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Panas

Henrique conversa com Botelho sobre suas intenções com Dona Estela, enquanto o cortiço desperta para um novo dia, repleto de sons e atividades. A descrição do ambiente revela a vida vibrante e caótica dos moradores, que se envolvem em suas rotinas diárias, desde a lavagem de roupas até a compra de pão. Personagens como Leandra e Augusta Carne-Mole introduzem a complexidade das relações sociais e a dinâmica familiar dentro do cortiço.
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Panas

Henrique conversa com Botelho sobre suas intenções com Dona Estela, enquanto o cortiço desperta para um novo dia, repleto de sons e atividades. A descrição do ambiente revela a vida vibrante e caótica dos moradores, que se envolvem em suas rotinas diárias, desde a lavagem de roupas até a compra de pão. Personagens como Leandra e Augusta Carne-Mole introduzem a complexidade das relações sociais e a dinâmica familiar dentro do cortiço.
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ha dos pés para alcançar os heliotrópios e os manacás.

Henrique seguiu o Botelho até


ao quarto deste, conversando sem mudar de assunto. — Você então não fala nisto,
hein? Jura? perguntou-lhe. O velho tinha já declarado, a rir, que os pilhara em flagrante
e que ficara bom tempo à espreita. — Falar o quê, seu tolo?... Pois então quem pensa
você que eu sou?... Só abrirei o bico se você me der motivo para isso, mas estou
convencido que não dará... Quer saber? Eu até simpatizo muito com você, Henrique!
Acho que você é um excelente menino, uma flor! E digo-lhe mais: hei de proteger os
seus negócios com Dona Estela... Falando assim, tinha-lhe tomado as mãos e afagava-
as. — Olhe, continuou, acariciando-o sempre; não se meta com donzelas, entende?...
São o diabo! Por dá cá aquela palha fica um homem em apuros! Agora quanto às
outras, papo com elas! Não mande nenhuma ao vigário, nem lhe doa a cabeça, porque,
no fim de contas, nas circunstâncias de Dona Estela, é até um grande serviço que você
lhe faz! Meu rico amiguinho, quando uma mulher já passou dos trinta e pilha a jeito um
rapazito da sua idade, é como se descobrisse ouro em pó! Sabe-lhe a gaitas! Fique
então sabendo de que não é só a ela que você faz o obséquio, mas também ao marido:
quanto • 34 • O CORTIÇO mais escovar-lhe você a mulher, melhor ela ficará de gênio, e
por conse guinte melhor será para o pobre homem, coitado! Que tem já bastante com
que se aborrecer lá por baixo, com os seus negócios, e precisa de um pouco de
descanso quando volta do serviço e mete-se em casa! Escove-a, escove-a! Que a porá
macia que nem veludo! O que é preciso é muito juizinho, per cebe? Não faça outra
criançada como a de hoje e continue para diante, não só com ela, mas com todas as
que lhe caírem debaixo da asa! Vá passando! Menos as de casa aberta, que isso é
perigoso por causa das moléstias; nem tampouco donzelas! Não se meta com a
Zulmira! E creia que lhe falo assim, porque sou seu amigo, porque o acho simpático,
porque o acho bonito! E acarinhou-o tão vivamente dessa vez, que o estudante,
fugindo-lhe das mãos, afastou-se com um gesto de repugnância e desprezo, enquanto
o velho lhe dizia em voz comprimida: — Olha! Espera! Vem cá! Você é desconfiado!... III
Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua
infinidade de portas e janelas alinhadas. Um acordar alegre e farto de quem dormiu de
uma assentada sete horas de chumbo. Como que se sentiam ainda na indolência de
neblina as derradeiras notas da última guitarra da noite antecedente, dissolvendo-se à
luz loura e tenra da aurora, que nem um suspiro de saudade perdido em terra alheia.
ALUÍSIO AZEVEDO • 35 • A roupa lavada, que ficara de véspera nos coradouros,
umedecia o ar e punha-lhe um farto acre de sabão ordinário. As pedras do chão,
esbranquiçadas no lugar da lavagem e em alguns pontos azuladas pelo anil,
mostravam uma palidez grisalha e triste, feita de acumulações de espumas secas.
Entretanto, das portas surgiam cabeças congestionadas de sono; ouviam-se amplos
bocejos, fortes como o marulhar das ondas; pigarreava-se grosso por toda a parte;
começavam as xícaras a tilintar; o cheiro quente do café aquecia, suplantando todos
os outros; trocavam-se de janela para janela as primeiras palavras, os bons-dias;
reatavam-se conversas interrompidas à noite; a pequenada cá fora traquinava já, e lá
dentro das casas vinham choros abafados de crianças que ainda não andam. No
confuso rumor que se formava, destacavam-se risos, sons de vozes que altercavam,
sem se saber onde, grasnar de marrecos, cantar de galos, cacarejar de galinhas. De
alguns quartos saíam mulheres que vinham pendurar cá fora, na parede, a gaiola do
papagaio, e os louros, à semelhança dos donos, cumprimentavam-se ruido samente,
espanejando-se à luz nova do dia. Daí a pouco, em volta das bicas era um zunzum
crescente; uma aglo meração tumultuosa de machos e fêmeas. Uns, após outros,
lavavam a cara, incomodamente, debaixo do fio de água que escorria da altura de uns
cinco palmos. O chão inundava-se. As mulheres precisavam já prender as saias entre
as coxas para não as molhar; via-se-lhes a tostada nudez dos braços e do pescoço,
que elas despiam, suspendendo o cabelo todo para o alto do casco; os homens, esses
não se preocupavam em não molhar o pelo, ao contrário metiam a cabeça bem
debaixo da água e esfregavam com força as ventas e as barbas, fossando e fungando
contra as palmas da mão. As portas das latrinas não descansavam, era um abrir e
fechar de cada instante, um entrar e sair sem tréguas. Não se demoravam lá dentro e
vinham ainda amarrando as calças ou as saias; as crianças não se davam ao trabalho
de lá ir, despachavam-se ali mesmo, no capinzal dos fundos, por detrás da estalagem
ou no recanto das hortas. O rumor crescia, condensando-se; o zunzum de todos os
dias acentuava-se; já se não destacavam vozes dispersas, mas um só ruído com pacto
que enchia todo o cortiço. Começavam a fazer compras na venda; ensarilhavam-se
discussões e rezingas; ouviam-se gargalhadas e pragas; já se não falava, gritava-se.
Sentia-se naquela fermentação sanguínea, naquela • 36 • O CORTIÇO gula viçosa de
plantas rasteiras que mergulham os pés vigorosos na lama preta e nutriente da vida, o
prazer animal de existir, a triunfante satisfação de respirar sobre a terra. Da porta da
venda que dava para o cortiço iam e vinham como formigas; fazendo compras. Duas
janelas do Miranda abriram-se. Apareceu numa a Isaura, que se dispunha a começar a
limpeza da casa. — Nhá Dunga! gritou ela para baixo, a sacudir um pano de mesa; se
você tem cuscuz de milho hoje, bata na porta, ouviu? A Leonor surgiu logo também,
enfiando curiosa a carapinha por entre o pescoço e o ombro da mulata. O padeiro
entrou na estalagem, com a sua grande cesta à cabeça e o seu banco de pau fechado
debaixo do braço, e foi estacionar em meio do pátio, à espera dos fregueses, pousando
a canastra sobre o cavalete que ele armou prontamente. Em breve estava cercado por
uma nuvem de gente. As crianças adulavam-no, e, à proporção que cada mulher ou
cada homem recebia o pão, disparava para casa com este abraçado contra o peito.
Uma vaca, seguida por um bezerro amordaçado, ia, tilintando tristemente o seu
chocalho, de porta em porta, guiada por um homem carregado de vasilhame de folha.
O zunzum chegava ao seu apogeu. A fábrica de massas italianas, ali mesmo da
vizinhança, começou a trabalhar, engrossando o barulho com o seu arfar monótono de
máquina a vapor. As corridas até à venda reproduziam-se, transformando-se num
verminar constante de formigueiro assanhado. Agora, no lugar das bicas apinhavam-se
latas de todos os feitios, sobressaindo as de querosene com um braço de madeira em
cima; sentia-se o trapejar da água caindo na folha. Algumas lavadeiras enchiam já as
suas tinas; outras esten diam nos coradouros a roupa que ficara de molho. Principiava
o trabalho. Rompiam das gargantas os fados portugueses e as modinhas brasileiras.
Um carroção de lixo entrou com grande barulho de rodas na pedra, seguido de uma
algazarra medonha algaraviada pelo carroceiro contra o burro. E, durante muito tempo,
fez-se um vaivém de mercadores. Apareceram os tabuleiros de carne fresca e outros
de tripas e fatos de boi; só não vinham hortaliças, porque havia muitas hortas no
cortiço. Vieram os ruidosos mas cates, com as suas latas de quinquilharia, com as
suas caixas de candeeiros e objetos de vidro e com o seu fornecimento de caçarolas e
chocolateiras, ALUÍSIO AZEVEDO • 37 • de folha de flandres. Cada vendedor tinha o
seu modo especial de apregoar, destacando-se o homem das sardinhas, com as
cestas do peixe dependu radas, à moda de balança, de um pau que ele trazia ao
ombro. Nada mais foi preciso do que o seu primeiro guincho estridente e gutural para
surgirem logo, como por encanto, uma enorme variedade de gatos, que vieram cor
rendo acercar-se dele com grande familiaridade, roçando-se-lhe nas pernas
arregaçadas e miando suplicantemente. O sardinheiro os afastava com o pé, enquanto
vendia o seu peixe à porta das casinhas, mas os bichanos não desistiam e
continuavam a implorar, arranhando os cestos que o homem cui dadosamente tapava
mal servia ao freguês. Para ver-se livre por um instante dos importunos era necessário
atirar para bem longe um punhado de sardi nhas, sobre o qual se precipitava logo, aos
pulos, o grupo dos pedinchões. A primeira que se pôs a lavar foi a Leandra, por alcunha
a “Machona”, portuguesa feroz, berradora, pulsos cabeludos e grossos, anca de
animal do campo. Tinha duas filhas, uma casada e separada do marido, Ana das
Dores, a quem só chamavam a “das Dores” e outra donzela ainda, a Neném, e mais um
filho, o Agostinho, menino levado dos diabos, que gritava tanto ou melhor que a mãe. A
das Dores morava em sua casinha à parte, mas toda a família habitava no cortiço.
Ninguém ali sabia ao certo se a Machona era viúva ou desquitada; os filhos não se
pareciam uns com os outros. A das Dores, sim, afirmavam que fora casada e que
largara o marido para meter-se com um homem do comércio; e que este, retirando-se
para a terra e não querendo soltá-la ao desamparo, deixara o sócio em seu lugar. Teria
vinte e cinco anos. Neném dezessete. Espigada, franzina e forte, com uma proazinha
de orgulho da sua virgindade, escapando como enguia por entre os dedos dos rapazes
que a queriam sem ser para casar. Engomava bem e sabia fazer roupa branca de
homem com muita perfeição. Ao lado da Leandra foi colocar-se à sua tina a Augusta
Carne-Mole, bra sileira, branca, mulher de Alexandre, um mulato de quarenta anos,
soldado de polícia, pernóstico, de grande bigode preto, queixo sempre escanhoado e
um luxo de calças brancas engomadas e botões limpos na farda, quando estava de
serviço. Também tinham filhos, mas ainda pequenos, um dos quais, a Juju, vivia na
cidade com a madrinha que se encarregava dela. Esta • 38 • O CORTIÇO madrinha era
uma cocote de trinta mil-réis para cima, a Léonie, com sobrado na cidade.
Procedência francesa. Alexandre, em casa, à hora de descanso, nos seus chinelos e na
sua camisa desabotoada, era muito chão com os companheiros de estalagem,
conversava, ria e brincava, mas envergando o uniforme, encerando o bigode e
empunhando a sua chibata, com que tinha o costume de fustigar as calças de brim,
ninguém mais lhe via os dentes e então a todos falava teso e por cima do ombro. A
mulher, a quem ele só dava tu quando não estava fardado, era de uma honestidade
proverbial no cortiço, honestidade sem mérito, porque vinha da indolência do seu
temperamento e não do arbítrio do seu caráter. Junto dela pôs-se a trabalhar a
Leocádia, mulher de um ferreiro cha mado Bruno, portuguesa pequena e socada, de
carnes duras, com uma fama terrível de leviana entre as suas vizinhas. Seguia-se a
Paula, uma cabocla velha, meio idiota, a quem respeitavam todos pelas virtudes de
que só ela dispunha para benzer erisipelas e cortar febres por meio de rezas e
feitiçarias. Era extremamente feia, grossa, triste, com olhos desvairados, dentes
cortados à navalha, formando ponta, como dentes de cão, cabelos lisos, escorridos e
ainda retintos apesar da idade. Chamavam-lhe “Bruxa”. Depois seguiam-se a Marciana
e mais a sua filha Florinda. A primeira, mulata antiga, muito séria e asseada em
exagero: a sua casa estava sempre úmida das consecutivas lavagens. Em lhe
apanhando o mau humor punha-se logo a espanar, a varrer febrilmente, e, quando a
raiva era grande, corria a buscar um balde de água e descarregava-o com fúria pelo
chão da sala. A filha tinha quinze anos, a pele de um moreno quente, beiços sensuais,
bonitos dentes, olhos luxuriosos de macaca. Toda ela estava a pedir homem, mas
sustentava ainda a sua virgindade e não cedia, nem à mão de Deus Padre, aos rogos de
João Romão, que a desejava apanhar a troco de pequenas concessões na medida e no
peso das compras que Florinda fazia diariamente à venda. Depois via-se a velha Isabel,
isto é, Dona Isabel, porque ali na esta lagem lhes dispensavam todos certa
consideração, privilegiada pelas suas maneiras graves de pessoa que já teve
tratamento: uma pobre mulher comida de desgostos. Fora casada com o dono de uma
casa de chapéus, que quebrou e suicidou-se, deixando-lhe uma filha muito doentinha
e fraca, a ALUÍSIO AZEVEDO • 39 • quem Isabel sacrificou tudo para educar, dando-lhe
mestre até de francês. Tinha uma cara macilenta de velha portuguesa devota, que já foi
gorda, bochechas moles de pelancas rechupadas, que lhe pendiam dos cantos da
boca como saquinhos vazios; fios negros no queixo, olhos castanhos, sempre
chorosos engolidos pelas pálpebras. Puxava em bandós sobre as fontes o escasso
cabelo grisalho untado de óleo de amêndoas doces. Quando saía à rua punha um
eterno vestido de seda preta, achamalotada, cuja saia não fazia rugas, e um xale
encarnado que lhe dava a todo o corpo um feitio pira midal. Da sua passada grandeza
só lhe ficara uma caixa de rapé de ouro, na qual a inconsolável senhora pitadeava
agora, suspirando a cada pitada. A filha era a flor do cortiço. Chamavam-lhe Pombinha.
Bonita, posto que enfermiça e nervosa ao último ponto; loura, muito pálida, com uns
modos de menina de boa família. A mãe não lhe permitia lavar, nem engomar, mesmo
porque o médico a proibira expressamente. Tinha o seu noivo, o João da Costa, moço
do comércio, estimado do patrão e dos colegas, com muito futuro, e que a adorava e
conhecia desde pequenita; mas Dona Isabel não queria que o casamento se fizesse já.
É que Pombinha, orçando aliás pelos dezoito anos, não tinha ainda pago à natu reza o
cruento tributo da puberdade, apesar do zelo da velha e dos sacrifícios que esta fazia
para cumprir à risca as prescrições do médico e não faltar à filha o menor desvelo. No
entanto, coitadas! Daquele casamento dependia a felicidade de ambas, porque o
Costa, bem empregado como se achava em casa de um tio seu, de quem mais tarde
havia de ser sócio, tencionava, logo que mudasse de estado, restituí-las ao seu
primitivo círculo social. A pobre velha desesperava-se com o fato e pedia a Deus, todas
as noites, antes de dormir, que as protegesse e conferisse à filha uma graça tão
simples que ele fazia, sem distinção de merecimento, a quantas raparigas havia pelo
mundo; mas, a despeito de tamanho empenho, por coisa nenhuma desta vida
consentiria que a sua pequena casasse antes de “ser mulher”, como dizia ela. E “que
deixassem lá falar o doutor, entendia que não era decente, nem tinha jeito, dar homem
a uma moça que ainda não fora visitada pelas regras! Não! Antes vê-la solteira toda a
vida e ficarem ambas curtindo para sempre aquele inferno da estalagem!” • 40 • O
CORTIÇO Lá no cortiço estavam todos a par desta história; não era segredo para
ninguém. E não se passava um dia que não interrogassem duas e três vezes a velha
com estas frases: — Então? Já veio? — Por que não tenta os banhos de mar? — Por que
não chama outro médico? — Eu, se fosse a senhora, casava-os assim mesmo! A velha
respondia dizendo que a felicidade não se fizera para ela. E sus pirava resignada.
Quando o Costa aparecia depois da sua obrigação para visitar a noiva, os moradores
da estalagem cumprimentavam-no em silêncio com um respeitoso ar de lástima e
piedade, empenhados tacitamente por aquele cai porismo, contra o qual não valiam
nem mesmo as virtudes da Bruxa. Pombinha era muito querida por toda aquela gente.
Era quem lhe escrevia as cartas; quem em geral fazia o rol para as lavadeiras; quem
tirava as contas; quem lia o jornal para os que quisessem ouvir. Prezavam-na com
muito respeito e davam-lhe presentes, o que lhe permitia certo luxo relativo. Andava
sempre de botinhas ou sapatinhos com meias de cor, seu vestido de chita engomado;
tinha as suas joiazinhas para sair à rua, e, aos domingos, quem a encontrasse à missa
na igreja de São João Batista, não seria capaz de desconfiar que ela morava em cortiço.
Fechava a fila das primeiras lavadeiras, o Albino, um sujeito afeminado, fraco, cor de
espargo cozido e com um cabelinho castanho, deslavado e pobre, que lhe caía, numa
só linha, até ao pescocinho mole e fino. Era lavadeiro e vivia sempre entre as mulheres,
com quem já estava tão familiarizado que elas o tratavam como a uma pessoa do
mesmo sexo; em presença dele falavam de coisas que não exporiam em presença de
outro homem; faziam-no até con fidente dos seus amores e das suas infidelidades,
com uma franqueza que o não revoltava, nem comovia. Quando um casal brigava ou
duas amigas se disputavam, era sempre Albino quem tratava de reconciliá-los,
exortando as mulheres à concórdia. Dantes encarregava-se de cobrar o rol das
colegas, por amabilidade; mas uma vez, indo a uma república de estudantes, deram-
lhe lá, ninguém sabia por quê, uma dúzia de bolos, e o pobre-diabo jurou então, entre
lágrimas e soluços, que nunca mais se incumbiria de receber os róis. ALUÍSIO
AZEVEDO • 41 • E daí em diante, com efeito, não arredava os pezinhos do cortiço, a
não ser nos dias de carnaval, em que ia, vestido de dançarina, passear à tarde pelas
ruas e à noite dançar nos bailes dos teatros. Tinha verdadeira paixão por esse
divertimento; ajuntava dinheiro durante o ano para gastar todo com a mascarada. E
ninguém o encontrava, domingo ou dia de semana, lavando ou descansando, que não
estivesse com a sua calça branca engomada, a sua camisa limpa, um lenço ao
pescoço, e, amarrado à cinta, um avental que lhe caía sobre as pernas como uma saia.
Não fumava, não bebia espíritos e trazia sempre as mãos geladas e úmidas. Naquela
manhã levantara-se ainda um pouco mais lânguido que do costume, porque passara
mal a noite. A velha Isabel, que lhe ficava ao lado esquerdo, ouvindo-o suspirar com
insistência, perguntou-lhe o que tinha. Ah! Muita moleza de corpo e uma pontada do
vazio que o não deixava! A velha receitou diversos remédios, e ficaram os dois, no meio
de toda aquela vida, a falar tristemente sobre moléstias. E, enquanto, no resto da
fileira, a Machona, a Augusta, a Leocádia, a Bruxa, a Marciana e sua filha conversavam
de tina a tina, berrando e quase sem se ouvirem, a voz um tanto cansada já pelo
serviço, defronte delas, separado pelos jiraus, formava-se um novo renque de
lavadeiras, que acudiam de fora, carregadas de trouxas, e iam ruidosamente tomando
lugar ao lado umas das outras, entre uma agitação sem tréguas, onde se não distinguia
o que era galhofa e o que era briga. Uma a uma ocupavam-se todas as tinas. E de todos
os casulos do cortiço saíam homens para as suas obrigações. Por uma porta que havia
ao fundo da estalagem desapare ciam os trabalhadores da pedreira, donde vinha agora
o retinir dos alviões e das picaretas. O Miranda, de calças de brim, chapéu alto e
sobrecasaca preta, passou lá fora, em caminho para o armazém, acompanhado pelo
Henrique que ia para as aulas. O Alexandre, que estivera de serviço essa madrugada,
entrou solene, atravessou o pátio, sem falar a ninguém, nem mesmo à mulher, e
recolheu-se à casa, para dormir. Um grupo de mascates, o Delporto, o Pompeo, o
Francesco e o Andréa, armado cada qual com a sua grande caixa de bugigangas, saiu
para a peregrinação de todos os dias, altercando e praguejando em italiano. Um
rapazito de paletó entrou da rua e foi perguntar à Machona pela Nhá Rita. • 42 • O
CORTIÇO — A Rita Baiana? Sei cá! Faz amanhã oito dias que ela arribou! A Leocádia
explicou logo que a mulata estava com certeza de pândega com o Firmo. — Que
Firmo? interrogou Augusta. — Aquele cabravasco que se metia às vezes aí com ela. Diz
que é torneiro. — Ela mudou-se? perguntou o pequeno. — Não, disse a Machona; o
quarto está fechado, mas a mulata tem coisas lá. Você o que queria? — Vinha buscar
uma roupa que está com ela. — Não sei, filho, pergunta na venda ao João Romão, que
talvez te possa dizer alguma coisa. — Ali? — Sim, pequeno, naquela porta, onde a preta
do tabuleiro está ven dendo! Ó diabo! olha que pisas a boneca de anil! Já se viu que
sorte? Parece que não vê onde pisa este raio de criança! E, notando que o filho, o
Agostinho, se aproximava para tomar o lugar do outro que já se ia: — Sai daí, tu
também, peste! Já principias na reinação de todos os dias? Vem para cá, que levas!
Mas, é verdade, que fazes tu que não vais regar a horta do Comendador? — Ele disse
ontem que eu agora fosse à tarde, que era melhor. — Ah! E amanhã, não te esqueças,
recebe os dois mil-réis, que é fim do mês. Olha! Vai lá dentro e diz a Neném que te
entregue a roupa que veio ontem à noite. O pequeno afastou-se de carreira, e ela lhe
gritou na pista: — E que não ponha o refogado no fogo sem eu ter lá ido! Uma conversa
cerrada travara-se no resto da fila de lavadeiras a res peito da Rita Baiana. — É doida
mesmo!... censurava Augusta. Meter-se na pândega sem dar conta da roupa que lhe
entregaram... Assim há de ficar sem um freguês... — Aquela não endireita mais!... Cada
vez fica até mais assanhada!... Parece que tem fogo no rabo! Pode haver o serviço que
houver, aparecendo pagode, vai tudo pro lado! Olha o que saiu o ano passado com a
festa da Penha!... ALUÍSIO AZEVEDO • 43 • — Então agora, com este mulato, o Firmo, é
uma pouca-vergonha! Est’ro dia, pois você não viu? Levaram aí numa bebedeira, a
dançar e cantar à viola, que nem sei o que parecia! Deus te livre! — Para tudo há horas
e há dias!... — Para a Rita todos os dias são dias santos! A questão é aparecer quem
puxe por ela! — Ainda assim não é má criatura... Tirante o defeito da vadiagem... —
Bom coração tem ela, até demais, que não guarda um vintém pro dia de amanhã.
Parece que o dinheiro lhe faz comichão no corpo! — Depois é que são elas!... O João
Romão já lhe não fia! — Pois olhe que a Rita lhe tem enchido bem as mãos; quando ela
tem dinheiro é porque o gasta mesmo! E as lavadeiras não se calavam, sempre a
esfregar, e a bater, e a torcer camisas e ceroulas, esfogueadas já pelo exercício. Ao
passo que, em torno da sua tagarelice, o cortiço se embandeirava todo de roupa
molhada, de onde o sol tirava cintilações de prata. Estavam em dezembro e o dia era
ardente. A grama dos coradouros tinha reflexos esmeraldinos; as paredes que davam
frente ao nascente, caia dinhas de novo, reverberavam iluminadas, ofuscando a vista.
Em uma das janelas da sala de jantar do Miranda, Dona Estela e Zulmira, ambas
vestidas de claro e ambas a limarem as unhas, conversavam em voz surda, indife
rentes à agitação que ia lá embaixo, muito esquecidas na sua tranquilidade de entes
felizes. Entretanto, agora o maior movimento era na venda à entrada da esta lagem.
Davam nove horas e os operários das fábricas chegavam-se para o almoço. Ao balcão
o Domingos e o Manuel não tinham mãos a medir com a criadagem da vizinhança; os
embrulhos de papel amarelo sucediam-se, e o dinheiro pingava sem intermitência
dentro da gaveta. — Meio quilo de arroz! — Um tostão de açúcar! — Uma garrafa de
vinagre! — Dois martelos de vinho! — Dois vinténs de fumo! — Quatro de sabão! E os
gritos confundiam-se numa mistura de vozes de todos os tons. • 44 • O CORTIÇO
Ouviam-se protestos entre os compradores: — Me avie, seu Domingos! Eu deixei a
comida no fogo! — Ó peste! Dá cá as batatas, que eu tenho mais o que fazer! — Seu
Manuel, não me demore essa manteiga! Ao lado, na casinha de pasto, a Bertoleza, de
saias arrepanhadas no qua dril, o cachaço grosso e negro, reluzindo de suor, ia e vinha
de uma panela à outra, fazendo pratos, que João Romão levava de carreira aos
trabalhadores assentados num compartimento junto. Admitira-se um novo caixeiro, só
para o frege, e o rapaz, a cada comensal que ia chegando, recitava, em tom can tado e
estridente, a sua interminável lista das comidas que havia. Um cheiro forte de azeite
frito predominava. O parati circulava por todas as mesas, e cada caneca de café, de
louça espessa, erguia um vulcão de fumo tre sandando a milho queimado. Uma
algazarra medonha, em que ninguém se entendia! Cruzavam-se conversas em todas as
direções, discutia-se a berros, com valentes punhadas sobre as mesas. E sempre a
sair, e sempre a entrar gente, e os que saíam, depois daquela comezaina grossa, iam
radiantes de contentamento, com a barriga bem cheia, a arrotar. Num banco de pau
tosco, que existia do lado de fora, junto à parede e perto da venda, um homem, de
calça e camisa de zuarte, chinelos de couro cru, esperava, havia já uma boa hora,

Plantas que dissipam o vento e a humidade . ................................................ 64 Tabela


8 - Plantas que transformam a fleuma e travam a tosse . .................................... 65
Tabela 9 - Plantas aromáticas que transformam e dissolvem a humidade . ...................
66 Tabela 10 - Plantas que aliviam a estagnação dos alimentos, promovendo a digestão
.. 67 Tabela 11 - Plantas que regulam o Qi
............................................................................ 68 Tabela 12 - Plantas que regulam
o sangue. .................................................................... 69 Tabela 13 - Plantas que
aquecem o interior e expelem o frio......................................... 70 xvii Tabela 14 -
Plantas Tónicas. ........................................................................................... 71
Tabela 15 - Plantas Adstringentes, estabilizantes, substâncias âncora, escudo que
acalmam o espírito.
......................................................................................................... 72 Tabela 16 -
Plantas que nutrem o coração e acalmam o espírito. ................................... 73 Tabela
17 - Substâncias aromáticas que abrem os orifícios ........................................... 74
Tabela 18 - Substâncias que extinguem o vento e param tremores . ..............................
75 Tabela 19 - Plantas que expelem os parasitas
................................................................ 76 Tabela 20 - Substâncias de Aplicação
externa . ............................................................. 77 Índice de abreviaturas AVC-
Acidente Vascular Cerebral B- Baço Be – Bexiga C – Coração Co- Cólon E - Estômago F-
Fígado ID - Intestino Delgado MTC - Medicina Tradicional Chinesa P- Pulmão R - Rins
SNC- Sistema Nervoso Central xviii I. Introdução Antigamente eram utilizadas plantas e
seus extratos como base medicinal no tratamento e cura de doenças. Os extratos das
plantas eram e continuam a ser importantes para o ser humano, sendo a sua utilidade
preferencialmente medicinal. Contudo, ao longo dos anos algumas plantas medicinais
foram extintas, observando-se o aparecimento de novos géneros (Jr e Lien, 2013). Na
sociedade moderna, a Medicina Ocidental recorre a técnicas inovadoras, aparelhos
sofisticados, e diversos medicamentos com a finalidade de diagnóstico, no tratamento
e na prevenção das diversas doenças. A Medicina Tradicional Chinesa considera que a
natureza tem influência direta e natural no corpo humano (Yuan, et al., 2011). A
Medicina Tradicional Chinesa (MTC) é uma ciência muito antiga e dotada de
conhecimento fundamentado na experiência empírica acumulada. A MTC tem uma
visão da prevenção, do diagnóstico e do tratamento, baseada em várias teorias
relacionadas com a natureza e o corpo humano (Yuan, et al., 2011). No entanto,
existem algumas divergências nessas teorias, e entre autores. James (2013) e Tierra
(1998) citam que a MTC foca-se essencialmente na teoria de Yin Yang e na teoria de Qi,
que são amplamente conhecidas (Jr e Lien, 2013; Tierra, 1998). Yuan (2011) menciona
que na prevenção, no diagnóstico e no tratamento das doenças devem ser aplicadas 8
teorias: teoria de Yin Yang, teoria dos movimentos /mudanças entre os cinco
elementos; teoria de Qi/Xie e Jinze; teoria de canais e colaterais, teoria da causa e
ocorrência de doenças; teoria da patogenicidade, teoria de princípios de 1 prevenção e
tratamento de doenças. Irá sempre haver pessoas com opiniões divergentes (Yuan, et
al., 2011). Hui (2001) relaciona Medicina Tradicional Chinesa com a cultura / filosofia
chinesa. Utiliza conceitos e teorias como por exemplo o Holismo, o método de
identificação e a teoria dos cinco elementos (Hui, 2001). Zhang e colaboradores (2014)
refere que a Medicina Traditional Chinesa têm teorias orginais com base na etologia, no
diagnóstico e no tratamento, com base no conceito antigo: o holismo. É um processo
continuo hierárquico, que resulta em sinais e sintomas de todo o corpo humano. Inclui
assim os orgãos, os canais e colaterais, o Qi, o sangue, o Yin Yang (Zhang, et al., 2014).
