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Antibioticoprofilaxia Cirúrgica: Sua Prática Clínica Está Baseada em Evidências?

O estudo avaliou a utilização de antibioticoprofilaxia cirúrgica em um hospital universitário, revelando que 11,7% dos antibióticos prescritos foram para esse fim, com a maior parte utilizada em unidades de ortopedia e pós-operatórias. A duração do uso de antimicrobianos foi inadequada em várias unidades, evidenciando a necessidade de estratégias para promover o uso racional de antibioticoprofilaxia. Constatou-se que a utilização de antibióticos não seguiu as diretrizes internacionais, o que pode contribuir para a resistência microbiana.

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Antibioticoprofilaxia Cirúrgica: Sua Prática Clínica Está Baseada em Evidências?

O estudo avaliou a utilização de antibioticoprofilaxia cirúrgica em um hospital universitário, revelando que 11,7% dos antibióticos prescritos foram para esse fim, com a maior parte utilizada em unidades de ortopedia e pós-operatórias. A duração do uso de antimicrobianos foi inadequada em várias unidades, evidenciando a necessidade de estratégias para promover o uso racional de antibioticoprofilaxia. Constatou-se que a utilização de antibióticos não seguiu as diretrizes internacionais, o que pode contribuir para a resistência microbiana.

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ARTIGO ORIGINAL

Antibioticoprofilaxia cirúrgica: sua


prática clínica está baseada em evidências?
Publicação Oficial do Instituto Israelita
de Ensino e Pesquisa Albert Einstein

Surgical antibiotic prophylaxis: is the clinical practice


ISSN: 1679-4508 | e-ISSN: 2317-6385 based on evidence?
Lucas Borges Pereira1, Cinara Silva Feliciano2, Diego Silva Siqueira3, Fernando Bellissimo-Rodrigues4,
Leonardo Régis Leira Pereira1
1
Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, SP, Brasil.
2
Hospital das Clínicas, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, SP, Brasil.
3
Faculdade de Ciências Farmacêuticas, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Araraquara, SP, Brasil.
4
Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, SP, Brasil.

DOI: 10.31744/einstein_journal/2020AO5427

❚❚RESUMO
Objetivo: Avaliar a utilização de antibioticoprofilaxia cirúrgica. Métodos: Foi realizado um estudo
descritivo em um hospital universitário de cuidado terciário por meio de coleta de dados de prescrição,
sociodemográficos e de hospitalização sobre todos os pacientes internados em 2014 que
utilizaram pelo menos um medicamento antimicrobiano. Esses dados foram coletados da base
de dados eletrônica do hospital. O consumo de antimicrobianos foi analisado de acordo com a
classificação anatômica terapêutica e química/dose diária definida por mil pacientes-dia.
Realizou-se uma análise exploratória por meio da análise de componentes principais. Resultados:
Um total de 5.182 pacientes internados receberam prescrição de antibioticoprofilaxia cirúrgica,
que corresponde a 11,7% do total de antibióticos utilizados no hospital. As unidades de ortopedia,
pós-operatória de cirurgia torácica e cardiovascular e terapia intensiva pós-operatória foram
responsáveis pela utilização de mais da metade (56,3%) da antibioticoprofilaxia cirúrgica. A
Como citar este artigo: duração de uso desses antimicrobianos nessas unidades foi 2,2, 2,0 e 2,4 dias, respectivamente.
Pereira LB, Feliciano CS, Siqueira DS, Bellissimo-
Cefalosporinas de terceira geração e fluoroquinolonas foram as classes de antimicrobianos
Rodrigues F, Pereira LR. Antibioticoprofilaxia
cirúrgica: sua prática clínica está baseada com tempo de utilização mais longo. Conclusão: A utilização de antibioticoprofilaxia cirúrgica
em evidências? einstein (São Paulo). foi inadequada nas unidades de ortopedia, pós-operatória de cirurgia torácica e cardiovascular,
2020;18:eAO5427. [Link] terapia intensiva pós-operatória, ginecologia e obstetrícia e otorrinolarigonlogia. Portanto, são
einstein_journal/2020AO5427
importantes o desenvolvimento e a implantação de estratégias que promovam o uso racional de
Autor correspondente: antibioticoprofilaxia cirúrgica nos hospitais.
Lucas Borges Pereira
Faculdade de Ciências Farmacêuticas de
Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo Descritores: Revisão de uso de medicamentos; Antibioticoprofilaxia; Resistência microbiana a
Avenida do Café, s/nº – Vila Monte Alegre medicamentos; Infecção da ferida cirúrgica/prevenção & controle; Controle de infecções
CEP: 14040-903 – Ribeirão Preto, SP, Brasil
Tel.: (16) 3315-0254
E-mail: lucasborgespereira82@[Link]
❚❚ABSTRACT
Data de submissão:
30/9/2019 Objective: To assess the surgical antibiotic prophylaxis. Methods: This was a descriptive study
performed at a public tertiary care university hospital gathering prescription, sociodemographic
Data de aceite:
13/4/2020 and hospitalization data of inpatients admitted in 2014 who used antimicrobial drugs. This data
were obtained from the hospital electronic database. The antimicrobial data were classified
Conflitos de interesse:
não há. according to the anatomical, therapeutic chemical/defined daily dose per 1,000 inpatients. An
exploratory analysis was performed using principal component analysis. Results: A total of 5,182
Copyright 2020 inpatients were prescribed surgical antibiotic prophylaxis. Of the total antimicrobial use, 11.7%
were for surgical antibiotic prophylaxis. The orthopedic, thoracic and cardiovascular postoperative
Esta obra está licenciada sob
uma Licença Creative Commons units, and postoperative intensive care unit comprised more than half of the total surgical
Atribuição 4.0 Internacional. antibiotic prophylaxis use (56.3%). The duration of antimicrobial use of these units were 2.2,

