ligado. O
menino lutou pela justiça sozinho, sem que a sociedade lhe
desse atenção. Os adultos em quem deveria confiar lhe deram
as costas por não terem poder suficiente, e sua voz era fraca
demais para que alguém tentasse ouvir. No fim, Charatpong
continuava agindo impunemente enquanto a vida de Kim era
como uma morte em vida.
— Já está recuperado, inspetor?
— Não é da sua conta.
O olhar sem medo brilhou intensamente. Uma risada
ecoou pela sala de interrogatório. As mãos, presas aos braços
da cadeira, sacudiam o chão com tanta força que faziam a
mesa entre eles vibrar.
— O senhor é realmente engraçado, inspetor. O que veio
me perguntar hoje?
— Diga o que quiser dizer.
— ...
— Confessando ou não, você será condenado pelas
evidências de qualquer maneira.
— Nesse caso, o senhor gostaria de ouvir esta história?
Os lábios se abriram em um sorriso gélido. A cabeça
pendeu para o lado, os olhos ficaram distantes. Uma voz
calma e firme começou a descrever os detalhes para ele.
— Eu usei a faca para cortar o corpo lentamente,
removendo aquela pele enrugada e jogando no vaso sanitário...
O som dos gritos dele enquanto era torturado...
— ...
— Hahaha. O quanto o Mr. Kill ficaria orgulhoso de mim?
Eu... eu fiz exatamente igual. Eu cortei a estrela de cinco
pontas invertida no peito. Quando ia usar o martelo para
esmagar a cabeça, eu mirei repetidamente para ver se batia
com as escrituras de Nekros. Eu, eu...
— Ninguém tem orgulho de você...
— ...
— E o seu mestre está muito decepcionado com o que
você fez.
— Não é verdade! Não é verdade! O que policiais como
vocês sabem? É justamente porque existem policiais como
você que o mundo precisa do Nekros.
— Pare de falar bobagem e prepare-se para ir para a
prisão.
A sala de interrogatório se abriu junto com a porta da sala
de observação. Duas figuras caminharam lado a lado pelo
corredor de cimento polido. O passo não era apressado, mas
firme, sem um destino certo, pois agora ambos sentiam que
algo estava errado.
— Antes, quando o capitão Nop o interrogou, ele
confessou todos os crimes, mas não contou detalhes como fez
no caso do Charatpong.
— ...
— É compreensível que o rancor contra o Charatpong
fosse suficiente para fazê-lo agir, mas as outras vítimas...
— Acho que não faz muito sentido ele criar um plano tão
complexo apenas para encobrir seu verdadeiro desejo.
— Eu também penso assim. Embora ele alegue imitar o
caso do Nekros, tudo parece incoerente. E o mais importante:
tentei encontrar pistas como nos três casos anteriores, mas
não consegui achar nada neste.
— Os números que indicariam o próximo caso?
— Ou será que ele planejou que o Charatpong fosse o
último?
— ...
— Ai, ai.

Kim confessou ser o assassino em série do caso Nekros.


As quatro vítimas teriam sido mortas por inspiração, imitando
o comportamento do assassino no quadrinho de traços do Mr.
Kill.
O próprio culpado não conseguia especificar os detalhes
dos três primeiros casos tão claramente quanto o último.
Embora fosse possível que um assassino esquecesse seus
atos, o fato de ele errar até os métodos de execução gerava
dúvidas: como alguém que afirmava ter mirado na cabeça da
vítima exatamente como o Nekros faria, poderia esquecer
como matou?
E a suspeita que surgiu após questionar se Kim era
realmente o assassino em série foi o motivo da escolha das
vítimas de 1 a 3. Nenhum rancor de Kim se conectava a elas
como no caso do Charatpong. Tudo isso o levou a levar o
notebook para o apartamento no centro da cidade dos dois
irmãos Traikanawut.
Ele estava sentado no chão, encostado no sofá, enquanto
ao seu lado Praew ajudava a ler os dados detalhadamente.
Kay pensou que talvez tivesse deixado passar algo. Por
que só agora suspeitavam que o assassino escolhera as
vítimas pulando capítulos aleatoriamente? Havia um padrão
ou era apenas uma escolha aleatória baseada em históricos
desprezíveis?
— E você, Kay, consegue lembrar por que desenhou essas
quatro vítimas?
— Geralmente eu escolhia os enredos de jornais ou de
notícias da TV.
— ...
— Teve apenas alguns capítulos que recebi por e-mail de
fãs... Espera um pouco.
— E-mail?
Phat, segurando uma xícara de café, aproximou-se para
sentar no sofá, inclinando-se para olhar a tela do computador
onde Kay buscava e-mails recebidos há anos. O quadrinho
Nekros usava exemplos de cada capítulo vindos de jornais; os
modelos das vítimas eram baseados em atos vis de réus que
saíam na mídia, mas houve poucos capítulos cujas
informações vieram de alguém que se dizia fã.
— Eu já recebi e-mails de fãs com informações que usei
para os personagens das vítimas no quadrinho. Mas faz muito
tempo. Eu... será?
— Como se lê isso? Asura?
— ...
Ele percorreu quase cem páginas de e-mails antigos antes
de encontrar um assinado claramente para o Mr. Kill. O e-mail
suspeito usava o nome Asura.
O conteúdo fez os olhos dos três se arregalarem. Quase
dez páginas de informações detalhavam as quatro vítimas
minuciosamente. Embora não citasse nomes, descrevia
claramente quem era cada um. Asura não forneceu apenas
dados das vítimas, mas sugeriu métodos para lidar com elas, e
batia exatamente com o que o Mr. Kill desenhou: o empresário
encontrado na fábrica abandonada, o subsecretário deixado
no meio do campo, o advogado enforcado no armazém à
beira-rio ou até mesmo o parlamentar Charatpong, cujo rosto
foi cortado até ficar irreconhecível.
Os olhos percorriam as descrições da pose dos corpos nos
locais do crime, o rastro do símbolo da estrela de cinco pontas
invertida, incluindo o motivo da escolha do monumento à
maldade.
— Você conhece esse fã?
— Não. Eu respondi ao e-mail para agradecer, mas não
houve retorno.
— Quem é ele? Como ele pôde prever os acontecimentos?
— perguntou Praew com curiosidade. Aquele e-mail fora
enviado há vários anos, tanto tempo que ele já o havia deletado
da memória.
— Não. Eu acho que não foi uma previsão... mas sim que
ele planejou que soubéssemos o que aconteceria.
— ...
— Ele estava usando as mãos do Mr. Kill para expor as
podridões das vítimas.
Havia muitas hipóteses sobre esse novo personagem. Ele
decidiu responder ao e-mail antigo de Asura novamente, caso
pudesse obter mais pistas da pessoa que criara a inspiração
que fora o desastre de sua vida.
— E agora, além de esperar Asura responder, o que
podemos fazer?
— ...
— Se por acaso houver... falando sério, Kay, mano, eu
também acho que o Kim não é o Nekros. E é possível que isso
ainda não tenha acabado.
— Praew, você tem todos os arquivos do quadrinho
Nekros?
— Não. Eu só tenho os que mandei para o mano. Você vai
ler?
— Sim. Talvez eu encontre algo a mais. E talvez, se você
ler, Kay, lembre de mais alguma coisa...
Kay também pensava assim. Nos últimos anos, ele
guardou o Mr. Kill tão profundamente que esqueceu que, há
muito tempo, um demônio como o Nekros ganhara vida
através de sua caneta. Talvez o conteúdo que não pôde ser
recuperado escondesse algo importante.
— Que tal assim... eu vou criar um grupo de fãs do
Nekros, caso alguém tenha salvado os quadrinhos.
— Quem é que salvaria um quadrinho desse tipo?
— Kay, o Nekros era muito famoso nos blogs. Muito
mesmo. Pelo menos alguém deve ter salvado todos os
capítulos. Não custa tentar, né?
Praew pegou seu notebook e o colocou na mesa,
organizando a criação do grupo de fãs para reunir os capítulos
perdidos. Os dois irmãos ajudaram a divulgar o grupo em
vários canais, em busca de quem já tivesse lido o quadrinho
que se tornara o foco da sociedade.
Ele observou a cena, pensando em como o rancor que
sentia pelos guardiões da paz estava sendo apagado pela
dedicação e sacrifício do inspetor que se empenhava,
apegava-se à justiça e se arriscava sem medo.
— Pronto... agora é só esperar alguém postar as imagens.
— Obrigado.
— Agradecer por quê? Você tem que retribuir me dando
uma entrevista.
— Já chega disso. Ele já recusou várias vezes e você não
desiste.
Kay deixou escapar um sorriso ao ouvir o centésimo
pedido de Praew e a centésima primeira recusa feita por Phat
em seu lugar.
— O que você tem a ver com isso, mano? Por favor, Kay
sensei, tenha piedade de mim!
— Eu dou a entrevista... mas vai ser tudo ficção.
— Ah, Kay!
Ele nunca teve irmãos, então ver os dois brincando
daquele jeito lhe trazia uma sensação estranha. Embora
Praew estivesse irritada a ponto de franzir as sobrancelhas, o
irmão, Phat, sorria abertamente por ver a irmã ser rejeitada
por ele repetidas vezes. Praew resmungou que, no fim, ele
ainda insistia em não dar entrevista nenhuma. A jovem fez um
sinal de positivo que não significava excelente, antes de pegar
a caixa de leite que o irmão lhe entregou e voltar para o quarto,
deixando-o com o inspetor vigiando a tela durante toda a
noite.

Elogios de todos os cantos chegavam para parabenizar


pelo sucesso no encerramento do caso do assassino em série
Nekros. O telefone não parava de tocar, a ponto de ele precisar
deixá-lo esquecido no carro por preguiça de atender as
autoridades que queriam participar do mérito. O corpo alto e
esguio, em uniforme de gala, passou pela porta do último
andar da delegacia metropolitana. As duas pernas se
juntaram antes que o tronco se inclinasse em respeito ao
homem de meia-idade que se levantou para lhe dar um abraço
de boas-vindas.
— Muito bem, meu sobrinho.
— Obrigado.
— Assim que terminar a coletiva de hoje, vou conversar
com os superiores sobre a sua promoção.
— ...
— Quem faz um bom trabalho merece uma boa
recompensa, não é?
Phat não disse nada. Apenas inclinou a cabeça em
resposta ao coronel Chaiwat, seu tio, antes de ser levado para
a sala de reuniões no andar de baixo. Naquele momento, todas
as agências de notícias aguardavam o pronunciamento sobre
a prisão do assassino em série Nekros, que tirara quatro vidas
em apenas um mês.
Phat inclinou a cabeça para o comandante ao lado da
sala. Cada espaço fora ocupado pela imprensa, tanto que não
havia lugares para sentar. O consultor honorário do caso, que
veio para ouvir, teve que ficar encostado na porta de saída ao
lado do palco. Mesmo sabendo que não era hora de
brincadeiras, Phat soltou um sorriso ao ver a figura alta da
pessoa que, de braços cruzados, fez um sinal de "v" com os
dedos para dar apoio antes de baixá-los rapidamente.
O som dos disparos das câmeras parecia o de
metralhadoras enquanto o inspetor responsável pelo caso
começava a coletiva. O número de visualizações de várias
agências disparou para dezenas de milhares em poucos
segundos de transmissão ao vivo. A seção de comentários
corria velozmente.
— Olá a todos. Sou o capitão Yotsaphat Traikanawut,
inspetor de investigação responsável pelo caso do assassino
em série Nekros...
A coletiva de hoje era um resumo do trabalho policial ao
longo do último mês: o início da investigação e a conexão das
quatro vítimas com o assassino em série Nekros.
A confissão do assassino foi registrada no inquérito, e as
evidências encontradas o incriminavam fortemente. Ele
encerrou o pronunciamento com o resultado da prisão, em que
o tribunal condenou o assassino à prisão perpétua, antes de
abrir espaço para perguntas dos jornalistas.
— Alguém tem alguma pergunta sobre o caso?
— Senhor inspetor, o assassino disse algo sobre imitar os
assassinatos do quadrinho? Foi intencional ou apenas
coincidência?
— O assassino imitou intencionalmente as cenas do
quadrinho, mas outros detalhes eu preciso manter em sigilo.
— Senhor, qual a sua opinião sobre a #TeamNekros que
está virando tendência na sociedade?
A agência de notícias de Than divulgou a história de vida
trágica do assassino Kim, criando tópicos de discussão sobre
como Kim foi oprimido por poderosos e negligenciado, o que
levou ao surgimento do Nekros. A lei favoreceria os infratores,
permitindo que o verdadeiro vilão, o parlamentar Charatpong,
fosse honrado enquanto Kim sofria nas sombras.
A sociedade expressava opiniões diversas sobre a
existência de um assassino que agia como justiceiro, tanto
discordando quanto apoiando, o que deu origem à
#TeamNekros.
— Não tenho opinião sobre isso. De acordo com a lei, se
alguém comete um erro, deve receber a punição pelo que
causou.
— E se o que o Kim fez foi porque autoridades como o
senhor não lutaram por ele? Nesse caso, o Kim não seria
também uma vítima do abandono da lei?
O autor da pergunta era a mesma pessoa que incitava a
tendência #TeamNekros. Than levantou-se para encará-lo. A
pergunta enviada causou um burburinho na sala de reuniões.
— Por que o senhor inspetor não responde? Ou o senhor
também acha que um assassino como o Kim, na verdade,
também é uma vítima?
— Com licença, encerro a coletiva por aqui. Obrigado a
todos os membros da imprensa que compareceram hoje.
Phat avaliou que a pergunta não era pertinente ao caso,
mas sim aos sentimentos, e ele não precisava transmitir seus
sentimentos para ninguém saber que, no fundo, ele se sentia
derrotado por não ter conseguido proteger a vida de
ninguém...
Embora, quanto mais soubesse das ações vis de cada
vítima, maior fosse o asco, a ponto de o demônio em seu
coração dizer algumas vezes que o que aconteceu era
merecido, ele logo caía em si: se pensasse assim, não seria
diferente de um assassino como Kim.
Os policiais organizaram a sala que há pouco estava
lotada com centenas de pessoas, deixando-a em ordem em
menos de uma hora. Phat fugiu das pessoas que esperavam
apenas para perguntar o que já fora respondido, fugindo da
confusão que deixava sua mente pesada, e foi se sentar em
uma mesa de pedra atrás da delegacia.
— O que você vai fazer agora que o caso acabou?
— Todos os dias centenas de pessoas vêm registrar
queixas, então terei que cuidar de algum caso. E você?
— Voltar a desenhar o quadrinho até o fim.
A conversa deles deixou de lado o fardo que ambos
sabiam que carregavam. Em vez de se sentirem aliviados com
a captura do assassino, surgiram perguntas sobre muitas
incoerências, a ponto de ele não ousar retirar as informações
do caso da parede do quarto. Antes de conseguir fechar os
olhos a cada noite, ele ainda passava o tempo olhando para as
fotos e as linhas entrelaçadas até quase não dormir.
O instinto mandava não baixar a guarda...
— Kay.
O chamado vindo de trás trouxe sua mente, que vagava
com o vento, de volta para o visitante inesperado. Than estava
a uma curta distância. Ele ficou em silêncio até que o dono do
nome interrompesse a conversa antes mesmo de começar.
— Se veio pedir uma entrevista, eu já recusei várias vezes.
O motivo que fez a irmã dele importunar a outra pessoa
por um bom tempo foi porque aquele influenciador ávido por
visualizações estava desesperado por uma entrevista com Mr.
Kill. O fato de ele ter ousado aparecer ali, sendo que antes
sempre mandava a irmã de Phat à frente, talvez fosse porque
Praew, após ser rejeitada repetidamente, acabou desistindo de
entrevistar Kay.
— Se alguém que sabe a verdade como você não disser
nada, no fim, todas as mentiras se tornarão verdade. Você
consegue aceitar isso?
— Eu acho melhor o senhor Than ir embora.
Foi ele quem tomou a iniciativa de encerrar a situação que
deixava o ambiente tenso, mas a comunicação vinha apenas
de um lado, que não desistia da tentativa de provocar Kay, o
qual sequer se virava para olhar o rosto de quem falava.
— Todos veem a imundície, veem a injustiça, mas
escolhem ficar calados, agindo como se isso nunca tivesse
acontecido.
— ...
— O seu traço é o grito que faz todos olharem. A verdade
que ninguém tem coragem de dizer.
— Senhor Than.
— Argh!
O rosto de Kay estava voltado para os pés, as mãos
fechadas ao lado do corpo tremiam e ele as levou à boca, como
se estivesse prestes a vomitar. As sobrancelhas finas de Phat
se franziram em um nó antes de ele avançar imediatamente,
pois os sintomas que Kay apresentava estavam voltando,
mesmo tendo sumido por um longo tempo.
— Kay, respira fundo.
— Tente se lembrar. Lembre-se do sentimento no dia em
que você libertou um demônio como Nekros. Pense bem de
qual lado você deve estar...
— Cale a boca.
— Senhor Kay, não se esqueça do que seu pai teve que
enfrentar. Sua família foi destruída porque...
Plaque!!!
— Mandei calar a boca!
Ele avançou direto contra a pessoa que, mesmo após ser
avisada educadamente, não parava de falar sobre o que fazia o
rapaz alto e magro estremecer. O ataque de pânico de Kay
piorava enquanto o suor escorria pelo seu rosto, e tudo ficaria
ainda pior se aquele criador de problemas continuasse
provocando.
Phat desferiu socos sem parar no rosto contorcido,
esquecendo a dor do ferimento no ombro que ainda não tinha
cicatrizado totalmente. O rancor acumulado por ele ter
manipulado sua irmã até quase causar um desentendimento
entre os dois foi descarregado através dos punhos atingindo o
rosto, até que o sangue escorresse.
— Ei! Inspetor!!!
— Aqueles não são o senhor Than e o inspetor?!
Plaque!!!
O último soco foi desferido no rosto mais uma vez,
encerrando o serviço para que valesse a pena o impacto que
receberia após ser contido. Em breve, as redes sociais
estariam cheias de vídeos de um inspetor de polícia agredindo
um cidadão comum, e o sujeito certamente não perderia a
chance de contar a história se fazendo de coitado e chorando
diante das câmeras pela centésima vez. Quanto a Phat, não
escaparia de uma investigação disciplinar e de ser afastado do
cargo até que a poeira baixasse.
E foi exatamente o que aconteceu...
O som das notificações no celular era tão intenso quanto
na época em que foi elogiado por fechar o caso Nekros. No
entanto, hoje as mensagens eram de insultos, expressando
decepção por alguém com seu cargo não ter tido autocontrole
diante de uma provocação. O memorando oficial com o selo do
governo foi colocado sobre a mesa de trabalho; não havia um
prazo definido de quanto tempo levaria para que ele pudesse
retornar ao normal.
— Inspetor.
— Cuide do trabalho por mim, Nop. Qualquer coisa, me
liga.
Nop fez uma reverência em respeito. Phat deu um tapinha
leve no ombro do colega com a mão que estava fora do bolso da
calça antes de caminhar em direção ao carro estacionado nos
fundos.
— Pense nisso como umas férias, então.

De alguém que trabalhava sem folgas nem feriados, ele


passou os últimos dias desocupado, acordando tarde e
vivendo a vida que o trabalho havia lhe roubado. A segunda
série do dia terminou quando o relógio já marcava o início de
um novo dia. Deitado no sofá da sala, ele se levantou,
espreguiçou-se e recolheu as embalagens de lanche e garrafas
de refrigerante quase vazias, antes de ir dormir no momento
em que o sol surgia no horizonte e acordar quando o corpo
protestava pedindo a primeira refeição do dia.
Se fosse um dia normal, teria pedido delivery e comido na
frente da TV, mas como já estava comendo comida pronta há
três dias seguidos, desta vez resolveu fazer algo diferente. Por
sorte, o trânsito na tarde de sábado não estava tão caótico
quanto deveria. Ele levou algum tempo de casa até parar em
frente à conveniência embaixo do condomínio da pessoa com
quem não falava desde o dia em que ela teve o ataque de
pânico.
Toc, toc.
Phat não sabia o que o levou a bater na porta do quarto
que ele já tinha invadido uma vez para revistar sem permissão.
Talvez fosse o tédio de ficar em casa e, ao sair, não saber quem
procurar.
— Vamos comer alguma coisa?
— Hã?
— Vou te esperar lá embaixo.
O dono do quarto, vestindo um pijama com a gola larga e
esgarçada caindo pelo ombro, mal conseguia focar a visão na
claridade, esfregando os olhos com as costas da mão até que
ficassem vermelhos. Phat aproveitou o momento de confusão
para perguntar antes que o outro assentisse, mesmo sem
entender direito o que estava acontecendo naquela manhã de
sábado.
Após obter a resposta, Phat o deixou ali, parado e
confuso. O rapaz alto voltou para a frente da loja de
conveniência, agachando-se para procurar o gato gordo que
dormia com a bochecha apoiada em uma caixa de papelão. Os
olhos redondos do animal o encaravam fixamente; se pudesse
falar, certamente perguntaria o que ele queria.
— Que cara de poucos amigos.
— Miau.
— Tá respondendo? Respondendo o quê?
— Miauuu.
Ele pressionou levemente a ponta do dedo na barriga
redonda. O bichano de quatro patas se esticou, com as orelhas
em pé, pronto para deixar uma marca de arranhão se ele
continuasse interrompendo seu descanso. Felizmente, a
pequena guerra foi interrompida pela pessoa que se agachou
ao lado deles e falou primeiro.
— Por que o senhor inspetor resolveu vir aqui brigar com
um gato?
— Miau.
— Vem cá, vem.
A comida de sachê foi despejada em uma vasilha de inox
escondida ali. O gato parou de prestar atenção nele assim que
o cheiro de atum atingiu seu focinho. O corpo gordo se
esfregou nas pernas do "humano" como forma de
agradecimento antes de começar a comer a gelatina
lentamente.
— Então, o que faz aqui?
— Vim justamente porque não tinha nada para fazer.
Vamos, vamos comer.
O motor acelerou pela estrada em um caminho que levava
ao subúrbio, em direção ao restaurante favorito onde ele
costumava fugir da agitação sempre que tinha tempo livre. Um
esconderijo tão bom que nem seus subordinados mais
próximos conheciam.
Ele engoliu a última colherada de arroz ao mesmo tempo
em que a outra pessoa juntou os talheres no centro do prato
limpo. A mão robusta pegou o copo de suco de frutas batido e
levou o canudo aos lábios.
— Hoje eu pago.
— Em que ocasião?
— Para compensar o fato de você ter sido afastado por
minha causa.
Phat assentiu, sem recusar a gentileza da pessoa cujo
rosto e olhar demonstravam claramente o quanto se sentia
culpada. Ele continuou falando enquanto Phat terminava o
resto de cafeína no fundo do copo.
— Sinto muito por ter causado problemas ao senhor
inspetor.
— Não foi problema nenhum.
— ...
— Eu estava cansado, há meses sem folga. Já que o caso
fechou, considero isso como umas férias.
— Se são férias, por que o senhor inspetor não pensa em
viajar para algum lugar?
— Por quê? Está me expulsando?
— Não é isso, só perguntei.
— Não sei para onde ir. Já estou entediado de ficar em
casa. Aliás, você está livre este fim de semana?
— Estou livre.
— Então me faz companhia.
Phat sentia que estava apenas procurando alguém para
brincar, mas Kay se sentiu como se tivesse sido enganado
quando o carro parou em frente a um grande ginásio esportivo
coberto.
O rapaz alto caminhou ao lado dele até a sala no fundo do
ginásio. Phat respondeu ao cumprimento do funcionário
dizendo que fazia tempo que não aparecia, antes que a chave
do armário que ele alugava anualmente fosse entregue. O
uniforme branco foi colocado nas mãos de Kay, que ainda não
parava de fazer cara de interrogação. Desde o momento em
que desceu do carro até trocar de roupa e se olhar no espelho
no meio da sala, ele continuava com o cenho franzido, fazendo
Phat soltar uma risada.
— O senhor inspetor está rindo de quê?
— Dessa sua cara. Já jogou alguma vez?
— Onde eu arranjaria tempo para jogar?
— Agora. Treine... para o caso de encontrar aqueles seus
cobradores de dívidas, para poder lutar contra eles.
Phat convivia com o taekwondo desde que se conhecia por
gente. Sua mão firme apertou a faixa preta, sem esquecer de
verificar se a faixa branca amarrada na cintura da pessoa à
sua frente estava pronta para o treinamento que ela não
desejava.
— Pronto?
— Não estou pronto.
— Se não está pronto, toma essa.
A ponta do pé passou raspando o rosto de quem estava
parado. O golpe desviou antes de tocar levemente o ombro. Os
olhos de Kay se arregalaram e ele recuou a cabeça enquanto
levantava as mãos para proteger o rosto do ataque inesperado.
— O senhor inspetor não sente mais dor no ferimento?
— Só um pouco, está meio repuxando.
Phat alongou os músculos e levantou a blusa para
mostrar ao novo aluno a cicatriz cirúrgica bem feita na região
do abdômen, antes que a aula básica do "treinador Phat"
seguisse sem descanso. O som do impacto dos pés contra o
aparador de chutes na mão dele ecoava. Ele ajustava a altura
do alvo para cima e para baixo conforme o ritmo dos chutes,
até que, por fim, o dono das pernas longas não aguentou mais
e se jogou de costas no tatame no meio da sala.
Os lábios se abriram em uma respiração ofegante que
preenchia o ambiente. Com os olhos negros fixos no teto, Kay
abriu os braços e as pernas, deixando o corpo encharcado de
suor se recuperar após uma hora de exercício mais intenso do
que em toda a sua vida.
— Já descansou?
— ...
— Já atirou com arma de fogo?
— Nunca. E nem quero.
— Treine. Ali fora tem um estande.
— ...
— Vamos, levante.
O treinador Phat estendeu a mão na frente dele,
bloqueando a visão do teto branco e limpo que Kay usava para
descansar os olhos. Parecia que Kay tinha envelhecido dez
anos hoje, pois desde que saiu do quarto, não sabia quantas
vezes já tinha suspirado. Ele segurou a mão de Phat para ser
ajudado a levantar, antes de ser empurrado de volta ao
vestiário para seguir para a segunda atividade do dia.
O dia sem planos passou rápido. Quando terminaram as
atividades no ginásio, o sol já estava se pondo. No entanto, em
vez de cada um ir para sua casa, acabaram sentados
relaxando e observando as pessoas correndo em um parque ali
perto.
Uma vida dedicada apenas ao trabalho fazia com que
Phat raramente saísse para socializar ou fazer atividades com
alguém. Seus poucos amigos estavam espalhados, cumprindo
seus deveres em áreas distantes. Ter esse tempo com alguém,
não como policial e consultor, mas como amigos, o ajudava a
sentir como se tivesse tirado o peso do cargo dos ombros,
restando apenas um homem beirando os 30 anos vivendo
descompromissadamente como um desempregado.
— O que significa sensei?
— Hã?
— Mandei uma mensagem para a Praew dizendo que
estava com você. Aquela criança respondeu: diga olá ao sensei
por mim.
— Em japonês significa professor.
— Ah, então tem alguém mandando dizer... olá, sensei.
— Olá.
A conversa trivial entre os dois seguiu sem pressa,
parecendo não ter fim. Kay agora falava mais do que no
primeiro encontro. Phat também se abria mais. Os assuntos
estavam longe do trabalho, com perguntas tão aleatórias que
ele nunca imaginaria vindas de alguém que sempre agiu de
forma tão séria.
— E por que você não o leva para criar lá no quarto?
— Deixo ele lá embaixo mesmo. Assim outras pessoas
ajudam a cuidar. Se ficasse comigo, ele poderia acabar
pulando refeições.
— Mesmo pulando refeições, ele está daquele tamanho.
A essa altura, o gato gordo do condomínio devia estar
espirrando sem parar, de tanto que estava sendo fofocado por
aqueles dois homens altos sentados juntos no banco de ferro.
Phat cruzou as pernas enquanto o outro se espremia
educadamente contra o braço do banco para dar espaço.
— Quando o senhor inspetor volta a trabalhar?
— Na segunda-feira já serei chamado para o inquérito
disciplinar. Pode levar uma semana ou até um mês.
— Eu sinto muito.
— Pare de pedir desculpas. A culpa não foi sua. Naquele
dia eu só perdi a paciência quando percebi que ele manipulou
a Praew até causar problemas entre mim e minha irmã.
— ...
— Ele mereceu. E se me perguntarem se me arrependi, a
resposta é não.
Mesmo sem querer prestar atenção, ele ainda via artigos e
vídeos da agência de notícias de Than insistindo no caso de
Kim. Inventavam que a polícia não havia revelado todos os
pontos e questionavam se Kim era o verdadeiro culpado ou
apenas um bode expiatório, perguntando como a sociedade
poderia aceitar um trabalho tão negligente.
— Não sei o que ele tem na cabeça com essas imaginações
todas.
— Falando sério, inspetor... eu também sinto que essa
história ainda não terminou.
— ...
— A motivação de Kim era apenas o rancor contra o
deputado Jaraspong. Mas planejar a morte de três vítimas
parece um plano que não faz sentido.
— ...
— Se usarmos a resposta que está no processo, de que ele
fez isso para encobrir o verdadeiro alvo, ainda assim sinto que
não é bem por aí.
Phat ficou em silêncio. Na verdade, o que martelava em
sua mente desde que assinou o encerramento do caso era a
confissão de Kim sobre as três primeiras vítimas.
— É verdade.
— Pode ser que não seja o último caso como pensamos?
— Ou talvez tenha terminado aqui, e nós que estejamos
pensando demais.
O assassino confessou todos os seus pecados na prisão.
Não havia pistas para continuar como nos casos anteriores.
Deveria terminar sem perguntas, como se tivessem encenado
uma calmaria no mar para que ninguém pudesse se preparar
para a grande tempestade que estava por vir.
Após deixar o outro no condomínio, Phat voltou para casa
e abriu a pasta que pediu para seu subordinado de confiança
lhe entregar escondido. Mesmo dizendo para não pensar
demais, mesmo dizendo que o fim é o fim, agora era ele quem
não conseguia encerrar o assunto.
Phat parecia alguém obsessivo, lendo o histórico de cada
vítima repetidamente. Os pontos duvidosos eram circulados
com caneta enquanto ele lia, como se estivesse buscando o
erro que escolheu ignorar.
— Cofundador de uma instituição financeira.
— ...
— Já foi advogado em casos de instituições financeiras...
instituição financeira...
A ponta do dedo deslizava em busca do nome da
instituição que não aparecia no histórico. Havia apenas
referências, sem dizer qual era a relação. Ele arrastou a
cadeira até o computador e abriu um site de buscas para
pesquisar em qual instituição o empresário da primeira vítima
foi cofundador.
Instituição Financeira Thai Investment.
Phat abriu uma nova aba e pesquisou o nome do
subsecretário junto ao nome da instituição, até que surgiram
detalhes do maior acionista, cujo rosto era o mesmo do
detentor do cargo mais alto no serviço público civil.
O advogado Komkrit aparecia como alguém que já tinha
defendido a instituição financeira, e o último, o deputado
Jaraspong, era o segundo maior acionista da Thai Investment.
Ele encontrou. Encontrou o elo que unia todas as vítimas.
Era a instituição financeira cujo nome ele guardava na
memória. O caso que fez com que o responsável pela
investigação fosse marcado como alguém que aceitou
suborno.
O caso que tinha o nome de seu pai como responsável...

Como a atitude de Phat parecia ser a de não querer


continuar com o caso do assassino em série Nekros, Kay
escolheu consultar a pessoa que provavelmente tinha as
mesmas dúvidas que ele. Por sorte, Praew pensava da mesma
forma. Ela entrou em contato porque precisava encontrar
alguém, e ele concordou imediatamente, pois havia muitas
coisas que queria resolver antes que começasse a pensar
demais.
Praew esperava não muito longe e acenou para ele, que
acabara de chegar.
— Desculpe, o trânsito estava ruim.
— Tudo bem, P'Kay. Vamos, vamos entrar logo.
O relógio marcava a hora da visita. O guarda mencionou,
enquanto eles assinavam os documentos de entrada, que Kim
recusava todos que pediam para visitá-lo. Apenas Kay foi
aceito assim que ele viu o nome.
— Vocês têm 20 minutos.
— Obrigado.
A sala era dividida em dois lados por um vidro com furos
para o som passar. Ele e Praew se sentaram nas cadeiras
preparadas, antes que a porta do outro lado se abrisse e
alguém com correntes nas mãos e nos pés fosse trazido para
se sentar à frente deles.
— Estou feliz que você veio me ver.
As primeiras palavras saíram da boca do dono de um
rosto sorridente. Kay apertou as unhas na palma da mão,
tentando conter a ansiedade antes de perguntar o que queria.
— Vou te perguntar diretamente. Você não fez isso
sozinho, não é?
— Eu... eu acredito em você. No seu quadrinho. Eu... eu
segui o Nekros em tudo. Queria que você ficasse orgulhoso.
— Como você escolhia qual capítulo usar para encenar as
mortes? Quem te ajudou a pensar?
— Quem?
— Tem alguém te ajudando, não tem?
O olhar brilhante era vago, o rosto se inclinava olhando ao
redor, como se tentasse pensar em algo.
— Eu sou a chama.
— ...
— Se alguém acender o fogo... eu queimarei sem hesitar.
As palavras de Kim deixaram Kay ainda mais convencido
de que, por trás do assassino à sua frente, não havia apenas a
decisão dele. Ele olhou para Praew, que assentiu como se
confirmasse que também pensava o mesmo.
— Eu... eu tenho algo para dizer.
O olhar vazio e o rosto que pendia de um lado para o outro
se aproximaram lentamente do vidro que os separava. Os
lábios soltaram um ar quente que embaçou o vidro em um
grande círculo. Ele levantou as duas mãos acorrentadas e,
com a ponta do dedo, desenhou um número refletido ao
contrário antes de se levantar e sair, mesmo sem ter dado o
tempo.
20.
O número no vidro não saía de sua cabeça. Por mais que
tentasse, Kay não conseguia lembrar qual era o conteúdo
inicial do capítulo 20, que estava 100% perdido. Ele seguiu em
silêncio durante todo o caminho de volta ao condomínio. Como
já estava anoitecendo, decidiu ir até onde Praew morava, pois
ela também não parava de pensar nisso.
— A maioria salvava por página. Ninguém tem o capítulo
inteiro.
— ...
— E já faz muitos anos. Alguns que tinham os arquivos
completos acabaram perdendo.
— Vou tentar procurar no meu quarto hoje à noite. Ver se
sobrou alguma coisa.
O táxi parou na entrada do condomínio. O rapaz alto se
despediu e prometeu que encontraria o capítulo 20. No
entanto, antes de caminhar para casa, foi chamado pela voz
severa de alguém que saía da área comum do prédio com
semblante fechado.
— Praew.
— Heia?
— Por que foi visitá-lo?
— Eu que convidei a Praew para ir.
— Se você tem dúvidas, resolva sozinho, não arraste
minha irmã junto.
Embora ele quisesse saber algo para responder às suas
próprias perguntas, quem sugeriu visitar o assassino Kim foi a
irmã do próprio inspetor, que agora estava com uma expressão
de quem não sabia o que fazer. Praew escolheu aquele dia
porque seu irmão teria que passar o dia todo em depoimento
disciplinar. Ao ver que Phat os esperava, os olhos de mesma
cor denunciavam a culpa, e Kay teve que assumir a
responsabilidade.
— E você deveria parar com isso. Tudo já acabou. Por que
ainda quer saber mais?
— Heia Phat, você acha que acabou mesmo? Você
também não está desconfiado? O P'Kay disse que...
— Disse o quê? O que você disse para a minha irmã?
— ...
— Não manipule a Praew. Não se envolva mais com a
minha irmã.
Ele não sabia para onde ir. Nessas horas, queria alguém
que o ouvisse, mas não tinha para onde ir. O único lugar que o
aceitaria, além do quarto onde dormia, era aquele lugar onde
ele não voltava fazia tempo.
O pai ainda estava deitado na cama do hospital. Tubos do
respirador passavam pelo seu rosto. O ventilador velho no teto
fazia um ruído avisando que logo pararia de funcionar. Ele
usou a cadeira ao lado da cama como apoio, segurando a mão
da pessoa imóvel e acariciando-a levemente.
— Acho que agora vou poder vir te ver com mais
frequência, pai.
— ...
— De agora em diante, não deve haver mais nada em que
eu precise me envolver... Nem tive tempo de te contar que fiz
um novo amigo.
— ...
— Parece que hoje ele já não me considera mais um
amigo.
Kay contava aquilo como se fosse uma piada, embora seu
cérebro ainda lembrasse das últimas palavras do outro, que
ficaram gravadas em seu coração e o deixavam inquieto. Ele
tentou encontrar um lugar para desabafar e acabou vindo
parar aqui.
— Então, o senhor fica me fazendo companhia primeiro,
tá bom?
O celular foi pego após ele soltar a mão do pai. Kay
navegou pelas redes sociais para passar o tempo até o
amanhecer chegar.
— Senhores telespectadores, nossa reportagem especial
sobre o caso do assassino em série Nekros ainda não
terminou. Hoje trazemos a história de mais uma pessoa que
todos esperavam. O responsável pelo caso que deixou esta
cicatriz no meu rosto... Inspetor Yosapat Traikanawut.
— ...
— O filho mais velho do Capitão Papapat Traikanawut, o
policial que foi responsável pelo caso da Instituição Financeira
Thai Investment.
O famoso influenciador exibiu a imagem do inspetor
responsável pelo caso antes de descrever informações obtidas
de forma ilegal. Kay franziu o cenho enquanto ouvia o
conteúdo que lhe parecia familiar...
— Para quem não lembra, há quase 20 anos ocorreu um
grande caso no país. Um caso que destruiu a vida de muitas
pessoas, o caso da Thai Investment. Um desvio de quase um
bilhão de bahts sem que nenhuma vítima fosse indenizada.
Houve apenas a morte em um acidente do Capitão Papapat,
que detinha todos os segredos do caso e era suspeito de
ocultar informações importantes para punir os culpados,
junto com o esposo. Isso fez com que o caso...
Ele olhou para o rosto do pai enquanto seus ouvidos
captavam cada palavra da notícia no celular. O nome que
ecoava em sua mente desde criança. O homem que recusou o
encontro com seu pai, fazendo com que o incêndio assassino
daquele dia queimasse sua família viva. O mesmo homem que
era o pai do inspetor que o arrastou para participar da
resolução deste caso de forma inevitável.
Kay não entendia que resposta buscava ao estar parado
ali novamente. Olhou para o nome na tela, hesitando entre
ligar ou voltar para seu quarto e deixar o assunto pendente. No
entanto, se não decidisse logo, acabaria sendo retirado dali
pelo segurança que o observava por estar em uma área
privada.
— ...
— Alô. Estou aqui embaixo no condomínio.
— ...
— Tenho uma coisa para conversar com o senhor
inspetor.
— ... Hum.
Kay agradeceu ao funcionário da recepção que veio digitar
o código antes que a porta do elevador se fechasse. A tela
automática parou no andar intermediário do edifício
residencial no centro da cidade. Poucos passos do elevador e
ele chegou à porta. Pressionou a campainha e não demorou
para que ela fosse aberta pelo dono, que ainda usava a mesma
roupa de quando se viram antes. O rapaz alto parou em frente
ao sofá no meio da sala.
Mesmo com as palavras e perguntas acumuladas no
coração, ele conseguia apenas olhar para o outro em silêncio.
— Veio falar sobre a notícia que acabou de sair, não foi?
— ...
— Se você odiar meu pai, se me odiar, eu entendo. Porque
eu odeio o que ele fez ainda mais que você... Mas esse ódio não
vai trazer meu pai de volta.
— ...
— Nem vai fazer seu pai melhorar...
— Desde quando o senhor inspetor sabe disso?
— ...
— Naquele dia, o senhor inspetor me seguiu, não foi?
Phat assentiu, sem negar que no dia em que Kay trocou
de mototáxi várias vezes, ele o seguiu até descobrir para onde
ele ia. Depois disso, o histórico que estava escondido por
causa do novo nome foi totalmente revelado.
— O senhor inspetor sabia de tudo desde o começo. Sabia
o que seu pai fez com a minha família...
— Me desculpe.
— ...
— Eu sei que você não tem como perdoar. Mas eu também
estou tentando... tentando provar a mim mesmo para dizer a
todos que não sou um policial como ele.
— ...
— Para pagar por um pecado que eu não cometi.
Os olhos avermelhados estavam marejados. Phat baixou
o olhar e enxugou o rosto. Ele não sentia raiva; o coração leve
dizia que ele apenas queria ouvir a verdade da boca do outro
em vez de ouvir de terceiros.
— E o que você vai fazer de agora em diante... vai
continuar se trancando no passado?
Ambos tinham feridas. O crescimento dele e do outro foi
em um terreno cheio de buracos. Quando caíam e choravam,
tinham que se levantar sozinhos. Aprenderam a sentir dor na
idade em que deveriam ser mais protegidos.
Kay entendeu o que o inspetor queria dizer. O passado
que o aprisionava era como um arame farpado; quanto mais
tentava se soltar, mais ele o perfurava. Mas, em vez de resistir
para que a vida seguisse em frente, ele permitia que aquilo o
cercasse até prendê-lo. Por outro lado, havia alguém
carregando destroços nos ombros, mas que ainda tentava
caminhar, mesmo tropeçando e caindo.
Ele não olhava, mas ouvia claramente o soluço da pessoa
que continuava parada de cabeça baixa. As duas mãos
cerradas faziam os braços tremerem. O rosto exausto olhava
para o teto, contendo as lágrimas que insistiam em cair.
No momento de maior fraqueza, não houve abraço, não
houve palavras de conforto. Houve apenas o silêncio de duas
pessoas que revelavam suas feridas abertas uma para a outra.
Feridas causadas por aquela mesma lâmina no passado...

