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Cálculo Da Pena: Unidade 2

O documento aborda o cálculo da pena no contexto jurídico-penal brasileiro, detalhando suas categorias: penas privativas de liberdade, restritivas de direitos e multas. Enfatiza a importância da compreensão das bases legais e princípios que regem a aplicação das penas, visando um equilíbrio entre punição e ressocialização do infrator. O texto também discute a dosimetria da pena e as alternativas à prisão, destacando a relevância da proporcionalidade na aplicação das sanções.
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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Cálculo Da Pena: Unidade 2

O documento aborda o cálculo da pena no contexto jurídico-penal brasileiro, detalhando suas categorias: penas privativas de liberdade, restritivas de direitos e multas. Enfatiza a importância da compreensão das bases legais e princípios que regem a aplicação das penas, visando um equilíbrio entre punição e ressocialização do infrator. O texto também discute a dosimetria da pena e as alternativas à prisão, destacando a relevância da proporcionalidade na aplicação das sanções.
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CÁLCULO DA PENA

Unidade 2
Conceitos fundamentais do
cálculo das penas
CEO

DAVID LIRA STEPHEN BARROS

Diretora Editorial
ALESSANDRA FERREIRA

Gerente Editorial

LAURA KRISTINA FRANCO DOS SANTOS

Projeto Gráfico

TIAGO DA ROCHA

Autoria

KARINE HERANI
Karine Herani
AUTORIA

Olá. Sou formada em Direito, mestre e pós-graduada


em Direito Empresarial, MBA em Management e International
Business, com uma experiência técnico-profissional de mais de 20
anos nas áreas de Direito, Gestão, Governança e desenvolvimento
de negócios. Atuo como advogada, desenvolvedora de projetos
internacionais e docente de disciplinas na área Jurídica, Negócios
Internacionais, Comércio Exterior, Gestão, Governança e
Compliance, dentre outras. Também atuo em diversos projetos
e programas de ensino na modalidade de educação a distância,
como desenvolvimento de atividades e avaliações, preparo de
material didático, banco de questões e gravação de aulas. Sou
apaixonada pelo que faço e adoro transmitir minha experiência
Unidade 2

de vida àqueles que estão iniciando em suas profissões. Por isso,


fui convidada pela Editora Telesapiens a integrar seu elenco de
autores independentes. Estou muito feliz em poder ajudar você
nesta fase de muito estudo e trabalho. Conte comigo!

4 CÁLCULO DA PENA
ÍCONES
Esses ícones aparecerão em sua trilha de aprendizagem nos seguintes casos:

No início do Caso haja a


desenvolvimento necessidade de
de uma nova apresentar um novo
OBJETIVO competência. DEFINIÇÃO conceito.

Quando são
Se as observações
necessárias
escritas tiverem que
observações ou
ser priorizadas.
NOTA complementações. IMPORTANTE

Se existirem

Unidade 2
Se algo precisar ser curiosidades e
melhor explicado ou indagações lúdicas
EXPLICANDO detalhado. sobre o tema em
MELHOR VOCÊ SABIA?
estudo.

Existência de Se for preciso acessar


textos, referências sites para fazer
bibliográficas e links downloads, assistir
para aprofundar seu vídeos, ler textos ou
SAIBA MAIS ACESSE
conhecimento. ouvir podcasts.

Se houver a
necessidade de Quando for preciso
chamar a atenção fazer um resumo
sobre algo a cumulativo das últimas
REFLITA ser refletido ou RESUMINDO abordagens.
discutido.

Quando alguma Quando uma


atividade de competência é
autoaprendizagem concluída e questões
ATIVIDADES for aplicada. TESTANDO são explicadas.

CÁLCULO DA PENA 5
Pena privativa de liberdade, restritiva de direitos e multa .. 9
SUMÁRIO

Natureza e Características das Penas ............................................................. 9

Progressão e Regressão da pena.................................................................... 19

Critério do Cálculo da Pena.............................................................................. 25

Fundamentos legais sobre o cálculo da pena ....................... 29


Princípios Fundamentais do cálculo da pena................................................ 29

Dosimetria da pena............................................................................................ 33

Impacto da dosimetria da pena....................................................................... 37

Cálculo da pena privativa de liberdade ................................. 42


Fundamentos Jurídicos e dosimetria da Pena Privativa de Liberdade .... 43

Critérios de Aplicação e Agravantes e Atenuantes....................................... 46


Unidade 2

Regimes de Cumprimento e Mecanismos de Progressão e Regressão... 50

Alternativas à pena privativa de liberdade .......................... 54


Eficácia das penas privativas de liberdade.................................................... 55

Penas alternativas no ordenamento brasileiro............................................. 60

Suspensão condicional da pena...................................................................... 64

6 CÁLCULO DA PENA
Ao abordarmos o universo jurídico-penal, deparamo-
nos com a complexa e meticulosa tarefa do cálculo da pena.

APRESENTAÇÃO
Essa operação, fundamental para a efetiva aplicação da justiça,
exige um entendimento claro e aprofundado de seus conceitos
fundamentais.

A pena, em sua essência, é uma resposta do Estado


diante de uma conduta considerada criminosa, e seu cálculo é um
processo cuidadoso que visa equilibrar as demandas da sociedade
por justiça e os direitos do indivíduo. Dentro desse processo,
conceitos como pena privativa de liberdade, pena restritiva de
direitos e pena de multa surgem como categorias basilares, cada
uma com suas particularidades e implicações no contexto penal.

Nesse contexto, nossa jornada começa com a interpretação

Unidade 2
das bases legais que regem o cálculo da pena, incluindo a legislação
vigente, a jurisprudência relevante e os princípios constitucionais.
Esses elementos formam o alicerce sobre o qual todo o processo
de cálculo da pena é construído, fornecendo os critérios e os
limites pelos quais os operadores do Direito devem atuar.

Discerniremos sobre as alternativas à pena privativa de


liberdade, como as penas restritivas de direito e a possibilidade de
substituição da pena. Estes são aspectos vitais que demonstram
a flexibilidade e a humanização do sistema penal, visando punir,
reabilitar e reintegrar o infrator à sociedade.

CÁLCULO DA PENA 7
Olá. Seja muito bem-vindo à Unidade 2. Nosso objetivo
é auxiliar você no desenvolvimento das seguintes competências
OBJETIVOS

profissionais até o término desta etapa de estudos:

1. Definir os conceitos fundamentais relacionados ao


cálculo da pena, como pena privativa de liberdade,
pena restritiva de direitos e pena de multa.

2. Interpretar as bases legais que regem o cálculo da


pena, incluindo a legislação vigente, a jurisprudência
relevante e os princípios constitucionais.

3. Calcular a pena privativa de liberdade, considerando


fatores como a culpabilidade do autor e as circunstâncias
agravantes e atenuantes.
Unidade 2

4. Discernir sobre as alternativas à pena privativa de


liberdade, como as penas restritivas de direitos e a
substituição da pena.

8 CÁLCULO DA PENA
Pena privativa de liberdade,
restritiva de direitos e multa
Ao término deste capítulo, você será capaz de en-
tender como funciona o complexo processo de
cálculo da pena, desde suas bases legais até a apli-
OBJETIVO cação prática na determinação da punição adequa-
da. Isso será fundamental para o exercício de sua
profissão. As pessoas que tentaram determinar
penas ou interpretar decisões judiciais, sem a de-
vida instrução, enfrentaram problemas ao aplicar
justiça de forma coerente e proporcional. A capaci-
dade de compreender e aplicar, corretamente, os
princípios e as práticas do cálculo da pena é crucial
para garantir que a justiça seja servida de maneira

Unidade 2
justa e equitativa. E então? Motivado para desen-
volver esta competência? Vamos lá. Avante!

Natureza e Características das


Penas
As penas no ordenamento jurídico brasileiro são medidas
sancionatórias impostas pelo Estado diante da prática de um
delito, objetivando a retribuição do ato ilícito, a reeducação do
infrator e a prevenção geral e especial. De acordo com a legislação
brasileira se classificam como: penas privativas de liberdade,
penas restritivas de direitos e penas de multa, cada qual com suas
peculiaridades e finalidades específicas.

Cada tipo de pena possui naturezas e características dis-


tintas, sendo fundamentais para a eficácia do sistema penal, sem-
pre balizadas pelos princípios da legalidade, da proporcionalidade
e da humanidade. A correta compreensão dessas penas é essen-
cial para a adequada aplicação das sanções, garantindo justiça e
respeito aos direitos fundamentais.

CÁLCULO DA PENA 9
A pena privativa de liberdade é uma das sanções mais
severas previstas no ordenamento jurídico brasileiro, sendo
imposta como resposta estatal à prática de infrações penais. Essa
modalidade de pena tem características distintas que refletem
sua natureza e o impacto que ela visa causar tanto no condenado
quanto na sociedade.

As penas, no contexto jurídico brasileiro, são instrumentos


fundamentais na aplicação do Direito Penal, representam a
resposta estatal frente à prática de um delito e têm por finalidade
punir, prevenir futuros crimes e, idealmente, ressocializar o
infrator.

A Carta Magna do Brasil estabelece princípios fundamentais


relacionados ao Direito Penal e ao cálculo da pena, garantindo
Unidade 2

direitos e liberdades básicas e a observância dos princípios de


legalidade e individualização da pena.

Três importantes juristas, Rogério Grecco, Luiz Flávio


Gomes e Damásio de Jesus, oferecem perspectivas valiosas sobre
a natureza e a aplicação das penas no Código Penal brasileiro. A
pena é uma sanção imposta pelo Estado, mediante ação penal, ao
autor de uma infração penal, como retribuição de seu ato ilícito,
garantindo a proteção dos bens jurídicos e a paz social. A pena
tem uma natureza retributivo-preventiva, ou seja, ela busca punir
o infrator por seu ato passado e prevenir futuras infrações.

O Código Penal define que as penas podem ser classificadas


como:

•• Penas privativas de liberdade – aquelas que têm por


objetivo restringir ou retirar a liberdade do condenado,
como a pena de reclusão e detenção.

•• Penas restritivas de direitos – essas penas, ao em vez de


privar o condenado de sua liberdade, restringem certos

10 CÁLCULO DA PENA
direitos ou impõem obrigações como a prestação de
serviços à comunidade ou a limitação de fim de semana.

•• Pena de multa – consiste no pagamento ao fundo


penitenciário de quantia fixada em dias-multa, variando
de um mínimo a um máximo estabelecido em lei.

O Código Penal (Decreto-Lei n.º 2.848/1940) é a peça


central na legislação penal brasileira, estabelecendo:

1. Tipos de penas – distingue penas privativas de liberdade,


restritivas de direitos e pecuniárias (multa) (art. 32, CP).

2. Dosimetria da pena – processo dividido em três fases:


fixação da pena-base, consideração de circunstâncias
atenuantes e agravantes e aplicação de causas de

Unidade 2
aumento ou diminuição de pena (arts. 59 a 68, CP).

3. Substituição de penas – em certos casos, a pena privativa


de liberdade pode ser substituída por restritivas de
direitos ou multa (art. 44, CP).

O Código Penal brasileiro prevê três espécies de penas:


as privativas de liberdade, as restritivas de direitos e a pena de
multa. As penas privativas de liberdade são aplicadas nos casos
mais graves e consistem na reclusão ou na detenção do infrator.
É interessante ressaltar a importância da proporcionalidade
na aplicação dessas penas, enfatizando que a punição deve ser
adequada à gravidade do delito e às circunstâncias individuais do
infrator.

