COMUNICAÇÃO MÉDICO-PACIENTE,
EMPATIA E BIOÉTICA:
INSIGHTS DE UMA REVISÃO INTEGRATIVA
PHYSICIAN-PATIENT COMUNICATION, EMPATHY,
Centro Universitário de Adamantina
Revista OMNIA Saúde AND AUTONOMY:
ISSN 1806-6763 | e-ISSN: 2236-188X
[Link]
INSIGHTS FROM NA INTEGRATIVE REVIEW
Resumo: A comunicação entre médico e paciente é fundamental para a
Jéssica Martins Alves¹*,
qualidade do atendimento prestado, sendo um componente essencial tanto
Guilherme Dias Bonadirman¹
para a construção de uma relação de confiança quanto para a compreensão
integral do paciente, considerando suas necessidades biopsicossociais e
individuais. Contudo, os desafios contemporâneos enfrentados nesse
Departamento de Medicina, Centro Universitário
1
processo são inúmeros e persistem de maneira incessante. Este estudo
de Adamantina, Adamantina, SP, Brasil destaca-se por sua originalidade ao correlacionar o desenvolvimento da
Autor correspondente: empatia e da autonomia do paciente a partir da bioética acadêmica, com a
[Link]@[Link] hipótese de que ambas possam atuar como mediadoras para a efetivação
de uma comunicação médico-paciente mais eficiente e humanizada. A
Recebido em: 16/07/2025
Aceito em: 22/09/2025 relevância deste estudo se justifica pela escassez de abordagens
aprofundadas sobre o tema na literatura atual. A viabilidade da pesquisa é
respaldada pelo crescente interesse acadêmico e profissional no processo
de humanização da medicina, que tem sido cada vez mais reconhecido
como essencial para a prática médica. Por meio de uma revisão integrativa
de literatura, o presente trabalho busca contribuir para a formação dos
futuros médicos, enfatizando a importância da compreensão e valorização
da empatia, segundo os princípios da bioética médica, para o
desenvolvimento de uma comunicação eficaz no cuidado ao paciente. Essa
abordagem tem como objetivo promover uma prática médica mais
humanizada, centrada no paciente, e que respeite suas particularidades e
necessidades.
Palavras-chave: Autonomia; Comunicação médico e paciente; Empatia.
Abstract: Physician-patient communication is and valuing empathy, as well as bioethical principles, for the
fundamental to the quality of care provided, serving as an development of effective communication in patient care.
essential component for both building a trusting This approach seeks to promote a more humanized, patient-
relationship and achieving a comprehensive understanding centered medical practice that respects patients'
of the patient, considering their biopsychosocial and particularities and needs.
individual needs. However, contemporary challenges in this Keywords: Autonomy; Physician-Patient Communication;
process are numerous and persist relentlessly. This study Empathy.
stands out for its originality in correlating the development
of empathy through spirituality and patient autonomy INTRODUÇÃO
through academic bioethics, with the hypothesis that both Exercerei a minha profissão com consciência e
may act as mediators for more efficient and humanized dignidade e de acordo com as boas práticas médicas
physician-patient communication. The relevance of this (1). Tal citação refere-se a um trecho do juramento de
study is justified by the scarcity of in-depth approaches on Hipócrates, corriqueiramente realizado na colação de
the topic in the current literature. The feasibility of the grau das formaturas de Medicina, de forma que,
research is supported by the growing academic and inquestionavelmente, designa a obrigatoriedade dos
professional interest in the process of humanizing formandos com as boas práticas médicas. São
medicine, which is increasingly recognized as essential for inúmeras as colaborações da bioética ao campo
medical practice. Through an integrative literature review, profissional, não obstante, é um valioso instrumento
the present work aims to contribute to the training of future de proteção dos valores humanos na área da saúde,
physicians, emphasizing the importance of understanding no qual seus princípios (beneficência, não
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maleficência, autonomia e justiça) estão em no lugar do outro, compreendendo e imaginando seus
consoante com o juramento de Hipócrates, o qual sentimentos, desejos e visão de mundo, mesmo que
mantem-se presente por séculos. Parte de seus sejam diferentes da sua.