Praew apertou os papéis em suas mãos. Papéis cheios do


conteúdo do capítulo 20 do quadrinho Nekros. Ela salvou tudo
assim que viu alguém postar no grupo, antes de ligar para
contar a Prim o que aconteceu durante a visita a Kim.
O aviso de Phat foi como vento. Quanto mais ele proibia,
mais instigava Praew a querer saber, a ponto de ela sair do
condomínio ignorando os alertas. A figura magra estava ao
lado da amiga que compartilhava os sofrimentos desde o
primeiro dia na agência de notícias. Praew e Prim respiraram
fundo, recuperando toda a coragem, antes de ambas entrarem
no transporte público para buscar as pistas que apareciam no
capítulo.

O cheiro de sangue pairava por toda a cela da ala especial.


A pele branca e pálida foi cortada por uma lâmina roubada do
refeitório. A cabeça pendia sobre o ombro. O sangue jorrava do
corte no pescoço. Os pés apontavam para a grade de ferro. As
costas estavam apoiadas no concreto polido, manchado de
vermelho escarlate. Na parede, letras escritas com sangue
pareciam um ritual de sacrifício. Mesmo sem vida, os lábios
estavam esticados em um sorriso de satisfação.
Um sorriso que era o sinal de que ele estava sendo
libertado para entregar seu legado a quem compartilhava do
mesmo ideal...
— Nekros.
6
Seus pés sem rumo moviam-se lentamente pelo caminho.
Ele havia saído do condomínio de Phat há algum tempo,
depois que ambos passaram um longo período refletindo
sozinhos. Em menos de uma hora o metrô encerraria o serviço.
Ele provavelmente pegaria a última viagem do dia para voltar
ao quarto que vivia abandonado, já que seu dono nunca
parava em lugar nenhum.
O diálogo antes da partida continuava em looping em sua
mente. Ele insistiu com o inspetor que Kim, que havia sido
preso, era apenas um peão. Havia outras pessoas controlando
e ajudando ele. O número 20 era como um aviso de que Nekros
não terminaria facilmente. O próprio Phat não estava parado;
a equipe de investigação, que ainda não tinha sido dissolvida,
estava tentando reunir o restante dos episódios da webtoon
Nekros, mas quase ninguém colaborava com a polícia.
— Os fãs de Nekros provavelmente não querem colaborar
com a polícia tanto quanto eu.
— ...
— Mas não importa o que o senhor inspetor pense, eu
confirmo que, mesmo que tenha que investigar sozinho,
continuarei com isso...
Kay pegou um mototáxi da estação de metrô até seu
alojamento quase na virada do dia. Ele se abaixou procurando
por seu gato de rua favorito, que hoje tinha sumido da caixa de
papelão, mas antes que pudesse estranhar, o som do celular
desviou sua atenção, fazendo-o deslizar rapidamente a tela
para ver o conteúdo do e-mail enviado por Praew.
Seus olhos refletiram o arquivo completo do capítulo 20
da webtoon, junto com o perfil da pessoa que provavelmente
seria a vítima de Nekros, conforme a dica de Kim. Ele leu tudo
por cima antes de ligar para o número de quem enviou as
informações, mas, por mais que tentasse, a pessoa do outro
lado não atendia.
— Praew, atende.
Anteriormente, o inspetor tinha lhe dito que a irmã saíra
para dormir com uma amiga do estágio. Isso deixou Kay ainda
mais inquieto, pois tinha um pressentimento estranho de que
as duas fariam algo além de suas capacidades. Assim, o
destino final da ligação mudou para o número do único irmão
de Praew.
— Senhor inspetor.
— Eu tenho uma coisa para te dizer...
— A Praew enviou...
Plaque!
Um impacto inesperado vindo de trás fez o corpo alto cair.
As duas mãos atingiram o chão e arderam instantaneamente
ao rasparem no cimento, criando escoriações. O celular
deslizou para longe antes de ser pisoteado pelos pés do grupo
de pessoas que tinha sumido há muito tempo.
— Onde você andou se escondendo esse tempo todo?
— ...
— Onde está o dinheiro?
Kay olhou ao redor enquanto os três homens o cercavam,
rindo do seu estado de medo. Eles se afastaram do celular. Ele
percebeu que não havia ninguém por perto para ajudá-lo. Os
rostos com sorrisos sinistros pareciam dizer que, desta vez, ele
não escaparia.
Seu corpo tremia de receio enquanto buscava uma forma
de sobreviver. As mãos estavam cerradas com força. Doía até
ficar dormente. As lições do passado o ensinaram que, por
mais longe que fugisse, acabaria sendo arrastado de volta para
baixo dos pés deles. Por isso, esta foi a primeira vez...
A primeira vez que Kay não pensou em fugir. Em vez
disso, ele se levantou e desferiu um soco direto no rosto da
pessoa que estava mais próxima.
— Ei!! Chefe!!
O punho cerrado atingiu o rosto com tanta força que o
outro caiu sobre seus subordinados. Kay moveu os pés para se
posicionar. Os movimentos que ele tinha acabado de treinar
há poucos dias... agora era o momento de usá-los.

O capítulo 20 de Nekros contava a história de um mafioso


que escapou de uma acusação de encomendar o assassinato
de uma família para silenciar testemunhas há cinco anos.
Depois de pesquisar a noite toda, Praew encontrou o caso
famoso do senhor Kamjorn Phetchay, ou Hia Piao, um homem
influente de uma província vizinha. Hia Piao já fora acusado
de ser o mandante da execução da família inteira de um
promotor honesto que não se curvou ao seu poder. No entanto,
ele se livrou de todas as acusações e processos, mesmo com
evidências que o ligavam ao crime, porque, de repente, a
testemunha principal mudou o depoimento. Praew tinha
certeza absoluta de que Hia Piao era a quinta vítima que
Nekros atacaria.
Por isso, as duas amigas e estagiárias, Praew e Prim,
entraram em contato com o dono do luxuoso prédio comercial
à frente, dizendo que queriam uma entrevista, sem contar a
ninguém sobre o plano impensado. Ambas estavam ansiosas
para sanar suas dúvidas logo, então aceitaram o horário
proposto pela outra parte, mesmo sendo tarde da noite, e
pegaram um ônibus saindo de Bangkok para o destino que o
proprietário informou estar aberto 24 horas.
O grande prédio comercial ocupava uma área de frente
para a estrada principal da cidade. Atrás dele ficava o império
da família Phetchay, uma residência luxuosa e completa em
um terreno que valia centenas de milhões.
Atualmente, Hia Piao trabalhava com o agenciamento de
mão de obra estrangeira. Ele viveu no exterior por um bom
tempo antes de voltar para morar na casa que estava de portas
abertas há menos de um ano.
— São vocês duas que vieram entrevistar o Hia sobre os
negócios?
— Sim. Olá, Hia Piao.
— Prazer em conhecê-las.
O dono da casa parou diante delas com um sorriso tão
largo que fechava os olhos, uma aparência de homem bondoso
que claramente era fingida. Praew e Prim sentiam que estavam
sendo vigiadas o tempo todo por cada olhar presente na área
do escritório. Percebendo a atitude suspeita, as duas se
aproximaram e deram as mãos com força, enviando coragem
uma para a outra para que a situação prosseguisse.
A ampla sala de trabalho estava repleta de animais
empalhados na decoração. Diante do sofá usado para a
entrevista, havia um grande tapete de pele de animal. Hia Piao
ria alto enquanto contava sobre seus negócios que cresciam
tanto na Tailândia quanto no exterior. O plano de expansão da
empresa para este ano era detalhado passo a passo. Praew
fingia anotar enquanto elogiava a visão do homem que lançava
olhares maliciosos para elas.
Rrrr...
— Ah, com licença, preciso atender o telefone primeiro.
— Pode ir. Quer continuar perguntando, mocinha, ou vai
esperar sua amiga?
— Pode continuar.
Tudo correndo conforme o plano... O som do telefone
interrompeu a conversa. A tela exibia o nome de Kay, o que
Praew usou como desculpa para se afastar e investigar as
informações que recebera de que aquele lugar não era apenas
uma empresa de agenciamento de mão de obra, mas também
um local de cárcere privado e tráfico humano.
Praew recusou a ligação de Kay e colocou o celular no
modo não perturbe. Na frente, o grupo de capangas de Hia
Piao estava reunido em volta de dezenas de caixas de uma
famosa rede de fast-food. Alguém gritou que o patrão estava
pagando, atraindo toda a atenção para um só lugar. Praew
aproveitou a oportunidade para escapar dos olhares e correu
para os fundos da casa, o ponto onde notara que parte dos
trabalhadores tinha sido levada ao chegar.
Enquanto isso, na sala de trabalho, Prim fazia perguntas
para prender a atenção do homem e evitar que ele suspeitasse
do motivo da demora de Praew. As perguntas em suas mãos
estavam acabando, e o rosto enrugado de Hia Piao começava a
demonstrar desconfiança sobre a situação estranha.
Prim não conseguiu mais ganhar tempo, pois o dono da
sala pegou o controle remoto da TV e ligou o monitor, que
exibia as imagens das câmeras de segurança de todos os
cantos do local. Prim ficou estática, com as mãos cerradas no
colo. Viu na tela que sua amiga estava parada diante da porta
de um quarto trancado com correntes.
— Próxima... próxima pergunta.
— Mocinha...
— ...
— Quem mandou vocês aqui?
Praew tremia e o suor frio escorria por seu corpo
enquanto tentava posicionar a câmera do celular na fresta da
porta de onde vinha o som de choro. O botão de gravação
estava ativado. Seus olhos se arregalaram ao ver as imagens
na tela. Inúmeras vidas estavam ali, sentadas abraçadas
chorando. Algumas pessoas estavam acorrentadas, outras
deitadas imóveis como se estivessem sem vida.
Crianças e mulheres se assustaram com a luz do flash
que brilhou pela fresta da porta e começaram a gritar em uma
língua que Praew não entendia, mas captou que pediam
ajuda. Ela guardou o celular no bolso da calça e segurou a
corrente da porta, tentando puxar para avaliar a resistência,
antes de sua ação ser interrompida pelo som de passos vindo
de trás.
— Prim?
— Pra... Praew...
Prim estava com as mãos amarradas nas costas,
escoltada por capangas do homem que agora tinha uma
expressão sombria, sem o sorriso de antes. Hia Piao ordenou
que os capangas amarrassem Praew da mesma forma que
Prim, antes que ambas fossem levadas para uma sala ao lado
no mesmo andar.
— Quem mandou vocês?!
— Soltem a gente! Se não soltarem, você será o próximo
cadáver!!
Plaque!!
— Que boca suja. São vocês que serão os próximos
cadáveres.
— ...
— Mas antes disso...
O olhar maligno se voltou para Prim, que estava encolhida
no canto da sala. O riso dos dois capangas ecoou enquanto
Hia Piao se aproximava dela. Praew se debateu tentando
impedir o ato cruel que estava prestes a acontecer.
— Solta... solta a minha amiga!
Plaque!
Prim lutava e gritava desesperadamente. Praew puxou a
perna do demônio em forma humana até que ele se virou e
desferiu vários chutes em seu abdômen. Suas mãos pequenas
agarraram a calça dele com força, mesmo com a consciência
quase desaparecendo.
Ao ver que Praew não tinha mais forças para detê-lo, o
monstro voltou-se para a figura encolhida no canto. O rosto
banhado em lágrimas de Prim foi a última coisa que Praew viu
antes que toda a sua consciência se apagasse...

O celular quase caiu de sua mão quando a pessoa do


outro lado confirmou que o assassino que ele acabara de
colocar na cadeia há poucos dias havia cometido suicídio na
cela, deixando mensagens de adoração a Nekros e o símbolo de
uma estrela de cinco pontas invertida desenhada com o
próprio sangue em toda a parede.
A primeira opção que tomou após desligar foi ligar para
quem tinha acabado de sair do seu condomínio. No entanto, o
nome da pessoa em seus pensamentos apareceu na tela
primeiro.
— Alô, senhor inspetor.
— Eu tenho uma coisa para te dizer...
— A Praew enviou...
Plaque!!!
— Zzz... sumiu... dinheiro...
— Kay, alô?
— ... haha...
— Kay!!
A ligação caiu sem que nenhum dos dois lados
conseguisse se entender. Phat percebeu que algo ruim estava
acontecendo. Ele calculou o tempo: fazia quase duas horas
que Kay saíra, sendo que ele deveria ter chegado ao
condomínio, que ficava a menos de 30 minutos, há muito
tempo. Portanto, o raio de busca para encontrá-lo deveria ser
ao redor do próprio alojamento dele.
Phat pegou as chaves do carro e saiu correndo do quarto
imediatamente, indo em direção ao único destino que lhe veio
à mente. Enquanto isso, tentava contato pelo aparelho de
comunicação, mas não havia resposta. O carro com vidros
escuros reduziu a velocidade na faixa da esquerda. Ele
vasculhava o ambiente com o olhar em meio à péssima
visibilidade, pois estava escuro e a luz dos postes não era
suficiente, mesmo em uma área movimentada.

O tempo passava implacável e a preocupação só


aumentava. Phat arrancou rapidamente em um cruzamento
antes de entrar e estacionar na área do condomínio da pessoa
que o fizera sair de casa àquela hora da noite.
Com passos largos, ele saiu do carro estacionado.
Entrava e saía de cada beco, com os olhos procurando e os
ouvidos atentos ao som de resposta da ligação que ainda não
tinha encerrado.
— Kay!
No beco ao lado da loja de conveniência, onde ficava o
gato gordo que agora estava sentado como uma bola ao lado do
corpo encostado na parede, o ambiente estava em silêncio
absoluto, sem ninguém por perto. Phat parou na frente dele e
só então viu que, embora não estivesse tão mal quanto
naquele dia, ele não estava em condições normais. O corpo
estava coberto de poeira, o rosto bonito estava sujo, mas com
um sorriso, apesar dos lábios estarem inchados e arroxeados.
Havia um corte na sobrancelha com sangue escorrendo. A
mão que acariciava o pelo macio se levantou para
cumprimentar, revelando escoriações.
Miau.
— Quem fez isso?
— Quem mais seria? Foram aqueles cobradores de
dívidas de novo...
— ...
— Mas desta vez eu venci. Três contra um, mas eles
fugiram em um estado deplorável.
— Suspiro. Você está bem?
— Estou bem.
Sem precisar de ajuda para se apoiar, Kay conseguiu se
levantar sozinho, embora com um pouco de dificuldade. A bola
de pelos branca se esfregou em suas pernas por um momento
antes de voltar a dormir na caixa como antes.
Phat quase se esqueceu de que tinha saído à procura de
Kay, além da preocupação, por outro assunto importante que
precisava contar. Mas foi interrompido pela frase que o outro
acabara de lembrar.
— Eu ia ligar para dizer ao inspetor que a Praew enviou o
capítulo 20 da webtoon, junto com o perfil da vítima
correspondente.
— Quando a Praew entrou em contato com você?
— Recebi a mensagem às oito da noite. Já faz quase uma
hora.
Não havia resposta nem de Praew nem de Prim. Depois de
uma grande briga, sua irmã escolhera evitá-lo indo dormir no
alojamento da amiga. Phat começou a ficar inquieto. A
ansiedade corroía sua mente, pensando em várias coisas,
imaginando que Praew pudesse estar agindo impulsivamente
de forma inadequada.
— Nop, me ajude. A Praew desapareceu.
— Vou verificar o mais rápido possível, senhor.
O rastreamento do sinal do telefone levaria um tempo e
ele não podia desperdiçar nenhum minuto. O último recurso
eram as pistas que Praew deixara, as informações que ela
anexara junto com o capítulo 20 de Nekros.
— Deixe-me ver os dados da vítima.
O arquivo do e-mail aberto na tela exibia o nome de Hia
Piao, um homem influente de uma província vizinha à capital,
o maior agenciador de mão de obra estrangeira do país, em
quem ninguém ousava tocar.
— Cerca de 30 minutos daqui.
— Es... espera, senhor inspetor. Eu vou junto.
— Você ainda está ferido.
— Eu estou bem. Por favor, deixe-me ir junto.
Phat assentiu antes que ambos, sem perder tempo,
partissem seguindo o mapa em direção à casa de Hia Piao, o
destino que funcionava como empresa. A velocidade acima do
limite passou por todas as câmeras de fiscalização; por sorte, a
estrada estava mais vazia e o sinal verde colaborava em todo o
trajeto. Phat estava tão angustiado que perdia a concentração.
Seu pé não saía do acelerador mesmo quando o sinal à frente
ficou vermelho brilhante.
— Senhor inspetor, sinal vermelho!
Eeeek!
O carro estancou no meio da pista por causa do aviso da
pessoa que o acompanhava. Por sorte, não havia carros vindo
de nenhum lado, caso contrário, em vez de chegarem ao
destino, ambos poderiam ter ido visitar o além.
— O senhor está bem?
— Estou.
— ...
— Se eu não tivesse falado com a Praew daquele jeito, ela
não teria ido para outro lugar.
— Eu também não deveria ter deixado a Praew ir visitar o
Kim.
— É verdade.
— ...
— Ele morreu.
— O quê?
— Aquele assassino... ele se matou na prisão.
Ele olhou para os olhos que refletiam confusão. O celular
abriu a conversa com Nop, mostrando as fotos da cela e do
corpo de Kim. Kay passou a mão pelo cabelo que caía sobre o
rosto. Ele encostou a cabeça no banco do carro, sem desviar o
olhar das imagens que via.
— Ainda não acabou...
— Sim... ainda não acabou.
O sinal mudou de cor ao mesmo tempo em que o motor
arrancou novamente. Desta vez, ele avançou com uma
consciência e um instinto mais firmes do que nunca,
acreditando que nada seria tarde demais ao parar diante da
placa da empresa de agenciamento de mão de obra que ainda
estava com as luzes acesas mesmo sendo tarde da noite.
Nesse meio tempo, as coordenadas do telefone de Praew
foram enviadas, indicando exatamente o mesmo local à frente.
Phat solicitou reforços enquanto ele e Kay se aproximavam.
— Espere pelo Nop aqui. Eu já volto.
— Sim.
Na parte da frente havia alguns carros estacionados, mas
o ambiente estava estranhamente calmo. Phat escolheu entrar
pelos fundos enquanto Kay observava, aguardando os reforços
que chegariam em breve. Ele segurou firme o revólver em sua
mão, caminhando lentamente em direção à porta traseira que
estava aberta. Suas sobrancelhas se franziram; tudo parecia
suspeito, somado a um som que parecia algo batendo na
parede vindo de trás da porta.
— Ei!
Plaque!!
Um corpo grande em mau estado saltou do chão para
agarrar sua perna. Phat se soltou, golpeando a nuca do
homem com a coronha da arma e desferindo um chute no
rosto até que ele ficasse imóvel. Um grande molho de chaves
preso à calça bateu no chão de cimento polido. Ele o pegou
antes de correr em direção ao som que ficava cada vez mais
alto.
Embora se perguntasse por que o outro homem já estava
caído sem forças antes, o objetivo de Phat era encontrar sua
irmã. As coordenadas do telefone alertavam que o aparelho
estava atrás da grande porta trancada com correntes.
Quanto mais pressa tinha, mais devagar parecia ser. As
dezenas de chaves se misturavam em suas mãos trêmulas. Ele
se concentrou, dizendo a si mesmo para manter a calma, até
que o cadeado foi destravado. Naquele momento, a porta
pesada foi empurrada...
— Praew!!
— Snif... irmão...
Seus olhos ardentes se arregalaram. A imagem à frente
era como se alguém o tivesse empurrado em um abismo
profundo. Praew estava encolhida no canto da sala, com o
rosto banhado em lágrimas, soluçando como se fosse perder o
fôlego. Em seu colo estava o corpo de Prim, imóvel, sendo
abraçada contra o peito. As roupas estavam desalinhadas e o
corpo tinha marcas de hematomas.
Phat tirou seu casaco e cobriu o corpo de Prim, antes de
abraçar a irmã, que tinha o olhar aterrorizado e o corpo
tremendo, sem perguntar nada. A dor era transmitida a ele de
tal forma que ele mesmo não conseguiu mais conter as
lágrimas.
Enquanto isso, Kay não esperou muito até que a equipe
de investigação chegasse com um grupo de reforço preparado
com armas para a situação.
— O inspetor já está lá dentro.
O Capitão Nop assentiu, liderando a equipe e dividindo os
homens entre a frente e os fundos, enquanto Kay os seguia
cautelosamente. A porta de vidro com película escura, que
impedia a visão do interior, foi sendo aberta lentamente
enquanto os policiais entravam, mas não houve qualquer
resposta, apesar de todas as luzes estarem acesas.
— Não tem ninguém, Capitão.
— Como não tem ninguém? Espera aí.
— Aquilo é...
Atrás das divisórias das mesas, o chão estava coberto por
dezenas de pessoas caídas. Os rostos estavam retorcidos, com
saliva escorrendo pelos lábios e os olhos arregalados em uma
expressão de agonia. Alguns tinham tentado se arrastar para
encostar na parede, mas todos tiveram o mesmo fim: restavam
apenas corpos sem vida...
— Ei!
Um dos membros da equipe colocou os dedos sob o nariz
de alguns dos corpos caídos antes de se virar para responder à
dúvida geral.
— Ninguém mais está respirando.
— O que diabos aconteceu aqui?
O som da sirene ecoava por toda a área do prédio
comercial no centro da província de uma figura influente como
o Velho Piao. Dentro da empresa de recrutamento de
trabalhadores estrangeiros, o local estava repleto de corpos
sem vida dos funcionários. Pela porta secreta nos fundos,
crianças e mulheres estrangeiras recebiam ajuda de agências
governamentais que mobilizaram pessoal para cumprir seus
deveres.
Phat enviou Praew e Prim para a ambulância. Sua única
irmã já estava bem mais consciente, embora o medo ainda
permanecesse em seus olhos. Ele as confiou aos cuidados dos
enfermeiros antes de retornar para ouvir o relatório das
autoridades envolvidas.
— Inicialmente, o médico legista presumiu que a causa da
morte tenha sido envenenamento por cianeto. Acredita-se que
foi colocado na comida fast-food, causando um total de 11
mortes — informou o oficial.
— ...
— No porão da casa, encontramos 18 vítimas estrangeiras
presas. Estão debilitadas pela falta de água e comida, mas
ninguém está ferido. Agora estão sob os cuidados das
autoridades.
— ...
— Quanto ao Velho Piao, o dono da casa, não o
encontramos. Suspeitamos que ele já tenha fugido.
— Já verificaram as câmeras de segurança?
— O senhor Kay disse que, no momento em que o inspetor
entrou, houve um carro saindo pelos fundos. Estou pedindo
aos oficiais para buscarem pistas nas câmeras de segurança.
— Podem emitir o mandado de prisão por cárcere privado
imediatamente. Assim que acharem o paradeiro, prendam ele.
— Sim, inspetor.
Nop se afastou para cumprir sua tarefa. Kay seguiu o
inspetor de volta ao carro, onde uma atmosfera pesada se
instalou. Com os olhos vermelhos por ter chorado há pouco,
Kay viu Prim e Praew por um breve instante antes da
ambulância partir e não pôde deixar de se culpar por ter
permitido que Praew fosse encontrar Kim.
— Eu acho que isso é obra do Nekros. E, se for verdade,
teremos apenas três dias, como as outras vítimas.
— Não se preocupe.
— ...
— Agora aquele desgraçado está com um mandado de
prisão. A polícia de todo o país está caçando ele.
O quarto de recuperação do hospital estava com as luzes
baixas, permitindo ver o rosto de Praew, que ainda estava
desacordada na cama. O soro estava conectado à sua mão
estendida ao lado do corpo, e o som de sua respiração seguia
um ritmo constante há horas. O médico responsável informou
que Praew tinha ferimentos leves de agressão, mas o trauma
psicológico por ter passado por eventos tão terríveis faria com
que ela precisasse de um tempo para se recuperar.
Kay e o inspetor ocupavam lados opostos da sala. O som
da televisão, quase no mudo, não incomodava a paciente e
permitia que tivessem tempo para pensar sem muita pressão.
No caminho para o hospital, várias suposições foram feitas
para aquele que também aceitava que o Nekros estava
começando a lidar com a quinta vítima.
— Mais uma falha neste caso é: como a polícia deixou um
assassino como o senhor Kim se suicidar na prisão?!
— Pois é — concordou a outra voz na TV.
Na tela, passavam imagens do inspetor responsável pelo
caso durante a coletiva de imprensa, alternando com fotos da
cela, que estavam tão borradas que mal dava para distinguir.
— Telespectadores, além disso, há informações
interessantes do senhor Than, um influenciador famoso,
sobre a ligação entre as vítimas do Nekros e o caso Thai
Investment.
— ... Além do mais, o inspetor Phat, responsável pelo caso
Nekros, é filho do capitão Papaphat, o encarregado do caso
Thai Investment que sofreu um acidente e morreu junto com o
esposo enquanto investigava o caso.
As notícias do caso Thai Investment de 20 anos atrás
mostraram o rosto do inspetor responsável. Ele pegou o
controle remoto que estava por perto e desligou ao ver como
aquele olhar que assistia estava cheio de dor.
— ...
— O caso da instituição financeira Thai Investment que
meu pai fez é o ponto de conexão das quatro vítimas, incluindo
o Velho Piao, que contratou o assassinato do promotor deste
caso também.
— As quatro primeiras vítimas foram as informações que
o Asura me enviou.
— Eu suspeito que o Asura deve estar realmente usando
suas mãos.
— Eu tentei contato, mas ele...
Toc, toc.
O som da batida na porta interrompeu a conversa antes
que ela fosse aberta por um homem de meia-idade com roupas
elegantes. Sua postura ereta impunha respeito, mesmo fora do
horário de trabalho.
— Tio.
— Como está a Praew, Phat?
— Ela está bem... acabou de pegar no sono para
descansar.
— E aquele Velho Piao, o que dizem?
Ele retribuiu o cumprimento antes de voltar a atenção
para o sobrinho que se levantou para recebê-lo. Kay saiu do
quarto em silêncio, deixando que a família passasse um tempo
junta.
As moedas caíram na máquina automática conforme o
preço estabelecido. Pouco depois, a lata de refrigerante
desceu. O som do gás comprimido escapou, e a borda de
alumínio tocou os lábios antes que o gelado passasse pela
garganta, saciando a sede com uma bebida que despertava os
sentidos.
O tio do inspetor tinha um cargo alto na Polícia
Metropolitana. Kay se lembrava do rosto sorridente dele no dia
da coletiva de imprensa, tanto quanto lembrava de como,
naquele dia, após o inspetor ter sido separado de Than, esse
parente mais velho ficou furioso.
A cadeira na área comum do jardim suspenso, perto da
porta do elevador, era um bom lugar para descansar em uma
noite difícil de descrever. Nos últimos dois dias, muitos
desentendimentos ocorreram entre ele e o inspetor. Não houve
tempo para se entenderem, pois novos problemas surgiam a
todo instante.
— Ai...
Por descuido com seu ferimento recente, a borda da lata
bateu com muita força, causando um ardor que fez seus dedos
finos massagearem o local suavemente na esperança de aliviar
a dor.
O estado dos cobradores de dívidas que fugiram era o
único orgulho de Kay. O que ele aprendeu teve utilidade agora.
Toda a força que tinha foi usada para lidar com aqueles três
até que caíssem. Ele nunca machucou ninguém, nem mesmo
um inseto se pudesse evitar, mas sua paciência chegou ao
limite. Somado ao que tinha acabado de aprender com o
inspetor, foi o impulso para que, desta vez, ele escolhesse
enfrentar a situação.
— Ufa...
— Já vai voltar?
— Hmm... vim só para dizer para eu descansar mais um
pouco, embora o inquérito disciplinar tenha terminado e eu
possa voltar ao trabalho normalmente.
— E o que o senhor inspetor vai fazer agora?
— Parece que ele não quer que eu continue neste caso.
— ...
— Sinto como se estivesse sendo excluído, de alguma
forma.
A noite no quarto de recuperação passou devagar. Ele
aproveitou o tempo em que os dois irmãos dormiam para ler o
capítulo 20 do quadrinho que Praew tinha encaminhado do
e-mail original. Kay decidiu entrar em contato com o dono do
e-mail real, caso houvesse outros capítulos desaparecidos do
Nekros.
Ele vasculhou todo o quarto, o computador, todos os
dispositivos de memória e até voltou a tentar adivinhar a
senha do blog até ser bloqueado por exceder o limite de
tentativas. Não restava mais nada do Nekros. Os vestígios de
suas ações deixaram apenas cinzas que ele ainda não tinha
terminado de limpar do banheiro.
Kay estava cansado de como tinha esquecido aquelas
histórias a ponto de parecer que nunca as tinha visto, apesar
de terem surgido de seus próprios traços. Esse esquecimento
irritante o fez passar a mão pelo cabelo até se dar conta, antes
de voltar a focar nas informações da quinta vítima.

A ponta da agulha pressionou a pele até o fim, injetando o


líquido no corpo para que o dono não sentisse a dor da tortura.
Duas mãos implorando pela vida arrancaram um belo sorriso
daquele rosto. Após ganhar tempo brincando, a lâmina afiada
começou a cortar a pele enrugada pouco a pouco. O efeito do
remédio provavelmente tirava a dor física, mas o pavor de ver a
própria pele sendo retalhada até o sangue escorrer fez com que
um líquido âmbar saísse do corpo da vítima, manchando a
calça em um círculo largo.
Ele riu satisfeito ao ver o quão deplorável o outro estava.
Os gritos eram como um excelente catalisador que estimulava
a adrenalina a ponto de ele não conseguir evitar pegar o
martelo. Segurou com firmeza e sentenciou a quinta vítima.
O homem influente que escapou do caso de contratação
de assassinato agora se tornava, ele próprio, o assassinado...

Ele acordou com o celular ainda na mão. As pálpebras se


fecharam bem para proteger os olhos que não queriam encarar
a claridade por um momento, até que ele se moveu para
escapar da luz. O brilho escapava pelas cortinas do quarto de
recuperação do hospital. Kay se sentou depois de não saber
quando ou por quanto tempo tinha adormecido.
— Acordou?
— Senhor inspetor... a Praew já acordou?
— Ainda não, mas o médico já veio examinar. Fisicamente
não há nada errado. Em um ou dois dias, ela deve acordar.
— ...
— Mas o que preocupa é o estado psicológico. O médico
prevê que, ao acordar, ela possa ter sintomas de um estado de
dissociação.
— Estado de dissociação?
— Um mecanismo de defesa da mente. Pode fazer com
que a Praew não se lembre de alguns momentos do ocorrido.
Phat falava enquanto arrumava o cabelo bagunçado de
sua única irmã, antes que o tempo privado naquela manhã
fosse interrompido por alguém indesejado.
Toc, toc.
O som da batida na porta veio acompanhado da abertura
da mesma. Kay se ajeitou na cadeira, temendo que fosse
algum superior vindo visitar, mas quem cruzou a porta foi
alguém que fez Phat fechar a cara sem esconder o incômodo.
— Er... eu vim visitar a Praew.
Than colocou a cesta de frutas que Phat se recusou a
aceitar em uma mesa no canto do quarto. Ele esfregou as
mãos na calça social, os olhos percorrendo o quarto antes de
pararem no único irmão daquela que ainda não tinha
despertado de seu sono.
— Eu fui visitar a Prim e passei para ver a Praew... sinto
muito pelo que aconteceu. A irmã do inspetor tem talento,
mas...
— Foi por sua causa que a cabeça da minha irmã ficou
confusa até acontecer isso.
— Eu nunca ordenei que ninguém fizesse algo assim.
— Saia daqui.
— A Prim e a Praew queriam saber por conta própria.
Dizem que a luz viaja mais rápido que o som, mas Kay
poderia jurar que, naquele momento, ele foi mais rápido que a
luz. No mesmo instante em que Phat soltou a voz e avançou
em direção a Than, Kay se colocou no meio, impedindo que o
outro atacasse quem ainda agia com indiferença.
— Senhor inspetor, acalme-se.
— Não tem problema, senhor Kay.
— ...
— Eu entendo bem o sentimento de um irmão que não
teve capacidade de proteger a irmã.
Kay virou o corpo e abraçou com os dois braços aquele
que tinha deixado as emoções perderem o controle. Com um
olhar suplicante, pediu que Than saísse do quarto antes que a
cena se repetisse. O pivô do problema, com um sorriso no
rosto, ainda se despediu desejando melhoras para Praew, o
que fez Phat explodir ainda mais. Demorou até que o chefe de
Praew saísse do quarto e Kay conseguisse acalmar Phat,
coincidindo com o momento em que o médico entrou para a
rodada de exames do dia.
Kay e o inspetor se retiraram para se acalmar no mesmo
jardim suspenso. O sol da manhã brilhava e uma brisa leve
soprava, o que deveria ser revigorante. No entanto, aquele que
caminhava à frente não conseguia apagar o fogo em seu
coração até que o extravasou com um soco na parede de
concreto.
Tum!
— Ei! Senhor inspetor, acalme-se primeiro.
O segundo soco não foi contido pelo pedido. Kay se
aproximou e o puxou para longe da parede, tomando a
liberdade de segurar as mãos que estavam cerradas com força.
— Se machucar não vai ajudar em nada.
— ...
— Agindo assim, o senhor só vai ficar pior.
Os punhos foram relaxando conforme a emoção esfriava,
e Kay continuou acariciando aquelas mãos, esperando que a
vermelhidão nos nós dos dedos sumisse.
O inspetor, naquele momento, devia ter tantas coisas na
cabeça que não sabia por qual começar a lidar. A firmeza que
seus olhos tinham no primeiro dia agora era apenas cansaço.
Seu corpo, exausto pelo uso implacável, estava desmoronando
lentamente sem que ele percebesse.
— Snif...
— ...
— Droga...
A altura dele era perfeita para que sua cabeça
descansasse no ombro de Kay. Ele ficou parado, deixando que
as lágrimas molhassem a camisa até que Kay pudesse
senti-las na pele. Não interrompeu o momento difícil de
alguém que precisava ser mais forte do que todos.
— Se eu tivesse acreditado no que você disse... nada disso
teria acontecido.
— ...
— A Praew não estaria assim.
Kay sabia bem que, mesmo que encontrasse um milhão
de palavras de conforto, aquela ferida não fecharia. Pelo
contrário, a culpa se tornaria uma cicatriz que, toda vez que
fosse vista, o faria se culpar novamente. Mesmo sabendo que o
que diria não curaria o outro, ele ainda queria ajudar a aliviar
a dor. Pelo menos para que não doesse tanto ao lembrar...
— O senhor inspetor fez o seu melhor.
— ...
— Fez o melhor que podia fazer...
Praew acordou como o médico previu. Com um jeito
sonolento, levou um tempo para recuperar totalmente a
consciência. As feridas físicas tinham diminuído a ponto de
quase não serem vistas, mas a mente ainda precisaria de
muito tempo de tratamento. Ela sentou-se para comer a
comida líquida, parecendo um gato gordo embaixo de um
condomínio. Embora o rosto estivesse amarrado, pronta para
cuspir tudo a qualquer momento, ela se forçava a engolir
porque, se não comesse mais da metade da tigela, não teria
permissão do irmão para visitar a amiga que ainda estava
inconsciente na UTI.
O corpo frágil segurava as próprias mãos com força no
colo durante o trajeto até o quarto que ficava no prédio
vizinho. Praew estava em uma cadeira de rodas que Kay se
ofereceu para empurrar, enquanto Phat contatava os
funcionários para pedir permissão para a visita.
— Só do lado de fora. A Prim ainda não acordou.
— Irmão...
A única irmã estendeu a mão para o irmão segurar, antes
de pararem no corredor de onde se via claramente através do
vidro do quarto. Praew soltou a mão e a levou à boca para
abafar os soluços que começaram a aumentar ao ver o estado
da amiga. Prim estava imóvel na cama, conectada a um
respirador. As lembranças da amiga sendo agredida voltaram
para torturá-la, sem que ela pudesse escapar da culpa de ser o
motivo de a outra estar naquela situação.
Phat abraçou a irmã que chorava compulsivamente. O
ambiente estava sombrio como se uma névoa o cobrisse,
tornando quase impossível respirar. A tristeza dos dois irmãos
refletia nos olhos de Kay. Aquilo reforçava, repetidamente, que
ele deveria fazer algo para acabar com o demônio que ele
mesmo tinha criado.

