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Rafael Souza Moreno1, Renato Nabas Ventura2, José Roberto da Silva Brêtas3
1
Especialista em Enfermagem em Nefrologia. Enfermeiro do Hospital São Paulo da Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo. Membro
do Grupo de Estudos sobre Corporalidade e Promoção da Saúde. São Paulo, SP, [Link]@[Link] 2 Médico do Departamento de Pediatria
da Universidade Federal de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil. rnabas@[Link] 3 Enfermeiro. Psicólogo. Professor Adjunto do Departamento de Enferma-
gem da Universidade Federal de São Paulo. Líder do Grupo de Estudos Sobre Corporalidade e Promoção da Saúde. São Paulo, SP, Brasil. jrbretas@[Link]
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Português
O uso de álcool e tabaco / Inglês
por adolescentes Recebido: 02/12/2008 Rev Esc Enferm USP
[Link]/reeusp
do município de Embu, São Paulo, Brasil Aprovado: 04/03/2010 2010; 44(4):969-77
Moreno RS, Ventura RN, Brêtas JRS [Link]/reeusp/
INTRODUÇÃO traz como principais causas: ambiente familiar propício(1,3-4)
ou pais liberais(3), baixos preços dos cigarros(6), disponibili-
O uso indiscriminado de drogas pela população mundial dade física (bares, restaurantes, padarias)(7), influência gru-
tem sido tratado na atualidade como um grave problema de pal(8) e propagandas publicitárias(3).
saúde pública, por atingir tanto homens como mulheres, de Desta maneira, quando citamos os adolescentes como
qualquer faixa etária, classe econômica e social(1). grupo de maior risco associado ao uso e iniciação às dro-
Em relação ao consumo de tabaco pela população mun- gas, torna-se necessário elucidar que este vivencia um
dial, estima-se que haja, atualmente no mundo, aproxima- momento existencial totalmente diferente, devido às mu-
damente um bilhão e 200 milhões de fumantes ativos, dos danças referentes ao processo natural do desenvolvimen-
quais 960 milhões são dependentes da nicotina. Diante to, que passa do corpo infantil para o adulto, sendo que, a
dessa pandemia que se instala na sociedade moderna, caso partir de então, o mais importante é ser popular e ter a
o padrão vigente do consumo de tabaco continue, em 2010 sensação de se encaixar em algo, buscando adaptar-se a
as projeções estatísticas apontam para o surgimento de 400 um grupo de iguais, característica que pode representar
milhões de novos tabagistas(2). maior tendência do jovem à iniciação do uso do álcool e/
ou tabaco, sem que estes considerem a possibilidade de
A ingestão de álcool faz-se ainda mais alarmante, em danos ao próprio corpo(9).
que mais de 80% da população mundial adulta utiliza ou já
experimentou algum tipo de bebida alcoólica, sendo que Tais danos podem refletir posteriormente em futuros
apenas cerca de 20% delas podem ser consideradas com- dependentes químicos, que sofreram manifestações que
pletamente abstêmias(3). comprometem a saúde. No caso da ingestão excessiva de
álcool são possíveis conseqüências: a perda de memória,
No Brasil, dados referentes ao I Levantamento Domicili- demência alcoólica, hepatite, pancreatite, infarto, arritmia,
ar de 2001, no qual se entrevistou 41,3% da trombose e cardiomiopatia alcoólica(3), haven-
população nacional, verificou-se que 11,2% do, durante a adolescência, diminuição do
destes eram dependentes de álcool e 9% de ...o álcool e o tabaco rendimento escolar(10) e acidentes de carro en-
(11)
tabaco(1). Além dessa prevalência, constatou- são as drogas que volvendo jovens alcoolizados .
se que o uso cotidiano do tabaco correspon-
dia a 41,1% dentre os brasileiros, enquanto têm início mais Em relação ao tabaco, os riscos à saúde
que o de bebidas alcoólicas foi de 68,7%(1). No precoce entre os relacionam-se aos cânceres de pulmões, de
II Levantamento Domiciliar de 2005 o uso co- adolescentes e boca, garganta e esôfago, além da ateroscle-
tidiano de álcool aumentou para 74,6% e o de jovens, em torno de rose, angiogênese, desordens neurogênicas,
tabaco para 44% na população entrevistada . (4) podendo haver, ainda, impotência sexual nos
12,5 e 12,8 anos homens, menopausa precoce e osteoporose
O envolvimento tanto com drogas lícitas respectivamente. nas mulheres(2).