As penas restritivas de direitos surgem como alternativas


às penas privativas de liberdade, podendo ser aplicadas em
situações menos graves ou como substitutas quando a pena
privativa de liberdade não ultrapassa quatro anos. Essas penas
incluem medidas como prestação de serviços à comunidade,
limitação de fim de semana e interdição temporária de direitos.

CÁLCULO DA PENA 11
Essas penas podem ser mais eficazes na prevenção de crimes e
na ressocialização do infrator, pois permitem que o condenado
mantenha vínculos sociais e familiares.

A pena de multa, por sua vez, pode ser aplicada isolada-


mente ou em conjunto com outras penas. O valor da multa deve
ser calculado com base na capacidade econômica do infrator, de
modo a não representar um ônus desproporcional. A pena de
multa tem um importante papel dissuasório e é utilizada em cri-
mes de menor potencial ofensivo.

A aplicação das penas deve seguir os princípios da


individualização, da legalidade e da proporcionalidade. A análise
dos fundamentos da pena enfatiza a necessidade de equilíbrio
entre punição, prevenção e ressocialização no sistema penal.
Unidade 2

A jurisprudência, isto é, os precedentes das decisões


dos tribunais superiores, como STF e STJ, são fundamentais,
pois interpretam a legislação, fixam entendimentos e criam
precedentes que orientam o cálculo da pena.

Além do Código Penal, existem leis especiais


que impõem regras adicionais para o cálculo da
pena, como a Lei de Crimes Hediondos (Lei n.º
NOTA
8.072/1990) e a Lei de Drogas (Lei n.º 11.343/2006),
entre outras.

No conjunto de regramentos que impacta a definição de


pena, deve-se considerar o papel dos Tratados internacionais.
O Brasil é signatário de diversos tratados internacionais que
influenciam o Direito Penal, como a Convenção Americana sobre
Direitos Humanos, que impõe diretrizes sobre a aplicação de
penas.

12 CÁLCULO DA PENA
Imagem 2.1 - Pena privativa de liberdade

Unidade 2
Fonte: Freepik.

Os fundamentos e as bases legais do cálculo da pena na


legislação brasileira são extensivos e detalhados, refletindo a
busca por um equilíbrio entre a repressão ao crime e o respeito
aos direitos humanos. Entender essa complexa rede de normas
é essencial para assegurar uma aplicação de penas justa,
proporcionada e eficaz.
Quadro 2.1 – Tipos de pena

Pena privativa de Pena restritiva de Pena de multa


liberdade direitos
Restringe a
Sanção pecuniária
liberdade do É a pena alternativa
imposta ao
condenado, à prisão que
condenado,
colocando-o restringe ou obriga
Natureza que deve pagar
sob custódia o condenado a
uma soma em
do Estado em algo, sem privá-lo
dinheiro ao fundo
estabelecimentos de sua liberdade.
penitenciário.
penais.

CÁLCULO DA PENA 13
Visa à retribuição Procura evitar
Tem caráter punitivo
do delito os efeitos
e preventivo,
cometido e à negativos do
buscando
prevenção de encarceramento,
Objetivos desestimular a
novos crimes, oferecendo uma
prática de crimes
além de buscar a oportunidade
por meio do
ressocialização do de reparação e
impacto financeiro.
condenado. integração social.
É a forma
mais severa Inclui penas
de punição, como prestação
Pode ser aplicada
geralmente, de serviços à
isoladamente ou
reservada a comunidade,
em conjunto com
crimes mais limitação de fim de
outras penas. A
graves. Pode semana, interdição
quantia e a forma
ser cumprida temporária de
de pagamento
Aplicação em diferentes direitos, entre
são estabelecidas
regimes (fechado, outras. É aplicada
conforme a
Unidade 2

semiaberto, em delitos de
capacidade
aberto) menor gravidade
econômica do
dependendo e quando o
condenado e a
da gravidade réu apresenta
gravidade do crime.
do crime e do condições pessoais
histórico do favoráveis.
condenado.
Fonte: Elaborado pela autoria (2023).

A pena privativa de liberdade é aplicada para delitos mais


graves, enquanto as penas restritivas de direitos e multa são
reservadas para infrações de menor potencial ofensivo. A pena
privativa de liberdade tem um impacto significativo na vida do
condenado, restringindo sua liberdade total. As penas restritivas
de direitos e multa permitem mais integração social e menos
impacto na rotina diária. Enquanto a pena privativa de liberdade
tem um forte componente retributivo, as penas restritivas de
direitos e multa tendem a ter uma abordagem mais reabilitadora
e menos punitiva.

A escolha entre essas penas depende de uma série de


fatores, incluindo a gravidade do crime, as circunstâncias do caso

14 CÁLCULO DA PENA
e as características pessoais do condenado. A legislação brasileira
procura equilibrar a necessidade de punição com a possibilidade
de reintegração social, refletindo uma abordagem que reconhece
a multifacetada natureza do comportamento criminoso e suas
consequências.

Para saber mais sobre a execução das penas


restritivas de direito, leia o artigo “Penas
restritivas de direitos não podem ser executadas
SAIBA MAIS provisoriamente“. Acesse o link disponível aqui.

Unidade 2
A pena privativa de liberdade possui uma natureza
dúplice. Por um lado, tem um caráter retributivo, pois busca impor
uma restrição ao indivíduo como forma de retribuição pelo mal
causado pelo crime. Por outro lado, possui um aspecto preventivo,
tanto geral quanto especial, visando desencorajar a sociedade e o
próprio condenado de cometer novos delitos.

Como o próprio nome indica, a principal característica


dessa pena é a restrição da liberdade do indivíduo condenado, que
é retirado do convívio social e colocado em uma instituição penal,
como presídios ou penitenciárias, por um período determinado
de tempo.

No sistema jurídico brasileiro, a vedação à prisão por


tempo indeterminado está fundamentada na Constituição Federal
de 1988 e no Código Penal. Esses dispositivos legais garantem que
ninguém pode ser privado de sua liberdade de forma arbitrária ou
por tempo indefinido sem a devida fundamentação legal. Vejamos:

CÁLCULO DA PENA 15
A Constituição Federal de 1988 dedica diversos incisos
de seu art. 5º a orientar e definir a prisão restritiva de liberdade,
conforme segue:
Art. 5º

XLVII - a lei regulará a individualização da pena


e adotará, entre outras, as seguintes:

b) de caráter perpétuo

[…]

LXI - Ninguém será preso senão em flagrante


delito ou por ordem escrita e fundamentada
da autoridade judiciária competente, salvo
nos casos de transgressão militar ou crime
propriamente militar, definidos em lei.
Unidade 2

[…]

LVII - Ninguém será considerado culpado


até o trânsito em julgado de sentença penal
condenatória (Brasil, 1988).

Isso porque toda pena deve ter um limite temporal


definido.

No Código Penal, os arts. 33 a 59 regulam as penas privativas


de liberdade, estabelecendo limites mínimos e máximos para
cada tipo de delito e as regras para sua aplicação e cumprimento,
sempre dentro de um período determinado.

A pena privativa de liberdade é graduada de acordo com a


gravidade do delito, respeitando o princípio da proporcionalidade.
O Código Penal brasileiro estabelece limites mínimos e máximos
para cada tipo de crime, permitindo que o juiz ajuste a pena de
acordo com as circunstâncias do caso concreto.

16 CÁLCULO DA PENA
No caso de crime de furto, segundo o Código Penal.
Art. 157 - Subtrair coisa móvel alheia, para si
ou para outrem, mediante grave ameaça ou
violência a pessoa, ou depois de havê-la, por
qualquer meio, reduzido à impossibilidade de
resistência: Pena - reclusão, de quatro a
dez anos, e multa (Brasil, 1940).

A Lei de Execução Penal (Lei n.º 7.210/1984) dispõe


sobre a execução da pena privativa de liberdade, estabelecendo
procedimentos claros e prazos para sua duração, progressão
e regressão de regime, assegurando que o condenado tenha
conhecimento da duração de sua pena.

Esses dispositivos legais estão em consonância com

Unidade 2
princípios fundamentais como o da legalidade, da dignidade da
pessoa humana e do devido processo legal. Eles garantem que
o sistema penal brasileiro respeite os direitos dos indivíduos
e imponha penas de forma justa, proporcional e com limitação
temporal clara, vedando qualquer forma de privação de liberdade
por tempo indeterminado.

Além de punir o infrator, a pena privativa de liberdade


possui um objetivo ressocializador. Teoricamente, as instituições
penais deveriam oferecer condições para que o condenado possa
se reintegrar à sociedade de forma produtiva após cumprir sua
pena, por meio de programas de educação, trabalho e reabilitação.

CÁLCULO DA PENA 17
Imagem 2.2 - Reabilitação e trabalho
Unidade 2

Fonte: Freepik.

No ordenamento jurídico brasileiro, o cumprimento das


penas privativas de liberdade é dividido em três regimes distintos:
fechado, semiaberto e aberto. Cada um desses regimes possui
características próprias, estabelecidas pela Lei de Execução
Penal (Lei n.º 7.210/1984) e pelo Código Penal (Decreto-Lei n.º
2.848/1940). A definição do regime inicial de cumprimento leva em
conta a quantidade da pena imposta e as circunstâncias pessoais
do condenado. Vamos detalhar cada um deles:

1. Regime fechado

No regime fechado, o condenado cumpre a pena em


estabelecimento de segurança máxima ou média. É o regime
inicial para penas superiores a 8 anos e para determinados tipos
de crimes, independentemente da pena aplicada. A execução
da pena ocorre em penitenciárias, e o condenado tem direito a
trabalho interno e, após um ano, a visitas periódicas ao lar, se
apresentar bom comportamento.

18 CÁLCULO DA PENA
2. Regime semiaberto

O regime semiaberto se aplica a condenações que não


excedam 8 anos ou para progressão do regime fechado. A pena é
cumprida em colônias agrícolas, industriais ou estabelecimentos
similares. Diferencia-se do regime fechado por permitir que o
condenado trabalhe e estude fora do estabelecimento penal
durante o dia, devendo retornar à noite e nos dias de folga. O
condenado pode progredir para o regime aberto após cumprir 1/6
da pena e apresentar bom comportamento.

3. Regime aberto

O regime aberto é aplicado para penas inferiores a 4


anos (para réus primários) ou como progressão dos regimes

Unidade 2
anteriores. O condenado cumpre a pena em casa do albergado
ou estabelecimento adequado, com a obrigatoriedade de retornar
somente para pernoitar. A manutenção desse regime está
condicionada ao trabalho ou à comprovação de atividade lícita
durante o dia. O detento também está sujeito a se apresentar,
periodicamente, em juízo para informar e justificar suas atividades.

Progressão e Regressão da pena


A execução da pena privativa de liberdade pode
ser progressiva, ou seja, o condenado pode progredir para
regimes menos severos conforme cumpre parte da pena e
atende a determinados critérios legais, refletindo o princípio da
individualização da pena.

A progressão entre os regimes visa à reintegração social


do condenado e é baseada no cumprimento de parte da pena e no
bom comportamento do detento.

A progressão de penas é um mecanismo jurídico que


permite ao condenado uma pena privativa de liberdade a

CÁLCULO DA PENA 19
mudança para um regime de cumprimento menos rigoroso. No
Brasil, a progressão de regime está regulamentada pela Lei de
Execução Penal (Lei n.º. 7.210/1984) e por outras normativas
complementares.