Phat recebeu uma ligação de Nop, que relatou


secretamente uma pista importante e a localização mais
recente do Velho Piao, que tinha sido visto por um cidadão
indo em direção ao interior. Embora a distância da casa não
fosse tão grande, o caminho era tortuoso e misterioso, fazendo
com que uma viagem de apenas 10 quilômetros durasse quase
uma hora.
Uma casa abandonada erguia-se solitária no meio da
grande floresta. A estrada de terra estava cheia de árvores
caídas bloqueando o caminho, dificultando o tráfego. A van da
equipe de investigação e o carro de Phat estacionaram lado a
lado ao chegarem ao destino, o que fez com que ele e Kay
ficassem paralisados. O lugar era idêntico ao do capítulo 20, a
casa de uma família que foi morta pela máfia para silenciar
testemunhas.
A pista que Nop deu indicava claramente que,
antigamente, aquela casa pertencia à família de um promotor
que teve problemas com o Velho Piao, o que resultou em uma
tragédia. No entanto, com o poder da influência corrupta,
aquele resto de ser humano escapou das acusações e se
mudou para o exterior para viver em paz, esperando o dia em
que a notícia esfriasse para poder voltar.
Os policiais, com armas em punho, avançaram para
dentro da casa que não tinha sinais de vida. O interior estava
silencioso, com apenas o som dos pés pisando em folhas secas
enquanto todos cercavam a casa pela frente e por trás. A porta
de madeira velha e sem trancas foi aberta facilmente com um
empurrão do pé, antes que a imagem dentro da casa em
ruínas surgisse diante dos olhos de todos.
O cheiro de sangue era tão forte que tiveram que cobrir o
nariz. Insetos voavam ao redor do corpo que foi colocado
sentado em uma cadeira de balanço aterrorizante. A cabeça
estava caída sobre o peito, os dois braços apoiados nos braços
da cadeira. No braço, aparecia o símbolo de uma estrela de
cinco pontas invertida. Os pés balançavam no descanso da
cadeira conforme o peso do corpo, lembrando alguém que
ainda estivesse vivo.
O contexto ao redor fazia parecer que estavam no meio de
uma exposição de arte da morte de Nekros. Era como se ele
estivesse declarando a devolução da justiça através da
perversidade. Phat ficou estático, baixando a arma. Alguns
policiais não aguentaram e correram para fora. Ele olhou para
Kay, que desviou o rosto para não ver o estado do cadáver.
Nekros ainda não tinha terminado...
E Kim foi apenas o ponto de transição de uma história que
poderia se tornar algo muito maior.
— Eu já avisei à delegacia local. Outra equipe está vindo.
— Hmm, obrigado, Nop.
Ele estava na posição de ex-responsável pelo caso Nekros,
que foi encerrado quando o assassino se matou na prisão. As
pistas que não levavam a mais nada e o conteúdo que Kay
enviou em seu e-mail tinham apenas quatro vítimas. Isso
deveria ser a garantia de que o assassino em série tinha
parado por ali.
Mas, após a morte de Kim, parecia que tudo estava
recomeçando, e um recomeço que não esperaria que
autoridades como eles conseguissem acompanhar.
— O que o inspetor Phat faz na cena do crime?
— Inspetor Kitti?
— Ou ainda não sabe que o senhor Chaiwat me deu a
responsabilidade por este caso no seu lugar?
O corpo alto e esguio do homem mais velho estava de
braços cruzados, olhando com um olhar de desagrado. Ele
sabia que estava afastado, mas não achava que um caso tão
importante seria tirado de suas mãos, logo ele que o conhecia
melhor.
O nome de quem tinha mais poder foi usado como
argumento pelo inspetor próximo que seguia seu tio há
tempos. Phat cerrou os punhos, reprimindo a raiva no fundo
de sua alma. O rosto fino virou-se para os três ex-membros da
equipe antes de assentir para que continuassem cumprindo
seu dever, aliviando o constrangimento de terem que mudar
de chefe temporariamente.
— Se o inspetor tem algo a dizer para se despedir dos
subordinados, sinta-se à vontade. Mas peço que não demore
muito, senão meu trabalho não vai andar.
A linguagem corporal desagradável se manifestou junto
com a demonstração de poder desde o início. Ordens eram
gritadas, e a ponta do dedo apressava os peritos para que
trabalhassem rápido, sendo que o carro tinha estacionado há
menos de 10 segundos.
— Se eu tiver alguma pista...
— Muito obrigado, mas não se dê ao trabalho.
— Como?
— Vá trabalhar, eu também já estou indo embora.
Os membros restantes se separaram para cumprir suas
funções. Dentro da casa, restaram apenas ele e Kay, que
exploravam o local em silêncio, tanto que o novo chefe da
equipe provavelmente nem percebeu a presença deles.
— Senhor inspetor.
— O que foi?
— Aqui...
25.
O sangue vermelho escuro foi usado para desenhar o
número 25 atrás da cadeira de balanço, bem na frente de
todos, o que não era um esconderijo de pista como nos casos
anteriores.
— Eu acho que precisamos voltar rápido para procurar o
capítulo 25 no grupo. Pode ser que alguém tenha.
— Deixe a nova equipe cuidar disso. Eu vou avisá-los.
— Avisar o quê?
— Sobre o capítulo 25.
— ...
— O inspetor Kitti pode ter um método de investigação
melhor.
— Por que? O senhor vai desistir assim tão fácil?
— Eu acho melhor não nos envolvermos mais neste caso
se ele não pediu.
Ele caminhou para fora da cena do crime, deixando que a
equipe sob os cuidados do inspetor Kitti continuasse o caso de
assassinato em série de Nekros que ele não conseguiu
encerrar com sucesso. O clima no carro era tenso, com um
silêncio sufocante que dava vontade de explodir.
Phat entendia que Kay estava insatisfeito com suas
palavras, mas a responsabilidade de seguir as ordens
recebidas tinha fechado as portas para que ele se envolvesse.
Como policial, Phat não podia desafiar o comando, e, se fizesse
isso, tudo se tornaria ainda mais confuso.
— Por que o senhor está fazendo isso?
— Porque não é mais o meu dever.
— Não. O senhor também está me excluindo, não é?
— ...
— O senhor... ainda acha que eu estou envolvido com o
assassino, certo?
Phat deixou o silêncio ser a resposta antes do carro parar
na entrada do beco da comunidade onde ele pediu para ser
deixado. Kay fechou a porta do carro e caminhou de costas em
direção a casa, enquanto o carro partia sem dar nenhuma
resposta.
Em meio ao silêncio do entardecer, a luz alaranjada da
tarde brilhava através dos becos, refletindo no chão de
cimento e no canal de águas paradas. Seus pés caminharam
pelas ruelas que costumava usar, passando por casas velhas e
precárias que ainda tinham moradores. Kay parou na frente
de casa. Os sapatos da tia Sri estavam ao lado da porta porque
ainda não era hora de ela terminar o serviço.
Ele se sentou no banco de mármore em frente à casa,
mexendo no celular enquanto esperava o horário em que sua
cuidadora terminaria suas tarefas. A página principal do
aplicativo estava cheia de notícias sobre a descoberta do corpo
do Velho Piao. A sociedade especulava de várias formas se era
obra do Nekros. Mesmo que o assassino estivesse morto, seu
espírito ainda parecia transmitir seu legado, exaltando o
monstro em forma humana como se fosse um herói. A
coragem era louvada em meio à satisfação da massa, que já
tinha sido vítima da exploração de quem tinha poder. Mas, por
outro lado, havia o medo de que essa coragem louvada se
tornasse uma sombra que dominasse e incitasse a raiva até
tornar o poder da lei sem sentido.
Rrrr...
O som do telefone atraiu sua atenção. Um pop-up
mostrava uma notificação do fã misterioso que ele tentava
contatar há dias. Seus dedos finos deslizaram pela tela para
entrar no e-mail da pessoa misteriosa que enviou o capítulo 20
para Praew.
O conteúdo do e-mail alegava que a pessoa tinha todos os
capítulos do quadrinho do Nekros que ele estava procurando,
e oferecia o convite para encontrá-lo em um restaurante no
centro da cidade antes que o tempo começasse a contar.
Embora hesitasse sobre o quanto podia acreditar na
mensagem de um desconhecido, era o único caminho para
responder a todas as dúvidas sobre as vítimas do caso de
assassinato em série de Nekros que estava acontecendo na
vida real.
Ele não demorou muito para ir de casa ao restaurante,
mas demorou muito para decidir se deveria saber ou se
deveria desistir e voltar a viver como antes, já que as perdas de
todos os casos do Nekros não tinham acontecido com ele. No
entanto, no fundo, Kay sabia que não podia abandonar aquilo.
Não podia abandonar algo que ele ajudou a criar.
O restaurante e bar estava escondido no segundo andar
de um prédio antigo em uma área popular. O som de música
clássica ecoava sob a luz laranja suave que criava um clima
intrigante. Seus olhos procuravam pela pessoa que deixou a
localização no e-mail, até que pararam na mesa mais ao
fundo.
Alguém estava sentado de costas para a porta. No canto
sombreado, havia apenas a luz de uma luminária sobre a
mesa e da tela do celular que mostrava a notícia da quinta
vítima do Nekros. Ele caminhou lentamente em direção à
pessoa cuja atenção estava toda voltada para a imagem à sua
frente.
Kay parou atrás dela antes de decidir falar com a voz
começando a tremer...
— Olá.
— ...
— Foi o senhor que enviou o e-mail?
As costas que antes estavam curvadas foram se erguendo
lentamente. O rosto que olhava para o celular levantou-se
devagar antes de se virar para encarar o dono da voz que
esperava atrás.
Os olhos negros se arregalaram. O corpo alto paralisou e
um calafrio percorreu todo o seu ser. A respiração ficou presa
como se ele tivesse esquecido como respirar por um momento,
porque a pessoa que estava ali diante dele, como o fã que
possuía todos os Nekros, não era outro senão...
— Senhor Than?
7
O clima estava mais relaxado do que deveria. Kay
escondia o susto enquanto se sentava à frente de Than, um
influenciador famoso que vinha cobrindo as notícias de Nekros
durante toda a onda de assassinatos em série. Ele começou a
entender que, enquanto outros meios de comunicação
acreditavam que o caso havia sido resolvido, o canal de Than
não desistia porque ele sabia que as vítimas de Nekros ainda
não tinham acabado.
Com o rosto cheio de sorrisos e olhos brilhantes, Than
observava cada movimento de Kay. Não que Kay nunca tivesse
visto aquele olhar antes; era o olhar de adoração fanática que
recebia nos dias de autógrafos como o autor [Link], um
escritor de romances, e não como Mr. Kill, o autor que criou
um monstro cruel.
— Eu sabia que você viria. Esperei muito por este dia.
— ...
— Sou seu fã, Mr. Kill.
— Você tem todos os capítulos de Nekros, não tem, Than?
Por não querer presenciar aquela atitude de adoração
perturbadora, Kay foi direto ao ponto que o trouxera ali. O
brilho nos olhos de Than vacilou, como se o sonho que ele
acalentava há tanto tempo tivesse sido interrompido por uma
demonstração clara de que a outra pessoa não queria saber o
quanto era idolatrada.
— Vim porque você disse no e-mail que tinha o Nekros.
— ... Sim. Se eu procurar no computador ou no HD, talvez
encontre.
— ...
— Eu gosto muito de Nekros. Li todos os capítulos, cada
um dezenas de vezes.
— Você os trouxe?
— Se você aceitar que eu te entreviste.
Kay já sabia que não conseguiria aquilo de graça, mas
aparecer diante da mídia era a última coisa que pretendia
fazer.
— Eu sei que estou pedindo demais... porque, se você
quisesse revelar sua identidade, teria aceitado a entrevista
quando a Praew pediu.
— Sim.
A voz de Than saiu lenta e calculada. Seus olhos astutos
observavam o rosto de Kay, às vezes desviando como se
estivesse maquinando uma forma de conseguir a entrevista.
— Hmm... então onde você conseguiria encontrar todo o
conteúdo de Nekros?
— ...
— Com o Asura?
Aquele nome era guardado em segredo. Kay juraria que,
naquela noite no condomínio, além dos dois irmãos
Traikanawut, ele nunca havia revelado a ninguém a existência
daquele e-mail problemático — a origem de toda a ruína que o
inspetor suspeitava ser uma tentativa de usar Mr. Kill para
trazer o monstro à vida real.
— A Praew me contou.
— Se você não pretendia me dar desde o começo...
— Você sabia, Kay, que Asura em japonês, em algumas
crenças, significa um gigante?
— ...
— Y A K.
— ...
— K A Y.
— Acho que você está entendendo errado. Com licença,
por hoje é só...
— É como um reflexo no espelho, você não acha?
Ele estava sendo provocado psicologicamente, mas não
conseguia conter a sensação de sufocamento. Kay tentava não
demonstrar abalo diante daquele rosto sorridente. Suas mãos,
ao lado do corpo, estavam cerradas enquanto ele se forçava a
respirar devagar para não perder o controle. Suposições
aleatórias e teorias de conspiração que qualquer um poderia
inventar eram apenas coincidências. Ele não conhecia o
Asura, e aquilo não era o reflexo de nada em sua
personalidade.
— Talvez o Asura conheça sua identidade melhor do que
você mesmo se conhece.
— ...
— E então... quer os capítulos restantes?
Vozes ecoavam confusas em sua mente. Ele apertou os
lábios, reprimindo a onda de pânico que ameaçava explodir.
Kay desviou o olhar — um olhar que parecia saber de algo, que
demonstrava superioridade e o incitava a perder a cabeça.
Kay chegou ao quarto tarde da noite, com a mente
exausta por momentos tortuosos. Por mais que não quisesse
pensar no assunto, era impossível negar que tudo o que o
outro dissera continuava em um ciclo infinito em sua cabeça.
Than estava apenas fazendo conexões aleatórias, mas
essas conexões eram como lâminas afiadas perfurando seu
psicológico, despertando memórias que o faziam questionar o
que estava fazendo, o que queria e quem ele realmente era.
O passado foi remexido até que os sedimentos das
lembranças turvassem tudo, tornando quase impossível
enxergar um caminho claro. O que o assassino fazia
correspondia ao que ele escrevera; se fosse assim, significava
que ele mesmo desejava que aquilo acontecesse.
Era algo que ele queria o tempo todo?
O homem alto estava sentado na beira da cama, com o
rosto entre as mãos, encarando o chão. Pensamentos
delirantes buscavam respostas que só pareciam alimentar o
monstro dentro dele, acelerando a reação para derrotar sua
consciência já desgastada.
Rrrr...
Uma notificação de e-mail de quem ajudara a despertar
tudo aquilo apareceu na tela. Ele ficou olhando por um longo
tempo antes de abrir os mais de 30 arquivos enviados.
Informações que ele teve que trocar por algo...
— Eu sempre cumpro minhas promessas.

O escritório temporário não tinha nada de muito


importante. Ele trouxera apenas a si mesmo e uma pilha de
documentos gerados enquanto usava aquela sala como base
para o caso dos assassinatos em série de Nekros. No dia em
que teve que sair por causa da ordem superior, uma caixa de
papelão tamanho A4 foi o suficiente para a mudança.
A equipe de investigação sob sua supervisão, composta
por Nop, Din e Singh, ainda teria que trabalhar com o novo
chefe que assumiria o caso. Phatra não pretendia questionar o
motivo, pois já sabia que sua saída se devia ao fracasso na
investigação; ele não conseguira salvar nenhuma vítima. O
único suspeito com pistas, Kim, acabou cometendo suicídio, e
agora Nekros ressurgia com o mesmo espírito para continuar a
missão assassina pendente.
— Nop.
— Sim, Inspetor.
— O número do próximo capítulo é 25.
Nop assentiu, mostrando que entendera o recado. Phatra
conversava com os demais membros sobre pistas que
poderiam facilitar a identificação da sexta vítima, quando foi
interrompido pelo novo chefe, que entrou na sala sem pedir
licença.
— Capitão Nop, prepare-se para convocar o reforço para a
reunião.
— Sim, senhor.
— Din e Singh, reúnam as informações no projetor. Todos
os detalhes do caso a partir de agora... serão sigilosos.
— Eu só vim buscar minhas coisas.
— Sim, Inspetor Phatra. Assim que terminar...
Phatra, agora como um estranho, saiu da sala de
reuniões em direção ao estacionamento sozinho. De acordo
com o memorando, ainda não era o prazo para ele voltar ao
trabalho após o pedido de afastamento devido ao que
aconteceu com Praew. Como ela estava envolvida, ele teve
tempo livre para aceitar o convite do irmão biológico de seu
pai, que ocupava o cargo mais alto na polícia metropolitana.
Os portões da mansão luxuosa no centro do distrito
financeiro se abriram para receber o único sobrinho que
seguia os passos do tio para se livrar das suspeitas que o pai
havia criado.
— Como está a Praew, Phatra?
— Os ferimentos cicatrizaram, mas o estado psicológico
ainda precisa de tratamento.
O tio assentiu antes de levar a xícara de chá quente aos
lábios. Phatra sentou-se ereto, com o olhar fixo no homem na
cadeira de madeira entalhada, e expressou o desejo que o
levara até ali.
— Tio... eu quero continuar no caso Nekros.
— ...
— Quero encerrar este caso com minhas próprias mãos.
— Não confia no Kitti?
— ...
— Deixe o Kitti tentar uma vez... Quanto a você,
ultimamente tenho algo importante em que preciso da sua
ajuda.
Chaiwat recusou o pedido indiretamente, mudando de
assunto. Phatra queria insistir, mas percebeu que o outro não
o deixaria retomar o caso. Por isso, o tio mencionou algo
importante para desencorajá-lo de sua intenção original.
— Haverá uma reestruturação de cargos em breve...
quero que você me ajude a analisar outros casos que ainda
não foram encerrados.
— ...
— Isso é importante não só para mim, mas para você
também.
— Como assim?
— Os superiores querem me indicar para o cargo de
Comandante Geral da Polícia.
— ...
— Com boas oportunidades surgindo assim, eu preciso
estar preparado.
Phatra aceitou a situação que viria a seguir. Se Chaiwat
subisse para um cargo maior, significaria que ele teria a
chance de crescer através dos resultados que o tio lhe
proporcionaria.
Phatra era um policial íntegro, que cumpria ordens com o
melhor de sua capacidade, especialmente as ordens de seu tio,
que era seu modelo a seguir. Ele acreditava que a honestidade
e o amor de Chaiwat pela corporação fariam com que, em um
cargo mais alto, a polícia se mantivesse digna.
— Sim, tio.
— Senhor... o senhor Surak está esperando para vê-lo.
— Peça para entrar.
Phatra levantou-se e fez uma reverência ao
recém-chegado. O oficial de alto escalão da região vizinha veio
acompanhado de um assistente que Phatra não conhecia.
— Com licença, vou me retirar.
— Muito obrigado, Phatra. Quando a Praew sair do
hospital, não esqueça de me avisar.
— Sim, senhor.
Phatra saiu da sala de visitas lentamente, enquanto a
conversa atrás dele ecoava em seus ouvidos. Embora não
ouvisse tudo, conseguiu entender bem... parecia que os nomes
adequados indicados para o cargo de Comandante Geral não
incluíam apenas o de seu tio.
Kay tentou enviar uma mensagem para o inspetor, que
havia sumido por vários dias após deixá-lo em casa naquele
dia. A situação entre eles era como a de estranhos, mas ele não
conseguia abandonar Nekros. As informações que obteve
seriam inúteis se ficassem só com ele, então decidiu procurar
o outro, que talvez respondesse pelo mesmo sentimento.
O local de encontro não era longe da editora. Após o
trabalho, Kay optou por caminhar, calculando o tempo exato.
Com a mochila no ombro, ele andava devagar, pensando na
vida, mas foi interrompido por uma sensação estranha de
estar sendo vigiado. No entanto, ao olhar em volta, não viu
ninguém.
Phatra estava esperando em uma mesa na frente do
restaurante. A comida já estava pela metade, e ele segurava
uma lata de bebida alcoólica.
— Já comeu alguma coisa?
— Não estou com muita fome, Inspetor. Vamos entrar.
Kay tomou a liberdade de segurar o pulso do outro e
arrastá-lo para a mesa mais ao fundo do restaurante. O canto
isolado foi escolhido antes que ele explicasse o motivo para o
homem que ainda segurava a lata.
— Senti como se alguém estivesse me seguindo.
— Quem?
— Devem ser os cobradores de dívidas. Estar lá dentro é
mais seguro.
Mesmo sem saber se alguém realmente o seguia, para não
ser interrompido, mudar para um lugar escondido era a
decisão mais prudente.
— Consegui todos os capítulos de Nekros.
— De quem?
— Do Than.
— Hã?
— Eu fiquei tão confuso quanto você, Inspetor. Ele disse
que é fã do Mr. Kill.
O assunto sobre Than martelou em sua cabeça a noite
toda. A voz animada, as palavras de louvor, o rosto sorridente
e os olhos brilhantes o assombraram até nos sonhos.
— Lembra que você conectou as vítimas com o caso da
instituição financeira?
— Lembro. O caso da instituição financeira Thai
Investment...
O caso da Thai Investment foi uma das maiores fraudes
financeiras do país. Começou com o desvio de mais de dez
bilhões de baht por um grupo de ex-executivos. Alguns
escaparam do processo por causa de influências ocultas,
fugindo dos problemas que criaram e deixando o fardo para os
membros comuns, que perderam dinheiro sem receber nada
de volta.
As vítimas foram abandonadas. Algumas tiveram que
vender seus bens, outras declararam falência. O processo de
restituição de valores aos membros se arrastava sem prazo
definido até o presente, sem que nenhum prejudicado tivesse
sido indenizado.
— Acho que o Asura pretende escolher vítimas ligadas a
esse caso.
— Eu também penso assim.
— Vou te enviar todo o conteúdo de Nekros que consegui.
O conteúdo do capítulo 25 de Nekros falava sobre o
contador de uma empresa que participou de uma fraude que
levou várias vítimas à falência em efeito dominó.
Na parede do quarto, os desenhos que antes estavam
colados foram removidos para dar lugar a um painel cheio de
fotos de pessoas ligadas à instituição financeira e de quem ele
suspeitava ser a sexta vítima. A informação que Kay organizou
a noite toda, vista através da lente de Nekros, apontava para o
Sr. Chote, o contador da Thai Investment — o único detentor
dos segredos das rotas financeiras que ainda estava vivo
naquele painel.
Relatos em sites diziam que, além do caso de corrupção
nacional, o Sr. Chote estava envolvido em vários outros
grandes casos de fraude. E isso batia com o capítulo 25 de
Nekros.
— Eu te entendo... mas não sou mais o encarregado deste
caso.
— Inspetor, eu também te entendo... mas o fato de você
aceitar me encontrar hoje não é porque você também quer
encerrar isso por conta própria?
— ...
— Antes, eu não confiava neste sistema de justiça, mas o
que você fez me deu esperança.
— ...
— Isso me deu a certeza de que o inspetor lidaria com o
que é errado.
Seus sentimentos transbordaram diante da pessoa que
lhe dera aquela fé. Phatra era como a lenha que alimentava o
combustível chamado esperança, mas, de repente, essa lenha
se acabou enquanto o fogo dentro de Kay continuava a
queimar.
— O Inspetor Kitti é um homem do meu tio. Ele é
confiável...
— E daí que ele é confiável?!
— ...
— Por ser confiável, você vai se esconder atrás de outra
pessoa? Vai abandonar o problema assim?
— Você não está no meu lugar.
— Se o senhor continuar agindo assim, eu mesmo terei
que resolver isso.
Ele se levantou da mesa sem sequer tocar na comida.
Achou que hoje poderiam se entender e avançar com o caso,
mas parecia que não seria assim. Phatra reprimia a coragem
que tinha sob o pretexto do dever e das ordens, tornando-se
alguém que Kay não reconhecia.

As palavras de Kay ecoavam em sua mente enquanto ele


se afastava. O olhar de desespero não causava dor apenas no
outro; atingia também a Phatra, que se sentia inútil naquela
equação. Ele sabia que estava hesitando tanto que nem
parecia ele mesmo, como se estivesse sendo manipulado, mas
quem o manipulava não era ninguém além de sua própria
mente.
Phatra contou de um a dez, esperando Kay sumir de vista,
e então se levantou para ir à frente da loja, antes de encarar o
grupo de policiais à paisana que ocupara a mesa anterior.
— O Inspetor Kitti que mandou?
— Sim, ordem minha.
O próprio Kitti estava escondido em um carro ali perto e
apareceu para cumprimentá-lo após ser descoberto desde o
momento em que se sentaram no restaurante.
— Pare de seguir o Kay. Garanto que ele não tem nada a
ver com isso.
— ...
— Ele é apenas um cartunista cujo trabalho está sendo
usado pelo assassino.
— Sei.
— Se quiser saber de algo mais, vou te dar uma dica:
Nekros está encenando o caso do capítulo 25.
— Então vou te dar uma dica também, Inspetor Phatra:
aquele cartunista tem um histórico relacionado ao caso da
Thai Investment.
— Eu sei, não preciso das suas dicas, Inspetor Kitti.
O pai de Kay fora usado como bode expiatório, condenado
injustamente a pagar indenizações até ficar endividado. Por
fim, a família teve que entrar no processo de recuperação após
a falência, usando a compensação recebida para pagar dívidas
que ele não criara. O pai tentara obter justiça desde o primeiro
dia em que as vítimas se uniram para lutar, mas o processo foi
congelado por anos até que ele teve que se ajoelhar pedindo
justiça no meio de um cruzamento, mas ninguém o ajudou.
Após o incêndio devastador naquele dia, o único
sobrevivente e herdeiro legal, Kay, decidiu assumir a herança
de dívidas assim que atingiu a maioridade, na esperança de
que o dinheiro do processo de recuperação pudesse ajudar as
vítimas sob a responsabilidade de seu pai.
— Você protege esse escritor porque acha que ele é uma
vítima, porque quer apagar o erro que seu pai cometeu com a
família dele.
— ...
— Você confia demais nele.
— ...
O outro se aproximou a ponto de fazê-lo recuar.
— Mesmo que ele não tenha matado, não significa que
não seja o mandante... o fato de o assassino Kim ter se matado
na prisão logo após encontrá-lo...
— ...
— Pode ter havido alguma ordem de quem ele adora como
se fosse um deus.

O corpo nu estava encolhido no canto da banheira,


tremendo de frio. O cabelo grudava no rosto por causa da água
que caía. Com as duas mãos abraçando o próprio corpo e o
rosto encostado nos joelhos, o som do choro durava horas,
mas não conseguia abafar o barulho da água transbordando
pelo chão.
As correntes nos pés, que já deixavam marcas vermelhas,
não ajudavam a escapar das mãos do carrasco, que estava
pronto para julgar com uma ferramenta de tamanho ideal.
O martelo de ferro foi empunhado com força, mirado na
cabeça da pessoa indefesa, antes de ser golpeado
repetidamente até que a água límpida se tornasse vermelha
escura, com um cheiro metálico impregnando o ar enquanto o
corpo ficava imóvel, sem resposta.
.
.
O significado da palavra lar... qual era realmente essa
sensação? Ele parecia já ter sentido, mas a lembrança era
vaga porque haviam se passado mais de 20 anos. Um lar onde
se tinha um lugar para dormir, uma sala para ver novelas,
uma mãe que preparava o jantar todas as noites e um pai que
voltava para casa junto com ele depois da escola.
Um lar que exalava a sensação de estar protegido, cheio
de perdão, com um abraço que o acolhia nos momentos de
erro ou decepção.
— Soluço...
— ...
— Pai... eu...
Kay nunca esteve pronto para lidar com a perda, embora
tivesse passado por tanta tortura por muito tempo. Ele ainda
vivia se enganando de que um dia voltaria para casa e haveria
alguém esperando por ele.
— O senhor está sofrendo por eu... por eu te manter
assim?
— ...
A pressão como chefe de família fez com que o corpo
estático à sua frente decidisse colocar um fim em tudo, porque
tudo o que construiu desmoronou diante de seus olhos.
Estava desesperado, sem esperança, e não houve sequer uma
mão estendida para ajudá-lo.
Ele queria entender, tentava compreender o que o pai
pensou...
Tentava entender que, naquela noite, o pai fez aquilo
porque não queria deixar ninguém para trás...
— Por que o senhor fez aquilo... Por que o senhor fez
aquilo naquele dia?
Era uma pergunta que nunca teve resposta, pois a única
pessoa que poderia responder sobrevivia a cada dia conectada
a aparelhos e tubos. A pele enrugada pelo tempo parecia uma
corrente que o prendia ao passado. Nos últimos 20 anos, ele
usou cada gota de suor para manter a outra pessoa viva, sem
se importar com o desejo de quem quer que fosse. Ele
escondeu o pai, mantendo-o como um segredo do mundo que
traiu sua família, esperando com esperança que um dia ele
acordasse para perceber o que o incêndio que causou naquele
dia provocou na vida do filho que foi deixado sozinho.
— Hic... Ah...
A crise de sempre aconteceu de novo. Ele cravou as unhas
na coxa, enviando a dor através do tecido da calça até a pele.
Enfiou a mão no bolso esperando encontrar as cápsulas no
frasco de remédio, mas estava vazio. Apertou os lábios com
força para conter o soluço, fechou bem os olhos e curvou o
corpo alto, encostando o rosto no espaço vazio da cama
hospitalar, antes que as lágrimas escorressem pelo sofrimento
acumulado que se tornou insuportável.

