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Daniel.: T. Xí-F. - Abril de .1875

O documento narra a relação entre Daniel e o médico Matheus, que se torna seu amigo e mentor. Matheus, um homem respeitável, é obcecado por deixar um legado literário, enquanto Daniel admira suas virtudes e tenta ajudá-lo. A história também introduz Azevedo, sobrinho de Matheus, que busca um casamento rico para resolver suas dificuldades financeiras.

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Daniel.: T. Xí-F. - Abril de .1875

O documento narra a relação entre Daniel e o médico Matheus, que se torna seu amigo e mentor. Matheus, um homem respeitável, é obcecado por deixar um legado literário, enquanto Daniel admira suas virtudes e tenta ajudá-lo. A história também introduz Azevedo, sobrinho de Matheus, que busca um casamento rico para resolver suas dificuldades financeiras.

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DANIEL.

CONTINUAÇÃO.

II.

ntre as pessoas com quem Daniel travara rela-


ções, havia um velho medico, homem abastado,
exercendo a profissão por amizade e caridade.
_Sflp^^ _-BÍ--|_^Bj-P--r
Tinha cincoenta e cinco annos o medico, e chamava-
¦B ^^Sm^Smtt sfmr se Matheus; era um liomem de todo o ponto respeita-
'vd; um
era uma natureza de gravidade e doçura, austero como
frade antigo, meigo como uma noiva namorada.
como pelo
Mathêus affeiçoou-se a Daniel, não só pelo talento
caracter, pelos hábitos, e antes de mais nada pela má reputação qne
do mundo,
começava a fazer d'elle. Tinha o velho notado que a boca
as censuras
muitas vezes justa, mas muitíssimas injusta, e comparando
avareza e outras feriam ao joven advogado, com
de altivez, orgulho, que
talvez
os hábitos de reserva e modéstia que lhe conhecia, conclui, que
nada do que se dizia d'elle fosse exacto.
T. Xí-f.— Abril de .1875.
DAS FAMÍLIAS.
gg JORNAL
sem o velho e o moço se
Com effeito, não correu muito tempo que
csudu»
affáção; frequentavam-sc,
Ugassem por mutua e profunda
mezes dois amigos de lon6oo
alguns pareciam
juntos, e no fim de
annos.
TIOS *

admirava no joven advogado era a vir-


O que Matheus principalmente
de boas virtudes qoe ele ,„to
iuusoes, o fundo
giudade das suas magnanimidade com que
lealdade a
confiança e a modéstia, a provada,
julgava todos os actos alheios. medico, na creia Uo
iMeu amigo, dizia-lhe muitas vezes o velho
mas é máo ser crédulo; isto dc
franeamente nas cousas. É bom crer,
em toda a ha de leval-o a muitas desillusoes.
suppor o bem parte
Daniel, eu não posso modificar o meu
- Que importa? respondia
coração.
a cabeça é a bússola. Se deixar de mao a bus-
_ 0 coração é o navio,
sola, o navio vae por agua abaixo.
Não irá.
Em que confia?
do bem...
_ Confio em que não posso ir ter ao mal pela estrada
o velho sorrindo compassivamente, mas a que
_ Não irá respondia
a é essa. Emfim, meu rico amigo, lá o deixo
chama o mal ? Toda questão
algum dia se convencerá de que eu fallo a verdade;
comsigo j verá que
fôr vivo, terá um coração em que desa-
c nesse dia, se eu procure-me;
bafe as suas queixas.
este modo, sem que
Estas e outras conversas acabavam sempre por
do medico mais do que a manifestação de um
Daniel visse nas palavras
de tudo um grande
homem sem fé. Entretanto como via n'elle, apezar
coração, estimava-o sempre cada vez mais*
emprehendeu
Aconteceu então que o velho um pouco dado ás lettras,
e como
um trabalho de longo fôlego acerca das antigüidades americanas,
ajudasse na co-
Daniel era homem estudioso e serviçal, pedio-lhe que o
lheita e organisação dos materiaes para a obra.
A obra não veio a lume, e eu não posso dizer qual seria o effeito que
no comtudo a indiscrição de romancista dá-me o
produziria publico;
direito de revelar que, posto que a mão de Daniel entrasse no arranjo
dos elementos para o livro, como não era elle quem os trabalhava^ e sim
o velho medico, a obra se viesse a lume teria poucos dias de vida e pro-
vavelmente não chegaria ao século vinte.
Matheus era excellente medico; mas isto não quer dizer que fosse
excellente escriptor \ podia sel-o, mas não era.
JORNAL DAS FAMÍLIAS. 99
Como o trabalho exigia muitas vezes a presença de Daniel em casa de
Matheus, o advogado era obrigado a freqüentar mais a casa cio medico,
onde passava horas inteiras, durante a noite.
Morava Matheus só, com dois escravos; era solteiro.
Porque não se casou nunca?
perguntou um dia o rapaz ao me-
dico.
Porque não encontrei uma mulher.
Nao as havia no seu tempo !
Nem hoje.
Daniel sorrio-se.
Nem hoje, repito; é
que eu entendo a mulher cá por certo modo.
A casa do doutor Matheus era casa de velho celibatario; nao havia
luxo nem sobra de commodos; bastava ás necessidades do velho e de
seus fâmulos.
- Daniel
passava alli algumas noites em companhia do velho, com quem
tomava chá, e que lhe dava excellentes charutos de Havana.
0 trabalho proseguia lentamente; mas o velho não se impacientava
por isso.
Quero, dizia elle, deixar uma obra
que recorde o meu nome; não
deixo filhos, deixo ao menos um livro, mais duradouro que elles.
Era este o ponto fraco do medico; respeitável e digno da estima em
tudo mais era digno de piedade quando se tratava de suas pretenções
litterarias. Foi máo que lhe apparecesse aquella mania; sem ella, seria
um homem completo.
Daniel nao podendo julgar ainda do mérito da obra, que estava em
principio, reconhecia comtudo que a posteridade illudiria as esperanças
do estreante.
Mas como dissuadil-o ?
Daniel fez esta primeira transacçao com a consciência; pareceu-lhe que
o livro não se acabaria nunca e julgou mais conveniente deixar o velho
embalar-se nas illusões que tão queridas lhe eram.
Uma noite em que estavam trabalhando vieram dizer a Matheus que
suas sobrinhas estavam na sala.
Ah 1 sim? disse Matheus alegremente; ahi vou, ahi vou. Não vem
d'ahi?
Espero trabalhando, respondeu Daniel.
Qual! ande ver as minha sobrinhas; são moças amáveise valem
o sacrifício da litteratura.
Daniel acCedeu ao pedido.
-00 JORNAL DAS FAMÍLIAS.