A progressão de regime tem como fundamento o princípio


da individualização da pena e os objetivos ressocializadores
da pena. A ideia é que, ao longo do cumprimento da pena, o
condenado possa demonstrar sua reabilitação e adequação para
retornar progressivamente à sociedade.

Para ter direito à progressão de regime, o condenado deve


atender a certos requisitos, tais como:

O condenado deve ter cumprido uma fração mínima da


Unidade 2

pena no regime atual. Normalmente, essa fração é de 1/6, mas


pode variar de acordo com a natureza do crime e o histórico do
condenado.

É necessário que o condenado tenha demonstrado bom


comportamento durante o cumprimento da pena. Isso é atestado
pela administração penitenciária.

Em alguns casos, exige-se que o condenado seja submetido


a uma avaliação por uma Comissão Técnica de Classificação ou
órgão equivalente, que analisará sua aptidão para o convívio
social.

A avaliação da aptidão para o convívio social


é um procedimento essencial no sistema de
justiça criminal, pois ressalta a importância da
NOTA
reintegração social como objetivo da pena. Além
disso, serve como salvaguarda para assegurar
que apenas aqueles que demonstram progresso
significativo e verdadeira reabilitação possam
usufruir das benesses da progressão de regime.

20 CÁLCULO DA PENA
A progressão ocorre entre os diferentes regimes: fechado,
semiaberto e aberto. O pedido de progressão de regime é feito
pelo próprio condenado ou por seu defensor. O juiz responsável
pela execução penal avaliará o pedido, podendo solicitar a
manifestação do Ministério Público e a realização de exames
criminológicos. Com base nos documentos apresentados e na
legislação pertinente, o juiz decidirá pela concessão ou não da
progressão.

A progressão de regime é um importante instrumento de


política criminal, pois visa à reintegração social do condenado,
incentivando a sua recuperação e colaborando com a segurança
pública. Ao mesmo tempo, a progressão de regime é um direito do
condenado que atende aos critérios estabelecidos, configurando-

Unidade 2
se como um aspecto essencial do princípio da humanidade das
penas.

A progressão de pena é um direito do preso. Esse direito


é assegurado aos detentos que cumprem determinados critérios
estabelecidos pela legislação.

Os requisitos fundamentais para a progressão de regime


estão estipulados no art. 112 da Lei de Execução Penal (LEP), Lei n.º
7.210, de 11 de julho de 1984. De acordo com esse artigo, o preso
deve ter cumprido, ao menos, um sexto da pena no regime em
que se encontra e demonstrar bom comportamento carcerário,
feita a comprovação pelo diretor do estabelecimento prisional.
Além disso, é necessário observar as normas que restrinjam tal
progressão em casos específicos. A Lei n.º 8.072, de 25 de julho de
1990, que trata dos crimes hediondos, estabelece critérios mais
rigorosos para a progressão de regime nesses casos. Conforme o
§ 2º do art. 2º desta lei, a progressão para condenados por crimes
hediondos ocorrerá após o cumprimento de 2/5 (dois quintos) da

CÁLCULO DA PENA 21
pena, caso o apenado seja primário, e de 3/5 (três quintos), caso
seja reincidente.

Assim, a progressão de regime é um instrumento legal


que objetiva punir e proporcionar ao detento a oportunidade
de ressocialização, sempre observando os requisitos e as
particularidades impostas pela legislação pertinente.

A regressão de pena, por sua vez, é um procedimento


previsto na legislação penal brasileira que ocorre quando um
detento, que está cumprindo pena em um regime mais brando
(como o semiaberto ou aberto), comete uma falta grave ou é
condenado por outro crime, sendo então reclassificado para um
regime mais severo (como o fechado).
Unidade 2

A regressão de pena está prevista na Lei de Execução


Penal do Brasil (Lei n.º 7.210, de 11 de julho de 1984), mais
especificamente nos arts. 118, 119 e 120.

A regressão pode ocorrer por diversos motivos, tais como:

•• Cometimento de falta grave durante a execução da


pena.

•• Condenação por outro crime durante o cumprimento


da pena, independentemente da gravidade.

•• Violação das condições impostas em caso de regime


aberto ou prisão domiciliar.

22 CÁLCULO DA PENA
Imagem 2.3 - Regressão de pena

Unidade 2
Fonte: Freepik.

O processo de regressão de regime no sistema prisional


brasileiro é o oposto da progressão. Enquanto a progressão
representa a transferência do apenado para um regime de
cumprimento de pena menos rigoroso, a regressão implica a
transferência para um regime mais severo. Esse processo ocorre
quando o detento, durante a execução de sua pena, comete uma
falta grave ou viola as condições impostas para o regime em
que se encontra. O processo de regressão, geralmente segue, os
seguintes passos:

1. Identificação da falta ou novo crime – a administração


penitenciária ou o Ministério Público identifica a
ocorrência de uma falta grave ou novo crime.

2. Relatório e audiência de justificação – é elaborado um


relatório detalhando a infração, e o detento tem direito
a uma audiência de justificação, em que poderá se
defender e apresentar suas alegações.

CÁLCULO DA PENA 23
3. Decisão judicial – com base nas provas e no relatório,
o juiz responsável pela execução penal toma uma
decisão sobre a regressão de regime. Tal decisão
deve ser fundamentada e levar em consideração as
circunstâncias do caso.

As faltas graves são definidas pela Lei de Execução Penal e


incluem atos como:

•• Fuga ou tentativa de fuga.

•• Incitar ou participar de movimento para subverter a


ordem ou a disciplina.

•• Possuir, indevidamente, instrumento capaz de ofender


a integridade física de outrem, entre outros.
Unidade 2

A regressão de regime tem consequências significativas


para o detento, como:

•• Perda dos dias remidos pela prática da falta grave.

•• Mudança para um regime mais rigoroso, com menos


liberdades e maior restrição de movimentos.

A remição de dias de prisão é um instituto jurídico


previsto na legislação penal brasileira que permite
ao detento reduzir o tempo de sua pena por meio
DEFINIÇÃO do trabalho ou do estudo durante o período
de encarceramento. A remição está prevista na
Lei de Execução Penal (Lei n.º 7.210, de 1984),
especificamente no art. 126, sendo regulamentada
posteriormente por outras normativas. A remição
pode ser alcançada pelo trabalho ou por estudo Lei
n.º 12.433/2011. A remição não se aplica às penas
de multa. O preso que for punido por falta grave
perderá o direito ao tempo remido, devendo este
ser declarado pelo juiz da execução.

24 CÁLCULO DA PENA
A regressão de regime é uma ferramenta disciplinar
importante no sistema penal brasileiro, pois visa assegurar
a ordem e a disciplina nos estabelecimentos penais, além de
reforçar a noção de que a progressão de regime é um privilégio
condicional, que pode ser revogado se o detento não cumprir com
suas obrigações e deveres.

Critério do Cálculo da Pena


A pena, conforme expressa nos principais códigos e
tratados jurídicos, serve tanto para punir quanto para prevenir a
ocorrência de crimes. É fundamental entender que o Direito Penal
brasileiro, ao calcular uma pena, não visa somente à retribuição,
mas também à ressocialização do indivíduo.

Unidade 2
A base legal que regula a matéria está primordialmente no
Código Penal, sobretudo, nos artigos que tratam da dosimetria da
pena. O processo de cálculo da pena é uma ciência, e que precisa
ser feito de forma justa, proporcional e adequada, obedecendo
aos limites estabelecidos na legislação.

A jurisprudência também desempenha um papel


importante nesse cenário. As decisões dos tribunais superiores,
em especial, o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Superior Tribunal
de Justiça (STJ), ajudam a moldar a aplicação e a interpretação das
leis, criando uma espécie de guia interpretativo para os demais
órgãos judiciais.

CÁLCULO DA PENA 25
Imagem 2.4 - Dosimetria da pena
Unidade 2

Fonte: Freepik.

O Direito, como ciência, está em constante evolução. Com


isso, a interpretação das leis, inclusive, as que dizem respeito ao
cálculo da pena, também se modifica ao longo do tempo. Aspectos
sociais, políticos e econômicos influenciam a forma como a
legislação é interpretada e aplicada.

Assim, entender a estrutura jurídica brasileira exige


o conhecimento da letra da lei e compreender a forma como
essa lei vem sendo interpretada e aplicada pelos tribunais. Esse
entendimento é crucial para uma atuação jurídica eficiente e
atualizada, garantindo que a pena aplicada seja justa e proporcional
ao delito cometido. Conforme exemplo:
0016624-38.2011.8.19.0066 - APELACAO 1ª
Ementa DES. SUELY LOPES MAGALHAES -
Julgamento: 06/07/2016 - OITAVA CÂMARA
CRIMINAL APELAÇÃO. ARTIGO 33 DA LEI N.º
11.343/06. CONDENAÇÃO: PENA PRIVATIVA

26 CÁLCULO DA PENA
DE LIBERDADE DE 1 ANO E 8 MESES DE
RECLUSÃO, EM REGIME INICIALMENTE
ABERTO, E A 166 DIAS-MULTA, NO VALOR
MÍNIMO LEGAL, SUBSTITUÍDA POR UMA
RESTRITIVA DE DIREITO CONSISTENTE EM
PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS À COMUNIDADE.
RECURSO MINISTERIAL PERSEGUINDO O
AFASTAMENTO DO REDUTOR PREVISTO NO
§4º DO ARTIGO 33 DA LEI DE DROGAS COM
O CONSEQUENTE RECRUDESCIMENTO DO
REGIME PRISIONAL E O AFASTAMENTO DA
SUBSTITUIÇÃO APLICADA À PENA RECLUSIVA.
RECURSO DEFENSIVO POSTULANDO A
DESCLASSIFICAÇÃO DA CONDUTA PARA O
DELITO PREVISTO NO ARTIGO 28 DA LEI DE

Unidade 2
DROGAS, ABSOLVENDO-SE O ACUSADO EM
HOMENAGEM AO PRINCÍPIO DA CORRELAÇÃO.

O cálculo da pena no Brasil é uma tarefa que exige profundo


conhecimento jurídico, capacidade analítica e sensibilidade para
equilibrar os princípios de justiça e os direitos do acusado. A
legislação e a jurisprudência, juntas, proporcionam o arcabouço
necessário para essa tarefa, mas é o profissional do Direito,
munido dessas ferramentas, quem dará a palavra final sobre a
adequação da pena em cada caso concreto.

CÁLCULO DA PENA 27
E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu
mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de
que você realmente entendeu o tema de estudo
RESUMINDO deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos.
Nesta unidade, você aprendeu sobre as diferentes
modalidades de penas — pena privativa de
liberdade, restritiva de direitos e multa — e refletiu
sobre a complexidade e a diversidade do sistema
penal brasileiro. Essas modalidades refletem
a busca por uma resposta penal mais justa e
adequada às diferentes situações de delinquência,
alinhando-se aos princípios da humanidade, da
proporcionalidade e da individualização da pena.

A pena privativa de liberdade, embora seja a mais


severa e conhecida, não é a única nem sempre a
Unidade 2

mais eficaz resposta penal. As penas restritivas de


direitos surgem como alternativas mais flexíveis
e socialmente integradoras, visando à reinserção
do condenado à sociedade e evitando os efeitos
deletérios do encarceramento. Por sua vez, a pena
de multa desempenha um papel relevante na
punição de infrações de menor gravidade, servindo
como instrumento dissuasório e compensatório.
Dessa forma, conhecer as características, os
critérios de aplicação e as consequências práticas
de cada tipo de pena é essencial para a adequada
aplicação da lei e a promoção de um sistema de
justiça mais humano e eficiente. A justiça penal
não se resume a punir, mas também a prevenir,
a reabilitar e a reintegrar, além disso a escolha
adequada do tipo de pena é um passo crucial
nessa direção.