Praew voltou para se recuperar em casa há dois dias. O


corpo não tinha hematomas ou feridas, mas o psicológico
ainda precisava de cuidados a longo prazo. Enquanto isso,
Prim estava melhor, mas continuava internada no hospital
para seguir o tratamento. Ele guardou o copo de água e
preparou o remédio pós-refeição para a pessoa que estava sem
apetite. A área comum da sala do apartamento foi organizada
como um quarto de recuperação improvisado, enquanto ele
dormia esticado no sofá para cuidar de Praew nas vezes em
que ela acordava assustada durante a noite.
— Quer comer mais alguma coisa?
— Já estou cheia, heroi.
A água escorria pela pia da cozinha, limpando a sujeira
dos utensílios. A esponja ensaboada esfregava as manchas
lentamente, enquanto seus olhos vagavam perdidos e a mente
se enchia com as lembranças daquele dia.
Phat não sabia se o inspetor Kitti já tinha desistido de
seguir Kay, mas tinha certeza de que ele não conseguiria nada
com o escritor, cujo cotidiano seguia uma rotina metódica.
Aquilo só servia para deixá-lo irritado. Os acontecimentos
daquele dia foram a gota d’água. A confusão o fazia sentir raiva
de si mesmo, da mesma forma que Kay estava com raiva dele.
Raiva por não ousar demonstrar seus desejos por medo de ser
visto como invasivo. Uma raiva que, às vezes, o fazia perder o
controle sobre si mesmo.
— Heroi.
— Hum?
— A Praew trouxe o telefone para você... Por que você está
chorando?
— Hã... Ah, não é nada. Caiu um cisco no meu olho.
Ele colocou o prato na pia, e Praew se ofereceu para
terminar o serviço. Ele limpou as mãos na barra da camisa e
deslizou a tela para atender a ligação de seu subordinado de
confiança.
— Diga, Nop.
Phat se afastou da cozinha. As ligações de Nop geralmente
eram sobre assuntos que a equipe de investigação mantinha
em sigilo.
— Inspetor, o marido do senhor Chote informou que não
consegue contato com ele há três dias.
— ...
— O inspetor Kitti está tentando seguir o rastro do
capítulo 25 de Nekros, mas ainda não encontrou nada.
— Se eu pensar em algo, te ligo de volta.
— Obrigado, inspetor.
A ligação foi encerrada no momento em que Praew saía da
cozinha. Ela pegou o controle remoto e ligou em um programa
que assistiria até a hora de dormir. Já ele se isolou para lidar
com os problemas que o angustiavam.
Sentado na mesma cadeira gamer, diante da grande
estante de madeira na parede que ainda estava cheia de
diagramas de informações sobre o caso de assassinatos em
série de Nekros. Algum livro daquela estante talvez fizesse seu
cérebro relaxar e parar de prestar atenção naquilo. Seus dedos
percorreram as lombadas antes de parar em uma trilogia que
ele não tocava há muito tempo.
Tum.
O livro grosso caiu no chão, e as fotos que serviam de
marcador se espalharam para todos os lados. Ele os recolheu,
espanando a capa suja contra a calça, antes de empurrar a
cadeira para trás para pegar uma foto que estava virada para
baixo.
Um homem alto em uniforme de gala, com um rosto
jovem, mas mantendo uma postura serena e honrada. Era a
sua primeira foto ao lado da bandeira após se formar na
academia de polícia há mais de dez anos. Phat se lembrava da
sensação de ser um policial determinado a estudar para se
tornar um bom profissional, a fim de apagar os insultos e a
vergonha que seu pai deixou como uma mancha em seu
sobrenome.
É uma pena que, hoje, aquele garoto tenha crescido para
se tornar apenas um inspetor covarde, que não ousa encarar
seus erros e se sente envergonhado pelo que falhou em fazer.
— ... O que o senhor inspetor fez me deu esperança.
— ...
— Isso me deu a certeza de que o senhor inspetor daria
um jeito no que está errado.
Seria uma pena se aquele olhar determinado de
antigamente desmoronasse apenas por ser pressionado pela
covardia. E não seria apenas Kay quem ficaria decepcionado.
Ele também...
Ele também ficaria decepcionado consigo mesmo se
continuasse deixando as coisas assim...
Phat se levantou em toda a sua altura. Pegou uma jaqueta
jeans preta para vestir. Escondeu a arma, já verificada com
munição, na parte interna antes de pegar as chaves do carro e
correr em direção ao local que passou dias procurando
secretamente. O lugar que servia de cenário final para o
capítulo 25.
Um antigo escritório de contabilidade abandonado, perto
do local do primeiro crime do caso de assassinato. Eram três
salas comerciais unificadas em uma ponta. O lugar, que antes
vivia cheio de funcionários, agora parecia que ia desabar a
qualquer momento. Ele estacionou o carro longe da área do
escritório, processando uma forma de evitar a equipe do
inspetor Kitti caso eles chegassem ali.
Com a arma em punho apontada para frente, ele
caminhou cautelosamente. Seus olhos buscavam qualquer
anomalia. O ambiente estava silencioso, com apenas o som
dos carros lá fora chegando até ali. A única luz que permitia
enxergar o corredor cheio de poeira e teias de aranha era o
brilho da lua que entrava pelas janelas sem venezianas.
Ele pisou no primeiro degrau da escada lentamente. Seus
olhos negros notaram algo estranho escorrendo do segundo
andar. Desviou das gotas de sangue e subiu até o último
degrau. O piso de cimento batido tinha mesas de trabalho
velhas encostadas nos cantos da sala, e o teto era decorado
com fios cortados que balançavam com o vento vindo de fora.
Quase todas as janelas estavam sem vidros, pois eles haviam
se quebrado em mil pedaços espalhados pelo chão.
Phat percorreu a sala com o olhar antes de encontrar pés
pendurados no alto, balançando conforme o peso do corpo. O
sangue acumulado nas pernas escorria para o chão. A cabeça
estava pendurada pelos fios elétricos e, com a luz externa,
dava para identificar que era o dono do escritório de
contabilidade que ele procurava. No entanto, o que o deixou
ainda mais chocado foi o homem alto e magro parado no meio
da poça de sangue. A camiseta oversized branca estava
vermelha, a pele pálida, e ele segurava uma faca suja com a
mesma substância. Mesmo de costas, Phat o reconhecia muito
bem.
— Kay?
O rosto exausto virou-se lentamente. O olhar estava vago,
sem focar em nada, como se a pessoa não estivesse em si. A
arma na mão de Phat tremeu tanto que ele mal conseguia
segurá-la. Sua respiração ficou travada, como se alguém
estivesse apertando seu pescoço.
O som das sirenes invadiu seus ouvidos. As luzes de
emergência brilharam na frente do prédio. Parecia que agora
pelo menos três viaturas e policiais haviam chegado seguindo
a pista com sucesso. O barulho vindo de baixo e o som da
porta de ferro batendo fizeram o segundo andar vibrar.
— Procurem em todo lugar, em cada canto, não deixem
passar nada!!
— Sim senhor.
Crash!
A ordem vinda do primeiro andar soou ao mesmo tempo
em que ele avançou sobre o outro, segurando o pulso que
empunhava a faca até que ela caísse no chão, antes de correr
para longe da área do segundo andar em busca de um lugar
para se esconder e fugir da equipe de investigação do inspetor
Kitti.
Bang!
Um tiro passou por trás enquanto ele empurrava o outro
para fora da porta. Os fundos do prédio eram cercados por
uma grade alta trancada com cadeado. Ele poderia abrir a
trava, mas não era o momento, pois o som de alguém se
aproximando o forçava a pensar rápido em um meio de
sobreviver. De repente, seus olhos viram armários de
documentos velhos, abandonados entre móveis de escritório
em um vão do prédio.
— É um beco sem saída, eles devem estar por aqui.
Phat segurava a arma com apenas uma mão. Com a
outra, agarrou firmemente a porta de ferro, já que o sistema de
tranca quebrado poderia fazer com que ela se abrisse
enquanto ele e Kay estavam espremidos dentro do armário.
Pela fresta, no nível dos olhos, ele viu três policiais armados
procurando pelos fugitivos. Os passos de um dos oficiais se
aproximaram, mas foram interrompidos por uma voz que ele
conhecia muito bem.
— Eu verifico este lado. Vocês sigam para o outro lado.
— Sim, tenente Nop.
Os policiais obedeceram à ordem e voltaram, deixando
apenas o tenente que fazia parte da equipe de investigação do
caso Nekros desde a primeira vítima. Nop circulou perto da
porta por um momento antes de parar e olhar para a pilha de
equipamentos de escritório descartados.
Mesmo que por apenas uma fração de segundo, Phat viu o
olhar de seu subordinado de confiança direcionado para o
armário de documentos velho mais ao fundo, antes de Nop dar
meia-volta e a porta se fechar.
— Kay.
— S-sim.
Ele esperou um tempo para que todos os policiais se
reunissem no andar de cima antes de soltar a porta e sair do
esconderijo. Kay estava tremendo, com as mãos cerradas ao
lado do corpo. Seus olhos estavam cheios de lágrimas e ele
estava sujo, com o cheiro metálico de sangue seco
impregnado.
— E-eu...
Phat não sabia por qual razão decidiu escolher aquele
amigo em vez do dever, mas seu instinto dizia para confiar
nele, da mesma forma que o outro sempre confiou em si...
O corpo alto foi puxado para um abraço sem pedir licença.
Phat acariciou as costas dele, esperando aliviar a angústia.
Kay sobressaltou-se, e suas mãos agarraram a jaqueta de Phat
como se buscasse um porto seguro, relaxando aos poucos
antes de apoiar a cabeça no ombro da pessoa à sua frente.
— Está melhor?
— Sim.
No incidente no terraço, Kay esteve ao seu lado quando
ele estava fraco. Agora que o outro estava no meio da confusão
e do medo, ele não hesitou em estender a mão para ajudar a
aliviar aquela preocupação.
No vão nos fundos do prédio onde a luz não chegava,
escuro e escondido pela pilha de equipamentos altos que os
ocultavam, Kay ainda não soltava a jaqueta, assim como Phat
ainda não desfazia o abraço. Phat não sabia como estava a
situação lá em cima; o caminho mais seguro era esperar o som
das sirenes silenciar e as viaturas se afastarem, até ter certeza
de que a pessoa em seus braços sairia dali em segurança.
Phat trancou o ferrolho da porta com um arame que
pegou no chão antes de fugirem pelos fundos. Felizmente,
tudo correu como planejado. Quase todos os oficiais já tinham
retornado para a delegacia, deixando apenas alguns policiais
de apoio vigiando a cena do crime, e nenhum deles percebeu
os dois entrando no carro antes de acelerarem em poucos
segundos.
Ele pisou no freio quando o sinal ficou vermelho. Os
números do cronômetro diminuíam lentamente, dando tempo
para que ele voltasse a atenção para a pessoa que não estava
em boas condições.
— Pode me contar?
— ...
— O que aconteceu?
— Eu...
— ...
— Não faz sentido... A pista com o número do próximo
capítulo na cena do crime não bate com o conteúdo de Nekros.
Phat não teve tempo de notar que na cena do crime havia
uma pista indicando qual seria o próximo capítulo de Nekros.
Ele deixou Kay analisar o que tinha visto.
— ...
— As feridas no corpo da vítima não tinham marcas de
faca...
— ...
— Não é o padrão de assassinato de Nekros.
Tratando-se do comportamento do assassino em série
Nekros, ele costumava torturar as vítimas com lâminas antes
de matá-las com um martelo, mas o cadáver do senhor Chote
não tinha marcas de faca, nem o símbolo da estrela de cinco
pontas invertida que sempre aparecia, e as características da
tortura eram diferentes do habitual. Era possível que alguém
estivesse armando a cena para jogar toda a culpa no assassino
em série.
Ou em Kay, que era quem o havia criado...
Enquanto ambos mergulhavam em pensamentos, Phat e
Kay chegaram ao destino em um bairro antigo no subúrbio.
Era um lugar calmo que apenas as pessoas da família
conheciam. Seus pais o compraram quando ele era criança.
Agora, tornou-se o lugar para se estabelecerem enquanto
buscavam a verdade por trás dos acontecimentos.
Ele enviou uma mensagem para Praew dizendo que
voltaria mais tarde do que o combinado, antes de se virar para
Kay, que saía do banheiro usando roupas que ele por acaso
tinha deixado naquela casa.
— Serviu bem?
— Serviu.
— Consegue se lembrar de algo?
Kay parecia ter esquecido as coisas momentaneamente.
No carro, durante o trajeto, ele contou os momentos antes do
ocorrido repetidamente sem nexo, até quase ter um ataque de
pânico.
— Não tenho certeza.
— Pode ir relembrando aos poucos... Mas, por enquanto,
você tem que ficar aqui. Entendeu?
— Sim.
— Não posso deixar a Praew sozinha. Amanhã cedo eu
volto correndo.
Phat não queria deixar Kay sozinho, mas Praew também
precisava de cuidados. Além disso, achava que Kay precisava
de um tempo a sós em um lugar seguro para conseguir se
lembrar do que aconteceu antes, no segundo andar do
escritório de contabilidade abandonado.
Eventos anteriores
— E chegamos a outra notícia de destaque no momento: a
delegacia de polícia anunciou a descoberta do corpo do senhor
Chote, presidente de uma empresa de contabilidade.
Suspeita-se que este caso tenha ligação com os assassinatos
em série de Nekros.
— ...
— Ao mesmo tempo, Than, um influenciador famoso,
divulgou uma entrevista com Mr. Kill, o autor de Nekros.
Espectadores, vamos acompanhar os detalhes dessa
entrevista.
Kay caminhou até a porta da loja. Sua mão segurou a
maçaneta pronto para abrir, antes de se virar para a pessoa
que ainda esperava sentada à mesa.
— Eu vou dar a entrevista.
— ...
— Em troca de todos os capítulos de Nekros.
— Com certeza. Eu vou te enviar todos os capítulos.
— Olá, espectadores. Agora estamos com o senhor Kay,
ou Mr. Kill, o autor que criou o quadrinho Nekros, que se
tornou um tema social sobre os assassinatos em série que
imitam o comportamento dos personagens da história...
Primeiro, eu gostaria que o senhor Kay contasse um pouco
sobre o motivo que o levou a escrever este quadrinho.
A câmera digital estava acoplada a um tripé dentro de
uma van, cujos bancos traseiros foram removidos para dar
espaço suficiente para a entrevista. Kay respirou fundo,
concentrando-se antes de começar a narrar os fatos passados
que o levaram a escrever Nekros...
O pai dele era um executivo de baixo escalão na
instituição financeira Thai Investment, uma grande
cooperativa com cerca de 10.000 membros. O dinheiro
circulante sob a gestão do grupo fundador sofreu uma fraude
que fez quase dez bilhões de bahts desaparecerem sem deixar
rastros, deixando seu pai e o grupo de gestores subalternos
como bodes expiatórios, marcados pelas vítimas.
Kay ainda se lembrava do dia em que pessoas jogaram
coisas na frente de sua casa. A filha de alguém estava sentada
chorando, abraçada à foto do funeral da mãe, que se suicidou
por ter perdido tudo. Sua própria família desmoronou.
Tentaram lutar com todas as forças para provar a inocência e
recuperar seus bens, mas a injustiça agiu a favor dos altos
executivos, que foram todos absolvidos. No fim, sobrou para
seu pai a responsabilidade de indenizar as vítimas, até que ele
faliu e teve que recorrer a agiotas.
O pai levou a família para protestar por justiça em frente à
delegacia várias vezes. No fim das contas, ninguém estendeu a
mão para ajudar. Por fim, sem saber a quem recorrer, a melhor
decisão na mente de seu pai, naquele dia, foi encerrar todo o
sofrimento acumulado com chamas.
Na noite em que a família jantou reunida, havia dezenas
de pratos, incluindo os favoritos dele e dos pais, comprados
com o último dinheiro que restava. A televisão exibia um
programa de comédia que arrancava risadas antes de se
prepararem para dormir com o leite que o pai lhe entregou.
Depois disso, o garotinho de 8 anos acordou em uma
enfermaria coletiva de um hospital para descobrir que a mãe
não estava mais lá e que o pai havia se tornado um paciente
acamado. Seu psicológico se estilhaçou em pedaços menores
que grãos de areia na praia. Ficou sem rumo e passou a viver
sozinho desde então.
A entrevista foi carregada de raiva misturada com
fragilidade. O olhar voltado para a câmera estava marejado de
lágrimas que ele tentava segurar.
— Nekros é o grito de quem não tem mais como lutar.
— ...
— É a única coisa que eu posso fazer...
— Então, posso perguntar por que você não continuou
desenhando Nekros?
— ...
— É porque você já aceitou tudo ou porque acha que esse
era o destino que sua família deveria enfrentar?
Kay deu o silêncio como resposta. Baixou o rosto para
olhar as mãos no colo, desviando da câmera que cortou de
volta para o rosto do entrevistador. Than ajeitou os óculos,
deu um sorriso largo para a câmera e proferiu a frase de
encerramento que não era apenas para os espectadores, mas
que foi direcionada diretamente a ele.
— Para mim, Nekros é uma obra que cria mudanças na
sociedade, um ponto de partida para nos questionarmos por
que nosso país permite que o poder sujo domine as coisas.
— ...
— Não falo como jornalista, mas como um fã... Eu ainda
quero ver Nekros saindo da sua ponta da caneta mais uma
vez.
— ...
— E acredito que os espectadores em casa também.

Phat decidiu que deveria ir até a delegacia para avaliar a


situação. Ele encarou o inspetor Kitti para sondar quais pistas
o outro tinha em mãos.
— Eu vim para ajudar o inspetor, pois as pistas deixadas
pelo assassino estão diferentes.
— Eu pedi sua ajuda?
— ...
— Se eu precisar de ajuda, eu mesmo aviso. Mas agora...
Phat percebeu que se oferecer para estar ali não foi muito
inteligente. Mas isso o fez descobrir uma coisa: além do que foi
anunciado na coletiva, o inspetor Kitti não tinha nenhuma
informação. Ele não estranhou a forma como o cadáver foi
torturado, não se importou se o símbolo da estrela invertida
apareceu ou não, e não deu ouvidos ao alerta de que o número
do próximo capítulo não batia com o conteúdo de Nekros. Ele
usava a própria arrogância como base para o trabalho, em vez
de tentar ouvir as razões de quem já tinha passado pelo caso
antes.
— O inspetor deveria saber que você não tem mais
envolvimento com este caso. E...
— ...
— O que você está fazendo é buscar evidências para
proteger o assassino.
— Eu protejo porque ele não é o assassino.
— Hunf.
— ...
— Você deveria ouvir o que o seu tio diz, para não cometer
erros como os que seu pai cometeu.
A paciência das pessoas tem limite, e a dele estava se
esgotando porque o estopim chamado pai foi mencionado pela
pessoa à sua frente. Phat avançou, mas foi contido pelos
oficiais próximos que o separaram antes que houvesse um
confronto físico.
O inspetor Kitti apontou o dedo e gritou alto por toda a
delegacia. Em breve, aquele tumulto se espalharia, trazendo
mais notícias negativas para ele, sendo que as antigas mal
tinham sido resolvidas.
— Inspetor, vá se acalmar.
— ...
— Antes que o seu afastamento seja prorrogado por
tempo indeterminado.
Ele se soltou do controle alheio, ignorando os olhares das
pessoas que passavam se perguntando por que o inspetor
Phat não parava de arranjar problemas para si mesmo.
O carro saiu da delegacia em direção ao esconderijo. O
portão se abriu e fechou assim que o motor foi desligado. A
casa estava em silêncio; a porta de madeira não estava
trancada, provavelmente desde que ele saiu.
— Kay.
O homem alto estava sentado abraçando os joelhos no
chão em frente ao sofá. Seu olhar estava perdido no horizonte,
tão absorto que não ouviu Phat se aproximar e se agachar ao
seu lado.
— Kay.
— Eu... Eu não me lembro de nada.
— ...
— Só lembro que peguei no sono... E quando acordei,
tinha um cadáver pendurado na minha frente.
Ultimamente, os ataques de pânico estavam ficando mais
frequentes. Phat pegou aquelas mãos, afastando lentamente
as unhas que as apertavam com força, antes de se sentar de
pernas cruzadas na frente de Kay.
— Fui eu quem fez isso, senhor inspetor...
— ...
— Sou eu o assassino?
— Kay... Escute-me.
Phat olhou naqueles olhos. Eles refletiam um rosto
preocupado, mas um olhar firme, antes de dizer o que ele
mesmo pensava o tempo todo.
— Você não fez isso.
— ...
— Eu confio em você. Acredito que você não fez isso.
— ...
— Você é a pessoa que me ajudou a resolver enigmas para
salvar a vida de outros... Você não é um assassino.
Não houve soluço, mas os olhos negros transbordaram
em lágrimas que escorreram pelo rosto, até que ele usou o
polegar para limpá-las. A visão estava embaçada, mas o
sentimento transmitido pelo olhar era nítido.
Phat sabia que seria difícil superar aquilo. Às vezes, ele
mesmo não conseguia vencer seus sentimentos de confusão.
Mas, pelo menos, nos dias em que chovia no coração, ter
alguém para segurar o guarda-chuva era muito melhor do que
ter que enfrentar a tempestade sozinho.
8
Phat foi acordado por um barulho próximo, como se
alguém estivesse fazendo algo por perto. Mas o que o fez se
levantar do sofá às 8 da manhã, mesmo tendo acabado de
dormir há pouco tempo, foi o aroma delicioso que fez seu
estômago roncar alto, forçando-o a abandonar o sonho.
— Eu comprei para você também.
— ...
— Inspetor, você já está com fome?
Kay estava sentado de pernas cruzadas no chão. Sobre a
mesa em frente à TV, estava a origem do cheiro bom, com o
vapor quente subindo enquanto a outra pessoa despejava o
mingau em uma tigela e a estendia para ele. Embora não
tivesse comido nada na noite anterior, Phat empurrou o prato
de volta, mesmo tendo comido quase nada. Diferente de Kay,
que limpou o prato sem deixar restos.
— O senhor come pouco, inspetor.
— Não é pouco. O mingau que é muito.
Kay parecia mais calmo depois que Phat passou a noite
inteira tentando alinhar os pensamentos conflitantes entre
eles. Ele esperou até ter certeza de que o outro havia pegado
no sono e que nada sairia do controle naquela noite para,
então, se deitar no sofá no meio da casa.
— Por enquanto, você precisa ficar aqui. Não saia para
lugar nenhum. Se precisar sair, use o meu boné.
— Sim.
Phat entregou o boné que ficava no carro e explicou as
precauções enquanto a equipe de investigação do inspetor
Kitti trabalhava como cães raivosos.
— Agora a polícia está atrás de você. Eu desliguei o seu
celular, não o ligue a menos que seja necessário.
— Eu... por que eu tenho que fugir?
— Eu sei que você não fez nada, mas ainda não temos
provas para confirmar a sua inocência.
Enquanto Kay ficava escondido, a grande tarefa de Phat
era encontrar evidências ou algo que confirmasse a inocência
dele. Phat tinha um plano aproximado na cabeça que não
contaria a ninguém, pois poderia causar ansiedade em alguém
que recém estava recuperando a estabilidade mental.
— Por que tem que ser eu? Por que me transformaram em
suspeito? Por que querem que eu seja o bode expiatório dessa
história?
— Porque, se alguém pudesse desempenhar
perfeitamente o papel de assassino...
— ...
— Esse alguém seria o criador, como você.
Alguém que entendesse o assassino Nekros. Alguém que
tivesse os mesmos traumas que as vítimas oprimidas pelo
poder, como no mangá, e que tivesse uma conexão com a
instituição financeira Thai Investment na vida real. Esse
alguém não seria ninguém menos que a pessoa à sua frente.
— Vou encontrar as provas para confirmar que você é
inocente o mais rápido possível.
— E o que eu posso fazer? Como posso ajudar o senhor?
— Ajude ficando aqui. Não fuja para lugar nenhum. Eu
volto logo.
— ...
— Tudo bem?
Kay assentiu. Phat percebeu que o outro queria se sentir
útil em vez de apenas ficar sentado esperando, mas sair para
buscar pistas sendo um suspeito só aumentaria o risco e
tornaria o trabalho dele mais difícil. Phat não demorou muito
para se organizar após a refeição. Havia muitos lugares onde
precisava ir e muitas pessoas que precisava encontrar.
O carro saiu de casa com cuidado antes de seguir para o
centro da cidade para lidar com o problema que parecia
prestes a explodir como um incêndio.

A atmosfera na sala de reuniões estava pesada. Dezenas


de investigadores e agentes especiais lançavam olhares para a
tela do projetor à frente, sob o comando do inspetor Kitti, o
responsável pelo caso.
— O resultado da perícia encontrou impressões digitais
na cena do crime. Estão marcadas com círculos vermelhos na
imagem.
Na tela, apareceu uma imagem panorâmica da cena do
crime. Círculos vermelhos indicavam onde as digitais foram
encontradas.
— Em todos os pontos, foram detectadas as digitais do
senhor Chankacha, ou Kay.
— Registrem as informações dele como réu no caso
imediatamente.
— Sim, inspetor.
Kitti estava de braços cruzados na frente da sala,
encarando os subordinados que aguardavam ordens
prontamente. As pistas apontavam claramente para Kay como
envolvido no último assassinato de Nekros.
A foto e o histórico foram projetados na tela como o
principal suspeito. As informações básicas detalhavam seu
endereço, local de trabalho, imagem social, além de suas obras
sob os pseudônimos [Link] e [Link].
— Chankacha, Kay, [Link], [Link] ou qualquer outro
nome... ele é o suspeito que mais queremos agora. O
departamento de TI vai rastrear o sinal do celular. O restante
de vocês, espalhem-se pelos locais que aparecem na tela...
— ...
— Aguardem o sinal. Assim que tivermos a localização
exata, eu aviso.
— Sim, inspetor.
O som de notificação ecoou nos celulares de todos os
policiais. O sistema central exibia a mesma imagem projetada
na tela. O selo vermelho no topo reforçava o status de caso
urgente e o pedido de cooperação de todos os setores para
encontrar o indivíduo da foto.
Os policiais se dispersaram conforme as ordens. Nop
preparava seu rádio para sair da sala, mas foi interrompido
pelo responsável do caso.
— E o sinal do celular do inspetor Phat, que eu mandei
rastrear? Onde está?
— O inspetor ainda não ligou o aparelho. O último sinal
captado foi na delegacia.
— ...
— Com licença, vou sair para a patrulha...
— Se o inspetor Phat entrar em contato com você, eu
preciso saber. Entendido?
— ... Sim.
O homem alto permaneceu imóvel, mas suas mãos
entrelaçadas nas costas estavam tensas. Ele sabia que estava
marcado por ser alguém que apoiava seu antigo chefe,
permitindo que Phat obtivesse informações que a equipe de
investigação tentava manter em segredo.
Nop esperou até Kitti sumir de vista para caminhar até o
estacionamento, que estava deserto porque todos os agentes
haviam saído em patrulha. Ele trabalhava sem parar há dias.
Lembrava-se de que, antes de entrar na reunião, ainda havia
luz do sol, mas ao sair estava tão escuro que quase não
percebeu algo estranho no carro estacionado rente ao muro.
Uma luz fraca permitiu ver uma sombra vaga no banco
traseiro. Nop parou diante do próprio carro, vendo o cano de
uma arma apontado para ele pela pessoa que admirava como
superior. Phat não parecia estar brincando. Seus olhos
castanhos profundos refletiam a luz, fixos como se estivessem
prontos para puxar o gatilho a qualquer momento.
Por trabalharem juntos há muito tempo, ele entendeu o
que o ex-chefe queria. Em vez de entrar em pânico, Nop abriu
a porta do motorista e assumiu seu lugar, dirigindo para longe
daquele local perigoso para o outro.

Policiais de patrulha circulavam pela capital na


esperança de encerrar o caso que se arrastava pelo segundo
mês, o caso do assassino em série Nekros. Após o primeiro
suspeito ter se suicidado atrás das grades, surgiu um novo
suspeito que tirou a vida de um contador usando um método
semelhante ao do assassino original.
Como o sinal do celular ainda não havia aparecido,
tiveram que imprimir o rosto de Kay em papéis e perguntar aos
moradores, fazendo buscas aleatórias por todos os cantos da
capital e arredores.
— A senhora já viu a pessoa desta foto?
— Deixe-me ver de perto.
Um policial parou em frente a uma loja de mingau que
estava fechando, após ter funcionado do nascer ao pôr do sol.
Uma senhora de meia-idade colocou os óculos que pendiam
em seu pescoço antes de olhar para a foto na mão dele. Ela
franziu a testa, pensando que já tinha visto aquele rosto
marcante há pouco tempo.
— Esse é o rapaz que veio comprar mingau esta manhã.
Muito bonito. Eu até brinquei perguntando se ele era ator, de
tão alto que é.
A altura estimada pela senhora batia com os dados da
ficha.
— Onde a senhora o viu? E sabe para onde ele foi agora?
— Bem... parece que ele voltou para o lado da casa à beira
do rio, mas faz tempo que moro aqui e nunca vi ninguém
morando lá.
— Obrigado.
As coordenadas aproximadas dadas pela testemunha
levaram dois policiais a investigar o redor de uma casa de dois
andares completamente fechada. O som de cães latindo os
acompanhou, mas felizmente não os seguiram até a frente da
casa. Por dentro estava tudo silencioso. O portão alto
dificultava a visão, e como não tinham um mandado de busca,
não ousaram entrar sem autorização. Dois vultos refletidos no
vidro de dentro da casa tentavam espiar algo suspeito, antes
de decidirem chamar reforços via rádio no exato momento em
que viram um vulto correndo pela porta dos fundos.
O inspetor tinha sumido o dia todo. O celular não
completava chamadas para ninguém. Isso o deixava ansioso.
Kay estava sentado no sofá no meio da casa após tentar
encontrar algo para se distrair, mas era impossível tentar agir
normalmente enquanto seu coração ardia de preocupação. O
sol já havia se posto, mas Kay escolheu ficar no escuro para
não chamar atenção.
Enquanto a ansiedade o dominava, os latidos dos cães o
trouxeram de volta à realidade, afastando as imaginações
férteis para focar nas sombras que circulavam a casa. Kay se
agachou no chão, ficando o mais imóvel possível. Pelo som do
rádio comunicador, percebeu que eram policiais à paisana.
Naquele momento, em uma decisão de segundos, ele correu
silenciosamente pela escuridão para fora da casa.
Ouviu passos distantes. Correu desesperadamente,
escalando o portão alto em direção aos fundos. Gritos
ordenando que parasse e chiados de rádio eram o prenúncio
de que, naquela noite, ele teria que ser um homem invisível
para escapar dos olhos da polícia.
Atrás de uma caçamba de lixo grande, encontrou o
esconderijo ideal. Sob a aba do boné do inspetor, ele observou
por entre a sujeira os policiais passarem correndo diante dele,
enquanto passavam informações pelo rádio.
— Olhem por ali!
— Patrulha código 0127, avistamos o suspeito no beco...
Kay esperou até ter certeza de que não seria notado antes
de sair do beco deserto em direção a uma área movimentada e
cheia de gente. As telas de TV nas lojas exibiam plantões de
notícias. Ele parou diante de uma loja de eletrônicos, olhando
através da vitrine enquanto o som das reportagens ecoava de
vários canais ao mesmo tempo.
— Urgente!!! A polícia emitiu um mandado de prisão para
o senhor Chankacha Thanyaphat, suspeito do caso do
assassino em série Nekros...
— ...
— Há relatos de que ele fugiu da prisão na área de...
Quem tiver informações, entre em contato imediatamente com
as autoridades.
A aba do boné escondia seu rosto, permitindo que ele se
misturasse à multidão. Seu coração batia tão forte que parecia
que ia explodir. Ele se forçou a lidar com a situação. Kay
entrou em uma loja de roupas e pegou as peças que achou que
melhor esconderiam sua identidade. Vestiu um moletom preto
com capuz sobre o boné. Óculos sem grau mudaram seu
semblante para que não se parecesse com a foto do anúncio.
Ele caminhou entre as pessoas em um mercado lotado,
desviando das câmeras de segurança por todo o trajeto. As
mãos estavam escondidas no bolso frontal do moletom. Em
meio às notícias sobre a morte da sexta vítima e o suspeito
ainda foragido, Kay ajustou o capuz e se refugiou em um beco
completamente escuro.
Naquele momento, ele aceitou que agora era,
oficialmente, um suspeito de assassinato...

O motor parou em uma área deserta. Ao redor não havia


movimento, apenas seu subordinado de confiança e o ex-chefe
que ainda não havia guardado a arma. A expressão de Phat
agora era impossível de decifrar para Nop. Nenhuma pergunta
saía daqueles lábios, até que o próprio Nop revelou o que
sabia.
— O inspetor Kitti inseriu os dados do senhor Kay no
sistema de suspeitos.
Agora Kay estava sob a mira de todos os policiais do país,
devido ao mandado de prisão e ao pedido de colaboração para
caçá-lo.
— O TI está rastreando o sinal do seu celular e o do
senhor Kay... mas eu sei que o senhor o deixou no carro
estacionado atrás da delegacia.
Nop segurava sua arma com firmeza, os olhos trêmulos
diante da cena. Milhares de perguntas na cabeça que não
ousava fazer, embora seu coração buscasse respostas de
quem ele respeitava.
— Quem está por trás disso?
— ...
— Eu sei que você está investigando.
Nop deu um sobressalto, como uma criança pega em
flagrante. As imagens da sala de reuniões voltaram à sua
mente. Ele engoliu em seco antes de decidir contar tudo o que
aconteceu, do início ao fim.
A situação na sala de reuniões começou antes mesmo de
Nop entrar. O inspetor Kitti e a equipe de apoio estavam lá. O
peso de todos aqueles olhares o deixou desconfortável, antes
que um dos membros passasse por ele, trancasse a porta,
fechasse as cortinas e o forçasse a se sentar.
— Eu quero encerrar este caso o mais rápido possível.
— ...
— Agora temos evidências claras que levam ao assassino
de todos os casos.
— Mas o assassino nunca deixou evidências nas cenas
antes. Por que agora?
O desconforto de Nop era evidente. Ele se lembrava de
cada detalhe das vítimas, das evidências, das pistas e das
autópsias. Os dados do legista eram claros: nenhum caso,
desde o primeiro empresário até o tio Piao, tinha as digitais do
assassino.
No entanto, a pasta entregue a ele exibia resultados
forenses desde o primeiro crime até o caso do senhor Chote.
Onde antes dizia "nenhuma digital encontrada", agora estava
escrito claramente que todas as cenas do crime tinham as
digitais de Kay.
— Por que...
— O resultado é este. Você não precisa perguntar. Seu
trabalho é me entregar todos os detalhes do caso que você tem.
— Mas, inspetor, acho que deve haver algum engano.
— Não precisa me entregar hoje...
— ...
— Você trabalhou duro por muitos dias... Esta noite, volte
para jantar com seus pais.
— ...
— Deixá-los sozinhos em casa com frequência não é
muito bom, eu acho.
A reunião terminou ali, mas a dúvida de Nop não. A
ameaça velada forçou Nop a entregar os documentos ao
responsável pelo caso e a ficar em silêncio, buscando
respostas por conta própria.
— Um agente da perícia confessou para mim que o
inspetor Kitti e o chefe do laboratório se uniram para alterar os
resultados e o inquérito.
— ...
— Eu acho que isso não é apenas poder do inspetor Kitti.
Pode ser alguém muito maior.
— ...
— Me desculpe, inspetor. Eu fui covarde...
Phat abaixou a arma, travou-a e a guardou no bolso da
jaqueta jeans. Ele olhou para o subordinado em quem mais
confiava pelo retrovisor. O olhar de culpa de Nop era visível. O
inspetor Kitti usou o ponto fraco de Nop. Resistir desta vez não
significaria apenas a vida dele, mas a vida das pessoas que ele
amava.
— Tudo bem. Eu entendo.
— ...
— Mas eu preciso revelar isso. Não importa quem eu vá
atrapalhar ou o quão poderosa seja a pessoa.
— ...
— Não importa quanto poder tenham, não podem vencer
a verdade.
— Eu... eu tenho algo para o senhor, inspetor.
Com olhar determinado e a confiança forjada em tantas
situações, Phat era o modelo que mantinha a esperança de
Nop na profissão. O chefe que sempre o protegia nos erros e
assumia a responsabilidade pelas falhas. O homem que dava
coragem e fé a Nop.
— Eu segui secretamente o inspetor Kitti e o grupo dele
até a casa do senhor Kay.
— Quando?
— Antes do caso do senhor Chote... Eles fizeram algo com
o senhor Kay, que estava inconsciente ao lado da cama do pai,
antes de levá-lo embora.
— ...
— E eu... eu tenho todos os inquéritos que são suspeitos.
Partes que são anormais e contraditórias em vários pontos.
O prestígio e o poder do inspetor Kitti e de quem estava
por trás dele tinham mais peso do que palavras sem provas.
Foi isso que motivou Nop a investigar por conta própria até
obter as informações que provariam a verdade.
Nop guardou isso para se proteger, mas agora escolheu
entregar para a pessoa que estava pronta para lutar pelo que é
certo. Isso fez com que Nop não se sentisse mais lutando
sozinho. Ele tinha Phat, que acreditava nele mais do que
ninguém, para encerrarem juntos esse caso tão longo.

Kay voltou para a pequena casa onde seu pai morava,


carregando toda a angústia para o lugar onde ele podia ser
frágil até o limite. A tristeza o cercou até que uma crise de
pânico começou, mas desta vez não havia cápsulas de remédio
para salvá-lo. Ele só pôde ficar imóvel, com o rosto colado à
cama do pai.
Ele suportou a tortura por um momento antes de perder a
consciência, pois a dor era quase insuportável. A última
memória de sua consciência vacilante foi o som de passos de
mais de uma pessoa vindo de trás. Então, seu cérebro foi como
se tivesse sido desligado e reconectado novamente no segundo
andar de um prédio abandonado, com um corpo enforcado à
sua frente.
Seu olhar vago ainda não compreendia a situação,
tentando reunir os sentidos, embora não totalmente. Ele
percebeu que a cena à frente era igual ao episódio 25 do
mangá. As anomalias foram registradas em seu cérebro, que
bloqueava o mundo exterior. Kay nem sabia que suas mãos
seguravam uma arma afiada, nem ouvia a voz de quem
acabara de chegar.
O que o tirou do transe foi um puxão firme no pulso e o som
de um tiro que se seguiu...

Ele se escondia em um canto de um restaurante, olhando


para o celular após a ligação cair. Kay desobedeceu à ordem do
inspetor, tentando ligar repetidamente, embora não houvesse
resposta.
As rotas de fuga eram zero. Além do condomínio e da casa
mantida em segredo — que agora talvez não fosse mais
segredo —, tudo estaria cercado pela polícia esperando que ele
voltasse por falta de opção.
Seu olhar paranoico não parava quieto, focando por um
instante antes de olhar ao redor, temendo que alguém o
reconhecesse pela TV. Kay baixou ainda mais o boné no
mesmo instante em que uma mensagem apareceu na tela do
celular, fazendo-o franzir a testa.
"Asura"
Seus dedos finos tremiam, sem coragem de clicar para ler,
embora as notificações tivessem soado mais de três vezes. O
suor escorria pelo rosto, o corpo gelado como se alguém tivesse
jogado água fria nele. Kay olhou para o nome da conta com
confusão. O símbolo de "digitando" apareceu como se o
convidasse a buscar a resposta final da história.
— Olá, Dai-sensei.
— E finalmente Nekros chegou ao fim, não é?
— Eu realmente quero saber se o meu final e o seu final
serão iguais... E se é possível que o sensei seja quem decide a
última vítima para mim.
— Como será o fim... basta que o sensei o desenhe...
— O resto, eu farei ser real.
"Localização"
Kay leu a mesma mensagem várias vezes. Ele costumava
decidir tudo por impulso, mas desta vez não conseguia. As
coordenadas na mensagem eram distantes. Como não havia
um prazo definido, ele presumiu que teria tempo para refletir
até ter certeza se acreditaria no que via ou se tentaria falar
com o inspetor novamente.
Ele esperou a ligação cair. Quanto mais ligava, mais
delirante ficava. Começou a não conseguir ficar parado
enquanto ouvia as notícias de sua fuga a cada hora.
Não havia como recuar. Atrás dele não havia pistas para a
liberdade. A única maneira de afrouxar as evidências era
encontrar provas de sua própria inocência. Kay respirou
fundo. O olhar temeroso cedeu à determinação. Seus dedos
tocaram a tela respondendo à última mensagem de quase uma
hora atrás, antes de partir para as coordenadas que eram
como um cadafalso.
Ele aceitou entrar no jogo de Asura porque talvez fosse o
único caminho para desatar os nós e descobrir a conclusão da
verdade sobre tudo o que estava acontecendo...
— Estou indo.
Nop o deixou no estacionamento da delegacia central com
velocidade acima do limite, pois no caminho o rádio informou
a localização do sinal de celular de Kay. Phat presumiu que ele
tivesse fugido de casa por ter sido encontrado pela patrulha.
Seu celular foi ligado e havia quase 20 chamadas
perdidas do mesmo número. Phat não hesitou em retornar
enquanto o carro saía do local. O aparelho do outro já estava
desligado, deixando apenas a mensagem automática. Ele
acelerou entre o trânsito em direção às coordenadas. Uma
mão no volante, enquanto a outra discava nove dígitos. Um
número conhecido apenas pela família.
— Alô, Phat?
— Tio, eu tenho pistas de que o inspetor Kitti distorceu
evidências no caso Nekros.
Seus olhos duros focavam na estrada. Ele contou a
história que ouviu de Nop. As provas eram suficientes para
encurralar Kitti por tentar encerrar o caso usando métodos
sujos.
— Eu não imaginei que o Kitti faria isso.
— Tio Chaiwat, acredite em mim desta vez. Com as provas
que eu tenho, não tem como ele escapar.
— ...
— Por favor, tio. Estou disposto a me arriscar para expor
isso.
— ... Eu vou cuidar disso.
A ligação caiu com uma frase ambígua. Ele não sabia se o
tio acreditaria nele e afastaria Kitti, ou se o deixaria continuar
o caso mesmo com as dúvidas. Mas Phat não tinha tempo. Ele
precisava chegar ao destino antes que Kay fosse ainda mais
incriminado.
O táxi parou em frente a um grande prédio abandonado.
Kay olhou para a cena, buscando uma razão forte o suficiente
para fazê-lo enfrentar aquilo sozinho. As notícias por toda a
cidade diziam que ele era o suspeito do assassino em série.
Mesmo que tivesse mil álibis agora, de nada adiantaria.
Isso o fez sentir que não tinha nada a perder... Se hoje
terminasse com traição ou sem vida, seria por escolha dele.
Ele escolheu encarar o imprevisível.
O homem alto caminhou com cuidado. No fundo do amplo
salão penumbroso, a luz da lua atravessava buracos no teto,
iluminando uma mesa de escritório no centro da sala. Fios de
um canto se estendiam até um notebook deixado aberto. A
cadeira de rodinhas estava imóvel.
A tela brilhava em meio ao fundo branco, exibindo apenas
um arquivo, como se quisesse que fosse visto claramente. Com
os dedos trêmulos, ele deu um clique duplo em "EP_FINAL",
mas surgiu uma janela pedindo uma senha. Ele franziu a
testa, olhando para o teclado. Sua mente estava vazia, sem
qualquer ideia de qual seria o código.
E Kay percebeu, naquele segundo, que tinha caído em
uma armadilha perfeita...
Sons de sirenes vieram de todas as direções. Ele foi
cercado por carros de polícia com luzes de emergência
brilhando por todos os lados. Mais rápido que o pensamento,
ele fechou a tela do aparelho, abraçando-o contra o peito. Seus
olhos buscavam uma saída enquanto o som de passos se
aproximava. A ansiedade era clara em seu rosto. Policiais à
paisana o encurralaram até que ele teve que ficar parado,
servindo de alvo para o dono da voz que ecoou por todo o
prédio.
— Acabe com isso aqui mesmo. Não desperdicem
impostos mantendo ele na cadeia.
Bang!!
No milésimo de segundo fatal, Kay fechou os olhos,
aceitando um destino que não era dele. Depois disso, seu
nome estaria na primeira página como um assassino. Suas
mãos apertaram o notebook, controlando a respiração para
receber a dor da bala disparada pela arma do inspetor Kitti. No
entanto...
Baque!!!
— Corra!
— In... inspetor?
O homem alto atravessou o cerco policial, que estava
confuso com a situação. Seu ex-chefe puxou o suspeito do
caso, ajudando-o a fugir da prisão para o fundo do prédio. Os
tiros de Kitti continuavam, levando vários policiais a
perseguirem as figuras que sumiam na escuridão.
— Peguem ele!!!
— Sim!!
O prédio de três andares era circular. Antigamente fora
um hotel antes de ser abandonado pela crise econômica. Ele
correu atrás do inspetor, passando pela recepção
desesperadamente. Suas pernas longas subiram as escadas,
atravessando corredores de quartos trancados, até chegarem
ao centro aberto do último andar.
Bang!!!
O destino era a porta da escada de incêndio do lado
oposto, que os levaria para fora. Faltavam poucos passos.
Mas, ao tocar a maçaneta, ela foi empurrada por fora, com
policiais apontando armas para ambos.
— Pense no seu tio antes de fazer qualquer coisa,
inspetor.
Phat sacou sua arma, apontando para trás, onde os
agentes à paisana se aproximavam. Kay foi empurrado contra
a parede enquanto o inspetor se colocava como escudo diante
de Kitti, que vinha sorrindo com a arma em punho.
— Mesmo sendo sobrinho do "Sr.", agir assim é aceitável?
— Hunf.
Phat não cedeu à provocação. Seu olhar era firme, sem
medo. Seu rosto desenhou um sorriso com uma voz que soava
indiferente, o que irritou profundamente o homem à sua
frente. Kitti apertou a arma com força, com uma atitude séria e
sem hesitação. Sua voz soou fria enquanto o dedo pressionava
o gatilho.
— Eu me explico com o chefe depois.
Vupt!
— No chão!!
— No chão!!! No chão! Larguem as armas agora!!!
Uma voz poderosa veio de trás, acompanhada por uma
unidade de operações especiais totalmente armada, cercando
a equipe de investigação. Homens robustos com rostos
cobertos, em uniformes, espalharam-se por todos os lados. O
cano das armas estava voltado para aqueles que tinham
ordens de prisão, com comandos claros e decisivos.
A atmosfera estava pesada. Rostos assustados, olhos
arregalados pela confusão. No entanto, tiveram que recuar,
deitando-se no chão em sinal de rendição para evitar o
confronto.
O inspetor Kitti largou a arma e levantou as mãos acima
da cabeça, sendo algemado imediatamente. Tudo aconteceu
em menos de um minuto, sem explicações. Todos estavam
confusos, exceto Phat, que guardou sua arma e se aproximou
do chefe da unidade de operações especiais.
— O inspetor Kitti e sua equipe estão presos sob a
acusação de tentativa de distorção no caso do assassino em
série Nekros.
— Que provas você tem para dizer que eu distorci algo?!
— O senhor pode pensar em uma desculpa depois de ver
as evidências.
Com um rosto furioso e olhos cheios de ódio, Kitti
encarava Phat. O que Phat fez diante de dezenas de
subordinados foi esmagar a dignidade dele completamente.
— Não pense que por ter um tio para te proteger você pode
fazer o que quiser. Eu te aviso.
— Vamos ver. Veremos se quem está por trás do senhor é
tão poderoso assim.
Os membros da equipe com mandados de prisão foram
levados do prédio para ouvir as acusações. Novos agentes
informavam Kitti sobre a prisão efetuada por ordem urgente
do superior antes de levá-lo para o carro que o esperava.
Phat observou até que todos sumissem de vista antes de
se virar para ele, que ainda estava parado no mesmo lugar.
— Agora temos provas de que o Kitti tentou te transformar
em bode expiatório alterando inquéritos antigos e inserindo
suas digitais neles.
— ...
— Tudo foi enviado para a unidade de investigações
especiais. Pode ficar tranquilo.
— Obrigado, inspetor.
Kay abraçou o notebook com força. Sua alma, que quase
tinha deixado o corpo, voltava aos poucos. Ele respirou fundo,
como se um peso enorme tivesse sido tirado de suas costas.
Seus olhos negros refletiam o rosto de quem o estendeu a mão
contra as acusações.
— Minha palavra é uma só. Eu disse que ajudaria e nunca
quebro minhas promessas.
— ...
— Mas se você não parar de se colocar em risco assim,
nem que eu tivesse cem vidas eu conseguiria proteger você.
A tensão se dissipou com uma frase que fez ambos
sorrirem. Finalmente tiveram tempo para se recompor e
respirar de novo, antes de entregarem o notebook
problemático para o departamento de TI, para que acessassem
os dados protegidos por senha.
A frente da delegacia central estava um caos, pois a
notícia se espalhou rapidamente. A cena era como a do dia do
desaparecimento do deputado Jaraspong. Jornalistas de
todas as agências montavam câmeras esperando a chegada do
novo inspetor do caso, após o vazamento de que o anterior
tentara incriminar [Link] como bode expiatório.
Não demorou para que a van da unidade especial
estacionasse na entrada. O som dos obturadores das câmeras
competia com os pedidos de espaço dos policiais, antes que
Kitti saísse do carro com as mãos algemadas.
— Inspetor Kitti!!!
— É verdade que o senhor tentou prender um inocente?!
— O que o senhor fará agora? E o senhor Kay ainda é
considerado o assassino?!
O rosto de Kitti estava frio e impassível. Seus olhos
estavam calmos, contrastando com o caos da mídia tentando
aproximar os microfones. Ele não se abalou, olhando apenas
para frente, e esboçou um sorriso discreto quando alguém
chegou para encerrar a situação pessoalmente.
— Senhor Chaiwat!
— Senhor Chaiwat, o que acontece agora? O inspetor Kitti
ainda...
— Senhor, e sobre a situação do senhor Chankacha?
Kitti foi levado para dentro para o interrogatório. A
autoridade máxima da delegacia central deu uma entrevista
sobre as notícias envolvendo a equipe de investigação do caso
Nekros.
Com postura calma, costas eretas e mãos nas costas com
confiança, ele olhou para os jornalistas antes que sua voz
poderosa controlasse a situação.
— O inspetor Kitti passará pelo processo de investigação
conforme a lei.
— ...
— Quanto ao senhor Chankacha, ele não é mais réu, mas
continua como suspeito e também passará por interrogatório.
— ...
— Eu agirei com base na integridade. Fiquem tranquilos,
este caso não será encerrado com negligência, mas sim com
base nos fatos e no processo de justiça.

