UNIVERSIDADE ABERTA ISCED
Licenciatura em Ensino
ESTRATÉGIAS E MÉTODOS DE ENSINO DE TEXTOS LITERÁRIOS
Samuel
Trabalho académico apresentado no âmbito da disciplina de
Didáctica da Literatura / Língua Portuguesa
Maputo, 2026
ÍNDICE
Introdução ····································································· 3
1. O Texto Literário e o Texto Poético no Contexto Escolar ····················· 4
2. Fundamentos Teóricos do Ensino da Literatura ································ 5
3. Estratégias de Ensino de Textos Literários ·································· 6
3.1. Estratégia da Leitura Expressiva e Performativa ························ 6
3.2. Estratégia da Intertextualidade ········································ 7
3.3. Estratégia da Escrita Criativa a partir do Texto Poético ··············· 7
3.4. Estratégia da Análise Estilística e Linguística ························ 8
3.5. Estratégia Comparativa e Multicultural ································· 8
4. Métodos de Ensino de Textos Literários ······································ 9
4.1. Método Recepcional ····················································· 9
4.2. Método Socrático ou Maiêutico ········································· 10
4.3. Método Oficinal (Workshop de Escrita) ································· 10
4.4. Método da Pedagogia de Projecto ······································· 11
4.5. Método da Contextualização Histórico-Cultural ························· 11
5. O Papel do Professor como Mediador de Leitura Literária ···················· 12
6. Avaliação da Competência Literária ········································· 13
Conclusão ····································································· 14
Referências Bibliográficas ···················································· 15
INTRODUÇÃO
O texto literário — e em particular o texto poético — ocupa um lugar privilegiado na
história da educação humana. Muito antes de a escola existir tal como a conhecemos, os
poemas, as narrativas míticas e os textos sapienciais constituíam os principais veículos de
transmissão cultural, ética e estética das comunidades. A escola não inventou a relação entre
literatura e formação humana; herdou-a e institucionalizou-a, atribuindo-lhe um papel central
nos curricula das diversas tradições pedagógicas mundiais (Cerrillo, 2007).
No entanto, esta centralidade não é isenta de tensões e questionamentos. A
proliferação dos meios audiovisuais e digitais, a diversificação dos modos de acesso à
informação e ao entretenimento, e a crescente pressão utilitarista sobre os sistemas educativos
têm gerado um debate aceso sobre a pertinência e os modos de presença da literatura — e
nomeadamente da poesia — nos curricula escolares contemporâneos. Autores como Colomer
(2007), Lomas (2003) e Aguiar e Silva (2010) têm insistido, no entanto, que o texto literário
permanece insubstituível na formação linguística, estética, ética e cultural dos jovens.
O presente trabalho centra-se nas estratégias e nos métodos de ensino de textos
literários, com particular atenção ao texto poético, procurando responder à questão: como
ensinar literatura de forma a que os alunos desenvolvam simultaneamente competências
linguísticas, literárias e humanas? Para tal, parte-se de uma reflexão sobre o lugar do texto
literário na escola, avançando para a análise de estratégias didácticas específicas e de
métodos de ensino fundamentados teoricamente, com referência a autores de referência da
didáctica da literatura e da pedagogia da língua.
Do ponto de vista metodológico, o trabalho recorre à revisão crítica da literatura
especializada, integrando contributos da didáctica, da teoria literária, da psicolinguística e da
pedagogia, seguindo as normas APA na 6.ª edição para a apresentação das referências
bibliográficas.
1. O TEXTO LITERÁRIO E O TEXTO POÉTICO NO CONTEXTO ESCOLAR
O texto literário distingue-se dos demais tipos de texto pela sua opacidade semântica,
pela plurissignificação, pelo trabalho intencional sobre a linguagem e pelo modo como coloca
em crise as convenções comunicativas quotidianas. Como afirma Aguiar e Silva (2010), a
literatura é o lugar por excelência onde a língua é trabalhada na sua máxima expressividade,
onde a normatividade e a transgressão coexistem numa tensão criadora que amplia
continuamente os horizontes do dizível e do pensável.