28 CÁLCULO DA PENA
Fundamentos legais sobre o
cálculo da pena
Ao término deste capítulo, você será capaz de
entender como funciona a base legal que sustenta
o cálculo da pena no Brasil. Esse entendimento
OBJETIVO é crucial para o exercício de sua profissão, seja
você advogado, promotor, juiz ou um estudioso
do direito penal. Aqueles que tentaram aplicar ou
interpretar a dosimetria da pena, sem a devida
instrução, enfrentaram desafios significativos,
podendo resultar em decisões desproporcionais
ou injustas. E então? Motivado para desenvolver
esta competência? Vamos lá. Avante!

Unidade 2
A aplicação da pena no sistema jurídico brasileiro é um
processo complexo e detalhado, regido por princípios e regras
estabelecidas em lei. Nesse contexto, a Constituição Federal de
1988 é a espinha dorsal da legislação, estabelecendo diretrizes
fundamentais para a aplicação de penas, enquanto o Código Penal
(Decreto-Lei n.º 2.848/1940) contém regras detalhadas sobre o
processo de dosimetria da pena.

Princípios Fundamentais do
cálculo da pena
Os princípios do Direito Penal e Constitucional, como o
princípio da legalidade, da individualização da pena, da humani-
dade e da proporcionalidade, desempenham um papel vital na in-
terpretação das normas e na condução do cálculo da pena.

A dosimetria da pena é o processo pelo qual o juiz deter-


mina a quantidade de pena a ser aplicada ao réu condenado por
um crime. No Brasil, esse processo é regido pelo Código Penal,
especificamente pelos arts. 59 a 68, que estabelecem os critérios

CÁLCULO DA PENA 29
para a fixação da pena-base, as circunstâncias que podem modifi-
car essa pena (agravantes e atenuantes) e as causas de diminuição
e de aumento da pena.

A dosimetria da pena é norteada por princípios fundamen-


tais que garantem a justiça e a proporcionalidade nas sentenças.
Aqui estão os princípios mais significativos que influenciam o cál-
culo da pena:

•• Princípio da legalidade: Estabelece que nenhuma pena


pode ser aplicada sem uma prévia determinação legal.
Ou seja, a pena deve estar previamente definida em lei
para o delito cometido.
(art. 5º, XXXIX, CF/88 e art. 1º, CP).
Art. 5º
Unidade 2

XXXIX — não há crime sem lei anterior que o


defina, nem pena sem prévia cominação legal;
[…]
XLVI. Todos são iguais perante a lei, sem
distinção de qualquer natureza, garantindo-se
aos brasileiros e aos estrangeiros residentes
no País a inviolabilidade do direito à vida,
à liberdade, à igualdade, à segurança e à
propriedade, nos termos seguintes:

•• Princípio da individualização da pena: determina


que a pena deve ser personalizada para o infrator,
considerando suas características pessoais, a gravidade
do delito, e as circunstâncias em que ocorreu. O objetivo
é adequar a pena à individualidade do caso concreto.

30 CÁLCULO DA PENA
(art. 5º, XLVI, CF/88).
Art. 5º
XLVI - a lei regulará a individualização da pena
e adotará, entre outras, as seguintes:
a) privação ou restrição da liberdade;
b) perda de bens;
c) multa;
d) prestação social alternativa;
e) suspensão ou interdição de direitos;

•• Princípio da proporcionalidade: a pena aplicada deve ser


proporcional à gravidade do delito cometido. Isso significa
que crimes mais graves devem resultar em penas mais se-
veras, enquanto delitos menores devem ser punidos com

Unidade 2
penas mais leves.
•• Princípio da humanidade: a pena não deve ser cruel ou de-
sumana. Deve-se respeitar a dignidade da pessoa humana,
mesmo quando aplicando uma sanção penal.
•• Princípio da culpabilidade: a pena deve ser proporcional à
culpa do agente. Ou seja, deve-se levar em conta o grau de
reprovabilidade da conduta do indivíduo.
•• Princípio da intranscendência ou pessoalidade da pena: s
pena não pode ultrapassar a pessoa do condenado. Isso
significa que as consequências da pena não podem ser es-
tendidas a terceiros, como familiares do condenado.
•• Princípio da suficiência da pena: a pena deve ser suficiente
para a reprovação e a prevenção do crime. Deve-se buscar
um equilíbrio entre o suficiente para desencorajar o crime
e o excessivo, que seria considerado desumano.

• Princípio da reintegração social: a pena deve ter como ob-


jetivo punir e contribuir para a reintegração do condenado
na sociedade.

CÁLCULO DA PENA 31
Imagem 2.5 - Reintegração a comunidade
Unidade 2

Fonte: Freepik.

O princípio da humanidade é um dos fundamen-


tos mais importantes do direito penal e dos direi-
tos humanos. Tem origem nas ideias iluministas de
EXPLICANDO dignidade humana e na rejeição aos castigos cruéis
MELHOR
e desumanos que marcaram períodos anteriores
da história. O princípio da humanidade estabelece
que, mesmo na aplicação de sanções penais, de-
ve-se sempre respeitar a dignidade humana. Isso
significa que as penas devem ser justas e propor-
cionais e preservar a integridade física e psíquica
do indivíduo. O princípio da humanidade está, in-
trinsecamente, ligado à proibição de penas cruéis,
desumanas e degradantes. Isso está refletido em
diversos tratados internacionais de direitos hu-
manos, como a Declaração Universal dos Direitos
Humanos, o Pacto Internacional de Direitos Civis e
Políticos, e a Convenção Americana sobre Direitos
Humanos, dos quais o Brasil é signatário.

Esses princípios fundamentais do cálculo da pena ajudam


a orientar o juiz na tarefa de determinar a punição mais adequada,

32 CÁLCULO DA PENA
justa e proporcional ao crime cometido, sempre com respeito à
dignidade humana e aos direitos fundamentais do indivíduo.
O cálculo da pena é um processo intrincado que se baseia
em uma sólida compreensão das leis e princípios penais. A
importância de uma abordagem jurídica bem fundamentada para
a dosimetria da pena não pode ser subestimada, pois garante a
justiça e a proporcionalidade na aplicação das penas, mantendo a
integridade do sistema de justiça penal.

Dosimetria da pena
A dosimetria da pena é o processo pelo qual o juiz fixa a
pena a ser aplicada ao réu. O cálculo da pena é um processo que
se desenvolve em fases distintas. A dosimetria da pena inicia-se
com a determinação da pena-base, seguida da consideração das

Unidade 2
circunstâncias atenuantes e agravantes e, finalmente, das causas
de aumento e diminuição de pena.
É importante destacar a importância das três fases desse
processo: a fixação da pena-base, considerando as circunstâncias
judiciais; a análise de circunstâncias atenuantes e agravantes; e a
consideração de causas de diminuição e aumento de pena.
O princípio da humanidade está intrinsecamente tratada
na Constituição Federal do Brasil de 1988, que é referida como a
“Constituição Cidadã”, devido ao seu forte enfoque nos direitos
humanos e fundamentais. Embora o princípio da humanidade não
esteja expressamente nomeado na Constituição, ele permeia vários
de seus artigos e princípios.
O princípio da dignidade da pessoa humana, que é um dos
fundamentos da República Federativa do Brasil (art. 1º, III), está
relacionado ao princípio da humanidade. A dignidade humana é
um conceito amplo que abrange a ideia de que todas as pessoas
merecem respeito e proteção contra tratamento desumano e
degradante, independentemente de suas ações ou status social.

CÁLCULO DA PENA 33
A Constituição proíbe, explicitamente, a tortura e outros
tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes (art. 5º, III). Essa
proibição é uma manifestação direta do princípio da humanidade,
assegurando que, mesmo os indivíduos acusados ou condenados
por crimes, têm direito a um tratamento que preserve sua integri-
dade física e mental.
O art. 5º, XLIX, garante aos presos o respeito à integridade
física e moral, reforçando o princípio da humanidade no contexto
das condições carcerárias e da execução penal. Esse princípio exige
que os estabelecimentos penais não sejam apenas locais de punição,
mas também de ressocialização, proporcionando condições dignas
aos detentos.
Dessa forma, enquanto o princípio da humanidade pode
não estar explicitamente nomeado na Constituição Brasileira, está
Unidade 2

presente e é um dos pilares fundamentais sobre os quais o sistema


de direitos e garantias individuais está construído. Esse princípio
reflete o compromisso do Brasil com o respeito à dignidade
humana e com o tratamento justo e humano de todos os indivíduos,
incluindo aqueles que estão sob a custódia do Estado.

Os princípios da legalidade, da individualização


da pena e da proporcionalidade são pilares
fundamentais do Direito Penal e da execução penal,
IMPORTANTE tanto no Brasil quanto em muitos outros sistemas
jurídicos ao redor do mundo. São essenciais para
garantir a justiça e a equidade na aplicação das
leis penais. O princípio da legalidade, consagrado
no art. 5º, inciso XXXIX, da Constituição Federal do
Brasil, estabelece que não há crime sem lei anterior
que o defina, nem pena sem prévia cominação
legal. Esse princípio protege os cidadãos contra o
arbítrio do Estado e garante a segurança jurídica,
uma vez as pessoas só podem ser punidas por
ações que foram definidas como criminosas antes
de serem cometidas.

34 CÁLCULO DA PENA
A principal fonte de diretrizes sobre o cálculo da pena no
Brasil é o Código Penal (Decreto-Lei n.º 2.848, de 1940). Esse código
estabelece os tipos penais, bem como as respectivas sanções e
detalha o processo de dosimetria da pena, que ocorre em três fases:

•• Primeira fase – circunstâncias judiciais

•• Culpabilidade: analisa o grau de reprovabilidade da


conduta.

•• Antecedentes: verifica a existência de condenações


anteriores.

•• Conduta social: avalia o comportamento do réu em


seu meio social.

•• Personalidade: estuda as características pessoais do

Unidade 2
réu.

•• Motivos: examina as razões que levaram à prática


do crime.

•• Circunstâncias: analisa aspectos que cercaram a


prática do delito.

•• Consequências: considera o impacto do crime.

•• Comportamento da vítima: observa se houve


contribuição para o delito.

Com base nessas circunstâncias, o juiz fixa a pena-base


acima ou abaixo do mínimo legal.

•• Segunda fase – circunstâncias agravantes e atenuantes

•• Agravantes e atenuantes genéricas estão previstas


no Código Penal.

•• Agravantes: podem incluir reincidência, motivo fútil,


entre outros.

CÁLCULO DA PENA 35
•• Atenuantes: podem incluir menoridade, confissão
espontânea, entre outros.

•• Nessa fase, a pena-base é aumentada ou diminuída


conforme a presença desses fatores.

•• Terceira fase: causas de aumento e diminuição de pena

•• Causas de aumento: são fatores previstos em lei que


levam ao aumento da pena, como a prática de crime
com uso de arma de fogo.
Imagem 2.6 - Aumento de pena
Unidade 2

Fonte: Freepik.

•• Causas de diminuição: são fatores também previstos


em lei que permitem a redução da pena, como o
crime cometido sob forte emoção logo após injusta
provocação.

Nessa última fase, as causas são aplicadas sobre a pena


calculada nas duas primeiras fases.