einstein (São Paulo). 2020;18:1-7


1
Pereira LB, Feliciano CS, Siqueira DS, Bellissimo-Rodrigues F, Pereira LR

2.0, and 1.4 days, respectively. Third-generation cephalosporins and documento Antimicrobial Resistance: Global Report on
fluoroquinolones had the longest use among antimicrobial classes. Surveillance, destacando a importância da utilização ra-
Conclusion: Surgical antibiotic prophylaxis was inadequate in the cional de antimicrobianos para evitar resistência.(1,10)
orthopedic, postoperative intensive care, thoracic and cardiovascular Os poucos relatórios sobre a utilização de APC,
postoperative, gynecology and obstetrics, and otolaryngology units. além desse contexto de resistência antimicrobiana, en-
Therefore, the development and implementation of additional strategies
fatizam a necessidade de estudos sobre a utilização de
to promote surgical antibiotic stewardship at hospitals are essential.
medicamentos como estratégia para seu uso racional, a
fim de melhorar a efetividade da profilaxia cirúrgica e
Keywords: Drug utilization review; Antibiotic prophylaxis; Drug
resistance, microbial; Surgical wound infection/prevention & control; reduzir a seleção de resistência antimicrobiana.
Infection control

❚❚OBJETIVO
❚❚INTRODUÇÃO Descrever a utilização da antibioticoprofilaxia cirúrgica
A infecção do sítio cirúrgico (ISC) é facilmente evitada, e avaliar se ela está de acordo com as diretrizes inter-
nacionais.
caso os critérios de prevenção sejam rigorosamente
seguidos, mas continua sendo uma infecção relacionada
à assistência à saúde (IRAS) frequente, sendo dispendiosa ❚❚MÉTODOS
para o sistema público de saúde.(1) Sujeitos e cenário
Um método de prevenção da ISC é a antibiotico- Este estudo descritivo foi realizado em um hospital uni-
profilaxia cirúrgica (APC), que demonstrou ser efeti- versitário de nível terciário de atenção à saúde com 706
va na literatura científica.(2,3) No entanto, o benefício é leitos, no estado de São Paulo. Os dados do paciente
obtido apenas quando os seguintes critérios são utiliza- eram gerenciados por sistemas eletrônicos, que incluí-
dos corretamente: administração pré-cirúrgica; seleção am a Prescrição Eletrônica e o Sistema de Informações
adequada do antimicrobiano com base no tipo de proce- Hospitalares. A população estudada compreendeu todos
dimento cirúrgico e no patógeno mais frequentemente os pacientes internados com idade ≥18 anos que rece-
observado na ISC; administração de mais de uma dose beram prescrição antimicrobiana entre 1º de janeiro e
em procedimentos de maior duração; e descontinuação 31 de dezembro de 2014.
da dose após o fechamento da ferida operatória.(1,4)
Apesar disso, a APC tem sido utilizada por longos
Coleta de dados
períodos, ou são prescritos antimicrobianos de amplo Os sistemas eletrônicos do hospital foram analisados,
espectro, o que não oferece benefício adicional para sendo coletados os dados de todos os antimicrobianos
determinadas cirurgias ou para procedimentos sem tal prescritos em 2014. Neste estudo, foram analisados
indicação. Zhang et al.,(5) observaram que foi adminis- apenas antimicrobianos prescritos com objetivo de pro-
trada APC 2 horas antes da incisão cirúrgica, com tempo filaxia, utilizados para prevenir a infecção de pacientes
de utilização variando de 1 a 14 dias. Queiroz et al.,(6) internados, como a ISC em pacientes cirúrgicos (essas
relataram que apenas 3,3% das prescrições de APC es- informações foram apresentadas em dados do sistema
tavam isentas de erros. Mesmo com os protocolos hos- eletrônico). As informações coletadas sobre a prescri-
pitalares de APC, existem discrepâncias na utilização ção incluíram a dose, o tempo de utilização, a enfer-
de antimicrobianos, conforme relatado por Khakhkhar maria onde o medicamento foi prescrito, o nome e a
et al.,(7) e Schmitt et al.(8) identificação hospitalar do paciente. Os dados clínicos
A eficácia da APC é determinada pelas concentra- incluíram o tempo de internação, o diagnóstico clínico
ções plasmáticas de agentes antimicrobianos que impe- de acordo com a Classificação Estatística Internacional
de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-10)
dem o crescimento microbiano durante os procedimen-
e o número de pacientes internados por dia, em 2014,
tos cirúrgicos. A utilização prolongada após a cirurgia
para cada enfermaria.
não oferece benefício adicional na prevenção da ISC e
está associada à resistência antimicrobiana.(1,9)
A resistência antimicrobiana tem sido discutida Análise estatística
por órgãos governamentais e de saúde pública. A 71ª Foi realizada análise descritiva dos dados dos pacientes
Assembleia Geral das Nações Unidas abordou a dis- internados. Os resultados das análises descritivas foram
seminação de infecções resistentes a antimicrobianos, apresentados como frequências absolutas e relativas,
e a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou o média e desvio padrão (DP).

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2
Antibioticoprofilaxia cirúrgica: sua prática clínica está baseada em evidências?

A utilização de antimicrobianos foi calculada por meio


da dose diária definida (DDD) por mil pacientes-dia. Esse
cálculo foi realizado para cada medicamento utilizado
em cada enfermaria.(11)

Soma de antimicrobianos usados em 2014


DDD/1.000 (em gramas)
= × 1.000
pacientes-dia DDD do antimicrobiano × pacientes-dia
da enfermaria em 2014

