Momentos Biográficos em Quadrinhos: Análise de Duas Obras de Clarice Hoffmann
Momentos Biográficos em Quadrinhos: Análise de Duas Obras de Clarice Hoffmann
DOI: [Link]
Biografias literárias contemporâneas
e-ISSN: 2316-4018
Editor Antonio Marcos Pereira
Recebido em 25 de junho de 2025
Aprovado em 10 de outubro de 2025
Resumo
A proposta deste nosso artigo é analisar dois romances gráficos brasileiros de temática biográfica
idealizados por Clarice Hoffmann. O primeiro, O obscuro fichário dos artistas mundanos (Hoffmann et al., 2019),
tem roteiro de Hoffmann e Abel Alencar, e artes de Greg Vieira, Paulo do Amparo, Mauricio Castro e Clara
Moreira; o segundo, Pedra d’água (Hoffmann; Vieira, 2023), também tem roteiro de Hoffmann, com desenhos
de Greg Vieira. A abordagem de Hoffmann em seus trabalhos em quadrinhos passa por não apresentar
biografias lineares e conteudistas, mas em trazer obras que pincelem momentos dos biografados, dando a
conhecer um pouco do ambiente e da vivência daquelas pessoas. Nossa análise desses livros parte de um
pequeno histórico dos quadrinhos biográficos no Brasil, para, em seguida, contextualizar os dois livros
mencionados.
Palavras-chave: história em quadrinhos; biografia; Clarice Lispector; Clarice Hoffmann.
Abstract Resumen
The aim of this article is to analyze two Brazilian El objetivo de este artículo es analizar dos novelas
graphic novels with biographical themes, both gráficas brasileñas de temática biográfica
conceived by Clarice Hoffmann. The first, O obscuro concebidas por Clarice Hoffmann. La primera, O
fichário dos artistas mundanos (Hoffmann et al., 2019), obscuro fichário dos artistas mundanos (Hoffmann et
features a script by Hoffmann and Abel Alencar, al., 2019), cuenta con un guión de Hoffmann y Abel
with artwork by Greg Vieira, Paulo do Amparo, Alencar, y arte de Greg Vieira, Paulo do Amparo,
Mauricio Castro, and Clara Moreira. The second, Mauricio Castro y Clara Moreira. La segunda,
Pedra d’água (Hoffmann; Vieira, 2023), also scripted Pedra d’água (Hoffmann; Vieira, 2023), también con
by Hoffmann, includes illustrations by Greg Vieira. guión de Hoffmann, incluye ilustraciones de Greg
Hoffmann’s approach to her comic book works Vieira. El enfoque de Hoffmann en sus obras evita
avoids linear, content-driven biographies; instead, biografías lineales y centradas en datos; en cambio,
she crafts narratives that highlight select moments construye narrativas que destacan momentos
in the lives of her subjects, offering glimpses into selectos de la vida de sus sujetos, ofreciendo una
their environments and personal experiences. Our visión de sus entornos y experiencias personales.
analysis of these books begins with a brief history Nuestro análisis de estos libros comienza con una
of biographical comics in Brazil, followed by a breve historia del cómic biográfico en Brasil,
contextualization of the two works. seguida de una contextualización de las dos obras.
Keywords: comics; biography; Clarice Lispector; Palabras-clave: comics; biografía; Clarice Lispector;
Clarice Hoffmann. Clarice Hoffmann.