36 CÁLCULO DA PENA
Além desses critérios, o juiz deve observar os princípios
da individualização da pena, da proporcionalidade, entre outros,
para garantir que a sanção aplicada seja justa e adequada ao caso
concreto.

Impacto da dosimetria da pena


Os impactos da dosimetria da pena são vastos e variados,
afetando o réu e o sistema de justiça criminal, mas também a
sociedade em geral.

A dosimetria da pena é essencial para assegurar que a


punição seja proporcional à gravidade do delito e à culpabilidade
do réu. Um cálculo adequado da pena pode promover a sensação
de justiça tanto na vítima quanto na sociedade, ao passo que

Unidade 2
uma pena desproporcional pode levar a percepções de injustiça
e desigualdade.

A dosimetria da pena tem um papel preventivo,


desencorajando tanto o réu (prevenção especial) quanto a
sociedade em geral (prevenção geral) de cometerem crimes.
Penas adequadamente dosadas podem funcionar como um eficaz
mecanismo de dissuasão.

Ao considerar fatores como a personalidade do réu e as


circunstâncias do crime, a dosimetria da pena pode ser ajustada
de modo a fomentar a reabilitação do condenado, visando sua
futura reintegração à sociedade.

Uma dosimetria da pena que resulta em penas privativas


de liberdade excessivas ou desnecessárias contribui para o
superlotamento das prisões. Isso pode afetar, adversamente, as
condições de detenção e reduzir as chances de reabilitação dos
detentos. Penas desproporcionais, maiormente, as privativas
de liberdade, têm um alto custo financeiro para o Estado e,
consequentemente, para a sociedade. Além disso, a remoção de

CÁLCULO DA PENA 37
um indivíduo do mercado de trabalho e de seu ambiente social
tem implicações econômicas e sociais.

A consistência e a justiça na dosimetria da pena são


cruciais para manter a confiança da sociedade no sistema de
justiça. Inconsistências ou percepções de arbitrariedade podem
minar essa confiança.

A pena imposta pode ter um efeito significativo na vítima


do crime e na comunidade em geral. Uma pena que é vista
como muito leve pode não oferecer o fechamento necessário,
enquanto uma pena excessiva pode ser vista como vingativa e não
construtiva.

A maneira como um país aplica suas penas pode ter


repercussões em termos de direitos humanos e pode influenciar
Unidade 2

sua imagem internacional. Países que aplicam penas severas e


desproporcionais são criticados por organismos internacionais.

A dosimetria da pena é um elemento central do sistema de


justiça criminal, e seus impactos são sentidos em diversos níveis.
Uma aplicação cuidadosa e justa da dosimetria é vital para o
equilíbrio entre a proteção dos direitos individuais, a manutenção
da ordem pública e a promoção da justiça social.

A dosimetria da pena desproporcional, seja por excesso


ou por insuficiência, pode acarretar uma série de efeitos negativos
tanto para o indivíduo quanto para a sociedade. Abaixo estão
alguns desses efeitos:

Quando as penas são vistas como desproporcionais, pode


haver uma perda de fé no sistema de justiça. Isso pode levar
ao ceticismo quanto à capacidade de o sistema fornecer justiça
verdadeira, tanto para as vítimas quanto para os réus.

Uma pena excessivamente severa pode ser considerada


uma forma de injustiça para o réu, infringindo o princípio da

38 CÁLCULO DA PENA
proporcionalidade. Isso pode violar os direitos humanos e levar a
condenações que superam a gravidade do crime cometido.

No caso de penas muito leves, as vítimas de crimes podem


sentir que a justiça não foi feita, levando à chamada “vitimização
secundária”. Isso pode acarretar danos psicológicos adicionais e
uma sensação de insegurança.

Penas desproporcionais que resultam em encarceramento


desnecessário ou prolongado contribuem para o superlotamento
das prisões. Isso pode deteriorar as condições de detenção e
prejudicar os esforços de reabilitação. Penas desproporcionais,
sobretudo, as excessivamente severas, podem levar à
marginalização social dos condenados e reduzir suas chances de
reintegração, potencialmente levando à reincidência criminal.

Unidade 2
O encarceramento desproporcional não só é caro para o
sistema de justiça, mas também impõe custos sociais e econômicos
significativos, retirando indivíduos do mercado de trabalho e
impondo ônus às suas famílias e às comunidades.
Imagem 2.7 - Encarceramento

Fonte: Freepik.

CÁLCULO DA PENA 39
Segundo dados da Secretaria Nacional de Políticas
Penais um preso custa em torno de R$ 1.819 por
mês aos cofres públicos. O valor é 37% maior do
SAIBA MAIS que o atual salário-mínimo nacional, que é de
R$ 1.320. Para se aprofundar nessa informação,
acesse o link disponível aqui.

A dosimetria desproporcional pode, muitas vezes,


refletir ou exacerbar desigualdades sociais e raciais existentes.
Unidade 2

Indivíduos de certos grupos sociais ou étnicos podem ser,


desproporcionalmente, afetados por penas severas, perpetuando
ciclos de pobreza e discriminação.

Contraditoriamente, penas severas desproporcionais


podem ter um efeito mínimo na prevenção do crime, pois a
dissuasão depende mais da certeza da punição do que da sua
severidade.

O encarceramento em massa e as penas desproporcionais


podem desestabilizar comunidades, destruir famílias e aumentar a
desigualdade, o que pode, por sua vez, alimentar mais criminalidade
e desconfiança nas instituições. Portanto, a dosimetria da pena
desproporcional falha em atender aos objetivos da punição, como
também pode ter ramificações profundamente negativas que vão
além do réu e afetam a sociedade como um todo.

40 CÁLCULO DA PENA
E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu
mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de
que você realmente entendeu o tema de estudo
RESUMINDO deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos.
Nesta unidade, você aprendeu que a dosimetria
da pena constitui uma das etapas cruciais do
processo penal, em que os princípios da legalidade,
da individualização e da proporcionalidade são
invocados para assegurar que a justiça seja feita de
forma equitativa e eficaz. Os fundamentos legais
para o cálculo da pena estão fundamentados
no Código Penal brasileiro e na legislação
complementar, como a Lei de Execução Penal,
fornecendo um arcabouço jurídico robusto que
guia a aplicação e execução das penas.

Unidade 2
A aplicação da pena deve ser realizada com rigor e
sensibilidade, levando em consideração a natureza
do crime, as circunstâncias em que foi cometido
e as características pessoais do condenado.
A legislação brasileira estipula critérios claros
para o cálculo das penas, iniciando com a pena-
base e ajustando-a conforme as circunstâncias
atenuantes e agravantes, bem como as causas de
diminuição ou aumento de pena.
Os fundamentos legais sobre o cálculo da pena
no Brasil refletem um equilíbrio delicado entre
a retribuição justa pelos crimes cometidos e a
promoção da reintegração social dos condenados.
Essa abordagem ressalta a humanidade
inerente ao sistema de justiça penal e reafirma o
compromisso do Brasil com os direitos humanos e
com a dignidade da pessoa humana.

CÁLCULO DA PENA 41
Cálculo da pena privativa de
liberdade
Ao término deste capítulo, você será capaz de
entender como funciona o cálculo da pena
privativa de liberdade no ordenamento jurídico
OBJETIVO brasileiro. Esse conhecimento será fundamental
para o exercício de sua profissão, seja você um
operador do direito, um estudante de direito ou
alguém interessado no sistema de justiça penal.
As pessoas que tentaram navegar pelo complexo
sistema de aplicação e execução das penas, sem a
devida instrução, tiveram problemas significativos
ao interpretar corretamente a legislação e
ao aplicar os princípios de individualização e
Unidade 2

proporcionalidade. E então? Motivado para


desenvolver esta competência? Vamos lá. Avante!

A pena privativa de liberdade ocupa um papel central no


sistema de justiça criminal, sendo uma das consequências mais
severas que o Estado pode impor a um indivíduo em resposta a
uma infração penal. O cálculo da pena privativa de liberdade não é
uma tarefa arbitrária, é um processo meticuloso que se alicerça em
uma série de princípios jurídicos, regras legislativas e orientações
jurisprudenciais.

No contexto do direito penal brasileiro, a pena privativa


de liberdade serve a múltiplos propósitos: retribuição, prevenção,
reabilitação e proteção da sociedade. Cada caso penal é único, e
o cálculo da pena deve refletir tanto as circunstâncias individuais
do delito quanto as características pessoais do delinquente. A
aplicação equitativa da pena privativa de liberdade é essencial
para a administração da justiça e para a manutenção da confiança
pública no sistema judiciário.

42 CÁLCULO DA PENA
Fundamentos Jurídicos e
dosimetria da Pena Privativa de
Liberdade
A pena privativa de liberdade é uma das modalidades de
punição previstas no ordenamento jurídico brasileiro e encontra
seus fundamentos jurídicos, principalmente, no Código Penal
(Decreto-Lei n.º 2.848/1940) e na Lei de Execução Penal (LEP) – Lei
n.º 7.210/1984. Esses dispositivos legais estabelecem as bases
para a aplicação, a execução e a progressão das penas no Brasil.

Existem três regimes de cumprimento dessa pena no


Brasil: fechado, semiaberto e aberto, definidos de acordo com a

Unidade 2
gravidade do delito e as características do condenado.

O ambiente prisional, com frequência, não favorece a


ressocialização do preso, podendo levá-lo a uma marginalização
ainda mais significativa. A passagem pelo sistema prisional marca
o indivíduo socialmente, dificultando sua reinserção no mercado
de trabalho e na sociedade após cumprir a pena. Ainda há que
se considerar que condições insalubres, superlotação e violência
dentro dos presídios impactam, negativamente, a saúde dos
encarcerados.

Em vista disso, manter indivíduos em estabelecimentos


prisionais representa um custo elevado para o Estado e,
consequentemente, para a sociedade.

O sistema prisional ineficiente pode contribuir para o


aumento da criminalidade, seja pelo fortalecimento de facções
criminosas dentro das prisões ou pela falta de perspectiva de
reinserção social dos egressos.

CÁLCULO DA PENA 43
A organização criminosa: Comando Vermelho (CV)
surgiu dentro do complexo criminal da Ilha Grande
(RJ), um presídio de segurança máxima, composto
SAIBA MAIS por criminosos reincidentes. Para se aprofundar
nessa informação, acesse o link disponível aqui.

A pena privativa de liberdade levanta questões relaciona-


das aos direitos humanos, principalmente, quando envolve trata-
Unidade 2

mento desumano e degradante. O Brasil, além de ter um sistema


jurídico pautado nos princípios da humanidade e dignidade da
pessoa humana, também é signatário de uma série de tratados in-
ternacionais que objetivam o respeito à vida e à integridade física.

O Brasil é signatário de diversos tratados de direitos hu-


manos que versam sobre o tratamento humanitário dos presos.
Esses tratados estabelecem normas e diretrizes que os estados-
-membros devem seguir para assegurar que os direitos funda-
mentais dos indivíduos privados de liberdade sejam respeitados.
Entre os principais tratados e documentos internacionais dos
quais o Brasil é signatário, destacam-se:

1. Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos – o


Brasil ratificou em 1992. Esse tratado prevê, entre ou-
tras coisas, que todas as pessoas privadas de liberdade
devem ser tratadas com humanidade e com respeito à
dignidade inerente ao ser humano.

2. Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Pacto


de San José da Costa Rica) – ratificada pelo Brasil em

44 CÁLCULO DA PENA
1992, essa convenção estabelece que as pessoas priva-
das de liberdade devem ter seu tratamento baseado no
respeito à sua dignidade inerente.