andar, foram á sala de visitas onde se achavam


Desceram ao primeiro
tres senhoras e um sujeito.
foi direito ás moças que o abraçaram, e apertou affectuosa-
Matheus
mente a mão ao sujeito.
Daniel, comprimentára as senhoras de
Depois voltandó-se para que
:
longe e ficara encostado a um aparador, disse o medico
— Venha cá, doutor; quero apresental-o a estas moças.
aproximou-se e foi apresentado ás damas e ao sujeito, que era
Daniel
sobrinho do velho por ser casado com uma das sobrinhas.
Carlos de Azevedo chamava-se Adelaide; das
A casada com o Sr.
a mais moça, chamava-se Luiza e a mais velha Carlota.
outras duas, uma,
esta seus vinte annos, e a outra apenas deseseis. Não
Representava
alto este
interessando ao caso a idade de Adelaide, é util passarmos por
ponto.
a Azevedo era um homem sem idade, por que tendo apenas
Quanto
hesitava em
vinte e sete, estava já tão quebrado das feições que a gente
dizer se era um velho, se um moço.
capi-
Este Azevedo era um typo d'essa classe numerossima em todas as
taes, e não sei se aldeias tambem.
Aos desoito annos achou-se senhor de si e de alguns escravos e apoli-
ces, que tudo prefazia a conta redonda de trinta contos.
Trinta contos nas mãos de um rapaz de dezoito annos que não tinha
nascido com uma boa provisão de juizo é a mesma cousa que um pouco
d'agua dentro de um cesto. Azevedo apenas se pilhou na posse dos bens,
tratou de divertir-se na persuasão de que o dinheiro nunca mais se aca-
bava. A persuasão era mesmo de dezoito annos; n'esta idade ordinária-
mente sabe-se tudo, menos arithmetica.
Cavallos, ceias, jogo, passeios, tudo emfim quanto um rapaz pode
algibeiras
gozar quando põe o pé na vida, tudo isso nasceu em pouco nas
de Azevedo. Aos vinte e um annos estava o rapaz sem vintém e com uma
reputação de estroina, única causa que lhe ficou das suas passadas
glorias.
Tornava-se necessário um emprego, e Azevedo dirigio para ahi as suas
baterias. Foi a um ministro com cartas de empenho ; mas o ministério
cahio nas vésperas de elle arranjar o negocio ; o novo ministério insti-
tuio um programma de economias, que Azevedo achou que era um pro-
gramma attentatorio das liberdades publicas. *

Comtudo quiz tentar outra vez o emprego, e metteu hombros a em-


preza. O* negocio, porem, demorava-se mais do que o rapaz esperava,
JORNAL DAS FAMÍLIAS. 101
e uma noite queixava-se o pretendente a um sujeito, que lhe disse estas
simples palavras:
-- Isto de depender de ministros é o diabo; olhe veja se arranja em-
prego nos Estados em que o governo não se muda.
Isso é charada.
Pois adivinha.
Mas o conceito?
Não tem.
Quantas syllabas?
Seis.
Azevedo entrou a meditar e depois de meia hora não tinha conse-
guido adivinhar a charada do amigo.
Vamos, disse elle, que diabo quer você dizer com isso?
Não adivinha a charada ?
Nada.
Pois é simples : casamento rico.
0 rapaz ficou de boca aberta; não contava com aquella sahida, e nem
se lembrava de semelhante idéa, que foi para elle um verdadeiro achado.
• Um casamento rico!
0 emprego era na verdade bom, posto que difficil; onde encontraria
esse casamento? Lançou os olhos pela lista das poucas familias que fre-
quentava , graças ávida dissoluta que levava e entre elles vio ado
Sr. commendador Baptista, irmão do doutor Matheus, que tinha tres
filhas, e possuía magnífica fortuna.
Azevedo entrou a freqüentar a rapariga, e namoriscou logo a mais
velha das moças, que lhe acceitou a corte com a maior-benevolencia d'este
mundo.
D'ahi a mezes estava casado.
Eis ahi a historia do casamento do joven Azevedo, um dos entes mais
nullos e inúteis d'este mundo, que não fazia bem nem mal, e vivia sob a
direcçao de sua esposa, moça que usava o vestido muito decotado para
mostrar um signalsinho preto que tinha muito abaixo do pescoço.