Este trabalho tem o intuito de aprofundar o conhecimento sobre fitoterapia chinesa,
principiando por uma breve explicação sobre a MTC e o seu mecanismo. A Medicina
Tradicional Chinesa tem várias áreas de estudo e de tratamentos, são elas: Tui Na ou
Tuina; acupuntura; moxabustão; ventosaterapia; fitoterapia chinesa; dietética chinesa;
exercícios energéticos (Keji e Hao, 2003). Atualmente a fitoterapia chinesa começa a
ser mais divulgada e, por consequência, mais utilizada, por todos os que procuram
uma terapêutica alternativa ou complementar à Medicina Convencional (Keji e Hao,
2003). 2 II. Definição de Qi “Qi é a raiz do ser Humano” (Yuan, et al., 2011) Qi é o
conceito mais básico e ao mesmo tempo mais complexo de descrever na Medicina
Tradicional Chinesa. Tanto pode ser material como imaterial, auxiliando a relação entre
o universo e o ser humano. Qi é a uma energia que se vai manifestar simultaneamente
a nível físico e espiritual, podendo sofrer vários estados de agregação (Maciocia, 2001).
Zhanwen Liu (2010) cita que no contexto mais básico o Qi e o corpo humano são um
só. Existem várias formas de Qi se manifestar como uma essência vital, poder
digestivo, energia reprodutiva, força, crescimento, etc (Tierra, 1998; Liu, 2010). Tierra
(1998) refere que Qi é gerado pelo corpo humano por três fontes: essência pré-céu;
essência pós-céu, ar expirado e inspirado proveniente dos Pulmões. A essência pré-
céu vai representar toda a força hereditária, podendo ter outro nome como Qi original,
Qi pré-natal ou Qi inato. A essência pós-céu representa o pós nascimento do ser
humano, influenciado pelo ar, comida e Água. Também vai ser influenciado pelo stress,
emocionalmente e psicologicamente. Este Qi pode ser chamado por Qi comida ou Qi
central. O ar expirado e inspirado pode ser chamado de Qi ar natural ou Qi peitoral
(Tierra, 1998). Yuan e colaboradores (2011) cita que Qi pode tanto substancial (Qi
Fonte, Qi Peitoral, Qi Nutritivo, Qi Defensivo, Qi Limpo, Qi dissipação) como funcional
(Qi Coração, Qi Fígado, Qi Baço, Qi Pulmão, Qi Rim, Qi Estômago) (Yuan, et al., 2011).
No entanto, existe concordância geral que o Qi é a substância principal quer do
universo quer do corpo humano, que vai fazer com que haja formação do corpo
humano, crescimento e ação (Yao, et al., 2013). 3 As funções básicas de Qi são: 
Promover o crescimento e o desenvolvimento do organismo humano e acelerar a
formação e circulação de sangue;  Ativar o aquecimento para aumentar o calor
corporal e manter o equilíbrio da temperatura;  Proteger contra patogénicos; 
Assegurar, controlar e conduzir a secreção de materiais líquidos como o suor, a urina,
a saliva;  Metabolizar as principais substâncias como a energia vital, Xie / Sangue e
Jinye. 4 III. Teoria de Yin Yang Na China, existem três religiões: o confucionismo, o
budismo e o taoismo. O confucionismo provém de Confúcio que englobou valores
sociais, éticos, políticos, morais e religiosos na religião chinesa. O budismo foi a
religião que se implementou com maior rapidez na cultura chinesa, pois tem princípios
como a reencarnação da vida, altruísmo, bondade, generosidade e compaixão. O
taoismo é a religião mais presente na cultura chinesa, dotada de misticismos e
metafisica. Referencia-se o taoismo como uma corrente de grandes movimentos,
empírica (taoismo filosófico), dotada de passado (influências budistas - taoismo
religioso), dinâmica, uma força vital, inexprimível no que se refere a palavras e atos
(Herne, 2001; Weber, 1951). O Taoismo age de acordo com a natureza envolvente,
entende que as coisas têm um ciclo de vida, um equilíbrio, são interdependentes,
dotadas em constante mudança, de dualismo. O seu princípio básico é a teoria de Yin
Yang, a filosofia básica da Medicina Tradicional Chinesa (Herne, 2001; Weber, 1951). O
Yin Yang, é o sinónimo de dualismo, de equilíbrio, de interdependência, de
transformação. Quando se remete este equilíbrio para a Medicina Tradicional Chinesa,
está associado o equilíbrio do corpo humano e, para que haja esse equilíbrio, tem que
ter presente o Yin Yang (Guoan Luo, et al., 2012; Legge, 2014). O Yin Yang é uma
filosofia chinesa que vai ser o principal auxiliar na ajuda do diagnóstico, tratamento e
prevenção em Medicina Tradicional Chinesa. Tem uma conceção de equilíbrio e de
harmonia (Maciocia, 2001). Esta teoria vai provocar mudanças no corpo humano para
que se mantenha equilíbrio. Caso este não ocorra, vão-se manifestar sintomas
provenientes de doença, sendo que para tratar esse sintoma têm que se estabelecer
novamente um equilíbrio (Jr e Lien, 2013; Ko, et al., 2004). 5 O Yin inicialmente
significava o lado sombreado da colina (figura 3 e figura 4), Yang indicaria o lado
ensolarado da colina (figura 3 e figura 5). As figuras 1 e 2 abaixo indicam os símbolos de
Yin Yang. Encontra-se assim o que representa Yin e Yang em conjunto e
separadamente (Wu, 2005). Os símbolos abaixo representam o Yin Yang: Figura 1 - Yin
(Maciocia, 2001). Figura 2 – Yang (Maciocia, 2001). Figura 3 - Representação em Chinês
de montanha ou colina. (Maciocia, 2001). Figura 4 - Representação em Chinês de
Nuvem. (Maciocia, 2001). Figura 5 - Representação em Chinês de Sol no horizonte.
(Maciocia, 2001) Figura 4 - Representação em Chinês de Sol. (Maciocia, 2001) 6 Ao
desmembrar as figuras verifica-se que no carácter de Yin se visualiza uma montanha
(figura 3), uma nuvem (figura 4) e sol (figura 6). Carácter de Yang vai representar
novamente a montanha (figura 3), o sol no horizonte (figura 5). Yin Yang em chinês
mostra o que realmente representa, pois pode-se assim associar que Yang é o ciclo
novo, com o aparecimento da luz, da montanha, mesmo do horizonte, enquanto que
em Yin, está presente a sombra do sol atrás da nuvem, a montanha, podendo também
representar a sombra e o desconhecido (Maciocia, 2001 Ping, 2002;). Por isso, o Yin
Yang tem, na sua filosofia, uma dualidade no tempo, efetuando movimentos cíclicos
com máximos e mínimos entre o universo. Giovanni Maciocia (2001) afirma a
existência desses mesmos movimentos cíclicos, com fim no máximo ou em mínimo,
dando origem a um novo equilíbrio, a um novo dia, alternando assim entre Yin ou Yang
(Eckman, 2002; Maciocia, 2001;). Yin representa o início e o fim da noite. Quando Yin se
encontra no máximo está perante o máximo de noite. Em Yang vai acontecer a mesma
coisa. Yang representa o início do dia e o fim do dia, quando presentes ao máximo do
dia, está no máximo de Yang. Yin Yang é um processo de mudança constante que
sequencialmente se encontram em ascensão e outras vezes em declínio (Maciocia,
2001). A Figura 7 indica que o branco é representando pelo Yang e o preto pelo Yin. Em
ambos existe uma semente. Assim verifica-se que Yin se encontra dentro de Yang e
Yang encontra-se dentro de Yin. Nenhum fenómeno que ocorra na natureza nem no
corpo humano ocorre isoladamente, encontram-se interligados, em mudança, em
equilíbrio dinâmico (Liu, 2010; Ko e Leung, 2007; Yuen e Gohel, 2008). 7 Figura 5 - Yin
Yang (Maciocia, 2001). Tabela 1- Qualidades Yin Yang (Maciocia, 2001). 8 1. Yin Yang
opostos Yin Yang são opostos, mas nada é totalmente Yin nem Yang. Estes têm uma
interação mútua, onde se verifica movimentos cíclicos com interação com a natureza.
Assim pode-se ter fenómenos em Yin: o inferior, o frio, a Água, a matéria a contração, e
em Yang: o superior, o quente, o Fogo, a energia, a expansão e o funcional (Tabela 1).
Encontram-se presentes na natureza formando um ciclo fechado (Tabela 1). Esta
encontra-se em equilíbrio com o frio e o quente, o dia e a noite, o céu e a Terra, a
energia e a matéria, a direita e a esquerda, estão em equilíbrio dinâmico com o corpo
humano. O corpo humano encontra-se acordado por parte de Yang ao longo do dia, é
capaz de trabalhar, estudar. Yin vai ser dominante durante a noite, provocando inibição
no corpo humano e este vai ter vontade de dormir (Maciocia, 2001; Ping, 2002). Com
Yin Yang em sintonia as atividades do corpo humano e da natureza estão
interrelacionadas e são mantidas em normal funcionalidade. Este ciclo não se
encontra em estado estático, mas está em equilíbrio dinâmico. Vão aumentando assim
uns aspetos e diminuindo outros (Liu, 2010; Ko e Leung, 2007). 2. Interdependência Yin
Yang Há interdependência entre Yin e Yang pois um não existe sem o outro, um não é
totalmente Yin nem o outro é totalmente Yang. Quando o ciclo de Yin está a terminar o
Yang está já a começar e vice-versa, e no Yang vai conter uma semente de Yin, no Yin
vai conter uma semente de Yang (Law e Kesti, 2014). Por exemplo, nas estações do ano
verifica-se a presença de Yin e Yang. Iniciando os últimos dias de inverno começa-se a
sentir e a ver fatores da nova estação que vai iniciar, a primavera. Quando termina o
verão começa-se a ter indícios do outono a chegar com a queda das folhas das
árvores. Da mesma forma a noite não existe sem o dia, o frio e o quente transformam-
se um no outro e vice-versa (Law e Kesti, 2014; Liu, 2010). 9 Juizham cita “Yi Guan Bian
·Yin Yang Lun - “Yin não pode ser produzido sem Yang, e Yang não pode ser gerado sem
Yin.”. O Yin e Yang são interdependentes e inseparáveis. Mas como em tudo, vão existir
desequilíbrios que vão provocar o consumo de um e a deficiência de outro causando
danos (no caso do corpo humano causa doença) (Liu, 2010). 3. Consumo mútuo entre
Yin Yang A existência de Yin só é possível com a existência de Yang, assim sem Yin não
haveria Yang. Este consumo mútuo é interrompido quando existem alterações
patológicas (Liu, 2010). O seu consumo é mútuo pois os níveis de Yin e Yang vão se
encontrar sempre em movimento sendo este harmonioso. Pode haver também
desequilíbrios nesses movimentos dando origem a 4 estados diferentes: Domínio de
Yin (figura 8), Domínio de Yang (figura 8), Défice de Yin (figura 8) e Défice de Yang (figura
8) (Law e Kesti, 2014). Figura 6 - Domínios e Défices Yin Yang. (Maciocia, 2001). Quando
se refere o excesso de Yin e a deficiência de Yang não se está a falar no mesmo estado,
pois quando tem o predomínio de Yin refere-se a um estado primário, o 10 seu excesso
consegue consumir o Yang. A deficiência de Yang representa um excesso aparente de
Yin pois refere-se a um estado secundário (Maciocia, 2001). Liu (2010) cita “quando é
extremo, o reversível é inevitável”, isto indica que quando um chega ao seu ponto
máximo de Yin ou Yang, esta é uma condição para que haja a transformação entre eles
(Liu, 2010). 4. Transformação entre Yin Yang Yin Yang não são estáticos, encontram-se
em equilíbrio dinâmico, então o Yin consegue-se transformar em Yang e Yang
transforma-se em Yin. Este fenómeno não acontece ao acaso (Liu, 2010). Quando o dia
caminha em direção à noite pode-se afirmar que Yang caminha para ser Yin. Mas isso
só acontece quando as condições são as adequadas para tal mudança (Liu, 2010).
Maciocia (2001), Tierra (1998), Lui (2010) citam que existem condicionantes para que
tal aconteça como por exemplo Maciocia (2001) coloca duas condições para que o Yin
se transforme em Yang, “As coisas só se podem transformar por causas internas e
secundariamente por causas externas. A transformação só tem lugar quando as
condições internas estão maduras. Por exemplo um ovo só se transforma em frango
por aplicação de calor porque o ovo contém dentro a capacidade de se produzir em
frango.” (Liu, 2010; Maciocia, 2001; Tierra, 1998). Yin Yang regem -se por um ciclo,
necessitam de tempo para se produzirem um no outro. Só quando as condições se
encontram maduras é que se podem transformar (Maciocia, 2001). 11 IV. Teoria dos
cincos elementos / Teoria Wu Xing Na Medicina Tradicional Chinesa a teoria dos cinco
elementos é de difícil compreensão. Esta teoria engloba interações dos diversos
elementos, e a sua aplicação vai dar início a uma nova era da Medicina Tradicional
Chinesa. A aplicação dessa teoria em MTC vem da altura do período do reino dos
combatentes. Os Filósofos e os Anciães utilizavam o seu mundo intuitivo e dedutivo
para conseguir extrair conclusões políticas. Os curandeiros usavam as suas técnicas
intuitivas em conjunto com a natureza para o tratamento das pessoas. Neste período,
a teoria dos 5 elementos e a sua aplicação em Medicina Tradicional Chinesa esteve em
uso, excluindo assim a teoria do Xamanismo (manifestações de mediunidade, utilizado
em práticas religiosas e mágicas, com intuito de cura, transe e transmutação) (
Maciocia, 2001; Mollier, 2008; Stern, 2014). A teoria dos 5 elementos concentra-se nas
relações interpessoais com a natureza, com o universo, relações intrapessoais,
existindo assim ligações energéticas entre eles. Estes são representados por: Fogo, a
Água, Madeira, Terra, e o Metal. (Chia, 1989). Consiste nas relações entre as quatro
estações e a Terra, com os planetas do sistema solar. Estão relacionados com os
pontos cardiais, interrelacionam -se com a teoria de Yin e Yang e principalmente estão
relacionados com os cinco órgãos principais para MTC (Chia, 1989). 1. Madeira Figura
Madeira. 7 (Tierra, 1998). - A Madeira (representada em chinês pela figura 9), vai iniciar
o ciclo dos cinco movimentos pois é a energia que aparece em primeiro lugar, é esta
que dá origem ao nascimento na etapa de transformação. Ela é o novo estado de Yang,
é a Madeira que representa a primavera, o nascimento, a floração, cria energia, é
expansiva (Chia, 1989; Leung e Xue, 2005; Liu, 2010; Maciocia, 2001; Tierra, 1998). 12
Representa o Este (nos pontos cardiais), a nível de cores esta associado ao verde, o
seu clima é o vento, em Yin e Yang representa o Yang Menor. Em relação aos órgãos
internos ou órgãos em Yin, a Madeira representa o Fígado. O Fígado é o órgão mais
complexo do corpo humano a nível de funções, logo é responsável pela
desintoxicação, filtração, alimentação e restauração do sangue, elimina as toxinas que
se encontram no sangue e elimina através da bílis. Este órgão é um dos mais
importantes para a MTC pois tem a capacidade de regular o Qi. Nos órgãos de Yang, a
Madeira representa a Vesícula Biliar, vai ter presente na sua constituição o que é
desperdiço da digestão (óleo e gorduras). A nível de sabor, a Madeira é azeda. No
entanto em MTC este sabor não é no sentido literal da palavra, e é utilizado para
fermentar a comida e ajudar na digestão (Chia, 1989; Leung e Xue, 2005; Liu, 2010;
Maciocia, 2001; Tierra, 1998). 2. Fogo Figura 8 - Fogo. (Tierra, 1998). O Fogo
(representada em chinês pela figura 10) representa a mobilidade ascendente, luz e
calor (clima). Em MTC tem uma função muito importante pois vai representar, nos
órgãos internos, o Coração. Este órgão é o principal, pois é o “motor” do corpo humano
(Chia, 1989; Leung e Xue, 2005; Liu, 2010; Maciocia, 2001; Tierra, 1998). No entanto, o
Fogo, nesta teoria, também está representado pelo Sul nos pontos cardiais. Este ponto
é o de maior exposição solar, por consequência representa o verão. Está associado à
cor vermelha (Chia, 1989; Leung e Xue, 2005; Liu, 2010; Maciocia, 2001; Tierra, 1998).
Nos órgãos internos é representado pelo órgão vital, o Coração, o mais importante, é
aquele que dá correspondência aos outros órgãos. É o órgão supremo em Yin, que
controla todos os aspetos do corpo humano, aspetos esses físicos e mentais. O órgão
em Yang que o Fogo representa é o Intestino Delgado, refletindo uma boa ou má
digestão por parte do organismo. Amargo é o sabor que vai representar o Fogo, este é o
paradoxo mais 13 notório na MTC. O elemento Fogo dá a noção de quente, calor,
contudo, é utilizado o amargo para desintoxicar e desinflamar o organismo humano
(Chia, 1989; Leung e Xue, 2005; Liu, 2010; Maciocia, 2001; Tierra, 1998). 3. Metal Figura
9 - Metal. (Tierra, 1998). O Metal (representada em chinês pela figura 11) é uma
metáfora na Medicina Tradicional Chinesa, pois na altura dos anciães, o Metal era bem
diferente da designação que apresenta atualmente. Na realidade, o nome comum do
Metal é manifestado por um material denso, igualmente vai corresponder ao outono
(estação do ano), altura de colheita, ao oeste (pontos cardiais) que representa o pôr do
sol, está associado ao branco (Chia, 1989; Leung e Xue, 2005; Liu, 2010; Maciocia,
2001; Tierra, 1998). O Metal dos cinco elementos é o elemento mais espiritual,
correspondendo ao ar inspirado e expirado, representado pelos Pulmões (órgão em
Yin). Em comparação com os cinco elementos, este é o elemento mais denso que
existe, ele está presente no ar que inspirado sendo importante na circulação de
oxigénio e de comida, e para nutrir o sangue (Chia, 1989; Leung e Xue, 2005; Liu, 2010;
Maciocia, 2001; Tierra, 1998). Nos órgãos de Yang o Metal representa o Cólon,
procedendo à eliminação das toxinas presentes no organismo humano. O Picante é o
sabor que o Metal representa nesta teoria indica os óleos voláteis e a sua eliminação
por parte da Bexiga (Chia, 1989; Leung e Xue, 2005; Liu, 2010; Maciocia, 2001; Tierra,
1998). 14 4. Água Figura 10 - Água. (Tierra, 1998). A Água (representada em chinês pela
figura 12) é a principal fonte do organismo humano, e em MTC vai ser um dos
elementos fundamentais. Está presente em todas as formas humanas existentes na
Terra. Encontra-se nos oceanos, nos rios, na natureza, na energia circundante. Assim,
encontra-se no organismo vai ter a função de lubrificar, nutrir, circular, todo o corpo
humano. Está também presente no Sangue, linfa e no Qi (Chia, 1989; Leung e Xue,
2005; Liu, 2010; Maciocia, 2001; Tierra, 1998). Em MTC a Água vai representar o inverno
(estação), é reconhecida por frio (clima). Associa-se o Preto relativamente à cor e
também associa-se humidade, movimentos descendentes e vai ser representada pelo
Norte (pontos cardiais) (Chia, 1989; Leung e Xue, 2005; Liu, 2010; Maciocia, 2001;
Tierra, 1998). A representação nos órgãos internos inclui o Rim, que regula a resposta
endócrina, mantendo o equilíbrio dos fluídos intra e extracelular, eliminando fluídos
com substâncias tóxicas para o organismo através da urina. O Rim é considerado
órgão em Yin. Em Yang está representada a Bexiga que é responsável pelo mecanismo
de eliminação das toxinas através da urina (Chia, 1989; Leung e Xue, 2005; Liu, 2010;
Maciocia, 2001; Tierra, 1998). A Água também representa o Salgado(Sabor) na MTC,
retendo todos os fluídos para a manutenção e sobrevivência do corpo humano, visto
este ser 80% constituído à base de Água (Chia, 1989; Leung e Xue, 2005; Liu, 2010;
Maciocia, 2001; Tierra, 1998). 15 5. Terra Figura 11 - Terra. (Tierra, 1998). A Terra
(representada em chinês pela figura 13) é o centro dos quatro elementos, como
também é o ponto neutro de todos os restantes elementos. É ela que suporta e que
promove a transformação das coisas na vida, que ajuda na última fase de
transformação e colheita para novamente entrar um novo ciclo. Por este facto pode-se
dizer que a Terra está presente no fim de cada estação, ajudando no restabelecimento
das energias. O seu clima é representado pela Humidade (Chia, 1989; Leung e Xue,
2005; Liu, 2010; Maciocia, 2001; Tierra, 1998). O órgão interno em Yin é o Baço, sendo
ele o elemento chave na transformação de comida e fluídos. O seu órgão em Yang é o
Estômago, sendo a sua função é receber a comida e fluidos e proceder à digestão com
a ajuda de enzimas (Chia, 1989; Leung e Xue, 2005; Liu, 2010; Maciocia, 2001; Tierra,
1998). Em relação ao sabor, este é referido como doce. O nosso organismo quando se
encontra desnutrido tem tendência para requerer alimentos doces para que estes
consigam restabelecer níveis de açúcar ditos normais para o bom funcionamento do
corpo. Por fim, a cor associada é o amarelo. Resumidamente encontra-se as
características de cada um dos elementos na tabela 2 (Chia, 1989; Leung e Xue, 2005;
Liu, 2010; Maciocia, 2001; Tierra, 1998). 16 17 Tabela 2 - Principais correspondências
dos 5 elementos (Adaptada por Maciocia,2001). Madeira Fogo Metal Água Terra
Estações Primavera Verão Outono Inverno “Nenhuma” Pontos Cardiais Este Sul Oeste
Norte Centro Cores Verde Vermelho Branco Preto Amarelo Sabores Ácido Amargo
Picante Salgado Doce Clima Vento Calor Seco Frio Humidade Etapas de
Transformação Nascimento Crescimento Colheira Armazena mento Transforma ção
Planetas Júpiter Marte Vénus Mercúrio Saturno Yin-Yang Yang Menor Yang Máximo Yin
Menor Yin Máximo Centro Órgãos em Yin Fígado Coração Pulmão Rim Baço Órgãos em
Yang Vesícula Biliar Intestino Delgado Cólon Bexiga Estômago 5 Sentidos Olhos Língua
Nariz Ouvidos Boca Tecidos Tendões Vasos Sanguíneos Pele Ossos Músculos
Emoções Cólera Alegria Preocupação Tristeza Medo Sons Grito Riso Choro Canto 6. Os
cinco elementos e as suas interações com a Medicina Tradicional Chinesa. Figura 134 -
Ciclo de Controlo. (Maciocia, 2001). Os cinco elementos possuem todos uma
característica independente, no entanto estão todos relacionados uns com os outros.
Macioccia (2001), cita que os cinco elementos têm presentes seis ciclos: ciclo
estacional (primavera, verão, outono, inverno e o “verão tardio”), ciclo cosmológico (os
elementos são numerados consoante a sua numerologia (1 - Água; 2 - Fogo; 3 -
Madeira; 4 - Metal; 5 - Terra; se somar a cada um, 5 valores, obtêm-se 6 - Água; 7 -
Fogo; 8 - Madeira; 9- Metal; 10 – Água). O ciclo de geração (representado pelas figuras
15 e 17) na qual está representado um elemento a gerar outro e assim sucessivamente.
A Terra gera o Metal, o Metal gera a Água, a Água gera a Madeira, a Madeira gera o Fogo
e voltando novamente ao inicio do ciclo na qual o Fogo gera a Terra. O ciclo de controlo
no qual (representado pela figura 14 e 17) um elemento vai ter controlo sobre o outro. A
Madeira controla Terra, a Terra controla a Água, a Água controla o Fogo, o Fogo controla
o Metal, o Metal controla a Madeira. Existe ainda o ciclo de exploração, o elemento
encontra-se em excesso sobre o outro, opondo-se. Assim, a Água vai-se opor ao Fogo,
o Fogo ao Metal, o Metal opõe-se à Madeira, a Madeira à Terra e a Terra à Água
(Maciocia, 2001; Tierra, 1998; Liu, 2010). Figura 125 - Ciclo de Exploração (Maciocia,
2001). 18 Figura 14 - Ciclo de Domínio ou Oposição (Maciocia, 2001). Caso os
equilíbrios quebrem, vai existir o ciclo da oposição (representado pelas figuras 16 e 17):
a Terra vai-se opor à Madeira, a Madeira vai-se opor ao Metal, o Metal vai-se opor ao
Fogo, o Fogo vai-se opor à Água e por fim a Água vai-se opor à Terra. Este ciclo só
acontece quando existe um desequilíbrio e só é reposto quando volta novamente o
equilíbrio a manter-se (Maciocia, 2001; Tierra, 1998; Liu, 2010). Figura 15 - Ciclo de
Geração, Ciclo de Controlo e Ciclo de Oposição (Beijing, 1980). O Coração (Fogo) é o
órgão mais importante quer do corpo humano quer da MTC, é este que produz o
sangue e controla a sua circulação. Este gere o Baço (Terra) que tem como função
transportar e transformar. Encontra-se na parte superior do corpo ou na parte superior
da Jiao em conjunto com o Pulmão (Metal). Na MTC, a Jiao é a divisão do corpo 19 em
três partes, a parte superior da Jiao que engloba o Diafragma o Coração e os Pulmões;
a Jiao média que vai estar contemplada toda a parte desde o Diafragma até ao Umbigo;
e a parte inferior ou baixa da Jiao é do Umbigo até ao Útero, englobando o Fígado, os
Rins, o Intestino e a Bexiga (Chia, 1989; Maciocia, 2001; Yuan, et al., 2011; Tierra, 1998;
Ping, 2002; Clinic, 2013). O Coração tem a função de controlar o Pulmão e a circulação
sanguínea transportando os nutrientes necessários às células, e também de aquecer o
corpo. Os dois órgãos vão estar em sintonia ajudando-se mutuamente. O Coração gere
a circulação sanguínea, o Pulmão gere a respiração e o oxigénio para nutrir as células.
No entanto, quando existe um desequilíbrio no Coração (Deficiência de Yang de
Coração / Deficiência de Yin de Coração), vai ocorrer um desequilíbrio no ciclo dos
órgãos. Assim, o Coração vai colocar o Pulmão em esforço, podendo secar os fluídos e
sendo este de natureza fria vai provocar a acumulação de mucosidades (Chia, 1989;
Maciocia, 2001; Yuan, et al., 2011; Tierra, 1998; Ping, 2002; Clinic, 2013). O Pulmão
(Metal) vai ser controlado pelo Coração, contudo é “mãe” dos Rins (Água). Controla a
dispersão e o metabolismo da Água. Como é um dos órgãos que se encontra mais alto
(parte superior da Jiao) o seu Qi, vai comunicar com o Qi do Rim, obrigando a Água que
se encontra na parte superior a descer ate aos Rins e Bexiga. O Rim é o criador do
Fígado (Madeira) (Chia, 1989; Maciocia, 2001; Yuan, et al., 2011; Tierra, 1998; Ping,
2002; Clinic, 2013). O Coração é a “mãe” do Baço, vai transportar o Qi do Coração
diretamente para o Baço para ajudar na transformação e transporte de nutrientes. O
Baço (Terra) controla o Rim (Água). Quer um quer outro têm a capacidade de
transformar líquidos orgânicos, pois o Rim vai ter a capacidade de filtrar, transformar e
excretar os líquidos, enquanto que o Baço com a ajuda da energia dos Pulmões tem a
capacidade de transformar e transportar os líquidos. No caso de haver algum
desequilíbrio o Baço vai-se opor ao Fígado quando está sujeito à humidade proveniente
dos Pulmões, pois o Baço gere o Pulmão. Com ajuda do Qi do Baço proveniente dos
nutrientes e o Qi do Pulmão oriundo 20 do ar, vai gerar Qi/ energia para o corpo (Chia,
1989; Maciocia, 2001; Yuan, et al., 2011; Tierra, 1998; Ping, 2002; Clinic, 2013). O
Pulmão (Metal) controla o Fígado (Madeira). O Pulmão faz com que haja uma normal
digestão e absorção dos nutrientes por parte do Fígado. O Fígado é responsável pelo
normal fluxo do ar, por regular o normal funcionamento da circulação sanguínea de
acordo com o seu desgaste psíquico ou emocional. É o Fígado o órgão que indica que
algo está errado ou em desequilíbrio por parte da “dor”. Quando isto acontece, o
Fígado vai-se opor ao Pulmão, estagnando a parte superior do corpo humano,
obstruindo o peito e a sua respiração (Chia, 1989; Maciocia, 2001; Yuan, et al., 2011;
Tierra, 1998; Ping, 2002; Clinic, 2013). O Fígado é responsável pelo controlo do
Estômago (Yin Terra) e pelo Baço (Yang Terra). Tem a capacidade de regular o Qi, de
ajudar o Estômago na digestão dos alimentos ajudando na sua decomposição e
maturação, e no Baço ajuda a transformar e a transportar os alimentos. Caso ocorra
um desequilíbrio no Estômago ou no Baço é provocado pelo Fígado dando origem a
uma sensação de fome. Contudo o Fígado vai produzir o Coração (Fogo), vai reservar o
sangue e alimentar-se do sangue do Coração. Facto é que se o sangue do Fígado for
fraco, o Coração vai ressentir-se. Sendo o Rim que gere o Fígado, vai armazenar a
essência do sangue e tem a função de nutrir o sangue como regulação do metabolismo
da Água. O Rim vai ter controlo sobre o Coração (Fogo), contudo estes têm que obter
uma boa interação em conjunto para obter uma boa saúde (Chia, 1989; Maciocia,
2001; Yuan, et al., 2011; Tierra, 1998; Ping, 2002; Clinic, 2013). 21 V. Sistema de
Meridianos Na MTC o sistema de meridianos pode ser traduzido de diversas formas.
