cia voluntária da
erudição supérflua, da cultura excessiva. O homem culto
da Renascença deixava-se reconduzir, por sua imitação operística
da tragédia grega, a semelhante consonância de natureza
e ideal, a uma realidade idílica; utilizava essa tragédia,
como Dante utilizou Virgílio, para ser guiado até as portas
do Paraíso: enquanto, a partir daí, ele segue adiante por si
mesmo e passa de uma imitação da suprema forma grega
de arte a uma "restituição de todas as coisas", a uma reprodução
do protomundo artístico do ser humano . Que confiante
bondade de coração é a dessas arrojadas aspirações ,
no seio da cultura teórica! -a explicar-se unicamente pela
crença consoladora de que "o homem em si" é o herói operístico
eternamente virtuoso, o pastor eternamente a tocar
flauta ou a cantar, de que no fim há de sempre reencontrarse
a si mesmo como tal, caso tenha alguma vez efetivemente
perdido a si mesmo, algures, por algum tempo, fru to único
daquele otimismo que se eleva aqui, qual uma coluna
[ 116 ]
/
O NASCIMENTO DA TRAGÉDIA
de perfume docemente sedutor, das profundezas da consideração
socrática do mundo.
S obre os traços marcantes da ópera não se estende, portanto,
de modo algum, aquela dor elegíaca de uma perda eterna,
mas antes a serenoj ovialidade do eterno reencontrar, o
cômodo prazer de um mundo idílico afetivo, o qual se pode
imaginar a cada momento como efetivamente real: a cuja vista
alguma vez se pressente, quiçá, que essa pretensa realidade
não é senão um néscio brincar fantástico, a que todo homem
capaz de medi-lo com a terrível seriedade da verdadeira natureza
e compará-lo com as autênticas cenas primevas dos
primórdios da humanidade deveria bradar com asco: Fora
com o fa ntasma! Não obstante, enganar-nos-íamos se acreditássemos
que seria possível, simplesmente com um grito enérgico,
afugentar, como a um espectro, semelhante ser de brincadeira,
que é a ópera. Quem quiser aniquilar a ópera, terá
de empreender a luta contra aquela serenojovialidade alexandrina
que nela se expressa tão ingenuamente acerca de sua
idéia fa vorita, sim, cuja autêntica forma de arte ela é. Mas o
que se há de esperar para a própria arte, da atuação de uma
forma artística cujas fontes primordiais não residem, de maneira
nenhuma, no âmbito do estético, que, a bem dizer, se
contrabandeou de uma esfera meio moral para o domínio artístico
e que só aqui e acolá pôde alguma vez iludir sobre essa
formação híbrida? De que seivas se nutre esse ser parasitário
que é a ópera, se não são as da verdadeira arte? Não é
de se presumir que, sob suas idílicas seduções, sob suas alexandrinas
artes da lisonja, a suprema e, cumpre assim chamála,
verdadeiramente séria tarefa da arte - livrar a vista de
olhar no horror da noite e salvar o sujeito, graças ao bálsamo
da aparência, do espasmo dos movimentos do querer -
degenerará em vazia e dissipadora tendência ao divertimento?
O que será das sempiternas verdades do dionisíaco e do
apolíneo numa tal mistura de estilos, como eu a expus na essência
do stilo rapp resentativo , onde a música é considerada
como serva, a palavra do texto como senhor, onde a música
é comparada ao corpo e a palavra do texto à alma, onde,
no melhor dos casos, o mais alto desígnio estará dirigido
para uma pintura sonora transcritiva, similarmente ao que
[ 117]
FRIEDRICHNIETZSCHE
ocorreu outrora no novo ditirambo ático, onde a música é
inteiramente alheada de sua verdadeira dignidade, a de ser
espelho dionisíaco do mundo, de tal modo que só lhe resta,
como escrava da aparência, arremedar a essência fo rmal desta
e, no jogo das linhas e proporções, provocar uma diversão
externa? A uma consideração mais severa, essa fu nesta influência
da ópera sobre a música coincide precisamente com
o conjunto do desenvolvimento musical moderno; o otimismo
espreitante na gênese da ópera e na essência da cultura
por ela representada logrou, com angustiante rapidez, despir
a música de sua destinação universal dionisíaca e imprimirlhe
um caráter divertidor, de jogo de fo rmas : alteração com
a qual só se deveria comparar, porventura, a metamorfose
do homem esquiliano no homem serenojovial alexandrino .
