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O estudo investiga a percepção de crianças e pais sobre a prevalência de perturbações de ansiedade na infância, revelando que 19% das crianças relatam ansiedade, enquanto apenas 9% dos pais reconhecem isso. As crianças tendem a relatar níveis mais altos de ansiedade do que seus pais, e a pesquisa sugere a necessidade de medidas psicoeducativas para aumentar a conscientização dos cuidadores. A análise estatística indica que não há relação significativa entre ansiedade e fatores como idade, sexo ou desempenho escolar, embora haja uma tendência de maior ansiedade em meninos e uma relação inversa com o desempenho escolar.
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O estudo investiga a percepção de crianças e pais sobre a prevalência de perturbações de ansiedade na infância, revelando que 19% das crianças relatam ansiedade, enquanto apenas 9% dos pais reconhecem isso. As crianças tendem a relatar níveis mais altos de ansiedade do que seus pais, e a pesquisa sugere a necessidade de medidas psicoeducativas para aumentar a conscientização dos cuidadores. A análise estatística indica que não há relação significativa entre ansiedade e fatores como idade, sexo ou desempenho escolar, embora haja uma tendência de maior ansiedade em meninos e uma relação inversa com o desempenho escolar.
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47_Barroca_experiencia.

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PERTURBAÇÕES DE ANSIEDADE NA
INFÂNCIA – A PERCEÇÃO DAS CRIANÇAS E
DOS PAIS
I. Barroca 1
G. Riggi 1
A. Pinto 2
P. Fong 3
R. Reis 4
P. A. Pereira 5
A. R. Soares 6
V. Dieudonné 7
G. Maia 8

RESUMO

As perturbações de ansiedade estão entre as condições psiquiátricas da


infância e adolescência mais comuns, condicionando uma redução do
funcionamento global da criança, a nível académico, familiar e social, assim como
um risco aumentado para patologias psiquiátricas comórbidas ao longo de toda a
sua vida. O objetivo do presente estudo foi comparar a perceção das crianças e dos
seus pais em relação à prevalência das perturbações de ansiedade e possíveis
fatores associados. A população estudada envolveu todos os alunos do 5º ano de
escolaridade do Agrupamento de Escolas Grão Vasco e os respetivos pais. Como
instrumentos de medida foram utilizados os questionários SCARED-R, versão para
crianças e versão para pais, respetivamente. Foi realizada análise da consistência

1 Médica Interna de Psiquiatria da Infância e Adolescência no Serviço de Psiquiatria e Saúde Mental da Infância
e Adolescência do Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental, Lisboa, Portugal.
2 Professora de Educação Musical do Agrupamento de Escolas Grão Vasco (AEGV), Viseu, Portugal.
3 Psicóloga Escolar do Agrupamento de Escolas Grão Vasco (AEGV), Viseu, Portugal.
4 Professora de Educação Especial do Agrupamento de Escolas Grão Vasco (AEGV), Viseu, Portugal.
5 Universidade Católica Portuguesa – Centro Regional de Viseu – Departamento de Economia, Gestão e
Ciências Sociais, Viseu, Portugal.
6 Assistente Hospitalar de Psiquiatra da Infância e Adolescência no Serviço de Psiquiatria e Saúde Mental da
Infância e Adolescência do Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental, Lisboa, Portugal.
7 Assistente Graduado Hospitalar de Psiquiatra da Infância e Adolescência no Serviço de Psiquiatria e Saúde
Mental da Infância e Adolescência do Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental, Lisboa, Portugal.
8 Assistente Graduada Sénior Hospitalar de Psiquiatra da Infância e Adolescência no Serviço de Psiquiatria e
Saúde Mental da Infância e Adolescência do Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental, Lisboa, Portugal.