TIT

A conversa foi curta, mas alegre. As raparigas começaram por uma


longa aceusação ao tio por nao as ter visitado durante um mez inteiro.
Azevedo acompanhava a aceusação com alguns monosyllabos e ditos
JORNAL DAS FAMÍLIAS.

mereciam sempre um olhar de reprehensão de Adelaide.


sem graça, que
tio desculpava-se como podia, e até appellou para Daniel
0 velho
como nos motivos que o retinham longe das so-
dando-o participante

Quem sabe se o tio Matheus não está para casar? disse Azevedo;
nessa idade acho que...
Forte tolice! interrompeu Adelaide.
Casar, tio! exclamava Luiza; ao menos quero ter uma tia bonita?
Será?
Estou que sim, respondeu Matheus.
Entretanto, disse Adelaide, como não é já o casamento, porque
não apparece lá em casa ?
Amanhã, amanhã, com certeza.
Mas ha de jurar, disse Luiza levantando-se e indo ao tio.
Pois sim, juro.
Azevedo tirou o relógio e vio que horas eram.
Está com pressa? perguntou a mulher.
, —Não; foi distracção.
Adelaide inclinou-se-lhe ao ouvido, e soltou-lhe baixinho estas pala-
vras:
É muito bonito estar distraindo. Não tem vergonha de o dizer!
Azevedo ficou como um lacre, e olhou para todos a ver se tinham
a reprimenda; felizmente Matheus conversava com Luiza;
percebido
e Daniel trocara algumas palavras com Carlota.
Das tres irmãs, Carlota parecia ser a mais discreta, e era com certeza
a mais bonita. Era morena e possuía uns magníficas olhos, que ella
movia com graça sem affectação.
Daniel reparou desde principio que era aquella a que fallava menos e
melhor; depois reparou que era bonita, finalmente começou a conversar
com ella e achou uma moça intelligente.
O velho medico propoz que as sobrinhas tomassem chá com elle, e
Azevedo ia distrahidamente aceitando o convite quando Adelaide o ata-
lhou dizendo que não era possivel porque tinham de ir fazer outra
visita.
A outra visita era uma novidade para Azevedo que sahira de casa
com o unico destino de ver o tio; mas não querendo contrariar a mulher
e nâo querendo parecer fraco, contentou-se com esta exclamação :
Ah! éverdade!
Exclamação que queria dizer outra cousa e vinha a ser :
JORNAL DAS FAMÍLIAS. 103
O diabo me leve se eu sei que visita é essa !
As moças despedi ram-se do velho tio e de Daniel, e Adelaide offereceu
a casa ao advogado que se inclinou respeitosamente.
Quando chegaram á ponta da escada, Carlota foi a única que se voltou
sob pretexto de despedir-se outra vez do tio; mas, na realidade para
olhar outra vez para Daniel.
Sahiram as sobrinhas do doutor Matheus, e d'ahi a pouco ouvia-se o
carro que a trouxera.
Continuemos o trabalho, disse Daniel.
Sim, respondeu Matheus, mas antes disso tomemos chá. Que lhe
parecem estas raparigas ?
Bonitas moças, disse Daniel.
Sim, bonitas; mas não pescam por sobra de juizo , excepto a Gar-
lota; essa vale pelas outras duas. Luiza é criança é verdade , mas Áde-
laide alem de não ser criança, é já casada.
Com effeito, noto que...
Pois seé visível. Quanto ao Azevedo...
É um bom moço, interrompeu Daniel.
Bom moço é o senhor , disse o velho; aquelle rapaz não passa de
um asfio... Ora veja lá, e queixam-se de as não visitar!
Daniel procurou desviar a conversa do assumpto em que se achava,
por não poder acompanhar o medico nas suas censuras ás sobrinhas. O
chá veio pouco depois ajudal-o na obraP
Acabado o chá, voltaram para o gabinete de trabalho, e lá se demora-
ram até á meia noite. Daniel voltou para casa sem pensar mais nas sobri-
nhas do medico; duas vezes porem reproduzio-se-lhe na imaginação a
figura de Garlota.
É bonita! pensou elle.
Mas o corpo estava cançado , e a impressão não era tão forte que lhe
impedisse o somno; o advogado dormio tranquillamente até ás oito horas
da manhã.

IV.

As leitoras d'este conto, que é todo verídico de principio a fim , talvez


no fim do capitulo quando Daniel tivesse uma noite de
preferissem que
suspiros e visões; quereriam vel-o erguer-se de manhã com os olhos pisa-
dos e cahindo de fraco.
104 JORNAL DAS FAMÍLIAS.

