Espaçamento e Densidade
Conteúdo migrado na íntegra em: 08/12/2021
Autores
José Carlos Cruz - In memoriam
Israel Alexandre Pereira Filho - Embrapa Milho e Sorgo
Manoel Ricardo de Albuquerque Filho - Embrapa Milho e Sorgo
[Link]
densidade
Dentre os cereais cultivados no Brasil, o milho é o mais expressivo, com 49,8 milhões de
toneladas de grãos produzidos em uma área de 14,12 milhões de hectares (Conab, 2009),
produção referente a duas safras, a normal e a safrinha. Por suas características
fisiológicas, a cultura do milho tem alto potencial produtivo, já tendo sido obtidas
produtividades superiores a 16 t por hectare em concursos de produtividade de milho
conduzidos por órgãos de assistência técnica e extensão rural e por empresas produtoras
de sementes. No entanto, o nível médio nacional de produtividade é muito baixo (3 .532
kg/ha), demonstrando que os diferentes sistemas de produção de milho deverão ser ainda
bastante aprimorados para se obter aumento na produtividade e na rentabilidade que a
cultura pode proporcionar.
Época de semeadura
O período de crescimento e desenvolvimento é afetado pela umidade do solo,
temperatura, radicação solar e fotoperíodo. A época de plantio depende destes fatores,
cujos limites extremos são variáveis em cada região agroclimática. A época de semeadura
mais adequada é aquela que faz coincidir o período de floração com os dias mais longos
do ano e a etapa de enchimento de grãos com o período de temperaturas mais elevadas e
alta disponibilidade de radiação solar. Isto, considerando satisfeitas as necessidades de
água pela planta. Trabalho de pesquisa mostra que as épocas em que o rendimento de
grãos foram maiores e mais estáveis foram aquelas em que os estádios de
desenvolvimento de quatro folhas totalmente desenvolvidas e a floração ocorrem sob boas
condições de água no solo.
Nas condições tropicais, devido a menor variação da temperatura e do comprimento do
dia, a distribuição de chuvas é que geralmente determina a melhor época de semeadura.
No Sul do Brasil, o milho geralmente é plantado de agosto a setembro e, à medida que se
caminha para os estados do Centro-Oeste e Sudeste, a época de semeadura varia de
outubro a novembro. Resultados de pesquisa mostram que atrasos na época de plantio
além dos meses de setembro e outubro resultam em redução no ciclo da cultura e no
rendimento de grãos. A época de semeadura afeta várias características da planta,
ocorrendo um decréscimo mais acentuado no número de espigas por planta (prolificidade)
e no rendimento de grãos. Segundo ainda esse autor, vários resultados da literatura
mostram que o atraso na semeadura pode resultar em perdas que podem ser superiores a
60 kg/ha/dia. Essa tendência pode ser revertida se não houver déficit hídrico e se ocorrer
um redução na temperatura do ar nos meses de fevereiro e março.
Por ser plantado no final da época recomendada, o milho safrinha tem sua produtividade
bastante afetada pelo regime de chuvas e por fortes limitações de radiação solar e
temperatura, principalmente na fase final de seu ciclo. Além disso, como o milho safrinha é
plantado após uma cultura de verão, a sua data de plantio depende da época do plantio
dessa cultura e de seu ciclo. Assim, o planejamento do milho safrinha começa com a
cultura do verão, visando liberar a área o mais cedo possível. Quanto mais tarde for o
plantio, menor será o potencial e maior o risco de perdas por seca e/ou geadas.
Hoje, com os avanços nos trabalhos na área de climatologia, o Brasil já tem um
Zoneamento Agrícola (elaborado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento)
que fornece informações sobre as épocas de plantio de milho tanto na safra como na
safrinha, com menores riscos, para quase todo o país.
Nas regiões onde não ocorrem geadas, o plantio do milho poderá ser feito o ano todo, mas
o agricultor deverá levar em consideração as alterações no ciclo da cultura, que afetarão a
época de colheita e, consequentemente, o calendário agrícola, podendo afetar a época de
plantio de culturas subsequentes. A Tabela 1 mostra um exemplo da variação do ciclo em
função da época de plantio. O potencial produtivo também varia de acordo com as
condições climáticas resultantes da época de plantio.
