0% acharam este documento útil (0 voto)
2 visualizações24 páginas

3

Lucas, um jovem que trabalha no cais da cidade de Maré Alta, descobre uma escadaria submersa que leva a uma biblioteca antiga e mágica. Lá, ele encontra Mira, que explica que a biblioteca guarda memórias esquecidas do mundo, incluindo a história da cidade que está acima dela. Quando um Exilado tenta abrir um livro que pode fazer a cidade lembrar de seu passado, Lucas percebe que Maré Alta sempre esteve submersa, revelando verdades ocultas e perigosas.
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato DOCX, PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
2 visualizações24 páginas

3

Lucas, um jovem que trabalha no cais da cidade de Maré Alta, descobre uma escadaria submersa que leva a uma biblioteca antiga e mágica. Lá, ele encontra Mira, que explica que a biblioteca guarda memórias esquecidas do mundo, incluindo a história da cidade que está acima dela. Quando um Exilado tenta abrir um livro que pode fazer a cidade lembrar de seu passado, Lucas percebe que Maré Alta sempre esteve submersa, revelando verdades ocultas e perigosas.
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato DOCX, PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

A Biblioteca Submersa

Quando a maré baixava durante as noites de inverno, partes antigas


da cidade apareciam sob a água.

Não eram ruínas comuns.

As pessoas juravam ouvir sinos distantes ecoando do fundo do mar,


como se alguma civilização esquecida ainda continuasse viva abaixo
das ondas.

Durante muitos anos, aquilo foi tratado apenas como superstição.

Até o dia em que Lucas encontrou a escadaria.

Era madrugada quando ele caminhava pelo cais carregando caixas de


peixe para o depósito do porto. O vento soprava forte, trazendo o
cheiro salgado do oceano e o som das cordas batendo contra os
barcos.

A cidade de Maré Alta nunca dormia completamente.

Mesmo tarde da noite, pescadores continuavam trabalhando, bares


permaneciam abertos e turistas caminhavam pelas ruas estreitas
perto da praia.

Lucas odiava aquele lugar.

Desde pequeno sonhava em ir embora.

Mas sonhos custavam dinheiro.


E dinheiro era exatamente o que ele não tinha.

Naquela noite, enquanto atravessava a área mais afastada do cais,


percebeu algo estranho entre as pedras molhadas.

Degraus.

Antigos degraus de pedra surgindo do mar.

Lucas parou imediatamente.

A maré estava muito mais baixa que o normal.

Ele aproximou a lanterna.

Os degraus desciam em direção à escuridão.

Como uma escada levando ao fundo do oceano.

O rapaz franziu a testa.

Nunca vira aquilo antes.

Nem ouvira alguém comentar sobre uma escadaria naquela região.

Deveria ir embora.

Mas curiosidade sempre fora seu maior problema.


Lucas deixou as caixas no chão e começou a descer.

A água batia contra os degraus inferiores, mas conforme avançava


percebeu algo impossível.

A escada continuava seca.

Mesmo abaixo do nível do mar.

O som do porto começou a desaparecer lentamente atrás dele.

Restaram apenas silêncio e o eco distante das ondas.

Então ele chegou ao fim da escadaria.

Havia uma porta.

Enorme.

Feita de metal escurecido pelo tempo.

Símbolos estranhos estavam gravados em toda a superfície.

Lucas passou os dedos sobre um deles.

A porta se abriu sozinha.

O ar frio que saiu de dentro fez seu corpo inteiro arrepiar.


Ele hesitou.

Qualquer pessoa sensata teria voltado naquele instante.

Mas Lucas nunca foi exatamente sensato.

Entrou.

A porta fechou atrás dele com um estrondo metálico.

O corredor além dela era iluminado por pequenas lanternas azuladas


presas às paredes. A arquitetura parecia antiga demais para existir
intacta sob o mar.

Colunas gigantes sustentavam o teto.

O chão de mármore estava coberto de marcas estranhas.

E o silêncio parecia pesado.

Quase vivo.

Lucas caminhou devagar.

Cada passo ecoava pelo corredor infinito.

Então ouviu vozes.

Baixas.
Distantes.

Ele seguiu o som até alcançar um salão enorme.

E parou imediatamente.

Livros.

Milhares deles.

Estantes gigantescas se espalhavam pelo salão em todas as direções.


Algumas alcançavam dezenas de metros de altura.

Escadas móveis percorriam corredores intermináveis.

Mesas antigas estavam cobertas de mapas, pergaminhos e objetos


enferrujados.

Lucas observava tudo sem acreditar.

Aquilo era uma biblioteca.

Uma biblioteca escondida sob o oceano.

— Você não deveria estar aqui.

A voz surgiu atrás dele.

Lucas virou assustado.


Uma garota observava da entrada do salão.