Pode ser por meridianos, por zonas reflexas do corpo ou então por zonas energéticas
ou canais de energia. Esses canais de energia ou zonas energéticas são representados
por canais / meridianos que ligam as porções superior e inferior, esquerda e direita,
internas e externas do corpo humano e que vão dar saída ou entrada de energia e de
informação (Beijing, 1980; Stux e Pomeranz, 1998; Jin, et al., 2007). Figura 16 - Divisão
dos 12 Meridianos do corpo (Imagem Adaptada de Hopwood, 2004). Existem 12 canais
/ meridianos que têm a função de transportar o sangue / Qi de um determinado órgão e
armazenar energia, conseguem nutrir os tecidos e células dos órgãos para manter a
integridade do corpo humano. Estes meridianos estão divididos em quatro partes no
corpo humano (figura 12): três canais de Yang de Pé, três canais de Yin de Pé, três
canais de Yin de mão e três canais de Yang de mão. (Hopwood, 2004) Os 12 meridianos
são: - Meridiano do Estômago, é o 3º órgão maior e pertence ao canal de Yang de pé, é
dos órgãos mais importantes. A sua função é preparar os alimentos para o Baço e o
Intestino Delgado receberem, retira assim energia proveniente dos alimentos para
distribuir pelos restantes órgãos, músculos e membros. Caso o Estômago se encontre
fraco, vai produzir cansaço ao restante organismo. Sendo um órgão que digere e
assimila a energia dos alimentos, também vai conseguir assimilar ideias da digestão.
Caso haja um desequilíbrio por parte deste meridiano, vai nascer uma sensação de
vazio no Estômago provocando um forte desejo de comer. Outros sintomas são a
ansiedade, esquecimento, forte desejo de doces. Se o Estômago estiver em plena
saúde vai produzir pensamentos e ideias positivas (Eckman, 2002; Hopwood, 2004;
Liu, 2010; Maciocia, 2001; Stux e Pomeranz, 1998; Thambirajah, 2009; Zhang, 2002). 22
- Meridiano Bexiga, representa-se no canal de Yang de pé, vai ter a função de regular a
Água do corpo humano. Esta é das funções mais importantes visto que o corpo
humano é constituído por cerca de 80% de Água. Quando está em desequilíbrio este
meridiano provoca no corpo humano uma falta de força de vontade, de determinação.
Relativamente ao nível físico, este meridiano tem a função de armazenar e eliminar o
excesso de fluídos (urina) e a nível psicológico tem o papel de reter líquidos. Quando o
meridiano da Bexiga se encontra em desequilíbrio manifesta-se através de nervos,
timidez, medo ou então falta de confiança (Eckman, 2002; Hopwood, 2004; Liu, 2010;
Maciocia, 2001; Stux e Pomeranz, 1998; Thambirajah, 2009; Zhang, 2002). -Meridiano
da Vesícula Biliar, está localizada no canal de Yang de Pé. Tem a responsabilidade de
armazenar a bílis e tomar decisões, no entanto, como está ligada ao Fígado, quando
existe um desequilíbrio num dos dois órgãos, este vai-se notar quer num quer no outro.
Relativamente às emoções ligadas aos órgãos, relaciona-se a ira à Vesícula e a raiva ao
Fígado. A ira vai impedir o raciocínio, bloqueando as decisões; a raiva é reservada
tomando várias formas de se expressar (Eckman, 2002; Hopwood, 2004; Liu, 2010;
Maciocia, 2001; Stux e Pomeranz, 1998; Thambirajah, 2009; Zhang, 2002). - Meridiano
do Rim, está associado ao canal de Yin de pé, sendo a sua função principal armazenar
o Qi (este governa o desenvolvimento físico e psicológico de cada indivíduo). Existindo
um desequilíbrio, vai provocar um envelhecimento prematuro ou um atraso no
crescimento. O meridiano do Rim está interligado com o meridiano dos Pulmões.
Assim, vai armazenar o Qi, envolvendo-se no desenvolvimento dos ossos, cabelos e
toda a estrutura óssea do ser humano. No caso de um desequilíbrio as emoções
associadas no Rim são o medo, o nervosismo, a relutância em agir (Eckman, 2002;
Hopwood, 2004; Liu, 2010; Maciocia, 2001; Stux e Pomeranz, 1998; Thambirajah, 2009;
Zhang, 2002). - Meridiano Baço / Pâncreas está presente no canal de Yin de pé, vai
processar os alimentos em energia. Sendo este saudável vai garantir um apetite
saudável, uma absorção boa de nutrientes. O Baço é responsável pela concentração,
pensamento, análise, boa 23 memória e raciocínio. Quando existe um desequilíbrio no
Baço, ocorre então a falta de concentração do ser humano, como pensamentos
confusos, chegando à conclusão que se encontra “a pensar demais”. Ocorrem esses
desequilíbrios quando houver exercício em excesso ou excesso de comida. As
caraterísticas expressas por esse meridiano são a teimosia, a lealdade, a rigidez física
e mental (Eckman, 2002; Hopwood, 2004; Liu, 2010; Maciocia, 2001; Stux e Pomeranz,
1998; Thambirajah, 2009; Zhang, 2002). - Meridiano do Fígado, pertence ao canal de Yin
de pé, e a sua função principal é o controlo do corpo / Mente, pois este órgão tem a
responsabilidade de supervisionar todas as ações do corpo humano. É um órgão que
raramente se manifesta através de dor, só o faz por esse processo se o seu “par” a,
Vesícula Biliar, se encontrar inflamada. É um órgão “silencioso” que vai garantir a
circulação do Qi por todo o corpo humano, contribuindo também para a sua
desintoxicação. O Fígado / Vesícula Biliar vai ter a capacidade de controlar a paciência.
Quando esta se encontra em desequilíbrio o corpo humano vai reagir com gritos,
agressão, rebeldia (Eckman, 2002; Hopwood, 2004; Liu, 2010; Maciocia, 2001; Stux e
Pomeranz, 1998; Thambirajah, 2009; Zhang, 2002). - Meridiano do Pericárdio, pertence
ao canal de Yin de mão. A sua principal função é guardar e proteger o Coração, pois é
este que faz o ponto de ligação do Coração com o restante corpo. Nas emoções
corporais, a fala é controlada pelo meridiano do Coração e caso ocorra um
desequilíbrio no Coração, provoca um problema na fala. Outro desequilíbrio é rir em
demasia. As emoções associadas a este meridiano são conjugadas com o meridiano
do Coração e são a alegria (em equilíbrio) e a tristeza (em desequilíbrio) (Eckman,
2002; Hopwood, 2004; Liu, 2010; Maciocia, 2001; Stux e Pomeranz, 1998; Thambirajah,
2009; Zhang, 2002). - Meridiano do Coração representa um dos órgãos do canal Yin de
mão, tem ligação com o Intestino Delgado através do diafragma. Recebe a energia dos
nutrientes através do meridiano do Baço, e recebe a energia da inspiração através do
meridiano do Pulmão. É o órgão que vai comandar a pressão sanguínea. É um
meridiano que se relaciona com o riso e com o prazer, filtrando a angústia, mágoa e
amargura (Eckman, 24 2002; Hopwood, 2004; Liu, 2010; Maciocia, 2001; Stux e
Pomeranz, 1998; Thambirajah, 2009; Zhang, 2002). - Meridiano do Pulmão. É um canal
de Yin da mão, vai controlar os processos de respiração e vai diretamente influenciar o
sistema circulatório, e também o Coração. Vai criando resistências contra os fatores
patogénicos, com a possibilidade de na inspiração criar resistências. É um órgão que
vai ser controlado pela Vontade. No entanto, quando este se encontra em
desequilíbrio, pode transmitir diversas emoções: a preocupação, a ansiedade, a
tristeza, a melancolia, a nostalgia. Pode contribuir para esse desequilíbrio um olfato
bem ou mal desenvolvido, gemidos, choro, tosse, suspiros (Eckman, 2002; Hopwood,
2004; Liu, 2010; Maciocia, 2001; Stux e Pomeranz, 1998; Thambirajah, 2009; Zhang,
2002). - Meridiano do Cólon, é canal de Yang da mão, é dos meridianos que transborda
de energia de Qi, e tem a capacidade de emprestar energia. É dos órgãos que possui
mais ligações com os restantes, por isso é bastante influente entre eles, como é o
exemplo do Pulmão que é responsável pela passagem de Qi, caso seja insuficiente, vai
provocar obstipação, incapacidade de eliminar toxinas como pensamentos
desnecessários ou dispensáveis, provocando problemas de pele, excessiva eliminação
de muco pelo nariz e olhos (Eckman, 2002; Hopwood, 2004; Liu, 2010; Maciocia, 2001;
Stux e Pomeranz, 1998; Thambirajah, 2009; Zhang, 2002). - Meridiano Intestino
Delgado, está presente no canal de Yang de mão, vai receber o alimento parcialmente
digerido, tendo a função de separar os nutrientes. Este processo vai influenciar na
clareza do pensamento e no processo de cisão. O Intestino Delgado serve como
escudo para o Coração, para o proteger do excesso de calor (Eckman, 2002; Hopwood,
2004; Liu, 2010; Maciocia, 2001; Stux e Pomeranz, 1998; Thambirajah, 2009; Zhang,
2002). - Meridiano Jiao, pertence ao canal de Yang de mão. Pode também ser chamado
por triplo aquecedor, triplo aviso ou triplo queimador. É triplo porque é a combinação
de 25 três meridianos: Pulmão/ Cólon; Baço/ Pâncreas; Fígado/ Vesícula Biliar.
Representam um terço de cada área vital do corpo humano. Este meridiano tem três
funções distintas: a criação e a manutenção do calor corporal, pois ocorrendo algum
desequilíbrio vai descer a temperatura corporal provocando problemas ao corpo
humano; regula o sistema endócrino e linfático, e é responsável pela expressão social
do ser humano (Eckman, 2002; Hopwood, 2004; Liu, 2010; Maciocia, 2001; Stux e
Pomeranz, 1998; Thambirajah, 2009; Zhang, 2002). 26 VI. Farmacopeia Chinesa A
Farmacopeia Chinesa é a ciência que estuda as propriedades, a composição, as ações
das substâncias de origem animal, vegetal, mineral ou químicas (naturais), para ajudar
a restabelecer o equilíbrio do corpo humano. Esta farmacopeia vai ao encontro das
plantas medicinais que podem ser administradas sozinhas ou em fórmulas
fitoterápicas para combater doenças de acordo com o desequilíbrio energético do
corpo (Vazios de Energia ou Excessos de Energia). Assim, essas plantas são
classificadas. 1. Sabor Esta caraterística potencia o efeito desejado no organismo.
Cada alimento ou planta vai ter um sabor específico o que não quer dizer que esse
sabor é o real na planta, mas sim a ação desejada.  Picante (Yang) As plantas de
natureza picante vão atuar no Pulmão com movimento de dentro para fora, vão ter
ação de dispersar ou mover. Tem a função de expulsar fatores patogénicos, atuando a
nível da sudorese (transpiração). Promovem a circulação sanguínea e a circulação de
Qi, aliviando a estagnação e a dor ( Tierra, 1998; Yuan, et al., 2011; Wang, 2002) 
Salgado (Yin) Salgado é o sabor associado ao elemento Água, utiliza movimento para o
centro e para baixo, pois este sabor é necessário para a manutenção, suporte e
nutrição do corpo humano, regulando assim o equilíbrio hídrico do organismo. Vai ter a
ação de amolecer, humedecer e hidratar. É utilizado também para suavizar e resolver.
Tem uma ação importante como purgante (poder desintoxicante) ( Tierra, 1998; Yuan,
et al., 2011; Wang, 2002). 27  Ácido ou áspero (Yin) Este sabor é associado à Madeira.
As plantas com sabor ácido ou azedo têm propriedades e enzimas que vão ser úteis na
digestão. Vai atuar no Fígado, tem a ação absorvente (retêm e prende) e ação
adstringente (segura o Yin). Os seus movimentos são para o centro (Tierra, 1998; Yuan,
et al., 2011; Wang, 2002).  Amargo (Yin) Este sabor na MTC é dos mais intrigantes, pois
encontra-se associado ao Fogo. Atua no Coração, dispersando o calor pelo seu
movimento descendente (diminuído a inflamação). Tem na sua constituição alcaloides
e glicosídeos que ajudam a neutralizar e a eliminar os agentes tóxicos presentes no
corpo humano, e tem propriedades antibacterianas, antivirais e desintoxicantes. Uma
função presente neste sabor é drenar a humidade secando os agentes tóxicos (Tierra,
1998; Yuan, et al., 2011, Wang, 2002).  Doce (Yang) O doce associa-se ao elemento
Terra. O seu movimento é ascendente e para o centro. Vai ter a função de nutrir,
reforçando e tonificando. Atua no Baço e regula o Estômago. As suas propriedades são
harmonizar, humedecer, aliviar a tensão e a dor (Tierra, 1998; Yuan, et al., 2011, Wang,
2002). 2. Propriedades Térmicas As propriedades térmicas ou temperatura das
plantas, balanço do calor e do frio, são uma das características principais em MTC. A
temperatura fala da dinâmica energética das plantas individualmente, sendo
classificada a partir das propriedades térmicas em ordem crescente ou decrescente
(figura 19), no tratamento dos síndromes (Hempen e Fischer, 2007; Ross, 2003; Tierra,
1998; Yuan, et al., 2011; Wang, 2002). 28 Figura 17 - Propriedades térmicas das plantas
(Imagem adaptada de Hempen e Fischer, 2007).  Quente e Morno (Yang) As plantas
podem-se diferenciar entre quente e morno, no entanto estas duas propriedades tem o
mesmo princípio de atuação. Elas têm intuito de dispersar o frio, de aquecer o interior
sendo estimulantes circulatórios promovendo o movimento e o aquecimento do Qi e
do Sangue. São estimulantes metabólicos (tonificando e ativando as funções do Rim,
do Baço e do Coração), promovem a sudorese (limpando o frio e a humidade),
estimulam o movimento, a transformação e secam, e desbloqueiam os meridianos.
Exemplo de Plantas Quentes: Capsicum; Cinnamomum; Zanthoxylum; Zingiber;
Exemplo de Plantas Mornas: Angelica; Citrus; Commiphora; Ephedra (Hempen e
Fischer, 2007; Ross, 2003; Tierra, 1998; Yuan, et al., 2011; Wang, 2002).  Frio e Fresco
(Yin) Frio e Fresco são duas propriedades térmicas das plantas medicinais que têm
como intuito tratar síndromes de calor. Têm a função de dispersar o calor e eliminar o
Fogo, hidratando o Yin (Sangue e substâncias vitais) e lubrificando. Vão ter ação
refrescante e de arrefecimento. Têm também ação antimicrobiana, anti-inflamatória,
tranquilizante, sedativa, antipirética, inibem atividades dos órgãos. Exemplo de Plantas
Frias: Anemone; Baptisia; Humulus; Pulsatilla; Exemplo de Plantas Frescas: Calendula;
Echinacea; Iris; 29 Salvia (Hempen e Fischer, 2007; Ross, 2003; Tierra, 1998; Yuan, et
al., 2011; Wang, 2002).  Neutro As plantas neutras não vão interferir com a
temperatura corporal, são usadas para tratamentos neutros, ou então combinadas
para o tratamento quente ou frio. Têm a ação de estabilizar (ação adstringente),
tonificar, harmonizar (ação antiespasmódica) e equilibrar o Qi e o Sangue. Exemplo de
Plantas neutras: Chamaelirium; Hypericum; Serenoa; Urtica (Hempen e Fischer, 2007;
Ross, 2003; Tierra, 1998; Yuan, et al., 2011; Wang, 2002). 3. Direção da ação energética
ou tendência Subida e Flutuação Na subida e flutuação pode-se associar flores e
folhas, estas são as que se encontram mais à superfície. Vão utilizar movimentos para
cima e para fora, são associadas ao sabor picante e doce, são de natureza morna ou
quente, representam o Yang. Descida e Submersão Associa-se à descida e à
submersão das sementes, frutos e minerais. O seu movimento é para baixo e para
dentro, têm sabor amargo, ácido ou salgado, são de natureza fresca e fria, dispersam o
calor e representam o Yin. 30 4. Meridianos e Zang-Fu Associados As substâncias
presentes nas plantas medicinais têm a capacidade de atuar apenas em meridianos
específicos produzindo os efeitos terapêuticos em locais / canais específicos do corpo
(Yuan, et al., 2011). 5. Forma Produtos Vegetais Raiz/Rizomas – as raízes são partes
subterrâneas da planta e servem de âncora; os rizomas são partes subterrâneas na
qual são desenvolvidos os sistemas de caule, folhas e flores. Estes, como estão em
contacto com a Terra, vão absorver os nutrientes e Água presentes no solo. Simbolizam
o Rim, o Baço e a sua principal função é tonificar (Heinrich, et al., 2012). Caule – é
usado para ascender a seiva alimentando as folhas e as flores. Simbolicamente
encontra-se relacionado com o Fígado (Heinrich, et al., 2012). Folhas – As folhas fazem
a fotossíntese, “respiram” para nutrir a planta. Estão relacionadas com o Pulmão e
com a pele (Heinrich, et al., 2012). Flores – encontram-se na parte superior da planta
(são colhidas antes de abrir). São órgãos reprodutores. As flores são indicativas do
início da primavera e associam-se ao Fígado (Heinrich, et al., 2012). Frutos – são o
involucro da semente, que ajudam a nutrição da mesma. Têm movimento
descendente, tendência para cair no solo. Estão associados ao Baço e ao Rim
(Heinrich, et al., 2012). 31 Sementes – Têm a capacidade de germinar, crescer e
ascender, vão simbolizar os Rins (Heinrich, et al., 2012). Galhos ou vinha – são
associados aos meridianos, membro e /ou vasos sanguíneos. Aliviam a dor eliminando
a estagnação (Heinrich, et al., 2012). Existem, no entanto, formas específicas que vão
atuar nessas mesmas formas como, por exemplo, a casca atua na pele, o tubo na
uretra, entre outros. Produtos Animais – normalmente são analisados separadamente
(Copasso, et al., 2003). Produtos Minerais e Químicos – normalmente são metais ou
conchas, agindo no Rim e nutrindo o Yin; combatem o excesso de Yang (Copasso, et
al., 2003). 6. Cor Vermelho – são plantas vermelhas (Chi). Associa-se assim ao Fogo, ao
verão, ao Coração, ao sangue e aos vasos sanguíneos. Pode-se tratar de inflamação,
como também pode ter função secundária (Tierra, 1998). Branco – Tem o nome de Bai,
simboliza o Metal, o outono, o Pulmão e o Estômago. Está relacionada com a natureza
fria e por vezes com a humidade no Baço (Tierra, 1998). Amarelo – São plantas
amarelas ou com referência ao amarelo, simbolizam a Terra, o Baço, a humidade. O
seu nome é Huang (Tierra, 1998). 32 Verde ou Azul – são plantas de cor verde e estão
associadas à primavera e à Madeira. Por sua vez estão relacionadas com o Fígado e
com os olhos. São tratadas por Qing (Tierra, 1998). Preto – As plantas pretas ou de
referência preta simbolizam o Rim, a Água, o inverno, e têm a função de nutrir o Rim. O
seu nome é Qian (Tierra, 1998). 7. Toxicidade ou Inocuidade Estas propriedades podem
produzir reações sintomáticas que podem provocar danos nos tecidos do corpo. Não é
recomendado administrar em doses superiores às aconselhadas (Liu e Liu, 2010). 8.
Nível de Ação As plantas têm um nível onde vão atuar. As plantas que têm sabor
salgado vão atuar diretamente no Rim, as com sabor amargo vão atuar no Coração, as
com sabor doce vão atuar no Baço, as com sabor picante vão atuar Pulmão e por fim
as com sabor ácido vão atuar no Fígado (Hempen e Fischer, 2007). 33 VII. As 8 Regras
ou Métodos Terapêuticos Os métodos terapêuticos propõem o reforço da energia vital,
expulsam a energia perversa, restauram o equilíbrio de Yin e Yang do organismo,

introdução Elaboramos este manual para facilitar a sua compreensão dos diversos
comportamentos do seu gato, e com isso melhorar a interação entre vocês, sempre
considerando o bem-estar de ambos, gatos e pessoas. Com conhecimento e
orientações práticas você poderá participar ativamente da conquista de um
comportamento mais equilibrado do seu gato e da construção de uma relação mais
harmoniosa e duradoura entre vocês. Este manual está dividido em duas partes. A
primeira delas consta de 5 lições conceituais, enquanto a segunda contém aplicações
das lições em 6 situações práticas envolvendo comportamentos problemáticos
bastante frequentes nos gatos. SUMÁRIO Parte 1 - Lições 1. Amizade que Respeita 08
2. Sociabilização 11 3. Estimulação Física – Exploração 14 4. Estimulação Mental –
Brincadeira 16 5. Enriquecimento Ambiental 18 Parte 2 - Exercícios práticos 1.
Arranhadura na Mobília 24 2. Miados Excessivos 26 3. Morde e arranha quando é
acariciado 28 4. Agressividade contra o veterinário 30 5. Micção e defecação fora da
caixa sanitária 34 6. Briga entre gatos 37 PARTE 1 Lições 8 Lição 1 amizade que respeita
O comportamento de um gato é fruto de sua genética combinada ao ambiente em que
vive e as suas primeiras experiências enquanto filhote. Desses resulta o seu
temperamento que determinará a forma que ele interagirá individualmente e com o
grupo. Embora o ambiente doméstico humano possa não equivaler a um grupo felino,
somos membros de uma mesma família multiespécie interagindo socialmente e
compartilhando o mesmo espaço. Como espécies diferentes temos níveis e estilos
distintos de socialidade, ou seja, somos diferentes no gostar e desgostar de interações
sociais. Portanto, para que possamos conviver de forma pacífica e harmoniosa é
fundamental que nos compreendamos minimamente e que respeitemos a forma de
interagir do outro, promovendo interações que são apreciadas pelos gatos e evitando
aquelas que eles desgostam. Um erro bastante comum é assumirmos que o gato gosta
daquela interação que estamos oferecendo (ex: um carinho na barriga), simplesmente
porque ele não reluta ou agride, ou até que ele deseja interagir daquela forma com os
humanos, quando na verdade, na maioria das vezes, ele apenas as tolera! Gatos
constituem uma espécie social com restrições, ou seja, apreciam interações sociais
com moderação. São de poucos amigos, agindo solitariamente em muitas atividades
diárias tais como a caça e as batalhas. Mesmo entre grandes amigos felinos,
prepondera os momentos frequentes, porém curtos, de contato físico amigável tal
como lambedura e esfregamento recíprocos, sonecas lado a lado e aproximação
focinho-focinho; não apreciam interações físicas restritivas, ou seja, longos abraços ao
estilo “Felícia”. Tendo em mente o estilo social felino de ser e buscando sermos
verdadeiramente aceitos e apreciados pelos gatos, é fundamental que sejamos
coerentes na forma de interagir com eles ou, ao contrário do que esperamos, teremos
gatos que não nos apreciam, 9 evitam contato conosco ou até nos agridem. Grandes
amigos dos gatos respeitam o limite social do bichano, interagem até onde o gato
estiver demonstrando contentamento, não se chateiam com momentos de
distanciamento por parte do gato e compreendem que ao seu tempo e ao seu modo o
gato saberá demonstrar seu carinho. Sim, gatos não só demonstram carinho como
podem se apegar fortemente a nós humanos, a parceiros felinos, caninos e de outras
espécies, mas isso depende muito de quando se encontraram (melhor que tenha sido
na infância), de onde vivem atualmente (melhor que seja um ambiente amplo e
enriquecido, pouco estressante) e de quanto o outro indivíduo respeita o estilo social
felino. Portanto, como estabelecer uma amizade que respeita? 1. IDENTIFIQUE E
ACEITE A PERSONALIDADE DO GATO Se seu gato é do tipo extrovertido, apreciador de
carinho e ainda corajoso, invista nas atividades exuberantes de brincadeira e sinta se à
vontade para acariciar; só não esqueça de monitorar os sinais de estresse e de
contentamento do bichano. Se seu gato é do tipo introvertido, intolerante ao carinho e
ainda medroso, ofereça-lhe bons portos seguros pela casa, nunca seja efusivo nas
interações e, quanto ao carinho, somente se ele se aproximar e pedir, do contrário, não
insista. Não se frustre porque seu gato é introvertido e você não, ou vice versa,
encontre alegria e beleza no estilo de ser de cada gato - certamente você irá encontrar!
2. SEJA POSITIVO SEMPRE Ao interagir com o gato, mesmo quando ele se comporta de
maneira inadequada, não use broncas, nem gestos de braveza tal como dedidinhos
apontados para a face do gato, tampouco castigos ou borrifos de spray d´água.
Apenas ignore os comportamentos inadequados tentando compreender suas
motivações e gatilhos (com esses, mais adiante, lhes ensinaremos como resolver os
problemas). 10 Aversivos como esses, ainda que lhe pareçam leves, irão certamente
estressar o gato e prejudicar muito a sua relação com ele. 3. SEJA CONSISTENTE
SEMPRE Defina claramente as regras da casa e as siga de maneira consistente. Se por
algum motivo realmente relevante seu gatinho não puder frequentar o teu quarto por
exemplo, que seja assim sempre, ou seja, nunca você o permitirá no quarto. Do
contrário, se permitir às vezes, criará nele uma eterna expectativa (acompanhada de
muitas frustrações). Assim deve ser para tudo, desde poder frequentar a cozinha ou
não, até poder derrubar enfeites ou não. Defina bem as regras, mas não exagere, já
restringimos demais a vida de nossos gatos. 4. EVITE OS AFAGOS “FELÍCIA” Aprenda
direitinho como oferecer e receber carinho do felino. Carinho sempre que o gato se
aproximar e pedir é muito bem vindo, corresponda; não vá até ele (a menos que ele
seja um idoso debilitado ou tenha restrições sensoriais ou motoras), deixe que ele
venha, dessa forma ele te apreciará ainda mais. Bochechas, topo da cabeça e pescoço
são áreas muito apreciadas pelos gatos para recebimento de carinho, assim como o
dorso até antes de começar o rabicó; patas e abdômen devem ser evitadas, salvo
exceções. Felinos expõe a barriga quando muito relaxados, o que não significa um
convite para afagos na barriga. Lição 2 11 sociabilização “O sucesso do gato
doméstico como um animal de estimação e também como feral é devido, em parte, a
capacidade deles de formar alguns tipos de laços sociais e também de viver sem eles”.
(Ley, J, 2015) Sociabilização é o processo através do qual um indivíduo se torna apto
para a vida em sociedade. Socialização consiste em desenvolver relações sociais
positivas com outros seres vivos. Assim, queremos que gatos sejam socializados
dentro de um processo amplo de sociabilização. Ou seja, queremos que eles
aprendam a se relacionar socialmente, especialmente conosco, mas também que
aprendam sobre a vida (ex: barulhos domésticos, mudanças de mobília, idas ao
veterinário, visitas em casa etc). O período mais sensível para sociabilização felina é
entre a segunda e a oitava semana de vida do gato. Mas sociabilizar o gatinho nesses
primeiros 2 meses de vida não significa que a tarefa está completa. A exposição deve
ser contínua para a manutenção de boas habilidades. As experiências que o gato tem
durante o período de sociabilização terão uma influência importante em sua
personalidade em desenvolvimento, determinando seu comportamento quando em
idade adulta. É muito importante que os gatos tenham experiências positivas e
frequentes durante esse período, para evitar futuros comportamentos indesejáveis,
tais como medo de pessoas, de barulhos e até agressividade. Um grande desafio no
processo de sociabilização felina é que não devemos separar o filhote de sua mãe e
irmãos de ninhada antes de completadas 8 semanas de vida, ou seja, exatamente
quando o melhor periodo de sociabilização está se encerrando. Dessa forma, cabe ao
“tutor” da ninhada a importante tarefa de sociabilizar os gatinhos. 12 REGRAS BÁSICAS
É muito importante que durante o período de sociabilização e continuamente até se
tornar um adulto o gatinho encontre regularmente novos estímulos em uma ampla
variedade de situações. Diferentemente do cão, não é tão importante a apresentação
de outros gatos ou muitas pessoas novas, muito menos tirar o bichano de casa para
que a sociabilização ocorra. Gatos são semissociais e detém uma relação muito
especial com seu território, tirá-lo de casa ou expô-lo a muitos seres distintos mesmo
que em casa, pode estressá-lo demais e prejudicar todo o processo de sociabilização.
