Em uma vila esquecida às margens do rio Negro, vivia um mameluco
chamado Gaspar do Luar. Diferente dos outros homens da região, ele
não trabalhava na pesca nem no comércio de especiarias. Gaspar
construía relógios.
Sua pequena oficina era feita de madeira escura e vivia cheia de
engrenagens, sinos e peças espalhadas pelas mesas. O som
constante dos tic-tacs ecoava pela rua silenciosa como se dezenas de
corações batessem ao mesmo tempo.
Gaspar aprendera o ofício com um velho missionário europeu que
passara anos na Amazônia. Enquanto o homem lhe ensinava sobre
mecanismos e ponteiros, sua mãe indígena lhe ensinava algo
diferente: que o tempo da floresta não podia ser preso dentro de
máquinas.
Mas Gaspar tentou prendê-lo mesmo assim.
Desde jovem, carregava uma obsessão estranha pelo passado. Tudo
começou quando sua irmã mais nova desapareceu durante uma
enchente. O rio subiu de forma brutal numa madrugada, levando
casas, animais e pessoas. O corpo dela nunca foi encontrado.
A partir daquele dia, Gaspar passou a acreditar que, se pudesse
controlar o tempo, talvez pudesse mudar o que aconteceu.
Por anos construiu relógios cada vez mais complexos. Alguns tinham
dezenas de ponteiros. Outros tocavam músicas tristes ao marcar
meia-noite. Havia até um relógio gigantesco no centro da oficina que
jamais acertava a hora correta.
Os moradores da vila diziam que ele enlouquecera.
Certa noite, durante uma forte chuva, um homem encapuzado
apareceu na oficina.
— Ouvi dizer que você tenta consertar o tempo — disse o visitante.
Gaspar respondeu sem tirar os olhos de uma engrenagem:
— Tento apenas entender por que ele leva tudo embora.
O estranho colocou sobre a mesa um relógio antigo de bolso,
enferrujado e parado.
— Faça este funcionar novamente.
Gaspar aceitou o trabalho. Porém, ao abrir o relógio, encontrou algo
inesperado: dentro dele havia uma pequena fotografia de sua irmã
desaparecida.
Seu coração disparou.
— Onde conseguiu isso? — perguntou.
Mas o homem encapuzado já havia sumido na chuva.
Durante dias, Gaspar tentou restaurar o relógio. Trabalhou sem
dormir, desmontando cada peça delicadamente. E quanto mais mexia
no mecanismo, mais recordações esquecidas retornavam à sua mente
— a risada da irmã, os passeios de canoa, as histórias contadas pela
mãe ao redor da fogueira.
Então compreendeu algo doloroso: não estava tentando salvar o
passado. Estava tentando impedir a si mesmo de seguir em frente.
Na madrugada em que terminou o conserto, o relógio voltou a
funcionar com um som suave e tranquilo. Gaspar fechou os olhos e,
pela primeira vez em muitos anos, chorou sem raiva.
Na manhã seguinte, abriu a oficina mais cedo. Consertou relógios
simples para pescadores, ensinou crianças curiosas sobre
engrenagens e deixou as janelas abertas para o vento do rio entrar.
O mameluco melancólico continuou ouvindo o som do tempo todos os
dias. Mas agora entendia que nenhuma máquina poderia trazer o
passado de volta — e que viver também era aceitar o movimento
inevitável das horas.
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