1 REVISTA PORTUGUESA DE PEDOPSIQUIATRIA • 2021 • Nº 47


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interna de escalas, estatística descritiva, teste t-Student, teste ANOVA e teste do


Qui-quadrado, tendo sido considerados significativos os valores de p<0.05.
Verificou-se que, globalmente, as crianças referem níveis de ansiedade superiores
àqueles percecionados pelos seus pais, com uma prevalência de 19% segundo as
respostas das crianças, mas de apenas 9% segundo a perceção dos pais. De forma
geral, não houve relação significativa com a idade, sexo ou nível de desempenho
escolar, embora pareça haver uma predominância do sexo masculino e uma
relação inversa entre os níveis de ansiedade das crianças e o seu desempenho
escolar. Desta forma, consideram-se necessárias medidas psicoeducativas
destinadas a aumentar o reconhecimento destas condições por parte dos
cuidadores, de maneira a instaurar precocemente o tratamento adequado e reduzir
o compromisso funcional associado, a curto e longo prazo.

Palavras-chave: Ansiedade, Crianças, Pais.

INTRODUÇÃO

As perturbações de ansiedade são reconhecidas como as perturbações


psiquiátricas mais comuns na infância e adolescência, com uma prevalência que
varia entre 9% e 32%(1,2). Na infância, a prevalência é igual nos dois sexos,
com um aumento do ratio feminino: masculino a partir da adolescência(3).
As mais frequentes em idade pediátrica são as fobias específicas, a
perturbação de ansiedade generalizada e a perturbação de ansiedade de
separação, embora a prevalência das diferentes perturbações varie conforme os
estudos(3-5). A fobia social e a perturbação de pânico aumentam a partir da
adolescência (3-5) . A perturbação obsessivo-compulsiva, anteriormente
considerada entre as perturbações de ansiedade, é outra perturbação entre as
mais frequentes; no entanto, tem uma apresentação bimodal de acordo com a
idade: na infância, com uma maior prevalência no sexo masculino e na idade
jovem-adulta com uma ligeira predominância feminina(6).
Estas perturbações apresentam uma elevada comorbilidade entre si, assim
como com outras perturbações durante a infância, associando-se ao
desenvolvimento de outras perturbações psiquiátricas ao longo da vida,
incluindo outras perturbações de ansiedade, depressões, abuso de substâncias,
com um aumento do risco de suicídio nestes indivíduos(6).
Estas perturbações têm um forte impacto negativo no funcionamento da
criança, afetando o rendimento escolar, a vida familiar, as atividades de lazer e
as relações sociais, interferindo persistentemente no dia a dia na idade adulta
aquando da manutenção a longo prazo dos sintomas(3).

2
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Apesar do grande impacto das perturbações de ansiedade na infância e na


adolescência, frequentemente estas condições permanecem sem tratamento, em
parte devido à incompreensão e desvalorização do problema por parte dos
adultos cuidadores(1). As crianças e jovens raramente procuram ajuda de forma
independente, sendo mais frequentemente os pais quem levam as suas próprias
preocupações aos profissionais de saúde (1) . A identificação precoce e o
tratamento efetivo podem reduzir o impacto na vida da criança assim como a
persistência da sintomatologia na idade adulta(7).

OBJETIVOS

Os principais objetivos do estudo consistiram em avaliar a perspetiva das


crianças quanto à presença de sintomatologia ansiosa e fatores associados e
comparar essa perspetiva com a dos respetivos pais.

MATERIAIS E MÉTODOS

A população estudada envolveu todos os alunos do 5º ano de escolaridade do


Agrupamento de Escolas Grão Vasco e os respetivos pais. Foi assegurado a todos
os envolvidos a confidencialidade das suas respostas e a sua participação foi feita
de forma voluntária e anónima, após preenchimento escrito, pelos pais e pelos
alunos, de um consentimento informado. O presente trabalho foi também
submetido e aprovado pela Direção do Agrupamento de Escolas Grão Vasco.
Como instrumentos de medida foram utilizados os questionários SCARED-R,
versão para crianças e versão para pais, respetivamente. Este questionário
contém 69 itens e tem por objetivo a avaliação de diferentes dimensões
(correspondentes a um subtipo de perturbação de ansiedade) relacionadas com
as perturbações de ansiedade (perturbação de ansiedade de separação,
perturbação de ansiedade generalizada, perturbação de pânico, fobia social e
ansiedade à escola, fobia específica (tipo situacional/ambiental; tipo animal;
tipo sangue/injeção/ferimento), perturbação obsessivo-compulsiva; perturbação
de stress pós-traumático), em que se obtém uma pontuação para cada dimensão
e uma pontuação global, segundo os critérios diagnósticos do DSM-IV.
Foi realizada análise da consistência interna de escalas, estatística
descritiva, teste t-Student, teste ANOVA e teste do Qui-quadrado, tendo sido
considerados significativos os valores de p<0.05.