Ela devia ter a mesma idade dele. Cabelos escuros presos em uma
trança longa, roupas cinzentas e olhos extremamente claros.

Ela segurava uma lanterna azul.

— Quem é você? — perguntou Lucas.

— A pergunta importante é: quem é você?

Ele hesitou.

— Lucas.

A garota permaneceu em silêncio por alguns segundos.

— Ninguém encontra esse lugar por acidente.

— Eu encontrei uma escada.

— Exatamente.

Ela parecia preocupada.

Lucas apontou ao redor.

— O que é isso?
A garota respirou fundo.

— A Biblioteca Submersa.

— Isso eu percebi.

Ela ignorou o comentário.

— Aqui ficam armazenadas histórias que o mundo esqueceu.

Lucas soltou uma risada nervosa.

— Certo. E eu sou o rei do oceano.

A garota não riu.

— Você realmente não entende onde está.

O rapaz começou a perceber que ela falava sério.

— Esse lugar é algum tipo de museu secreto?

— Não.

Ela caminhou lentamente entre as estantes.

— Lugares desaparecem. Pessoas desaparecem. Civilizações


desaparecem. Mas algumas histórias continuam existindo aqui.
Lucas a seguiu.

— Quem construiu isso?

— Ninguém sabe mais.

Ela parou diante de uma prateleira enorme.

Os livros eram antigos, alguns presos por correntes metálicas.

— Cada livro guarda uma memória perdida.

Lucas aproximou-se.

Um dos títulos chamou sua atenção.

“A Cidade das Três Luas”.

Outro dizia:

“O Reino Enterrado pelo Vento”.

Ele franziu a testa.

— Esses lugares existiram?

— Todos eles.

— Então por que ninguém conhece?


A garota olhou diretamente para ele.

— Porque o mundo esqueceu.

Lucas sentiu um arrepio estranho.

— Isso não faz sentido.

— Nem tudo precisa fazer.

Ela estendeu a mão.

— Meu nome é Mira.

Lucas apertou a mão dela devagar.

Os dedos da garota estavam gelados.

— Você mora aqui?

— De certa forma.

— Sozinha?

Mira desviou o olhar.

— Não exatamente.
Antes que Lucas perguntasse mais alguma coisa, um som grave
ecoou pelo salão.

Como metal sendo arrastado no chão.

Mira ficou tensa imediatamente.

— Você precisa ir embora.

— O quê?

— Agora.

O som se aproximava.

Lento.

Pesado.

Lucas olhou para os corredores escuros entre as estantes.

Alguma coisa estava vindo.

Então viu a criatura.

Era alta demais para ser humana.

Coberta por mantos escuros que pareciam feitos de água e fumaça.


O rosto permanecia escondido.

Mas os olhos brilhavam em azul intenso.

Lucas recuou imediatamente.

— Que diabos é isso?

Mira segurou o braço dele.

— Não fale alto.

A criatura deslizou lentamente pelo corredor observando as estantes.

Como se procurasse algo.

Ou alguém.

Lucas sentiu o coração acelerar.

— Ela viu a gente?

— Ainda não.

— Ainda?

Mira puxou Lucas rapidamente para trás de uma prateleira enorme.

Os passos da criatura ecoavam cada vez mais perto.


Lucas tentou controlar a respiração.

— O que é essa coisa?

— Guardiões.

— Guardiões de quê?

— Das histórias.

A criatura parou perto da estante.

Lucas conseguiu ouvir algo estranho vindo dela.

Sussurros.

Centenas deles.

Como vozes misturadas.

Mira fechou os olhos.

— Não se mova.

O Guardião permaneceu imóvel por alguns segundos.

Então continuou andando.


Os passos desapareceram lentamente no corredor distante.

Lucas soltou o ar preso nos pulmões.

— Isso quase me matou.

— Não.

Mira olhou para ele seriamente.

— Teria sido pior.

Lucas encarou a garota.

— Você vai começar a explicar as coisas agora?

Ela hesitou.

Depois assentiu.

Os dois caminharam até uma pequena mesa no centro do salão.

Mira acendeu outra lanterna.

A luz azul iluminou dezenas de livros espalhados.

— Há muito tempo — começou ela — existiam pessoas responsáveis


por preservar as memórias do mundo.
Lucas cruzou os braços.

— Bibliotecários mágicos?

— Algo parecido.

— E os monstros?

— Foram criados para impedir que certas histórias desaparecessem.

Lucas riu novamente.

Mas dessa vez o riso saiu nervoso.

— Isso é impossível.

Mira abriu um livro antigo.

As páginas estavam vazias.

— Leia.

— Não tem nada aí.

— Leia mesmo assim.

Lucas aproximou-se desconfiado.

No instante em que tocou a página, imagens surgiram diante dele.


Uma cidade gigantesca apareceu em sua mente.

Torres douradas.