3. Convenção contra a Tortura e Outros Tratamentos ou


Penas Cruéis, desumanos ou degradantes – o Brasil ra-
tificou essa convenção em 1989, comprometendo-se a
prevenir e punir atos de tortura e outros tratamentos
ou penas cruéis, desumanos ou degradantes.

4. As Regras Mínimas das Nações Unidas para o Trata-


mento de Prisioneiros (Regras de Mandela) – embora
não sejam um tratado vinculante, representam um
conjunto de padrões internacionais amplamente reco-
nhecido para o tratamento de prisioneiros, focando em

Unidade 2
aspectos como higiene, saúde, acomodações, alimenta-
ção e acesso à justiça.
Imagem 2.8 - Regras de Mandela

Fonte: Freepik.

CÁLCULO DA PENA 45
A adesão do Brasil a esses tratados reflete o compromisso
do País com o respeito aos direitos humanos e com a promoção
de um tratamento digno e humano aos indivíduos privados de
liberdade. Na prática, isso implica a adoção de políticas públicas
e ações governamentais que visem garantir a aplicação desses
princípios no sistema prisional brasileiro.

Nesse panorama, a legislação brasileira prevê mecanismos


de progressão de regime e outros benefícios para incentivar
a ressocialização, mas sua aplicação prática enfrenta diversos
desafios.

Critérios de Aplicação e
Agravantes e Atenuantes
Unidade 2

Os fatores como culpabilidade do autor, circunstâncias


agravantes e atenuantes desempenham um papel crucial no
cálculo da pena dentro do sistema jurídico brasileiro. Esses
elementos são parte integrante da dosimetria da pena, que é o
processo pelo qual o juiz determina a pena adequada para cada
caso concreto, com base nas diretrizes do Código Penal.

A culpabilidade se refere ao grau de reprovação que se


pode atribuir ao autor pelo cometimento do delito. Não se deve
confundir com a mera culpa ou dolo, mas se relaciona à capacidade
do autor entender o caráter ilícito do fato e de se determinar de
acordo com esse entendimento. Aspectos como motivações,
intenções e a própria consciência da ilicitude entram na avaliação
da culpabilidade. Um alto grau de culpabilidade pode levar a uma
pena mais severa.

As circunstâncias agravantes são circunstâncias que,


presentes no momento do crime, tornam o delito mais grave.
Estão previstas no art. 61 do Código Penal e incluem fatores como

46 CÁLCULO DA PENA
a prática do crime com abuso de autoridade ou violação de dever
inerente a cargo, ofício, ministério ou profissão; contra crianças,
idosos, enfermos ou mulheres grávidas; e à noite ou em locais
desertos, entre outros. A presença de agravantes pode aumentar
a pena base.

As circunstâncias atenuantes, por outro lado, são


situações que, embora não excluam o crime ou isentem o autor
de pena, tornam o delito menos grave. A lei traz expressamente as
circunstância atenuantes:
Art. 65 - São circunstâncias que sempre
atenuam a pena:

I - ser o agente menor de 21 (vinte e um), na


data do fato, ou maior de 70 (setenta) anos, na

Unidade 2
data da sentença;

II - o desconhecimento da lei;

III - ter o agente:

a) cometido o crime por motivo de relevante


valor social ou moral;

b) procurado, por sua espontânea vontade


e com eficiência, logo após o crime, evitar-
lhe ou minorar-lhe as consequências, ou ter,
antes do julgamento, reparado o dano;

c) cometido o crime sob coação a que podia


resistir, ou em cumprimento de ordem de
autoridade superior, ou sob a influência de
violenta emoção, provocada por ato injusto
da vítima;

d) confessado espontaneamente, perante a


autoridade, a autoria do crime;

e) cometido o crime sob a influência de


multidão em tumulto, se não o provocou.

CÁLCULO DA PENA 47
Destaca-se que, para que haja o arrependimento
posterior, há que ser possível a efetiva restituição da coisa ou
que seja possível sua reparação. Contudo, a jurisprudência é
clara ao estabelecer que: a causa de diminuição de pena do
arrependimento posterior pode incidir nos crimes cometidos
sem violência ou grave ameaça à pessoa quando houver a
reparação integral, voluntária e tempestiva do dano, mesmo que
realizada por terceiros, por se tratar de circunstância objetiva que
se estende a todos os coautores ou partícipes do crime (STJ, APn
629/RO, Rel.ª Min.ª Nancy Andrighi, CE, DJe 10/08/2018).

Durante a primeira fase da dosimetria da pena, o juiz


fixa a pena-base acima ou abaixo do mínimo legal, considerando
esses três fatores. Essa etapa é fundamental, pois estabelece os
Unidade 2

limites dentro dos quais a pena final será determinada após a


consideração de outras possíveis agravantes e atenuantes, além
das causas de aumento e diminuição de pena previstas em lei.

Vejamos o exemplo hipotético para compreender como


são aplicadas as fases no processo de dosimetria da pena segundo
a legislação penal brasileira:

João foi condenado pelo crime de roubo qualificado (art.


157, § 2º, I e II do Código Penal), que tem pena prevista de 4 a 10
anos de reclusão e multa.

48 CÁLCULO DA PENA
Gráfico 2.1 - Frases da dosimetria da pena

02 Análise das
03 Análise das
01 Fixação da pena- circunstâncias
causas de aumento e
base agravantes e
diminuição
atenuantes
Analisando as Agravantes (art. 61 do Analisando as
circunstâncias judiciais CP): João é reincidente; circunstâncias judiciais
(art. 59 do CP), o juiz (art.
- Atenuantes (art. 65 do
observa:
CP): não há. 59 do CP), o juiz observa:
- Culpabilidade: a
Com isso, o juiz aumenta - Culpabilidade: a
conduta de João
a pena em 1 ano conduta de João
demonstra grande
demonstra grande
reprovação, pois agiu pela agravante da
reprovação, pois agiu
com violência; reincidência, resultando
com violência;
- Antecedentes: João em 8 anos de reclusão.
- Antecedentes: João
possui uma condenação
possui uma condenação
anterior definitiva
anterior definitiva
por crime da mesma

Unidade 2
por crime da mesma
natureza;
natureza;
- Conduta social e
- Conduta social e
personalidade: nada
personalidade: nada
de relevante que possa
de relevante que possa
influenciar;
influenciar;
- Motivos: o crime foi
- Motivos: o crime foi
cometido por motivo
cometido por motivo
fútil;
fútil;
- Circunstâncias e
- Circunstâncias e
consequências do crime:
consequências do crime:
o crime resultou em
o crime resultou em
lesões graves na vítima;
lesões graves na vítima;
- Comportamento da
- Comportamento da
vítima: Não contribuiu
vítima: não contribuiu
para o crime.
para o crime.
Com essas
Com essas
circunstâncias, o juiz
circunstâncias, o juiz
estabelece a pena-base
estabelece a pena-base
em 7 anos de reclusão
em 7 anos de reclusão
(acima do mínimo legal,
(acima do mínimo legal,
devido à presença
devido à presença
de circunstâncias
de circunstâncias
desfavoráveis).
desfavoráveis).

Fonte: Elaborado pela autoria (2023).

CÁLCULO DA PENA 49
Regimes de Cumprimento e
Mecanismos de Progressão e
Regressão.
O Código Penal brasileiro estabelece três regimes de
cumprimento da pena privativa de liberdade: fechado, semiaberto
e aberto.

No regime fechado, o condenado cumpre a pena em


estabelecimento de segurança máxima ou média. É o regime
inicial para as penas superiores a 8 anos e para determinados
crimes graves. No regime semiaberto, o cumprimento da pena se
dá em colônia agrícola, industrial ou estabelecimento similar. É
Unidade 2

destinado, em geral, aos condenados a penas superiores a 4 anos


e que não excedam 8 anos. No regime aberto, a pena é cumprida
em casa do albergado ou estabelecimento adequado. É aplicável
às penas iguais ou inferiores a 4 anos para réus não reincidentes
em crimes dolosos.

A progressão e a regressão de regime são mecanismos


que permitem a mudança do regime de cumprimento da pena,
com base no comportamento do condenado e no cumprimento
de requisitos legais.

Vamos explorar como a Lei de Execução Penal estrutura e


normatiza o cumprimento das penas privativas de liberdade:

A Lei de Execuções Penais estabelece que a execução penal


tem por objetivo efetivar as disposições de sentença ou decisão
criminal e proporcionar condições para a harmônica integração
social do condenado e do internado (art. 1º). Isso significa que,
além de cumprir a punição determinada pela Justiça, a pena deve
buscar a reabilitação do indivíduo.

50 CÁLCULO DA PENA
Imagem 2.9 - Reabilitação do indivíduo

Fonte: Freepik.

Unidade 2
A LEP prevê a possibilidade de progressão de regime,
ou seja, a transferência para um regime menos rigoroso, desde
que o condenado atenda a determinados requisitos, como o
cumprimento de uma fração da pena e bom comportamento
carcerário (art. 112). Da mesma forma, o condenado pode
ser regredido a um regime mais severo em caso de mau
comportamento ou cometimento de falta grave (art. 118).

A LEP também detalha os direitos e os deveres dos


condenados, incluindo visitas, correspondência, trabalho,
educação e assistência social, bem como as sanções disciplinares
em caso de infrações (Título III).

A Lei atribui grande importância ao trabalho do condenado


como meio de auxílio à sua reintegração social e como forma de
obtenção de recursos para a manutenção própria e assistência à
família (arts. 28 a 37).
Art. 28. O trabalho do condenado, como dever
social e condição de dignidade humana, terá
finalidade educativa e produtiva.

CÁLCULO DA PENA 51
§ 1º Aplicam-se à organização e aos métodos
de trabalho as precauções relativas à
segurança e à higiene.

§ 2º O trabalho do preso não está sujeito ao


regime da Consolidação das Leis do Trabalho.

O jurista Renato Marcão (2017) cita clara explicação do


Ministro Alexandre de Moraes ao comentar a dupla finalidade de
trabalho do detento:
Segundo o art. 28 da LEP, o trabalho do
sentenciado tem dupla finalidade: a educativa
e a produtiva. O trabalho é um dever do
executado, mesmo porque a não execução do
trabalho pelo sentenciado à pena privativa de
Unidade 2

liberdade, nos termos dos arts. 50, VI, e 39, V,


da LEP, constitui falta disciplinar de natureza
grave.

No desempenho de seu trabalho, o sentenciado


terá́ direito aos benefícios previdenciários, e,
nos termos do art. 126, § 2o, da LEP, o preso
impossibilitado de prosseguir no trabalho,
por acidente, continuará a beneficiar-se com
a remição (Moraes apud Macão, 2017).

O condenado que cumpre pena em regime fechado ou


semiaberto poderá remir, pelo trabalho, parte do tempo de
execução da pena (art. 126).

A LEP garante ao condenado assistência material, à saúde,


jurídica, educacional, social e religiosa, visando ao seu bem-estar
pessoal e à prevenção do crime arts. 10 a 24).