Tabela 1. Variação do ciclo da cultura de milho em função da época de plantio para a
produção de milho verde
Cultivar
Época de semeadura Normal Precoce Super precoce
05 de fevereiro 124 117 108
05 de março 134 129 127
06 de abril 145 140 138
05 de maio 139 138 137
08 de junho 138 133 131
09 de junho 146 134 125
12 de agosto 124 119 118
08 de setembro 125 118 115
07 de outubro 115 112 106
08 de novembro 116 112 107
09 de dezembro 115 115 112
Fonte: SANS et al. citados por PEREIRA FILHO & CRUZ (1993).
Experimento com milho irrigado, realizado no Rio Grande do Sul, mostrou que os
rendimentos de grãos foram, em média, 15% e 48% inferiores na semeadura de agosto e
dezembro, respectivamente, em relação à de outubro. Essas diferenças foram atribuídas a
alterações na quantidade de radiação solar disponível em decorrência da época de plantio.
No plantio em dezembro, a alta percentagem de plantas estéreis pode também ter
contribuído para o baixo rendimento de grãos.
Profundidade de semeadura
A profundidade de semeadura está condicionada aos fatores temperatura do solo,
umidade e tipo de solo. A semente deve ser colocada numa profundidade que possibilite
um bom contato com a umidade do solo. Entretanto, a maior ou menor profundidade de
semeadura vai depender do tipo de solo. Em solos mais pesados, com drenagem
deficiente ou com fatores que dificultam o alongamento do mesocótilo, dificultando a
emergência de plântulas, as sementes devem ser colocadas entre 3 cm e 5 cm de
profundidade. Já em solos mais leves ou arenosos, as sementes podem ser colocadas
mais profundas, entre 5 cm e 7 cm de profundidade, para se beneficiarem do maior teor de
umidade do solo.
No sistema plantio direto, onde há sempre um acumulo de resíduos na superfície do solo,
especialmente em regiões mais frias, a cobertura morta retarda a emergência, reduz o
estande e, em alguns casos, pode até causar queda no rendimento de grãos da lavoura,
dependendo da profundidade em que a semente foi colocada. A Tabela 2 mostra o efeito
da profundidade de semeadura sobre a emergência, o vigor e a duração do período de
emergência na cultura do milho.
Contrário a uma crença popular, a profundidade de semeadura tem influência mínima na
profundidade do sistema radicular definitivo, que se estabelece logo abaixo da superfície
do solo.
Tabela 2 - Percentagem de emergência, vigor e duração do período de germinação de
sementes de milho, em diferentes profundidades.
Profundidade Emergência Vigor 1 Duração média
( cm ) (%) ( dias )
2.5 100.0 3.0 8.0
5.0 97.5 3.0 10.0
7.5 97.5 3.0 12.0
10.0 80.0 2.5 15.0
12.5 32.5 0.7 18.0
Fonte: Adaptado de FAGUNDES (1975) citado por BRESOLIN (1993).
Densidade de plantio
A densidade de plantio, ou estande, definida como o número de plantas por unidade de
área, tem papel importante no rendimento de uma lavoura de milho, uma vez que
pequenas variações na densidade têm grande influência no rendimento final da cultura.
O milho é a gramínea mais sensível à variação na densidade de plantas. Para cada
sistema de produção, existe uma população que maximiza o rendimento de grãos. A
população ideal para maximizar o rendimento de grãos de milho varia de 30.000 a 90.000
plantas por hectare, dependendo da disponibilidade hídrica, da fertilidade do solo, do ciclo
da cultivar, da época de semeadura e do espaçamento entre linhas. Vários pesquisadores
consideram o próprio genótipo como principal determinante da densidade de plantas. O
aumento da densidade de plantas até determinado limite é uma técnica usada com a
finalidade de elevar o rendimento de grãos da cultura do milho. Porém, o número ideal de
plantas por hectare é variável, uma vez que a planta de milho altera o rendimento de grãos
de acordo com o grau de competição intra-específica proporcionado pelas diferentes
densidades de planta.
O rendimento de uma lavoura aumenta com a elevação da densidade de plantio até atingir
uma densidade ótima, que é determinada pela cultivar e por condições externas
resultantes de condições edafoclimáticas do local e do manejo da lavoura. A partir da
densidade ótima, quando o rendimento é máximo, aumento na densidade resultará em
decréscimo progressivo na produtividade da lavoura. A densidade ótima é, portanto,
variável para cada situação e, basicamente, depende de três condições: cultivar,
disponibilidade hídrica e do nível de fertilidade de solo. Qualquer alteração nesses fatores,
direta ou indiretamente, afetará a densidade ótima de plantio.
