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Henrique recebe cartas do futuro que o alertam sobre eventos perigosos, levando-o a descobrir que as mensagens são escritas por ele mesmo, mas em uma versão mais velha. Ao encontrar seu eu futuro, ele aprende sobre um experimento de manipulação temporal que teve consequências catastróficas. A última carta que recebe sugere que ele deve aprender a perder para evitar um destino trágico.
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Henrique recebe cartas do futuro que o alertam sobre eventos perigosos, levando-o a descobrir que as mensagens são escritas por ele mesmo, mas em uma versão mais velha. Ao encontrar seu eu futuro, ele aprende sobre um experimento de manipulação temporal que teve consequências catastróficas. A última carta que recebe sugere que ele deve aprender a perder para evitar um destino trágico.
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O Homem Que Recebia Cartas do Futuro

Todas as cartas chegavam às 6h14 da manhã.

Sempre no mesmo horário.

Sempre pela mesma caixa de correio enferrujada no fim da rua.

E sempre escritas pela mesma pessoa.

Ele mesmo.

Henrique descobriu isso numa terça-feira fria de agosto, quando abriu


a caixa esperando encontrar contas atrasadas e propaganda barata.

Mas havia apenas um envelope branco.

Sem selo.

Sem endereço de remetente.

Seu nome estava escrito à mão na frente.

“HENRIQUE ALMEIDA”.

Ele franziu a testa.

A caligrafia parecia familiar.


Muito familiar.

Olhou ao redor da rua.

Nada.

O bairro ainda estava vazio naquela hora. Algumas luzes começavam


a acender nas casas vizinhas, e o céu permanecia coberto por nuvens
escuras de chuva.

Henrique abriu o envelope.

Dentro havia apenas uma folha dobrada.

E uma frase.

“Não vá ao cruzamento da Avenida Norte hoje às 18h.”

O homem releu a mensagem três vezes.

Depois riu sozinho.

— Algum idiota tá brincando comigo.

Amassou o papel e voltou para dentro de casa.

Às 18h daquele mesmo dia, um caminhão perdeu o controle no


cruzamento da Avenida Norte.

Três carros foram destruídos.


Duas pessoas morreram.

Henrique ficou parado diante da televisão sem conseguir respirar


direito.

O acidente havia acontecido exatamente no horário em que ele


normalmente passava por lá voltando do trabalho.

O papel amassado ainda estava no lixo da cozinha.

Na manhã seguinte, às 6h14, outra carta apareceu.

Dessa vez Henrique esperou perto da janela desde cedo.

Ninguém surgiu.

Nenhum carro parou.

Nenhuma sombra apareceu na rua.

Mas no instante em que olhou novamente para a caixa de correio, o


envelope já estava lá.

Como se tivesse surgido do nada.

Ele correu até fora.

Abriu imediatamente.
“Não atenda a ligação das 21h32.”

O coração dele acelerou.

Passou o dia inteiro inquieto.

Tentou trabalhar normalmente.

Não conseguiu.

Às 21h31 ficou sentado olhando para o celular sobre a mesa.

O aparelho tocou exatamente um minuto depois.

Número desconhecido.

Henrique observou a tela vibrando.

Uma parte dele queria atender.

Outra queria jogar o celular pela janela.

A ligação parou.

Dois segundos depois chegou uma mensagem.

“Seu irmão sofreu um acidente. Venha rápido.”

Henrique sentiu o corpo gelar.


Ligou imediatamente para o hospital da cidade.

A atendente confirmou.

André realmente sofrera um acidente de moto.

Mas estava vivo.

O médico explicou algo estranho depois:

— Se ele tivesse sido movido imediatamente após a queda, teria


morrido.

Henrique ficou em silêncio.

Porque sabia exatamente o que teria feito se tivesse atendido a


ligação.

Teria saído correndo desesperado.

Sem pensar.

Sem esperar pela ambulância.

Sem ouvir ninguém.

Na terceira carta, a mensagem mudou.

“Você finalmente está começando a acreditar.”


Henrique passou o resto da manhã encarando aquele papel.

A caligrafia continuava igual à dele.

Cada detalhe.

Cada curva das letras.

Era impossível negar.

Alguém estava escrevendo aquelas mensagens usando sua própria


letra.

Naquela noite, ele decidiu esperar do lado de fora.