Introdução
As histórias de vida não são algo estranho aos quadrinhos: Maus, Persépolis, Fun home são
algumas das narrativas cujas vidas de seus autores foram matéria para a costura ficcional, e se
tornaram romances gráficos bastante representativos. Porém, enquanto as autobiografias
*
UFSM, Santa Maria, RS, Brasil. ORCID: [Link] E-mail: [Link]@[Link]
*
UFRJ, Santa Maria, RS, Brasil. ORCID: [Link] E-mail: lielson@[Link]
em seu livro Guerra dos gibis (2023), em uma política agressiva encabeçada pelos concorrentes da
Ebal, uma campanha de difamação dos quadrinhos é iniciada, em que se afirmava, entre outras
coisas, que a leitura dos quadrinhos não ajudaria as crianças em seu desenvolvimento intelectual
e ético (Gonçalo Junior, 2023, p. 208). Adolfo Aizen, editor da Ebal, reage de duas maneiras: rebate
os artigos acusadores por meio da imprensa; e com a publicação de materiais dirigidos à infância
(Gonçalo Junior, 2023, p. 394). Assim, ele lança tanto adaptações literárias em quadrinhos (que,
para defensores dos quadrinhos do período, seriam facilitadores de leitura e, portanto, porta de
entrada para leituras mais complexas) quanto biografias de figuras ilustres da cena nacional e
internacional (que proveriam bom exemplo de caráter e moral para as crianças – além, claro, de
bajular figuras no poder).
Assim nasce a coleção Edição maravilhosa, dedicada às adaptações de obras literárias
estrangeiras e, em um segundo momento, de obras nacionais (o que acabou fomentando um
sistema quadrinístico de remuneração pelo trabalho com a produção de histórias em quadrinhos).
Além dela, também veio a público a série Biografia em quadrinhos, que durou doze números, com
a história de vida de personalidades como Abraham Lincoln e Américo Vespúcio; e a Grandes
figuras em quadrinhos, com narrativas dedicadas ao Marechal Cândido Rondon e Pedro Américo,
por exemplo.1 Essa segunda iniciativa, que durou de 1957 a 1961, era uma parceria com o Ministério
de Educação e Cultura (mec) brasileiro, e foi uma das ferramentas mais bem sucedidas que Aizen
lançou mão para não perder seu império editorial baseado nas histórias em quadrinhos infantis.
Antes disso, Aizen, que era judeu, publicava biografias em quadrinhos de santos católicos. O
material era de origem italiana e, traduzido, se tornou a Série Sagrada, com 88 edições entre os
anos 1953 e 1961. Os esforços do editor da Ebal para aliviar as críticas passavam muito pela
publicação de quadrinhos que pudessem ser relacionados a outros materiais considerados sérios
ou mesmo “de respeito”; a forma que Aizen encontrou para que isso acontecesse foi por meio da
publicação de adaptações literárias e biografias em quadrinhos.
Entre outros esforços da mesma editora está a publicação de biografias quadrinizadas no
jornal carioca Última Hora (Gonçalo Junior, 2023, p 390). A série Homens do Brasil teve apenas dois
números, com a biografia de Jânio Quadros na estreia, e a de marechal Lott na segunda e última
edição, ambas em 1960. Ainda de acordo com o jornalista Gonçalo Junior, o fim de todas essas
publicações passa pelo mesmo evento: um decreto do então presidente Quadros, momentos antes
de deixar a presidência.
Antes de sair, porém, o presidente tomou uma medida que seria capaz de balançar a estrutura
das editoras de jornais e revistas, com reflexos diretos nas que publicavam histórias em
quadrinhos. Por meio de um decreto, cortou os subsídios do governo ao papel de imprensa, o
que provocou imediato e considerável aumento nos custos do produto.
A medida obrigou a Ebal a reavaliar a viabilidade de parte dos seus títulos, que não alcançavam
grandes tiragens e tinham um custo elevado de mão de obra, mas que, com o subsídio,
compensavam (Gonçalo Junior, 2023, p 432).
Desse modo, com o aumento de custo de impressão, as editoras tiverem que cortar séries de menores
vendagens, ocasionando o fim da intensa publicação de biografias quadrinizadas em nosso país.
Além dos lançamentos da Ebal, vale mencionar a Revista Ilustrada, da editora Legislação
Federal, que, de 1956 a 1957, publicou algumas biografias em quadrinhos em meio a histórias de
ficção, e a Série biografias e Clássicos ilustrados (Série ilustrada), da editora Hemus, que na década de
setenta (1974-1977), lançou 36 edições, que alternavam adaptações literárias como Os três
mosqueteiros e biografias de “grandes nomes”, como Walt Disney e Harry Houdini. Desde então,
algumas biografias em quadrinhos sempre apareceram na cena, mas de forma menos metódica
do que nessas coleções. Silvio Santos: Vida, luta e glória, de 1969, conta em quadrinhos a vida do
apresentador de televisão, e foi escrita por Rubens Francisco Lucchetti, desenhada por Sérgio M.