Além do rendimento de grãos, o aumento da densidade de plantio também afeta outras
características da planta. Dentre essas características, merecem destaque a redução no
número de espigas por planta (índice de espigas) e o tamanho da espiga. Também o
diâmetro do colmo é reduzido e há maior susceptibilidade ao acamamento e ao
quebramento. Além disso, é reconhecido que pode haver um aumento na ocorrência de
doenças, especialmente as podridões de colmo, com o aumento na densidade de plantio.
Esses aspectos podem determinar o aumento de perdas na colheita, principalmente
quando esta é mecanizada. Por estas razões, às vezes deixa-se de recomendar
densidades maiores, que embora em condições experimentais apresentam maiores
rendimentos, não são aconselhadas em lavouras colhidas mecanicamente. A densidade
de plantio, dentre as técnicas de manejo cultural, é um dos parâmetros mais importantes.
Geralmente, a causa dos baixos rendimentos de milho é o baixo número de plantas por
área. Entretanto, para que haja um aumento da produtividade, é necessário que vários
outros fatores, como o nível de fertilidade do solo, o nível de umidade e as cultivares
estejam em consonância com o número de plantas por área. Em termos genéricos,
verifica-se que cultivares precoces (ciclo mais curto) exigem maior densidade de plantio
em relação a cultivares tardias para expressarem seu máximo rendimento. A razão desta
diferença é que cultivares mais precoces, geralmente, possuem plantas de menor altura e
menor massa vegetativa. Essas características morfológicas determinam um menor
sombreamento dentro da cultura, possibilitando, com isto, menor espaçamento entre
plantas, para melhor aproveitamento de luz.
Mesmo dentre os grupos de cultivares (precoces ou tardios), há diferenças quanto à
densidade ótima de plantio. Uma análise de mais de 270 cultivares de milho
comercializadas na safra 2006/07 mostra que as variedades são indicadas para plantios
com densidades variando de 40.000 a 50.000 plantas por hectare, o que é coerente com o
menor nível de tecnologia dos sistemas de produção empregados pelos agricultores que
usam esse tipo de cultivar. As faixas de densidades mais frequentemente recomendadas
para os híbridos duplos variam de 45 a 55, havendo casos de recomendação de até 65 mil
plantas por ha. Para os híbridos triplos e simples, é frequente a densidade de 50 a 60 mil
plantas por ha, havendo casos de recomendação de até 80 mil plantas por ha. Deve ser
ressaltado, entretanto, que apenas 23 cultivares são recomendadas com densidades de
plantio igual ou maior do que 70 mil plantas por hectare.
A maioria das empresas já estão recomendando densidades de plantio em função da
região, da altitude e da época de plantio. Além disso, já existem empresas recomendando
a densidade em função do espaçamento, o que representa uma evolução. Dados de
pesquisa mostram vantagens do espaçamento reduzido (45 cm a 50 cm entre fileiras)
comparado ao espaçamento convencional (80 cm a 90 cm), especialmente quando se
utilizam densidades de plantio mais elevadas. O surgimento de novas cultivares de milho
de ciclo mais curto, estatura reduzida, menor número de folhas e folhas mais eretas
aumentou o potencial de resposta da cultura à densidade de plantas. O aumento e o
arranjo da população de plantas podem contribuir para a correta exploração do ambiente e
do genótipo, com consequências no aumento do rendimento de grãos.
O arranjo de plantas basicamente pode ser manipulado através de alterações na
densidade de plantas e no espaçamento entre fileiras. A interceptação da radiação
fotossinteticamente ativa pelo dossel exerce grande influência sobre o rendimento de
grãos da cultura do milho, quando outros fatores ambientais são favoráveis. Uma forma de
aumentar a interceptação de radiação e, consequentemente, o rendimento de grãos, é
através da escolha adequada do arranjo de plantas. Teoricamente, o melhor arranjo de
plantas de milho é aquele que proporciona distribuição mais uniforme de plantas por área,
possibilitando melhor utilização de luz, água e nutrientes. Atualmente, a redução no
espaçamento entrelinhas e o aumento da densidade de plantio é uma realidade na cultura
de milho no Brasil, encontrando-se, no mercado, inclusive, plataformas adaptáveis às
colhedoras que realizam a colheita em espaçamentos de até 0,45 m.
