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O conto 'O Último Trem de Aurória' narra a jornada de Daniel, que espera o último trem na estação de Aurória e acaba embarcando em um trem misterioso que não parece ir a lugar nenhum. Durante a viagem, ele encontra outros passageiros que revelam que o trem leva pessoas que não conseguem seguir em frente, confrontando Daniel com suas memórias e a culpa por ter fugido do funeral de seu pai. Ao final, ele decide descer na estação de Vale Sereno, simbolizando sua escolha de enfrentar o passado e buscar a esperança.
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O conto 'O Último Trem de Aurória' narra a jornada de Daniel, que espera o último trem na estação de Aurória e acaba embarcando em um trem misterioso que não parece ir a lugar nenhum. Durante a viagem, ele encontra outros passageiros que revelam que o trem leva pessoas que não conseguem seguir em frente, confrontando Daniel com suas memórias e a culpa por ter fugido do funeral de seu pai. Ao final, ele decide descer na estação de Vale Sereno, simbolizando sua escolha de enfrentar o passado e buscar a esperança.
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Claro.

Aqui vai outro texto original e longo, em estilo narrativo:

O Último Trem de Aurória

A chuva caía lentamente sobre a estação de Aurória quando Daniel


percebeu que estava sozinho na plataforma.

Os relógios antigos marcavam 23h47, mas o silêncio fazia parecer


muito mais tarde. As luzes amareladas piscavam acima dos bancos
vazios, e o vento atravessava os trilhos carregando folhas molhadas e
jornais esquecidos.

Aurória nunca fora uma cidade movimentada. Cercada por montanhas


e rios escuros, ela parecia existir fora do tempo. Os moradores
dormiam cedo, as lojas fechavam antes das nove e quase ninguém
permanecia nas ruas durante a madrugada.

Mesmo assim, a estação costumava ter pelo menos um funcionário


acordado.

Naquela noite, não havia ninguém.

Daniel segurou sua mochila contra o peito e observou os trilhos


desaparecerem na escuridão. O último trem deveria chegar em dez
minutos. Pelo menos era o que dizia o bilhete amassado em seu
bolso.

Destino: Vale Sereno.

Partida: 23h57.
Ele respirou fundo.

Fazia cinco anos desde a última vez que voltara para aquela região.

Cinco anos desde o funeral do pai.

Cinco anos desde que abandonara tudo sem olhar para trás.

O som de passos interrompeu seus pensamentos.

Daniel virou rapidamente.

Uma mulher idosa atravessava a plataforma segurando um guarda-


chuva vermelho. Ela usava um casaco longo cinza e caminhava
devagar, como se conhecesse cada pedaço daquela estação.

Quando passou por Daniel, parou por alguns segundos.

— Você está esperando o último trem? — perguntou ela.

A voz era calma.

Daniel assentiu.

— Sim.

A mulher olhou para os trilhos.

— Faz tempo que ele não aparece no horário.


— Problemas mecânicos?

Ela sorriu de forma estranha.

— Algo assim.

Antes que Daniel pudesse perguntar mais alguma coisa, a mulher


continuou andando até desaparecer perto da saída principal.

O rapaz franziu a testa.

Havia algo estranho naquela conversa.

Talvez fosse o jeito como ela falara.

Ou talvez fosse a sensação crescente de que aquela estação parecia


errada.

O relógio marcou 23h55.

Então as luzes piscaram novamente.

Um som distante ecoou pelos trilhos.

Daniel se levantou imediatamente.

O trem estava chegando.


As rodas metálicas surgiram da escuridão produzindo um ruído grave
que atravessou a estação inteira. A locomotiva era antiga, muito mais
antiga do que qualquer trem moderno que ele já vira.

A pintura preta estava desgastada.

As janelas pareciam embaçadas por dentro.

E não havia nenhum símbolo da companhia ferroviária.

Mesmo assim, as portas se abriram lentamente diante dele.

Daniel hesitou.

Algo dizia para não entrar.

Mas ele precisava chegar a Vale Sereno.

Subiu os degraus.

As portas se fecharam atrás dele com um estalo metálico.

O interior do trem estava quase vazio.

Havia apenas três passageiros espalhados pelos vagões.

Um homem de chapéu dormindo perto da janela.

Uma garota lendo um livro sem título.


E um senhor magro observando a chuva do lado de fora.

Daniel escolheu um banco próximo à porta.

O trem começou a se mover.

Nenhum funcionário apareceu para pedir passagem.

Nenhuma voz anunciou o destino.

Apenas o som constante das rodas sobre os trilhos.

Depois de alguns minutos, Daniel percebeu outra coisa estranha.

A paisagem não mudava.

As montanhas continuavam exatamente iguais.

As árvores.

As curvas.

Tudo parecia se repetir.

Como se o trem estivesse andando em círculos.

Ele se levantou e caminhou até a janela.

Não podia ser.