Pontes suspensas.

Pessoas caminhando por mercados iluminados.

Tudo parecia absurdamente real.

Então veio o fogo.

Explosões.

Gritos.

Oceano invadindo ruas.

Lucas recuou assustado soltando o livro.

As imagens desapareceram imediatamente.

Ele respirava rápido.

— O que foi isso?

— Uma memória.
— Aquilo era real?

— Foi.

Lucas passou a mão pelo rosto.

— Isso não é possível.

Mira observava em silêncio.

— A maioria das histórias do mundo desaparece porque ninguém


mais se lembra delas.

Ela apontou para as estantes.

— Aqui elas sobrevivem.

Lucas ficou alguns segundos sem saber o que dizer.

Então ouviu novamente o som metálico ecoando pelo salão.

Dessa vez mais próximo.

Mira se levantou imediatamente.

— Eles estão procurando alguma coisa.

— O quê?
Ela hesitou antes de responder.

— Um livro desapareceu.

Lucas franziu a testa.

— Como alguém rouba um livro debaixo do oceano?

— É exatamente por isso que estou preocupada.

Os dois começaram a caminhar rapidamente pelos corredores da


biblioteca.

Lucas observava as estantes gigantescas enquanto tentava processar


tudo.

— Quantos livros existem aqui?

— Milhões.

— Todos guardam memórias?

— Sim.

— Então esse lugar guarda a história inteira do mundo.

Mira respondeu em voz baixa:

— Guarda aquilo que o mundo abandonou.


Eles chegaram a uma área diferente da biblioteca.

As paredes estavam rachadas.

Parte do teto havia desabado.

Água escorria lentamente pelas colunas.

Mira parecia nervosa.

— Foi aqui.

Lucas observou o espaço vazio na prateleira.

Correntes quebradas estavam caídas no chão.

— Qual livro sumiu?

Mira olhou para o corredor escuro adiante.

— O Livro do Afundamento.

— Nome animador.

Ela ignorou.

— Ele contém a memória da cidade que existia aqui antes do oceano.

Lucas ficou imóvel.


— Espera. “Aqui” onde?

Mira o encarou.

— Debaixo de Maré Alta.

O silêncio tomou conta do corredor.

Lucas tentou rir.

Não conseguiu.

— Você está dizendo que minha cidade foi construída sobre outra
cidade?

— Sim.

— E ninguém sabe disso?

— Sabiam.

Ela tocou uma das paredes rachadas.

— Até esquecerem.

Lucas sentiu o estômago revirar.

Tudo parecia absurdo demais.


Mas depois das imagens do livro… já não conseguia negar
completamente.

Um rugido distante ecoou pela biblioteca.

Mira ficou pálida.

— Encontraram o ladrão.

— Isso é bom, não?

— Não.

Ela começou a correr.

Lucas foi atrás imediatamente.

Os corredores pareciam infinitos.

As luzes azuis tremiam nas paredes.

E os sons aumentavam cada vez mais.

Gritos.

Metal.

Algo quebrando.
Então chegaram ao salão principal.

Lucas parou imediatamente.

Um homem estava no centro da biblioteca segurando um livro


enorme envolto em correntes douradas.

Os Guardiões cercavam o salão.

Mas não avançavam.

Como se tivessem medo.

O homem sorriu ao ver Mira.

— Finalmente.

Ela apertou os punhos.

— Você não entende o que está fazendo.

— Entendo perfeitamente.

Lucas observou o desconhecido.

Ele usava roupas antigas e carregava marcas estranhas nos braços.

Os olhos pareciam cansados.


Mas determinados.

— Quem é ele? — sussurrou Lucas.

— Um Exilado.

— Isso ajuda muito.

O homem ergueu o livro lentamente.

— Durante séculos vocês esconderam a verdade.

Mira avançou um passo.

— Porque algumas verdades destroem civilizações.

— Ou libertam.

O salão começou a tremer.

Lucas quase perdeu o equilíbrio.

As correntes douradas do livro começaram a se romper.

Os Guardiões recuaram.

Pela primeira vez pareciam assustados.


— O que acontece se ele abrir isso? — perguntou Lucas.

Mira respondeu sem tirar os olhos do homem:

— A cidade vai lembrar.

— Lembrar do quê?

Ela respirou fundo.

— De como morreu.

O Exilado abriu o livro.

E o oceano respondeu.

Um som gigantesco atravessou a biblioteca inteira.

As paredes começaram a rachar violentamente.

Água invadiu os corredores.

As lanternas azuis se apagaram uma a uma.

Lucas ouviu vozes ecoando ao redor.

Milhares delas.

Memórias despertando.
A cidade perdida começava a retornar.

E naquele instante ele percebeu algo aterrorizante.

Maré Alta nunca esteve sobre o oceano.

Sempre esteve sob ele.

Você também pode gostar