Os antimicrobianos foram classificados de acordo


com a classificação anatômica terapêutica química
(ATC) padronizada pela OMS.(12)
Para complementar a avaliação da utilização de
antimicrobianos, uma análise exploratória dos dados
foi realizada pela análise de componentes principais
(ACP) usando o programa Statistica® 7.0. As variá-
veis incluídas nessa análise foram tempo de utilização DHD: dose diária definida/1.000 pacientes-dia; TU: tempo de utilização; J01CR: combinações de penicilina mais inibidor
de betalactamase; Clind: clindamicina; J01CA: penicilinas de amplo espectro; J01E: sulfonamidas e trimetoprim; J01XA:
do medicamento, DDD/1.000 pacientes-dia, idade do glicopeptídeos; TI: tempo de internação; J01DH: carbapenêmicos; J01GB: outros aminoglicosídeos; J01MA: fluoroquino-
paciente e tempo de internação. A ACP é uma técni- lonas; Dap: dapsona; Nitr: nitrofurantoína.
Figura 1. Variância das enfermarias (A) explicada pelos componentes principais,
ca estatística multivariada exploratória. Ela utiliza um representados pelo consumo de cada grupo de antibióticos (B)
processo de análise matricial para converter um conjun-
to de dados com muitas variáveis em um novo conjunto
de dados representado por vetores. Esses novos vetores
representam a interação entre as diferentes variáveis,
reduzindo a quantidade de dados a serem analisados,
sem perder a representatividade do banco de dados ori-
ginal. Após a padronização, os dados foram codificados
como zero para a média e 1 para a variância. O objetivo
é reduzir a dimensionalidade dos dados, para que eles
sejam representados geometricamente.
O banco de dados do estudo tem as variáveis e o
consumo de antimicrobianos das enfermarias de cada
classe ATC. Se representássemos esse consumo antimi-
crobiano de cada enfermaria em um gráfico, precisaría-
mos de um gráfico multidimensional (múltiplos eixos),
pois cada classe ATC é uma dimensão.
A ACP reduz esse gráfico multidimensional, de
modo que se torne um gráfico bidimensional (dois eixos). DHD: dose diária definida/1.000 pacientes-dia; TU: tempo de utilização; TI: tempo de internação; J01CR: combinações de
penicilina mais inibidor de betalactamase; Clind: clindamicina; J01CA: penicilina de amplo espectro; J01E: sulfonamidas
A figura 1 mostra, após o processamento dos dados pela e trimetoprim; J01XA: glicopeptídeos; J01DH: carbapenêmicos; J01GB: outros aminoglicosídeos; J01MA: fluoroquino-
lonas; Dap: dapsona; Nitr: nitrofurantoína; TMO: transplante de medula óssea; Psiqui: psiquiatria; MI: moléstias infeccio-
ACP, qual percentagem cada variável possui ou explica a sas; UETDI: unidade especial de tratamento de doenças infecciosas; UPOTC: unidade pós-operatória de cirurgia torácica
variação dos dados totais. As duas dimensões do gráfi- e cardiovascular; UC: unidade coronariana; CIREP: centro de cirurgia de epilepsia; Onco: oncologia; CM6º: clínica geral
do sexto andar; CM5º: clínica geral do quinto andar; CM4º : clínica geral do quarto andar; UTIPO: unidade de terapia
co apresentadas na figura 2 são as duas variáveis com intensiva pós-operatória; Orto: ortopedia; UPC: unidade de pesquisa clínica; Neuro: neurologia; CC9º: clínica cirúrgica
do nono andar; CC10º: clínica cirúrgica do décimo andar; Part: particular; UTR: unidade de transplante renal; Enf 12º:
maior representatividade na variação dos dados, e os otorrinolaringologia e cirurgia de cabeça e pescoço.
pontos nos gráficos representam o comportamento da Figura 2. Biplotagem dos componentes principais de acordo com a enfermaria e
o grupo de utilização de antibióticos (dose diária definida/1.000 pacientes-dia).
variável. Quanto mais próximos no gráfico estiverem os Quanto mais próximos os componentes principais estiverem no gráfico, mais
pontos, mais semelhante é o comportamento em rela- semelhante é o comportamento dos dados
ção ao uso de antimicrobianos no hospital. Esse processo
de matematização e representação gráfica é comprovado
pela observação dos valores brutos. Embora a análise multivariada exista desde a década de
Optamos por realizar essa análise devido ao grande 1980 e seja aplicada em diferentes áreas, inclusive nas
número de variáveis, o que seria inviável para repre- ciências da saúde, a maioria dos estudos ainda explora
sentação gráfica, interpretação e tomada de decisão. pouco essas análises. Essa abordagem proposta atende

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3
Pereira LB, Feliciano CS, Siqueira DS, Bellissimo-Rodrigues F, Pereira LR

ao cenário atual, que gera enormes quantidades de Em relação ao tempo de utilização de antimicrobia-
dados diários para análise, dificultando interpretações nos nessas enfermarias, a enfermaria de ortopedia utilizou
e uma organização lógica das informações.(13,14) APC por menos de 2 dias apenas para combinações de pe-
O número de componentes principais utilizados para nicilina mais inibidor de betalactamase e penicilina de am-
interpretação considerou a explicação mínima de 80% da plo espectro (Tabela 2). Além disso, as cefalosporinas de
variância total dos dados e autovalores acima de um.(15) terceira geração e as fluoroquinolonas foram usadas por
mais de 2 dias em todas as enfermarias, exceto na UPOTC.

Aprovação ética Tabela 1. Utilização de cada classe de antimicrobianos nas enfermarias, de