O técnico de TI estava com uma fisionomia nada boa


depois de tentar abrir o arquivo bloqueado pelo sistema de
proteção Brute Force. Se o número de tentativas de
adivinhação da senha excedesse 5 vezes, os dados se
autodestruiriam e desapareceriam para sempre, e agora
restavam apenas 4 tentativas.
Phat apoiava os braços no encosto da cadeira,
pressionando o funcionário a ponto de fazê-lo suar frio. Ao
lado, Kay andava de um lado para o outro, tentando pensar em
um número de 7 dígitos relacionado à Nekros. Kay sabia bem
que aquele era um desafio de Asura; a senha do arquivo
deveria ser algo que ele conhecia muito bem, mas que havia
deixado passar.
— Consegue se lembrar de mais alguma coisa?
— Eu não quero arriscar.
— Tente pensar bem primeiro.
Ele assentiu antes de se deixar cair em sua cadeira de
rodinhas favorita. O corpo alto deslizava pela sala enquanto
ele segurava uma caneta e um papel cheio de rasuras. Tinha
que ser algo que ele conhecesse bem, um número ligado a algo
em sua memória, porque o sistema queria que ele visse a
informação final, o desfecho de uma história que se arrastava
além do controle.
— Com licença... Inspetor Phat. A equipe de investigação
está começando o interrogatório do Inspetor Kitti.
— Muito obrigado, Din.
Na sala de interrogatório, o Inspetor Kitti respondia às
perguntas dos oficiais com uma atitude despreocupada. De
pernas cruzadas e braços fustigados, ele olhava fixamente
através da equipe de investigação, como se quisesse responder
à pessoa sentada atrás do vidro escuro da sala de observação.
Chaiwat ouvia as frases ditas por Kitti, olhando para seu
subordinado com decepção.
— Até onde as evidências chegaram, Phat?
— Já enviei para a Unidade de Investigação de Casos
Especiais. É o vídeo gravado quando eles foram pegar o Kay na
casa dele.
— Por favor, agilize o resultado da perícia.
O superintendente da delegacia metropolitana virou-se
para falar com o subordinado que aguardava ordens. A
situação na sala de interrogatório estava chegando a um beco
sem saída, e isso deixava o Inspetor Kitti ainda mais confiante,
pois as evidências enviadas ainda não tinham um veredito.
Kay e Phat se entreolharam quando começaram a sentir
algo estranho. Cada minuto passava lentamente e, quanto
mais demorava, o som dos dedos batendo na mesa dentro da
sala de interrogatório penetrava nos ouvidos de Phat,
deixando-o ainda mais ansioso.
— Os documentos chegaram.
— Continuem o interrogatório.
O oficial de investigação recebeu o laudo da perícia e
voltou para a sala. Phat se aproximou do vidro, observando os
papéis que eram lidos em silêncio.
— A Unidade de Investigação de Casos Especiais
informou que não houve envio de nenhum arquivo de vídeo. O
Inspetor Kitti, como acusado, será libertado temporariamente
até que surjam novas testemunhas ou evidências. Obrigado
pela cooperação no interrogatório.
— Como assim?!
Phat praguejou com uma raiva que ultrapassava todos os
limites, sem se importar com os outros oficiais na sala ou
mesmo com seu tio.
— Como pode não existir? Eu vi o Capitão Nop entregar
em mãos.
— ...
— Você... você ajudou ele, não foi?!
O autocontrole desapareceu no momento em que a porta
da sala de interrogatório se abriu. O Inspetor Kitti saiu de vista
com um sorriso no rosto. Phat cerrou os punhos e confrontou
o oficial que carregava os documentos. O homem alto avançou
e o agarrou pelo colarinho, mas foi contido pelo olhar de seu
tio antes que o caos aumentasse.
— Phat... acho melhor você ir se acalmar primeiro.
Depois, encontre um motivo para conversarmos sobre por que
as coisas terminaram assim.
— ...
— Dispersem e resolvam tudo.
O lugar, que antes estava lotado, agora contava apenas
com ele e o inspetor, que tentava conter as próprias emoções.
Kay não ousava perguntar, embora estivesse curioso sobre
como as evidências haviam desaparecido sem deixar rastros.
Ele deu um tempo para que Phat pudesse pensar antes que o
próprio decidisse pegar o telefone para entrar em contato com
o Capitão Nop, a fonte da pista crucial.
Não houve resposta, mas Phat não desistiu de tentar
ligar.
— O Nop não atende o telefone.
— O que aconteceu?
— Tenho medo de que as evidências tenham sido
destruídas... talvez o Nop esteja nos traindo.
A acusação, movida pela raiva, deixaria uma ferida
emocional se ele pudesse ouvir. Kay tentou chamar o outro à
razão.
— Inspetor, acalme-se. O Capitão Nop não tem motivo
nenhum para fazer algo assim.
— O Nop foi ameaçado. Ele pode ter cedido em troca de
algum benefício.
— Nesse caso, não seria mais provável que ele esteja
arriscando a vida por nós?
A frase trouxe uma reflexão que substituiu a raiva por um
pressentimento de que algo terrível estava acontecendo. Nop
havia prometido que levaria as evidências pessoalmente,
enquanto Phat correu para ajudar Kay no escritório de
contabilidade abandonado. A última ligação na noite anterior
informava que as evidências já estavam nas mãos dos peritos.
Desde então, até a tarde de hoje, Nop havia desaparecido sem
deixar vestígios.
Kay e Phat foram imediatamente para a casa do Capitão
Nop. Por sorte, não era longe da delegacia. Era uma casa de
alvenaria de dois andares com um gramado na frente, cercada
por um muro alto. Sob uma árvore, perto de um lago de peixes,
um homem idoso estava deitado lendo o jornal.
— Pai!
— Ah, Inspetor Phat, o que houve?!
O pai do Capitão Nop moveu-se lentamente para abrir o
portão para o inspetor, indicando, pela forma como se
cumprimentaram, que se conheciam bem.
— O Nop está em casa?
— O Nop? Ele não volta para casa desde ontem, Inspetor.
Não havia nenhum carro do capitão nos arredores da
casa. Ele olhou em volta, esperando que o outro tivesse
acabado de voltar por acaso.
— Desde ontem à noite?
— Ele ligou para a mãe dizendo que voltaria de manhã.
Mas até agora eu não o vi.
O jornal nas mãos do idoso estava dobrado, sendo usado
como leque enquanto conversavam na frente da casa. O rosto
de Phat não conseguia esconder a preocupação antes que seu
telefone tocasse. Ele olhou, esperando que o nome na tela
fosse de quem ele procurava, mas era uma ligação de Din, um
dos membros da equipe de investigação.
— Diga, Din.
— Inspetor, onde o senhor está...
— ...
— Eu... eu acho que o senhor deveria vir ver isso
pessoalmente.
— Envie a localização.

Ele dirigiu seguindo o mapa com o coração batendo


descompassado. O tom de voz de Din não era bom, sugerindo
algo terrível no destino final, fora da cidade. Não houve pistas
ou informações sobre o que o esperava. Phat não perguntou, e
Din não falou.
Nop o considerava como um irmão mais velho, e ele
também o via como um irmão caçula. Phat conhecia o outro
desde a época em que estudaram na mesma instituição. Ele
era três anos mais novo, querido por todos por ser calmo e
racional. Três anos atrás, quando se mudaram para a
delegacia metropolitana juntos, Phat, que era como um touro
impetuoso que batia de frente com tudo, precisava do outro ao
seu lado para contê-lo.
O telhado da delegacia era o refúgio secreto deles. A porta,
que vivia trancada, era aberta por ele para fumarem
escondidos com frequência. Conversavam sobre tudo além do
trabalho: novos jogos, o futebol que perderam na noite
anterior ou até sobre o amor que Nop cultivava
silenciosamente.
Na estrada à beira-rio, a mesma da noite passada, os
carros estavam parados por toda parte, e a área estava isolada
por fitas, indicando que ali era uma cena de crime. Ele
estacionou longe de onde Din e Singh estavam. Não tinha
coragem de descer do carro, não tinha coragem de abrir a
porta. Não queria saber o que tinha acontecido dentro do carro
favorito de seu irmão de outra alma.
— Inspetor.
— Tudo bem...
— ...
— Vamos descer. Eu estou bem.
Com as costas da mão, ele limpou as lágrimas que já
avermelhavam seus olhos. Respirou fundo e respondeu a
quem estivera sentado em silêncio durante todo o trajeto antes
de decidir abrir a porta do carro para encarar a verdade para a
qual não estava preparado.
Seus pés seguiram pelo caminho de concreto. Os
subordinados abriram caminho para que ele pudesse entrar.
O médico legista estava ocupado perto do banco do motorista e
se posicionou ao lado dele para explicar.
Seus olhos ardiam, e ele não conseguia mais segurar. De
cabeça baixa, viu os sapatos de couro lustrados sobre o
acelerador. A mão caída ao lado do corpo estava coberta de
sangue. O soluço foi engolido enquanto ele perguntava com a
voz rouca:
— Qual foi a causa?
— A arma usada no crime foi uma pistola. Há três marcas
de tiros no corpo. O ponto fatal foi na testa... o tempo estimado
da morte é de aproximadamente 12 horas.
— ...
— A carteira, o telefone e os objetos de valor sumiram. A
polícia local concluiu que foi um latrocínio ocorrido enquanto
o capitão estava em patrulha.
Uma conclusão estúpida, sem considerar causas ou
consequências, sem esperar por pistas ou buscar evidências.
Uma vida de valor inestimável foi tirada por um animal e o
caso foi encerrado facilmente alegando roubo seguido de
morte, onde, no fim, nunca encontrariam um assassino que
sequer existia.
Ele cerrou os punhos, sentindo perfeitamente o que
significava estar destruído. Lágrima após lágrima caía no
chão, formando círculos, antes de ele conseguir erguer o rosto
e aceitar a realidade de que Nop estava partindo para uma
longa jornada...
A distância era de apenas um passo, mas levou minutos.
Phat segurou a porta do carro para se apoiar enquanto se
abaixava até o nível daqueles olhos arregalados. O rosto estava
encostado no volante, a testa apresentava um buraco largo e o
sangue seco estava espalhado por toda a face.
Com a mão trêmula, ele tocou as pálpebras do amigo,
forçando-as a se fechar lentamente enquanto seus lábios
faziam uma última promessa:
— Não se preocupe... eu cuidarei dos seus pais.
— ...
— E quem quer que tenha feito isso com você, eu prometo
que vai pagar.
O funeral do Capitão Nop estava lotado de companheiros
de ideal. Os últimos dois dias foram difíceis em cada momento.
A mãe do capitão chorou até desmaiar nos braços do marido.
Uma imagem que ficou gravada e atiçou ainda mais o fogo da
vingança dentro dele.
Ele caminhava num canto afastado do pavilhão. Vestido
com um terno formal, ele e Singh se revezavam para prestar as
condolências e evitar a confusão.
— Quer água?
— Muito obrigado.
A pessoa que acabara de chegar sentou-se nos degraus do
templo. Kay já havia passado pela primeira rodada de
interrogatórios, mas ainda havia muitos detalhes sobre os
quais ele precisava depor para provar sua inocência.
O cigarro foi levado aos lábios, a ponta queimando e a
fumaça flutuando no ar antes de ele passar o maço para a
outra pessoa, que precisava de nicotina para aliviar a
ansiedade.
— O do senhor não era desse cheiro?
— Era do Nop.
— ...
— A perícia devolveu os pertences que restaram do Nop.
No carro só tinha o maço de cigarros.
— ...
— E isso aqui.
— Um recibo do correio?
O carro foi apreendido como prova até que o caso fosse
resolvido. Embora a perícia já tivesse feito seu trabalho, ele os
forçou a reabrir o caso de latrocínio por ser suspeito, fazendo
com que a jurisdição responsável tivesse que investigar mais a
fundo.
Depois de cuidar da identificação do corpo no lugar dos
pais de Nop e de trocar as roupas ensanguentadas para os
ritos religiosos, ele sentiu um instinto de revirar as roupas
velhas que iam para o lixo, pensando que Nop pudesse ter
deixado algo. E aconteceu exatamente como ele esperava.
No bolso de trás da calça jeans havia o maço de cigarros e
o recibo do correio, indicando o envio no período em que o
capitão se separou para enviar o vídeo para a Unidade de
Casos Especiais. Não seria estranho se ele tivesse passado
para enviar algo, mas era estranho que o destinatário fosse
seu próprio nome.
Isso significava que Nop enviou algo para si mesmo...
— O endereço é uma caixa postal que o Nop alugava. Eu
acabei de checar o status, a encomenda deve ter chegado.
— E o que vamos fazer agora?
— Vou esperar os monges terminarem a oração desta
noite e vou começar...
— ...
— Se demorarmos mais, o Inspetor Kitti vai ter tempo de
preparar uma fuga.
A estação de metrô estava lotada de gente. Mesmo já
tendo passado um tempo do horário de saída, muitos
assalariados que fizeram hora extra estavam voltando para
casa quando o relógio marcou 8 horas.
Diante da caixa postal de aluguel anual, a ponta do dedo
pressionou o código de acesso, uma senha baseada na data de
nascimento que Nop costumava usar. A tela mostrou o sinal
de correto. Phat se posicionou na frente do armário enquanto
outra pessoa, igualmente alta, ficava atrás dele para esconder
o que estava sendo feito.
Um olhar de curiosidade e emoção surgiu ao ver o
envelope branco com o selo do correio, de tamanho suficiente
para folhas A4. Ele reconheceu bem a caligrafia no envelope,
pois era a mesma dos relatórios que recebia quase todo dia.
Dentro, havia cópias dos documentos originais, capturas de
tela do vídeo em momentos cruciais e um cartão de memória
que ele supôs conter o vídeo que Nop gravou.
— Eu tenho um notebook no carro.
— Vamos lá.
Phat fechou a porta da caixa postal como antes, sem
esquecer de agradecer ao subordinado que havia "partido",
deixando o trabalho inacabado para ele assumir. O cartão foi
conectado ao notebook no colo de Kay. Não continha apenas o
vídeo do incidente na casa do pai dele naquele dia, mas
também fotos do inquérito que havia sido adulterado para
incriminar Kay como bode expiatório. Eram provas que
podiam prender o Inspetor Kitti de um jeito que ele não teria
como escapar.
— Obrigado, Capitão Nop.
— Se quiser alguma coisa, apareça nos meus sonhos. Eu
farei oferendas para você.
Embora falasse ao vento, ele esperava que a mensagem
chegasse a quem compartilhou alegrias e tristezas em cada
caso, arriscando a vida em todo lugar, e rezava para que o
outro soubesse que ele não deixaria aquela perda ser em vão.
O Inspetor Kitti organizou uma coletiva de imprensa em
meio a críticas de todos os lados, mas como a autoridade
máxima alegou que, sem evidências, ele era inocente e tinha o
direito de se defender para limpar seu nome.
A sala de reuniões estava repleta de jornalistas. Nesses
dias, a delegacia metropolitana emitia e cancelava mandados
de prisão a todo momento. O anúncio sobre Kay se espalhou
por todos os canais por apenas uma noite antes de ser
cancelado. O mandado de prisão mudou para o inspetor que
tentou transformar o escritor em um assassino. Hoje, as
palavras na coletiva serviam apenas para culpar os peritos por
terem sido negligentes, resultando no que as notícias
mostraram.
— Eu emiti o mandado com base nas evidências que
tinha, e agora o senhor Kay ainda é um suspeito.
— O inspetor está dizendo que o senhor Kay ainda não foi
inocentado?
— Eu também tenho evidências, não estou acusando a
outra pessoa sem fundamentos.
— Sim... e eu também tenho evidências, e não estou
acusando o Inspetor Kitti sem fundamentos.
Uma voz vinda do fundo da sala chamou a atenção. Os
flashes dispararam em direção à pessoa que interrompeu o
teatro de quem mentia descaradamente, afirmando não ter
envolvimento.
Kitti mudou de expressão, os olhos brilhando de raiva,
preparando-se para encontrar palavras para se defender. No
entanto, antes que pudesse acusar alguém, o projetor que
estava desligado se acendeu, exibindo o vídeo que mostrava
claramente o rosto do Inspetor Kitti e seus cúmplices tentando
coletar as impressões digitais de Kay, que estava deitado
imóvel ao lado da cama, antes de carregarem seu corpo
inconsciente para o carro e levá-lo ao escritório de
contabilidade abandonado onde o corpo do senhor Chote foi
encontrado.
O documento original e o adulterado foram exibidos lado
a lado. Círculos vermelhos indicavam onde a outra pessoa
inseriu as digitais de Kay posteriormente, alterando o
inquérito de uma vítima antiga para criar uma conexão direta
com o bode expiatório.
Vozes de crítica ecoaram pela sala. Os jornalistas
registraram cada momento, tentando entrevistar o acusado
que estava pálido. Kitti ficou parado como um espantalho,
com o corpo frio, antes de ser anunciado seu mandado de
prisão e ser algemado na frente de milhões de testemunhas
que acompanhavam online.
O caminho foi aberto para levá-lo à carceragem. Ele olhou
para Phat com fúria, como se quisesse matá-lo. O homem alto
passou por ele, deu um sorriso de canto e disse a frase que
destruiu o que restava da sanidade dele:
— Desta vez, o senhor terá que se explicar na cadeia,
inspetor.
— Seu desgraçado!!
O insulto ecoou alto. Ele lutou contra o controle dos
policiais. Era hora de Kitti pagar pelo que fez a Kay, e talvez
pelo que aconteceu ao colega de trabalho de Phat.
Kitti foi detido na delegacia metropolitana para aguardar
o interrogatório, no qual parecia não haver desculpas que o
livrassem das acusações. Embora temesse o poder invisível, o
vídeo e os documentos estavam por toda a internet; deixá-lo
impune exigiria respostas à sociedade, e parecia que isso seria
impossível.
Phat deixou o caso nas mãos dos responsáveis e passou
algumas horas com Kay, que soube por Praew que Prim estava
melhorando e se preparava para continuar a recuperação em
casa em breve. O longo corredor do hospital estava
impregnado com cheiro de álcool. Quase no final, a porta
indicava o nome da paciente. Phat bateu de leve antes de
entrar.
Praew já estava lá, sentada ao lado da cama como todos
os dias, vigiando até que sua melhor amiga dormisse à noite
para então ir para casa. Embora as feridas físicas estivessem
curadas, as cicatrizes emocionais de Praew e Prim
permaneciam. Praew precisava de medicação psiquiátrica
devido aos sustos noturnos, enquanto Prim, após o trauma,
havia apagado aqueles momentos da memória; ela se
lembrava apenas de antes de perder a consciência e de
acordar no quarto do hospital.
Kay colocou a sacola de frutas na mesa silenciosamente
ao ver que Prim ainda dormia. As bochechas dela estavam
coradas e, se não prestasse atenção, não veria os hematomas
pelo corpo que estavam desaparecendo gradualmente.
— Praew, você já comeu alguma coisa?
— Já comi.
— ...
— Se não estiver aguentando, quer ir descansar em casa?
Eu cuido da Prim para você.
— Irmão...
Ele olhou para os olhos vazios da irmã mais nova. Ela
parou de prestar atenção no telefone e levantou a cabeça para
tocar no assunto que fez o coração dele disparar.
— Quando fui sequestrada... eu encontrei o Nekros.
— Como... como assim encontrou?
Praew falou com uma voz calma, como se não fosse nada
demais, ao contrário de Kay, que perguntou com ansiedade.
— Ele estava bem na minha frente. Ele ajudou a mim e à
Prim contra aquele animal do Peaw.
— ...
— Naquele momento eu não tive medo do Nekros, mas me
senti segura ao vê-lo...
Phat ficou em silêncio. Sentiu como se alguém estivesse
cortando seu coração. Praew nunca tinha contado isso para
ninguém, nem mesmo para ele. A voz dela era dura ao
mencionar o nome de Peaw, em contraste com a calma ao falar
do assassino.
— O Peaw devia receber a punição pelo que fez. Uma
punição que a lei não pode dar a ele.
— Praew...
— Você sabe que ele merecia aquilo.
— E você vai aceitar que a gente viva em uma sociedade
que decide o certo e o errado baseada em crenças e
sentimentos?
— ...
— Quer punir com a justiça das mãos, sem se importar
com a lei? Condenar à morte sem precisar de provas? É esse o
tipo de coisa que você quer ver?
Phat olhou nos olhos da irmã. Ele sabia que o que ela
passou era imperdoável. Embora quem cometeu o ato tivesse
partido deste mundo com sofrimento, o rancor consumia
Praew a ponto de criar uma ferida maligna que tentava se
manifestar. Ele tomou a liberdade de segurar a mão dela, que
estava em seu colo, tentando convencê-la a lutar contra
aquela mente quase insensível usando a razão e a justiça.
— Praew, escute... o que o Nekros faz é criar um tribunal
de exceção sem se importar com quem será o juiz.
— ...
— E vamos deixar que alguém que nem conhecemos
decida a culpa, usando critérios que ele mesmo inventou?
Kay ficou parado, processando as palavras de Praew. Um
olhar de decepção refletia a garota nos braços de Phat. A
ideologia de Nekros não estava apenas criando rachaduras na
lei, mas começando a destruir a pessoa mais importante de
sua vida.
Ele tinha medo... medo de que Praew se perdesse naquele
mundo, um mundo onde a crença de um assassino
gradualmente a dominasse e a consumisse, transformando
Praew em um deles.

O carro da prisão seguia por uma estrada secundária. À


frente e atrás, vans de luxo o escoltavam por um atalho para a
penitenciária. Os vidros eram tão escuros que não dava para
ver quem estava dentro, mas o motorista sabia o que fazer. A
distância até o presídio era de menos de 10 quilômetros, mas o
carro parou em um lugar deserto, sem ninguém por perto.
As trancas de ferro foram abertas e o corpo alto do
inspetor desceu, estendendo mãos e pés acorrentados para
que os oficiais cuidassem dele com tranquilidade.
Kitti estava livre das amarras. Ele se espreguiçou com um
sorriso no rosto, sem esquecer de agradecer aos comparsas,
antes de subir no carro estacionado ao lado, que partiu em
direção ao ponto de encontro distante.
Um galpão abandonado à beira do rio era o destino
planejado para fugir da prisão. As evidências na internet se
espalharam tanto que não havia desculpa para negar. No fim,
o Inspetor Kitti teve que confessar conforme o plano antes de
fugir com o poder de seus superiores.
Um homem alto em um terno preto elegante estava de
costas olhando para o rio. Com as mãos atrás do corpo, sua
expressão era séria e impossível de decifrar.
— Obrigado, senhor...
— ...
— Aquele seu sobrinho não larga o osso mesmo.
Kitti falou em tom de brincadeira, não deixando de
bajular o outro para manter seus interesses. O homem mais
velho endireitou os ombros antes de se virar para encarar o
inspetor que causou problemas e não soube resolver,
obrigando-o a agir para impedir que alguém falasse demais e
chegasse até ele.
O sol estava se pondo no horizonte. A luz alaranjada
refletia na superfície da água, brilhando como se estrelas
estivessem nadando no largo rio. O vento soprava pela pele,
bagunçando os fios de cabelo. A margem do rio principal ao
entardecer estava mais silenciosa do que o normal. O lugar,
afastado da capital, parecia isolado da pressa, ideal para...
BANG!!!
Chaiwat apontou o cano da arma para frente. O dedo
puxou o gatilho com precisão bem no meio da testa. Kitti
arregalou os olhos, olhando fixamente enquanto seu corpo
desabava lentamente no chão, perdendo o fôlego pouco a
pouco.
— Isso deveria ter terminado silenciosamente.
— ...
— Não deveria ter me obrigado a agir.
O comandante com autoridade máxima na delegacia
metropolitana olhou para o cadáver de seu subordinado com
um olhar vazio, antes de ir embora sem sequer ter a piedade de
ajudá-lo a fechar os olhos.

Phat saiu do hospital com a mente cheia. As palavras de


Praew ecoavam como se alguém as estivesse repetindo sem
parar. Kay provavelmente sentia o mesmo; o olhar de decepção
misturado com tristeza o fazia caminhar distraído ao seu lado.
Rrrr...
— Sim, tio.
A pessoa do outro lado falou com urgência. Phat
presumiu que o motivo da ligação seria Kitti, e esperava que
fosse a boa notícia de que ele já estava na cela.
— Phat, onde você está?
— Estou visitando a amiga da Praew no hospital.
— Os oficiais me informaram que o Kitti fugiu durante o
trajeto para a penitenciária.
— O quê!?
— Eu quis ligar para te contar pessoalmente antes que a
informação entre no sistema.
— E então...
— Não se preocupe. De um jeito ou de outro, ele terá que
voltar para cumprir a pena.
A ligação caiu. Seus passos pararam. Ele segurou o
telefone no ar. A confusão vencia todos os sentimentos em sua
mente. Seus instintos analisavam a situação, servindo como o
gatilho que o fez perceber claramente que tudo era tão
anormal que chegava a ser notável.
— O que aconteceu?
— O Inspetor Kitti fugiu.
— Espera aí, como isso é possível?!
— ...
— Inspetor, encerre esse assunto e me deixe investigar
sozinho. Eu não quero que o senhor acabe como o Capitão
Nop.
— Kay.
As palavras eram firmes e cheias de preocupação. Porque,
quanto mais perto do fim, mais complexo ficava, e ao descobrir
que os nós estavam se desatando, mais o poder invisível
tentava varrer os erros para debaixo do tapete.
— Se terminarmos aqui, pelo que o Nop morreu?
— ...
— Eu não vou deixar o Nop ter morrido em vão...
— ...
— Não importa o quão poderoso seja... agora eu vou
arrancar a máscara de todos eles.
Não havia medo da autoridade sombria que pairava. Se
algo além do controle estivesse para acontecer, Phat estava
pronto para encarar. E ele seria a pessoa a revirar tudo o que
foi escondido debaixo do tapete, mesmo que fossem os restos
apodrecidos de quem quer que fosse...
9
A ponta da caneta circulava o papel de jornal recortado,
conectando as fotos das dezenas de pessoas envolvidas que
estavam coladas na parede do quarto. Fios vermelhos ligavam
um ponto a outro onde as conexões eram possíveis. O olhar
vazio refletia as imagens, mas o cérebro estava cheio de
histórias sobre a instituição financeira Thai Investment, a
causa do problema e a peça principal do quebra-cabeça que o
Asura usava para marcar suas vítimas, pegando emprestada a
mão do criador de Nekros como o executor do destino.
Além do mistério que ainda não havia sido resolvido, o
que incomodava Kay era o poder que envolvia a delegacia de
polícia metropolitana. O poder que ajudou Kitti a escapar, o
poder que se escondia nas sombras por medo de ser ligado por
um fio vermelho como todas as outras vítimas.
Kay percorria os olhos pela parede, processando o que
estava faltando, o que ele havia ignorado e qual razão uniria
todas as pistas para formar uma cela da qual o verdadeiro
assassino não pudesse escapar.
Ele girou a cadeira de rodas pelo quarto, segurando um
tablet que exibia o conteúdo da história em quadrinhos
Nekros, que ele já havia lido tantas vezes que sabia quase de
cor. Os traços reforçavam os dias dolorosos de um menino que
não recebeu bênçãos de Deus no Dia das Crianças. Kay viveu
lutando para conseguir estudar enquanto trabalhava para
pagar o centro de reabilitação do pai, que vivia em estado
vegetativo...
Em um belo dia, os bens que ele conquistou tiveram que
ser divididos para pagar dívidas que ele não havia contraído.
Antes de cair naquela condição, o chefe da família tentou de
todas as formas fazer com que a casa voltasse a ter uma vida
financeira estável, mas as dívidas da batalha judicial e o
pagamento de indenizações determinadas pelo tribunal
fizeram com que a vida de Kay, depois disso, fosse uma luta
pela sobrevivência, carregando o fardo enorme que seu pai lhe
deixou.
Kay sentia que vivia apenas para provar quanto tempo
aguentaria esse destino terrível. Em sua mente, ainda se
lembrava da inveja que sentia dos moradores de rua que
dormiam sem se preocupar com o amanhã. Uma vida sem
nada a perder e sem ninguém com quem se preocupar...
Um dia, ao sair do trabalho, ele caminhava lentamente,
exausto por ter servido mesas o dia todo. Do restaurante ao
centro de reabilitação não demorava muito; ele sempre
visitava o pai antes de ir para casa. Mas, naquele dia, o cheiro
de fumaça da capital parecia mais forte do que o habitual. Kay
cobriu o nariz com a mão. Quanto mais se aproximava do
destino, mais o cheiro e a fumaça preta se espalhavam.
Um pressentimento o fez apressar o passo, esquecendo a
dor nas pernas e o suor que encharcava seu corpo devido ao
calor anormal. As chamas no final da tarde quase se fundiam
com a luz do sol. Havia apenas sons de gritos e o estalo de
móveis de madeira tornando-se combustível para o incêndio
voraz.
As pessoas corriam para fora do centro de reabilitação, ao
contrário de Kay, que correu para dentro das chamas,
enfrentando o calor para carregar o corpo que dormia
profundamente na cama com dificuldade. Felizmente, a
enfermeira conseguiu puxar o respirador a tempo antes que o
inferno queimasse tudo em um piscar de olhos...
Após o incidente daquele dia, ele decidiu assinar os
papéis declarando que seu pai havia morrido no incêndio,
usando os restos mortais de um corpo não identificado,
mantendo em segredo que o pai ainda respirava. Para que as
vítimas do caso da instituição financeira ou as gangues de
cobradores não soubessem, Patima Panitchraksa mudou de
nome e sobrenome, apagando sua identidade e fugindo de
tudo na esperança de construir uma vida melhor. No entanto,
ele não escapou. Naquele dia, ele falhou na fuga e foi punido
por dezenas de chutes até quase morrer. Quando conseguiu se
arrastar de volta para casa, estava quase sem fôlego.
Kay abraçou o corpo imóvel do pai e deixou as lágrimas
caírem, amaldiçoando o destino que destruiu sua família...
Sua mente estava cheia de raiva e seu cérebro buscava
apenas vingança. A angústia que ele não podia contar a
ninguém se transformou na tinta que criou o demônio Nekros
para ganhar vida em sua imaginação. Um demônio que era o
representante do ódio contra o poder das trevas deste mundo.
Quanto mais desenhava, mais fundo ele mergulhava.
Quanto mais era aclamado, mais ele se perdia. Kay sentia isso
toda vez que atualizava o quadrinho no blog; sentia o riso de
Nekros ecoando em seu ouvido, o personagem que ele criou
com as próprias mãos.
Por fim, o rancor perdeu para o medo no subconsciente.
Kay não suportava mais ver o olhar do assassino em série que
desenhava, não queria ver os corpos das vítimas pendurados
em seus sonhos a ponto de não conseguir dormir, não queria
olhar para o martelo no chão com o desejo de usá-lo para
acabar com a vida de alguém. Ele tinha medo, medo de ser
devorado por ele...
E aquele foi o último dia em que Kay abriu o blog de
Nekros para ocultar todo o conteúdo. Todos os esboços e
arquivos foram guardados em um lugar secreto, como se ele
quisesse que seu cérebro os esquecesse gradualmente, antes
de começar a criar uma nova identidade. Uma identidade que
ele escolheu para sobreviver no mundo capitalista onde
Nekros não poderia operar.
Ele deslizou a cadeira até a mesa de trabalho. A tela do
notebook ainda mostrava a janela de senha. Kay respirou
fundo, olhou para os números escritos na palma da mão e
decidiu inseri-los para abrir o arquivo secreto.
Mas o símbolo de erro que apareceu novamente reforçou
que ele ainda não havia pensado o suficiente, e isso o deixou
com apenas mais uma tentativa de adivinhação.