Lima (Lucchetti; Lima, 2017). Luiz Inácio Lula da Silva teve duas vezes sua vida colocada nas
páginas quadrinizadas: em 2010, Luiz Inácio Brasileiro da Silva, com roteiro de Toni Rodrigues e
arte de Rodolfo Zalla (Rodrigues; Zalla, 2010); e em 2018, Lula: da perseguição à esperança
1
Ver: Guia dos Quadrinhos (2007).
renovada (Rodrigues; Teixeira, 2018), em edição patrocinada pelo Partido dos Trabalhadores e
disponível para baixar no site do partido, com produção de Rôney Rodrigues e Vitor Teixeira.
Neste século, parece haver uma tímida retomada na apresentação de heróis nacionais: a
editora Ultimato do Bacon vem publicando uma coleção sobre esportistas renomados, ou seja,
biografias pelo viés da glória esportiva, como Oscar e o Pan de 87 (Azevedo; Sagara, 2022),
Garrincha (Santos; Bono, 2023), Zico (Soares; Bono, 2024) e Daniel Dias (Tazzo; Fernandez, 2024).
Um nome que se destaca entre os quadrinistas responsáveis por biografar em quadrinhos na
atualidade é o de Spacca, que, entre outras, já colocou nas páginas a vida de Santos Dumont, Santô e
os pais da aviação (Spacca, 2005), Jean-Baptiste Debret, Debret em viagem histórica e quadrinhesca ao Brasil
(Spacca, 2006), Santo de Pietrelcina, Padre Pio: A história do Santo de Pietrelcina (Spacca, 2023). E em
parceria com a historiadora Lilia M. Schwarcz, produziu obras sobre Dom João vi, D. João carioca
(Schwarcz; Spacca, 2008) e Dom Pedro ii, As barbas do imperador (Spacca; Schwarcz, 2014). No trabalho
de Spacca já se percebe algo mais interessado em uma narrativa quadrinística do que apenas retratar
uma vida ou um momento pessoal de alguma figura relevante da história de nosso país.
Há outro passo adiante nas coletâneas organizadas pela editora Draco, em que diversas histórias
curtas compõem momentos emblemáticos da vida das personalidades escolhidas. É assim em
Marighella #livre (Faria; Sousa; Costa, 2020), Paulo Freire #presente (Faria; Sousa; Costa; Nolasco, 2022)
e Júlio Lancellotti #acolhe (Faria; Laudo; Cruz; Dias; Balduino, 2024). Cada história é autocontida e
produzida por artistas diferentes; a impressão de leitura é de uma narrativa aos fragmentos, menos
linear que a grande parte dos materiais biográficos produzidos no Brasil até então.
O trabalho de João Pinheiro, por sua vez, tenta se relacionar com a obra do biografado na
forma como os quadrinhos são produzidos, sendo o caso mais exemplar Burroughs (Pinheiro,
2017). Nesse livro, a noção da montagem aleatória e do cut-up que caracteriza parte da produção
literária do escritor estadunidense é o ponto de partida para a criação da obra. Seus trabalhos
anteriores são Kerouac (Pinheiro, 2011) e Carolina (Pinheiro; Barbosa, 2016), em parceria com
Sirlene Barbosa, sobre a escritora Carolina Maria de Jesus. Com abordagens mais naturalistas e
realistas, esses livros se baseiam tanto em imagens de referência desses autores como em suas
formas narrativas, como a fragmentação da prosa de Jesus.
Talvez o pouco apreço contemporâneo às biografias se deva por certo ranço da noção
utilitarista das biografias quadrinizadas da época da Ebal, ou do esquema narrativo preso demais
a figuras históricas que já habitam de alguma maneira o inconsciente popular. Mas o panorama
demonstra que ainda há um ensejo em produzir-se obras que valorizem os “vultos históricos”, e
poucas narrativas fogem ao caráter didático (e moral) de biografias, dirigidas, sobretudo, a
público jovem. As produções de João Pinheiro e, de certa maneira, as de Spacca são algumas
dessas exceções.