acordo com dose diária definida/1.000 pacientes-dia
Esta pesquisa foi aprovada ad referendum pelo Comitê
Classe ATC
de Ética em Pesquisa (CEP) da Faculdade de Ciências (DDD/1.000 UPOTC UTIPO Ortopedia OCP
CC CC
GO Outros
Farmacêuticas de Ribeirão Preto, parecer 1.124.047, 9o 10o
pacientes-dia)
CAAE: 44399715.4.0000.5403, e pelo CEP do Hospital Penicilinas de 0,0 0,0 5,3 53,3 0,0 1,5 0,6 4,2
das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão amplo espectro
Combinação 0,0 0,0 1,0 16,7 0,5 0,4 0,6 7,8
Preto, parecer 1.139.544, CAAE: 44399715.4.3001.5440.
de penicilinas
mais inibidor de
betalactamase
❚❚RESULTADOS Cefalosporinas 206,6 268,9 309,5 38,1 109,2 46,3 74,5 186,8
Neste estudo, 7.287 pacientes internados receberam de primeira
geração
90.475 prescrições de antibióticos. Desses pacientes, Cefalosporinas 1,6 25,5 1,9 20,1 3,6 72,3 2,0 22,8
71,1% (5.182), correspondendo a 12.971 prescrições, de terceira
receberam prescrições profiláticas. Dentre esses pa- geração
cientes, 55,5% (2.875) eram do sexo feminino. A média Sulfonamidas e 0,7 1,4 2,2 1,0 0,6 4,5 0,7 78,3
trimetoprim
da idade de todos os pacientes com prescrições profilá-
Lincosamidas 0,0 9,4 3,3 54,2 1,0 0,0 1,7 13,9
ticas foi de 51,3 anos (DP de 17,3).
Outros 30,3 142,6 46,8 1,5 11,5 1,8 2,4 66,5
Ocorreram 5.819 internações entre esses pacientes, aminoglicosídeos
correspondendo a uma proporção de 1,12 hospitaliza- Fluoroquinolonas 0,0 0,0 14,4 17,8 15,0 7,5 5,9 29,1
ção por paciente. O tempo médio de permanência foi Glicopeptídeos 31,6 41,4 30,8 2,8 3,1 5,5 1,0 30,8
de 12,8 dias, mas 71,4% das internações tiveram tempo de Outros 1,2 0,0 4,7 3,4 1,9 0,9 7,4 31,8
permanência inferior a 7 dias. ATC: classificação anatômica terapêutica química; DDD: dose diária definida; UPOTC: unidade pós-operatória de cirurgia
torácica e cardiovascular; UTIPO: unidade de terapia intensiva pós-operatória; OCP: otorrinolaringologia e cirurgia de cabeça
Mais da metade dos diagnósticos clínicos desses pa- e pescoço; CC9º: clínica cirúrgica do nono andar; CC10º: clínica cirúrgica do décimo andar; GO: ginecologia e obstetrícia.

cientes internados foi representada por três classifica-


ções da CID-10: neoplasias (26,7%), sistema músculo- Tabela 2. Tempo de utilização profilática de cada classe de antimicrobianos em