Sentou-se na varanda às 5h50 da manhã com uma xícara de café e


uma lanterna.

A rua permanecia silenciosa.

Nenhum movimento.

6h10.

Nada.

6h13.

Ainda nada.
Então o relógio do celular virou para 6h14.

As luzes da rua piscaram.

O vento aumentou de repente.

Henrique olhou para a caixa de correio.

O envelope estava lá.

Ele correu imediatamente.

Não viu ninguém.

Nenhum som.

Nenhum carro.

Apenas o envelope branco repousando dentro da caixa metálica.

As mãos dele tremiam enquanto abria a carta.

“Pare de procurar quem entrega as cartas.”

Henrique sentiu um arrepio subir pela espinha.

A mensagem continuava:
“Você não vai gostar da resposta.”

Ele entrou em casa lentamente.

Pela primeira vez começou a sentir medo de verdade.

Nos dias seguintes, as cartas continuaram chegando.

Algumas traziam avisos pequenos.

“Evite o elevador do prédio amanhã.”

“Não assine o contrato na sexta-feira.”

“Não confie em Marcelo.”

E todas estavam certas.

O elevador despencou dois andares.

A empresa que ofereceria o contrato entrou em falência dois dias


depois.

Marcelo roubou dinheiro da firma onde trabalhavam juntos.

Depois da décima carta, Henrique já não sabia mais o que pensar.

A lógica começava a desaparecer.


Ele parou de dormir direito.

Parou de sair.

Passava noites inteiras espalhando cartas pela mesa da cozinha


tentando encontrar padrões.

Datas.

Números.

Assinaturas escondidas.

Qualquer coisa.

Então percebeu um detalhe.

No canto inferior de cada folha existiam pequenas marcas quase


invisíveis.

Como manchas de tinta.

Quando juntou todas as cartas lado a lado, as marcas formaram


números.

Coordenadas.

Henrique digitou os números no computador.

O local indicado ficava nos arredores da cidade.


Próximo a um lago abandonado.

Ele decidiu ir imediatamente.

O lugar parecia esquecido pelo mundo.

Árvores secas cercavam o lago escuro.

Havia uma construção antiga perto da água.

Pequena.

De concreto.

Parecia uma estação elétrica abandonada.

Henrique entrou.

O interior estava vazio.

Exceto por uma cadeira metálica no centro da sala.

E uma única lâmpada pendurada no teto.

Sobre a cadeira havia um envelope branco.

Henrique aproximou-se lentamente.


Abriu.

“Você demorou.”

O ar ficou mais pesado.

Então ouviu uma voz atrás dele.

— Eu achei que você viesse antes.

Henrique virou imediatamente.

E o mundo pareceu parar.

Porque o homem diante dele era ele mesmo.

Mais velho.

Talvez quinze anos mais velho.

Cabelos grisalhos.

Rosto cansado.

Uma cicatriz atravessando a sobrancelha.

Mas definitivamente ele.

Henrique recuou assustado.


— Que porra é essa?

O outro Henrique permaneceu parado.

— Eu tive exatamente a mesma reação.

— Isso não é possível.

— Eu sei.

O silêncio entre os dois parecia absurdo.

O Henrique mais velho apontou para a cadeira.

— Senta.

— Não.

— Você vai acabar sentando. Eu também disse não.

O mais jovem permaneceu imóvel por alguns segundos antes de


finalmente obedecer.

O outro puxou outra cadeira e sentou diante dele.

Por alguns instantes apenas se encararam.

Como reflexos quebrados.


Henrique respirou fundo.

— Então… você sou eu?

— Sim.

— Do futuro?

— Infelizmente.

O jovem passou a mão pelo rosto.

— Eu enlouqueci.

— Não. Ainda não.

— “Ainda”?

O mais velho ignorou a pergunta.

— As cartas funcionaram?

Henrique assentiu devagar.

— Como você tá fazendo isso?

— Isso não importa agora.


— Importa pra caralho.

O homem suspirou.

— Existe uma forma limitada de enviar informações para trás.


Pequenas coisas. Frases curtas. Nada complexo.

Henrique sentia o coração bater cada vez mais rápido.

— Por quê?

O outro ficou em silêncio.

E pela primeira vez pareceu assustado.

— Porque daqui a dezesseis dias tudo vai começar.