como ilícitas na fase da adolescência, é algo
extremamente relevante enquanto tema para Neste contexto, desenvolvemos no mu-
discussão, pois vários estudos demonstram que é durante nicípio do Embu, local onde a Universidade Federal de São
esse período do desenvolvimento que os adolescentes e jo- Paulo (UNIFESP) atua desde 1970 no sistema local de saú-
vens apresentam-se mais suscetíveis a terem o primeiro con- de, por meio do Programa de Integração Docente-Assis-
tato, principalmente com as drogas tidas como lícitas, das tencial do Embu (PIDA-Embu), com representação no con-
quais se destacam por sua prevalência o álcool e o tabaco .(5) selho Municipal de Saúde e parcerias com a comunidade,
um Projeto de Extensão Universitário denominado Cor-
De acordo com o último levantamento realizado pelo poralidade e Promoção da Saúde nas regiões de Santo
Centro Brasileiro de Informação sobre Drogas Psicotrópi- Eduardo e Santa Emília, município do Embu, realizando
cas (CEBBRID) entre estudantes do ensino fundamental e atividades de Educação para Saúde junto aos adolescen-
médio de 27 capitais brasileiras, o álcool e o tabaco são as tes que freqüentam quatro escolas públicas de ensino fun-
drogas que têm início mais precoce entre os adolescentes damental e médio.
e jovens, em torno de 12,5 e 12,8 anos respectivamente.
Além disso, a mesma pesquisa comparou os dados com os OBJETIVOS
últimos levantamentos (1987, 1989, 1993 e 1997), consta-
tando que o uso cotidiano de álcool não aumentou, man-
tendo semelhança com os demais estudos; entretanto, em O presente estudo teve por objetivos caracterizar a po-
relação ao uso cotidiano pelos adolescentes, de tabaco, pulação estudada; identificar a freqüência do uso de dro-
houve um aumento do consumo . (5) gas lícitas (álcool e tabaco) entre adolescentes que estu-
dam em escolas estaduais de um município de São Paulo,
Em relação à facilidade na obtenção e consumo, pelos tendo como principal meta à prevenção do uso dessas subs-
jovens, de bebidas alcoólicas e do tabaco, a literatura atual tâncias e a promoção da saúde do escolar.
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MÉTODO tir dos questionários foram inseridas em bancos de dados
utilizando o programa Excel (Windows X-P/2000), numera-
dos e separados por escola e escolaridade, criando-se ban-
Tipo de estudo
cos de dados específicos para cada instituição pesquisada,
Trata-se de uma pesquisa do tipo descritiva, pois pro- podendo, assim, após uma revisão minuciosa, englobá-los
move um delineamento da realidade, uma vez que através num banco geral. Aplicou-se o Teste de Pearson e nos ca-
desta pode-se descrever, registrar, analisar e interpretar a sos em que este não se mostrasse adequado foi utilizado o
natureza atual ou processos dos fenômenos(12). Teste da Razão de Verossimilhança, com um nível de
significância de 5%, realizados por meio do SPS 12.0 for
Procedimento ético Windows. Calculou-se a mediana, a média de idade e des-
vio padrão da população; em relação às drogas lícitas: a
O projeto deste estudo foi avaliado e aprovado pelo média, desvio padrão e idade mínima e máxima do primei-
Comitê de Ética da UNIFESP, com o nº 1398/05. ro uso do álcool e do tabaco, além da aplicação do interva-
lo de confiança de 95%.
População e local do estudo
A população deste estudo foi constituída por um total RESULTADOS
de 1541 adolescentes, que preencheram os seguintes cri-
térios de inclusão: serem de ambos os sexos, dentro da fai- A população retratada nesta pesquisa revelou que dos
xa etária entre os 10 e 20 anos, matriculados e freqüentan- 1533 adolescentes estudados, 799 (52,1%) eram do sexo
do regularmente as 6ª, 7ª, 8ª séries do ensino fundamen- masculino e 734 (47,8%) do sexo feminino. A média de ida-
tal ou 1º, 2º, 3º anos do ensino médio das escolas estadu- de da população foi de 14,45 anos (s= 1,73) / (IC95%: 14,5-
ais, situadas na região de Santo Eduardo e Santa Emília, no 14,3) e mediana 14,9 anos, sendo que em relação ao sexo
município de Embu, no período matutino e que aceitaram masculino e feminino caracterizam-se respectivamente por
participar das atividades do projeto de Extensão Universi- 14,5 anos (s= 1,76) / (IC95%: 14,3-14,6) e 14,4 anos (s=1,70)
tária Corporalidade e Promoção. Vale ressaltar que oito / (IC95%: 14,5-14,2).
