A Formação em Psicologia Social Hoje: Wellington Zangari Belinda Mandelbaum Antonio Euzébios Filho
A Formação em Psicologia Social Hoje: Wellington Zangari Belinda Mandelbaum Antonio Euzébios Filho
Belinda Mandelbaum
Antonio Euzébios Filho
(organizadores)
A FORMAÇÃO EM
PSICOLOGIA SOCIAL HOJE
Wellington Zangari
Belinda Mandelbaum
(organizadores)
A Formação
em Psicologia Social Hoje
São Paulo
2026
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
Reitor da Universidade de São Paulo
Aluisio Augusto Cotrim Segurado
Vice-Reitora
Liedi Légi Bariani Bernucci
INSTITUTO DE PSICOLOGIA
Diretora
Ianni Regia Scarcelli
Vice-Diretora
Patrícia Izar
Editoração e Revisão
Francisco Matheus Fontes de Lima
Foto de Capa - Argento Spiralis, Rom Yoga (2010)
atalogação na publicação
C
Biblioteca Dante Moreira Leite
Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo
978-65-87596-79-2
10.11606/9786587596792
Conteúdo
Apresentação......................................................................................................................5
Capítulo1.........................................................................................................................11
psicologia social na universidade pública: uma prática de reparação da memória
A
brasileira
Belinda Mandelbaum
Capítulo2.........................................................................................................................35
A formação em Psicologia Social na graduação do IPUSP
Francisco Matheus Fontes de Lima
Capítulo3.........................................................................................................................64
Psicologia Social: história e método na formação do intelectual-pensador
Eda Terezinha de Oliveira Tassarae Omar Ardans
Capítulo4.........................................................................................................................78
Reflexões (preliminares) sobre pesquisa, formação e extensão em Psicologia Social
Mariana Prioli CordeiroeBernardo Svartman
Capítulo5.........................................................................................................................94
O estágio como experiência intercessora: pistas susistas para a formação em Psicologia
Maria Cristina Gonçalves Vicentin
Capítulo6.......................................................................................................................108
sicologia Social como psicologia (que faz) política: notas para pensar a ciência e a
P
profissão
Antonio Euzébios Filho
Capítulo7.......................................................................................................................127
ormação em Psicologia do Trabalho e atividades de extensão universitária: o que pode
F
fazer e a quem serve a universidade pública?
Fábio de Oliveira
Capítulo8.......................................................................................................................141
S aúde Coletiva e Psicologia Social da Práxis: um caminho interdisciplinar como
metaformação na Pós-Graduação
I anni Regia Scarcelli,Mariana Fagundes de AlmeidaRivera,Ana Carolina Martins de
Souza Felippe Valentim,Nayara Portilho Lima,AlineAlmeida Martins
Capítulo9.......................................................................................................................158
ormação e atuação de psicólogos no tema das relações étnico-raciais: desafios e
F
possibilidades
Alessandro de Oliveira dos Santos
Capítulo10....................................................................................................................173
Serviços de atendimento psicossocial: rede de teias entre formação, extensão e pesquisa
arcelo Afonso Ribeiro,Maria da Conceição CoroposUvaldo,Marcelo Labaki
M
Agostinho,Débora Amaral Audi,Sônia Regina PereiraPiola Luque,Marcos Costa
Ferreira Santos
Capítulo11....................................................................................................................189
A linguagem e seus dispositivos de poder: semântica, sintaxe e pragmática
Nelson da Silva Junior
Capítulo12....................................................................................................................211
elação entre ideologia e crítica nas políticas públicas: reflexões a partir da Psicologia
R
Social
Eda Terezinha de Oliveira TassaraeOmar Ardans
Colaboradores................................................................................................................224
Apresentação
Desdeasuaorigemnosanos70,oDepartamentodePsicologiaSocialedoTrabalhodo
InstitutodePsicologiadaUniversidadedeSãoPaulo(PST-IPUSP)estácomprometidocomo
estudo e a investigação dos processos psicossociais de modo interdisciplinar e crítico, numa
diversidade de abordagens teóricas e metodológicas. Esteve eestácomprometidocomaçõesde
extensão, no âmbito do desenvolvimento de tecnologias de intervenção para lidar com uma
ampladiversidadedesituaçõesdesofrimentopsicossocial,queincluemvulnerabilidadesetárias,
étnico-raciais, de gênero, familiares, ambientais, no campo do trabalho e das religiosidades.
Nossasatividadesintegramnestaperspectivaoensino,apesquisaeaextensãoemtodososníveis
deformação,desdeapré-iniciaçãocientíficanoEnsinoMédioatéopós-doutorado,comfocona
necessidade contínua de aproximar as teorias psicossociais darealidadeconcretadaexperiência
humana, em processos de investigação e intervenção capazes de aprofundar o conhecimento,
desenvolver tecnologias e promover mudanças que visam o desenvolvimento individual e social.
Nosso conjunto dedocentesetécnicosestáatentoemodifica-secomastransformações
sociais, refletindo sempre com a sociedade mais ampla sobre seus limites e possibilidades de
conhecimento e ação frente às mazelas decorrentes da desigualdade e das diversas formas de
vulnerabilidade presentes de forma dinâmica na realidade brasileira. Com este conjunto de
objetivos o departamento trabalha, tanto no ensino, como na pesquisa e na extensão, em
articulaçãocomoutrasinstituiçõesnacionaiseinternacionaisdeensinoepesquisa,bemcomono
campo das políticaspúblicasemSaúde,AssistênciaSocial,EducaçãoeMeioAmbiente,sempre
dentro da perspectiva do intercâmbio de saberes e práticas.
AolongodessasdécadasoferecemosumpercursoformativoemPsicologiaSocialquese
faz, no campo do ensino, pormeiodarealizaçãodedisciplinasobrigatórias,eletivaseoptativas
que compõem a graduação em Psicologia no IPUSP em suas três habilitações: formação de
psicólogo,bachareladoelicenciaturaemPsicologia.Oferecemos,ainda,inúmeraspossibilidades
de inserção profissional nos estágios profissionalizantes eprojetosdeextensãoqueincidemem
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diferentes territórios, instituições e políticas públicas: na saúde coletiva e na saúde mental, na
assistência social, na educação popular, em trabalhos que envolvem as temáticas dos Direitos
Humanos e da religião, das relações étnico-raciais, das relações entre omundodotrabalhoea
Psicologia, em grupos, movimentos sociais, comunidades, instituições e famílias. Nossas
pesquisas e projetos são gestados nos diversos laboratórios e grupos de pesquisa do
departamento, semprearticuladoscomoensinoeaextensãouniversitária.Temostambémdois
serviços de atendimento à populaçãoinstaladosnoCentroEscoladoInstitutodePsicologia:o
Centro de Psicologia Aplicada ao Trabalho e o Serviço de Orientação Profissional.
NossopercursoformativoemPsicologiaSocialcontinuanoprogramadepós-graduação,
que se organiza a partir de duas linhas de pesquisa básicas: ‘Processos e práticas psicossociais:
direitos humanos, desigualdades e política’ e ‘Processos e práticas psicossociais: cultura e
subjetividade’, englobando os temas de interesse e pesquisa a partir do comprometimento
ético-político do departamento. Em torno dessas linhas se dão produções acadêmicas que
conduzemàformaçãodeprofessoresmestresedoutoresemPsicologiaSocialquetêmatuadoem
universidadesdetodoopaís,desdobrandoapartirdesteprogramaconhecimentoseautoresque
no conjunto compõem uma Psicologia Social brasileira.
Formar estudantes de Ensino Médio, Graduação e Pós-Graduação a partir de um
comprometimentoéticoepolíticocolocaparanós,emdiálogocomasquestõesdonossotempo,
inúmeros desafios que reforçam a cada momento sua atualidade e urgência. Nos dias que
correm, perguntamo-nos: como formar profissionais comprometidos com projetos coletivos,
políticas públicas e com uma agenda social progressista em um mundo cada vez mais
individualista, violento e desigual? Ou, ainda, como pensar em uma formação densa, crítica e
multidisciplinarfrenteaoaligeiramentodoconhecimentoeotecnicismoraso,característicosda
precarizaçãodoensinosuperior?E,acimadetudo,comorespondercomouniversidadepública
às demandas urgentes de umasociedadeatravessadaporvulnerabilidadesdetodaordem,todas
elas produtoras de sofrimento psicossocial?
Estas são algumas das questões disparadoras das reflexões contidas nesta obra coletiva,
que nasceu do seminário ocorrido em 2022 no InstitutodePsicologiadaUniversidadedeSão
Paulo, com o título “Como pensamos a formação em Psicologia Social hoje?”. Tratava-se de
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pensaroslimitesepotencialidadesdenossocampoacadêmicoeprofissional,reconhecidamente
importante na formação em Psicologia, com a persistência do viés crítico e na contramão das
pressões do mercado para a oferta de tecnologias e profissionais voltados àssuasdemandas.O
estudo, no momento histórico em que vivemos, que reconhece na técnica seu atributo
identificatório mais perfeito é, antes de mais nada, aplicabilidade,istoé,odesenvolvimentode
dispositivoseequipamentosparaoaperfeiçoamentodosocial.Emprincípio,nanossarealidade,
claro que nada temos a opor a este entendimento. E a Psicologia Social sem dúvida é uma
poderosa ferramenta teórico-técnica para aprimorar a formação de profissionais que irão
envolver-senosserviçossociaisenaspolíticaspúblicas.Mas,justamenteporisto,oestudopode
correr o risco de reduzir-se a um elemento manipulável ideologicamente, e a missão da
universidade, nos dias que correm, pensamos que seja dupla:porumlado,reconhecersuaraiz
pública etrabalharparaoaperfeiçoamentodaesferapúblicae,poroutro,lutarpelaautonomia
necessáriaparaoestudocrítico,istoé,paragarantirumaproduçãocapazdefazeracríticadetoda
e qualquer ideologia, o que nos dias de hoje quer dizer, também, de toda e qualquer política
pública. Este segundo aspectotambémvai,emnossoentender,emdireçãoaoaperfeiçoamento
dopúblico,poisagarantiadoestudocríticoétambémpartedalutaporumserhumanoquenão
seja reduzido à mera inserção numa ideologia determinada, tão própria dos fenômenos
totalitáriosqueassolaramtãoviolentamenteoséculoXX,equehojepodemganharumaversão
talvez aparentemente mais civilizada, mas não por isso menos violenta.
EstacoletâneadetextosemPsicologiaSocialpartedequestionamentosqueemergemde
uma análise reflexiva do próprio campo: quais são os desafios práticos, acadêmicos e éticos
presentenaformaçãoemPsicologiaSocialnaatualidade?Ecadaumdoscapítulosquesesegue
foi elaborado por um docente ou técnico de nosso departamento, a partir de sua perspectiva
pessoalesuaexperiêncianasatividadesdeensino,pesquisaeextensãoesuaformaderespondera
esta questão.
No primeiro capítulo, intitulado "A psicologia social na universidade pública: uma
prática de reparaçãodamemóriabrasileira",BelindaMandelbaumposicionaaPsicologiaSocial
comoumcampoondeteoriaepráticasãoinseparáveisnotrabalhodeumauniversidadepública
quetemumpapelcrucialnareparaçãodamemóriahistóricadopaís.Nocapítulo2,“Aformação
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emPsicologiaSocialnagraduaçãodoIPUSP”,FranciscoMatheusFontesdeLimacontextualiza
criticamenteasuaprópriaexperiênciadeformaçãoemPsicologiaSocialduranteagraduaçãono
IPUSP a partir da análise do plano pedagógico e das ementas das disciplinas, tendo como
referênciaumaleituradaconstituiçãodocampodaPsicologiaSocialnoBrasiledaformacomo
esse campo desdobrou-se na USP, a partir do desenvolvimento das ciências humanas e, mais
especificamente, da Psicologia e das Ciências Sociais. Em seguida, no capítulo 3, “Psicologia
Social: história e método na formação do intelectual-pensador”, Eda Terezinha de Oliveira
Tassara eOmarArdanstraçamaevoluçãohistóricadométodocientíficoemnossocampopara
defender que a formação em Psicologia Social deve ser interdisciplinar eatuarapartirdeuma
"pesquisa-ação" com sentido político.
No Capítulo 4, “Reflexões (preliminares) sobre pesquisa, formação e extensão em
Psicologia Social”, Mariana Prioli Cordeiro e Bernardo Svartman questionam os modelos
tradicionais de formação, pesquisa e extensão, propondo uma "Psicologia Social Pública" que
utilize diferentes mídias para dialogar com a sociedade. A experiência do estágio é o foco do
Capítulo5,“Oestágiocomoexperiênciaintercessora: pistas susistas para a formação em
Psicologia”, no qual Maria Cristina Gonçalves Vicentin, inspirando-se no modelo do Sistema
Único de Saúde (SUS), defende que o estágio deve ser um espaço de invenção e mútua
interferência entre a universidade e os serviços públicos.
O Capítulo 6,“PsicologiaSocialcomopsicologia(quefaz)política:notasparapensara
ciência e a profissão”, explora a Psicologia Social como uma psicologia política, com Antonio
Euzébios Filho argumentando que o campo psicossocial é inerentemente atravessado por
conflitos sociais, o que ele pensa a partir utilizando o referencial de Ignacio Martín-Baró. No
Capítulo 7, intitulado “Formação em Psicologia do Trabalho e atividades de extensão
universitária:oquepodefazereaquemserveauniversidadepública?”,FábiodeOliveiradebate
o papel da universidade pública na formação de psicólogas e psicólogos para o mundo do
trabalho à partirdacríticaàtendênciahegemônica,noensinosuperior,deformarprofissionais
para o "mercado" e da defesa de uma intervenção que busque a transformação do próprio
trabalho, de suas relações internas e externas.
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OCapítulo8,“SaúdeColetivaePsicologiaSocialdaPráxis:umcaminhointerdisciplinar
comometaformaçãonaPós-Graduação”,deIanniRegiaScarcelli,MarianaFagundesdeAlmeida
Rivera,AnaCarolinaMartinsdeSouzaFelippeValentim,NayaraPortilhoLimaeAlineAlmeida
Martins,propõeummodelodeformaçãointerdisciplinarnapós-graduaçãoapartirdoencontro
entre a Saúde Coletiva e a Psicologia Social da práxis, visando um "aprender a aprender" que
integra sentir, pensar e fazer. Alessandro de Oliveira dos Santos, no Capítulo 9, “Formação e
atuação de psicólogos no tema das relações étnico-raciais: desafios e possibilidades”, aborda a
deficiência na formação de psicólogos para lidar com as relações étnico-raciais, defendendo a
necessidade de um "letramento étnico-racial" que problematize o racismo e a branquitudeem
contexto.
No Capítulo 10, “Serviços de atendimento psicossocial: rede de teias entre formação,
extensão e pesquisa”, Marcelo Afonso Ribeiro, MariadaConceiçãoCoroposUvaldo,Marcelo
Lábaki Agostinho, Débora Amaral Audi, Sônia Regina Pereira Piola Luque e Marcos Costa
Ferreira Santos analisam o papel dos serviços de atendimento psicossocial e sua função
primordial na formação dos alunos, como uma “rede de teias” que articula ensino,pesquisae
extensão. Uma análise da linguagem como dispositivo de poder é o tema do Capítulo 11, “A
linguagemeseusdispositivosdepoder:semântica,sintaxeepragmática”noqualNelsondaSilva
Junior utiliza osregistrosdasemântica,dasintaxeedapragmáticaparacompreenderasformas
contemporâneas de poder na era neoliberal e digital. Finalizando a coletânea, o Capítulo 12,
“Relaçãoentreideologiaecríticanaspolíticaspúblicas:reflexõesapartirdaPsicologiaSocial”,de
autoria de Eda Terezinha de Oliveira Tassara e Omar Ardans, trata da relação entre ideologia,
crítica e políticas públicas, apresentando a crítica como um exercício necessário para
desnaturalizar a ideologia, e aPsicologiaSocialcomoocampoemqueserealizamprocessosde
desconstrução
Esteconjuntodecapítulosforma,assim,umricoemultifacetadopainelquerespondede
maneiras diversas, mas convergentes, às inquietações que nos mobilizam. Percorrendo desde a
reparação da memória histórica e o papel político da profissão até as práticas concretas nos
campos da saúde, do trabalho e das relações étnico-raciais, os textos a seguir não oferecem
respostas prontas, mas sim ferramentas críticas e reflexões profundas. Cada contribuição,com
9
sua singularidade, tece uma parte desta complexa tapeçaria que é a PsicologiaSocialbrasileira,
reafirmando o compromisso de nosso departamento com uma formação que seja, ao mesmo
tempo, rigorosa academicamente e profundamente implicada com a realidade social. Trata-se,
portanto, de um convite ao leitorparaquesejunteanósnestepercursodepensarefazeruma
Psicologia Social comprometida com seu tempo, com a universidade pública e com as
transformações que a realidade brasileira exige.
Os organizadores
10
Capítulo1
O objeto da Psicologia Social é duplo, mas é único. A Psicologia Sociallidacomoser
humano e com a História. Se quisermos integrar ambas asdimensões,podemosdizerquelida
comavidahumana.Masavidahumana,dizHannahArendt,éapenasummeio,porqueoque
sempresematerializa,emsuaspalavras,éa“moradahumana”(Arendt,[1958]/2010,p.263).A
vida humana é a construção da morada humana. Tudo oquefazemosnavida,desdeoatode
respirar até o trabalho de nos formar e de formar outros, é construir. O problema é que, se
aprendemosalgumacoisanosúltimoscemanos,équeapalavraconstruçãorimasemprecoma
palavra destruição. A vida humana tem por função, natureza e essência construir a morada
humana,quenuncaestápronta,completaebemarrumadaparaorestodasvidasfuturas.Esehá
algo que nós também aprendemos com toda uma tradição que remonta aos primórdios da
Humanidade, à origem das ideias religiosas, filosóficas e políticas, é que a construção dessa
morada implica também sua destruição.
Em certos momentos, a vida humana se apresenta para cada um e uma emtodaasua
intensidade,acionandoosnossossinaisdealerta.Nósestamosvivendoummomentoassim,eo
temadaPsicologiaSocialéentenderestesmomentosedarelementosparafortaleceraconstrução
da morada humana. Arendt diz, em A condição humana ([1958]/2010):
S óagoraohomemtomouplenapossedesuamoradamortaleenfeixouoshorizontes
infinitos,tentadoraeameaçadoramenteabertosatodasaserasanteriores,paraformar
um globo cujos majestosos contornos e detalhes geográficos ele conhece como as
1
rande parte deste texto foi originalmente publicado na Revista Psicologia USP, v. 30, 2019, sob o título “A
G
psicologiasocialnauniversidadepública:umapráticapsicanalíticadereparaçãodamemóriabrasileira”.Agradeçoa
revista pela autorização para publicação aqui.
11
l inhasdaprópriamão.Precisamente,noinstanteemquesedescobriuaimensidãodo
espaço terrestre, começou o famoso apequenamento do globo, até que, em nosso
mundo, cada homem é tanto habitante da Terra como é habitante de seu país.Os
homens vivem agora num todo global e contínuo, no qual a noção da distância,
inerente até mesmo à mais perfeita contiguidade entre dois pontos, cedeu ante a
furiosa arremetida da velocidade. A velocidade conquistou o espaço. A velocidade
deixa juntos o planeta Terra e o país – cadaserhumanoétantohabitantedaTerra
como de seu país. (Arendt, [1958]/2010, p. 309)
OlivrodeHannahArendtversasobreasrelaçõesentreaesferapúblicaeaesferaprivada.
IstoéPsicologiaSocial.Émuitocomplexo,porqueseotemadaPsicologiaSocialéaconstrução
damoradahumana,esteéumtematãoessencialquenãodáparaestudarsemfazer,oufazersem
estudar.TodaadiscussãosobreteoriaepráticanaPsicologiaSocialexplode.Otemanuclearda
Psicologia Social é esta imbricação de teoria e prática. Nós, que estudamos e fazemos neste
campo,temosquelevaremconsideraçãoestaestranhacontinuidade,sempretãoacidentada,que
permanentementedálugaràsdescontinuidadeseaoinsólito,entreopensamento,afalaeofazer.
Porqueénomiolodestasmanifestaçõesdohumanoqueseimplantatodaaproblemáticasobre
teoriasepráticas.ParaHannahArendt,oserhumanonuncasereduzaumserteórico,elenunca
serádefinidoplenamenteporesteatributo.Searazãosingularizaoserhumano,éporquesomos
antes de mais nada seres práticos.
A Psicanálise é um conhecimento que soube agilizar a imbricação entre estas três
dimensões do existir humano. É um saber que aproxima o pensar, o falar e o fazer de uma
maneira profunda. Soube enraizá-las, ou melhor, mostrou a raiz única que circula entre estes
modosdeserdacondiçãohumana.HannahArendtnoslembraque–cito-amaisumavez–“a
História é uma série de eventos e não de forças ou ideias de curso previsível” (Arendt,
[1958]/2010, p. 264). Isto é integrar Psicologia e Social, a circularidade das relações entre
pensamentoeação.APsicanálisepermitiuobservaroprofundoconflitopsíquicoquemobilizao
esforçohumanoporconstruir-se,desdeonascimento.Avidahumanaéumeventotraumático,
isto é, sujeito a descontinuidades e rupturas,àalienação,equedemandaotrabalhointernode
elaboraçãopessoal:cadaumeumadeveconstruirsuamoradadentrodesi,navidapessoal,efora
de si, na vida social mais ampla, no mundo, entre e com outros seres humanos. E a morada
interna deve ter janelas e portas bem abertas para a morada externa, para que o trabalho de
formação pessoal e de formação do coletivo sejam o maisintegradospossível.Aconstruçãode
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cada ser humano singular passa por ter que lidar com conflitos psíquicos e conflitos
socio-históricos.Istoécultura,ouaomenosculturalizar-se,construir-se.Amoradahumananos
contém desde o nosso início. E nosso início,mostraFreudaolongodetodaasuaobra,éode
construtores profundamente desamparados, inexperientes e necessitados.
Como a vida humana é feita de eventos, o evento essencial dequemestáenraizadona
tradição freudiana é sua autoanálise, ou a crítica, tanto aquela promovida para si próprio, em
direção às próprias raízes, quanto aquela que é a manifestação do trabalho concreto na vida
pública,comoutrossereshumanos.TerumaraizfreudianaéresgataroPlatãodo‘conhece-teati
mesmo’etomaressareflexãocomoprática.Efazpartedaautoanáliseoestudo,acríticareflexiva.
Poristo,nestatradiçãodepensamento,nósnuncainterpretaremosooutromelhordoqueanós
próprios. Nós somos o limite, não o mundo. A Psicologia Social tem na Psicanálise não uma
resposta, mas um agilizador que demanda muito mais uma prática,umaatenção,umaatitude
reflexiva quecomprometeavidaporinteiro,doqueumlegadodeideiasqueajudemaexplicar
eventoshumanosdeformaabstrata.Aautoanálisedevetrabalharnaconstruçãodaidentidadedo
psicólogo social. Dizer que o psicólogo social é crítico é dizer que ele é autocrítico, que elese
formaemsuaprática,seconheceasipróprio,omaispossível,eistojustamenteporquesabemos
de toda a desconfiança que merece a fragilidade da condição humana.
Quero aqui dar destaque à responsabilidade da Psicologia Social com a morada da
humanidade. É para isto que estudamos e trabalhamos. A Universidade de São Paulo é uma
instituiçãodedicadaàformação,aoestudo,istoé,àtransferênciadesaberestécnicos,quedevem
sersempreacompanhadosdapossibilidadedeautorreflexãocrítica,ouseja,defortalecimentodos
recursos para nos revermos, nos repararmos, promovendo o nosso desenvolvimento, que só
ocorre com o reconhecimento do quesomosedoquevivemos.Oestudoéaatividadequeéa
razão de ser desta instituição. Estudar é reparar, nos sentidos mais amplos desta palavra.
Nuncaédemaispôremdestaqueoimportantefatodequeantecessoresnossossouberam
daimportânciadeimplantarnoBrasil,dadasassuascondiçõeshistórico-socioeconômicas,uma
universidadedeexcelênciapública.EaUniversidadedeSãoPauloéumainstituiçãodeprimeira
importância na construção de nossa identidade brasileira.Nossauniversidadeé,antesdetudo,
um bem material do Brasil, dasociedadebrasileira,dopovodoBrasil.Claroque,paramuitos,
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nemprecisaserjustificadaoporquêdeumasociedadequalquersefortalecersesabedaracolhida,
ou ocorre em seuinterior,umasituaçãodeestudosuperiordeexcelência,umauniversidadede
excelência. O que não é óbvioparatodoséanecessidadedopúblico,maisaindaemnossopaís.
Então, tentemos explicar. Isto é o que um psicólogo social tem que sempre tentar fazer.
Nós fomos nos construindo ao longodanossahistóriademodosegregacionista,oque
suscitou que enormes parcelas da sociedade fossem desapropriadas, alienadas, e se sintam
vivendo cindidas do coletivo. Octavio Paz é um autor que tomo como bom modelo de um
pensadorlatino-americano,porquesoubeconjugarpoesia,ensaiocrítico-cultural,críticapolítica,
história da Filosofia, autoanálise psicanalítica -enfim,asestruturasdepensamentoeosautores
contemporâneos mais importantes -, a serviço de sua preocupação com o que ele chama de
identidade mexicana e seu devir, isto é, asvicissitudesdosermexicano.Paraele,aidentidadeé
umconceitoproblematizador,umaaberturamobilizadaporcircunstânciashistórico-materiaise
culturais.Eletemmuitoanosensinarsobrecomolidarcomanossaidentidadebrasileiraenossas
vicissitudes,paramimtemacentraldaPsicologiaSocialbrasileira.Masnãoéestaanossaquestão
agora. O que quero é lembrarque,paraesteautor,acríticaéumexercíciodifícilemterritório
latino-americano,dadaaviolência,istoé,oacúmulodedesapropriaçãoededesapropriadosque
nossoprocessohistóricosuscita.Édifícilpensareviveranossahistóriaatéassuasraízes,porque
o resultado das desapropriações assume uma proporção quase insuportável e o pensar nestas
condições tende a ser mais defensivo do que crítico. A violência suporta todas as nossas
estruturas de pensamento.
No Brasil, historicamente fomos feitos promovendo cisões. A exclusão social, este
mecanismo de eclipsamento de grandes parcelas da população da nação brasileira ao longoda
História, configura um amplo objeto cindido quando visto através de uma lupa psicanalítica
posicionada diante da realidade brasileira. O drama da nossa condição histórica é que estes
violentos processos de cisão foram operados em ressonância com os diversos projetos de
promoção de progresso em nosso país. E é esta conjunção decisãoeprogressoquedificultao
trabalho críticoentrenós.Édifícilaapreensãodatotalidadebrasileira,assimcomoanecessária
sublimação da poderosa violência que age tão imperativa quanto silenciosa nos estratos mais
profundos do processo histórico-social brasileiro, para efetivamente podermos realizar uma
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crítica, isto é, uma atitude reparatória intelectual. Um bom exemplo do que estamos dizendo
sobreadificuldadedepensareviveroBrasildeformaintegradaéafamosafrasedoprofessorde
nossa universidade,FernandoHenriqueCardoso,quandoempossadopresidente:“Esqueçamo
queeuescrevi”.Istonãodeveriaterocorrido,nemcomopensamento,nemcomofala,nemcomo
ação,paraquedefatopudesseocorreralgumprogressosocialmaisplenamenteenraizado.Oque
limitaacríticaéqueaprópriaconstruçãodoEstadobrasileiroedesuasinstituiçõesé,aomesmo
tempo,frutoeagentedessesviolentosmecanismosdecisãoemoperação.Oresultadodistoéum
Estado em todos os sentidos bem menor do que a grandeza da nação.
Economistas pragmáticos ao longo da História continuamente afirmam que não
podemos dar um passo maior do que as pernas, e que o Brasil deveria abrir mão de uma
universidadedeexcelênciapública.Masfizreferênciaaoimportantefatodequeaquelesquenos
antecederam honraram o atributo público desta universidade: e a nossa responsabilidade deve
ser,ameuver,trabalharemressonânciacomestesnossosfundadores.Nãoseidoviésideológico
decadaumdeles–seeramalinhadoscomoquecostumamoschamardeesquerda,oumarxistas.
Acredito quenão,nãotodos,pelomenos.Creioqueaopçãodelesemergiudeumaleituraque
supera posicionamentos ideológicos da matriz esquerda/direita, maisestatizanteouliberal.Por
isto, esta não é uma questão que deve ser equacionada exclusivamente no campo econômico.
Tenhoparamimqueopúblicoeraeéumamedidaessencialparacombateraviolênciadaexclusão
esuaprofundaimplicaçãonoexercíciocrítico,umavezqueestaexclusãoétraçotãomarcantena
consciência e na identidade brasileira. O adjetivo público só se legitima através de uma ação
políticaconcreta.Públiconãoéumideal,públicoéumarealização.Paranossosantecessores,uma
universidade pública de excelência era o modo de enraizar o estudo na totalidade do povo
brasileiro–equandodigopovo,querofalardeumcoletivoquesempretendeanosescaparpor
razões históricas, e que conjuga, de maneira sempre conflitiva, violenta e, por estranho que
pareça, às vezes cordial, indígenas com imigrantes, golpes com constituintes, doutores com
mascates, negros com brancos, mulheres com homens, crianças com adultos, religiões as mais
diversas, que sincretizam por vezes animismo e monoteísmo.
O campo da Psicologia Social só pode ganhar um estatuto crítico pleno quando é
profundamenteorientadopelapercepçãodatotalidadedanaçãoedosviolentosmecanismosde
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cisão que tendem a eclipsar constantemente esta totalidade. É importante ressaltar que a
violênciadestesmecanismosestáematividade,porassimdizer,desdedentroedesdeforadecada
investigador(a).ÉistoqueOctavioPazressalta.Asdificuldadesdacríticaadvêmdasdificuldades
de realizarmos a autocrítica, de nos incluirmos na crítica. A urgente realidade política que
estamos vivendo é um bom exemplo desta ausência de crítica e de suas graves consequências.
Nenhumpartidopolíticoenenhumafigurapolítica,atéomomento,conseguiufazerumacrítica
propriamente dita do processo que atravessamos. E não se justifica a precária noção de que
devemos ganhar um distanciamento histórico para compreendermaisplenamenteomomento
que vivemos. Ao contrário, o teste das ciências humanas, do que ela produz, é sempre no
aqui-e-agora de suas realizações. É isto que Hannah Arendt nos lembra quando chamaavida
humanadeevento.Nós,intelectuais,aindamurmuramosalgunsfragmentosdecrítica,masnão
conseguimos realizar propriamente uma narrativa crítica enquanto aavalanchedeeventosestá
em processo. Ainda não soubemos historicizar, por exemplo, todo o processo que levou ao
impeachmentdaPresidentaDilmaRousseffesuasrepercussõesnaconstruçãodeumEstadoede
instituiçõesdemocráticas.Oquesabemos,sim,équeoatributopúblicodaUniversidadedeSão
Paulo está ameaçado. E queestaameaçatendeadesgarraraindamaisointelectualdaquiloque
chamei de totalidade brasileira.
A Psicologia Social pode se constituir, na atualidade, num instigante território
problematizador dos modelos e métodos das Ciências Humanas, desde que saibamos
contextualizar, isto é, outorgar sempre uma coordenada espaço-temporal, referenciá-la
historicamente. A Psicologia Social deve contribuir para a elaboraçãodosprocessoshistóricos.
Não propomos que um ou outro método, um ou outro modelo, poderá mostrar-se, a partir
desta problematização, mais eficaz na configuração desse campo. Não se trata de irmos em
direção a um modelo ou método mais privilegiado. O que queremos salientar é que, na
contemporaneidade, o encontro entre o psicológico e o social é um território fértil para
constituir-se em algo como um laboratório para a produção em Ciências Humanas.
Talveznãopequemosporexagerosedissermosque,noséculoXX,cadavezmaisosocial
foiemdireçãoaopsicológico.Istotrazumasériedeproblemas,umavezqueadimensãohistórica
tende a ser mitigada. Concluo, portanto, que quanto mais a realidade é subjetivada, mais o
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pesquisador da Psicologia Social deve se empenhar em objetivá-la. Isto quer dizer que a
Psicologia Social deve ser sempre mobilizada através de um exercício que ao mesmo tempo
promovaefaçafuncionaraimaginaçãohistórica.Daíque,emtodasasaulasquedou,apoio-me
emautoresqueprivilegiamaHistóriacomoterrenoparaaconstruçãodesuasobrascríticas,seja
naformadoensaiooudopoema.TrabalhareiaquicomBenjamin,FreudeCarlosDrummond
de Andrade. E vou compartilhar também fragmentos de um texto meu (Mandelbaum, 2012)
queutilizocomosalunosnadisciplinadePsicologiaSocial.Achoqueéoquemelhorapresenta
o modo como entendo a formação e a pesquisa neste campo.
Benjamin([1940]/1971),emsuasTesesdaFilosofiadaHistória,abreessepoderosotexto
construindoumaenigmáticaimagemarespeitodeumaimbatívelmáquinaparaganharnojogo
de xadrez:
omoésabido,diz-sequeexistiaumautômatoconstruídodetalformaqueeracapaz
C
deresponderacadamovimentodeumjogadordexadrezcomoutromovimentoque
lhe assegurava o trunfo na partida. Um boneco vestido de turco, com a piteira
de narguilé na boca, estava sentado diante do tabuleiro pousado sobre uma ampla
mesa. Um sistema de espelhos produzia a ilusão de que esta mesa era em todosos
sentidos transparente. Narealidade,encontrava-seládentroumanãocorcunda,que
era mestrenoxadrezemexiaamãodobonecomediantefios.Umequivalentedetal
mecanismo pode imaginar-se na Filosofia. Deve vencer sempre o boneco chamado
"MaterialismoHistórico".Podecompetirsemmaiscomqualquerum,quandocoloca
aseuserviçoaTeologia,quehoje,comoénotório,épequenaedesagradávelenãodeve
deixar-se ver por ninguém. (Benjamin, [1940]/1971, p. 77, tradução nossa)
A estranha imagem construída por Benjamin no início dos anos 40doséculopassado
parece servirparamapearoestadodecoisasnoembateteórico-filosóficonocampodaFilosofia
daHistória,nessaépoca.Nestaimagem,oMaterialismoHistóricoécapazdeganharostorneios
teóricos graças à intervenção tanto de um complexo mecanismo especular produtor de uma
ilusão, quanto do auxílio de um habilidosoedeformadoparceirodejogo.Atravésdamáquina
especular,oqueobonecovestidoàturcaaspirapelapiteirade narguilésãoasvelhasespeculações
teológicas, potencializando-se o impacto das suas jogadas para vencer o jogo. A potência do
Materialismo Histórico no torneio intelectual lhe seria emprestada pela Teologia, ainda queo
Materialismo, na inquietante imagem mostrada por Benjamin, seja o condutor das jogadas.
Depassagem,digamosquetalvezoqueBenjaminnãolevouemconsideraçãoéqueesse
anão corcunda pode ser bem mais astucioso, maquinando não apenas a jogada do parceiro
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materialistahistórico,mas,também,quemsabe,adeseueventualadversário.Essateseimaginada
nos parece, no entanto, legítima de ser levada em consideração no contextoemqueBenjamin
escreveuoseutexto.Porqueoadversário,naépoca,eraonacional-socialismoalemão.E,talvez,o
sucessodestecomofenômenodemassastenhaadvindotambémdealgunsmovimentosilusórios
deslocados desde o campo teológico, ou seja, a mesma máquina e o mesmo anão corcunda, a
Teologia, que amplia a potência do jogador materialista histórico, teria ampliado também a
potência do adversário que, no caso, diga-se também de passagem, ganhou a partida e
transformouaHistória,nessemomento,nodesastrenazista.Équeaspoderosasforçasutópicas
que têm na Teologia uma fonte importante constituem-se num elemento central nos jogos
políticos, na configuração dos processos históricos.
Mas não é propriamente este o assunto que nos fez trazer à cena a imagem com que
Benjamin abre suas Teses da Filosofia da História, e que por si só se constitui numa tese. A
asserção de Benjamin implica uma estranha composição de modelos na qual o Materialismo
Históricopodeservirde"boneco",porassimdizer,daventríloquaTeologia,istoé,daconcepção
emprincípiomaisantagônicaasipróprio.MaséqueBenjamin,comobemmostranessasteses,
pensasemprenaHistóriaquandopensaosmodelosteóricos.Esabe,talcomoeledesenvolvenas
teses que se seguem a esta, que as ruínas do passado - e delas fazemparteasconcepçõestodas
sobre o ser humano que foram elaboradas - nunca silenciam propriamente, podendo vir a
ressurgir em voz transfigurada, como a Teologia através do Materialismo Histórico, emqueas
expectativas revolucionárias deste sãoalimentadaspelavelhapotênciahistóricadasexpectativas
redentorasdaTeologia.TalvezoelementocentraldaimagemcriadaporBenjaminnãosejanemo
boneco vestidoàturca,nemoanãocorcunda,masosistemadeespelhosprodutordailusãode
umamesa"emtodosossentidostransparente"que,noentanto,vinculatemposdopensamento
distanciados entre si.
Na Psicologia Social, nosso embatedá-seessencialmentenomodocomoentendemoso
hífen pressuposto na integração entre o psicológico e o social, ao qual este campo de estudos
parecesemprefazerreferência.Éanaturezadestehífenqueparecesempreestarnohorizontedos
estudosdaárea.Costumamosalocarohífennumavirtuallinhahorizontalqueseparaindivíduo
decoletivoe,emressonânciaideacional,opsicológicodosocial.Assim,opsicológicoestariaem
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ressonância com o individual eosocialemressonânciacomocoletivo-eohífenentreambos.
Claro que já aprendemos que o indivíduo é uma construção do coletivo e, portanto, que o
psicológico é um produto do social. Mas também aprendemos que o indivíduo anseia pelo
coletivo,ovalorizaeseapegaaelecomamesmaintensidade-eapartirdamesmaraiz-apartirda
qual se desdobra em sujeito. Nesse sentido, o social seria um desdobramento da demanda
psicológica humana. Ou seja, aprendemos que, entre o psicológico e osocial,ohífendomina.
Um produz o outro, ao modo como, na fita de Moebius, verso e reverso realizam-se
transitoriamente, num contínuo infinito. Não apenas ohífenserveparaindicaraexistênciade
umconectivoentreoelementopsicológicoeoelementosocial,masaquiohífenserveparadeixar
surgir a própria essência relacional que é inerente a cada um dos elementos, para que estes
possam existir como tais. O hífen é a natureza do psicológico e do social. Foi a história das
realizaçõesnocampodasCiênciasHumanas,eatédasciênciasemgeral,quelevouaesseestado
decoisasnoqualohífenseinstauraparajuntarcamposaparentementeseparados-opsicológico
e o social.
Não é o caso agora de mostrar como os principais modelos de compreensão do ser
humano e suas produções operaram no intuito de sinalizar o fortalecimento da essência
relacional que define o psicológicoeosocial.Mas,semdúvida,precisamospôremdestaqueas
contribuições de Freud. Porque, mesmo que não sejam propriamente as suas construções
teóricas que tiveram um impacto mais acentuadoparasalientaraimportânciadohífen-ainda
que não possamos esquecer, por exemplo, a célebre frase com que em 1921 ele abre o texto
"Psicologiadegrupoeaanálisedoego",dequenãoháPsicologiaquenãosejaPsicologiaSocial-,
foi sem dúvida seumodelomaisgeraldeentenderoserhumanoqueteveumimpactoenorme
sobretodaaproduçãodeconhecimentoapartirdoséculoXX,àsvezesdeformainvisível,como
o anão na partida de Benjamin.
Freud,aocriaremobilizaroquepoderíamosdenominardemetáforapsicanalítica,istoé,
o modo extremamente poderoso e singular de ao mesmo tempo estudar e dinamizar os
fenômenospsicológicos,soubesuscitarumaabordagemque,porsuasimplicaçõesnahistóriadas
CiênciasHumanas,atorna,anossover,umlegítimorepresentanteaserentendido,nocampoda
Psicologia Social, em analogia ao anão corcunda da Teologia na imagem de Benjamin. A
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Psicanálisepodeserquemmobilizaosfiosparaoslancesdojogonointeriordestecampo.Claro
que a Psicanálise não é a sucedânea da Teologia, se bem que, por sua potência articuladora,
resquícios poderosos da Teologia possam nesse discurso também ser atualizados. Mas o que
queremossalientaréaaçãodalinguagempsicanalíticanointeriordocampodaPsicologiaSocial.
Freudsoubedaraopsicológicoumestatutocompletamenteoriginal,permitindoanomeaçãode
relações e encadeamentos que ampliam nossa compreensão sobre o modo como os seres
humanos se constroem.
Umexemploquepodenosservirparailustraroqueestamossugerindosobreoprofundo
impacto realizado por Freud pode ser extraído de seu ensaio de 1930, "O mal-estar na
civilização". Mesmo que as ideias centrais que Freud elabora nesse texto possam nos parecer
esboçosteóricosnãomuitobem-sucedidos,selevarmosemconsideraçãoosdesenvolvimentosna
Antropologia, na Etnografia, na História, na Psicologia e até na própria Psicanálise, sua
abordagemmaisgeraleomodeloapartirdoqualconcebeoserhumanoeseuentornoganham
ainda,aonossover,umalegitimidadepoderosa,aoimbricardeformaindissociávelopsicológico
e o social, o indivíduo e o coletivo, chegando até à imbricação da filogênese e da ontogênese.
Assim,porexemplo,emsuainvestigaçãosobreasrazõespelasquais"étãodifícilparaohomem
ser feliz" ([1930]/1976, p. 105), Freud indica três fontes "de que nosso sofrimento provém:o
poder superior da natureza, a fragilidade de nossospróprioscorposeainadequaçãodasregras
queprocuramajustarosrelacionamentosmútuosdossereshumanosnafamília,noEstadoena
sociedade" ([1930]/1976, p. 105).
PodemosnemlevaremconsideraçãotodaaargumentaçãoqueFreuddesenvolveaseguir.
O importante é que ele entrelaça natureza, sujeito e cultura de forma indissociável para
compreender um estado de coisas.Edomodocomoeleopera,avelhadistinçãoentresujeitoe
objetonosmodeloscausaisganha,atravésdesuacompreensão,umasuperaçãosignificativa,uma
vezque,oqueseriadocampodaculturaedosocial-osrelacionamentosdossereshumanosna
família,noEstadoenasociedade-sãodealgummodoconfiguraçõesresultantestambémdaação
da naturezanocorpo,umavezqueasproduçõessócio-político-culturaistêmtambémumaraiz
fundaatravésdaqualfluiumavitalidadepulsional,umadasforçasresponsáveispelaconflituosa
dinâmicainerenteàproduçãodahistóriaeconômica,política,socialecultural.Eissosemmitigar
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propriamente a autonomiadocamposocial,queporsuavez,atravésdoprocessohistóricoque
suscita, demanda, no corpo, a mesma imperiosidade, isto é, estabelece os mesmos limites e
possibilidades determinantes para o seu existir, atuando sobre elecomamesmaimperiosidade
com que a natureza atua, a ponto de talvez podermos nomear o cultural como uma segunda
naturezadocorpo,queporsuaveznãoéapenasobjetodessasduasforçasimperiosas-naturezae
cultura -, mas sim um agente determinante entre anaturezaeacivilização,porquecabeaoser
humano, para setornarsujeito,apropriar-se,mesmoquenosseusestreitoslimites,dacondição
deserresponsáveldiantedanaturezaedosociale,portanto,oagenteprincipaldesuarealização
histórica.
ApotênciacomqueFreudsoubeintegraropsicológicoeosocialteveumimpacto,como
dizíamos, sobre todo o campo das Ciências Humanas, contribuindo para tornar a Psicologia
Social, a nosso ver, algo assim como um campo gravitacional para oqualestasforamatraídas.
BenjaminsupõeumjogodexadreznocampodaFilosofiadaHistória.Edevemosteremmente
que não se trata apenas de um embate de ideias,mas,comoumbommarxista,Benjaminsabe
que se trata de um embate no campo da vida humana propriamente dita e de seus destinos,
implicando,paraalémdocultural,opolítico,oeconômicoeosocial.Étalvezomesmoembate
que se trava hoje. Mas, a nosso ver, há um novo anão corcunda atuando nos destinos desses
lances - o da Psicologia.Haveriatambém,nadinâmicaprópriadocampodasideias,algoassim
como um inconsciente, desde onde velhossegmentosideacionaisatuariam,nodesdobramento
dasconcepçõesatuais,numacomplexalutainternaondeonovoésempreumareorganizaçãodas
demandas de todas as aspirações humanas construídas ao longo da História. De algum modo
podemos dizer que Benjaminpsicologiza,numcertosentido,ahistóriadoespírito,aopermitir
entenderocampodahistóriaintelectualemanalogiaaocampodofuncionamentopsíquico,isto
é, lá como aqui, a razão sofre de transtornos. Também no campo da razão o irracional pode
irromper, como Adorno bem salienta em seus trabalhos.Essemododeentenderasproduções
sociais e a própria ideologia já é resultado da força do hífen psicossocial no pensamento
contemporâneo. Toda a Escola de Frankfurt trabalhou assim.
Claro que não se trata dereduzirtodaacomplexidadedocampodaPsicologiaSociala
uma concepção psicanalítica. A aplicação da Psicanálise - enquanto um agregado de teorias
21
construídasaolongodahistóriadessadisciplina-sobreumdeterminadocontextoaserestudado,
reduz em muito o alcance do que ela teria para oferecer ao estudo do fenômeno. Com isso
queremos dizer que, a nosso ver, a aplicação da Psicanálise, como um conjunto teórico
preestabelecido, sobre qualquer campo de investigações, é um exercício limitado e em nada
próximo do próprio exercício psicanalítico. Não se trata, portanto, de aplicar uma teoria
psicanalíticanointeriordocampodaPsicologiaSocial.Paraomodeloeométodopsicanalítico
seremmaiseficazes,aPsicanálisedevesedesvestirdesuateoriaapontodesilenciar-se,porquesó
no silêncio dela o fenômeno que estamosapreendendodaPsicologiaSocialirásurgir,comsua
especificidade. E é próprio da Psicanálise essa espécie de flexibilidade singular depoderser,ao
mesmo tempo, plena e transparente para a apreensão dos fenômenosestudados.Opróprioda
construção de conhecimentos nesse campo é a constituição de um processo de observação e
intervenção cujos desdobramentos são seriamente levados em consideração através de uma
reflexão intensa desses fenômenos, num diálogo com o conjunto de teorias que suportam e
referenciam a intervenção psicanalítica, mas que outorga ao fenômeno observado o lugar
privilegiado, nunca podendo este último ser deslocado ou eclipsado por qualquer concepção
teórica tomada apriori.Asteoriascostumamsermuitoruidosas.UmaPsicanálisemalaplicada,
também.
Essa propriedade da Psicanálise, tal como aqui a estamos apresentando - a de ver-se
impossibilitada de agir com toda a sua potencialidade se reduzida a uma série de construtos
teóricosaseremaplicadossobreumfenômeno-,anossoveréamaisricacontribuiçãoqueesse
campo de investigações tem para oferecer para a criação de conhecimentos na universidade.
Porque a Psicanálise, tal como a compreendemos, demanda uma intervenção no real, uma
práticaobrigatóriaquepossibiliteumaestruturaçãodocampodeinvestigaçãonãodada apriori,
suficientemente capaz de deixar emergir o conhecimento psicanalítico. As teorias, quando
aplicadas no campo da Psicologia Social, costumam traduzir-se em ideologias com muita
facilidade, e operam sobre o fenômeno no sentido de instrumentalizá-lo, seja através de sua
definição ou de uma ação prática. Mas se Benjamin está certo,senoembatevisívelexisteuma
enorme sobredeterminação de aspectos do invisível que operam de maneira irracional, com a
capacidade de produzir fenômenos tão perturbadores quanto os violentos totalitarismos que
22
assolaram o século XX, a Psicanálise enquanto modelo emétodopodenosauxiliaraindicara
presença deste invisível nos fenômenos sociais estudados, ampliando assim o conhecimento
sobre eles.
Claro que a produção humana ainda é essencialmente histórica. E claro que
compreender como entendemos a História é essencial. Por isso, os lances mais imperiososnas
Ciências Humanas ainda se dão na Filosofia da História, por ser o campo onde se significa a
História. Mas o modo como tem se dado o conflito e a produção ideológica em nossos dias
pauta-se por uma utilização e tentativa de impactar prioritariamente muito mais os aspectos
psicológicos do que propriamente despertar e mobilizar as consciências históricas dos sujeitos
envolvidos.Aprópriafragilidadedapolíticacompreendidacomojogoideológicopelopoder,ou
seja,adespolitizaçãodapolítica,empurrouoembatedopoderparaocampodaPsicologiaSocial.
Bastacomoexemploparaoqueestamosquerendoressaltaromodocomosedãoascampanhas
eleitorais. Não é o discurso político que as rege, nem sequer as organiza. Mas, sim, o
aprimoramentodeumdiscursoedeumaimagemquepretendemimplicarcadaeleitor,levando
em consideração sua psicologia, para falaremtermosmaisgeraiseparasinalizaroqueestamos
querendo dizer.
Se privilegiamos a Psicanálise como modeloemétodo,nãoofazemoscomointuitode
incrementar a psicologização do social. Ao contrário, se é certo que a Psicologia adentrou
profundamente a Filosofia da História contemporânea, ou seja, os modos de se conceber a
História,nossapropostaéutilizaromodeloeométodopsicanalíticoparaauxiliaralocalizaros
fenômenos sociais estudados no interior da História, e não num marco psicológico exclusivo,
umavezqueéaconsciênciahistóricaquepermiteaplenaelucidaçãodofenômenosocial.E,sese
trata de sujeitos, também neles uma Psicologia Social adequada é aquela que lhes auxilie a se
saberempartedaHistóriaetomarparasiapossibilidadedeatuarnela.Porisso,aPsicanálisenão
é um fim, mas um instrumento hermenêutico para colaborar na elucidação dos diversos
fenômenos abordados.
Setudoquenósvimosdiscorrendosobreacondiçãodohífennosdiasdehoje-istoé,seu
entendimento e o modo como é operacionalizado - é correto, isso nos leva a concluir que a
Históriaenvolveumapsicologia,queaHistóriaétambémumarealizaçãopsicológica,damesma
23
maneira como o corpo é uma realização histórica, sem nunca deixar de ser também uma
realização da natureza. Nessa área, sempre devemos trabalhar de forma a garantir a
multidimensionalidade do fenômeno.
Voltemos a Freud. Quando ele localiza o hífen no natural, no corpo e na história, e
quando os entrelaça de formaafamiliarizá-losindissociavelmente,istonuncaéfeitoreduzindo
umaooutrooutodosaumcampoexclusivo,senãonãoseriamnatureza,corpoeHistória.Freud
nunca é unidimensional. Seu próprio modelo do aparelho psíquico, que é também o modelo
psicanalítico,foimontadoporelejustamenteparadarcontadamultiplicidadededeterminações
existentes na produção humana. Se o fenômeno do sonho é o modelo para a produção do
aparelhopsíquico,então,justamenteporisso,omodelodevedarcontadasobredeterminaçãona
produçãodosonho,apartirdeinstânciasdiferentesequenuncasereduzemumasàsoutras,mas
que trabalham no interior de uma mecânica de íntimo entrelaçamento. E não apenas isso. O
modelo também deve dar conta da multidiversidade com que os fenômenos humanos se
materializamnarealidade.TudoissolevouFreudaproporummodeloemque,comoelediznas
"Conferências introdutórias sobre Psicanálise", "fomos obrigados a ampliar o conceito de
'psíquico'ereconhecercomo'psíquico'algoquenãoéconsciente"(Freud,[1917]/1976,p.376).
Isso quer dizer que o psíquico é sobredeterminado também a partir de um "para além" da
consciência.E,assimcomoosonho,todososfenômenoshumanossãosobredeterminadosdesde
umamultiplicidadedimensional.Porqueoinconscientenãoéexclusivamenteintrapsíquico,mas
talvezamanifestação,deformabruta,detodoofazerhumanoaolongodaHistória.Freud,em
“O mal-estar na civilização” ([1930]/1976), ergueu ao estatuto de lei uma estranha e
surpreendentehipótese,masdeprofundosignificadoparaoqueestamosquerendodizer:oque
se viveu nunca desaparece. O esquecimento nunca significa a completa eliminação do traço
mnêmico.
Desde que superamos o erro de supor que o esquecimento com que nos achamos
familiarizados significava a destruição do resíduo mnêmico, isto é, a sua aniquilação, ficamos
inclinadosaassumiropontodevistaoposto,ouseja,odeque,navidamental,nadadoqueuma
vez se formou pode perecer, o de que tudo é, de alguma maneira, preservado e que, em
circunstâncias apropriadas, “(...) pode ser trazido de novo à luz.” (Freud, [1930]/1976, p. 87)
24
O inconsciente é o lugar da memória, e é o próprio Freud que, para ilustrar esse
fenômeno da conservação em ação no âmbito psíquico, o aproxima a uma compreensão
fantástica de uma Roma aqui apresentada literalmente na condição de cidade eterna.
ermitam-nosagora,numvoodeimaginação,suporqueRomanãoéumahabitação
P
humana, mas uma entidade psíquica, com um passado semelhantemente longo e
abundante,istoé,umaentidadeondenadadoqueoutrorasurgiudesapareceueonde
todas as fases anteriores de desenvolvimento continuam a existir, paralelamente à
última.Issosignificariaque,emRoma,[...]nolugarocupadopeloPalazzoCaffarelli,
mais uma vez se ergueria, sem que o Palazzo tivesse de ser removido, o Templode
JúpiterCapitolino,nãoapenasemsuaúltimaforma,comoosromanosdoImpérioo
viam, mas também na primitiva, quando apresentava formas etruscas e era
ornamentado por antefixas de terracota (Freud, [1930]/1976, p. 88).
A cidade eterna que Freud supõe condensa toda a história humana numa imagem
arquitetônica em quenadaéruína,nosentidodeperdersuavitalidadesígnica.Tudooquefoi
aindaestávivoedemandanacidadeeternaconstruídaporFreud.Acidadeeternaéorigemdas
variadas manifestações humanas, em todos os campos do seu fazer. E, por isso, todas as
realizaçõeshumanas,odesenvolvimentodecadaumeuma-quetambémérealizaçãohumana-,
aproduçãocientífica,atécnica,asCiênciasHumanas,aliteratura,apoesiaeasdemaisartes,são
todas elaborações sobredeterminadas desta gigantesca e condensada memória viva, que noseu
pulsarconstituiaprópriaHistória,terrenonoqualseenraízamtodasasconstruçõeshumanas.E
se dizemos que se enraízam, é num sentido de via dupla: toda construção é mais uma
implantação, é mais uma edificação na cidade eterna. E, poroutrolado,todaedificaçãoéuma
construção erguida a partir dos elementos e da vitalidade colocada àdisposiçãopeloestadode
coisas na cidade eterna. O novo não supera o velho, a História não é diacrônica.