dias, conforme classificação anatômica terapêutica e química, de acordo com a
-esquelético e tecido conjuntivo (13,6%) e doenças do enfermaria
sistema circulatório (10,1%). Classes ATC
UPOTC UTIPO Ortopedia OCP CC 9º CC 10º GO
A utilização de profilaxia antimicrobiana repre- (dias)
sentou 11,7% do consumo total hospitalar (tratamento Penicilinas de 0,0±0,0 0,0±0,0 1,8±0,9 1,8±0,7 0,0±0,0 1,2±0,5 1,4±0,5
amplo espectro
mais profilaxia). A cefazolina foi a mais usada, corres-
Combinação 0,0±0,0 0,0±0,0 1,8±1,3 1,7±0,9 2,0±1,0 1,7±1,1 2,0±0,7
pondendo a 52,0% da utilização profilática. Além disso, de penicilinas
a enfermaria de ortopedia, a unidade pós-operatória de mais inibidor de
cirurgia torácica e cardiovascular (UPOTC) e a unidade betalactamase
de terapia intensiva pós-operatória (UTIPO) corres- Cefalosporinas de 1,7±0,6 1,4±0,6 2,3±1,8 1,4±0,7 1,8±1,1 1,4±0,8 1,1±0,4
primeira geração
ponderam a 56,3% de todas as prescrições antimicro-
Cefalosporinas de 1,0±0,0 2,3±1,1 2,4±2,9 1,9±0,9 2,6±1,4 2,3±1,1 1,7±0,7
bianas profiláticas (Tabela 1). terceira geração
Destaca-se a elevada utilização de medicamentos Sulfonamidas e 1,0±0,0 2,0±0,0 5,0±5,9 1,7±1,5 1,6±0,5 4,9±4,0 2,8±2,2
antimicrobianos, inclusive aminoglicosídeos, na enfer- trimetoprim
maria de ortopedia. Além disso, a otorrinolaringologia Lincosamidas 0,0±0,0 4,0±0,0 2,4±2,0 2,2±1,3 1,4±0,5 0,0±0,0 1,7±0,7
e a cirurgia de cabeça e pescoço tiveram elevada taxa Outros 1,4±0,6 1,1±0,4 2,7±2,2 2,0±1,4 1,4±0,6 1,1±0,3 2,1±1,4
aminoglicosídeos
de prescrição de muitas classes de antibióticos, como
Fluoroquinolonas 0,0±0,0 0,0±0,0 2,3±1,6 2,3±2,2 2,0±1,0 2,8±2,5 3,6±4,1
penicilina de amplo espectro, lincosamida e cefalospo- Glicopeptídeos 1,5±0,6 1,6±0,5 2,2±2,0 1,5±0,6 1,6±0,7 1,2±0,5 2,1±1,4
rina de primeira geração. Por fim, a clínica cirúrgica do Resultados expressos como média ± desvio padrão do tempo (dias).
décimo andar apresentou alto uso de cefalosporinas de ATC: classificação anatômica terapêutica química; UPOTC: unidade pós-operatória de cirurgia torácica e cardiovascular;
UTIPO: unidade de terapia intensiva pós-operatória; OCP: otorrinolaringologia e cirurgia de cabeça e pescoço; CC9º: clínica
terceira geração. cirúrgica do nono andar; CC10º: clínica cirúrgica do décimo andar; GO: ginecologia e obstetrícia.