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RESULTADOS

O questionário foi distribuído a todos os alunos do 5º ano do Agrupamento


de Escolas Grão Vasco, no início ou fim do período de aulas, durante a
primeira quinzena do mês de Novembro (ano letivo 2018/2019). Do total de
341 alunos, responderam 164, correspondendo a uma taxa de resposta de
48.1%. A maioria da amostra (76%) tinha 10 anos, 14% tinha 9 anos, 9% tinha
11 anos e 1% tinha 12 anos (Tabela 1). Na amostra, 52% era do género
masculino e 48% do género feminino (Tabela 1).

Tabela 1
Caracterização da amostra
Frequência Percentagem (%)
Crianças Idade (anos) 09 022 013.4
10 125 076.2
11 015 009.1
12 002 001.2
Sexo Feminino 079 048.2
Masculino 085 051.8
Ano de escolaridade 5º 164 100.0
Pais Sexo Feminino 053 086.9
Masculino 008 013.1

Foram também distribuídos questionários aos pais das crianças anterior-


mente referidas, os quais responderam às questões no domicílio, tendo entregue
posteriormente ao professor correspondente. A amostra dos pais era constituída
por 67 elementos; em 87% dos casos foi a mãe a responder e nos restantes 13%
foi o pai (Tabela 2).

Tabela 2
Consistência interna das subescalas e total do SCARED-R: coeficientes alfa e
correlação média inter-item para a versão respondida pela criança (n=164) e
pelos pais (n=67)
Versão Criança Versão Progenitores
Itens α CMI α CMI
Perturbação de Pânico 13 0.861 0.335 0.869 0.370
Perturbação de Ansiedade Generalizada 09 0.737 0.239 0.674 0.194
Perturbação de Ansiedade de Separação 08 0.688 0.216 0.760 0.290
Fobia Social 07 0.794 0.334 0.706 0.262
Fobia à escola 04 0.424 0.164 0.299 0.112
Fobia específica 15 0.806 0.217 0.743 0.155
Perturbação Obsessivo-Compulsiva 09 0.634 0.157 0.662 0.161
Perturbação de Stress Pós-Traumático 04 0.623 0.299 0.521 0.224
Total 69 0.942 0.192 0.877 0.098

4
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A análise dos dados foi realizada com recurso ao SPSS versão 23.

Análise da consistência interna das escalas

Tanto na versão para as crianças como na versão para os pais, os questio-


nários são escalas ordinais do tipo Likert com três alternativas de resposta (de
“0” a “2”) entre “nunca ou quase nunca” e “frequentemente”. São constituídas
por 69 itens, os quais se organizam em oito dimensões.
Em ambas as versões, foi analisada a consistência interna através do valor
do Alfa de Cronbach, o qual é superior ao valor de 0,80 para a Escala Global,
pelo que podemos considerar que os itens de ambos os questionários medem de
forma adequada a dimensão global.

