# REVISÃO CLÍNICA: ACIDENTE ISQUÉMICO TRANSITÓRIO (AIT)
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Data: Maio 2026
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## RESUMO
O Acidente Isquémico Transitório (AIT) é uma emergência neurológica caracterizada por
disfunção neurológica focal de início súbito, de origem vascular, com duração inferior a 24
horas, sem evidência de enfarte cerebral agudo em estudos de neuroimagem. O conceito
clássico de AIT, baseado apenas na duração temporal dos sintomas, tem sido progressivamente
substituído por uma definição tissue-based, que considera a presença ou ausência de lesão
tecidual permanente. Este documento apresenta uma revisão abrangente e atualizada sobre
esta patologia de elevada relevância clínica.
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## 1. DEFINIÇÃO E CONCEITOS FUNDAMENTAIS
### 1.1 Definição Clássica vs. Moderna
A definição tradicional de AIT, estabelecida nos anos 1960-1970, caracterizava-o como um
défice neurológico focal de origem vascular com resolução completa em menos de 24 horas.
No entanto, com o advento de técnicas de neuroimagem mais sensíveis, particularmente a
Ressonância Magnética (RM) com sequências de difusão (DWI), tornou-se evidente que uma
proporção significativa (30-50%) dos doentes com sintomas que resolvem em menos de 24
horas apresentam evidência de enfarte cerebral agudo.
A definição moderna, proposta pela American Heart Association/American Stroke Association
(AHA/ASA) em 2009, define AIT como "um episódio transitório de disfunção neurológica
causado por isquemia focal cerebral, espinhal ou retiniana, sem enfarte agudo". Esta
abordagem tissue-based representa uma mudança paradigmática importante, enfatizando que
a presença de lesão tecidual permanente, independentemente da duração dos sintomas,
classifica o evento como enfarte cerebral e não como AIT.
### 1.2 Fisiopatologia
A fisiopatologia do AIT é multifatorial e partilha mecanismos comuns com o enfarte cerebral
isquémico. Os principais mecanismos incluem:
**Aterotrombose de grandes vasos:** A aterosclerose nas artérias cerebrais de grande calibre
(carótidas, vertebrais, cerebral média, basilar) pode levar à formação de trombos in situ ou
servir como fonte de êmbolos arterioarteriais. Placas ateroscleróticas instáveis,
particularmente aquelas com núcleo lipídico volumoso e cápsula fibrosa fina, são
particularmente vulneráveis à ruptura.
**Cardioembolismo:** Aproximadamente 20-25% dos AITs têm origem cardioembólica. As
principais fontes incluem fibrilhação auricular (a mais comum), doença valvular (estenose
mitral, próteses valvulares), disfunção ventricular esquerda com trombo mural, endocardite,
mixoma auricular e foramen ovale patente em contexto de embolia paradoxal.
**Doença de pequenos vasos:** A arterioloesclerose relacionada com hipertensão arterial e
diabetes mellitus pode causar oclusão de pequenas artérias perfurantes, resultando em
sintomas transitórios, embora menos frequentemente do que os mecanismos anteriores.
**Outros mecanismos:** Incluem dissecção arterial (particularmente em doentes jovens),
estados de hipercoagulabilidade, vasculites, vasoespasmo e causas hemodinâmicas em
território de estenose significativa.
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## 2. EPIDEMIOLOGIA
### 2.1 Incidência e Prevalência
A incidência anual de AIT varia entre 0,2 a 0,7 por 1000 habitantes na população geral,
aumentando exponencialmente com a idade. Em indivíduos com mais de 65 anos, a incidência
pode atingir 5-10 por 1000. Estima-se que ocorram aproximadamente 200.000-500.000 AITs
por ano nos Estados Unidos e cerca de 5.000-8.000 em Portugal.
### 2.2 Fatores de Risco
Os fatores de risco para AIT são idênticos aos do enfarte cerebral isquémico:
**Fatores de Risco Não Modificáveis:**
- Idade (cada década após os 55 anos duplica o risco)
- Género masculino (razão homem:mulher de aproximadamente 1,3:1)
- Etnia (maior incidência em afrodescendentes)
- História familiar e predisposição genética
**Fatores de Risco Modificáveis:**
- Hipertensão arterial (presente em 60-70% dos casos)
- Diabetes mellitus (risco relativo de 1,8-3,0)
- Dislipidemia
- Tabagismo (risco relativo de 1,5-2,5)
- Fibrilhação auricular (risco relativo de 5-7)
- Obesidade e síndrome metabólica
- Sedentarismo
- Consumo excessivo de álcool
- Estenose carotídea
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## 3. QUADRO CLÍNICO
### 3.1 Manifestações Clínicas
A apresentação clínica do AIT depende do território vascular envolvido. O início é tipicamente
súbito, com défices neurológicos focais que atingem a intensidade máxima em segundos a
minutos. A duração mediana dos sintomas é inferior a 1 hora, sendo que aproximadamente
50% dos AITs duram menos de 30 minutos e 75% menos de 60 minutos.