Evite situações e exposições amedrontadoras, mantendo todos os encontros e
interações positivos. Para o caso de estímulos naturalmente desagradáveis aos
bichanos tais como mudanças no espaço físico (ex: mobília nova) ou visitas em casa
apresente os gradativamente, respeitando o ritmo e o estilo do gato de explorar com
muita cautela. Nesses momentos, oferecer petiscos secos, alimento úmido ou propor
uma brincadeira é altamente recomendado. Exposições ao ambiente externo devem
ser feitas com muita cautela, já que a retirada de seu território é naturalmente
estressante para o gato. Assim, foque nas visitas ao veterinário e no transporte de carro
que são saídas muito comuns ao longo da vida do gato e que, portanto, devem ser
habituadas desde cedo. Estímulos Animados Pessoas de diferentes idades: crianças,
bebês, adolescentes, adultos. Pessoas com diferentes estilos, aparências e raças:
homens, mulheres, pessoas idosas, homens com barba, pessoas com uniformes,
mochilas, chapéus ou óculos, perfumadas, faladoras, gesticuladoras, acariciadoras,
etc. Veterinários e clínicas veterinárias. Outros animais da própria espécie e de outras
espécies: Somente se o gato for realmente conviver, do contrário uma sobrecarga de
estímulos animados para um ser tão semissocial quanto o gato poderá prejudicar todo
o processo de sociabilização. 13 Em ambiente controlado e seguro (preferencialmente
em casa), esses seres serão postos para interagir ao nível, a maneira e pelo tempo que
sejam apreciados pelo gatinho. Atividades lúdicas como brincadeira com varinhas são
ótimas ações a serem conduzidas com o gatinho e os seres animados que lhe estão
sendo apresentados. Estímulos Inanimados O novo ambiente doméstico (inclusive
momentos de separação da família nesse ambiente). Alterações no ambiente
doméstico: eventuais trocas de posição da mobília ou mobília nova. Saídas do
ambiente doméstico: caixa de transporte e carro. No caso de viagens frequentes
sempre ao mesmo local e com a possibilidade de levar o gato, sendo esse local seguro
e não estressante para o gato, é importante desde cedo acostumá-lo tanto ao
transporte quanto a essa “segunda casa”. Barulhos: aspiradores de pó,
liquidificadores e outros eletrodomésticos, chuvas e trovões, fogos de artifício, etc. Em
ambiente controlado e seguro (em casa), esses estímulos serão apresentados para o
gatinho ao nível, à maneira e pelo tempo que não lhe sejam ameaçadores.
Oferecimento de petiscos secos e alimento úmido são ótimas ações a serem
realizadas com o gatinho durante a apresentação de estímulos inanimados. 14 Lição 3
Estimulação Física Todos os gatos, e em especial aqueles mais ativos e cheios de
energia, precisam de estimulação física diária. A estimulação física pode se dar através
da prática de atividades com o tutor fazendo-os andar, correr, subir e saltar, ou
simplesmente através da exploração espontânea e rotineira da casa. EXPLORAÇÃO
Considerando que gatos possuem um corpo e uma mente voltados para o alto
conhecimento e a exploração de seu tão apreciado território, precisamos adequar as
nossas casas para que esse comportamento tão natural e benéfico seja comumente
exibido pelo gato. Gatos ferais perambulam por grandes distâncias diárias (que
chegam a superar vários quilômetros), machos vão mais longe do que fêmeas assim
como se envolvem em mais comportamentos de risco tais como atravessar ruas
movimentadas ou adentrar casas com cães. Fazem isso rotineiramente e com muito
prazer, sempre deixando suas marcas pelos trajetos percorridos. Nossos gatos
domiciliados também tem essa aptidão e motivação, de modo que nossa casa e
mobília devem permitir tanto as excursões quanto as marcações diárias. DICAS PARA
ESTIMULAR O GATO A FAZER EXPLORAÇÃO O objetivo é adequar a casa para que o
gato tenha mais interesse em explorá-la, sempre priorizando a segurança e uma
adequação que faça sentido para o gato: • Trajetos devem estar sempre acessíveis
(jamais bloqueados). Idealmente todos os cômodos da casa devem estar disponíveis
15 para o gato, desde que sejam todos seguros (janelas teladas, áreas verticais
seguras para subir e para descer); • Áreas onde se encontram recursos especificos (ex:
setor de alimentação onde se encontram os potes de comida, setor banheiro onde se
encontram as caixas de areia) devem estar sempre acessíveis e sempre localizadas no
mesmo ponto. A criação de setores específicos contendo os recursos felinos em áreas
distintas, fazendo da casa uma verdadeira loja de departamentos para o gato, é
sempre muito bem apreciada pelos bichanos; • Marcações são comumente
depositadas em trajetos e na periferia dos setores, então atenção na colocação
estratégica dos arranhadores (em corredores, entradas e saídas da casa, ao lado de
portas e janelas, nas sacadas); • Tocas tais como caixas de papelão e afins, devem ser
posicionadas sempre com a boca para frente e não para cima, devem também ser
disponibilizadas tanto no nível do chão quanto nas alturas, podendo o gato sempre
escolher onde se refugiar quando preferir uma pausa; • Prateleiras, rampas e pontes,
devem sempre permitir entradas e saídas múltiplas, para que não haja encurralamento
por outros gatos. Idealmente devem ser posicionadas permitindo que funcionem como
acesso de um cômodo a outro, de um setor a outro, de modo que gatos mais medrosos
tenham múltiplos trajetos para acessar seus setores sem terem que encarar um gato
perseguidor/agressivo que esteja sempre de tocaia em um dos trajetos; • Áreas
verticais devem ser firmes, não derrapantes e acessíveis por todos os gatos quaisquer
que sejam suas habilidades e limitações físicas/mentais. Sempre que necessário use
carpete antiderrapante, bordas altas de proteção (contendo orifícios de observação)
para evitar quedas de gatos com maior desequilíbrio. O posicionamento de mobílias
que auxiliem o acesso a áreas verticais não muito altas e protegidas também são
recomendados para gatos senis e/ou com dificuldades motoras. 16 Lição 4
Estimulação Mental Todos os gatos, e em especial aqueles mais ativos e muito
inteligentes, precisam de estimulação mental diária. A estimulação mental pode se dar
através de jogos, treino de comandos, ou simplesmente através de brincadeiras
frequentes. BRINCADEIRA Considerando que gatos são rotineiros e metódicos, as
brincadeiras com o tutor devem ocorrer diariamente e de preferência em períodos fixos
do dia. Início da manhâ, início da noite ou até bem tarde da noite, antes dos humanos
dormirem, são ótimos momentos para brincar com o gato. Fora esses, tenha sempre
alguns brinquedos espalhados para os momentos de brincadeira sozinho. Durante as
brincadeiras devemos usar brinquedos adequados que não imponham nenhum risco
ao gato (brinquedos contendo fios, penas e plumas são contraindicados para os gatos
que têm mania de ingerir esses itens). Não espere que o seu gato brincará por muito
tempo com você, 15 minutinhos por sessão de brincadeira está ótimo. É preferível
brincar todos os dias por intervalo curto de tempo a promover brincadeiras longas em
um só dia da semana. Comece escolhendo uma varinha que esteja ao gosto do seu
bichano. Varinhas com penduradinhos leves, fios e fitas, além daquelas com penas e
plumas naturais são muito bem apreciadas pelos gatos. Melhor que sejam varinhas
longas para não corrermos o risco dos botes e mordidas do gato atingirem as nossas
mãos e braços: • As varinhas servem exclusivamente para a brincadeira com você.
Fora esses momentos, deixe-as bem guardadas para que não corramos o risco do gato
se machucar ou mesmo ingerir algum item caso brinque sozinho com a varinha. De
quebra, manteremos a novidade sempre que você apresentar a varinha 17 no
momento brincadeira com você; • Atente ao movimento feito com a varinha; sempre
devemos pensar na simulação de uma presa voando ou rastejando. Atice o seu gato
até que ele manifeste movimentos de espreita e tocaia, então siga com a
movimentação até que o gato dê um bote. Nesse momento lembre que a presa (no
caso, a varinha) pode escapar do gato. Repita esse movimento até o gato dar novos
botes e, finalmente, ao término da brincadeira, a presa perca a batalha; nesse
momento diminua o movimento até parar a varinha; • Ao final da brincadeira ofereça
um alimento saboroso para o gato. Pode-se parear o oferecimento de alimento úmido
ao término das sessões diárias de brincadeira. Fará muito sentido ao gato brincar de
predar e depois alimentar-se, tal como ocorreria se fosse uma presa real. 18 Lição 5
enriquecimento ambiental REGRAS BÁSICAS O enriquecimento ambiental (EA)
consiste na inserção e/ou manejo de itens, animados e inanimados, em um ambiente
restritivo e potencialmente estressante, visando melhorias no bem-estar do gato (ou
gatos) ali inseridos. Qualquer ambiente, mesmo aqueles aparentemente enriquecidos
e complexos, são passíveis de enriquecimento ambiental. Em se tratando de casas
com gatos, enriquecer é tão essencial para manter a qualidade de vida felina que o
processo passa a denotar o oferecimento de “necessidades ambientais” ao invés de
“itens de enriquecimento”. Não há saída, se é tutor de gato tem que se enriquecer o
ambiente! A melhor maneira de fazer enriquecimento ambiental em uma casa é
primeiramente conhecer bem o espaço, especialmente as áreas de acesso ao gato (s),
conhecer todos os habitantes dali, considerando todas as espécies presentes, e,
principalmente, os problemas existentes (ex: marcação urinária, brigas entre gatos,
etc.). Considerando então as possibilidades e disponibilidade dos humanos, faz-se um
projeto de enriquecimento com vistas a melhoria do bem estar do gato (s). O processo
de aplicação do enriquecimento ambiental deve ser gradual e sempre acompanhado
de monitoramento do comportamento do gato(s). Pode ser que alguns itens inseridos
ou manejados não sejam utilizados tampouco apreciados. Se esse for o caso, os itens
devem ser retirados, pois podem comprometer o bem-estar do gato (s). Há 5
categorias de Enriquecimento Ambiental (EA): Social, Sensorial, Alimentar, Cognitivo e
Físico. AS 5 CATEGORIAS 19 EA SOCIAL Melhorias nas relações sociais já existentes
entre o gato e as pessoas, entre os gatos em si, ou mesmo entre o gato e indivíduos de
outras espécies que habitam a casa está no foco do enriquecimento ambiental social.
Se há conflitos entre os gatos, ou agressividade do gato contra os humanos, por
exemplo, um processo de dessensibilização e contracondicionamento com vistas a
harmonizar os indivíduos deve ser aplicado (ver Exercícios 4 e 6). Deve-se respeitar a
natureza felina e o temperamento de cada gato, sem forçá-lo a nada, mas adequando a
forma de interagir com ele (ver Lição 1) e reforçando comportamentos sociais de
tolerância, amigáveis e não agressivos. Sim, convivência social por parte do gato não
deve ser exigida como regra geral, de modo que quando o gato oferecer deverá ser
prontamente recompensado. EA SENSORIAL Estímulos aos órgãos dos sentidos felinos
devem ser aplicados ao ambiente com vistas a melhorar o bem-estar do gato: • Odores
não familiares e aversivos (ex: cítricos) devem ser evitados; • Pontos seguros de
observação (prateleiras e caminhas próximas as janelas) devem ser aplicados; •
Objetos atrativos e bem posicionados para arranhadura e esfregamento facial (ex:
arranhadores de papelão, “árvores de gato”) devem ser oferecidos em multiplicidade; •
Feromônios sintéticos apaziguadores (tais como os faciais, maternais e interdigitais)
devem ser utilizados pelo maior tempo possível; • Alimento úmido, além da ração
seca, deve se oferecido diariamente, inclusive aquecido, aumentando assim a sua
palatabilidade. Graminhas e plantinhas não tóxicas podem ser oferecidas em
abundância, para assim o gato cheirar, esfregar, lamber e ingerir caso queira. 20 EA
ALIMENTAR Alimentos nutritivos (inclusive os já costumeiramente ofertados ao gato,
porém agora disponibilizados com variabilidade/complexidade, de modo a estimular
comportamentos alimentares felinos naturais) devem ser oferecidos com vistas a
melhorar o bem-estar do gato: • Alimento úmido aquecido, escondido em brinquedos
de borracha próprios para isso, ou até congelados na forma de cubinhos ou palitinhos;
• Alimento seco (ração ou petiscos) colocado em potes diversos espalhados pela casa,
tabuleiros de alimentação, embrulhado em papéis ou colocado em caixas de papelão
contendo orifícios, posicionados em brinquedos liberadores lentos; • Pontos de
alimentação, onde estarão potes, tabuleiros ou brinquedos liberadores, devem ser
fixos, em setor (es) de alimentação, longe do banheiro e separado dos potes de água; •
Alimentação fracionada, ofertada em vários momentos fixos do dia, é recomendada
desde que o gato tenha sido desde cedo acostumado a esse regime alimentar ou, se
implementada mais tarde, o gato precisa ser acostumado gradativamente a não ter o
alimento seco disponível todo o tempo. EA COGNITIVO Brinquedos interessantes
(inclusive os já costumeiramente ofertados ao gato), porém agora disponibilizados
com variabilidade/ complexidade, de modo a estimular o gato mentalmente através de
atividade lúdica e/ou predatória, devem ser oferecidos com vistas a melhorar o bem-
estar do gato: • Faça duas ou mais caixinhas de brinquedos e utilize-as na forma de
rodízio. Por exemplo, em uma dada semana mantenha espalhado pela casa apenas os
brinquedos da caixa 1. Na próxima semana apenas os da caixa 2 e assim por diante.
Dessa forma, sempre haverá novidade disponível para o gato brincar sozinho; • Os
brinquedos mais especiais devem ser oferecidos também em horas especiais do dia.
Podem ser espalhados na “hora de brincar” com o tutor, ou mesmo para brincar
sozinho em momentos de maior agito (ex: durante a noite); • Varinhas são para a “hora
de brincar” com o tutor. Essa tem hora certa e ocorre todos os dias (ver Lição 4).
Terminada a brincadeira as varinhas devem ser guardadas; • Pontos de brincadeira,
onde estarão espalhados brinquedos de todos os tipos, devem ser fixos, em setor (es)
de brincadeira, longe do setor banheiro e comida. EA FÍSICO Refúgios e pontos de
observação interessantes, no nível do chão e altos (inclusive os já costumeiramente
ofertados ao gato), porém agora disponibilizados de forma mais segura e atrativa, de
modo a estimulá-lo fisicamente através de atividade exploratória (ver Lição 3), devem
ser oferecidos com vistas a melhorar o bem-estar do gato: • Caixas para esconderijo e
repouso, de papelão ou tecido, embutidas em “árvores de gato” ou soltas, devem ser
posicionadas de forma atrativa. Devem ser confortáveis, permitindo caber um gato só,
ou seja, em casas multicat não serão invadidas por gatos perseguidores e agressivos; •
Pontes, rampas e prateleiras, de madeira encobertas com carpete ou outro material
antiderrapante, devem ser posicionadas sempre de forma segura. Devem permitir
acesso aos setores, ou seja, funcionar como trajetos, multiplicando os caminhos
percorridos no território, assim diminuindo os encontros e, consequentemente, os
conflitos em casas multicat; • Túneis são ótimas pedidas para os trajetos. Podem ser
mantidos fixos por móveis posicionados a sua volta. Entradas e saídas diversas
impedirão tocais e brigas dentro dele; • Vale lembrar que através do EA cognitivo e
alimentar, é possível estimular também a atividade física do gato fazendo-o andar,
correr e saltar durante a brincadeira e/ou alimentação. PARTE 2 Aplicações 24
Exercícios Práticos 1. Arranhadura na mobília A arranhadura na mobília é muito mais
um problema para o humano do que para o gato. Arranhar é tão natural para o gato
quanto se espreguiçar e bocejar é para nós. Ao arranhar o felino afia as unhas, elimina
partes desgastadas das unhas, além de depositar marcas muito importantes em seu
território: marcas visuais (os arranhões) e marcas odoríferas (os odores e feromônios).
Glândulas cutâneas localizadas nos coxins e interdígitos produzem odores e
feromônios. Esses últimos tem função comunicativa para os gatos, albergando
características físicas e emocionais do gato que os depositou. Assim, em situações
amedrontadoras, por exemplo, feromônios de medo podem ser liberados das suas
patinhas, bem como feromônios apaziguadores podem ser depositados quando o gato
tranquilamente arranha objetos e locais familiares. Os feromônios são então
detectados pelo felino que os depositou assim como por outros gatos, promovendo
dessa forma uma comunicação tipicamente felina, a comunicação à distância através
de demarcações. O manejo para o controle da arranhadura na mobília começa com a
plena aceitação de que o gato precisa arranhar. Também, é preciso lembrar que o gato
exibe o comportamento de demarcação territorial de diversas formas, inclusive por
deposições urinárias, de modo que permitir arranhaduras é muito melhor do que
encontrar marcas urinárias espalhadas pela casa. REGRAS BÁSICAS • Arranhadores
devem existir em multiplicidade, sendo colocados em pontos estratégicos, atrativos
para a demarcação territorial. Passagens tais como corredores, entradas e saídas da
casa, assim como sacadas são os melhores locais a serem escolhidos para um bom
posicionamento de arranhadores. Importante: uma vez posicionados os arranhadores
esse pontos de demarcação devem ser permanentes, ou seja, não mude os
arranhadores de lugar; 25 • Arranhadores devem ser adequados ao gosto do gato,
compatíveis com o seu estilo de arranhar (horizontal ou vertical), com a sua altura
(deve ser alcançado pelas patas dianteiras esticadas) e com as suas preferências por
superfícies. Como saber qual é o gosto do nosso bichano? Teste! Saber o tamanho
certo do arranhador e o local a ser colocado você já sabe; em relação ao material do
qual é feito, precisamos testar. Papelão, carpete e sisal são muito bem apreciados.
Comecemos os testes! **O uso do feromônio sintético FELISCRATCH by FELIWAY
(Ceva Saúde Animal), análogo do feromônio interdigital felino é altamente
recomendado para o tratamento e a prevenção da arranhadura na mobília. Deve ser
aplicado em sua forma líquida diretamente no arranhador onde desejamos que o gato
arranhe. • Arranhadores podem ser comprados ou feitos em casa. Se optar por
comprar, há arranhadores para todos os bolsos. O importante é considerar a
segurança (firmeza, equilíbrio, integridade do material) e o gosto do bichano (altura,
posição, material). Se optar por fazer, há vários tutoriais pela Internet; • Quanto à
mobília que já foi arranhada, provavelmente o felino não a esquecerá simplesmente
porque agora terá bons arranhadores. É essencial que essa mobília se torne menos
atrativa para a arranhadura. Poltronas e sofás podem ser cobertos com colcha ou
plástico, assim como potes de água ou comida podem ser posicionados em cima ou
bem próximo desses locais de modo que mudamos a função dessas áreas (pontos de
demarcação se tornam pontos de alimentação, por exemplo). Depois de feito isso por
algum tempo enquanto atraímos o gato para os arranhadores, podemos voltar a
mobília ao seu estado inicial. **O uso do feromônio sintético FELIWAY CLASSIC (Ceva
Saúde Animal), análogo do feromônio facial felino é altamente recomendado para o
tratamento e a prevenção do problema de arranhadura na mobília. Deve ser aplicado
na forma de spray borrifado na mobília e locais onde não queremos que o gato arranhe.
26 Exercícios Práticos 2. Miados Excessivos Miados excessivos, embora indesejáveis,
são comumente exibidos pelos gatos, principalmente logo cedo, por vezes antes do dia
clarear, já que esse constitui o horário natural do despertar felino. O problema ocorre
na forma de um verdadeiro “ciclo vicioso”: o gato mia ao despertar, provavelmente não
tem intenção alguma inicialmente, mas os tutores levantam e oferecem algo (carinho,
conversa, alimento, brincadeira) com o intuito de fazer o gato silenciar, mas o gato
aprende que a consequência dos miados é justamente o despertar do humano
acompanhado de muitas coisas boas (carinho, conversa, comida, brincadeira). O gato
passa então a miar com a provável intenção de despertar o tutor e receber coisas boas.
Sinceramente, quem está treinando quem? Outra situação onde o problema
comumente acontece é quando o gato percebe que o tutor se aproxima da cozinha. O
gato já está na cozinha pois o horário da refeição se aproxima, ou, independente do
horário, ao perceber o direcionamento do humano para a cozinha, excita-se por
antecipar que comida poderá ser ofertada, dirige-se a cozinha e começa a miar. O tutor
então interpreta que o gato está pedindo comida e antecipa o oferecimento da mesma.
O gato aprende que a consequência dos miados é justamente o recebimento da
comida e passa a miar diversas vezes ao dia para pedi-la. Reflitamos, quem está
treinando quem? Miados são uma forma comum de comunicação pelos gatos, mas
bastante difíceis de serem interpretados pelas pessoas. Gatos emitem miados de dor,
de brincadeira, de contentamento, ameaçadores, amedrontados e até de solicitação
(de comida, de atenção, de atração de parceiros sexuais, etc). Porém, ao ouvido
humano, miados felinos são sempre interpretados como solicitações e as pessoas
geralmente oferecem algo (comida, carinho, conversa, brincadeira) com o intuito de
satisfazer e silenciar o gato. Não imaginam que dessa forma estão justamente
ensinando o gato a miar ainda mais. O treino para o controle de miados excessivos é
simples e certeiro, mas envolve um alto grau de dificuldade por parte das pessoas que
comumente sucumbem aos miados, não conseguindo ignorá-los, comumente 27
oferecendo algo de forma intermitente (quando não resistem), piorando ainda mais o
problema. Sem ter a intenção, tampouco se dar conta, portanto, os tutores estão
frequentemente treinando seus gatos a miarem em inúmeros contextos, desde o
despertar pela manhã até pedidos de atenção e comida. REGRAS BÁSICAS 1. Sempre
que o gato miar o melhor é avaliar bem o contexto sem partir diretamente para a
interpretação de que se trata de uma solicitação. Caso não se trate de miado de dor ou
de agressividade, dê um tempo, não interaja, aguarde o gato silenciar. Desta forma ele
perceberá que miando não é atendido; 2. Sempre que o gato silenciar diante do
estímulo ou no cenário que geralmente elicia os miados, interaja, dê atenção, ofereça
uma recompensa. Desta forma ele perceberá que silenciando ele é atendido.
Recompensar o silêncio é tão importante quanto ignorar os miados, as duas ações
caminham sempre juntas; 3. Uma vez identificados os estímulos e contextos
eliciadores de miados maneje-os para que os miados não ocorram ou ao menos
diminuam. Por exemplo, se os miados são logo cedo, canse o gato antes de dormir
com uma boa brincadeira seguida do oferecimento de alimento úmido; dessa forma,
cansado e saciado, ele provavelmente atrasará o despertar matinal e você poderá
levantar antes dele, ou seja, com ele ainda em silêncio; 4. A chave para alterar o
comportamento de miar excessivamente é a consistência. Miados não devem ser
recompensados por ninguém da família e em nenhum momento ou o problema irá
piorar. 28 Exercícios Práticos 3. Morde e arranha quando é acariciado O problema da
agressividade felina contra pessoas em contexto de carinho está entre as queixas mais
comuns dos tutores de gatos. No caso do carinho, o gato é geralmente descrito como
amigável e aparentemente apreciador de cafunés, porém, “do nada”, parece que muda
de humor e morde a pessoa no meio da interação carinhosa. Alguns descrevem o gato
“acariciado-mordedor” como intolerante, malvado, frustrado e até bipolar.
Humanização à parte, devemos lembrar que gatos são seres semisociais e que,
portanto, interagem socialmente de modo bem diferente do nosso (Lição 1). Gatos não
apreciam interações físicas longas e restritivas, preferem interações frequentes,
porém fugazes, muitos não toleram carinho de nenhum tipo e de ninguém. Portanto,
evite afagos do tipo “Felícia” se o seu bichano não gosta. Agora se ele realmente gosta,
ou seja, se ele demonstra claramente contentamento enquanto recebe o seu carinho,
apenas ajuste o tempo e o estilo de acariciar ao modo felino. Mesmo entre gatos
amigos, as demonstrações de carinho são geralmente rápidas e discretas. Vão de
aproximações focinho-focinho, esfregamento corporal, entrelaçamento de caudas,
dormir junto até lambeduras recíprocas. Por vezes alguns indivíduos exageram na dose
e são bastante efusivos em suas demonstrações de afeto, mas essa não é a regra. Se
você tem um gato assim, aproveite, você tirou a sorte grande! O quanto tolerante e
apreciador de carinhos é o gato depende de seu temperamento, sendo que esse é
altamente influenciado pela sua genética, seu ambiente atual e, principalmente, suas
experiências infantis (Lição 2). Um gato que teve experiências traumáticas com
pessoas em sua infância ou mesmo que não foi apresentado a elas nesse período, terá
receios de uma interação próxima com humanos, comumente utilizando mordidas e
arranhões para interromper o contato e fugir. Outros, bem socializados com humanos,
porém separados precocemente de sua mãe e irmãos de ninhada, não tiveram a
chance de aprender com eles sobre inibição de mordidas, reagindo com agressividade
decorrente inclusive de empolgação durante o carinho. O caminho para a resolução do
problema começa com o aceite do estilo 29 felino de dar e receber carinho. Tendo isso
em mente, com dedicação, persistência e consistência os bons resultados sempre
virão. Dependendo de quanto agressivo é o gato, de quanto tempo o problema estiver
presente e, principalmente, de quanto o tutor se empenhará na difícil tarefa de conter
seu desejo impulsivo de tocar e amassar o gato, o treinamento pode demorar de
algumas semanas a alguns meses. PROCEDIMENTO BÁSICO 1. Ofereça carinho
quando o gato se aproximar de você, não vá atrás dele. Quanto mais você aguardar e
acariciar apenas quando ele “pedir”, mais ele se aproximará de você. Para atrair o gato
para o “momento carinho”, sente-se no chão e espere, deixe que o gato
espontaneamente suba em você, não pegue o gato no colo, não o levante do chão, isso
o tirará de sua zona de conforto e segurança. 2. Faça carinho nas áreas corporais que o
gato gosta que sejam acariciadas: bochechas, pescoço, topo da cabeça, linha da
coluna. Evite patas e barriga, a menos que seu gato for realmente excepcional e gostar
de carinho nessas regiões; 3. Acaricie por alguns minutos apenas e encerre antes do
gato arranhar e morder. Dessa forma bloqueia-se o “ciclo vicioso” onde o gato usa a
agressividade para demonstrar a você que não quer mais carinho, ou quando atingir o
ápice da empolgação. Observe bem o gato e monitore sua postura corporal; 4. A
utilização de uma escova bem macia, não com o intuito de remover pelos mas sim de
acariciar, é bastante recomendado. Sua mão estará longe da boca do bichano e o
carinho será tão gostoso que o gato ficará ainda mais atraído pelo “momento carinho”;
5. Finalize a sessão carinho com um petisco oferecido ao gato e a certeza de que ele
desejará seu carinho sempre. 30 Exercícios Práticos 4. Agressividade contra o
veterinário A agressão de gatos contra os seus veterinários é um clássico felino. Idas
ao veterinário são altamente estressantes para os gatos (assim como para seus
tutores) e a manifestação de agressividade no momento do exame é resultante de um
acúmulo de vivências altamente desafiadoras e sucessivas desde o momento em que
o tutor começa a prepará-lo para a consulta: • Jejum ou restrição do acesso à caixa
sanitária no caso de preparativos para exames laboratoriais • Colocação e
permanência na caixa de transporte • Saída da casa (ou seja, do seu próprio território)
• Transporte no elevador, no carro ou até mesmo na rua • Encontro com pessoas e
gatos desconhecidos ou até mesmo com animais de outras espécies (ex: cães) •
Cheiros, sons e imagens não familiares e potencialmente aversivas • Procedimentos
restritivos, desconfortáveis ou até mesmo dolorosos Na busca por soluções para esse
grande desafio na Medicina Veterinária, programas envolvendo a adequação da clínica
bem como dos procedimentos e condutas dos veterinários, os chamados “cat friendly
programmes/clinics” tem contribuído bastante com melhorias nesse cenário
sabidamente estressante para todos os envolvidos (gato, tutor, veterinário e equipe).
REGRAS GERAIS • Sempre que possível agende a consulta veterinária para o seu gato.