questionários foram excluídos do estudo devido ao não
cumprimento dos critérios estabelecidos, resultando em Quanto aos comportamentos relacionados à saúde
uma população total de 1533 adolescentes. perante o uso das drogas lícitas (álcool e tabaco), a média
de idade de iniciação às bebidas alcoólicas foi 12,1 anos
Instrumento e coleta de dados (s=1,9) / (IC95%: 12,24-12,01); em relação ao tabaco essa
média foi de 12,6 anos (s=1,5) / (IC95%: 12,98-12,30),
Para a realização da coleta dos dados foi elaborado um apresentando, ainda, como idade mínima e máxima, res-
questionário semi-estruturado e auto-aplicável, contendo pectivamente 3 e 20 anos para o álcool e 9 e 16 anos para
questões acerca da problemática abordada. Para testar a o tabaco.
sua aplicabilidade entre os adolescentes, realizou-se pri-
meiramente um pré-teste, em uma das escolas, com 48 alu- Os dados sócio-demográficos retrataram que a maioria
nos, sendo que após as necessárias correções, obteve-se dos adolescentes pesquisados encontrava-se na faixa etária
um questionário final com 25 questões, contendo as variá- entre os 14 e 16 anos (49,6%), solteiros (98%), matricula-
veis: sexo, idade, escolaridade, estado civil, religião, uso de dos regularmente na 8º série do ensino fundamental
drogas lícitas (álcool e tabaco), hábitos referentes ao uso (41,9%) e predominantemente católicos (53,4%) (Tabela 1).
de bebidas alcoólicas (freqüência, quantidade de ingestão
e bebidas de preferência), além dos transtornos advindos Ao estratificar-se pelo sexo, observou-se uma freqüên-
da ingestão alcoólica; o qual foi distribuído em sala de aula, cia maior de meninas na faixa etária entre os 12 e 14 anos,
ao final do 2º semestre de 2006 e início do 1º semestre de enquanto que, entre os 14 e 16 anos uma predominân-
2007, nos dias em que os alunos desenvolveriam as ativi- cia do sexo masculino (p< 0,05). Ao analisarmos a variá-
dades propostas pelo conteúdo programático do grupo de vel escolaridade e estado civil, observamos que a distri-
Extensão, sob a supervisão dos pesquisadores, sendo que buição, tanto de meninos como de meninas apresenta-
todos os alunos presentes concordaram em participar da va-se semelhantemente (p=0,204) e (p=0,383) respecti-
pesquisa. vamente. Em relação a religião, estratificando pelo sexo
a população, desvelou-se associação estatisticamente sig-
Análise dos dados nificante (p < 0,001), na categoria Ateu, onde foi obser-
vada uma maior porcentagem de indivíduos do sexo mas-
Os dados deste estudo foram apresentados em um con- culino sem religião, quando comparado com a das meni-
texto quantitativo, em que as informações coletadas a par- nas (Tabela 1).
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Tabela 1 - Freqüência absoluta e relativa de adolescentes de acordo com as características sócio-demográficas (faixa etária, escolarida-
de, estado civil e religião), segundo o sexo - Embu, SP - Brasil - 2006-2007
Escolaridade 0,204
6º série 57 7,1 54 7,3 111 7,2
7º série 217 27,2 195 26,6 412 26,9
8º série 341 42,7 301 41 642 41,9
1º ano 91 11,4 89 12,1 180 11,7
2º ano 48 6 32 4,4 80 5,2
3º ano 45 5,6 63 8,6 108 7, 1
O uso de drogas lícitas (álcool e tabaco) revelou que 58,3% já fizeram uso de bebidas alcoólicas, apresentando
4,8% são fumantes, não havendo correlação estatística as meninas (61,6%) uma freqüência maior de exposição ao
entre os sexos (p=0,117), sendo que em relação ao álcool uso (p=0,0013) (Tabela 2).
