Topicos Alg Linear Aplic R Rizzi
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Cascavel
2010
Sumário
1 CADEIAS DE MARKOV . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1
1.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1
i
1
1 CADEIAS DE MARKOV
Pode-se dizer que um sistema ocupa um estado, quando ele é completamente des-
crito pelos valores de variáveis que definem esse estado. Um sistema exerce um estado de
transição, quando as variáveis descrevem trocas de um valor especı́fico de um estado para um
valor especificado de outro estado, no estágio seguinte.
1.1 Introdução
Suponha que um experimento seja realizado sob certas condições fixas. Seja S o
conjunto de resultados possı́veis, onde por resultados possı́veis, onde por resultado possı́vel
entende-se resultado elementar e indivisı́vel do experimento.
EXEMPLO 1: (JAMES, B. R., 1981) Considere o experimento de jogar um dado não vi-
ciado e observar o número da face superior. Então S = {1, 2, 3, 4, 5, 6}, pois esses resultados
são os únicos possı́veis. Obter um número par, por exemplo, não é um resultado elementar,
pois consiste dos três resultados {2, 4, 6}. S é chamado de espaço amostral do experimento.
Muitas vezes o conjunto de resultados possı́veis não é tão fácil de ser especificado.
1
Estocástico significa em grego capaz de aproximar. Essa terminologia é empregada em qualquer situação
que é governada pelas leis de probabilidade, no sentido de que a probabilidade elabora previsões sobre a
ocorrência ou não do evento ou fenômeno
3
Então, todo evento associado a este experimento pode se identificar com um sub-
conjunto do espaço amostral S. Reciprocamente, se A for um subconjunto qualquer de S, ou
seja, A ⊂ S, então é conveniente identificar A e o evento resultado do experimento pertence
a A. Tem-se a seguinte definição:
1. 0 ≤ P(A) ≤ 1.
2. P(S) = 1.
4. SeAi , . . . , A
n , . . . forem, dois a dois, eventos mutuamente excludentes então vale que
S∞
= ∞
P
P i=1 Ai i=1 P(Ai ).
Note que o espaço amostral pode ser infinito ou finito, e o número (quantidade) de
elementos de um conjunto tem grande importância. Se existe um número finito de elementos
no conjunto A, digamos, a1 , . . . , an diz-se que A é finito. Se existem um número infinito de
elementos em A, os quais podem ser postos em correspondência biunı́voca com os números
2
naturais, diz-se que A é infinito enumerável O conjunto A pode ter também um conjunto
infinito não enumerável de elementos.
1. pi ≥ 0, para i = 1, . . . , n.
Pn
2. i=1 pi = 1.
é igual à soma das probabilidades dos vários resultados individuais que constituem o evento A,
desde que esses resultados sejam equiprováveis. Veja uma discussão na seção 2.2 de (MEYER,
1974).
Pode acontecer que não se pode atribuir probabilidade a todo o evento, mas mostra-
se que geralmente na prática pode-se contornar esse tipo de problema. Um evento A a qual
se atribui uma probabilidade merece uma denominação. Tem-se, então:
Vamos relacionar uma probabilidade com uma variável aleatória, que é um valor
numérico do resultado de um experimento.
EXEMPLO 3: (JAMES, B. R., 1981) Lançar uma moeda n vezes e observar a sequência de
caras C e de coroas K obtidas. Os resultados possı́veis neste exemplo são sequências de n de
6
S = {(ω1 , . . . , ωn ); ωi = C ou ωi = K; i = 1, . . . , n} .
Ou seja, lançar uma moeda n vezes e observar a seqüência de caras e coroas obtidas
é um experimento, e o resultado deste experimento é uma sequência de caras e de coroas e
não é um número. Porém, o número de caras ou de coroas observadas nos n lançamentos é
um número, designado por variável aleatória.
o valor da uma variável aleatória, definida por X(ω) = ω. Mas precisamente diz-se que X(ω)
def
é variável aleatória se, e somente se, o evento {ω ∈ S; X(ω) ≤ x} ≡ [X ≤ x] for aleatório
para todo x enumerável ou não enumerável.
Mais uma vez destacamos que se deve distinguir uma variável aleatória X (que
é uma função) do número X (ω) que ela associa a um evento ω de um espaço amostral S.