As obras que analisaremos mais detidamente, O obscuro fichário dos artistas mundanos e Pedra
d’água, podem ser enquadradas dentro do gênero biografia, mas flertam com outras construções
formais que as colocam, em uma passada de olhos, em uma posição muito diferente dos materiais
altamente laudatórios publicados pela editora Ebal, por exemplo. Nessas obras, as escolhas formais
para elaboração da biografia propõem um olhar poético sobre a vida das personagens retratadas; a
escolha de biografar artistas que transitaram pela cidade de Recife também vai ser mostrada
graficamente nesses livros, em passeios afetivos construídos pela roteirista e pesquisadora.
Era 2003, quase uma década antes da entrada em vigor da Lei 12.527/11, “que regulamenta
o direito constitucional às informações públicas”. A Lei de Acesso à Informação passou a ser
oficial em 16 de maio de 2012. Impressionada com a descoberta do documento sobre a
deputada, Hoffman, uma carioca há muito radicada em Pernambuco, ouviu da historiadora
Marcília Gama, então vinculada ao Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano, que
havia mais. “Ela trouxe duas gavetas que estavam guardadas no setor. Quando abri, não
acreditei no que via: fotos 3x4 de pessoas como Dalva de Oliveira, Grande Otelo e outros
artistas”, recorda Hoffmann (Veras, 2015).
Desse grupo de documentos, Hoffmann conseguiu apurar 404 fichários identificados com a
palavra “artista”. Entretanto, a compilação disso tudo só foi possível a partir da Lei de Acesso à
Informação, de 2012, quando Hoffmann pôde efetivamente se dedicar à análise dessas fichas. O
período da produção desses cadastros de artistas é entre os anos de 1934 e 1958, época da ditadura
de Getúlio Vargas.
Esse achado de Hoffmann levou ao desenvolvimento do projeto “O obscuro fichário dos
artistas mundanos”, que teve como objetivo catalogar esse material, produzir textos para discutir
o tema, elaborar uma cartografia dos lugares vigiados pelo dops na Recife da época (Figura 1) e
desdobrar a conversa para divulgar a descoberta. Em 2016, entrou no ar um site oficial com todo
o material disponível (atualmente, inativo). Houve apoio do projeto Rumos, da Itaú Cultural, e
do Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura (Funcultura) para a pesquisa e produção desses
trabalhos. Além deles, há esse último ramo da investigação, que é a quadrinização da vida de
quatro desses artistas fichados no Recife.
O livro compilando essas narrativas gráficas foi lançado em 2019 (Hoffmann et al., 2019) e
conta com roteiro da própria Clarice Hoffmann, junto de Abel Alencar, e com artes de Greg
Vieira, Paulo do Amparo, Mauricio Castro e Clara Moreira. O resultado é um álbum colorido, de
formato 21 x 27 cm, com 128 páginas.
Não vamos nos deter em analisar a obra como um todo, mas pinçar um de seus capítulos e, a
partir dele, apresentar as estratégias tipicamente gráficas, oriundas da linguagem das histórias
em quadrinhos, que foram postas em marcha pelos autores para a apresentação biográfica. Desse
modo, o capítulo selecionado é o quarto, “Os cossacos e o tabu”, com roteiro de Clarice Hoffmann
e Abel Alencar e arte de Greg Vieira.
Como em outros momentos do livro, há a colagem de fotos dos documentos oficiais do dops-
pe com os desenhos de Greg. As narrativas são sucedidas por textos explicitando elementos
factuais que ajudaram a compô-las, indicações bibliográficas e referências aos documentos. Nas
histórias, há o redesenho dos documentos que serão apresentados aos leitores, como pode ser
visto na Figura 2.