Benjamin([1940]/1971),nassuasTesesdaFilosofiadaHistória,tambémconstruiuuma
imagem que de algum modo nos permite aprofundar nossa compreensão da História,
trabalhandoemressonânciacomaimagemdacidadeeternamontadaporFreud.Dizassimasua
tese de número IX:
xisteumquadrodeKleequeseintitula AngelusNovus.Vê-seneleumanjo,aoque
E
parece, no momento de distanciar-se de algo sobre o qual fixa o seuolhar.Temos
olhosarregalados,abocaabertaeasasasestendidas.OanjodaHistóriadeveteresse
aspecto.Seurostoestávoltadoparaopassado.Naquiloqueparanóssemostracomo
umasucessãodeacontecimentos,elevêumacatástrofeúnica,queacumulasemcessar
ruínasobreruína,adepositar-sesobosseuspés.Oanjogostariadedeter-se,despertar
osmortoserecomporodespedaçado.MasumatormentadescedoParaísoeprovoca
um redemoinho em suas asas, e é tão forte que o anjo não pode firmá-las. Essa
25
t empestadeoarrastairresistivelmenteparaofuturo,aoqualdáascostas,enquantoo
acúmulo de ruínas sobe diante dele, em direção ao céu. Tal tempestade é o que
chamamos progresso. (Benjamin, [1940]/1971, p. 82, tradução nossa)5
EmBenjamin,resgatamosadimensãodinâmicaeprocessualqueéinerenteàHistória,o
dinamismo que é inerente ao hífen que nos interessa.AHistórianãoépropriamenteacidade
eterna, mas o que é possívelapreendernoaqui-e-agora,naininterruptatormentadoprogresso
que, desde o Paraíso, sopra em direção ao futuro. Freud constrói a sua cidade eterna
preservando-a dofluirdaHistória.Acidadeeternaéumaespéciedepalimpsestoondetodasas
múltiplas camadas podem estar à disposição, manifestamente. Benjamin introduz o elemento
dinâmico.E,então,aimagemdaruínadevenovamenteserlevadaemconsideração.Porquetudo
que,emFreud,éedificação,emBenjamin,quetemoolharfixonoParaíso-istoé,noterritório
dasexpectativasdeaperfeiçoamentoeatéderedençãodoserhumanoedosfenômenoshumanos
- é visto como ruína, ademandarreparação.Cadaconstrução,cadamorto,demanda.Acidade
eternatransforma-senoterrenonãoapenasdeumamemóriaviva,masdeumademandaintensa
feitaaoanjodaHistória,queatempestadedoprogressoarrasta.Ademandaétãointensaqueo
anjogostariadesedetere,levandoseriamenteemconsideraçãoessademandademortoseruínas,
edificarumareparação.Masatempestadenãodátempo.Etudooqueoanjopodeconstruirem
seuatoreparatórioétalvezumfragmentomal-acabadoqueimediatamenteaseguir,dadaaforça
da tormenta que nada mais é do que o suceder do tempo, transforma-se em nova ruína
depositada sob os seus pés, isto é, numa nova demanda a juntar-se ao grito desesperado das
ruínas. E seria esse grito desesperado a realização da História.
A nosso ver, as imagens construídas por Freud e Benjaminpodemcomplementar-see,
nessa realização, fortalecer nosso entendimento do hífen tanto em sua ação multidimensional
quanto em sua organização. Porque do hífenemergemtodasasproduçõeshumanase,porsua
vez,todasasproduçõeshumanasressignificamereorganizamohífen.Dizíamosantesqueohífen
émanifestaçãodetodoofazerhumanoaolongodaHistória,eoaproximamosdoinconsciente
como sua manifestação em forma bruta e não lapidada. As diversas visões de mundo e de ser
humano e as ideologias que a Filosofia da História foidepositandoaolongodaHistória,bem
comoasqueaindasãoconstruídas,seriamoperaçõesdelapidaçãoquesãoconstituídasnohífen,
através da ação humana.
26
O que nós ganhamos ao integrar as imagens de Freud e Benjamin é que,emprimeiro
lugar, nos parecequefortaleceoterrenodaHistóriacomocamponoqualtrabalhamosohífen
psicossocial. Em segundo lugar, dada a tensão que se estabelece entre as duas imagens - entre
edificações e ruínas, entre o elemento preservado e ativo destacado por Freud e o elemento
frustrado e desapontador destacado por Benjamin -, pode emergir uma produção no campo
psicossocial que seja ao mesmo tempo um resgate da memória, uma ressignificação e um ato
reparatório. Ou seja, uma construção no sentido mais pleno do termo, uma vez que envolve
memória e reparação. Achamos importante apontar que a imagem de Benjamin é poderosa o
suficiente para que também a entendamos não apenas como um constructo erguido para
significar o trabalho da História enquanto práxis e estudo, mas, a nosso ver, essa imagem de
algum modo também consegue acolher os processos de reconstrução pessoais que cada ser
humano deve realizar. Porque, nos processos de reconstrução pessoais, um anjo da História
particular - sequisermosusaraimagemqueBenjaminpõeemcenaolhandoatravésdoquadro
deKlee-estáemação,comosmesmosolhosarregalados,amesmabocaaberta,amesmatensão
nas asas e, principalmente, a mesma implicação com o tempo: tudo o que ele dispõe é do
passado,apresentadoaomesmotempo-seintegrarmosasimagensdeFreudedeBenjamin-na
formadememóriaeruína,ademandaroseuatodeconstruçãopessoal,modocomoofuturose
realiza.CarlosDrummonddeAndradealudetambémaesseanjopessoalnaprimeiraestrofede
seu Poema de Sete Faces:
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
isse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
d
(Drummond, 1987, p.13)
Avozpoéticaédemandadadesdeoseunascimento,apartirdesuasorigensedasombra,
a construir uma determinada concepção de vida, visão de ser humano e de mundo.
Ser gauchenãoébemumaopção,tampoucoumavisãodemundojáprontaeacabadaqueCarlos
nadamaisteriaquefazeranãoserpassarautilizar.Émaisalgocomoumademanda,umaespécie
de força gravitacional proveniente do estado de coisas em sua origem, capaz de organizar seu
modosingulardeverasieaomundo.Ser gauchetampoucoéumdestinoparaCarlos.É,como
dissemos,umademanda,umaimperiosidadesuscitadadesdeassombrasdaorigemdeCarlos.O
desdobrar de Carlos não é arbitrário. É desde o seu nascimento que o anjo torto odemanda.
27
Ser gauchenão é fácil. Ser gauchesignifica, de algum modo, opor-se. Mas, como escutar uma
demandaporopor-se,semopor-seaela?Équaseumimpossível.SeCarlosobedeceraoanjo,não
será propriamente um gauche. Gaucheque é gauchenão escuta os anjos. Mas se não escutar o
anjo, será um gauchee, neste caso, estará sob o imperativo da demanda desse anjo torto,dessa
influênciadeorigem.Oparadoxalinvocadopelopoetaéimportantecomomanifestaçãodaforça
da origem que o impele a seroqueeleviráaser,nasuameditaçãosobresieomundo.Carlos
escuta ao mesmo tempo uma demanda de tradição e ruptura, de memória e construção.
Diz o poeta, emPerguntas:
Numa incerta hora fria
perguntei ao fantasma
que força nos prendia,
ele a mim, que presumo
estar livre de tudo,
eu a ele, gasoso
todavia palpável
na sombra que projeta
sobre meu ser inteiro:
um ao outro, cativos
desse mesmo princípio
ou desse mesmo enigma
que distrai ou concentra
e renova e matiza,
prolongando-a no espaço
uma angústia do tempo.
(Drummond, 1987, p. 72)
Oanjotortoaquiassumeoretratodeumfantasma,tãodemandantequantooprimeiroe,
ao mesmo tempo, capaz de renovar e matizar como o primeiro. Como o anjo, ofantasmaéo
enigma que desdobra e enraíza o poema. Neste mesmo poema, Carlos Drummond de
Andrade nos permite sair do anjo pessoal e voltarmos para o anjo da História, de Benjamin.
Porque a voz poética faz ao fantasma uma última pergunta:
Perguntei-lhe por fim
a razão sem razão
de me inclinar aflito
sobre restos de restos,
de onde nenhum alento
vem refrescar a febre
deste repensamento;
sobre esse chão de ruínas
imóveis, militares
na sua rigidez
que o orvalho matutino
28
já não banha ou conforta.
No voo que desfere,
silente e melancólico,
rumo da eternidade,
ele apenas responde
(se acaso é responder
a mistérios, somar-lhes
um mistério mais alto):
Amar, depois de perder.
(Drummond, 1987, pp. 72-74, grifo do autor)
29
Em todo caso, é inerente aos textos psicanalíticos de Freud, quando vistos em seu
conjunto, uma certa ambiguidade em sua posição em relação à ressonância do real na
constituição psíquica e, mais especificamente, na noção de trauma. Se, por um lado, Freud
avançanosentidodedarumaênfasemaioràrealidadepsíquica,poroutroladoessarealidadeé
constituída em resposta ao real. É isso que nós vemos apresentado em "Alémdoprincípiodo
prazer"([1920]/1976),ondeaangústia,aconsequênciaimediatadotrauma,funcionacomoum
sinal organizador de todos os mecanismos de defesa do ego, isto é, ela é estruturadora da
realidadepsíquica.Emais:todaessaênfasequeFreuddáàfilogênesenadamaisédoquesalientar
o fator determinante dos elementos extrapsíquicos que, em Freud, de algum modo também
devem se constituir numa espécie de história psicológica para agir na psicologia de cada um.
Assim é, por exemplo, em seus estudos em "Totem e tabu"([1913]/1976),ondeaangústiade
castração e o próprio complexo edípico, que em princípio são para Freud invariáveis da
constituiçãopsicológicadecadaum(a),sãodeterminadospelahistóriapsicológicanaqualficam
enredados os processos históricos,moraisereligiososdossereshumanos,atéumamíticahorda
primitiva na qual teria se dado o parricídio originário, cenahistóricaeorigemdeumahistória
psicológica singular humana. Isso quer dizer que a filogênese é uma história psicológica que
atravessa gerações e constitui-se num patrimônio psíquico da elaboração de cada sujeito: os
DrummonddeAndradesãoopatrimôniofilogenéticoparaaconstruçãoontogenéticadeCarlos,
oquesignificaquesãotantoareservasócio-cultural-econômicadeCarlosquantooseutrauma.
O trauma é inerente à elaboração, como o processodeconstruçãopessoaléinerenteaoatode
reparação.
Voltemos a Benjamin ([1936]/1980). Num texto dedicado à obra do escritor russo
Nikolai Leskow (1831-1895), ele reflete atentamente sobre a arte de narrar e o trabalho do
narrador. O que Benjamin ressalta no início desse ensaio é que
a arte de narrar caminha para o fim. Torna-se cada vez mais raro o encontro com
pessoas que sabem narrar alguma coisa direito...Écomoseumafaculdade,quenos
parecia inalienável, a mais garantida entre todas ascoisasseguras,nosfosseretirada.
Ou seja: a de trocar experiências. (Benjamin, [1936]/1980, p. 57)
Benjamin ressalta a intimidade existente entre narrativa e experiência, e agrega: "a
experiênciacaiunacotação"(Benjamin,[1936]/1980,p.57).Eleestáfalandodeumtranstorno
30
ocorridonasprimeirasdécadasdoséculoXX-umtranstornoqueenvolveamodernidade,avida
urbana,atecnicizaçãoeumaguerra.Eomodocomoelelidacomessetranstornosugereque,na
história humana, podem acontecer fatos que operam em analogia com aqueles que Freud
detectou e quepromovemacomoçãopsíquicanosujeitoindividual.Se,comoafirmaFerenczi,
"o trauma impacta o sujeito, fragilizando o seu sentimento de si,suacapacidadederesistir,de
atuar e de pensar em defesa do próprio eu, promovendo uma comoção que não pode ser
superada" (Ferenczi, [1933]/1981, p. 153, tradução nossa), nem por uma transformação do
mundocircundante,nosentidodeafastaracausaetiológicadacomoção,nemtampoucoatravés
daproduçãodeumaelaboraçãocapazdesuperaracomoção,Benjaminsugereque,naHistória,o
trauma silenciaaexperiência,oumelhor,aelaboraçãodeumavivência,queéomodocomoos
fatos vividos podem se realizar em experiência, ou seja, em vida elaborada, num patrimônio
pessoal, resultado das aventuras de cada um e uma no campo da vida.
DeacordocomalógicadotextodeBenjamin,épossívelviverenãoganharexperiência.
Esse é um transtorno pessoal. Mas Benjamin, realizando uma arqueologiasocial,encontraum
fatoretiológicomaisprofundo,istoé,maisamplo,paraessaincapacidadedeelaboraravidaem
experiência.Ostranstornossãopessoais,masofatoretiológicoéumestadodecoisasnosocial:o
desaparecimentodonarradoredanarrativapromovidoporumpodertecnocrata.Umacomoção
atingiuaHistória,istoé,asvivênciashumanasvêemafetadasasuapossibilidadedeelaboração.E
todo um grupo social fica encerradonosilêncio,naincapacidadedetransformaravivênciaem
experiência.Benjamintrazassimanoçãodetrauma,palavraorigináriadocampodaMedicinae
utilizada por Freud para dar conta das comoções psíquicas, para o campo da História.
Mais uma vez, nós podemos acompanhar como observações da clínica psicanalítica
podemserutilizadasnoestudodosfenômenossociais.Nosdiasdehoje,sãodiversososautores
que trabalham com a noção de trauma na História, e observam a reação de grupos sociais a
eventos violentos, a partir deste referencial. Mas ainda Benjamin, nesse texto, pode ser uma
referência para este campo de estudos. Porque na sua agudezareflexiva,elesabenomearquea
catástrofe de uma guerra ou de eventos sociais violentos pode ocasionar bem mais do que as
gigantescas perdas materiais e humanas, que sempre estão envolvidas nesses acontecimentos:
podeacarretartambémumacomoçãopsíquicadogrupo,istoé,umtranstornonomodocomo
31
serepresentamerepresentamomundoaoredor,eaténaprópriapossibilidadederepresentação
desiedomundo,comumimpactointensonahistóriadessegruposocial,apontodedelinearas
determinações básicas do modo como esse grupo social irá comportar-se historicamente.
No caso que Benjamin estuda, as comoções históricas das primeiras décadas doséculo
XXtrouxeramconsigooemudecimentodanarrativa,aimpossibilidadederepresentarovivido
e, portanto,desuperá-locomumatransformaçãodesi.Freud,em"Lutoemelancolia",destaca
que nos processos melancólicos, isto é, naqueles em que um acontecimento doloroso, uma
perda, não é possível de ser superado através de um processo de luto, "asombradoobjetocai
sobreoego"(Freud,[1917]/1976,p.281),istoé,oegoficarefémdoobjetoperdidoepromotor
da angústia, suscitando uma fragilização da coesão das formações psíquicas e a emergência de
umadesorientação.ÉdestadesorientaçãoqueBenjamintrata,numnívelcoletivo.Ogruposocial
podeperderasinstânciasnarradoras,aquelascapazesdedarsentidoàexperiêncianumparaalém
do meroregistroideológico,quenuncadáplenamentecontadacomoçãogrupalqueochoque
daHistóriasuscita.OsjornaiselivrosaqueBenjaminsereferenomesmotextoapenaspõemem
circulaçãoumaimagemdarealidadequecoageogruposocial,nosentidodeficaremencerrados,
refénsdessarealidade,istoé,essesjornaiselivrosnãosãoespaçosdeelaboração,podendoser,do
modo comoBenjaminosentende,instrumentosdamesmabatalhae,portanto,ferramentasdo
"campo magnético de correntes e explosões destruidoras".
SesugeríamosanteriormentequeohífendaPsicologiaSocialéolugardamemóriaedas
operações com ela, istoé,omodocomoseefetivaumaPsicologiaeumSocialespecíficos,ouo
modocomoseentrelaçamnatureza,corpoecultura,umtraumasocialnadamaisédoqueuma
comoçãonohífen.ÉissoqueBenjaminsalientaaotratardosilenciamentodaexperiência.Oque
parece transtornado é o trabalho com a memória.Benjamin,nomesmotexto,apontaráparao
esvaziamentodanoçãodesentidodavida.Otranstornodoatoderecordarrepercuteemtodasas
dimensõesdaquiloqueconstituiaorganizaçãodeumreferencialidentitáriodesiedomundo,e
numadesorientaçãohistórica,dadooeclipsamentodosentidodavida.OqueBenjaminparece
estar problematizando é a etiologia do fenômeno da alienação. Aalienaçãoéumconceitoque
tambémsópodesercompreendidolevando-seemconsideraçãooestadodecoisasnointeriordo
hífen. Aalienaçãoéumasituaçãodevidanaqual,utilizandoomodelodeBenjamin,oanjoda
32
História é incapaz de escutar a demanda das ruínas e dos mortos, ou em que o anjo torto de
Carlos Drummond de Andrade é incapaz de emergir da sombra esuscitarumademanda.Em
ambos os casos, na situação alienada, a vida se transforma em mero viver, e a febre em angústia.
Referências
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Janeiro: Imago, 1976. (EdiçãostandarddasobraspsicológicascompletasdeSigmundFreud,v.
18). (Trabalho original publicado em 1917)
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REUD,S.Lutoemelancolia.TraduçãodeJ.Salomão.RiodeJaneiro:Imago,1976. (Edição
F
standard das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. 14). (Trabalho original
publicado em 1917)
33
REUD, S. Novas conferências introdutórias sobre psicanálise e outros trabalhos.
F
Tradução de J. Salomão. RiodeJaneiro:Imago,1976. (Ediçãostandarddasobraspsicológicas
completas de Sigmund Freud, v. 22). (Trabalho original publicado em 1933)
REUD,S.Omal-estarnacivilização.TraduçãodeJ.Salomão.RiodeJaneiro:Imago,1976.
F
(EdiçãostandarddasobraspsicológicascompletasdeSigmundFreud,v.21).(Trabalhooriginal
publicado em 1930)
REUD, S. Totem e tabu. Tradução de J. Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1976. (Edição
F
standard das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. 13). (Trabalho original
publicado em 1913).
ANDELBAUM,B.Sobreocampodapsicologiasocial.PsicologiaUSP,SãoPaulo,v.23,n.
M
1, p. 15-42, 2012.
34
Capítulo2
Estetextoéfrutodeumconvitegenerosodosorganizadoresdestelivroparaquefossem
partilhadasalgumasimpressõessobreopercursodeformaçãoemPsicologiaSocialnagraduação
oferecida pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP). Por ter
recentemente concluídoesteprocesso,partodeumaperspectivavivencialeimplicada,naqual
falar sobre a trajetória formativa prevista no Plano Político Pedagógico (PPP) do curso é
também falar sobre a minha própria experiência nessa formação. Além da vivência
propriamente acadêmica, não poderia percorrer essa análise sem trazer também elementosda
atuação exercida na representação discente nos colegiados da unidade, dentre eles o próprio
conselho do departamento de Psicologia Social e do Trabalho (PST), entre 2021 e 2022, e a
ComissãodeGraduação,entre2022e2023(naqualtambémvivenciei,entre2022e2024,um
estágio de pesquisa que contemplava, entre outras frentes, propostas de aprimoramento e
Apresentoestasnotasbiográficascomoformadesituarasconsideraçõesquepretendo
desenvolver sobre os percursos formativos em Psicologia Social ofertados aos estudantes na
graduaçãodoIPUSP.Esteolharapartirdaprática,davivênciaconcretaecontextualizada,pode
permitir uma análise crítica do que está proposto oficialmente nas ementas e programas dos
estudantil como um todo, não apenas observando-se isoladamente cada matéria, mas
35
Faz-se necessário considerar que o projeto acadêmicodoIPUSPnãosedádemaneira
dos órgãos educacionais, a começar pela própria universidade, e as discussões e emergências
sociais que se fizeram presentes ao longo da história da constituição da área noBrasil.Neste
sentido,iniciaremoscomumpercursopelaformaçãodaPsicologiaSocial-edaPsicologiaemsi
personagens presentes neste percurso desde o início do Século XX até os diasdehoje,assim
como os desdobramentos desses diferentes momentos para as legislações e experiências
vinculadas à formação. Em seguida, a partir de uma análise documental do Plano Político
PedagógicoedasementasdasdisciplinasdePsicologiaSocialoferecidasnoâmbitodagraduação
em Psicologia do IPUSP, verificaremos como este percurso formativo da unidade ecoa
O ensino de Psicologia Social no Brasil pode ser compreendido a partir de um
panoramamaisamplodasciênciassociais,relacionando-secomaspesquisassobreaidentidade
nacional que se elaboraram no início do período republicano, ainda atravessadas pelo
pontuam como, neste momento inicial, Manoel Bomfim e outros pesquisadores transitavam
entre diferentes campos do saber para construir suas pressuposições sobre a formação da
pelapopulação.Nafaseseguintedopensamentosocialbrasileiro,ademocraciaracialidealizada
por Gilberto Freyre transforma a concepção vigente do racismo científico a partir de uma
pretensa coexistência das culturas. É neste período que se insere Arthur Ramos, um dos
primeiros a realizar no Brasil um curso intitulado “Psicologia Social”, em 1935, e cujo
36
pensamento insere a cultura como um dado mais relevante para se compreender a dinâmica
social do que o determinismo biológico vigente até então. Suaatuaçãonaeducaçãopermitiu
inclusive uma mudança de paradigma em relação aos estudantes considerados “difíceis”,
despatologizandoocomportamentodito“anormal”ecompreendendo-odentrodeumsistema
de relações que, da escola à sociedade, passando fundamentalmente pela família, gerava esse
É interessante observar como, nessas experiências pioneiras, a Psicologia Social já era
compreendida a partir de uma dimensão interdisciplinar, agregando conhecimentos de
posiçãoentreoscamposdossaberesacompanhatodooseupercursoetemdesdobramentosaté
hoje - a integração entre as ciências, portanto, é característica do ser e fazer da área (Lima e
que encontra justamente nisto seu potencial de transformação social2- em uma atuação
“híbrida, marginal e necessariamente interdisciplinar”, nos termos de Florestan Fernandes
(1973, p. XI).
Nos anos 40, o movimento de especialização das disciplinas é acompanhado por um
processo de consolidação do saber psicológico - embora ainda preservando-se certo caráter
multidisciplinar.Sãoreferênciasdestemomentooprof.EliezerSchneider,noRiodeJaneiro,e
aprofª.AnnitadeCastilhoeMarcondesCabral,emSãoPaulo.Aprof.AnnitaCabralfoifigura
central na consolidação do Instituto de Psicologia da USP, após sua separação da então
Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, além de ter orientado os doutorados de Dante
núcleo de pesquisadores e docentes que se articulou para reivindicar a regulamentação da
profissão, em 1962, juntamente com associações e instituições como o Sedes Sapientiae, que
2
Para uma ampliação desse debate, confiraA PsicologiaSocial e a Questão do Hífen(Blucher, 2017)
37
teóricoepráticoparaprofissionaisinteressadosnocampoantesmesmodosprimeiroscursosde
O processo de regulamentação da Psicologia, que culminou com a lei de 1962, foi
marcado por intensos debates entre perspectivas distintas sobre a natureza da atuação do
psicólogoe,consequentemente,desuaformação.Éimportanterelembrarqueosurgimentoda
práticapsicológicanoBrasilcorrespondeaoperíododemodernizaçãoeindustrializaçãodopaís,
com práticas agrupadas no campo da clínica, da educação e do trabalho, utilizando-se em
diferentes contextos métodos e técnicas de avaliação, diagnóstico e orientação, elementos
descritosnalei.Operíododediscussãolegislativatambémfoimarcadopordiscordânciasentre
diferentes grupos da classe, assim como tensões com a classe médica, em especial sobre a
Com a criação dos primeiros cursos propriamente de Psicologia, a Psicologia Social
passou a compor o Currículo Mínimo - regulamentado pelo parecer n. 403 do Conselho
Federal de Educação - desde o início (Jacó-Vilela, Degani-Carneiro e Oliveira, 2016; Rudá,
tempo que consolidou a área, contribuiu para limitar os diálogos com outras ciências epara
ampliarumapercepçãosobreaPsicologiaSocialserapenasoutroramodaciênciapsicológica,a
ela circunscrita - concepção esta que também se encontra em disputa (Calegare, 2010,
de ensino superior em Psicologia, e a consequente diplomação de profissionais. Desde este
primeiro momento, a discussão em torno da formação manteve-se presente, a partir de
temáticas como a importância da formação científica, do conhecimento das práticas e das
técnicas e do compromisso com o país. O enfoque aplicado ou científico permanecia em
discussão-peladiferençapostaentreobachareleopsicólogo,todoprofissionaldaáreaseriaum
cientista, mas nem todo cientista seria um profissional, já que o bacharel não contavacomo
38
estágio no ano final de formação. Remonta também a este momento a defesa do aspecto
APsicologiaSocialministradanoscursosdegraduaçãonosanos1960aproximava-seà
produção norte americana do período, de matriz mais “psicológica”. Esta abordagem
apresentava uma pluralidade de temas analisados a partir de uma metodologia mais
graduação em Psicologia no Brasil graças à tradução e publicação de manuais (Sá, 2013). O
possibilidades de intervenção e ajuste comportamental decorrentes dos achados empíricos da
PsicologiaSocial-possuindo,portanto,umcarátereminentementepragmáticoeexperimental
(Calegare,2010),comumaperdadoaspectomaisinterdisciplinaranteriormenteexposto(Lima
e Techio, 2013). Embora majoritária, essa percepção não era hegemônica, e convivia com
leituraseinfluênciasdeoutrosautoresecampos,comoapsicanálisefreudianaeaspesquisasde
Mead(Sá,2007).FiguracentralnadivulgaçãodessaperspectivanoBrasilfoioprofessorAdolfo
Rodrigues,queseformoupelaPUC-Rio,concluiusuapós-graduaçãonosEUAe defendeude
forma radical a neutralidade da Psicologia Social, mesmo em um contexto atravessado pela
repressão vivida por quem se levantava contra a ditadura civil-militar vigente (Jacó-Vilela,
A crítica a essa abordagem, em especial às suas pretensões de neutralidade e
a-historicidade, à priorização do método experimental e da universalização de resultados
estatísticos,levamaPsicologiaSocialauma“crise”apartirdofinaldosanos1960,originadapor
margem” do sistema. O que se observava era que osestudosdaPsicologiaSocial,conduzidos
dessaforma,poderiamlevarà manutençãodostatusquodasociedade,mesmoemsituaçõesque
convocassemàtransformação(Jacó-Vilela,Degani-CarneiroeOliveira,2016).NoBrasil,ainda
39
que com certo delay, este movimento de contestação também se apresenta - considerando-se
tambémqueoperíododaditaduracívico-militaracrescentoumaisumdesafio,jáqueostemas
daPsicologiaSocialsecolocavamcomodisruptivosfrenteàordemdoregime,ecerceamentosda
possibilidade de expressão e docência eram ameaças constantes (Souza e Filho, 2009). O que
fato psíquico interno ao indivíduo. Em certa medida, esse momento pode ser sintetizado a
partirdaseguintequestão:“comoopsicólogopodeatuardeformaconscienteecríticaemum
paíscomasdesigualdadessociaispresentesnoBrasil?Oquefazopsicólogocomprometidocom
Na década de 1970, concomitante a essa crise da Psicologia Social oriunda do norte
global,organiza-seoSistemaConselhosdaPsicologiacomoformaderegulamentaroexercício
da profissão, em um momento no qual há um aumento significativo de novos cursos de
graduaçãoemPsicologia,comaconsequenteampliaçãodonúmerodeprofissionais.Comisso,
aqualidadedaformaçãopassaaserdiscutida-considerando-setambémumaeventualsaturação
domercadodetrabalho.Diferentestrabalhosdesenvolvidosnesseperíodoapontamparaafalta
esses aspectos permanecem atuais cinco décadas depois (Rudá, Coutinho e Filho, 2015).
Esse contexto apresenta desafios inclusive em relação à transformação dos métodos e
paradigmasadotadospelosprofissionais,jáqueumaatuaçãorestritaàsclassesmaisfavorecidas,
distanciadadarealidadepopular,afastava-sedocompromissosocialcolocadoempautadesdeo
iníciodaPsicologianoBrasil.Alémdisso,essaa-criticidadeperpetuavanoçõesdenormalidade
que contribuíam para a manutenção e naturalização de estruturas de desigualdade, o que
ocorreu concomitante à identificação do fenômeno de “psicologização do cotidiano” - que
disseminou termos e compreensões do saber psi na cultura e no debate público nacional,
colocando sob a ótica individualizante questões de origem social (Rudá, Coutinho e Filho,
2015).
40
É nesse contexto que o movimento de crítica ao modelo “psicologizante” evidencia
outras possibilidades de referências e práticas, decorrentes tanto de autores europeus como
latinoamericanos. Em comum, se evidenciaram os limites da pesquisa centrada apenas nos
pretensões de universalidade e chamando a atenção para a necessidade deabarcarasquestões
sociais,emdiálogocomosmovimentosdecontestaçãosociopolíticosecomaatuaçãoengajada
dosprofissionais(Calegare,2010).AcompreensãodequeosrecursosdaPsicologianãoseriam
suficientes para dar conta desse novo campo que se abria levou os pesquisadores naquele
momento a buscarem novas referências, seja nas ciências sociais - retomando a concepção
multidisciplinar presente no horizonte formativo antes da regulamentação da profissão-,seja
em autores latinoamericanos, como Ignácio Martin-Baró. Contribui para este movimento a
chegadadeperspectivasmais“sociológicas”daPsicologiaSocial-comoateoriadarepresentação
Os trabalhos que surgem nesse momento se desenvolvem no horizonte do
compromissoedoengajamentosocial,voltadosàmultiplicidadedocotidianoedosfenômenos
vividos na sociedade brasileira, em especial aqueles produtores de sofrimento edesigualdade.
da atuação de Maritza Montero e Ignácio Martin-Baró, fruto desse olhar renovado para o
esforçosrumoaumaampliaçãodaconsciência,aoenfrentamentodadesigualdadeeàlibertação
integral (Calegare, 2010). As metodologias também se transformaram e se pluralizaram,
abrindoespaçoparaaadoçãodaentrevista,daobservaçãoparticipanteedotrabalhoapartirda
históriaoral-nessesentido,éimpossívelnãomencionaraatuaçãoseminaldeEcléaBosi.Outro
em 1980 (Jacó-Vilela, Degani-Carneiro e Oliveira, 2016). Como horizonte, buscava-se uma
41
Comoevidenciadoatéaqui,noBrasilocampodaPsicologiaSocialapresenta,desdesua
gênese,umapluralidadedeabordagens,perspectivas,métodoseenfoques,porvezes dissidentes
entresi.Emumesforçodecartografiadestaredeconceitual,Sá(2013)propõeumagrupamento
daabordagemhegemônicanorteamericana,maispsicologizante,eaquelaoriundadosestudos
europeus,maissociológica,sobadenominaçãostrictosensu,porpartiremdediscussõesinternas
àárea.Jánogrupodascorrenteslatosensu,Sáagrupaabordagensqueconsideraquesurgiramàs
margens da Psicologia Social, derivadas de outros campos e mantendo mais similitudes com
leiturasdeLevVigotski,redescobertopelapsicologiadodesenvolvimento-,amarxista-apartir
uma pretensa neutralidade -, a análise institucional - de LapassadeeLorau-,eoconjuntode
pesquisadores com a trabalhos de cunho mais filosófico, como os de Foucault, Deleuze e
Sá então busca mapear as diferentes correntes em relação à sua aproximação do polo
mais “psicológico” ou “sociológico”, considerando que a corrente norte americana inicial
caracteriza-se como profundamente psicológica, relacionada com o tema do social apenas a
partirdainteraçãoentreindivíduos,semnecessariamenteabraçarestudossobreasociedade.No
outro extremo, estariam as correntes sociohistóricas - pois apesar de referenciarem o
pensamento de Vigotski, não estariam levando em conta propriamente suas contribuições
abordagemmicro-sociológica,comonostrabalhosdeBergereLuckmann,nosquaisambosos
pólos seriam parcialmente considerados. Em suas considerações finais, Sá apresenta a
compreensão de que nenhuma Psicologia Social pode se realizar sem a Psicologia, e muito
menos apenas com ela. Dessa forma, busca evidenciar aimportância daáreacomoespaçode
encontro e diálogo entre diferentes campos, sem cair em eventuais polarizações que
desvalorizem uma ou outra das dimensões que compõem indissociavelmente os fenômenos
42
psicossociais.Oautorpropõetambémrenomearascorrenteslatosensucomo“PsicologiaSocial
Crítica”, por compartilharem entre si um criticismo em relação àsconcepçõestradicionaisda
Em um contexto marcado por profundas contestações e transformações sociais,
movimentos em prol de uma reformulação curricular da formação em Psicologia passam a
acontecer no final dos anos 1970, aproximando a experiência da graduação das dificuldades
sociais concretas vividas no país e tensionando uma prática até então restrita a círculos
favorecidos.Emboraasreaisalteraçõescurricularessóocorramanívelnacionalnosanos2000,
sementesdessadiscussãopodemserobservadasnasDiretrizesCurricularesNacionais,asDCNs
- como a defesa da formação generalista, em prol de uma formação profissionaldopsicólogo
quepermeietodoocurrículo-devendoseresteadequadoporcadaIESaocontextonoqualse
Nosanos80,registram-sealgumasexperiênciasdemudançadocurrículo,operadasem
especialporuniversidadesfederais.Concomitantementeàdiscussãocurricular-eaomomento
deredemocratizaçãodopaís-,sefazpresenteummovimentodereforçodocompromissosocial,
transformaçãodapráticapsicológica,aliadoàconstataçãodainadequaçãodocurrículomínimo
para atender as demandas sociais, a uma alta taxa de não-exercício profissional ou de
não-inscrição nos conselhos levou o CFP, em 1984, a lançar uma iniciativa de aproximação
entre o MEC, as instituições de ensino superior e a classe profissional, para que um novo
encontros e congressos que articularam os profissionais e integraram reflexões e esforços de
A formação na graduação em Psicologia permaneceu inalterada por quase cinquenta
anos, entre a vigência do currículo mínimo, após a regularização da profissão em 1962, a
aprovação da Lei de Diretrizes e Bases de 1996 e a homologação das Diretrizes Curriculares
43
Nacionais, em 2004. Neste sentido,omovimentoquelevouàsDCNscaracterizou-seporseu
aspecto plural, coletivo e amplamente dialogado, aliado a discussões mais amplas como o
financiamento da educação, as questões interseccionais e os mecanismos de avaliação de
desempenho.Estemovimento,quebuscaatenderàsnecessidadeslevantadasemtantosâmbitos
para a atuação do profissional em Psicologia, buscou tirar da formação seu aspecto rígido e
uniformizado,emproldeumaconcepçãomaisplural,enraizadaedialogada(Rudá,Coutinhoe
em vista a preparação para o mundo do trabalho, para o estudo eparaapesquisaacadêmica,
produzindoconhecimentocientíficoecapacitandoprofissionaiscapazesdelidarcomquestões
plurais a partir da mobilização rigorosa de distintos critérios e pressupostos diante de
fenômenoscomplexos,emumaatuaçãoética(Brasil,2023).Aformaçãoseestruturanãomaisa
partirdedisciplinasrígidas,massimporhabilidadesecompetências-umaconcepçãodiferente
docurrículomínimo,maisconteudista.Oobjetivopassaaserpropiciarumprocessoformativo
maisintegrado,apartirdeseiseixosestruturantesquearticulemdiferentesconteúdos,previstos
de forma obrigatória nos diferentes cursos (Yamamoto et al., 2013). Porém, a vigência
prolongadadasnormativasdocurrículomínimodeixamarcasaindaperceptíveisnospercursos
formativos das IESs, mesmo após a promulgação das DCNs de 2004 e as revisões de 2011 e
2023.
essesentido,épossívelespecularsealongapermanênciadoreferencialnormativo
N
doCMteriacontribuídoparaoengessamentodaformaçãoemPsicologia,disposta
emdisciplinasorganizadasnumasequênciaseriadarelativamenterígidaerefratáriaà
introdução de novosconteúdos.Emúltimaanálise,seriapossívelquestionarsetais
disciplinas,emplenoséculoXXI,compreenderiamconteúdos,senãoosmesmos,ao
menosfortementeinfluenciadospelodesenvolvimentocientíficodaprimeirametade
do século XX. Basta ressaltar, por exemplo, a forte presença das tradicionais
abordagens psicanalítica, behaviorista e gestáltica, três grandes escolas de
pensamento, como eixosestruturantesdaformaçãoemmuitasinstituições.(Rudá,
Coutinho e Filho, 2015, p. 77)
44
No processo de pesquisa para a escrita deste capítulo, foram encontrados poucos
trabalhosteóricosouempíricosquesedebruçassemsobreotemadaformaçãoemPsicologiano
atualizado sobre o atual panorama de métodos, teorias e práticas mobilizados em ementas e
programas de disciplinas obrigatórias da área nos cursos de graduação em Psicologia após a
homologação das DCNs de 2023. Alguns dos artigos encontrados são referenciados a seguir
como forma de ilustrar as principais questões e desafios presentes nos diferentes currículos.
Um amplo estudo documental realizado por Bado et al. (2025) aponta como a
dificuldade de acesso à informação sobre os currículos e ementas praticados pelas diferentes
instituições de ensino superior em suas graduações em Psicologia fragiliza uma compreensão
maisamplasobreocenáriodaformaçãonopaís-das925instituiçõesdeensinosuperior(IES)
listadas no portal do MEC que ofertavam cursos de graduação em Psicologia em 2023, 264
instituições (28,5%) não forneceram nenhuma informação curricular, o que configura uma
grave violação das diretrizes nacionais. Considerando-se a flexibilização permitida apartirdas
DCNs, é essencial compreender como as instituições têm traduzido napráticaasorientações
porinstituiçõesprivadas-apenasnoanode2019,foram120novosprogramasregistradospelo
MEC, com uma distribuição desigual pelo país (Bado et al., 2025).
A partir da análise documental, verificou-se que, em relação às 661 instituições
menos uma disciplina de Psicanálise, enquanto a Análise do Comportamento aparece em
apenas 49%.Ocarátergeneralistadaformaçãoficafragilizadoaoseconsiderarqueapenas121
das instituições trazem em seu currículo matérias que abarquem as principais abordagens
psicológicas.Apresenta-setambémumadistinção,aindaquepequena,nasabordagensentreos
estados, o que mostra como a formação recebida pelos profissionais difere de acordo com o
45
predominância determoscomo“saúde”,“trabalho”e“desenvolvimento”,bemcomo“social”,
JáemrelaçãoespecificamenteàdisciplinadePsicologiaSocial,foramencontradasainda
menos pesquisas, também de forma esparsa e sem uma diferenciação feita a partir dos
desdobramentosdasDCNs.Emumartigode2009,SouzaeFilhoapresentamosresultadosde
umlevantamentorealizadacom51docentesdePsicologiaSocialemtodoopaís,cujasrespostas
aumquestionáriocompuseram,juntocomaanálisedocumentaldeprogramaseementas,um
que se apresentou foi uma predominância de conceitos descritivos e fenômenos abordados,
comoidentidade,ideologia,representaçõessociaiseprocessosgrupais.Oensinodemétodosfoi
o campo menos pontuado, tanto no relato dos docentes quanto nas ementasanalisadas.Em
relação à bibliografia adotada - que revela os pressupostos teóricos balizadores da própria
formação docente e de sua atuação -, observou-se uma predominância da psicologia social
sociocognitivos. Também foi registrada uma maioria de referências nacionais - 61,39% de
relacionadodiretamenteaohistóricodaformaçãopormanuais(SouzaeFilho,2009).Aindaem
relação às referências mobilizadas, uma pesquisa realizada em 2024 com 278 instituições de
ensinosuperiorqueofertavamagraduaçãoemPsicologianoBrasilexplicitou,apartirdeanálise
documental, queasreferênciasmaiscitadasnosprogramasdasdisciplinasdePsicologiaSocial
eramasobrasPsicologiaSocial:ohomememmovimento,organizadaporSilviaLaneeWanderley
Codo, eAs Raízes da Psicologia Social Moderna, deRobert M. Farr (Fernandes et. al, 2024).
AssimcomonolevantamentodeBadoetal.(2025),verificou-seadificuldadederealizar
um panorama completo pela ausência de informações, já que as instituições analisadas eram
apenas 23% de um universo de 1201 IES registradas no portal do MEC naquele momento,
46
sendo que as restantes não possuíam todas as suas matrizes curriculares disponíveis nos
respectivossites.Calegare(2010),porsuavez,fezummapeamentodasvertentespresentesnos
percursos formativos na graduação e nos programas de pós-graduação em Psicologia Social,
apontando a pluralidade de pressupostos teóricos, autores e autoras mobilizados para o
enfrentamento dos temas elencados no âmbito da Psicologia Social. Nas conclusões de seu
associados à produção norte americana tão criticada desde os anos1970,equeseencontram
agora em menor número nas ementas - e qualitativos, mais vinculadosaosestudosdematriz
sociológica. Lima e Techio (2013), por sua vez, apresentam os resultados de uma pesquisa
realizada, viaquestionário,com288psicólogossociaisdoBrasiledeoutrospaísesdaAmérica
Latina, com o objetivo de compreender como se dá a formação e prática profissional nesses
diferentes lugares, com seus percursos distintos, perspectivas plurais e campos de atuação
múltiplos.Emumaanálisedasrespostasrecebidasàperguntasobreoquê,naspalavrasdecada
participante,seriaaPsicologiaSocial,apareceumapredominânciadeconcepçõesmaisligadasà
compreensãodualdeaspectosmaissociológicosoupsicológicos,considerando-seasconcepções
maisintegradasourelacionais-oqueestádiretamenterelacionadoàhistóriadaformaçãoedas
partirdosresultadosobtidos,asrespostasbrasileirasapresentavamumaausênciasignificativade
termos e conceitos mais relacionados à ciência psicológica, o que também pode ser fruto da
Outro dado interessante do mesmo artigo é a distribuição de horas entre ensino,
pesquisaeextensão-osprofissionaisbrasileirosdedicavammaistempoaoensino,enquantoos
nacionalnoexercíciodapesquisapodeacarretarumpercursoformativoquetambémnãodará
odevidopesoaessaatividade,essencialparaaformaçãocontinuadadopsicólogo.Emrelaçãoàs
teoriasadotadas,osprofissionaisbrasileirospoucoresponderam,masaindaassimapontarama
47
Em relação aos colegas sul americanos, os psicólogos sociais do Brasil relataram uma
histórica difusa, com referências como Silvia Lane. Esta falta de consistência sobre as teorias
adotadaspodeestarrelacionada,naperspectivadosautoresdoartigo,àdistribuiçãodashorasde
trabalhodosprofissionais-dominadaspelasatividadesdeensino,emsaladeaula.Édesepensar
o quanto isso não reflete também uma dificuldade em acompanhar discussões e temas mais
recentes,fragilizandotambémaintegraçãodepesquisascomprojetosdeextensãoemprocessos
de retroalimentação crítica que potencializem, critiquem e reformulem as teorias adotadas e
suas implicações práticas, além de explicitar os desdobramentos disso para a prática e para a
Já Yamamoto et al. (2013) listaram 39 planos político-pedagógicos de cursos de
graduaçãoemPsicologiaoferecidospelopaís,analisandoapresençadaPsicologiaSocialemseus
currículos. Foi observado que 51% destes cursos ofertavam de 70 a 200 horas de aulas
aoscursosqueofertammaisde200hs.Aoseconsiderarque,apartirdasDCNs,aformaçãoem
Psicologia possui um mínimo de 4000h, essa distribuição horária aponta para uma presença
“residual” da Psicologia Social na organização temática do currículo - presente também na
organização dos componentes, já que 46,2% dos cursos ofertavam apenas uma ou duas
Emrelaçãoàlocalizaçãonosperíodosletivos,notou-seumapredominâncianosegundo
e terceiro ano do curso, com 73,8% dessas disciplinas relacionando-se diretamente ao núcleo
formativo central, o que aponta para uma consideração dos conteúdos da área como
significativos para a formação inicial do profissional em Psicologia. É interessante notar que
estágiosemPsicologiaSocialforamoferecidosemapenas26,6%doscursos.Verifica-setambém
Pública,aEducação,aPsicologiadoDesenvolvimentoeaPsicologiaClínica-oquesevincula
também com a presença de disciplinas da Psicologia Social em todos os eixos estruturais
48
previstos pelas DCNs, embora com predominância naquele relacionado a fundamentos
teórico-metodológicos. Neste sentido, a análise dos currículos revela que a formação em
Psicologia Social tinha naquele momento um viés mais teórico, compreensão que ajudaria a
explicar a diminuta oferta de estágios e sua localização nos anos iniciais (Yamamoto et al, 2013).
Após este percurso pelo histórico de abordagens, movimentos e pesquisas que
constituem o cenário da formação em Psicologia Social no Brasil, com suas aproximações e
afastamentos, diálogos e rupturas, críticas e sínteses, estão enunciados os elementos que
permitirão uma análise mais contextualizada do percurso proposto pelo Plano Político
PedagógicodagraduaçãoemPsicologianoIPUSPesuaapreensãoconcretaapartirdavivência
A graduação em Psicologia na USP precede a criação do IPUSP. Inicialmente uma
disciplina do curso de Filosofia, o primeiro curso de Psicologia organizado comotalnaUSP
nasce de uma iniciativa da prof. Anitta de Castilho e Marcondes Cabral, à época chefe da
cadeira homônima na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL). Em 1953, a
Psicologia Clínica. Em 1957, o curso de formação inicial reúne a cadeira de Psicologia
Educacional da Pedagogia e a Psicologia da Filosofia, diferenciando-se tambémascadeirasde
Psicologia Clínica, Experimental e Social - que dariam posteriormente origem aos quatro
Assim como previamente enfrentado em relação à formação em Psicologia Social no
âmbitonacional,nãoforamencontradaspesquisassistemáticassobreopercursoformativo,os
conteúdos, as ementas das disciplinas ou os autores estudados na graduação em Psicologia
oferecidapeloIPUSPdesdesuafundação,muitomenosemrelaçãoaosanosnosquaisocurso
estava inserido na FFCL. Apresentam-se poucos relatos, de cunho biográfico, que não
49
compõemumavisãoestruturaldotodo,maspermitemalgunsvislumbres-comoporexemplo
o texto do prof. Walter Hugo de Andrade Cunha sobre seu tempoenquantoalunodaprof.
Carolina Bori, ainda em 1953. Em suas palavras, a prof. Bori apresentava aos alunos
possibilidadesdereplicaçãodeexperimentosfeitos,porexemplo,porKurtLewin-expoenteda
que se vincula à abordagem mais comumente ensinada nesse período (Cunha, 1998).
O documento do projeto político pedagógico atualmente vigente, referente ao
currículo 47012, se inicia com um breve histórico do movimento em prol da renovação
curricular queaunidadevivenciounosanos90.Éinteressanteconsiderarqueesteéomesmo
período no qual o acúmulo de movimentações e discussões em torno do currículo mínimo
ocorreu a nível nacional, culminando nas DCNs de 2004. Faz falta, porém, um retrospecto
históricoquepermitacompreenderaformacomoocursoseestruturavaantesdessemomento
de renovação.
Entreosprincípiosgeraisdeestruturaçãodocurso,listam-seadefesadadiversidadede
modelos teórico-práticos que fundamentam o conhecimento e a atuação da Psicologia, o
fomento à interdisciplinaridade, a formação científica sólida (propiciando oportunidades de
iniciação científica), a atenção a demandas sociais da comunidade (embora esta não seja
especificada,oquecontribuiparaumadificuldadedeinserçãoterritorialdocursonobairrodo
Butantã), o desempenho ético, a autonomia gradual do aluno em relação à sua própria
formação ao longo do curso, e a realização de estágios a partir de “experiências concretas de
exercício profissional supervisionado” (USP, 2025, p.8). Já em relação aos princípios de
operacionalização, firma-se a importância da distribuição equitativa da carga horária de
disciplinas obrigatórias entre os departamentos, o cuidado para evitar a sobreposição de
50
dos departamentos ao longo dos cinco anos de formação, evitando concentrações em
determinados períodos. Prevê-se também a realização de disciplinas obrigatórias “afins”,
oferecidas por outras unidades, o que reforça o caráter multidisciplinar da formação em
Psicologia.
O estudante ingressa pelo vestibular, em suas diferentes formas atualmente previstas
pelaUSP,nahabilitaçãoFormaçãodePsicólogo,podendooptaraolongodocursoporrealizar
também a habilitação do Bacharelado ou da Licenciatura. Segundo o PPP, o Bacharelado
distingue-sepeloseuenfoquenaformaçãocientífica,masnãopermiteoexercíciodaprofissão.
JáaLicenciaturaobedeceaoprogramacomplementardeformaçãodeprofessoresdepsicologia,
previstonasDCNsemcaráterfacultativo,comointuitodecapacitarprofissionaisparaoensino
na educação básica. Também é explicitado no PPP a estrutura de créditos, a quantidade de
horas a serem cumpridas em cada modalidade de disciplina, assim como a necessidade de
complementares. Considerados esses princípios, vejamos então como as disciplinas de
Emrelaçãoàs obrigatórias,oPSTofertaoitodisciplinas:PsicologiaSocialI;Psicologia
SocialII;LinguagemePensamento;PsicologiadasRelaçõesHumanasI;Psicologia,Percepçãoe
Ambiente; Processos Grupais; Psicologia Social do Trabalho e das Organizações; Orientação
Profissional I. Docentes do departamento também participam de três disciplinas
Construção Social e Constituição Subjetiva, e Ética Profissional em Psicologia. Dentre as
disciplinas afins, ou seja, oferecidas por outras unidades, foram consideradas diretamente
vinculadas ao percurso de formação em Psicologia Social três disciplinas oferecidas pela
FFLCH: Sociologia da Saúde, Introdução à Antropologia e Epistemologia das Ciências
Humanas. Com esta relação, contabilizam-se então quatorze componentes curriculares que
constituem o percurso formativo obrigatório em Psicologia Social atual na graduação do
51
Tabela 1 - Distribuição das disciplinas obrigatórias em Psicologia Social na grade do IPUSP
9
10
ApartirdaTabela1,podemosobservarqueasdisciplinaspropriamenteoferecidaspelo
PSTsedistribuementreoterceiroeooitavoperíodo,sendoesteoúnicodepartamentoquenão
tem disciplinas ainda no primeiro ano. Essa lacuna pode ser considerada coberta de duas
formas - seja pelas duas disciplinas da FFLCH que introduzem os discentes a campos das
ciências sociais absolutamente fundamentais para a área, seja pela presença da disciplina
interdepartamental sobre pesquisa. A partir do segundo período, também é possível que o
discentecomeceaselecionaroptativasoferecidaspelodepartamento,oquedápossibilidadede
horária, as oito disciplinas obrigatórias ministradas pelo departamento totalizam 24
créditos-aula,oqueresultaaotodoem360horas.Tambémsecomputam110horasdeestágio
ligeiramente inferior ao apresentado pelo departamento de Psicologia Experimental (PSE) e
52
departamentodePsicologiadaAprendizagem,doDesenvolvimentoedaPersonalidade(PSA),
28 cada, e semelhante ao do departamento de Psicologia Clínica (PSC), a carga de estágio
vinculadoadisciplinasobrigatóriasésuperioraodosdemaisdepartamentos-são100hnoPSA,
Esta análise centra-se na consideração do corpo de disciplinas obrigatórias, mas é
interessanteconsiderarqueoPSTofertaumsignificativonúmerodedisciplinasoptativas,entre
eletivas(11)elivres(20),umdestaqueemcomparaçãocomosdemaisdepartamentos.Parafins
de registro, as disciplinas são listadas a seguir de acordo com seu tipo (optativas eletivas ou
1
3
- Introdução à Psicologia
Anomalística
Psicologia Histórico-Cultural e
5 - Psicologia Social Comunitária
Psicologia Social Latino-Americana
- Mente, corpo e cultura: Introdução
à Filosofia da Mente
53
Contemporâneo
- Psicologia e Políticas Públicas de
Assistência Social
- A Psicologia do Impossível
- Cosmopolíticas do Trabalho
oferece uma ampla gama de perspectivas, campos de atuação e temas relacionados com a
Psicologia Social, com algumas vertentes mais estruturadas - Orientação Profissional e o
mundo do trabalho, Políticas Públicas de Saúde e Assistência Social, Psicologia
componentes optativos temas atuais como as mudanças climáticas e os processos digitais,
oriundostantodecontrataçõesrecentescomo deumolhardodepartamentoparaasquestões
sociaiscontemporâneas.Éinteressanteperceberqueosegundoano(terceiroequartoperíodo)
apresenta poucas optativas, o que pode estar relacionado com a centralidade das disciplinas
obrigatóriasPsicologiaSocialIeII,consideradasbasilaresparaosaprofundamentosposteriores.
As disciplinas de Prática de Pesquisa, embora alocadas no final do curso, costumam ser
realizadasanteriormentepelosdiscentes,comoiniciaçõescientíficas,porcontaremtambémno
relaçãopodecontercomponentesjáinativadosequeprecisariamseratualizadosnosistemada
universidade. Já as disciplinas optativas eletivas, consideradas de responsabilidade do
54
departamento e não apenas do docente, deveriam idealmente ser oferecidas com maior
frequência. Em relação à carga de estágio, as eletivas do PST apresentam 340h ao todo, e as
livres 95h, o que reforça o caráter de aprofundamento da disciplina eletiva em relação à
disciplina obrigatória, possibilitando a continuidade do trabalho iniciado e aperfeiçoando a
prática profissional.
A análise das referências listadas no rol das disciplinas que compõem a formação em
PsicologiaSocialnoIPUSPpermitetambémvislumbrardeformamaisconcretaquaisostemas,
abordagens, métodos e perspectivas que compõem e iluminam o diálogo em sala de aula e
tambémnaspráticasdeestágiovinculadasàsdisciplinas.Umpercursodeaprendizagemnãose
restringe apenas aos elementos previamente listados, já que a ementa demanda adaptações, e
pode (e deve) responder a questões não previstas anteriormente, mas que sãolevantadaspela
turma em diálogo com os docentes ministrantes. De todo modo, considerando-se que a
bibliografialistadanosistemanemsemprecorrespondeaoqueestáefetivamentesendoaplicado
no cotidiano dos componentes curriculares, optei por resgatar os programas das quatorze
disciplinasobrigatóriasquerealizeientreosanosde2020e2024,comoformatambémdepartir
A partir de cada um dos cronogramas, salvos ao longo dossemestresemumarquivo
pessoal, foi realizada uma tabela síntese com o ano de oferecimento, o código e nome da
disciplina,oautordaobra,paísdeorigem,títulodaobra,anooriginaldepublicaçãoeotipo-
livro,artigooutese/dissertação.Oprocessodecoletadasinformaçõeseorganizaçãodabasede
dados deu-se manualmente, mas utilizou-se uma ferramenta de inteligência artificial para
Oprimeiroresultadointeressanteadvémdalocalizaçãogeográficadosautores-115das
247 obras (ou seja, 46% do total) são de autoria brasileira, o que mostra uma presença
significativa da produção nacional na reflexão e atuação do profissional que passa por esse
caminhoformativo.Contudo,estanãoéumadistribuiçãoequânimeaolongodasdisciplinas-
noscomponentesoferecidospelaFFLCH,apredominânciadeautoresestrangeiroséabsoluta
55
(79%), com destaque para a produção francesa (26 de 86 referências, 30%). Este é um dado
relevanteparapensarmosagenealogiadasciênciassociaisnoBrasileaorigemdaprópriaUSP,
profundamentevinculadasàpresençanopaísdeintelectuaisfrancesesnoiníciodoséculoXX,
com uma influência notável até hoje. Já entre as oito disciplinas obrigatórias ofertadas pelo
próprio PST,adistribuiçãoémaisequânime:são69referênciasnacionaise51estrangeiras-e
dessas, 18 também de autoria francesa, emulando a tendência encontrada nas disciplinas da
FFLCH.