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Antibioticoprofilaxia cirúrgica: sua prática clínica está baseada em evidências?

Em relação à análise exploratória dos componen- situações com alto risco de colonização por bactérias
tes principais, cinco fatores foram os mais importantes com resistência a múltiplos fármacos.(17,18,20)
para explicar 80% da variação na utilização de antibió­ Em estudo realizado na Jordânia,(21) 58,9% das ci-
ticos em cada enfermaria: DDD/1.000 pacientes-dia rurgias cardíacas tiveram tempo de utilização da APC
de combinações de penicilinas mais inibidor de beta- mais longo do que o recomendado pelas diretrizes in-
lactamase, clindamicina, penicilina de amplo espectro, ternacionais, mas 95,8% das cirurgias cardíacas segui-
glicopeptídeos e tempo de utilização de sulfonamida e ram essas diretrizes na escolha de antibióticos para a
trimetoprim (Figura 1). profilaxia cirúrgica. Na França,(22) 48,0% das cirurgias
As enfermarias de transplante de medula óssea, psi- tiveram tempo de utilização da APC maior que o reco-
quiatria, doenças infecciosas, unidade especial de tra- mendado, e 92,3% das opções de antibióticos foram as
tamento de doenças infecciosas, unidade coronariana, recomendadas.
centro de cirurgia de epilepsia, oncologia, clínica geral A unidade de terapia intensiva é uma unidade que
do quinto andar e clínica geral do quarto andar apresen-
recebe pacientes em estado crítico, com elevado risco
taram tempo de permanência, tempo de utilização da
de apresentar doença infecciosa devido à imunidade
dapsona e de sulfonamidas e trimetoprim e DDD/1.000
reduzida, além do uso de dispositivos invasivos, como
pacientes-dia de dapsona e sulfonamidas e trimetoprim
cateteres ou tubos para ventilação mecânica.(23)
semelhantes (Figura 2, quadrantes Q1 e Q4). As enfer-
No entanto, a recomendação para uso da APC na
marias de moléstias infecciosas e a unidade especial de
tratamento de doenças infecciosas estavam no mesmo unidade de terapia intensiva é a mesma que para qual-
quadrante (Figura 2, quadrante 4). quer cirurgia realizada em pacientes que não estejam
As enfermarias UTIPO, ortopedia, unidade de pes­ em estado crítico. Essa unidade realiza muitos tipos de
quisa clínica, neurologia e clínica cirúrgica do nono procedimentos cirúrgicos, assim, a classe de antibióticos
andar tiveram tempo de uso de clindamicina, uso de utilizada pode variar. Observamos elevada utilização de
cefalosporina de primeira geração, idade do paciente cefalosporinas de primeira geração, as quais são reco-
e DDD/1.000 pacientes-dia de glicopeptídeos, outros mendadas para a maioria dos tipos de procedimentos
aminoglicosídeos e cefalosporina de primeira geração cirúrgicos; de glicopeptídeos para pacientes alérgicos
semelhantes (Figura 2, quadrante Q2). à penicilina ou em locais com frequência elevada de
Staphylococcus aureus resistente à meticilina e de ami-
noglicosídeos para cirurgias intestinais.(20)
❚❚DISCUSSÃO Contudo, em relação ao tempo de utilização, a re-
Dentre as 22 enfermarias do hospital, três (UTIPO, comendação é de uma dose de APC.(20) Essa conduta
UPOTC e ortopedia) foram responsáveis por mais da de prescrição não foi observada em nosso estudo, nem
metade das utilizações da APC. em estudo desenvolvido em unidade de terapia inten-
Embora as cirurgias cardiotorácicas sejam consi- siva cirúrgica da Alemanha, que constatou a utilização
deradas cirurgias limpas, a APC é indicada porque o de APC por 2 a 3 semanas após cirurgia de derivação
paciente internado geralmente está vulnerável, muitos cefalorraquidiana, correspondendo a 1.030 DDD/1.000
têm diabetes e o procedimento é demorado.(16) Vários
pacientes-dia.(24)
ensaios clínicos não mostraram benefício associado ao
As cirurgias ortopédicas são consideradas limpas,
uso prolongado da APC em comparação à dose única
e não há evidências de benefício para a utilização da
na cirurgia de revascularização do miocárdio,(17,18) na ci-
APC, exceto em cirurgias com implante de próteses,
rurgia valvar cardíaca(17) e em pacientes com insuficiên­
em grandes cirurgias, em pacientes imunodeprimidos
cia cardíaca grave que não puderam ser desmamados
da circulação extracorpórea sem bombeamento com ou em cirurgias de emergência. Nesses casos, a APC
balão intra-aórtico.(19) é recomendada. Uma dose de cefazolina com doses
Em nosso estudo, o tempo de utilização de cefalos- adicionais, de acordo com a duração do procedimento
porina de primeira geração na UPOTC foi de 1,7 dia ou o volume de sangramento, é recomendada em cirurgia
(DP de 0,6). Além disso, notamos a utilização de ami- ortopédica, devido ao baixo custo, à baixa toxicidade e aos
noglicosídeos na APC. Os ensaios clínicos mostraram bons níveis séricos e em tecido ósseo do medicamento.(25)
que medicamentos mais seguros com baixo espectro de Dentre as enfermarias, a ortopedia foi a que mais uti-
atividade, como a cefazolina, são efetivas para a pre- lizou APC, principalmente aminoglicosídeos. Essa classe
venção da ISC em cirurgias cardiovasculares, sendo re- antimicrobiana não é indicada para esse tipo de cirurgia.(20)
comendados pelas diretrizes internacionais, exceto em No entanto, durante o período do estudo, houve um

