1
Introdução
Atualização:
Fernando Luiz Windlin
Clayton Barcelos Zabeu
Ednildo Andrade Torres
Rjcardo Simões de Abreu
;;';José Roberto Coquetto
Sérgio Lopes dos Santos
Sergio Moreira Monteiro
As máquinas térmicas são dispositivos que permitem transformàr calor em tra
balho. O calor pode ser obtido de diferentes fontes: combustão, energia elétrica,
energia atômica etc. Este texto preocupa-se apenas com o caso em que o calor é
obtido pela queima do combustível, isto é, energia química em trabalho
mecânico.
Figura 1.1- Fluxos de massa e energia em um motor de combustão interna - MCI [A]. 28
Motores de Combustão Interna
A obtenção de trabalho é ocasionada por uma sequência de processos rea
lizados numa substância que será denominada "fluido ativo - F.N.'. No caso da
Figura 1.1, o FA é formado pela mistura ar e combustível na entrada do volume
de controle e produtos da combustão na saída.
Quanto ao comportamento do fluido ativo (FA), as máquinas térmicas se
rão classificadas em:
@
Motores de combustão externa - MCE: quando a combustão se proces
sa externamente ao FA, que será apenas o veículo da energia térmica
a ser transformada em trabalho, como, por exemplo, uma máquina a
vapor, cujo ciclo é apresentado na Figura 1.2.
@
Motores de combustão interna - MCI: quando o FA participa direta
mente da combustão.
Ao longo do texto serão focados os motores de combustão interna - MCI.
Quanto à forma de se obter trabalho mecânico, os MCI são classificados em:
0
e Motores alternativos: quando o trabalho é obtido pelo movimento de
vaivém de um pistão, transformado em rotação contínua por um sis
tema biela-manivela.
FA
Condensador
G
0
0
Agua de
resfriamento
FA: fluido ativo
O,: calor fornecido à caldeira
QR: calor retirado na condensação
W,: trabalho fornecido à bomba
WR: trabalho gerado
Figura 1.2- Ciclo Rankine representativo de um motor de combustão externa - MCE.
Introdução ao estudo dos motores de combustão interna
29
Motores rotativos: quando o trabalho é ob.
.
movimento de rotação. São exemplos· · a turb1·nta1do gas ~iretamente e o motor
Wankel por um
Motores de impulso: quando o trabalho é b .
.
dos gases expelidos em alta velocidade o 1 tido pela força de reaç:o
exemplos: motor a jato e foguetes.
pe o motor. Neste caso sao
1.2
Motores alternativos
1.2.1 Nomenclatura
De forma a unificar a nomenclatura tratada ne
.
principais elementos de um motor alternativ
:e
texto, a ~1~ra
1.3 mostra os
to na Figura 1.4 destaca-se o istã
.
~
e combustao mterna, enquan
denomin~das respectivament~ de o na:
pos1çoes extr~mas dentro cio cilindro,
inferior (PMI).
pon
° morto superior (PMS) e ponto morto
35
34
22
28 29
Figura 1.3-Vista dos componentes de um motor de combustão interna - MCI [q.
11
30
31
32
Diesel Os e componentes são: apresentados na Fi gu ra 1 · 3 pertencem a um
motor ciclo
1. Bomba d'água
5. Injetor de combustível
[Link] de combustível
2. Válvula termostática
6. Válvula de escapamento
1 O. Haste de válvula
3. Compressor de ar
7. Coletor de admissão
11. Duto de água
4. Duto de admissão
8. Válvula de admissão
12. Tampa de.válvula
continua 30
Motores de Combustão Interna
continuação
32. Motor de partida
13. Cabeçote
23.Cárter
24_ Engrenagem do virabrequim
33. Dreno de água
[Link] lateral
25. Amortecedor vibracional
34. Filtro de óleo
[Link]
35. Radiador de óleo
16. Eixo comando de válvulas
[Link]
[Link] de nível de óleo
[Link]
27. Duto de admissão
37_ Bomba manual de combustível
28_ Balancim da válvula de admissão
18. Virabrequim
29_ Balancim da válvula de escapamento 38_ Bomba injetora de combustível
19. Capa de mancai
30. Coletor de escapamento
39. Respiro do cárter
[Link]
40. Filtro de combustível
21. Bujão do cárter
[Link]ão
22. Bomba de óleo
nuanto ao item 18, virabrequim, não exi~te u1:1a pdadroniz~çãlo dee neºix· ~e~~
'-<.:
dd
· b qmm eixo e man1ve as
clatura, podendo se~ chAamfuanoção ::~:d;:omp;nente será discutida nos capí-
cambotas, entre outros.
tulos subsequentes.