Se considerarmos a relação dos autores mais citados, temos o prof. Marcelo Afonso
Ribeiro,doprópriodepartamento(7obras),MichelFoucault(6obras),ClaudeLévi-Strauss(5
obras),SigmundFreud(5obras),JacquesLacan(3obras)ePeterBergereThomasLuckmann
(3obras).Enquantoasobrasdoprof.MarceloAfonsoRibeiroconcentram-seinteiramentena
disciplinadeOrientaçãoProfissionalI,Foucaultsefazpresenteemcincodisciplinasdiferentes
(as três da FFLCH, Psicologia Social do Trabalho e das Organizações e Linguagem e
Pensamento). Lévi-Strauss, por sua vez, está concentrado na disciplina de Introdução à
Antropologia,etambémtemumaobralistadaemPsicologiaSocialII.Freudsefazpresenteem
Introdução à Antropologia, Epistemologia das Ciências Humanas, Psicologia Social I e II e
LinguagemePensamento(compresença,emduasdelas,damesmaobra, PsicologiadasMassas
e Análise do Eu, de 1930). Lacan está listado como referênciaemEpistemologiadasCiências
HumanaseLinguagemePensamento,enquantoAConstruçãoSocialdaRealidade,deBergere
Luckmann (1966), é referência de Introdução à Sociologia, Psicologia Social II e Psicologia,
Percepção e Ambiente.
A presença de produções latinoamericanas, por sua vez, é bastante reduzida - entre
todas as disciplinas, apenas 7 obras -, 5 da Argentina, de autoria de EnriquePichon-Rivière,
José Bleger, Rodolfo Bohoslavsky (x2) e Rita Segato; 1 da Colômbia (Hernán Camilo
obras de autores migrantes - 1 de Stuart Hall, oriundo da Jamaica mas radicado no Reino
56
Esta breve análise dos autores mais citados nos revela a já conhecida predominância
masculina nas referências acadêmicas e, para além disso, uma concentração em produções
estrangeiras do norte global, especialmente francesas. Também deve ser considerada a
sobreposiçãodeobrasentreumcomponentecurriculareoutro,oquedemandariaumdiálogo
entreosdocentesministrantesparaumamelhorestruturaçãoconjuntadoroldeobrasaserem
estudadas pelos discentes ao longo de sua formação, garantindo assim uma pluralidade de
perspectivas e abordagens. Embora esta análise bibliográfica restrinja-se às disciplinas
consideradas obrigatórias no percurso da Psicologia Social, esta sobreposição é vivida pelos
estudantes em todo o curso, o que reforça a necessidade de um movimento profundo de
Emrelaçãoaosanosdepublicação,asdisciplinasdaFFLCHconcentramasreferências
mais clássicas, partindo de 1867 (O Capital, Karl Marx). São7referênciasdoséculoXIX,14
referênciasdaprimeirametadedoséculoXX,42dasegundametadee22doséculoXXI.Jáas
disciplinas do PST listam 8 referências anteriores a 1950, 42 entre 1952 e 2000, e 70 obras
produzidasdepoisdosanos2000.AindaqueapresençadeobrasproduzidasnoSéculoXXseja
FFLCH mantêmamissãodeapresentaros“cânones”dopensamentodasciênciassociais,sem
deixar de lado a virada dos anos 50-60, com autores como Lévi-Strauss e Foucault. Já as
disciplinas do departamento prezam pela produção ocorrida a partir da segunda metade do
SéculoXX,oquepodeserrelacionadocomacrisedaPsicologiaSocialvividaapartirdosanos
70eosmovimentosdecontestaçãooriginadosemcontraposiçãoàabordagemnorteamericana:
nas disciplinas do PST, autores estadunidenses são listados apenas cinco vezes. A análise das
disciplinas interdepartamentais é complexa, visto que a lista de referências não se relaciona
apenas com a intenção do docente do PST. Porém, é interessante notar que é o grupo de
componentescomobrasmaisrecentes-2anterioresa1950,17entre1950e2000,e22dosanos
57
Seconsiderarmosotipodepublicação,háumaligeirapredominânciadelivros-são134
das 247 referências (54%), somando-se aos 109 artigos e apenas 4 teses/dissertações. Como
esperado,aanálisedadatadepublicaçãodecadagruporefleteasedimentaçãodoconhecimento
centradonoslivrosenquantoobrasdereferência(68%forampublicadosantesdosanos2000),
enquanto os artigos permitem, por sua vez, um contato com a produção acadêmica mais
recente(67%forampublicadosapósosanos2000).Seconsiderarmosospadrõesdepublicação
publicaçãonomomentoemqueforamlistadosnasreferênciasdasdisciplinas(24%),umíndice
quenospermiterefletirsobrealimitadapermeabilidadedoscomponentescurricularesfrentea
referências mais recentes e uma certa fragilidade do diálogo com a pesquisa básica.
Emrelaçãoàabordagemouescoladepensamentoadotadapelosautores,aclassificação
disciplina,comatribuiçãomanualrevisadaporinteligênciaartificial.Das247obraslistadas,41
concentradas nas ementas de Epistemologia das Ciências Humanas (18 obras), Linguagem e
Sociologiaocupamosegundoposto,com31aotodo-estãopresentesem8disciplinas,embora
evidentementeconcentradasnadisciplinaintrodutóriadaFFLCH(15obras).AAntropologia
(27 obras) e a Psicologia Social do Trabalho (19 obras) têm comportamento similar,
Porfim,seconsiderarmosainserçãonapráticaprofissionalpossibilitadapelosestágios,
verificamos que as possibilidades propostas nos programas das disciplinas obrigatórias
caracterizam-seporumadinâmicapontualerestrita-onúmeroreduzidodehoras,aindamais
quandodivididoaolongodassemanasdeaulaprevistasnosemestre,nãopermiteaoestudantea
experiência plena da realidade de trabalho do psicólogo social em suas diversas frentes de
atuação, mas apenas algumas aproximações, a partir de visitas ou entrevistas. No percurso
vivenciadoentre2020e2024,tendoemcontatambémainterrupçãodasatividadespresenciais
58
devidoàpandemiadeCovid-19nosdoisprimeirosanos,osestágiosrealizadosforammarcados
pela proposta de observação, registro e análise teórica, sem a possibilidade de uma entrada
consistentenocotidianodeserviçosouprojetos.Emretrospecto,consideroquenadisciplinade
OrientaçãoProfissionalIapropostadeapoionaorganizaçãodaFeiraUSPdeProfissões,como
oficinas, constituiu a possibilidade mais concreta de exercício da atuaçãoestudadaemsalade
AformaçãoemPsicologiaSocialnoBrasilnãoé,nemdeveser,umprocessoisolado-ela
seinserenocenáriodaformaçãodefuturospsicólogosepsicólogasconvocadosaagirdeforma
consciente e crítica na realidade nacional, utilizando-se dos métodos e técnicas adequados a
cada situação, com referências teóricas de qualidade e uma escuta atenta do território e das
demandasdapopulação-sendocapazesdeacolherindistintamente,comrespeitoàdignidadee
aos direitos humanos, os que lhes procuram nas mais diversas frentes deatuaçãoatualmente
disponíveis.
significativo com a pluralidade de formas de ser e agir enquanto psicólogo social, nos mais
diversoscontextos.Asdisciplinasobrigatórias,aindaquepossuamumlugarcentralnopercurso
optativas e os diversos projetos de extensão e pesquisa ampliem esse percurso. Aanálisefeita
possuilimitesecentrou-senoscomponentesobrigatóriosapenasporpermitiremumpanorama
mais amplo sobre as experiências vividas pelo corpo estudantil, visto que as trajetórias
particulares são bastante distintas entre si. Na minha experiência, porexemplo,ainserçãono
departamento se fez desde o primeiro ano, participando de grupos de pesquisa, realizando
iniciações científicas e colaborando em projetos de extensão. Outros colegas realizaram
59
caminhosdeigualaprofundamentoemdepartamentosouáreasdiversas,atémesmoemoutras
IPUSPeadimensãohistóricamaisamplaanteriormenteapresentada,pode-severificaralgumas
ressonânciasedissonâncias:emprimeirolugar,noqueserefereaosestágios,aindaqueoIPUSP
tenhacomodiferencialaofertadeexperiênciaspráticasnaPsicologiaSocialquandoselevaem
conta o cenário nacional, verifica-se um aspecto lacunar da experiência possível nas horas
vinculadas às disciplinas obrigatórias. Isto pode estar relacionado à distinção entre as
habilitações de Bacharel e Psicólogo, que desde o início da regulamentação da profissão se
Nesse sentido, o quinto ano da formação de Psicólogo no IPUSP deveria contemplar não
apenas o enfoque formativo a partir de optativas, mas em especial a inserção na prática. A
adoção futura das disciplinas de Estágio Supervisionado I e II como obrigatórias - medida
adotada na Comissão de Graduação no período em que participei de suacomposição-pode
Em relação às referências adotadas nos programas das disciplinas, a ausência quase
absolutadeobrasnorte-americanasreviveocaminhofeitopelaáreadesdeacrisedaPsicologia
Social, nos anos 70. Contudo, a adoção das referências latinoamericanas é ainda bastante
restrita:opêndulomovimentou-seemdireçãoàcentralidadedaPsicanálise,emespecialapartir
de autores ligados a Jacques Lacan. A ligeira maioria deproduçõesestrangeirasnotodo,algo
padrão de autorias reconhecidas como válidas - em sua grande maioria,dehomensbrancose
heterossexuais. A adoção de referenciais que abracem uma pluralidade de origens, etnias,
identidadesdegêneroeorientaçõessexuaissóacrescentaráaindamaisàamplitudeepluralidade
de temas abordados nas disciplinas. Não se trata de banir as referências clássicas, mas de
colocá-lasemperspectiva,dandomovimentoenovosaresàsdiscussões.Étambémperceptívela
ausênciadereferênciasediscussõesmetodológicas,algoqueecoaocenáriovistonacionalmente,
60
e que não sãosupridaspeladisciplinainterdepartamental.Estaéumademandaconstantedos
discentes, assim como um enfoque maior na atuação na Saúde Coletiva e na relação com as
Políticas Públicas.
É bastante positivo considerar que, diferentemente do cenário encontrado em outros
cursos,aPsicologiaSocialnoIPUSPéumeixoestruturantedaformação,comamplonúmero
de disciplinas obrigatórias e optativas, oferecendo experiências de inserção profissional e de
discussão sobre temas contemporâneos da realidade nacional e internacional. Os diferentes
percursosformativos,possíveisgraçasaoespaçodecustomizaçãodocurrículo,apenasteriama
ganhar com uma integração maior entre as disciplinas, com a revisão profunda e aberta ao
vivências de estágio, e com a retomada de discussões metodológicas e do contato com a
produção oriunda da pesquisa de base. A partir desses eixos, considero que os formandos
vindouros terão, assim como eu, motivos de sobra para agradecer pelos anos vividosentreos
corredoresdoInstitutodePsicologiadaUSP,conscientesdaslimitaçõesepotencialidadesdesta
formação, da qual saímos nutridos em seu aspecto acadêmico e humano, em percursos
permeadospelaprofundidadeequalidade,semprenohorizontedadefesadeumauniversidade
Referências
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B
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63
Capítulo3
Olugardotempoésemmedida,ondecadaumde
nós toca, simultaneamente, épocas distantes. O
fluir aparente, a imobilidade pressentida,
pertencem à natureza do tempo.
Proust (2016)
Universidades são instituições milenares que conservam, preservam e difundem uma
formadeconhecimento,oconhecimentocientífico,queresultadaaplicaçãodanormaeruditade
produção cultural.
Mas,seauniversidadeéaguardiãdoconhecimentocientífico,elatambéméresponsável
pelo avanço ininterrupto de produtos e processos que resultam da aplicação dele em novas
formas de ler o mundo sob tal paradigma. Ou seja, é na universidade que, no mundo
contemporâneo, se formam intelectuais-pensadores capacitados para o enfrentamento de
dúvidas sobre novos fatos sociais e naturais que se apresentem aplicando, neste processo de
investigação e busca, códigos referendados na história institucional pregressa da ciência.
Windelband (1970), em sua IntroduçãoàFilosofia,afirmaqueahistóriadafilosofiaéa
história através da qual a humanidade europeiatransformouemconceitoscientíficossuavisão
do mundo e sua valoração da vida. Comprometido com uma perspectiva do culturalismo
alemão, este autor, porém, não se contradiz com a definição queEinstein,subsequentemente,
oferecerá sobre a Física.Paraele,af ísicadinâmicaseriaumsistemademundoquedesenvolveu
um conhecimento matemático do movimento.
64
Estasconsideraçõesacopladasconstituemumsistemadeideiasqueimplicaanecessidade
de se, ao se buscar apreender sentidos para a expressão teoria da ciência, fundamentá-las no
entendimento de aspectos diacrônicos de sua evolução e aspectos sincrônicos de sua
configuração.Ouseja,apontamparaumanecessáriagenealogiadosconceitosditoscientíficos,a
fimdequesepossaapreenderosdesenvolvimentos,extrínsecoseintrínsecos,quegradativamente
construíram o processo de institucionalização de uma semiótica, composta por códigos que
transmitem, transformam, conservam e elaboram informações sobre o mundo, social e natural.
É nossateseque,paraodesenvolvimentodeumateoriadaciência,tem-sequeadentrar
naprópriaconstruçãodesteprocessosemiótico,noqualeatravésdoqualteriaseprocessadoum
crescenteaprimoramentonaprecisãointersubjetivadecampossemânticosapartirdelinguagens
naturais, derivadas para as suas transformadas ditas linguagens próprias. Oquesãolinguagens
naturais? São recortes de coisas dispostas em cenários de continuidade a fundo infinito ou
delimitadas por limites topológicos do espaço de e em observação, compondo o acervo de
imagens experienciadas por sujeitos ao longo de sua socialização em normas culturais.
Como operariam estas transformações? São processos criativoselaboradospormeiode
interações dialéticas entre imagens mentais, índices do mundo real e símbolos,
interrelacionando-os em discursos articulados desenvolvidos a partir destas interações,
estruturando-as naquilo que Hjelmslev (1971, 1996) denominaria denovasunidadesmínimas
designificação.Apontam,também,paraumainstigantequestãodafilosofiadalinguagemdaera
moderna - quais são as relações existentes entre linguagem e aquisição de conhecimento.
Asreflexõessobrealinguagemeaespeculaçãometafísicaestãojápresentesnafilosofiade
Aristóteles(1994)ePlatão(2011,comocitadoemBlackburn,2008),osquaisbuscavamretirar
consequências ontológicas de considerações sobre a estrutura da linguagem.
Para Platão, da simples observação de palavras como homem ou belo, decorreria a
constatação de que, ao se aplicar as mesmas a vários indivíduos, compartilhando-se nesta
atribuição da mesma ideia, sua anterioridade permitiria denominar de homemoubeloaqueles
que a ela corresponderiam.
ParaAristóteles,aocontrário,haveriaaprioridadeontológicadassubstânciasindividuais.
Mas, a maisimportantecontribuiçãodessefilósofosobreaquestãodalinguagemconsistiriana
65
sua aproximação da teoria lógica,inter-relacionando-acomaatribuiçãodevalordeverdadeou
falsidade a frases declarativas, nas quais um atributo expresso por um verbo é afirmado ou
negado a propósito de um conteúdo designado por um substantivo.
Nesta linha evolutiva das ideias sobre a natureza da linguagem vão as mesmas, no
transcorrer da idade moderna, aproximar-se da epistemologia, desenvolvendo-a em torno da
questão - o que denotam as palavras? Condillac (2017) formula a semântica da denotação e
Locke3 afirma que as palavras representam ideias na mente de quem as usa, comunicam
experiências.Estasposições,empiristaseiluministas,nosSéculosXIXeXXtransformam-secom
a definição oferecida por Von Humboldt4: a linguagem científica constitui um universo
conceitual articulado, à qual acrescenta-se,comCassirer(1960,1998),ostermoscompondo-se
de linguagens e outras formas simbólicas.
Leibniz(1975),emsuaCharacteristicaUniversalis,propunhaaexistênciadeumalfabeto
simbólico do pensamento humano que permitia estender o conhecimento mediante cálculos
racionais. Desta forma chegava-se ao problema das relações entre línguas naturais e línguas
artificiais, ou, ao problema da existência ou não de uma estrutura lógica daslínguasnaturais,
perscrutável através da construção de modelos artificiais, problemas retomados por Kant e
Piaget.
Todasestasposiçõesbuscamcompreenderdequeformaaconstruçãodoconhecimento
se explicaria emfunçãoderelaçõesentrelinguagem,pensamento,lógicaerealidadedomundo.
Ou, de que forma a criaçãocientífica,ouaelaboraçãoconceitualsobreomundo,produziriao
incrementodoconhecimento.Pararesponderaestasquestões,tem-sequeentrarnointeriordo
processo de construção científica, processo que Bourdieu (2001) denomina de trans-histórico5.
3
JohnLockerefletesobreessasquestõesnasseguintesobras:AnEssayconcerninghumanunderstanding(1689)eOf
the conduct of the understanding(1706).
4
AlexanderVonHumboldtapresentaestadefiniçãocomoumdoselementosdeconclusãodetextoqueredigeem
1822,publicadopostumamente,noqualdiscorresobreaorigemdasformasgramaticaiseasuainfluênciasobreas
ideias.AautorateveconhecimentodestetextoemumatraduçãoparaoitalianointituladaSull’originedeleforme
grammaticali e il loro influsso sulle idee.
5
Bourdieu,emumcursoministradonoCollégedeFranceintitulado“Sciencedelascienceetréflexivité”enfatizao
carátertrans-históricodareproduçãodeobjetosetemasnointeriordaexpansãoespaço-temporalnoconhecimento
científico.Taltransiçãoimplicanoincrementodaprecisãosemânticarelativadeconceitoscientíficosparipassucom
a ampliação das formas intelectuais de operar as ideias em processo, sobre o mundo. Ou seja, as formas
lógico-matemáticas que constituem a sintaxe válida no interior da instituição cientí[Link] formas englobamos
avançosdaMatemáticaderivadosdasnecessidadesdeaplicaçãodométodonoestudodosobjetosempauta.Coma
66
Nestesentido,poder-se-iaindagarquandoecomquemseorigina,nomundogrego,esta
forma de pensar conceitual. Ou seja, quando surge o pensamento metódico?
Já em Sócrates e Platão explicita-se a ideia de que a aceitação de verdades estaria
condicionadaàverificaçãodaformaatravésdaqualteriasidoobtida.E,nessesentido,Sócratese
Platão delimitam duas dimensões em relação às quais esta verificação deveria se processar: a
dimensão do pensamento correto, ou seja, a dimensão conceitual, relacionada à vinculação
adequadaentreeapalavraeaideia,tendoparatalpropostoaMaiêutica;eadimensãoheurística,
ou do crescimento do conhecimento através do exercício mental, tendo para tal proposto a
Dialética.
Estas duas dimensões referem-se à questão da relação entre oconceito,apalavraqueo
designa e a ideia que quer representar. Obviamente, esta avaliação depende de uma filosofia
configurando o que é adequado e não adequado, ou seja, uma filosofia do erro. Refere-se,
também, à suposição de que existe uma forma ideal a ser respeitada para se produzir o
crescimento dos conhecimentos - um paradigma da heurística.
No mundo grego, este paradigma foi axiomatizado por Euclides, o paradigma
geométrico,noqualsecorporificamduastécnicasintelectuaisdecrítica,oudequestionamento
de verdades: a abstração e a dedução. A partir, então, de afirmações aceitas, formuladas por
abstração, deduzem-se suas consequências lógicas, concluindo-se novas asserções, novos
conhecimentos criados a partir de deduções. Aplicado a números e figuras geométricas, este
paradigmaatravessaincólumeatéoadventodoRenascimentoedaIdadeModerna,quando,por
vários desdobramentos, vem consolidar-se na Física Moderna graças ao trabalho de Kepler,
Copérnico, Galileu, Newton e Descartes. O que vinha a significar a Física Moderna?
i nteração cada vez mais imbricada entre a Lógica e a Matemática, hoje denominada lógico-matemática, cresce a
mesma através da sua ampliação resultante da análise dos própriosprocessosmentaissubjacentesaoexercíciodo
método,aolongodoprocessotrans-históricoquesedánointeriordainstituição.Omovimentopendularanalisado
porGalileuestápresentenocampodaTeoriadaRelatividadedeEinstein,daMecânicaQuântica,nosconceitoshoje
difundidospelamídiademassade“buraconegro”,“partículadeDeus”eoutros resultantesdeestudosemprocesso
nas fronteiras da astrofísica. Tais elos mantiveram suas origens expandindo-asparamaioresprecisõesdeprevisão
sobre comportamentos da natureza, a partir da resolução de controvérsias e paradoxos buscando soluções e
configurando as teorias vigentes até o momento. São as chamadas fronteiras doconhecimento.Maselasexistem
apenasparaciênciasqueconstituíramumcorpodeconhecimento,apartirdoqualseprescindedaindução.Osfatos
se incluem completamente no conhecimento pregresso. O que não se inclui é o que está em processo de construção.
67
Significava a aplicação ampliada do método geométrico para afirmações sobre fatosdo
mundo natural, objetivamente sobre o movimento. Nesse processo acoplava-se a exigência de
conciliação entre os fatos do mundo, as formulações que se faziam sobre os mesmos e as
consequências lógicas de conclusões destas inter-relações. Constrói-se, assim, um novo
paradigma da heurística, o paradigmaexperimental,vinculando-seracionalmenteelementosda
realidade empírica com a sua descrição matemática, na direção de permanências abstraídas do
que muda sem cessar - os conceitos f ísicos, escritos em linguagem matemática, conforme
conceitua Galileu.
Tais conceitos nada mais seriam do que relações repetíveis abstraídas da experiência,
tratando-se,asleisdamecânica,nãodeleissobreoscorposquesemovimentam,masdeleissobre
o movimento doscorpos.Configura-seassimométodohipotético-dedutivo,fazendoconvergir
exigências do método geométrico com exigências do método experimental. Dessa forma,
poder-se-iadefinir,comSinger(1961),queaciênciaconjugafunçõesdarazãoedaexperiênciana
constituição do conhecimento, articulando algoritmos lógicos e técnicas de manipulação da
matéria,tornandoprecisasnoçõesatravésdeumacríticaintelectual.Masqualcritica?Ométodo
lógico da ciência moderna.
Esta consolidação não explicaria, porém, porqueomovimento.Perscrutandoideiasde
onde teriam se originado tais decisões, poder-se-ia afirmar que uma série de pressupostos
sustentavam o arcabouço teórico-filosófico da ciência moderna. Em primeiro lugar, o
mecanicismo,apontandoparaomovimentocomoaquiloquedeveriaserexplicado.Emsegundo
lugar, o atomismo, configurandoanálisesmatemáticasdomovimentoatravésdadecomposição
dos corpos-objeto em partes correspondentes a unidades geométricas mínimas. Em terceiro
lugar, ao determinismo, levando a explicações/leis estabelecendo relações entre causas e
movimento,entreestadosesuasdescrições,entreabstraçõestemporais,transformandootempo
em uma variável-medida do espaço, uma a-temporalidade. Em quarto lugar, ao absolutismo,
supondo o mundo como um cenário no qual se distribuíam ascoisas.
Se estas ideias alimentavam assemânticasquepermitiriamjulgaraverdadeoufalsidade
de conclusões matemáticaseempiricamentesustentadas,elasvinhaminter-relacionaromundo
social com as abstrações universalizantes. Consistiam, no entanto,emumalinguagemprópria,
68
estruturada sobre o aumento da precisão semântica dos significados dos termos massa, peso,
força, energia, gravitação, espaço, tempo e movimento. Embora expressa matematicamente,essa
linguagem vinculava-se à experiência através de recortes de coisas que se leem na linguagem
natural com significados novos, artificiais emrelaçãoàsuaorigemlinguística,masdelimitando
campos semânticos intersubjetivos e intersubjetiváveis de alta precisão, ou seja, de alta denotação.
Assim, acompanhando-se a evolução da f ísica dinâmica, constata-se o avanço do
conhecimento em um sentido de incremento da precisão semântica dos conceitos-modelo
construídos de forma lógico-matemática rigorosa, vinculada, com exatidão crescente, à
desdobramentos deduzidos e derivados da experiência, pensada por abstrações e apoiadas em
hipóteses mentais.
Configura-se, assim, um paradigma metodológico de conhecimento que, conforme
caracteriza Guba (1990), em sua obra The Paradigm Dialog, consiste em um conjunto de
crenças e valores queorientamaação.Segundoesteautor,osparadigmascientíficospodemser
definidosdeacordocomasrespostasqueoferecemàsquestõesontológicas,epistemológicasede
métododeinvestigaçãoeaceitaçãodeverdades.Aprimeirarefere-seàconcepçãodanaturezado
conhecimento; a segunda, à concepção da relação entre sujeito e objeto do conhecimento;ea
terceira,aométododeacessoaoconhecimentodecorrente,deformacoerenteeconsistente,das
duas primeiras respostas às referidas questões.
Sob tal perspectiva, a fundação da f ísica dinâmica constituía uma forma de
conhecimento comprometida com uma ontologia realista-materialista, uma epistemologia
objetivista e dualista, através da qual, pela suposta não interação entre o sujeito e oobjetodo
conhecimento, pressuposto do paradigma eleito, excluíam-se do conhecimento os valores e
crenças redutores deste mesmo conhecimento. Decorria, então, uma metodologia
experimentalista-empirista, isolando o conhecimento dela derivado dos valores e crenças do
sujeito e os eventos observados de fatores externos de interferência sobreosmesmos.Assim,a
Epistemologia Clássica constituiu-se sob esta forma do conhecimento científico que primeiro
nasceu nopensamentomoderno:af ísicadinâmicaesuamatematização.Umaformaprecisade
racionalidadeque se refere a umobjeto atemporal,a umalógica atemporal(Gagliasso, 1990).
69
Esteidealcientíficopreciso,devidoàaxiomatizaçãooferecidapelalógicamatemática,de
local(física),tornou-seglobal(ciência),permitindoàEpistemologiaModernafundarcritériosde
demarcação entre ciências (Popper, 1959) e pseudociências, saberes empíricos, conhecimentos
exatos,emfunçãodadistânciametodológicadasváriasdisciplinas,comrelaçãoàmetodologiada
f ísica teórica.
Noentanto,noséc.XIX,aoladodestaarticulaçãomensurativaespaço-tempo,otempo
que transforma os objetos começa aconsolidarumadimensãocientífica.Trata-sedeumalenta
transição de pensamento, que gera verdadeiras e específicas teorias científicas em setores de
estudodiferentes(termodinâmica,evolucionismo,psicanálise,marxismoeoutros),equecoloca
nocentrodasreflexõesumapluralidadedetemposque,notranscorrer,modificamoobjeto.Esta
é uma transição de perspectiva que se constitui em uma verdadeira e nova forma de pensar a
realidade – não é mais o espaço a dar razão de ser ao tempo, mas, delineia-se uma realidade
natural, ou social, que é modificada pela ação do tempo histórico processual. Introduz-se a
dimensãoconstrutivadofuturo,deumarealidadedereferênciatemporalprecedenteàquelaque
a suceder.
Este estilo de pensamento, contemporaneamente, validou as competências
metodológicasrestritasàsdisciplinasdepartidaparasetornarproblemademétodo–oscritérios
de conhecimento implicados das teorias começam a incidir sobre regras normativas da
Epistemologia clássica, tornando problemática a demarcação neopositivista entre ciências e
saberes. Radicalizando, pode-se até chegar a rediscutir a antinomia fundamental entre
demonstração e narração, através da qual separou-se a noção de verdade histórico-literária da
verdade científica.
Emdecorrência,oquadroqueseapresentamostracomoinevitáveloentrelaçamentoda
forma de inquirir do historiador com a do cientista. Uma situação que, do ponto de vista
filosófico, significa rever sobre outras bases uma clássicavocaçãometodológicadopensamento
moderno: a mútua exclusão entre ciências da natureza e ciências do espírito, ou do social.
Trata-se,portanto,deideaiscientíficosquepõemosujeitoemumaoutrarelaçãocomo
mundo natural e consigo mesmo como sujeito observador – não mais o lugar isolado da
invariância, contraposto à capacidade de transformação humana, mas sim obrigando-o a se
70
circunscrever, de tempos em tempos, em qualquer discurso do método, para evitar que se
envolva o autor do discurso, parte integrante dosistemaobservado,emimprováveisabstrações
universalizantes.
Taisevoluções,intestinasaodesenvolvimentodaciênciamoderna,evidenciaramopapel
dosujeitonaproduçãodoconhecimentoe,emboranãotenhamsidosuficientespararompero
dualismoobjetivistaeomaterialismorealistanointeriordasciênciasqueconstituíramumcorpo
de conhecimento, ou seja, da f ísica e da genética, espraiaram-se para os outros domínios do
conhecimento, notadamente para o campo das ciências sociais e humanas, resultando, em
decorrência da apontada crise metodológica, em cisões no interior da própria produção
científica,configurandohoje-aindasegundoGuba-aconvivêncialegítimanocampocientífico
entrequatrodiferentesparadigmas:odopositivismo,odopós-positivismo,odoconstrutivismo
(ou dialética hermenêutica) e o da teoria crítica.
Entre os domínios de conhecimento que constituem o campo das Ciências Sociais e
Humanas situa-se a Psicologia Social.
A Psicologia Social é um campo autônomo de conhecimento (se bem que conexa à
PsicologiaGeral)quetemporobjetoosaspectossociaisdocomportamentohumano,achamada
interação humana. As origens remotas da Psicologia Social situam-se na filosofia social da
antiguidade,divididaentreorientaçõespsicologistas,segundoasquaisasinstituiçõessociaissão
expressão das características e das exigências psíquicas individuais (como, por exemplo, na
República, de Platão, e na Política, de Aristóteles; em época moderna no pensamento de
Hobbes), e orientações sociologistas, segundo as quais o comportamento individual é
determinadopelascondiçõessociais(tesesquetêmsuasraízesnopensamentodeHipócrates;e,
em idade moderna, em Rousseau).
Mesmo no séc. XX, a Psicologia Social permaneceu caracterizada por estas duas
orientações. Nascida como uma área independente nos fins dos anos oitocentos, quando a
culturaeuropeiaeradominadapeloevolucionismo,elaassumiu,emprimeirolugar,umendereço
prevalentemente psicologístico. No início do séc. XX, surgiu a “psicologia dos povos”, de
Wundt, obra colossal, masdestinadaaserrapidamentesuperada,principalmentenassuasteses
acerca da inaplicabilidade do método experimental em psicologia social.
71
No início do séc. XX, em 1908, o filósofo e sociólogo Simmel inaugurou, com a sua
sociologia, um gênero de reflexão formalista que logo encontrará seguidores naAlemanha;no
mesmo ano de 1908, apareceram, no mundo anglo-saxão, as duas primeiras introduções
sistemáticas à nova disciplina: a Psicologia Social deRosseaIntroduçãoàPsicologiaSocialde
McDougall, apresentando ecos da interpretação instintualística do comportamento social.
O panorama muda completamente nos fins dos anos vinte do séc. XX, quando a
Psicologia Social passa a assumir gradativamente conotações de modernidade e cientificidade.
Emprimeirolugar,asdoutrinasinstintualísticasentraramemcriseirreversívelpelasteses
ambientalistas propugnadas, demodosdiferentes,tantopelocomportamentalismowatsoniano
quanto pela nascente antropologia cultural. Em particular, as teses segundo as quais a
agressividadenãoconstituiriaumatendênciainatanaespéciehumanaenasespéciesanimais,mas
sim consistiria em uma tendência adquirida mediante a aprendizagem, foram demonstradas
experimentalmente pelo comportamentalista Kuo. A favor das mesmas teses versavam as
pesquisasdaantropólogaRuthBenedicte,deformamaisgenérica,falavamtambémaspesquisas
dos pioneiros da antropologia cultural (sobretudo Malinowski, Benedict e Margaret Mead),
realizadas entre 1925 e 1935. Somam-se também as pesquisas de autores que percorriam o
contemporâneo interdisciplinarismo nas ciências humanas (como Bateson, Sapir eLinton),os
quais concorreram decisivamente pararelativizaroobjetodaPsicologiaSocial,emcujoâmbito
conceitualocritériointerpretativode“cultura”tomouolugardaqueletradicionalde“natureza
fixa e imutável”, contribuindo para o crescente emprego anti-ideológico da Psicologia Social
(Tassara, 2006).
Em segundo lugar, ao redor dosanostrintadoséculopassado,atendênciapsicologista
foi notavelmente redimensionada e corrigida pela influência da sociologia. Neste período se
iniciaramtentativas,muitasvezesnãoconvincentes,dediferenciaçãoentreoobjetodapsicologia
social em relação ao da sociologia; um certo consensoseestabeleceunaformulaçãodeque,de
um lado, o contexto coletivo constituía-se em objeto de estudo de ambas, mas, de outro, a
sociologia se interessaria exclusivamente pelo significado social e as determinações sociais dos
comportamentos,enquantoqueapsicologiasocialosexaminariacomoexpressõesvividaspelos
indivíduos singulares. Essa diferenciação foi depois sempre perdendo incisividade, dado que a
72
psicologia social passou a assumir cada vez mais objetos de estudo tradicionais da sociologia
(como a comunicaçãodemassas)e,deoutraparte,pelaemergênciadamicrossociologia,aqual
passouaenfrentartemáticasrelacionadasàsrelaçõesinterpessoais(porexemplo,comonaobrade
Goffman).
Em terceiro lugar, na segunda metade dos anos trinta, a psicologia social rompeu
definitivamente com as especulações evolucionistas dasprópriasorigens,dando-seumestatuto
de ciência empírica tanto no plano dos métodos quanto das conceituações.
Uma verdadeira demarcação de suas fronteiras com a sociologia ocorreu apenas na
segundametadedadécadade30,quandoaPsicologiaSocialsetornouciênciaexperimental,no
sentido estrito do termo (que seutilizadetemaseprocedimentosemcondiçõesdelaboratório
rigidamentecontroladas),seguindo-seàspesquisasinauguradasnosEstadosUnidosporSherife
prosseguidas por Asch e Boward. Tais pesquisas tinham como um de seus ramos a nova
psicologiaexperimentaldospequenosgruposquepassouasofrer,nesseperíodo,forteinfluência
dastesesepesquisasgestaltistasdaEscoladeMassachusetts,lideradaporKurtLewin.Lewinfoi
o primeiro a evidenciar sistematicamente as propriedades dogrupo,compreendidocomouma
“totalidade”nãoredutívelàspropriedadesdosseus“membros”,considerados,porsuavez,como
“partes”. As pesquisas lewinianas, ao proporem a action-research, prenunciam uma Psicologia
Social aplicada comprometida com o aprimoramentodasrelaçõesinterpessoaisnointeriordos
grupos específicos e legitimadas pela busca da democracia radical.
Enfim,assucessivaspesquisasdeLewin(1948,1950),sobreosdiversosefeitosdoclima
social autoritário, democrático e anárquico sobre o rendimento e as atitudes agressivas de um
grupo, de um lado abriam um campo de investigação relevante no plano mundial edeoutro,
definiam uma orientação sócio-política para a Psicologia Social.
Por estasrazões,KurtLewinéconsideradopormuitoscomoopaidaPsicologiaSocial,
sendo esta entendida como uma psicologia social crítica.
Guba (1990), na obra anteriormente referida, considera o paradigma da teoria crítica
como um dos quatro paradigmas conviventes na produção científica hodierna nas ciências
humanasesociais.Paraele,nateoriacrítica,apesquisaéumaaçãopolítica:suaontologiaéade
umrealismocríticoesuaepistemologia,subjetivista,umavezqueasaçõesdepesquisaestãonela
73
consideradas como intimamente relacionadas aos valores de investigador, requerendo um
método dialógico e transformador, através de desvelamentos e desvendamentos dos objetos e
sujeitos,visandochegar-seà“consciênciaverdadeira”efacilitandoatransformaçãodarealidade.
Como uma teoria crítica, deve a mesma ser capaz de autorreflexão em torno dos próprios
fundamentos,ouseja,deexplicitarediscutirosseusprópriospressupostospráticoseconceituais.
Isto comporta cautela crítica em confrontocomasmetodologiaspré-constituídase,aomesmo
tempo, a ideia de uma sociedade emancipada como referência.
Em decorrência, o enfoque crítico da Psicologia Social consiste em se promover uma
formadepesquisasocial,apesquisa-ação,aplicadadeformaincrementalearticuladaacoletivos
educadores, conferindo-se à mesma o sentido de se promover uma teoria da sociedade atual
como um todo, utilizando-se das diversas disciplinas das quais e sobre as quais se hibridiza a
Psicologia Social – a psicanálise,aantropologia,apsicologia,asociologia,aschamadasciências
sociais e humanas e para além delas. Mas, de que forma e em qual contexto?
Pode-seafirmarque,seassimcaracterizada,apsicologiasocialcríticaatuandocomouma
ação política configurada na metodologia da pesquisa-ação, sua prática não poderá vir a se
constituiremumameraaplicaçãodeconhecimentosmonodisciplinaresdeorigem,derivadosda
história da pesquisa e da construção teórica pregressa. Por outro lado, a afirmação, como
necessária, da metodologia da pesquisa-ação, vincula esta forma de conhecer a uma empiria
baseada em uma contínua, sistemática e articulada intervenção que, como tal, também não
poderásedardeformamultidisciplinar,implicandoaatuaçãodemúltiplas,masisoladas,lógicas
disciplinares.Aindanamesmadireção,talpráticanãopoderá,também,seconteremumâmbito
multidisciplinar de atuação, implicando apenas a confrontação e/ou a colaboração das
monodisciplinas de partida, na implementação de caminhos e estratégias democratizadores da
teiadavidanosterritóriosdaação.Ainterdisciplinaridade,conformeconceituaBarthes(1984),
implica aqui na construção de um objeto novo.
Em síntese, tal assunção para a Psicologia Social Crítica significaria, do ponto de vista
lógico, a necessária vinculação da pesquisa-ação a uma abordagem condutora de uma
identificação participativa de problemas e problemáticas, de uma realização participativa de
análises integradas dosmesmosedeumaformulaçãoparticipativaderespostascompartilhadas,
74
construídas em fóruns temáticos compostos e geradores de elossociais,baseadoseinformados
pelas diferentes linhas históricas de conhecimento, nas variadas normas de produção cultural.
Neste sentido, inter-relacionando crítica e método, um enfoque interdisciplinar
consistiria em que um conhecimento novo produzido não éumaverdadeestabelecidadeuma
vez e para sempre, mas apenas pré-requisito para se ir além, paraseatravessarafronteiradojá
sabido, em direção ao que se almeja conhecer (Tassara e Ardans, 2007).
O tema deste ensaio, contudo, extrapolaasconsideraçõesacima.Oqueserianecessário
para formar um intelectual-pensador atuando no domínio da Psicologia Social, retirando do
debatesócio-históricocontemporâneoostemasdeestudo,inscrevendo-ostransistoricamentetal
comoexigeahistóriaeométodo?Respostasaessaquestãopodemsermúltiplas,masemtodaso
processo será a sua história.
Assim,dadaaextensãodopercursoconstruídonesteensaioemtornodostermoshistória
e método, qualquer recorte que se estabeleça em termos de prioridade sustentando a
comunicação de experiências relativas ao conhecimento científico no domínio da Psicologia
Social, ao longodasuahistóriadeconstituição,implicarárecorteseênfasesarbitráriastantono
que se refere aos elementos constitutivos de sua história, como da construção de seus métodos.
Nacomunicaçãodeexperiênciastãocomplexasprecisa-sedaorganizaçãodeinformações
que sempre, para serem selecionadas, exigem a aplicação de critérios relativos ao que seria
adequado de um ponto de vista material e não material, e tantas formas poderiam aqui ser
elencadas. Em respeito ao leitor e salientando os critérios de arbitragem de seus autores,
sugerimos a leitura do texto indicado emnota6, comoumailustraçãodeumsistemadeanálise
em um estudo específico de Psicologia Social Crítica, desenvolvido em tornodosconceitosde
ideologia, críticaepolíticaspúblicas.Àmodadeumquaseteorema,cujademonstraçãopartede
premissas que a sustentam e que, por hipótese, teriam gerado um conhecimento novo. Sua
racionalidade consiste na utilização da crítica lógica da ciência modernaaplicadanoestudode
uma narrativa formulada em torno de elementos contidos no debate sócio-histórico
contemporâneo.
6
TASSARA,EdaTerezinhadeOliveira.;ARDANS,Omar.Política,históriaesocioambiente.Rev.psicol.polít., SãoPaulo, v.7,n.14,
dez. 2007 .
75
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77
Capítulo4
Bernardo Svartman
78
movimentossociaisenapolíticadeAssistênciaSocial.Começamos,então,comaprimeiradessas
perguntas: como pensamos a formação em Psicologia hoje?
Temos a impressão de que o modelo hegemônico de formação que temos hoje é
prescritivo.NãosónaPsicologia,masnaeducaçãocomoumtodo.Desdecrianças,aprendemos
oquefazer,comofazer,quandofazer.Aprendemosquesóháummodocorretoderespondera
uma questão. Aprendemos que há aqueles e aquelas que ensinam e aqueles e aquelas que
aprendem. Espera-seapartirdessemodeloqueosresultadospalpáveisdoprocessodeensinose
materializememroteirosdeaçãooupensamento,scriptseperformancescorretasquepossamser
avaliadosdeformaindubitável.Aforçasocialdestemodeloestárelacionadaaofatomaisgeralde
que as instituições e estruturas competitivas, permeadas pelas forças de mercado, tendem a
pressionarumareificaçãodoconhecimento.Oqueseriaprocessodialógicovaisetransformando
em coisa adquirida - ou não - de uma vez por todas, medida por padrões objetivos de avaliação.
Nos últimos anos, em conversas com muitas psicólogas e psicólogos que atuam na
assistênciasocial,observamosqueosrelatosdemuitas/osdelas/estrazemresquíciosdessemodelo
de formação. Quantas vezes não ouvimos críticas à formação em Psicologia ou às referências
técnicas produzidas pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP) dizendo que são genéricas ou
teóricasdemais,equenãodizemcomodeveseraatuaçãonaprática(CordeiroeCurado,2017)?
Críticas essas que são construídas a partir de uma expectativa de protocolos, respostas,
prescrições, modelos que orientem, sem hesitação ou ambiguidades, as atividades profissionais.
No entanto, pensamos que uma boaformaçãoemPsicologianãodeveserprescritiva–
afinal, muitas vezes, prescrições “engessam” a prática, ao desconsiderarem as singularidades de
cada serviço, território, demanda ou equipe técnica. Usando uma metáfora gastronômica,
acreditamos que uma boa formação não deve dar a “receita do bolo”, mas apresentar
ingredientes, técnicas de cocção, sabores, odores, paladares, hábitos e culturas culinárias. A
formaçãoemPsicologiadevedarcondiçõesparaquepsicólogasepsicólogospossam,demaneira
criativa e inventiva, produzir saberes epráticassituados(CordeiroeCurado,2017).Pensamos,
79
ainda, que uma boa formação em psicologia não é aquela que dá muitas respostas,masaque
ensina a formular boas perguntas. Uma formação que dá elementos para que as futuras
psicólogas e psicólogos possam construir possibilidades de resposta. Nesse sentido, o
compartilhamentodeexperiências,deestudosdecaso,derespostassituadas,ajudaaabriroleque
de opções e de ferramentas que podemos adaptar às situações específicas enfrentadas pelas/os
profissionais.
Pensaraformaçãodestemodoimplica,entreoutrascoisas,colocaremquestãoolugardo
saber-poder ocupado pela Psicologia – “o lugar da competência, do
conhecimento/reconhecimento, da verdade, dos modelos, da autoridade,dodiscernimento,da
legitimidade e adequação de certos modos de ser” (Coimbra e Leitão, 2003, p. 8). Em uma
sociedadequetransformaonão-saberemfaltaoudesvio,assumiressaposturaimplicaodesafio
de transformar nossa ausência de respostas em potência de (cri)ação, sem que isso implique
desqualificação ou silenciamento.
Escutamos, também, com frequência, a crítica à ausência de disciplinas específicasnos
cursos de psicologia, como, por exemplo, daquelas que enfocam a políticadeassistênciasocial
(Cordeiro e Curado, 2017). Os resultados da pesquisa dedoutoradodeRenataSouza(2018)
corroboramcomosrelatosobtidosemconversascominterlocutoreseinterlocutorasemdiversas
ocasiões ao longo denossaspesquisaseatuações.Aoanalisarcurrículosdecursosdepsicologia
dascincoregiõesdopaís,aautoraencontrouapenastrêscursoscomdisciplinascomesseescopo,
sendo todas optativas. Mais numerosos foram os cursos que possuíam disciplinas mais gerais
sobre políticas públicas ou que abordavam áreasdoconhecimentoquecontribuem,aindaque
indiretamente, para pensar a atuação no SUAS, como Psicologia Comunitária, Antropologia,
Sociologia, Filosofia, Saúde Pública, Saúde Mental, entre outras.
A presença dessasdisciplinasnoscursosdegraduaçãoemPsicologiavaiaoencontrodo
quedeterminamasdiretrizescurricularesdoMinistériodaEducação(2023).Noseuartigo2º,o
documentoelencaentreosvalores,princípiosecompromissosdetaiscursoso“reconhecimento
da importância das políticas públicas para assegurar o acesso da população aos serviços da
Psicologia e promover os direitos sociais, em articulação com os avanços no campo do
80
conhecimentocientíficoetecnológico”(Brasil.MinistériodaEducação,2023,p.2).Noartigo5º,
afirma que entre eixos estruturantes desses cursos devem estar
ráticasprofissionaisqueasseguremumnúcleobásicodecompetênciasquepermitam
p
aatuaçãoprofissionaleainserçãodoegressoemdiferentescontextosinstitucionaise
sociais, bem como a participação nas diversas políticas públicas, visando ao
fortalecimento de ações multiprofissionais em uma perspectiva interdisciplinar.
(Brasil. Ministério da Educação, 2023, p.2)
o conjuntodecompetênciasbásicasdeveassegurarapossibilidadedeprestação
de serviços psicológicos à sociedade em diferentes domínios, atendendo as
demandassociaisconcretasemcontextosdetrabalhonosquaisopsicólogose
insere (saúde, educação, organizações, trabalho, comunidades, movimentos
sociais, esporte, justiça, entre outros), quer no setor privado, noâmbitodas
políticas públicas, ou no terceiro setor, intervindo nos níveis individual,
grupal, organizacional e social. (Brasil. Ministério da Educação, 2023, p.3)
Adespeitodessasdiretrizes,muitas/osdaspsicólogasepsicólogosqueentrevistamosnos
últimos anos afirmaramquenãotiveramnenhumadisciplinaespecíficasobrepolíticaspúblicas
em seus cursos de graduação (Cordeiro e Curado, 2017).Eentreas/osquetiveram,muitas/os
afirmaram que o foco recaía na política de Saúde, abordando de forma muito superficial –
quando abordava – a atuação no Sistema Único de Assistência Social (SUAS).
Esses relatos nos levam a outra série de questões: Será que para formar uma/m
profissional capacitada/o para atuar no SUAS é preciso oferecer disciplinas específicas sobre a
atuação no campo socioassistencial, ou basta discutir políticas públicas de forma mais ampla?
Será que,aosepararasdisciplinasdeacordocomcadaáreadeatuação,nãocorremosoriscode
oferecermos uma formação fragmentada e desarticulada? Como fugir de especialismos e, ao
mesmo tempo, abarcar as especificidades de cada campo de atuação?
A discussão sobre especialismos nos remete a outra ideia: a da interdisciplinaridade.
Afinal, além de prescritiva, nogeral,aformaçãoemPsicologiaédisciplinar.Oqueéquaseum
contrassenso, já que o trabalho de psicólogas e psicólogos sociais é, com frequência,
interdisciplinar–sobretudonocampodaspolíticaspúblicasedosmovimentossociais,masnão
81
apenas. Surge então a pergunta: como desenvolver um trabalho interdisciplinar se temos uma
formação disciplinar? Se nossos currículos são compostospordisciplinasque,emgeral,pouco
conversamentresi?Queconteúdos,habilidadesereflexõestemosdetrabalharcomnossasalunas
e alunos a fim de superar uma abordagem tecnicista? Será que é possível pensarmos em um
currículo de curso de graduação em Psicologia formado não por disciplinas, mas por
interdisciplinas? Ou por indisciplinas? Se sim, como seria isso?
ParaMariaLúciaAfonso,MarcosVieira-Silva,FláviaAbade,TatianeAbranteseFabiana
Fadul (2012), seria uma formação que capacite as/os estudantes de Psicologiaparanãoapenas
conciliarpesquisasemétodos,masconstruirnovasformasdeinterpretaredeoperarnomundo.
Para as autoras/es, como a formação acadêmica ainda é muito focalizada em disciplinas, a
obrigatoriedade de desenvolver um trabalho interdisciplinar tende agerartensões,dificuldades
de articulação e disputas entre os saberes. Poroutrolado,essaobrigatoriedadepossibilita“que
novos saberes e práticas resultem da empreitada” (Afonso etal.,2012,p.196).Umaformação
maisinterdisciplinarofereceriaelementosparafacilitaresseprocesso.Pensamosquetalformação
contribuiria, ainda, para que deixássemos de focar tanto no debate sobre quem faz o quê e
passássemos a discutir mais atentamente sobre o que tem que ser feito. O trabalho orientado
pelas tarefas edesafioscoletivos,areflexãoconjuntasobreosobjetivoseotrabalhocooperativo
da equipe para alcançá-los, tudo isso envolvendo na medida do possível usuários e público
atendido, tenderiam a orientar o processo de reflexão e ação nos distintos casos e experiências.
Feitas essas reflexões iniciais sobre formação, passamos às perguntas sobre pesquisa.
4.2 Como tornar nossas pesquisas cada vez mais relevantes socialmente?
Podemos começar a responder essa questão afirmando que precisamos estar atentas e
atentos àsdemandasdosgruposecomunidadesquesebeneficiarãodenossaspesquisas.Masaí
surgem novas questões, que fazem pareceressarespostamenosfácil.Porexemplo,pesquisasde
áreasmaisteóricas–comofilosofia,matemática,f ísicaetc.–raramenteatendemdiretamenteàs
“demandas da população”. Sendo assim, elas seriam socialmente irrelevantes? Ou, ainda, se a
demandadeumacomunidadeperiféricadeSãoPauloéporpsicoterapianosmoldestradicionais
82
– talvez por ser essa a única forma de intervenção psicológica que conhecem – atender a essa
demanda significa,necessariamente,garantirarelevânciasocialdenossaspesquisas(Yamamoto,
2012)?
Uma forma possível de responder a esses questionamentos seria dizer que atender às
demandas da população é condição necessária, masnãosuficienteparaumapesquisarelevante
socialmente. Mas até que ponto podemos criar novas demandas? Além disso,seumaparteda
população almeja estudos que colaborem para manter relações autoritárias, violentas ou de
dominação(como,porexemplo,estudosquesustentemoencarceramentoemmassaouofimda
“ideologiadegênero”nasescolas),arelevânciadapesquisaestáematenderessademandaouem
problematizá-la e mostrarqueestáaserviçodadominação?Acreditamosquearespostaestána
segundaopção,masissonoslevaaumanovapergunta: quaisoslimitesqueseparamumaprática
emancipadora de uma intervenção autoritária, que impõe o conhecimento científico como
critério de verdade (Cordeiro, 2018)?
Umarespostapossívelseriaaimportânciadofazercom,deconstruirjuntamentecoma
comunidade de destino os objetivos e as propostasmetodológicasdenossasinvestigações.Mas
até que pontoasimetrianecessáriaaofazercomépossível?Setudoécoletivamenteproduzido,
porquesomosnós,pesquisadorasepesquisadores,queassinamosostextosproduzidosapartir
dessas experiências? O que significa autoria em uma abordagem participativa de pesquisa?
As nossas experiências de pesquisaspodemnosajudararefletirdeformamaisconcreta
sobreessestemas.Vamoscitaraquiumaexperiênciadepesquisadeumdosautoresdocapítulo.
Durante o pós-doutorado feito no IPUSP, em 2013-2014, ela desenvolveu uma pesquisa
participativa em um serviço de acolhimento do SUAS, chamado república jovem7. Sua ideia
inicial era usar técnicas e saberes da etnografia e acompanhar o cotidiano de trabalho de
psicólogas/os que atuam no chamado “terceiro setor”. Estava interessada em entender como
aquelas/es profissionais transformam a abstrata noção de compromisso social da profissão em
práticascotidianasdetrabalho.Noentanto,nasconversasiniciaiscomaequipedoserviço(que
7
RepúblicasJovenssãoserviçosdoSUASvoltadosaooferecimentodeproteção,apoioemoradiasubsidiadaajovens
e18a21anos“emestadodeabandono,situaçãodevulnerabilidadeeriscopessoalesocial,comvínculosfamiliares
d
rompidos ou extremamente fragilizados e sem condições de moradia e autossustentação.” (Brasil. Ministério do
Desenvolvimento Social e Combate à Fome, 2014, p. 51).
83
eracompostaporduaspsicólogaseumassistentesocial),umadasprimeirascoisasqueouviufoi:
“etnografia, aqui, não!”. Diziam que as/os jovens acolhidas/os já estavam demasiadamente
expostas/os.Asinformaçõessobreseuscotidianos,seusproblemas,seussonhosesuasestratégias
desobrevivênciaestampavamrelatóriosquepassavampormuitasmãos:dejuízes,degestoras/es
dapolíticadeassistênciasocial,dasupervisãotécnica,dadiretoriadaOrganizaçãodaSociedade
Civil (OSC) responsável pelo serviço etc. Além disso, a rotatividade de profissionais naquela
repúblicaeragrandeeapesquisadoraseriamaisumvínculotemporário.Alguémqueconviveria
com as/os jovens por um tempo e logo iria embora. Diante dessas preocupações (que
consideramosumtantolegítimas),decidiramconstruircoletivamenteumapropostadepesquisa.
Ao final, ficou acordado que a pesquisadora se reuniria semanalmente com a equipe para
conversarsobreoseutrabalhoequeoregistrodaquelasreuniõesserianãoapenasoseumaterial
depesquisa,mas,também,ummomento(hámuitotempodesejado)paraas/ostrabalhadoras/es
refletirem e discutirem sobre seu trabalho.
Como tudo tinha sido pensado coletivamente, a pesquisadora chamou a equipe do
serviço para assinar com ela o artigo eocapítulodelivroproduzidosapartirdessaexperiência
(Cordeiro,Thomaz,CarvalhoedoCarmo,2016;Cordeiro,ThomazeCarvalho,2018).Foiela
que sentou na frentedocomputadoreescreveuostextos.Masasduaspsicólogaseoassistente
socialestãopresentesemcadaumadesuaslinhas.Afinaldecontas,nãosãoapenassuashistórias
queestãoalicontadas,maselas(es)participaramdadiscussãodecadafrase,decadaparágrafo.Às
vezes, passavam uma reunião inteira discutindo uma única palavra.
Assinar os produtos de uma pesquisa juntamente com todas/os aquelas/es que dela
participaraméumposicionamentopolítico,quelevaàsúltimasinstânciasocaráterparticipativo
do fazer científico. Mas tal posicionamento tem uma série de implicações, algumas delas nem
sempredesejáveis.Aprimeiradelaséqueacoautoriaimplicaaimpossibilidadedeanonimato,o
quetornaimprescindívelescolhercomcuidadooquepodeserpublicizadoecomoissopodeser
feito (Brigagão, Cordeiro e Iñíguez, 2024). Se, por exemplo, a pesquisa é feitaemumlocalde
trabalho, não podemos tornar públicas as críticas que as(os) empregadas(os) fazem às(aos)
empregadoras(es)oucolegas,poisissopoderiaacarretaremumasériedesanções,conflitoseaté
mesmo demissões. Mas, às vezes, é justamenteodebatesobreessasquestõesdelicadasagrande
84
contribuição da pesquisa. E um texto impedido de tecer críticas corre o riscodesetornarum
texto que se exime de se posicionar.
