2.
O Último Trem da Madrugada
Miguel sempre pegava o último trem depois do trabalho. A estação era vazia naquele horário,
cheia de anúncios quebrados e bancos metálicos gelados.
Toda madrugada, exatamente às 00h47, o trem chegava.
Sem atraso.
Sem passageiros.
Na primeira vez que percebeu isso, Miguel achou estranho. Na segunda, começou a prestar
atenção.
Havia sempre a mesma mulher sentada no último vagão.
Ela usava um casaco vermelho e olhava fixamente pela janela.
Nunca descia.
Nunca piscava.
Numa sexta-feira chuvosa, Miguel decidiu sentar perto dela.
O trem estava silencioso demais. Nem mesmo o barulho dos trilhos parecia existir.
Quando ele se aproximou, percebeu que a mulher estava chorando.
— Você está bem? — perguntou.
Ela virou lentamente o rosto.
Os olhos dela estavam completamente vermelhos.
— Você não devia estar aqui.
As luzes do vagão piscaram violentamente. O trem diminuiu a velocidade até parar no meio de
um túnel escuro.
Então todas as portas se abriram.
Do lado de fora não havia estação.
Só escuridão.
Miguel ouviu vozes sussurrando seu nome lá fora.
Centenas delas.
A mulher segurou seu braço com força.
— Não olha.
Mas ele olhou.
Figuras humanas estavam paradas no túnel. Magras. Altas demais. Todas encarando o vagão.
E então começaram a andar na direção dele.
Miguel correu desesperado até o outro lado do trem enquanto as criaturas batiam nas janelas.
Uma por uma.
As luzes apagaram.
Quando voltaram, o vagão estava vazio.
Exceto pela mulher de vermelho.
— Agora ele sabe que você viu — ela disse.
— Quem?
Ela sorriu tristemente.
— O trem nunca leva as pessoas para casa.
Na manhã seguinte, Miguel acordou sozinho em um banco da estação.
Os funcionários juravam que nenhum trem passou naquela madrugada.
Mas quando ele olhou o bolso do casaco, encontrou um bilhete antigo.
“Próxima parada: fim da linha.”