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ARTIGO

O artigo analisa como o colonialismo francês impôs a violência do racismo aos argelinos, destacando a interconexão entre racismo, imperialismo e capitalismo. Utilizando as obras de Frantz Fanon, o texto explora as consequências psicológicas da opressão colonial e a luta pela emancipação dos colonizados. A reflexão final enfatiza a necessidade de um combate coletivo ao racismo e à violência imperialista para alcançar uma verdadeira democracia.
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O artigo analisa como o colonialismo francês impôs a violência do racismo aos argelinos, destacando a interconexão entre racismo, imperialismo e capitalismo. Utilizando as obras de Frantz Fanon, o texto explora as consequências psicológicas da opressão colonial e a luta pela emancipação dos colonizados. A reflexão final enfatiza a necessidade de um combate coletivo ao racismo e à violência imperialista para alcançar uma verdadeira democracia.
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UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS - CCH

Disciplina: Contemporânea II
Docente: Thaiz Carvalho Senna
Discente: Pedro Henrique Ferreira de Almeida
Matrícula: 20221313011

França e Argélia: a colonização das subjetividades para Frantz Fanon

Resumo:

No seguinte artigo, busco explorar como o colonialismo francês colocou no dia-a-dia dos
argelinos a violência do racismo. A intenção é abordar como o racismo é um pilar
indissociável do imperialismo e do capitalismo, e como as lutas anti-racistas são,
essencialmente, enfrentamentos contra a violência do capital, principalmente em suas
periferias. Para tal, utilizei como fonte o livro “Em defesa da Revolução Africana”, de Frantz
Fanon, médico que trabalhou na Argélia Francesa e acompanhou de perto os impactos
psicológicos da realidade colonial nos marginalizados. Finalmente, explícito os paralelos
entre a expressão racista na Argélia e outras que se consolidaram na história, e como a
responsabilidade direta do capital nesse processo.

Introdução:

Em 1830, a França iniciou a ocupação direta do território Argelino, estabelecendo ali uma
colônia. Os motivos que levaram a isso são diversos, assim como as justificativas oficiais. O
discurso de “tutelar” as “raças inferiores” em direção a civilização, tudo isso em nome do
progresso, são retóricas conhecidas por todos aqueles que já tiveram contato com leituras
acerca do tema imperialista. Por trás dessas afirmações, a necessidade real de se estabelecer
colônias pelo mundo é resultado do Estado capitalista na Europa de então, que precisa agora
de novos territórios dos quais extrair matéria prima, estabelecer mercados consumidores e
garantir a exploração de mão de obra barata. Assim se deu a divisão do mundo africano e
asiático entre as principais potências europeias na Conferência de Berlim (1884), das quais a
França saiu com uma expressiva quantidade de territórios.
A Argélia, então, está inserida nesse contexto. Com um aparato colonial que visava
substituir a então sociedade local por outra “civilizada”, as transformações experienciadas
pelos nativos se deram em diferentes campos e com uma violência assustadora. Expropriados
de suas terras, com direitos civis e sociais suspensos, com estatutos e leis que os aprisionaram
na marginalidade, talvez a grande aposta tenha sido a de convencer os argelinos de sua
própria inferioridade, e assim reconstruir na subjetividade deles os padrões de opressão.
Nesse sentido, na altura da Revolução que libertaria esse país, uma importante figura surge
em Frantz Fanon, que através de sua experiência elabora importantes reflexões sobre a
subjetividade do sujeito colonizado.

