AS DESIGUALDADES TERRITORIAIS E SUAS ASSIMETRIAS: UMA ANÁLISE
DOS DISTRITOS DE ILHA DE MOCAMBIQUE E MECONTA
Ernesto Ntumua
RESUMO
Este artigo busca analisar as desigualdades territoriais e suas assimetrias dos distritos
de Ilha de Moçambique e Murrupula, dois espaços territoriais com características físicos,
bióticos e sócioculturais diferentes, por se encontrar localizados, uma na zona costeira e o
outro na zona do interior. O estudo baseou-se na pesquisa bibliográfica e da descrição
empírica da realidade dos distritos. Os resultados da pesquisa apontam que as desigualdades
territoriais dos dois distritos residem na configuração e localização geográfica dos dois
territórios, que definem os aspectos bióticos e abióticos das regiões. Portanto, as suas
assimetrias esta voltadas nos aspectos climaticos de uma forma geral e com variação local.
Palavra-chaves: Desigualdades territoriais, Assimetrias, Distritos, Murrupula; Ilha de
Moçambique.
INTRODUCAO
O presente trabalho busca de forma geral analisar as desigualdades territoriais e suas
assimetrias dos distritos de Murrupula e Ilha de Moçambique. pretende-se ainda comparar os
aspectos físico geográficos dos dois distritos.
De modo geral, os distritos de Murrupula e Ilha de Moçambique constituem territórios
da província de Nampula, com predomínio do clima tropical húmido, característico de todo o
país. O clima da região apresenta grande influencia nos aspectos como vegetação e fauna,
recursos hídricos, solos e relevo, entre outros aspectos.
Metodologicamente, o trabalho é fruto da pesquisa bibliográfica e das perspectivas
empíricas que ajudaram na elaboração teórico-metodológico do estudo.
As características físico geográficas dos territórios dependem a formação geológica e
climática da região. No entanto, o distrito de Murrupula e Ilha de Mocambique são territórios
que apresentam assimetrias devido as suas localizações geográficas, uma na zona interior e do
outro na zona costeira.
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METODOLOGIA
O estudo utilizou-se das pesquisas bibliográfica e documental bem como o recurso à
observação, que foram importantes não só para a reflexão teórica do objecto de pesquisa
como também para a apreensão da realidade empírica dos territórios em análise.
O embasamento teórico-metodológico construído considera o território na sua
dimensão de totalidade. Ou seja, privilegiou-se um exercício de reflexão teórica que
permitisse a análise das desigualdades territoriais e suas assimetrias (SAQUET, 2007).
ASPECTOS FÍSICO-GEOGRÁFICOS
Geomorfologia
Geomorfologicamente, o distrito de Murrupula é constituído por uma zona planáltica
baixa que gradualmente passa para um relevo mais dissecado com encostas mais declivosas
intermédias, da zona subplanáltica de transição para a zona litoral. Os dambos que na língua
local é designado por ndabo, são formas especiais dos vales, depressões hidromorficas suaves
ou vales extensos, não profundos, sem escoamento de água na forma de uma linha de
drenagem ou mesmo leito de rio.
A topografia da Ilha é relativamente plana e o nível varia entre 9,07 metros acima do
nível médio das águas do mar. A parte sudoeste que atinge os bairros Litine, Macaripe e
Esteu, situa-se num nível muito abaixo, criam situações extremamente desconfortáveis para os
seus habitantes no tempo das chuvas, pois o alagamento é inevitável e o escoamento é sempre
lento ou mesmo nulo devido ao tipo do solo e a ocupação que se configurou ao longo do
tempo.
Solos
De acordo com a localização geográfica do distrito de Murrupula, este possui uma
variedade de tipos do solo das regiões tropicais que resultam de uma associação de
componentes mineralógicos, a cor, a origem, a idade, os processos morfológicos e biológicos
recentes (MUCHANGOS; 1999: 71).
Os vales dos rios encontram-se dominados por solos aluvionares, escuros, profundos
de textura pesada e média, moderadamente mal drenados, sujeitos a inundações regular. Os
topos e encostas superiores dos interflúvios são dominados por complexos de solos
vermelhos, alaranjados e amarelos.
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De acordo com a configuração geográfica da Ilha de Moçambique, esta possui uma
variedade de tipos do solo das regiões tropicais que resultam de uma associação de
componentes mineralógicos, a cor, a origem, a idade, os processos morfológicos e biológicos
recentes.
Os solos do Distrito da Ilha de Moçambique caracterizam-se em dois tipos, primeiro
são os solos arenosos que se estendem deste na maior parte da porção continental e finalmente
os solos argilosos lamacentos que abrangem maior parte da porção insular. É de aferir que,
devido a tipologia dos solos da Ilha são susceptíveis ao processo erosivo e por vezes
inundações.