Dê preferência para os horários mais calmos do dia, com menos trânsito na rua,
menos gatos na clínica e menos espera para o atendimento. Em se tratando de gatos
altamente estressados, inclusive com manifestação grave de agressividade contra o
veterinário, o agendamento prévio com o aviso do gato que está por vir é altamente
recomendado, pois garantirá que a equipe esteja preparada para recebê-lo da melhor
forma possível. • Sempre que possível selecione uma clínica exclusiva para gatos ou,
no caso de clínicas mistas, opte por aquelas que possuem áreas (ex: sala 31 de espera
e consultório) restritas aos gatos. Nesses ambientes tanto a estrutura quanto a equipe
estarão bem preparados para o atendimento do gato. • Gatos com manifestação grave
de agressividade ou fortes indícios de sofrimento emocional ainda que na ausência de
comportamentos agressivos, necessitarão de medicação prévia, administrada pelo
tutor em casa, algumas horas antes da consulta. Se esse for o caso do seu gato, já
converse antecipadamente com o médico veterinário. • Não evite ou postergue a
consulta veterinária do seu gato por receio, medo ou até mesmo vergonha do
comportamento que seu gato possa exibir. Veterinários devem estar preparados para
isso assim como ter uma atitude acolhedora com você. Procure pela clínica e pelo
veterinário certo e tudo correrá bem. O transporte 1. A caixa de transporte é o
equipamento de maior conforto e segurança para o transporte de gatos. Para que a
caixa seja também bem apreciada pelos gatos é necessário que eles estejam
acostumados a elas: caixa de transporte deve ser mobília permanente no território,
confortável e acessível. Brinquedos podem ser pendurados na caixa, paninhos e
caminhas confortáveis devem estar sempre posicionados dentro dela, alimentos
especiais podem ser oferecidos diariamente para o gato comer lá dentro; 2. Para o
transporte, portanto, utilize sempre a caixa, ou qualquer outro equipamento que seu
gato esteja acostumado (cadeirinha, bolsinha, etc. ). Ele jamais deve ser transportado
solto, tampouco no colo; ainda que seu gato esteja acostumado à coleira peitoral e
guia, por exemplo, deve haver sempre uma bolsinha ou caixa de transporte
prontamente disponível caso, a qualquer momento, ele queira se refugiar; 3. Durante o
transporte no carro, mantenha o gato próximo, podendo ver você. Mantenha-se calmo,
coloque para tocar uma música tranquila a qual seu gato esteja acostumado (se
possível a música própria do gato) e permaneça quieto. Se ele miar, mantenha-se
quieto, deixando para interagir somente quando ele silenciar. Não permita que ele
fique solto pelo carro, desse modo ele se estressará ainda mais. 4. Durante o
transporte, quanto menor a exposição aos estímulos estressantes melhor. Cubra a
caixa com uma toalha, deixando apenas a 32 parte da frente descoberta, porém virada
para você, não fique tirando e colocando o gato. Deixe ele refugiado, mesmo que lhe
pareça que ele quer sai; esteja sempre perto, conforte e suporte simplesmente
estando junto, sem tentar outras ações e medidas que na maioria das vezes não
ajudarão em nada. **O uso do feromônio sintético FELIWAY CLASSIC (Ceva Saúde
Animal), análogo do feromônio facial felino é altamente recomendado para a ida ao
veterinário. Deve ser aplicado na forma de spray na caixa de transporte, nos paninhos
colocados dentro dela ou até diretamente no carro. Isso deve ser feito pelo menos 15
minutos antes da colocação do gato, pois o spray contém álcool e essa espera mínima
tem por objetivo dar tempo para o álcool evaporar de modo que o gato não sinta o
cheiro do álcool, detectando apenas os feromônios. Requisitos para uma sala de
espera e recepção “cat friendly” 1. Mantenha o gato em sua caixa de transporte ou
bolsinha e posicione a caixinha ou bolsinha em uma plataforma no alto, ao menos na
altura dos seus olhos, jamais no chão. Não havendo essas plataformas para o
posicionamento da caixinha/bolsa, mantenha em seu colo. Esteja sempre perto do
gato e garanta que ele esteja inacessível para pessoas e/ou outros animais que
estejam na sala de espera. 2. Mantenha a caixa coberta, especialmente a frente da
mesma, evitando olhares fixos por parte de pessoas e/ou outros animais; 3. Não tire o
gato da caixa, não permita que pessoas descubram a caixa, conversem de perto ou
manipulem o gato. Não tenha vergonha de parecer chato. A menos que seu gato seja
altamente sociável, seguro, amigável, muito bem treinado a usar a peitoral e guia
(nesse caso, ele até poderá interagir com as pessoas, se quiser), mantenha o seu gato
escondidinho em sua toca. **O uso do feromônio sintético FELIWAY CLASSIC (Ceva
Saúde Animal), análogo do feromônio facial felino é altamente recomendado para a
sala de espera da clínica veterinária. Deve ser usado na forma de diffusor elétrico
permanentemente plugado na tomada desta sala. Músicas específicas para gatos,
postas para tocar na sala de espera são também recomendadas para alívio do estresse
felino. Requisitos para um consultório e exame “cat friendly” 33 Ao adentrar um
consultório “cat friendly” a caixa de transporte ou a bolsinha onde está o gato será
colocada em cima da mesa ou da bancada de exame. Esteja sempre perto,
posicionando–se de modo que ele possa te ver. Abra a caixa ou bolsa e deixe o gato
sair se ele quiser. Se não, deixe que permaneça até o momento do exame. Esse,
poderá ser feito dentro da caixa ou bolsinha, ou retirando o gato enrolado em sua
toalha. Assim, sempre tenha a mão, ou dentro da caixa/bolsa, uma toalha própria do
gato. • Uma sala de atendimento “cat friendly” é muito segura, ou seja, não permite
fugas nem entocamentos atrás ou embaixo de móveis. Mobílias felinas estarão
disponíveis no chão e, caso o gato entre em uma delas, lá mesmo poderá ser
examinado e facilmente poderá ser transferido de volta a sua caixa ou bolsinha; •
Numa abordagem “cat friendly” o gato jamais será pego pelo cangote, contido esticado
sobre a mesa ou em bolsas e gaiolas de contenção. As técnicas amigáveis para os
gatos, especialmente aplicadas aos agressivos, usam toalhas enroladas no gato de
diferentes formas, permitindo o acesso a diferentes regiões do corpo e minimizando
significativamente o estresse de todos. **O uso do feromônio sintético FELIWAY
CLASSIC (Ceva Saúde Animal), análogo do feromônio facial felino é altamente
recomendado para o consultório veterinário. Deve ser usado na forma de diffusor
elétrico permanentemente plugado na tomada desta sala. Músicas específicas para
gatos, postas para tocar no consultório são também recomendadas para alívio do
estresse felino. 34 Exercícios Práticos 5. Micção e defecação fora da caixa sanitária A
micção e/ou a defecação fora da caixa sanitária é muito comum, constituindo um
problema bastante frequente visto por veterinários comportamentalistas brasileiros.
Alguns gatos apresentam o problema simplesmente porque possuem problemas
médicos, silenciosos, sendo a eliminação inapropriada seu único sintoma. Existem
ainda casos em que a eliminação inapropriada é resultante de um problema do gato
com o seu banheiro (a caixa sanitária em si, seu local, sua limpeza, seu substrato, seu
posicionamento, acessibilidade, etc.) ou, realmente, uma questão de demarcação
urinária. Portanto, comecemos diferenciando os casos: • SPRAYING (demarcação
urinária, geralmente decorrente de uma perturbação emocional): comumente várias
marcas urinárias pela casa, sem preferência por local ou superfície, urina eliminada
verticalmente em borrifos, o gato segue usando a caixa sanitária normalmente •
TOILETING (problema de banheiro, geralmente decorrente de uma não apreciação do
mesmo ou uma atratividade pelo novo local eleito como banheiro): comumente poças
urinárias em locais específicos da casa, há preferência por local e/ou superfície, urina
eliminada horizontalmente em grandes jatos, o gato diminui ou até cessa o uso da
caixa sanitária REGRAS BÁSICAS • O tratamento para a micção e defecação fora da
caixa sanitária, quer seja ele um caso de SPRAYING ou de TOILETING, costuma
demorar vários meses, especialmente se o problema estiver presente há muito tempo.
• Uma avaliação médica minuciosa com vistas a exclusão de causas médicas,
especialmente aquelas envolvendo o sistema urinário, é essencial em todos os casos
de eliminação inapropriada; • Jamais puna o gato por ter eliminado em local
inapropriado mesmo que você tenha testemunhado o ato. Não brigue, não bata, não
castigue, não mude seu comportamento com ele, pois nada disso ajudará na
resolução do problema, ao contrário, atitudes como essas podem piorá-lo; 35 •
Entenda as reais motivações e os gatilhos que levam o gato a urinar ou defecar fora de
sua caixa sanitária. Um tratamento efetivo dependerá do entendimento desses. Jamais
pense que o gato que elimina inapropriadamente é sujo ou se comporta assim
intencionalmente para provocar. Especulações como essas são fantasiosas; • Limpe
as áreas “sujas” (onde urina e/ou fezes foram depositadas) com produtos apropriados
para este fim: limpadores enzimáticos e bacteriológicos. A limpeza efetiva é parte
fundamental da terapia; • A colocação de potes de comida, água, caixa de brinquedos
ou até caminhas em áreas eleitas pelo gato para eliminação inapropriada constitui
outra medida interessante, mesmo que temporária, haja vista que mudará a
funcionalidade da área desencorajando o ato de urinar ou defecar. SPRAYING Evite os
gatilhos e crie oportunidades para outras formas de demarcação. • Feche as janelas
em horários de perturbação externa, resolva conflitos entre os gatos assim como entre
o gato e pessoas da casa, acostume o gato à criança, ao bebê e as suas ausências.
Enfim, trabalhe bem com os gatilhos e motivações que geram a demarcação urinária.
Cada gato é um, ou seja, essa parte da terapia será muito individual; • Ofereça pontos
de demarcação por arranhadura e/ou esfregamento facial. Arranhadores e “árvores de
gato” ao estilo do seu bichano devem ser posicionadas próximo de áreas já escolhidas
pelo gato para demarcação (após serem limpas, claro); ****O uso do feromônio
sintético FELIWAY CLASSIC (Ceva Saúde Animal), análogo do feromônio facial felino é
altamente recomendado para os casos de demarcação urinária. O difusor pode ser
plugado nas áreas de maior permanência do gato, ou até mesmo nas áreas de maior
demarcação, assim como o spray pode ser aplicado diariamente nos pontos
específicos de demarcação (após terem sido devidamente limpos). TOILETING Melhore
as condições do banheiro • Multiplique as caixas de areia, descentralize-as
espalhando-as por locais distintos da casa e, sempre que possível, crie os setores de
eliminação onde as caixas estarão separadas da comida e água, preferencialmente 36
na periferia do território; • Teste o seu gato quanto as suas preferências no quesito
banheiro. Providencie uma caixa de areia nova, idealmente grande, e faça dela um
laboratório. Coloque nela um novo substrato e observe o uso da caixa pelo gato por um
período de pelo menos uma semana. Não usou? Teste um novo substrato pelo mesmo
período. Não gostou? Que tal uma caixa diferente? Talvez coberta, sem substrato, com
uma fraldinha dentro. Enfim, siga monitorando os xixis e, dessa forma, você descobrirá
o banheiro ideal para o seu gato; • Independente da marca, opte por areias finas e
leves, não perfumadas, que não levantem poeira, limpas (aquelas que formam torrão
de urina e que, consequentemente, você conseguirá tirar completamente os dejetos,
fezes e urina, diariamente); • Recomenda-se que a limpeza de toda a caixa incluindo a
lavagem da mesma seja feita pelo menos a cada 15 dias; a remoção total dos dejetos
deve ser feita de uma a duas vezes ao dia. Evite produtos de limpeza com odores
fortes, use apenas sabão neutro e água em abundância para que não restem odores
decorrentes dos produtos de limpeza. 37 Exercícios Práticos 6. Brigas entre gatos
Brigas entre gatos de uma mesma residência são muito frequentes, constituindo o
problema mais comum visto por veterinários comportamentalistas brasileiros. Uma
das causas do problema é o aumenta da aquisição de gatos por tutores que já
possuem um ou alguns. Somado a isso está o procedimento comum de introduzir o
novo gato ao gato residente (s) de uma vez, o que geralmente culmina com brigas no
primeiro encontro e que comumente perduram para sempre. A agressão entre gatos de
uma mesma residência pode se dar de diversas formas e em diferentes graus de
gravidade. Quanto à forma, há a agressão lúdica, menos preocupante, haja vista a
vivência de emoções positivas por parte dos gatos envolvidos, e as agressões
ofensivas e defensivas, direcionadas ou redirecionadas, mais graves, comumente
desencadeadas por medo, ansiedade, frustração. Ainda que a agressão seja muitas
vezes parte do repertório comportamental normal felino, inclusive constituindo sinais
comunicativos de afastamento, as brigas não devem ser vistas dessa maneira. Essas
representam momentos de elevado estresse e comprometimento da integridade física
do gato. Ao testemunhar a briga de gatos, jamais deixe que resolvam sozinhos,
também não os puna fisicamente nem verbalmente. Distraia-os com um barulho ou
movimento, por exemplo, e os separe. Mantenha-os assim até que possam estar
novamente juntos e sem brigarem. REGRAS GERAIS • Avalie muito bem se estamos
diante de uma briga entre gatos, de fato, ou se apenas comportamentos agressivos tais
como patadas, bufadas e assoprões são exibidos esporadicamente, em situações
específicas e sem escalamento para uma briga. Em se tratando de gatos não amigáveis
convivendo em um ambiente restrito, é bem possível que comportamentos agressivos
ocorram inclusive como sinal comunicativo de afastamento. Ajuste o ambiente para
que não se encontrem tanto. Mas se isso ocorrer, distraia-os, não brigue; 38 • Avalie
muito bem se estamos diante de uma briga entre gatos, de fato, ou se
comportamentos agressivos são usados em contextos lúdicos. Em se tratando de
brincadeira agressiva os comportamentos são geralmente silenciosos. Espreita, tocaia
e botes são comportamentos típicos. Capriche na brincadeira sua com eles para que
não se excedam tanto na brincadeira entre si. Mas se isso ocorrer, distraia-os, não
brigue; • Avalie se será necessário separar os gatos e posteriormente reintroduzi los tal
como se estivessem sendo apresentados pela primeira vez. Em casos mais graves
esse será o melhor caminho, independente da causa que tenha gerado a agressão
entre os gatos residentes; • Adeque a casa para o grupo felino. O enriquecimento
ambiental (Lição 5) é prioridade em uma residencia multicat. Como introduzir um novo
gato em uma casa multicat? O gato recém-chegado jamais deve ser colacado direto
para interagir com os residentes. Um bom procedimento para introdução de um novo
gato no grupo, a ser feito gradativamente e sem pressa, respeitando o ritmo dos gatos é
o seguinte: • ETAPA 1: o recém-chegado deve ser colocado separado dos residentes,
em local confortável contendo todos os seus recursos. Na porta desse local, do lado
de fora, deve-se posicionar itens atrativos para os residentes (ex: um brinquedo
pendurado na porta, um pote de comida colocado em uma banqueta ao lado da porta)
de modo a minimizar a resposta de estresse dos mesmos quando se aproximam desse
cômodo; • ETAPA 2: efetue troca de cheiros, ou seja, transfira o cheiro dos residentes
para o recém-chegado e vice-versa. Isso pode ser feito utilizando paninhos ou fazendo
troca de recursos tais como potes de água, comida, brinquedos e caminha. Além
disso, em algum período (ex: durante à noite) permita que o recém-chegado explore a
casa, enquanto os residentes ficam reclusos confortavelmente em outro cômodo.
Assim, abra a porta do recém-chegado e permita que ele saia para a explorar e retorne
como queira, enquanto os residentes estão confinados; • ETAPA 3: contato visual com
supervisão. Agora é o momento de residentes e recém-chegado se verem. Para que
fiquem apenas no contato visual equipamentos tais como caixas de transporte e
bolsas 39 precisarão ser usados. Reserve um momento do dia e prepare o ambiente
para as interações. Brinquedos especiais espalhados, petiscos de alto valor
disponíveis e sessões de não mais do que 15-20 minutos. Aquele que está na caixa ou
na bolsinha come petisquinhos enquanto quem está solto brinca; assim vamos
promovendo somente boas interações enquanto eles se veem; • ETAPA 4: contato
físico com supervisão. Agora é o momento de residentes e recém-chegado se
aproximarem. Para que não haja exageros e conflitos equipamentos tais como
peitorais e guias poderão ser usados. Reserve um momento do dia e prepare o
ambiente para as interações. Brinquedos especiais espalhados, petiscos de alto valor
disponíveis e sessões de não mais do que 15-20 minutos. Brincamos com todos juntos
e, na sequência, oferecemos os petiscos; assim vamos promovendo somente boas
interações enquanto eles se encontram. Se houver conflito, distraia-os, não brigue; •
ETAPA 5: passe livre. Uma vez que as sessões de contato físico supervisionado estejam
indo bem, essas poderão ser prolongadas e feitas inclusive sem supervisão. Iniciamos
com uma sessão curta de contato físico supervisionado, mas os gatos seguirão
posteriormente juntos por algumas horas e até períodos, mesmo sozinhos. Se houver
conflito, distraia-os, não brigue. Finalmente, todos juntos, livres, leves e soltos! Em se
tratando de um gato recém-chegado filhote (i.e. até 4 meses de idade) esse
procedimento ocorrerá de forma rápida e menos estressante uma vez que filhotes são
mais facilmente e prontamente aceitos. Fora esse caso o processo costuma demorar
de algumas semanas a vários meses. A tentativa de acelerar o procedimento culminará
em brigas e retrocessos, portanto vá com calma. Em casos de muita resistência por
parte de residentes ou até mesmo do recém-chegado verificaremos a todo o momento
um risco de briga; essa deve ser sempre evitada. Assim, a despeito das sessões diárias
conduzidas corretamente, se progressos não são atingidos, um médico-veterinário
comportamentalista deverá ser consultado. É possível que medicações sejam
recomendadas, que o procedimento em si seja revisto, ou até mesmo que o recém-
chegado necessite ir morar com outra família. 40 ****O uso do feromônio sintético
FELIWAY CLASSIC (Ceva Saúde Animal), análogo do feromônio facial felino é
altamente recomendado no processo de introdução de um gato novo no grupo. O
difusor pode ser plugado nas áreas de maior permanência dos gatos, onde serão
promovidas sessões de aproximação, assim como no local onde será inicialmente
confinado o recém-chegado. Em casos onde conflitos já tiverem ocorrido o feromônio
mais indicado será o FELIWAY FRIENDS (Ceva Saúde Animal), análogo do feromônio
apaziguador maternal felino. Leitura Sugerida BRADSHAW, J. Cat Sense. Basic Books.
2014; BRADSHAW, J & ELLIS, S. The trainable cat. Basic Books, 2016. BEAVER, B.
Comportamento Felino: um guia para veterinários. Roca. 2005; GALAXY, J & DELGADO,
M. O Encantador de gatos. Best Seller. 2018; HORWITZ, D. & MILLS, D. BSAVA Manual
of Canine and Feline Behavioural Medicine. British Small Animal Veterinary
Association. 2010; RODAN, I & HEATH, S. Feline behavioral health and welfare.
Sauders, 2015. TURNER, D.C & BATESON, P. The Domestic Cat: the biology of its
behaviour. Cambridge University Press. 2014; LANDSBERG, G.; HUNTHAUSEN, W.;
ACKERMAN, L. Problemas Comportamentais do Cão e do Gato. Roca. 2004. Sobre a
Autora DANIELA RAMOS [Link] Graduação em Medicina
Veterinária pela Universidade de São Paulo (FMVZ USP) em 2002. Mestrado em
Comportamento Animal Aplicado pela Universidade de Lincoln (Inglaterra) em 2006.
Certificação em Bem-Estar Animal pelo Cambridge e-learning Institute/ Bioethicus em
2010. Doutorado em Clínica Veterinária com ênfase em Comportamento Animal pela
Universidade de São Paulo (FMVZ-USP) em 2012. Pós-doutorado em Clínica Veterinária
com ênfase em Comportamento Animal pela Universidade de São Paulo (FMVZ-USP)
em 2014. Diplomada “de facto” pelo Colégio Latino-americano de Etologia Clínica
Veterinária desde 2017. É sócia proprietária do PSICOVET CENTRO, primeiro centro
veterinário Brasileiro de Comportamento e Bem-Estar Canino e Felino, inaugurado em
São Paulo em 2014 ([Link]). Sobre a Ceva Saúde Animal e o FELIWAY A
Ceva Saúde Animal é uma multinacional francesa, presente em mais de 110 países
com atuação focada na pesquisa, desenvolvimento, produção e comercialização de
produtos farmacêuticos e biológicos para animais de companhia, e produção (bovinos,
suínos, equinos e aves). Pensando na saúde e bem-estar dos gatos e em melhorar e
facilitar a relação homem/gatos, a Ceva desenvolveu a linha de produtos Feliway.
FELIWAY CLASSIC é um análogo sintético do odor facial felino (F3) que auxilia na
adaptação de gatos adultos e filhotes em situações adversas do dia a dia: mudança do
ambiente, chegada de novos membros da família (novo animal ou bebê), transporte,
ambientes desconhecidos (clínica veterinária) e outras situações como ruídos altos
(fogos de artifícios, festas, eventos), adoção, gatil ou hotel. FELIWAY FRIENDS é um
análogo sintético do odor materno felino que ajuda na convivência harmônica, por
diminuir a frequência e intensidade dos conflitos entre os gatos que vivem juntos.
FELIWAY FRIENDS ajuda os seus gatos a viverem juntos em harmonia e a evitar
tensões,

ALAVRAS DE GWANGJU Este material foi enviado e devidamente autorizado pelo


responsável legal, autorizando sua disponibilização gratuita e integral por meio da
plataforma [Link]. Assim, o acesso ao livro está restrito exclusivamente
através do site oficial. Qualquer reprodução, redistribuição ou uso fora dessa
plataforma poderá configurar infração aos direitos autorais e às normas legais
vigentes. O site Baixe Livros reforça seu compromisso com a ética e a valorização do
trabalho dos autores, tradutores e editores, oferecendo acesso responsável à leitura.
Para ler este [Link] e outros títulos, acesse: SUMÁRIO Capítulo 1 –
Dois anos depois ........................................................................................ 5 Capítulo
2 – Vozes que faltam ...................................................................................... 10
Capítulo 3 – Coisas que voltam ....................................................................................
14 Capítulo 4 – Entre bilhetes e silêncios
......................................................................... 17 Capítulo 5 – O girassol que não
desbotou .................................................................. 22 Capítulo 6 – Ensaios
...................................................................................................... 27 Capítulo 7 –
Primeiras escolhas .................................................................................... 31
Capítulo 8 – O adeus
...................................................................................................... 36 Capítulo 9 –
Como quem já sabe ................................................................................. 40 Capítulo
10 – O florescer da palavra ........................................................................... 44
Capítulo 11 – Da alegria das coisas simples ................................................................
48 Epílogo
............................................................................................................................. 51
Aos que aprenderam que o silêncio guarda, mas é a palavra que aproxima — que cada
voz encontre o seu tempo de florescer 4 Capítulo 1 – Dois anos depois Dois anos
haviam se passado desde que Eun-ha deixara Gwangju. Dois anos desde que
atravessara a estação de trem com a mala apertada, o coração dividido e a sensação
de estar caminhando para um lugar que não era exatamente o dela. Agora, no terceiro
ano da faculdade de Biologia, já sabia o caminho exato entre o metrô e os prédios da
universidade. Já conhecia o barulho dos estudantes atravessando os corredores, as
vozes que se sobrepunham nos cafés próximos ao campus, o som acelerado da cidade
que parecia não descansar nem de madrugada. E, no entanto, ainda se sentia uma
visitante. Era como se vivesse à parte, mesmo estando entre centenas de pessoas
todos os dias. A vida em Seul lhe ensinara a criar pequenos refúgios. Gostava de
chegar mais cedo às aulas, quando a sala ainda estava quase vazia e o único som era o
virar de páginas dos que estudavam sozinhos. Guardava para si os cantos mais
discretos da biblioteca, onde podia respirar devagar sem que ninguém notasse. No
quarto que alugava próximo à universidade, espalhava vasos pequenos em cima da
mesa e no parapeito da janela. Alguns eram simples demais, quase sem cor, mas para
ela eram como âncoras: lembranças silenciosas da floricultura da avó, da calma das
manhãs em Gwangju, da rotina de regar plantas que não exigiam pressa. Entre livros de
Biologia e relatórios de laboratório, havia sempre uma folha verde se esforçando para
crescer. 5 Não eram só objetos — eram a forma que Eun-ha encontrara de
permanecer. De carregar Gwangju dentro de Seul. No campus, era conhecida como
uma aluna aplicada. Sempre entregava os trabalhos no prazo, os relatórios vinham
completos, os desenhos de lâminas feitos com capricho. Mas todos sabiam também
que ela falava pouco. Sentava-se no fundo ou na lateral da sala, observava mais do que
participava. Quando os professores pediam voluntários para responder, Eun-ha
abaixava os olhos, como se o silêncio fosse um escudo. Não era medo de não saber.
Na verdade, ela quase sempre sabia. O problema era transformar pensamento em voz.
As ideias fluíam com clareza dentro dela, mas ao chegar nos lábios, se perdiam. Era
um contraste curioso: nos cadernos, seus resumos eram os mais elogiados. Escrevia
com calma, frases organizadas, letras firmes. Alguns colegas pediam para copiar suas
anotações antes das provas. E, lendo suas páginas, ninguém imaginaria que a autora
quase nunca falava. Eun-ha, porém, não se ressentia dos silêncios. Estava
acostumada a viver assim: observando, escrevendo, guardando. Mas, ultimamente,
começava a sentir algo diferente — como se o silêncio, que sempre fora abrigo,
estivesse se tornando um peso. À noite, quando voltava do campus e se sentava
sozinha para comer em um pequeno restaurante perto do quarto, escutava a conversa
dos outros. Riam alto, faziam planos, discutiam ideias, brigavam, reatavam. E ela se
perguntava se, algum dia, teria coragem de colocar para fora tudo o que guardava
dentro de si. 6 Era esse contraste que a acompanhava diariamente em Seul: a cidade
que falava alto demais e a estudante que respondia baixo demais. E, embora fingisse
não se importar, já começava a perceber que, se quisesse permanecer de verdade,
teria que aprender algo novo: dar voz ao que sentia. Para Eun-ha, o maior contraste não
estava na cidade, mas na presença constante de Min-jun. Dois anos antes, ele também
parecia parte daquele silêncio que a sustentava. Guardava bilhetes em livros
esquecidos, escrevia frases em pedaços de papel e se contentava em dividir silêncios
com ela. Agora, no entanto, era outro: formado em Letras, dava aulas particulares para
adolescentes, escrevia artigos que começavam a circular em pequenas revistas e
participava de encontros literários em que lia poesia em voz alta. Era como se tivesse
descoberto uma liberdade que ela ainda buscava. Eun-ha o acompanhara em alguns
desses encontros. Sentava-se no fundo da sala, muitas vezes a única que não segurava
um caderno ou um celular. Observava. Min-jun parecia mudar diante de um microfone:
as mãos firmes, a voz serena, o olhar seguro. Ele lia um poema sobre o tempo, ou
comentava um trecho de romance, e as pessoas o escutavam como se a palavra
tivesse peso suficiente para suspender o barulho da cidade. Ela sentia admiração.
Mas, junto a admiração, vinha também uma pontada de distância. Porque, ao lado
dele, seu próprio silêncio parecia ainda maior. Os encontros entre os dois continuavam
frequentes, mas nunca com pressa. Às vezes, Min-jun a esperava na saída das aulas;
outras, caminhavam juntos até a estação de metrô. Quando havia mais tempo,
buscavam cafés pequenos, escondidos em ruas secundárias, sempre escolhidos por
ele — lugares onde a conversa parecia possível. 7 E, nesses cafés, o contraste se
tornava evidente. Min-jun falava com entusiasmo: contava histórias sobre os alunos,
refletia sobre livros, perguntava o que ela achava. Eun-ha respondia, mas em frases
curtas, como se tivesse medo de que uma palavra a mais a entregasse inteira. — Como
está a universidade? — ele perguntou certa vez, mexendo distraído no café com leite.
— Corrida… — respondeu. — Corrida como? O que vocês estão estudando agora? Ela
pensou na resposta longa que poderia dar: sobre as aulas de ecologia, os relatórios de
laboratório, o professor que sempre exigia apresentações orais. Mas o que disse foi
apenas: — Biologia é cansativa. Ele sorriu, não por achar graça, mas por reconhecer
aquele hábito dela de reduzir as coisas. E, como sempre, não insistiu. Mudou de
assunto, falou sobre um novo poema que escrevera. Mas havia momentos em que Min
jun deixava escapar o que guardava. — Às vezes, sinto que converso sozinho — disse
uma noite, depois de acompanhá la até o seu apartamento. — Eu falo, você escuta…
mas queria ouvir você também. Eun-ha não respondeu. Sorriu de leve, como se o
sorriso fosse suficiente. Mas sabia que não era. Houve uma tarde, perto do início da
primavera, em que Min-jun a convidou para ir a um recital no centro cultural da cidade.
Ela hesitou, mas foi. A sala estava cheia, e quando 8 chamaram seu nome, Min-jun
subiu ao palco. Pegou o papel no bolso, respirou fundo e leu. Não havia nada de
extraordinário em sua postura — nenhum gesto teatral, nenhuma ênfase exagerada. O
extraordinário estava na simplicidade de ter coragem de dizer em voz alta o que havia
escrito sozinho, à noite, na solidão do quarto. Eun-ha, sentada entre desconhecidos,
sentiu o coração apertado. Não era inveja, mas uma espécie de dor: perceber que
alguém que um dia dividira silêncios com ela agora tinha voz para o mundo inteiro.
Depois do recital, enquanto caminhavam lado a lado pela rua iluminada, Min-jun
quebrou o silêncio entre eles: — Você escreve bonito, Eun-ha. Sei disso. Mas queria
ouvir você dizendo. Ela abaixou os olhos. — Eu não sei falar como você. Ele sorriu, mas
o sorriso tinha uma sombra. — Não precisa ser como eu. Só precisa ser você. Eu só
queria ouvir. Andaram juntos até a estação. Ele não insistiu. E ela não disse nada. Mas,
ao chegar no quarto, sentou-se diante do espelho e repetiu em voz baixa, como se
fosse um ensaio: — “Só precisa ser você.” 9 Capítulo 2 – Vozes que faltam Naquela
manhã de segunda-feira, o corredor do prédio de Ciências estava mais barulhento do
que de costume. Os alunos entravam e saíam das salas carregando cartazes, pen
drives, folhas impressas. Era dia de seminário. Eun-ha sabia disso havia semanas.
Tinha preparado o trabalho com cuidado, preenchendo páginas e mais páginas de
anotações. O tema — ciclos de vida em ecossistemas marinhos — não era difícil para
ela. Na verdade, suas explicações escritas eram claras, organizadas, até elogiadas por
colegas que pediam para copiar. Mas, diante do quadro branco, não bastaria escrever.
Ali, precisaria falar. Sentou-se na segunda fileira, tentando não chamar atenção.
Observava os colegas apresentando, cada um com seu estilo: alguns confiantes,
outros nervosos, mas todos conseguindo se levantar, abrir a boca, pronunciar
palavras. Um deles até gaguejou no início, mas se recompôs, arrancando aplausos
solidários. Eun-ha olhava, com o coração apertado, pensando que talvez não tivesse
essa força de se recompor. Para ela, a falha não seria apenas um tropeço; seria o
desmoronar inteiro. Quando o professor anunciou seu nome, as pernas pareceram
pesar. Levantou-se devagar, segurando o papel impresso como se fosse uma tábua de
salvação. Caminhou até a frente. O silêncio da sala não era acolhedor — era
expectativa. E expectativa pesava. 10 Olhou para as palavras no papel. Eram as
mesmas que escrevera com cuidado dias antes, mas, de repente, pareciam distantes,
como se não fossem suas. Abriu a boca. Nenhum som saiu. Engoliu em seco. Tentou
outra vez. A voz veio fraca, quase um sussurro. — Os ecossistemas… — começou, mas
parou. As frases seguintes se embaralharam na mente. O papel tremia em suas mãos.