O texto poético, em particular, representa a forma mais concentrada e mais intensa
desta elaboração linguística. Nele, como observam Jolibert e Sraïki (2009), cada palavra é
escolhida com precisão e intenção, cada desvio da norma é portador de significado, cada
silêncio e cada ritmo participam na construção do sentido. A poesia é, neste sentido, uma
escola de atenção à linguagem — e, por extensão, uma escola de atenção ao mundo.
A presença do texto literário na escola cumpre funções que vão muito além do
desenvolvimento da competência leitora stricto sensu. Colomer (2007) identifica três grandes
funções da literatura na formação escolar: (a) a iniciação na representação cultural partilhada
de uma comunidade, que permite ao jovem leitor integrar-se numa tradição e numa memória
colectivas; (b) o desenvolvimento da imaginação e da capacidade de adoptar perspectivas
diferentes da própria, contribuindo para o desenvolvimento empático e ético; e (c) a
socialização na forma de uso literário da linguagem, que disponibiliza ao leitor um repertório
expressivo e interpretativo de enorme riqueza.
Em Moçambique, a presença da literatura oral e escrita nas práticas pedagógicas
reveste-se de uma dimensão adicional: a literatura moçambicana, com autores como Noémia
de Sousa, José Craveirinha, Mia Couto e Paulina Chiziane, constitui um espaço privilegiado
de afirmação identitária, de elaboração da memória histórica e de exploração das relações
entre as línguas e as culturas que habitam o país. O ensino da literatura, neste contexto, é
também uma prática de construção da moçambicanidade (Mendonça, 2008).
2. FUNDAMENTOS TEÓRICOS DO ENSINO DA LITERATURA
O ensino da literatura tem sido marcado, ao longo do século XX, por diferentes
paradigmas teóricos que reflectem concepções distintas do texto, do leitor e do acto de
leitura. Rosenblatt (1978) foi uma das primeiras teóricas a deslocar o centro de gravidade do
ensino da literatura do texto para a relação entre o texto e o leitor, propondo o conceito de
transacção literária: a leitura literária é uma transacção entre o leitor e o texto, em que ambos
os pólos contribuem para a produção do significado.
Esta perspectiva transaccional foi aprofundada pela estética da recepção, desenvolvida
por Jauss (1978) e Iser (1979), que sublinharam o papel activo do leitor na actualização do
potencial semântico dos textos. Para Jauss (1978), todo o acto de leitura implica um horizonte
de expectativas — um conjunto de normas estéticas, culturais e ideológicas que o leitor traz
consigo — que o texto literário pode confirmar, decepcionar ou transformar. É nesta tensão
entre o esperado e o inesperado que reside o potencial formativo da literatura.
Iser (1979) desenvolveu o conceito de leitor implícito para designar a posição de
recepção inscrita no próprio texto: todo o texto literário constrói um leitor ideal a quem se
dirige e cujas competências pressupõe. O ensino da literatura pode ser entendido, neste
quadro, como o processo de formação do leitor capaz de ocupar esse lugar de recepção — de
desenvolver as competências necessárias para actualizar o potencial semântico dos textos.
Freire (1989), por seu turno, insiste que a leitura literária autêntica é indissociável da
leitura crítica do mundo: ler um texto é sempre também ler a realidade que o texto representa,
questionar as suas pressuposições ideológicas e culturais, e posicionar-se de forma activa e
transformadora face ao que se lê. Esta perspectiva freiriana é particularmente relevante para o
ensino da literatura em contextos marcados por assimetrias sociais e culturais, como é o caso
de Moçambique.
Do ponto de vista cognitivo, Vygotsky (1978) fornece um quadro teórico fundamental
para o ensino da literatura: o conceito de zona de desenvolvimento proximal sublinha que o
aluno pode atingir, com o apoio do professor e dos pares, níveis de compreensão e
interpretação literária que não seria capaz de alcançar de forma autónoma. O professor de
literatura é, neste sentido, um mediador de leitura que ajuda o aluno a desenvolver
competências interpretativas progressivamente mais sofisticadas.
3. ESTRATÉGIAS DE ENSINO DE TEXTOS LITERÁRIOS
As estratégias de ensino da literatura referem-se aos modos de organização das
actividades de leitura e interpretação em sala de aula, às técnicas utilizadas para facilitar o
acesso dos alunos aos textos e para desenvolver as suas competências literárias. A seguir,
analisam-se as estratégias mais relevantes e fundamentadas pela investigação didáctica.