Phat interrogou o motorista da prisão e as testemunhas


envolvidas no desaparecimento do inspetor Kitti o dia todo,
mas não obteve nenhuma pista. Todos permaneceram
calados, ou davam respostas confusas e contraditórias. Isso o
deixou ainda mais irritado, pois confirmava que aquelas
pessoas tinham mais medo de serem atingidas por algum
poder oculto do que de dizer a verdade.
Phat jogou os papéis na mesa e esfregou o cabelo para
desabafar. Toda a imprensa esperava por respostas da polícia,
mas ele passou o dia todo sem conseguir nada. A pressão o
atingiu a ponto de ele se sentir perdido. Seu subordinado de
confiança, que sempre o ajudava, havia partido cedo demais, e
seu tio ultimamente estava dando atenção especial apenas
para sua única irmã mais nova.
Depois que Prim recebeu alta do hospital, Praew
finalmente teve tempo para a família. Acontece que, na mesa
de jantar na casa do tio, ela agia com tanta frieza que qualquer
um percebia que havia algum problema entre os dois irmãos.
Ele tentou agir normalmente, conversar e convidar a irmã para
sair, mas Praew recusou e voltou a se envolver naquilo que ele
havia pedido para ela deixar de lado.
O estado mental dela ainda não havia se recuperado;
algumas noites ele ainda ouvia seu choro. Mas o que ela
escolheu, em vez de buscar um tratamento completo, foi voltar
a trabalhar na agência de notícias. Phat rolou o celular e viu as
notificações da irmã: uma pequena festa cheia dos doces
favoritos de Praew, uma recepção calorosa dos colegas de
trabalho.
— Que cansaço.
— Conseguiu alguma coisa, inspetor?
— Ainda nada. Ninguém quer falar nada.
Din estava sentado à frente dele, também estressado.
Como responsáveis pelo caso do inspetor Kitti, todos os seus
passos eram vigiados por todos os setores. Isso reforçava para
Phat que ele não podia cometer nem um erro sequer.
.
.
Mais uma vez, o condomínio no centro da capital recebeu
o convidado especial, Kay, que trouxe mais pistas para colar
na parede do quarto de Phat. O homem alto passou um tempo
consigo mesmo, sem dizer nada. Felizmente, o som da
televisão ligada ajudava para que o inspetor não ficasse em um
silêncio excessivo.
O dono do quarto ficou de braços cruzados esperando que
ele traçasse as linhas de conexão do relacionamento confuso
da última vítima, o senhor Chote, o contador que foi morto de
uma forma que não seguia o padrão que Nekros costumava
usar.
— O inspetor entende o mesmo que eu, certo? Que todas
as vítimas estão ligadas ao caso da instituição financeira Thai
Investment.
— Aham.
— E todas as vítimas foram mortas com o mesmo conceito
criado por Nekros. Mas esse caso mais recente é bem
estranho.
— Você se refere ao local diferente e ao modo de matar que
parece descuidado?
Pelo relatório do médico legista e dos peritos, não foram
encontrados os símbolos que Nekros costumava deixar, além
do fato de que a cena do crime geralmente era organizada de
forma impecável para parecer uma cena do quadrinho.
— Por isso acho que a morte do senhor Chote pode não
ser apenas uma imitação do quadrinho.
— ...
— Mas parece que alguém o matou propositalmente para
silenciá-lo, criando uma situação para parecer o caso do
assassino em série Nekros.
— O que você quer dizer com isso?
— Significa que o senhor Chote devia saber algum
segredo que poderia levar ao grande chefe desta história.
Phat ficou parado tentando acompanhar o raciocínio. A
morte de cada vítima tinha algum significado que levava ao
caso de fraude financeira que foi o épico do país há 20 anos. O
senhor Chote era o detentor dos segredos das contas, então
não era estranho que ele se tornasse um dos corpos que
Nekros escolheria. No entanto, o assassinato descuidado, que
não batia com a personalidade do assassino que eles
conheciam, fez Phat acreditar na hipótese de Kay.
— O começo foi a instituição financeira Thai Investment.
— ...
— E a conclusão também deve estar aqui... seu pai, meu
pai, todas as vítimas.
— ...
— Temos um destino compartilhado.
— E outra notícia importante que se tornou pauta na
sociedade, estendendo-se desde o início do processo de
investigação do assassino em série Nekros...
— O Than de novo?
— ...
Ele estava cansado do rosto do fã de "nível S" toda vez que
aparecia na tela. Notícias distorcidas criavam caos,
interpretações baseadas em sentimentos, ligando fatos sem
sentido sem se importar com a verdade ou se isso causaria
feridas em alguém, como agora.
A foto do inspetor Yosaphat aparecia na tela junto com
informações desenterradas sem a permissão do dono.
— O desaparecimento do inspetor Kitti fez com que o
inspetor Yosaphat voltasse a participar desta investigação
novamente... Mas eu estou questionando se é apropriado que
o inspetor continue cuidando deste caso, dado que seu pai foi
acusado de corrupção e de aceitar suborno para destruir
evidências no caso da instituição financeira Thai Investment.
— ...
— E é possível que a volta do inspetor Yosaphat ao caso
seja para colaborar e ajudar o inspetor Kitti que
desapareceu...
— Quanta bobagem.
Phat praguejou antes de desligar a televisão antes mesmo
da reportagem acabar. Ele jogou o controle no sofá com uma
expressão irritada antes de ser interrompido por quem
acabara de chegar.
— Foi a Praew que escreveu esse roteiro...
— ...
— Porque se você não estiver na mídia, pode ser eliminado
silenciosamente como o Nop.
— Praew...
Praew chegou revelando a origem das informações que
Than sabia. Phat ficou furioso, mas tentou entender a
preocupação da irmã, que ultimamente agia de forma
impulsiva.
A morte de Nop parecia ter despertado algo em Praew. Seu
olhar era de preocupação misturado com a firmeza de quem
acredita estar fazendo o certo, o que fez Phat não querer
discutir e iniciar uma briga.
— Eu entendo que você está preocupada, mas antes de
fazer qualquer coisa, por que não me pergunta?
— ...
— Você fazendo isso torna meu trabalho ainda mais
difícil...
— Mas se eu não fizer, você estará em perigo.
— Ah, mas eu...
Rrrr...
O toque do telefone interrompeu a conversa. Era Din.
Phat decidiu atender antes de voltar a resolver as coisas com
Praew, que não aceitava razões.
— Diga, Din.
— Inspetor, encontramos uma pista do Kitti.
— Certo, estou indo agora mesmo.
Phat deu ordens para que ele e Praew ficassem no
condomínio até que ele voltasse e saiu apressado sem dizer
mais nada.
Os olhos negros refletiam o rosto de Praew. A jovem
jornalista havia criado um trabalho digno de uma nova estrela.
A sociedade que já gosta de dramas, ao receber um pouco de
tempero, rapidamente transforma o assunto em uma grande
tendência. Ele não concordava com o que Praew fez, mesmo
que ela alegasse ser para proteger o inspetor de mãos
invisíveis.
— A Praew já sabe que quem enviou todos os episódios de
Nekros para o Kay foi o senhor Than.
— Eu quero te contar uma coisa...
— ...
— Agora eu recebi um arquivo do Asura, mas ele está
protegido por uma senha.
— Senha?
Kay olhou para Praew, viu seus olhos brilharem de
animação e curiosidade antes de dizer a frase que estava em
sua cabeça o tempo todo.
— Eu quero que você tome cuidado com o Than. Eu acho
que ele é o Asura.

O homem alto ficou parado olhando para o corpo sem vida


flutuando nas águas do rio principal, no centro da capital. O
estado do cadáver não era agradável, sendo arrastado por um
barco de resgate que usava cordas para trazê-lo à margem.
O corpo, que antes parecia imponente, agora parecia um
balão, exalando um cheiro podre que causava náuseas. No
centro da testa, havia um buraco largo, como se algo tivesse
perfurado. Os olhos estavam arregalados e a boca aberta
estava cheia de sujeira.
Phat soube imediatamente, sem precisar esperar pela
autópsia, que o inspetor Kitti havia sido morto...
— E então, sobrinho?
— Tio, encontramos o corpo do inspetor Kitti.
A história do major Yosaphat Traikanawut tornou-se a
primeira página de todos os jornais. As acusações sobre seu
histórico pessoal ligado ao caso da instituição financeira Thai
Investment levaram a críticas sobre sua adequação e possíveis
infrações legais, já que ele se tornou uma parte interessada no
caso de forma inevitável.
— Eu também estou em uma situação difícil, Phat. Mas
tanto eu quanto você precisamos nos afastar do caso do
assassino em série Nekros por enquanto.
Como as vítimas tinham em comum o caso de fraude,
Phat, como filho, e Chaiwat, como irmão do capitão Papaphat
Traikanawut, foram afastados da investigação para garantir a
transparência.
— Quanto ao caso da morte de Kitti, eu mesmo cuidarei
disso.
— ...
— As evidências do legista confirmam que ele morreu por
arma de fogo. Isso significa que Kitti foi "eliminado" por
alguém...
— O senhor acha que o caso do Nop foi a mesma coisa?
Phat perguntou, após ver o relatório do estado do corpo de
Kitti. Ele pensou no capitão Nop, que foi morto do mesmo
modo e cuja autoria ainda não tinha pistas. Ele conteve a raiva
que estava prestes a explodir ao imaginar seu subordinado de
confiança.
— Eu não quero que o Nop tenha morrido em vão.
— Se você ainda tem fé na lei, deve acreditar que os
culpados serão punidos.
— ...
— A menos que, agora, você não acredite mais nela.
— ...
— Eu já vou indo.
Dentro da sala, restou apenas ele, sentado em silêncio e
sem respostas. Phat era honesto com seus sentimentos e
respeitava sua profissão, embora ultimamente estivesse
quebrando regras e se perguntando o que era mais justo: o
processo legal ou a lei do retorno.
Ele suspirou no silêncio, deixando a mente divagar
enquanto apresentava a permissão recém-aprovada para
entrar na sala de arquivos no subsolo. Armários de metal altos
até o teto estavam cheios de milhões de arquivos organizados
alfabeticamente. A ponta dos dedos tocou as lombadas
enquanto ele procurava o nome do caso que o trouxe até ali.
— Instituição financeira Thai Investment.
Vinte anos atrás, Phat ouviu o nome dessa instituição.
Soube que, antes de morrer, a última herança que seu pai
deixou foi a dúvida que a sociedade lançou sobre a família. O
inquérito estava incompleto porque muitos documentos foram
destruídos. As evidências desapareceram pelas mãos de seu
pai, o que impediu que se chegasse à raiz do problema.
Os culpados saíram ilesos, enquanto quem carregou o
fardo foram os administradores de baixo escalão que, ou
fugiram, ou partiram deste mundo, como o pai de Kay.
Essa ferida ficaria com Phat para sempre. Por mais que
tentasse apagar a culpa, hoje ele sabia que não poderia lavar
essa mancha. Se alguém pudesse corrigir os erros cometidos,
talvez fosse seu pai, que escapou de sua culpa partindo para
outro mundo em um acidente de carro junto com sua mãe, que
teve que sofrer as consequências dos atos do marido.
Praew chegou à agência de notícias cedo, antes mesmo do
guarda do turno da noite bater o cartão. Com o rosto sério, ela
passou por sua mesa e foi para a sala ao fundo. Na porta, a
placa de CEO era clara, e ela foi empurrada pela visitante.
A tela do computador brilhava. Na área de trabalho, havia
pastas de arquivos que Praew reconhecia como sendo a
coleção de tudo sobre Nekros que Than havia reunido. O
pendrive foi inserido na porta. Seus olhos refletiam a barra
verde de carregamento, e ela nem percebeu que, na porta, um
homem alto a observava com um olhar difícil de decifrar.

Kay ainda estava no quarto do inspetor, embora ambos os


donos do condomínio tivessem saído para trabalhar pela
manhã. Na verdade, Phat não havia voltado desde a noite
anterior, e Praew saiu apressada porque tinha assuntos
pendentes para resolver. Kay sentou-se na cadeira do
inspetor, cumprindo a tarefa que lhe foi confiada em silêncio.
Faltava apenas uma tentativa para o código de 6 dígitos.
Rrrr...
Uma mensagem de Praew continha um link para uma
transmissão ao vivo. Than estava apresentando o programa. O
número de visualizações chegava a quase dez mil, embora a
live tivesse começado há menos de um minuto, devido ao título
chamativo que envolvia o caso de Nekros.
Than começou a falar após se satisfazer com o número de
espectadores, que logo chegaria a 50.000. Um sorriso
apareceu no canto de sua boca enquanto ele juntava as mãos
em frente ao peito.
— Olá a todos os telespectadores... Hoje eu não vim para
expor segredos ou atualizar informações novas.
— ...
— Mas hoje eu vim... para me comunicar com o Mr. Kill.
Kay franziu a testa, fixando o olhar nos olhos que
refletiam uma determinação como se a pessoa na tela
estivesse falando diretamente para ele.
— Eu entendo seus sentimentos. Entendo como se sente
ao ver pessoas ruins saírem impunes.
— ...
— Você deve se sentir dolorido por ter criado um demônio
como Nekros. Mas, Mr. Kill...
A voz grave era opressora e os olhos frios eram como
lâminas que faziam Kay sentir dor a cada palavra.
— Eu quero que você saiba que todos estão esperando
pelo final perfeito de Nekros.
— ...
— Apenas escreva. Eu acredito que Nekros está pronto
para julgar... Ou eu deveria perguntar se você está hesitando
sobre algo?
— ...
— Eu arrisco dizer que, talvez, o final seja o começo desta
história.
— ...
— Dai-sensei.
Era um segredo...
Isso era um segredo que apenas ele e o dono do chat,
Asura, sabiam. Kay nunca contou a ninguém, nem mesmo ao
inspetor, mas essa palavra saiu da boca de Than, que
encerrou a live deixando o mistério no ar.
— Alô, inspetor? Onde você está?!
— Na delegacia. Aconteceu alguma coisa?
— Eu... eu acho que o Than é o Asura.
Ele falou com confiança. Embora houvesse dúvidas, a
prova clara como o nome que apenas os dois sabiam era
suficiente para confirmar que Than e o dono do e-mail original,
Asura, eram a mesma pessoa.
— A palavra Dai-sensei... Durante a live, ele disse
Dai-sensei. É a palavra que o Asura usa para me chamar.
— Entendido. Encontre-me na agência dele. Se chegar
primeiro, não entre, espere por mim. Entendeu?
— Sim.
Phat recolheu tudo o que era importante na bolsa,
carregando o medo enquanto pegava um táxi para a agência
onde Praew estagiava. Embora o trânsito estivesse livre, seu
coração já corria à frente, esperando na entrada. Do outro
lado, Kay pedia ao motorista para se apressar, temendo não
chegar a tempo.
Em pouco tempo, o carro em que Kay estava parou ao
lado do carro do inspetor, que chegou quase ao mesmo tempo.
Ambos entraram apressados no prédio comercial que abrigava
várias startups, incluindo a agência de notícias de Than, o
problema que estava sentado rindo com a irmã de quem estava
ao seu lado.
— Ora, senhor Kay, inspetor. O que vieram fazer na
minha agência?
— Mano, aconteceu alguma coisa?
Than e Praew se viraram para os recém-chegados. Kay
olhou para a mão que levava a xícara de cerâmica aos lábios. O
aroma do café flutuava pela sala, aliviando a tensão da
manhã.
— Você... você me chamou de Dai-sensei.
— Ah... achei que fosse outra coisa. Qual o problema?
— Poucas pessoas me chamam assim.
— E o que tem de estranho, senhor Kay? O significado é
mestre, o grande. Eu queria te elogiar, por isso chamei assim.
Kay foi acuado como um cachorro encurralado. Mas ele
tinha certeza de que, sob o sorriso, havia uma máscara que o
outro escondia, agindo com indiferença ao que ele dizia,
embora a intenção fosse fazê-lo perder a cabeça.
— Eu sei o que o senhor Kay está pensando, mas acho
que você está entendendo mal o senhor Than.
— ...
— O senhor também, mano. Se for decidir fazer algo, eu
quero que pense bem.
— Praew?
— Vamos embora, inspetor. Desculpe o incômodo.
A situação desfavorável o fez decidir encerrar antes que as
coisas piorassem. O pulso do inspetor foi segurado e ele foi
arrastado de volta para o carro. O rosto preocupado de Phat
mostrava claramente que ele temia pela irmã, e não era raiva
pelo que ela disse com voz calma e olhar firme.
— O Than deve estar fazendo a cabeça dela. Aquele Than
deve estar enganando a Praew.
A voz de quem estava no banco do motorista falava sobre
as atitudes estranhas da irmã enquanto Kay se lembrava de
algo.
— Inspetor, posso te perguntar uma coisa?
— ...
— É possível que o Than esteja envolvido no caso da
instituição financeira Thai Investment?
— ...
— Se não, não haveria motivo forte o suficiente para ele
não parar de investigar.
— Acredita em coincidência?
— Oi?
Phat se virou para pegar um arquivo no banco de trás e o
entregou a ele, enquanto ele mesmo pegava outro arquivo de
espessura semelhante.
— Ambos os arquivos são listas de vítimas do caso da
instituição financeira Thai Investment. Eu os peguei
emprestado esta manhã... Se aquele miserável estiver
envolvido de alguma forma, deve ser por aqui.
A lista de vítimas oficial não era tão grande quanto o
número real. Ele folheou as páginas procurando pelo nome de
Than, que poderia estar escondido em algum lugar.
— Aqui está. Senhor Thawikorn Puttharanan.
— Beneficiário do processo de recuperação, herdeiro
legítimo...
A ponta do dedo lia o papel amarelado pelo tempo. As
letras pretas estavam quase sumindo. O texto indicava a
relação dos pais de Than, que foram vítimas da instituição
financeira Thai Investment e escolheram tirar a própria vida
devido à crise econômica. Uma excelente motivação para ele
não largar esse caso.
— Vou buscar mais o histórico do Than na delegacia.
— Eu volto para esperar no quarto. Vá logo, inspetor.
Kay desceu do carro que seguia para a delegacia de polícia
metropolitana. Uma excelente fonte de informações que
poderia ter mais respostas do que as poucas linhas do resumo
do inquérito.
Enquanto esperava o inspetor buscar mais pistas sobre
Than, Kay precisava voltar a procurar os 6 dígitos. A senha na
qual ele vinha gastando quase uma semana.
Rrrr...
— Sim, tia Sri.
— Senhor Kay, pode vir para casa agora mesmo?!
— É algo urgente, tia?
— É melhor o senhor vir ver. Eu... eu não tenho certeza...
— Tudo bem. Estou indo.

Phat voltou para a delegacia. Ao meio-dia, os oficiais


haviam saído para almoçar, inclusive seus dois subordinados.
Ele se deu ao luxo de ligar o computador de Din e entrar no
sistema para buscar casos relacionados ao famoso
influenciador. Além da infância destruída porque os pais
partiram pelo mesmo motivo que os pais de Kay, Than teve
uma vida difícil, lutando muito para chegar ao topo com seu
talento reconhecido.
A página seguinte era sobre o histórico dos pais,
empresários que estavam começando bem no mercado, mas
tiveram que parar devido ao investimento excessivo e por
terem sido enganados até a ruína.
Ele percorreu os olhos pelo inquérito até a última linha.
Uma assinatura fraca estava abaixo do último parágrafo, com
o selo da unidade. Phat semicerrou os olhos para as letras
borradas antes que seus olhos castanhos se arregalassem.
— Isso é...
— ...
— O tio Chaiwat estava na equipe de investigação deste
caso?

Sria estava de pé na frente da casa com o rosto


preocupado. Com o celular tremendo na mão, ela o conduziu
para dentro do quarto que o pai usava para descansar.
— O senhor, de repente, começou a ter espasmos. Eu não
sabia o que fazer.
— ...
— Ou será que deveríamos chamar uma ambulância?
Kay ficou em silêncio. Isso fez com que a cuidadora
percebesse que ele se recusava a seguir a sugestão. O corpo
magro tinha espasmos periódicos na cama hospitalar. Ele
olhava para aquela cena com uma sensação de que uma
guerra estava ocorrendo em seu interior, mas externamente
apenas segurava a mão esquelética com as suas duas mãos.
— Eu...
— ...
— Eu já entendi... o que devo fazer a seguir.
Seus dedos finos acariciaram levemente, como se
consolassem a respiração obstruída para que ela relaxasse aos
poucos. O respirador emitia um som longo e contínuo. Sria
não conseguia ficar parada como ele; o som do telefone
indicava que ela ligava para o resgate que levaria o pai para
continuar mantendo o pulso. No entanto, não deu tempo...
Bip, biiiiiiiiiiiiiiiip...
A morte é apenas um instante. Talvez doa menos do que
tentar continuar vivendo. Ele pensava que o pai já estava
pronto para ir desde o início, mas por causa do laço que ele
usou para prender a outra pessoa, ela teve que ficar para
pagar pelo carma que ele mesmo criou. Kay apertou o botão
para desligar o som do respirador; a máquina trabalhou
pesado por mais de 20 anos. Desta vez, provavelmente era
hora de descansar, assim como o ventilador de teto que estava
quebrado há dias e não tinha sido consertado.
O som da ambulância parando na frente da casa ecoou
antes de os funcionários correrem para dentro, na esperança
de reanimar o corpo sem vida. O esforço de vários minutos
terminou; não houve um segundo milagre.
O pano branco cobriu o corpo agora livre de tubos e fios.
Kay finalmente pôde olhar para o rosto do pai sem o respirador
obscurecendo suas feições. O pai envelheceu sem viver a vida.
O rosto estava enrugado, os olhos bem fechados.
— Sobre o templo e o dia da cremação, eu vou organizar.
Quanto ao óbito, o senhor Kay precisa ir notificar...
— Não tem problema... eu já notifiquei com antecedência
há muito tempo.
— ...
— Apenas uma oração antes da cremação já é o
suficiente.
Se não fosse pela outra pessoa, Kay não saberia por onde
começar. Sria cuidava do pai desde que o transferiram para
esta casa. Ela provavelmente tinha um vínculo não muito
diferente do dele, que era do mesmo sangue. O rosto
envelhecido dela estava cheio de lágrimas, ao contrário do
único filho, que tinha o olhar vazio, observando o caixão
branco sem detalhes sendo erguido pelos funcionários do
resgate.
A atmosfera era de silêncio no templo da comunidade.
Uma brisa suave soprava, fazendo os fios de cabelo voarem. A
luz fraca do sol incidia sobre o pátio central. O espaço que
conduzia ao ritual religioso não tinha pompa, não tinha flores,
não tinha convidados, não tinha fotos. Havia apenas um
incensário aceso sendo carregado ao redor do crematório até
completar o tempo determinado.
O som da última prece dos monges que gentilmente
realizaram a cremação terminou antes que o coveiro chamasse
o filho para se despedir pela última vez...
Ele queria se lembrar do pai como o chefe da família,
melhor do que como a pessoa que pensou em tirar a vida dele
no meio das chamas. Queria lembrar do rosto sorridente ao
buscá-lo na frente da escola. Queria lembrar da voz calma que
se dedicava a ensinar a lição de casa enquanto a mãe estava
ocupada na cozinha. Queria que o sofrimento que o pai deixou
se dissipasse junto com o corpo que aos poucos era queimado.
O corpo alto se moveu para o lado de Sria depois que o
caixão de madeira foi empurrado para dentro. O fogo de
centenas de graus Celsius foi aceso, revelando as chamas
através da pequena janela de vidro. Sria enxugava as
lágrimas; o som dos soluços ecoava periodicamente com a
tristeza.
Enquanto isso, ele permanecia imóvel. O olhar fixo no
fogo que ardia atrás do vidro de segurança, antes que a visão
outrora clara ficasse embaçada até quase não conseguir
enxergar nada. Isso porque a sensação transbordou até
ordenar que as lágrimas escorressem pelo rosto.
O momento final do pai foi simples. Não houve últimas
palavras, nenhum testamento proferido. No entanto, ele e o
pai sabiam bem que, a partir de agora, era a despedida
definitiva...
Kay despediu-se de Sria pela última vez e entregou-lhe
uma quantia em dinheiro antes de levar seu corpo exausto e
olhos sem esperança de volta para o quarto cheio de auras de
confusão. Ele se sentou em sua cadeira habitual. O rosto
voltado para o teto, sem vontade de fazer mais nada.
Abaixo dos olhos, o inchaço avermelhado denunciava o
longo tempo de choro, pois até que o corpo do pai se tornasse
cinzas, ele permaneceu ali perto, sem se afastar.
Muitas histórias do dia de hoje entravam em seu cérebro,
mas não encontravam saída. Mesmo tentando esvaziar a
mente após a perda, só conseguia deixá-la vagar até ter que
pedir ajuda ao efeito do remédio para aliviar.
— Ah...
Kay engoliu a água após a cápsula branca descer pela
garganta. A respiração já estava normal quando ele se
levantou, passando os olhos ao redor. O quarto estava cheio
de números. A faca chamada código de desbloqueio estava
cravada no meio de suas costas e afundava cada vez mais. A
única maneira de retirá-la era o número de 6 dígitos que
resolveria o enigma que aparecia na tela.
Restava apenas a última tentativa. Se falhasse
novamente, significaria que todo o esforço não teria valor. Kay
tentava se lembrar... lembrar o que aquele olhar cheio de
segundas intenções estava tentando dizer.
— Lembre-se, droga.
— ...
— Na Live Stream desta manhã, o que ele disse... O fim. O
fim está no começo.
Está no começo, é? E qual foi o começo dele com esse
assunto? Foi o dia em que começou a escrever Nekros? O dia
em que este desenho foi aos olhos do público? Ou o começo era
ainda mais distante? Voltando muito mais atrás.
Voltando ao dia em que começou a sentir. O primeiro dia
em que o pai o levou para protestar na frente da delegacia de
polícia metropolitana.
A notícia do protesto do pai, uma pequena coluna na
página do jornal, foi recortada e colada junto com outras
informações na parede. O adulto de meia-idade erguendo o
cartaz com os braços estendidos junto com a família. O
garotinho parado no meio entre o pai e a mãe, com a placa do
número do inquérito pendurada no pescoço. O número de seis
dígitos que explicava a origem do problema das dívidas da
família...
[Link]/2547
As mãos de Kay tremiam. Poderia ser uma coincidência
que o grupo de números tivesse a mesma quantidade de
dígitos. No entanto, ele estava prestes a arriscar nessa
coincidência com a última chance que tinha. As pontas dos
dedos finos pressionaram o teclado lentamente, posição por
posição. O cursor do mouse na tela estava parado sobre o
botão Enviar.
Se falhasse...
A faca cravada se fixaria ainda mais, criando uma dor que
nunca passaria. E quanto ele seria capaz de aceitar esse risco?
No entanto, se não decidisse enviar esse grupo de números,
não haveria outro caminho para desvendar o segredo do
arquivo EP_FINAL.
Clique!

Olá, Mr. Kill. Eu já imaginava que você acabaria abrindo este


arquivo. Sua determinação persistente sempre gera bons resultados.
Juro que, se estivéssemos juntos agora, você ouviria aplausos frenéticos.
Você já viu o histórico da última vítima, certo?
Viu o vídeo que eu anexei?
E o que você pretende fazer?
Você vai deixar que o ponto de partida da pessoa que fez sua
família viver um inferno continue tendo uma vida tranquila? A pessoa
que fez outras milhares de vítimas se renderem ao desespero e perderem
para a injustiça até a morte.
Você vai deixar que seja assim?
Caro Mr. Kill, eu espero ansiosamente para ver um desfecho bonito
vindo de você. Da ponta da caneta que cria a beleza que eu tanto
admiro. Espero sinceramente que você ainda não tenha esquecido o
rancor que possui e que finalmente decida que esta pessoa não merece
perdão.
Apenas escreva, grande mestre...

O quarto na extremidade do corredor costumava ser


perturbado pelo som dos carros. Hoje, porém, estava
silencioso como se permitisse que ele usasse o pensamento
plenamente. Não sabia quanto tempo fazia que seus olhos
estavam fixos na mensagem na tela e no vídeo da confissão da
vítima antes de morrer, que era reproduzido repetidamente.
Mas foi tempo suficiente para que todo o quarto ficasse na
escuridão total.
Se seguisse este jogo, não seria diferente de uma peça de
xadrez de Asura. No entanto, o histórico da vítima à sua frente
fazia com que Kay não pudesse ignorar. Os pensamentos
brigavam em sua cabeça, agoniado com a possibilidade de que
pedir ajuda pudesse se tornar a entrega da espada ao inimigo.
E ele não permitiria que fosse assim de jeito nenhum...
O fogo da vingança foi aceso pelo medo de ser traído. A voz
que ecoava por cima do ombro entrando em seus sentidos
ordenava que começasse a usar a caneta que segurava com
força.
Por que hesitar... se o programa de desenho na tela estava
aberto e brilhando, a Pen Tablet pronta para o uso e a cena do
assassinato fluindo como um rio em seu cérebro. Era a mesma
sensação daquele dia... o dia em que começou a criar Nekros
com raiva, rancor e medo.
Os dias e noites passavam repetidamente. Vários dias se
foram sem descanso. Nekros o prendia, não permitindo que se
libertasse. Da primeira página para a penúltima. Estava perto
de acabar...
A caneta traçava linhas pretas intensas, conectando
formas conforme as características extraídas da vítima.
Imaginando o rosto que antes era severo agora implorando
pela vida com um olhar desesperado. Cada detalhe era como
uma sentença que purificaria o carma que esperava para
retribuir a maldade que ele havia feito.
A imundície terminou sob o martelo que golpeava a
cabeça até despedaçá-la. Gotas de sangue respingavam no
rosto sorridente de Nekros, que finalmente chegava ao fim...
que era como o começo.
— Acabou...
— ...
— ... acabou.
Suas mãos tremiam, o corpo tremia. A crise de pânico
atacou até que ele tivesse que pegar o remédio e colocar na
boca. O traço da ponta da caneta mostrava a verdadeira
identidade de Mr. Kill que estava escondida. Agora, estava
pronto para retornar e encerrar tudo com perfeição.
Kay apertou para fazer o upload do arquivo no grupo de
fãs de Mr. Kill que Praew criou com sua conta pessoal. Em
poucos segundos, as notificações chamaram os seguidores de
volta. O número de compartilhamentos e comentários subiu
rapidamente, tornando-se o assunto número um em todas as
plataformas.
Ele enxugou as lágrimas, olhando para a obra que estava
começando a queimar o sistema podre novamente. E desta
vez, ela chegava à última vítima, o oficial de polícia que tinha
ligação com o caso da instituição financeira Thai Investment e
que ainda estava vivo. O policial que detinha o poder máximo
na delegacia de polícia metropolitana.
Coronel Chaiwat Traikanawut.
Rrrr...
— Alô...
— Você tem noção da loucura que está fazendo? Já parou
para pensar no que está fazendo?!
A primeira ligação que atendeu foi a que entrou durante o
período em que Kay estava mergulhado nas sombras. Ele se
preparou para lidar com a carga emocional de Phat, que não
conseguia controlar o tom de voz furioso ao enviar perguntas
inquisidoras.
— O inspetor já recebeu o arquivo que eu enviei? Já viu
quem é a última vítima? Então por que ainda duvida do que eu
fiz?
— Kay, você deveria ter enviado para mim, não criado
uma vítima para o assassino novamente.
O olhar refletido na tela do computador era de uma frieza
assustadora. Ele deixou que o demônio dentro de si se
levantasse da cova onde fora enterrado para influenciar sua
decisão. Não se importava com o processo legal ou até mesmo
com os sentimentos da pessoa que lutou ao seu lado no
caminho.
Apenas porque ele estava prestes a escolher um lado
completamente...
— Eu já decidi...
— Kay.
— E o senhor inspetor deveria respeitar minha decisão.
— Kay, Kay, espera...

O som de um cantarolar de uma melodia familiar, como


uma canção de ninar de antigamente que costumava ouvir
quando a mãe o abraçava para dormir. Praew balançava a
cabeça conforme o ritmo lento, ao lado de Prim, que estava
concentrada na tela do tablet.
O último capítulo, julgado por Mr. Kill, penetrou
profundamente no cérebro desde a primeira vez que terminou
de ler. Praew levou Nekros para Prim, que ainda estava se
recuperando em casa. O olhar estava cheio de esperança,
observando a pessoa que estava mergulhando fundo.
O último quadro do desenho estava escuro. A palavra End
era como uma despedida. O fim foi criado com perfeição e
estava pronto para que Nekros o encerrasse.
Praew segurou a mão da pessoa que a olhava antes de dar
um sorriso largo. Um sorriso cheio de gratidão...

Phat tentava ligar para a linha que foi cortada antes


mesmo de ele terminar de falar, enquanto caminhava para a
sala de trabalho no andar superior da delegacia de polícia
metropolitana. Depois de ler o último capítulo de Nekros com
uma sensação de confusão, a informação da vítima que Asura
enviou fez Phat lembrar do que encontrou no arquivo do caso
da instituição financeira Thai Investment. O tio dele fazia
parte da equipe de investigação do caso, algo que ele nunca
havia mencionado.
— Tio.
— Diga, Phat.
O rosto sereno estava focado na tela do computador. Phat
entrou na sala sem pedir licença. O tio olhou para cima
levemente, como se o repreendesse.
— Posso perguntar uma coisa ao senhor?
— ...
— Por que o senhor não me disse que também trabalhou
no caso da instituição financeira Thai Investment com o meu
pai?
Chaiwat ouviu com uma atitude calma. Por já ter passado
por muita coisa, entendia o calor como fogo de Phat e sabia
como apagá-lo. O dono da sala se levantou em toda a sua
altura. Suas pernas longas caminharam até parar na frente do
sobrinho antes de falar com uma voz profunda.
— O tio pede desculpas por nunca ter contado ao Phat.
— ...
— Mas o tio precisou fazer isso. Senão, o tio poderia ter
tido o mesmo fim que o pai de vocês.
Phat não sabia qual era essa necessidade, mas não
conseguia suportar que a outra pessoa colocasse a mão em
seu ombro, tocando seu corpo com o carinho de sempre.
— E... e o Kitti? O inspetor Kitti.
— ...
— O senhor não fez isso, não é?
— Phat.
— ...
— O tio fez porque era necessário... caso contrário, quem
estaria morto seria você, e não o Kitti.
A voz gélida o congelou como se tivesse sido jogado em um
poço de temperatura negativa. Phat sentiu como se tivesse
levado um tapa com a confiança estilhaçada vinda da pessoa
que era seu modelo de vida.
— Entende o que o tio está dizendo?
— Eu não entendo.
— Se for assim, o tio não tem nada para conversar com o
Phat.
Não havia sequer um pouco de arrependimento no que o
tio fez. A atitude era de quem não se abalava, como se fosse
algo normal. Chaiwat voltou a se sentar na cadeira da mesa de
trabalho. Cruzou os braços olhando de uma maneira que o
sobrinho nunca tinha visto antes. O olhar de desdém de quem
detém o poder e sabe que está acima de todos.
— Phat também fique quieto, não dê entrevistas sobre o
assunto do tio... quanto ao fato de eu estar sendo ligado ao
final desse assassino em série maldito...
— ...
— Deixe que ele comece.
Phat cerrou os punhos com força olhando para o demônio
no corpo de seu benfeitor. Chaiwat parou de lhe dar atenção
até que ele mesmo teve que sair da sala com os olhos
marejados. O rosto voltou-se para o teto quando saiu de vista.
Não era hora de ser fraco, mesmo sentindo que estava sendo
deixado sozinho.
Seu apoio importante, além de Praew, era apenas o tio
Chaiwat, o irmão mais novo do pai que o criou desde criança,
apoiando os dois irmãos órfãos sem deixar faltar nada. A
pessoa que Phat pensava ser a última no mundo que
quebraria suas asas com as próprias mãos que o acolheram.
Rrrr...
Kay
Antes mesmo de conseguir processar o que acabara de
enfrentar, parecia que um novo problema furava a fila. As
sobrancelhas se franziram em um nó no momento em que ele
entrou para ler a mensagem do escritor que agora estava
fazendo tudo de forma imprevisível.
— Peço desculpas, senhor inspetor...
— Desculpas... desculpas pelo quê, droga?
Ele não se importava com aquele pedido de desculpas. O
que era mais importante agora era o que a pessoa que enviou a
mensagem estava planejando fazer. Phat deixou o assunto do
tio Chaiwat para Singh resolver, enquanto ele seguia direto
para o condomínio de Kay. Não esqueceu de pedir a Din para
rastrear o sinal de telefone dele, que já havia sido desligado.
Phat bateu na porta do quarto por um longo tempo até
decidir destravar a fechadura com sua habilidade especial. O
coração batia fora de ritmo, temendo que algo ruim tivesse
acontecido com a pessoa que, de repente, desapareceu.
O quarto estava vazio. Não havia sinal de vida. A mesa e a
cadeira estavam arrumadas. Na parede, havia informações do
caso de assassinato em série e esboços do último capítulo de
Nekros espalhados pelo chão.
— Para onde ele foi...
Phat ligou pela décima vez, tentando contatar as pessoas
ao redor de Kay com o coração tão quente que parecia prestes
a explodir. O número de telefone do editor da editora onde ele
trabalhava foi a primeira opção.
— Olá, editor. Eu sou o inspetor Yosapat.
— Sim, inspetor Phat. Em que posso ajudar?
— O Kay está na editora? É que não estou conseguindo
falar com ele.
— Ele não está mais, inspetor... quero dizer, ele entregou
o pedido de demissão há alguns dias. Agora está tudo uma
confusão porque o desenho ainda não terminou...
— Obrigado.
Phat não esperou o outro terminar de falar. Ele desligou e
procurou outro número que conseguiu porque investigou a
outra pessoa até a casa na comunidade carente. O número da
tia que cuidava do pai de Kay.
— Olá, é a Sria?
— Sim. Aconteceu alguma coisa?
— Eu liguei para perguntar se o Kay está na casa do pai
dele agora. Eu gostaria de falar com ele.
— Eu não trabalho mais naquela casa. E o senhor Kay
provavelmente não estaria lá também.
— ... Então, a senhora sabe para onde o Kay foi?
— Sinto muito, mas depois que o pai do senhor Kay
faleceu, eu não tive mais contato com ele.
— O pai do Kay morreu?
— Sim. Faleceu no início da semana.
Phat agradeceu antes de desligar. Os olhos arregalados. O
cérebro parecia em um estado onde não conseguia engolir nem
cuspir. A mão que segurava o telefone tremia ao lado do corpo.
O órgão dentro do lado esquerdo do peito batia acelerado ao
saber da notícia.
Ele se concentrou, fechou as pálpebras. Tentou lembrar
quem mais ao redor de Kay poderia conhecê-lo, mas estava
tudo vazio. Parecia que tudo foi planejado para esperar desde
antes do último capítulo de Nekros ser enviado para o mundo
da internet. Um pressentimento lhe dizia que ele estava
tentando apagar sua identidade, escondendo-se da raiva,
decepção, confusão ou o que quer que fosse, novamente, como
fizera antes.
Kay estava pregando alguma peça ou estava se
preparando para fazer algo depois de deixar o caos para trás
com sua própria caneta...
Phat saiu do quarto de Kay e foi direto para a casa do tio
Chaiwat, que agora estava cheia de unidades de proteção da
delegacia de polícia metropolitana. Embora a segurança da
casa já fosse muito forte, a pessoa que desafiou o sistema de
Nekros ainda não estava satisfeita. Dezenas de oficiais,
incluindo o subordinado que ele ordenou que viesse observar,
Singh, estavam lá.
A atmosfera externa estava silenciosa como de costume.
Em cada canto do muro da casa, havia grupos de oficiais
vigiando atentamente. Phat caminhou até seu subordinado
antes de Singh relatar o progresso durante o tempo em que ele
esteve ausente.
— Como estão as coisas?
— Nenhum sinal de invasores... e também não vi sinal do
senhor Kay.
— Entendi.
— Mas a irmã do inspetor, a senhorita Praew, acabou de
sair agora há pouco.
— A Praew veio aqui?
— Sim. O senhor Chaiwat permitiu que ela entrasse para
encontrá-lo.
Phat deu a ordem para que os seguranças abrissem a
porta sem esperar que Chaiwat respondesse ao pedido. Ele
não estava tranquilo porque o instinto vinha avisando há
algum tempo que Praew estava mudando. Dentro da casa
grande, na sala de trabalho que a outra pessoa costumava
usar para receber convidados, não encontrou ninguém. Havia
apenas uma xícara de café quente que ainda soltava fumaça e
um aroma perfumado.
Um nó na garganta foi engolido com dificuldade. Phat
rezava para que não fosse o que ele pensava enquanto ligava
para sua única irmã e, claro, ninguém atendia. Incluindo seu
tio, que ele procurou por toda a casa, mas não encontrou.
— ... Deem ordem para todos os oficiais se espalharem
para as buscas...
Phat enviou a voz pelo rádio, informando sobre o
desaparecimento do comandante máximo da delegacia de
polícia metropolitana. Enquanto isso, com a voz trêmula,
ordenava que os oficiais de TI rastreassem o número de
telefone de Praew.
O coração dele provavelmente se despedaçaria de verdade
se tudo fosse como pensava. Sua única irmã, que ele protegeu
a vida inteira, neste momento poderia estar levando a última
vítima para entregar nas mãos de Nekros.