Esse capítulo conta a história de um imigrante russo, Ivan Rozensky, que foi fichado ao chegar
ao Brasil, como era praxe na época. Em meio ao carnaval, em uma discussão com outro homem
(caracterizado como um pato), Rozensky é preso por comparar o então presidente Getúlio Vargas
a um cachorro. Todos as pessoas oriundas da Rússia estavam sob constante observação devido
ao “risco de serem comunistas”. Assim, o empreendimento comercial de Ivan, o Bar Restaurante
Tabu, vivia sob vigilância permanente do dops-pe, como aponta a representação do documento
na parte superior da página 88 (ver Figura 2).
Essa página, especificamente, quebra um pouco a expectativa do leitor em relação a uma página que
poderíamos chamar de “padrão” de história em quadrinhos. Em vez do branco de fundo, há textura de
papel; em vez do espaço fora do quadro, há texto verbal; em meio a essa montagem de elementos, há
cinco quadros desenhados por Greg Vieira, que, aí sim, estão mais próximos da expectativa de um
“quadrinho padrão”. Ao analisarmos esses elementos de forma mais detida, observamos que a textura
do fundo da página, aliada ao texto verbal entrequadros em tipografia que remete a texto de máquina
de escrever, tem a intenção de indicar que se trata de excertos de documentos.
Tal uso do texto, por um lado, aponta-nos para aquilo que defende Anne-Marie Christin
(2012), de que o texto é imagem, e que uma situação como a Figura 2 apenas ressalta esse caráter
imagético da própria letra. A página de quadrinhos apresenta, portanto, elementos heterogêneos
que podem ser entrelaçados pelo grafismo de quem opera o desenho, e esse caráter mais
imagético da dimensão escrita na página amplifica seus sentidos; quer dizer, além da leitura do
significado primeiro daquele texto, sua visualidade permite novos sentidos a esse mesmo texto,
desde localização no tempo quanto, no caso dos documentos redesenhados em Obscuro fichário, a
especificidade do gênero textual mostrado (o prontuário), sua relação com a censura e a ditadura
daquele período, sua estética que amedronta diante do autoritarismo que rodeia tais documentos
e, ainda, traz à luz uma reminiscência desses arquivos obscurecidos propositalmente pelos
poderes vigentes.
Em suma, o trabalho de Vieira, aqui, com o uso das texturas e a opção pela tipografia, torna o
texto uma imagem de documento, que traz conteúdo pela sua própria forma, além daquilo que o
texto verbal informa. Por outro lado, a presença de algo que se torna reconhecível como
documento empresta um valor de verdade e de verificação à narrativa, e ancora esse trecho
biográfico na história factual.
Ao olharmos para os quadrinhos com personagens, o texto é entregue à leitura com outro
formato, por meio do balão de fala, artifício muito associado às histórias em quadrinhos. Nos dois
primeiros quadros, há a confirmação do que tratam os documentos apresentados antes e depois
dessa dupla de quadros, mas dado com o sabor da ficção pelos personagens. O terceiro quadro
reproduz um documento de salvo-conduto para Vladmir Pavlov (obrigatório para estrangeiros
poderem transitar pelo País naquela época) que é o objeto da conversa dos personagens nos
quadros anteriores. Os últimos dois quadros, com ponto de vista lateral fechado em meio rosto
de Rozensky e Krasnov, traz uma fala sobre o momento mais ficcional dessa narrativa biográfica.
A montagem de elementos documentais e de desenho produz um efeito de realidade, que
entrega ao leitor momentos biográficos de uma pessoa histórica, nesse caso, Ivan Rozensky. Não
se despreze, claro, a importância dos paratextos, como os da quarta capa e da introdução e dos
posfácios, que apresentam o entorno de toda a produção da obra. Tais paratextos são também os
responsáveis, ao nosso entender, por fazer com que o leitor, ao se deparar com imagens que se
assemelhem a documentos, reconheça-as como partes de documentos verídicos, que podem ser
periciados no Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano.