A perceção das crianças

Quanto à prevalência das perturbações de ansiedade na nossa amostra,


verificou-se que, de acordo com as respostas das crianças, 19% apresentava uma
perturbação de ansiedade. Segundo a opinião deste grupo, a dimensão mais
frequente foi a “Perturbação de Ansiedade Generalizada”, seguida da
“Perturbação Obsessiva-Compulsiva”, a “Fobia Específica” e a “Perturbação de
Ansiedade Social.
Segundo as respostas das crianças, a única dimensão que se correlacionou
com a idade foi a “Perturbação de Ansiedade Generalizada”, a qual se apresentou
superior para as idades 11/12 anos (p<0.01). As dimensões “Perturbação de
Pânico”, “Perturbação de Ansiedade de Separação”, “Fobia Social”, “Fobia à
escola”, “Perturbação Obsessivo-Compulsiva” e “Perturbação de Stress Pós-
Traumático” são superiores para as idades 11/12 anos e a dimensão “Fobia
específica” é superior para as idades 9/10 anos, mas as diferenças observadas
entre as idades não são estatisticamente significativas. De forma global, a
prevalência da ansiedade foi superior para as idades 11/12 anos e inferior para as
idades 9/10 anos; no entanto, as diferenças observadas não são estatisticamente
significativas, de acordo com o teste do Qui-quadrado (χ2(1)=0.013; p=0.908).
Relativamente ao sexo, e segundo as respostas das crianças, não se verificou
nenhuma associação estatisticamente significativa. Contudo, as dimensões
“Perturbação de Ansiedade Generalizada”, “Fobia Social” e “Fobia específica”
são superiores para o sexo feminino; o total da escala e as dimensões
“Perturbação de Pânico”, “Perturbação de Ansiedade de Separação”, “Fobia à
escola”, “Perturbação Obsessivo-Compulsiva” e “Perturbação de Stress Pós-

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-Traumático” foram superiores para o sexo masculino. Na amostra, a prevalência


de ansiedade é superior para o sexo masculino, mas as diferenças observadas não
são estatisticamente significativas, de acordo com o teste do Qui-quadrado
(χ2(1)=0,257; p=0,612).
Quanto à relação com as notas no 3º período do ano letivo anterior, e de
acordo com a perceção das crianças, verificou-se que o total da escala e as
dimensões “Perturbação de Ansiedade de Separação” e “Fobia à escola” são
superiores para a nota “Suficiente”, e que a dimensão “Perturbação de Pânico”
diminui com o aumento da nota, sendo as diferenças observadas entre as
categorias da nota estatisticamente significativas. Para as restantes dimensões,
não existem diferenças estatisticamente significativas entre as categorias das
notas no 3º período do ano anterior; no entanto, verificou-se que as dimensões
“Perturbação de Ansiedade Generalizada”, “Fobia Social” e “Perturbação de
Stress Pós-Traumático” diminuem com o aumento da nota, a dimensão “Fobia
específica” é superior para a nota “Suficiente” e inferior para a nota “Bom”, a
dimensão “Perturbação Obsessivo-Compulsiva” é superior para a nota
“Suficiente”. A prevalência de ansiedade é superior para a nota “Suficiente”,
sendo as diferenças observadas estatisticamente significativas, de acordo com o
teste do Qui-quadrado (χ2(2)=13.602; p=0.001).

A perceção dos pais

Quanto à prevalência das perturbações de ansiedade na nossa mostra e, de


acordo com as respostas dos pais, verificou-se que apenas 9% das crianças
apresentava perturbações de ansiedade. Segundo a opinião deste grupo, a
dimensão mais frequente foi “Perturbação de Ansiedade Generalizada” seguida
de “Fobia Específica”, “Perturbação de Ansiedade de Separação” e
“Perturbação Obsessiva-Compulsiva”.
De acordo com a perceção dos pais, verificou-se que não existia diferença
estatisticamente significativa entre a idade e a escala global e todas as dimensões.
No entanto, na amostra, o total da escala e as dimensões “Perturbação de Pânico”,
“Perturbação de Ansiedade Generalizada”, “Fobia Social”, “Fobia à escola”,
“Fobia específica”, “Perturbação Obsessivo-Compulsiva” e “Perturbação de
Stress Pós-Traumático” são superiores para as idades 11/12 anos e a dimensão
“Perturbação de Ansiedade de Separação” é superior para as idades 9/10 anos. Na
amostra, a prevalência de ansiedade é superior para as idades 11/12 anos e
inferior para as idades 9/10 anos, mas as diferenças observadas não são
estatisticamente significativas, de acordo com o teste do Qui-quadrado
(χ2(1)=1.416; p=0.234).