3.1. Estratégia da Leitura Expressiva e Performativa
A leitura expressiva — leitura em voz alta com atenção à entoação, ao ritmo, às
pausas e à expressividade — constitui uma das estratégias mais antigas e mais eficazes no
ensino do texto poético. Barros (2014) sublinha que a leitura expressiva não é um ornamento
do ensino da poesia, mas uma condição da sua plena compreensão: é através da voz que o
leitor experimenta o ritmo, a musicalidade e a dimensão performativa do poema.
A performatividade do texto poético — o facto de o poema ser, em certa medida, um
acto de linguagem que se realiza na sua enunciação — justifica a utilização de estratégias
teatrais no seu ensino, como a leitura coral, a declamação, a dramatização e mesmo a
musicalização de poemas. Estas abordagens activam dimensões sensoriais e emocionais da
leitura que as análises exclusivamente textuais tendem a negligenciar (Jolibert & Sraïki,
2009).
Em contexto moçambicano, a leitura expressiva e performativa tem um ancoramento
cultural particular: a literatura oral moçambicana — contos, provérbios, adivinhas e canções
— é inseparável da performance. A integração destas formas na aula de literatura pode
constituir uma ponte eficaz entre a tradição oral e a tradição escrita, valorizando os saberes
culturais dos alunos e ampliando o seu repertório literário (Mendonça, 2008).
3.2. Estratégia da Intertextualidade
A intertextualidade — o conjunto de relações que um texto estabelece com outros
textos, explícita ou implicitamente — constitui uma dimensão constitutiva da literatura.
Kristeva (1969), que cunhou o conceito, sublinhou que todo o texto é um mosaico de citações
e que a sua compreensão plena exige o reconhecimento das vozes que nele dialogam. O
ensino da literatura que ignora a intertextualidade empobrece necessariamente a experiência
de leitura dos alunos.
A estratégia da intertextualidade consiste em colocar em diálogo diferentes textos —
poemas de diferentes autores e épocas que partilham temas, formas ou imagens; poemas e
pinturas, músicas ou filmes que estabelecem relações de reescrita ou de evocação mútua;
textos literários e textos do quotidiano — de modo a que os alunos possam perceber como os
textos se constroem a partir de e em diálogo com outros textos. Esta estratégia desenvolve
simultaneamente a competência literária, a competência cultural e o pensamento relacional
(Colomer, 2007).
3.3. Estratégia da Escrita Criativa a partir do Texto Poético
A escrita criativa a partir do texto literário constitui uma das estratégias mais eficazes
para o desenvolvimento da competência literária, porque obriga o aluno a assumir a
perspectiva do produtor e a experimentar, na própria pele, as escolhas e os constrangimentos
que caracterizam a criação literária. Como observa Matos (2012), escrever a partir de um
poema — completando-o, parodiando-o, reescrevendo-o noutro registo, respondendo-lhe,
imitando a sua forma — é uma forma de o compreender de dentro.
As actividades de escrita criativa mais frequentemente utilizadas no ensino do texto
poético incluem: a imitação de formas fixas (soneto, haiku, quadra); a reescrita de poemas em
prosa e vice-versa; a escrita de poemas a partir de imagens, músicas ou experiências pessoais;
a criação de antologias temáticas comentadas; e a escrita de poemas em resposta a outros
poemas. Estas actividades desenvolvem não apenas a competência de escrita, mas também a
sensibilidade estética, a consciência das escolhas linguísticas e a capacidade de mobilizar
recursos expressivos variados (Lomas, 2003).
3.4. Estratégia da Análise Estilística e Linguística
A análise estilística e linguística do texto poético consiste no estudo sistemático dos
recursos expressivos utilizados pelo autor — figuras de estilo, estruturas sintácticas, escolhas
lexicais, organização rítmica e métrica — e das funções que esses recursos desempenham na
construção do significado. Esta estratégia fundamenta-se no reconhecimento de que a forma e
o conteúdo são inseparáveis na literatura: o que o texto diz não pode ser separado de como o
diz (Aguiar e Silva, 2010).