Chama-se esse número de uma realização da variável aleatória X e enquanto uma realização
de uma variável aleatória é simplesmente um numero (ponto), um processo estocástico (sendo
uma coleção de variáveis aleatórias) tem como realização uma famı́lia de pontos (números)
ao longo do tempo.
Veja uma apresentação formal da definição em, por exemplo, (ATENEODO, 2004)
ou em (MAIA, 2008). Decorrente da definição é possı́vel observar que existem diferentes
classes de processos estocásticos e as caracterı́sticas que permitem distinguir entre processos
estocásticos são a natureza do espaço de estados (espaço amostral de cada variável aleatória
X(t), com t ∈ T ), a natureza do conjunto de ı́ndices T e as relações de dependência entre as
variáveis aleatórias X(t), que se derivam das distribuições.
Com efeito, um processo estocástico pode ser caracterizado pelo seu espaço de
estados S, o conjunto de possı́veis valores das variáveis aleatórias Xt , pela natureza do seu
conjunto indicial T e pelas relações de dependência entre as variáveis aleatórias Xt . Os
diferentes processos estocásticos podem ser classificados como (MAIA, 2008):
1. Uma variável aleatória é classificada como discreta ou contı́nua, dependendo dos valores
que pode apresentar. Analogamente, se cada Xt apresentar valores em um conjunto
enumerável, diz-se que o processo é de estado discreto ou que ele é uma cadeia. Por
8
• Em relação ao Estado:
• Em relação ao Tempo:
O critério 4 é muito geral (veja detalhes em (MAIA, 2008), página 13) e, então,
usualmente são considerados situações em que a dependência entre as variáveis aleatórias do
processo pode ser descrita de uma forma mais simples, como os processos de Markov.
9
Dá-se o nome de processo de Markov a um dado fenômeno que possa ser classifi-
cado em estados finitos e discretos, e cuja probabilidade de transição entre tais estados, num
intervalo de tempo também discreto, dependa apenas do estado corrente e do estado seguinte.
À seqüência de estados seguindo este processo dá-se o nome de cadeia de Markov.
EXEMPLO 5: (SANTOS, 2006) Vamos supor que uma população está subdividida em três
classes (ou estados): renda alta, renda média e renda baixa, e que em cada unidade de tempo
a probabilidade de mudança de um estado para outro seja constante no tempo, somente
dependendo dos estados.
São várias as referências que tratam dessa interessante e importante temática. Algu-
mas delas que subsidiaram esse estudo de caso encontram-se no item referências para o tópico,
merecendoaquidestaque aos autores (CLARKE, DISNEY, 1979) e (MEYER, 1974) como refer-
ências introdutórias e clássicas (em lı́ngua portuguesa). O texto de (WEISS, YOSELOFF,
1978) é particularmente interessante, pois aborda cadeias de Markov sob o ponto de vista da
Álgebra Linear.
sempre que t1 < t2 < . . . < tn < t, onde P(X ≤ x) é a função distribuição de probabilidade
da variável aleatória X.
Para os objetivos dos nossos estudos de caso não se aborda processos de Markov
em sua generalidade, mas apenas as designadas cadeias de Markov de tempo discreto, que
são aplicadas a uma grande variedade de problemas. Assim tem-se:
Note-se que esta simplificação do processo talvez seja demasiada, visto que as pro-
babilidades podem se modificar com o tempo. Não obstante, este modelo já serve para elab-
orar, sob certas premissas, algumas previsões do comportamento de certos fenômenos como
genética, dinâmica populacional, previsão do tempo, entre outros fenômenos.
Para esses casos, as cadeias de Markov podem ser empregadas para determinar a
probabilidades de transição entre estados que evoluem de maneira estocástica, de modo a
prever os estados de um processo em andamento conhecendo-se apenas o estado atual e não
sua trajetória.
Mostra-se, como em (MAIA, 2008), página 20, que uma interpretação matricial
desses resultados, leva à seguinte expressão:
Uma cadeia de Markov homogênea de tempo discreto pode ser representada por
um diagrama de estados que é simplesmente um grafo em que os nodos são indexados
pelos possı́veis estados da cadeia de Markov e os arcos são indexados pelas correspondentes
probabilidades de transição entre os estados (MAIA, 2008).
Talvez seja importante destacar mais uma vez que pi,j , que denota a probabilidade
de passar de i para j em uma fase ou perı́odo de tempo, representa a probabilidade condicional
de que, dado que o sistema esteja no estado i em certo momento, venha a estar no estado j
no intervalo de tempo seguinte.