**Circulação Anterior (Carotídea):**
*Sistema Carotídeo:*
- Hemiparesia contralateral (especialmente fácio-braquial)
- Hipoestesia hemicorporal contralateral
- Afasia (se hemisfério dominante afetado)
- Negligência espacial e anosognosia (se hemisfério não-dominante afetado)
- Desvio conjugado do olhar
- Hemianopsia homónima
*Artéria Oftálmica:*
- Amaurose fugaz (cegueira monocular transitória)
- Escotomas
- Fenómenos visuais positivos
**Circulação Posterior (Vertebrobasilar):**
- Vertigem rotatória de início súbito
- Diplopia
- Disartria e disfagia
- Ataxia e descoordenação
- Défices motores ou sensitivos bilaterais ou alternantes
- Hemianopsia homónima bilateral
- Drop attacks (perda súbita do tono postural sem perda de consciência)
### 3.2 Sintomas de Alarme vs. Sintomas Inespecíficos
É fundamental distinguir sintomas neurológicos focais inequívocos de manifestações
inespecíficas que raramente isoladas são devidas a AIT:
**Sintomas Provavelmente Relacionados com AIT:**
- Défice motor focal súbito
- Défice sensitivo unilateral súbito
- Afasia
- Disartria com outro sintoma neurológico focal
- Desvio conjugado do olhar
- Amaurose fugaz
**Sintomas Provavelmente NÃO Relacionados com AIT (quando isolados):**
- Alteração isolada do estado de consciência ou confusão
- Tonturas inespecíficas
- Amnésia isolada
- Incontinência de esfíncteres isolada
- Scintillating scotomas (típicos de enxaqueca)
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## 4. DIAGNÓSTICO E AVALIAÇÃO
### 4.1 Avaliação Inicial
Todo o doente com suspeita de AIT deve ser avaliado urgentemente, idealmente em contexto
de Unidade de AVC ou serviço de urgência com capacidade de investigação cerebrovascular
expedita. A avaliação inicial inclui:
**História Clínica Detalhada:**
- Hora exata de início e duração dos sintomas
- Descrição pormenorizada dos défices neurológicos
- Fatores de risco cardiovasculares
- Medicação atual
- História prévia de eventos cerebrovasculares
- Sintomas sugestivos de dissecção arterial
**Exame Neurológico:**
Deve ser realizado mesmo após resolução dos sintomas, documentando quaisquer défices
residuais ou sinais focais persistentes.
### 4.2 Exames Complementares
**Neuroimagem:**
*TC Crânio-encefálica:* Obrigatória para exclusão de hemorragia e de lesões estruturais
alternativas (tumor, abcesso). Tem baixa sensibilidade para enfarte agudo nas primeiras horas.
*RM Cerebral com DWI:* É o exame de eleição. A sequência de difusão (DWI) permite detetar
enfarte agudo com elevada sensibilidade (até 80-90% se realizada nas primeiras 24 horas). A
presença de lesão em DWI reclassifica o evento como enfarte cerebral, não AIT.
**Estudos Vasculares:**
*Ecografia Doppler Carotídea e Vertebral:* Avaliação de estenose, placas ateroscleróticas e
dissecção arterial. Deve ser realizada precocemente.
*Angio-TC ou Angio-RM:* Permitem visualização detalhada dos vasos intra e extracranianos,
sendo particularmente úteis no planeamento de eventual intervenção (endarterectomia,
stenting).
**Estudo Cardíaco:**
*Eletrocardiograma (ECG):* Identificação de fibrilhação auricular, enfarte do miocárdio prévio,
hipertrofia ventricular.
*Ecocardiograma Transtorácico (ETT):* Avaliação da função ventricular, valvulopatias, trombos
intracavitários.
*Ecocardiograma Transesofágico (ETE):* Indicado quando se suspeita de fonte cardioembólica
não identificada no ETT, particularmente para avaliação da aurícula esquerda, foramen ovale
patente, ateroma da aorta ascendente.
*Holter 24-72h ou Monitorização Prolongada:* Para deteção de fibrilhação auricular
paroxística.
**Análises Laboratoriais:**
- Hemograma completo
- Bioquímica (glucose, função renal, ionograma, perfil lipídico)
- Tempo de protrombina/INR, TTPa
- Biomarcadores cardíacos (troponina)
- Estudo de trombofilias (em doentes jovens ou sem fatores de risco óbvios)
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## 5. ESTRATIFICAÇÃO DE RISCO
### 5.1 Score ABCD2
O score ABCD2 é a ferramenta de estratificação de risco mais amplamente validada e utilizada.