A análise estilística bem conduzida não é um exercício de identificação e catalogação
de figuras de estilo, mas um percurso de descoberta: parte da experiência de leitura do aluno,
identifica os elementos formais que produziram determinado efeito estético ou semântico, e
analisa o modo como esses elementos contribuem para o significado global do texto. O
objectivo não é a análise pela análise, mas a compreensão mais profunda do texto através da
atenção à sua construção linguística (Barros, 2014).
3.5. Estratégia Comparativa e Multicultural
A estratégia comparativa consiste em confrontar textos de diferentes autores, épocas,
culturas e tradições literárias, identificando convergências, divergências e modos distintos de
responder a questões humanas universais. Esta estratégia desenvolve a consciência da
pluralidade das expressões literárias e culturais, contrariando o etnocentrismo e promovendo
a abertura ao outro (Cerrillo, 2007).
Em contexto moçambicano, a estratégia comparativa adquire uma dimensão
particularmente rica: a comparação entre a literatura moçambicana de língua portuguesa e as
literaturas africanas de outras línguas (inglês, francês, línguas africanas), ou entre a poesia de
Noémia de Sousa e a de Aimé Césaire, por exemplo, permite aos alunos situar a sua própria
tradição literária num contexto mais amplo e compreender as suas especificidades (Noa,
2002).
4. MÉTODOS DE ENSINO DE TEXTOS LITERÁRIOS
Os métodos de ensino da literatura referem-se às abordagens globais, aos quadros
organizadores que estruturam a prática pedagógica em torno dos textos literários. Enquanto
as estratégias são mais circunscritas e técnicas, os métodos implicam opções epistemológicas
e pedagógicas mais amplas.
4.1. Método Recepcional
O método recepcional, fundamentado na estética da recepção de Jauss (1978) e Iser
(1979) e desenvolvido do ponto de vista didáctico por Bordini e Aguiar (1988), organiza o
ensino da literatura em torno da experiência de leitura do aluno. O ponto de partida é sempre
o horizonte de expectativas do leitor — o conjunto de textos, valores e experiências que o
aluno traz consigo — e o objectivo é alargar progressivamente esse horizonte através do
contacto com textos que o confrontem, surpreendam e enriqueçam.
O método recepcional desenvolve-se em cinco etapas: (1) determinação do horizonte
de expectativas dos alunos; (2) atendimento ao horizonte de expectativas, com a selecção de
textos que partem do familiar e do conhecido; (3) ruptura do horizonte de expectativas, com a
introdução de textos que desafiam as expectativas e suscitam o estranhamento; (4)
questionamento do horizonte de expectativas, com a reflexão sobre o processo de leitura e
sobre as transformações ocorridas; e (5) ampliação do horizonte de expectativas, com a
integração das novas experiências de leitura (Bordini & Aguiar, 1988).
Este método tem a vantagem de centrar o ensino no aluno e na sua experiência de
leitura, valorizando os saberes prévios e promovendo uma relação activa e crítica com os
textos. A sua principal exigência reside no conhecimento aprofundado que o professor
precisa de ter dos seus alunos, para poder seleccionar textos adequados ao seu horizonte de
expectativas e ao seu nível de desenvolvimento literário.
4.2. Método Socrático ou Maiêutico
O método socrático, baseado na tradição filosófica da maiêutica — a arte de fazer o
interlocutor parir o conhecimento que já possui, através do questionamento sistemático —, é
particularmente adequado ao ensino da literatura, onde a multiplicidade de interpretações e a
abertura semântica dos textos criam condições favoráveis ao diálogo interpretativo (Lomas,
2003).
Na sua aplicação ao ensino da literatura, o método socrático organiza-se em torno de
questões abertas que o professor coloca aos alunos a propósito do texto: questões que não têm
uma resposta única e correcta, mas que convidam à exploração, à argumentação e à
negociação de sentidos. O professor não impõe a sua interpretação, mas guia o processo de
construção colectiva do significado, valorizando e problematizando as contribuições dos
alunos.
Chambers (1993) desenvolveu uma versão deste método especificamente orientada
para o ensino da literatura, a que chamou Tell me: trata-se de um protocolo de conversa sobre
livros que, através de perguntas simples e abertas («O que é que gostaste?», «O que é que não
gostaste?», «O que é que te intrigou?»), cria condições para que os alunos desenvolvam a sua
competência de leitura literária em diálogo com os pares.