O portão alto abriu-se para receber o carro de placa


familiar para entrar na mansão de luxo no centro da capital
que agora estava fortemente protegida. A sobrinha mais nova
carregava uma grande quantidade de comida como presente
para o tio Chaiwat, que recebeu Praew em um abraço assim
que ela chegou, antes da refeição especial entre tio e sobrinha
começar...
Praew olhava para o rosto cheio de felicidade dele. Ele
saboreava a sopa quente enquanto comentava que o fato de
estar sendo visado pelo assassino Nekros era apenas uma
bobagem. A mão bonita dela apoiava o braço na mesa,
observando a pessoa indiferente com um olhar difícil de
prever. Ela esperou até que o outro se afastasse do prazer à
sua frente. Não tinha pressa para que a situação seguisse o
que o dono da editora planejou para ela.
A dúvida que não foi sanada fez com que Praew
escolhesse entrar escondida na sala de trabalho de Than sem
permissão. Na tela do computador ligado, pastas de
informações importantes tinham tudo o que ela estava
procurando. Seus olhos refletiam as letras na capa do
inquérito mencionando os eventos ocorridos com todas as
vítimas. A ligação com a instituição financeira Thai
Investment, pela qual seu pai foi responsável pelo caso antes
de morrer, deixando o mistério e uma quantidade de
evidências que desapareceram, fazendo com que a
investigação fosse encerrada. E fez com que o pai deles fosse
estigmatizado pela sociedade como tendo ajudado a encobrir
os erros dos verdadeiros criminosos, que eram executivos de
alto escalão.
Mas antes que pudesse ler todos os arquivos, o dono da
sala apareceu na sua frente com um sorriso, em vez de
xingamentos. Praew tentou encontrar uma desculpa, embora
a evidência estivesse diante de seus olhos de que estava
tentando fazer algo errado. A situação era desconfortável, mas
Than apenas caminhou até ela para resolver isso com a ponta
dos dedos que pressionaram para abrir o arquivo. O arquivo
que parecia desbloquear o que Praew estava procurando.
— Eu não estou bravo com você... Se fosse eu, também
teria dúvidas.
— ...
— Termine de ler... até lá você mesma saberá como
decidir o que fazer a seguir.
E o que estava naquela pasta de informações fez com que
Praew estivesse sentada na frente do tio Chaiwat hoje, com
comida nas mãos e a raiva ardendo em sua alma.
A mão grossa do tio Chaiwat mexeu na camisa polo para
afastar o calor no peito. Ergueu o copo com o líquido gelado até
os lábios, esperando que a sensação estranha que surgiu de
repente desaparecesse. Enquanto isso, o cérebro tentava
processar as frases que não faziam sentido vindas de sua
sobrinha.
— E como o senhor tem tanta certeza... de que é uma
bobagem?
— ...
— Ou será porque o senhor acha que não restam
evidências que cheguem até o senhor, não é?
Baam!
Tum!!
A testa atingiu o espaço vazio na mesa, ecoando por toda
a casa silenciosa. Chaiwat ficou imóvel com os dois braços
caídos ao lado do corpo, mas Praew não se assustou nem um
pouco. A única sobrinha olhou para sua obra calmamente
antes de começar a seguir o plano que foi traçado
minuciosamente.

Uma noite em uma das estações em que a temperatura


baixava mais do que todos os anos. A brisa fria atingia o corpo
em ondas. Às vezes, tão gelada que ele precisava esfregar as
mãos esperando alívio. O olhar vazio sob o cabelo que cobria o
rosto, mesmo que ele o tivesse jogado para trás várias vezes
até começar a se irritar. Kay estava sozinho no terraço de um
prédio alto. Fugindo da confusão e do medo ao ver as notícias
sobre o desenho vindo de sua própria caneta nas televisões por
toda a cidade.
Ele não olhava o calendário há muito tempo. Não
lembrava mais que dia era hoje, mas lembrava com precisão
que acabara de ferir os sentimentos de alguém com a decisão
de escrever o último capítulo de Nekros. Kay seguiu o jogo de
Asura voluntariamente. Deixou o demônio sair para destruir
as boas amizades do passado e voltou para se sentir culpado
depois de ter tempo para olhar para trás, para o tempo em que
ele e o inspetor enfrentaram as coisas juntos.
Kay enviou a mensagem não apenas querendo pedir
desculpas por decepcionar o outro. No entanto, pedia
desculpas porque tudo o que fez reafirmava que, a partir de
agora, o caminho deles seria como linhas paralelas que nunca
se cruzariam.
Os olhos refletiam o céu totalmente escuro. Na capital
cheia de luzes, as estrelas não conseguiam se exibir. Mas a
altura onde ele estava era suficiente para ver pontos
brilhantes não muito longe. Pelo menos, esta noite não era tão
cruel com ele, embora ele fosse a pessoa cruel que criou um
personagem distorcido como Nekros...
10
O corpo alto permanecia parado e imóvel, deixando a
brisa lavar sua mente e aliviar o estresse acumulado que
deixava seu cérebro vazio, no topo do prédio da editora onde
ele havia subido secretamente pela escada de incêndio que
nunca ficava trancada.
Kay entregou sua carta de demissão após a partida de seu
pai, ao mesmo tempo em que recebeu o e-mail da Asura. O que
havia ali era como a resposta para todos os testes passados; a
proposta tornou fácil a decisão de encerrar esse assunto junto
com ele e o assassino em série Nekros, que estava se
divertindo na escuridão, esperando o dia de brilhar após o
capítulo final do quadrinho ser lançado.
O conteúdo do capítulo final já circulava na internet. Kay
decidiu arrumar seus pertences essenciais e esperar a hora,
limpando o lixo do quarto quadrado onde morava até que ele
ficasse estranhamente vazio. A foto polaroide que ficava sobre
a mesa de trabalho foi guardada na carteira; ele não se
esqueceu de se despedir do gato gordo que o acompanhava há
tanto tempo, desejando que, de agora em diante, ele tivesse
uma vida boa ou encontrasse alguém que o abraçasse para
que não fosse mais um gato de rua como era hoje.
— Ah...
Conhecer o inspetor fez com que sua vida miserável
tivesse mais propósito. Embora a ponta de sua caneta fosse o
início de tudo, a confiança fez com que a outra pessoa nunca o
culpasse nem uma vez, dizendo que o fato dos assassinatos
em série de Nekros terem acontecido era culpa dele. Muitas
vezes ele perdia o controle e se culpava, mas as mãos de Phat
eram a única coisa que recuperava sua confiança de que ele
não era um assassino.
Kay não acreditava em justiça, pois nem uma vez em sua
vida ela trabalhou a seu favor. A podridão do processo legal fez
com que, muitas vezes, ele mesmo escolhesse apoiar o
vigilantismo criado pelas mãos de qualquer um na sociedade.
No entanto, um dia, quando isso aconteceu com ele, com o
quadrinho que ele escrevia, a satisfação daquele dia
transformou-se gradualmente em medo e paranoia. Ter que
lutar contra isso sozinho corroía sua mente, destruindo-a
lentamente.
No momento em que ele estava ficando sem saída, outra
pessoa apareceu. Embora no início tudo parecesse cheio de
pressão, depois de se entenderem gradualmente, ter o inspetor
ao seu lado para ajudar a encontrar uma solução fez com que
ele visse, pelo menos, um pouco de luz na vida.
Isso fez com que Kay não pudesse empurrar esse fardo
sem saída para a outra pessoa e, menos ainda, quisesse deixar
Phat continuar arriscando a vida com isso. A única saída para
essa história era ele; ele, que era a causa e que seria a pessoa a
encerrar tudo.
Os dois braços se apoiaram no parapeito da grade. Ele
abaixou o rosto sobre os braços, revisando a situação de
acordo com as linhas que foram desenhadas. O assassino que
o idolatrava agiria exatamente conforme o que Mr. Kill
escreveu. Ele queria que ele se orgulhasse; sendo assim, o
plano traçado começaria em breve.
Kay batia a ponta dos dedos no ritmo, fechou os olhos
imóvel e respirou fundo até encher os pulmões, antes que uma
mensagem aparecesse no telefone com um link para uma
transmissão ao vivo.
Rrrr...
Está começando...
Vai terminar em pouco tempo...
Dentro do laboratório da polícia rodoviária, dezenas de
telas de televisão mostravam imagens das câmeras de
segurança de todas as estradas. Phat estava parado, correndo
os olhos à procura do carro pessoal de sua única irmã, que
havia desaparecido de casa com o Tio Chaiwat há 30 minutos.
O homem alto cruzou os braços, sem desviar o olhar das
imagens à sua frente, assim como todos os policiais.
— Ali, achei!
— Virou para fora da cidade, câmera número 118.
A imagem na tela grande alternava seguindo o movimento
do carro de Praew. A expressão de preocupação evidente do
irmão mais velho começou a temer o evento que ainda não
havia ocorrido. Phat tentava encontrar razões para refutar seu
cérebro, que acusava sua própria irmã de estar levando a
última vítima até a frente do pátio de execução. No entanto, ele
não conseguia encontrar um motivo bom o suficiente para
descartar essa suspeita.
Praew parecia ter mudado a ponto de ele não poder mais
confiar nela, desde que se envolveu na produção de conteúdo
sobre o caso Nekros, tendo ainda um chefe como Than
comandando os bastidores. Fãs que antes eram apenas
seguidores podem ter se tornado detentores de informações
das vítimas que foram usadas como modelo nos casos de
assassinato.
Phat observava a tela com pressão. O carro de Praew já
havia saído do alcance de gravação das câmeras de segurança.
Os guardas de trânsito, que colaboravam plenamente,
ajudavam uns aos outros a procurar o carro que havia sumido
da rota. Seu coração batia forte toda vez que via a imagem de
um carro de características semelhantes passar na tela,
enquanto rezava para que o telefone, que ainda não havia sido
desligado, atendesse sua chamada antes que tudo ficasse fora
de controle.

Um prédio abandonado no subúrbio, localizado longe da


comunidade. O exterior era coberto por grandes árvores com
galhos que bloqueavam até mesmo a luz fraca da lua de entrar
pelas janelas. A única iluminação daquele espaço aberto era a
luz preparada para criar a cena final da vítima, que serviria
como a conclusão do caso do assassino em série Nekros.
O corpo alto de um homem de meia-idade estava
amarrado a uma cadeira. As duas mãos, postas sobre os
braços da cadeira, estavam enroladas com cordas tão
apertadas que formavam marcas vermelhas. A cabeça
abaixada sobre o peito se movia lentamente, pois o efeito da
droga ainda agia, mesmo tendo se passado quase uma hora.
A visão estava turva. As pálpebras piscaram para ajustar
a paisagem à sua frente, antes de descobrir que a pessoa
parada ali com os braços cruzados não era um estranho, mas
sim sua única sobrinha.
— P-Praew?
— ...
— Por que você está fazendo isso com o tio?
As sobrancelhas finas se franziram em um nó enquanto
ele perguntava com dúvida. O olhar, que acabara de recuperar
sua capacidade total, percorreu o ambiente com preocupação.
A atmosfera não era favorável; uma certa aura se espalhava
por todo o lugar. O teto alto refletia o som do vento que
passava pela estrutura de ferro enferrujada. O vazio não trazia
sensação de segurança, mas sim oprimia até que a respiração
ficasse curta.
— O senhor deveria saber muito bem por que estou
fazendo isso.
— O tio acha que você está entendendo algo errado.
— Ela não está errada.
— ?!
— A Praew entende tudo perfeitamente.
A aparição de um novo personagem fez os olhos do
policial se arregalarem. Chaiwat conhecia muito bem o rosto
daquela pessoa através do programa de análise de notícias de
crimes que estava em alta. O caso em que o assassino escolhia
as vítimas por sua maldade, julgando-as com um tribunal
paralelo que imitava um quadrinho famoso, sem se importar
com as críticas do processo judicial ou mesmo temer a lei.
— V-você!?
— A Praew me pediu para dar a oportunidade para o tio
dela falar a verdade primeiro. Diga para nós dois: que crimes
você cometeu?
Ele se aproximou com a arma que, no inquérito, foi
concluída como sendo o objeto usado para assassinar todas as
vítimas. Um martelo de tamanho ajustado estava firme na mão
de Than. Sua cor prateada brilhante refletia a luz, atingindo os
olhos de Chaiwat até que ele tivesse que virar o rosto para
desviar.
— Mas se você ainda escolher mentir... temo que esta
oportunidade seja desperdiçada.
Um sorriso largo no rosto, mais assustador do que
amigável. Ele parou imóvel ao lado de Praew, que não dizia
nada. Chaiwat tremia de medo a ponto de Than rir
discretamente, mas ele próprio não se importava com isso,
pois a única coisa importante agora era persuadir a sobrinha a
seguir suas palavras.
— Praew, você está entendendo o tio errado. Você está
sendo manipulada por ele. Ai!!!
A força do impacto do metal pesado atingiu a mão. O som
da pancada ecoou junto com a dor que percorreu todos os
nervos, como se os ossos dos dedos tivessem se estilhaçado.
Chaiwat gemeu de dor, que penetrava cada terminação
nervosa. Than continuava conduzindo tudo sozinho, como se
fosse um diretor, enquanto Praew não se movia, mesmo que
seu benfeitor estivesse sofrendo a ponto de quase não
aguentar. Chaiwat cerrou os dentes, contendo a fraqueza e
olhando para frente.
— P-Praew...
Os equipamentos na mala foram retirados e organizados
pelas mãos de Than, que acabara de punir quem ousou mentir
descaradamente. A câmera digital foi fixada no tripé junto com
o cabo conectado ao telefone para enviar o sinal de imagem ao
destino.
Than parecia estar correndo em um país das maravilhas.
Não conseguia conter a alegria, que transbordava em seu rosto
sorridente; às vezes, deixava escapar um cantarolar de
empolgação por tudo estar seguindo o plano que seu deus
havia criado para ele.
Enquanto ele estava ocupado com os equipamentos a
ponto de não notar, Chaiwat aproveitou aquela brecha para
resgatar histórias do passado e contar para Praew, esperando
que ela se comovesse.
— O tio fez tudo para proteger vocês...
— ...
— Mas nada vem de graça. Tudo tem um preço de troca.
O som de gritos e xingamentos ecoou por toda a casa. Os
dois irmãos de sangue estavam frente a frente, proferindo
palavras sem se importar se isso criaria rachaduras no
relacionamento. O Capitão Papaphat estava tão furioso que
quase explodiu quando seu irmão mais novo se envolveu com
as evidências do caso da instituição financeira Thai
Investment. Embora Chaiwat alegasse que fez isso por boas
intenções, o fato de ter feito as pistas do caso se perderem não
era diferente de tentar interferir para que tudo ficasse ainda
mais caótico.
— O senhor tem que encerrar esse caso. Esqueça-o, deixe
que acabe e não tente mais desenterrar nada!!
— Eu estou fazendo o que é certo, Chaiwat. Você é quem
tem que parar de se meter nisso.
— ...
— Eu não vou me curvar ao que não é correto.
Chaiwat cerrou os punhos. O ressentimento que vinha se
formando há muito tempo estava entrando em erupção em
palavras impensadas. Embora manter uma posição firme
fosse algo digno de respeito, essa determinação poderia
destruir tudo, não apenas a vida de Papaphat, mas também a
vida de todos na família, a vida de Chaiwat, e afetaria sua
carreira em níveis mais altos...
— Vou avisar o senhor mais uma vez... o que o senhor
está fazendo vai destruir nossa família.
— ...
— Pare, antes que eu perca a paciência.
— Isso é problema seu.
Papaphat se afastou sem olhar para trás para seu irmão.
E aquela foi a última vez que os irmãos tiveram a oportunidade
de conversar antes que um acidente tirasse a vida de Papaphat
e seu esposo para sempre, deixando apenas a suspeita de que
todas as evidências desaparecidas sem rastros foram obra de
Papaphat, que usou seu poder para ajudar os culpados no
caso da instituição financeira Thai Investment a escaparem
das acusações por falta de provas claras. Isso desencadeou a
tragédia das vítimas que foram pressionadas por falta de
saída, tornando-se um estigma para os dois sobrinhos nos
braços de Chaiwat.
A criança já era grande o suficiente para saber o que
aconteceu com seus pais. O rosto banhado em lágrimas se
apoiou no ombro do tio enquanto o fogo queimava os
progenitores que deixaram uma ferida sem dizer como curá-la.
Ela nunca cicatrizou, tornando-se uma marca profunda no
coração dos dois irmãos para sempre...

Anteriormente, Phat ainda estava sentado vigiando a tela


quadrada, esperando por informações da polícia rodoviária. Já
entrava na primeira hora, mas não encontravam pistas
adicionais. Ele se afastou porque a localização do sinal do
telefone indicava que Praew estava no condomínio. No
entanto, ao chegar, havia apenas o telefone de luxo de sua
irmã sobre o sofá, sem sinal da pessoa que procurava. O
homem alto sentou-se, segurando as duas mãos. Phat sentia
que agora estava sendo arrastado para um labirinto sem
saída. Quanto mais tentava procurar Praew, mais parecia se
distanciar, incluindo Kay, que também havia perdido o
contato repentinamente.
Ele estava sem saída. Sua mente não estava vazia, mas
sim desordenada e sem direção. Nada o guiava para a
resposta. A escuridão rastejava gradualmente, devorando sua
mente aos poucos com a tortura da preocupação.
— Maldição...
Rrrr...
O som de notificação do telefone tocou. Uma caixa de
mensagem de um número não identificado mostrava um link
para uma transmissão ao vivo. Phat olhou para a tela,
hesitando por um momento antes de decidir clicar para sanar
a dúvida.
As sobrancelhas finas se franziram. O rosto se aproximou
para olhar a imagem no telefone. Uma sala de concreto
aparente, ampla como um escritório, com teias de aranha
penduradas e lixo espalhado pelo chão. No meio da sala, havia
a figura de uma mulher que parecia familiar, parada de costas
para a câmera; à frente dela, aparecia o homem de meia-idade
que ele conhecia muito bem, amarrado à cadeira, explicando
algo com uma expressão séria.
— Tio Chaiwat.
— ...
— Praew?
O ângulo da câmera mudou para mostrar o rosto de perfil
de ambos. A imagem falhava em alguns momentos, mas ainda
se ouviam as palavras da boca de Chaiwat claramente. O
passado que aconteceu com seu pai e seu tio era algo que Phat
nunca soube. A verdade vinda da boca de Chaiwat parecia
estar desfazendo as suspeitas sobre seu pai, mas ao mesmo
tempo o prendia firmemente. Ele não podia fazer nada além de
fechar o punho e deixar aquelas palavras de confissão se
repetirem em sua mente.
No canto superior da tela aparecia o símbolo de
transmissão ao vivo, indicando que ainda não havia ocorrido
perigo com ninguém naquele momento. Mas ninguém podia
garantir por quanto tempo a situação seria mantida. Phat
preparou-se para sair à procura, mesmo sem direção, pois era
melhor do que ficar parado. Cada segundo perdido, Praew
poderia se distanciar ainda mais, assim como o fogo da raiva
dentro dele estava começando a explodir por causa do que o
tio fez.
Ele enviou os dados do telefone para Din rastrear a
localização. Foi nesse mesmo instante que a chamada que ele
tentou o dia todo foi atendida de volta.
— Onde você está? Por que não atendeu o telefone?
— ...
— Kay.
— O inspetor recebeu o link da transmissão como eu, não
é?
A voz rouca perguntou em vez de responder. Phat hesitou,
pois pensou que era a única pessoa a ter recebido a
mensagem. E isso o deixou ainda mais preocupado ao
imaginar que muitos outros poderiam ter recebido aquilo,
vendo o rosto de Praew claramente como cúmplice do
incidente. Mas esse pensamento foi descartado imediatamente
quando Kay falou como se soubesse o que ele estava temendo.
— Ele enviou apenas para nós dois.
— Por que apenas para nós dois?
— É o Convite Final ou o convite para o pátio de
execução...
— ...
— Que quer que eu e o inspetor sejamos testemunhas da
cena final deste capítulo.
Phat engoliu em seco com dificuldade. O suor escorria
pelo contorno do rosto ao ouvir a explicação da outra parte.
Ele não queria nem pensar na pior possibilidade. Sendo
assim, Phat tinha que chegar ao destino para impedir antes
que tudo fosse tarde demais para consertar.
— Eu sei onde a Praew está.
— E onde você está agora?
— ...
— Kay, você pode me ajudar...
— ...
— ...por favor.
— Venha me buscar no prédio da editora.

A cena dessa peça ainda não havia terminado. O vídeo da


transmissão continuava. Chaiwat confessava tudo com o rosto
banhado em lágrimas diante da sobrinha, que permanecia
imóvel, a ponto de não se poder adivinhar o que ela estava
pensando.
— O fato de o tio ter tido que deixar seu pai morrer foi
para salvar a vida do Phat e a sua.
— ...
— Foi uma ordem do chefe. Naquela época, ninguém
podia recusar.
A voz trêmula continha o soluço para convencê-la a
entender o que foi perdido em troca de deixar algo permanecer.
As palavras eram cheias de lamentação, como se não houvesse
escolha, como se tivesse sido forçado a fazer o que não queria.
Embora o olhar refletisse culpa, Praew não a aceitou. Porque
aquilo não era vergonha, mas sim o egoísmo de o tio ter
deixado seu pai carregar as acusações, sendo que seu pai era o
policial que não se rendeu ao poder, como o Tio Chaiwat se
rendeu a ele.
— Foi por isso que o senhor teve que armar a morte do
Capitão Nop e do Inspetor Kitti, não foi?
— ...
— Para que o senhor pudesse encobrir o crime, a sujeira
que o senhor mesmo causou.
— Praew.
A expressão de quem está em um beco sem saída foi a
resposta clara de que Chaiwat foi quem assassinou seus
próprios subordinados, para que ninguém chegasse à origem e
para que o crime que ele cometeu não fosse exposto.
— Pois bem, caros espectadores... parece que a confissão
de pecados deve terminar por aqui.
Than virou a câmera para si mesmo, abrindo um sorriso
gradualmente até que preenchesse seu rosto, e então
interrompeu com uma voz empolgada, como um apresentador
encerrando um programa.
— Eu esperei o momento de caçá-los um por um, um por
um... até estarem todos.
— ...
— Porque queria saber quem era o culpado escondido nas
sombras, o que agora todos devem saber junto comigo, não é?
— ...
— Agora, a cena do capítulo final está pronta.
A câmera cortou imediatamente após ele terminar de
falar. Than manteve o sorriso por um momento antes que ele
desaparecesse e o rosto antes alegre se tornasse frio. O corpo
alto e esguio aproximou-se para ficar ao lado de Praew, que
não conseguia aceitar a realidade de quão terrível seu tio era.
Ela deixou as lágrimas que continha escorrerem, olhando para
Chaiwat sem nenhuma compaixão. Than tomou a liberdade de
abraçar os ombros finos, acariciando-os suavemente para
consolar.
— Praew, me escute... matar esse tipo de gente não exige
culpa.
— Praew, não dê ouvidos a ele. Praew!
— Cale a boca!!!
Slap!
As costas da mão atingiram a bochecha. A cabeça da
pessoa amarrada virou com a força do tapa. A cadeira
balançou, quase caindo no chão. Chaiwat tremia tanto de
medo quanto de raiva por estar sendo humilhado. Ele engoliu
o sangue com gosto de ferro na boca antes de levantar o rosto
avermelhado para olhar a sobrinha, que agora estava
escondida por Than, impedindo-o de ver sua expressão.
Than abraçou Praew. A altura superior fazia com que
Praew não pudesse mais ver o tio, antes de ele continuar a
frase que foi interrompida.
— Matar esse povo não exige culpa... não pense neles
como humanos, porque o que eles fizeram foi pior do que
animais.
— ...
— Entende, não é?
Um aceno de cabeça em resposta despertou o sorriso
escondido. Than deu tapinhas leves nas costas de Praew, mas
firmes o suficiente para alertar a consciência da outra sobre o
que prometeram na sala de trabalho naquele dia. Ao mesmo
tempo, a luz dos faróis de um carro do lado de fora refletiu em
seus olhos.
— Vamos começar... parece que os convidados chegaram.
Than se afastou de Praew e caminhou em direção a
Chaiwat. A confusão nos olhos de tio e sobrinha e dos
convidados que estavam chegando fez com que a situação
fosse apressada para dar tempo à encenação da grande cena.
— Praew... o tio aceita seu julgamento. Se você quer que o
tio morra, o tio não vai recusar.
— Snif...
— O tio quer que você saiba que...
Antes que Chaiwat pudesse terminar de falar, sua
sobrinha pegou um pedaço de tijolo no chão, ergueu-o alto e
preparou-se para arremessar. O homem de meia-idade fechou
os olhos com força, preparando-se para o impacto, mas aquele
tijolo foi atingido na cabeça de Than até que ele caísse no chão.
— Ai!!!
O sangue vermelho escuro jorrou. Than gritou de dor,
levando a mão ao ferimento, enquanto Praew corria para
desamarrar os nós das cordas que prendiam seu tio.
— A... a morte é fácil demais para o que o senhor fez com o
meu pai... o senhor tem que viver para ser responsável pelo
que fez!!
— P-Praew.
Chaiwat focou sua atenção nas palavras de Praew,
enquanto ela mesma apenas abaixava a cabeça tentando
desamarrar os nós, de modo que ninguém percebeu que o
dono do rosto coberto de sangue levantou-se totalmente. Sua
sombra se projetou bloqueando a luz da lâmpada neon. O
olhar brilhante e fixo era de arrepiar; não era o Than que
Praew conhecia, mas sim o verdadeiro Nekros que estava
esperando para aplicar a punição, sem se importar mais de
que lado a jovem estaria.
— Que perda de tempo.
Baque!!
Praew ficou imóvel no chão com o impacto do martelo na
nuca. Da mesma forma, Chaiwat agora estava sendo
arrastado, ainda amarrado à cadeira, pelo corredor em direção
à sala de execução preparada. A ponta da língua lambia as
gotas de sangue que escorriam da cabeça e tocavam os lábios.
Os olhos fixos na escuridão à frente; estavam cheios de
vingança.
Chegou a hora de encerrar o capítulo final do que se
arrastava por tanto tempo. Chegou a hora de todas as contas
serem ajustadas...
— Hunf.

O motor parou em frente ao prédio abandonado, no fundo


de um beco isolado cercado por mata. Kay permaneceu em
silêncio durante todo o caminho após definir o destino no
aplicativo, assim como Phat, que escolheu não perguntar,
deixando o silêncio como ondas sob o mar agir, embora seu
coração estivesse ardendo em chamas.
— Eu só sei que é aqui, mas não tenho certeza onde.
— Então vamos nos separar. Se encontrar algo, me ligue
imediatamente.
— Sim.
— ...
— O inspetor também. Se encontrar algo, me ligue logo.
Phat assentiu e entregou o equipamento de iluminação
que tinha no carro para Kay antes de caminhar em direção à
ala esquerda do prédio. Embora estivesse um pouco afastado,
o silêncio que cobria a área fazia com que os passos da outra
pessoa ainda ecoassem. Phat passou por salas trancadas até a
escada para o segundo andar. No entanto, o que chamou sua
atenção antes de sair daquela área foi a porta de uma sala com
o ferrolho destravado, aberta frestada como se esperasse por
algo.
A arma de fogo estava firme na mão junto com a luz da
lanterna que apontava para a maçaneta. Nela havia manchas
de sangue ainda frescas, como se tivessem acabado de
acontecer. As sobrancelhas finas se franziram enquanto ele
entrava devagar, usando a ponta do pé para empurrar a porta.
— Praew!
Ele largou tudo e acolheu o corpo da irmã em seus braços,
verificando o corpo para garantir que nenhuma parte estava
ferida. O pulso ainda batia normalmente, como se ela estivesse
apenas dormindo. A lanterna iluminou as pálpebras, e suas
mãos balançaram o corpo imóvel, alternando com leves
tapinhas em sua bochecha clara.
— Praew...
— ... Hm.
— Praew, sou eu, o Hia!
Em pouco tempo, a consciência que havia sumido
retornou. O corpo sem forças moveu-se lentamente. Praew
ficou apenas imóvel no abraço do irmão, ainda tonta e sem
conseguir ligar os pontos. Levou um momento até que as
memórias anteriores surgissem em sua cabeça.
— Hia, eu fui quem trouxe o tio para entregar para o
chefe... não, é o Nekros.
— É o Than, não é?
Praew assentiu. Seus olhos estavam cheios de culpa
porque só percebeu agora, quando a história chegara quase ao
fim. Em vez de ouvir a explicação do tio primeiro, acreditou
nas ordens de Than sem contestar, sem se importar se se
tornaria uma das cúmplices que, no final, poderia ter um fim
não muito diferente de Kim. Antes que pudesse sentir que
estava cometendo um erro terrível, deu por si nos braços do
irmão mais velho.
— Eu tentei impedir, tentei tirar o tio para ele receber a
punição. M-mas...
— Onde ele está, Praew? Ele está aqui, não está? Aquele
desgraçado.
— ... Ele está no salão do segundo andar.

Kay subiu os degraus da escada para o segundo andar.


Surgiu uma porta de sala grande que parecia ocupar todo o
andar. A luz iluminou a madeira entalhada e bonita. Acima da
porta, havia uma placa com o número da sala de reuniões. O
chão era coberto por um tapete que, embora velho e rasgado
em algumas partes, ainda mostrava o luxo do passado.
O cheiro desagradável de algum produto químico flutuava
no ar. Ele se aproximou gradualmente da porta para garantir
que a origem do cheiro vinha de dentro.
Sua mão empurrou a porta velha que, de tão pesada,
arrastava no chão deixando marcas. Ela parou imóvel, sem
fechar de volta, mas Kay não teve tempo de se importar,
porque o que chamou sua atenção foi a cena à sua frente, que
ele soube imediatamente ser o monumento da maldade
conforme havia desenhado.
No meio da luxuosa e grande sala de reuniões, estava o
corpo inconsciente do Coronel Chaiwat Traikanawut,
amarrado firmemente à cadeira. Já o juiz deste caso virou-se
para olhá-lo por apenas uma fração de segundo antes de voltar
a se ocupar com o galão de gasolina, que era a origem do
cheiro forte no nariz.
Than derramou a gasolina sobre o corpo de Chaiwat,
deixando-a escorrer por todo o corpo, infiltrar-se no tapete e
em toda a área. A luz neon pendurada na parede iluminava o
suficiente para ver o rosto banhado em sangue claramente. No
entanto, ele não pensou nem em levantar a mão para limpá-lo.
— Eu cheguei a confiar na Praew, mas no final deu
errado.
— ...
— É o que acontece quando se confia em crianças. Deixa
pra lá. De qualquer forma, o show deve continuar, não é,
Dai-sensei?
Kay ficou parado, mas seu corpo estava gelado. A mão
que segurava a lanterna estava úmida de suor e suas pernas
não se moviam. Levou quase um minuto para conseguir forçar
a voz para responder.
— Você tem que deixar a polícia resolver isso.
— Hunf... a polícia?
— Eu... eu acredito que o Phat vai resolver isso. Resolver
da forma que deve ser.
— Então por que você escreveu o capítulo final se queria
que a polícia resolvesse desde o início?
Kay estacou. Ele não ousava responder àquela pergunta.
Porque, a cada momento em que a vingança o dominava, ele a
extravasava através da ponta da caneta sem pensar, antes de
se arrepender quando o resultado aparecia à sua frente.
— ...
— Você desenhou isso porque não foi corajoso o suficiente
para tornar realidade. Você esperou que eu ajudasse a tornar
a história do seu quadrinho perfeita.
— ...
— Dai-sensei... eu sou o verdadeiro produto da ponta da
sua caneta.
— Senhor Than, pare com isso.
— ...Que tal assistir primeiro? O capítulo final que você
escreveu. Assista com seus próprios olhos antes de decidir se
eu devo realmente parar.
Than tirou um isqueiro do bolso da calça, ergueu-o e o
acendeu ao nível dos olhos. O sorriso de escárnio no rosto não
se importava mais se a pessoa que ele idolatrava estava com os
olhos arregalados de medo pelo que estava prestes a
acontecer.
Bang!!!
O som do tiro ecoou alto antes que a bala atingisse a mão
e o sangue espirrasse. O isqueiro voou para o chão sobre o
tapete encharcado de gasolina, rolando até parar na ponta dos
pés de Chaiwat. Felizmente, a chama fraca se apagou em uma
fração de segundo antes de criar faíscas que se espalhariam. A
aparição de Phat e Praew fez Than cair no chão, soltando um
grito de dor. Com as duas mãos apertadas, ele se contorcia
enquanto rastejava gradualmente para se esconder atrás da
cadeira de Chaiwat.
Phat abaixou a arma na mão. Os dois irmãos
aproximaram-se rapidamente de Kay. O olhar percorreu os
ferimentos e o ambiente ao redor para garantir que ele ainda
estava seguro, antes de terem a atenção atraída pelo gemido
de dor que se transformou em uma voz trêmula.
— E-estão todos aqui... as vítimas do velho que se
banqueteia sobre os cadáveres dos pais de vocês.
— ...
— Durante os últimos 20 anos, a sociedade o reverenciou,
a lei o protegeu. Enquanto isso, seu pai teve que ficar em
estado vegetativo, seus pais tiveram que morrer por ordem
dele. Meus pais escolheram deixar este mundo se enforcando,
assim como muitas outras vítimas no caso da instituição
financeira Thai Investment.
— ...
— E olhem para ele, olhem para ele... isso é justo
conosco?
O silêncio foi a resposta no coração de todos, sabendo
que, durante todos os 20 anos, todos lutaram contra a
injustiça do processo legal. As perdas nunca tiveram ninguém
para assumir a responsabilidade. Quem quer que tenha se
beneficiado ainda desfrutava do dinheiro trocado por suor e
sangue derramado.
— Mas matá-lo não vai trazer nossos pais ou ninguém de
volta. Só vai nos tornar monstros como ele.
— Ha ha.
Ele ficou paralisado ao tentar trazê-lo à razão, mas
recebeu risadas em vez de arrependimento. O rosto banhado
em sangue apareceu por trás da cadeira, os olhos brilhando
com deboche às palavras de Kay.
— Eu sou o monstro?
— ...
— Eu não sou um monstro, Dai-sensei... eu apenas
aceitei ser uma pessoa má, aceitei sujar as mãos de sangue
para reivindicar nossa justiça de volta. Recuperar o que
ninguém se prontificou a ajudar.
— ...
— Mas agora não precisamos mais dessa ajuda... porque
vamos terminar com tudo isso juntos.
Vupt!
O corpo alto forçou-se a levantar da cadeira, usando a
força restante que estava fraca devido à tontura da agressão
até perder a consciência, que ainda não havia passado. Ele
puxou as amarras que foram afrouxadas pela sobrinha antes
de se virar para enfrentar Than, que usava sua força para
controlar a situação.
— Tio!!
— S-solte!
— Digno de um capítulo final. Que confusão do cacete...
essa história é divertida até a última cena.
Than abaixou-se para pegar o isqueiro na mão
novamente, assim como Phat apontou a arma para frente, sem
se importar se o tio levantava a mão para impedi-lo com um
rosto apavorado por estar sendo usado como escudo. Chaiwat
chamava pelo nome do sobrinho de forma lamentável aos
olhos de quem via.
— P-Phat.
— Na minha mão está a justiça, na sua está a lei.
— ...
— Se hoje o inspetor me matar e tirar seu tio daqui, tudo
será como o seu tio quer... o Capitão Nop já morreu, o Inspetor
Kitti já morreu.
Phat segurou firme a arma. O caso do Capitão Nop ainda
era uma ferida no coração que fazia a raiva agir toda vez que
era mencionado. Kay olhou para o cano da arma na mão,
alternando para o rosto de Than, que ainda não parava de
manipular.
— O Chaiwat sobrevivente voltará a fazer o papel de herói
injustiçado, porque não restará nenhuma evidência para
prendê-lo... certo, inspetor?
Vupt!!
O olhar do inspetor começou a ficar confuso. Foi no
mesmo segundo em que Chaiwat agarrou Than, girando-o e
derrubando-o no chão da sala. O isqueiro apagou-se
novamente e, desta vez, ele voou longe até a ponta dos pés de
Kay.
Ele gritou de dor quando a ponta do pé esmagou a mão
que foi atravessada pela bala. Chaiwat colocou toda a força
que tinha no sapato de couro brilhante de marca cara. O
ressentimento acumulado desde que foi capturado foi
depositado no abdômen do outro com toda a força.
— Vai se vingar de mim é? Você acha que o mundo é
movido pelo quê!!?
Com essa justiça idiota que você está tentando exigir... o
que move as coisas é o poder, seu lixo perdedor. Eca!
Phat e Praew ficaram parados, em choque. As palavras
vindas da boca da pessoa que os criou revelavam o verdadeiro
monstro. A imagem do tio que ambos respeitavam e amavam
torturando Than era mais cruel do que a de um assassino. O
corpo de Than, que ainda tinha uma consciência vaga, mas
insuficiente para se salvar, jazia imóvel aos pés de Chaiwat.
— Olhe para ele, Phat!
— ...
— Olhe bem. Este é o fim das pessoas tolas que pensam
ser mais fortes que o poder... assim como o seu pai.
— Tio...
— Eu me esforcei para criar um mundo lindo para vocês
viverem, mas vocês o destruíram. Forçaram-me a ter que
matar pessoas...
Bang!!!
O inspetor nunca esteve fora do campo de visão de Kay,
nem por um segundo. Por isso, no momento em que o outro
pressionou o gatilho na esperança de dar um fim ao demônio
no corpo de seu progenitor, Kay, que não podia permitir que
Phat se sujasse ainda mais, lançou-se na frente para
interceptar a bala.
O corpo alto caiu, as mãos pressionando o ferimento no
abdômen. O grito de Praew não foi capaz de trazer de volta a
lucidez do dono da arma. A situação caótica aconteceu em
uma fração de segundo, sem dar tempo para Phat sequer
baixar a pistola. Kay tentava se manter de pé, apesar da dor e
do entorpecimento na região da barriga. Na outra mão, que
não segurava a ferida, surgiu uma faísca vinda de um isqueiro
que ele havia escondido.
O braço que Chaiwat levantou para se proteger da bala
abaixou lentamente. Seu cérebro não conseguia processar os
eventos com rapidez, mas seus olhos captaram o fogo na mão
de Kay. Suas pernas longas se prepararam para correr, mas
foram contidas pelo esforço final de Than, que estava caído no
chão.
— Irmão Kay!
— Kay!!
Kay levantou o isqueiro na altura dos olhos. A pequena
chama tornou-se uma arma que paralisou a todos. Os dois
irmãos hesitaram, sabendo que, no instante em que dessem
um passo sequer, algo terrível aconteceria naquela sala de
reuniões.
— Não se aproximem.
— ...
— Não venham. Não se sujem mais com isso, inspetor.
— Kay, não faça isso... eu te peço.
— Eu não vou permitir que o senhor seja
responsabilizado, que seja marcado por isso novamente...
Considere isso como uma retribuição por tudo o que o senhor
já fez por mim.
Vupt!
O fogo se alastrou, consumindo o tapete que servia como
um excelente combustível. Ouviam-se gritos chamando por ele
e por Chaiwat, que tentava se desvencilhar de Than. Uma
parede de fogo separava Kay do inspetor, que agora exibia uma
expressão de nítida preocupação. Phat tentava encontrar uma
forma de atravessar o calor que começava a queimar, mas não
havia caminho para alcançar o outro.
O último som que Than ouviu antes de uma viga atrás
dele despencar, ecoando por toda a sala, foi o do fogo imenso
queimando sua pele enquanto ele jazia no chão. Ele gritou e
soltou a perna de Chaiwat, libertando-o em meio à agonia,
mas seus olhos refletiam as chamas com uma felicidade plena
e um sorriso no rosto.
Sua fé era como a água que lavaria aquela morte,
transformando-a em um sacrifício em troca de uma
recompensa. O cérebro de Than projetava a cena final do
quadrinho Nekros. Era exatamente como ele planejava, como
o Mr. Kill havia criado. O fogo intenso, os gritos de dor...
embora não pudesse ver como o último demônio morreria,
bastava que, antes de seu último suspiro, seu deus visse sua
dedicação.
— Lindo...
— É muito lindo... Dai-sensei...
As chamas alaranjadas brilhavam como o pôr do sol,
refletindo-se em seus olhos. Sob aquela beleza, havia um
poder destrutivo que queimaria tudo... Ele sorriu. Era um
sorriso que não parecia forçado como os de todas as manhãs
antes de ir trabalhar. Desta vez, era um sorriso de quem
finalmente se desapegava, como alguém que se libertava das
correntes que o prendiam.
— Kay!!!
— Eu nunca pensei que a justiça existisse de verdade até
conhecer o senhor, inspetor.
— ...
— O senhor me fez acreditar no processo judicial, na lei e
em você.
Phat levantou a mão para se proteger das faíscas que
saltavam contra seu casaco, enquanto observava Kay através
da cortina de fogo. Suas pálpebras, incapazes de resistir ao
calor, semicerraram-se quase completamente.
— Você me fez sentir que eu não estava sozinho quando
tive que enfrentar coisas ruins por conta própria.
— Kay!! O que você pretende fazer!!?
— Obrigado... obrigado por confiar em mim.
A grande estrutura estava rachando sob o poder do fogo
devastador. Uma viga de concreto no palco ameaçava cair após
a estrutura de madeira ao redor ser consumida pelas chamas.
— Kay, saia daí!!!
— Prometa-me que, no tempo que lhe resta de vida, o
senhor cuidará bem de si mesmo...
— ...
— Que protegerá os inocentes para que não se tornem
vítimas ou bodes expiatórios, como eu e meu pai fomos.
— Kay!!!
— Pode me prometer? Pelo menos para eu sentir que o
que fiz não foi em vão.