EXEMPLO 6: Veja a figura 1 para ilustrar um exemplo de matriz de transição T3×3 para um
processo de Markov em três estados, considerando-se que a matriz é especificada por:
p1,1 p1,2 p1,3
T = p 2,1 p 2,2 p 2,3
p3,1 p3,2 p3,3
12
Com efeito, para exemplificar essa afirmação, suponha que numa determinada região,
observou-se que se um ano for chuvoso, a probabilidade de o ano seguinte seja igualmente
chuvoso é 1/4, e a probabilidade de que faça seca é 3/4. Ainda, em ocorrendo estiagem num
ano, a probabilidade de que também ocorra à estiagem no seguinte é a mesma de que seja um
ano chuvoso, isto é 1/2.
Assim, por exemplo, supondo que no primeiro ano houve estiagem, a probabilidade
1 1
de que o terceiro ano seja chuvoso é: .
2 4
+ 12 . 21 = 38 . Então se pode observar que, conforme
o tempo passa, os cálculos se tornam mais trabalhosos. Portanto, para previsões a longo
prazo, precisaremos de um procedimento que torne mais efetivo os cálculos necessários. Esse
13
cada por: !
pc (n)
ps (n)
onde a primeira linha dá a probabilidade pc (n) que ocorra chuva no n−ésimo ano e a segunda
linha dá a probabilidade ps (n), de que ocorra seca no n−ésimo ano.
Tal previsão é importante para várias questões práticas, pois se chegarmos, por
exemplo, à conclusão que ps (n) −→ 1 quando n −→ ∞, a longo prazo a região se tornará
um deserto. Também note que se T n não se aproxima de uma matriz P , então não se pode
fazer nenhuma previsão a longo prazo, pois o processo se modificará bastante a cada passo de
tempo, de modo a inviabilizar uma previsão.
Assim, um dos problemas que se deve resolver é quais são as condições sobre a
matriz T das probabilidades de transição, para que suas potências se aproximem de uma de-
terminada matriz. Vamos inicialmente formalizar o procedimento realizado.
especificada por:
p1,1 p1,2 ··· p1,r
p
2,1 p2,2 · · · p2,r
. .. ... ..
.
T =
. . .
pr−1,1 pr−1,2 · · · pr−1,r
pr,1 pr,1 · · · pr,r
onde cada pi,j ≥ 0 e onde a soma de cada coluna deve ser igual a 1, já que pi,j designa
probabilidades.
Para se poder estabelecer previsões a longo prazo, a matriz T deve cumprir certas
condições. Com efeito, e uma das mais relevantes caracterı́sticas exibidas por muitas cadeias
de Markov é um comportamento de equilı́brio (ou rgularidade) a longo prazo (WEISS, N. A.,
YOSELOFF, 1978).
A relevância da matriz regular para as previsões a longo prazo é dada pelo teorema 1
a seguir enunciado. Ver sua prova nas referências indicadas, indicando-se o texto de (WEISS,
N. A., YOSELOFF, 1978) para uma série de exemplos e exercı́cios.
3. Para qualquer vetor de probabilidades inicial V1 = (p1 (1) · · · pr (1))t , o vetor de proba-
bilidades T n V1 aproxima-se do vetor V especificado no item 2.
que é regular, pois ela mesma (sua primeira potência) têm todos os elementos estritamente
positivos. Portanto, pelo item 4 do teorema 1 (O vetor V é o único vetor que satisfaz a
igualdade V = T V ), pode-se concluir que quaisquer que sejam as probabilidades iniciais, as
18
EXEMPLO 9: (BOLDRINE e outros, 1984, página 20) Suponha que em uma determinada
região, a cada ano três por cento da população rural migra para as cidades, enquanto ape-
nas um por cento da população urbana migra para o campo. Se todas as demais condições
permanecem estáveis e essas porcentagens de migração continuar as mesmas, qual deve se a
relação entre as populações urbana e rural dessa região a longo prazo?