4.3. Método Oficinal (Workshop de Escrita)
O método oficinal, inspirado nas tradições das oficinas de escrita criativa, organiza o
ensino da literatura em torno da produção textual: os alunos lêem textos literários como
escritores — com atenção às técnicas, aos recursos e às escolhas dos autores — e escrevem
os seus próprios textos a partir das leituras realizadas. Este método pressupõe que a leitura e a
escrita são processos complementares e que a experiência de escrita aprofunda a
compreensão dos textos lidos (Matos, 2012).
O workshop de escrita poética pode incluir actividades como: a exploração de
diferentes formas poéticas (soneto, ode, elegia, poema em prosa); a experimentação com
diferentes recursos estilísticos (metáfora, aliteração, anáfora); a escrita colaborativa de
poemas; a leitura e discussão dos textos produzidos pelos alunos; e a revisão e reescrita a
partir do feedback dos pares e do professor. Este método desenvolve não apenas a
competência de escrita, mas também a competência de leitura crítica e a consciência
metalinguística.
4.4. Método da Pedagogia de Projecto
A pedagogia de projecto aplica-se ao ensino da literatura quando os alunos são
envolvidos em projectos de longa duração, com objectivos, etapas e produtos claramente
definidos, que têm a literatura como tema ou como veículo. Exemplos de projectos literários
incluem: a criação de uma antologia poética da turma; a organização de um recital de poesia;
a produção de um jornal literário escolar; a visita a um escritor ou a uma biblioteca seguida
da criação de textos inspirados na experiência; ou o estudo aprofundado de um autor e da sua
época com apresentação final à comunidade escolar (Jolibert & Sraïki, 2009).
A pedagogia de projecto tem a vantagem de conferir sentido e funcionalidade às
actividades de leitura e escrita literárias, motivando os alunos através do envolvimento em
tarefas com uma finalidade real e uma audiência autêntica. Desenvolve também competências
transversais como a autonomia, a cooperação, a gestão do tempo e a capacidade de
planificação.
4.5. Método da Contextualização Histórico-Cultural
O método da contextualização histórico-cultural parte do princípio de que os textos
literários não podem ser plenamente compreendidos sem referência ao contexto histórico,
social e cultural em que foram produzidos e recebidos. Este método coloca os textos em
diálogo com documentos históricos, obras de arte, músicas e outros textos culturais do
mesmo período, de modo a que os alunos possam compreender as relações entre a literatura e
o seu tempo (Aguiar e Silva, 2010).
Aplicado ao ensino da poesia moçambicana, por exemplo, este método pode implicar
o estudo do contexto colonial e pós-colonial em que emergiram os primeiros poetas
moçambicanos de língua portuguesa; a análise das relações entre a poesia de Noémia de
Sousa e o movimento da Negritude; ou a compreensão das escolhas formais e temáticas de
José Craveirinha à luz do seu engajamento político e cultural (Noa, 2002). Este método
contribui para uma compreensão historicamente situada e culturalmente contextualizada dos
textos literários.
5. O PAPEL DO PROFESSOR COMO MEDIADOR DE LEITURA LITERÁRIA
Independentemente das estratégias e dos métodos adoptados, o professor ocupa um
papel central no processo de ensino da literatura: é o principal mediador entre os textos e os
jovens leitores, responsável por criar as condições para que a experiência literária possa
acontecer de forma significativa. Pennac (1993), num ensaio que se tornou um clássico da
reflexão sobre o ensino da literatura, afirmou que os professores têm o dever de transmitir
não apenas o conhecimento dos textos, mas o amor pela leitura.
A mediação de leitura literária, tal como é concebida por Cerrillo (2007), implica três
dimensões complementares: (a) a dimensão de modelo — o professor é ele próprio um leitor
entusiasmado, que partilha com os alunos as suas experiências de leitura e demonstra o valor
que atribui à literatura; (b) a dimensão de facilitador — o professor cria as condições
materiais, temporais e afectivas para que a leitura aconteça, selecciona textos adequados e
propõe actividades que favorecem o encontro entre o leitor e o texto; e (c) a dimensão de guia
— o professor acompanha o processo de interpretação, colocando questões, propondo
perspectivas e ajudando os alunos a desenvolver a sua competência literária.