Não sei mesmo se algumas achariam bom vêl-o de febre durante uns
i.
dois dias.
Eu satisfaria estes desejos poéticos de minhas leitoras se estivesse ima-
um simples
ginando uma historia; mas repito, o conto é verídico, eu sou
narrador.
Daniel dormio perfeitamente na noite do encontro com Carlota, tão
tranquillamente como eu espero dormir acabando este capitulo.
Bem sei que o amor ás vezes vem com febre; mas, n'este caso ainda
não havia amor, havia apenas um encontro e uma impressão. Se os dois
se não encontrassem mais esquecer-se-hiam facilmente um do outro.
Mas encontráram-se.
Quando?
Aqui peço licença á curiosidade do leitor para dizer que antes de con-
tar o segundo encontro de Daniel com a sobrinha de Matheus, temos uma
pagina obrigada : é a introducção de um novo personagem.
Uma tarde em que Daniel, saindo de sua casa á da rua do Cano, dava
o seu passeio habitual, até ao Passeio Publico (onde pouca gente passeia,
o que é excellente para quem quizer fugir aos importunos), encontrou-se
á porta d'aquelle estabelecimento com um sujeito alto e magro , que lhe
pedio fogo.
Daniel attendeu ao pedido do desconhecido, o qual depois de accender
o seu charuto, agradeceu-lhe o obséquio , e deixou-se ficar encostado ao
portal em quanto Daniel entrava pelo jardim.
No fim de um quarto de hora, caminhava Daniel por uma alameda intei-
ramente deserta, quando lhe sahio á frente o homem do charuto, cami-
nhando lentamente como Daniel, e parecendo absorvido em gravíssimos *

pensamentos.
O sujeito não vio Daniel, e provavelmente nem lhe ouvio os passos;
ia com os olhos baixos e o espirito alheio ao que o rodeava.
Era ainda moço o desconhecido. Parecia ter trinta e dois «annos; a
physionomia não estava cançada, mas cobria-a um véo de tristeza. 0 ra-
paz era sympathico e extremamente elegante; mas elegância que naquelle
momento só um olhar observador adivinhava atravez do desalinho.
Daniel proseguio no seu passeio, e encontrou-se ainda uma vez com o
. desconhecido, o qual então estava assentado em um banco de pedra e
traçava com a bengala na arêa uns arabescos fantásticos.
Ainda d'esta vez a presença de Daniel não foi notada pelo desconhe-
cido.
Este continuava a fumar; era o segundo charuto depois da entrada
JORNAL DAS FAMÍLIAS. 105
de Daniel, e já estava no fim. Depois de tirar algumas fumaças ultimas, o
desconhecido pegou na pequena ponta que restava do charuto; olhou
para
estaj; sorrio furtivamente, depois atirou-a fora.
O sol tinha completamente desapparecido; a tarde era fresca e bella ;
uma ligeira viração do mar agitava as folhas das arvores; as ondas ba-
tiam de quando em quando na praia próxima, e o som chegava aos ouvi-
dos dos raros passeiantes com a mais agradável monotonia.
Daniel atravessava então um caminho que ficava por traz daquelle
onde se achava sentado o desconhecido. Este estava completamente só;
olhou em roda de si e metteu a mão no bolso. Agitou a cabeça com ar
de desespero...
Daniel tinha parado e olhava para o homem com curiosidade. ,
O desconhecido tirou do bolso uma pistola, engatilhou-a e encostou-a
ao ouvido, e disparou-a...
Mas Daniel desde que o vira tirar a pistola, dera um salto sobre a relva,
e caminhara para o homem , segurando-lhe no braço, exactamente
quanto a pistola disparara ; a bala foi cravar-se no tronco de uma ar-
vore.
O desconhecido olhou espantado para Daniel; este por simples explica-
ção, disse-lhe :
Que ia fazer o senhor?
O rapaz deixou-se cahir sobre o banco de pedra, e baixou os olhos;
estava dominado por um duplo sentimento de enfado e de vergonha.
Daniel sentou-se ao lado d'elle.
Depois de algum silencio, o rapaz levantou a cabeça, olhou para Daniel,
e perguntou-lhe com voz débil.
Porque me interrompeu?
Se o não fizesse, seria cúmplice no seu crime.
O rapaz sorrio tristemente :
Crime! disse elle.
Pois então! respondeu Daniel, Que é isso senão um crime? Atten-
tar contra os seus dias! Onde estaria a virtude, a constância , a grandeza
d'alma, a grandeza d'animo, se todos os que são victimas de um desastre
recorressem á aniquilação da vida ?
Uns são fortes, respondeu o moço, mas outros são fracos. É fácil
pregar boa moral quando se tem o animo robusto e não se tem soffrido
como eu.
Soffreu então muito ? perguntou Daniel segurando-lhe a mão.
Muito.
T. xm. 4-
106 JORNAL DAS FAMÍLIAS.