Clima
O clima é um factor bastante relevante no desenvolvimento da biodiversidade,
incluindo outros componentes naturais. O distrito de Murrupula é uma região dominada por
climas do tipo semi-árido e sub-húmido seco (MAE, 2005:02).
De acordo com MAE (2005:02), a precipitação média anual varia de 800 a 1200 mm.
A precipitação média anual pode, por vezes exceder os 1500 mm localmente, tornando-se o
clima do tipo sub-húmido chuvoso. Em termos de temperatura média durante o período de
crescimento de culturas, há regiões cujas temperaturas excedem os 25ºC, embora em geral a
temperatura média anual varie entre os 20 e 25ºC.
O clima da Ilha de Moçambique é do tipo tropical húmido, caracterizado por
apresentar duas estações: uma chuvosa de Novembro a Março e outra seca, de Abril a
Outubro. É uma região que sofre influência da ZIT (Zona de Convergência Intertropical), que
causa variações climáticas ao longo do ano.
Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia, as médias anuais oscilam entre 27°C a
29°C, no mês mais quente e entre 21ºC a 23ºC no mês mais frio. Em Dezembro registam-se as
temperaturas médias acima de 28ºC.
Hidrografia
O distrito de Murrupula é atravessado pelos seguintes rios: Namaita, Ligonha,
Naminhalo, Mucuasse, Nachiue, Namilasse e Mulapane. Portanto, este não possui nenhum
lago e os rios correm de sentido Oeste-Este devido à configuração do relevo.
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Devido a sua natureza geográfica, a Ilha de Moçambique não dispõe condições
hídricas satisfatórias para o abastecimento das comunidades residentes neste espaço. Porém, a
Ilha é provida de águas marinhas em toda a sua envolvente.
A rede hidrográfica da Ilha de Moçambique é constituída pelos rios, Niwere, Ampite e
Muecate; todos caracterizados por possuírem um regime periódico. Este Distrito, é também
atravessado pelo rio Monapo, na região Sul.
Flora e fauna
A localização de Moçambique na região florística sudano zambezíaca condiciona, em
conjugação com as condições climáticas, o desenvolvimento de infinitas variedades de
associações vegetativas de florestas e de savanas arbóreas e arbustivas (MUCHANGOS;
1999:81).
Quanto à flora, o distrito de Murrupula é dominada por floresta tropical aberta com
maior variedade do miombo, formada em boa parte maioritariamente por árvores de grande
porte. Nesta floresta, tem-se como espécies dominantes Chanfuta, Umbila, Jambir, Pau-preto,
Métil e Metolha. Salienta-se ainda a existência de uma variedade de árvores de frutas tais
como: mangueiras, cajueiros, laranjeiras, papaeiras, bananeiras, acácias amarelas, ateiras entre
outras de menor relevância.
No que diz respeito à fauna, a distribuição desta está relacionada com as associações
vegetais e as condições climatéricas de que a área em estudo faz parte. Portanto, o distrito não
é muito rico em animais selvagens de médio e grande porte, pelo que a fauna local não tem
potencial turístico, nem potencial para a caça comercial. A única espécie de relevo
identificada no distrito é impala. Nesta floresta vivem numerosas espécies de animais como:
macacos, gazelas, coelhos, ratos, ratazanas e diferentes tipos de répteis (cobras, crocodilos e
lagartos) entre outros. Mas, devido à ocupação humana e ao desmatamento intensivo, a
grande parte dos animais emigrou para outros pontos dos distritos vizinhos (PIMENTEL,
2009: 120).
No que tange à vegetação, pode-se afirmar que, ao longo dos anos a intervenção
humana gerou profundas modificações na cobertura vegetal original. Actual vegetação da Ilha
é resultante da introdução de várias espécies provenientes da zona continental, bem como da
Ásia, América Latina e da Austrália.
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Pode-se observar na Ilha a predominância de árvores ornamentais, tais como a
casuarina, plantada ao longo das praias, a palmeira, jacarandá, acácia amarela, acácia
vermelha, amargosa e figueira-brava, que contribui com as suas raízes na destruição da
maioria das casas na Ilha de Moçambique.
Persistem ainda ao longo das praias alguns manguezais que não só ajudam a prevenir a
erosão da costa, mas também, fornecem habitat para muitas espécies de aves, incluindo os
grandes flamingos, a cegonha-de-bico-amarelo, a garça-cinzenta, as graçolas, a ave-martelo,
pica-peixe, pernaltas (tarambolas, andorinhas, gaivotas e outras).
ASPECTOS SOCIOCULTURAIS
O distrito de Murrupula segundo o Censo da População e Habitação de 2007, tem um
total de 122.028 habitantes como resultado de mistura de dois povos. Estes encontram-se
distribuídos em bairros designados por “povoados”. Destes, destaca-se grupo etnolinguístico
Macua. Em termos gerais, nota-se a predominância de uma população jovem. Por outro lado,
a maior parte da população desta região é nativa.