O quadrinho dramatiza passagens disponíveis na ficha de Rozensky, incluindo não apenas
anotações sobre ele, mas também ofícios como aquele de verificação da existência de uma imagem
de Getúlio Vargas na casa em que Ivan morava com sua esposa, Zita (Figura 2). Há uma subtrama
em que Ivan pede algo ao pé de ouvido de Zita enquanto está sendo preso. Descobre-se, depois,
que ele pedia à companheira que expusesse a imagem do então presidente em sua casa, como
uma espécie de prova de que estariam alinhados ao Estado Novo. Percebe-se, assim, que os
autores optam por algumas liberdades ficcionais em nome das possibilidades narrativas, já que
não há comprovação de que esse plano de Rozensky tenha sido realmente elaborado e executado.
A página 89, apresentada na Figura 3, está ao lado daquela que discutimos anteriormente, e
começa com a apresentação de um documento, que ocupa metade da página; a outra metade tem
um fundo branco, com quatro quadros com personagem empilhados. Para a parte documental,
há o ofício que registra que o representante da polícia encontrou efetivamente a foto de Getúlio
Vargas na casa do acusado de desrespeitar o presidente. Essa imagem segue o mesmo padrão da
que vimos na página anterior: o fundo com textura de papel e tipografia que remete à máquina
de escrever.
Dessa vez, os quadrinhos desenhados por Greg Vieira são circundados por um espaço branco
(e pela figura do documento em um dos lados). O primeiro quadro, o mais estreito do conjunto,
destaca os olhos de Zita. Observe-se que a página anterior havia fechado com destaque para as
bocas dos personagens. Abaixo desse quadrinho, há um quadro de visão lateral em que a
personagem ajeita uma foto de Vargas na parede; um terceiro quadro, em imagem frontal de
contra-plongée, com Zita a manipular um porta-retrato sobre uma mesa; e a página se fecha com a
apresentação do que está disposto nessa mesa, quando o leitor vê que um dos porta-retratos tem
uma foto do presidente Vargas.
A ação de Zita se passa antes daquilo que o documento comprova ter encontrado, e antes da
conversa de Rozensky e Krasnov. É como se a área branca ao redor das imagens indicasse que se
trata de uma analepse. Novamente, a presença do documento factual serve de indicador do
processo histórico que é a base da construção ficcional de Hoffmann, Alencar e Vieira – de que
Ivan havia pedido a sua companheira Zita que dispusesse fotos do maior mandatário da
República de então pela casa para corroborar sua história de que era um admirador de Vargas e
incapaz de detratá-lo em público.
Da mesma forma que na pesquisa comandada por Hoffmann para os demais desdobramentos do
projeto “O obscuro fichário de artistas mundanos”, o romance gráfico aqui brevemente analisado parte
de base documental para então desdobrar-se. No caso das histórias em quadrinhos, a opção deu-se pelo
caminho ficcional a partir de verificações biográficas, completando as lacunas com narrativas que não
se sabe se de fato aconteceram. Mas não se trata apenas de um processo de ficcionalização nas brechas
da verificação factual, procedimento algo comum em narrativas biográficas, mas também de trazer esse
pensamento de partir do documental para a quadrinização.
Desse modo, há a justaposição da reprodução de documentos e cartas com as ações desenhadas dos
personagens que são alvo da biografia. Tais elementos são incorporados na narrativa de quadrinhos,
por meio de ferramentas típicas dessa linguagem, como a justaposição, montagem, o uso do espaço da
página, o texto verbal usado também em seu formato gráfico, e a distribuição dos quadros.
Pedra d’Água
O livro de história em quadrinhos seguinte de Clarice Hoffmann trata de uma encomenda
feita pela CEPE, a mesma editora que havia lançado O obscuro fichário dos artistas mundanos. Dessa
forma, Pedra d’água surge com a intenção de apresentar a cidade de infância da escritora Clarice
Lispector: Recife. A proposta de Hoffmann, então, é fazer um ensaio em quadrinhos ao mapear
as diversas casas onde Lispector morou quando era criança na capital de Pernambuco.