A coautoria também torna mais difícil a publicação. Quando terminaram o artigo,
tiveramdificuldadeparaencontrarumarevistaquepudessepublicá-lo,porqueeleparecianãose
encaixar em nenhuma das caixinhas pré-estabelecidas pelos periódicos. Ele era um relato de
pesquisaoudeexperiênciaprofissional?Paraapós-doutoranda,eradepesquisa,paraaequipedo
serviço, era de experiência profissional. Outra complicação está relacionada ao tempo de
publicação.Obviamente,todasessasnegociaçõesaumentamotempodepreparaçãodosartigos,
o que sem dúvida entra em conflito com as pressões para a publicação vividas nas avaliações
institucionais.
Mas voltando à questão “Como tornar nossas pesquisas cada vez mais relevantes
socialmente?”, há outroconjuntodequestõesimportanteparaodebate:oqueéumapesquisa
relevantesocialmente?Quemdefineoqueémaisoumenosrelevante?Apartirdequecritérios?
Como?
Pensamosqueoconstanteexercíciodereflexãosobreessasquestõeséfundamentalpara
garantirocaráteréticodenossaspesquisas.Afinal,éticanãoéummeroconjuntoderegrasque
temos que seguir, nemumpunhadodedocumentosqueincluímosnaPlataformaBrasil.Ética
tem relação com a constante reflexão sobre as escolhas que fazemos, pois essas são opções
políticasquepossuemefeitoderealidade(Mol,2002).Éticaestápresentenocompromissopelo
respeitoàdignidadehumana,pelocompromissonalutacontraasdiversasformasdeopressão,de
formaqueessecompromissotranspareçaemtodasasetapasdepesquisacomamáximacoerência
possível, desde a etapa de planejamento, definição de objetivos e métodos, até as diversas
possibilidades de devolutiva. Vários caminhos são possíveis nessa empreitada. Assim, nada é
relevante socialmente em si mesmo. A relevância de algo é fruto de escolhas. Escolhas que,
geralmente, não são de indivíduos, mas decoletivos. Escolhascomatravessamentoshistóricos,
culturais, políticos e filosóficos. É fundamental, portanto, refletirmos sobre o que temos
escolhidoincluirnoroldetemassocialmenterelevantes,bemcomosobrecomotemosfeitoessas
escolhas.
85
Muitas vezes, a relevância social de uma pesquisaédefinidaapartirdopúblicoporela
abordado. Como se estudar grupos em situação de pobreza, opressão, violência, humilhação
fossecondiçãonecessáriaparaqueoestudosejasocialmenterelevante.Semdúvida,estudaresses
gruposédesumaimportância,especialmentequandoconsideramosaherançaelitistaeocaráter
normalizador de nossa profissão. Mas isso não significa dizer que seja condição necessária8.
Tampouco significa dizer que há uma relação direta e inevitável entre o público estudado e a
relevância social de uma pesquisa – até mesmo porque, existem estudos quecontribuempara
manter, ao invés de minar, relações de opressão. Pensamos, assim, que a relevância pode ser
definida apartirdosefeitospossíveisdapesquisaedeumareflexão(éticaepolítica)sobrequão
desejáveis esses efeitos são para o modelo de sociedade que queremos. E, uma vez mais, tal
reflexão é uma tarefa coletiva. Afinal, o debate ético não passa unicamente por verificar se
determinada conduta obedece ou transgride uma norma, mas é algo coconstruído,negociado,
(re)significado por diferentes vozes (Cordeiro, Freitas, Conejo e Luiz, 2014).
No entanto, essa definição não deixa de ser, em alguma medida, problemática. Afinal,
não controlamos nem prevemos totalmente os efeitos e os usos de nossas pesquisas. Toda
publicação instaura uma arena política de reflexão e convoca diversos atores ao debate. Um
estudo sobre a precarização do SUAS, por exemplo, traz para o debate uma questão
fundamental. Chama atenção para o desinvestimento, para a “falta” de interesse político,para
condições de trabalho precárias... É fundamental falarmos sobre isso, e usarmos o arcabouço
teórico de que dispomos para denunciar e contribuir para transformar essa situação. Mas os
resultados dessa pesquisa podem ter outros usos,podemservirparafortalecerargumentosque
justificam o desmonte total da política de assistência social – na lógica do “já que tem tantos
problemas, já que não funciona como deveria, é melhor acabar de vez com ela”. Precisamos,
portanto, tentar prever esses riscos e, na medida do possível, evitar que o conhecimento que
produzimos se converta em ferramenta para a construção de mundos que não são por nós
desejáveis.
8
Odair Furtado (2000) propõe uma discussão semelhante ao falar sobre a frequente associação entre pobrezae
c ompromisso social da profissão. Para o autor, uma Psicologia comprometida não é, necessariamente, uma
Psicologia classista, voltada apenas para asclassespopulares.“Talcompromissorepresentaapenasqueprecisamos
rompercomumapsicologiaquetemsidoclassistadeumaoutraforma.Olhandoapenasparaumladodasociedade,
para os bem sucedidos, para o mercado, para quem pode pagar.” (Furtado, 2000, p. 228)
86
Consideramos, deste modo, que dizer que nossas pesquisas devam ser cada vez mais
relevantessocialmenteéumaquestãonãoapenascientífica,mastambémpolítica.Essaposiçãose
contrapõe à divisão entre ciência e tecnologia, defendida por autores e autoras da chamada
Psicologia Social “clássica”, como Aroldo Rodrigues (1985, 1989). Para ele,PsicologiaSocialé
uma ciência básica e, como tal, seu papel é produzir conhecimento científico. E, como toda
ciência, deve ser neutra e eximir-se deseposicionarpoliticamente.Oautordefendeque,assim
como fisiólogos nãocuramdoentes,ouf ísicosnãoconstroempontesecasas,psicólogossociais
não são os responsáveis pormudararealidadesocial.Seupapeléodeproduzirconhecimento,
sendo queaaplicaçãodesseconhecimentoearesoluçãodeproblemasconcretossãotarefasdos
tecnólogos sociais. Diferentemente de Rodrigues, não pensamos produção deconhecimentoe
intervenção como coisas totalmente separadas. Tampouco achamos que delegar a
responsabilidadederefletirsobreosusosqueserãofeitosdoconhecimentoqueproduzimosna
academia seja uma tarefa exclusiva de quem atua na ponta.
Mas para não alongar muito essa discussão, passamos agora às próximas perguntas
colocadas pela comissão organizadora do simpósio que originou este livro: Como desenvolver
metodologias que instiguem a sociedade e osprópriosparticipantesapensarostemassobreos
quaisnosdebruçamos?Equaisinstrumentos,práticasemodelosdepesquisavêmcontribuindo
para dar visibilidadeàsquestõesqueinvademavidadaspopulaçõesmarginalizadas,bemcomo
para refletir sobre as questões que envolvem o cotidianodaspopulaçõesestudadas?Comosão
perguntascomplementares,vamosabordá-lasdeformaarticulada. Elasjáindicamquedevemos
pensar como um único processo o surgimento de nossas perguntasdepesquisaeasformasde
devolução. Nesse ponto, não temos como deixar de mencionar as articulações entre pesquisa,
extensão e ensino, entendidas como dimensões que se complementam e interpenetram na
atividade acadêmica.
Para responder às perguntas supracitadas, vamos recorrer à algumas experiências de
pesquisa mais atuais dos autores. Desde 2021, uma das autoras deste capítulo coordena um
87
estudosobreahistóriadaPsicologianaAssistênciaSocial.Essapesquisasurgiudeumincômodo:
nesses anos todos estudando essa política pública, ela ouviu inúmeras vezes – tanto de
profissionais quanto de pesquisadoras/es da área as frases “a psicologia caiu de paraquedas na
assistênciasocial”e“aatuaçãodapsicologianaassistênciasocialérecente”.Aomesmotempoem
que ouvia essas frases, conhecia uma sériedepsicólogas –quemuitasvezesseautointitulamas
“dinossauras” da política – que atuavam, há décadas, em comunidades, instituições de
acolhimento, serviços voltados à inclusão de pessoascomdeficiência,acriançasemsituaçãode
violência etc. Ou seja, estavam inseridas há muitos anos em serviçosque,hoje,fazempartedo
SUAS. A atuação nesse campo não lhe parecia recente e achava muito estranha aideiadeque
uma profissão poderia cair de paraquedas em algum lugar.
Éclaroque,comaimplementaçãodoSUAS,apartirde2005,onúmerodepsicólogase
psicólogos atuando na assistência social aumentou enormemente, principalmente, em função
das normativas da política incluírem essa categoria nas equipes de referência de praticamente
todososserviçosdaredesocioassistencial.Masissonãofazcomqueessasejaumaáreadeatuação
recente. Isso motivou uma pesquisa que contribuísse para colocar em questão essa suposta
novidadeouacaso,aodarvisibilidadeanarrativasdepsicólogasqueatuaramnaassistênciasocial
antes do SUAS existirouqueparticiparamdaconstruçãodaatualpolíticadeassistênciasocial,
principalmente, por meio do nosso conselho de classe e das instâncias de controle social
(Cordeiro, Lisboa, Lara, e Pereira, 2022).
Mas a equipe do projeto queria que esse debate saísse dos muros da universidade.
Consideravaqueessaéumadiscussãoqueinteressaàacademia,masquetambémpode(edeve)
chegaràseaosprofissionaisqueatuamnapontadapolíticaereproduzemdiscursosquenegam
toda a história de nossaprofissãonestecampo.Pensavaqueressignificaropassadocontribuiria
para repensar o presente e replanejar o futuro. Mas, com esse desejo, surgiram uma série de
questõesreferentesacomoborrarasfronteirasdauniversidade.Aspesquisadorasenvolvidasno
estudo sabiam que artigos – apesar de serem importantes – têm pouca capilaridade fora das
universidades. Propuseram, então, fazer um vídeo-documentário com trechos dasentrevistase
publicar as entrevistas na íntegra em um livro digital em acesso aberto.
88
Ointeressepelahistóriacontadaapartirdenarrativasdequemvivenciouopassadotem
nos levado à leituras do campo da história oral e a vontade de produzir materiais com maior
capacidade de circulação tem nos aproximado das discussões da história pública. Tal
aproximaçãotemnosajudadoapensaralgumasestratégiasparatornarmaisporosososmurosda
academia.
Para Juniele Almeida e Marta Rovai (2013),
f azerhistóriapúblicanãoésóensinaredivulgarcertoconhecimento.Pressupõeuma
pluralidade de disciplinas e integração de recursos diversos.Éumnovocaminhode
conhecimentoeprática,decomosefazerhistória,nãosópensandonapreservaçãoda
cultura material, mas em como colaborar para a reflexão da comunidade sobre sua
própriahistória,arelaçãoentrepassadoepresente.Enfim,comotornaropassadoútil
para o presente. (Almeida e Rovai, 2013, p. 8)
Paraasautoras,portanto,apropostadahistóriapúblicanãoéapenasfazerumtrabalho
de divulgação científica. Tem mais a ver com um projeto político, que visa colaborar para a
reflexão da comunidade sobre sua própria história.
Achamos essa proposta bastante interessante e pensamosqueelatrazalgunselementos
quenosajudamarefletirsobreasquestõespropostasparaestelivro.Aprimeiradelasé:seráque
arelevânciasocialdepesquisasdocampodapsicologiasocialtambémnãopodeestarnessabusca
por colaborar para que a comunidade reflita sobre sua própria história (e, aqui, poderíamos
incluir, sobre seu presente e sobre seu futuro)?
Se considerarmos que sim, será que a pergunta central é: “Como desenvolver
metodologias que instiguem a sociedade e osprópriosparticipantesapensarostemassobreos
quaisnosdebruçamos?”.Oué“comonosdebruçarmossobretemasqueinstigamasociedadee
os participantes?”.
Poderíamos, também, nos perguntar: oqueseriaumaPsicologiaSocialPública?Aque
público serviria?Quaisseriamsuasestratégiasdeproduçãoecirculaçãodeconhecimento?Não
temos respostas a todas essas perguntas, nem sabemos se seria desejável adicionar o adjetivo
públicoaoquefazemos.Masconsideramosqueessedebatenosconvocaapensarnãoapenasem
como falamos sobre o que fazemos dentro dos muros da universidade. Mas ele chama nossa
89
atençãoparaofatodeque,sequeremosborrarfronteiras,precisamosnosreinventar,recorrera
novos recursos, a outras linguagens.
Paralelo a esse projeto de pesquisa, podemos mencionar um projeto de extensão que
também tem buscado a publicização do que fazemos na academia. Esse projeto envolveu a
criação de um site, chamado Portal Psicologia na Assistência Social9, que tem como intuito
facilitaroacessoaosdiferentesmateriaisquevêmsendoproduzidossobreotema(comoartigos,
livros, capítulos, normativas, referências técnicas, materiais audiovisuais, redes sociais etc.)
Sempre que possível, colocamos os links para que as pessoas possam acessar os materiais e,
quando não estão disponíveis online, colocamos as referências. Além de criar uma espécie de
biblioteca temática, estamos começando a produzir alguns conteúdos e a pensar formas de
divulgação da produção sobre o tema nas redes sociais digitais. Estamos, por exemplo,
produzindo bibliografias comentadas. Para isso, pedimos que especialistas em determinados
temas indiquem cinco a dez textos que ajudem leitoras/es iniciantes a se aproximarem do
assunto, comentando suas indicações.
Temostambémgravadopodcastscomentrevistas,comautoraseautoresdaárea,alémde
pequenos vídeos que divulgamos periodicamente no Instagram10, nos quais damos dicas de
leitura, divulgamos eventos ou acontecimentos relevantes sobre o tema. Esse ramo do projeto
surgiuapartirdeideiasdosalunosealunasenvolvidas/os,queestãomuitomaisantenadas/osnas
linguagens não acadêmicas que interessam a estudantes e jovens profissionais.
A execução desses projetos – tanto da pesquisa quanto do Portal – tem sido uma
experiência de muito aprendizado. Ela não apenas busca contribuir para a formação de
profissionais eestudantesdePsicologiadeforadaUSP,comotemsidoumespaçodeformação
de nossos estudantes, tanto de graduação quanto de pós-graduação. Mas exigecertaestrutura.
No caso da pesquisa, por exemplo, conseguimos uma bolsa para a contratação de umapessoa
formada em cinema para viabilizar a proposta11. A pesquisadora responsável pelo estudo não
dominaapartetécnicanecessáriaparaaproduçãodemateriaisaudiovisuaisejamaisconseguiria
9
O Portal Psicologia na Assistência Social pode seracessado em:[Link]
10
O perfil do Portal no Instagram pode ser acessado em
[Link]
11
Trata-sedeumabolsadeTreinamentoTécnicoconcedidapelaFundaçãodeAmparoàPesquisadoEstadodeSão
Paulo (Fapesp) à Karoline Ruiz, que além de graduada em cinema, é aluna do curso de Psicologia do IPUSP.
90
fazerumdocumentáriosozinha.Oprojetoconta,ainda,comtrêsdoutorandas/osdoPrograma
dePós-GraduaçãoemPsicologiaSocial12,queatuamcomovoluntários/asequetêmcontribuído
emváriasfrentes.JáoPortaltemumaequipemaior,compostaporvoluntárias/osebolsistasdo
ProgramaUnificadodeBolsas(PUB)daUSP.Aqui,também,asbolsasforamfundamentaispara
ampliar a equipe e permitir que o projeto acontecesse. Estes projetos citados revelam a
complexidade da articulação entre pesquisa, ensino e extensão, e apresentam o desafio de
pensá-los com um fluxo nos quais os três estão indissociados desde o início (talvez com
momentos onde um deles se destaca como em jogo de figura e fundo), e nunca como três
momentos estanques que posteriormente são encadeados.
Se,porumlado,projetoscomesseescopoprecisamdegente-e,paraquetenhamgente,
precisamdebolsasefinanciamento-,poroutro,vivemosemummomentodecortesdeverbae
desinvestimentoempesquisa.Ummomentoemqueainovação(geralmentetraduzidaemvalor
de mercado) vale mais do que a intervenção. Diante desse cenário, fica a questão: a quem
interessa borrar fronteiras das universidades?
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93
Capítulo5
Este texto apresenta e desenvolve algumas ideias apresentadas no seminário “Como
pensamos a formação em Psicologia Social, hoje?" (novembro de 2022), um dispositivo de
encontro e reflexãodoDepartamentodePsicologiaSocialedoTrabalho(PST)doInstitutode
Psicologia da USP que afirma o exercício coletivo e permanente de problematização do nosso
fazer. O seminário suscitou deslocamentos e abriu novas fronteiras para pensarmos-agirmos,
principalmente no desmonte das fragmentações entre ensino, pesquisa e extensão.
Umabrevecontextualizaçãosefazimportanteparasituarafala,agoranasuaformatexto:
a)naocasião,euhaviarecémingressadocomodocentenoPST,masvinhadeumlongotempode
docência na Psicologia da PUC-SP. No curso da PUC-SP, praticávamos uma experiência de
territorialização das práticas de estágio–articuladasàpesquisaeàextensão–juntoàsredesde
atenção àsaúdeedeatençãopsicossocial,noterritóriosanitáriodaFreguesiadoÓ/Brasilândia,
na Zona Norte da cidade de São Paulo. Assim, partedasreflexõessobreotemaquemecoube
desenvolver no evento – o estágio na formação profissional – se ancoramnestaexperiênciade
formação susista edepromoçãodoqueseconvencionouchamarde‘integraçãoensino-serviço’
(noção que melhorapresentaremosnoprimeiroitemdestetexto);b)aindavivíamos,em2022,
os efeitos do “cenário distópico” que se configurou especialmente desde 2016, com o
desfinanciamento das políticas sociais no Brasil e, mais agudamente,nosanosde2019a2022,
quando o governo federal elegeu a precarização da vidaedaspolíticassociaiscomopolíticade
governo,agudizandoapolíticaneoliberalefortalecendoposiçõesepráticascomprometidascom
a intolerância easviolências.OeventodoPSTaconteceunodiaseguinteàeleiçãopresidencial
de2022,imediatamenteapósavitóriadopresidenteLula,quandopudemosafirmarnovamente
94
odesejodesustentarapresençaeaaçãodauniversidadenosterritóriosecontextosdaspolíticas
públicas em sua potência de produção do comum. Comum no sentido de práxis instituinte,
como“práticadegovernodoscomunspeloscoletivosquelhesdãovida”,quandooscomunssão
igualmente a resultante do que se põe em comum (Dardot e Laval, 2017).
Partimosdealgumasideiasiniciaiscomodireçãoético-políticadoqueconcebemoscomo
prática de estágio, direção que ganha redobrada importância no enfrentamento dos efeitos de
dessolidarização, embrutecimento e precarização da vida vividos nestes últimos anos.
- adequeauniversidade,eespecialmenteauniversidadepública,éumatorestratégicona
construção compartilhada da cidadania em nosso país, por meio da sustentação das
políticaspúblicas,semprequesecoloquenaperspectivadademocratizaçãodosaberedo
diálogo fecundo com aqueles que protagonizam as políticas públicas. As políticas
públicas,quandosefazemcomenredamentocomapopulação,assegurandoadimensão
participativaedemocratizante(comcidadãosusuários,movimentossociais,profissionais
egestores)(cf.dispostonaConstituiçãoFederalBrasileirade1988)colocamnoprimeiro
plano a dimensão pública das políticas públicas.Compreendemosadimensãopública,
com Teixeira (2004), como a experiência concreta dos coletivosquepodemconferiràs
políticas uma permanente dinâmica de criação e singularização.
- a de que o encontro universidade - serviço público, universidade - movimento social,
universidade - territórios de vida, éumencontrodemútuainterferênciaeinvenção,de
interferênciacriadora;éumespaçodeproduçãoderelaçõesintercessoras(Deleuze,1992)
edeexpansão,maisdoquede“integração”ou“extensão”(Conceiçãoetal,2015).Ouso
da noção de intercessão aqui não apela exatamente ao conceito matemático de
intercessão (como mínimo denominadorcomum)masquerdestacaressemodode“vir
entre”, de produção de desvio, da abertura ao impensado, de engajamento da nossa
potência imaginária.
- a de que a extensão, enquanto lócus de produção de saberes e práticas articulados às
demandas da sociedade, nos possibilita assumir um lugar estratégico: de umausinade
inventividades sensíveis e de experimentação de tecnologias propositivas quetornamo
95
saberuniversitáriointimamenteconectadocomasociedadeemqueestáinserido.(Silva
Lisboa et al, 2022).
- a de que o estágio é um lugar que se inscreve no mais cotidiano dessa produção
intercessora. O estágio, como espaço privilegiado de formação profissional, éumlugar
vivo, protagônico, no sentido grego da palavra. Protagonista, como sabemos desde o
teatro,équemagoniza,quemestánumarelaçãodeincitaçãorecíproca,praticandouma
formadeconhecerencarnada,corporificada(Kastrup,1999),queguardaedisseminaas
cores, os vivos da ação. Certamente todos temos para contar, desde o nosso itinerário
formativo, a riqueza de alguma experiência de estágio e do seu traçado singular que
constróiumethosprofissionalqueacionaumamodificaçãodesi,umcertoprocessode
subjetivação.
É Jean Oury (1991) quem sugere, quando discute a formação no campo da saúde
mental,quemelhorseriafalarde“itineráriosdeformação”paraacentuarqueaformaçãopõeem
jogo uma transformação do sujeito que se engaja neste trabalho, pois aloucuranosconvocaa
estabelecer uma relação não tradicional, não formal e muito menos não hierarquizada com
nossas competências pessoais, sociais, cognitivas e operativas. Ou seja,paraoautor,otrabalho
com a loucura se sustenta menos num campo “especializado” de saberes, num conjunto de
técnicas ou de aprendizados teórico-metodológicos e mais numa rede de conversações, numa
tramasocialdeacolhimentodasingularidade,numapedagogiadaconvivência,noacionamento
da vida comunitária e de certas experiências do comum.
la [a loucura] nos faz trabalhar nossos saberes e fazeres para além de nossos
E
aprendizados estritamente profissionais,comoaquiloquemarcanossasvidas,nossas
trajetórias,nossosgostos,nossaspaixões...enfim,comoaquiloquenosfazestaraí,que
nosimplica.Comoaquiloquenospedepresença,quenospedequesejamossensíveis
ao que se passa no nível dos “encontros”. (Oury, 1991, p. 3)
Defato,aloucuraéumdoscamposdeexperiênciaquemaisnosensinousobreformação.
As experiências da reforma psiquiátrica e da desinstitucionalização do manicômio logo
perceberam que uma das formas de alterar a cultura manicomial estava na formação de
profissionaisqueprecisavamviverumoutromododepensar,sentireagiremrelaçãoàloucura.
96
Não há como alteraraculturamanicomialsemdessegregarosprópriosprofissionais(pormeio
das experiências de equipe e de reflexão sobre o próprio trabalho), sem desinstitucionalizaros
especialismos e a fragmentação de saberes e sem colocar em análise a relação dos profissionais
comseuobjetodetrabalho(Constantinoetal.,1994;Basaglia,2005;Guattari,1992).Istoé,sem
produzir novos sujeitos. Muito doquesustentamoshojenaPsicologia(enasaúdecoletiva)no
âmbito da formação deve muito às experiências de saúde mental no pós-guerra quando os
dispositivos e as tecnologias psialcançaramumaimpressionantetransformaçãoeaassunçãoda
radicalidadedesuapotênciainterventiva.DesdeofinaldaSegundaGuerra,otrabalhoemsaúde
mental pôs em questão as tradicionaisformasdetratareproduzirsaúde,comoosconsagrados
modelos da clínica (o modelo bipessoal deatendimentoeoparadigmadoença-cura)erompeu
principalmente com a segregação e o isolamento terapêutico como a via de aplacamento do
pathos da loucura. O trabalhocomaloucura,desdeentão,convocaumadiversidadedesaberes
paraumfazercoletivo;produzindoencontroseinterferênciasentrecamposantesseparados:arte
e clínica; clínica e política etc.
Pretendemosnestetextotrazeralgunselementosparapensaroestágiocomoumespaço
privilegiado da formação profissional e do exercício das fronteiras universidade/sociedade,
tomando como base a experiência susista daformaçãoemsaúdeedaintegraçãoensino-serviço
como um campo fértil para extrairmos pistas para pensarmos a formação.
AcriaçãoearegulamentaçãodoSUS(Brasil,1990),maisprecisamenteem1988einício
de 1990, mudaram radicalmente a estrutura e aorganizaçãodosserviçosdesaúdenoBrasil.A
institucionalização dos princípiosdauniversalidade,daintegralidadeedaequidade,bemcomo
das diretrizes operacionais baseadas na descentralização, regionalização, hierarquização e na
participaçãopopular(controlesocial),demandoudosprofissionaisdasaúdeumaformadeatuar
distinta, "calcada na ação intersetorial e no empoderamento (empowerment) da população"
(Haddad et al., 2010, p. 386).
97
A consolidação desses princípios passou e passa, necessariamente, pela mudança no
processodeformaçãodosprofissionais,enfrentandoatradiçãodeformaçãocalcadanumalógica
de cuidado predominantemente de caráter individualizado, fragmentado, centrado na
perspectiva médico-hospitalar e numa visão predominantemente biomédica do processo
saúde-doença - com pouco impacto na promoção de saúde e prevenção de doenças - e numa
forma de organização curricular centrada na transmissão de conhecimento, de forma
hierarquizada e verticalizada.
Como sinaliza Campos (2000), a instituição universitária, ainda que incentive a
abordagem interdisciplinar e, por conseguinte integral, tem, em sua estrutura, dispositivos
protetoresdasfronteirasqueinstitucionalizacadaespecialidadeeseusmodosdefuncionamento,
levando os cursos a atuarem, predominantemente, sob a perspectiva de seus núcleos de
formação.Visandomudaressecenário,oMinistériodaSaúde(MS)eoMinistériodaEducação
(MEC) têm implementado mais recentemente políticas de formação que privilegiam, dentre
outros aspectos, a integração ensino-serviço.
Como nos ensina Regina Marsiglia (2016)13, estas experiências tiveram uma longa
construção. No início doséculoXX,aspropostasdeformaçãodasprofissõesdaáreadasaúde,
mais especificamente no caso do desenvolvimento das competências exigidas pela prática
profissional, expunham os futuros profissionais a estágios e experiências, que, em geral, se
desenvolviamemclínicas–escolaouhospitaisdeensino.ApromulgaçãodasLeisdeDiretrizese
Bases da Educação Nacional pelo MinistériodaEducaçãoeCultura(MEC)nosanos1960no
Brasilpermitiuumapequenaflexibilizaçãodoscursos,comadefiniçãodeumcurrículomínimo
obrigatório para todos os cursos, e a possibilidade de cada unidade de ensino definir outras
disciplinas e experiências práticas que constituiriam o currículo pleno das escolas. Tal
flexibilização permitiu o desenvolvimento de algumas experiências que foramdenominadasde
“extramuros”: alguns estágios realizados fora das clínicas e hospitais de ensino, massemqueo
modelo curricular fosse modificado na sua essência.
13
ste trecho, com elementos importantes da história da formação profissional em saúde, acompanhadeforma
E
sintetizada parte da apresentação da professora Regina Marsiglia no livro sobre a experiência do Pró-Saúde na
PUC-SP (Vicentin et al, 2016).
98
Nos anos 1980, o Ministério da Saúde, com apoio da Organização Pan-Americana da
Saúde(OPAS)edaSecretariadeEnsinoSuperior(SESU)doMinistériodaEducaçãoeCultura,
apresentaramàsinstituiçõesdeensinosuperiordaáreadasaúdeoProjetodeIntegraçãoDocente
Assistencial (PIDA), na perspectiva de incentivar uma integração maior das faculdades com a
realidadeecomosserviçospúblicosdesaúdedaregiãoemqueseencontravaminseridas.Várias
experiências se desenvolveram no país, especialmente com a participação de universidades
federaiseestaduaiseuniversidadespúblicasnãoestatais.NocasodomunicípiodeSãoPaulo,a
experiência realizada naZonaNorte,envolvendoaPUC-SPeaFaculdadedeCiênciasMédicas
da Santa CasadeSãoPaulo(FCMSCSP),de1982a1994,suscitouapromoçãode:estágiosde
alunosemserviçosdesaúdedaregião,educaçãocontinuadaeatualizaçãodosprofissionaisdesses
serviços em cursos com a participação de professores das universidades envolvidas;
desenvolvimento de algumas pesquisas de iniciação científica de estudantesdessescursos,bem
como a orientação de pesquisas de profissionais desses serviços por docentes da universidade.
Essa experiência permitiu a vivência e reflexão conjunta de docentes e alunos desses
cursos de graduação sobre a formação de futuros profissionais, a capacitação detrabalhadores
dos serviços públicos, a definição de linhas e tipos de pesquisa e, especialmente, da extensão
universitária. Estas experiências trouxeram subsídios para as Leis de Diretrizes e Bases da
Educação Nacional n. 9.394, promulgada pelo MEC em 20 de dezembro de 1996, e para as
DiretrizesCurricularesNacionaisparaosCursosdeGraduaçãodasProfissõesdaÁreadaSaúde
(Brasil,2001),quecolocouempautaanecessidadedemudançascurricularesedaformulaçãode
outrosprogramasepolíticasnoâmbitodoSUS:éocasodoAprenderSUS,VerSUS,dosPólosde
Educação Permanente, e, posteriormente, das Comissões de Integração Ensino-Serviço e das
Residências Multiprofissionais.
Maisespecificamente,desdeacriaçãodaSecretariadeGestãodoTrabalhoedaEducação
na Saúde (SGTES), em 2003, o Ministério da Saúde investiu fortemente na formação dos
profissionaisqueatuamnoSUSenaaproximaçãoentreasinstituiçõesformadoraseosserviços
desaúde.Em2005,foicriadooProgramaNacionaldeReorientaçãoProfissionalparaaSaúde(o
Pró-Saúde), que visa “reordenar” a formação de recursos humanos por meiodaelaboraçãode
políticas de formação e desenvolvimento profissional na saúde (Brasil, 2005). A avaliação do
99
Pró-SaúdelevouàcriaçãodoProgramadeEducaçãopeloTrabalhoparaaSaúde(oPET-Saúde),
instituído em 2010 - inspirado no Programa de Educação Tutorial (PET), do Ministério da
Educação -, que visa fomentar a formação de grupos de aprendizagem tutorial em áreas
estratégicas para o SUS, caracterizando-se como instrumento para qualificação em serviço dos
profissionaisdasaúde,bemcomodeiniciaçãoaotrabalhoevivênciasdirigidosaosestudantesdas
graduações, de acordo com as necessidades do SUS (Brasil, 2010).
Estes dois programas são estratégias do Ministério da Saúde em parceria com o MEC
para induzir processos de transformação da formação profissional em saúde ativando uma
relação viva entre universidade e serviços de saúde, propondo a mudança de cenários de
aprendizagem, o engajamento dos profissionais de saúde nessa tarefa, de forma a disparar
mudanças curriculares como a da interprofissionalidade(entreasmuitasprofissõesdasaúde)e
umaexperiênciadeengajamentodesdeoprimeiroanodosestudantesdasaúdenessaformação.
Tais experiências se orientam pelos princípios da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e
extensão e visam a articulação ensino-serviço-comunidade na área da saúde (Trenche et al, 2014).
Com a implementação do Pró-Saúde e do PET-Saúde, a relação ensino, pesquisa e
extensãotornou-seaindamaisconcreta,poisoprogramaincentivouapesquisa(sobreaclínica,o
ensino e a aprendizagem, a gestão dos serviços da saúde, a interdisciplinaridade e
intersetorialidade, dentre outros temas), especialmente na modalidade pesquisa-ação,
fortalecendo a articulação entre graduação, pós-graduação e serviços de saúde (Haddad et al.,
2010).Alémdisso,oSUSapostouemprocessosdeproduçãodesaúdeacêntricos,istoé,sistemas
em redes conectando trabalhadores (equipes multiprofissionais), equipamentos de cuidado
(sistemaintersetorialdesaúde)emovimentossociais.Daíocoletivocomobaseoufundaçãodas
práticasdesaúde,acogestãocomomodooperantedosgruposenvolvidosnaproduçãodesaúde
eacontraçãodeautonomiacoletivacomodireçãometodológica.OSUSéassimnossapolíticade
intensaexperimentaçãodemocratizante14,eoSUS-EscolapensaoSUScomoespaçodeformação
e a formação como um elemento central da política de saúde.
14
Alutasocialporsaúdeedemocracialogrouproduziromaiorsistemauniversaldesaúdedomundo,umavezque
o Brasiléoúnicopaíscombasepopulacionalsuperioracemmilhõesdehabitantesafazertalescolha.Naturalmente,
não é fácil construirumsistemauniversaldesaúdenumpaísdedimensõescontinentaisemarcadoporrelevantes
diferenças regionais, sociais, econômicas, políticas e sanitárias.
100
Conforme apontam Ceccim e Feuerwerker (2004):
formação para a área da saúde deveria ter como objetivos a transformação das
A
práticas profissionais edaprópriaorganizaçãodotrabalhoeestruturar-seapartirda
problematização do processo de trabalho e sua capacidade de dar acolhimento e
cuidado às várias dimensõesenecessidadesemsaúdedaspessoas,doscoletivosedas
populações. (Ceccim e Feuerwerker, 2004, p. 43).
Daí a proposta de educação permanente no SUS (Brasil, 2003) como experimentação
permanentedemudançaseefeitospráticosnosserviçosepráticasdesaúde,porqueossujeitos
criam e recriam saberes sofisticados e necessários ao seu fazer. Merhy (2015)sublinha,ainda,
queosprocessosdetrabalhoemsaúdesãocamposdeproduçãodesaberemqueestãoemcena
redes de saberes formulados coletivamente. O mundo do trabalho sempre implica processos
formativos, necessários para a atualização da prática de um certo grupo de trabalhadores,
provocando a formação do próprio protagonista, individual e coletivo, aomesmotempoem
que opera a produção do cuidado, no caso da saúde. Mas, como alerta o autor, isso não é
obrigatoriamentetransparenteeóbvio.Aocontrário,éinteressantequepossamosnosdebruçar
intencionalmente sobre estas práticas e seus efeitos: “abrir um movimento que procure
reconhecer essesacontecimentos,tornando-osvisíveis,podeserumaboaapostaparamudaro
eixo dos processos de formação e de capacitação no campo da saúde” (Merhy, 2015, p. 8).
5.2 A experiência Pró-Saúde e do PET-Saúde na PUC-SP: um modo de
De 2008 a 2022, participei de uma experiência de formação em saúde derivada das
experiênciasdosPró-SaúdeedoPet-Saúde,queenvolveuoscursosdegraduaçãoemPsicologia,
Fonoaudiologia,FisioterapiaeServiçoSocialdaPUC-SPearededesaúdedoterritóriosanitário
daFreguesiadoÓ/BrasilândiaemdiferentesediçõesdosProgramas.Aexperiênciafoiformulada
tomando a territorialização como metodologia: articulando diferentes serviços, diferentes
estágios e formações e diferentes cursos de formação em saúde em uma ação articulada no
território por meio de eixos transversais de intervenção e de dispositivos de cogestão. A
101
experiência foi empreendida de forma cogestionária, articulando universidade e serviços no
planejamento, monitoramento e avaliação das atividades por meio de diferentes dispositivos
(comitê gestor da integração serviço-universidade, inserção dos estudantes e docentes nos
processosintersetoriaisederede,participaçãodosestudantesedocentesnasreuniõesdeserviçoe
equipes).Istoé,aexperiênciasefezcombasenofomentoàparticipaçãopreconizadopeloSUS.
Sinalizo aqui alguns efeitos da experiência que articulou pesquisa, extensão e ensino,
reconfigurandoepotencializandoolugardoestágio,tomandocomobaserelatóriosdeavaliação
da experiência (Trenche e Pupo, 2012; Vicentin, 2018).
Os programas fortaleceram os vínculos entre estagiários, docentes, equipes/gestores;
promoveram a inserção dos estudantes nas equipes, não como merosobservadores,mascomo
pessoas implicadas com a construção do SUS. Podemos dizer que a experiência deslocou os
estágios dos lugares de uso instrumental pelo serviço e/ou de suplência para o lugar de
corresponsabilidade na formação, e de valorização da percepção, iniciativa e contribuição
analítica e propositiva do estagiárioparaaconstruçãodesoluçõesconjuntascomasequipesde
saúde. A maior participação dos profissionais dos serviços de saúde nas atividades de ensino
(como preceptores nos programas PET, mas também como referência para os estagiários e
estudantesenvolvidosnasatividadesconjuntasdeformação),napreparaçãoediscussãodecasos,
situações,projetosenaanálisedosindicadoresdoterritório,permitiutantooacolhimentodesses
profissionais,aescutaediscussãodesituaçõesmaiscomplexasqueintervinhamnosprocessosde
trabalho, quanto a ampliação do vínculo com os estudantes, o desejo de compartilhar
conhecimentos,esclarecerdúvidas,planejarcomosestudantesasaçõesdepromoção,proteçãoe
recuperação da saúde, incluindo-os nas equipes e nas atividades desenvolvidas.
Com relação aos profissionais de saúde, observou-se que a experiência propiciou a) a
reflexão e a assunção da atitude comprometida com a formação de novas gerações de
profissionais;b)oreconhecimentodequeapresençadeestudantesnasatividadescotidianasde
trabalho pode ser oportunidade de compartilhamento de dúvidas, questionamentos,
necessidadesdeaprofundamentoconceitualparaodesenvolvimentodepráticasemdiálogocom
o apoio daacademia;c)apossibilidadedecomplexificaraspropostasdeintervenção,cuidadoe
integralidade na atenção à saúde; d) a oportunidade de sistematizar experiências para
102
compartilhamentodaproduçãodesaberessobreprocessosdetrabalhoemeventoscientíficosou
publicação.
Comrelaçãoaosdocentes,aexperiênciaoportunizou:a)aconvivênciacomestudantese
professores de outros cursos de outras áreas num trabalho conjunto de problematização
sistemáticadocuidadoemsaúdenoterritório;b)apossibilidadedeplanejamentodeatividades
comunsatodososcursosparaodesenvolvimentodeestratégiasdeparticipaçãonasequipes,de
produçãodaescutaqualificada,aconstruçãodevínculo,adesfragmentaçãodeatosdocuidado
em saúde, a compreensão ampliada de processos de adoecimento, de compartilhamento de
olharesedecisõesparaoencaminhamentosdeprojetosterapêuticos;c)apossibilidadedereflexão
e busca para o embasamento teórico-prático para a atuação dos estudantes junto às políticas
públicas de saúde (aleitamento materno, saúde da criança, adolescente, mulher, idoso, pessoa
com deficiência, saúde mental, álcool eoutrasdrogasentreoutras);d)acompreensãodequea
formação para o SUS requer projetospedagógicosquepossibilitemaosestudantesumtrânsito
queváalémdedisciplinasdesaúdeColetiva/Pública,demandandoincursãodessaformaçãoem
âmbitos de diversas natureza – teórico- conceitual, técnico-assistencial, político, jurídico,
sócio-cultural, para compreender as demandas da atuação profissional.
Em síntese, pudemos ainda observar:
- ganhos quantoàcontinuidade,processualidadeeintegraçãodasaçõesdesenvolvidasno
território produzindo crescentemente ações em colaboração universidade-serviços;
- ampliaçãodocontatodeestudanteseprofessorescomosprincípiosnorteadoresdoSUS,
produzindo maior complexidade e corresponsabilização no olhar para o
território/comunidade e para a saúde coletiva;
- ampliação da discussão destes temas na universidade (principalmente de pesquisas
produzidas a partir de demandas do território);
- mudançasmútuasnosprocessosdetrabalhoapartirdaparticipaçãodosprofissionaisdos
serviços de saúde nas atividades de ensino e dos docentes e estudantes nos serviços
- a ampliação de estratégias pedagógicas que superem a mera transmissão de
conhecimentos e considerem as especificidades de cada realidade;
- a maior compreensão da função do SUS como formador;
103
- aprovocaçãodenovasdemandasparaasdisciplinasapartirdaintroduçãodeestudantes
dosprimeirosanosdegraduação,compresençasistemáticaelongitudinalemcenáriosde
práticas do SUS, desencadeando críticas no modo de produzir a formação em saúde;
- a construção de coletivos entre docentes e discentes que pensam formaçãoemsaúdee
propõem mudanças curriculares de forma sistemática (na forma de um Fórum
permanente deformaçãoemsaúdenoâmbitodaFaculdadedeCiênciasHumanaseda
Saúde).
Os estágios são um campo estratégico da formação por se instalar no cotidiano do
estudanteeporinstalaroestudantenocotidianodaspráticasprofissionais,quandooscotidianos
são eles mesmos objetos de aprendizagem individual, coletiva e institucional (Ceccim, 2005,
p.163), compondo o“trabalhovivoemato”,istoé,otrabalhohumanonoexatomomentoem
que é executado e que determina a produção do cuidado (Merhy, 2002). Tratam-se das
tecnologias leves15, a do trabalho relacional com os demais sujeitos, usuários e trabalhadores,
numa dimensão ético-política, que confere aos envolvidos a condição de produzir vínculos,
afetações e a produção de novos sujeitos.
‘trabalhoemsaúde’écentradono‘trabalhovivoemato’,àsemelhançadotrabalho
O
em educação; e a efetivação da‘tecnologialeve’do‘trabalhovivoemato’,nasaúde,
expressa-se como processo de produção de ‘relações intercessoras’ em uma de suas
dimensões-chave, o seu encontro com o usuário final, que ‘representa’, em última
instância, as necessidades de saúde, como sua intencionalidade, e, portanto, quem
pode, com seu interesse particular, ‘publicizar’ as distintas intencionalidades dos
vários outros agentes na cena do ‘trabalho em saúde’. (Merhy e Franco, 2009).
Nesta perspectiva, o estágio não é apenas o modo pelo qual a universidade coloca o
estudanteemrelaçãocomascrescentestransformaçõesnoâmbitodaspolíticaspúblicasoucom
15
Merhy(2002)distinguetrêstecnologiasemsaúde:asduras,ocomplexodeequipamentosdeserviços,máquinas
iagnósticas e de intervenção e sistemas de informações; a leve-dura que se refere à estruturação do processode
d
trabalho e às estratégias de ação; e a leve: o trabalho em ato e relacional com os demais sujeitos, usuários e
trabalhadores,numadimensãoético-políticaqueconfereaosenvolvidosacondiçãodeproduzirvínculos,afetaçõese
desejos de cuidado.
104
as diferentes dimensões de atuação profissional, assim como com o acumulado dessas
experiênciasemseusmúltiplossaberes-fazereseseusmodosdetransmissão.Eleétambémuma
forma de colocarmos em análise os modos como as teorias e as estratégias técnicas, nosso
saber-fazer, participa da produção dos próprios problemas que pretendemos abordar. E
tambémumlugarquenoslevaaforjaroutrosmodosdepensar-fazer;espaçodecriaçãodeuma
ecologia social, de novos sentidos e modos de existência.
Essa potência intercessora ganha maior envergadura quando se articula com ações de
extensão e de pesquisa e quando se territorializa porque, nesse processo de formação
compartilhada,auniversidadepodeampliarseupapeldeapoioàsequipesemseusprocessosde
trabalho, o que suscita a reinvenção e a ampliação de estratégias pedagógicas que superem a
mera transmissão de conhecimentos e considerem as especificidades de cada realidade e a
complexidade dos desafios do cotidiano da saúde.
Referências
105
de março de 2010. Institui o Programa de Educação pelo Trabalho para a Saúde (PET-Saúde)
3
e dá outras providências. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2010.
ARDOT, P.; LAVAL, C.Comum: ensaio sobre a revoluçãono século XXI. São Paulo:
D
Boitempo, 2017.
ADDAD, A. E. et al.. Formação de profissionais de saúde no Brasil: uma análise no período de
H
1991 a 2008.Revista de Saúde Pública, v. 44, n. 3,p. 383–393, jun. 2010. Disponível em:
[Link]
106
URY, J. Itinerários de formação. Tradução de J. I. Goldberg.Revue Pratique, [S. l.], n. 1, p.
O
42-50, 1991. Disponível em:
[Link]
RENCHE, M. C. B.; PUPO, A. C.Relatório final doProSaúde II. São Paulo: PUC-SP;
T
Supervisão Técnica de Saúde Freguesia do Ó/Brasilândia, 2012. Relatório não publicado.
107
Capítulo6
Este artigo traz notas e reflexões sobre a dimensão ético-política do pensar e fazer
Psicologia Social, no entendimento de que ela é uma Psicologia Política.
É importante começar dizendo que este texto está inseridoemumaproduçãocoletiva,
viva, retratada nesta coletânea de artigos de colegas do Departamento de Psicologia Social e
Trabalho, do Instituto Psicologia, USP. Necessário, ainda, fazer menção ao seminário que
antecedeu e sustentou esta coletânea, realizado para pensar o currículo e a formação em
Psicologia Social e do Trabalho.
A pergunta que motivou esta produção coletiva (grupo de docentes, pesquisadores,
estudantes, profissionais) foi: Que Psicologia Social queremos (formar e praticar) na atualidade?
Provocados por esta pergunta, procuramos neste texto caracterizar a Psicologia Social
como uma Psicologia Política (Martín-Baró, 1982, 1989), entendendo também que há, como
sabemos, diferentes formas de pensar e fazer política (Lukács, 2003).
Diantedacomplexidadequeotemasuscita(arelaçãoentrefazerPsicologiaePolítica),é
importante refinar aquilo que queremos e não queremos: não é interesse apresentar todas as
formulações teórico-filosóficas sobre o conceito de Política, tampouco, trazer as mais diversas
compreensões que existem a respeito do fazer e pensar politicamente a Psicologia.
Também deve estar claro que não é intenção pensar a inserção ou o desdobramento
formaldeumaáreasobreaoutra,tampouco,dedisciplinarizaraPsicologiaSocialnaPsicologia
Política16 (assim nos afastamos de polêmicas que demandariam um longo tempo e espaço de
exposição).
16
Para um debate interessante sobre esta questão, consultar Sandoval (1997).
108
Martín-Baró(2013)-que,porsinal,consideraaPsicologiaPolíticacomoum“ramo”da
Psicologia-apresentarazõeshistóricasparaoavançodestaárea,queconsideracomoderivadada
Psicologia Social. Em um texto publicado pela primeira vez em 1991, o autor diz o seguinte:
O objetivo deste texto, usando as próprias palavras de Ignácio Martín-Baró (2013), é
“examinar o que pode ser chamado de política da psicologia, isto é, tudo aquilo que, na
psicologia e no trabalho dos psicólogos, está determinado por interesses sociopolíticos ou
contribua para articular esses interesses na práxis social” (Martín-Baró, 2013, p.577).
Podemos chamar este manuscrito de “notas e reflexões”, ou de um “ensaio”, sobre o
sentido ético-político do pensarefazerPsicologiaSocialesobreosdesdobramentospráticosde
determinadosmodelosteóricosemetodológicospresentes,demaneirageral,naPsicologiaSocial
moderna.
A compreensão da Psicologia Social como uma Psicologia Política é algo, obviamente,
que não inventamos. Este é um tema discorrido longamente, por exemplo, por autores que
destacaram o sentido ético-político de resistência ao fazer não hegemônicodaPsicologia(Farr,
2006; Martín-Baró, 1982; Burton e Guzzo, 2020).
AquestãodaresistênciaedacaracterizaçãodeumaPsicologiadominante,trazumdebate
sobre a necessidade de consolidar um outro modelo ético-político para a ciência e a profissão
psicológica. A este respeito, Martín-Baró (1998) afirma:
“ (...) la Psicologia Social (la ciência) puede (axiologicamente, debe) contribuir a
esclarecerlaconsciênciacolectiva,adesmantelareldiscursoideológicoqueencubrela
violencia, a desenmascarar los interesses de classe que se esconden tras a mentira
institucionalizada (Martín-Baró, 1998, p.41).
109
Esta afirmação está sustentada em uma concepção de ciência e sociedade, guiada por
alguns princípios ético-políticos, por exemplo: superação do positivismo e da suposta
neutralidade científica (Burton e Guzzo, 2020), compreensão da natureza socialehistóricado
objeto da Psicologia (Farr, 2006; Martín-Baró, 1982) e reconhecimento de que, no
entrelaçamento das demandas da sociedade com o desenvolvimento da ciência e profissão
criou-se,historicamente,ummodohegemônico(político,declasse)depensarefazerPsicologia
(Parker, 2014).
Tomar estes princípios de maneira simplista, contudo, pode ser bastante perigoso.
A complexidade da matéria começa pelo próprio conceito de Política. É verdade que
poderíamos“resolver”estedesafioconceitualadotandoateseclássica-emuitoconveniente-da
políticacomoresultadodeumacondiçãohumana(Aristóteles).Mas,pelaóticadomaterialismo
histórico e dialético, esta tese soa insuficiente por identificar uma essência humana fora da
história (Lessa, 1992; Tonet, 2005).
Outra complexidade que se coloca no enquadramento da Psicologia Social como uma
PsicologiaPolíticaéreduzirofazercientíficoàpolítica.Ciênciaepolíticanãosão(ounãopodem
ser)amesmacoisa(Tonet,2005)-poroutrolado,estáclaroafragilidadedatese,agarradacom
todasasforçaspelopositivismo,daneutralidadecientífica.Oqueháéumainflexãodialéticade
unidade entre ideologia e produção de conhecimento (Lukács, 2003; 2010; 2020).
O debate entre ciência e ideologia também não é novidade.Independentedoconceito
marxistadeideologiadoqualpartimos,diversosautoresdestecampo,comoLukács(2003;2010;
2020) e tantos outros de diferentes perspectivas críticas (como o próprio Martín-Baró) já nos
alertaram que, contraditoriamente, política não é ciência, mas, ambos, se confundem facilmente.
Para que possamos compreender melhor esta inflexão dialética, permitam-me retomar
brevementeopensamentodeLukács(2010)sobrearelaçãoentreciênciaeideologia.Poisbem,
em primeiro lugar, a compreensão do filósofo húngaro, partindo de Marx, é de que o
desenvolvimento histórico da humanidade foi fundado pelo trabalho (sendo o trabalho a
atividade humana de transformação da natureza) (Lukács, 2003; 2010).
110
Desenvolve-se, a partir do trabalho, não apenas objeto, mas a linguagem, a cultura, a
dimensão simbólica etc. O ser social se desenvolve e interage em diferentes complexos sociais,
como quer Lukács (2010) e, tal como ressalta Lara (2015):
a Ontologia de Lukács (2010), os complexos de problemas mais importantes –
N
enquanto categorias teórico-filosóficas – são compostos pelo trabalho, que é o
princípiodegênesedosersocial.Este,noconfrontocomarealidade,desenvolvesua
atividadenaconstanteobjetivaçãodiantedomundoinorgânicoedavidaorgânica.A
reprodução social éoespaçoeconômico,políticoeculturalderealizaçãodaatividade
humana,emqueoindivíduoeogênerohumanoestãoempermanenteinter-relaçãoe
conflito. A ideologia, como momento ideal e práxishumana,orientaoshomensno
enfrentamento dos conflitos sociais queseapresentamnavidacotidiana,sendoque
esses conflitos se caracterizam, em alguns casos, como estranhamentos. Eles se
expressam,porexemplo,naslutasdaclassetrabalhadorapelaapropriaçãodoresultado
do seu trabalho, pelas melhores condições de trabalho, pela redução da jornada de
trabalho etc. Para além dos fatores objetivos da produção social, osestranhamentos
compõem areligiãocomocriaçãohumanadeumsonhoderedençãopossíveldiante
da incompreensão do sofrimento no mundo real; na manipulação do consumo
acelerado pela capitalização total (Lara, 2015, p. 272, itálicos do autor).
A ciência e a ideologia, para Lukács, portanto, representam complexos sociais, assim
como a arte e a filosofia.
A ciência, para o filósofo marxista, de maneira resumida, representa um processo de
conhecimento constante, histórico, resultante da práxis, da atividade humana em todas suas
expressões. Revela, por assim dizer, níveis de consciência sobre a realidade e os objetos
circundantes. (Chasin, 1995).
A Política, por sua vez, é uma forma específica de ideologia, assim como o Direito.
Novamente com Lara (2015):
direito nasce como necessidade de dirimir os conflitos que surgem na esfera
O
econômica, mas gradativamente torna-se uma esfera específica que compõe o
complexo jurídico, com suas mediações particulares operantes nas mais diversas
formas de reprodução social, emmuitoscasos,distantedaproduçãomaterial(...)A
política é uma esfera da vida social, “é um complexo universaldatotalidadesocial”
(LUKÁCS, 2010, p. 502), um complexo da práxis mediada direcionada para a
totalidade da sociedade, para mudança ou conservação do existente. No pôr
teleológicopolítico,asuarealizaçãoencontraascontradiçõessociaise,apartirdessas,
surgem novas exigências que modelam o caminho da ação. Por esse motivo,éuma
práxismediadacomasrelaçõessociaisesofrepermanentementenovasexigênciasem
seu processo (Lara, 2015, p. 284).
111
É claro, tanto para Marx, como para Lukács, que a ciência convive e atua entre os
complexos sociais, portanto, convive e atua também nocampodaideologia,istoé,dapolítica,
dos conflitos e interesses de grupos, de classes.
Oreconhecimentodestadeterminaçãoreflexivaentrecomplexossociais,nocaso,ciência
eideologia,éjustamenteoquemotivouacríticamarxianaesuapropostadeformular,porassim
dizer, uma teoria científica do capital para “uso” político contra o capital (Gorender, 2013).
Aí novamente entramos no tema delicado da relação entreciênciaepolítica.Sim,para
Marxépossívelfalardeum“uso”políticodaciência,tantoumusoinstrumentalcomoumuso
socialmente planificado (Chasin, 1995; Gorender, 2013).
Ousoinstrumentaldaciência,jápraticadopelaburguesia,erademasiadoconhecidopor
Marx e Engels (2007). Reside aí a crítica ao idealismo alemão, conhecida, justamente, como
Ideologia Alemã (Marx & Engels, 2007). IssovaletambémparaacríticamarxianaàEconomia
política e seu caráter ideológico de defesa da propriedadeprivadaedoindividualismoburguês
(Marx, 2008). Notem: tais críticas são ao mesmo tempo políticas, filosóficas e científicas.
Marx e Engels denunciaram o idealismo alemão e aeconomiapolíticanãoapenaspelo
projetodesociedadequesustentavam,mastambémpelafragilidadecientíficadestascorrentesde
pensamento.Estascorrentes,paraMarx(2008)eMarxeEngels(2007),produzemconhecimento
centrado na aparência do objeto. Na verdade, tratam o fenomênico comoessência,assim,não
conseguem compreender aquilo que não se vê imediatamente (Marx, 2013) de modo que se
mostram insuficientes como pensamento científico.
HáemMarxeEngelsumacríticaconsolidadaàlógicaformalsustentadapeloempirismo.
Esta crítica reside naincapacidadedestemodelodeciênciaidentificaratotalidadedoobjetode
estudo, o contraditório e o movimentodoreal,socialehistórico.Nestemodelo,nadavaialém
daquilodoquesemanifestaindependentementedaconsciênciadofilósofooudocientista.Mas
não só isso.
Marx e Engels identificaram um pensamentodeclasse,umaciênciaburguesaparcelada
emfatiasdeconhecimentoconvenientesaomercado,quenaturalizaapropriedadeprivadacomo
atributo essencialmente humano, que consente e propaga valores individualistas, adepta ao
reducionismo seja pela via do idealismo ou do mecanicismo. Portanto, uma concepção de
112
ciência,diríamosassimdemaneirasimplificada,politicamenteinviávelparaaclassetrabalhadora
(Chasin, 1995; Gorender, 2013).
Nestesentido,observamMarxeEngels(2007),nãosetratadeummeroerrodecálculo
científico: trata-se de uma apologia ao modo de vida burguês e à sociabilidade capitalista.
Aos olhos desta ciência (ou ideologia?), observa Marx (2008) na Crítica à Economia
Política,oserhumanoalémdenasceregoísta,nascetambémcomum“instinto”deproprietário.
