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Clara, presa em um carro durante uma tempestade, encontra uma casa estranha e antiga no topo de uma colina. Ao entrar, ela descobre que está presa em um lugar entre momentos, onde encontra Gabriel, seu amor que morreu em um acidente há três anos. Através de memórias e tentativas de lembrança, Clara precisa confrontar seu passado e acordar de um coma, enquanto a casa desmorona ao seu redor.
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Clara, presa em um carro durante uma tempestade, encontra uma casa estranha e antiga no topo de uma colina. Ao entrar, ela descobre que está presa em um lugar entre momentos, onde encontra Gabriel, seu amor que morreu em um acidente há três anos. Através de memórias e tentativas de lembrança, Clara precisa confrontar seu passado e acordar de um coma, enquanto a casa desmorona ao seu redor.
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A Casa Que Aparecia na Chuva

A primeira vez que Clara viu a casa foi numa noite de tempestade.

Ela voltava do trabalho cansada, presa no trânsito de uma estrada


que atravessava o interior da cidade. A chuva caía tão forte que os
limpadores do carro mal conseguiam acompanhar a água no para-
brisa.

Relâmpagos iluminavam as árvores.

O rádio falhava.

E a estrada parecia cada vez mais vazia.

Clara olhou o relógio no painel.

22h43.

Ainda faltavam quarenta minutos até chegar em casa.

Então o carro morreu.

As luzes apagaram de repente.

O motor silenciou.

— Não. Não, não, não…

Ela tentou ligar novamente.


Nada.

A chuva aumentou ainda mais.

Clara respirou fundo tentando controlar o nervosismo.

Pegou o celular.

Sem sinal.

Perfeito.

Ela apoiou a cabeça no volante por alguns segundos antes de tomar


coragem para sair do carro.

A água gelada atingiu imediatamente suas roupas.

O vento quase arrancou o guarda-chuva de sua mão.

A estrada estava completamente escura.

Nenhuma luz.

Nenhum carro.

Nada além da tempestade.

Então um relâmpago iluminou a colina ao lado da estrada.


E Clara viu a casa.

Ela tinha certeza de que não estava ali antes.

Era enorme.

Antiga.

Construída no topo da colina entre árvores secas que balançavam


violentamente com o vento.

As janelas estavam iluminadas.

Clara hesitou.

Parte dela queria permanecer no carro até a chuva passar.

Outra parte sabia que poderia ficar presa ali durante horas.

Então começou a subir a colina.

A lama dificultava cada passo.

Os trovões pareciam cada vez mais próximos.

Mas conforme se aproximava da casa, algo estranho chamou sua


atenção.

Não havia nenhum som vindo de dentro.


Nenhuma conversa.

Nenhuma televisão.

Nenhuma música.

Apesar das luzes acesas, o lugar parecia silencioso demais.

Clara alcançou a varanda.

A madeira antiga rangia sob seus pés.

Ela bateu na porta.

Nenhuma resposta.

Bateu novamente.

Então a porta se abriu sozinha.

Devagar.

Um arrepio percorreu seu corpo.

— Olá?

Silêncio.
Ela espiou o interior.

A casa era bonita.

Muito bonita.

Móveis antigos.

Lustres dourados.

Tapetes vermelhos impecáveis.

Uma escadaria enorme levava ao segundo andar.

Mas havia algo errado.

Tudo parecia… parado.

Como uma fotografia.

Clara entrou lentamente.

— Tem alguém aqui?

A porta fechou atrás dela com força.

Ela se virou assustada.

Tentou abrir novamente.


Trancada.

O coração começou a acelerar.

— Ótimo…

Então ouviu passos no andar de cima.

Lentos.

Arrastados.

Clara ficou imóvel.

Os passos desceram pela escada devagar.

Até surgir uma mulher.

Ela devia ter cerca de cinquenta anos. Vestia roupas elegantes e


segurava uma vela acesa apesar de toda a iluminação da casa
funcionar normalmente.