Se todavia relacionamos com razão , na exemplificação indicada,
o desaparecimento do espírito dionisíaco a uma transfo
rmação e degeneração altamente- chocantes, mas até agora
inexplicadas, do homem grego - que esperanças devem
avivar-se em nós, quando os mais seguros auspícios nos afiançam
a ocorrência do processo inverso, o despertar gradual
do esp ír ito dion isíaco em nosso mundo presente! Não é possível
que a fo rça divina de Héracles se entorpeça eternamente
na voluptuosa corvéia a Onfale .93 Do fu ndo dionisíaco do
espírito alemão alçou-se um poder que nada tem em comum
com as condições primigênias da cultura socrática e que não
é explicável nem desculpável, a partir dela, sendo antes sentido
por esta como algo terrivelmente inexplicável, como algo
prepotentemente hostil, a música alemã, tal como nos cumpre
entendê-la sobretudo em seu poderoso curso solar, de
Bach a Beethoven, de Beethoven a Wagner. O que poderá
empreender, no melhor dos casos, o socratismo de nossos
dias, cobiçoso de conhecimentos, com esse demônio surgido
de profundezas inexauríveis? Nem a partir dos floreios e
arabescos da melodia operística, nem com a ajuda da tábua
aritmética da fuga e da dialética contrapontística, encontrarse-
á a fórmula à cuja luz três vezes potenciada se conseguisse
subjugar esse demônio e se pudesse obrigá-lo a fa lar. Que
espetáculo é o de nossos estetas, quando agora, com a rede
de uma de suas próprias "belezas ", tentam golpear e agarrar
[118]
(
O NASC IMENTO DA TRAGÉDIA
o gê�io
_
da música a :evirar-se diante deles com uma fo rça
de VJda mcompreens1vel, sob movimentos que não querem
ser julgado�, nen: em termos da beleza eterna nem tampouco
do sublime. E preciso só ver alguma vez de perto e em
pessoa esses protetores da música, quando tão infatigave lmente
exclamam: Beleza! Beleza!, quer se distingam nisso com?
os filhos prediletos da natureza, mimados e fo rmados no
se10 do belo
.
' quer procurem, muito mais, uma fo rma que enc
��ra mentlrosamente sua própria crueza, um pretexto estetlco
para o seu próprio prosaísmo tão pobre de sentimentos
:e
_
aqui penso, por exemplo, em Otto Jahn.94 Mas que 0
mentiroso e o hipócrita tomem cuidado com a música alemã:
pois justamente ela é, em meio a toda a nossa cultura
o único espírito de fogo limpo, puro e purificador, a parti;
do qual e para o qual, como na doutrina do grande Heráclito
de Éfeso , se movem em dupla órbita circular todas as coisas :
t�do o
,
que chamamos agora de cultura, educação, civilizaç:
� tera algum dia de comparecer perante o infalível juiz Diomslo.
·
Lembremo-nos em seguida como, por meio de Kant e
.
Schopenhauer, o espírito da fi losofia alemã, manando de
fontes id�n�icas, viu-se possibilitado a destruir o satisfeito prazer
d� e�1st1r do socratismo científico, pela demonstração de
s �us hm1tes, e como através dessa demonstração se introduZIU
um modo infinitamente mais profundo e sério de considerar
as questões éticas e a arte, modo que podemos designar
fr �ncamente como a sabedoria dionisíaca expressa em
con� e
_
Jtos: para onde aponta o mistério dessa unidade entre
a mus1ca alemã e a filosofia alemã, se não para uma nova forma
de existência, sobre cujo conteúdo só podemos informarnos
pressentindo-o a partir de analogias helênicas? Pois, para
nos, que estamos na fronteira divisória de duas formas dife
rentes de existência, o modelo helênico conserva o incomensurável
valor de que nele também se acham impressas
e�-
uma fo rma classicamente instrutiva, todas aquelas tran�
: s1çoes e lutas: só que nós revivemos analogicamente em ordem
inversa, por assim dizer, as grandes épocas principais
do ser helênico, e agora, por exemplo, parecemos retroceder
da era alexandrina para o período da tragédia. Nisso vi-
[119]
FRIEDRICHNIETZSCHE
ve em nós a sensação de que o nascimento de uma era trágica
tivesse significado para o espírito alemão apenas um re:
torno a ele mesmo, um bem-aventurado reencontrar-se a SI
próprio, depois que, por longo tempo, enormes �aderes �o�quistadores,
vindos de fora, haviam reduzido a :�crav1dao
de sua forma o que vivia em desamparada barbane da forma.
Agora, por fim, após o regresso à fonte primeira d� seu
ser, pôde ele ousar apresentar-se, destemido e
.
li�.
re, �Jante
de todos os povos, sem a andadeira de uma ovihzaçao românica:
contanto que saiba aprender firmemente de um povo,
do qual o simples fato de poder aprender já é por si uma
grande glória e uma rara distinção, dos gregos. E, desses supremos
mestres, em que momento precisaríamos mais do qu�
agora, quando nos é dado assistir ao renascimento da tragedia
ee