Tabela 2 - Distribuição da população do estudo, segundo o sexo e uso de drogas lícitas (álcool e tabaco) - Embu, SP - Brasil - 2006-2007
Masculino Feminino Total
Variáveis Valor p
F(799) Fr(100%) F(734) Fr(100%) F(1533) Fr(100%)
Fumante 0,117
Sim 32 4 42 5,7 74 4,8
Não 767 96 692 94,3 1459 95,2
Já fez uso de álcool 0,0013
Sim 442 55,3 452 61,6 894 58,3
Não 357 44,7 282 38,4 639 41,7
Em relação à quantidade de tabaco ingerida diariamente Desta maneira ao se estabelecer um paralelo de com-
entre os adolescentes fumantes, observou-se que 57,1% paração entre as faixas etárias opostas da população te-
das meninas e 43,7% dos meninos consumiam até um 1 mos que 75% dos indivíduos acima dos 20 anos já experi-
maço de cigarro/dia (p= 0,635). mentaram bebidas alcoólicas, prevalência 1,8 vez maior que
O uso de álcool pelos adolescentes mostrou correlação a observada entre os adolescentes de 10 e 12 anos. A mes-
significativa com as variáveis: faixa etária e escolaridade. ma tendência ocorreu com o uso de álcool e a escolarida-
Verificou-se que, quanto maior a faixa etária e/ou a escola- de, em que 69,5% dos alunos do 3º colegial apresentaram
ridade do adolescente, maior é a freqüência daqueles que esse comportamento, freqüência 1,57 vez maior, se com-
já fizeram uso de bebidas alcoólicas. parada com os alunos da 6º serie do ensino fundamental.
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O estudo também buscou investigar o consumo de ál- Quanto ao uso de álcool nos últimos 12 meses, não se
cool segundo a religião, na qual se pode observar um me- verificou alteração, quanto ao consumo de bebidas alcoó-
nor uso entre os estudantes pertencentes a grupos religio- licas entre os adolescentes de ambos os sexos. (p=0,829)
sos mais conservadores, como os Evangélicos (43,9%). (Tabela 3).
Tabela 3 - Distribuição percentual e absoluta de adolescentes que fizeram uso de bebidas alcoólicas nos últimos 12 meses, segundo o
sexo - Embu, SP - Brasil - 2006-2007
Em relação à Tabela 4, esta demonstra que 88% dos indi- das meninas (p=0,456). Característica esta também obser-
víduos relataram beber de vez em quando, não havendo dis- vada quando analisada a quantidade de álcool ingerida, tida
tinção significativa entre o hábito etílico dos meninos e o como sendo em pouca quantidade (p=0,368).
Tabela 4 - Distribuição percentual e absoluta de adolescentes de acordo com os hábitos referentes ao uso de bebidas alcoólicas nos
últimos 12 meses, segundo o sexo - Embu, SP - Brasil - 2006-2007
Dentre as bebidas relatadas pelos adolescentes, 51,5% 13% cerveja. A maioria dos indivíduos do sexo masculino
deles tem o vinho como bebida de preferência para o con- também toma vinho e cerveja. Entretanto, as meninas con-
sumo, seguido da cerveja (18,8%). Ao comparar a prefe- somem mais vinho, apresentando uma freqüência de
rência entre os sexos, verificou-se correlação estatistica- 57,1%. Em relação ao consumo de cerveja nota-se uma
mente significante (p< 0,001), na qual mais da metade prevalência maior de ingestão entre os meninos (24,8%)
dos indivíduos do sexo feminino tomam vinho e quase (Tabela 4).
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A Tabela 5 retrata que os transtornos mais freqüentes mos 12 meses foram: o mal-estar-físico (51,1%), seguido
sofridos pelos adolescentes após o uso de álcool nos últi- das brigas (20,6%) e de acidentes em geral (9,9%).
Tabela 5 - Distribuição absoluta e percentual dos tipos de transtornos relatados por adolescentes que sofreram algum agravo após a
ingestão de bebida alcoólica nos últimos 12 meses, segundo o sexo - Embu, SP - Brasil - 2006-2007
Ao analisar as situações em que os adolescentes costu- metropolitana de São Paulo, de médio porte (218.535 mil
mam beber, encontrou-se uma freqüência maior em co- habitantes), que possui em torno de 40% da sua popula-
memorações festivas (72,3%), sendo que 5,2% relataram ção com menos de 20 anos de idade. É uma área bastante
possuir esse costume junto aos seus familiares, 3,9% com afetada pelos altos índices de desemprego, pela violência e
os seus amigos, 1,7% em casa e 0,9% quando apresentam pela exclusão social, que se reflete nos elevados índices de
alteração de humor. mortalidade por causas externas, sobretudo homicídios,
entre os adolescentes e adultos jovens.