A agricultura de subsistência é a principal actividade da população de Murrupula. A
caça e a pesca constituem um suplemento dialético para as famílias. A caça com fins
alimentares é essencialmente dirigida a pequenos mamíferos, como ratazanas e outros.
Embora esteja afastado do mar, o peixe também é regularmente incluído na dieta familiar,
sendo proveniente dos rios da região.
De acordo com o censo 2007, a Ilha de Moçambique tem cerca de 48.839 habitantes,
sendo. 25.337 do sexo masculino e 23.502 do sexo feminino, correspondendo a uma
densidade populacional de 117 hab/km². Na parte continental vive a maior parte da população
da cidade, com 36.387 habitantes, enquanto na parte insular, e de 17.356 habitantes.
Tradicionalmente, a população da Ilha de Moçambique encontra-se estruturada em
linhagens, onde os membros dos diversos grupos sociais se identificam através da sua própria
filiação. Entre os séculos XIX e XX assistiu-se à instalação das confrarias islâmicas na Ilha de
Moçambique que se agregaram com as tradições locais, criando na zona litoral uma grande
sobreposição entre as autoridades tradicionais e as autoridades religiosas islâmicas.
Assim, existem na Ilha de Moçambique duas ordens de confrarias, correspondentes às
duas primeiras que se estabeleceram na zona: a Xadulia, fundada em 1897 por um
descendente do Sultão das Comores, com o nome de Tuarica Xadulia Liaxuruti, e a Cadiria,
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fundada em 1904 pelo Chehe Issa Bin Amad, de Zanzibar, com o nome Tuarica Cadiria
Sadate (OMAR, 2013).
Estas confrarias são predominantemente unidades culturais, com cerimonial e
simbologia litúrgica próprios, organizadas para a gestão dos assuntos religiosos: culto,
educação e ritos de transição. Têm, adicionalmente, responsabilidades na gestão dos conflitos
intra-crentes e dos mecanismos de entreajuda interna. Portanto, elas são um importante
veículo de disseminação do Islão e das formas de organização social e expressões culturais a
ele associados, tendo criado um grande impacto na identidade cultural das populações.
Assim, mais de 95% da população da Ilha de Moçambique professa a religião
muçulmana ao lado de uma pequena minoria católica e seguidores de algumas denominações
cristãs protestantes.e a língua predominante é emakhuwa. Do Induísmo, que foi bastante
presente na Ilha até algumas décadas atrás, restam apenas um templo e o crematório que são
visitados ou utilizados esporadicamente por indianos ou descendentes de fora da Ilha (OMAR,
2013).
Na Ilha de Moçambique predominam danças típicas locais expressivas, como são os
casos do Ntsope, Tufo e Maulide, todas de influência islâmica e associável às particularidades
swahilis. Estas expressões artísticas fazem parte das novas formas de ritualização da vida
social da Ilha de Moçambique.
Há que se referir que o tufu é uma dança festiva executada nas mais diversas ocasiões
(casamentos, encerramento dos ritos osinkiya, emwali, nascimentos, entre outras celebrações
de carácter religioso e não religioso) actualmente praticada apenas por mulheres, anamwina,
dirigidas por uma mestra que pode ser uma halifa (esposa de um sheik ou de um shehe,
figuras da hierarquia religiosa muçulmana), também designada rainha ou raice. Na dança, os
homens apenas participam como instrumentistas, tocadores de kotxo-kotxo (chocalhos de
mão) e de batuques.
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Referencias bibliográficas
INSTITUTO NACIONAL DE ESTATÍSTICA. Recenseamento Geral da população e
habitação: Indicadores Socio-Demográficos da Província de Nampula. Nampula, 2007.
MINISTÉRIO DA ADMINISTRAÇÃO ESTATAL. Perfil do Distrito de Ilha de
Moçambique: Nampula. MAE, Maputo, 2005.
MINISTÉRIO DA ADMINISTRAÇÃO ESTATAL. Perfil do Distrito de Murrupula:
Nampula. MAE, Maputo, 2005.
MUCHANGOS, Aniceto dos. Paisagens e Regiões Naturais de Moçambique. Maputo, 1999.
OMAR, Lúcia Laurentina. Os desafios para conservação ambiental e patrimônio cultural na
Ilha de Moçambique. [Dissertação], Universidade São Paulo, São Paulo, 2013.
PIMENTEL, Francisco A. Lobo. Relatório sobre os usos e costumes do Posto Administrativo
do Posto de Chinga. Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto, Lisboa,
2009.
SAQUET, Marcos Aurélio. Abordagens e concepções de território. São Paulo: Expressão
Popular, 2007.