Assim, acompanha-se o cotidiano da pesquisa de Esther (personagem da obra que investiga o
passado de Lispector), que visita os lugares que foram as casas da escritora, bem como apresenta
recortes de crônicas da autora em que ela comenta da sua vivência pernambucana. Boa parte das
páginas são caminhadas contemplativas da personagem por Recife, com a justaposição de frases
alusivas a obras de Lispector. Nem todas as passagens são narrativas clássicas, muitas delas
evocam momentos oníricos, com passagem de um espaço a outro, de um tempo a outro, sem
muitas justificativas ou explicações, como se se tratasse mesmo de um sonho. Algumas citações,
como do conto “O ovo e a galinha”, de Clarice Lispector, dão-se por imagens, quando Esther se
encontra com uma galinha e ovos (ver Figura 4).
Nessa obra, Hoffmann trabalha sozinha no roteiro e Greg Vieira é o único desenhista. A opção
do artista é por arte digital a partir de rotoscopia de fotos, tanto dos ambientes e cenários, quanto
da pessoa que interpreta a protagonista da obra (Hoffmann; Vieira, 2023) para o álbum colorido,
de formato 21 x 27 cm, com 108 páginas.
Narrar a obra pela mediação de uma pesquisadora ficcional, Esther, para dar conta de
aspectos biográficos de Clarice Lispector, faz às vezes de uma narrativa em moldura, em que
os dois autores da obra se projetam no trabalho por meio do artifício da ficção. Isso é
particularmente visível no capítulo final, “Explosão”, em que o leitor passa a ter acesso às
anotações, mapas, imagens e demais fontes de pesquisa da personagem, que, por terem sido
usadas por Hoffmann e Greg na construção do romance gráfico Pedra d’água, materializam-se
como a pesquisa tornada visível pela história em quadrinhos, como se fosse material de
consulta de Esther.
Então, em vez de termos acesso aos personagens em ação (mesmo que sejam momentos mais
líricos e oníricos, ainda são ações narrativas), encontramo-nos com diversas fontes que, ao
serem colocadas lado a lado, constroem uma espécie de pensamento gráfico sobre esse
momento da vida de Clarice Lispector.
Em “Explosão”, as páginas iniciais colocam o leitor em posição de primeira pessoa que
dirige o olhar a uma porta encostada. Ao ser aberta, dá entrada ao quarto de Esther. Lá serão
vistos murais, recortes de jornal, anotações, livros anotados, cadernos de notas, mapas,
fotografias, bilhetes, entre diversos outros itens. Percebemos, aqui, um processo de
justaposição, que ajuda a contar a história. Comentamos o termo aqui no sentido que o cineasta
e teórico soviético Sergei Eisenstein propõe ao termo:
dois pedaços de filme de qualquer tipo, colocados juntos, inevitavelmente criam um novo conceito,
uma nova qualidade, que surge da justaposição. Esta não é, de modo algum, uma característica
peculiar do cinema, mas um fenômeno encontrado sempre que lidamos com a
justaposição de dois fatos, dois fenômenos, dois objetos (Eisenstein, 2002, p. 14, grifo do
autor).
Desse modo, todos os elementos juntos na página não são apenas representações de
anotações, mapas ou de fotografias, mas um conjunto cujo sentido é apresentado justamente
por estarem em relação no espaço específico da página.
Também podemos estabelecer uma relação com as técnicas situacionistas. No caso desta
obra, especificamente, há a deriva da personagem em torno desses pontos biográficos de
Lispector, e a colagem de documentos monta um mapa psicogeográfico da cidade de
acolhimento de ambas as Clarices (Jacques, 2003). A deriva aqui é pensada de acordo com a
proposta situacionista de uma prática de sujeitos em meio à cidade, um exercício prático de
apreender o espaço urbano a partir de seus afetos, um caminhar de apropriação da cidade pelos
sujeitos. A psicogeografia, por sua vez, método que engloba a deriva como uma de suas
práticas.
A deriva seria uma apropriação do espaço urbano pelo pedestre através da ação do andar
sem rumo. A psicogeografia estudava o ambiente urbano, sobretudo os espaços públicos,
através das derivas e tentava mapear os diversos comportamentos afetivos diante dessa
ação básica do caminhar na cidade (Jacques, 2003, p. 22).