Sentia os olhares dos colegas, alguns impacientes, outros compreensivos. O professor
a observava com calma, como quem dava tempo, mas cada segundo parecia um peso
a mais. Finalmente, conseguiu dizer algumas linhas, rápidas, sem olhar para ninguém.
Não explicou o suficiente. Não havia voz, apenas palavras soltas, ditas como quem
pede desculpas por existir. Terminou antes do tempo. Entregou o papel ao professor e
voltou ao lugar. O coração batia como se tivesse corrido uma maratona, mas a
sensação não era de vitória. Era de vazio. Na saída, alguns colegas se aproximaram. —
Você fala bem — disse uma das meninas, sorrindo. — Pena que não conseguiu dizer
tudo. Eun-ha sorriu de volta, sem resposta. Não havia resposta. Naquela tarde, não
quis almoçar com ninguém. Caminhou sozinha até o café escondido que costumava
frequentar. Sentou-se no canto, diante da janela, e abriu o caderno. Não para estudar
— para escrever o que não dissera. 11 "Os ecossistemas dependem de equilíbrio. E o
equilíbrio só acontece quando cada elemento ocupa seu espaço, cumpre seu papel,
mesmo que seja pequeno." Os ecossistemas dependem de equilíbrio. E o equilíbrio
não nasce de forças iguais competindo entre si, mas de cada coisa ocupando o lugar
que lhe pertence. A folha que cai não tenta ser árvore; o inseto que voa não inveja o rio
que corre. Cada um cumpre o que é próprio, e assim o todo permanece. Eun-ha
pensava que a vida humana talvez fosse parecida. O vazio não vinha de ter pouco, mas
de não reconhecer o espaço que já lhe cabia. O mundo parecia apressado demais,
cheio de vozes que disputavam atenção. Mas, no fundo, talvez não fosse preciso
competir por grandeza. Bastava permanecer fiel ao que se é, ainda que pequeno.
Talvez fosse justamente no cumprimento silencioso da própria função que nascia a
verdadeira harmonia. Como no mar, em que até os seres invisíveis sustentam a vida,
também na existência as coisas mais discretas podem carregar um peso que ninguém
vê, mas sem o qual nada se sustentaria. Escreveu mais algumas linhas, quase febril. E,
quando terminou, olhou para as palavras com um peso doloroso: no papel, tudo estava
claro; na boca, tudo se desfazia. De repente, lembrou-se de Min-jun. Da sua voz firme
no recital. Da frase dele, dita algumas semanas antes: “Só queria ouvir você.”
Percebeu que havia um abismo entre o que sentia e o que deixava transparecer. 12 E
que, se continuasse calada, não só perderia oportunidades na universidade — poderia
perder também a chance de que alguém a amasse por inteiro. Naquela noite, voltou
para o quarto, acendeu apenas a luminária da mesa e encarou o espelho. Pegou o
caderno e leu em voz alta as frases que escrevera. A voz saiu trêmula, baixa, quase
sem corpo. Mas saiu. Repetiu de novo. Depois outra vez. Até que o som, ainda
imperfeito, começou a ocupar o quarto vazio. Foi então que compreendeu: se o
silêncio sempre fora sua forma de permanecer, agora a vida começava a pedir outra
coisa — uma voz, mesmo pequena, que tivesse coragem de existir. 13 Capítulo 3 –
Coisas que voltam O auditório não era grande. Algumas cadeiras dobráveis, um
microfone simples, uma fileira de estudantes que se revezavam para ler poemas ou
pequenos textos que haviam escrito. Ainda assim, para Eun-ha, aquele espaço parecia
imenso. Sentada no fundo, ela observava Min-jun subir ao palco com um caderno nas
mãos. Não havia pressa em seus passos, nem nervosismo aparente. Quando abriu o
caderno e ergueu os olhos para o público, parecia já ter estabelecido uma ponte
invisível: todos se calaram. — “O que é dito não precisa ser alto para ser ouvido. Basta
ser verdadeiro.” Ele começou com essa frase, antes mesmo de ler o poema. Eun-ha
sentiu o coração bater mais forte. Não era apenas o conteúdo das palavras, mas a
calma com que ele as pronunciava. Como se cada sílaba tivesse lugar, como se a voz
ordenasse o que antes era apenas um emaranhado. Min-jun lia versos sobre o tempo,
sobre o modo como as estações se repetiam sem nunca serem iguais. Sua voz era
firme, mas não dura; clara, mas não fria. A cada pausa, parecia dar espaço para que o
silêncio fosse parte da fala — um silêncio que não afastava, mas acolhia. Eun-ha o
comparava a si mesma. Ela, que sempre tinha muito por dentro, mas travava na hora
de expor. 14 Ele, que conseguia alinhar pensamento e palavra como quem coloca
flores em um vaso: cada uma em seu lugar, sem excesso, sem falta. Não era apenas
eloquência. Era clareza. E, naquela clareza, havia uma ordem que ela reconhecia, mas
ainda não sabia viver. Depois do recital, caminharam lado a lado pelas ruas
iluminadas. Seul ainda vibrava, mesmo tarde da noite, mas o barulho da cidade não
apagava o eco do que ele havia dito. — Você escreve bonito, Eun-ha — disse Min-jun,
segurando o caderno junto ao peito. — Mas a palavra não é só escrita. É também voz.
Ela abaixou os olhos. Não sabia como responder. Ele continuou, sem pressa, como
quem expõe um pensamento em voz alta mais para partilhar do que para convencer: —
Quando não falo, o que penso fica confuso. Quando falo, mesmo imperfeito, começa a
ganhar forma. Eun-ha ouviu aquilo como se fosse uma explicação daquilo que mais
temia. Para ela, a palavra parecia perigosa — podia expô-la, podia fazê-la falhar. Para
ele, a palavra era libertação. No silêncio da caminhada, ela refletia: se cada coisa na
criação tinha um fim — a árvore que dá sombra, a água que corre, a abelha que poliniza
— talvez a voz também tivesse o seu lugar próprio. E não falar, quando se devia falar,
era como recusar ao mundo a parte que lhe cabia. Quando chegaram à estação, Min
jun sorriu. 15 — Você não precisa falar como eu, Eun-ha. Só precisa ser você. E deixar
que eu ouça. Ela acenou, mas não respondeu. O silêncio foi sua escolha mais uma vez.
E, sozinha no quarto naquela noite, repetiu a frase dele em voz baixa, como se fosse
ensaio: “Só precisa ser você.” Foi então que percebeu: o silêncio guardava, mas a
palavra tinha o dom de aproximar. E se queria permanecer de verdade, não poderia
calar para sempre. 16 Capítulo 4 – Entre bilhetes e silêncios Na biblioteca, o silêncio
era quase absoluto. O som mais alto vinha das páginas viradas e do arrastar de
cadeiras. Eun-ha estava sentada em uma mesa próxima à janela, rabiscando em seu
caderno. Não eram anotações de Biologia dessa vez, mas linhas soltas que tinham
mais de confissão do que de estudo. "Admiro como você fala. Eu queria conseguir."
Dobrou a folha, como sempre fazia. O costume de escrever bilhetes permanecera,
como uma parte de Gwangju que resistia em Seul. Mas, diferente dos primeiros anos,
em que os bilhetes eram sua única ponte com Min-jun, agora pareciam quase uma
fuga. Guardou o papel no bolso e fechou o caderno. Ainda não sabia se teria coragem
de entregá-lo. Encontrou Min-jun mais tarde, num café discreto que ficava entre a
universidade e a estação. Ele já estava lá, sentado com um livro aberto e o olhar
tranquilo de quem sabia esperar. — Você demorou hoje — disse, fechando o livro. Ela
pediu apenas um chá e se sentou. Min-jun começou a falar sobre seus alunos de
literatura, sobre como muitos tinham vergonha de ler em voz alta no começo. 17 —
Mas quando percebem que a palavra não é só decorar, tudo muda — contou, animado.
— A voz dá vida ao texto. Eles entendem que podem se reconhecer no que dizem. Eun
ha sorriu de leve. Queria dizer que também se reconhecia nas palavras dos outros, mas
que não sabia dar vida às suas próprias. Queria contar que, no bolso, tinha um bilhete
escrito justamente sobre isso. Mas, em vez disso, ficou calada. Min-jun a olhou por um
instante, como quem percebe o que não foi dito. — Você sempre me escuta tanto…
mas às vezes penso que guardo só a metade da conversa. Ela desviou os olhos,
mexendo no chá. O bilhete no bolso parecia pesar. Sozinha à noite, deitou-se na cama
com o papel ainda dobrado na mão. Pensou no que Min-jun dissera sobre seus alunos:
que a palavra só ganhava vida quando dita. Talvez fosse isso. O bilhete que não
entregava era como uma semente guardada no escuro: tinha dentro de si tudo o que
precisava, mas nunca florescia. Na verdade, ela tinha medo de incomodar. Eun-ha se
perguntou se ela mesma não estava vivendo assim — cheia de pensamentos em
potência, mas nunca no ato. E se continuasse assim, não estaria negando ao mundo
aquilo que só ela poderia dar? No dia seguinte, ao sair da aula, encontrou Min-jun
esperando diante do portão da universidade. Trazia um livro nas mãos. 18 — Li ontem e
pensei em você. Quero que leia também. O gesto era simples, mas carregava afeto.
Eun-ha segurou o livro devagar, sentindo vontade de dizer muito mais do que um
“obrigada”. Queria falar da admiração que sentia dele, da saudade que às vezes
pesava, do medo de não estar à altura. Mas o que fez foi apenas guardar o presente na
mochila, em silêncio. Min-jun sorriu, mas Eun-ha percebeu nos olhos dele uma sombra
breve, quase imperceptível. Era a mesma sombra que surgia sempre que ela respondia
com pouco, quando havia tanto por dentro. Ele suspirou fundo e, pela primeira vez, não
deixou o silêncio vencer. — Eun-ha… — começou, a voz calma, mas firme. — Se você
não falar o que guarda, vai perder. Ela o olhou, assustada, como se não esperasse
dureza vinda dele. Ele prosseguiu, sem desviar os olhos: — A permanência não é feita
só do que se cala. O silêncio guarda, sim, mas não sustenta para sempre. O que
permanece é aquilo que encontra forma, que se realiza. Se o pensamento nunca chega
a ser dito, ele se apaga como uma semente que nunca rompe a terra. Eun-ha apertou a
alça da mochila. Queria responder, mas a garganta parecia fechada. Min-jun se
aproximou um passo. — Eu gosto de você, mas não posso falar sozinho o tempo
inteiro. — A voz era calma, mas firme. 19 Ela arregalou os olhos, surpresa. Não estava
acostumada a ouvir Min-jun romper o tecido macio do silêncio com palavras tão
diretas. Ele percebeu o susto, mas não recuou. Apenas respirou fundo e continuou: —
Você é minha melhor amiga. — Disse com convicção, mas o coração latejava, porque
no fundo havia muito mais escondido do que a palavra “amizade” deixava
transparecer. Palavras não ditas, guardadas como pedras no fundo de um rio. Fez uma
pausa curta, como quem escolhe com cuidado o que não pode mais adiar: — Preciso
da sua voz. Se ela não vier, não adianta que você sinta muito por dentro… porque nada
vive só em potência. As palavras caíram sobre ela como um peso inesperado. Não
havia acusação em sua voz, mas verdade. Ele saiu. Ela ficou. Eun-ha desviou o olhar,
sentindo o coração arder. Ele tinha razão. Talvez, no fundo, sempre tivera. Naquela
noite, Eun-ha abriu o caderno e colou dentro dele todos os bilhetes que não entregara.
Páginas e mais páginas cheias de frases que nunca chegavam ao de

ha dos pés para alcançar os heliotrópios e os manacás. Henrique seguiu o Botelho até
ao quarto deste, conversando sem mudar de assunto. — Você então não fala nisto,
hein? Jura? perguntou-lhe. O velho tinha já declarado, a rir, que os pilhara em flagrante
e que ficara bom tempo à espreita. — Falar o quê, seu tolo?... Pois então quem pensa
você que eu sou?... Só abrirei o bico se você me der motivo para isso, mas estou
convencido que não dará... Quer saber? Eu até simpatizo muito com você, Henrique!
Acho que você é um excelente menino, uma flor! E digo-lhe mais: hei de proteger os
seus negócios com Dona Estela... Falando assim, tinha-lhe tomado as mãos e afagava-
as. — Olhe, continuou, acariciando-o sempre; não se meta com donzelas, entende?...
São o diabo! Por dá cá aquela palha fica um homem em apuros! Agora quanto às
outras, papo com elas! Não mande nenhuma ao vigário, nem lhe doa a cabeça, porque,
no fim de contas, nas circunstâncias de Dona Estela, é até um grande serviço que você
lhe faz! Meu rico amiguinho, quando uma mulher já passou dos trinta e pilha a jeito um
rapazito da sua idade, é como se descobrisse ouro em pó! Sabe-lhe a gaitas! Fique
então sabendo de que não é só a ela que você faz o obséquio, mas também ao marido:
quanto • 34 • O CORTIÇO mais escovar-lhe você a mulher, melhor ela ficará de gênio, e
por conse guinte melhor será para o pobre homem, coitado! Que tem já bastante com
que se aborrecer lá por baixo, com os seus negócios, e precisa de um pouco de
descanso quando volta do serviço e mete-se em casa! Escove-a, escove-a! Que a porá
macia que nem veludo! O que é preciso é muito juizinho, per cebe? Não faça outra
criançada como a de hoje e continue para diante, não só com ela, mas com todas as
que lhe caírem debaixo da asa! Vá passando! Menos as de casa aberta, que isso é
perigoso por causa das moléstias; nem tampouco donzelas! Não se meta com a
Zulmira! E creia que lhe falo assim, porque sou seu amigo, porque o acho simpático,
porque o acho bonito! E acarinhou-o tão vivamente dessa vez, que o estudante,
fugindo-lhe das mãos, afastou-se com um gesto de repugnância e desprezo, enquanto
o velho lhe dizia em voz comprimida: — Olha! Espera! Vem cá! Você é desconfiado!... III
Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua
infinidade de portas e janelas alinhadas. Um acordar alegre e farto de quem dormiu de
uma assentada sete horas de chumbo. Como que se sentiam ainda na indolência de
neblina as derradeiras notas da última guitarra da noite antecedente, dissolvendo-se à
luz loura e tenra da aurora, que nem um suspiro de saudade perdido em terra alheia.
ALUÍSIO AZEVEDO • 35 • A roupa lavada, que ficara de véspera nos coradouros,
umedecia o ar e punha-lhe um farto acre de sabão ordinário. As pedras do chão,
esbranquiçadas no lugar da lavagem e em alguns pontos azuladas pelo anil,
mostravam uma palidez grisalha e triste, feita de acumulações de espumas secas.
Entretanto, das portas surgiam cabeças congestionadas de sono; ouviam-se amplos
bocejos, fortes como o marulhar das ondas; pigarreava-se grosso por toda a parte;
começavam as xícaras a tilintar; o cheiro quente do café aquecia, suplantando todos
os outros; trocavam-se de janela para janela as primeiras palavras, os bons-dias;
reatavam-se conversas interrompidas à noite; a pequenada cá fora traquinava já, e lá
dentro das casas vinham choros abafados de crianças que ainda não andam. No
confuso rumor que se formava, destacavam-se risos, sons de vozes que altercavam,
sem se saber onde, grasnar de marrecos, cantar de galos, cacarejar de galinhas. De
alguns quartos saíam mulheres que vinham pendurar cá fora, na parede, a gaiola do
papagaio, e os louros, à semelhança dos donos, cumprimentavam-se ruido samente,
espanejando-se à luz nova do dia. Daí a pouco, em volta das bicas era um zunzum
crescente; uma aglo meração tumultuosa de machos e fêmeas. Uns, após outros,
lavavam a cara, incomodamente, debaixo do fio de água que escorria da altura de uns
cinco palmos. O chão inundava-se. As mulheres precisavam já prender as saias entre
as coxas para não as molhar; via-se-lhes a tostada nudez dos braços e do pescoço,
que elas despiam, suspendendo o cabelo todo para o alto do casco; os homens, esses
não se preocupavam em não molhar o pelo, ao contrário metiam a cabeça bem
debaixo da água e esfregavam com força as ventas e as barbas, fossando e fungando
contra as palmas da mão. As portas das latrinas não descansavam, era um abrir e
fechar de cada instante, um entrar e sair sem tréguas. Não se demoravam lá dentro e
vinham ainda amarrando as calças ou as saias; as crianças não se davam ao trabalho
de lá ir, despachavam-se ali mesmo, no capinzal dos fundos, por detrás da estalagem
ou no recanto das hortas. O rumor crescia, condensando-se; o zunzum de todos os
dias acentuava-se; já se não destacavam vozes dispersas, mas um só ruído com pacto
que enchia todo o cortiço. Começavam a fazer compras na venda; ensarilhavam-se
discussões e rezingas; ouviam-se gargalhadas e pragas; já se não falava, gritava-se.
Sentia-se naquela fermentação sanguínea, naquela • 36 • O CORTIÇO gula viçosa de
plantas rasteiras que mergulham os pés vigorosos na lama preta e nutriente da vida, o
prazer animal de existir, a triunfante satisfação de respirar sobre a terra. Da porta da
venda que dava para o cortiço iam e vinham como formigas; fazendo compras. Duas
janelas do Miranda abriram-se. Apareceu numa a Isaura, que se dispunha a começar a
limpeza da casa. — Nhá Dunga! gritou ela para baixo, a sacudir um pano de mesa; se
você tem cuscuz de milho hoje, bata na porta, ouviu? A Leonor surgiu logo também,
enfiando curiosa a carapinha por entre o pescoço e o ombro da mulata. O padeiro
entrou na estalagem, com a sua grande cesta à cabeça e o seu banco de pau fechado
debaixo do braço, e foi estacionar em meio do pátio, à espera dos fregueses, pousando
a canastra sobre o cavalete que ele armou prontamente. Em breve estava cercado por
uma nuvem de gente. As crianças adulavam-no, e, à proporção que cada mulher ou
cada homem recebia o pão, disparava para casa com este abraçado contra o peito.
Uma vaca, seguida por um bezerro amordaçado, ia, tilintando tristemente o seu
chocalho, de porta em porta, guiada por um homem carregado de vasilhame de folha.
O zunzum chegava ao seu apogeu. A fábrica de massas italianas, ali mesmo da
vizinhança, começou a trabalhar, engrossando o barulho com o seu arfar monótono de
máquina a vapor. As corridas até à venda reproduziam-se, transformando-se num
verminar constante de formigueiro assanhado. Agora, no lugar das bicas apinhavam-se
latas de todos os feitios, sobressaindo as de querosene com um braço de madeira em
cima; sentia-se o trapejar da água caindo na folha. Algumas lavadeiras enchiam já as
suas tinas; outras esten diam nos coradouros a roupa que ficara de molho. Principiava
o trabalho. Rompiam das gargantas os fados portugueses e as modinhas brasileiras.
Um carroção de lixo entrou com grande barulho de rodas na pedra, seguido de uma
algazarra medonha algaraviada pelo carroceiro contra o burro. E, durante muito tempo,
fez-se um vaivém de mercadores. Apareceram os tabuleiros de carne fresca e outros
de tripas e fatos de boi; só não vinham hortaliças, porque havia muitas hortas no
cortiço. Vieram os ruidosos mas cates, com as suas latas de quinquilharia, com as
suas caixas de candeeiros e objetos de vidro e com o seu fornecimento de caçarolas e
chocolateiras, ALUÍSIO AZEVEDO • 37 • de folha de flandres. Cada vendedor tinha o
seu modo especial de apregoar, destacando-se o homem das sardinhas, com as
cestas do peixe dependu radas, à moda de balança, de um pau que ele trazia ao
ombro. Nada mais foi preciso do que o seu primeiro guincho estridente e gutural para
surgirem logo, como por encanto, uma enorme variedade de gatos, que vieram cor
rendo acercar-se dele com grande familiaridade, roçando-se-lhe nas pernas
arregaçadas e miando suplicantemente. O sardinheiro os afastava com o pé, enquanto
vendia o seu peixe à porta das casinhas, mas os bichanos não desistiam e
continuavam a implorar, arranhando os cestos que o homem cui dadosamente tapava
mal servia ao freguês. Para ver-se livre por um instante dos importunos era necessário
atirar para bem longe um punhado de sardi nhas, sobre o qual se precipitava logo, aos
pulos, o grupo dos pedinchões. A primeira que se pôs a lavar foi a Leandra, por alcunha
a “Machona”, portuguesa feroz, berradora, pulsos cabeludos e grossos, anca de
animal do campo. Tinha duas filhas, uma casada e separada do marido, Ana das
Dores, a quem só chamavam a “das Dores” e outra donzela ainda, a Neném, e mais um
filho, o Agostinho, menino levado dos diabos, que gritava tanto ou melhor que a mãe. A
das Dores morava em sua casinha à parte, mas toda a família habitava no cortiço.
Ninguém ali sabia ao certo se a Machona era viúva ou desquitada; os filhos não se
pareciam uns com os outros. A das Dores, sim, afirmavam que fora casada e que
largara o marido para meter-se com um homem do comércio; e que este, retirando-se
para a terra e não querendo soltá-la ao desamparo, deixara o sócio em seu lugar. Teria
vinte e cinco anos. Neném dezessete. Espigada, franzina e forte, com uma proazinha
de orgulho da sua virgindade, escapando como enguia por entre os dedos dos rapazes
que a queriam sem ser para casar. Engomava bem e sabia fazer roupa branca de
homem com muita perfeição. Ao lado da Leandra foi colocar-se à sua tina a Augusta
Carne-Mole, bra sileira, branca, mulher de Alexandre, um mulato de quarenta anos,
soldado de polícia, pernóstico, de grande bigode preto, queixo sempre escanhoado e
um luxo de calças brancas engomadas e botões limpos na farda, quando estava de
serviço. Também tinham filhos, mas ainda pequenos, um dos quais, a Juju, vivia na
cidade com a madrinha que se encarregava dela. Esta • 38 • O CORTIÇO madrinha era
uma cocote de trinta mil-réis para cima, a Léonie, com sobrado na cidade.
Procedência francesa. Alexandre, em casa, à hora de descanso, nos seus chinelos e na
sua camisa desabotoada, era muito chão com os companheiros de estalagem,
conversava, ria e brincava, mas envergando o uniforme, encerando o bigode e
empunhando a sua chibata, com que tinha o costume de fustigar as calças de brim,
ninguém mais lhe via os dentes e então a todos falava teso e por cima do ombro. A
mulher, a quem ele só dava tu quando não estava fardado, era de uma honestidade
proverbial no cortiço, honestidade sem mérito, porque vinha da indolência do seu
temperamento e não do arbítrio do seu caráter. Junto dela pôs-se a trabalhar a
Leocádia, mulher de um ferreiro cha mado Bruno, portuguesa pequena e socada, de
carnes duras, com uma fama terrível de leviana entre as suas vizinhas. Seguia-se a
Paula, uma cabocla velha, meio idiota, a quem respeitavam todos pelas virtudes de
que só ela dispunha para benzer erisipelas e cortar febres por meio de rezas e
feitiçarias. Era extremamente feia, grossa, triste, com olhos desvairados, dentes
cortados à navalha, formando ponta, como dentes de cão, cabelos lisos, escorridos e
ainda retintos apesar da idade. Chamavam-lhe “Bruxa”. Depois seguiam-se a Marciana
e mais a sua filha Florinda. A primeira, mulata antiga, muito séria e asseada em
exagero: a sua casa estava sempre úmida das consecutivas lavagens. Em lhe
apanhando o mau humor punha-se logo a espanar, a varrer febrilmente, e, quando a
raiva era grande, corria a buscar um balde de água e descarregava-o com fúria pelo
chão da sala. A filha tinha quinze anos, a pele de um moreno quente, beiços sensuais,
bonitos dentes, olhos luxuriosos de macaca. Toda ela estava a pedir homem, mas
sustentava ainda a sua virgindade e não cedia, nem à mão de Deus Padre, aos rogos de
João Romão, que a desejava apanhar a troco de pequenas concessões na medida e no
peso das compras que Florinda fazia diariamente à venda. Depois via-se a velha Isabel,
isto é, Dona Isabel, porque ali na esta lagem lhes dispensavam todos certa
consideração, privilegiada pelas suas maneiras graves de pessoa que já teve
tratamento: uma pobre mulher comida de desgostos. Fora casada com o dono de uma
casa de chapéus, que quebrou e suicidou-se, deixando-lhe uma filha muito doentinha
e fraca, a ALUÍSIO AZEVEDO • 39 • quem Isabel sacrificou tudo para educar, dando-lhe
mestre até de francês. Tinha uma cara macilenta de velha portuguesa devota, que já foi
gorda, bochechas moles de pelancas rechupadas, que lhe pendiam dos cantos da
boca como saquinhos vazios; fios negros no queixo, olhos castanhos, sempre
chorosos engolidos pelas pálpebras. Puxava em bandós sobre as fontes o escasso
cabelo grisalho untado de óleo de amêndoas doces. Quando saía à rua punha um
eterno vestido de seda preta, achamalotada, cuja saia não fazia rugas, e um xale
encarnado que lhe dava a todo o corpo um feitio pira midal. Da sua passada grandeza
só lhe ficara uma caixa de rapé de ouro, na qual a inconsolável senhora pitadeava
agora, suspirando a cada pitada. A filha era a flor do cortiço. Chamavam-lhe Pombinha.
Bonita, posto que enfermiça e nervosa ao último ponto; loura, muito pálida, com uns
modos de menina de boa família. A mãe não lhe permitia lavar, nem engomar, mesmo
porque o médico a proibira expressamente. Tinha o seu noivo, o João da Costa, moço
do comércio, estimado do patrão e dos colegas, com muito futuro, e que a adorava e
conhecia desde pequenita; mas Dona Isabel não queria que o casamento se fizesse já.
É que Pombinha, orçando aliás pelos dezoito anos, não tinha ainda pago à natu reza o
cruento tributo da puberdade, apesar do zelo da velha e dos sacrifícios que esta fazia
para cumprir à risca as prescrições do médico e não faltar à filha o menor desvelo. No
entanto, coitadas! Daquele casamento dependia a felicidade de ambas, porque o
Costa, bem empregado como se achava em casa de um tio seu, de quem mais tarde
havia de ser sócio, tencionava, logo que mudasse de estado, restituí-las ao seu
primitivo círculo social. A pobre velha desesperava-se com o fato e pedia a Deus, todas
as noites, antes de dormir, que as protegesse e conferisse à filha uma graça tão
simples que ele fazia, sem distinção de merecimento, a quantas raparigas havia pelo
mundo; mas, a despeito de tamanho empenho, por coisa nenhuma desta vida
consentiria que a sua pequena casasse antes de “ser mulher”, como dizia ela. E “que
deixassem lá falar o doutor, entendia que não era decente, nem tinha jeito, dar homem
a uma moça que ainda não fora visitada pelas regras! Não! Antes vê-la solteira toda a
vida e ficarem ambas curtindo para sempre aquele inferno da estalagem!” • 40 • O
CORTIÇO Lá no cortiço estavam todos a par desta história; não era segredo para
ninguém. E não se passava um dia que não interrogassem duas e três vezes a velha
com estas frases: — Então? Já veio? — Por que não tenta os banhos de mar? — Por que
não chama outro médico? — Eu, se fosse a senhora, casava-os assim mesmo! A velha
respondia dizendo que a felicidade não se fizera para ela. E sus pirava resignada.
Quando o Costa aparecia depois da sua obrigação para visitar a noiva, os moradores
da estalagem cumprimentavam-no em silêncio com um respeitoso ar de lástima e
piedade, empenhados tacitamente por aquele cai porismo, contra o qual não valiam
nem mesmo as virtudes da Bruxa. Pombinha era muito querida por toda aquela gente.
Era quem lhe escrevia as cartas; quem em geral fazia o rol para as lavadeiras; quem
tirava as contas; quem lia o jornal para os que quisessem ouvir. Prezavam-na com
muito respeito e davam-lhe presentes, o que lhe permitia certo luxo relativo. Andava
sempre de botinhas ou sapatinhos com meias de cor, seu vestido de chita engomado;
tinha as suas joiazinhas para sair à rua, e, aos domingos, quem a encontrasse à missa
na igreja de São João Batista, não seria capaz de desconfiar que ela morava em cortiço.
Fechava a fila das primeiras lavadeiras, o Albino, um sujeito afeminado, fraco, cor de
espargo cozido e com um cabelinho castanho, deslavado e pobre, que lhe caía, numa
só linha, até ao pescocinho mole e fino. Era lavadeiro e vivia sempre entre as mulheres,
com quem já estava tão familiarizado que elas o tratavam como a uma pessoa do
mesmo sexo; em presença dele falavam de coisas que não exporiam em presença de
outro homem; faziam-no até con fidente dos seus amores e das suas infidelidades,
com uma franqueza que o não revoltava, nem comovia. Quando um casal brigava ou
duas amigas se disputavam, era sempre Albino quem tratava de reconciliá-los,
exortando as mulheres à concórdia. Dantes encarregava-se de cobrar o rol das
colegas, por amabilidade; mas uma vez, indo a uma república de estudantes, deram-
lhe lá, ninguém sabia por quê, uma dúzia de bolos, e o pobre-diabo jurou então, entre
lágrimas e soluços, que nunca mais se incumbiria de receber os róis. ALUÍSIO
AZEVEDO • 41 • E daí em diante, com efeito, não arredava os pezinhos do cortiço, a
não ser nos dias de carnaval, em que ia, vestido de dançarina, passear à tarde pelas
ruas e à noite dançar nos bailes dos teatros. Tinha verdadeira paixão por esse
divertimento; ajuntava dinheiro durante o ano para gastar todo com a mascarada. E
ninguém o encontrava, domingo ou dia de semana, lavando ou descansando, que não
estivesse com a sua calça branca engomada, a sua camisa limpa, um lenço ao
pescoço, e, amarrado à cinta, um avental que lhe caía sobre as pernas como uma saia.