Em relação aos fatores citados pela população entrevista-
da como responsáveis por influenciá-los na sua decisão em Como detalhado na justificativa, os adolescentes pos-
beber destacou-se a vontade própria (30,7%) e à curiosidade suem um alto risco de envolver-se com as drogas lícitas,
em experimentar bebidas alcoólicas (20,9%). Neste item, ain- das quais se destaca pela sua prevalência o álcool, que pos-
da foram relatados: a influência dos amigos (11,8%), o ambi- sui atualmente a menor faixa etária de experimentação
ente familiar (5,5%), ficar desinibido (3,6%), sede (0,9%), o entre adolescentes e jovens, seguido pelo tabaco.
estresse (0,3%) e apenas 0,2% por influência da mídia.
O uso de tabaco nesta amostra apresentou-se próxi-
Ao se abordar os fatores que influenciam na decisão de mo do observado no V Levantamento Nacional sobre o
fumar, a maioria destacou que agiu por vontade própria Consumo de Drogas Psicotrópicas entre Estudantes do
(23%), não sofrendo influência externa, entretanto, as de- Ensino Fundamental e Médio da Rede Pública de Ensino
mais citações mostraram uma prevalência significativa da da Região Sudeste, que traz uma estimativa para o uso
influência dos amigos (17,6%) e da influência de familiares freqüente de tabaco de 4,1%(5). Com relação à distribui-
fumantes (12,2%). Os demais relataram: a curiosidade ção de fumantes pelo sexo, nossa pesquisa revelou não
(9,5%), o estress (6,8%), por influência do meio (4%), por haver diferença significativa entre fumantes do sexo mas-
modismo (1,3%), pra relaxar (1,3%), por ser viciante (1,3%) culino e feminino. Tais dados expostos, diferem da pes-
e 1,3% pelo fato de ser proibido. quisa nacional realizada em Pelotas no ano de 2002, em
que houve uma freqüência maior de meninas fumantes
Ao focar os locais onde adquirem bebidas alcoólicas, (16,2%)(13).
encontrou-se uma a freqüência marcante do ambiente
doméstico como de preferência por 32,3% daqueles que Esta constatação de que ambos os sexos fazem uso de
fizeram ingestão de álcool ao longo do último ano. Outros tabaco sem a predominância de um em relação ao outro,
locais que também apresentaram uma porcentagem ele- leva-nos a (re)pensar, novas políticas públicas de saúde
vada foram: 19,0% em festas, 16,5% no bar, 11,6% no mer- voltadas especificamente para atenção de possíveis agra-
cado, 1,9% na padaria, 1,4% na casa de amigos, 0,5% na vos à saúde da população feminina.
casa de parentes e 0,3% na escola.
Dados da literatura internacional referente aos hábitos
tabagísticos do público feminino, também apontam um
DISCUSSÃO aumento do consumo desse psicotrópico nesta parcela da
população, principalmente a partir da década de 60, com o
Os dados deste estudo basearam-se especificamente advento dos movimentos feministas em alguns países da
nos adolescentes residentes no município de Embu, região América Latina(14).
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A análise referente ao fato de já ter feito uso de álcool, na cas, apresentando um menor uso entre os estudantes per-
vida, pelos adolescentes da população estudada, constatou tencentes a grupos religiosos mais conservadores, como os
uma queda de ingestão em relação à pesquisa realizada entre Evangélicos. Este mesmo padrão de comportamento refe-
os estudantes de ambos os sexos da cidade de São Paulo, de rente à ingestão de álcool nos últimos meses, relacionan-
2004, na qual 66,2% dos meninos já haviam feito uso, na vida, do-se com a filiação religiosa do estudante, demonstrando
de álcool, contrapondo com 74,1% das meninas(5). Entretan- uma prevalência de ingesta alcoólica de 34% entre os Espí-
to, de acordo com o último Levantamento Domiciliar realiza- ritas, 28% entre os Católicos e 14% entre os Evangélicos, o
do pelo CEBRID(4), a ingestão alcoólica entre a população da que corrobora com os nossos dados(16).