Assim, Esther caminha à esmo pelo Recife, identificando os endereços de sua escritora
favorita, na cidade que é delas. Pelo mapa de Lispector, Esther passeia por uma cidade que
lhe pertence, e da qual ela se apropria de uma forma nova. Os documentos comprovando
seus endereços servem à roteirista e ao desenhista para recomporem a biografia da escritora
ucraniana. São como se fossem pistas apresentadas aos leitores, que devem, pelas pegadas da
escritora, encontrar seus vestígios pelo Recife. Percebem-se essas informações visuais no
último quadrinho da Figura 5, em que cada grupo de imagens deste painel de cortiça será
apresentado com mais destaque, em página dupla, na sequência do livro. Como é o caso do
exposto na Figura 6.
São redesenhados bilhetes, post-its, recortes de jornal, fotos e trechos de textos de Lispector sobre
as casas onde esteve. Os anúncios indicam as residências disponíveis para venda e para locação, com
sua localização indicada em pequenos papéis coloridos, o que dá a entender que são as anotações de
Esther, que vão marcando também os períodos em que Lispector viveu naqueles endereços.
Localiza-se a casa pelo mapa, pela fotografia ou pelo endereço do anúncio de jornal, ao mesmo
tempo em que a construção da relação pessoal da escritora com cada ambiente e com a própria
cidade que abriga essas casas é apresentado por meio dos excertos de texto da própria Lispector.
De acordo com a proposta situacionista de redescobrir a cidade, aqui, não se trata de Esther
redescobrindo a sua cidade, mas a de Lispector, o local que ajudou a moldar a personalidade e que
gerou algumas das experiências determinantes de uma das mais renomadas autoras brasileiras.
Não se trata de documentar de forma organizada e linear a vida da autora, nem de alimentar
a pretensão de trazer a totalidade das informações da trajetória de Clarice Lispector, desde seu
nascimento até sua morte, passando pelas mudanças e pelo lançamento das obras que a
Conclusão
Mesmo em uma cena com baixa publicação de histórias em quadrinhos biográficas, existe uma
produção que se destaca. Diferentemente daquilo que foi feito no passado, sobretudo pela editora
Ebal, com grande quantidade de títulos, porém de empenho mais pedagógico e instrumental, o
trabalho com a biografia preocupa-se menos em ser um discurso elogioso e mais em trazer
fragmentos da pessoa em questão e, desse modo, explorar sutilezas dessa história de vida.
Tal procedimento pode ser observado nas duas obras que foram analisadas neste artigo, O
obscuro fichário dos artistas mundanos e em Pedra d’água, nas quais os autores e as autoras trabalham
nas frestas da documentação biográfica disponível, para, sim, trazer os relatos de vida, mas já
cercados de trabalho com a linguagem específica dos quadrinhos. São obras que recorrem ao
documento como elemento estético, apresentadas visualmente sobre a página, mas também com
forte efeito ético de se pensar o espaço e as relações afetivas, políticas, sociais exercidas por esses
artistas retratados.
Em Obscuro fichário, os fragmentos de vida de artistas são expostos pelos registros policiais, e
em Pedra d’água, temos as relações comerciais (troca de endereço, trabalho do pai de Clarice
Lispector) que vão ajudar a recompor a trajetória da escrita.
Nos trabalhos analisados, as biografias, recortadas e parciais, dão a ver um pouco da cidade
em que elas aconteceram e ajudam a também contar a história desse lugar.
Em ambos os trabalhos, as biografias elaboradas também documentam a Recife da própria
Clarice Hoffmann, quem encabeça os dois trabalhos. A autora, desse modo, trouxe um
mapeamento afetivo da cidade a partir de seus artistas. São escritas de vida que vão também dizer
sobre o espaço que essas pessoas atravessaram, e, assim, o espaço traz sentido para as biografias
em que, a partir do método psicogeográfico, as escritas de vida também dão sentido a esses
lugares. Por fim, ao registrar o espaço e os afetos que compõem a vida desses artistas, permite-
nos aprender sobre seus percursos a partir de um arranjo estético experimental que se constrói
poeticamente: uma escolha deliberada de tentar corresponder com arte a vida de quem viveu
pela arte.
Referências
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