6
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Relativamente ao sexo, e segundo as respostas dos pais, a dimensão


“Perturbação de Pânico” é superior para o sexo masculino (p=0.034) e a
dimensão “Fobia específica” é superior para o sexo feminino (p=0.035), sendo as
diferenças entre os sexos estatisticamente significativas. Para a Escala Global e as
restantes dimensões, não existem diferenças estatisticamente significativas entre
os dois sexos; no entanto, o total da escala e as dimensões “Perturbação de
Ansiedade Generalizada”, “Perturbação de Ansiedade de Separação”, “Fobia à
escola”, “Perturbação Obsessivo-Compulsiva” e “Perturbação de Stress Pós-
Traumático” são superiores para o sexo masculino e a dimensão “Fobia Social”
era superior para o sexo feminino. A prevalência de ansiedade foi superior para o
sexo masculino, sendo as diferenças observadas estatisticamente significativas,
de acordo com o teste do Qui-quadrado (χ2(1)=4.387; p=0.036).
Quanto à relação com as notas do 3º período do ano letivo anterior, verificou-
-se que a dimensão “Fobia à escola” é inferior para a nota “Muito Bom”, sendo as
diferenças observadas entre as categorias da nota estatisticamente significativas
(p<0.01). Para a Escala Global e para as restantes dimensões, não existem
diferenças estatisticamente significativas; no entanto, verificou-se que o total da
escala é inferior para a nota “Muito Bom”, as dimensões “Perturbação de Pânico”
e “Perturbação de Stress Pós-Traumático” são superiores para a nota “Bom” e
inferiores para a nota “Suficiente”, a dimensão “Perturbação de Ansiedade
Generalizada” diminui com o aumento da nota, a dimensão “Perturbação de
Ansiedade de Separação” é inferior para a nota “Muito Bom”, a dimensão “Fobia
Social” aumenta com o aumento da nota, as dimensões “Fobia específica” e
“Perturbação Obsessivo-Compulsiva” são superiores para a nota “Bom” e
inferiores para a nota “Muito Bom”. Na amostra, a prevalência de ansiedade
apenas ocorre para a nota “Muito Bom”, mas as diferenças observadas não são
estatisticamente significativas, de acordo com o teste do Qui-quadrado
(χ2(2)=1.813; p=0.404).

Comparação entre a perceção das crianças e pais

Na amostra, a prevalência de ansiedade é superior de acordo com a


perceção das crianças (Tabelas 3 e 4), mas as diferenças observadas não são
estatisticamente significativas, como indica o teste do Qui-quadrado
(χ2(1)=2.871; p=0.090).
A Escala Global e as dimensões “Perturbação de Pânico”, “Fobia Social”,
“Perturbação Obsessivo-Compulsiva” e “Perturbação de Stress Pós-Traumático”
são superiores de acordo com a perceção das crianças, sendo as diferenças
observadas estatisticamente significativas (p<0.01) (Tabela 3). As restantes

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dimensões são superiores de acordo com a perceção das crianças, mas as


diferenças observadas entre as perceções de crianças e pais não são
estatisticamente significativas (Tabela 3).

Tabela 3
Estatística descritiva e teste t: Relação entre a escala SCARED-R e a perceção
das crianças e dos pais
N Média Desvio Padrão Teste t p
Perturbação de Pânico Crianças 153 05.38 04.778 4.012 **0.000
Pais 065 02.75 03.419
Perturbação de Ansiedade Generalizada Crianças 155 07.97 03.741 0.639 **0.524
Pais 066 07.64 02.975
Perturbação de Ansiedade de Separação Crianças 159 06.33 03.111 1.572 **0.117
Pais 064 05.59 03.342
Fobia Social Crianças 159 05.87 03.559 4.217 **0.000
Pais 066 03.85 02.476
Fobia Escolar Crianças 157 01.24 01.359 1.092 **0.276
Pais 067 01.03 01.114
Fobia Específica Crianças 147 07.90 05.503 0.504 **0.615
Pais 066 07.52 04.528
Perturbação Obsessivo-Compulsiva Crianças 155 07.91 03.159 7.584 **0.000
Pais 065 04.49 02.768
Perturbação de Stress Pós-Traumático Crianças 155 03.07 02.061 4.508 **0.000
Pais 064 01.81 01.332
Total Crianças 118 44.90 21.253 3.400 **0.001
Pais 057 34.49 12.999

Nota. ** p<0.01.