Nossofilósofo,então,afirmaquenestaconcepçãodeciênciaedesociedade,“aformaburguesa
de trabalho [aparece] como a forma natural e eterna do trabalho social” (Marx, 2013, p. 88,
colchetes nossos).
Com efeito, como se sabe, Marx concluiu ser necessário desenvolver uma ciência
politicamente viável para a classe trabalhadora com todos os riscos interpretativos que isto
decorre, como, porexemplo,odenãoreconheceraimpossibilidadedeesgotaroconhecimento
sobre a realidade (Chasin, 1995; Lessa, 1992).
Éevidente,emMarx,queapropostanãoeraconstruirumateoriaqueexplicassetodosos
aspectos da vida social, ainda mais isolando estes aspectosdahistória.Ademais,convenhamos,
pensarumfazercientíficoemnomedeumprojetode“emancipaçãohumana”nãobastariapara
eliminar o uso instrumental da ciência, como é algoqueobservamos,inclusive,nointeriordo
próprio marxismo (Tonet, 2005; 2010).
Ofazercientíficoexigeconstanteatualização,pressupõeumahistoricizaçãopermanente
do objeto, um ajuste eterno de contas com o projeto político queosucede,umapreocupação
constantecomacristalizaçãodoconhecimento,comaadoçãodedogmaseformasirrefletidasde
consciência.
Dito isso, sem a intenção de esgotar o debate, continuamos com a preocupação em
esclarecer algumas questões elementares da relação sempretensaecontraditóriaentreciênciae
ideologia.
113
6.1 A Política e a Economia em Marx
Começamos pelo trabalho como categoria ontológica, pois é ele, segundo Marx, que
fundaoprópriosersocial(Marx,2013),sendocomum,portanto,atodaformadesociabilidade
humana. Dele nasce a linguagem e a consciência humanas. Ou, nas palavras de Marx, as
“capacidades intrinsicamente humanas” (Marx, 2004).
Nestaperspectiva,aEconomiaéoprimeirocomplexosocial,poisdiretamenteassociado
aoprocessodeproduçãodavidamaterial.Elarevela,justamente,asformasdeorganizaçãosocial
do trabalho, de distribuição da riqueza, de regulação das relações sociais de produção e
reprodução dos meios e modos de vida (Gorender, 2013; Lukács, 2010).
Assim que salário, preço, lucro, o processo de financeirização etc., são manifestações
imediatas de relações históricas que ordenam um determinado fazer econômico(Marx,2013).
Para Marx:
(...) da produção social da própria existência, os homens entram em relações
determinadas, necessárias, independentes de sua vontade (...). A totalidade dessas
relaçõesdeproduçãoconstituiaestruturaeconômicadasociedade,abaserealsobrea
qual se eleva uma superestrutura jurídica e política e à qual correspondem formas
sociais determinadas de consciência (Marx, 2013, p. 44).
Embora derivado do trabalho, é claro que a Economia atinge uma autonomia relativa
diantedele.Afinal,elaserelacionacomoutroscomplexossociais,comoaideologiaesuaforma
histórica,aPolítica,quenãosóalcançaumaautonomiafrenteaomundotrabalho,comopassaa
interferir decisivamente nele, regulando relações produtivas e de poder.
Em uma sociedade de classes, que estabelece determinadas relações econômicas, Marx
observaqueaPolíticavaimuitoalémdeumsimplesjogodeconvencimento.Políticaemgrande
medidaéforça,violência.Poroutrolado,tambéménecessárioreconhecerque,comacidadania
moderna, a burguesia teve de aperfeiçoar as lógicas de regulação social e persuasão, uma vez
sustentada a tese de igualdade jurídico-formal entre os cidadãos (Tonet, 2005; 2010).
114
Sim, política é convencimento, identidade, memória, mas, fundamentalmente, está
relacionado à luta pelo poder, que, no capitalismo, é uma luta travada, inalienavelmente, no
campo econômico.
Com esta afirmação, contudo, não queremos retornar à tese de que o ser humano é
político (ou econômico) por natureza.APolíticanascecomasociedadedeclasses,diferenteda
ideologia.
Nasociedadedeclasses,osinteresseseconômicostornam-setambéminteressespolíticos,
que, por sua vez, também passam a reger o próprio desenvolvimento econômico.Édarelação
econômica (que não é só econômica, mas, primeiramente,social,englobandoumconjuntode
complexos sociais) que nasce a Política e a própria ciência. Assim, nas palavras de Lukács, a
práticaeaciênciapolíticaseconformamnatotalidadeextensivadahistóriadosersocial(Lukács,
2010).
Nos trilhos desta compreensão, não podemos abandonar o trabalho como categoria
ontológica, como fio condutor do desenvolvimento histórico e social. O trabalho em Marx é,
antesdetudo,umaaçãohumanaemdireçãoàtransformaçãodoreal.Mas,trabalharnãoéuma
ação isolada, mas social. Não existe sociedade sem trabalho associado, mas este trabalho foi,
historicamente, alienado.
DestaconstataçãoéqueMarxeEngelschegamàconclusão(umaconclusãopolíticaque
determina a gênese do Materialismo Histórico e Dialético como filosofia e ciência) de que:
115
Lenin([1917]/2017)commaisoumenosestaspalavras:oEstadoemúltimainstânciaéapolícia
armada.
Evidente que a burguesia (ou parte dela) aprendeu, historicamente (com auxílio de
ilustres personagens, como a Psicologia (Farr, 2006; Martín-Baró, 1982; Paicheler-Harrous,
2018), que seria mais útil prescindir, sempre que necessário, da força e investir no
convencimento. Ora, em uma sociedade mais complexa, porém, também mais militarizada e
assombrada pela desigualdade social, as táticas de convencimento – ou, como chamamos, de
administraçãodaconsciênciapolítica–deveriamseraprimoradas(EuzébiosFilhoeGradellaJr.,
2020).
Nestaesteira,aciênciaburguesaatuanasduasvertentes:parafinsdoconvencimentoedo
usodaforça.Elasemostrou,aliás,fundamentalparareduzirousodaforçapeloconvencimento,
mas, também, sem ela não seria possível pensar no uso altamentetecnológicodeforçamilitar,
como assistimos, infelizmente, nas guerras e massacres atuais televisionados para todo o mundo.
Sabemos, por intermédio de excelentes análises sobre a gênese da Psicologia (por
exemplo, Paicheler-Harrous, 2018) e da própria Psicologia Social, em particular (Farr, 2006
Martín-Baró, 1982), que a ciência e profissão psicológica deram contribuições, inclusive, para
convencimentodousodeforçacontradeterminadosgrupos“desajustados”,“rebeldes”etc.,mas
também para se pensar táticas (diretas ou indiretas) de dominação e exploração do trabalho
(Martín-Baró, 1989; Martín-Baró, 2000).
Neste sentido preciso, a Psicologia Social nasce como Psicologia que faz Política. Não
apenas porque a Política, pela ideologia, invade complexos sociais como o campo científico
(Lukács,2010),mastambémporqueopróprioobjetodeestudodaPsicologiaénecessariamente
social e historicamente político (Martín-Baró, 1982).
Martín-Baró(1982)aindaquedemaneirabreve,formulouumaespéciedehistoriografia
da Psicologia Social moderna na qual identifica três modelos. Sãomodelosque,emborasejam
116
também teóricos e metodológicos, não se caracterizam apenas por um agrupamento de
“correntes” do pensamento psicológico. São modelos de Psicologia Política.
O texto de Martín-Baró (1982) aquenosreferimostemumtítulomuitosemelhanteà
perguntadisparadoradoseminárioquenosreferimosnocomeçodestetrabalho:Oqueestudaa
Psicologia Social?
Com esta pergunta, Martín-Baró estabelece dois critérios para demarcação de três
modelos distintos: as concepções do “Social” da Psicologia Social e os compromissos
ético-políticos dos projetos de ciência e profissão.
Daqui em diante, não será objetivo fazer um estudo aprofundado dos três modelos,
apenasapresentá-losrapidamente,semprelembrandoquearelaçãocontraditóriaentreciênciae
ideologia, da qual nos referimos anteriormente, é um fator que trazcomplexidadeàanálisede
modelos de Psicologia Social, ou seja, a intenção não é “fechar” modelos.
Mas, vamos, enfim, à descrição dos modelos. Para Martín-Baró, o primeiro modelo é
aquele guiado pela seguinte pergunta:o que mantémos membros de uma sociedade coesos?
Esse primeiro modelo refere-se ao pioneirismo da tradição da chamada Psicologia das
Massas. Nela, Martín-Baró inclui clássicos como Psicologia das multidões de Gustav Le Bon -
trabalho que influenciaria Freud e suas próprias contribuições à Psicologia das massas. Este
modelo conta, ainda, com Wundt e sua Psicologia dos povos (Völkerpsychologie)1 7
O fundamento deste modelo pode ser encontrado nas teorias clássicas da Ciência
política, de Weber, Hobbes e Maquiavel. Entre todas elas se encontram, com nuances, uma
concepção metafísica da natureza humana, que coloca na ganância e no egoísmo os males
17
É interesse observar que, devido nossa formação sofrer, em geral, influênciadasperspectivaspositivistasnorte
a mericanas, pouco se discute a dualidade do projeto Wundtiano entre a Psicologia individual e dos povos.Este
debateécobertodepolêmicasenecessitadeaprofundamentosquenãoteremosaquitempoeespaço.Noentanto,
valeregistrar,conformeAraújo(2019)trazemseuestudosobreolegadodeWundt:“(...)nãotermosatéhojeum
claro entendimento da obra de Wundt, especialmente de sua Psicologia como um todo. Embora seunomeseja
bastantecitadonosmanuaisintrodutóriosdePsicologia,oalcanceeaimportânciadeseuprojetopermanecemainda
desconhecidos por grande parte dos psicólogos atuais. E mesmo na literatura especializada, há uma carência de
estudos mais detalhados, que possam corrigir os inúmeros equívocos surgidos ao longo do século XX na
historiografia daPsicologia.Emváriasocasiões,Wundttemrecebidoumtratamentocaricatural-sendoretratado,
porexemplo,comorepresentantedoassociacionismobritânico,fundadordoestruturalismo(aoladodeTitchener)
e (...) defensor da introspecção tradicional” (Araújo, 2019, p.210).
117
“naturais” da sociedade, sendo eles remediados por um árbitro neutro, que está acima da
sociedade civil: o Estado (Martín-Baró, 1982).
É importante, contudo, lembrar que este modelo não sucumbiu ao positivismo, pelo
contrário: havia um interesse - contemplativo na maioria das vezes, é verdade - dedesenvolver
uma compreensão filosófica e científica do contágio das massas e do sofrimento vinculado à
adaptaçãodasnormassociais(Martín-Baró,1982).Havia,ainda,umapreocupaçãoontológicae
em certos personagens como Freud, por exemplo, um aspecto subversivo presente no
reconhecimentodasrestriçõescivilizatóriaseseuimpactosobreumaconsciênciaindividualeao
mesmo tempo social.
Seja como for, era um modelo que tinha claro o princípio de que toda a Psicologia é
social. Neste sentido, como afirma Araújo (2019)18, retomando o legado de Wundt, seria
“preciso resgatar a íntima relação que existe entre psicologia e filosofia na obra de Wundt”
(Araújo, 2019, p.3).
Diferentemente, o segundo modelo da Psicologia Social é caracterizado pelo
pragmatismo,foconosaspectosinstrumentaisdopensamentopsicológicoeempobrecimentodo
debate ontológico, deslocando a atenção para as necessidades práticas da sociedade
norte-americana. É denominado por Martín-Baró (1982) de americanização da Psicologia social.
O autor recorda que, naquele momento histórico (início do século XX), os EUA
colocavam-se como o baluarte do desenvolvimentoeconômicodocapitalismo.Assim,esperava
encontrar (e encontrou, de fato) aliados na Psicologia Social em duas tarefas políticas: para
encarceramentodos“desajustados”(nosistemacarcerárioeforadele,nosmanicômios)e,coma
nascente Psicologia industrial,paraatuarnosprocessosdeadaptaçãodotrabalhadoredomínio
18
ssim como Martín-Baró, o autor dá devida atenção ao fato de Wundt ter tido um projeto maior do que a
A
Psicologia laboratorial. Assim, logo, conclui:“Umacaracterísticafundamentaldessesprodutosmentaiséqueeles
pressupõem a existência deumacomunidadedemuitosindivíduosquecompartilhamcertamentalidade,embora
suafonteúltimasejamsempreascaracterísticaspsíquicasdecadaumdosindivíduos.Éporestaremligadosauma
comunidade, a um grupo étnico ou a uma totalidade culturalqueWundtchamouessedomíniodeinvestigação
psicológicadePsicologiadospovos(Völkerpsychologie),quecomplementaaPsicologiaindividualouexperimentalna
busca de uma compreensão das leis gerais da vida psíquica (Wundt, 1888b). Nos últimos 20 anos de sua vida
(1900-1920),Wundtdedicou-seprincipalmenteaesseempreendimento-baseando-sesempreemestudoserelatos
linguísticos, históricos e etnológicos - que teve como resultado dez extensos volumes, além de ensaios isolados”
(Araújo, 2019, p. 215-216).
118
do trabalho operacional (Paicheler-Harrous, 2018). Evidentemente que ambas as funções
tinham, como pano de fundo, a contribuição da Psicologia na propagação do estilo de vida
baseado no individualismo e consumismo (Parker, 2014).
Em um acelerado processo de industrialização, a Psicologia passou a ser convocada a
atuar,porexemplo-comoevidenciouDejours(1987)-,naesteiradoTaylorismo,mastambém
passou a desempenhar um papel na questão da imigração, da classificação de doenças, de
avaliação da periculosidade de certos setores da sociedade, entre outros (Martín-Baró, 1982).
Uma das características deste pensamento psicológico hegemônico era que ele estava a
serviço da produçãoindustrialdeinstrumentosdeavaliaçãopsicológica,auxiliando,sobretudo,
na classificação de doenças e fornecendo, aos sistemas de encarceramento, fundamentos
“científicos” para a loucura e a delinquência (Paicheler-Harrous, 2018).
Apreocupaçãoprincipalcomaproduçãoemlargaescaladeinstrumentosdeavaliaçãoda
personalidade,inteligência(Paicheler-Harrous,2018)eafins,assimcomométricasparaatuarno
manejo e condução de dinâmicas de grupo, eram as soluções psicológicas encontradas para
problemas estruturais da sociedade capitalista (Euzébios Filho e Gradella Jr., 2020; Farr, 2006).
No entanto, assim como em todos os modelos,haviatensõesquenãoserãoexploradas
nestetexto.BastamencionarqueadualidadePsicologiaindividualxsocialtambémsemanifesta
aqui.
Neste modelo, observa-se a passagem do predomínio de uma Psicologia Social ainda
muitoapegadaàfisiologiaeaoindivíduoisolado,presoàscondições“disposicionais”dosujeito,
paraumaquepassaaterinteressepelostemasrelacionadosaopiniãopúblicaecomportamento
político (Martín-Baró, 1982; Paicheler-Harrous, 2018), por exemplo.
Voltando o olhar para osgrupos,masnãoexatamenteparaascondiçõesestruturaisdos
grupos,o“social”destaPsicologiaSocialaparececomosomadeindivíduos–oqueficaevidente,
por exemplo, no estudo de conformidade social de Solomon Asch e tantos outros.
Emerge,então,nasfissurasdestemodelooexperimentalismodospequenosgrupos,com
destaque para as aplicações das técnicasedinâmicasdegrupocomKurtLewineMilgram,por
exemplo.
119
VamosvisitarrapidamenteaobradeKurtLewin,poiselailustracertasfissurasinternase
aomesmotempocaracterísticasdosegundomodelo,comhegemoniadopensamentopositivista,
voltando-se ao adaptacionismo (Pasqualini, Martín e Euzébios Filho, 2021).
Nãosemrazõeshistóricas(Pasqualini,MartíneEuzébiosFilho,2021),Lewinseencanta
com a sociedade norte-americana, considerada, então, um modelo de democracia, como ele
mesmo procuroudeixarclaroemProblemasdedinâmicadegrupo(Lewin,1995).Emumadas
edições desta conhecida obra, Gordon Allport escreve na introdução, referindo aos métodos
propostos por Lewin:
aisdoquequalqueroutropesquisador,conseguiueleadaptaraexperimentação–o
M
métodopreferidodepesquisacientífica–aproblemascomplexosdavidadogrupo.É
espantosa a sua engenhosidade. Problemas que poderiam parecer inteiramente
inacessíveis à experimentação renderam-se à sua investida (Allport, 1995, p. 9).
Emaisadiante,Allportcompletaafirmandoque“mesmoosnorte-americanos,apesarde
sua familiaridade intrínsecacomademocracia,precisampraticá-lacontinuamenteeaperfeiçoar
suas atividades de grupo” (Allport, 1995, p.11).
Assim,ficafácilobservaraausênciadedivergênciaspolíticasdefundoentreaspropostas
de Psicologia Social praticadas por Allport e Lewin. Em que pese as diferentes tonalidades
implícitas(e,comojádito,osmotivoshistóricosparasesuporqueasociedadenorte-americana
seriamaisdemocráticaemrelaçãoapaísesqueaderiramaonazismo),notamostrêscaracterísticas
comuns deste segundo modelo (dominante) de Psicologia Social: (1) o fetiche do
experimentalismo; (2) Psicologia voltada para o aperfeiçoamento da democracia a lá
norte-americana; (3) compreensão da sociedade como soma de indivíduos e grupos
(Martín-Baró, 1982).
Assim é que, para Martín-Baró, este modelo de Psicologia Social, dominante até hoje,
parte da perspectiva do dominador.
Lewin (e outros autoresclássicoscomoMeadeTajfel),emboranãosejamconsiderados
representantesclássicosdomodeloindividualista,nãoalcançamaradicalidadecientífico-política
proposta pelo terceiro modelo (Martín-Baró, 1982).
120
Finalmente, o terceiro momento da Psicologia Social é aquele que rompe com a
perspectiva contemplativa do primeiro modelo e com as concepções adaptacionistas e
individualistas do segundo modelo.
A preocupação, neste caso, está voltada para a seguinte questão: o que nos liberta da
ordem estabelecida?
Temos aqui, como indica a própria pergunta, uma ruptura com a perspectiva
contemplativa/especulativa da Psicologia das massas e com a falsa noção de neutralidade
científica.
Noplanoteórico,odenominadoterceiromodelocompreende(emcertamedidacomoo
primeiromodelo)arealidadecomosocial,mastambémhistóricaeemconstantemovimento.É
claro que neste amplo corpo teórico/prático se observam inúmeras divergências quanto à
caracterização das relações de poder, o “peso” da Economia, Política, Cultura, etc.
Estemodelocompreende(emcertamedida,comooprimeiromodelo),arealidadecomo
social,mastambémcomoPolítica.Importanteressaltar,entretanto,queháváriascompreensões
de Política, pois se trata de uma diversidade de perspectivas teóricas em que se observam
inúmeras divergências quanto à caracterização das relações de poder, o “peso” da Economia,
Política, Cultura etc.
Diferentes perspectivas, porém, com um elemento aglutinador: não apenas a
compreensão social e histórica do fenômeno psicológico (ainda que também com diferentes
noções dehistoricidade),mas,principalmente,oanticapitalismo(EuzébiosFilhoeGradellaJr.,
2020).
Por isso que, neste modelo, por exemplo, a Psicologia industrial (e sua derivação, a
Psicologia organizacional) ganha uma alternativa: a Psicologia Social do trabalho (Sato,
Bernardo,Oliveira,2008).Nestaesteira,comoexemplo,temosopensamentodeDejours(1987),
que parte, na sua Psicodinâmica do trabalho, do reconhecimento do trabalho alienado.
Deumamaneiraoudeoutra,oelementofundamentalqueuneasdiferentesperspectivas
críticas deste modelo é o reconhecimento de relações estruturais depoder,queserevelam,nas
palavras de Martín-Baró (1982), na elaboração de um modelo conflitivo de pensar e fazer
Psicologia Social.
121
Este modo, ainda segundo nosso autor, adota a perspectiva do dominado e valoriza a
práxiscientífico-política.Destemodo,Martín-Baróafirma,emrelaçãoaoqueeledenominoude
Psicologiadalibertação,queopontodepartidadofazercientíficoeprofissionaléarealidadedas
maiorias populares (Martín-Baró, 1982; 2013).
O “Social” no terceiro modelo é multideterminado, composto por três dimensões
(hierarquizadasdemodosdistintos):individualidade,gruposeestruturassociaishistoricamente
constituídas e atravessadas politicamente.OconceitodeRepresentaçõesSociaisdeMoscovicié
um ótimo exemplo desta articulação (Farr, 2006; Martín-Baró, 1982).
TemosemEcléaBosiumótimoexemplodaexpressãocomplexaecríticadesse“social”e
da forma como o terceiro modelo aborda fenômenos de maneira completamente distinta das
abordagens cognitivistas ou funcionalistas.
Para Bosi (1979), que toma a memória coletiva como um dos objetos de estudo, não
existe memória individual sem sociedade. A autora localiza a memória no plano estrutural da
sociedade, sem correr o risco de uma análise mecanicista. Compreende, portanto, a memória
biográfica consubstanciada com a comunidade e as suas lutas políticas.
Neste modelo, como já adiantamosbrevemente,otrabalhotambémseapresentacomo
um elemento importante na composição do “social”, tendo valorações teóricas distintas, é
verdade.Alutaantimanicomial,assimcomoapsicodinâmicadotrabalho,porexemplo,vêemno
trabalho uma atividade partilhada socialmente, o fundamento para construção da autonomia
dos sujeitos e grupos marginalizados, mas, também, uma fonte de alienação.
Também notamos, a partir da crítica da neutralidadecientífica,umatransformaçãono
modo de fazer pesquisa em Psicologia Social. Nesta direção, podemos citar como exemplo as
noções de pesquisa-ação e pesquisa participante,quepassaramacomporarotinadasociologia
política e daPsicologialatino-americana,principalmente,apartirdadécadade1960(BurtonE
Guzzo, 2020),
Finalmente, a Psicologia Social do terceiro modelo não subestima seu caráter político
(comoocorre,majoritariamente,noprimeiromodelo)enãofazumusoescamoteadodela(como
no segundo modelo), ao contrário, explicita a Psicologia Social como uma Psicologia que faz
122
Política.Assim,nãoquerrenunciaraumolharpsicossocialsobrearealidadeemconflito.Logo,
conclui, Martín-Baró, o objeto deste modelo é a ação como ação ideológica.
Não que seja um consenso entre modelos críticos da Psicologia Social, mas está claro,
para uma Psicologia de orientação materialista histórica e dialética, que toda Psicologia Social
não é apenas Política, mas também do Trabalho.
Esta parece ser também a compreensão de Martín-Baró (1989), que, em um texto
elaboradoparao1ºEncontroNacionaldePsicologiadoTrabalho,noBrasil,em1988,identifica
distintos enfoques psicológicos do Trabalho.
Deummodogeral,noqueeledenominoudeenfoqueindividualista,otrabalhadordeve
serviraotrabalho,quenãoéreconhecidocomoalienado.Oobjetoéadaptaçãodoindivíduoao
trabalhoeconsequentementeaidentificaçãoepatologizaçãodo“desajustamento”(Martín-Baró,
1989).
Noenfoquesistêmico,que,segundooautor,superaopsicologismoflagrantedoenfoque
individualista, o trabalho aparece como uma “camada” das interações sociais, menos
estruturantes, por exemplo, queafamília(eevidentementeestálongedeserreconhecidocomo
alienado).
O enfoque que Martín-Baró denominou de PsicologiaPolíticadoTrabalho,considera,
primeiro, a relevância do mundo do trabalho na demarcação dos processos de socialização,
portanto, na própria constituição subjetividade, sendo ele, historicamente, marcado por três
elementos:(a)adivisãodiscriminantedotrabalho;(b)amarginalizaçãoedesempregomassivos;
(c) a dinâmica de exploração e repressão que acomete as classes populares.
Oquenosinteressaaqui,novamente,nãoépropriamenteademarcaçãodeumaáreaou
disciplina,mas,maisumavez,avisãodoautorsobreaPsicologiacomoPsicologiaPolítica.Oque
ele sugere é que, os objetos que a Psicologia Social (e do Trabalho) se debruçam estão,
historicamente, situados entre a Política e a Economia. Nestes termos, ele afirma:
123
Psicologiapolítica(...)pretendesuperarasdeficiênciasdosenfoquespredominantes,quetendema
A
isolarosprocessospsíquicosdoscontextossociopolíticosconcretosemqueseproduzemeaosquais
se articulam. Em outras palavras, a Psicologia política pretende devolver à análise psicológica a
concretude histórica (...). (Martín-Baró, 1989, p. 17, tradução nossa).
E finaliza: “Em outras palavras, devemos passar de uma consideração de saúde mental
como umestadoindividual,aumaconcepçãomaissocial”(Martín-Baró,1989,p.23,tradução
nossa), complementada com a qualificação do “social” como econômico e político.
A Psicologia Social é uma construção socialehistórica:nestesentido,éumaPsicologia
que, assim como outros ramos e áreas, também faz política. Cabe, portanto, pensar: que
Psicologia e que Política andamos fazendo?
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126
Capítulo7
127
uma perspectiva mais ampla), embora sejam muitas vezes atravessadas pela temática da saúde,
não necessariamente estão restritas a esse campo de aplicação ou têm como objeto asaúdeno
sentido estrito (especialmente no que dizrespeito,comojádissemos,àspráticasdetratamento
psicológico, mas também nos problemas conceituais criados por uma extensão hiperbólica do
conceito de promoção de saúde para toda e qualquer ação no campo da psicologia). As
discussõesdealgunsanosatrássobreoscomitêsdeéticaempesquisaesuarelaçãocomasciências
humanas e sociais são um bom exemplo da complexidade dessa questão (Duarte, 2014). E
mesmoomanifestodaSociedadeBrasileiradePsicologiaOrganizacionaledoTrabalho(SBPOT,
2008) aponta para essa direção.
Dito isso, vamos nos dedicar, ao longo do texto que segue, a algumas reflexões e
questionamentospontuaissobreaformaçãoempsicologiadotrabalhoemumdepartamentode
psicologia social e do trabalho situado em uma universidade pública (gratuita e de qualidade).
Uma primeira questão a ser colocada para prosseguirmos refere-se ao papel da
universidadepública.Maisespecificamente,podemosperguntar:qualéoseupapelnaformação
depsicólogasepsicólogos?Nãoteríamosdúvidasemafirmarqueopapeldauniversidadepública
é, em nosso caso, produzir conhecimentos em psicologia e formar profissionais tecnicamente
competentes para oferecer às pessoas os benefícios práticos desses conhecimentos e, ainda,
formar profissionais capazes de compreender as complexidades dos problemas de seu âmbito
profissionalnocontextomultifacetadoecontraditóriodarealidadedenossasociedade,istoé,de
um país com grandes desigualdades sociais e regionais.
Quanto à produção de conhecimento, isso envolve tanto expandir o conhecimento
científicosobrerealidadeshistoricamenteconstituídas,quantoreinventarnossaprofissão,istoé,
renovaraspráticasparaquereflitamoestadodaartedoconhecimentoemnossasáreasespecíficas
e respondam às questões de nosso tempo.
Em relação ao segundoaspecto,aformaçãoqueoferecemosnãopodesertratadacomo
um“bem”queseprestesimplesmenteàapropriaçãoindividualeprivadaporpartedoalunado.
128
Pelo contrário, e isso é uma das muitas justificativas para o caráter público e gratuito das
universidadesestatais,nósformamosprofissionais,antesdetudo,paraobenefíciodasociedade,
da sociedade como um todo. Justamente isso é o que justifica o investimento econômico da
sociedadenauniversidade,nãoapenasobenefícioconcedidoaumapartedoscidadãosdeterum
diploma universitário outorgado por uma universidade pública.
Enote-seaindaqueesse“comoumtodo”significajustamentenadamenosque“todos”
os setores da sociedade.Essaobservaçãoredundanteremeteaumaquestãoquevezououtrase
faz presente no âmbito da universidade: formamos profissionais para atender às demandas do
“mercado” ou da sociedade? Trata-se, na verdade, de uma questão mal formulada, pois opõe
figurasumtantovagaseabstratas.Aoquenosparece,essaquestãoprocuraopor,deumlado,a
oferta de postos de trabalho em setores consolidados (como a indústria e o comércio), que
demandam mais profissionais e que remuneram melhor (e que, de certo modo,ditamoperfil
que os profissionais que chegam aomercadodeveriamter)e,deoutro,asdemandasdifusasde
setores diversos da sociedade que não são intensivos em geração de riquezas e que requerem
práticaspsiaindanãoconsolidadasoudesconhecidaspornãoespecialistasapontodenãoterem
a visibilidade social necessária para serem objeto de demanda ou reivindicação.
Ao mesmo tempo, dentro do espírito da atual visão hegemônica, a educação, se é
encaradaeofertadacomoumamercadoria,possui,departida,umadistorçãonacompreensãode
sua finalidade.
Vejamosissoemumcontextodiferentedoqueencontramosnauniversidadepública:na
universidade privada (essa que se tornou universidade-empresa), oaluno-consumidor,quando
desprovido de uma formação crítica, compra e investe em um produto economicamente
dispendioso e quer (reduzido à condição de comprador) um retorno econômico ao final da
formação,queérepresentadoporumaboaposiçãoemtermossalariaisnomercadodetrabalho,
por exemplo. Sua ação tende a ser conduzida por aquilo que supostamente solicitaria oassim
chamado“mercado”,podendoserguiadoporquestõescomo:quetiposdepráticasprofissionais
ou abordagens teóricas ou especialidades são mais valorizadas por aqueles que são capazes de
pagar pelos seus serviços? O que aumentaria as chances de ser melhor remunerado? A
universidade-empresa,quedependedopagamentodemensalidadesparaexistir,reguladapelalei
129
daprocuraeoferta,oferecerá,porsuavez,aquiloqueseus“clientes”demandam,ficandoemum
plano secundário os imperativos dasociedade“comoumtodo”(pois oconjuntodasociedade
não pode ser reduzida ao “mercado” nem ao mundo corporativo), especialmente no que diz
respeito aos seus setores marginalizados, além dos imperativos da própria ciência que
representamos e tentamos construir (há conhecimentos que podem melhorar as vidas das
pessoas,mas,definitivamentenãovãogerardinheiro).Astécnicasdamoda,issonãoénovidade,
tomamolugardaquelasfundamentadasempesquisasenoconhecimentodasdiversastradições
científicas.Eaquiloquenãoécapazdegerarretornofinanceiro,mesmotendorelevânciasocial,é
descartado, como é o caso de diversas ações relacionadas às populações mais pobres.
A universidade pública, que não deveria funcionar como uma empresa, é justamente
aquelaquetemopotencial(claroquenemsempretornadorealidade)deescapardessalógica.Eé
asuaparcelanãoorientadapeloeparaomercado,ouqueresisteaessaintromissão,queécapaz
de ouvir e atender às demandas de setores da sociedade que não interessam ao mercado.
Se o compromisso da universidade é promover o desenvolvimento dapsicologiacomo
ciência e como profissão, a formação que oferecemos não pode ser guiada pelos interesses
imediatistas de colocação no mercado de trabalho.
Naatuaçãopsinomundodotrabalho,issoémuitoevidente.Avisãohegemônicasobre
as psicologias que se dedicam ao trabalho e às “organizações” reduz o “mercado” ao mundo
corporativo e às práticas de gestãoderecursoshumanosqueacontecemládentro(Bernardoet
al., 2017; Sato, 2010; Figueiredo, 1989). Isso se dá mesmo no serviço público, especialmente
depois da ascensão do modelo neoliberal da nova gestão pública (Gaulejac, 2011). Nesse
contexto, “atender ao mercado” é atender aos interesses das empresas,aosinteressesdagestão,
não necessariamente aos interesses de trabalhadoras e trabalhadores. Interesses aqueles que
certamentedevemseratendidos,considerando-seapluralidadedenossaprofissão.Oproblema,e
é isso que tentamos defender, está em reduzir os interesses da sociedade como um todo aos
130
interesses restritos das empresas e confundir estes últimos com os interesses das pessoas que
trabalham, como já apontou Prilleltensky (1994).
Há, na verdade, uma série de outras possibilidades de atuação de profissionais da
psicologia no mundo do trabalho que não se reduzem às preocupações próprias da gestão
(Bernardoetal.,2015;Nevesetal.,2017),eaquiestamosnosreferindo,porexemplo,àatuação
noSistemaÚnicodeSaúde(SUS)–noscentrosdereferênciaemsaúdedostrabalhadoreseem
outrasinstânciasdocampodasaúde–,naspolíticasdeassistênciasocial, degeraçãodetrabalho
e renda, na economia solidária, em sindicatos, em parcerias com coletivos e associações de
trabalhadores, comaçõesnoscamposdaPsicologiaComunitáriaedaPsicologiaPolíticae,não
menosimportante,nocampodapesquisaedaproduçãodeconhecimentosquepodemsubsidiar
a transformação das realidades de trabalho e a luta de trabalhadoras e trabalhadores por essa
transformação (Bernardo et al., 2015).
Temos testemunhado nas últimas décadas grandes desenvolvimentos dasaproximações
da psicologia em relação aos problemashumanosnotrabalho.Podemostomarcomopontode
inflexão para o início dessa renovação da Psicologia do Trabalhooconjuntodascontribuições
seminaisdeIvarOddoneesuaequipeapartirdofinaldadécadade1960(Oddoneetal.,2020;
Oddone et al., 2022), que serviu de base para diversos desenvolvimentos posteriores, como a
ErgologiaeaClínicadaAtividade,naFrança,eaPsicologiaSocialdoTrabalhonoBrasil,alémde
sua grande importância para o desenvolvimento do campo da Saúde dos Trabalhadorescomo
um todo em nosso país (Muniz et al., 2013; Oddone et al., 2020).
ComotemsidodiscutidodentrodocampodaPsicologiaSocialdoTrabalho(Esteveset
al.,2017;Oliveira,2023),asfontesquepermitiramumarenovaçãodapsicologiabrasileiraquese
dedica ao mundo do trabalho estão relacionadas às transformações ocorridas no país: desde a
abertura política após a ditadura civil-militar, passando pela constituição do SUS, pelo
desenvolvimentodemodelosdefomentoàeconomiasolidáriaepelaproliferaçãodeexperiências
de políticas públicas de geração de trabalho e renda nopaís.Tudoisso,incluindooacessodas
classes populares às universidades (e aos cursos de psicologia), criou demandas para as
universidadeseparaaPsicologia.Novosatoressociaisbatemàportadauniversidade,criticando
aspráticastradicionaisdaprofissãoedemandandooenfrentamentodeproblemasque,atéentão,
131
não tinham tantavisibilidadeparapsicólogasepsicólogosapartirdaslentesdesuaformaçãoe,
claro, de seu lugar de classe.
19
er, por exemplo: Oliveira et al. (2018).
V
20
O PST ainda conta comoServiçodeOrientaçãoProfissional(SOP),internacionalmentereconhecido,alémde
vários laboratórios que têm o potencial de desenvolver atividades de extensão,comooLaboratóriodeEstudose
Pesquisas sobre Trabalho, Movimentos Sociais e Políticas Sociais (TraMPoS).
132
camposeriamfavorecidospelaatuaçãopráticadealunosealunas,oquevemsendopossibilitado
pelo serviço referido acima, o CPAT, por meio de atividades práticas integradas à disciplina
obrigatória.
Esse arranjo possibilitou um terreno fértil para a criação de propostas inovadoras de
extensão universitária e para a experimentação e para o desenvolvimento da psicologia do
trabalho.Dessemodoesseserviçoserviucomocentroaglutinador(FarinaeNeves,2007;Neves
etal.,2017).AexperiênciadoCPAT,relatadaalhures,leva-nosaretomaralgumasdasquestões
apresentadasacimasobreosserviçosqueauniversidadedeveriaoferecernocampodapsicologia
do trabalho e sobre quem deveria ser o destinatário desses serviços.
Algumasescolhasetomadasdeposiçãodentrodosdebatesentreasdiferentespsicologias
queconstroemseusobjetosapartirdasdemandasdosmundosdotrabalho(Martín-Baró,2014;
Sato, 2010) permitemvislumbrarnovoshorizontesalinhadosaosdesenvolvimentosrecentesde
nossa área e capazes de superar os limites das práticas tradicionais.
Partindo de uma perspectiva que tem sido construída no Brasil e em outros países da
América Latina, nomeada como Psicologia Social do Trabalho (Spink, 1996; Coutinho et al.,
2017), e mantendo um diálogo frutífero e fraterno com as chamadas Clínicas do Trabalho,
aclimatadas ao nosso contexto (Araújo e Barros, 2019; Vieira, 2022), podemos traçar os
contornos de algumas formas de fazer psicologia nos mundos dotrabalhoquepodematender
mais adequadamente às demandas emergentes referidas acima e esboçar uma agenda para os
serviços de psicologia do trabalho das universidades públicas.
Desde a virada epistemológica promovida por Oddone e sua equipe (Oddone et al.,
2022),apsicologiadotrabalhosefazapartirdaperspectivadostrabalhadores.Ouseja,épelavia
da mobilização das experiências e dos saberes construídos coletivamente pelas pessoas que
trabalham em uma mesma atividade ou setor da economia que somos capazes de reconstruir
processoscomoaorganizaçãocotidianadotrabalhoecompreenderseusefeitossobreasaúdeea
constituição das subjetividades(SatoeOliveira,2008).Aanálisepsicossocialdotrabalho,nessa
perspectiva, é feita em conjunto com quem vivencia a atividade dia após dia e não pelo
observador ocasional.
133
Domesmomodo,apartirdolegadodatradiçãodocampodasaúdedostrabalhadoresno
Brasil(quetemcomobaseoprincípiodanão-delegação21),compreende-sequeasmudançasdas
condições de trabalho dependem mais de decisões políticas do que técnicas, o que coloca
trabalhadoras e trabalhadores como atores centrais nos processos de transformação dos
ambientes de trabalho (Oddone et al., 2020; Maeno e Carmo, 2005).
Esses dois reposicionamentos, epistemológico e político, bem ao espírito do Modelo
Operário Italiano (Oddone et al., 2020; Vogel, 2016), invertem o lugar que é geralmente
atribuídoaosespecialistasnasváriasciências:nãovamosaoencontrodaspessoasquetrabalham
para lhes dizer qual é a melhor modo de realizar suas atividades ou de promover saúde nos
ambientes de trabalho, mas nos oferecemos como facilitadores desse processo de apropriação
coletiva dos conhecimentos construídos no enfrentamento cotidiano do trabalho e, claro,
oferecemos nossos conhecimentosformalizados,especialmenteaquelesconstruídoscomoutros
coletivos de trabalhadores, em uma dinâmica que aproxima o conhecimento científico do
conhecimento prático (Oliveira et al., 2018).
Oolhardessemodoparaocotidiano(Coutinhoetal.,2016;Oliveira,2014),paraoque
acontece no aqui-agora da atividade, como síntesedemúltiplasdeterminações,revelaaescolha
pelo trabalho concreto como objeto de conhecimento e como foco da ação (Sato e Oliveira,
2008). E evidencia que o foco da intervenção deve ser o próprio trabalho, tomado em sua
singularidade,paraalémdeabstraçõesgeneralizantesereceitascomsoluçõesgenéricasparatodos
osproblemas,antesmesmodeconhecê-los.Aintervenção,portanto,nãodevetercomoobjetoos
indivíduosisoladosdeseucontexto,massimotrabalhoemsi,nasuarelaçãocomaspessoas,as
condições materiais em que acontece e os modos como é organizado (incluindo a divisão do
trabalho,adivisãodaspessoasquetrabalham,ashierarquias,osprocessossimbólicos,ideológicos
etc.).Ofocodeveserotrabalhoemsuaintegralidade,pois,comoafirmaYvesClot(2009,2017),
éotrabalhoemnossassociedadesqueestáadoecido.Edevemosestaratentosaonovohigienismo
denunciado pelo autor (Clot, 2017), que se configura como um movimento que parece
21
S egundo o Modelo Operário Italiano, a análise das condições de trabalho ealutapelasuatransformaçãonão
devemserdelegadaspelostrabalhadoresaosespecialistas.Osagentespolíticosdevemseraquelesquetrabalhameo
papel dos especialistas é o de assessorar e não o de decidir como as coisas devem ser.
134
reconhecer a dimensão do sofrimento, mas o atribui aos próprios indivíduos, eximindo o
trabalho de sua responsabilidade.
Ocompromissodetodaintervençãodeveriasermudarotrabalho,romperopersistente
traço da tradição taylorista-fordista de adaptar o ser humano ao trabalho, e contribuir para
aumentaropoderdeagir(Clot,2010)daspessoasquetrabalhamsobresuaprópriaatividade,de
modoapermitirquesejamcapazesdeajustarosmeiosdetrabalhoeaorganizaçãodotrabalhoàs
suas características singulares e ao desenvolvimento de suas potencialidades. Ou, ao menos,
resistir e combater a exploração.
Finalmente,valelembrarqueaperspectivadaPsicologiaSocialdoTrabalhopressupõea
inseparabilidade entre pesquisa e intervenção (Oliveira et al., 2015), o que significa dizer que
ambas as ações estão imbricadas no movimento contínuo de conhecer para transformar e de,
fazendoumempréstimoàClínicadaAtividade(Clot,2010;Silvaetal.,2021),transformarpara
conhecer.
Acredito que essa apresentação de princípios permite vislumbrar os contornosdoque
deveriam ser as atividades de extensão universitária no campo da Psicologia do Trabalho no
contexto de uma universidade pública. Se as práticas tradicionais da psicologia voltada para o
trabalholimitam-seafornecerferramentasparaosgestoresda“mãodeobra”,cabeanósestarlá
onde a ciência é necessária, mas pouco frequentou.
A psicologia tradicional construiu-se sobre o modelo do emprego e muito pouco
contribuiu para se pensar outras formas de trabalho que estivessem fora desse molde (Spink,
2009;Sato,2017).Sequisermosavançarnaformaçãoempsicologiaparaatuaçãonomundodo
trabalho, devemos sair do mainstreamdosdestinatáriosdaspráticastradicionaisebuscaratuar
junto àqueles setores que sempre tiveram menor atenção da psicologia.
Portanto, a destinatária dessas atividades de extensão é, sem dúvida, a população
trabalhadora. Trabalhadores e trabalhadoras assalariados e informais, da cidade e do campo,
institucionalmente organizados ou não.Nãocomoobjetosdegestãoinstitucionaloupatronal,
mascomosujeitoscomseusprópriosinteresses,comoapreservaçãodasaúde,abuscadesentido
do trabalho e da vida, o desenvolvimento de potencialidades e o convívio social.
135
Do modo como as compreendemos, essas práticas devem propiciar espaços para a
reflexão sobreoprópriotrabalho,paraadiscussãocoletivadosproblemasenfrentadosporuma
mesmacategoriaprofissional,comoummododeapropriaçãodosconhecimentoscoletivamente
construídosequeapontamparaoquenãoestábemnotrabalho.Édessesespaçosparapensaro
trabalho, com trabalhadores/as como analistas de sua própria atividade, que sepodeconstruir
umhorizonteparaasmudançasdesejadas,apossibilidadedeorganizaçãoparaasuareivindicação
e a construção de estratégias para a ação.
136
trabalharemempresas.Masnãoqueremosoferecerumaformaçãoestreitaequeseapoieemuma
formatação para a mera aplicação de técnicas. Isso porque fomos alunos do professor Sigmar
Malvezzi, eelejánosdiziaemsuasaulasqueomelhorperfildeumpsicólogoquevaitrabalhar
emorganizaçõeséodopesquisador,istoé,aquelequeécapazdereconhecerarealidadequetem
diante de si e deconstruirconhecimentoseinstrumentosquesejamcapazesdefazerfrenteaos
problemas encarados pelos profissionais em sua realidade concreta.
Notem que várias universidades federais espalhadas pelo país já fizeram esse debate
internamenteedecidiramquenãoformariampsicólogosparatrabalharemempresasouque,ao
menos,issonãoseriaaprioridadedaformação.Sãouniversidadesquedefiniramumcertoperfil
de profissionais que pretendem oferecer para a sociedade e esse perfil não inclui, por escolha
conscienteedeliberada,habilidadesligadasafornecerferramentasparaogovernodepessoasem
empresas privadas.
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140
Capítulo8
22
Versão revisada do artigo publicado em 2022 na revista Saúde em Debate
141
Portransitarentreocientíficoeopolíticoeexigirdiálogoestreitoentreváriasdisciplinas
etiposdesaberes,asaúdecoletivarepresentaumaproduçãosingularnocontextobrasileiroena
América Latina, propiciando a elaboração de conceitos e princípios caros frente às
fragmentações do conhecimento humano, com suas antinomias frenteàspolíticas,àsaçõesno
território e ao modo de viver dos sujeitos.
Contudo, sabemos que a tarefa não é simples e muitos desafios se colocam ao
considerarmosaproposiçãodenovosmarcosconceituaiseseuspossíveisdirecionamentosparaas
práticas, incluída a preocupação com processos de formação estabelecidos a partir da reflexão
crítica e contínua acerca da situação desaúdeinterrelacionadaesituadaemcontextohistórico,
social, político e econômico.
No que se refere à formação, é interessante verificar que a expressão“saúdecoletiva”é
adotadanoBrasil,aofinaldadécadade1970,duranteoprimeiroencontronacionaldecursosde
pós-graduação, que reunia os programas de medicina social, medicina preventiva, saúde
comunitáriaesaúdepública.Atrajetóriadapós-graduaçãoesuahistórianessecampoérelevante
(Nunes, 1994, 2010), e pode ser enriquecida com as contribuições produzidas em programas
que, abertos aos problemas e referenciais trazidos do campo da saúde coletiva, colocam-se em
diálogos que transcendem fronteiras disciplinares.
A psicologia social, por sua vez, tal como a saúde coletiva, constitui-se como matéria
híbrida, situada num ponto de confluência de várias áreas. Sua problemática específica
inscreve-seedefine-secomocampodoslimites,dasfronteirasedasdemarcações,dosfiltrosedas
passagens (Fernandes & Scarcelli, 2017). A psicologia social da práxis, mais especificamente,
revela uma complexidade naconfluênciadeáreas,disciplinasepráticasqueseligamemmodos
de fazer, modos de pensar, visões de mundo que vão se construindo no campo de ação e
subsidiando a práxis, de forma a sustentar os diálogos em abertura e deslocamento, como
circuitos abertos.
FormuladaporEnriquePichon-Rivière(1907-1977),essapsicologiasocialfoitecidaem
sololatino-americanoapartirdaexperiênciadilemáticadoautor,herdeirodasculturasfrancesae
guarani, que foi impelido aintegraroheterogêneoeaconvergirodiferentedesdesuainfância.
Namaturidade,processouasmúltiplasexperiênciasdecontrasteecontradição,traduzindo-asem
142
um método de análise científica da realidade que privilegia a interconexão dos fenômenos,
considerando o caráter complexo e contraditório e a procura dessa contradição em todas as
coisas,inclusivenopensamentohumano.Desenvolveuummétododetrabalhoeaprendizagem
instrumentado pela heterogeneidade que contribui para as interpretações do real (Bauleo, 1988).
Pichon-Rivière se formou em psiquiatria e foi um dos principais precursores da
psicanálise na América Latina. Autodefiniu-se como um homem da saúde pública, médico
sanitaristaepsicólogosocial,desenvolvendoseutrabalhoapartirdacompreensãodequeasaúde
se constrói comunitariamente, coletivamente (Lema, 2008). Sua longa experiência em
instituições psiquiátricas, articulada com suas várias inserções, possibilitouaelaboraçãodeum
critério de saúde e de questões importantes nesse campo. Foi enfático sobre a existência do
aparato de dominação em nossa sociedade, destinado, em última instância, a perpetuar as
relações de produção, ou seja, de exploração. Esse aparato inclui trabalhadores de saúdecomo
veiculadoresdeumaconcepçãohierárquica,autoritáriaedilemáticadaconduta,detalmodoque
profissionais se tornam líderesdaresistênciaàmudançaquandotratampessoasquenecessitam
de cuidado como “equivocadas”, podendo condicioná-las a uma situação de cronicidade
(Scarcelli, 2017).
Na trajetória dessa construção, destacam-se dois aspectos teóricos estreitamente
relacionados,emboraoriundosdeníveisdegeneralizaçãodistintos:a“concepçãodesujeito”,que
considera as ordens histórico-social, simbólica e da culturacomooespecificamentehumano;e
um“critériodesaúde”,chamadotambémdeadaptaçãoativaàrealidadeouaprendizagem,meio
de análise das formas de relação do sujeito com o mundo, da relação constitutiva da
subjetividade. Os processosdeaprendizagemsãoobjetodeinvestigaçãosistemática,entendidos
como processo psicológico e fenômeno social com base em uma metodologia que consideraa
emergência de obstáculos na relação do sujeito cognoscente com o objeto de conhecimento.
Considerando tais perspectivas, objetivamos neste artigo compartilhar as reflexões e
indagações ligadas a uma experiência de formação acadêmica que problematiza a
interdisciplinaridade como modo de operar diante das visões fragmentadas presentes nos
processosdeproduçãoedesocializaçãodoconhecimento.Taisquestões,elaboradasemdiálogo
compós-graduandas(os)egraduandas(os)quecompõemumgrupodepesquisaarticuladoadois
143
programas de pós-graduação, têm sido suscitadas a partir da saúde coletiva e áreas afins,
particularmente a psicologia social.
Essegrupointegraestudantesdegraduaçãocompós-graduandas(os),pesquisadoras(es)e
professoras(es) de diferentes unidades e profissionais deserviçospúblicosoriundosdepolíticas
sociais de saúde, educação, cultura, justiça, entre outros. Pretende, desse modo, refletir os
potenciais alargamentos teórico-práticos, para ambos os campos, no encontro entre saúde
coletiva e psicologia social.
Aexperiênciamencionadavemsendodesenvolvidaemdoisprogramasdepós-graduação
da USP que incluem estudantes oriundosdediversasáreasdeconhecimento:oem“Psicologia
Social”, nomeadamente nas pesquisas para obtenção dos títulos de mestrado e doutorado em
Psicologia na linha de pesquisa “Política, Saúde Coletiva e Psicologia Social”; e o mestrado
profissional “Formação Interdisciplinar em Saúde”.
Embora não sejam programas de pós-graduação em saúde coletiva, partedastemáticas
desenvolvidas foram pautadas a partir desse campo, constituindo-se pesquisas (Rivera et al.,
2019) que investigam processos psicossociais que ocorrem em campos de relevância na vida
socialcontemporânea-comopolíticaspúblicasintersetoriais-equeobjetivamcompreenderos
efeitos das políticas públicas sobre a vida das pessoas, além dos tipos de lacunas que se
estabelecem entre os âmbitos político-jurídico e técnico-assistencial, quando estáemquestãoa
implantação de novos programas e políticas (Scarcelli, 2017).
Nessa experiência, que prima por encontros sistemáticos, privilegia-se o grupo como
estratégiateórico-metodológica-emumaperspectivaquenãodissociaensino-pesquisa-extensão
- e considera emsuacomposiçãosujeitosdiversosedecamposdeconhecimentomúltiplosque
objetivamexercitarodiálogonabuscapelasuperaçãodedicotomias,assimcomoadialéticaentre
sujeito e sociedade e as necessidades sociais de saúde.
Saúde coletiva é entendida como um campo científico (Birman, 1991; Campos, 2000;
Leal & Junior, 2012; Nunes,1996;Paim&AlmeidaFilho,1998),ondeseproduzemsaberese
conhecimentosacercadoobjeto“saúde”eseoperamdistintasdisciplinasqueocontemplamsob
144
vários ângulos. Também é tomada como âmbito de práticas, no qual se realizam ações em
diferentesorganizaçõeseinstituiçõespordiferentesagentesdentroeforadosetordasaúde(Paim
& Almeida Filho, 1998).
A saúde coletiva vem se transformando e se complexificando nas últimas décadas,
passando, conforme Luz (2009), de um modelo salubrista polidisciplinar para uma estrutura
discursiva semiaberta que inclui continuamente disciplinas oriundas de diferentes campos
científicos,alémdasvariadaspráticaseformasdeintervençãosocial.Podeserconsideradacomo
campo de conhecimento de natureza interdisciplinar cujas disciplinas básicas são a
epidemiologia,oplanejamentoeaadministraçãodesaúdeeasciênciassociaisemsaúde.Como
disciplinascomplementares,podem-seconsideraraestatística,ademografia,ageografia,aclínica,
a genética, as ciências biomédicas básicas, dentre outras (Paim & Almeida Filho, 1998).
No âmbito de práticas, a saúde coletiva envolve as disciplinas que tomam como objeto
a s necessidades sociais de saúde, como instrumentos de trabalho distintos saberes,
disciplinas, tecnologias materiais e não materiais, e como atividades intervenções
centradas nos grupos sociais e no ambiente, independentemente do tipo de
profissional e do modelo de institucionalização (Paim & Almeida Filho, 1998, p. 310).
Abrange, portanto, um conjunto articulado de práticas técnicas, científicas, culturais,
ideológicas, políticaseeconômicasquesãodesenvolvidastantonoâmbitoacadêmicocomonas
instituições de saúde, organizaçõesdasociedadecivileinstitutosdepesquisa(Paim&Almeida
Filho, 1998). Nessa perspectiva, a saúde coletiva fundamenta um âmbito de práticas
transdisciplinar, multiprofissional, interinstitucional e transetorial, que considera como marco
conceitual “a superação do biologismo dominante, da naturalização da vida social, da sua
submissão à clínica e da sua dependência ao modelo médico hegemônico” (Paim & Almeida
Filho, 1998, p. 310).
Como sabemos, a forma de produção de conhecimento por meio de disciplinas tem
origem cartesianaemseucoroláriodaanálise,nodesmembrarparaconhecer,oqueconduziua
ciência ocidental com base nas especialidades; um reducionismo que constrói e trata objetos
simples (Almeida Filho, 2005). Com a expansão científica no século XX, a produção do
conhecimentopassouavisarnãomaisafragmentação(análise),masaconstruçãodeobjetospor
145
meio de um processo de composição de elementos constituintes (síntese) (Luz, 2009).
Observou-se, assim, a emergência de objetos complexos, que não se subordinavam a uma
aproximação meramente explicativa, mas necessitavam decompreensão(AlmeidaFilho,2005).
Conforme Almeida Filho (2005, p. 38), “o objeto complexo é sintético, não-linear, múltiplo,
plural e emergente”, sendo que “a organização convencional da ciência, em disciplinas
autônomas e até estanques, precisa ser superada por novas modalidades da práxis científica,
instaurando formas alternativas de disciplinaridade” (Almeida Filho, 2005, p. 38).
Esseprocessolevouaumaaberturadasfronteirascientíficas,sendonecessáriovoltarpara
a polissemia resultante do cruzamento de diferentes discursos disciplinares, o que vem sendo
chamadodeinterdisciplinaridade.Ainterdisciplinaridadeimplicaumaaxiomáticacomumaum
grupo de disciplinas conexas e, ao se sustentar sobre uma problemática comum, pode gerar
aprendizagemmútua,quenãoocorreriaporumasimplesadição(AlmeidaFilho,2005).Asaúde
coletivafoiatravessadaporesseprocessohistóricoeobservouaemergênciadeobjetoscomplexos
em seu campo, o que tornou necessária sua transformação: para se estudar o processo
saúde-doença, passou a ser necessário considerar os sujeitos sãos e enfermos não apenas para
explicá-los, mas compreendê-los e construir potencialidades de ação (Granda, 1994).
que é que define um furacão? Não é a medida da pressão barométrica, não é a
O
velocidadedosventos,nãoéavariaçãodetemperatura,nãoénadadisso(quesepode
estimarcomumaltograudeprecisão)masétudoisso,unificadoemumatotalidade
integral que se reconhece como o furacão, porémquenãosereduzàssuasmedidas
(Paim & Almeida Filho, 1998, p. 313).