Com relação à disponibilidade hídrica e à disponibilidade de nutrientes, observa-se que a
densidade deve ser aumentada sempre que esses fatores forem otimizados, para que seja
atingido o máximo rendimento de grãos. Em situações de áreas irrigadas, ou quando não
há restrições hídricas, é aconselhável usar o limite superior da faixa da densidade
recomendada. Um fator importante quando se usa alta densidade de plantio é assegurar
que a cultivar usada apresenta grande resistência ao acamamento e ao quebramento. De
forma análoga ao suprimento hídrico, quanto maior for a disponibilidade de nutrientes para
as plantas, seja pela fertilidade natural do solo ou por adubação, maior será a densidade
para se alcançar o máximo rendimento. As interações mais frequentes entre o nível de
fertilidade e a densidade de semeadura se dão principalmente com a adubação
nitrogenada.
Espaçamento entre fileiras
Ainda é muito variado o espaçamento entre fileiras de milho nas lavouras, embora seja
nítida a tendência de sua redução.
Entre as vantagens potenciais da utilização de espaçamentos mais estreitos, podem ser
citados o aumento do rendimento de grãos, em função de uma distribuição mais
equidistante de plantas na área, aumentando a eficiência de utilização de luz solar, água e
nutrientes; melhor controle de plantas daninhas, devido ao fechamento mais rápido dos
espaços disponíveis, diminuindo, dessa forma, a duração do período crítico das plantas
daninhas; redução da erosão, em consequência do efeito da cobertura antecipada da
superfície do solo; melhor qualidade de plantio, através da menor velocidade de rotação
dos sistemas de distribuição de sementes; e maximização da utilização de plantadoras,
uma vez que diferentes culturas, como, por exemplo, milho e soja, poderão ser plantadas
com o mesmo espaçamento, permitindo maior praticidade e ganho de tempo.
Tem sido também mencionado que os espaçamentos reduzidos permitem melhor
distribuição da palhada de milho sobre a superfície do solo, após a colheita, favorecendo o
sistema de plantio direto. Diversos trabalhos têm mostrado tendência de maiores
produções de grãos em espaçamentos mais estreitos (45 cm e 50 cm), principalmente com
os híbridos atuais, que são de porte mais baixo e arquitetura mais ereta. Essa redução no
espaçamento resulta também em maior peso de grãos por espiga. Esse comportamento
se deve ao fato de que os milhos atuais possuírem características de porte mais baixo,
melhor arquitetura foliar e menor massa vegetal, o que permite cultivos mais adensados
em espaçamentos mais fechados. Devido a essas características, esses materiais
exercem menores índices de sombreamento e captam melhor a luz solar.
Uma avaliação de diferentes cultivares de milho, espaçamento e densidade de plantio,
mostrou que o rendimento de grãos cresceu com o aumento da densidade de plantio em
ambos os espaçamentos (reduzido e normal), demonstrando que poderia se aumentar
ainda mais a produtividade, com aumento na densidade de plantio; entretanto, no
espaçamento de 0,50 m entre fileiras, a produtividade apresentou maior ampliação quando
se passou de 40.000 plantas. ha-1 para 77.500 [Link]-1 do que no espaçamento de
0,80 m, indicando que a redução de espaçamento é mais vantajosa quando se utilizam
maiores densidades de plantio, comprovando mais uma vez que o benefício das linhas
mais estreitas aumenta à medida que aumenta a população de plantas.
Quando se pensa em diminuir o espaçamento entrelinhas e/ou aumentar a densidade de
plantas por área, a escolha do híbrido deve ser criteriosa. Geralmente, os híbridos ou as
variedades de porte alto e ciclo longo produzem bastante massa e quase sempre não
proporcionam um bom arranjo das plantas dentro da lavoura e, por essa razão, já no início
do crescimento a captação da luz é prejudicada. Os híbridos de menor porte, mais
precoces, desenvolvem pouca massa vegetal, com menor quantidade de auto-
sombreamento, o que proporciona uma maior penetração da luz solar. Estas plantas
permitem cultivo em menores espaçamentos e maiores densidades.
Uma das dificuldades para o uso de espaçamentos mais estreitos eram as colheitadeiras,
que, muitas vezes não se adaptavam a esta situação. No entanto, hoje, com a evolução do
parque de máquinas agrícolas, esse problema já não existe.
