No ano de 1891, em uma cidade tomada pela fumaça das primeiras
fábricas, vivia um mameluco chamado Severino Vaga-Lume. O apelido
vinha de um hábito estranho: ele passava as noites capturando vaga-
lumes em pequenos frascos de vidro e os soltava novamente ao
amanhecer.
Severino trabalhava como operador de telégrafo na estação
ferroviária. Passava os dias ouvindo estalos metálicos e mensagens
atravessando fios invisíveis. Notícias de guerras, mortes, casamentos
e acidentes cruzavam suas mãos sem que ele jamais participasse da
vida de ninguém.
Era um homem silencioso, de cabelos longos e olhar cansado. Muitos
pensavam que fosse apenas tímido. Mas a verdade era que Severino
tinha medo da voz humana.
Quando criança, sobrevivera a um incêndio que destruiu o circo
itinerante onde sua família trabalhava. Seu pai português era mágico;
sua mãe indígena fazia apresentações contando lendas da floresta ao
redor da fogueira. Na noite do incêndio, Severino perdeu ambos.
Desde então, associava vozes altas, música e multidões ao caos.
Anos depois, encontrou conforto apenas no som mecânico do
telégrafo. As mensagens vinham rápidas, frias e sem emoção. Aquilo
lhe parecia seguro.
Numa madrugada de inverno, enquanto trabalhava sozinho, uma
transmissão começou a chegar de maneira incomum. Não era código
oficial. Parecia… poesia.
“Existe uma luz escondida dentro das coisas tristes.”
Severino estranhou.
A mensagem continuou aparecendo nas semanas seguintes, sempre
no mesmo horário:
“As estrelas também são cicatrizes brilhando no escuro.”
“Quem vive em silêncio esquece o próprio nome.”
Intrigado, ele começou a responder pelo telégrafo.
“Quem está enviando isso?”
Nenhuma resposta direta vinha. Apenas novas frases misteriosas.
Obcecado, Severino passou a investigar de onde os sinais eram
enviados. Descobriu que o ponto de origem vinha de uma antiga
estação abandonada no meio da serra.
Numa noite chuvosa, decidiu ir até lá.
Encontrou o lugar coberto por ferrugem e mato alto. Lá dentro,
porém, havia luz.
Sentada diante de um velho telégrafo estava uma jovem chamada
Teresa, filha de um antigo operador ferroviário. Ela vivia isolada
cuidando da estação desativada desde a morte do pai. Enviava
mensagens aleatórias pelo sistema apenas para sentir que ainda
existia alguém ouvindo do outro lado.
Severino ficou em silêncio por longos minutos.
Então Teresa perguntou:
— Você encontrou o que procurava?
Ele observou os fios atravessando a escuridão da serra e respondeu:
— Acho que encontrei alguém tão perdido quanto eu.
Os dois passaram a conversar todas as noites através do telégrafo,
mesmo estando agora na mesma estação. Era mais fácil transformar
sentimentos em sinais metálicos do que em palavras.
Com o tempo, Severino voltou a rir. Voltou a ouvir música sem medo.
E os vaga-lumes que antes guardava em potes passaram a voar livres
pela estação iluminada.
Dizem que, durante muitos anos, mensagens poéticas continuaram
cruzando os fios daquela ferrovia abandonada — sinais de dois
corações melancólicos que aprenderam a se comunicar na linguagem
silenciosa da solidão.
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