do rapaz foi surda e triste; duas grossas lagrimas lhe corre-


A resposta
ram pelas faces abaixo.
um ho-
Daniel respeitou aquella dôr; achou prudente não discutir com
mem que ainda se achava dominado pela impressão de uma catastrophe.
aquelle
Entretanto, comprehendeu também que era arriscado deixar
occa-
homem entregue a si mesmo. A morte que lhe escapara n'aquella
sião iria elle buscal-a d'ali a pouco por qualquer meio que fosse.
Vinha-se approximando a noite; era necessário sahir d'alli. Daniel
ao moço que sahissem; mas este insistio em ficar. Mas era impôs-
propoz
sivel; alguns passeantes invadiram as alamedas, e em todo o rapaz não
se acharia só. Acceitou P™? fl idéa <¦» sahir, e acompanhou Daniel a quem
deu o brqço.
Foram silenciosamente até o portão, e ahi despedio-se o rapaz do seu
inesperado salvador; este, porem, não consentio que o rapaz se fosse
embora e convidou-o para sua casa.
Não, respondeu o moço, não posso; agradeço-lhe, mas é impôs-
sivel.
Porque quer enganar-me? perguntou Daniel.
Enganal-o ?
Sim, o Sr. vae matar-se.
Não vou.
—-firvjiãr.
E se fosse ?
Commetteria um crime.
Outra vez a palavra crime!
Desculpe-me; crime ou virtude, commetteria um acto inútil, por-
que a sua morte nem lhe poderia aproveitar. Sabe que mais ? Venha para
minha casa; passará a noite comigo e se amanhã persistir na idéa...
. — Deixa-me ir?
Não; se persistir na idéa, discutil-a-hemos. Em todo o caso venha.
. 0 rapaz ainda insistio ; mas Daniel offerecia de tão boa vontade que o
moço não pôde deixar de acceitar; alem de que, o seu espirito estava
visivelmente perturbado; queria tudo quanto uma vontade enérgica
quizesse.
Foram a pé.
Ha de perdoar-me, disse o desconhecido depois de algum silencio;
ainda lhe não agradeci a sua intervenção no acto que eu ia praticar. Não
contava com elle, nem o desejava, nem o estimei; mas a sua intenção
era boa, e eu agradeço-lh'ai
JORNAL DAS FAMÍLIAS. 107
— Não tem que me agradecer, respondeu Daniel;
era um seme-
lhante que seria matar; eu acudi á voz da natureza.
Estas, e mais duas ou tres palavras indifferentes, foram as únicas
que os dois trocaram no trajecto para casa de Daniel.
Quando alli chegaram era noite fechada.
O moleque de Daniel apresentou-lhe uma carta que dizia assim :

(( Meu caro senhor doutor,


« Tendo o doutor Matheus, meu tio de vir jantar cá em casa no do-
mingo, lembrei-me de convidar ao Sr. tambem, e minha mulher
concordou com esta idéa [Link].n qnn mn faça ™.p favor.
« Leo Azevedo. »

As leitores que já conhecem o marido de Adelaide facilmente imagi-


nem quem teve a idéa do convite, se elle, se ella. Azevedo, porem, con-
tentava-se com estas pequenas demonstrações exteriores de que a casa
cheirava-se o homem, quando a casa cheirava simplesmente a Adelaide.
A carta de Azevedo apenas lida foi posta de lado. 0 objecto principal
da noite era o desconhecido, cujas feições sympathicas tinham impres-
sionado a Daniel não menos que a catastrophe que dera origem ao pro-
jecto de suicídio.

V.

Antes de tudo o mais, disse o desconhecido assentado diante de


Daniel na sala d'este, tenha a bondade de dizer-me qual é o seu nome?
Por mais livres que sejam os meus dias, tenho razão e dever de re-
cordal-o.
Daniel satisfez a curiosidade do rapaz.
Quanto a mim, disse este, chamo-me Julio Tavares, e nâo sou
advogado, como o senhor, nem medico, nem qualquer outra cousa n'esse
sentido. Antes fosse, teria tido em que oecupar o meu pensamento.
Isso não é razão, respondeu Daniel; pois os doutores tambem não
podem tentar contra os seus dias?
Podem; mas eu estou certo que se tivesse em que oecupar melhor
o meu pensamento, nao me exporia aos desastres...
.¦;'. — Já sei, disse Daniel jovialmente, fez alguma operação financeira,
eo... -
*— Se losse assim I
408 JORNAL DAS FAMÍLIAS.
Se fosse assim seria menos desculpavel ainda, no acto que ia prati-
car. Por Deus 1 eu comprehendo até certo pontoque uma grande paixão,
mão de uma
uma grande catastrophe moral leve um homem a lançar
arma contra a sua existência... Mas o dinheiro!
Tranquillise-se, respondeu Julio, não é esta a causa da minha
acredite se fosse eu a acharia igualmente legitima.
morte; mas que
Graças a Deus, tenho ainda um pecúlio; não fujo ás necessidades prati-
cas da vida.
Como o moleque apparecesse na sala para trazer água pouco antes
-pedida-por-Jdh), Daniel deu ordem para que se preparasse uma cama e
chá para duas pessoas,
Gama para quem ?
Para o senhor.
Para mim?
Sim.
Ah! senhor I disse Julio, isto é levar a caridade muito longe.
Eu chamo a isto dever natural...
Acceitarei a sua offerta; não quero offendel-o, e creia que ella
influe poderosamente nas minhas resoluções.
Esqueçamos-nos d'isto.
* Julio tirou do bolso a pistola descarregada, o que fez com que Daniel
lhe segurasse na mão, suppondo que era outra e que elle fosse consu-
mar alli mesmo o acto interrompido no Passeio. O rapaz sorrio-se e
disse-lhe.
^^Lrn*-^
Descance, esta pistola já foi descarregada; quero entregar-lh'a afim
de que lhe sirva de lembrança ao acto que praticou hoje comigo.
Daniel recebeu a pistola e pol-a sobre uma mesa.
Agora, disse Julio, deixe-me dizer-lhe em duas palavras o motivo
do meu desespero. Não foi questão de dinheiro, foi questão de amor.
Não se ri ?
Eu? Não!
Acredita então que o amor...
Acredito que o amoré uma grande e bella paixão.
Nem sempre, respondeu Julio; ás vezes é uma grande e hedionda
tortura d'alma. Amei com todas as minhas forças, e não fui pago do
amor .que tinha, fui vilmente enganado !
Julio proferi o estas palavras em voz bastante alta; Daniel recommen-
dou-lhe que fallasse mais baixo para que os criados não podessem ou-
vil-o, se acaso estivessem perto da sala.
. 1