Fanon, um argelino por escolha

Nascido em 1925 na colônia francesa da Martinica, Frantz Fanon é filho de uma família de
classe média negra, radicado em um contexto de forte violência racial e colonial, que o
marcaria por toda a sua vida. Formou-se médico psiquiatra em Lyon e trabalhou em hospitais
na Argélia, onde primeiro entrou em contato com as consequências subjetivas do
imperialismo naquele país. Deixou diversos escritos acerca da Revolução Argelina, da qual
participou, da condição do sujeito colonizado, do racismo institucional e sobre a emancipação
total do indivíduo das amarras imperialistas. É em seu livro “Em defesa da Revolução
Africana” publicado postumamente em 1964, que encontram-se uma série de artigos e cartas
importantes do autor que ajudam na percepção e na importância acerca das consequências
psicológicas da subalternização.
Em contato com a realidade argelina, Fanon abraça a causa e se junta-se a FNL (Frente de
Libertação Nacional), principal agente revolucionário. Nesse período, o autor escreve
diversos artigos e participa de um esforço da organização de criar uma propaganda que
atraísse o apoio internacional para a independência, principalmente em votações na ONU. É
aí que, fazendo uso da experiência que teve como psiquiatra, ele elabora reflexões sobre a
condição do colonizado.

O colonialismo da subjetividade

No capítulo que abre a coletânea, Fanon começa abordando os sintomas que diversos
argelinos apresentavam nos hospitais mas os quais não resultavam na identificação de uma
patologia definida. O fenômeno em si, já conhecido pelos especialistas, levava-os a crer que
este era apenas uma manifestação da preguiça “natural” dos argelinos. Como aponta o
próprio autor, em tom de ironia:

“A dor do Norte-Africano, para o qual não encontramos uma base lesional, é


tida como inconsistente, como irreal. Ora, o Norte-Africano é aquele que
não-gosta-do-trabalho. De maneira que todo o seu procedimento será
interpretado a partir deste a priori” (FANON, 1964, p.10)

O depoimento que reproduz de forma jocosa constatações formais de médicos inseridos na


dinâmica de violência colonial revela realidades concisas e aponta interessantes perguntas.
Como explorado por Said em seu livro “O Orientalismo”, os árabes sempre foram tidos como
indignos de confiança, traiçoeiros, e a constatação prática dessa ideologia faz-se presente no
campo médico da Argélia francesa. Como apontado por diversos autores, incluindo o Fanon,
esses sintomas eram causados pelos estresses cotidianos dos argelinos mas, como a medicina
branca não conseguia abarcar os reflexos psicológicos da opressão, descartavam a veracidade
deles. Para Fanon, aqui também está uma evidência de um de seus principais argumentos.
Esse descrédito, o pouco caso com os quais eram tratados os pacientes não brancos, deriva
diretamente do racismo estrutural do aparato colonizador, que ao entender o nativo como
inferior, o designava tratamentos inferiores.
Como um homem negro, oriundo de uma sociedade também marcada pelo racismo, ele é
capaz de olhar para além do mero descaso rotineiro, e estudar melhor a realidade. Atento,
então, às práticas dos argelinos, Fanon nota um padrão de comportamento que demonstra o
quão profundo é o processo colonialista, e quão enraizadas podem ser suas marcas. Com a
publicação, em 1952, de “Pele Negra, Máscaras Brancas”, o termo síndrome norte-africana
aparece. Com esse conceito, ele abarca a série de padrões de comportamentos que se
apresentam quando o colonialismo alcança um de seus objetivos mais nefastos, o de fazer o
colonizado acreditar em sua inferioridade. Em suas palavras:

“Culpabilidade e inferioridade são as consequências habituais desta dialética.


O oprimido tenta, então, escapar-lhes, por um lado, proclamando a sua
adesão total e incondicional aos novos modelos culturais e, por outro lado,
proferindo uma condenação irreversível do seu estilo cultural” (FANON,
1964, p.43)
Outro importante ponto dessa interiorização do racismo é o advento de uma das figuras
mais contraditórias, o racializado racista. Vestido de sua máscara branca, que não é capaz de
apagar o estigma da pele, esses indivíduos reproduzem essa dinâmica, de forma passiva ou
ativa, contra outros indivíduos semelhantes na opressão, num movimento de tentar se tornar
parte do grupo que se beneficia dessa expressão. A máxima de Paulo Freire, “quando a
educação não é libertadora, o sonho do oprimido é se tornar o opressor”, faz-se sentir aqui
com especial sensibilidade. Esse dado também estava presente no cotidiano do autor:

“Ainda hoje, em 1952, acontece de ouvirmos um martiniquenho dizer que


eles (os Guadalupenses) são mais selvagens que nós” (FANON, 1964, p.25)