Permite estimar o risco de enfarte cerebral precoce após AIT:
**Componentes do Score:**
- **A (Age):** ≥60 anos = 1 ponto
- **B (Blood Pressure):** PA ≥140/90 mmHg = 1 ponto
- **C (Clinical features):**
- Fraqueza unilateral = 2 pontos
- Alteração da linguagem sem fraqueza = 1 ponto
- **D (Duration):**
- ≥60 minutos = 2 pontos
- 10-59 minutos = 1 ponto
- **D (Diabetes):** Presente = 1 ponto
**Interpretação:**
- Score 0-3: Baixo risco (risco de AVC aos 2 dias ~1%, aos 7 dias ~1,2%)
- Score 4-5: Risco moderado (risco de AVC aos 2 dias ~4%, aos 7 dias ~5,9%)
- Score 6-7: Alto risco (risco de AVC aos 2 dias ~8%, aos 7 dias ~11,7%)
### 5.2 Limitações e Considerações
Embora útil, o ABCD2 tem limitações importantes:
- Não incorpora dados de neuroimagem ou estudos vasculares
- Variabilidade na aplicação clínica
- Alguns estudos mostram menor acurácia em populações específicas
Portanto, a decisão clínica deve integrar o score ABCD2 com outros achados como presença de
estenose carotídea significativa, fibrilhação auricular, múltiplos eventos recorrentes, ou lesão
em neuroimagem.
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## 6. TRATAMENTO E PREVENÇÃO SECUNDÁRIA
### 6.1 Fase Aguda
**Antiagregação Plaquetária:**
A terapêutica antiagregante deve ser iniciada precocemente. Duas abordagens são suportadas
por evidência:
*Aspirina em monoterapia:* 150-300mg em dose de carga, seguida de 75-100mg/dia.
*Aspirina + Clopidogrel (Terapêutica dupla):* Baseada nos estudos CHANCE e POINT, a dupla
antiagregação (Aspirina 75-100mg + Clopidogrel 75mg) durante 21-30 dias, seguida de
antiagregante único, demonstrou redução significativa do risco de AVC recorrente em doentes
de alto risco tratados nas primeiras 24-72 horas, com aumento modesto do risco hemorrágico.
Está indicada em doentes com ABCD2 ≥4 ou com imagem positiva.
**Anticoagulação:**
Em doentes com fibrilhação auricular, deve ser iniciada anticoagulação oral. Em geral, o timing
ideal é:
- AIT minor: início imediato
- AIT com território vascular extenso: adiar 3-14 dias
Os anticoagulantes orais diretos (DOACs: apixabano, rivaroxabano, dabigatrano, edoxabano)
são preferíveis aos antagonistas da vitamina K na maioria dos casos.
### 6.2 Prevenção Secundária a Longo Prazo
**Controlo de Fatores de Risco:**
*Hipertensão:* Objetivo de PA <140/90 mmHg (ou <130/80 em diabéticos). IECAs ou ARAs são
preferidos.
*Dislipidemia:* Estatinas de alta intensidade (atorvastatina 40-80mg ou rosuvastatina 20-
40mg) com objetivo de LDL <70mg/dL ou redução ≥50%.
*Diabetes:* Controlo metabólico rigoroso (HbA1c <7%).
*Cessação Tabágica:* Aconselhamento e suporte farmacológico se necessário.
*Atividade Física:* Pelo menos 150 minutos de exercício aeróbico moderado por semana.
**Revascularização Carotídea:**
Em doentes com estenose carotídea sintomática:
- 70-99%: Endarterectomia ou stenting carotídeo (idealmente nas primeiras 2 semanas)
- 50-69%: Endarterectomia em casos selecionados
**Encerramento de Foramen Ovale Patente:**
Em doentes <60 anos com AIT criptogénico e FOP com shunt significativo ou aneurisma do
septo auricular, o encerramento percutâneo pode ser considerado.
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## 7. PROGNÓSTICO
O AIT é um potente preditor de enfarte cerebral subsequente. Estudos demonstram que:
- Risco de AVC aos 2 dias: 3-10%
- Risco de AVC aos 90 dias: 9-17%
- Risco de AVC ao 1 ano: 12-20%
O risco é máximo nas primeiras 48-72 horas após o evento. Além do risco de AVC, doentes com
AIT apresentam risco aumentado de eventos cardiovasculares major (enfarte do miocárdio,
morte cardiovascular).
A implementação de protocolos de avaliação rápida, estratificação de risco e prevenção
secundária agressiva pode reduzir o risco de AVC recorrente em até 80%.
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## 8. CONCLUSÕES
O AIT representa uma emergência neurológica que requer avaliação e intervenção urgentes. A
transição da definição time-based para tissue-based reflete melhor a realidade fisiopatológica e
tem implicações importantes no manejo clínico. A avaliação deve ser abrangente, incluindo
neuroimagem precoce, estudos vasculares e cardíacos, permitindo identificar a etiologia e
estratificar o risco.
A prevenção secundária, incluindo antiagregação ou anticoagulação apropriada, controlo
rigoroso dos fatores de risco, e revascularização quando indicada, é fundamental para reduzir
significativamente o risco de eventos cerebrovasculares subsequentes. O reconhecimento do
AIT como "oportunidade terapêutica" e não como "evento benigno" é essencial para melhorar
o prognóstico destes doentes.
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## REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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2007;370(9596):1432-1442.