JORNAL DAS FAMÍLIAS. m


Amei uma menina apaixonadamente e fui do mesmo
modo amado
por ella. Ella tinha um grande dote; eu apenas contava um pequeno pe-
culio; mas ainda assim tinha eu a esperança de vir a casar com ella.
Não o quiz o pae , que me repellio quando lhe fa o meu
pedido , decla-
rando-me que Gecilia já tinha noivo. Foi noticia para mim e
para ella.
Quem era o noivo de Cecília? Era um homem da provincia, riquíssimo
fazendeiro, que chegou poucos dias depois á corte , e com quem ella se
casou d'ahi a um mez.
Tão depressa 1
É verdade! Ah! Doutor se visse as lagrimas
que Cecilia derramou
na véspera d'esse casamento. Encontravamo-nos em casa de uma prima
d'ella, que protegia os nossos amores. Cecilia protestou amar-me sem-
pre, e eu fiz-lhe igual jura. No dia seguinte casáram-se e foram para
Petropolis. _
Quiz então matar-se? .
Não. Fiquei desesperado, soffri infinitamente, mas consolava-me
a idéa de que era amado por ella. Tinha n'isto me esquecido da compen^-
sação. Dizia eu comigo que, ainda que o pae, a houvesse casado a outro,
não podia impedir que fossemos esposos perante Deus. Tres'mezes depois
voltaram os noivos e vieram morar na Qidade. Não quiz vel-a; tive medo
de fazer alguma loucura; mas no fim de um mez, não pude resistir e pas-
sei pela casa d'[Link] muitas vezes, sem ter a felicidade de vêl-a. Assim cor-
riam os dias. Um dia vi-a na rua do Ouvidor de braço com o marido.
Tive uma vertigem. Quando dei accordo de mim, já ella haviadesappare-
eido. Porque narrar-lhe episódios? No fim de seis mezes, consegui vel-a
e fallar-lhe; mas vi-a e fallei-lhe por um meio desesperado; penetrei em
casa d'ella uma noite tendo peitado um criado. Gecilia respondeu-me
rispidamente ás minhas supplicas de amor; insisti, respondeu-me mais
acerbamente; declarou-me que me não amara, que eu era um louco, e
como eu lhe lançasse em rosto o seu procedimento, ella chamou um
escravo e mandou-me sahir. Aconteceu isto hontem; desesperado lancei
mão da morte como verdadeiro remédio ao meu mal,
Daniel ouvio esta historia com toda a attençao, mas a impressão rece-
bida ao principio não foi a mesma recebida no fim. Apressou-se a dizel-o.
-— Concordo que o seu desespero devia ser grande e a prova está na
temeridade do seu acto penetrando em casa de uma senhora casada. Mas
isto mesmo explica o procedimento d'essa moça. Que queria o senhor
que ella fizesse vendo-se desrespeitada pelo homem a quem tinha amado
outr'ora ?
110 JORNAL DAS FAMÍLIAS,
Desrespeitada?
se
Sim, meu amigo (dèixe-me dar-lhe este nome); desde que ella
o Senhor como se não existisse; tinha-se fechado a porta
casou era para
secretamente;
da casa; nem o decoro permittia que o senhor lá entrasse
de qualquer
nem a sua dignidade admittia que lá fosse atrevidamente;
modo era üma casa fechada para o senhor.
"¦—
Raciocina, não sente. "
É possivel que eu enlouqueça tambem quando amar, mas duvido.
Não duvide, pode ser*castigado.
Em qualquer caso , meu amigo, não vejo motivo para insistir nos
e amanhã con*
géus [Link] prrvjerlos, descance, durma socegadamente,
não
versaremos. Seja homem. De duas uma : ou ella ainda o ama, e então
ama, e
ha motivo para se matar pois resta essa consolação; ou já o não
causa
n'esse caso está, está certo de que vale a pena deitar ávida fora por
de uma ingrata?
Calou este argumento no espirito de Júlio. Calou-lhe, porque , em re-
Sumo, o rapaz estava mais ferido no seu amor próprio do que no amor
Cecilia; e o ultimo argumento de Daniel tinha precisamente a vanta-
por
gem de se dirigir ao amor d'elle.
Veioahoíado chá; os dois novos amigos ainda conversaram mais
algum tempo até que cada um1 se retirou para o seu quarto. 4
'*¦ " ¦ '
y x, ' f '
'¦','¦.' :,':'.:':'¦

(Continuar-se-ha.) cristal,

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3 1
V.<*

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QUEM BOA CAMA FAZ...

I.