O milho em Sistema de Plantio Direto
A cultura do milho, por sua versatilidade, adapta-se a diferentes sistemas de produção.
Devido à grande produção de fitomassa de alta relação C/N, a cultura é fundamental em
programas de rotação de culturas em sistemas de plantio direto. Em termos de
modernização da agricultura brasileira, a utilização do sistema de plantio direto é uma
realidade inquestionável e a participação da cultura do milho em sistemas de rotação e
sucessão (safrinha) de culturas para assegurar a sustentabilidade de sistemas de plantio
direto é fundamental. A área plantada no sistema de plantio direto tem aumentado
rapidamente no Brasil, principalmente nos últimos anos. Estima-se que, hoje, o sistema de
plantio direto cubra mais de 25 milhões de hectares, ou seja, cerca de 50% da
área ocupada por culturas anuais no país.
O sistema de plantio direto consolidou-se como uma tecnologia conservacionista,
largamente aceita entre os agricultores, havendo sistemas adaptados a diferentes regiões
e aos diferentes níveis tecnológicos, desde o grande ao pequeno agricultor, aquele que
usa a tração animal. Requer cuidados na implantação, mas depois de estabelecido, seus
benefícios se estendem não apenas ao solo e, consequentemente, ao rendimento das
culturas e à competitividade dos sistemas agropecuários, mas também, devido à drástica
redução da erosão, reduz o potencial de contaminação do meio ambiente. O sistema
também oferece ao agricultor maior garantia de renda, pois a estabilidade da produção é
ampliada em comparação aos métodos tradicionais de manejo de solo. Por seus efeitos
benéficos sobre os atributos físicos, químicos e biológicos do solo, pode-se afirmar que o
plantio direto é uma ferramenta essencial para se alcançar a sustentabilidade dos sistemas
agropecuários.
A cultura do milho tem a vantagem de deixar uma grande quantidade de restos culturais
que, uma vez bem manejados, podem contribuir para reduzir a erosão e melhorar o solo.
Desta forma, sua inclusão em um esquema de rotação é fundamental. A sustentabilidade
de um sistema de produção não está apoiada apenas em aspectos de conservação e
preservação ambiental, mas também nos aspectos econômicos e comerciais.
Rotação de culturas
A rotação envolvendo as culturas da soja e do milho merece especial atenção devido às
extensas áreas que essas duas culturas ocupam e ao efeito benéfico em ambas as
culturas (Tabela 3). No exemplo mostrado na Tabela 3, o milho plantado após a soja
produziu cerca de 9% mais e a soja plantada após o milho produziu entre 5% e 15% mais,
quando comparados com os plantios contínuos. Existem experimentos demostrando os
efeitos benéficos do milho se estendendo até ao segundo ano da soja plantada após a
rotação (Tabela 4). Neste exemplo, a soja produziu 20,3% mais no primeiro ano após o
milho e 10,5% no segundo. Essa diferença foi atribuída, além da menor incidência de
pragas e doenças, à maior quantidade de nutrientes deixados pela palha do milho,
principalmente o potássio, no qual a soja é exigente.
Na escolha de uma rotação de culturas, especial atenção deve ser dada às exigências
nutricionais das espécies escolhidas e à sua capacidade de extrair nutrientes do solo, no
que a soja e milho se complementam satisfatoriamente.
Tabela 3. Efeito da rotação soja e milho sobre o rendimento destas culturas.
Rotação Rendimento (kg ha -1 )
Milho após milho 9.680 (100%) 6.160 (100%)
Milho após soja 10.520 (109%) 6.732 (109%)
Soja após soja 3.258 (100%) 2.183 (100%)
Soja após milho 3.425 (105%) 2.517 (115%)
Fonte: Adaptado de CRUZ (1982) e de MUZILLI(1981), citado por DERPSCH (1986)
Tabela 4. Rendimento de grãos de soja, em kg ha-1, no primeiro e segundo anos após o
milho, comparado ao rendimento da soja sem rotação, conduzidos em sistema de plantio
direto.