faixa etária de 12 a 17 anos pertencentes à região Sudeste,
desvelou que 60,8% já fizeram uso, na vida, de álcool, sendo A ingestão de álcool nos últimos 12 meses mostrou que,
que deste total 55,5% corresponde ao sexo masculino e 60,4% tanto as meninas como os meninos, consumiram semelhan-
temente bebidas alcoólicas, não havendo distinção quan-
ao feminino, ou seja, assemelhando-se aos nossos achados.
to à freqüência e quantidade ingerida de álcool no período
É importante ressaltar que há uma associação estatisti- referido. Em relação a esta questão, temos atualmente di-
camente significante entre o sexo e já ter feito uso de bebi- versos discursos realizados por pesquisadores nacionais e
da alcoólica na vida, apresentando as meninas, uma fre- internacionais, os quais afirmam que a idéia de que os ho-
qüência maior que em comparação com os meninos. Esse mens bebem e/ou fumam mais do que as mulheres consti-
dado pode ser analisado tendo por base o ciclo natural de tui-se, na sociedade pós-moderna, um conceito ultrapas-
desenvolvimento humano, no qual as meninas atingem a sado e retrógrado, representando o público feminino, atu-
puberdade em torno de 2 anos antes que os meninos(8,9), almente, um grupo social de expansão no consumo de subs-
culminando na busca pelas adolescentes por novas experi- tâncias psicotrópicas, destacando-se o álcool e tabaco(17).
ências e interações sociais com indivíduos
O vinho, como bebida de preferência en-
mais velhos, propiciando o contado mais pre-
coce com o álcool. tre ambos os sexos, pode ser explicado por
É importante ressaltar algumas de suas características peculiares, as
Em relação às médias de idade de inicia- que há uma associação quais contribuem para sua predominância em
ção às drogas lícitas (álcool e tabaco) referen- estatisticamente relação às demais, tais como: o sabor adoci-
tes nesta pesquisa, destaca-se que foram significante entre o cado, constituinte necessária para composi-
menores, evidenciando que houve uma di- sexo e já ter feito uso ção das batidas, facilidade de compra nos co-
minuição da idade de iniciação dos jovens às
de bebida alcoólica na mércios locais, venda em grandes quantida-
drogas lícitas, deste estudo, em comparação des e preços acessíveis.
aos dados de 2004(5). vida, apresentando as
meninas, uma Dentre os transtornos apresentados após
Uma iniciação precoce às drogas lícitas, in- freqüência maior que a ingestão de bebidas alcoólicas no último
ferior aos cinco anos para álcool e dez anos para ano, os dados de nossa pesquisa diferem do
em comparação com os
o tabaco, representa um grave problema em II Levantamento Domiciliar(4), o qual aponta
termos de saúde publica, uma vez que a inicia- meninos. como complicações mais freqüentes, decor-
ção precoce ao álcool e tabaco potencializa o rentes do uso de álcool, as discussões (2,9%).
surgimento de futuros dependentes químicos(3,5). Analisando apenas a faixa etária de 12 a 17 anos deste le-
vantamento 1,9% referiram quedas, 1,5% terem ferido al-
O consumo de álcool entre o público adolescente apre- guém, 1,7% machucaram-se, 1,7% tiveram comportamen-
senta nítida relação com faixa etária e a escolaridade na
to agressivo e 3,4% discutiram sob efeito do álcool(4).
qual ele se encontra. Assim sendo, quanto maior for à ida-
de desse jovem, maior será a tendência de já ter tido expe- Dentre as situações relatadas pelos adolescentes abor-
rimentado bebidas. dados como sendo propícias para o uso de bebidas alcoóli-
cas estas corroboram tanto com os dados levantados entre
Esta mesma identificação é observada em estudo inter-
os estudantes da cidade de Paulínia(18), como dos estudan-
nacional, no qual também foi diagnosticado que o consu-
tes residentes na moradia estudantil da USP(19), os quais
mo de álcool entre adolescentes aumentou juntamente com
destacam a elevada prevalência do consumo de álcool du-
a idade, assim como a série na qual ele se encontra(15).
rante as festividades.