einstein (São Paulo). 2020;18:1-7


5
Pereira LB, Feliciano CS, Siqueira DS, Bellissimo-Rodrigues F, Pereira LR

surto de ISC por bacilos Gram-negativos na coluna perfil semelhante do uso antimicrobiano profilático de
vertebral, forçando a Comissão de Controle e Uso de sulfonamidas, trimetoprim e dapso­na nas enfermarias
Antimicrobianos a recomendar a adição de gentamicina de transplante de medula óssea, oncologia, doenças in-
à cefazolina para a APC nesses procedimentos. fecciosas e na unidade especial de tratamento de doen-
Buckley et al.,(26) avaliaram se o tempo de utilização ças infecciosas. Esses medicamentos são indicados para
da APC na cirurgia de fratura de quadril influenciou na profilaxia primária e secundária de pneumocistose ou
incidência de ISC. Não encontraram diferença signifi- toxoplasmose em pacientes imunodeprimidos. Essa ca-
cativa entre o grupo que usou dose de cefazolina e três racterística patológica é comum nessas enfermarias.(35)
doses de placebo e o grupo que usou quatro doses de A natureza descritiva deste estudo impediu a análi-
cefazolina. Queiroz et al.,(6) avaliaram 3 meses de utili- se das causas que motivaram o uso indevido de APC e
zação da APC na enfermaria de ortopedia após a imple- suas consequências. Além disso, o uso de fonte secun-
mentação de um protocolo de APC. Relataram a utili- dária de banco de dados impediu o controle completo
zação de 105,0 DDD/1.000 pacientes-dia de APC. Além das informações pelos pesquisadores, resultando em
disso, o único medicamento utilizado foi a cefazolina. um viés de informação.
Em Cingapura, a média do tempo de uso de APC foi de Estudos descritivos, porém, são a melhor estratégia
3 dias, semelhante ao encontrado em nosso estudo.(27) para determinar o perfil de utilização de APC. Assim,
Ao serem comparadas com a ortopedia, a UPOTC podemos propor uma hipótese para teste em futuros es-
e a UTIPO, observa-se reduzido consumo de APC nas tudos analíticos. Além disso, estudos descritivos permi-
clínicas cirúrgicas do nono e décimo andares, otorrino- tem avaliar toda a população estudada com baixo custo
laringologia e cirurgias de cabeça e pescoço e na gine- e tempo, porém com conclusões significativas.(36)
cologia e obstetrícia. No entanto, essa utilização pode Poucos estudos descritivos avaliaram a utilização
ser reduzida ainda mais se o tempo de utilização da geral da APC nas enfermarias dos hospitais do Brasil.
APC correspondesse ao descrito na literatura. Nessas Portanto, este estudo forneceu uma visão abrangente
enfermarias, observamos 2 ou mais dias de APC para do cenário atual de abuso de utilização de antimicrobia-
algumas classes de antimicrobianos. nos e do surgimento de resistência antimicrobiana que
A clindamicina é indicada para cirurgias de cabeça preocupa a saúde pública em todo o mundo.
e pescoço, representando a classe mais usada nessa en-