Talqualofuracão,oobjetodasaúdecoletivaécomplexoenãopodeserreduzidoàssuas
partes (Paim & Almeida Filho, 1998).
Luz(2009)refletesobreairreversibilidadedessacomplexidadeesobreairredutibilidade
da saúde coletiva a um paradigma monodisciplinar, proveniente dos campos da biologia, das
ciências humanas e sociais, das tecnologias dasciênciasaplicadasàsaúdeoudeplanejamentoe
gestão. Sendo assim, na saúde coletiva coexistem diferentes modelos discursivos de saberes
disciplinares, práticas de intervenção e formas de expressão científica, constituindoumcampo
hierarquizado de saberes, práticas e agentes (Luz, 2009).
146
Ainda que as ações desenvolvidas no âmbito da saúde coletiva não estejam delineadas
como disciplinas, podemos pensar que são referenciais, visões de mundo que podem ser
consideradas como um esquema conceitual referencial e operativo, tal qual proposto por
Pichon-Rivière.
A psicologiasocialdapráxisexpressaopensamentodePichon-Rivièreemumesquema
que sistematiza um conjunto de conceitos gerais e teóricos,cujafinalidadeédarcontadeuma
realidade para guiar uma ação sobre ela. Esse conjunto de conceitos, elaborados a partir do
método dialético, está referido a um setor do real e a um determinado universo do discurso,
permitindo a aproximação instrumental a um objeto particular concreto, e foi nomeado
EsquemaConceitual,ReferencialeOperativo(Ecro)(Pichon-Rivière,2005).Entendequetoda
equalquerinvestigaçãocoincidecomumaoperação,poisnãoháindagaçãoquenãomodifiquea
situação na qual emergiu.
Naabordagemdeumcampodeconhecimento,construirumesquemanessaperspectiva
éimportantenosentidodeconduzirumaatitudeautocrítica,i.e.,queretificaouratifica,quefaz
análisesemânticaesistêmica,alémdeincluiraspectosmotivacionaisreferentesàverticalidadedo
sujeitoquedeterminamosmodosdeabordararealidade.NocasodoEcropichoniano,lança-se
mão de três grandes campos disciplinares: as ciências sociais, que refletemamacroestrutura,o
sujeito situado na estrutura social e na cultura a que pertence; a psicanálise, que considera as
identificações inconscientes na constituição do esquema referencial subjetivo e sobre as
vicissitudes subjetivas nos processos de mudança; e a psicologia social, que oferece noções
importantes sobre o grupo, como o conceito de papel.
A psicologia social pichoniana está inscrita em uma perspectiva de crítica da vida
cotidiana,temcomopontodepartidaapráticaeabordaosujeitoimersoemsuasrelaçõessociais,
emsuascondiçõesconcretasdeexistência:investigaarelaçãodialéticaefundanteentreaordem
sócio-histórica e a subjetividade. Trata-se,portanto,deumobjetodegrandecomplexidadeque
expressa a multiplicidade de processos e de relações que mutuamente se determinam e se afetam.
147
Como campo operacional privilegiado onde habitam estrutura social e fantasias
inconscientes do sujeito em inter-relação, o grupo é instrumento de investigação e ação.
Estrutura-seapartirdointerjogodemecanismosdeassunçãoeatribuiçãodepapéisnumatarefa,
que constitui sua finalidade. Permite a investigação do interjogo entre o psicossocial – o
intrapsíquico, o grupo interno das cenas de interação internalizadas pelo sujeito – e o
sociodinâmico – o intersubjetivo, o grupo externo – por meio da observação das formas de
interação. Essa investigação sempre se dá em três direções: a psicossocial analisa o sujeito por
meio de seus vínculos e relações interpessoais; a sociodinâmica analisa as diversas tensões que
existementreosmembrosdogrupo;eainstitucionalinvestigaosgrandesgrupos,suaestrutura,
origem, composição, história, economia, política, ideologia (Pichon-Rivière, 2005).
O conjunto de contribuições presentes nesse esquema conceitual oferecido por
Pichon-Rivière permite a compreensão horizontal, da totalidade comunitária, e a vertical, do
sujeito nela inserido, de uma sociedade que está em permanente mudança, bem como dos
problemas de adaptação do sujeito a seu meio.
Éumaperspectivaqueindicaumavisãointegradorado‘homem-em-situação’,objetode
umaciênciaúnica,ouinterciência,localizadonumadeterminadacircunstânciahistóricaesocial.
ParaPichon,essavisãoéalcançadapormeiodeumaepistemologiaconvergente,naqual“todas
asciênciasdohomemfuncionamcomoumaunidadeoperacional,enriquecendotantooobjeto
do conhecimento como as técnicas destinadas à sua abordagem” (Pichon-Rivière, 2005, p. 170).
Assim, refletimos sobre a possibilidade de considerar a interdisciplinaridade como
ação-reflexivaapartirdaperspectivadessavisãointegradora,mediadoradecircuitosabertosque
produzem aprendizagens diversas, simultâneas e transformadoras.
A partir do esquema conceitual proposto por Pichon-Rivière, baseando-se em uma
perspectiva multidimensional dos problemas sociais emergentes no processo de trabalho em
saúde e considerando seus aspectos subjetivos, pode-se pensar que, embora se valorizem as
diferentes dimensões de um mesmo problema,écomumatentativadediscriminá-las,comose
148
algoquevemdosocialatravessasseosujeitoelogovoltasseparaosocial(Fernandes&Scarcelli,
2017),comoelementosindependentes.Porém,apartirdaperspectivapichoniana,nãoépossível
oestabelecimentodetaislimites,dessaforma.Aomesmotempo,umaindiscriminação,umanão
consideração de algum limite promove ansiedades que obstaculizam a elaboração de
conhecimento e paralisam os processos de trabalho e aprendizagem.
Essa situação pode ser exemplificada pela própria experiência de Pichon-Rivière no
contextodaformaçãodeprofissionaisnoHospíciodeLasMercedesnasdécadasde1930e1940,
em Buenos Aires, Argentina. Ele pôde verificar que um dos grandes problemas estava na
impossibilidade de elaborar saberes adquiridos pela prática, ou saber operatório, e na falta de
informaçõesporpartedessesprofissionaissobreoprocessodeadoecimentoenomododelidar
com as pessoas internadas. Considerou,assim,osobstáculosepistemológicoseepistemofílicos,
queseconfiguramemcausasimportantesparaaparalisiadosprocessosdetrabalhonocampoda
saúde (Scarcelli, 2017).
Osobstáculosepistemológicosdizemrespeitoàsnoçõesdedisposiçãooudecarênciade
estruturas cognitivas e conceituais necessárias para uma determinada tarefa, enquanto os
obstáculos epistemofílicos seligamàsresistênciasàmudança,resultantesdosmedosbásicosdo
ataque e da perda (Scarcelli, 2017). A tentativa do grupo de se proteger de tais questões
manifesta-seapartirdeumprocessodeparalisiaoudeestancamentodaaprendizagemnoqualo
grupo passa a lidar com o conteúdo da aprendizagem deformaestereotipada(Pichon-Rivière,
2005).
Isso impede a abertura para a incorporação de elementosnovos,jáquesóseadmiteos
conteúdosdoconhecimentoantigo.Pode-se,assim,refletirsobreocarátercomplexodotrabalho
interdisciplinar, considerando tais proposições. Diante de uma situação nova, que exige o
abandono de antigas concepções, se explicita a falta de saberes que ofereçam algum tipo de
segurança e depara-se com a indefinição em relação aos limites das diferentes práticas.
É fácil imaginar tal situação no campodasaúdenacontemporaneidade,emquetantas
mudançassociais,políticas,econômicasvêmseinstalando.Noâmbitodotrabalho,porexemplo,
osmedosqueseexpressampelostrabalhadorespodemsercompreendidostambémcomomedo
da perda da identidade profissional, o que emerge como fonte de ansiedade, que se refere
149
tambémàfaltadenoçãodelimite(Scarcelli,2017).Essasangústias,contradiçõeseambiguidades
ligadas às relações grupais no cotidiano de trabalho no campo da saúde representam as
dicotomias do pensamento, as lacunas entre instituição, ideias e práticas.
Pichon-Rivière, a partir de suas experiências no campodasaúdemental,pôdeverificar
queomedodaloucura,relacionadoatemoreshipocondríacosdacontaminaçãoedocontágio,se
configuravamcomoasmaisimportantesfontesderesistênciaàaprendizagemdapsiquiatria.Isso
porqueoautorpercebeuqueaaprendizagemnofundosignificaaidentificaçãocomoobjetodo
conhecimento, a partir de uma literal penetração nele,o que promove ansiedades ligadas à
fantasia de ficar preso dentro do objeto (Pichon-Rivière, 2005).
Alémdisso,observa-se-tambémdiantedesituaçõesnovas-omedodofracasso,queéo
medo de não saber, expressado a partir de um receio da convivência, da exposição, da não
correspondência ao ideal imaginado e esperado de umprofissional(Scarcelli,2017).Paraele,a
explicitação das fantasias inconscientes ligadas aos medos da perda e do ataque permite a
superação desse obstáculo epistemofílico, superando, assim, o estancamentodaaprendizagem.
Isso permite um salto dialético que promove a continuidade da tarefa (Pichon-Rivière, 2005).
Importante também considerar que, ao mesmo tempo em quemecanismosdefensivos
expressos no grupo diante de uma tarefa nova representam impeditivos para a construção de
novas práticas, também podem representar formas de “adaptação ativa à realidade” e se
configurarcomopossibilidadesdeostrabalhadoresresistiremàsadversidadesquesãodesafiados
a enfrentar: “À medidaqueosujeitoapreendeesseobjetodeconhecimentoeotransforma,ele
modificaasimesmo,entrando,assim,emuminterjogodialéticocomomundo”(Scarcelli,2017,
p. 174).
Omedodaloucura,antesexpressopelostrabalhadores-conformeafirmado-,hojepode
ter sido deslocado paraoslimitesestendidosdasnovasáreasdeatuação(Scarcelli,2017),oque
tem sido defendido como interdisciplinaridade ou intersetorialidade no campo da saúde coletiva.
As contribuições vindas da saúde coletiva e da psicologia social da práxis nos trazem
reflexõesequestõesacercadasdimensõesdediversasordenseáreasdoconhecimentoimplicadas
nos problemas que nos são colocados (Scarcelli, 2017).
150
Nessecontexto,destacamoscomonossointeresseareflexãopsicológicaquedeveserfeita
apartirdeumaatitudeanalíticaquefaçafrenteàconsciênciaingênua,indagandoointerjogode
necessidades e satisfação (Scarcelli,2017)easmodalidadesderespostasocialemcadaformação
social concreta
Nesse sentido, Scarcelli propõe quatro âmbitos que auxiliam o ato de interrogar,
identificarproblemasedelimitardimensõesaorealizarumaanálisedarealidadequesepretende
crítica à consciência ingênua e à vidacotidiana.Configuradoscomoumrecortemetodológico,
apresentam-se como:
Político-jurídico: indaga sobre leis, diretrizes políticas, programas governamentais e
não governamentais decorrentes dessas políticas e seus aspectos legais, normas,
prescrições, entre outros.
Social-cultural: indaga sobre grupos e sujeitos, suas necessidades e demandas no
contexto de proposição e implantação de políticas e práticas.
Teórico-conceitual:indagasobrefundamentosteóricosefilosóficos,sobreconcepções
que sustentam práticas, programas, diretrizes políticas, leis, etc.
Técnico-assistencial:indagasobreosmodosdecriação,implantação,implementaçãoe
desenvolvimentos de práticasdeprogramas,diretrizespolíticaseleis(Scarcelli,2017,
p. 218).
Tais âmbitos, que não podem ser entendidos e operados separadamente, possibilitam,
junto às dimensões de análise propostas por Pichon-Rivière e à vasta produção que integra o
campo da saúde coletiva, agregar conhecimentos sobre os fenômenos numa perspectiva
pluridimensional e interdisciplinar. Esses âmbitosreferem-seaumconjuntodeindagaçõesque
conduzemareflexõesarespeitodeobjetosefenômenoscompartilhadosentrepsicologiasociale
saúdecoletiva,comvistasàproduçãodeumareflexãodialética,que,alémdenãoprivilegiaruma
disciplina,comovínhamosdiscutindo,pretendenãoprivilegiartambémqualquerdimensãodo
campo da saúde para que este não seja reduzido à mera assistência nos serviços, por exemplo.
Com isso, registra-se a amplitude doconceitodesaúde,dasaçõesepráticasproduzidas
nesse contexto, pretendendo enfrentar as tendências frequentes de burocratização e de agir
instrumental, como estereotipia descrita por Pichon, que acabam por simplificar o complexo
processo saúde-doença, assim como a atuação e investigação nesse campo (Scarcelli, 2017)
151
8.4 (Meta)formação na pós-graduação
Aexperiênciadogrupoaquiconsiderado,aindaquenãoestejainscritanumprogramade
pós-graduaçãodesaúdecoletiva,tantosepautoucomotrouxecontribuiçõesparaessecamponos
últimosquinzeanos.Éumgrupoquesearticulaconsiderandoaproposiçãodeinterciência,ou
epistemologia convergente, conforme enuncia a psicologia social pichoniana; tem como
pós-graduandas(os) discentes com tiposdeformaçãotaiscomopsicologia,sociologia,educação
f ísica,terapiaocupacionalemoda,einserçõesprofissionaisnasáreasdasaúde,educação,justiça.
Alémdisso,vemdesenvolvendopesquisasqueproblematizampolíticaspúblicasemsetorescomo
saúde e educação, na interface com gênero, saúde mental, justiça, violência e permanência
estudantil (Rivera et al., 2019). Desse modo, as pesquisastrabalhamapartirdeáreasafinsque
também operam nas fronteiras.
Talexperiênciasedesenvolveapartirdacompreensãoqueseupróprioeixoarticuladoréa
formação em sentido amplo - o que inclui a autoformação - de modo a oferecer o
desenvolvimentodeposturaabertaparatransitarentrediferentesmodelosteórico-práticos,sem
perder a especificidade do conhecimento e da atuação na área e, desse modo, assumir
gradativamente a responsabilidade por sua própria formação, compreendida como contínua e
permanente.
O sentido é amplo também ao se ter como princípio a indissociabilidade do tripé
ensino-pesquisa-extensão, ou seja, do aprender-investigar-fazer. Isso, porquehápesquisascujos
objetossãoasatividadesdeextensãoeháprojetosdeextensãoqueseconstituemcomocampode
investigação; além de as interlocuções entre professoras(es), profissionais e pesquisadoras(es)
serem, essencialmente, atividades de ensino e extensão (Rivera et al., 2019). Assim, tal
experiência afirma e aprimora a indissociabilidade desse tripé, seja em disciplinas da estrutura
curricular, na articulação entre as atividades-fim do ensino de graduação, pós-graduação,
pesquisa, cultura e extensão, assim como no fortalecimento deprojetosvinculadosàspolíticas
públicas e sociais e ao investimento em políticas de permanência estudantil.
152
Compreensão similar estende-se também ao contexto do trabalho em saúde,
propondo-se integrar o tripé educação permanente, pesquisa em serviço, ou sistematização de
experiência, e assistência-gestão na formação contínua para os setores sociais.
A formação em sentido amplo é, portanto, o metaobjetivodessegrupoque,conforme
nos ensina a psicologia da práxis, se refere a processos de aprendizagem, de adaptação ativa à
realidade, como um itinerárioemespiralcontínuae“umaprenderaaprendereumaprendera
pensar” (Pichon-Rivière, 2005, p. 162) que integram estruturas afetivas, conceituais e deação
(sentir-pensar-fazer).
Tal compreensão está na base do desenvolvimento de atividades requeridas na
pós-graduação, principalmentenomododeconduzirasorientaçõesdepesquisaeasdisciplinas
oferecidas na estrutura curricular.
Uma disciplina incluída como parte dosdoisprogramasaquiconsideradoséofertadaa
discentesdediferentesunidadesdauniversidade,oquetemserefletidoemparticipaçõesapartir
dediversasáreasdoconhecimentoepráticas.Essadisciplinaobjetivadiscutirtemasrelacionados
às políticas públicas e à implantação de práticas na área de saúde e saúde mental, a partir de
questões e conceitos formulados no campo da psicologia social, tais como intersubjetividade,
grupos e instituições. Busca-se também refletir criticamente sobre desafios à pesquisa em
psicologia social no campo das políticas públicas de saúde, tomando-as não de modo
naturalizado, mas como resultado de processos sociais complexos compostos por tensões,
conflitos e lutas entre distintos interesses e projetos de sociedade. É um modo de indagar e
problematizarapolíticapúblicaeaestruturasocial,vendooEstadoemumaperspectivaampla,
não apenas reduzido à burocracia do poder executivo que implanta as políticas públicas
destinadas a uma dada população.
Essa disciplina agrega pós-graduandas(os) com formação em diferentes áreas e
oriunda(os) de outros programas de pós-graduação da própria universidade e de outras. O
desenvolvimento da prática pedagógica adotada, que é participativa e inspirada na técnica
operativa (Pichon-Rivière, 2005), possibilita um processo de avaliação contínua, o que tem
favorecidoaconstituiçãodeumarededediálogosentreestudanteseprofissionaisqueatuamem
diferentessetoressociais,especialmentenosetorpúblicodesaúde.Issotranscendeoperíodono
153
qual a disciplina foi realizada, resultando em outras atividades, como eventos eações,alémde
ciclos de aulas abertas que colocam o Sistema Único de Saúde em debate e possibilitam a
participação da comunidade externa à universidade.
As tradicionais orientações previstas nos programas de pós-graduação foram
reformuladas,demodoaseguiraperspectivapedagógicadialógicaeasfundamentaçõesteóricas
sobre processos grupais: são oferecidas prioritariamente na modalidade grupal, possibilitando
apoio à formação e autoformação depós-graduandas(os)apartirdodebatedesuaspesquisase
incentivoparacompartilhamentodeinvestigações.Essaferramentacolaboraparaaconsolidação
degruposdepesquisaeparaoaprimoramentodaatitudeinvestigativanecessáriaàproduçãode
conhecimentoseàconstruçãodepráticas.Taisatividadesdidáticasepedagógicasemperspectiva
participativa adotam um diálogo constante com o outro no contexto social, sendo esse um
processo de criação no qual todos se recriam.
O diálogo igualitárioédefundamentalimportânciaparaensino-aprendizagem,embora
considerando que, dissociada do ato investigativoedaproduçãodeconhecimento,aformação
correoriscodeserestringiramerotreinamentoouaformasdequalificaçãoqueresultemmenos
em atitudes criativas no processo de trabalho e mais na adaptação de pessoas a alguma lógica
burocratizada.
154
Além disso, é experiência que se inspira no modo de compreender educação como
paideia(Jaeger,1986)parapensaraformaçãoemsentidoamploquesemanifestanainstituição
acadêmica pelo princípio de indissociabilidadeensino-pesquisa-extensãoe,alémdeseuslimites
como aprender-investigar-fazer, pela disposição contínua para abertura e por meio da
autoformação.
Tal tarefa revela a complexidade com a qual nos deparamos no encontro entre áreas e
visões de mundo que se põememjogonaconstruçãodeumapráxis;noentendimentodeque
toda e qualquer investigação e prática não só indagam, mas modificam o saber e a prática
(Pichon-Rivière, 2005).
Destaca-se também o caráter complexo desse trabalho, pretendido interdisciplinar, ao
considerarmos que as situações desconhecidas, novas, exigem o abandonodeumsaberfazere,
por isso, apresentam-se como obstáculos epistemológicos e epistemofílicos (Pichon-Rivière,
2005),comocarênciadeestruturascognitivaseconceituaisquesemanifestamcomoresistênciaà
mudança, operando em um fazerestereotipado,fechadoeburocratizado.Enfim,otrabalhodo
grupo de pesquisa aqui considerado tem sido mobilizador e implicado, necessário ao diálogo
interdisciplinar,deacordocomapsicologiasocialdapráxis,pormeiodeatuaçõesintegradoras,
mediadorasdacirculaçãodediscursoscomafinalidadedeaprendizagemmútuadasdisciplinas,
como ação-reflexiva. Em diálogo com a saúdecoletiva,temnosensinadoqueessepodeserum
dosmodosderompercomofazerdeadiçãoousobreposiçãodesaberesparapoderoperarsobre
uma problemática comum a tarefa que nos articula: a saúde.
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157
Capítulo9
As manifestaçõesdepreconceitoediscriminaçãoétnico-racialconstituemapeçacentral
daengrenagemdoracismocontranegrosnoBrasil.Oracismoéintrojetadonaspessoaspormeio
decenaseatoscotidianosdepreconceitoediscriminação,implícitosounão,nosquaisaideiado
negro como inferior se sustenta e se mantém. Trata-se deumprocessoderetroalimentaçãono
qual o racismo gera as manifestações de preconceito e discriminação, sendo estas mesmas
manifestações que sustentam o próprio racismo.
Frente aos marcos regulatórios (leis, decretos, portarias, resoluções) e políticas de
promoção da igualdade étnico-racial no Brasil,apsicologiatemsido,cadavezmais,chamadaa
contribuir na compreensão das relações étnico-raciais. Este texto reflete sobre a formação de
psicólogosnotemadasrelaçõesétnico-raciais,comênfasenasrelaçõesétnico-raciaisentrenegros
e brancos no Brasil.
A hierarquia nas relações étnico-raciais entre brancos e negros no país só faz sentido
como relações de poder presentes em nossa sociedade. Ao mudarem-se as relaçõesdepoder,a
classificação dos aspectos tidos como “naturais”tambémmuda.Porém,ésemprecaracterístico
destasrelaçõesdepoderofatodeajustificativaparaasdiferençasrecairemalgumaspectoinato
oubiológico,comoacordapele.Assim,aatribuiçãodediferençascombasenopertencimento
étnico-racial ocupa uma dupla função nas relações de poder: ela tanto defende e protege a
distribuição atual de poder como tem uma função expiatória, isto é, permite o silenciamento
sobre a branquitude.
Oobjetivodestetextoécontribuirparaaformaçãoeatuaçãodepsicólogosquenassuas
várias frentes de trabalho têm sido interpelados pela construção sociocultural das diferenças e
158
desigualdades do ponto de vista da compreensão das experiências de alteridade, de poderede
intersubjetividade.
9.1 Formação e atuação de psicólogos no tema das relações
étnico-raciais
Para que a atuação do psicólogo não contribua para reprodução e persistência do
racismo, é fundamental que sua formação propicie um aprendizado que permita analisar
criticamente eintervirnasformasdetratamento,noacessoàsoportunidadesenossofrimentos
vinculadosàmaneirahierárquicacomosedãoasrelaçõesétnico-raciaisentrebrancosenegrosno
país.
Nas grades curriculares dos cursos de graduaçãoempsicologiararamenteencontramos
mençãoaotemadasrelaçõesétnico-raciaisnasdisciplinas,sobretudonasdisciplinasobrigatórias.
Estudos realizados com estudantes e psicólogos indicam que pouquíssimos tiveram
oportunidadededebatereconstruiraolongodesuagraduaçãoumpensamentocríticosobreo
tema (Araújo, 2002; Barcellos, 2016; Castelar & Santos, 2012; Santos, 2019; Santos &
Schucman, 2015).
Além de disciplinas que tratem das relações étnico-raciais nos cursos de graduaçãoem
psicologia, é importante desenvolver processos de ensino-aprendizagem quedialoguemcomas
experiências dos estudantes - ou a ausência das mesmas - a respeito desse tema.Osconteúdos
apresentados em sala de aula pelos professores de psicologia, para serem assimilados com
qualidade pelosestudantes,devemtomaremconsideraçãosuasvivências,demodoaafetá-lose
promover um aprendizado enraizado na experiência. Contudo, não é incomum que os
professoresdepsicologiaconsideremosestudantesapenascomoreceptáculosdeconteúdos.Por
conseguinte, conteúdos que poderiam ser assimilados e integrados com base no cotidianodos
estudantes acabam sendo transmitidos de maneira mecânica. Essa lógicadeensinoproduzum
vácuo entre o conhecimento adquirido e as realidades nas quais os estudantes irão atuar, e
dificulta qualquer posicionamento mais crítico ou criativo sobre os conteúdos ensinados
(González Rey, 2014).
159
Cabe refletir sobre oscurrículosdoscursosdegraduaçãoempsicologia.Taiscurrículos
deveriam resultar de compromissos assumidos para com a sociedade brasileira, buscando
soluções para os problemas enfrentados por ela ao desenvolver habilidades e competências
capazesdeprepararofuturopsicólogoparafazeradiferençaemseuscamposdeatuação.Porém,
a elaboração de um currículo nunca é imparcial, mas é o produto das relações de poder e da
hierarquização de conhecimentos presentes no espaço formativo que refletem determinadas
abordagens teórico-metodológicas e não outras (Padilha, 2004). Como constatou Miranda
(2013), abordagens teórico-metodológicastradicionalmenteestabelecidasepoliticamentefortes
sãoincorporadasnoensinodapsicologiapelofatodeseremasúnicaspossibilidadesdifundidas,
seja pela facilidade de acesso, seja pelo caráter normativodeuniversalidadequerepresentam,o
que engendra a falta de criticidade sobre os conteúdos difundidos.
No caso das relações étnico-raciais, além da tradição da psicologia social brasileira no
estudo do tema (Bicudo, 1945; Ginsberg, 1955; Leite, 1950), também existem produções
científicas atuais de qualidade. Contudo, por não estarem inseridas nos conteúdos das
disciplinas, acabam não sendo difundidas. Isso ocorre porque existe uma dificuldade dos
professores em trabalhar este tema e também porque as investigações sobre o mesmo são
consideradasespecíficas,fazendocomqueotemaacabesubsumidodentrodetemasmaisamplos
e universais como identidade, preconceito e exclusão. Nas palavras de Chagas (2017),
rata-se de questões políticas que envolvem a legitimação de determinados
T
conhecimentosemdetrimentodeoutros,soboescudodeumasupostaneutralidadee
universalismo acadêmicoqueescamoteiaideologiasexcludentesemtermosculturais,
étnico-raciais e de gênero (Chagas, 2017, p. 304).
160
Convém retomar os pressupostos apresentados por Martín-Baró (1996) e Montero
(2009), na construção de uma psicologia latino-americana capaz de realizar um “giro” que
descentreosconhecimentossobreospilaresdomododevidadocolonizador,emdireçãoauma
leituracontextualehistóricadenossarealidadeesobreosdesafioseproblemáticasdenossopovo,
desvelandoasrelaçõesdeopressãoepropondoplanosdetransformaçãoapartirdasnecessidades,
saberes e tecnologias que emergem do nosso cotidiano. Nesse sentido, investigar a história de
constituição do pensamentopsicológicosobrerelaçõesétnico-raciaisemfinaisdoséculoXIXe
suas transformações ao longo do século XX, oferece um caminho de reflexão sobre a própria
gênesedapsicologiaesuaatualidadenaproduçãodevisõesdemundoeserhumano(Cunha&
Santos, 2014, 2015; Masiero, 2005; Santos et al., 2012). Como afirma Martín-Baró (1996),
“ohorizonteprimordialdapsicologiadeveseraconscientização,seestápropondoqueoquefazer
dopsicólogobusqueadesalienaçãodaspessoasegrupos,queasajudeachegaraumsabercrítico
sobresipróprioesobresuarealidade”(Martín-Baró,1996,p.17).Énecessáriaaemergênciade
uma psicologia crítica pós-colonial que apresente, como afirma Montero (2009),
“um instrumento teórico-metodológico para transformar situações psicossociais de injustiça e
desigualdade, a ação e os atores psicológicos que nelas intervêm e a psicologia mesma daqual
provêm” (Montero, 2009, p. 88).
Segundo Martín-Baró (1996), antes de buscar estabelecer o âmbito de estudo da
psicologia,éimportanteseateraocontextonoqualelaestáinserida,pois“asdefiniçõesgenéricas
procedentes de outros lugares trazem uma compreensão de nós mesmos e dos outros, muitas
vezes,míopediantedasrealidadesqueamaioriadosnossospovosenfrenta”(Martín-Baró,1996,
p.8).Estaquestão,noentanto,nãoestarianoâmbitodasintençõessubjetivasquecadapsicólogo
tem da profissão, mas sim no quefazer da psicologia, no efeito objetivo que a atividade da
psicologiaproduznasociedade.Assim,tornam-sesólidasqueixascomoasdequeapsicologiase
dedicamajoritariamenteaossetoresmaisricosdasociedade,alémdeseateràindividualizaçãodas
demandas trazidas pelas pessoas que atende. Isto tende a naturalizar as questões do contexto
sociale,consequentemente,servircomoinstrumentoparaareproduçãodasestruturassociaisde
poder. Segundo Dimenstein (2000), a psicologia cresceu noBrasilcomosuportecientíficodas
ideologias dominantes e exerceu muito pouco o papel questionador e transformador das
161
instituições e das relações interpessoais. Quanto a isto, a autora pontua que a psicologia
“penetrou em toda a sociedade sem estar necessariamente comprometida com a produção de
conhecimentos na perspectiva de transformação daspráticaseideologiasdominantesemnossa
sociedade” (Dimenstein, 2000, p. 103).
Dessa forma, o ensino de psicologia acabou se voltando para treinar o indivíduo a
adaptar-se às circunstâncias ambientais, assumindo valores relativos como normais para o seu
comportamento. Este paradigma acaba consolidando a imagem do psicólogo voltado para a
clínica dentro do modelo tradicional do atendimento individual. Esta é, portanto, a imagem
mais conhecida e valorizada do psicólogo e que acaba conduzindo a formação dos cursos de
psicologia no Brasil. Isto gera concepções, por exemplo, de que os psicólogos, dentro de uma
visão universalistadoserhumano,acreditemquesejaprejudicialconsideraracor,raçaouetnia
dos usuários. Com isto, podem ocorrer problemasprincipalmentenaatuaçãodopsicólogono
campo da assistência pública (social e desaúde),poisaspessoasatendidas,geralmentedebaixa
renda, possuem demandas que diferem substancialmente das que são atendidas na clínica
privada e para as quais a formação do psicólogo é direcionada.
O contexto no qual a psicologia éaplicadanoBrasilexigequeoscurrículosdialoguem
profundamentecomarealidadesocial.DeacordocomChagas(2017),estudantesdepsicologia
recém-formados,aoingressaremnomercadodetrabalho,sãoconfrontadosemsuapráxiscoma
parcialidade dos repertórios (conteúdos e habilidades) adquiridos na formação, que é
notadamente eurocêntrica, tanto em termos de referenciais teórico-metodológicos quanto de
prática.
Dessemodo,éimportanteestimularaçõesnoâmbitodoscurrículosedasdisciplinasde
psicologia que promovam maior interface com as pautasdetrabalhodoSistemaConselhosde
Psicologia,doMinistérioPúblico,dosmovimentossociais,dentreoutros,bemcomoaçõesque
estimulemoletramentoétnico-racial(Twine&Steinbugler,2006)dosestudantesdepsicologia.
Tal letramentoenvolvebasicamente:odesenvolvimentodeumvocabulárioedeumagramática
que possibilitem a discussão sobre relaçõesétnico-raciais;acompreensãodoracismocomoum
problema atual e nãoumlegadohistórico;oentendimentodequeasidentidadesétnico-raciais
são resultado de práticas sociais; a capacidade de traduzir e interpretar códigos e práticas
162
racializados na sociedade; a análise dasformascomooracismoémediadopeladesigualdadede
classe, hierarquias de gênero e heteronormatividade; e o reconhecimento do valor simbólico e
materialdabranquitude(Santos&Schucman,2015;Schucman,2014).Currículosmaiscríticos
poderiam ampliar essas discussões, ainda demasiado escassas no âmbito da formação do
psicólogo.
Lisboa e Barbosa (2009) investigaram as características dos cursos de graduação em
psicologia ofertados no Brasil no final da primeira década do século XXI. De acordo com os
autores, existiam naquele momento 396 cursos de psicologia em atividade no país - a grande
maioria,istoé,aproximadamente84%,sobreincumbênciadeinstituiçõesdeensinoprivadas.Tal
perfil dos cursos depsicologianãosealterounasegundadécadadosanos2000,prevalecendoa
proeminência das instituições de ensino privada naformaçãodospsicólogosnoBrasil(Santos,
2019). Nessas instituições,otripéensinoxpesquisaxextensãoquasesempreédeixadodelado
em função de adequações administrativas ao mercado de educação superior, notadamente
voltado para otimização de custos. Além disso, as possibilidades de estágios curriculares
obrigatórios para os estudantes de psicologia limitam-se, em geral, às clínicas-escola dessas
instituições, tendo em vista que muitas vezes têm dificuldades de estabelecer convênios com
equipamentos públicos, a exemplo do Sistema Único de Saúde (SUS) e do Sistema Único de
AssistênciaSocial(SUAS),ondeseconcentram,atualmente,demandasmaisassociadasaotema
das relações étnico-raciais, como garantia de direitos humanos e cidadania.Talsituaçãoimpõe
um caráter tecnicista paraaformaçãodessesestudantesdepsicologia,comfoco,sobretudo,em
abordagens clínicas individualizantes que têm na psicanálise seu principal referencial
teórico-metodológico.
Osestágioscurricularesobrigatóriosemequipamentospúblicossãoumlocalimportante
para os estudantes de psicologia adquirirem experiência no trato das relações étnico-raciais. A
ausência ou a discussão incipiente desse tema na graduação em psicologia é umreflexodesua
presença ou não nos estágios curriculares. Na medida em que as relações étnico-raciais não
encontramespaçonessesestágiosepassamaserincorporadaspelasdisciplinasapenascomomais
umobjetodeestudo,ficadifíciltransformaraformaçãodofuturopsicólogonoquedizrespeito
à relevância das relações étnico-raciais.
163
Em levantamento de disciplinas de psicologia que abordam o tema das relações
étnico-raciaisnoscurrículosde10cursosdegraduaçãoe8depós-graduaçãodasinstituiçõesde
ensinosuperiormaisprestigiadasdaregiãometropolitanadeSãoPaulo,Santos(2019)encontrou
15 disciplinas de graduação e 14 de pós-graduação. A análise das ementas destas disciplinas
evidenciou que o racismo apareceu como tópico mais trabalhado, com ênfasenoestudodeste
fenômenoapartirdaliteraturadeantropologiaesociologia,sugerindoqueofocodasdisciplinas
não é o que apsicologiaespecificamentetemadizer.Nessesentido,notou-sepoucoacessoaos
estudos clássicos e atuais de psicologia sobre relações étnico-raciais, indicando uma baixa
circulação e apropriaçãodesseconhecimentoe,talvez,umadificuldadeouresistênciaporparte
dos professores em lidar e trabalhar com o assunto. Alémdisso,dasdisciplinasdegraduaçãoe
pós-graduação na instituição de ensino com maiornúmerodedisciplinas-10-,todaseramde
responsabilidade do mesmo docente. O que revela que a presença ou não do tema relações
étnico-raciais envolve, principalmente, a iniciativa docente. Tal aspecto aponta para a
importância de uma investigação mais detalhada junto aos professores de psicologia.
Ademais,convémdestacarqueapenasemumadisciplinadepós-graduaçãoconstatou-se
a preocupação em propor leituras, discussões e/ou debates sobre aidentidadeétnico-racialdas
pessoasbrancas.Oquemostraqueabranquitude,comoelementodeconstruçãodaidentidade,
nãoemergiucomoalgoaserpercebidoeanalisado,equeaconcepçãodequeaspessoasbrancas
tambémsãosujeitosracializadosaindaéincipiente.Logo,épossívelafirmar,grossomodo,queas
disciplinasdegraduaçãoepós-graduaçãoempsicologiaproblematizarammuitomaisa“questão
étnico-racial” do que propriamente as relações étnico-raciais, já que focalizavam, em geral, o
racismoeseusefeitosapenassobreosnegros,deixandodediscutiroenvolvimentoeopapeldas
pessoas brancas na perpetuação e propagação desse fenômeno.
Compreendendo o compromisso socialdapsicologia,sobretudo,naspolíticaspúblicas,
faz-se necessário pensar em duas frentes de intervenção: estratégias individuais e coletivas
(Dimenstein, 2001), que impliquem tanto as pessoas negras e as formas de
superação/enfrentamento do preconceito e discriminação étnico-racial, quanto à entrada das
pessoasbrancasnoreconhecimentodeseusprivilégioseconômicos,sociaisesimbólicosherdados
desdeofimdoperíodocolonialnoBrasil.Assim,ocombateaoracismoporpartedapsicologia
164
pode tornar-se mais efetivo do que temsido.Issoporquenocampodaspráticas,ospsicólogos
ainda não operacionalizam a produção da psicologia científica no tema das relações
étnico-raciais,quebuscacontribuirparaadiminuiçãodopreconceitoediscriminaçãoenquanto
efeitospsicossociaisdoracismo.Talproduçãocientíficatemmostradooquantooracismoainda
influencia de forma negativa a construção das relações humanas, manifestando-se de forma
indireta(Nunes&Camino,2011),emdiversasexpressõesdeviolênciacontraapopulaçãonegra
(Nunes, 2006) e através de processos de infra-humanização dessa população(OliveiraLima&
Vala,2005),equeproduzemefeitossobreasaúdemental(Faro&Pereira,2011).Nessesentido,
as produções da psicologia, enquanto ciência, mostram que o preconceito e a discriminação
étnico-racial oriundos do racismo ainda não foram superados em nenhuma dimensão, sejam
estas subjetivas, simbólicas ou sociais. Ademais, o racismo mantém a população branca com
privilégios materiais e simbólicos, o que evidencia que práticas interventivas mais eficazes
implicam no reconhecimento da identidade étnico-racial das pessoas brancas.
Por outro lado, o desconhecimento ou resistência à construção de novos fazeres que
incluam a produçãocientíficasobreasrelaçõesétnico-raciaisnoBrasilporpartedospsicólogos
emsuaspráticas,podeindicarotensionamentoentreinstituídoeinstituintenapsicologiaeum
pacto pela manutenção do status quo. Ou seja, ao negar-se aincorporaremsuaspráticasuma
questão socialmente legitimada pela própria psicologia enquanto ciência e referendada por
marcos regulatórios específicos de atuação da própria categoria profissional, estes profissionais
perpetuam o silêncio sobre a violência do racismo e seus efeitos psicossociais.
É tarefa urgente que os psicólogos brasileiros incluam as relações étnico-raciaisemsua
prática profissional, cumprindo o princípio fundamental da profissão de contribuir para
eliminar quaisquer formas de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e
opressão - todasestascaracterísticasdoracismo.Marcosregulatóriosesubsídiosteóricosparao
enfrentamento do racismo e seus efeitos psicossociais pela psicologia já existem. Dentre tais
marcos regulatórios destacamos: a “Resolução 18” criada em 2002 pelo Conselho Federal de
Psicologia(CFP),queofereceumconjuntodediretrizesparaatuaçãodospsicólogosemrelação
ao preconceito e à discriminação étnico-racial; e as “Referências técnicas para prática de
165
psicólogas(os)empolíticaspúblicasderelaçõesraciais”,criadaem2013peloConselhoFederalde
Psicologia, para qualificar a atuação desses profissionais.
Este último documento do CFP foi dividido em 5 eixos que focalizam: os marcos
regulatóriosparaatuaçãodopsicólogonotemadasrelaçõesétnico-raciais;asdefiniçõesderaça,
preconceito, discriminação e racismo; as especificidades do racismo e sua manifestação nas
políticaspúblicas;ahistóriadapsicologianacompreensãodasrelaçõesétnico-raciaisnoBrasil;a
atuação do psicólogo na desconstrução do racismo e promoção da igualdade; e o ensino em
psicologia sobre o tema. O documento aponta que a promoção da igualdade, do respeito à
diversidade e da equidade em saúdesãofundamentaisparaoenfrentamentodoracismoeseus
efeitos psicossociais. Aponta ainda como recomendações para os psicólogos que atuam em
políticaspúblicasanecessidadedeinclusãodoquesitocor-raçanosbancosdedadosdosusuários
dos serviços e a sensibilização de gestores e profissionais desses serviços no tema das relações
étnico-raciais (Conselho Federal de Psicologia, 2013).
Em relação ao ensino em psicologia, o documento do CFP defende que além de
disciplinas específicas que abordem oracismo,tambémsetrabalheasidentidadesétnico-raciais
de forma positivada, com apresentação de exemplos de como os psicólogos podem atuar na
desconstruçãodopreconceitoediscriminaçãoétnico-racial.E,também,queotemadasrelações
étnico-raciais seja inserido transversalmente na formação do psicólogo, para que os efeitos
psicossociaisdoracismoembrancosenegrossejamcompreendidoscomofatoresimportantesna
constituição dos indivíduos (Conselho Federal de Psicologia, 2013).
Outrossim, a identidade de um profissional de psicologia constitui-se tendo por base
elementos da sua experiência pessoal, da sua formação e do próprio fazer profissional,
conduzindo a posicionamentos e ações que vão desenhando gradualmente a prática. Por
conseguinte, não basta apenas aquisição de repertórios e marcos regulatórios para balizar o
exercíciodessaprofissão.Énecessáriolevaremcontatambémoqueesteprofissionalpensasobre
simesmoeaquiloqueasuaformaçãoeocamposocialreforçamnelenoquedizrespeitoaosseus
lugares de pertencimento étnico-racial, social e cultural.
Nessa direção, é fundamental abordar com profundidade as relações étnico-raciais nos
cursosdegraduaçãoempsicologiaparaqueosestudantes:aprendamautilizarascategoriascor,
166
raça,etnia,quepermitemanalisarmodosdesubjetivaçãoesofrimentosprovenientesdoracismo;
reconheçamqueopreconceitoediscriminaçãoétnico-racial,aomesmotempoemquefavorecea
violação de direitos de determinados grupos, gera privilégios para outros; e para que sejam
interpelados a se posicionarsobreisso.Demodoque,assim,elespossamlidardemaneiramais
adequadacomasrelaçõesétnico-raciaisecomosefeitospsicossociaisdoracismoemsuaatuação
profissional.
Opertencimentoétnico-racialinterferedistintamentenaatuaçãodospsicólogos:sejana
aberturaesensibilidadeparaescutadossofrimentosprovenientesdopreconceito,discriminação
e racismo; nointeresseeaprofundamentosobreotemadasrelaçõesétnico-raciais;namaiorou
menor segurança nas práticas em relação ao tema; assim como numa provável legitimação ou
deslegitimação tácita de suas habilidades junto àspessoasqueatendem,sobretudonocasodos
psicólogos negros.
Para Nogueira (2013), as pessoas de cor de pele branca que aceitam acriticamente os
privilégios advindos da branquitude, vivendo numa condição de supervalorização de sua
aparência e herança cultural, tendem a produzir uma “barreira psicológica” que as impede de
reconheceroutrasformasdesercomoiguais.Porconseguinte,perceberoprópriopertencimento
étnico-racial e construir uma crítica à branquitude são duas condições essenciais para que os
psicólogosbrancosconsigamdesenvolverpráticasefetivamentecomprometidascomapromoção
da igualdade étnico-racial e de mitigação dos efeitos psicossociais do racismo.
Além disso, é fundamental desconstruir as concepções universalistas presentes na
psicologia que reproduzem um modelo único de ser humano, o qual repercutenasformasde
atuaçãonormativadospsicólogos.Paraisso,apsicologiadevereverasimesma,tendoporbasea
tarefacriativadeumaproduçãodeconhecimentocapazdetrocarsuasconcepçõescolonizadase
assujeitadas à dominação pelo imperativo categórico do quefazer, no resgate de seu papel
enquantociênciaqueolhaparaopassadoefazdissoforçamotrizparanãoreproduzirdinâmicas
sociaisquesustentamadesigualdade.Umarevisãoqueajudeessaciênciaeprofissãoanãoseguir
atuando como coadjuvante nas estratégias de dominação e no silenciamento das populações
atingidas pela violência do racismo. Nesse sentido, destaca-se a necessidade de incorporar a
167
raça-etnia como categoria a ser considerada no atendimento psicológico, dada sua relevância
como indicador de condições de saúde e importância sobre a formação das identidades.
Nessa mesma direção, é importante desenvolverprocessosdeensino-aprendizagemque
favoreçamodiálogosobreasrelaçõesétnico-raciaisevalorizemasexperiênciasdosestudantesno
tema,permitindoaaberturadosuniversosdelocuçãoparaasrelaçõesétnico-raciais,comvistasa
contribuirparaformaçãodeprofissionaismaissensíveisecomprometidoscomotema.Segundo
Castelar e Santos (2012) esse trabalho de conscientização/sensibilização de estudantes de
psicologia sobre as relações étnico-raciais no Brasil, pode contribuir para o enfrentamento de
uma realidade social atravessada por relações historicamente desiguais (de poder e saber),
possibilitando um engajamento mais efetivo no enfrentamento do racismo pela psicologia
enquanto ciência e profissão.
Para desenvolver novos posicionamentos e práticas sobre as relações étnico-raciais, é
fundamental reposicionar a psicologia em relação ao tema. Ciente deste desafio e alinhado às
diretrizes para atuaçãoempsicologianoâmbitodasrelaçõesétnico-raciaispropostaspelaCarta
de Salvador, promulgada no Conselho Regional de Psicologia 6ª Região, e considerando os
resultados e lições aprendidas com outras pesquisas sobre o tema, finalizamos este texto
apresentando algumas recomendações para a pesquisa, às instituições de ensino, o Sistema
Conselhos e Entidades de Psicologia e para a atuação dos psicólogos.
Quantoàpesquisarecomenda-seaproduçãodeconhecimentosdosefeitospsicossociais
doracismo,istoé,dopreconceito,dadiscriminaçãoedahumilhaçãosocial,sobreasaúdemental
da população negra. Também é importante avançar na investigação sobre a branquitude por
meio de estudos sobre como as pessoas brancas concebem as relações étnico-raciais e são
interpeladas ou não pelos privilégios materiais e simbólicos herdados desde o período da
colonização no Brasil.
Para as instituições de ensino em psicologia recomenda-se em relação aos currículos:
ampliar o escopo dos conteúdos ministradosnasdisciplinasdegraduaçãoepós-graduaçãoque
168
tratam da história da psicologia no Brasil, de modo a explicitar a relevância das relações
étnico-raciais,enquantoobjetodeestudo,naconfiguraçãoeconsolidaçãodessaciêncianopaís;
incluir nas disciplinas ministradas nos cursos de graduação e pós-graduação em psicologia,
referenciais teórico-conceituais provenientes de saberes africanos e afro-brasileiras que
contribuamparacompreensãodoscondicionantesedinâmicasdasrelaçõesindivíduoxgrupona
sociedade brasileira; oferecer estágios curriculares obrigatórios e supervisão para estágios
extracurriculares, durante a graduação, que permitam aos estudantes de psicologia vivenciar e
adquirir experiência no tema das relações étnico-raciais.
Tambéméimportantedesenvolverestratégiasdidáticascomo,porexemplo,dinâmicasde
grupo, círculos restaurativos, dramatizações, que favoreçam a produção de letramento
étnico-racial (gramática para o diálogo sobre o tema) e que permitam abordar de forma
interseccionalasrelaçõesétnico-raciais,incluindosuainterfacecomoutrosmarcadoressociaisda
diferença, como gênero, classe social, sexualidade e religiosidade.
Em relação ao Sistema Conselhos e Entidades de Psicologia, recomenda-se: promover,
por meio de eventos e ações de advocacy, a articulação entre instituições de ensino superior,
serviçospúblicos,movimentossociaiseorganizaçõesdasociedadecivil,comvistasafortalecere
aprofundar o conhecimento, o diálogo e a atuação dos psicólogos no âmbito das relações
étnico-raciais;elaborareproduzirmateriaisdeIEC(Informação,Educação,Comunicação)sobre
as relações étnico-raciais que contribuam para aprimorar e ampliar a atuação do psicólogo no
tema; fomentar ainclusãodetemasafinsàsrelaçõesétnico-raciais,comoporexemplo,racismo,
preconceito, discriminação e humilhação social em documentos de referências técnicas e nos
conteúdos dos editais de concursos de ingressos de psicólogos nos serviços públicos.
Porfim,destaca-sequeospsicólogosemsuasdiversasáreasdeatuaçãodevempromovera
igualdadeétnico-racialedesenvolverumaposturapró-ativanocombateaoracismo,acolhendoe
ajudando a significar as experiências de sofrimento produzidas pelos seus efeitos, bem como
oferecendoassistênciapsicossocialparaosfamiliares,parenteseamigosdasvítimasdogenocídio
da população negra, em curso no país desde a escravidão.
169
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172
Capítulo10
Os serviços constituem um dos pilares que sustentam a formaçãoemPsicologiaSocial
que desejamos e almejamos. Através dos/as alunos/as, da equipe técnica e dos núcleos de
intervençãoepesquisa,osserviçosatuamdiretamentecomapopulaçãoeassimnosinformama
respeito da efetividade e alcance das nossas práticas, e da própria capacidade explicativa das
teoriasquefundamentamnossaaçãoprofissional.Sendoassim,estecapítulovisadebatercomo
vemsedandoaarticulaçãoentreosserviçoseasaladeaula,assimcomoarelaçãoentreosserviços
e os estágios, a partir da experiência singular do Serviço de Orientação Profissional (SOP)
vinculado ao Departamento de Psicologia Social e do Trabalho do Instituto de Psicologia da
UniversidadedeSãoPaulo(PST-IPUSP),quejátemmaisde50anosdeexistência.Singular,mas
que carrega elementos gerais da estrutura e dinâmica dos serviços de atendimento psicossocial.
Iremos,aolongodestecapítulo,tentarexplorarasváriasdimensõesefacetasdosserviços
deatendimentopsicossocial,principalmenteanalisandoseulugaresuaimportânciacomoparte
constituinte da formação em psicologia, enfatizando os impactos para os/as alunos/as, para a
173
sociedade como umtodo,paraascomunidadesqueacompõeeparaaprópriareconstruçãoda
psicologia como ciência e profissão.
Emnossacompreensão,serviçosdeatendimentopsicossocialsedefinemcomopráticasque
buscam atuar e intervir na relação entre pessoas e contextos, incluindo tanto as pessoas
diretamente atendidas, quanto a comunidade como parte corresponsável pela organização do
cuidado.Produzreflexãoe,simultaneamente,geraaação.Buscamudançacombasenaspessoas
atendidas e na análise crítica das relações socioculturais cotidianas daqueles/as direta ou
indiretamente vinculados/as à pessoa atendida. Se diferencia, desta maneira, dos serviços
psicológicosclássicosqueatuamnaspessoasexclusivamente.Éporcontadisso,quetendemase
estender para o social para que possam acontecer, não se restringindo a intervenções em seus
próprios espaços de existência (vide Afonso, 2011; Paiva, 2013; Ribeiro et al., 2023).
10.1 A importância dos serviços: o social não deve ser uma abstração e
Um ponto de partida para nossa análise é que os serviços de atendimento psicossocial
possibilitam a transformação do social de uma abstração teórica para uma experiência viva,
resultante das diversas relações com as várias comunidades quecirculampelosserviçosgeradas
pelas práticas realizadas (McNamee, 2012; Rascován, 2017; Ribeiro, 2021).
Os serviços permitem este contato e experiência de estar com os/as diversos/as e
diversificados/as agentes sociais (alunos/as, participantes de pesquisa, clientes, docentes,
técnicos/as e usuários/as), forjados/as em contextos socioculturais e econômicos heterogêneos
(academia, universidade, sociedade, comunidades, instituições) e que estão nos serviços de
maneiras e por motivos distintos. Isto gera uma plurivocalidade nos diálogos e relações
estabelecidoseumapluralidadedeformasdeestar,construindoereconstruindoanoçãodoque
seria o social (Gergen e Warhuss, 2001; Grandesso, 2011; Ribeiro, 2017).
Em geral, os serviços têm docentes como coordenadores/as e são compostos por uma
equipe de técnicos/as especializados/as que estão na ponta com os/as alunos/as, coatuandona
linha de frente da prática profissional, sendo, na maioria das vezes, os/as tutores/as da
174
aproximação gradativa da atuação profissionaldos/asalunos/asemformação.Istodeixaclaroa
importância central tanto do/a docente, como da equipe de técnica especializada permanente
para que um serviço possa atuar plenamente (Carvalho, 1995; Lehman e Uvaldo, 2001).
Os serviços, portanto, têm que lidar com as dimensões sociais, culturais, políticas e
econômicasarticuladascomaformação,eumespaçonoqualestavicissitudeficaexplícitaéasala
de espera dos serviços (Lehman e Silva, 2001). Apartirdenossaexperiência,podemosafirmar
queassalasdeesperaatuamcomoumaespéciedetermômetrodaestruturaedadinâmicasocial,
embora seja uma sínteseincompleta,poisnemtudochegaàuniversidade-quenãoéumlugar
quetodos/asfrequentam(ousesentemautorizados/asaestar)dasociedade.Istosedámuitoem
função de questões das relações de hierarquização social que estabelecem níveis de poder
diferenciados entre as pessoas, numa relação de dominação-subalternização, através da qual
também se determina que lugar cada pessoa pode estar socialmente falando (Bourdieu, 1993;
Ribeiro, 2022a).
Assim,asaladeesperaé,simultaneamente,umgrandedesafioeumaoportunidadepara
repensar a psicologia como um todo, pois as mudanças do público que chega aos serviços
indicam tendências do que está mudando nomundodeformageral,eo/aaluno/atemquese
haver tanto com o vigente quanto com as demandas emergentes (Lehman eSilva,2001).Este
contato tanto com o vigente, quanto com o emergente, permite a reflexão sobre o alcance
conceitualedaspráticasaprendidasaolongodaformação,apontandoqueaformaçãoésempre
processualerequeratualização,poisomundosetransformaconstantementeeaPsicologiadeve
acompanhar este processo (Duarte, 2011; Gergen, 2020; Guichard, 2012, 2022).
NocasodoSOP,écomumrecebermosencaminhamentosesermosbuscadosporpessoas
quenãoseriamatendidasemoutrolugardevidoàssuasparticularidadespessoaise/ousociais.Os
atendimentos em orientação profissional e de carreira (OPC) em instituições, escolas e
organizaçõesnão-governamentais(ONGs)sãocaracterizadosporatenderjovensemprocessode
escolhadeumcursosuperior,quetambémsãoumafatiasignificativadaspessoasqueprocuram
o SOP. Assim, a abertura para atender/conhecer/estudar diferentes populações faz com que
pessoas diversas, marginalizadas ou vulnerabilizadas busquem auxílio para suas decisões de
estudo, trabalho e profissão.
175
Pela prática, o/a aluno/a consegue avaliar sua formação e compreender que ela é um
ponto de partida, mas jamais será completa, pelo fato de lidarmos na nossa atuação-comojá
referido - com pessoas diversas, de contextos socioculturais distintos, com histórias de vida
complexas ediversificadaseemummundoemconstantemudanças-principalmenteomundo
dotrabalho.Teoriaepráticatêmqueconceberosocialcomorealidade,nãocomoabstração,para
poderem ser significativas e auxiliarem concretamentepessoasemsuasmaisvariadasdemandas
(McNamee, 2012; Ribeiro, 2022b; Sultana, 2017).
Outro ponto importantíssimo é a concepção de que a prestação de serviços está
vinculada e condicionada à formação em seus vários níveis (graduação, aperfeiçoamento,
mestradoedoutorado,pós-doutorado,formaçãocontinuada),nestaordem,nãonoinverso-ou
seja,aoformaralunos/asatendemosapopulação,enãoatendemosapopulaçãoeos/asalunos/as
contribuem neste processo.