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-^^ o sahir do gabinete do pae , o bacharel Luiz Fonseca


trazia o rosto fechado, rangia os dentes e dava-se inte-
dormente a todos os diabos de ambos o mundos, este e
o outro. Entrou na alcova e fechou-se por dentro. Al-
guns minutos passeou de um lado para outro, gesticu-
lando e murmurando palavras soltas, até que se sentou
n'uma cadeira de balanço e fumou seguidamente dois
charutos. Vieram chamal-o para jantar e não quiz; mas
c recebendo um recado intimativo do desembargador, seu
lá se foi arrastando até á mesa, onde pouco mais de nada comeu.
pae,
A causa de todo este mysterio era nem mais nem menos um casa-
de-
mento. Logo depois do almoço d'esse dia, que era um domingo, o
e mal o
sembargador Fonseca mandou chamar o filho ao seu gabinete,
vira entrar fechou a porta. Luiz franzio a testa, mas esperou.
— Luiz, disse o pae depois de alguns instantes; eu e tua mãe assen-
arranjado
támos em fazer-te feliz. Estamos velhos e queremos deixar-te i

e tranquillo. Resolvemos casar-te.


Luiz estremeceu.
112 JORNAL DAS FAMÍLIAS.

N'aquella oceasião a idéa de casar valia o mesmo para o bacharel que


a idéa de se atirar de um terceiro andar á rua. Sua vida era a cousa
mais simples d'este. mundo e ao mesmo tempo a menos matrimonial:
vadiava e divertia-se. Estava então na aurora o Alcazar Lyrico da rua da
Valia, onde o bacharel passava as noites, digo mal, uma parte das noi-
tes, que o resto ia elle passal-as nos hotéis e outros sitios. Um casamento
n'estas alturas eqüivalia a um assassinato. 0 instineto de conservação
1 chegou a abrir os lábios do moço , mas o pae, que adivinhou a objecção,
continuou :
A vida que levas é própria da tua edade, mas é já tempo de lhe
pôr cobro; o casamento que te offereço, poupa-me a oceasião de dizer
que te imponho,—é.o meio mais efflcaz de- dar nova direcçao á tua
vida. Tens uma carta de bacharel e um escriptorio de advocacia, mas
nem o escriptorio, nem a carta te servem de cousa nenhuma. Isto não é
vida, ou pelo menos nao é vida seria. Com vinte e oito annos, creio
que é tempo de te emendares.
O desembargador, que desde o adjectivo efflcaz já tinha tirado a bo-
ceta do bolso, abrio-a tranquillamente, tomou uma pitada, sem olhar para
o filho, cujo rosto se fazia de mil cores, e que procurava alguma cousa
que oppôr ao libello do pae.
O pae continuou :
Estou certo de que ficarás muito contente
quando souberes a pes-
soa que te destino : é uma moça altamente prendada e digna de honrar
o seu e o teu nome. Sei que ella gosta de ti, nem de outro modo
poderia
fazer-se o casamento.
Luiz ouvio com indifferença este panegyrico da sua noiva; fosse ella a
formosa Helena ou a virtuosa Lucrecia, era para elle a mesma cousa, isto
é um fardo muito pesado, que elle desde já repellia do seu coração.
Casas com tua
prima Fernanda, concluio o desembargador.
Um sorriso de lastima entreabrio os lábios de Luiz ao ouvir o nome
da noiva. A razão era que de todas as mulheres então existentes debaixo
do sol, Fernanda lhe parecia a mais aborrecivel de todas. Não lhe
negava
algumas graças naturaes; mas achava-lhe um ar de mortal insipidez.
Nada que ella vestisse lhe parecia bem; e tudo o
que ella dissesse lhe
parecia mal. Mosca morta foi o nome com que elle a brindou um dia de
annos, ao ver a differença que havia entre ella e as outras moças
alegres
e vivazes. Queria a sua desgraça que ao infortúnio do casamento
se se-
guisse o de casamento com Fernanda.
Se ao menos, dizia elle comsigo depois
r

na alcova, se ao menos me

-
JORNAL DAS FAMÍLIAS. 113

enforcasse com uma corda de seda, vá. Mas, não, senhor; enforcam-me
com uma corda de estopa. Em cima de queda, couce. Matam-me e esfo-
lam-me ao mesme tempo.
0 pae do bacharel ficou assaz admirado com a impressão que vio causar
nó filho o nome da noiva. Imaginava elle, pelo contrario, que Fernanda
seria o mel de que falia o poeta, com que se adoça a beira da chicara do
remédio para fazel-o beber á creança. Nem por isso recuou; era dispo-
sição sua que o filho casasse, e por mais amarga que lhe parecesse o
trance, o filho havia de obedecer.
Estamos em dezembro, disse elle levantando-se, casas-te em março.
Estou certo de que em abril me virás agradecer esta resolução. ~
O desembargador despedio o filho com um gesto. Luiz apressou-se a
sahir, não tendo articulado uma só palavra, mas firmemente resolvido a
affrontar tudo, antes de que entregar o collo ao cutello.
Não! exclamava elle na alcova logo depois da entrevista que acabo
de resumir, não! Vae longe o tempo em que os pães preparavam os ca-
samentos ainda contra a vontade dos filhos. Não sou creança nem menina
inexperiente; seria até ridiculo que eu me prestasse a semelhante co-
media. *
Gom estas e semelhantes reflexões, encheu Luiz Fonseca o tempo até a
hora de jantar, a que, como vimos, não pôde deixar de ir. Ás ave-marias
sahio de casa para ir narrar as suas desgraças a seus amigos Íntimos.