O vento bateu forte contra as paredes da construção.

Henrique franziu a testa.

— Começar o quê?

O homem mais velho apoiou os cotovelos nos joelhos.

— Você vai descobrir algo que nunca deveria encontrar.

— O quê?
— Um experimento.

Henrique ficou confuso.

— Que experimento?

— Manipulação temporal.

Ele soltou uma risada nervosa.

— Isso é impossível.

— Você dizia exatamente isso.

O homem tirou um envelope do bolso.

Mas não entregou imediatamente.

— Escuta com atenção agora. Isso é importante.

Henrique sentiu um frio estranho no estômago.

— Daqui a dezesseis dias você vai receber uma proposta de trabalho.

— Trabalho onde?

— Na Horizon.

Henrique arregalou os olhos.


A Horizon Technologies era uma das maiores empresas da região.

— Eles nunca me contratariam.

— Vão.

O homem continuou:

— Você vai aceitar porque acha que finalmente sua vida mudou.

Henrique permaneceu em silêncio.

Porque provavelmente aceitaria mesmo.

— No começo parece normal. Mas depois você descobre o projeto


subterrâneo.

— Projeto?

— Eles encontraram uma forma de enviar consciência através do


tempo.

O jovem ficou imóvel.

— Isso é impossível…

— E destruiu tudo.

O homem mais velho levantou lentamente.


Começou a caminhar pela sala.

— O problema é que ninguém entende as consequências de alterar


eventos repetidamente.

— Consequências como o quê?

O outro parou.

Olhou diretamente para ele.

— Realidades começam a quebrar.

Henrique tentou rir novamente.

Mas não conseguiu.

Porque os olhos do homem diante dele não pareciam os de alguém


mentindo.

Pareciam os de alguém desesperado.

— As cartas são tentativas de mudar coisas pequenas — continuou o


mais velho. — Pequenas alterações causam pequenas ondas.

— Então por que não impedir tudo de uma vez?

O homem fechou os olhos por um instante.


— Porque já tentei.

Henrique sentiu um arrepio.

— Quantas vezes?

Silêncio.

Então veio a resposta.

— Centenas.

O jovem ficou sem reação.

— O quê?

— Toda vez alguma coisa pior acontece.

O vento aumentou lá fora.

A lâmpada começou a piscar.

— Em uma realidade a cidade inteira desapareceu.

O homem mais velho continuou falando como alguém carregando


toneladas nas costas.

— Em outra, ninguém conseguia lembrar do próprio passado. Em


outra, o tempo simplesmente… parou.
Henrique sentiu dificuldade para respirar.

— Você tá dizendo que criou tudo isso?

— Nós criamos.

O silêncio voltou.

Pesado.

Quase insuportável.

Então Henrique perguntou baixinho:

— E nessa realidade?

O homem demorou para responder.

— Nessa é você quem morre.

O jovem ficou imóvel.

O mais velho entregou o último envelope.

— Amanhã você vai receber outra carta.

Henrique segurou o papel lentamente.

— O que ela diz?


— “Não entre no laboratório.”

— E eu devo obedecer?

O homem mais velho o encarou com tristeza.

— Eu nunca obedeci.

As luzes da construção começaram a falhar violentamente.

O ar pareceu distorcer ao redor deles.

Como vidro tremendo.

Henrique levantou assustado.

— O que tá acontecendo?

O outro sorriu de forma cansada.

— O tempo percebeu.

— Percebeu o quê?

— Que eu falei demais.

As paredes começaram a rachar.


O som ao redor ficou estranho.

Distorcido.

Henrique viu partes da sala mudarem por frações de segundo.

Como imagens sobrepostas.

Versões diferentes daquele lugar.

Algumas destruídas.

Outras queimadas.

Outras completamente vazias.

O homem mais velho começou a desaparecer lentamente.

Como fumaça sendo levada pelo vento.

— Espera! — gritou Henrique. — Como eu paro isso?

O outro olhou para ele pela última vez.

E respondeu:

— Você precisa aprender a perder.

Então desapareceu.
O silêncio tomou conta da construção.

Henrique ficou sozinho.

Respirando rápido.

Segurando o último envelope.

Na manhã seguinte, às 6h14, a carta chegou novamente.

Mas dessa vez havia apenas uma frase escrita.

“Essa é a última tentativa.”

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