Tratamentos 1987/88 1988/89 1989/90 1990/91 1991/92 1992/93 1993/94 Média
kg ha -1
1º ano após
1.838 3.366 3.980 1.883 4.456 4.691 2.746 3.280
milho
2º ano após
1.499 3.234 3.730 1.716 4.340 3.979 2.589 3.012
milho
Sem milho 1.440 3.180 3.724 1.136 3.663 3.565 2.378 2.727
Adaptado de RUEDELL (1995)
Na implantação e na condução de um sistema eficiente de plantio direto, é indispensável
que o esquema de rotação de culturas promova, na superfície do solo, a manutenção
permanente de uma quantidade mínima de palhada, que nunca deverá ser inferior a 2,0 t
ha-1 de matéria seca. Como segurança, recomenda-se que sejam adotados sistemas de
rotação que produzam, em média, 6,0 t/ha/ano ou mais de matéria seca. A cultura do
milho, de ampla adaptação a diferentes condições, tem ainda a vantagem de deixar uma
grande quantidade de restos culturais, que, uma vez bem manejados, podem contribuir
para reduzir a erosão e melhorar o solo.
No sul do Brasil, devido às condições climáticas mais favoráveis, há mais opções de
rotação de culturas, envolvendo tanto as culturas de verão como as de inverno. No Brasil
Central, as condições climáticas, com quase total ausência de chuvas entre os meses de
maio e agosto, dificultam a existência de cultivos de inverno, exceto em algumas áreas
com microclima adequado ou com agricultura irrigada. Essa situação dificulta ou deixa
poucas opções para o estabelecimento de culturas comerciais ou mesmo culturas de
cobertura, isto é, culturas cuja finalidade principal é aumentar o aporte de restos culturais
sobre a superfície do solo, exigindo que estas tenham características peculiares, como um
rápido desenvolvimento inicial e maior tolerância à seca.
Milho safrinha x Sistema de Plantio Direto
A implantação do milho safrinha, no final do período chuvoso, deixa o agricultor na
expectativa de ocorrência de déficit hídrico durante o ciclo da cultura. Assim, toda
estratégia de manejo do solo deve levar em consideração propiciar maior quantidade de
água disponível para as plantas. Nesse caso, sempre que possível, deve-se optar pelo
sistema de plantio direto, pois oferece maior rapidez nas operações, principalmente no
plantio realizado simultaneamente à colheita, permitindo o plantio o mais cedo possível.
Além disso, um sistema de plantio direto, com adequada cobertura da superfície do solo,
permitirá o aumento da infiltração da água no solo e a redução da evaporação, com
consequente aumento no teor de água disponível para as plantas. Em algumas áreas de
plantio direto, já se constatou aumento do teor de matéria orgânica do solo, afetando a
curva de retenção de umidade e aumentando ainda mais o teor de umidade para as
plantas. Embora exista uma grande diversidade de preparo de áreas para o cultivo do
milho na segunda safra, predomina o emprego do Plantio Direto Permanente (PDP) ou
Temporário (PDT), visando antecipar a implantação do milho “safrinha”. No preparo direto
temporário, realiza-se a semeadura direta do milho “safrinha” e o preparo convencional
para a soja. Nesse caso, no verão, tem sido frequente o preparo com grades. Em áreas
com grande infestação de plantas daninhas, no momento da colheita da soja, e quando o
agricultor não dispõe de máquina para semeadura direta, utiliza-se o preparo com grades
no outono-inverno. Uma desvantagem da grade aradora é que provoca grande
pulverização do solo. Alem disso, o uso da grade continuamente no verão e na safrinha,
por anos sucessivos, pode provocar a formação do "pé-de-grade", uma camada
compactada logo abaixo da profundidade de corte da grade, em torno de 10 cm a 15 cm.
Essa camada reduz a infiltração de água no solo, o que, por sua vez, irá favorecer maior
escorrimento superficial e, consequentemente, a erosão do solo e a redução da
produtividade do milho safrinha (Tabela 5).
Tabela 5. Rendimento de grãos da soja e do milho “safrinha”, em latossolo roxo, em
Tarumã, SP, no ano agrícola 1995/96, após dez anos de implantação de sistemas de
manejo do solo.
Manejo do solo Rendimento de grãos
Safra de soja Safrinha de milho
kg ha -1 % Kg ha -1 %
Grade aradora/ Grade aradora 2.579 78 4.678 77
Esc. mais niveladora/G. niveladora 3.130 94 5.404 89
Esc. + G. niveladora/ semeadura na palha 3.144 95 5.682 94
Sistema plantio direto. 3.310 100 6.046 100
Fonte: De Maria et al. (1999)