Esta concepção viva é que possibilita o/a aluno/a, ao sairdauniversidade,enfrentaros
desafios da profissão, sendocentralparacompreendermosaestruturaeadinâmicadosserviços
que, na nossa compreensão, existem em funçãodaformaçãodealunos/aseseestendemparaa
comunidade para que eles/as possam experimentar, de maneira concreta, oserpsicólogo/aem
uma situação real de intervenção. Do contrário,osserviçospodemserdemandadosasetornar
mais um espaço de prestação de serviços à comunidade com compromissos de atender um
contingente grandedepessoas.Osserviçospodematenderumademandaconsiderável(nocaso
do SOP, cerca de 300 pessoas/ano), no entanto, ela deve serdefinidaapartirdasdemandasde
formação, e não o contrário.
Tendo como ponto de partidaaformação,masoferecendointervençõesdequalidadeà
comunidade, por igualmente ser um espaço de investigação científica, os serviços, assim, se
configuram tanto como espaço de autorização para alunos/as serem profissionais ao
reconhecerem e legitimarem suas práticas, colocando a formação em ação, quanto como
autorizaçãoparaqueasmaisvariadaspessoasentremnauniversidadeesebeneficiemdoqueela
176
oferece em termos de atençãopsicossocial.Apartirdesteolharampliadoparaosocioculturale
econômico, gerado pelo fato do SOP se situar na Psicologia Social, como pensaroserviçoem
uma universidade pública como a USP?
extensão e pesquisa
A experiência de mais de 50 anos do SOP-PST-IPUSP, nos permitiu concluir que os
serviços produzem e são produzidos relacionalmente por uma teia entre formação, extensão e
pesquisa(Carvalho,2001).Acirculaçãoeotrânsitodepessoaseagentessociaisdiversosentresi,
com contextos de formação múltiplos, permitem a produção de uma teia que vai reunir
formação, extensão e pesquisa, de forma articulada: quase tudo ao mesmo tempo agora.
Enquanto vive a formação, o/a aluno/a está atendendo - simultaneamente, estamos fazendo
pesquisaeprestandoserviçoàcomunidade,emumamesmaação.Assim,podemosdizerqueos
serviçossãoespaçosondeestaarticulaçãoseconcretizadeummodomaissimplesedireto.Ateia
entreformação,extensãoepesquisafazcomqueauniversidadeseestendaparadentroeparafora
de seu território, produzindo uma rede de teias (Latour, 1994).
Emumprocessoconstanteegradativodeirevir,umarededeteiasseformaentreoutros
serviços de OPC existentes, grupos de pesquisa (nacionais e internacionais), espaços
socioculturais distintos (escolas, organismos - como a Organização Internacional do
Trabalho-OIT -, movimentos sociais e culturais, empresas, instituições públicas, entre outros)
em um movimento de ir até estes espaços, retornando, mas também recebendo agentes
socioculturais destes espaços na universidade, produzindo um diálogo intercultural e híbrido,
sendo impossível prever as resultantes a priori, mas com potencial de gerar transformações e
mudanças (Bilon-Piórko et al., 2023; Latour, 1994). Em suma, a articulação entre demandas
regionais,nacionaiseinternacionais,resultandoemolharesdecaráterglobalelocal,sãoprodutos
oriundos dos serviços (Berry, 2013).
É importante marcar que o receber na universidade é tão importante quanto o ir aos
demais territórios, pois, espontaneamente, nem tudo chega na universidade - por barreiras e
177
obstáculosdasmaisvariadasordens,principalmentedeterminadospelahierarquizaçãosocial,na
qual a universidade ocupa um lugar superior distante ou impedidoparamuitosporcontadas
relações de dominação e subordinação sociocultural e econômica que estruturam nossas
sociedades, como já apontado anteriormente por Bourdieu (1993).
Faz-se necessária uma busca ativa pois, apesar dadiversidadebateràportadosserviços,
partedasociedadenãochegaàuniversidade,etemosqueirbuscarativamentediálogoetrabalho
conjuntos. Uma estratégia que tem se mostrado interessante sãoasparceriascommovimentos
sociais, culturais e comunitários organizados (Ribeiro, 2021).
Ir em direção a, abrindo diálogo, não indo oferecer um saber ou uma prática já
consolidados, é uma ação de enfrentamento deste modus operandi de estruturação edinâmica
socialdominante.Carregaapotênciadesercontra-hegemônico,comosugeriuFreire(1970),ao
dizer que toda prática se realiza com pessoas, não para pessoas,reconhecendocomoválidosos
diferentes saberes e fazeres de todos/as os/as envolvidos/as no processo de intervenção, como
igualmente recomendam Blusteinetal.(2019),Hooley,SultanaeThomsen(2021)eRascován
(2017).
Estapráticadeconstruirconhecimentoseintervençõesemcolaboraçãovaiapresentando
ao/à aluno/a a ideia de que, se há pontos de partida para a atuação profissional, conceitual e
tecnicamentefalando,elessemprerequeremmudançasemfunçãodopúblicocomoqualseestá
trabalhando, fomentando-se assim a prática de formação e especialização continuada tão
necessária à atuação profissional em psicologia. Como preconiza a ética em psicologia, ser
competenteparaatuaréumpreceitoético,poispossibilitaquevocêauxilieo/aoutro/aquelhe
demandaajudademodomaisplenoecontextualizado.Lembrandoqueatenderalguémtetorna
corresponsável pela vida desta pessoa (Ribeiro, 2009).
10.4 Serviços: porta de entrada de demandas sociais emergentes –
Uma pergunta que geralmente é formulada, tanto pelos/as alunos/as, quanto pelas
pessoasquenosprocuramnosserviços,ésetemosummodeloparatrabalharcomestaspessoas
178
ouestesterritórios.Nossaexperiêncianosdizquearespostamaisfrequenteénão.Nessesentido,
o desafio é não adaptar a demanda que chega ao existente, mas buscar reconstruir nossas
concepçõesepráticasatravésdacoconstruçãocomos/asagenteseterritóriosnumadialogicidade,
na qual a produção de saberes e fazeres acontece na interlocução entre todos/as os/as
envolvidos/as,diretaouindiretamente,noprocesso.Istonosfazassumirumaecologiadesaberes
ebuscarumaproduçãodeconhecimentoseestratégiaspelodiálogo(Freire,1970),gerandoum
híbrido que é formado pela articulação com o que já existe, para ser coerente e apropriadoàs
pessoas e contextos com quaisestamosconstruindointervenções(Madeira,2010).Umhíbrido
guarda a potência de questionar o instituído, romperformasdepodervigenteseproporações
mais equânimes (Latour, 1994).
A construção é sempre coconstrução entre todos/as os/as envolvidos/as – alunos/as e
técnicos/as, por um lado, e agentes sociais e territórios, pelo outro, com o o/a docente como
intermediário/a do processo, colocando alunos/as de níveis distintos, o que já impõe uma
assimetria de conhecimentos e poder, dialogando com agentes sociais, o que impõe outra
assimetria de conhecimentos e poder (Ribeiro et al.,2021).Visadeixarclaraestasassimetriase
poder coconstruir em colaboração: forjar com aspessoas,nuncaparaoupelaspessoas,citando
novamente Freire (1970).
Diantedeumademandadirigidaaoserviço,aaplicaçãosimplesdeumaestratégianãose
constitui, em geral, na formamaisfrequente,sendoquasesemprenecessáriaumareconstrução
do instituído ou, muitas vezes, uma inovação diante do inexistente (Ribeiro, 2022b). Quanto
mais distante da caracterização das pessoas que dada prática se propõe a auxiliar, maior a
necessidade de recriação desta prática, o que é extremamente formativo para o/aaluno/aelhe
permite compreender, de modo muito direto, que o social não deve ser uma abstração e sim
resultante da relação, como já pontuado no início do capítulo. Os serviços possibilitam e
fomentam a integração entre pessoas com posições sociais, culturais e econômicas distintas.
Paraampliaçãoediversificaçãodopúblicoatendidoedequematende,hánecessidadede
diversificaçãoereconstruçãodossaberesedaspráticas(Ribeiro,2022b)–dissodecorreafunção
dos serviços na universidade de acolher novas demandas e recriar saberes e práticas pela
construção de tecnologia psicossocial. Definimos tecnologia psicossocial como “todo
179
instrumento,estratégia,açãoouprogramaquebusqueamelhoriadevidadaspessoasemalgum
de seus aspectos, como a vida de trabalho, por exemplo, por meio da intervenção gerada”
(Ribeiro et al., 2023, p. 14). Assim, os serviços são desafiados diariamente e se forjam como
espaços fundamentais de formação, de presença ativa da comunidade na universidade e de
recriação teórica e técnica da psicologia como ciência e profissão.
Em um curso como a Psicologia, que forma para a atuação profissional, os serviços
possibilitam estar na sociedade e experimentar, de modo monitorado e amparado pela
supervisão, as práticas profissionais que a área oferece, propiciando esta transição entre o
contexto protegido da formação (universidade) para os contextos ampliados do mundo do
trabalho, no qual a atuação profissional acontece (Lehman e Uvaldo, 2001).
Alunos/as são convidados/as a pensar a teoria na prática, em relação com o que está
acontecendo no mundo, e precisam construir estratégias para lidar com estes contextos e
demandas:porisso,osserviçosobrigatoriamentesãooespaçoeavivêncianaqualteoria,prática
e política se articulam para gerar a atuaçãoprofissional.Elespermitemao/àaluno/a,portanto,
avaliar as teorias e práticas e refletir sobre os problemas contemporâneos e seus impactos nas
pessoas.Osserviçoscolocamo/aaluno/aemcontatocomarealidadeeoferecemapossibilidade
de experimentar modos de atuar diante dasdiversasdemandassociaisemergentes.Possibilitam
compreender se nossos referenciais teóricos e técnicos conseguem lidar com as demandas
existentes e, se não conseguem, indicam a necessidade de reformularmos nossas estratégias ou
criarmos novas.
NumauniversidadecomoaUSP,comvocaçãoparaapesquisa,osserviçosestãoatrelados
aos laboratórios de pesquisa. No nosso caso, o SOP-PST-IPUSP atua em conjunto com o
LABOR(LaboratóriodeEstudossobreTrabalhoeOrientaçãoProfissional),porondecirculam
alunos/as de diversos níveis de formação e profissionais com anos de formação variados. Os
serviçosatuamemprocessoduranteagraduação(disciplinaobrigatória,disciplinaseletivas,ações
pontuaisaolongodocurso,açõesdeextensão),comoofertadepós-graduação,comocampode
pesquisa e para ações de extensão. Desta maneira, os serviços se configuram como uma base
sólidaparaainovaçãorealizadaemprocesso,emconjuntocomalunos/as.Ésempreimportante
salientar que avocaçãoparapesquisatrazjuntoatradiçãodepublicaçãocientífica,marcandoa
180
importânciadepublicizaçãodoqueéfeitonosserviços(videFonçattietal.,2016;Fonçattietal.,
2018; Lehman et al., 2015; Ribeiro, 1998, 2020; Ribeiro et al., 2018; Silva et al., 2016).
IremostomarcomobaseoSOP,queéumserviçoespecializadoemumaáreadeatuação
específica da psicologia: a orientação profissional e de carreira (OPC). Nossoserviçotemuma
característicasingularqueodefineedeterminasuasações:eleestáalocadonoDepartamentode
PsicologiaSocialedoTrabalhodoIPUSP.Estaconstataçãoéimportante,pois,emgeral,aOPC
estávinculadaàsáreasdapsicologiaescolaroudaavaliaçãopsicológicanasuniversidadesaoredor
domundo,eseestruturaesedefineapartirdasmaneirasdecompreendereintervirdestasáreas
específicas da psicologia. O fato da OPC estar vinculada à psicologia social e do trabalho no
IPUSP faz com que, direta e organicamente, tome o social e o trabalho como eixos para suas
conceituaçõesepráticas,permitindoaconstruçãodeumaOPCmuitodistintadaquecostuma
ser produzida, muito mais capaz de compreender demandas e diversificar suas práticas
psicossocial e socioculturalmente fundamentadas, gerando tecnologia psicossocial, como já
indicado.
Com base na discussão realizada e como forma de ilustrar nossas práticas, vejamos, a
seguir, dois registros de tecnologias psicossociais resultantes da teia entre formação,extensãoe
pesquisa potencializada peloSOP-geradaspelaressignificaçãoereconstruçãodossaberesedas
práticas e pelanecessidadedeinovaçãotécnica/tecnológica-,comoexemplosdaatuaçãodeum
serviço de atendimento psicossocial.
ComecemospelaFeiradeProfissõesdaUSP,queéumaatividadepropostaeorganizada
pelaPró-ReitoriadeCulturaeExtensão.Oeventoéanualedestina-seaos/àsvestibulandos/ase
aos/àsdemaisinteressados/asemconheceroscursosdegraduaçãooferecidospelaUSP,pormeio
da oferta de estandes de suas diferentes unidades de ensino, nos quais são disponibilizadas
informações sobre os cursos, formação acadêmica, grade das disciplinas, conteúdos
programáticos e especializações. Além disso, outrasatividadeseducativaselúdicassãoinseridas
na programação, atraindoumpúblicodecercade80milpessoas.Dentreestasatividadesestáa
181
ofertadeoficinasdeOPCparaos/asparticipantes,emgeral,jovensdoensinomédio,comfaixa
etária entre 16 e 18 anos.
A Comissão de Cultura e Extensão Universitária (CCEx) de cada unidade fica
responsávelpororganizaroestandedesuaunidadee,noIPUSP,oSOPtemficadoresponsável
pelaorganizaçãoerealizaçãodaparticipaçãodenossaunidade,comoapoiototaldaCCEx,por
meio de organização do estande da psicologia e com a oferta de oficinas de OPC para os/as
participantes. Assim, um projeto de cultura eextensãodaUSP(FeiradeProfissõesdaUSP)se
torna uma ação de cultura e extensão do SOP, que é um serviço de extensão de atendimento
psicossocial à comunidade do IPUSP, contando atualmente com um coordenador docente,
quatro psicólogos/as e um secretário.
Para organização do estande da psicologia e das oficinas de OPC, é constituído pelo
LABORumgrupodetrabalho(GT)coordenadoporumamembradaequipetécnicadoSOP,
alunos/as de graduação, de aperfeiçoamento em OPC, alunos/as de mestrado e doutorado e
ex-alunos/as que tiverem interesse, caracterizando a articulação entre ensino de graduação e
pós-graduação,extensãoepesquisaaplicada(desenvolvimentodetecnologiapsicossocial).Assim,
nesteGTsãodesenvolvidaspequenaspesquisasdeintervençãovisandodesenvolverestratégiasde
intervenção em OPC, sendo as oficinas resultantes de processo de investigação que, por si só,
geram tecnologia psicossocial (produtos de tecnologia e inovação) e produção científica, por
meio de publicações e apresentação em eventos científicos (com a inclusão das atividades de
pesquisa e de produção científica, completa-se a articulaçãoentreensino,pesquisaeextensão).
ValesalientarqueomodelodeoficinasdesenvolvidoparaaFeiradeProfissõestemsidoutilizado
hoje em várias instituições, comoescolaspúblicaseprivadas,cursinhospopularesecomerciais,
entre outras (vide Fonçatti et al., 2016).
OfuncionamentodoestandedapsicologiaearealizaçãodasoficinasdeOPCdurantea
FeiradeProfissõesficaacargodos/asaproximadamente70alunos/asdadisciplinaobrigatóriade
OrientaçãoProfissionalIdocursodegraduaçãoemPsicologiadoIPUSP,queexigearealização
de estágio prático obrigatório, e dos/as 16 alunos/as do curso de aperfeiçoamento em OPC
(curso de pós-graduaçãolato sensuoferecido peloIPUSP sob coordenação do SOP).
182
Emtermosdeatendimentoàcomunidadeexterna,oestandedapsicologiaeasatividades
de OPC na Feira de profissões da USP, têm reunido, em média, de 2500 a3000alunos/asdo
ensino médio por ano,erealizadocercade30oficinasdeOPCde50minutosaolongodetrês
diasemcadaediçãodaFeiradeProfissõesdaUSP.Estaatividadepermiteacriaçãodateiaentre
formação, extensão e pesquisa, via coordenação de um serviçodeatendimentopsicossocial,ao
envolver o estágio de disciplina obrigatória degraduação,comporpartedoestágiodocursode
aperfeiçoamentoemOPC,serumaaçãoinstitucionalizadadeextensãooferecidaàcomunidade
externa,epelofatodeasatividadesdesenvolvidasseremprodutodepesquisaaplicadaegeradora
de tecnologia psicossocial.
Emsuma,estaaçãovisaintegrarasatividadesdepesquisa,ensinoeextensão,eaproximar
alunos/as de níveis de formação distintos, bem como oferecer atendimento à comunidade e
treinamento depráticasempsicologiaparaos/asalunos/asemformação.Dessaforma,busca-se
realizar a missão da USP de atuar na indissociabilidade entre pesquisa, ensino e extensão,
perfazendo a teia entre essescampos-algocaracterísticodostrabalhosdesenvolvidospeloSOP
em articulação com o LABOR.
Outroexemplodaatuaçãodoserviçoéarealizaçãodeatendimentopsicossocialon-line.
A crise da pandemia, em função da necessidade de distanciamento social e consequente
suspensão das atividades presenciais, demandou a migração das atividades em geral para a
modalidade on-line, principalmente as atividades de ensino de graduação e pós-graduação.
Diante disso, iniciamos o processo de transformação das disciplinas presenciais em disciplinas
on-line e nos deparamos com um obstáculo objetivo: a disciplina optativa eletiva Orientação
Profissional II, que estava sendo oferecida no 1º semestre de 2020 e tinha estágio prático
obrigatório.Estesedefinia,emgeral,poratendimentogrupalemOPCcomjovensemmomento
deescolhaprofissional,nãoexistindonomomentonenhumprotocolovalidadoparaestetipode
atendimentonamodalidadeon-line-oSOPtambémnãohaviainiciadoasinscriçõesdepessoas
paraosatendimentosqueseriamrealizados.Assim,nãotínhamosnemmodelodeatendimento,
nem pessoas a serem atendidas.
Houveumprimeiromomentodeparalisiapara,nasequência,juntoàequipetécnicado
SOPquedáapoioàdisciplina,pensarem-sealternativasquedemandariamaarticulaçãodotripé
183
ensino, pesquisa e extensão. Imediatamente iniciamos umGT,constituídopeloLABOR,para
levantarprotocolosexistentesdeatendimentodeOPCon-lineediscutirpossibilidadesdeoferta
destamodalidadedeatendimentoaopúblicoemgeral-concomitantementeaoiníciodoPAPO
(Projeto deApoioPsicológicoOn-line)propostopeloCentroEscoladoInstitutodePsicologia
(CEIP), no qual parte dos/as psicólogos/as do SOP iniciaram atendimento.
O GT gerouolevantamentodepossibilidadesdeintervençãodeOPCon-linedescritos
na literatura(atividadedepesquisa),somadasàexperiênciapráticadosatendimentosnoPAPO
(atividade de extensão), e teve alguns resultados (vide Ribeiro, 2021). Em primeiro lugar, no
âmbitodainvestigação,resultounumprojetodepesquisaintitulado“Construçãodeummodelo
de OPC on-line: limites e possibilidades” (atividade de pesquisa) que propôsumapesquisade
intervençãoquevem,desdeentão,buscandoconstruirummodelodeOPCon-lineeavaliarsua
eficácia e eficiência. O trabalho de campo se caracterizou pela entrevista de profissionais que
estavam realizando OPC on-line, e por atendimentos em OPC on-line realizados no SOP por
alunos/as dos cursos de aperfeiçoamento em OPC e de atualização em OPC focado na
orientação para universitários/as (articulação pesquisa,extensãoeensinodepós-graduaçãolato
sensu). E, em segundo lugar, no âmbito do ensino de graduação e da pós-graduação, gerou
campo de estágio para os/as alunos/as.
Em suma, esta ação integrou as atividades de pesquisa, ensino e extensão, aproximou
alunos/asdeníveisdeformaçãodistintos,ofereceuatendimentoàcomunidadeeotreinamento
de práticas em psicologia para os/as alunos/as em formação, gerou um projeto de pesquisa e
resultou em produção científica, bem como tecnologia psicossocial - com o modelo de
atendimento de OPCon-linefruto de todo este processocoletivamente construído.
A partir da discussão realizada, podemos dizer que os serviços de atendimento
psicossocial são um dos pilares da formação em psicologia, ao criar uma teia entre formação,
pesquisa e extensão, aproximar a sociedade da academia e oferecer, concomitantemente,
aprendizagem prática aos/às alunos/as e prestação de serviços à comunidade.
184
São espaços de formação, mas também de produção científica - principalmente de
pesquisas de intervenção, tão necessárias à áreas aplicadas como é o caso da OPC. Produzem
tecnologias psicossociais e envolvem os/as alunos/as neste processo, que têm então a
possibilidade de não somente aprender uma práticajáexistente,mastambémdecontribuirna
construçãodenovaspráticasemfunçãodasdemandasemergentes,semprecomsensibilidadeao
que chega, buscando ressignificação e reconstrução dos saberes e das práticas, e tendo como
princípios a leitura intercultural, interseccional e pautada na diversidade.
Esperamos ter conseguido destacar a importância dos serviços de atendimento
psicossocialcomobaseparaotripépesquisa,ensinoeextensãoedanecessidadedeinvestimentos
de infraestrutura, de condições de trabalho e de aprimoramento das equipes, bem como o
reconhecimento do trabalho técnico realizado, para que os serviços funcionem plenamente e
para que uma universidade como a USP possa cumprir seu papel articulado de formação,
produção científica e prestação de serviços à comunidade.
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188
Capítulo11
No cenário das eleições de 2018 no Brasil, uma série de fenômenos que concernem
diretamenteaPsicologiaSocialveioàtona:apolarizaçãodapopulaçãobrasileiraemdoisgrandes
blocos, a disseminação de comportamentos de violência verbal e f ísica, a naturalização do
preconceito, da segregação e da exclusão. Testemunhou-se o menosprezo pela reflexão e pelo
debate enquanto modos de conciliação das diferenças. Em seu lugar, eclodiu uma espécie de
legitimidade da agressão verbal e f ísica contra aqueles considerados como encarnações da
corrupção moral e sexual da ordem, da família e do progresso econômico. Finalmente, cabe
sublinhar a presença de um líder com atitudes e discursos autoritários, frequentemente
contraditórios,comdeclaraçõeshomofóbicas,misóginaseracistas,comnarrativasmaniqueístas
capazesdemobilizarasmassasequeacabouporvenceraseleiçõesporvotopopular:oCapitão
ReformadoJairMessiasBolsonaro.Nomeepatenteestiveramemperfeitacontinuidadecomas
referências militares e religiosas de sua campanha.
O conservadorismo e o moralismo como elementos diferenciais que pesaram no voto
popular pareceu a muitos ter sido uma inquietante nostalgia do período da ditadura militar
brasileiraedeseushorrores.HannahArendtapresentaolivroAsOrigensdoTotalitarismocomo
umatentativaderesponderàsperguntasdesuageraçãodiantedoshorroresdaSegundaGuerra:
Oquehaviaacontecido?Comopodeaquiloteracontecido?(Arendt,2000).Esteéumexemplo
de que a função do intelectual é tentar responder ao “atual”,istoé,aoqueseapresentacomo
incompreensível na sociedade.
TalcenárioconvidaaretomarosentidodaformaçãoemPsicologiaSocial.Ameuver,ela
deveria hoje resgatar o sentido político dos fenômenos psíquicos coletivos em sua articulação
189
comadimensãosingulardossujeitos.Pois,diantedosevidentesvetoresdeforçaqueagemdireta
eindiretamentesobreascrençasevaloresemnossasociedade,nossareflexãonãopodedeixarde
posicionar-se a partir de um ponto de vista crítico, examinando os bastidores dos fenômenos
coletivosedasexperiênciasindividuais,deformaatrazeràsuperfícieseusentidomaisprofundo
naatualidade,asaber,aqueledeumainquietantehegemoniadaeconomiasobreopsiquismono
mundo contemporâneo. Com efeito, uma das características mais frequentemente apontadas
comoamarcadaatualidadeselocaliza,precisamente,napreocupantesubordinaçãodaculturae
da subjetividade ao registro econômico.
Desde a Segunda Guerra Mundial, contudo, Adorno propôs este mesmo sombrio
diagnóstico cultural do ocidente, a saber, a reduçãodarazãohumanaamodosdepensamento
puramente instrumentais, a mercadorização da cultura sob a forma da indústria cultural, e a
submissão dos interesses humanos a prioridades econômicas. O aspecto preocupante diz
respeito, conforme Adorno, ao funcionamento da racionalidade humana, que longe de se
constituir em mera ferramenta de domínio da natureza, se volta contra a própria natureza do
homem.
Note-se que este retorno da racionalidade contra a própria natureza humana é
particularmenteinquietantenoâmbitodaindústriacultural,naqual,paraalémdeseuestatuto
de mercadoria, a cultura tornou-se um meio de produção de comportamentos. Mais
especificamente, a cultura adquiriu a função de meio de produção de comportamentos de
consumo.Nãosetrataapenasdevenderimagensediscursosatravésdocinema,televisão,rádio,
internetetc.,mastambémdaconstruçãodediscursosedaproduçãodemodosdesubjetivação.
Nesse sentido, não apenas ideais estéticos e sensoriais podem se tornar meio da indústria da
produção de consumo deroupas,hábitosdehigieneoualimentares:pode-setambémproduzir
identidades, prazeres, valores morais, formas de adoração religiosa e mesmo formas de
sofrimento. Ou seja, qualquer processo psíquico pode tornar-se uma ferramenta eficaz da
produção de consumo, seja criando novas experiências, seja recodificando antigas em
comportamentoscomercializáveis.Defato,pode-sedizerqueoquecaracterizaomomentoatual
darazãoinstrumentaldizrespeito,sobretudo,aoaspectoexponencialdesteprocessodetradução
190
de formasdesociabilidadeedemodosdesubjetivaçãoemelementosqueastornemacessíveisà
lógica mercantil.
Nesse sentido, a formação em Psicologia Social é indissociável do projeto de
desconstrução sistemática de conceitos e modelos teóricos que visa, em última instância, a
emancipação dos sujeitos dos modos de dominação aos quais estão submetidos, sobretudo a
partir da explicitação de mecanismos de dominação simbólica sobre eles. Mecanismos cuja
presença relativamente anônima na cultura têm efeitos reificantes sobre a subjetividade. Com
efeito, o anonimato intrínseco da linguagem e de suasestruturassugere,aprincípio,aideiade
uma forma de inumanidade que oprime o homem. Entretanto, tais estruturas, enquanto
produtosculturais,remetemaoprópriohomemaresponsabilidadedaopressãodaqualévítima,
retirando-lheovéudoanonimato.Eisresumidamenteomomentonoqualumaaçãoconceitual
sobre a linguagem, no sentido de uma desconstrução, assume toda sua significação política e
social.
A naturalidade da dominação éumaestratégiadesuamanutenção.Qualonossopapel
diante disso? O engajamentopolíticodointelectualfoidefinidocertavezporFoucaultcomoa
busca de “mostrar aquilo queécomopodendonãoser”,ouseja,comoumaapostaquenema
dominação,nemaalienaçãovoluntáriasãoabsolutas,equeformasdeemancipaçãosãopossíveis.
Dito de outro modo, pela extração de gramáticas da dominação em cada situação, trata-se de
esboçarumadescriçãodasfraturasvirtuais,queabremumespaçodeliberdade,detransformação
possível.
Nisso reside o posicionamento ético inerente a qualquer investigação em ciências
humanas, seu papel libertador ou opressor, seu sentido contrário ou conivente com o
sufocamento da liberdade objetiva - que utilizo aqui nosentidodeHannahArendt,istoé,no
sentido de liberdade política enãode“liberdadeinterior”doserhumano.Odesvelamentodas
intencionalidades subjacentes à determinação técnica da essência humana constitui-se hoje
enquanto uma modalidade de ação política necessária e urgente. Com efeito, trata-se de uma
ação política na medida emquerepresentaumaformadecuidadocomapossibilidadedeuma
ação que deve ter na liberdade um dos seus princípios fundamentais.
191
Observandoacampanhadopresidenteentãoeleito,édifícilnãorelacioná-laàdeDonald
Trump,ex-presidentedosEUA,ouadeMilei,atualpresidentedaArgentina,cujasdeclaraçõese
atitudes intempestivas, simplistas e desrespeitosas para com as minorias contaram igualmente
com forte apoio popular, ou ainda com as políticas da violência de Rodrigo Duterte, nas
Filipinas, e Erdogan na Turquia. Líderes também eleitos por voto popular, comumaretórica
moralcontraacorrupção,contraadegenerescênciadamoraledoscostumes,contraasdrogas,e
com forte apoio de setores religiosos. O fenômeno não nos define, portanto. Não traça um
destino que seria exclusivamente nossocomoumpovodeessênciaconservadoraeviolenta.De
fato, podemos nos perguntar se há e quais seriam as diferenças significativas entre o nosso
momento e outros da história da política, onde populismo e autoritarismoseassociaramcom
personagens como Stalin, Hitler e Mussolini.
Malgrado as diferenças entre os seus momentos históricos, cabe notar que tais
personagens são sempre parte de outras formas de poder, e se apoiam fortemente sobre a
manipulação precisa dos meios de comunicação. A questão se amplia, portanto, para além da
sedução de um certo tipo de liderança sobre as massas, para além dos conteúdos narrativos, e
inclui outros elementos pertinentes ao uso da linguagem napolítica,assimcomoàsformasde
condução dos afetos e do pensamento dos eleitores. Altamente dependente dos meios de
comunicação, este campo do funcionamento do poder está articulado a possibilidades
tecnológicas, assim como a uma interferência inédita da economia em âmbitos da existência
individualecoletiva.Meuobjetivoaquiétentartraçaralgumasdiferençasnacompreensãodestas
formas de poder a partir de um quadro geral dos registros da linguagem.
De modo preliminar, pode-se dizer que, do ponto de vista dos registros mais
fundamentais da linguagem,asteoriasdopoderseexpandemdeumregistroprivilegiadamente
semântico e sintático, para incorporarem e se centralizarem em um registro pragmático. Tais
registros, a saber, a sintaxe, a semântica e a pragmática, foram introduzidos por Pierce e
formalizadosenquantotaisporC.W.Morris(Morris,1938),massuadiferenciaçãoprogressiva
sedeuaolongodahistóriadopensamentoocidental.MichelFoucault, emAspalavraseascoisas
([1966]/1984), por exemplo, nos permite considerar a prevalência de cada uma destas três
dimensões como condição do saber ao longo da história: no Renascimento, nosséculosXVe
192
XVI,asemânticadefineosaberapartirdeumarededesemelhanças;naeraclássica,dosséculos
XVII ao XVIII, a sintaxe assimilada a uma ordem lógica organiza os saberes num quadro de
nomenclaturas;finalmente,naeramoderna,apartirdoséc.XIX,apragmáticaseintroduzcomo
dimensãoincontornáveldalinguagemcomosurgimentodaquestãodohomemcomotal,istoé,
aquestãodesuaexistênciae,portanto,aaqueladahistoricidadedeseusaberedesuasrelações.
Essa sucessão não é uma “evolução natural” das teorias da linguagem. Segundo Foucault, ela
resulta de rupturas profundas na ordem dos saberes.
Com a tripartição das dimensões da linguagem, Pierce e Morris dão início a uma
verdadeira revolução na compreensão da origem da significação. Esta revolução se tornou
conhecidacomooLinguisticTurn,ogirolinguístico,queafirmaaprimaziadapragmáticasobre
os dois outros registros, posição que encontrou seu maior teórico em Wittgenstein. A
significação, segundo essa escola, não se funda nem na semântica, isto é, na relaçãodapalavra
com seu referente no interior de uma ordem lógica do mundo, como era o caso das teorias
clássicas;nemnasintaxe,ondeasignificaçãoéconcebidacomoumefeitodesuafunçãodosigno
na sentença, como no caso das teorias da linguagem do século XIX. Tampouco pensam a
significaçãocomoefeitodeestrutura,istoé,comoefeitodalínguaconcebidacomoumsistema
de puras diferenças entre significantes, segundo de Saussure. Naturalmente, seria possível
enumerarpredecessoresnavalorizaçãodecertoselementosdapragmáticaenquantoresponsáveis
pela significação, como Schleiermacher na Alemanha e Alexander Potebnia naRússia.Ambos
sublinharamaenunciaçãocomoelementoessencialdaproduçãodasignificaçãojáemmeadosdo
século XIX. Schleiermacher se referia à enunciação como criaçãoprimordialePotebniacomo
sua dimensão poética. Mas a antecipação nem sempre implica uma influência direta. No giro
linguístico, a significação é vista como efeito do uso da língua pelos falantes. Uma vez que
consideraarelaçãodosinterlocutorescomoorigemdassignificações,apragmáticaconcebidapor
Pierce é também um deslocamento da teoria da significação para o registro social.
Surpreendentemente,emseuterritóriodeorigem,essafundamentaçãosocialsemanteveisolada
da discussão propriamente social, isto é, do campo dos jogos políticos e das relações de poder.
Entre ospensadoresdalinguagemnafilosofiacontinental,MichelFoucaultrealizauma
abordagem que possui uma profunda afinidade com o giro linguístico. Em entrevista a
193
intelectuais brasileiros na década de 70, Foucault afirma explicitamente a convergência de seu
trabalhocomafilosofiaanalítica,masalieletambémdemarcacomclarezasuasdiferenças.Ora,
tal diferença repousa precisamente em seus interesses sociais e políticos:
rata-se […] de uma espécie de análise do discurso como estratégia, um pouco à
T
maneiradoquefazemosanglo-saxões,emparticularWittgenstein,Austin,Strawson,
Searle.OquemepareceumpoucolimitadonaanálisedeSearle,Strawson,etc.,éque
asanálisesdeestratégiadeumdiscursoserealizamemvoltadeumaxícaradechá,num
salãodeOxford,dizemrespeitoajogosestratégicosquesãointeressantes,masqueme
parecemprofundamentelimitados.Oproblemaseriasabersenãopoderíamosestudar
a estratégia do discurso num contexto histórico maisrealounointeriordepráticas
que são de um tipo diferente de conversas de salão. Por exemplo, na história das
práticasjudiciárias(...)pode-seprojetarumaanáliseestratégicadodiscursonointerior
de processos reais e importantes. (Foucault, 2011, p. 139).
Em uma das definições do que considera como “discurso”, Foucault o descreve
justamente a partir de seu caráter fatual. Tal definição desloca a relação do discurso com a
verdade. Em vez de adequação entre os enunciados e seus referentes, será o contexto ritual,
institucional e jurídico no qual surgem os enunciados que definirá averdadedosdiscursos.A
verdade se aloja assimnaquiloqueumdiscursoé,enãonaquiloqueumdiscursodiz(Foucault,
2002). De fato, a partir de Platão a oposição verdade/falsidade passa a centralizar a reflexão
ocidentalsobreodiscurso.BarbaraCassin(Cassin,1995)localizaessarupturanascondiçõesda
verdade do discurso na definição do princípiodenãocontradiçãocomoacondiçãododiscurso
legítimo feita por Aristóteles (Silva Junior, 2007). Definição que vale como uma expulsão do
sofista da arena de discussão legítima, pois retira do discurso precisamente a dimensão
performativada verdade.
Disto decorre outra diferença essencial entre a abordagem foucaultiana e a escola
anglo-saxã. Ela diz respeito à afirmação do homem como condição de possibilidadedousoda
linguagem. Talvez a melhor explicitação dessa oposição tenha sido feita por outro filósofo
continental, Jacques Derrida. Com sua crítica cerrada ao logocentrismo ocidental como um
recalcamento da escritura, Derrida examina os limitesdaobradeAustinComofazercoisascom
palavras (Austin, 1962). Tais limites seriam impostos por categorias antropocêntricas e
metafísicas tais como intencionalidade e consciência, sobre as quais o linguista fundou sua
compreensão do performativo (Derrida, 1988). Assim como Derrida, Foucault considera o
194
sujeitocomoefeitodalinguagem.Estaposiçãotemamplasconsequênciasnateoriadopoderde
Foucault, que, como o veremos, o examina sob o prisma da constituição dos sujeitos na
sociedade.
Minha análise da compreensãodasformasdepoderapartirdosregistrosfundamentais
dalinguagemseorganizaemtrêspassos.Veremosinicialmentequeasinterpretaçõesfreudianas,
ao seconcentraremsobreasrepresentaçõesligadasàfigurapaterna,indicamumaprioridadeda
semântica como campo vetorial do poder. Examinarei em seguida os limites da interpretação
freudiana sobre o poder dos líderes a partir do problema da razão instrumental. De fato, a
tecnologia dos meios de comunicação, independentemente dos conteúdos e das formas
narrativas de suas trocas discursivas, indica a necessidade de ampliarmos o campo vetorial do
poder para os registros da sintaxe e da pragmática.
Essas limitações conceituais deFreudresultamfundamentalmentedesuaconcepçãode
ciênciaederazão,concepçãoqueoimpediudeconsiderararazãoinstrumentalcomoumaforça
de alienação dos sujeitos. Assim, os fenômenos do marketing e da comunicação de massas,
indissociáveisdeumaracionalidadetecnocientífica,exigemoutrosrecursosdeanáliseconceitual,
que podem ser encontrados em Adorno e nos autores da Escola de Frankfurt. Na terceira e
última parte deste texto, examinarei a inovação propriamente atual da comunicação de massa
introduzida pela tecnologia digital e os desafios conceituais que ela propõe a uma teoria do
poder. O desafio desta questão me parece poder ser enfrentado pela teoria da
governamentalidade de Foucault, que vê na articulação entre procedimentos totalizantes e
técnicasindividualizantesumaparticularidadedasformasdepoderdenossacultura.Comefeito,
desdeosanos70nossaculturaprogressivamentetemsemoldadoapartirdeumtipoespecífico
de governamentalidade, a saber, o neoliberalismo. Assim, cabe perguntar se existiria uma
mutação nos usos da linguagem compatível com a forma de poder neoliberal e com seus
dispositivos discursivos. Trata-se aqui de um primeiro esboço de resposta a esta pergunta.
Gostaria assim de apresentar este texto mais como a explicitação de eixos de pesquisas
importantes, a meu ver, no campo da Psicologia Social - eixos delineados em seus grandes
contornos e balizados segundo os seus aspectos mais gerais - do que como uma pesquisa já
concluída sobre os eixos da linguagem como dispositivos de poder.
195
11.1 O enigma da servidão voluntária em Freud
Emgeral,oscomentáriossobreopodernaobrafreudianasecircunscrevemàpulsãode
dominação e seus destinos. Esta pulsão é inicialmente pensada por Freud como uma pulsão
sexualparticularmentepresentenasexualidademasculina.Numsegundomomentodaobra,ela
passa a ser compreendida como uma daspossíveisfusõesentreaspulsõesdevidaeapulsãode
morte. Ambos os casos sugerem uma satisfação específica ao ato de submeter um outro. Esta
hipótesepoderiaeventualmenteexplicarconflitossociaiscomoresultantesdalutaentremônadas
sedentasdeconquista,masnãoosfenômenosdeassujeitamentodasmassasdiantedeseuslíderes.
Será preciso recuperar uma outra linha de reflexões de Freud, ligada às suas hipóteses sobre a
sociedade. Gostaria de destacar três desses momentos.
Emprimeirolugar,suateoriadaorigemdasociedade.Emoutraspalavras,omodocomo
ele responde à pergunta sobre a passagem do estado selvagem à organização social, sobre a
passagemdodireitodaforçaàforçadodireito,hipóteseapresentadaemseulivroTotemeTabu
(Freud, [1913]/1982a).Destacareidestahipóteseopapeldopaiassassinadocomofundamento
dasprimeirasinstituiçõessociais:areligião,ogoverno,eamoralidade.Naconstruçãofreudiana,
ashordasprimitivasdehominídeosseconstituíamcomummachomaisfortequeosoutros,que,
em vista disso, eraopossessordetodasasfêmeas.Eventuaisconflitoscomosfilhosmachosem
crescimentoseriamsolucionadoscomalutaeamortedovencido.Oenvelhecimentodopaida
horda possibilitaria sempre que, mais cedo ou mais tarde, um dos filhos substituísse o tirano.
Contudo,Freudsugerequeosfilhosvenceriamopaiopressortambémaoseunirem,selando,em
seguida, um pacto de renúncia ao desejo de ocupar o seu lugar, e estabelecendo, para isso, a
interdiçãodegozosexualcomasmulheresdatribo.Seriaestaaorigemdaprimeiraorganização
social.Deondeviriaaforçavinculantedessepactodotabudoincesto?SegundoFreud,aforça
dessecontratonãoviriadarazão,masdaculpapeloassassinatodessepaipoderoso.Nessecaso,é
precisoadmitirqueopainãodeixadeexistircomsuamorte,pelocontrário,adquireumaeficácia
jamais atingida em vida no domíniosobreseusfilhos.Comosubstituiçãodopai,essaprimeira
comunidade passaria a cultuar um totem, um animal que seria adorado como o ancestral da
tribo.Totemetabu,religiãoeleis,asprimeirasinstituiçõessociais,seconstituiriamassimcomo
196
sedimentos no psiquismo a partir dojogodialéticoentreforçaspulsionaiseeventoshistóricos.
Note-se que nessa construção, a submissão ao poder é deslocada para a responsabilização do
próprio sujeito no momento mesmo em que ele se constitui como sujeito social. Esses dois
elementos serão uma constante nas duas outras reflexões freudianassobreopoder.Trata-seda
primeira interpretação de Freud sobre a opção pela obediência, ou como tão bemcunhouLa
Boétie aos 18 anos, a “servidão voluntária”. Em 1548, La Boétie compreende esse enigmático
comportamentocomoefeitodeumalógicainerenteàestruturapiramidaldadominação:acada
nível, os que se submetem o fazem com a esperança de gozar dos privilégios do nível acima.
A outra reflexãodeFreudsobreopoderapareceemseulivroAPsicologiadasMassase
Análise do Eu (Freud, [1921]/1982b) com uma hipótese original para a formação de massas
espontâneas e seus comportamentos incontroláveis. O enigma enfrentado é agora aquele de
compreender tanto a submissão cega das massas aos líderes quanto seu comportamento em
uníssono. Sua resposta implica outra hipótese, a qual diz respeito a uma instância psíquica, o
Ideal de Ego ou Superego. O Ideal de Ego se formaria a partir das identificações com os pais
idealizados pela criança após a superação do Complexo de Édipo. Estas identificações
funcionariam como uma reserva dainfânciaesuaânsiaporperfeiçãonopsiquismodoadulto.
Ora, os líderes das massas, ao se comportaremcomodetentoresdepoderedesaberabsolutos,
tornam-sefigurasaptasparaencarnareencenaressasexpectativasdeumaautoridadeadmiradae
temida, a exemplo do pai na infância de cada um.Ocomportamentoemuníssonodasmassas
viria das identificações laterais entre os membros da massa, possibilitadas pela escolha de um
mesmo líder. A atitude de submissão seria, nesse caso, uma forma de regressão à infância,
motivadapelanostalgiaporumpaipoderosoeprotetor,admiradocomoconhecedordaverdade.
Viria daí também a parcial suspensão do juízo de realidade dos membros da massa diantedas
declarações dos líderes. Suspensão que Freud considera como homóloga àquelas do ser
apaixonado e do sujeito em estado hipnótico.
A terceira reflexão de Freud sobre a causa do assujeitamento está presente no texto O
problemaeconômicodomasoquismo(Freud,[1924]/1982b).Nessecaso,oconceitoessencialéo
de masoquismo moral, que intermedia a relação entre a estrutura social e o dilema vital
instaurado pela hipótese de uma pulsão de morte, a saber, o dilema entre se matar e matar o
197
outro. Para Freud,longedeseratenuadopelaspossibilidadesdeusodalinguagemnolugardas
ações, esse dilema seradicalizaparaosseresdecultura.Poisse,porumlado,oSuperegoéuma
condição de possibilidade da cultura, por outro ele potencializa exponencialmente a
agressividade em vista da desfusão pulsional que acarreta. Assim, Freud propõe umproblema
inédito na filosofia política,asaber,oimpasseentreviveremsociedadepossuindoumasedede
agressividade gratuita, uma “crueldade sem álibi”, para retomar a feliz expressão de Derrida
(Derrida, 2001). O masoquismo moral seria uma “solução” para administrar esse gozo com a
destruição,fazendoumaespéciedebarreirainternaparaapulsãodemorteatravésdoprazercom
oautosacrifício.Aprincipalnovidadenopensamentofreudianosobreopoderéaquisuaênfase
na importância do sacrifício como um fim em si mesmonaeconomiapsíquica,enãomaisna
submissão por culpa ou pela proteção da figura paterna. O masoquismo moral permite assim
que uma parte da agressividade dos sujeitos seja mantida e satisfeita em seu interior, evitando
simultaneamente a barbárie e o desamparo. Mas, outra parte da agressividade continua a ser
desviadaparaoexterior,sesatisfazendopelahostilizaçãodegruposeindivíduosqueameaçariam
a unidade.Assimcomoemcadasujeito,aconstituiçãodosgruposdependeriadodesvioparao
exteriordessaagressividadesemálibi,numalógicadeoposiçõesgrupaisfundadanumnarcisismo
das pequenas diferenças(Freud, [1930]/1984a).
Nos três casos, a teoria freudiana do poder afirma a centralidade da figura paterna ea
ênfase no caráter intencional dasubmissãoaooutro.Contudo,outrosfenômenosimportantes
do comportamento grupal se tornam compreensíveiscomsuaanálise:acrençasemlimitesnos
lídereseaagressividadecontraosdiferentescomocondiçãodacoesãodosgrupos.Taishipóteses
supõem, a cada vez, uma primazia dos jogos de semelhança da representação do pai com os
líderes,semelhançasquepossuemforçavinculanteentreocampopulsionaleaestruturasocial.
Nesse sentido podemos dizer que a compreensão freudiana do poder toma por base uma
semântica particular, que organiza as duas outras dimensões da linguagem: a sintaxe dos
membros da massa regride suas combinatórias a agrupamentos lógicos simples de oposição
binária, e a pragmática se cristaliza em sucessivas reiterações de uma só cena entre os
interlocutores, aquela da triangulaçãonosso paienóscontra osoutros.
198
11.2 Da semântica à sintaxe da razão instrumental nos discursos políticos
Se este modelo do poder é ainda hoje eficaz, ele nãocontemplaaspectosessenciaisdos
discursos autoritários já em sua época. Esta insuficiência, em última instância, resulta da
concepção de ciência e de razão de Freud e de uma decorrente restrição frente aos efeitos da
técnicanopsiquismo(SilvaJunior,2017).Evidentemente,tantoatécnicacomoocapitalismojá
haviam sido reconhecidos como vetores causais no psiquismo pelo mundo acadêmico de então.
De fato, Freud se entendia como um naturalista e um racionalista. Em seu famoso
diálogo com Einstein sobre O Porquê da guerra (Freud, [1933]/1982a), confessa que via na
ciência a única via consequente para atenuar os sofrimentos psíquicos ainda que de modo
indiretoeparcial.Arazão,mesmoemsuapotencialderivanaracionalização,tãobemdescritaem
seu texto A Negação (Freud, [1925]/2016), ou na idealização, como no caso da filosofia, não
abrigariaemsinenhumpotencialpatológico.Guiadapelasciênciasnaturais,arazãoavançariade
modolento,parcial,massemprepertodarealidade.Destaforma,opsiquismoestariaprotegido
contra as narrativas totalizantes das visões de mundo, como a religião, por exemplo (Freud,
[1933]/1982c). E, contudo, foi precisamente este funcionamento radicalmente empírico e
instrumentaldarazãoquesereveloucomoumdosgrandesproblemassociaiseteóricosdoséculo
XX.
A excessiva racionalização da vida era um tema importante já no início desse século.
Georg Simmel, em 1903, condenava a vida urbana em vista de seus efeitos nefastos sobre o
espírito:
pontualidade,acontabilidade,aexatidão,quecoagemacomplicaçõeseextensõesda
A
vida na cidade grande, estão não somente no nexo mais íntimo com o seu caráter
intelectualístico e econômico-monetário, mas também precisamtingirosconteúdos
da vida e facilitar a exclusão daqueles traços essenciais e impulsos irracionais,
instintivosesoberanos,quepretendemdeterminarapartirdesiaformadavida,em
vez de recebê-la de fora como uma forma universal, definida esquematicamente.
(Simmel, [1903]/2005, p. 580-581)
Em seu texto A Moral Sexual Civilizada e a Neurose Moderna de 1908, Freud
reconhece, mas refuta tais teses. Seu interlocutor é um médico norte-americano, Beard, que
199
considerava a neurastenia como efeito do excesso de estímulos sobre o sistema nervoso
provocados pela iluminação urbana e pela aceleração geral da vida, com trens viajando na
velocidade estonteante de 32 kmporhora.Freudopunhaaissoumoutroargumento:amoral
sexualcivilizada,demasiadorigorosaehipócritacomasexualidadehumana,gerarianãosomente
as chamadas neuroses atuais (neurastenias), como também a histeria e a impotência masculina...
As críticas à racionalidade técnica apareceram com clareza ao longo dos anos 30.
HorkheimereAdorno,diantedaderivaburocratizadaeopressivadoEstadoSocialistadeStalin,
fazem suas primeiras críticas à teoria de Marx. Tal experiência convencera os fundadores do
InstitutodePesquisaSocialquealiberdadenãoeraconquistadapelameradissoluçãodasclasses
sociais e pela eliminação da propriedade dos meios de produção. O próprio projeto
revolucionáriotrariaemseubojoumaameaçainsuspeitadaporMarx,arazãoinstrumental.De
fato, na ideia que os fins justificam os meios, a razão instrumental não condena a forma de
legitimidade para a violência observada no regime de Stalin.
Trata-se de uma das primeiras teorizações de como a racionalidade instrumental
representaumaameaçaàculturacomotal.Defato,umdosfenômenossociaismaisinquietantes
doséculoXX,asaber,aburocratizaçãopresentenoâmagodoholocausto,colocadecididamente
esse problema: a relação entre a racionalidade instrumental e o poder, em outras palavras, a
linguagem em sua versão tecnocientífica e uma nova forma de exercício do poder. Mas para
Freud, a razão em sua versão instrumental, herdeira do projeto cartesiano de dominar e se
assenhorar da natureza, antes de ser uma ameaça, era um resultado benéfico do progresso da
espiritualização, tema desenvolvidoemMoiséseareligiãomonoteísta(Freud,[1937]/1982b)e,
possivelmente, sua única salvação...
ÉemsentidoanálogoquetampoucoocapitalismopareciaumaameaçaemsiparaFreud.
Enquanto organização social que evocava uma ideia hobbesiana de liberdade individual
origináriaeocontratosocialcomosoluçãoracionalparaasdiferenças,ocapitalismoemsinãose
distancia muito da construção freudiana do Totem e Tabu. A diferença declasses,aexigência
progressiva de sacrifício pessoal, e a produção incessante de necessidades para garantir seu
funcionamentotambémnãopareciamcomoumproblemaestruturaldocapitalismoparaFreud.
Nenhumcomentário,porexemplo,àAteoriadaclasseociosa,naqualThornsteinVeblen(1974)
200
apresenta uma teoriadoconsumoconspícuocomoumefeitodadivisãodasclassessociaisedo
consumismo. Tampouco faz menção à A ética protestante e o espírito do capitalismo de Max
Weber (2001),quetratadarelaçãoentrereligiãoemoralidadenagestãoeconômicaequehavia
sido publicado inicialmente em duas partes, em 1904 e 1905. A única teoria sobre as
determinações daeconomianopsiquismocomentadaporelefoiadeMarx.Freudacriticapor
funcionar como uma visão de mundo totalizante, que atribui a causa única do sofrimento
psíquico à privação econômica no presente, quando apsicanálisedemonstraqueosofrimento
resulta de impasses internos, constitutivos do psiquismo, com origem no passado (Freud,
[1933]/1982c).
MasosilênciodeFreuddiantedalógicaalienantedocapitalismosurpreendeaindamais
se pensarmos que Edward Bernays, seu sobrinho, foi o pioneiro do marketing nos Estados
Unidos.Comefeito,Bernayscriouedefiniuomarketingcomoumaciência,emaisprecisamente
como uma “engenharia do consentimento” (Bernays, 1947), sintagma que desloca a arte de
manipulação de opiniões iniciada com a retórica e a sofística grega a um procedimento
meramente técnico. Ele a concebia como uma série de técnicas rigorosamente científicas,
ferramentas cuja familiaridade e manuseio seriam necessários aos novos líderes das sociedades
modernas,asquaissóseriammantidasemcoesãopelasredesdecomunicaçãodemassa(Bernays,
1947).
De fato, desde então, o marketing tem sido indissociável tanto do funcionamento do
capitalismo quanto da vida política. Sem marcar nenhuma diferença entre os dois campos,
Bernaysapresentavasuaciênciacomoumaformade“proteçãodademocracia”,umavezque,as
massas seriam “fundamentalmente irracionais” e nas quais “não se poderia confiar”. Bernays
participou ativamente por décadas do Committee for Public Information, órgão do governo
responsável pela circulação interna de informações. Sua “ciência” foi incontornável em
momentos críticos da política americana, como, por exemplo, na divulgação da intervenção
militarnoPanamácomoumadefesadademocracianessepaís,quandooqueestavaemjogoeraa
“concessão” do famoso canal.
Nessas condições, o confronto entre a psicanálise freudiana e omarketingseriaapenas
uma questão de tempo.HorkheimereAdornoviramnapsicanálisefreudianaumafortealiada
201
no entendimento da publicidade na cultura e na política. Com pesquisas empíricas sobre o
antissemitismo, Adorno ampliou as interpretações dePsicologiadasMassas,edescreveunovos
elementos: o pequeno grande homem, o rebaixamento de inibições, a nobreza do sacrifício,a
indeterminação da causa a ser defendida, a limitação daargumentaçãoàrepetiçãoaumgrupo
restrito de clichês, etc. (Adorno, [1951]/2015).
Mas,cabetambémsublinharqueAdornodiferenciacomprecisãocirúrgicaapsicanálise
eainterpretaçãopropriamentesociológicanacompreensãodestefenômeno.Paraele,aindaque
hajasempreumapropensãoespontâneaparaofascismoemtodasasmassas,“amanipulaçãodo
inconscienteéindispensávelparaaatualizaçãodeseupotencial”.Assim,Adornosustentaque“o
fascismo como tal não é um problema psicológico”. O fascismo apenas “define uma área
psicológica que pode ser explorada de forma bem sucedida pelas forças que o promovem por
razões de interesse próprio” (Adorno, [1951]/2015, p.185-6).
Adorno compreende talapropriaçãodosconceitospsicanalíticospelaindústriacultural
como um anestésico do “potencialrevolucionáriodasmassas”.Considerandoqueapsicanálise
visa emancipar o sujeito das leis heterônomas de seu inconsciente, ele descreve a indústria
culturalcomoumaespéciede“psicanáliseaoavesso”.Adornoreafirma,portanto,apertinência
da teoria freudiana do poder, assim como a eficácia do registro semântico no qual ela vigora.
Mas,eleaincluiemumadimensãomaisampladalinguagem,propriamentepragmática,ondea
tecnologiadacomunicaçãoinstituiformasdepodercapazesdeabsorvereutilizaraseufavoros
conceitos da psicanálise, anulando seu potencial crítico.
11.3 A mutação da pragmática nos meios de comunicação: da massa
AcomunicaçãodemassacresceuexponencialmenteaolongodoséculoXXapartirdos
avanços técnicos com um alto poder de alcance e ou de reprodução. Marshal Mcluhan, por
exemplo, falava nos anos 70 que os meios decomunicaçãohaviamtransformadooplanetaem
uma aldeia global. Apesar dessa expressão ser ainda mais verdadeira hoje, pois as redes de
comunicaçãopossuemumatecelagemmuitomaisfinaemtornodaterra,doisfuncionamentos
202
muito diferentes da comunicação estão em jogo em cada um desses momentos. De fato, uma
mudança radical ocorre na lógica da comunicaçãocomoadventodenovastecnologiascomos
computadores pessoais, a internet e ossmartphones.