A mulher sorriu.

— Você chegou cedo dessa vez.

Clara franziu a testa.

— Desculpe?
A mulher inclinou levemente a cabeça.

— Ah… ainda não aconteceu para você.

O desconforto de Clara aumentou imediatamente.

— Meu carro quebrou. Eu só queria esperar a chuva passar.

— Claro.

A mulher desceu o último degrau.

— Você sempre diz isso.

Clara sentiu um frio estranho no estômago.

— Acho que a senhora me confundiu com alguém.

A mulher sorriu novamente.

Mas havia tristeza naquele sorriso.

— Eu queria muito que fosse verdade.

O silêncio tomou conta da sala.

A chuva continuava batendo nas janelas.


Então Clara percebeu outra coisa estranha.

Não havia relógios na casa.

Nenhum.

Nem quadros mostrando paisagens.

Nem fotografias.

Nada pessoal.

Como se ninguém realmente morasse ali.

— Qual é o seu nome? — perguntou Clara.

— Helena.

— Eu sou Clara.

Helena assentiu lentamente.

— Sim. Você é.

Clara já começava a se arrepender profundamente de ter entrado


naquela casa.

— Escuta… tem algum telefone aqui?


— Não funciona durante a chuva.

— Certo…

Helena caminhou até a lareira.

— Você está com fome?

— Não.

— Você sempre responde isso também.

Clara sentiu o corpo inteiro arrepiar.

— O que quer dizer com “também”?

Helena permaneceu em silêncio por alguns segundos.

Depois apontou para uma porta ao lado da escada.

— Não entre naquela sala.

O tom de voz mudou completamente.

Frio.

Sério.

Clara olhou para a porta.


Escura.

Fechada.

— Por quê?

— Porque ainda não é hora.

Antes que pudesse perguntar mais alguma coisa, as luzes da casa


piscaram.

O vento pareceu atravessar as paredes.

E Clara ouviu.

Uma voz.

Baixa.

Vinda do andar de cima.

— Clara…

Ela congelou.

A voz era masculina.

E absurdamente familiar.
Seu coração disparou.

— Não…

Helena fechou os olhos.

Como alguém cansado demais para impedir algo inevitável.

A voz veio novamente.

— Clara…

Ela começou a subir a escada quase sem perceber.

Helena não tentou impedir.

Apenas observou.

O segundo andar era ainda mais silencioso.

Longos corredores se estendiam na penumbra.

As portas estavam fechadas.

Exceto uma.

No fim do corredor.
A luz vinha de dentro do quarto.

Clara aproximou-se lentamente.

E então viu.

Um homem sentado perto da janela.

O coração dela parou por um instante.

— Gabriel?

Ele virou devagar.

O mesmo rosto.

Os mesmos olhos.

O mesmo sorriso pequeno.

Exatamente igual.

Clara sentiu as pernas enfraquecerem.

— Isso não é possível…

Gabriel havia morrido há três anos.

Acidente de carro.
Chuva forte.

Estrada vazia.

Ela lembrava de tudo.

Cada detalhe.

O homem levantou lentamente.

— Você demorou.

Clara começou a chorar antes mesmo de perceber.

— Não… você morreu…

Gabriel aproximou-se devagar.

— Eu sei.

— Isso é um sonho.

— Não exatamente.

Ela recuou.

Parte dela queria abraçá-lo.


Outra queria fugir daquela casa imediatamente.

— O que é esse lugar?

Gabriel desviou o olhar para a janela.

A tempestade lá fora parecia infinita.

— Um lugar preso.

— Preso?

— Entre momentos.

Clara sentia dificuldade para respirar.

— Eu tô enlouquecendo.

Gabriel sorriu tristemente.

— Você dizia isso todas as vezes.

Ela ficou imóvel.

— “Todas as vezes”?

Ele não respondeu imediatamente.

Apenas caminhou até uma mesa no canto do quarto.


Sobre ela havia dezenas de desenhos.