Como um pressuposto do imperialismo, o racismo é então um dos muitos sintomas da


incapacidade de uma sociedade capitalista de prover uma realidade plena de democracia e
acesso aos direitos civis e sociais. Como afirma o autor em uma carta ao Governador-Geral
da Argélia, “ uma sociedade que encurrala os seus membros em soluções desesperadas é uma
sociedade inviável, uma sociedade a se substituir” (FANON, 1964, p.59). Daí o forte
empenho do autor em combater e incentivar a violência armada contra o regime, para dar
início a um processo de emancipação, assim como de diversos outros contemporâneos dele.
Esses indivíduos, ao perceberem que não há democracia se não estamos todos livres das
amarras coloniais, alguns indo até mais longe afirmando que não há verdadeira democracia
sob o capital, que lançam-se no combate direto. Esse sentimento é expresso, por exemplo,
quando ele afirma que:
“A independência da Argélia não é apenas fim do colonialismo, mas
desaparecimento nesta parte do Mundo, de um gérmen de gangrena e de uma
forte epidemia.” (FANON, 1964, p. 71)

Considerações e Reflexões finais:

O que busquei neste artigo foi, de forma muito breve, apontar para uma face da realidade
colonial por muitos esquecida, mas que é fartamente analisada por Fanon, brilhante em sua
percepção acerca e que uma verdadeira superação do colonialismo só acontece quando os
indivíduos podem ser libertados do racismo que eles interiorizaram. A Argélia é um dos
muitos casos onde o colonialismo devastou as sociedades locais em busca de lucros e
riquezas a serem concentradas na metrópole, e fazendo com que isso fosse naturalizado,
como se fosse um dever divino deles, e que os colonizados deviam gratidão, o ethos do fardo
do homem branco.
Acredito que a mais importante reflexão que podemos fazer é a de que, enquanto cidadãos,
a luta por uma verdadeira democracia deve ser organizada e articulada por todos aqueles que
sofrem com a realidade imperialista e seu legado. Como Fanon explicita:

“O racismo não é, pois, uma constante do espírito humano. É, vimo-lo, uma


disposição inscrita num sistema determinado. E o racismo judeu não é
diferente do racismo negro. Uma sociedade é racista ou não o é. Não existem
graus de racismo. Não se deve dizer que tal país é racista, mas que não há
nele linchamentos ou campos de extermínio. A verdade é que tudo isso, e
muito mais, existe como horizonte” (FANON, 1964, p.45)

O anti-racismo, uma das muitas frentes deste combate, vive e segue atuante. Seja através
de correntes mais radicais ou mais humanistas, com o próprio Said, esse exercício é um dos
muitos que nos possibilita começar a edificar um mundo onde a violência racial não seja uma
realidade e genocídios não sejam horizontes possíveis. Fanon é um marco no combate ao
imperialismo por dedicar sua vida a esse propósito, jornada que o levou a uma missão pela
América Latina, onde muitos setores se sensibilizaram e se identificaram com as dores
argelinas, por viverem, também, consequências diversas da violência racial.

Bibliografia:

FANON, Frantz. Em defesa da Revolução Africana. Portugal: Sá de Costa, 1980.

FANON, Frantz. Pele Negra, Máscara Branca. Tradução de Sebastião Nascimento e


colaboração de Raquel Camargo; Prefácio de Grada Kilomba; Posfácio de Deivison Faustino;
Textos Complementares de Francis Jeanson e Paul Gilroy. São Paulo: Ubu Editora, 2020.

FERRO, Marc. História das Colonizações: Das conquistas às independências. Século XVIII a
XX. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

LIPPOLD, Walter. O pensamento anticolonial de Frantz Fanon é a Guerra de Independência


da Argélia.
PINTO, Cadidja. “A Libertação do Território Nacional Argelino inaugura o reino
incondicional da Justiça”: A revolução Argelina em Frantz Fanon (1950-1960). História do
Tempo Presente, Florianópolis, 2021

SAID, Edward. O Orientalismo: O Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo:


Companhia da Letras, 2007.

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