Tabela 4
Tabela de frequências: Relação entre a prevalência de ansiedade e a perceção
das crianças e pais
Prevalência de ansiedade
Sexo Sem perturbação de ansiedade Com perturbação de ansiedade
Feminino N 45 9
% 83.3% 16.7%
Masculino N 51 13
% 79.7% 20.3%

DISCUSSÃO

Quanto à prevalência das perturbações de ansiedade na nossa mostra,


verificou-se que, de acordo com as respostas das crianças, 19% apresentava
uma perturbação de ansiedade, o que vai de encontro com os resultados de

8
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outros estudos, que estimam que a prevalência de perturbações de ansiedade na


infância se encontre entre os 10 e 20%(8-12). No entanto, de acordo com as
respostas dos pais, apenas 9% das crianças apresentava perturbações de
ansiedade, o que demonstra, apesar do valor não ser estatisticamente
significativo, que os progenitores não têm uma perceção real da sintomatologia
ansiosa dos seus filhos, indo de encontro aos resultados de outros estudos(13-16).
A dimensão mais frequente foi a “Perturbação de Ansiedade Generalizada”,
tanto na opinião das crianças como dos seus pais. Embora por ordem diferente,
tanto as crianças como os pais consideram as mesmas dimensões como as mais
frequentes, logo de seguida à “Perturbação de Ansiedade Generalizada”: a
“Perturbação Obsessiva-Compulsiva”, a “Fobia Específica” e a “Perturbação de
Ansiedade Social”.
Quanto a possíveis fatores associados a dimensões de ansiedade, avaliou-se
a relação com a idade, o sexo e o desempenho escolar destas crianças. Quanto à
idade, é importante sublinhar que da amostra apenas faziam parte crianças dos
9 aos 12 anos, pelo que a diferença de idades não era significativa e,
consequentemente, verificou-se também não haver nenhum destaque relevante
quanto à associação da ansiedade com a idade (à exceção da Perturbação da
ansiedade generalizada, na perceção das crianças).
No entanto, segundo a literatura, sabe-se que há perturbações mais
prevalentes em determinadas idades, como a Perturbação de Pânico na
adolescência ou a Perturbação de Ansiedade de Separação em crianças mais
pequenas(17).
Quanto ao sexo, apesar de o esperado segundo os resultados das investi-
gações que têm sido feitas ser uma maior prevalência de perturbações da
ansiedade no sexo feminino(11,18-19), na nossa amostra, e segundo as respostas das
crianças, não se verificou nenhuma associação estatisticamente significativa. No
entanto, houve já alguns estudos em que também não se verificou nenhuma
associação(20). Por outro lado, é de sublinhar que, tanto segundo as respostas das
crianças, como segundo a perceção dos pais, verificou-se o predomínio do sexo
masculino para as várias dimensões avaliadas. Estes dados são de extrema
importância, refletindo a necessidade de uma maior atenção para crianças do sexo
masculino com problemas associados a ansiedade, que podem passar desperce-
bidos, não serem diagnosticados devidamente e, consequentemente, terem
implicações em todos os domínios da sua vida, quer a curto, quer a longo prazo.
Em relação ao desempenho escolar, os estudos têm demonstrado que parece
existir uma relação inversa entre os níveis de ansiedade em crianças e o seu
desempenho escolar(20-21). Resultados semelhantes verificaram-se na nossa
amostra, em que, segundo a perceção das crianças, se verificou que o total da