Aurória deveria ter ficado para trás havia muito tempo.

Mas ainda conseguia ver as luzes da cidade ao longe.

Daniel sentiu um frio percorrer a espinha.

Foi então que ouviu a voz da garota.

— Você percebeu rápido.

Ele virou.

Ela fechou o livro devagar.

Devia ter cerca de dezessete anos. Cabelos escuros, expressão


tranquila demais para alguém viajando naquele trem estranho.

— O quê? — perguntou Daniel.

— Que não estamos indo para lugar nenhum.

Ele franziu a testa.

— Como assim?

A garota apoiou o livro no colo.

— Esse trem não funciona como os outros.


Daniel riu nervosamente.

— Certo. Então o que ele faz?

Ela o encarou em silêncio por alguns segundos antes de responder.

— Ele leva pessoas que não conseguem seguir em frente.

O rapaz ficou imóvel.

— Isso é alguma brincadeira?

— Não.

O senhor perto da janela falou sem olhar para eles:

— Todos aqui tinham algo inacabado.

Daniel sentiu o coração acelerar.

— Quem são vocês?

Ninguém respondeu imediatamente.

O homem de chapéu continuava dormindo.

Ou fingindo dormir.
A garota voltou a falar:

— Meu nome é Elisa.

Ela apontou discretamente para o senhor.

— Aquele é Augusto.

— E o homem dormindo?

Augusto respondeu dessa vez:

— Ninguém sabe o nome dele.

Daniel recuou lentamente.

— Eu vou descer na próxima parada.

Elisa abaixou os olhos.

— Não existe próxima parada.

O trem diminuiu a velocidade de repente.

As luzes piscaram.

Então tudo ficou escuro por alguns segundos.


Quando as luzes retornaram, a paisagem havia mudado
completamente.

Não existiam mais montanhas.

Nem árvores.

Do lado de fora havia apenas névoa.

Uma névoa branca e infinita.

Daniel aproximou-se da janela.

— Onde estamos?

Augusto respondeu:

— Entre lugares.

— Isso não faz sentido.

— Faz menos sentido ainda quando você entende.

Daniel respirou fundo tentando manter a calma.

Talvez fosse um sonho.

Talvez estivesse cansado demais.


Talvez tivesse dormido na estação.

Mas a sensação do banco.

O cheiro de ferrugem.

O som do trem.

Tudo parecia real demais.

Elisa abriu novamente o livro.

Daniel percebeu que as páginas estavam em branco.

— O que você está lendo?

— Memórias.

— Não tem nada escrito aí.

Ela levantou os olhos lentamente.

— Ainda não.

O trem continuava avançando pela névoa.

Sem destino.

Sem fim aparente.


Depois de algum tempo, Daniel ouviu passos vindos do vagão
seguinte.

Uma figura alta surgiu lentamente no corredor.

O cobrador.

Usava uniforme antigo, luvas pretas e um relógio preso ao bolso do


casaco.

Seu rosto parecia cansado.

Muito cansado.

Ele parou diante de Daniel.

— Passagem.

Daniel retirou o bilhete do bolso.

O cobrador observou o papel por alguns segundos.

Depois perguntou:

— Primeira viagem?

Daniel assentiu.

O homem furou o bilhete lentamente.


— Então ainda há tempo.

— Tempo para quê?

O cobrador guardou o alicate metálico.

— Para escolher.

Antes que Daniel pudesse perguntar mais alguma coisa, ele seguiu
pelo corredor.

Augusto suspirou.

— Ele nunca explica direito.

Daniel olhou para Elisa.

— Escolher o quê?

Ela demorou para responder.

— Ficar ou partir.

O silêncio tomou conta do vagão.

Daniel começou a sentir uma pressão estranha na cabeça.

Imagens começaram a surgir em sua mente.


O hospital.

O pai deitado na cama.

A discussão.

As últimas palavras.

“Você sempre foge.”

Daniel fechou os olhos imediatamente.

Não queria lembrar daquilo.

Não queria lembrar que saíra do hospital antes da morte do pai.

Não queria lembrar que nunca voltou.

A voz de Elisa interrompeu seus pensamentos.

— O trem mostra aquilo que as pessoas tentam esconder.

Daniel apertou os punhos.

— E se eu não quiser ver?

Augusto respondeu:
— Então você nunca vai descer.

O trem diminuiu novamente.

Dessa vez parou completamente.

As portas se abriram sozinhas.

Do lado de fora havia uma pequena estação iluminada por lanternas


antigas.

Daniel leu a placa.

“Memória Norte”.

Seu estômago gelou.

Porque reconheceu aquele lugar.

Era a estação onde seu pai trabalhava quando ele era criança.

As mesmas paredes.

Os mesmos bancos.

O mesmo relógio quebrado.

— Isso é impossível — murmurou.


Elisa observava em silêncio.

— Às vezes o trem leva você até onde tudo começou.

Daniel desceu lentamente.