A luz do incêndio era intensa. O calor atingia a pele de


forma quase insuportável. Phat apertava os olhos, que agora
transbordavam lágrimas, tentando localizar o vulto alto que
desaparecia na fumaça. Os gritos de agonia de Than soavam
alto, competindo com o barulho da estrutura do prédio que
parecia prestes a desabar. Ele gritava o nome do outro contra
tudo, até sua voz ficar rouca, até que sua única irmã tivesse
que puxá-lo para fora, pois a parede de fogo se aproximava
rapidamente.
— Meu irmão!!!
— ...
— Vamos sair daqui, não dá mais para ficar!!
— !!!
— Aaaarg!!!
— Tio!!!!
Chaiwat saiu correndo do meio do fogo. As chamas
queimaram sua pele e partes de sua roupa. Ele tentava tirar as
vestes enquanto gritava, até que Phat teve que sacrificar sua
própria jaqueta para cobrir o corpo dele. As feridas frescas no
braço esquerdo emanavam um calor latente, a pele estava
vermelha e, em alguns pontos, com bolhas.
— Temos que ir agora, temos que sair já!!!
— Mas o Kay...
— Irmão, não temos mais tempo.
Praew o trouxe de volta à realidade, impedindo-o de
fantasiar que alguém surgiria do meio daquela barreira de
chamas. Phat deixou as lágrimas caírem, sem saber se era
pela pessoa que se fora ou pela temperatura que parecia um
forno micro-ondas. Eles correram com todas as forças para
fora do prédio antigo. O som da construção desabando ecoava
no chão. O fogo do segundo andar se espalhava para o térreo
rapidamente.
Phat parecia estar em transe. Embora seus pés não
parassem, sua mente estava estagnada na imagem daquelas
costas se afastando. Aquilo ainda ecoava em seus ouvidos e
não sumia, assim como o último sorriso e a promessa que ele
ainda não tinha aceitado...
BOOMM!!!!
Ele desabou exausto no chão. Chaiwat ainda gritava de
dor por causa das queimaduras, que não eram apenas no
braço. Praew ligava para a polícia enquanto o irmão
permanecia imóvel, observando a estrutura desmoronar até
virar cinzas. Mal dava para notar que ali existira um prédio
luxuoso de valor imenso. Do ponto inicial no segundo andar,
agora o fogo havia devorado cada parte, sem deixar nada
inteiro. A perda ocorrida o fazia pensar no que o construtor
daquele prédio abandonado fizera no passado. Aquilo se
tornou uma mancha na história de sua família, mesmo que
eles não tivessem culpa.
A placa com o nome da empresa, que ficava no centro do
prédio, caiu na fogueira e foi consumida diante de seus olhos.
Nela estava escrito Thai Investment. Foi a causa da ruína de
muitas famílias, o início do desastre que se expandiu até levar
àquela tragédia. Foi o começo de tudo e de todas as pessoas
que ele conheceu. Um começo que, por mais que tentasse, ele
nunca conseguiria apagar de sua mente...
Muitas horas se passaram antes que o fogo, que rugia
como uma tempestade, se acalmasse. Phat colocou Praew na
ambulância junto com o tio Chaiwat. Ele mesmo ficou
esperando o relatório da perícia e dos legistas que entraram
para avaliar os danos, após confirmarem que parte da
estrutura era segura o suficiente para subir ao andar onde
tudo começou.
Phat bebeu uma garrafa inteira de água de uma vez. Ele
observava os arredores em silêncio, sozinho. O inspetor
responsável pela área informou que ele seria chamado para
prestar depoimento, e ele concordou em cooperar plenamente.
Em troca de informações, não demorou muito para que o
inspetor do caso voltasse de dentro do prédio com uma
confirmação que deixou Phat paralisado.
— Minha equipe verificou tudo, inspetor Phat. Todas as
áreas acessíveis.
— ...
— Encontramos apenas um corpo no segundo andar, no
local do incidente. Apesar de estar carbonizado, os restos de
roupas coincidem com o que você descreveu da vítima. O
corpo é de Than Thawikorn.
— Não encontraram mais ninguém?
— Não... encontramos apenas um corpo. E não
localizamos o senhor Chankacha no local.
— Obrigado.
— Sobre o interrogatório, eu ligo depois para avisar. Com
licença.
Phat olhou para os escombros com um olhar vazio, vendo
o corpo envolto em um pano branco ser removido. O assassino
Nekros, Than, partira deste mundo sem volta. Isso significava
que o caso pelo qual ele sacrificara tanto, inclusive sofrendo
grandes perdas, estava chegando ao fim. No entanto, em vez
da pessoa que passou por tudo ao seu lado estar ali para ouvir
a notícia, ela simplesmente desapareceu no ar. Como se
nunca tivesse existido.
O que ele faria de agora em diante? Como lidaria com esse
sentimento de algo inacabado? Conseguiria superar a tristeza,
a confusão e a ansiedade que ainda o corroíam? Viveria
conforme o outro pediu ou seguiria carregando todos esses
sentimentos?
A notícia sobre o Coronel Chaiwat Traikanawut, o
inocente que sobreviveu milagrosamente ao assassino Nekros
— que foi confirmado como sendo o dono da famosa agência de
notícias que analisava os crimes, Than — tornou-se o assunto
de todo o país.
Vários veículos de imprensa elogiaram o famoso policial
que arriscou a vida para enfrentar o assassino. Enquanto isso,
o outro lado da sociedade, que antes exaltava o assassino
Nekros como um herói, agora mudava o tom para maldições,
vendo sua morte como um castigo justo, já que Than atacara
um inocente, e não um monstro como suas vítimas anteriores.
O tempo passou e as notícias sobre o caso que parou a
cidade foram sendo encerradas. O último papel do inquérito
voltou para as mãos do primeiro dono do caso. O inspetor
Yotsaphat leu cada letra, repetindo cada linha, antes de
assinar, aceitando que o caso deveria ser encerrado sem que o
assassino morto pudesse ser punido pela lei.
— Quando terminar tudo, me mande uma mensagem.
— Sim, inspetor.
Din pegou a pasta conforme ordenado, deixando Phat
sozinho em sua sala com um sentimento de derrota...
Em poucos dias, Chaiwat assumiria o cargo de
Comandante Geral da Polícia.
Conforme ele previra nos últimos meses, ele agora
aceitava que as palavras de Than naquele dia eram
verdadeiras. Chaiwat tornou-se o inocente. Todas as
evidências que o ligavam aos crimes sumiram. Havia apenas o
que Phat viu e ouviu naquele dia como prova de quão perverso
o outro era. No entanto, ele aprendera com o passado que, sem
provas claras, palavras são apenas vento.
Ele tentou buscar pistas, solicitando a reabertura da
investigação várias vezes, mas todos os pedidos eram
indeferidos sem explicação. E desta vez, o memorando que ele
pretendia escrever para pedir a revisão do caso tornou-se um
pedido de demissão, pensado minuciosamente.
Rrrr...
Uma notificação no celular mostrou um e-mail na tela.
Phat apressou-se a ler, pois o nome do remetente era o mesmo
da pessoa que desaparecera de sua vida há dois meses. A data
mostrava que o e-mail acabara de ser enviado, o que
significava que Kay ainda estava vivo em algum lugar. E
parecia que o outro sabia que Phat estava sem opções para
lidar com o tio Chaiwat.
— Isso é...
Um código de seis dígitos, junto com o nome de um banco
e uma agência, o fez sair disparado da delegacia em direção ao
destino. Phat soube na hora que era a senha de um cofre que o
outro devia ter alugado para esconder algo.
O número do cofre foi entregue ao funcionário antes que
ele recebesse permissão para entrar. Seus dedos digitaram a
senha fornecida por Kay antes de ele recolher todos os
documentos e voltar rapidamente para seu condomínio.
O cartão de memória foi conectado ao computador,
revelando uma pasta chamada 3 dias que desapareceram.
Dentro, havia dezenas de vídeos nomeados com os nomes de
cada vítima. Além da voz das vítimas, a outra voz que surgia
era a de Than, o assassino Nekros que morreu no incêndio.
Ele não apenas torturava as vítimas como no quadrinho,
mas também as pressionava a confessar e entregar provas
sobre o caso da instituição financeira Thai Investment diante
da câmera.
Todas as vítimas confessaram o caminho do dinheiro, os
métodos de corrupção ou até mesmo quem recebeu ordens de
execução de quem detinha o poder sobre eles, o Coronel
Chaiwat Traikanawut.
O último arquivo que Phat abriu era do senhor Chote,
contador da Thai Investment. Com o rosto aterrorizado por
Than, que segurava uma faca, ele narrava o que Chaiwat o
ordenara a fazer com as mãos postas em prece. Chote não
apenas revelou tudo na esperança de escapar da morte, mas
também informou a localização das provas, contas secretas e
todas as transferências ilegais para Than em troca de sua
vida. Mas não funcionou... o detentor dos segredos financeiros
deu seu último suspiro após entregar todas as informações a
Than.
E agora, todas aquelas informações estavam diante dele.
Arquivos imensos que ocupavam mais da metade da memória
do cartão. Havia provas detalhadas o suficiente para
incriminar seu tio sem chance de escape.
— Obrigado...
— ...
— Eu vou cuidar do resto.
Phat agradeceu ao ar, embora quisesse agradecer
pessoalmente a quem não aceitava contato por nenhum canal.
Ele apertou o cartão na mão. O instrumento que usaria
para lutar contra o poder oculto e revelar toda a verdade,
arrastando o verdadeiro culpado para o processo legal como
deveria ser...
A coletiva de imprensa do novo Comandante Geral da
Polícia foi organizada de forma grandiosa. Altos funcionários
com flores de diversas organizações compareceram para
parabenizar Chaiwat em massa. Repórteres ocupavam todo o
espaço da sala de reuniões. O protagonista do evento,
recuperado das queimaduras que deixaram marcas
escondidas sob o uniforme, sorria enquanto esperava o
momento da coletiva oficial após assumir o cargo naquela
manhã.
— Está na hora, senhor.
— Sim, muito obrigado.
Chaiwat subiu ao palco com elegância, acompanhado
pelo som dos disparos das câmeras e aplausos. Com um rosto
respeitável, ele permaneceu imóvel para prestar continência
antes de anunciar seu novo cargo.
— Olá. Eu sou o Coronel Chaiwat Traikanawut,
Comandante Geral da Polícia Nacional...
— !!!
— Com licença, senhor Comandante!!
Seu único sobrinho atravessou o cerco da imprensa
acompanhado por uma unidade de auditoria independente e
agentes especiais. Enquanto isso, o telão mudava de imagens
de celebração para dados de fluxos financeiros ilegais do novo
Comandante, já verificados como verdadeiros.
O burburinho de opiniões na sala e na transmissão ao
vivo começou a mudar de lado ao verem que Chaiwat não era
mais a pessoa adequada para o cargo.
Phat parou diante de seu tio, observando o olhar cheio de
raiva e reprovação. Mas ele escolhera que tudo deveria seguir o
processo legal, mesmo que a pessoa à sua frente fosse quem
cuidou dele e de sua irmã por toda a vida. A gratidão não podia
estar acima da lei e da verdade.
— Phat.
— Sinto muito, tio. Mas tudo tem que ser como deve ser.
— ...
— O senhor tem o direito de permanecer em silêncio, pois
tudo o que disser poderá ser usado como prova no tribunal, e
pode solicitar um advogado durante o interrogatório.
Phat declarou os direitos do detido que a polícia deve
informar antes do interrogatório, enquanto agentes especiais
algemavam Chaiwat diante de centenas de olhares que
testemunhavam a prisão.
— ... Lembre-se do que eu digo: o mundo não é apenas
preto e branco.
— ...
— Por isso, por mais que você me ache perverso pelo que
fiz e pelo que menti, há uma coisa que quero que saiba...
— ...
— Uma coisa sobre a qual eu nunca menti... é que eu amo
muito você e a Praew de verdade.
Phat foi afastado do caso de Chaiwat conforme a lei, para
evitar acusações de parcialidade ou favorecimento familiar. A
podridão de Chaiwat, escondida debaixo do tapete, era
exposta continuamente. Ao mesmo tempo, a história de vida
de Than era apresentada ao público como a de uma criança
afetada pelo caso Thai Investment.
A família de Than foi destruída. O menino sem esperança
sobreviveu graças ao quadrinho Nekros em um blog que
acendeu uma chama nele. Desde aquele dia, ele prometeu a si
mesmo que viveria para se vingar e expor quem o fizera ter
aquela vida.
No entanto, em vez de escolher o caminho da vingança
legal, Than se voltou para o lado sombrio, planejando
meticulosamente com seu demônio, usando o quadrinho que o
alimentara como roteiro para seus assassinatos encenados.
Porque Than queria que seus atos gerassem discussão.
Queria que a sociedade questionasse as ações do assassino,
despertando as pessoas para que não ficassem em silêncio e
lutassem contra as injustiças sem medo.
Quanto mais as pessoas deixavam de ser indiferentes à
injustiça, mais a lei se tornava sagrada. Chaiwat foi
condenado à prisão perpétua imediatamente após um curto
período de investigação, devido à pressão pública que fez com
que os guardiões da paz e aplicadores da lei agissem com
rapidez e retidão.
O caso Thai Investment foi reaberto para que todas as
partes recebessem justiça, movendo o processo de reparação
das vítimas que estava congelado há muito tempo,
concluindo-se em poucos meses. Inclusive o capitão Papaphat
Traikanawut, que antes carregava estigmas, teve seu nome
limpo por provas que confirmaram seu esforço máximo para
expor a verdade, e não para escondê-la como fora acusado no
passado.
Praew colocou flores no túmulo de seu pai e sua mãe, e
ambos se curvaram em respeito aos pais que partiram por
manterem seus ideais. Os dois irmãos sentiam-se
envergonhados por terem acreditado no que os outros diziam
sobre o pai.
— Me desculpem por um dia ter pensado mal de vocês...
— ...
— Agora o irmão Phat conseguiu devolver a honra do
papai. Daqui para frente, o papai e nossa família não serão
mais rotulados por ninguém.
Phat alcançou a mão da irmã, que falava com o rosto
banhado em lágrimas. Ele olhou para a foto dos pais na lápide
de mármore antes de expressar o que guardava há 20 anos.
— Eu... eu sinto muito.
— ...
— De agora em diante, trarei minha irmã para visitar
vocês com frequência.
— ...
— Não se preocupem com nada. Nós dois estamos bem.
Os dois irmãos apertaram as mãos com força, ficando em
silêncio diante do túmulo, deixando que as lágrimas lavassem
os mal-entendidos que pesavam em seus corações, com a
esperança de que aquilo chegasse aos dois que se foram,
mesmo que fosse tarde demais...

Phat observava as notícias antigas na TV da academia do


condomínio. Ele franziu o cenho ao ver o nome do caso Nekros
aparecer. Fazia um ano que o caso terminara. Depois disso, o
tio Chaiwat foi preso por lavagem de dinheiro e vários outros
crimes. Praew ainda ia visitar o tio às vezes, ao contrário dele,
que ainda não estava pronto para o encontro.
Sua irmã se formou no início do ano. Infelizmente, sua
melhor amiga decidiu trancar o curso para se tratar, então
Prim não se formou junto com ela. O estado de Prim melhorava
gradualmente, mas ela ainda não se lembrava do incidente. A
família concordou em não remexer no que ela escolhera
esquecer, para que seu coração pudesse se fortalecer
novamente.
Todos receberam o que mereciam por seus atos. Os maus
foram punidos severamente, enquanto a última vítima
acabara de ser indenizada pelo caso Thai Investment há pouco
tempo. Phat acompanhava esse processo de longe, observando
se a pessoa que desaparecera de sua vida receberia a
compensação como as outras vítimas.
No entanto, os documentos de Kay continuavam
empilhados. Ninguém apareceu para assinar e receber a
grande quantia em dinheiro. Ninguém se manifestou...
Durante todo o ano, Phat tentou procurar Kay em todos
os lugares que conseguia imaginar. Foi à editora onde ele
trabalhava, à antiga casa do pai dele que agora estava em
ruínas, ao condomínio onde ele morava — a ponto de ficar
amigo dos seguranças. Tão amigo que, no dia de esvaziar o
quarto de Kay para o próximo inquilino, foi ele quem levou as
coisas deixadas para trás... inclusive a bola de pelos branca
que fora expulsa por cães de rua e fugia desesperada. Embora
tivesse sido cuidada pelos moradores do prédio e estivesse
saudável, se fosse deixada sozinha no mundo, não se sabia
quanto tempo sobreviveria.
Miau.
— Mal me vê e já pede comida, seu gordinho?
O gato esfregou a bochecha em sua perna repetidamente,
com os olhos fechados em sinal de confiança, implorando pelo
café da manhã após acordar e não ver o dono. Phat colocou a
ração na tigela de aço, sem esquecer de coçar o queixo do
animal.
Ele decidira adotá-lo. Pelo menos para que aquele gato
gordo tivesse uma casa, um dono e alguém que se
responsabilizasse seriamente por sua vida.
O relógio na parede indicava que era hora de se lavar e se
preparar para o trabalho. A delegacia ainda estava lotada com
centenas de casos relatados diariamente. O inspetor Phat
resolvia cada caso designado com perfeição, pois, para ele,
naquele momento, nada era mais difícil do que ter sido o dono
do caso de assassinatos em série do ano passado.
— Cuide do quarto para mim, entendeu?
Miau.
Phat não esqueceu de dar ordens ao gato gordo para
vigiar o quarto enquanto ele saía para trabalhar. Ele deixou o
carro no estacionamento, pretendendo usar transporte
público naquela manhã. Mas como se adiantara, tinha tempo
de sobra. Ao calcular, percebeu que poderia caminhar do
condomínio até o destino tranquilamente.
Phat ainda levava a vida sem pressa todas as manhãs.
Não sabia qual policial fizera uma grande boa ação no mês
passado, mas a área sob sua responsabilidade estava
excepcionalmente calma. Ele olhava para o relógio que se
aproximava das 8 horas, alternando o olhar para o caminho à
frente, onde milhões de pessoas agora prestavam atenção às
telas de seus celulares.
O som das buzinas e a natureza das pessoas em uma
manhã agitada davam à cidade um colorido estranho. Ele
tirou uma nota da carteira e seu olhar vacilou por um
momento ao ver que a velha Polaroid quase caiu no chão por
descuido. Empurrou-a de volta para o compartimento antes de
levar o primeiro café do dia aos lábios.
O homem alto usava sua jaqueta jeans favorita sobre a
roupa de trabalho casual, destacando-se na multidão que
esperava o sinal de trânsito. Logo, o símbolo no painel mudou
de vermelho para verde. Centenas de pessoas atravessaram a
rua pela faixa de pedestres.
Phat olhava para frente, seu cérebro começando a pensar
em como iniciaria o primeiro trabalho do dia que o esperava na
mesa. No entanto, sua atenção foi capturada por alguém que
acabara de passar por ele...
A altura em sua memória, vestindo um moletom cinza
com capuz. Atrás, a estampa de um logotipo de quadrinho que
ainda circulava em sua mente. O símbolo da palavra Nekros
apareceu em sua visão. Phat não via com clareza, mas era tão
familiar que ele não podia deixar a pessoa passar sem conferir.
Seus passos aceleraram atrás das costas que estavam
prestes a sumir na multidão. A mão livre do copo de água
agarrou o braço da pessoa à frente de imediato. O corpo
estacou antes de se virar lentamente. A mão levantou para
remover o capuz, revelando o rosto escondido sob a sombra do
tecido.
— Pois não?
— De... desculpe. Eu me enganei.
Mais uma vez, ele teve que ficar parado para recuperar a
lucidez após sua imaginação ir longe demais...
Embora tentasse dizer a si mesmo para viver bem como o
outro pedira, não conseguia se libertar de certas correntes em
seu coração. Ainda tinha a esperança vã de que a pessoa
escondida na cidade grande cruzasse seu caminho
novamente.
— Haa...
Mas talvez não fosse desta vez. Ele balançou a cabeça
para afastar os pensamentos divagantes, suspirou levemente
antes de seguir para o destino, que não estava longe. No
entanto, foi interrompido pelo toque do celular: Praew enviara
um link.
— Isso é...
Um novo capítulo de Nekros fora postado há quase duas
horas. Phat desviou para um parque, encontrando um lugar
adequado sob uma grande árvore antes de deslizar a tela para
ler. Não importava mais se chegaria atrasado ao trabalho. O
conteúdo, com traços familiares em quase 30 páginas, narrava
a conclusão do assassino em série que aceitava o processo
legal e perdia para seus próprios atos. Encerrava o tribunal de
exceção criado por suas mãos com o julgamento conforme o
processo judicial.
Ele terminou de ler... Este capítulo de Nekros não tinha
mais vítimas. Havia apenas boas intenções alertando as
pessoas a viverem com retidão e cautela.
Não houve nenhum sentimento especial ao chegar na
última linha, exceto o alívio de que, durante o ano em que o
outro sumiu de seu campo de visão, o capítulo final de Nekros
confirmava novamente que Kay estava vivo. E agora ele devia
ter a resposta sobre como lidar com seus sentimentos após o
dia em que se afastou...
Phat decidiu evitar o caminho de sempre ao ver que o
fluxo de trabalhadores estava mais denso que o normal. Suas
pernas longas entraram no parque; embora a caminhada fosse
um pouco mais longa, o espaço aberto tornaria sua manhã
melhor do que se espremer na calçada lá fora.
O homem alto, vestindo a jaqueta jeans, caminhava
lentamente pela pista de pedestres. Seus olhos percorriam os
arredores, passando por uma máquina automática de bebidas
onde, não muito longe, um homem em situação de rua bebia
água da mesma marca da máquina com sede.
Ele passava por aquele parque com frequência, mas
raramente entrava, preferindo a rua da frente, então estava
encantado com a paisagem. Pensou que, futuramente, deveria
sair da academia do condomínio para correr e sentir a brisa ali
algum dia.
Faltavam poucos quarteirões para o destino. Phat parou
ao lado do poste do semáforo. Pressionou o botão com o dedo
antes de esperar o sinal mudar de cor.
Um grupo de estudantes do outro lado gritava e corria. À
frente, havia um muro com grafites que parecia ser parte de
alguma atividade, pois o chão estava cheio de materiais de
pintura e placas convidando artistas a deixarem sua marca no
muro.
O que fez seus olhos castanhos pararem foi uma figura
alta de costas. Pernas longas em roupas de ginástica e um
moletom preto fechado. Na mão, uma lata de spray que ele
usava para pintar o muro.
Tudo ali era familiar, mas ele não ousava confirmar que
era a pessoa que tanto procurava. Phat ficou parado no
mesmo lugar, observando por um longo tempo enquanto o
sinal mudava repetidamente, esperando a arte no muro ficar
pronta.
O autor se afastou da obra, permitindo que Phat visse o
significado dos símbolos e palavras que surgiram.
Nekros
The Trust Never Dies
Era a frase final do último capítulo de Nekros. E, naquele
segundo, ele percebeu que seu coração batia forte não apenas
pela emoção, mas porque a pessoa que se virava... era a
mesma em quem ele pensara o tempo todo.
Era apenas um dia comum. Não houve aviso de que
aquele encontro seria tão rápido, poucos minutos após ele
divagar sobre como o outro estaria. Sua mente estava em
branco, restando apenas o rosto refletido em seus olhos.
A luz do sol matinal atravessava as árvores e os prédios
da capital, atingindo os olhos pretos e profundos que se
arregalaram. O rosto bem desenhado parecia mais vívido do
que na última lembrança. Os lábios finos se abriram, mas o
corpo não se moveu.
As estações completaram um ciclo exato desde o dia em
que o outro partiu. Phat sempre pensou em como se sentiria se
o encontrasse novamente no futuro. No entanto, era apenas a
sensação de que toda a ansiedade carregada nos ombros fora
removida ao ver com os próprios olhos... que Kay estava bem.
Ele observou aquele rosto através dos carros que
passavam, viu os olhos marejados de lágrimas, até ter certeza
de que não era apenas uma imagem de sua imaginação.
Antes que seus lábios lentamente se abrissem em um
sorriso, e seus pés começassem a caminhar para frente, no
momento em que o sinal de trânsito mudou de cor...
EPÍLOGO
Os olhos de um preto profundo observavam a paisagem à
frente. O olhar calmo tornava impossível adivinhar seus
pensamentos, escondendo todos os sentimentos atrás daquela
cortina visual. O corpo alto e esguio recostava-se no banco do
parque, sob a sombra de uma grande árvore, usando o local
como um descanso temporário após o relógio de pulso alertar
que sua frequência cardíaca havia ultrapassado o limite que
seu corpo suportava. Ele não dormia desde a noite anterior,
pois estava imerso na ponta da caneta, decidido a terminar de
desenhar o capítulo final de seu quadrinho.
No ano passado, Kay decidiu publicar o capítulo final de
Nekros no grupo de fãs. Pouco depois, ele o apagou, mesmo
sabendo que era tarde demais. Levou quase um ano para que
sua mente e seu corpo reconstruíssem a identidade que ele
mantinha escondida.
Sua pele ainda lembrava o calor do fogo que quase o
queimou enquanto fugia pelos fundos da sala de conferências.
Ainda lembrava da respiração fraca enquanto caminhava para
longe do prédio que estava sendo consumido pelas chamas.
Com as mãos pressionando o abdômen onde uma bala estava
alojada, ele seguiu até uma clínica de enfermagem próxima ao
local do incidente. Por sorte, ainda não haviam fechado,
embora passasse das 22 horas.
Kay foi ajudado por uma enfermeira de meia-idade até
que suas feridas cicatrizassem, e ela também o ajudou com
uma nova moradia. Por coincidência, a enfermeira era dona de
um apartamento e tinha espaço suficiente para que ele
pudesse se recuperar em silêncio. Ele usou aquele quarto
como refúgio e, no fim das contas, acabou ficando por lá até o
presente.
Um novo pseudônimo e um blog foram criados após sua
recuperação. Um quadrinho de romance popular foi escrito
para garantir seu sustento e para não lhe dar tempo livre o
suficiente para pensar nos assuntos pendentes em sua mente.
Mas então, no dia em que tanto seu corpo quanto sua
mente estavam quase totalmente recuperados...
No dia em que a tela do noticiário informou que o
verdadeiro culpado foi condenado à prisão perpétua. O dia em
que todas as vítimas do caso da instituição financeira Thai
Investment receberam reparação e tiveram sua dignidade
restaurada, limpando o nome daqueles que serviram de bodes
expiatórios. Naquele dia, ele pegou a caneta e escolheu
rascunhar o final de Nekros mais uma vez...
Contudo, desta vez não era igual ao final que foi deletado.
Era um final que servia de alerta para as pessoas, ensinando à
sociedade sobre a crueldade que viria após os atos do
assassino Nekros. Era um final que dizia a todos para
interromperem o ciclo de justiça vigilante, que não trazia
benefício a ninguém, e para criarem um novo padrão onde o
processo legal fosse forte o suficiente para lutar contra o
poder.
Tudo terminou nesta manhã...
E ele pressionou o botão para atualizar o capítulo final de
Nekros, encerrando o quadrinho que se arrastou por dez anos.
A história dos assassinatos em série de um homem que se
autoproclamava juiz, decidindo o bem e o mal de pessoas
cruéis que se tornavam suas vítimas através do martelo em
suas mãos. Depois, ele calçou seus tênis de corrida e saiu para
respirar o ar do parque, seguindo sua antiga rotina.
Após descansar até que os números em seu pulso
voltassem ao normal, a garganta seca exigiu hidratação,
fazendo-o levantar e parar diante de uma máquina de venda
automática. Ele abriu a carteira e pegou as moedas no valor
indicado. Seus olhos refletiram a foto Polaroid guardada no
compartimento de fotos da carteira. Por anos essa foto foi
mantida ali, sem que ele conseguisse explicar a si mesmo por
que não a jogou fora desde o primeiro dia em que o fotógrafo do
evento de autógrafos a entregou.
— Er... com licença, senhor.
— Sim?
— O senhor poderia ter a bondade de me comprar uma
garrafa de água?
Kay assentiu antes de entregar a água que tinha em mãos
para o homem em situação de rua que pedia misericórdia com
as mãos postas. Ao conseguir o que queria, o outro se afastou,
deixando apenas Kay, que teve que inserir as moedas na
máquina novamente.
O corpo alto caminhava lentamente pela faixa de
pedestres. No parque, após as 8 da manhã, o fluxo de pessoas
não era tão denso quanto antes do horário de trabalho. Assim,
ele tinha a liberdade de caminhar devagar, deixando o olhar
vagar sem rumo. O bocal da garrafa tocou seus lábios
enquanto ele bebia mais da metade da água limpa. O restante
foi usado para refrescar o rosto suado devido ao calor que
começava a subir.
Seus olhos atentos semicerravam sob a luz do sol que
brilhava à frente, como se houvesse alguma atividade
acontecendo. Um banner de vinil explicando o significado do
evento estava fixado no muro do outro lado da rua, que agora
estava repleto de grafites. No chão, surgiam latas de spray e
baldes de tinta com diversos pincéis.
Kay atravessou a faixa de pedestres e parou diante da
obra de estudantes do ensino médio em uniformes impecáveis,
que haviam finalizado o trabalho antes de correrem atrás do
grupo de amigos rumo à escola.
Talvez por ainda não querer voltar para o quarto, ou por
algo que o impulsionou, ele se abaixou e pegou uma lata de
spray. O homem alto em seu conjunto de moletom esportivo e
bermuda ficou olhando fixamente para um espaço vazio no
muro antes de seus dedos pressionarem o spray preto, criando
o contorno do símbolo do famoso quadrinho que estava
fazendo a internet explodir. Com mais de um milhão de
compartilhamentos em poucas horas, todos os telejornais
matinais abordavam o conteúdo da obra, inclusive o sistema
de som do próprio parque.
Kay deu alguns passos para trás para admirar seu
trabalho... A luz do sol atravessava as grandes árvores e os
prédios altos, atingindo a tinta ainda fresca no muro, fazendo
o brilho refletir em seus olhos.
Nekros
The Truth Never Dies
Era a última frase do quadrinho que ele acabara de
escrever. Um sorriso discreto surgiu em seu rosto, como uma
despedida silenciosa de que aquela seria a última vez que ele
mencionaria aquilo.
Kay colocou a lata de spray no chão e limpou as mãos na
blusa da mesma cor antes de se virar para voltar pelo caminho
de onde veio. No entanto, a imagem à sua frente, na calçada do
outro lado, o fez congelar...
Aquele par de olhos castanhos escuros já o observava. O
homem alto estava à paisana, usando por cima a jaqueta preta
que costumava vestir sempre. O cabelo estava arrumado para
trás, deixando a testa à mostra, com algumas mechas caindo
pelo rosto e cobrindo levemente o sinal em sua bochecha. O
semblante era sereno, mas transmitia gentileza.
Kay não se moveu, mesmo quando o sinal do pedestre
mudou para o verde, assim como a pessoa parada do outro
lado também não saiu do lugar. Um sentimento que subia pelo
seu peito era tão transbordante que tornava sua visão
embaçada.
Ele sentia vergonha demais por estar vivo depois de tudo
o que fez, por isso escolheu fugir, escondendo-se até o dia em
que estivesse pronto para encarar o outro sem culpas. Naquele
dia, ele escolheu partir... sem ao menos saber se seu pedido
havia sido aceito. Mas todas as vezes que a imagem do outro
aparecia em uma tela, Kay sentia uma confiança estranha de
que ele estava seguindo bem com a vida, conforme seu último
desejo.
A culpa era como um veneno que corroía a mente
lentamente, uma corda que o prendia para que não se
libertasse, pelo medo de não ser perdoado, de ser olhado com
desprezo e rotulado como alguém que não era diferente de um
assassino.
Porém, no momento em que os olhos do inspetor se
iluminaram junto com o sorriso suave que surgiu em seu
rosto, foi como se aquela corda tivesse sido desatada...
Kay nunca imaginou que um dia voltaria a estar diante
dele, mas a vida, quando quer ser simples, simplesmente é.
Sem necessidade de ritos ou palavras preparadas, era apenas
mais um dia em que a coincidência os unia, assim como no
primeiro encontro. O semáforo mudou de cor no exato
segundo em que a figura alta à sua frente começou a se
aproximar.
Era como uma sobreposição do passado... Da mesma
forma que Phat se destacava entre a multidão naquele evento
de autógrafos aos olhos de Kay, hoje ele continuava sendo
exatamente assim, sem mudar nada.
Nem tudo pode ser
um fim...

🤗🌸
Obrigada a todos que chegaram até aqui!

SAK

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