princípios objetivam efetivar a qualidade do Simultaneamente é relevante o reconhecimento da
atendimento em saúde assumindo uma postura dimensão humana, psicológica e cultural dos
acolhedora de escuta, capaz de desencadear pacientes, que antes eram muitas vezes
respostas adequadas ao cuidado por parte dos negligenciadas, tornou-se agora essencial, sendo
médicos e dos pacientes (9). Em especial o princípio da integrada ao currículo da formação médica. Fato este
autonomia, o qual é parcialmente responsável pela importuno, visto que já vêm sendo consolidado desde
transição do antigo modelo paternalista pelo modelo a década de 1990, não sendo uma novidade para a
centrado na pessoa (14). ética médica. O juramento hipocrático, por exemplo,
As transformações sociais, em especial no caso da já estabelecia, de forma clara, o respeito à autonomia
medicina, as quais são amparadas pelos princípios do paciente ao afirmar: “Respeitarei a autonomia e a
dos direitos humanos, vêm progressivamente dignidade do meu paciente” (1). Essa orientação ética
promovendo mudanças. Prioritariamente ao é corroborada pelos princípios da bioética, que
presente artigo, cabe a mudança na dinâmica das defendem o direito do paciente de ser sujeito ativo nas
relações médico-paciente, que anteriormente eram decisões relacionadas ao seu cuidado. Além disso, a
hierarquizadas - onde o médico assumia uma posição autonomia do paciente é um princípio basilar também
de superioridade -, para uma posição horizontalizada no Sistema Único de Saúde (SUS), o qual enfatiza a
– com a participação ativa do paciente a partir do participação do usuário nos processos de decisão
princípio da autonomia. A referida mudança nessa sobre sua saúde.
dinâmica, deve-se ao avanço do capitalismo que Para que tais princípios sejam respeitados, os médicos
resultou em uma significativa transfiguração na necessitam adquirir ferramentas tanto linguísticas
percepção dos pacientes, os quais cada vez mais vêm quanto emocionais, para estabelecer uma
sendo apresentados como consumidores e os comunicação efetiva, assertiva e empática com o
médicos como prestadores de serviço. Este novo paciente, visto que esta resulta em melhores
status atribui maior poder aos pacientes, incluindo a resultados clínicos, proporcionando apego
exigência por uma comunicação eficaz e transparente terapêutico e uma maior satisfação por parte do
nos atendimentos de saúde. Nesse contexto, ocorre paciente. Entretanto, a medicina atual vem
uma inversão de papéis: os pacientes, antes vistos apresentando infindos “fatores que perturbam a
como receptores de cuidados, passam a serem vistos comunicação e o vínculo na relação médico-paciente”
com clientes, os quais “sempre têm razão”, enquanto (11). Muitas vezes, as reclamações sobre o
os médicos já se posicionam, em muitos casos, como atendimento dizem respeito a falha de comunicação
prestadores de serviços. com o profissional, sendo traduzidas como
Diante das transformações sociais descritas acima, inabilidade em acolher e escutar o suficiente para tirar
cujos princípios do atendimento em saúde são conclusões, a utilização de termos excessivamente
aderidos aos direitos humanos, a comunicação entre técnicos e pouco compreensível ao ouvinte, ou certa
médico e paciente assume então um papel central no frieza demonstrada pelo profissional (6).
processo de cuidado, uma vez que é por meio dela que A empatia é um componente que, seja ela um atributo
se estabelecem as bases para a efetividade no emocional ou uma virtude intelectual, é indispensável
tratamento e na promoção da saúde. Dentre as na relação médico-paciente por promover a
consequentes transformações, é valido citar a comunicação centrada no paciente, ou seja, fortalecer
transição do modelo paternalista para o modelo sua autonomia, clarificando assim, a importância de
informativo, onde antes o médico detinha um controle estimulá-la precocemente em estudantes de
quase absoluto sobre as informações e decisões, hoje medicina.
precisam proporcionar e garantir a autonomia ao O presente artigo lança assim por via de estudo a
paciente. O que escasseava para que se cumprisse a importância do fortalecimento do ensino de aspectos
ética médica e o modelo centrado na pessoa, era algo bioéticos, visto que, estes podem agir como
que transcendia os livros, era o inefável, que precisava facilitadores na futura comunicação profissional com
ser sentido e despertado nos profissionais. O que seus pacientes. Apresentando como objetivo a análise
escasseava era a empatia – a capacidade de se colocar de aspectos bioéticos os quais são capazes de
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despertar a empatia nos estudantes de medicina, cientifico do significado de empatia, segundo (13) a
assim como seus impactos na comunicação entre mesma pode ser compreendida como um processo
médico e paciente. Justificando a relevância integrado entre pensamento e comportamento,
acadêmica, profissional e pessoal, a atual discussão caracterizando-se pelo ato psicológico de colocar-se
sobre os problemas de comunicação entre médico e no lugar do outro, considerando dimensões
paciente, o impacto resultante na saúde dos mesmos cognitivas, emocionais e motivacionais. O aspecto
e o fortalecimento da aplicação da empatia e da cognitivo refere-se à capacidade de compreender a
autonomia nas universidades, as quais que de forma experiência e os sentimentos alheios, bem como
interdisciplinar, estruture e solidifique a moral dos interpretar o mundo a partir da perspectiva de outras
estudantes de acordo com o respeito da dignidade e pessoas. O aspecto emocional envolve a habilidade de
direcionar atenção afetiva às vivências dos demais,
dos valores humanos.