Nosmeiosdecomunicaçãotradicionais,atravésdorádio,canaisdetelevisãoedejornais
impressos, uma mesma informação era destinada a todos. O dispositivo emissor era
essencialmentedinâmicoemrelaçãoaumamassadeespectadoresestáticos,destinatáriosfixosde
um fluxo incessante de informações. No ambiente da internet, tanto o dispositivo como o
usuário são essencialmente dinâmicos, mas em uma relação ainda mais desfavorável para este
último. Essa aparente contradição entre a dinâmica do usuário e sua posição desfavorável se
esclarece se pensarmos que os dispositivos de mídia atuais são programas de computação
incansavelmenteativos.Taisprogramasfornecemnovasinformaçõesaousuárioapartirdeuma
análisealgorítmicadasrupturasdeseuspadrõesdebusca.Qualquerbuscaporbilhetesdeavião
noGoogleproduziráosurgimentodedezenasdepacotesturísticosnatela.Assim,aexperiência
dousuárioéaqueladeumaconfortávelantecipaçãodomundoaosseusprópriosinteresses.Sua
liberdade,porém,ébemmenordoqueadoespectadortelevisivo,poiséprecisamenteaoinovar
em suas buscas e interesses que o usuário contribui para seu próprio isolamento em novos
conjuntos de possibilidades de ação.
As modalidades de experiênciasocialdestanovatecnologiadeinformaçãotambémnão
podemmaissercompreendidasnoantigoparadigmadacomunicaçãodemassa.Nestecaso,uma
mesma mensagem era transmitida simultaneamente a um grande número de pessoas,
mobilizando afetos e pensamentos emuníssono.AsnovelasdaGlobodetiverampordécadaso
monopóliodapaletasentimentaldopaís.Atualmente,apluralidadedassériesuneaspessoasem
grupossegmentados,produzindoafinidadesestéticasmuitomaisespecíficas.Osinstrumentosde
interação social mais poderosos atualmente são, semdúvida,asmídiassociais.PeloFacebooke
pelo Instagram, cada um pode terasensaçãodeveratodosedeservistoportodos.Contudo,
estaexperiênciadepublicidadeglobaléparcial.Osgruposaosquaiscadausuárioéconvidadoa
pertencer seguem, em suaformação,amesmalógicadeseleçãodeinformaçõesporrupturasde
padrões. Um dos efeitos deste tipo de agrupamento é a legitimação coletiva das informações
recebidas por cada um, donde aeficáciapersuasivadasfake-news.Outroefeitoéaqueledeum
203
isolamentoprogressivoentrediferentesagrupamentos,umavezqueasinformaçõesàsquaiscada
grupo tem acesso são dificilmente acessíveis aos outros. Não apenas não há discussões entre
segmentosopostos,comoelesseencontramisolados,semacessoàsmesmasinformações,enem
mesmo às mesmas fake-news, o que facilita processo deconstituiçãodegruposporoposiçãoa
outros, na conhecida lógica do narcisismo das pequenas diferenças (Freud, [1930]/1984a).
Vemcompletaresseprocessoumoutroaspectoparticularmenteeficaz,dopontodevista
do apelo emocional, na relação entre o líder e seus interlocutores, a saber, a criação de uma
proximidadeaparente.Trump,porexemplo,inaugurouumnovométododecomunicaçãocoma
população através do Twitter. Jair Bolsonaro, por sua vez, privilegiou o WhatsApp em suas
comunicações, mantendo este estilo em seu governo. Declarações, que, napolíticatradicional,
seriam consideradas como “quebras de protocolo”, são, na verdade, um estilo específico de
governo pela comunicação. A experiência do eleitor ou cidadão é a deterintimidadecomseu
líder, o que legitima a veracidade de suas declarações. Ao compararasinformaçõesquerecebe
diretamente de seu líder com aquelas que recebe pelos meios tradicionais de comunicação, as
divergências tendem a ser sistematicamente interpretadas por ele como manipulação dos
opositores. A discrepância das informações entre os próprios meios se integra desse modo às
práticasdedesinformaçãointencionaldasfakenews.Entraaquitambémodesrespeitoperiódico
do líder pelas instituições. A marca do herói começa precisamente com seu desprezo pela
situação instituída. Mas as afirmações desrespeitosas são sistematicamente seguidas de um
desmentido. Nesse caso, oefeitodascontradiçõesnãoéadesconfiança,masalgomaispróximo
do que Orwell descreveu em sua parábola crítica ao totalitarismo soviético,oduplipensar.Em
termosanalíticos,adefesapsíquicaemjogoéadarecusa,cujaformalizaçãoúltimaéaafirmação:
“Sim, eu sei, mas mesmo assim...”.
Tal como descrito por Freud, ocircuitodeverdadessefechaemtornodecadagrupoe
seu líder. No interior dos grupos, as identificações se reforçam pela exclusão de alteridades
ameaçadoras e pela construção de inimigos. Contudo, algo mais está em jogo, a saber, a
participaçãodeinstrumentostécnicosnesseprocessodeproduçãodegrupos,desimplificaçãode
verdadesedereduçãodalógicadiscursivaanegaçõessimples.Esteelementotécnicoinexistiaaté
há pouco na comunicação de massa. A produção algorítmica de umconjuntodeinformações
204
específico para cada sujeito e simultaneamente para aqueledeseusagrupamentos,solicitauma
novaabordagemconceitualdopoderemjogo,diferentedaquelausadaparaosmeiostradicionais
de comunicação.
Comecemos pela singularização das ações de controle sobre cada indivíduo. Segundo
Foucault, esta não é uma técnica recente nas práticas de poder. Em que pese o alto grau de
refinamentotecnológicoemjogonasredesemídiassociaishoje,suaorigempodeserencontrada
no modelo do pastor e seu rebanho empregado pela tradição monástica cristã.
Foucault sublinha as diferenças entre a forma de governo da coletividade segundo o
poder pastoral e aquele da política grega. O governo da polis era impessoal no sentido que o
governante era substituível ao longo do tempo. No caso do poder pastoral,ogovernoimplica
umaindividualizaçãomáxima:opastoréresponsávelnãosomentepelorebanhocomoumtodo,
mas por cada ovelha em particular. Por isso, o pastor de almas cristão deve conhecer os
pensamentos decadaumdeseusfiéis:“semconheceroquesepassanacabeçadaspessoas,sem
explorarsuasalmas,semforçá-lasarevelarseussegredosmaisíntimos”nãoépossívelexerceresse
poder. (Foucault, [1982]/2017a, p.1048, tradução nossa).
Foucault considera que os princípios do poder pastoral se perpetuaram na gestão
biopolítica das populações pelas políticas públicas (saúde, segurança) e pelas instituições
privadas. Ele define comogovernamentalidadeo
“ conjuntoconstituídopelasinstituições,pelosprocedimentos,análisesereflexões,os
cálculoseaspráticasquepermitemexercerestaformabemespecífica,aindaquemuito
complexa,depoderquetemporalvoprincipalapopulação,porformamaiordesaber,
a economia política e, por instrumento técnico essencial, os dispositivos de
segurança.” (Foucault, [1978]/2004, p. 111, tradução nossa).
Nossa sociedade, mais do que qualquer outra, se caracterizaria como uma complexa
combinação entre “técnicas de individualização e procedimentos de totalização” (Foucault,
[1982]/2017a, p.1048, tradução nossa). Certa vez, Foucault se refere a esta combinaçãocomo
“verdadeiramente demoníaca” (Foucault, [1979]/2017b, p. 966, tradução nossa).
O advento das técnicas pastorais no universo algorítmico das mídias sociais não foi
testemunhado por Foucault. Através delas, a tecnologia do poder pastoral atingiu níveis de
articulação comosprocedimentostotalizantesdegestãosocialprovavelmentemaisdemoníacos
205
doqueosdesuaépoca.Cabenotarqueosprocedimentostotalizantesdenossaépocasãoaqueles
do neoliberalismo. Naturalmente, a governamentalidade, segundo Foucault, não se resume ao
modo neoliberal de gestão da população, que é apenas sua forma atual. Mas estamos imersos
nessa forma e ela utiliza o poder pastoral que lhe convém. Comefeito,aatualizaçãodopoder
pastoral pela internet se articula com surpreendente perfeição aos princípios detotalizaçãodo
projeto neoliberal ao qual estão associadas.
Ora, o neoliberalismo se caracteriza por dois aspectos. Primeiramente pelo
questionamentodaideiadeEstadoenquantoumanecessidadeinquestionável,oquemarcasua
diferença para com aformaanterior,pautadopelaideiadeEstadocomoumfimemsimesmo.
Emsegundolugar,pelapromoçãodalógicademaximizaçãodebenefíciosereduçãodoscustosa
umprincípiodeaçãouniversal.Estesdoisaspectosdoneoliberalismosefundamnaideiaqueos
sujeitos sejam radicalmente livres. Gary Becker, prêmio Nobel de economia, sustenta que
qualquer comportamento humano deva ser sempre considerado como uma “escolha racional
entre objetivos excludentes visando a maximização de utilidades” (Becker, 1990,p.5,tradução
nossa).
Contudo, Becker não problematiza o conjunto de escolhas disponíveisaosujeitolivre.
Uma análise mais detida deste conjunto demonstraria com facilidade que quesetratadeuma
liberdadevigiada.Porexemplo,nocasodofuncionamentoalgorítmicodasnovasmídiassociais,
os objetivos excludentes oferecidos à escolha racional de cada um são objeto de um refinado
controle.Omesmopoderiaserditoarespeitodasescolhasracionaisdosujeitonomundoatual.
Compreende-se assim a razão de fundo de um aparente paradoxo do neoliberalismo, a saber,
aquele de sersimultaneamenteumateoriadegestãosocialfundadanaliberdadeindividualese
colocar como totalmente compatível com governos autoritários e violentos, como mostra o
“experimento inaugural” realizado no Chile de Pinochet.
A análise foucaultianadagovernamentalidadeneoliberalcolocaemrelevoprecisamente
isso: as relações de poder só podem se darsobresujeitosqueagemcomosefossemtotalmente
livres.Desdeoadventodabiopolítica,dizFoucault,“governarpassouaserestruturaroeventual
campo de ações dos outros, presentes e futuras” (Foucault, [1982]/2017a, p.1055, tradução
nossa).Issoimplicadefiniros“dispositivos”,os“quadros”,os“ambientes”easnormasnasquais
206
os seres humanos se compreenderão como livres. Fica claro então a especificidade do projeto
performativo do neoliberalismo no conjunto das formas de governamentalidade. Ninguém o
explicitoucommaisclarezadoqueMargaretThatcher:“Aeconomiaéométodo,masoobjetivo
é transformar o espírito” (Harvey, 2013, p.32).Emoutraspalavras,seametaéaconduçãoda
açãodecadaindivíduonointeriordaconduçãogeraldapopulação,istodependedeconsiderare
educarcadaumcomoumsujeitolivreeracionalfrenteàssuasescolhas. Aocontrolaroquadro
discursivo,jurídicoemoraldossujeitosconsideradoscomounidadesdecálculocusto-benefício,
podemos falar que os dispositivos do neoliberalismo efetivam-se como formas específicas de
produção de subjetividades em um plano ontológico. Com efeito, diz Laval, “não se trata
primordialmente de uma ideologia. Se trata antes de mais nada de uma tecnologia de poder”
(Laval, 2018, p. 42, tradução nossa).
Para finalizarmos estas reflexões, cabe sublinhar a especificidade dos modos de
subjetivação no neoliberalismo e a importância de uma reflexão renovadadopoderapartirda
linguagemcomoelementoqueprecedeossujeitos. SegundoFoucault,oobjetivodesuaobrafoi
odetentar“produzirumahistóriadosmodosdesubjetivaçãodoserhumanoemnossacultura
[isto é,] dos modos de objetivação que transformam seres humanos em sujeitos” (Foucault,
[1982]/2017a,p.1042).Nessesentido,eleconsideraosdiscursos,disciplinaseaspráticascomo
forças de saber/poder essencialmente performativas, forças que socializam sujeitos ao
objetivá-los. Estamos em um terreno diferente da retórica e persuasão. Nos modos de
subjetivação, não há primeiro um sujeito, sua consciência, e em seguida, sua alteração. Pelo
contrário, os sujeitos e a sua consciência sãopensadoscomoefeitosdosdiscursos,disciplinase
práticas, dispositivos fundamentalmenteabertosàcontingênciahistórica.Emoutraspalavras,a
reflexão foucaultiana, a partir de uma abordagem essencialmente pragmática dos discursos,
sugerequeumaanalíticadopodernachaveneoliberalcolocaemrelevoumplanopropriamente
performativo de seu funcionamento, onde a linguagem precede os sujeitos e suas relações sociais.
Isto nos permite concluir enfatizando a centralidade da linguagem em uma Psicologia
Social de função crítica diante dos discursos alienantes. Sintaxe, semântica e pragmática se
mostram como recortes capazes de traçar diferenças nas formas de poder que se efetivampela
linguagemequenãoapenaspersuademeatravessam,comoconstituemsujeitoserelaçõessociais.
207
Opodernagovernamentalidadeneoliberalnãoseatualizaapenasporumasemânticacentradana
figurapaterna,nemtampouconumasintaxedarazãoinstrumentaldeabrangênciaplanetária.Ele
se infiltra mais sutilmente nasestruturasdalinguagemquedefinemaessênciadossujeitosede
suas relações sociais.
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210
Capítulo12
elaçãoentreideologiaecríticanaspolíticaspúblicas:
R
reflexões a partir da Psicologia Social23
Eda Terezinha de Oliveira Tassara
Omar Ardans
Para introduzirmo-nos no estudo da relação entre ideologia e crítica nas políticas
públicas, propomos dois caminhos de análise.
De um lado, na interface da psicologia social com a ciência política, e também com a
sociologia e a antropologia, discutiremos a relação entre política e políticas públicas; isto nos
levará ao cerne dos problemas vinculados aoprimeirodostermosquecompõemotítulodeste
artigo: ideologia.
Por outro lado, em relação ao segundo termo do referido título e na interface da
psicologia social com a lógica, nos debruçaremos sobreaproblemáticadaracionalidade,único
alicerce legítimo da crítica, partindo do pressuposto de que não é possível a crítica se não há
condiçõesdeseanalisaraargumentaçãoemjogoeainda,semapossibilidadedesecompreender
e aceitar (ou rejeitar) as premissas que sustentem a dita argumentação.
Deste modo, a interface entre psicologia social e lógica deve ser subsidiada pela
hermenêutica e pela filologia. Este será o eixo para aproximarmo-nos do terceiro dosreferidos
termos: políticas públicas.
Como o leitor poderá perceber, os dois percursos envolvem diversas articulações da
psicologiasocialcomoutroscamposdoconhecimento,evidenciandoumadeterminadaposição,
interdisciplinar, no entendimento do que seja o objeto e o método da psicologia social.
Aesterespeito,apoiamo-nosnaspalavrasdeFlorestanFernandes([1969]/1975)quando,
aosintetizarasposiçõesdefendidaspordiferentesautores,aolongodaprimeirametadedoséculo
23
Versão revisada do artigo publicado em 2007 na revista Psicologia Política
211
XX, relativas às fronteiras disciplinares entre a sociologia, a psicologia, a antropologia e a
psicologia social, define o campo da sociologia, afirmando:
psicologiasocialconstituiumamatériahíbridasituadanumpontodeconfluência
A
da psicologia, da sociologia e da antropologia. Embora ela sejafundamentalpara
cada uma destas ciências, a problemática específica da sociologia se definealéme
acima desse campo híbrido, marginal e necessariamente interdisciplinar(Fernandes,
[1969]/1975, p. XI, grifos nossos).
Embora esta definição tenha sido publicada na década de 60 do século passado, estáa
mesma ainda presente no debate contemporâneo no campo das ciências humanas.
Assim, Fernandes ([1969]/1975) entende que a disciplina que estuda a interação
“consideradaemsieporsimesma”éapsicologiasocial,aqualécaracterizada,peloautor,através
de três elementos: hibridismo, marginalidade e interdisciplinaridade,afirmando,ainda,queela
seria fundamental para três disciplinas científicas, a psicologia, a sociologia e a antropologia.
Entendemos que, ao caracterizar assim a Psicologia Social, o autor não tenha empregado, de
forma pejorativa, tais termos. Portanto, lemos as suas palavras da forma que se segue.
A expressão “matéria híbrida”, que adviria das ciências naturais, particularmente da
botânica,indicariaquealgo,emsuagênese,surgedamisturadediferentes“coisas”,combinação
dediferençasque,noentanto,produzemumanovaforma.Alémdisso,ohíbridonãopermitiria
a identificação, na nova forma, daquilo que corresponderia a um ou outro (uns ou outros,
poder-se-iadizer,pluralizandoasorigens)dosseusgeradorese,maisainda,nãoimpedequeesta
212
novaformavenhaapossuircaracterísticasque,eventualmente,atornariamaisapreciávelqueas
daquelas que lhe deram origem.
Todavia, não se deve esquecer que o uso científico da palavra híbrido tem uma raiz
semântica importante no âmbito da mitologia. Neste âmbito, os híbridos são geralmente
considerados como resultados monstruosos,derivadosdemetamorfosesdeformasdeseresnão
monstruosos, em sua origem.
No entanto, em outros campos das ciências naturais, o uso científico da palavra
“híbrido” sustenta-se sobre um significado no qual uma origem, baseada em diferenças,torna
possível o surgimento de uma nova forma não necessariamente monstruosa.
Sob tais perspectivas é que, a interação humana, a materialidade fenomênica da
psicologiasocial,“híbrida”,nametáforadeFernandes([1969]/1975),podeserentendidacomo
se originando da diversidade de sociedades, de culturas, de valores, de modos de vida, etc. A
interação humana seria sempre um híbrido que, para cada geração e para cada indivíduo,
colocaria desafios inquietantes, todos relacionados à negação da diversidade humana e
remetendoàproblemáticadaidentidadesocial,desuaconstituição,desuapermanênciaedesuas
metamorfoses. Um estudo filológico-hermenêutico desta negaçãodadiversidadepoderiadeitar
raízes no campo mitológico supra-referido, sugerindo umarelaçãodemonstruosidadeadvinda
da miscigenação de povos, de raças, de culturas.
Na sociedade contemporânea, face à intensificação dos fluxos de comunicação
sociocultural, evidencia-se uma dialética que se sustentasobreaaceitação-ounão-docaráter
híbrido da interação humana.Estadialéticaapresenta-seenfrentandodoispólos:deumlado,a
aceitação das diversidades humanas, através do seu encontro historicamente determinado
(historicização), produz um descentramento de mesmices identitárias (alterização); deoutro,a
recusadetalcaráterhíbrido,hierarquiza(hierarquiasessasarbitráriasemsuaorigem)formasde
interação humana, sustentadoras deideologiassubjugadorasdesereshumanosporoutrosseres
humanos, gerando racismos, xenofobias, sexismos, fundamentalismos e outros.
Desta forma, a partir da aceitação do caráter híbrido da interação humana,desenha-se
um dosgrandesdesafiosdapsicologiasocial,qualseja,precisamente,odadefesadadiversidade
humana como pré-requisito ético da compreensão científica do humano. Esse compromisso,
213
cujas raízes podem ser encontradas já nos primórdios do pensamento clássico grego, emerge
como um axiomanecessárionoestudoéticodasociedadecontemporânea.Emboraalimentado
por interpretações filosóficas arcaicas ou emergentes, sua explicitação hodierna apresenta-se
como uma decorrência dos processos históricosquesederam,intrínsecaeextrinsecamente,no
campo do conhecimento científico ao longo da modernidade, bem como das transformações
sociais que os sustentaram e/ou foram deles resultantes.
Esta vinculação, ético-política, estaria indelevelmente imbricada com o próprio avanço
do conhecimento sobre a interação humana e suas múltiplas formas de manifestação.
Configura-se, desta forma, um elo ético necessário entre a psicologia social e a política, que
comprometido, em seu significado, com o híbrido, com as diferenças, localizar-se-ia nos
propósitos da construção democrática das sociedades e da compreensão dos processos de
socializaçãodosindivíduosnessassociedades.Caberiaenfatizar,então,comoumaexigênciaética,
a necessidade de aceitação da pluralidade de formas de interação humana possíveis,
evidenciando-se o caráter arbitrário comoqualashegemoniasselegitimam.Avinculaçãoética
gera a indissociabilidade da interface política- psicologia social.
Seaanálisefeitanosparágrafosanterioresdiziarespeitoànaturezaespecíficadoobjetoda
psicologia social, a interação humana e seu caráter híbrido, campo marginal, por sua vez,
referem-seàdisciplinaPsicologiaSocial,configuradaemfunçãodaposiçãoocupadaporseuobjeto
específiconocampodasciênciashumanas:nosinterstíciosdisciplinares(margens)enasfronteiras
dos conhecimentos por elas alcançados; margens estas que são compartilhadas, nas suas
interfaces,comoutrosposicionamentosdisciplinares,equesesituamnavanguardadaprodução
do conhecimento nos domínios da sociologia, da antropologia e da psicologiae,indoalémda
posição de Fernandes ([1969]/1975), da psicanálise, constituindo-se de forma original e
autônoma deles.
Aformulaçãodapsicanáliseveiointroduzir,deformanãointencional,umnovofatorde
perturbação nadelimitaçãoobjetivadasfronteirasentreasdisciplinasemanálisesem,contudo,
dissolvê-las. Se, de um lado, a antropologia cultural trouxe como referência a diversidade das
manifestaçõesculturais,apsicanáliseassentasuasteoriassobreapressuposiçãodauniversalidade
das manifestações simbólicas humanas. Esta perturbação, que potencialmente conturbaria o
214
sistemanaturalistadeinterpretaçãodomundo,sistemaestedoqualdecorreaciênciamodernae
queseparadeformaabsolutaaculturadanaturezae,portanto,osfatoseobjetoshumanosdos
não-humanos(Descola,2005),paradoxalmenteoreafirma,configurandoaspectosuniversaisno
bojo da diversidade das interações humanas. Ao formular princípios atemporais para a
compreensão da capacidade simbólica humana e de sua formação, restaura a cisão
natureza-cultura no campo das ciências humanas, englobando nele o estudo atemporal da
diversidade de fenômenos temporais (e, portanto, sociohistóricos e políticos).
Assim, situada às margens das ciências humanas, nelas incluindo a psicanálise, a
psicologia social continuaria comprometida com seu caráter híbrido e necessariamente
interdisciplinar.Cumulativamente,então,seainteraçãohumanaforconsideradasempre,edesde
sempre, híbrida, esta consideração implica, ao mesmo tempo, a aceitação lógica da
impossibilidadededeterminaçãoapriori,sejadesuasorigensemanifestações,sejadasinterfaces
disciplinares no interior das quais o objeto se situará.
Estas considerações poderiam ser ilustradas em analogia com as palavras com as quais
Agamben (2005) caracteriza a produção de seu pensamento:
staposiçãoestámaispróximadoque,naciênciaf ísica,chamamosde“umcampo”,
E
onde todo ponto pode aumcertomomentocarregar-sedeumatensãoelétricaede
umaintensidadedeterminada.Filosofia,política,filologia,literatura,teologia,direito,
nãorepresentamdisciplinaseterritóriosseparados,massãoapenasnomesquedamos
aestaintensidade.Aconfiguraçãodoquevocêchamademeus“múltiploscamposde
interesse” depende, pois, da contingência capaz de determinarumatensãona
situação histórica concreta em que me encontro. Não devemos esquecer, por
exemplo, que é impossível haver filosofia sem filologia, da mesma forma como é
impossível teoria sem história. Para mim, assim como para Foucault, ainvestigação
históricadopassado,éapenasasombradainterrogaçãohistóricasobreopresente.E
atualmente, mais do que nunca, a arqueologia é a única via de acesso ao presente
(Agamben, 2005, não paginado, grifos nossos).
215
Esta caracterização, que é ética, política e metodológica ao mesmotempo,apontapara
algo (implícito no trecho de Fernandes) que consideramos essencial ao caráter científico da
pesquisaempsicologiasocial:qualquerpesquisaverdadeiramentecientíficaempsicologiasocial
deve apreender seus objetos nas margens disciplinares, se ela quiser, efetivamente, produzir
conhecimento “novo”.IstodeterminaqueaPsicologiaSocial,parasercaracterizadacomouma
áreadepesquisacientífica,deveconstituir-secomoumaciência“deponta”,situadanasfronteiras
do conhecimento, falando pelas retóricas das vanguardas.
Ainda sob tais considerações e por definição, todo conhecimento é sempre algo novo,
embora esteja necessariamente alicerçado no conhecimento anterior, como exemplifica G.
Bateson ([1972]/1976), ao escrever sobre a descoberta da máquina de vapor24. Assim, seria
também um absurdo dizer-se que o conhecimento novo estaria já contido naquele outrora
produzido. Pelo contrário, para produzi-lo, tem-se que iralémdele.Eparatanto,quemquiser
produzi-lo, há de se situar nas margens (daquilo que é conhecido) do objeto (a interação
humana). Tal semia do termo marginalidade transforma, portanto, esta última em um
pré-requisito da heurística.
Conforme foi anteriormente analisado, a psicologia social situar-se-ia, como campo de
conhecimento, “entre” os campos definidos pelas disciplinas humanas historicamente
consolidadasenassuasfronteirastemporais.Sobtalperspectiva,enosentidodaconceituaçãode
psicologia social oferecida por Fernandes ([1969]/1975), faz-se aqui necessárioacrescentarque
“entre” os campos disciplinareselencadosporesseautor,estáapsicologia,abrindo-secomisto,
um território vasto e cheio de conflitos escolásticos no plano metodológico.
Aapresentaçãodapsicologiasocialcomoconstituindoumaáreacientíficaindependente
da psicologia vem conflitar com o pensamento intuitivo disseminado na sociedade, que não
distingue esses dois campos disciplinares dado conterem o termo “psicologia”; contudo, esta
apresentação se sustenta na evolução histórica destes campos de conhecimento.
24
“UmavezconheciummenininhonaInglaterraqueperguntouaseupai:‘Ospaissabemsempremaisdoqueos
lhos?’Eseupaidisse:‘Sim’.Aperguntaseguintefoi:‘Pai,queminventouamáquinaavapor?Eopaidisse:‘James
fi
Watt’.E,então,omeninoreplicou:‘Mas,porquenãoainventouopaideJamesWatt?’”(Bateson,[1972]/1976,p.
47, tradução nossa).
216
Asorigensdapsicologiasocialautônomaremontamaumabifurcaçãohistóricaocorrida
aolongodoséculoXX,pelaqual,foramconfiguradosnovos,genuínoseespecíficosobjetospara
a mesma, distinguindo-a dos objetos das demais ciências humanas.
Esseobjetoconsistenocomportamentopolíticoeemsuasimplicaçõesedesdobramentos
sobreasinteraçõeshumanas,contribuiçãoquedevesercreditadaaoseminentesestudosdeKurt
Lewin,osquaispermitematribuiraesteautor,comlegitimidade,oepítetodepaidapsicologia
social, uma vez que, com suas reflexões e proposições, delimitou (cf., por exemplo, Lewin,
[1948]/1973) este novo campo de investigação, nãocontidonapsicologia,naantropologia,na
sociologia e na psicanálise.
Tal campo permitiu delimitar como figura a psicologia social autônoma, inscrita no
zeitgeistdomomentoemquesurgeedelineadaapartirdeumfundoquatripartite(antropologia,
sociologia, psicologia e psicanálise), inter-relacionando seus elementos de forma necessária.
Como disciplina autônoma, a psicologia social configura, então, uma unidade fenomênica, o
grupo,umobjetoespecífico,ocomportamentosociopolítico,eumametodologiacientíficaprópria,
a pesquisa- ação25.
Há, ainda, que se acrescentar às considerações precedentes, a posição de Barthes
([1984]/2004) sobre a interdisciplinaridade. Em analogia com o pensamento deste autor, a
psicologia socialnãoseriainterdisciplinarsomenteporque,comocampo,devesesituarentreas
disciplinas,nemtampoucoporqueparaproduzirconhecimentodeveriasesituaràsmargensdo
objeto, mas, e principalmente, porque para produzir conhecimento, há de se pressupor, no
objeto,dimensõesdesconhecidasque,portanto,fazemcomquesevenhaaconsiderá-lo,sempre,
como umnovo objeto.
interdisciplinaridade, de que tanto se fala, não está em confrontar disciplinas já
A
constituídas (das quais, na realidade, nenhuma consente em abandonar-se). Para se
fazer interdisciplinaridade, não basta tomar um ‘assunto’ (umtema)econvocarem
tornoduasoutrêsciências.Ainterdisciplinaridadeconsisteemcriarumobjetonovo
que não pertença a ninguém (Barthes, [1984]/2004, p. 102).
25.
entro dessa concepção disciplinar, torna-se irrelevante a dicotomia entre a psicologiasocialpsicológica,com
D
predominância de explicações de cunho psicologista e a psicologia social sociológica, com predominância de
explicações de cunho sociologista.
217
Nestaperspectiva,umnovoconhecimentoproduzidonãoéumaverdadeestabelecidade
umavezeparasempre,masapenaspré-requisitoparaseiralém,paraseatravessarfronteirasdojá
sabidoemdireçãoaoquesealmejaconhecer.Acaducidadedaverdadesedápelatransformação
histórica do objeto, implicando outras abordagens metodológicas para a sua apreensão
cognoscitiva. Embora a racionalidade com que se abordam os objetos possa ser de natureza
atemporal, sua temporalidade se situa no contexto histórico no qual se inscreve sua
circunstância.
Após a enunciação destas considerações sobre a complexidade metodológica envolvida
no estudo dos objetos da psicologia social, dado que o presenteartigovisaumareflexãosobre
relaçõesentreideologiaecríticanaspolíticaspúblicaseasarticulaçõesdecaráterinterdisciplinar
queelasenvolvem,passamosàanálisedaquestãodaideologia,caracterizadaporFoucaultcomo
uma“noçãomuitoimportanteeaomesmotempomuitoembaraçosa”.(Foucault,[1973]/2002,p.
27)
Para introduzir seu pensamento sobre ideologia, o filósofo inicia seu texto se
confrontando com o marxismo:
as análises marxistas tradicionais a ideologia é uma espécie de elemento negativo
N
através do qual se traduz o fato de que a relação de conhecimento é perturbada,
obscurecida, velada pelas condições deexistência,porrelaçõessociaisouporformas
políticas que se impõem do exterior ao sujeito de conhecimento. A ideologia é a
marca,oestigmadestascondiçõespolíticasoueconômicasdeexistênciasobreosujeito
de conhecimento que, de direito, deveria estar aberto à verdade (Foucault,
[1973]/2002, p. 27).
Na posição marxista tradicional, segundo o autor, há um lugar importante para o
conceito de véu. A relação de conhecimento é velada pelas condições de existência, sendo a
ideologia o próprio véu que perturba, obscurece a referida relação de conhecimento. Foucault
([1973]/2002)vaisecontraporaessaposição,quesepoderiadenominardevelamento.Aseguir,
oferece sua conceituação, nos seguintes termos:
218
o rdensdeverdadeecertosdomíniosdesaber,apartirdecondiçõespolíticasquesãoo
solo em que se formam o sujeito, os domínios desabereasrelaçõescomaverdade
(Foucault, [1973]/2002, p. 27, grifos nossos).
Aquilo que, para a posição marxista, seria um obstáculo, é entendido por Foucault
([1973]/2002)comosolo,substrato;substratoestequedáorigem,aomesmotempo,àformação
dosujeito,aosdomíniosdosabereasrelaçõescomaverdade.Mas,oqueconformariaessesolo?
Este solo se constitui, a nosso ver, nas condições políticas nas quais se socializam os indivíduos
(substrato). Constitui-se,portanto,emumoutroobstáculo,umavendaqueobnubilatambémo
conhecimento dos objetos porque se interpõe entre o sujeito e objeto.
Esta dialética permite incorporar, na análise do problema em questão, tanto a posição
marxistacomoafoucaultiana,equedizrespeito,aomesmotempo,aosvéus(doobjeto),quese
interpõem entre osujeitoeoobjetodoconhecimentocomoatodedominaçãoeasvendas(do
sujeito) que se interpõem entre o sujeito e o objeto, vindas da formação da subjetividade na
socialização,equetambémdificultamoconhecimento.Emsíntese,paranós,osproblemasquea
análise da ideologia obriga a enfrentar são, ao mesmo tempo, os dos véus (doobjeto)eosdas
vendas (do sujeito) (Tassara e Ardans, 2005).
É a partir desta consideração que a relação de conhecimento torna-severdadeiramente
dialética,pois,juntoaodesvelar,odesvendardosujeitosignificaoconhecimentodascondições
políticas da formação do próprio sujeito, sua socialização. Em outras palavras, permite a
emergência da consciência do sujeito enquanto sujeito histórico que, ao desvelar ao sujeito a
história social, desvenda a ele sua própria história, em um movimento que desfaz,
concomitantemente, a falsa consciência e a ilusão.
Com base nessas considerações, podemos passar para a análise do termocrítica26.
26
“Apalavra‘crítica’surgecomoumtópicododebatefilosóficoaolongodoséculoXVIII.Inúmeroslivroseescritos
i ntroduzem, em títulos pedantes, característicos da época, a palavra ‘crítica’ ou ‘crítico’. (...) Emcompensação,a
expressão ‘crise’ era empregada muito raramente no século XVIII e, de maneira alguma,constituíaumconceito
centralparaaépoca.Estefatoestálongedeserumacasualidadeestatística,poisguardaumarelaçãoespecíficacoma
primaziadacrítica.(...)Apalavrakritik,crítica(emfrancêscritique;eminglêscriticks,hojeapenascriticism)temem
comumcomKrise(emfrancês,crise;eminglês,crisis)aorigemgrega,apartirde[verbosignificando]separar,eleger,
julgar,decidir,medir,lutarecombater.Oempregogregodekrisis,criseemportuguês,significaemprimeirolugar,
separação,luta,mastambémdecisão,nosentidodeumarecusadefinitiva,deumveredictooujuízoemgeral,que
hoje pertence ao âmbito da crítica” (Koselleck, [1959]/1999, p. 201-2).
219
ParaAristóteles,umasentençaseriaverdadeiraquandoopredicadoconviesseaosujeito.
Talafirmaçãomostra-seconsistentecomacríticaapresentadaporFoucault([1973]/2002)sobre
a questão da verdade: de fato, só é possível julgar a verdade de uma afirmação, dentro da
ortodoxia lógica, sehouverumasemânticaquepermitajulgartal“conveniência”entresujeitoe
predicado, independentemente da complexidade dos termos componentes das asserções e
afirmações. Obviamente, nesta semântica estão implícitos os valores, as crenças, as ideologias,
construídos ao longo do processo civilizatório, deonderesultamcertezaseverdades,afirmadas
nos argumentos em pauta (Tassara, 2003).
Portalrazão,acríticalógicadoargumentonãopodeprescindirdacríticahermenêuticae
filológica das semânticas que o sustentam. Através desta crítica emergirão as tensões e
divergências implícitas nos processos de subjugação e dominação, e se explicitarão os
fundamentos lingüísticos das semânticas, eivados de significados ocultos, produzidos pelos
silêncios e silenciamentos27, resultantes dos referidosprocessos de dominação.
A consciência da arbitrariedade semântica advindadacríticalógicaexplicita,paripassu
com a análise filológico-hermenêutica dos seus significados e usos, dimensões cognitivas e
afetivas. Asprimeiras,referidasàcompreensãodocaráterarbitráriodaverdadenosargumentos
lógicos, e as segundas, evidenciando,emumapoética,aconstruçãohumanadoconhecimento,
desnaturalizando-a.
Agamben ([2003]/2004), a esse respeito, considera que a terminologia é o instante
propriamentepoéticodoconhecimento28.Poroutrolado,A.Bosi(2003)refere-seàdefiniçãode
poética de Benedetto Croce, como a síntese entre opathose a figuração29.
Assim, a apreensão da arbitrariedade semântica alimenta buscas históricasdossentidos
soterradosnaspalavras,levandoàapreensãoafetivadessessentidos(opathos)edesuafiguração.
Qual é a poética da política? Borges afirma:
27
“(...)realidadesausentesporviadesilenciamento,dasupressãoedamarginalização,istoé,asrealidadesquesão
ativamente produzidas como não existentes” (Santos, s/d).
28
“Se, como se sugeriu, a terminologia é o momento propriamente poético do pensamento, então as escolhas
terminológicas nunca podem ser neutras” (Agamben, [2003]/2004, p. 15).
29
“A expressão poética é definida [porCroce]comointuição,logoconhecimentoporimagens.Poesianãoénem
puro conceito nem sentimento imediato. É síntese de pathos e figuração” (Bosi, 2003, p. 75).
220
“ A música, os estados de felicidade, a mitologia, os rostos trabalhados pelo tempo,
certos crepúsculos e certos lugares, têm algo a nos dizer - ou alguma coisa já nos
disseram que não deveríamos ter perdido. Esta iminência de revelação que não se
produz é, quem sabe, o fato estético” (Borges, 1952 apud Tassara, 2001, p. 211).
ParafraseandoBorges,enaesteiradopensamentodeCroce,apoéticadapolíticaestaria,
então,situadanadialéticadadescobertadifusadaquiloqueperdemos(noprocessohistóricode
dominação), alimentando aquilo que buscamos (a utopia da emancipação e da democracia
radical).
O disciplinamento não democrático,naturalizado,anossover,mataaforçapoética,na
medidaemqueocultaasuaproduçãohumanaehistóricaemsuamultiplicidadeediversidade,e
se apresenta como alternativa única. Trata-se, portanto, de recuperar a poética, através da
desnaturalização (democratização) provocada pela crítica (lógica-filológica-hermenêutica),
permitindoaemergênciadaconsciênciadaquiloquerequersolução,dosproblemasinerentesàs
interações humanas cristalizadas em um contexto de disputas e tensões provocadas pela
implantação de formas de convívio subjugadoras e dominadoras de unspelosoutros.Ouseja,
formasnãodemocráticas,nosentidomaisarcaicodotermo:anãodefesadasminoriasfrenteàs
maiorias, como ato essencial de governo.
Política, nesse sentido, pode ser entendida, à maneira aristotélica, como a definição de
regrasdeconvívioquedisciplinamasdinâmicashistóricasdasinteraçõeshumanas,e,portanto,a
definiçãodofuturosocial.Sobtalconfiguração,Políticaepolíticaspúblicassãosinônimos,uma
vez que o espaço das interações humanas, em sua totalidade, é o espaço público em uma
sociedadedemocrática.Logo,arelaçãoentreideologia,críticaepolíticaspúblicaséumarelação
deindissociabilidade,quandosituadaemumcontextosocialdemocrático,namedidaemquea
desnaturalização da ideologia, produzida pela crítica necessária, alimentará poeticamente as
buscas de compreensão dos problemas de interação humana inerentes à vida social em cada
instante de sua dinâmica,emumprocessoininterruptodeaperfeiçoamentodamesma,rumoà
utopia da democracia radical.
Esse processo crítico fomentaria a transparência das interaçõeshumanasnavidasocial,
aceitando o hibridismo gerado pela diversidade daspossibilidadeshumanas,aproximandosuas
221
fronteiras de sua consecução utópica. Qual seria, então, o papel da psicologia social neste
processo?
Quando as políticas públicas coincidem com a Política, no sentido aristotélico, a
psicologia social é esseprocessodedesconstruçãocríticaeoconhecimentodelederivadosobreavida
social como um todo. Seu método, como já afirmado: a pesquisa-ação. Seu instrumento: a
intervenção psicossocial emuladora da crítica do processo de socialização. Seus resultados: o
incremento do processo de desnaturalização histórica e identitária e a emergência e/ou
consolidaçãodaconsciênciahistóricaesocialdeleresultante.Oconhecimentodaídecorrenteéo
esclarecimento do processo de construção histórica da interação humana e de seusresultantes
psicossociais no plano material e simbólico.
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223
Colaboradores
Professor Associado do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho e do Programa de
Pós-Graduação em Psicologia Social do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo
(USP),ondeéorientadordemestradoedoutorado,esupervisordepós-doutorado.Desenvolve
atividades de ensino, pesquisa e extensão na área de intercultura e raça-etnia com ênfase nos
temas: diversidade, direitos humanos, preconceito e discriminação, planejamento em saúde
comunitária, tecnologias de intervenção psicossocial, monitoramento e avaliação de
programas/projetos sociais.
Psicóloga formada pela Universidade Nove de Julho (UNINOVE) e especialista em Saúde
Coletiva pela ResidênciaMultiprofissionalemSaúde.MestraemFormaçãoInterdisciplinarem
Saúde pela Universidade de São Paulo (USP). Professora universitária na Universidade
PresbiterianaMackenzie.PesquisadoracolaboradoradoLaboratóriodeEstudosemPsicanálisee
PsicologiaSocial(LAPSO/USP)epsicólogaclínica.Desenvolveatividadesdeensino,pesquisae
extensãonasáreasdepsicologiasocialeinstitucional,psicologiacomunitária,psicologiadasaúde
e políticas públicas.
Psicóloga pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP). Especialista em
Práticas Psicológicas em Instituições pela USP edoutorapeloProgramadePós-Graduaçãoem
Psicologia Social do IPUSP, na linha Política,SaúdeColetivaePsicologiaSocial.Professorana
pós-graduação da Santa Casa no curso Psicopatologia e Saúde Pública e docente no curso de
Psicologia da UNIP. Membro do Laboratório de Estudos em Psicanálise e Psicologia Social
224
(LAPSO/USP). Atua na interface entre psicologiasocial,psicanáliseepolíticaspúblicas,tendo
experiência no Sistema Único de Saúde e no Ministério Público do Estado de São Paulo.
Psicólogo formado pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (2005). Concluiu o
Mestrado (2007) e o Doutorado (2010) pelo programa de pós-graduação em Psicologia da
PUC-Campinas. Tem experiência na área da Psicologia Social, Psicologia Escolar e Educação,
atuando principalmente em contextos educativos e comunitários. Atualmente é professor
assistentedoutordoDepartamentodePsicologiaSocialedoTrabalhodoInstitutodePsicologia
da USP, e do programa de pós-graduação em Psicologia Social - Instituto de Psicologia.
Desenvolve estudos de temáticas como:traumapsicossocial,participaçãopolíticaepsicologiae
políticas públicas. É membro do Observatório do Trauma Psicopolitico.
Belinda Mandelbaum
Professora Titular do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho do Instituto de
Psicologia da USP, onde realizou toda a sua formação, desde a Iniciação Científica até o
pós-doutorado,eondecoordenaasatividadesdeensino,pesquisaeextensãodoLaboratóriode
estudosdafamília,relaçõesdegêneroesexualidade(LEFAM).AutoradePsicanálisedafamília
(BH:Artesã,2020,3a.ed.),TrabalhoscomfamíliasemPsicologiaSocial(SP:Blucher,2023,2a.
ed.) e organizadora de Família, contemporaneidade e conservadorismo (com Luis Fernando
Saraiva, SP: Benjamin Editorial, 2017) e Histórias psicossociais da psicanálise brasileira (com
Stephen Frosh e Rafael Alves Lima, SP: Benjamin Editorial, 2024). Publicou artigos em
periódicos nacionais e estrangeiros na interface entre Psicologia Social e Psicanálise.
Bernardo Svartman
Possui mestrado e doutorado em Psicologia Social e do Trabalho pela Universidade de São
Paulo. Tem experiência docente na área de Psicologia com ênfase em Psicologia Social
ComunitáriaePsicologiadoTrabalho.Realizouexperiênciasdeassessoriaamovimentossociais,
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organizações autogestionáriaseaosindicatodemetalúrgicosdoABCpaulista,naáreadasaúde
do trabalhador. Atualmente investiga os movimentos sociais da cidade de São Paulo, suas
organizações comunitárias e formas de enfrentar o sofrimento gerado pelos fenômenos da
reificação e desenraizamento.
MestreemPsicologiaSocial.PsicólogadoServiçodeOrientaçãoProfissional(SOP)doInstituto
de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP).
ProfessoraEméritaeTitulardoDepartamentodePsicologiaSocialedoTrabalhodoInstitutode
PsicologiadaUniversidadedeSãoPaulo.GraduadaemFísica,Mestre,DoutoraeLivreDocente
em Psicologia pela Universidade de São Paulo, foi Professora Visitante do Departamento de
Física da Universidade de Pisa, Itália (FAPESP, USP e INFN-Istituto Nazionale di Fisica
Nucleare), do LPE-Laboratoire de Psychologie Environnamentale da Universidade de Paris V
(FAPESP, Acordo USP-COFECUB e CNRS), do Centre de Recherches Historiques da
EHESS-Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales-Paris (EHESS e CNRS) e da UPAEP-
Universidad Popular Autónoma del Estado de Puebla, México (FAPESP, CNPq, UPAEP e
CONACYT), nosquaisconduziu,comoconvidadaerepresentantebrasileira,investigaçõesem
cooperação internacional. No âmbitodoDepartamentodePsicologiaSocialedoTrabalho,foi
propositoraecoordenadoradoLAPSI-LaboratóriodePsicologiaSocioambientaleIntervenção,
iniciativa inovadora no país e proposta através de cooperação científico-acadêmica com
instituiçõesnoexterior(LPE-LaboratoiredePsychologieEnvironnamentaledaUniversidadede
ParisV)enopaís(USP/PUC-SP/FAPESP)eco-propositoradoProgramadeDoutoradoem
PsicologiaSocial daUSP(1986/1987).Aolongodesuacarreiraacadêmico-científicaparticipou
comoorientadorae/ousupervisoradecercade130trabalhosconcluídosnosdiferentesníveisde
formação, entre os quais, 22 em projetosdepós-doutoramento.Suaspublicaçõessituam-seno
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campo da intervenção psicossocial e socioambiental, emancipação, lógica e teoria da ciência,
educação e política ambiental.
Fábio de Oliveira
Professor do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho do Instituto de Psicologia da
USP. É um dos coordenadores do Laboratório de Estudos e Pesquisas sobre Trabalho,
MovimentosSociaisePolíticasSociais(TraMPoS)eco-editordosCadernosdePsicologiaSocial
do Trabalho. Possui graduação em Psicologia pela USP (1992), mestrado em PsicologiaSocial
pela USP (1997) e doutorado em Psicologia Social pela PUC-SP (2005). Realizou, em 2012,
estudos de pós-doutoramento no Instituto de CiênciasSociaisdaUniversidadedeLisboa.Sua
atividade depesquisaestávoltadaparaoestudodosprocessospelosquaisaspessoasconstroem
suas vidas em comum no trabalho e em outras atividades econômicas. Mais especificamente,
busca compreender como se engendram os processos de trabalho no cotidiano a partir das
condiçõesconcretasedasrelaçõesentrepessoas.Essalinhadeinvestigaçãoincluiointeressepor
temascomo:relaçõesdepodernotrabalho,críticaàgestãotradicional,formasdeemancipação,
autogestão, cooperativismo e economia solidária. Espera-secomessetrabalhoreunirelementos
que possam contribuir com coletivos de trabalhadores em sua luta por emancipação e por
melhores condições de trabalho, e com a formulação de políticas de desenvolvimento local,
políticas públicas de trabalho e programas de geração de emprego e renda. Foi docente da
PUC-SP entre 1997 e 2013 epsicólogodoCentrodePsicologiaAplicadaaoTrabalhodaUSP
entre 1996 e 2014. Em 2021, foi professor adjunto do Instituto Politécnico de Setúbal
(Portugal).
Mestrando no programa de pós-graduação em Psicologia Social do Instituto de Psicologia da
Universidade de São Paulo (PSO - IPUSP). Psicólogo, Bacharel e Licenciado em Psicologia
também pelo IPUSP. Atua na intersecção entre psicologia social, cultura e educação,
pesquisando a relação entreequipamentosculturaiseterritório,emdiálogocomaspolíticasde
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planejamentourbanoepatrimôniocultural.Desenvolveiniciativasdereflexãoeaprimoramento
dos processos formativos em Psicologia.
Professora Titular do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho do Instituto de
Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). Atua no Programa de Pós-Graduação em
Psicologia Social e no Programa deFormaçãoInterdisciplinaremSaúde,mestradoprofissional
interunidadesdaUSP.Orientamestradoedoutoradoesupervisionapós-doutorado.Desenvolve
atividades de ensino, pesquisa e extensão no campo da Psicologia Social, com destaque paraa
psicologiasocialdapráxisesuasinterfacescomsaúdemental,saúdecoletiva,formação,políticas
públicas e processos participativos.
Livre Docente em Psicologia Social e do Trabalho. Professor Associado do Departamento de
Psicologia Social e do Trabalho e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social do
Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP). Coordenador do Serviço de
Orientação Profissional (SOP) e do Laboratório de Estudos do Trabalho e Orientação
Profissional (LABOR).
Mestre em Psicologia Clínica. Psicólogo do Serviço de Orientação Profissional (SOP) do
Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP).
Secretário do Serviço de Orientação Profissional (SOP) do Instituto de Psicologia da
Universidade de São Paulo (IPUSP).
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Maria Cristina Gonçalves Vicentin
Professora doutora do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho e do Programa de
Pós-Graduação em Psicologia Social do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo
(USP),ondeéorientadorademestradoedoutorado,esupervisoradepós-doutorado emembra
dos grupos de pesquisa: Direitos Humanos, DemocraciaeMemórias(IEA/USP);Laboratório
Psicanálise, Sociedade e Política (IPUSP). Desenvolve atividadesdeensino,pesquisaeextensão
naáreadepsicologiaedireito(s),comênfasenostemas:saúdemental,justiçaedireitoshumanos;
práticas jurídicas e processos de subjetivação; direitos humanos de crianças e adolescentes;
adolescência, juventude e conflitualidade; tecnologias de intervenção psicossocial nas áreas
referidas.
Psicóloga pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP). Mestra e
doutorandanoProgramadePós-GraduaçãoemPsicologiaSocialdoIPUSP,nalinhadepesquisa
Política, Saúde Coletiva e Psicologia Social. Professora e supervisora da Pós-Graduação em
Psicoterapia de Orientação PsicanalíticadaUniversidadePresbiterianaMackenzie.Membrodo
Laboratório de Estudos em Psicanálise e Psicologia Social (LAPSO/USP). Atua na interface
entre psicologia social, psicanálise, políticas públicas, saúde coletiva, gênero e raça.
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graduação,quantonapós-graduação.FoimembrodacomissãoeditorialdarevistaPsicologia&
Sociedade (2020-2023) e,atualmente,coordenaoGT“PsicologiaSocialnosEstudosUrbanos:
diálogosinterdisciplinares”,daAssociaçãoNacionaldePesquisaePós-GraduaçãoemPsicologia
(ANPEPP).
Psicóloga sanitarista. Doutoranda e mestra em Saúde Coletiva pela Faculdade de Medicinada
Universidade de São Paulo (FMUSP). Especialista em Saúde ColetivaeAtençãoPrimáriapela
FMUSP,emprogramadeResidênciaMultiprofissionalemSaúde.GraduadaemPsicologiapela
Universidade Federal de Uberlândia. Integra o Laboratório de Estudos em Psicanálise e
Psicologia Social (LAPSO/USP) e o Grupo de Pesquisa e Intervenção Violência eGêneronas
Práticas de Saúde (FMUSP). Desenvolve pesquisas com ênfase em atenção primária à saúde,
políticas públicas de saúde, análise política em saúde, saúde coletiva e psicologia social
latino-americana.
Psicanalista, doutor em Psicopatologia Fundamental pela Universidade Paris VII, Professor
Titular do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho do Instituto de Psicologia da
Universidade de São Paulo. Editor Chefe da Revista Latinoamericana de Psicopatologia
Fundamental. Co-fundador e coordenador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e
Psicanálise (Latesfip). Autor, entre outros, dos livros Le fictionnel enpsychanalyse.Uneétudeà
partirdel’œuvredeFernandoPessoa,PressesUniversitairesduSeptemprion(2000), Linguagens
e pensamento. A lógica na razão e desrazão, Casa do Psicólogo (2007), A Psicologia Social e a
Questão do Hífen. Silva Junior & Zangari, (orgs.) Blucher, (2017) Patologias do Social.
Arqueologiasdosofrimentopsíquico(2018)eNeoliberalismocomogestãodosofrimentopsíquico
(2021). Dunker, Silva Junior e Safatle (orgs.), Autêntica e Fernando Pesssoa e Freud: diálogos
inquietantes, Blucher (2019).E-mail: nelsonsj1961@[Link]
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Omar Ardans
Hector Omar Ardans Bonifacino nasceu no Uruguai em 1949 e faleceu no Brasil, em Santa
Maria(RGS)em2020,tendodesenvolvidoadmirávelcarreiracientífico-acadêmicanocampoda
Teoria Crítica e de suas aplicações e implicaçõessobreaPsicologiaSocialePolítica.Intelectual
brilhante, estudioso consistente epersistentedasbuscaspeloesclarecimentoemancipatóriodas
multidões, exerceu influência considerável como mestreeanalistadestatemática,notadamente
junto aos participantes do Lapsi - Laboratório de Psicologia SocioambientaleIntervenção,no
período de 1998 até a data de seu falecimento. Primeiro Livre-Docente em Psicologia
Socioambiental pela Universidade de São Paulo (USP, 2009) com tese intitulada "Clínica
psicossocial da Identidade". Pós-doutorado em Psicologia Social na Universidade de São
Paulo/FAPESP (USP, 2002-2004) com estudo sobre a obra de J. Habermas e suas eventuais
contribuições para o conhecimento das relações entre intervenção psicossocial, identidade e
esclarecimento emancipatório. Mestre (1996) e Doutor (2001) em Psicologia Social pela
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP). Licenciado em Psicologia pela
Universidad de la República de Uruguay (UDELAR, 1985). A partir de 2007, tornou-se
professor adjunto no Departamento de Psicologia da UFSM, cargo queexerciaporocasiãode
seu falecimento. Como teórico, atuava principalmente nos seguintes temas: identidade
psicossocial, metamorfose humana, intervenção psicossocial e socioambiental, emancipação e
açãocomunicativa.Militanteapaixonado,deixoumuitosdiscípulosquelevamparaofuturosua
influênciacomomestreepensador.Estudiosodojudaísmo,notadamentedeGershomScholem,
deixa os filhos Elisabeth, Margareth, Débora, Rafael, Ely, Shai e Ester.
Psicóloga do Serviço de Orientação Profissional (SOP) do Instituto de Psicologia da
Universidade de São Paulo (IPUSP).
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Wellington Zangari
Mestre e doutor em Psicologia Social pela USP, com pós-doutorado pela mesma instituição e
estágiodepesquisanaUniversidadedeVirginia.ÉCo-coordenadordoInterPsi–Laboratóriode
Estudos Psicossociais “crença, subjetividade, cultura & saúde” e vice-coordenador do
LaboratóriodePsicologiaSocialdaReligião,ambosdoInstitutodePsicologiadaUSP,ondeatua
tanto na graduação quanto da pós-graduação. É membro do GT “Psicologia & Religião” da
Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia (ANPEPP). Suas áreas de
pesquisa concentram-se nas áreas de Psicologia Social da Religião, Psicologia Anomalística,
HistóriadaPsicologia(noçãopré-freudianadeinconsciente)eFilosofiadaMente(comênfasena
perspectiva da cognição incorporada e situada).
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Esta obra coletiva nasceu do seminário ocorrido em 2022
no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo,
com o título “Como pensamos a formação em Psicologia
Social hoje?”. Tratava-se de pensar os limites e
potencialidades de nosso campo acadêmico e
profissional, reconhecidamente importante na formação
em Psicologia, com a persistência do viés crítico e na
contramão das pressões do mercado para a oferta de
tecnologias e profissionais voltados às suas demandas.