A abordagem sobre os riscos e malefícios à saúde, do uso
Com relação aos fatores relatados pelos adolescentes que
indiscriminado, não somente de bebidas alcoólicas, como tam-
influenciaram na sua decisão em fumar, um dado importante
bém da ingestão de tabaco entre os adolescentes, constitui-
a ser exposto é a prevalência elevada de amigos e familiares
se uma necessidade a ser inserida nos planos de políticas pú-
fumantes, que somados, representam 29,8 %, desvelando que
blicas de saúde, devendo iniciar as ações de prevenção do uso
a ingestão de tabaco pelos jovens apresenta um sinergismo
de drogas lícitas (álcool e tabaco) desde o ensino fundamen-
com as pessoas, com as quais eles convivem e interagem. O
tal, visando evitar futuros agravos à saúde desses indivíduos.
adolescente é um ser extremamente vulnerável ao meio em
A religião dos adolescentes também constituiu um dos que está inserido, pois passa por um período de intensa trans-
fatores determinantes para o consumo de bebidas alcoóli- formação, buscando encontrar uma nova identidade. Para
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tanto ele passa a absorver e compartilhar as mesmas tendên- víduos que já experimentaram ou fizeram uso de bebidas al-
cias, costumes e hábitos apresentados, não somente pelo gru- coólicas. Identificamos que a ingestão de álcool é menor en-
po de amigos em que pretende se inserir, mas também pelos tre as religiões mais conservadoras; que existe uma prevalên-
tidos por seus familiares, podendo, assim, nesse período, fa- cia elevada do consumo de bebidas alcoólicas nos últimos 12
zer uso das drogas lícitas (álcool e tabaco). meses em ambos os sexos (p>0,05); freqüência de ingestão
tida como esporádica e em pouca quantidade tanto pelos
Não podemos deixar de denunciar, a partir dos achados meninos como pelas meninas (p>0,05); o vinho é a bebida de
em nossa pesquisa, a falta do cumprimento da legislação bra- preferência dos adolescentes; a ocorrência de mal-estar-físico
sileira, que por meio do artigo 81 do Estatuto da Criança e do como principal transtorno após ingestão alcoólica em ambos
Adolescente, proíbe a venda de bebidas alcoólicas para crian- os sexos (p>0,05); facilidade em conseguir e/ou comprar be-
ças e/ou adolescentes pelos estabelecimentos comerciais(5). bidas alcoólicas em estabelecimentos comerciais, fazendo uso
A facilidade de se comprar bebidas alcoólicas também principalmente em festas junto aos amigos ou no próprio
foi citada por pesquisadores do Estado de São Paulo, os ambiente doméstico junto aos seus familiares.
quais afirmaram que são mínimas as chances de um esta- As informações levantadas entre os estudantes do en-
belecimento comercial não vender bebidas alcoólicas para sino fundamental e médio desta região de Santo Eduardo
um adolescente(7). Em outra pesquisa também sobre a ven- e Santa Emília, município de Embu, contribuirão para a sis-
da de álcool para menores, realizada no interior paulista, tematização e operacionalização de atividades preventivas
dados ainda mais alarmantes apontam que apenas 1% dos e educacionais sobre o uso de drogas lícitas, a serem minis-
adolescentes que participaram do estudo não conseguiu tradas aos adolescentes moradores da área de abrangên-
comprar bebidas alcoólicas(18). cia das atividades de educação em saúde, desenvolvidas
pelo Projeto de Extensão Universitária Corporalidade e Pro-
CONCLUSÃO moção da Saúde.
Desta forma, constatamos que as ações de prevenção e
Concluímos que a população estudada apresenta baixo promoção da saúde do adolescente, referente ao uso de dro-
consumo de tabaco e elevado consumo de bebidas alcoóli- gas lícitas (álcool e tabaco) devem ser realizadas desde o ensi-
cas, com iniciação precoce ao uso de álcool e tabaco. Tais da- no fundamental, evitando futuros agravos e conseqüências à
dos possuem relação significativa com a faixa etária e escolari- saúde desses indivíduos, diminuindo concomitantemente os
dade (p<0,001), sendo que, quanto maior a idade e a série gastos públicos posteriores com internações hospitalares, re-
que o adolescente encontra-se, maior a prevalência de indi- cuperação e tratamento dos dependentes químicos.
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Agradecimentos
À Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), pelo apoio, por meio de bolsa de Iniciação
Científica.
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Correspondência:
O uso de álcool e tabacoRafael
por Souza Moreno
adolescentes Rev Esc Enferm USP
Rua
do Borges Lagoa,
município de Embu, 512
São - Apto.
Paulo,41 - Vila Clementino
Brasil 2010; 44(4):969-77
CEP 04038-000 - São Paulo, SP, Brasil
Moreno RS, Ventura RN, Brêtas JRS [Link]/reeusp/