O ar parecia mais frio fora do vagão.

Cada passo fazia lembranças retornarem.

Ele viu a si mesmo criança correndo pela plataforma.

Viu o pai sorrindo enquanto consertava equipamentos.

Viu tardes inteiras esperando trens chegarem.

Por um momento sentiu saudade.

Depois veio a culpa.

A estação estava vazia.

Mas uma porta permanecia aberta no final do corredor principal.

Daniel caminhou até ela.

Lá dentro havia uma pequena sala iluminada por uma lâmpada fraca.

E sentado diante da mesa estava seu pai.


Exatamente como se lembrava.

Mesmo casaco.

Mesmo olhar cansado.

Daniel parou imediatamente.

— Não…

O homem levantou os olhos.

— Demorou para voltar.

A voz era idêntica.

Daniel sentiu as pernas tremerem.

— Você morreu.

O pai assentiu lentamente.

— Sim.

— Então isso não é real.

— Talvez não da forma que você entende.


Daniel tentou respirar.

Tudo dentro dele dizia para sair correndo.

Mas permaneceu imóvel.

O pai apontou para a cadeira à frente.

— Sente.

Daniel obedeceu lentamente.

O silêncio entre os dois parecia pesado demais.

Até que finalmente o rapaz falou:

— Eu deveria ter ficado naquele dia.

O homem cruzou as mãos sobre a mesa.

— Você tinha medo.

— Isso não desculpa nada.

— Não.

O pai olhou diretamente para ele.

— Mas explica.
Daniel abaixou a cabeça.

— Passei cinco anos tentando esquecer.

— Funcionou?

Ele não respondeu.

Porque sabia a verdade.

Não funcionara.

Nunca funcionaria.

O pai suspirou.

— Você acha que fugir impede a dor.

Daniel sentiu os olhos queimarem.

— Eu não sabia o que fazer.

— Ninguém sabe.

O silêncio voltou.

Do lado de fora, o som distante do trem ecoava pela estação.


Então o pai continuou:

— Mas continuar fugindo também é uma escolha.

Daniel finalmente levantou os olhos.

— O que acontece se eu ficar nesse trem?

— Você continua andando sem chegar a lugar nenhum.

— E se eu descer?

O homem sorriu levemente.

— Então volta a viver.

As luzes da sala começaram a enfraquecer.

O som do trem ficou mais alto.

Daniel percebeu que estava ficando sem tempo.

— Eu sinto sua falta.

O pai fechou os olhos por um instante.

— Eu sei.

A sala começou a desaparecer lentamente.


As paredes ficaram cobertas pela névoa branca.

Daniel tentou se aproximar.

— Espera!

Mas o homem já desaparecia junto com a estação.

A última coisa que ouviu foi:

— Pare de fugir.

Então tudo sumiu.

Daniel abriu os olhos dentro do trem.

Respirava rapidamente.

Elisa observava em silêncio.

— Você voltou.

Daniel passou a mão pelo rosto.

Estava chorando.

Nem tinha percebido.


Augusto olhou pela janela.

— Nem todos conseguem.

O trem começou a desacelerar outra vez.

Mas agora a névoa diminuía.

Luzes surgiam ao longe.

Uma cidade.

Real.

Daniel se levantou imediatamente.

— É Vale Sereno?

Elisa assentiu.

— Sua parada.

Ele olhou para os outros passageiros.

— E vocês?

Augusto sorriu tristemente.

— Ainda não terminamos nossa viagem.


Daniel percebeu então que nunca perguntara o que prendia aqueles
dois ao trem.

Talvez porque tivesse medo da resposta.

As portas se abriram.

A estação diante dele parecia normal.

Pessoas caminhavam pela plataforma.

Funcionários conversavam perto dos trilhos.

O mundo real.

Daniel hesitou antes de sair.

Então olhou para Elisa.

— Você vai conseguir descer também.

Ela sorriu pela primeira vez.

Um sorriso pequeno, mas verdadeiro.

— Talvez um dia.

Daniel desceu do trem.


Assim que seus pés tocaram a plataforma, ouviu o apito da
locomotiva.

Virou rapidamente.

O trem começou a desaparecer na névoa.

Vagão por vagão.

Até sumir completamente.

Como se nunca tivesse existido.

As pessoas ao redor continuaram andando normalmente.

Ninguém parecia ter visto nada estranho.

Daniel permaneceu parado por alguns segundos.

Depois respirou fundo.

Pela primeira vez em muitos anos, sentia algo diferente da culpa.

Não felicidade.

Ainda não.

Mas talvez esperança.


Ele colocou a mochila nas costas e caminhou em direção à saída da
estação.

O céu começava a clarear.

E enquanto o primeiro amanhecer surgia sobre Vale Sereno, Daniel


finalmente entendeu uma coisa.

Algumas viagens não servem para levar alguém a um lugar.

Servem para fazer a pessoa voltar para si mesma.

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