fermaria. Carrol et al.,(28) estudaram o uso profilático
da clindamicina em cirurgias de cabeça e pescoço e não ❚❚CONCLUSÃO
observaram diferença na ISC entre os grupos que usa- Apesar das limitações do estudo, fica claro que a utili-
ram uma dose única ou 5 dias de APC. Estudo realizado zação da antibioticoprofilaxia cirúrgica é inadequada e
em Taiwan sobre cirurgias de cabeça e pescoço relatou não leva em consideração as diretrizes ou os protoco-
achados semelhantes.(29) Porém, na prática, observamos los hospitalares da Organização Mundial da Saúde. A
o uso pós-operatório como estudado no Reino Unido, presença das Comissões de Uso de Antimicrobianos e
onde 70% dos cirurgiões usaram por 3 dias ou mais a Controle de Infecção Hospitalar neste hospital não foi
APC na laringectomia.(30) suficiente para evitar esse cenário. Portanto, são neces-
Em relação às cirurgias ginecológicas e obstétricas, sárias estratégias adicionais para promover e avaliar o
a literatura científica relata o uso de muitos tipos de uso racional da antibioticoprofilaxia cirúrgica, incluin-
medicamentos para APC com efetividade semelhante: do equipes de auditoria, treinamento frequente em re-
clindamicina combinada com aztreonam ou cefotaxi- lação a utilização dos protocolos de antibioticoprofila-
ma,(31) cefoperazona combinada com sulbactam,(32) ce- xia cirúrgica e medidas mais radicais, como a restrição
fazolina(33) e ampicilina mais metronidazol.(34) Apesar de prescrições de antibioticoprofilaxia cirúrgica que
dessa variedade de medicamentos, todos os estudos não sigam o protocolo, principalmente nas unidades de
mostraram que uma dose única é tão efetiva quanto a ortopedia, na unidade de terapia intensiva pós-opera-
administração de APC por vários dias. Contudo, não tória, na unidade pós-operatória de cirurgia torácica e
observamos esse achado em nosso estudo e em todo o cardiovascular, nas unidades de ginecologia e obstetrí-
mundo, como em estudo realizado na Índia, o tempo cia e nas unidades de otorrinolaringologia.
médio de utilização da APC foi 6,14 dias em cirurgias
ginecológicas e obstétricas.(7)
Em alguns pacientes com neoplasias e vírus da imu- ❚❚AGRADECIMENTOS
nodeficiência humana, uso profilático de antimicrobianos Ao Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de
pode ter ocorrido em pacientes não submetidos à cirur- Ribeirão Preto, por permitir a realização deste estudo
gia. Isso foi demonstrado na ACP, na qual observamos na instituição.

einstein (São Paulo). 2020;18:1-7


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Antibioticoprofilaxia cirúrgica: sua prática clínica está baseada em evidências?

O estudo obteve suporte financeiro da Coordenação 17. Tamayo E, Gualis J, Flórez S, Castrodeza J, Eiros Bouza JM, Alvarez FJ.
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