Clara aproximou-se lentamente.

E sentiu o sangue gelar.

Todos os desenhos eram dela.

Na estrada.

Entrando na casa.

Subindo a escada.

Chorando.

Centenas de versões dela mesma.

— O que é isso?

Gabriel respondeu baixinho:

— Tentativas.

— Tentativas de quê?

O homem finalmente olhou diretamente para ela.


— De fazer você lembrar.

O quarto pareceu mais frio de repente.

Clara sentiu uma dor estranha na cabeça.

Imagens começaram a surgir.

Relâmpagos.

Vidro quebrando.

Sangue.

A estrada.

Gabriel gritando.

O carro girando.

Ela levou a mão à testa imediatamente.

— Não…

Mais imagens surgiram.

A casa.

A chuva.
A porta abrindo.

De novo.

E de novo.

E de novo.

Clara cambaleou para trás.

— O que tá acontecendo comigo?

Gabriel aproximou-se rapidamente.

— Você precisa lembrar antes da meia-noite.

— Lembrar do quê?!

Ele segurou os ombros dela.

Os olhos dele estavam desesperados.

— Você nunca saiu da estrada.

O silêncio pareceu esmagar tudo ao redor.

Clara sentiu o coração falhar.


— Não…

Gabriel continuou:

— O acidente aconteceu há três anos.

— Não…

— Você entrou em coma naquela noite.

Ela começou a tremer.

— Mentira.

— Clara…

— MENTIRA!

As luzes do quarto explodiram.

O corredor inteiro começou a tremer.

A casa rangeu como se estivesse viva.

E então Clara ouviu vozes.

Muitas vozes.

Versões dela mesma.


Chorando.

Gritando.

Sussurrando.

“Me deixa sair.”

“Eu quero acordar.”

“Por favor.”

Clara caiu de joelhos.

As memórias vieram de uma vez.

Hospital.

Máquinas.

Sua mãe chorando ao lado da cama.

Anos passando.

Pessoas desistindo.

Ela presa.
Sempre presa.

A casa apareceu novamente ao redor dela.

Como uma prisão construída pela própria mente.

Gabriel ajoelhou-se diante dela.

— Você criou esse lugar.

Ela chorava sem conseguir controlar.

— Eu não queria te perder…

Ele fechou os olhos.

— Eu sei.

A casa inteira começou a desmoronar lentamente.

As paredes racharam.

A chuva invadiu os corredores.

Os quadros vazios caíram no chão.

Gabriel segurou a mão dela.

— Escuta com atenção agora.


Clara ergueu os olhos cheios de lágrimas.

— Você precisa acordar.

— E você?

Um silêncio pequeno surgiu entre os dois.

Doloroso.

Então Gabriel sorriu.

Dessa vez um sorriso verdadeiro.

Calmo.

— Eu acho que fiquei aqui porque você precisava se despedir.

Clara começou a chorar ainda mais.

— Eu não consigo.

— Consegue.

O teto começou a desaparecer acima deles.

A tempestade virou luz.


Branca.

Intensa.

Gabriel segurou o rosto dela delicadamente.

— Você precisa viver por nós dois agora.

O mundo começou a sumir.

A casa.

A chuva.

O corredor.

Tudo desaparecendo lentamente.

A última coisa que Clara viu foi Gabriel sorrindo enquanto se afastava
na luz.

Então ouviu uma voz distante.

Real.

— Ela tá acordando!

O som de máquinas surgiu.


Cheiro de hospital.

Luzes fortes.

Clara abriu os olhos lentamente.

Pessoas corriam ao redor.

Uma enfermeira chorava.

Sua mãe segurava sua mão tremendo.

O mundo real.

Depois de três anos.

Clara começou a chorar silenciosamente.

Mas antes de fechar os olhos novamente por alguns segundos, viu


algo refletido na janela do quarto.

Uma casa antiga no meio da chuva.

E uma luz acesa no segundo andar.

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