A Lei de Execução Penal é, portanto, uma ferramenta


importante para a garantia de um sistema penal mais justo e eficaz,

52 CÁLCULO DA PENA
que não só pune, mas também se preocupa com a reeducação e a
reintegração social dos condenados.

E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu


mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de
que você realmente entendeu o tema de estudo
RESUMINDO deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos.
Neste capítulo, estudamos o cálculo da pena
privativa de liberdade, que se trata de um processo
complexo e meticuloso que reflete o equilíbrio
entre a retribuição justa pelo delito cometido e a
perspectiva de ressocialização do condenado. No
decorrer deste capítulo, exploramos as nuances
e os fundamentos legais que norteiam o cálculo
das penas privativas de liberdade, destacando a
importância de um processo pautado em critérios

Unidade 2
objetivos e subjetivos, como a culpabilidade,
as circunstâncias do crime, as agravantes e
atenuantes e a conduta social do réu.
O estudo do cálculo da pena privativa de liberdade
permite refletir sobre a finalidade do sistema
penal, que vai além da punição, visando também
à prevenção de novos delitos e à reintegração
do condenado à sociedade. Por isso, o correto
entendimento e a aplicação da dosimetria penal
são indispensáveis para a efetividade do sistema
de justiça criminal. Portanto, a compreensão
aprofundada sobre o cálculo da pena privativa de
liberdade é um requisito essencial para a prática
jurídica e uma contribuição para a consolidação de
um sistema penal mais justo, humano e eficaz.

CÁLCULO DA PENA 53
Alternativas à pena privativa
de liberdade
Ao término deste capítulo, você será capaz de
entender como funcionam as alternativas às
penas privativas de liberdade. Esse conhecimento
OBJETIVO é fundamental para o exercício da advocacia
criminal, para a atuação no Ministério Público,
no Judiciário e para todos os profissionais que
lidam com a execução penal. Muitas pessoas que
tentaram aplicar essas alternativas, sem a devida
instrução, encontraram dificuldades ao adequá-
las ao contexto do caso concreto, ou enfrentaram
desafios ao buscar a efetiva ressocialização do
condenado. As alternativas às penas privativas de
Unidade 2

liberdade representam um avanço na busca por


um sistema penal mais justo e eficiente, capaz de
integrar o condenado de volta à sociedade. E então?
Motivado para desenvolver esta competência?
Vamos lá. Avante!

As alternativas às penas privativas de liberdade


representam um componente essencial no moderno sistema de
justiça penal. No Brasil, a Lei de Execução Penal, em harmonia
com os princípios da Constituição Federal, prevê mecanismos
para a substituição das penas de prisão por outras modalidades
sancionatórias menos gravosas. Essas alternativas, conhecidas
como penas restritivas de direitos e multa, surgem como resposta
a um sistema prisional frequentemente superlotado e incapaz de
cumprir eficazmente seu papel ressocializador.

Compreender essas alternativas é crucial para todos


os operadores do Direito, uma vez que permite a aplicação de
medidas mais adequadas e eficazes em resposta à criminalidade,
visando sempre à ressocialização do condenado e à melhoria da

54 CÁLCULO DA PENA
segurança pública. Avancemos, portanto, na exploração desse
tema tão relevante para a justiça penal contemporânea.

Eficácia das penas privativas de


liberdade
É fundamental refletir sobre a eficácia da pena privativa
de liberdade como instrumento de prevenção e repressão ao
crime, bem como sua capacidade de promover a ressocialização
do condenado. Investimentos em políticas públicas voltadas para
a educação, saúde, trabalho e lazer dentro do sistema prisional
são essenciais para mitigar os impactos negativos da privação de
liberdade e para garantir que a pena cumpra seu papel dentro de
uma sociedade democrática e justa.

Unidade 2
O cumprimento de penas restritivas de liberdade enfrenta
diversos desafios no Brasil e em outros sistemas jurídicos ao redor
do mundo. Alguns dos principais são:

•• Fiscalização e acompanhamento – a efetividade das


penas restritivas de liberdade depende de uma fisca-
lização adequada. No entanto, a falta de estrutura e
de pessoal dificulta o acompanhamento adequado dos
condenados, podendo levar à ineficácia da medida.

•• Reconhecimento social – a sociedade ainda tem dificul-


dades em reconhecer as penas restritivas de liberda-
de como punições reais e eficazes. Essa visão pode in-
fluenciar, negativamente, a reintegração do condenado
e a percepção de justiça.

•• Recursos e infraestrutura – muitos programas de pres-


tação de serviços à comunidade carecem de recursos e
infraestrutura adequada para receber os condenados

CÁLCULO DA PENA 55
e proporcionar atividades que sejam verdadeiramente
educativas e reintegradoras.

•• Variedade de opções – em alguns casos, há uma limi-


tação na variedade de opções disponíveis para a pres-
tação de serviços, o que pode dificultar a adaptação da
pena às características individuais do condenado e à
natureza do delito cometido.

•• Formação e preparação dos profissionais – os profis-


sionais envolvidos na aplicação e no acompanhamento
das penas restritivas de liberdade precisam estar bem
preparados e capacitados, o que nem sempre ocorre.

•• Estigmatização – os condenados podem enfrentar es-


tigmatização e preconceito durante e após o cumpri-
Unidade 2

mento da pena, o que dificulta sua reintegração social


e laboral.

•• Cumprimento efetivo – a falta de controle e de acompa-


nhamento pode levar a situações nas quais a pena não
é efetivamente cumprida, comprometendo os objetivos
da medida.

•• Cultura de encarceramento – a preferência cultural e


institucional pelo encarceramento como forma de pu-
nição é um obstáculo à aplicação e à aceitação das pe-
nas restritivas de liberdade.

Esses desafios indicam a necessidade de um investimento


contínuo em políticas públicas, recursos, formação profissional e
conscientização social para que as penas restritivas de liberdade
possam cumprir seu papel de forma eficaz e justa.

56 CÁLCULO DA PENA
Para aprofundar no tema dos desafios da
ressocialização de egressos do sistema prisional,
acesse o link disponível aqui.
ACESSE

Os desafios do sistema prisional brasileiro são muitos


e complexos, influenciando, diretamente, na eficácia da pena
restritiva de liberdade. Alguns dos principais problemas são:

Unidade 2
•• Superlotação – é um dos maiores problemas do sistema
prisional brasileiro. Muitas prisões operam muito acima
de sua capacidade, o que gera condições insalubres,
aumento da violência e dificuldade na gestão dos
presidiários.
O art. 88 da LEP contém norma programática
até hoje não efetivada no sistema penitenciário
brasileiro, onde que as celas, em regra, não
passam de compartimentos construídos sem
qualquer preocupação com as diretrizes da
LEP, insalubres e superlotados, a descortinar
flagrantes e impunes violações a direitos e
garantias individuais assegurados na CF. “É
público e notório que o sistema carcerário
brasileiro ainda não se ajustou à programação
visada pela LEP. Não há, reconhecidamente,
presídio adequado ao idealismo programático
da LEP. É verdade que, em face da carência
absoluta nos presídios, notadamente no Brasil,
os apenados recolhidos sempre reclamam

CÁLCULO DA PENA 57
mal-estar nas acomodações, constrangimento
ilegal e impossibilidade de readaptação à vida
social” (RT 736/685). (Marcão, 2017)

Em claro descumprimento das orientações das regras


definidas nas Regras Mínimas das Nações Unidas para o
Tratamento de Presos (Regras de Mandela), tais como:
Regra 12

1. As celas ou quartos destinados ao descanso


noturno não devem ser ocupados por mais de
um preso. Se, por razões especiais, tais como
superlotação temporária, for necessário que
a administração prisional central faça uma
exceção à regra, não é recomendável que dois
Unidade 2

presos sejam alojados em uma mesma cela ou


quarto.

2. Onde houver dormitórios, estes deverão


ser ocupados por presos cuidadosamente
selecionados como sendo capazes de serem
alojados juntos. Durante a noite, deve haver
vigilância regular, de acordo com a natureza
do estabelecimento prisional.

Regra 13

Todos os ambientes de uso dos presos e,


em particular, todos os quartos, celas e
dormitórios, devem satisfazer as exigências
de higiene e saúde, levando-se em conta as
condições climáticas e, particularmente, o
conteúdo volumétrico de ar, o espaço mínimo,
a iluminação, o aquecimento e a ventilação.

•• Condições insalubres – as condições de muitas prisões


no Brasil são precárias, com falta de higiene, ventilação

58 CÁLCULO DA PENA
inadequada, falta de acesso a serviços de saúde e
alimentação de baixa qualidade.

•• Violência e facções criminosas – a superlotação e a falta


de controle efetivo contribuem para a violência dentro
das prisões e o fortalecimento de facções criminosas,
que muitas vezes controlam as atividades dentro dos
presídios.

•• Falta de recursos humanos e infraestrutura – há uma


escassez de profissionais qualificados para lidar com
a população carcerária, como psicólogos, assistentes
sociais e educadores. A infraestrutura muitas vezes é
deficiente, faltando espaços para trabalho e educação.

•• Reincidência a falta de programas efetivos de

Unidade 2
reabilitação e reintegração social contribui para altas
taxas de reincidência. Muitos presos saem das prisões
sem perspectivas de emprego ou suporte social, o que
os torna vulneráveis a retornar ao crime.

•• Deficiências no processo judicial – demoras e falhas


no processo judicial podem levar a prisões preventivas
prolongadas e, em alguns casos, a condenações injustas
ou desproporcionais.

•• Falta de alternativas à prisão – embora existam penas


alternativas no ordenamento jurídico brasileiro, elas
são subutilizadas. A tendência de priorizar o encarce-
ramento em detrimento de penas mais restaurativas e
menos prejudiciais à reintegração social é um proble-
ma significativo.

Esses desafios impactam a eficácia da pena restritiva de


liberdade, pois, em vez de reabilitar e reintegrar o indivíduo na
sociedade, muitas vezes, o sistema prisional acaba por agravar as
tendências criminosas, prejudicar a saúde mental e física dos pre-

CÁLCULO DA PENA 59
sos e desencorajar a recuperação social e econômica após a libe-
ração. A busca por soluções para esses problemas é fundamental
para a construção de um sistema de justiça criminal mais justo e
eficaz.

O número total de custodiados no Brasil até o


primeiro semestre de 2023 é de 644.794 em celas
físicas e 190.080 em prisão domiciliar referentes
NOTA
a junho de 2023 (dados SENAPPEN – Secretaria
Nacional de políticas penais).

Penas alternativas no
ordenamento brasileiro
No ordenamento jurídico brasileiro, as penas alternativas,
Unidade 2

também conhecidas como penas restritivas de direitos, são


previstas no art. 43 da Lei n.º 9.714/98 e têm o objetivo de oferecer
alternativas ao encarceramento, principalmente, em casos de
infrações de menor potencial ofensivo ou quando a pena privativa
de liberdade não é superior a quatro anos. Elas são aplicáveis
em situações específicas, considerando a natureza do crime,
as circunstâncias judiciais e a conduta social do condenado. Os
principais tipos de penas alternativas são:

•• Prestação pecuniária – consiste no pagamento em di-


nheiro à vítima, a seus dependentes ou a entidade pú-
blica ou privada com destinação social. O montante é
fixado pelo juiz e deve ser proporcional ao dano causa-
do e à capacidade econômica do condenado.

•• Perda de bens e valores – destina-se à perda de bens


ou valores equivalentes ao produto ou proveito do cri-
me, desde que não seja possível a restituição à vítima
ou quando os bens não forem localizados.

60 CÁLCULO DA PENA
•• Prestação de serviço à comunidade ou a entidades pú-
blicas – o condenado é obrigado a trabalhar, gratuita-
mente, por um período determinado, em atividades de
interesse social ou comunitário. O trabalho deve ser
compatível com suas aptidões e não pode interferir em
sua jornada normal de trabalho.