SOLUÇÃO: Como 3 por cento da população rural migra para o meio urbano, a
probabilidade de migração do meio rural para o meio urbano é de 0, 03, enquanto que a
probabilidade de não migração é de 0, 97. Analogamente, como 1 por cento da população
urbana migra para o meio rural a probabilidade de migração do meio urbano para o meio rural
é de 0, 01 e a de não migração é de 0, 99. Denotando por U e por R os meios urbano e rural,
respectivamente, a tabela de transição 2 é especificada como:
Como a matriz é regular, pois sua primeira potência têm todos os elementos es-
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tritamente positivos, então pelo item 4 do teorema 1 pode-se concluir que a longo prazo as
probabilidades pR e pU , de viver no meio rural e no meio urbano, devem satisfazer a condição:
! ! !
pR 0, 97 0, 01 pR
= .
pU 0, 03 0, 99 pU
Considere uma população subdividida em três estados, onde a cada unidade a pro-
babilidade de mudança de um estado para outro é constante no tempo, vamos trabalhar com
um exemplo ilustrativo da situação.
EXEMPLO 10: (SANTOS, 2006) Vamos novamente supor, como no exemplo 5, que uma
população é dividida em três estados: renda alta, renda média e renda baixa e que em cada
unidade de tempo a probabilidade de mudança de um estado para outro seja constante no
tempo.
A distribuição da população inicial entre os três estados pode ser descrita pela
20
matriz:
p1
P0 = p
2
p3
Após uma unidade de tempo a população estará dividida entre os três estados da
seguinte forma:
p1,1 p1 + p1,2 p2 + p1,3 p3
P1 = T P0 = p
2,1 1p + p p
2,2 2 + p p
2,3 3
onde p1,1 p1 + p1,2 p2 + p1,3 p3 , p2,1 p1 + p2,2 p2 + p2,3 p3 e p3,1 p1 + p3,2 p2 + p3,3 p3 estão, respecti-
vamente, nos estados 1, 2 e 3. Assim a matriz de estado após uma unidade de tempo é dada
pelo produto de matrizes P1 = T P0 , onde denotamos P (0) ≡ P0 e P (1) ≡ P1 .
que representa uma população dividida de forma que um terço da população está em cada
estado (renda alta, renda média e renda baixa).
P (1) = T P (0)
1 1 1
2 4
0 3
= 1 1 1 . 1
2 2 2 3
1 1 1
0 4 2 3
21
1 1 1 1
2 3
+ 4 3
+ 0 13
= 1 1 1 1 1 1
2 3
+ 2 3
+ 2 3
0 13 + 1
4
1
3
+ 1
2
1
3
1
4
= 1
2
1
4
P (k) = T P (k − 1)
= T T P (k − 2) = T 2 (k − 2)
.
= ..
= T k P (0)
1 1
2
−λ 4
0
det (T − λI) = 1 1 1
2 2
−λ 2
1 1
0 4 2
−λ
1
= −λ(λ − )(λ − 1)
2
ou seja
1 1
2 x1 + 4x2 = 0
4
1 1 1
x +
2 1
x
2 2
+ x
2 3
= 0
1 1
+ x
4 2
+ x
2 3
= 0
que resolvido fornece como solução geral como (veja o tópico Modelo de Leslie para uma breve
discussão sobre as questões teóricas):
α
1
X1 = E0 = −2α = ger
−2
α 1
ou seja
1 1 1
2 x1 + 4x2 = x
2 1
4
1 1 1 1
x +
2 1
x
2 2
+ x
2 3
= x
2 2
1 1 1
+ x
4 2
+ x
2 3
= x
2 3
E para T X = X tem-se:
1 1
2 4
0 x1 x1
1 1 1 . x2 = x2
2 2 2
1 1
0 4 2
x3 x3
24
ou seja
1 1
2 x1 + 4x2 = x1
4
1 1 1
x
2 1
+ x
2 2
+ x
2 3
= x2
1 1
+ x
4 2
+ x
2 3
= x3
que resolvido fornece como solução como:
α
1
X3 = E1 = 2α = ger 2
α 1
k+1
1
pois lim = 0.
k→∞ 2
Ou seja, esta é a matriz que dá a transição entre k unidades de tempo, para um
longo prazo, ou seja, quando (k −→ ∞).
1. ANTON, H., BUSBY, R. C. Álgebra Linear Contemporânea. São Paulo. Editora Book-
man. 2008.
2. ANTON, H., RORRES, C. Álgebra Linear com Aplicações. São Paulo. Editora Bookman.
2004.
8. HOFFMAN, K., KUNZE, R. Álgebra Linear. São Paulo. Editora Livros Técnicos e
Cientı́ficos Editora S.A. 1979.
15. WEISS, N. A., YOSELOFF, M. I. Matemática Finita. Editora Guanabara Dois. Rio de
Janeiro. 1978.