enquanto o aspecto motivacional relaciona-se ao
sentimento de pertencimento social e de
MATERIAL E MÉTODOS
responsabilidade coletiva. Nesse sentido, o exercício
Este estudo configura-se como uma revisão
da empatia configura-se como um desafio cotidiano
integrativa da literatura, desenvolvida com
para o estudante de medicina, uma vez que tal
abordagem qualitativa, de caráter exploratório e
competência deve ser desenvolvida continuamente
natureza bibliográfica, tendo como objetivo sintetizar
ao longo do processo de aprendizagem e formação
e analisar criticamente as evidências disponíveis sobre
profissional.
o tema em questão.
Tal desafio é cabível de análise visto que, a
Os materiais utilizados para sua realização foram
importância do estabelecimento de relações
obtidos por meio de bases de dados científicas
empáticas revela-se essencial, visto que todas as
reconhecidas, como Scielo, PubMed e UpToDate, com
práticas voltadas ao cuidado do paciente — tais como
vocábulos como empatia, relação médico-paciente,
fornecer informações, oferecer orientações,
bioética e humanização.
promover conforto e prestar atendimento —
Os critérios de inclusão dos artigos e teses que
demandam competências comunicacionais, tanto
orientaram esta pesquisa foram: o ano de publicação
verbais quanto não verbais.
(2019-2025), a legitimidade científica do local de
Diante do mesmo contexto, em 2001, o Ministério da
publicação e a adequação da temática às palavras-
Saúde e o Ministério da Educação instituíram as
chave definidas, as quais foram estruturadas
Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) para os cursos
utilizando operadores booleanos (OR). Os critérios de
da área da saúde, incluindo a graduação em Medicina,
exclusão englobaram artigos publicados antes de
com a finalidade de promover uma formação
2018 e aqueles provenientes de fontes de qualidade
acadêmica alinhada aos princípios e diretrizes do
duvidosa.
Sistema Único de Saúde (SUS). As mudanças
propostas representaram um marco na organização
RESULTADOS E DISCUSSÃO
curricular das escolas de saúde no Brasil, ao incentivar
Perante mais de 50 artigos lidos e seguindo os critérios
a formação de profissionais críticos, reflexivos,
de inclusão citados acima, 16 artigos foram
humanizados e comprometidos com valores éticos,
considerados significativos ao presente estudo e
além de enfatizar a importância do desenvolvimento
utilizados como referencial.
de habilidades comunicacionais na relação médico-
Os aspectos da ética médica em condição de grade
paciente, dentre as quais, a empatia se demonstrou
curricular, mostrou-se bem estruturado e claro em
objeto indispensável.
sua finalidade de promover a reflexão ética e
A comunicação assertiva mostra-se como outro
humanística sobre as ações e decisões no âmbito da
desafio no âmbito dos serviços de saúde, onde a
prática médica. Dentre seus objetivos estão
mesma reside em transformar a relação distante e
desenvolver a consciência ética e crítica do estudante
impessoal em uma abordagem mais acolhedora e
de medicina, capacitando-o a reconhecer, analisar e
humanizada, com base na empatia, escuta ativa e
resolver conflitos morais que surgem na prática
vínculo entre os profissionais de saúde e os pacientes.
médica e nas ciências da saúde. A disciplina
Como destacado por Ceron (6), a qualidade da
fundamenta-se nos princípios do SUS da autonomia,
comunicação é fundamental para melhorar a adesão
beneficência, não maleficência e justiça, buscando
ao tratamento, promover melhores prognósticos,
desenvolver a consciência moral e a responsabilidade
aumentar a satisfação do paciente e reduzir o número
profissional dos futuros médicos.