A competência didáctica do professor de literatura implica, segundo Lomas (2003),
não apenas o conhecimento profundo dos textos e das tradições literárias, mas também o
conhecimento dos alunos — dos seus interesses, das suas experiências de leitura, dos seus
horizontes de expectativas —, e o domínio de um repertório amplo de estratégias e métodos
que permitam adaptar o ensino às características de cada turma e de cada situação
pedagógica.
Em contextos de multilinguismo, como o moçambicano, o professor de literatura
enfrenta desafios adicionais: muitos dos seus alunos têm o português como segunda ou
terceira língua, e a sua experiência de leitura literária em língua portuguesa pode ser limitada.
Nestes contextos, a mediação literária deve ser particularmente cuidadosa na selecção de
textos acessíveis sem serem simplistas, e na criação de pontes entre as tradições literárias
orais e escritas que os alunos trazem das suas comunidades de origem (Mendonça, 2008).
6. AVALIAÇÃO DA COMPETÊNCIA LITERÁRIA
A avaliação da competência literária constitui um dos aspectos mais delicados do
ensino da literatura, uma vez que a competência literária é, por natureza, multidimensional e
qualitativa, e resiste à quantificação simplista. Colomer (2007) identifica várias dimensões da
competência literária que devem ser consideradas na avaliação: a competência de leitura (a
capacidade de compreender os textos ao nível literal e inferencial); a competência
interpretativa (a capacidade de construir interpretações fundamentadas e de argumentar sobre
elas); a competência intertextual (o reconhecimento das relações entre textos); e a
competência de apreciação estética (a capacidade de reflectir sobre o valor estético dos
textos).
Os instrumentos de avaliação mais adequados para estas dimensões são, em geral,
qualitativos: portfolios de leitura, em que o aluno regista as suas experiências e reflexões ao
longo do tempo; diários de leitura; ensaios interpretativos; apresentações orais de textos ou de
autores; e produções criativas (textos poéticos, dramatizações, antologias comentadas). A
avaliação formativa e contínua é particularmente importante no ensino da literatura, onde o
desenvolvimento da competência é gradual e processual (Matos, 2012).
Rosenblatt (1978) adverte para o risco de a avaliação transformar a leitura literária
num exercício de reprodução de interpretações canónicas, sufocando a dimensão
transaccional e criativa da experiência leitora. A avaliação da competência literária deve,
portanto, valorizar a capacidade do aluno de fundamentar e argumentar as suas
interpretações, mesmo quando divergem das interpretações estabelecidas, e deve promover a
autonomia interpretativa e o pensamento crítico.
CONCLUSÃO
O ensino de textos literários, e em particular do texto poético, constitui um domínio
de uma riqueza e de uma complexidade que não se esgotam em nenhuma abordagem
singular. A revisão das principais estratégias e métodos apresentados neste trabalho revela
que não existe uma fórmula única e universal para o ensino da literatura: o que existe é um
repertório diversificado de abordagens, cada uma com as suas potencialidades e as suas
limitações, que o professor competente mobiliza de forma reflexiva e adaptativa em função
dos textos, dos alunos e dos contextos.
A herança multissecular do texto poético — da sua capacidade de formar, de entreter,
de surpreender, de consolar e de transformar — não justifica, por si só, a sua presença nos
curricula escolares. É necessário que essa presença se realize de formas pedagogicamente
fundamentadas, que criem condições para que os alunos possam ter experiências de leitura
literária genuínas e significativas, e não se limitem a executar exercícios mecânicos de
identificação de figuras de estilo ou de reprodução de interpretações previamente fornecidas.
O texto poético, tal como o caracteriza Aguiar e Silva (2010), é simultaneamente
normativo e transgressor, exemplar e inovador, familiar e estranho. Esta duplicidade constitui
a sua riqueza e o seu desafio pedagógico: exige professores capazes de habitar
confortavelmente a ambiguidade, de celebrar a pluralidade das interpretações e de promover
nos alunos uma relação com a linguagem e com a cultura que seja, ao mesmo tempo, rigorosa
e livre, disciplinada e criativa.
Em suma, ensinar literatura é, no fundo, ensinar a habitar a língua de forma mais
consciente, mais rica e mais livre — e esse é um objectivo que transcende largamente o
contexto escolar para se inscrever no projecto mais amplo da formação humana integral.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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