Quanto à posição do pistão no interior do cilindro, adota-se:
Figura 1.4- Nomenclatura referente às posições do pistão.
Em que:
._
,
.
,
PMS: Ponto Morto Superior - é a posição na qual o p1stao esta o mais pro
ximo possível do cabeçote.
PMI: Ponto Morto Inferior - é a posição na qual o pistão está o mais afas
tado possível do cabeçote.
Introdução ao estudo dos motores de combustão interna
31
S:
Curso do pistão - é a distância percorrida pelo pistão quando se des
loca de um ponto morto para outro (do PMS a(Jl PMI) ou vice-versa.
V1:
Volume total - é o volume compreendido entre a cabeça do pistão e
o cabeçote, quando o pistão está no PMI.
V 2:
Volume morto ou volume da câmara de combustão - é o volume
compreendido entre a cabeça do pistão e o cabe<_;ate, quando o pistão
está no PMS (também indicado com Vrn)-
V du:
Cilindrada unitária - também conhecida coma volume deslocado
útil ou deslocamento volumétrico, é o volume deslocado pelo pistão
de um ponto morto a outro (veja Equação 1.1).
z:
Número de cilindros do motor.
D:
Diâmetro dos cilindros do motor.
Vd:
Volume deslocado do motor, deslocamento volumétrico do motor
ou cilindrada total (veja Equação 1.2).
o
U'l
\'.!
::, u
Figura 1.5 - Nomenclatura referente às posições do pistão [C].
Das Figuras 1.4 e 1.5, pode-se deduzir:
rc-D
2
vdu =
VI - Vz = -4-S
Eq.1.1
Para um motor dez cilindros (multicilindro), a cilindrada ou deslocamen
to volumétrico do motor V d será:
TC·D2
Vct= Vctu · z =- 4 -S-z
Eq.1.2 32
Motores de Combustão Interna
rv: Relação volumétrica ou taxa de compressão - é a relação entre o volu
me total (V 1 )
e o volume morto (V 2),
e representa em quantas vezes V 1
é reduzido (veja Equação 1.3).
V
:r:=-1
V
V
2
Da Equação 1.1:
v1
:r:=-
v
V
2
Eq.1.3
Eq.1.4
A Figura 1.6 apresenta uma relação construtiva típica entre o número z de
cilindros de um motor e a cilindrada total deste. Cabe ressaltar que os incre
mentas da eletrônica nos motores têm sistematicamente alterado essa relação
por causa dos recursos de controle disponíveis (exemplo: knock sensor).
0,5 L por ,,, cilindro
..........
,,
12
,,,
,.,, ..
,.
.. , .... " ......
"'
e
10
....... "
"'O
:§
,., ......
........
..........
·o
8
Q)
,,
............
,
"'O
e
,. ........ ,
Q)
E6
..........
,::,
.......
~
..
z
,,"' ........ ,
4
,., .....
,,,
, .... ,
,,,
2
,,,
,,,
2
3
4
5
6
7
8
Vdu -
cilindrada unitária (L)
Figura 1.6- Relação típica entre número de cilindros e volume deslocado [A].
1.2.2
Nomenclatura cinemática
Neste tópico serão descritas algumas características referentes à cinemática
dos motores e, para tanto, será utilizada a Figura 1.7.
Introdução ao estudo dos motores de combustão interna
-
figura 1.7 - Nomenclatura cinemática [q,
Sendo:
V.E.:
válvula de escapamento.
V.A.: válvula de admissão.
raio da manivela.
PMS
s
PMI
r:
n:
ro:
frequência da árvore de manivelas.
velocidade angular da árvore de manivelas.
velocidade média do pistão.
S
=
2-r
ro= 2n-n
V =2-S-n
p
33
Eq.1.5
Eq.1.6
Eq.1.7
a = ângulo formado entre a manivela e um eixo vertical de referência.
ª=Oº, quando o pistão está no PMS. 34
Motores de Combustão Interna
a= 180º, quando o pistão está no PMI.
L:
comprimento da biela.
x:
distância para o pistão atingir o PMS.
X=
r (1 - cosa)+ L(l -
~
1-
ct
)2-sen2 a)
Eq.1.8
Eq.1.9
1.2.3
Classificação dos motores alternativos quanto à
ignição
A combustão é um processo químico exotérmico de oxidação de um combus
tível. Para que o combustível reaja com o oxigênio do ar, necessita-se de algum
agente que provoque o início da reação. Denomina-se ignição o processo que
provoca o início da combustão.