Não fumava, não bebia espíritos e trazia sempre as mãos geladas e úmidas. Naquela
manhã levantara-se ainda um pouco mais lânguido que do costume, porque passara
mal a noite. A velha Isabel, que lhe ficava ao lado esquerdo, ouvindo-o suspirar com
insistência, perguntou-lhe o que tinha. Ah! Muita moleza de corpo e uma pontada do
vazio que o não deixava! A velha receitou diversos remédios, e ficaram os dois, no meio
de toda aquela vida, a falar tristemente sobre moléstias. E, enquanto, no resto da
fileira, a Machona, a Augusta, a Leocádia, a Bruxa, a Marciana e sua filha conversavam
de tina a tina, berrando e quase sem se ouvirem, a voz um tanto cansada já pelo
serviço, defronte delas, separado pelos jiraus, formava-se um novo renque de
lavadeiras, que acudiam de fora, carregadas de trouxas, e iam ruidosamente tomando
lugar ao lado umas das outras, entre uma agitação sem tréguas, onde se não distinguia
o que era galhofa e o que era briga. Uma a uma ocupavam-se todas as tinas. E de todos
os casulos do cortiço saíam homens para as suas obrigações. Por uma porta que havia
ao fundo da estalagem desapare ciam os trabalhadores da pedreira, donde vinha agora
o retinir dos alviões e das picaretas. O Miranda, de calças de brim, chapéu alto e
sobrecasaca preta, passou lá fora, em caminho para o armazém, acompanhado pelo
Henrique que ia para as aulas. O Alexandre, que estivera de serviço essa madrugada,
entrou solene, atravessou o pátio, sem falar a ninguém, nem mesmo à mulher, e
recolheu-se à casa, para dormir. Um grupo de mascates, o Delporto, o Pompeo, o
Francesco e o Andréa, armado cada qual com a sua grande caixa de bugigangas, saiu
para a peregrinação de todos os dias, altercando e praguejando em italiano. Um
rapazito de paletó entrou da rua e foi perguntar à Machona pela Nhá Rita. • 42 • O
CORTIÇO — A Rita Baiana? Sei cá! Faz amanhã oito dias que ela arribou! A Leocádia
explicou logo que a mulata estava com certeza de pândega com o Firmo. — Que
Firmo? interrogou Augusta. — Aquele cabravasco que se metia às vezes aí com ela. Diz
que é torneiro. — Ela mudou-se? perguntou o pequeno. — Não, disse a Machona; o
quarto está fechado, mas a mulata tem coisas lá. Você o que queria? — Vinha buscar
uma roupa que está com ela. — Não sei, filho, pergunta na venda ao João Romão, que
talvez te possa dizer alguma coisa. — Ali? — Sim, pequeno, naquela porta, onde a preta
do tabuleiro está ven dendo! Ó diabo! olha que pisas a boneca de anil! Já se viu que
sorte? Parece que não vê onde pisa este raio de criança! E, notando que o filho, o
Agostinho, se aproximava para tomar o lugar do outro que já se ia: — Sai daí, tu
também, peste! Já principias na reinação de todos os dias? Vem para cá, que levas!
Mas, é verdade, que fazes tu que não vais regar a horta do Comendador? — Ele disse
ontem que eu agora fosse à tarde, que era melhor. — Ah! E amanhã, não te esqueças,
recebe os dois mil-réis, que é fim do mês. Olha! Vai lá dentro e diz a Neném que te
entregue a roupa que veio ontem à noite. O pequeno afastou-se de carreira, e ela lhe
gritou na pista: — E que não ponha o refogado no fogo sem eu ter lá ido! Uma conversa
cerrada travara-se no resto da fila de lavadeiras a res peito da Rita Baiana. — É doida
mesmo!... censurava Augusta. Meter-se na pândega sem dar conta da roupa que lhe
entregaram... Assim há de ficar sem um freguês... — Aquela não endireita mais!... Cada
vez fica até mais assanhada!... Parece que tem fogo no rabo! Pode haver o serviço que
houver, aparecendo pagode, vai tudo pro lado! Olha o que saiu o ano passado com a
festa da Penha!... ALUÍSIO AZEVEDO • 43 • — Então agora, com este mulato, o Firmo, é
uma pouca-vergonha! Est’ro dia, pois você não viu? Levaram aí numa bebedeira, a
dançar e cantar à viola, que nem sei o que parecia! Deus te livre! — Para tudo há horas
e há dias!... — Para a Rita todos os dias são dias santos! A questão é aparecer quem
puxe por ela! — Ainda assim não é má criatura... Tirante o defeito da vadiagem... —
Bom coração tem ela, até demais, que não guarda um vintém pro dia de amanhã.
Parece que o dinheiro lhe faz comichão no corpo! — Depois é que são elas!... O João
Romão já lhe não fia! — Pois olhe que a Rita lhe tem enchido bem as mãos; quando ela
tem dinheiro é porque o gasta mesmo! E as lavadeiras não se calavam, sempre a
esfregar, e a bater, e a torcer camisas e ceroulas, esfogueadas já pelo exercício. Ao
passo que, em torno da sua tagarelice, o cortiço se embandeirava todo de roupa
molhada, de onde o sol tirava cintilações de prata. Estavam em dezembro e o dia era
ardente. A grama dos coradouros tinha reflexos esmeraldinos; as paredes que davam
frente ao nascente, caia dinhas de novo, reverberavam iluminadas, ofuscando a vista.
Em uma das janelas da sala de jantar do Miranda, Dona Estela e Zulmira, ambas
vestidas de claro e ambas a limarem as unhas, conversavam em voz surda, indife
rentes à agitação que ia lá embaixo, muito esquecidas na sua tranquilidade de entes
felizes. Entretanto, agora o maior movimento era na venda à entrada da esta lagem.
Davam nove horas e os operários das fábricas chegavam-se para o almoço. Ao balcão
o Domingos e o Manuel não tinham mãos a medir com a criadagem da vizinhança; os
embrulhos de papel amarelo sucediam-se, e o dinheiro pingava sem intermitência
dentro da gaveta. — Meio quilo de arroz! — Um tostão de açúcar! — Uma garrafa de
vinagre! — Dois martelos de vinho! — Dois vinténs de fumo! — Quatro de sabão! E os
gritos confundiam-se numa mistura de vozes de todos os tons. • 44 • O CORTIÇO
Ouviam-se protestos entre os compradores: — Me avie, seu Domingos! Eu deixei a
comida no fogo! — Ó peste! Dá cá as batatas, que eu tenho mais o que fazer! — Seu
Manuel, não me demore essa manteiga! Ao lado, na casinha de pasto, a Bertoleza, de
saias arrepanhadas no qua dril, o cachaço grosso e negro, reluzindo de suor, ia e vinha
de uma panela à outra, fazendo pratos, que João Romão levava de carreira aos
trabalhadores assentados num compartimento junto. Admitira-se um novo caixeiro, só
para o frege, e o rapaz, a cada comensal que ia chegando, recitava, em tom can tado e
estridente, a sua interminável lista das comidas que havia. Um cheiro forte de azeite
frito predominava. O parati circulava por todas as mesas, e cada caneca de café, de
louça espessa, erguia um vulcão de fumo tre sandando a milho queimado. Uma
algazarra medonha, em que ninguém se entendia! Cruzavam-se conversas em todas as
direções, discutia-se a berros, com valentes punhadas sobre as mesas. E sempre a
sair, e sempre a entrar gente, e os que saíam, depois daquela comezaina grossa, iam
radiantes de contentamento, com a barriga bem cheia, a arrotar. Num banco de pau
tosco, que existia do lado de fora, junto à parede e perto da venda, um homem, de
calça e camisa de zuarte, chinelos de couro cru, esperava, havia já uma boa hora, ha
dos pés para alcançar os heliotrópios e os manacás. Henrique seguiu o Botelho até ao
quarto deste, conversando sem mudar de assunto. — Você então não fala nisto, hein?
Jura? perguntou-lhe. O velho tinha já declarado, a rir, que os pilhara em flagrante e que
ficara bom tempo à espreita. — Falar o quê, seu tolo?... Pois então quem pensa você
que eu sou?... Só abrirei o bico se você me der motivo para isso, mas estou convencido
que não dará... Quer saber? Eu até simpatizo muito com você, Henrique! Acho que
você é um excelente menino, uma flor! E digo-lhe mais: hei de proteger os seus
negócios com Dona Estela... Falando assim, tinha-lhe tomado as mãos e afagava-as.
— Olhe, continuou, acariciando-o sempre; não se meta com donzelas, entende?... São
o diabo! Por dá cá aquela palha fica um homem em apuros! Agora quanto às outras,
papo com elas! Não mande nenhuma ao vigário, nem lhe doa a cabeça, porque, no fim
de contas, nas circunstâncias de Dona Estela, é até um grande serviço que você lhe
faz! Meu rico amiguinho, quando uma mulher já passou dos trinta e pilha a jeito um
rapazito da sua idade, é como se descobrisse ouro em pó! Sabe-lhe a gaitas! Fique
então sabendo de que não é só a ela que você faz o obséquio, mas também ao marido:
quanto • 34 • O CORTIÇO mais escovar-lhe você a mulher, melhor ela ficará de gênio, e
por conse guinte melhor será para o pobre homem, coitado! Que tem já bastante com
que se aborrecer lá por baixo, com os seus negócios, e precisa de um pouco de
descanso quando volta do serviço e mete-se em casa! Escove-a, escove-a! Que a porá
macia que nem veludo! O que é preciso é muito juizinho, per cebe? Não faça outra
criançada como a de hoje e continue para diante, não só com ela, mas com todas as
que lhe caírem debaixo da asa! Vá passando! Menos as de casa aberta, que isso é
perigoso por causa das moléstias; nem tampouco donzelas! Não se meta com a
Zulmira! E creia que lhe falo assim, porque sou seu amigo, porque o acho simpático,
porque o acho bonito! E acarinhou-o tão vivamente dessa vez, que o estudante,
fugindo-lhe das mãos, afastou-se com um gesto de repugnância e desprezo, enquanto
o velho lhe dizia em voz comprimida: — Olha! Espera! Vem cá! Você é desconfiado!... III
Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua
infinidade de portas e janelas alinhadas. Um acordar alegre e farto de quem dormiu de
uma assentada sete horas de chumbo. Como que se sentiam ainda na indolência de
neblina as derradeiras notas da última guitarra da noite antecedente, dissolvendo-se à
luz loura e tenra da aurora, que nem um suspiro de saudade perdido em terra alheia.
ALUÍSIO AZEVEDO • 35 • A roupa lavada, que ficara de véspera nos coradouros,
umedecia o ar e punha-lhe um farto acre de sabão ordinário. As pedras do chão,
esbranquiçadas no lugar da lavagem e em alguns pontos azuladas pelo anil,
mostravam uma palidez grisalha e triste, feita de acumulações de espumas secas.
Entretanto, das portas surgiam cabeças congestionadas de sono; ouviam-se amplos
bocejos, fortes como o marulhar das ondas; pigarreava-se grosso por toda a parte;
começavam as xícaras a tilintar; o cheiro quente do café aquecia, suplantando todos
os outros; trocavam-se de janela para janela as primeiras palavras, os bons-dias;
reatavam-se conversas interrompidas à noite; a pequenada cá fora traquinava já, e lá
dentro das casas vinham choros abafados de crianças que ainda não andam. No
confuso rumor que se formava, destacavam-se risos, sons de vozes que altercavam,
sem se saber onde, grasnar de marrecos, cantar de galos, cacarejar de galinhas. De
alguns quartos saíam mulheres que vinham pendurar cá fora, na parede, a gaiola do
papagaio, e os louros, à semelhança dos donos, cumprimentavam-se ruido samente,
espanejando-se à luz nova do dia. Daí a pouco, em volta das bicas era um zunzum
crescente; uma aglo meração tumultuosa de machos e fêmeas. Uns, após outros,
lavavam a cara, incomodamente, debaixo do fio de água que escorria da altura de uns
cinco palmos. O chão inundava-se. As mulheres precisavam já prender as saias entre
as coxas para não as molhar; via-se-lhes a tostada nudez dos braços e do pescoço,
que elas despiam, suspendendo o cabelo todo para o alto do casco; os homens, esses
não se preocupavam em não molhar o pelo, ao contrário metiam a cabeça bem
debaixo da água e esfregavam com força as ventas e as barbas, fossando e fungando
contra as palmas da mão. As portas das latrinas não descansavam, era um abrir e
fechar de cada instante, um entrar e sair sem tréguas. Não se demoravam lá dentro e
vinham ainda amarrando as calças ou as saias; as crianças não se davam ao trabalho
de lá ir, despachavam-se ali mesmo, no capinzal dos fundos, por detrás da estalagem
ou no recanto das hortas. O rumor crescia, condensando-se; o zunzum de todos os
dias acentuava-se; já se não destacavam vozes dispersas, mas um só ruído com pacto
que enchia todo o cortiço. Começavam a fazer compras na venda; ensarilhavam-se
discussões e rezingas; ouviam-se gargalhadas e pragas; já se não falava, gritava-se.
Sentia-se naquela fermentação sanguínea, naquela • 36 • O CORTIÇO gula viçosa de
plantas rasteiras que mergulham os pés vigorosos na lama preta e nutriente da vida, o
prazer animal de existir, a triunfante satisfação de respirar sobre a terra. Da porta da
venda que dava para o cortiço iam e vinham como formigas; fazendo compras. Duas
janelas do Miranda abriram-se. Apareceu numa a Isaura, que se dispunha a começar a
limpeza da casa. — Nhá Dunga! gritou ela para baixo, a sacudir um pano de mesa; se
você tem cuscuz de milho hoje, bata na porta, ouviu? A Leonor surgiu logo também,
enfiando curiosa a carapinha por entre o pescoço e o ombro da mulata. O padeiro
entrou na estalagem, com a sua grande cesta à cabeça e o seu banco de pau fechado
debaixo do braço, e foi estacionar em meio do pátio, à espera dos fregueses, pousando
a canastra sobre o cavalete que ele armou prontamente. Em breve estava cercado por
uma nuvem de gente. As crianças adulavam-no, e, à proporção que cada mulher ou
cada homem recebia o pão, disparava para casa com este abraçado contra o peito.
Uma vaca, seguida por um bezerro amordaçado, ia, tilintando tristemente o seu
chocalho, de porta em porta, guiada por um homem carregado de vasilhame de folha.
O zunzum chegava ao seu apogeu. A fábrica de massas italianas, ali mesmo da
vizinhança, começou a trabalhar, engrossando o barulho com o seu arfar monótono de
máquina a vapor. As corridas até à venda reproduziam-se, transformando-se num
verminar constante de formigueiro assanhado. Agora, no lugar das bicas apinhavam-se
latas de todos os feitios, sobressaindo as de querosene com um braço de madeira em
cima; sentia-se o trapejar da água caindo na folha. Algumas lavadeiras enchiam já as
suas tinas; outras esten diam nos coradouros a roupa que ficara de molho. Principiava
o trabalho. Rompiam das gargantas os fados portugueses e as modinhas brasileiras.
Um carroção de lixo entrou com grande barulho de rodas na pedra, seguido de uma
algazarra medonha algaraviada pelo carroceiro contra o burro. E, durante muito tempo,
fez-se um vaivém de mercadores. Apareceram os tabuleiros de carne fresca e outros
de tripas e fatos de boi; só não vinham hortaliças, porque havia muitas hortas no
cortiço. Vieram os ruidosos mas cates, com as suas latas de quinquilharia, com as
suas caixas de candeeiros e objetos de vidro e com o seu fornecimento de caçarolas e
chocolateiras, ALUÍSIO AZEVEDO • 37 • de folha de flandres. Cada vendedor tinha o
seu modo especial de apregoar, destacando-se o homem das sardinhas, com as
cestas do peixe dependu radas, à moda de balança, de um pau que ele trazia ao
ombro. Nada mais foi preciso do que o seu primeiro guincho estridente e gutural para
surgirem logo, como por encanto, uma enorme variedade de gatos, que vieram cor
rendo acercar-se dele com grande familiaridade, roçando-se-lhe nas pernas
arregaçadas e miando suplicantemente. O sardinheiro os afastava com o pé, enquanto
vendia o seu peixe à porta das casinhas, mas os bichanos não desistiam e
continuavam a implorar, arranhando os cestos que o homem cui dadosamente tapava
mal servia ao freguês. Para ver-se livre por um instante dos importunos era necessário
atirar para bem longe um punhado de sardi nhas, sobre o qual se precipitava logo, aos
pulos, o grupo dos pedinchões. A primeira que se pôs a lavar foi a Leandra, por alcunha
a “Machona”, portuguesa feroz, berradora, pulsos cabeludos e grossos, anca de
animal do campo. Tinha duas filhas, uma casada e separada do marido, Ana das
Dores, a quem só chamavam a “das Dores” e outra donzela ainda, a Neném, e mais um
filho, o Agostinho, menino levado dos diabos, que gritava tanto ou melhor que a mãe. A
das Dores morava em sua casinha à parte, mas toda a família habitava no cortiço.
Ninguém ali sabia ao certo se a Machona era viúva ou desquitada; os filhos não se
pareciam uns com os outros. A das Dores, sim, afirmavam que fora casada e que
largara o marido para meter-se com um homem do comércio; e que este, retirando-se
para a terra e não querendo soltá-la ao desamparo, deixara o sócio em seu lugar. Teria
vinte e cinco anos. Neném dezessete. Espigada, franzina e forte, com uma proazinha
de orgulho da sua virgindade, escapando como enguia por entre os dedos dos rapazes
que a queriam sem ser para casar. Engomava bem e sabia fazer roupa branca de
homem com muita perfeição. Ao lado da Leandra foi colocar-se à sua tina a Augusta
Carne-Mole, bra sileira, branca, mulher de Alexandre, um mulato de quarenta anos,
soldado de polícia, pernóstico, de grande bigode preto, queixo sempre escanhoado e
um luxo de calças brancas engomadas e botões limpos na farda, quando estava de
serviço. Também tinham filhos, mas ainda pequenos, um dos quais, a Juju, vivia na
cidade com a madrinha que se encarregava dela. Esta • 38 • O CORTIÇO madrinha era
uma cocote de trinta mil-réis para cima, a Léonie, com sobrado na cidade.
Procedência francesa. Alexandre, em casa, à hora de descanso, nos seus chinelos e na
sua camisa desabotoada, era muito chão com os companheiros de estalagem,
conversava, ria e brincava, mas envergando o uniforme, encerando o bigode e
empunhando a sua chibata, com que tinha o costume de fustigar as calças de brim,
ninguém mais lhe via os dentes e então a todos falava teso e por cima do ombro. A
mulher, a quem ele só dava tu quando não estava fardado, era de uma honestidade
proverbial no cortiço, honestidade sem mérito, porque vinha da indolência do seu
temperamento e não do arbítrio do seu caráter. Junto dela pôs-se a trabalhar a
Leocádia, mulher de um ferreiro cha mado Bruno, portuguesa pequena e socada, de
carnes duras, com uma fama terrível de leviana entre as suas vizinhas. Seguia-se a
Paula, uma cabocla velha, meio idiota, a quem respeitavam todos pelas virtudes de
que só ela dispunha para benzer erisipelas e cortar febres por meio de rezas e
feitiçarias. Era extremamente feia, grossa, triste, com olhos desvairados, dentes
cortados à navalha, formando ponta, como dentes de cão, cabelos lisos, escorridos e
ainda retintos apesar da idade. Chamavam-lhe “Bruxa”. Depois seguiam-se a Marciana
e mais a sua filha Florinda. A primeira, mulata antiga, muito séria e asseada em
exagero: a sua casa estava sempre úmida das consecutivas lavagens. Em lhe
apanhando o mau humor punha-se logo a espanar, a varrer febrilmente, e, quando a
raiva era grande, corria a buscar um balde de água e descarregava-o com fúria pelo
chão da sala. A filha tinha quinze anos, a pele de um moreno quente, beiços sensuais,
bonitos dentes, olhos luxuriosos de macaca. Toda ela estava a pedir homem, mas
sustentava ainda a sua virgindade e não cedia, nem à mão de Deus Padre, aos rogos de
João Romão, que a desejava apanhar a troco de pequenas concessões na medida e no
peso das compras que Florinda fazia diariamente à venda. Depois via-se a velha Isabel,
isto é, Dona Isabel, porque ali na esta lagem lhes dispensavam todos certa
consideração, privilegiada pelas suas maneiras graves de pessoa que já teve
tratamento: uma pobre mulher comida de desgostos. Fora casada com o dono de uma
casa de chapéus, que quebrou e suicidou-se, deixando-lhe uma filha muito doentinha
e fraca, a ALUÍSIO AZEVEDO • 39 • quem Isabel sacrificou tudo para educar, dando-lhe
mestre até de francês. Tinha uma cara macilenta de velha portuguesa devota, que já foi
gorda, bochechas moles de pelancas rechupadas, que lhe pendiam dos cantos da
boca como saquinhos vazios; fios negros no queixo, olhos castanhos, sempre
chorosos engolidos pelas pálpebras. Puxava em bandós sobre as fontes o escasso
cabelo grisalho untado de óleo de amêndoas doces. Quando saía à rua punha um
eterno vestido de seda preta, achamalotada, cuja saia não fazia rugas, e um xale
encarnado que lhe dava a todo o corpo um feitio pira midal. Da sua passada grandeza
só lhe ficara uma caixa de rapé de ouro, na qual a inconsolável senhora pitadeava
agora, suspirando a cada pitada. A filha era a flor do cortiço. Chamavam-lhe Pombinha.
Bonita, posto que enfermiça e nervosa ao último ponto; loura, muito pálida, com uns
modos de menina de boa família. A mãe não lhe permitia lavar, nem engomar, mesmo
porque o médico a proibira expressamente. Tinha o seu noivo, o João da Costa, moço
do comércio, estimado do patrão e dos colegas, com muito futuro, e que a adorava e
conhecia desde pequenita; mas Dona Isabel não queria que o casamento se fizesse já.
É que Pombinha, orçando aliás pelos dezoito anos, não tinha ainda pago à natu reza o
cruento tributo da puberdade, apesar do zelo da velha e dos sacrifícios que esta fazia
para cumprir à risca as prescrições do médico e não faltar à filha o menor desvelo. No
entanto, coitadas! Daquele casamento dependia a felicidade de ambas, porque o
Costa, bem empregado como se achava em casa de um tio seu, de quem mais tarde
havia de ser sócio, tencionava, logo que mudasse de estado, restituí-las ao seu
primitivo círculo social. A pobre velha desesperava-se com o fato e pedia a Deus, todas
as noites, antes de dormir, que as protegesse e conferisse à filha uma graça tão
simples que ele fazia, sem distinção de merecimento, a quantas raparigas havia pelo
mundo; mas, a despeito de tamanho empenho, por coisa nenhuma desta vida
consentiria que a sua pequena casasse antes de “ser mulher”, como dizia ela. E “que
deixassem lá falar o doutor, entendia que não era decente, nem tinha jeito, dar homem
a uma moça que ainda não fora visitada pelas regras! Não! Antes vê-la solteira toda a
vida e ficarem ambas curtindo para sempre aquele inferno da estalagem!” • 40 • O
CORTIÇO Lá no cortiço estavam todos a par desta história; não era segredo para
ninguém. E não se passava um dia que não interrogassem duas e três vezes a velha
com estas frases: — Então? Já veio? — Por que não tenta os banhos de mar? — Por que
não chama outro médico? — Eu, se fosse a senhora, casava-os assim mesmo! A velha
respondia dizendo que a felicidade não se fizera para ela. E sus pirava resignada.
Quando o Costa aparecia depois da sua obrigação para visitar a noiva, os moradores
da estalagem cumprimentavam-no em silêncio com um respeitoso ar de lástima e
piedade, empenhados tacitamente por aquele cai porismo, contra o qual não valiam
nem mesmo as virtudes da Bruxa. Pombinha era muito querida por toda aquela gente.
Era quem lhe escrevia as cartas; quem em geral fazia o rol para as lavadeiras; quem
tirava as contas; quem lia o jornal para os que quisessem ouvir. Prezavam-na com
muito respeito e davam-lhe presentes, o que lhe permitia certo luxo relativo. Andava
sempre de botinhas ou sapatinhos com meias de cor, seu vestido de chita engomado;
tinha as suas joiazinhas para sair à rua, e, aos domingos, quem a encontrasse à missa
na igreja de São João Batista, não seria capaz de desconfiar que ela morava em cortiço.
Fechava a fila das primeiras lavadeiras, o Albino, um sujeito afeminado, fraco, cor de
espargo cozido e com um cabelinho castanho, deslavado e pobre, que lhe caía, numa
só linha, até ao pescocinho mole e fino. Era lavadeiro e vivia sempre entre as mulheres,
com quem já estava tão familiarizado que elas o tratavam como a uma pessoa do
mesmo sexo; em presença dele falavam de coisas que não exporiam em presença de
outro homem; faziam-no até con fidente dos seus amores e das suas infidelidades,
com uma franqueza que o não revoltava, nem comovia. Quando um casal brigava ou
duas amigas se disputavam, era sempre Albino quem tratava de reconciliá-los,
exortando as mulheres à concórdia. Dantes encarregava-se de cobrar o rol das
colegas, por amabilidade; mas uma vez, indo a uma república de estudantes, deram-
lhe lá, ninguém sabia por quê, uma dúzia de bolos, e o pobre-diabo jurou então, entre
lágrimas e soluços, que nunca mais se incumbiria de receber os róis. ALUÍSIO
AZEVEDO • 41 • E daí em diante, com efeito, não arredava os pezinhos do cortiço, a
não ser nos dias de carnaval, em que ia, vestido de dançarina, passear à tarde pelas
ruas e à noite dançar nos bailes dos teatros. Tinha verdadeira paixão por esse
divertimento; ajuntava dinheiro durante o ano para gastar todo com a mascarada. E
ninguém o encontrava, domingo ou dia de semana, lavando ou descansando, que não
estivesse com a sua calça branca engomada, a sua camisa limpa, um lenço ao
pescoço, e, amarrado à cinta, um avental que lhe caía sobre as pernas como uma saia.
Não fumava, não bebia espíritos e trazia sempre as mãos geladas e úmidas. Naquela
manhã levantara-se ainda um pouco mais lânguido que do costume, porque passara
mal a noite. A velha Isabel, que lhe ficava ao lado esquerdo, ouvindo-o suspirar com
insistência, perguntou-lhe o que tinha. Ah! Muita moleza de corpo e uma pontada do
vazio que o não deixava! A velha receitou diversos remédios, e ficaram os dois, no meio
de toda aquela vida, a falar tristemente sobre moléstias. E, enquanto, no resto da
fileira, a Machona, a Augusta, a Leocádia, a Bruxa, a Marciana e sua filha conversavam
de tina a tina, berrando e quase sem se ouvirem, a voz um tanto cansada já pelo
serviço, defronte delas, separado pelos jiraus, formava-se um novo renque de
lavadeiras, que acudiam de fora, carregadas de trouxas, e iam ruidosamente tomando
lugar ao lado umas das outras, entre uma agitação sem tréguas, onde se não distinguia
o que era galhofa e o que era briga. Uma a uma ocupavam-se todas as tinas. E de todos
os casulos do cortiço saíam homens para as suas obrigações. Por uma porta que havia
ao fundo da estalagem desapare ciam os trabalhadores da pedreira, donde vinha agora
o retinir dos alviões e das picaretas. O Miranda, de calças de brim, chapéu alto e
sobrecasaca preta, passou lá fora, em caminho para o armazém, acompanhado pelo
Henrique que ia para as aulas. O Alexandre, que estivera de serviço essa madrugada,
entrou solene, atravessou o pátio, sem falar a ninguém, nem mesmo à mulher, e
recolheu-se à casa, para dormir. Um grupo de mascates, o Delporto, o Pompeo, o
Francesco e o Andréa, armado cada qual com a sua grande caixa de bugigangas, saiu
para a peregrinação de todos os dias, altercando e praguejando em italiano. Um
rapazito de paletó entrou da rua e foi perguntar à Machona pela Nhá Rita. • 42 • O
CORTIÇO — A Rita Baiana? Sei cá! Faz amanhã oito dias que ela arribou! A Leocádia
explicou logo que a mulata estava com certeza de pândega com o Firmo. — Que
Firmo? interrogou Augusta. — Aquele cabravasco que se metia às vezes aí com ela. Diz
que é torneiro. — Ela mudou-se? perguntou o pequeno. — Não, disse a Machona; o
quarto está fechado, mas a mulata tem coisas lá. Você o que queria? — Vinha buscar
uma roupa que está com ela. — Não sei, filho, pergunta na venda ao João Romão, que
talvez te possa dizer alguma coisa. — Ali? — Sim, pequeno, naquela porta, onde a preta
do tabuleiro está ven dendo! Ó diabo! olha que pisas a boneca de anil! Já se viu que
sorte? Parece que não vê onde pisa este raio de criança! E, notando que o filho, o
Agostinho, se aproximava para tomar o lugar do outro que já se ia: — Sai daí, tu
também, peste! Já principias na reinação de todos os dias? Vem para cá, que levas!