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escala e as várias dimensões avaliadas tendem a ser inferiores com o aumento


das notas. No entanto, os pais têm a perceção de que a ansiedade pode estar
mais presente em crianças com melhores notas escolares, tendo-se verificado
que a prevalência de ansiedade apenas ocorre para a nota “Muito Bom”.
Embora segundo a perceção dos pais existam algumas dimensões relacionadas
de forma inversa com as notas escolares, verificou-se que as dimensões
“Perturbação de Pânico” e “Perturbação de Stress Pós-Traumático” foram
superiores para a nota “Bom” e inferiores para a nota “Suficiente”, e que a
dimensão “Fobia Social” aumenta com o aumento da nota. Desta forma, será de
salientar que ambos os extremos do desempenho escolar podem ser
desencadeadores de ansiedade, quer pela vontade de manutenção do
desempenho de alta qualidade, como pelo possível sofrimento associado a não
corresponder às expectativas que podem estar a ser colocadas a cada criança; da
mesma forma, a perceção dos pais relativamente a estas situações, poderá ser
influenciada quer pelos seus próprios objetivos como pela sua perceção
subjetiva do sofrimento sentido pelos seus filhos.
De forma geral, comparando a perceção das crianças e dos seus pais,
verificou-se que as crianças referem níveis de ansiedade superiores àqueles
percecionados pelos seus pais, indo de encontro ao resultado de outros
estudos(16). Pode-se colocar a hipótese deste facto ocorrer pela dificuldade destes
cuidadores em lerem os sinais dos seus filhos ou, por outro lado, pelo maior
tempo ausente, cada vez mais característico da sociedade atual. Segundo dados de
2018 da Children’s Mental Health Report(22), em algum momento, a ansiedade
afeta 30% das crianças e adolescentes, mas 80% nunca recebem ajuda, o que
pode advir da falta de reconhecimento destes sintomas pelos seus familiares e
estes só serem reconhecidos mais tarde, aumentando o risco de depressão e
fracasso no desempenho escolar(13-16). No entanto, é importante enfatizar que esta
discrepância de perceções não implica necessariamente que um grupo seja mais
preciso do que outro, mas simplesmente que as informações são baseadas em
perspetivas diferentes e que a obtenção de informação dos sintomas através de
várias fontes pode permitir uma avaliação mais abrangente, completa e precisa do
funcionamento emocional e comportamental da criança(13-16).

LIMITAÇÕES

As conclusões relativas às perceções das crianças e respetivos pais devem ser


interpretadas com algum cuidado uma vez que a amostra não é suficiente para ser

10
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considerada representativa de ambos os grupos. No entanto, consideramos que


esta investigação é válida, como estudo piloto que pretende ser, podendo dar-nos
informações importantes da realidade da população em estudo. Devemos ainda
admitir que, sendo os elementos inquiridos sobre temas potencialmente sensíveis,
com questões associadas a pensamentos, emoções e comportamentos, os
resultados podem englobar respostas não totalmente fiáveis.

CONCLUSÃO

Embora as perturbações de ansiedade tenham uma elevada prevalência na


infância, muitas vezes os seus cuidadores não reconhecem estes sintomas,
levando a que muitas vezes não haja acompanhamento adequado e atempado,
contribuindo assim para um maior risco de compromisso funcional a curto e
longo prazo, quer a nível académico, familiar ou socioemocional.

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ABSTRACT

Anxiety disorders are one of the most common psychiatric conditions of


childhood and adolescence, which leads to a reduction on the child’s overall
academic, family and social functioning, as well as an increased risk for life-long
comorbid psychiatric disorders. The aim of the present study was to compare the
perception of children and their parents regarding the prevalence of anxiety
disorders and possible associated factors. Our study involved all students of the 5th
year of the Grão Vasco School Group and their parents. Each group completed the
the SCARED-R questionnaires, version for children and version for parents,
respectively. Analysis of the internal consistency of scales, descriptive statistics,
Student’s t-test, ANOVA test and Chi-square test were performed, with p<0.05
being considered significant. In general, children reported anxiety levels higher
than those perceived by their parents, with a prevalence of 19% according to the
children’s responses, but only 9% according to the parents’ perception. Overall,
there were no significant differences regarding age, gender or level of school
performance, although there seems to be a predominance for males and an inverse
relationship between children anxiety levels and their school performance. Thus,
psychoeducational measures aimed at increasing caregivers’ recognition of these
conditions are needed to promptly establish appropriate treatment and reduce the
associated functional impairment in short and long term.

Key words: Anxiety, Children, Parents.

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