Quanto à ignição, os motores alternativos são divididos em dois tipos
fundamentais:
MIF - MOTORES DE IGNIÇÃO POR FAÍSCA OU OTTO
Nesses motores, a mistura combustível-ar é admitida, previamente dosada
ou formada no interior dos cilindros
quando há injeção direta de combustí-
vel (GDI) 9asoline direct injection, e infla
mada por uma faísca que ocorre entre
os eletrodos de uma vela.
. MIE - MOTORES DE IGNIÇÃO
ESPONTÂNEA OU DIESEL
Nesses motores, o pistão comprime
somente ar, até que este atinja uma
temperatura suficientemente elevada.
Quando o pistão aproxima-se do PMS,
injeta-se o combustível que reage es
pontaneamente com o oxigênio pre
sente no ar quente, sem a necessidade
de uma faísca. A temperatura do ar
necessária para que aconteça a reação
180°
Figura 1.8- MIF - Motor de ignição por
faísca [C].
Introdução ao estudo dos motores de combustão interna
35
espontânea do combustível denomina-se "temperatura de autoignição (TAI)".
A Figura 1.9 apresenta uma câmara de combustão típica de um MIE, enquanto
a Tabela 1.1 apresenta alguns valores típicos da TAL
Figura 1.9- MIE - Motor de ignição espontânea [C].
Tabela 1.1- TAi - valores típicos.
Temperatura de Autoignição - TAi (ºC)
Diesel
1
Etanol Hidratado
1
Metanol
1
Gasolina E22
250
1
420
1
478
1
400
As diferentes formas de funcionamento dos dois tipos de motores criam
características distintas que, de certa forma, direcionam as suas aplicações,
como será visto ao longo do texto .
A Tabela 1.2 apresenta os valores praticados de taxa de compressão para os
diferentes combustíveis. Novamente cabe ressaltar que a massiva presença da
eletrônica nos motores tem sistematicamente alterado essa relação.
Tabela 1.2- r v Valores típicos.
Relação ou Taxa de compressão - r
v
MIF
MIE
Etanol Hidratado
1
Gasolina E22
Diesel
10,0:1 até 14,0:1
1
8,5:1 até 13,0:1
15,0:1 até 24,0:1 36
Motores de Combustão Interna
1.2.4
Classificação dos motores alternativos quanto ao
número de
tempos do ciclo de operação
Ciclo de operação, ou simplesmente ciclo, é a sequência de processos sofridos
pelo FA, processos estes que se repetem periodicamente para a obtenção ~e
trabalho útil. Entende-se por tempo o curso do pistão, e não se deve confundir
tempo com processo, pois, ao longo de um tempo, poderão acontecer diversos
processos, como será verificado a seguir. Quanto ao número de tempos, os
motores alternativos, sejam do tipo MIF ou MIE, são divididos em dois grupos:
MOTORES ALTERNATIVOS A QUATRO TEMPOS (4T)
Neste caso, o pistão percorre quatro cursos, correspondendo a duas voltas da
manivela do motor, para que seja completado um ciclo. Os quatro tempos, re
presentados na Figura 1.10, são descritos a seguir.
1 º Tempo Admissão
2ºTempo Compressão
3ºTempo Expansão
4ºTempo Escape
Figura 1.10-Os quatro tempos do motor alternativo [q.
Tempo de Admissão
O pistão desloca-se do PMS ao PMI. Nesse movimento, o pistão dá origem a
uma sucção (depressão) que causa um fluxo de gases através da válvula de ad
missão - V.A., que se encontra aberta. O cilindro é preenchido com mistura
combustível-ar ou somente ar nos motores de injeção direta de combustível
- GDI - se for de ignição por faísca, ou por ar (apenas ar), nos MIE.
Introdução ao estudo dos motores de combustão interna
37
Tempo de Compressão
Fecha-se a válvula de admissão e o pistão se desloca do PMI ao PMS, compri
mindo a mistura ou apenas ar, dependendo, respectivamente, de o motor ser
um MIF ou MIE. Nesse segundo caso, a compressão deverá ser suficientemente
elevada para que seja ultrapassada a TAI do combustível.
Tempo de Expansão
No MIF, nas proximidades do PMS, ocorre a faísca que provoca a ignição da
mistura, enquanto no MIE é injetado o combustível no ar quente, iniciando-se
uma combustão espontânea. A combustão provoca um grande aumento da
pressão, o que permite "empurrar" o pistão para o PMI, de tal forma que o FA
sofre um processo de expansão. Esse é o processo que realiza o tr~balho posi
tivo (útil) do motor.
·
Tempo de Escape
Com a válvula de escapamento aberta, o pistão desloca-se do PMI ao PMS,
"empurrando" os gases queimados para fora do cilindrq, para reiniciar o ciclo
pelo tempo de admissão.
~
.
~-
A Figura 1.11 apresenta para um motor de quatro cilindro~ q