Mas, é verdade, que fazes tu que não vais regar a horta do Comendador? — Ele disse
ontem que eu agora fosse à tarde, que era melhor. — Ah! E amanhã, não te esqueças,
recebe os dois mil-réis, que é fim do mês. Olha! Vai lá dentro e diz a Neném que te
entregue a roupa que veio ontem à noite. O pequeno afastou-se de carreira, e ela lhe
gritou na pista: — E que não ponha o refogado no fogo sem eu ter lá ido! Uma conversa
cerrada travara-se no resto da fila de lavadeiras a res peito da Rita Baiana. — É doida
mesmo!... censurava Augusta. Meter-se na pândega sem dar conta da roupa que lhe
entregaram... Assim há de ficar sem um freguês... — Aquela não endireita mais!... Cada
vez fica até mais assanhada!... Parece que tem fogo no rabo! Pode haver o serviço que
houver, aparecendo pagode, vai tudo pro lado! Olha o que saiu o ano passado com a
festa da Penha!... ALUÍSIO AZEVEDO • 43 • — Então agora, com este mulato, o Firmo, é
uma pouca-vergonha! Est’ro dia, pois você não viu? Levaram aí numa bebedeira, a
dançar e cantar à viola, que nem sei o que parecia! Deus te livre! — Para tudo há horas
e há dias!... — Para a Rita todos os dias são dias santos! A questão é aparecer quem
puxe por ela! — Ainda assim não é má criatura... Tirante o defeito da vadiagem... —
Bom coração tem ela, até demais, que não guarda um vintém pro dia de amanhã.
Parece que o dinheiro lhe faz comichão no corpo! — Depois é que são elas!... O João
Romão já lhe não fia! — Pois olhe que a Rita lhe tem enchido bem as mãos; quando ela
tem dinheiro é porque o gasta mesmo! E as lavadeiras não se calavam, sempre a
esfregar, e a bater, e a torcer camisas e ceroulas, esfogueadas já pelo exercício. Ao
passo que, em torno da sua tagarelice, o cortiço se embandeirava todo de roupa
molhada, de onde o sol tirava cintilações de prata. Estavam em dezembro e o dia era
ardente. A grama dos coradouros tinha reflexos esmeraldinos; as paredes que davam
frente ao nascente, caia dinhas de novo, reverberavam iluminadas, ofuscando a vista.
Em uma das janelas da sala de jantar do Miranda, Dona Estela e Zulmira, ambas
vestidas de claro e ambas a limarem as unhas, conversavam em voz surda, indife
rentes à agitação que ia lá embaixo, muito esquecidas na sua tranquilidade de entes
felizes. Entretanto, agora o maior movimento era na venda à entrada da esta lagem.
Davam nove horas e os operários das fábricas chegavam-se para o almoço. Ao balcão
o Domingos e o Manuel não tinham mãos a medir com a criadagem da vizinhança; os
embrulhos de papel amarelo sucediam-se, e o dinheiro pingava sem intermitência
dentro da gaveta. — Meio quilo de arroz! — Um tostão de açúcar! — Uma garrafa de
vinagre! — Dois martelos de vinho! — Dois vinténs de fumo! — Quatro de sabão! E os
gritos confundiam-se numa mistura de vozes de todos os tons. • 44 • O CORTIÇO
Ouviam-se protestos entre os compradores: — Me avie, seu Domingos! Eu deixei a
comida no fogo! — Ó peste! Dá cá as batatas, que eu tenho mais o que fazer! — Seu
Manuel, não me demore essa manteiga! Ao lado, na casinha de pasto, a Bertoleza, de
saias arrepanhadas no qua dril, o cachaço grosso e negro, reluzindo de suor, ia e vinha
de uma panela à outra, fazendo pratos, que João Romão levava de carreira aos
trabalhadores assentados num compartimento junto. Admitira-se um novo caixeiro, só
para o frege, e o rapaz, a cada comensal que ia chegando, recitava, em tom can tado e
estridente, a sua interminável lista das comidas que havia. Um cheiro forte de azeite
frito predominava. O parati circulava por todas as mesas, e cada caneca de café, de
louça espessa, erguia um vulcão de fumo tre sandando a milho queimado. Uma
algazarra medonha, em que ninguém se entendia! Cruzavam-se conversas em todas as
direções, discutia-se a berros, com valentes punhadas sobre as mesas. E sempre a
sair, e sempre a entrar gente, e os que saíam, depois daquela comezaina grossa, iam
radiantes de contentamento, com a barriga bem cheia, a arrotar. Num banco de pau
tosco, que existia do lado de fora, junto à parede e perto da venda, um homem, de
calça e camisa de zuarte, chinelos de couro cru, esperava, havia já uma boa hora, ha
dos pés para alcançar os heliotrópios e os manacás. Henrique seguiu o Botelho até ao
quarto deste, conversando sem mudar de assunto. — Você então não fala nisto, hein?
Jura? perguntou-lhe. O velho tinha já declarado, a rir, que os pilhara em flagrante e que
ficara bom tempo à espreita. — Falar o quê, seu tolo?... Pois então quem pensa você
que eu sou?... Só abrirei o bico se você me der motivo para isso, mas estou convencido
que não dará... Quer saber? Eu até simpatizo muito com você, Henrique! Acho que
você é um excelente menino, uma flor! E digo-lhe mais: hei de proteger os seus
negócios com Dona Estela... Falando assim, tinha-lhe tomado as mãos e afagava-as.
— Olhe, continuou, acariciando-o sempre; não se meta com donzelas, entende?... São
o diabo! Por dá cá aquela palha fica um homem em apuros! Agora quanto às outras,
papo com elas! Não mande nenhuma ao vigário, nem lhe doa a cabeça, porque, no fim
de contas, nas circunstâncias de Dona Estela, é até um grande serviço que você lhe
faz! Meu rico amiguinho, quando uma mulher já passou dos trinta e pilha a jeito um
rapazito da sua idade, é como se descobrisse ouro em pó! Sabe-lhe a gaitas! Fique
então sabendo de que não é só a ela que você faz o obséquio, mas também ao marido:
quanto • 34 • O CORTIÇO mais escovar-lhe você a mulher, melhor ela ficará de gênio, e
por conse guinte melhor será para o pobre homem, coitado! Que tem já bastante com
que se aborrecer lá por baixo, com os seus negócios, e precisa de um pouco de
descanso quando volta do serviço e mete-se em casa! Escove-a, escove-a! Que a porá
macia que nem veludo! O que é preciso é muito juizinho, per cebe? Não faça outra
criançada como a de hoje e continue para diante, não só com ela, mas com todas as
que lhe caírem debaixo da asa! Vá passando! Menos as de casa aberta, que isso é
perigoso por causa das moléstias; nem tampouco donzelas! Não se meta com a
Zulmira! E creia que lhe falo assim, porque sou seu amigo, porque o acho simpático,
porque o acho bonito! E acarinhou-o tão vivamente dessa vez, que o estudante,
fugindo-lhe das mãos, afastou-se com um gesto de repugnância e desprezo, enquanto
o velho lhe dizia em voz comprimida: — Olha! Espera! Vem cá! Você é desconfiado!... III
Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua
infinidade de portas e janelas alinhadas. Um acordar alegre e farto de quem dormiu de
uma assentada sete horas de chumbo. Como que se sentiam ainda na indolência de
neblina as derradeiras notas da última guitarra da noite antecedente, dissolvendo-se à
luz loura e tenra da aurora, que nem um suspiro de saudade perdido em terra alheia.
ALUÍSIO AZEVEDO • 35 • A roupa lavada, que ficara de véspera nos coradouros,
umedecia o ar e punha-lhe um farto acre de sabão ordinário. As pedras do chão,
esbranquiçadas no lugar da lavagem e em alguns pontos azuladas pelo anil,
mostravam uma palidez grisalha e triste, feita de acumulações de espumas secas.
Entretanto, das portas surgiam cabeças congestionadas de sono; ouviam-se amplos
bocejos, fortes como o marulhar das ondas; pigarreava-se grosso por toda a parte;
começavam as xícaras a tilintar; o cheiro quente do café aquecia, suplantando todos
os outros; trocavam-se de janela para janela as primeiras palavras, os bons-dias;
reatavam-se conversas interrompidas à noite; a pequenada cá fora traquinava já, e lá
dentro das casas vinham choros abafados de crianças que ainda não andam. No
confuso rumor que se formava, destacavam-se risos, sons de vozes que altercavam,
sem se saber onde, grasnar de marrecos, cantar de galos, cacarejar de galinhas. De
alguns quartos saíam mulheres que vinham pendurar cá fora, na parede, a gaiola do
papagaio, e os louros, à semelhança dos donos, cumprimentavam-se ruido samente,
espanejando-se à luz nova do dia. Daí a pouco, em volta das bicas era um zunzum
crescente; uma aglo meração tumultuosa de machos e fêmeas. Uns, após outros,
lavavam a cara, incomodamente, debaixo do fio de água que escorria da altura de uns
cinco palmos. O chão inundava-se. As mulheres precisavam já prender as saias entre
as coxas para não as molhar; via-se-lhes a tostada nudez dos braços e do pescoço,
que elas despiam, suspendendo o cabelo todo para o alto do casco; os homens, esses
não se preocupavam em não molhar o pelo, ao contrário metiam a cabeça bem
debaixo da água e esfregavam com força as ventas e as barbas, fossando e fungando
contra as palmas da mão. As portas das latrinas não descansavam, era um abrir e
fechar de cada instante, um entrar e sair sem tréguas. Não se demoravam lá dentro e
vinham ainda amarrando as calças ou as saias; as crianças não se davam ao trabalho
de lá ir, despachavam-se ali mesmo, no capinzal dos fundos, por detrás da estalagem
ou no recanto das hortas. O rumor crescia, condensando-se; o zunzum de todos os
dias acentuava-se; já se não destacavam vozes dispersas, mas um só ruído com pacto
que enchia todo o cortiço. Começavam a fazer compras na venda; ensarilhavam-se
discussões e rezingas; ouviam-se gargalhadas e pragas; já se não falava, gritava-se.
Sentia-se naquela fermentação sanguínea, naquela • 36 • O CORTIÇO gula viçosa de
plantas rasteiras que mergulham os pés vigorosos na lama preta e nutriente da vida, o
prazer animal de existir, a triunfante satisfação de respirar sobre a terra. Da porta da
venda que dava para o cortiço iam e vinham como formigas; fazendo compras. Duas
janelas do Miranda abriram-se. Apareceu numa a Isaura, que se dispunha a começar a
limpeza da casa. — Nhá Dunga! gritou ela para baixo, a sacudir um pano de mesa; se
você tem cuscuz de milho hoje, bata na porta, ouviu? A Leonor surgiu logo também,
enfiando curiosa a carapinha por entre o pescoço e o ombro da mulata. O padeiro
entrou na estalagem, com a sua grande cesta à cabeça e o seu banco de pau fechado
debaixo do braço, e foi estacionar em meio do pátio, à espera dos fregueses, pousando
a canastra sobre o cavalete que ele armou prontamente. Em breve estava cercado por
uma nuvem de gente. As crianças adulavam-no, e, à proporção que cada mulher ou
cada homem recebia o pão, disparava para casa com este abraçado contra o peito.
Uma vaca, seguida por um bezerro amordaçado, ia, tilintando tristemente o seu
chocalho, de porta em porta, guiada por um homem carregado de vasilhame de folha.
O zunzum chegava ao seu apogeu. A fábrica de massas italianas, ali mesmo da
vizinhança, começou a trabalhar, engrossando o barulho com o seu arfar monótono de
máquina a vapor. As corridas até à venda reproduziam-se, transformando-se num
verminar constante de formigueiro assanhado. Agora, no lugar das bicas apinhavam-se
latas de todos os feitios, sobressaindo as de querosene com um braço de madeira em
cima; sentia-se o trapejar da água caindo na folha. Algumas lavadeiras enchiam já as
suas tinas; outras esten diam nos coradouros a roupa que ficara de molho. Principiava
o trabalho. Rompiam das gargantas os fados portugueses e as modinhas brasileiras.
Um carroção de lixo entrou com grande barulho de rodas na pedra, seguido de uma
algazarra medonha algaraviada pelo carroceiro contra o burro. E, durante muito tempo,
fez-se um vaivém de mercadores. Apareceram os tabuleiros de carne fresca e outros
de tripas e fatos de boi; só não vinham hortaliças, porque havia muitas hortas no
cortiço. Vieram os ruidosos mas cates, com as suas latas de quinquilharia, com as
suas caixas de candeeiros e objetos de vidro e com o seu fornecimento de caçarolas e
chocolateiras, ALUÍSIO AZEVEDO • 37 • de folha de flandres. Cada vendedor tinha o
seu modo especial de apregoar, destacando-se o homem das sardinhas, com as
cestas do peixe dependu radas, à moda de balança, de um pau que ele trazia ao
ombro. Nada mais foi preciso do que o seu primeiro guincho estridente e gutural para
surgirem logo, como por encanto, uma enorme variedade de gatos, que vieram cor
rendo acercar-se dele com grande familiaridade, roçando-se-lhe nas pernas
arregaçadas e miando suplicantemente. O sardinheiro os afastava com o pé, enquanto
vendia o seu peixe à porta das casinhas, mas os bichanos não desistiam e
continuavam a implorar, arranhando os cestos que o homem cui dadosamente tapava
mal servia ao freguês. Para ver-se livre por um instante dos importunos era necessário
atirar para bem longe um punhado de sardi nhas, sobre o qual se precipitava logo, aos
pulos, o grupo dos pedinchões. A primeira que se pôs a lavar foi a Leandra, por alcunha
a “Machona”, portuguesa feroz, berradora, pulsos cabeludos e grossos, anca de
animal do campo. Tinha duas filhas, uma casada e separada do marido, Ana das
Dores, a quem só chamavam a “das Dores” e outra donzela ainda, a Neném, e mais um
filho, o Agostinho, menino levado dos diabos, que gritava tanto ou melhor que a mãe. A
das Dores morava em sua casinha à parte, mas toda a família habitava no cortiço.
Ninguém ali sabia ao certo se a Machona era viúva ou desquitada; os filhos não se
pareciam uns com os outros. A das Dores, sim, afirmavam que fora casada e que
largara o marido para meter-se com um homem do comércio; e que este, retirando-se
para a terra e não querendo soltá-la ao desamparo, deixara o sócio em seu lugar. Teria
vinte e cinco anos. Neném dezessete. Espigada, franzina e forte, com uma proazinha
de orgulho da sua virgindade, escapando como enguia por entre os dedos dos rapazes
que a queriam sem ser para casar. Engomava bem e sabia fazer roupa branca de
homem com muita perfeição. Ao lado da Leandra foi colocar-se à sua tina a Augusta
Carne-Mole, bra sileira, branca, mulher de Alexandre, um mulato de quarenta anos,
soldado de polícia, pernóstico, de grande bigode preto, queixo sempre escanhoado e
um luxo de calças brancas engomadas e botões limpos na farda, quando estava de
serviço. Também tinham filhos, mas ainda pequenos, um dos quais, a Juju, vivia na
cidade com a madrinha que se encarregava dela. Esta • 38 • O CORTIÇO madrinha era
uma cocote de trinta mil-réis para cima, a Léonie, com sobrado na cidade.
Procedência francesa. Alexandre, em casa, à hora de descanso, nos seus chinelos e na
sua camisa desabotoada, era muito chão com os companheiros de estalagem,
conversava, ria e brincava, mas envergando o uniforme, encerando o bigode e
empunhando a sua chibata, com que tinha o costume de fustigar as calças de brim,
ninguém mais lhe via os dentes e então a todos falava teso e por cima do ombro. A
mulher, a quem ele só dava tu quando não estava fardado, era de uma honestidade
proverbial no cortiço, honestidade sem mérito, porque vinha da indolência do seu
temperamento e não do arbítrio do seu caráter. Junto dela pôs-se a trabalhar a
Leocádia, mulher de um ferreiro cha mado Bruno, portuguesa pequena e socada, de
carnes duras, com uma fama terrível de leviana entre as suas vizinhas. Seguia-se a
Paula, uma cabocla velha, meio idiota, a quem respeitavam todos pelas virtudes de
que só ela dispunha para benzer erisipelas e cortar febres por meio de rezas e
feitiçarias. Era extremamente feia, grossa, triste, com olhos desvairados, dentes
cortados à navalha, formando ponta, como dentes de cão, cabelos lisos, escorridos e
ainda retintos apesar da idade. Chamavam-lhe “Bruxa”. Depois seguiam-se a Marciana
e mais a sua filha Florinda. A primeira, mulata antiga, muito séria e asseada em
exagero: a sua casa estava sempre úmida das consecutivas lavagens. Em lhe
apanhando o mau humor punha-se logo a espanar, a varrer febrilmente, e, quando a
raiva era grande, corria a buscar um balde de água e descarregava-o com fúria pelo
chão da sala. A filha tinha quinze anos, a pele de um moreno quente, beiços sensuais,
bonitos dentes, olhos luxuriosos de macaca. Toda ela estava a pedir homem, mas
sustentava ainda a sua virgindade e não cedia, nem à mão de Deus Padre, aos rogos de
João Romão, que a desejava apanhar a troco de pequenas concessões na medida e no
peso das compras que Florinda fazia diariamente à venda. Depois via-se a velha Isabel,
isto é, Dona Isabel, porque ali na esta lagem lhes dispensavam todos certa
consideração, privilegiada pelas suas maneiras graves de pessoa que já teve
tratamento: uma pobre mulher comida de desgostos. Fora casada com o dono de uma
casa de chapéus, que quebrou e suicidou-se, deixando-lhe uma filha muito doentinha
e fraca, a ALUÍSIO AZEVEDO • 39 • quem Isabel sacrificou tudo para educar, dando-lhe
mestre até de francês. Tinha uma cara macilenta de velha portuguesa devota, que já foi
gorda, bochechas moles de pelancas rechupadas, que lhe pendiam dos cantos da
boca como saquinhos vazios; fios negros no queixo, olhos castanhos, sempre
chorosos engolidos pelas pálpebras. Puxava em bandós sobre as fontes o escasso
cabelo grisalho untado de óleo de amêndoas doces. Quando saía à rua punha um
eterno vestido de seda preta, achamalotada, cuja saia não fazia rugas, e um xale
encarnado que lhe dava a todo o corpo um feitio pira midal. Da sua passada grandeza
só lhe ficara uma caixa de rapé de ouro, na qual a inconsolável senhora pitadeava
agora, suspirando a cada pitada. A filha era a flor do cortiço. Chamavam-lhe Pombinha.
Bonita, posto que enfermiça e nervosa ao último ponto; loura, muito pálida, com uns
modos de menina de boa família. A mãe não lhe permitia lavar, nem engomar, mesmo
porque o médico a proibira expressamente. Tinha o seu noivo, o João da Costa, moço
do comércio, estimado do patrão e dos colegas, com muito futuro, e que a adorava e
conhecia desde pequenita; mas Dona Isabel não queria que o casamento se fizesse já.
É que Pombinha, orçando aliás pelos dezoito anos, não tinha ainda pago à natu reza o
cruento tributo da puberdade, apesar do zelo da velha e dos sacrifícios que esta fazia
para cumprir à risca as prescrições do médico e não faltar à filha o menor desvelo. No
entanto, coitadas! Daquele casamento dependia a felicidade de ambas, porque o
Costa, bem empregado como se achava em casa de um tio seu, de quem mais tarde
havia de ser sócio, tencionava, logo que mudasse de estado, restituí-las ao seu
primitivo círculo social. A pobre velha desesperava-se com o fato e pedia a Deus, todas
as noites, antes de dormir, que as protegesse e conferisse à filha uma graça tão
simples que ele fazia, sem distinção de merecimento, a quantas raparigas havia pelo
mundo; mas, a despeito de tamanho empenho, por coisa nenhuma desta vida
consentiria que a sua pequena casasse antes de “ser mulher”, como dizia ela. E “que
deixassem lá falar o doutor, entendia que não era decente, nem tinha jeito, dar homem
a uma moça que ainda não fora visitada pelas regras! Não! Antes vê-la solteira toda a
vida e ficarem ambas curtindo para sempre aquele inferno da estalagem!” • 40 • O
CORTIÇO Lá no cortiço estavam todos a par desta história; não era segredo para
ninguém. E não se passava um dia que não interrogassem duas e três vezes a velha
com estas frases: — Então? Já veio? — Por que não tenta os banhos de mar? — Por que
não chama outro médico? — Eu, se fosse a senhora, casava-os assim mesmo! A velha
respondia dizendo que a felicidade não se fizera para ela. E sus pirava resignada.
Quando o Costa aparecia depois da sua obrigação para visitar a noiva, os moradores
da estalagem cumprimentavam-no em silêncio com um respeitoso ar de lástima e
piedade, empenhados tacitamente por aquele cai porismo, contra o qual não valiam
nem mesmo as virtudes da Bruxa. Pombinha era muito querida por toda aquela gente.
Era quem lhe escrevia as cartas; quem em geral fazia o rol para as lavadeiras; quem
tirava as contas; quem lia o jornal para os que quisessem ouvir. Prezavam-na com
muito respeito e davam-lhe presentes, o que lhe permitia certo luxo relativo. Andava
sempre de botinhas ou sapatinhos com meias de cor, seu vestido de chita engomado;
tinha as suas joiazinhas para sair à rua, e, aos domingos, quem a encontrasse à missa
na igreja de São João Batista, não seria capaz de desconfiar que ela morava em cortiço.
Fechava a fila das primeiras lavadeiras, o Albino, um sujeito afeminado, fraco, cor de
espargo cozido e com um cabelinho castanho, deslavado e pobre, que lhe caía, numa
só linha, até ao pescocinho mole e fino. Era lavadeiro e vivia sempre entre as mulheres,
com quem já estava tão familiarizado que elas o tratavam como a uma pessoa do
mesmo sexo; em presença dele falavam de coisas que não exporiam em presença de
outro homem; faziam-no até con fidente dos seus amores e das suas infidelidades,
com uma franqueza que o não revoltava, nem comovia. Quando um casal brigava ou
duas amigas se disputavam, era sempre Albino quem tratava de reconciliá-los,
exortando as mulheres à concórdia. Dantes encarregava-se de cobrar o rol das
colegas, por amabilidade; mas uma vez, indo a uma república de estudantes, deram-
lhe lá, ninguém sabia por quê, uma dúzia de bolos, e o pobre-diabo jurou então, entre
lágrimas e soluços, que nunca mais se incumbiria de receber os róis. ALUÍSIO
AZEVEDO • 41 • E daí em diante, com efeito, não arredava os pezinhos do cortiço, a
não ser nos dias de carnaval, em que ia, vestido de dançarina, passear à tarde pelas
ruas e à noite dançar nos bailes dos teatros. Tinha verdadeira paixão por esse
divertimento; ajuntava dinheiro durante o ano para gastar todo com a mascarada. E
ninguém o encontrava, domingo ou dia de semana, lavando ou descansando, que não
estivesse com a sua calça branca engomada, a sua camisa limpa, um lenço ao
pescoço, e, amarrado à cinta, um avental que lhe caía sobre as pernas como uma saia.
Não fumava, não bebia espíritos e trazia sempre as mãos geladas e úmidas. Naquela
manhã levantara-se ainda um pouco mais lânguido que do costume, porque passara
mal a noite. A velha Isabel, que lhe ficava ao lado esquerdo, ouvindo-o suspirar com
insistência, perguntou-lhe o que tinha. Ah! Muita moleza de corpo e uma pontada do
vazio que o não deixava! A velha receitou diversos remédios, e ficaram os dois, no meio
de toda aquela vida, a falar tristemente sobre moléstias. E, enquanto, no resto da
fileira, a Machona, a Augusta, a Leocádia, a Bruxa, a Marciana e sua filha conversavam
de tina a tina, berrando e quase sem se ouvirem, a voz um tanto cansada já pelo
serviço, defronte delas, separado pelos jiraus, formava-se um novo renque de
lavadeiras, que acudiam de fora, carregadas de trouxas, e iam ruidosamente tomando
lugar ao lado umas das outras, entre uma agitação sem tréguas, onde se não distinguia
o que era galhofa e o que era briga. Uma a uma ocupavam-se todas as tinas. E de todos
os casulos do cortiço saíam homens para as suas obrigações. Por uma porta que havia
ao fundo da estalagem desapare ciam os trabalhadores da pedreira, donde vinha agora
o retinir dos alviões e das picaretas. O Miranda, de calças de brim, chapéu alto e
sobrecasaca preta, passou lá fora, em caminho para o armazém, acompanhado pelo
Henrique que ia para as aulas. O Alexandre, que estivera de serviço essa madrugada,
entrou solene, atravessou o pátio, sem falar a ninguém, nem mesmo à mulher, e
recolheu-se à casa, para dormir. Um grupo de mascates, o Delporto, o Pompeo, o
Francesco e o Andréa, armado cada qual com a sua grande caixa de bugigangas, saiu
para a peregrinação de todos os dias, altercando e praguejando em italiano. Um
rapazito de paletó entrou da rua e foi perguntar à Machona pela Nhá Rita. • 42 • O
CORTIÇO — A Rita Baiana? Sei cá! Faz amanhã oito dias que ela arribou! A Leocádia
explicou logo que a mulata estava com certeza de pândega com o Firmo. — Que
Firmo? interrogou Augusta. — Aquele cabravasco que se metia às vezes aí com ela. Diz
que é torneiro. — Ela mudou-se? perguntou o pequeno. — Não, disse a Machona; o
quarto está fechado, mas a mulata tem coisas lá. Você o que queria? — Vinha buscar
uma roupa que está com ela. — Não sei, filho, pergunta na venda ao João Romão, que
talvez te possa dizer alguma coisa. — Ali? — Sim, pequeno, naquela porta, onde a preta
do tabuleiro está ven dendo! Ó diabo! olha que pisas a boneca de anil! Já se viu que
sorte? Parece que não vê onde pisa este raio de criança! E, notando que o filho, o
Agostinho, se aproximava para tomar o lugar do outro que já se ia: — Sai daí, tu
também, peste! Já principias na reinação de todos os dias? Vem para cá, que levas!
Mas, é verdade, que fazes tu que não vais regar a horta do Comendador? — Ele disse
ontem que eu agora fosse à tarde, que era melhor. — Ah! E amanhã, não te esqueças,
recebe os dois mil-réis, que é fim do mês. Olha! Vai lá dentro e diz a Neném que te
entregue a roupa que veio ontem à noite. O pequeno afastou-se de carreira, e ela lhe
gritou na pista: — E que não ponha o refogado no fogo sem eu ter lá ido! Uma conversa
cerrada travara-se no resto da fila de lavadeiras a res peito da Rita Baiana. — É doida
mesmo!... censurava Augusta. Meter-se na pândega sem dar conta da roupa que lhe
entregaram... Assim há de ficar sem um freguês... — Aquela não endireita mais!... Cada
vez fica até mais assanhada!... Parece que tem fogo no rabo! Pode haver o serviço que
houver, aparecendo pagode, vai tudo pro lado! Olha o que saiu o ano passado com a
festa da Penha!... ALUÍSIO AZEVEDO • 43 • — Então agora, com este mulato, o Firmo, é
uma pouca-vergonha! Est’ro dia, pois você não viu? Levaram aí numa bebedeira, a
dançar e cantar à viola, que nem sei o que parecia! Deus te livre! — Para tudo há horas
e há dias!... — Para a Rita todos os dias são dias santos! A questão é aparecer quem
puxe por ela! — Ainda assim não é má criatura... Tirante o defeito da vadiagem... —
Bom coração tem ela, até demais, que não guarda um vintém pro dia de amanhã.
Parece que o dinheiro lhe faz comichão no corpo! — Depois é que são elas!... O João
Romão já lhe não fia! — Pois olhe que a Rita lhe tem enchido bem as mãos; quando ela
tem dinheiro é porque o gasta mesmo! E as lavadeiras não se calavam, sempre a
esfregar, e a bater, e a torcer camisas e ceroulas, esfogueadas já pelo exercício. Ao
passo que, em torno da sua tagarelice, o cortiço se embandeirava todo de roupa
molhada, de onde o sol tirava cintilações de prata. Estavam em dezembro e o dia era
ardente. A grama dos coradouros tinha reflexos esmeraldinos; as paredes que davam
frente ao nascente, caia dinhas de novo, reverberavam iluminadas, ofuscando a vista.
Em uma das janelas da sala de jantar do Miranda, Dona Estela e Zulmira, ambas
vestidas de claro e ambas a limarem as unhas, conversavam em voz surda, indife
rentes à agitação que ia lá embaixo, muito esquecidas na sua tranquilidade de entes
felizes. Entretanto, agora o maior movimento era na venda à entrada da esta lagem.
Davam nove horas e os operários das fábricas chegavam-se para o almoço. Ao balcão
o Domingos e o Manuel não tinham mãos a medir com a criadagem da vizinhança; os
embrulhos de papel amarelo sucediam-se, e o dinheiro pingava sem intermitência
dentro da gaveta. — Meio quilo de arroz! — Um tostão de açúcar! — Uma garrafa de
vinagre! — Dois martelos de vinho! — Dois vinténs de fumo! — Quatro de sabão! E os
gritos confundiam-se numa mistura de vozes de todos os tons. • 44 • O CORTIÇO
Ouviam-se protestos entre os compradores: — Me avie, seu Domingos! Eu deixei a
comida no fogo! — Ó peste! Dá cá as batatas, que eu tenho mais o que fazer! — Seu
Manuel, não me demore essa manteiga! Ao lado, na casinha de pasto, a Bertoleza, de
saias arrepanhadas no qua dril, o cachaço grosso e negro, reluzindo de suor, ia e vinha
de uma panela à outra, fazendo pratos, que João Romão levava de carreira aos
trabalhadores assentados num compartimento junto. Admitira-se um novo caixeiro, só
para o frege, e o rapaz, a cada comensal que ia chegando, recitava, em tom can tado e
estridente, a sua interminável lista das comidas que havia. Um cheiro forte de azeite
frito predominava. O parati circulava por todas as mesas, e cada caneca de café, de
louça espessa, erguia um vulcão de fumo tre sandando a milho queimado. Uma
algazarra medonha, em que ninguém se entendia! Cruzavam-se conversas em todas as
direções, discutia-se a berros, com valentes punhadas sobre as mesas. E sempre a
sair, e sempre a entrar gente, e os que saíam, depois daquela comezaina grossa, iam
radiantes de contentamento, com a barriga bem cheia, a arrotar. Num banco de pau
tosco, que existia do lado de fora, junto à parede e perto da venda, um homem, de
calça e camisa de zuarte, chinelos de couro cru, esperava, havia já uma boa hora, st

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