de denúncias e processos judiciais contra os
No que diz respeito ao esclarecimento técnico e
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profissionais. Nesse sentido, surge a questão: Quais proposto, o modelo centrado na pessoa, envolve uma
fatores limitam a eficácia da comunicação entre interação mais complexa, onde o médico leva em
médico e paciente? consideração não apenas os aspectos clínicos da
Segundo Tese de Doutorado realizada pela doença, mas também a experiência subjetiva do
Universidade Federal de São Paulo em 2005 (11) a paciente, seus sentimentos, expectativas e contexto
respeito da comunicação e suas perturbações, as social. Cujo modelo busca construir, em conjunto com
análises apontaram que entre os fatores limitantes o paciente, um plano terapêutico realista, claro e
estudados destacam-se os ruídos e as interferências. baseado em objetivos comuns, o que contribui para
Os ruídos são considerados fatores externos aos uma relação mais colaborativa e satisfatória.
interlocutores, como o ambiente inadequado de As dificuldades contemporâneas na comunicação
atendimento, superlotação nas salas de espera e a médico-paciente, articuladas à crescente demanda
arquitetura do local de atendimento — elementos por práticas mais humanizadas, ressaltam a
que, em sua maioria, não estão sob o controle direto relevância de integrar o ensino da comunicação
dos médicos. Já as interferências são fatores internos, interpessoal e ética profissional desde a formação
os quais podem se resumir em três categorias: acadêmica. Essa integração é fundamental para
cognitivas, emocionais e socioculturais. As capacitar os futuros profissionais de saúde a
interferências cognitivas referem-se à dificuldade do enfrentar, de maneira reflexiva e sensível, os desafios
paciente em expressar suas queixas ou compreender comunicacionais que permeiam o exercício do
as informações fornecidas; as emocionais envolvem cuidado.
tanto o paciente (como ansiedade, medo ou Esclarecendo assim o objetivo do artigo, a relevância
agressividade) quanto o médico (como desinteresse da preparação precoce dos futuros profissionais de
ou crenças limitantes sobre o paciente); e as medicina, para que os mesmos adquiram habilidades
interferências socioculturais englobam as diferenças cruciais para proporcionar uma efetiva comunicação
de valores, crenças e comportamentos entre médico e médico-paciente ainda na faculdade, e não como
paciente. A partir das interferências comunicativas médico durante a na prática do dia a dia, as quais
que podem estar presentes nos atendimentos à podem ser compostas por situações de grande
saúde, é fundamental a ação do médico em adotar pressão e complexidade.
corriqueiramente uma postura empática, paciente e Diante desse cenário, torna-se imperativo repensar,
clara, não somente, também de utilizar algumas de maneira sistemática, o papel das disciplinas que
estratégias eficazes para superar essas interferências. compõem a formação dos futuros profissionais de
Uma das estratégias, trata-se de o médico se atentar saúde, com ênfase naquelas voltadas à internalização
não somente a comunicação verbal, mas a de valores éticos, como a empatia e o respeito à
comunicação não verbal, a qual também é autonomia do paciente. A Bioética, nesse sentido,
denominada por paralinguagem, que se refere às assume protagonismo ao possibilitar uma formação
nossas expressões faciais, gestos, posturas e tom de mais crítica e humanizada, ao propor que a mesma os
voz. Estes elementos não verbais apresentam grande estudantes a lidar com as complexidades
impacto na forma como a mensagem é recebida e comunicacionais inerentes à prática clínica de forma
interpretada pelo paciente, muitas vezes de maneira reflexiva e responsável. Visto que, a análise realizada
inconsciente. Marco (11) aponta que a adequada evidencia a importância de uma efetiva comunicação
utilização da comunicação não verbal entre médico e médico-paciente.
paciente resulta em maior satisfação do paciente,
melhor compreensão das informações médicas, CONCLUSÃO
adesão ao tratamento e resolução de sintomas. Conclui-se, assim, que a valorização integrada dos
Demonstrando assim, a importância de um aspectos técnicos, éticos e humanos na formação
treinamento contínuo para os profissionais de saúde médica constitui elemento essencial para o
no uso consciente e adequado de todas as formas de fortalecimento de uma prática clínica pautada na
comunicação. integralidade do cuidado, na empatia e na adequação
Outro aspecto colaborativo a uma boa comunicação às complexas exigências éticas e sociais que
entre médico e paciente é uma abordagem mais caracterizam o cenário contemporâneo da saúde.
holística e integradora do cuidado perante a
necessidade de mudança do padrão comunicacional,
ou seja, a passagem do modelo centrado na doença
para o modelo centrado na pessoa. O modelo ideal
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