•• Interdição temporária de direitos – implica a proibição


de exercer certos direitos ou atividades por um perío-
do determinado. Pode incluir a proibição de frequentar
determinados lugares, de exercer cargo ou função pú-
blica, ou a suspensão de habilitação para dirigir veículo.

•• Limitação de fim de semana – o condenado é obrigado


a permanecer, aos sábados e domingos, por cinco ho-

Unidade 2
ras diárias, em casa do albergado ou outro estabeleci-
mento adequado, em que serão realizadas atividades
educativas.
Imagem 2.10 - Prestação de serviço à comunidade

Fonte: Freepik.

É importante ressaltar que as penas alternativas são


uma forma de responsabilização que busca a reintegração do

CÁLCULO DA PENA 61
condenado e a reparação do dano causado, evitando os efeitos
negativos do encarceramento. Elas são uma expressão da busca
por um sistema penal mais humanizado e eficaz na prevenção da
reincidência.
Em determinados casos, é possível a substituição da
pena privativa de liberdade por penas restritivas de direitos. Esse
mecanismo busca atender ao objetivo ressocializador da pena,
evitando o encarceramento desnecessário.
A substituição da pena privativa de liberdade por penas
restritivas de direitos é uma medida prevista na legislação penal
brasileira, especificamente, no Código Penal (Decreto-Lei n.º
2.848/1940). Esse mecanismo está inserido no contexto das
penas alternativas, que oferecem ao condenado uma forma de
cumprimento de pena diversa do encarceramento, com foco na
Unidade 2

reeducação, na reparação do dano e na prevenção da reincidência.


A substituição pode ser aplicada em casos nos quais a pena
privativa de liberdade não ultrapasse 4 anos e o crime não seja
cometido com violência ou grave ameaça à pessoa. Além disso,
é necessário que o réu seja primário e as circunstâncias judiciais
sejam favoráveis.
A substituição da pena privativa de liberdade por outra
alternativa oferece diversas vantagens, dentre elas:
1. Reparação do dano – possibilita uma compensação
mais direta à vítima ou à sociedade.
2. Reintegração social – incentiva a inserção do condenado
na comunidade e reduz os riscos de estigmatização.
3. Desafogamento do sistema prisional – contribui para a
redução da superlotação carcerária.
4. Economia de recursos – é menos onerosa que a
manutenção de presos no sistema prisional.

Mesmo oferecendo vantagens significativas, a substituição


da pena ainda enfrenta muitos desafios, vejamos:

62 CÁLCULO DA PENA
1. Fiscalização – assegurar que a pena alternativa seja
devidamente cumprida pode ser desafiador.
2. Conscientização judicial – nem sempre os magistrados
optam pelas penas alternativas, preferindo a prisão.
3. Infraestrutura para execução – é preciso haver locais
e projetos adequados para a realização dessas penas.

Em circunstâncias excepcionais, é permitida a conversão da


pena de prestação de serviços à comunidade em multa, contanto
que a alternativa não tenha sido expressamente determinada na
decisão judicial.
Art. 148. Em qualquer fase da execução,
poderá o Juiz, motivadamente, alterar, a forma
de cumprimento das penas de prestação de

Unidade 2
serviços à comunidade e de limitação de
fim de semana, ajustando-as às condições
pessoais do condenado e às características do
estabelecimento, da entidade ou do programa
comunitário ou estatal.

EXEMPLO: caso concreto de decisão que converteu a pena


de prestação de serviço à comunidade em pecuniária.
Execução penal – possibilidade de conversão da pena de
prestação de serviços à comunidade em pecuniária. Para
ver o caso, acesse o link disponível aqui.

CÁLCULO DA PENA 63
Imagem 2.11 - Conversão de pena de prestação a comunidade em multa

Fonte: Freepik.
Unidade 2

Suspensão condicional da pena


A Suspensão condicional da pena, conhecida como
“sursis”, é uma medida prevista no direito penal brasileiro que
permite a suspensão da execução da pena privativa de liberdade,
sob certas condições, por um período determinado. Esse instituto
está regulamentado nos arts. 77 a 82 do Código Penal Brasileiro
(Decreto-Lei n.º 2.848/1940).

A suspensão condicional da pena não é uma pena


alternativa, contudo, juntamente com as penas alternativas são
medidas importantes no ordenamento jurídico brasileiro, pois
visam à reinserção social do condenado e à desafogar o sistema
carcerário, que, costumeiramente, encontra-se em estado de
superlotação.

A suspensão condicional da pena é aplicada quando a pena


privativa de liberdade não superior a 2 anos. A pena aplicada ao

64 CÁLCULO DA PENA
condenado não deve ultrapassar 2 anos. Em alguns casos, como
em crimes ambientais, esse limite pode ser estendido.

São analisados aspectos como a culpabilidade, os


antecedentes, a conduta social e os motivos do crime. O
condenado não deve ter sido reincidente em crime doloso. Caso
haja dano à vítima, é necessário que o condenado o repare, salvo
impossibilidade de fazê-lo.

Durante a suspensão condicional da pena, o condenado


será submetido a um período de prova, que pode variar de 2 a 4
anos. Nesse período, deverá cumprir certas condições impostas
pelo juiz.

•• Não cometer novo crime: o condenado deve manter

Unidade 2
bom comportamento e não cometer nenhum novo
crime durante o período de prova.

•• Comparecimento periódico em juízo: para informar e


justificar suas atividades.

•• Reparação de danos: é fundamental que o dano


causado seja reparado.

•• Proibições e obrigações: pode haver proibições


específicas, como não frequentar determinados
lugares, ou obrigações, como a prestação de serviços
à comunidade.

Se durante o período de prova o beneficiado não cumprir


as condições, cometer outro crime ou for condenado por crime
doloso, o sursis poderá ser revogado, e o condenado deverá
cumprir a pena originalmente imposta.

Se, ao término do período de prova, o condenado cumpriu


todas as condições, a pena será considerada extinta.

CÁLCULO DA PENA 65
Os sursis é uma ferramenta importante na política
criminal, visto que proporciona ao condenado a oportunidade de
reintegração social sem o ônus do encarceramento, desde que
cumpra as condições impostas, contribuindo para a desafogamento
do sistema prisional e para a humanização da pena.

Para que seja possível o sursis, o condenado deve atender


a alguns requisitos, como:

•• Ter sido condenado a uma pena mínima de privação de


liberdade;

•• Não ser reincidente em crime doloso;

•• Ter bons antecedentes;

•• As circunstâncias e as consequências do crime não


Unidade 2

indicarem que a medida é incompatível.

As penas alternativas, ou restritivas de direitos, são


aplicadas em substituição às penas privativas de liberdade,
visando à reinserção social do condenado e à diminuição do
encarceramento. Detalharemos cada uma delas e como são
executadas:
Quadro 2.2 - Penas alternativas

Descrição Execução

É feito um levantamento das


O condenado deve prestar instituições disponíveis, e o
Prestação
serviços gratuitos à juiz determina onde o serviço
de
comunidade ou a entidades será prestado, adequando o
serviços à
públicas por um período tipo de serviço à capacidade
comunidade
correspondente à pena do condenado. A fiscalização
ou a
substituída, mas não inferior a é feita pelo juiz da execução,
entidades
uma hora de tarefa por dia de com o auxílio do Ministério
públicas
condenação. Público e dos órgãos de
acompanhamento.

66 CÁLCULO DA PENA
Proíbe o condenado de O juiz estipula as atividades
exercer certas atividades ou ou os lugares dos quais o
de frequentar determinados condenado deve se afastar.
Interdição
lugares por um período. Pode O descumprimento pode
temporária
incluir a proibição do exercício acarretar a revogação da pena
de direitos
de cargo, função ou atividade. alternativa e a aplicação da
pública, bem como de direitos pena privativa de liberdade
políticos. originalmente imposta.
O condenado deve
permanecer, nos finais de O juiz determina o local em que
semana, por cinco horas o condenado deve comparecer
Limitação
diárias, em casa de albergado e as atividades que serão
de fim de
ou outro estabelecimento realizadas. O não cumprimento
semana
adequado, nos quais pode resultar na revogação da
serão realizadas atividades medida.
educativas.

Unidade 2
O juiz determina o valor e a
Consiste no pagamento
forma de pagamento, que
em dinheiro à vítima, a
pode ser parcelada, conforme
Prestação seus dependentes ou a
a capacidade econômica do
pecuniária entidade pública ou privada
condenado. O descumprimento
com destinação social, de
pode levar à revogação da pena
importância fixada pelo juiz.
alternativa.
Bens e valores do condenado O juiz determina quais bens
Perda de são confiscados e revertidos serão perdidos e em que
bens e ao Fundo Penitenciário medida, assegurando que
valores Nacional (FUNPEN) ou a outro não afetará a subsistência do
fundo semelhante. condenado e de sua família.
Impõe ao condenado a
O juiz define os lugares que
proibição de frequentar
o condenado deve evitar e o
Restrição de determinados lugares ou
período dessa restrição. O não
direito de se ausentar da comarca
cumprimento pode acarretar a
onde reside, sem autorização
revogação da medida.
judicial.

Fonte: Elaborado pela autoria (2023).

Todas essas penas são fiscalizadas pela autoridade


judiciária competente e, se não cumpridas conforme determinado,

CÁLCULO DA PENA 67
podem ser convertidas em penas privativas de liberdade, conforme
o estabelecido na sentença inicial.

E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu


mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza
de que você realmente entendeu o tema de
RESUMINDO estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que
vimos. Nesta unidade, você se aprofundou no
estudo sobre as alternativas às penas privativas
de liberdade, que constituem um avanço
significativo no sistema penal e na execução penal
brasileira. Elas representam uma resposta mais
humana e socialmente construtiva aos delitos de
menor gravidade, buscando a reintegração do
condenado à sociedade em vez de optar por um
isolamento que, com frequência, revela-se ineficaz
Unidade 2

e contraproducente. As penas alternativas, tais


como a prestação de serviços à comunidade,
interdição temporária de direitos, limitação de fim
de semana, prestação pecuniária, perda de bens
e valores e restrição de direito, têm o potencial de
prevenir a reincidência ao oferecer oportunidades
de reeducação e reabilitação. Elas ajudam a aliviar
o sistema prisional superlotado e permitem que
os indivíduos mantenham seus laços familiares e
comunitários, fatores essenciais para uma efetiva
reinserção social. Para que essas alternativas
alcancem seus objetivos, é imprescindível um
sistema de acompanhamento efetivo, recursos
adequados para a implementação e uma sociedade
que esteja disposta a aceitar e apoiar essas
medidas. Além disso, é fundamental que as penas
sejam aplicadas de maneira justa e proporcional,
garantindo que sejam vistas como uma forma
legítima e eficaz de punição.

68 CÁLCULO DA PENA
REFERÊNCIAS
ANGELO, T. Taxa de retorno ao sistema prisional entre adultos
é de 42%, aponta pesquisa. Conjur, 3 mar. 2020. Disponível em:
[Link]
sistema-prisional-aponta-pesquisa. Acesso em: 14 nov. 2023.

BITENCOURT, C. R. Tratado de Direito Penal: Parte Geral. São


Paulo: Saraiva, 2017.

BITENCOURT, C. R. Falência da pena de prisão – Causas e


alternativas. [Link]. São Paulo: Saraiva, 2017.

MARCÃO, R. Lei de execução penal anotada. 6. ed. rev., ampl. e


atual. São Paulo: Saraiva, 2017.

Unidade 2
ROSSETTO, E. L. Teoria e aplicação da pena. São Paulo: Atlas,
2014.

CÁLCULO DA PENA 69

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