II.

Um dos amigos morava na rua dos Ciganos, que era, como sabem, o
nome antigo da actual rua da Constituição. Quiz a sua fortuna, que em
casa d'esse encontrasse o outro amigo, e que uma só narração bastasse
unir as lagrimas d'elles ás suas. Lagrimas é figura.
para
Ernesto Guimarães chamava-se o dono da casa; o segundo acudia ao
nome de Martins. Tinham ambos pouco mais ou menos a mesma edade,
trinta annos. Martins era baixinho, cheio de corpo, boliçoso e alegre.
Era menos alegre e menos boliçoso Ernesto Guimarães ^ media um
mais o outro, e era alem d'isso um bonito rapaz, cousa que se
palmo que
não podia dizer do Martins e muito mais naturalmente elegante do que
¦

este.
Luiz Fonseca achou-os a folhear um álbum de dansarinas de Pariz,
mezes
lembrança que o Martins, trouxera da sua viagem á Europa alguns
114 JORNAL DAS FAMÍLIAS.

antes. Com o louvável desejo de que Ernesto Guimarães admirasse os


coreographicos da grande cidade, o alegro viajante sahíra de
portentos
de Luiz
casa com o álbum e foi dal-o de presente ao amigo. A chegada
meio,
Fonseca foi saudada com estrepitosas manifestações, que ficaram no
ao verem os dois a cara transtornada do filho do desembargador.
Que temos de novo? perguntou Ernesto.
Ha arenga no beco? inquirio Martins.
Estás arrufado com a Lúcia aposto. •
Ou perdeste a carteira.
Luiz Fonsft^a den um grande golpe com o punho cerrado em cima da
mesa, e esta resposta explicou aos dois amigos que o assurnpto era mais
serio do que nenhum dos que elles suppunham, motivo pelo qual Ernesto
Guimarães fechou o álbum, Martins tirou o charuto da boca, e ambos
assumiram o ar interrogativo que o caso pedia e a sua curiosidade lhes
indicava.
Luiz explicou em poucas palavras a situação. A impressão dos dois
amigos foi differente; Martins achou que o caso era para rir e que o de-
sembargador apenas merecia compaixão.
Teu pae, disse elle, está caduco... ou doudo,
Ernesto Guimarães estava de accordo em que a exigência do desem-
bargador era pelo menos um despropósito, mas nem o achava doudo ou
caduco, nem via que Luiz pudesse facilmente esquivar-se ao casamento.
O bacharel teve Ímpetos de pegar no chapéo ao ouvir semelhante opinião.
Ernesto insistio : ,
Não vejo que possas fugir ao casamento, se elle insistir, salvo se
rasgadamente lhe desobedecer, o que me hão parece bom.
Parece-te bom que me case contra a vontade, só para obedecer a
um capricho ?
É um sacrifício, convenho.
Uma impossibilidade.
Eu assim penso, confirmou Martins.
Tu estás ainda debaixo da impressão da conversa com teu pae.
Achas que o casamento é detestável, e eu penso do mesmo modo, mas
não vejo praticamente um meio de lhe fugir. Ha certamente um; é reeu-
sares; mas teu pae com certeza põe-te na rua, e eu não vejo que haja
h muita gente disposta a perder as suas cousas, só com o fim de te encher
as algibeiras. É sacrifício de que não ha exemplo. Alem de que, seria
uma cousa muito feia e que te faria mal, o saber-se que teu pae te ex-
pulsara de casa, ainda mesmo não tendo razão.
JORNAL DAS FAMÍLIAS. 115

Estas palavras deixaram de boca aberta os dois ouvintes; a substancia


d'ellas e o modo com que foram ditas, tudo era novo para elles, que até
então conheciam em Ernesto Guimarães um rapaz como elles, e nunca
esperavam ouvir um tal sermão de lagrimas. Martins aventurou a idéa
de que Ernesto estava peitado pelo desembargador, e Luiz achou a idéa
tão alegre que não pôde deixar de rir.
Ate ás nove horas da noite foi o casamento de Luiz assumpto da con-
versa entre os tres amigos, que aquella hora foram dar uma vista d'olhos
ao Alcazar. Uma pessoa, de quem já se fallou n'este capitulo, deu-lhes a
honrade ceiar com elles, e affirma um entregador do Jornal do Com-
mefezo^ue-os^io^^ahnuk hnt.p.l âs tres horas ejneia da noite. Valha a
verdade. Ernesto entrou em casa ás quatro horas.
— Vamos lá, dizia elle comsigo na oceasião em que abria a porta, ó
tudo, pensarei
preciso salvar o Luiz. Hei de achar algum meio que salve
n'isto amanhã.

ni.
*

No dia seguinte estava achado o meio. Luiz recebeu um bilhetinhodo


amigo concebido n'estes termos:
« Vem hoje á rua dos Ciganos, ás tres horas da tarde, ou ás sete, se
quizeres ir jantar a casa. Tenho uma idéa boa que te pode salvar.»
Luiz Fonseca não esperou as sete horas; foi a casa dizer que jantava
fora, e ás tres horas estava na rua dos Ciganos.
Então que achaste ? perguntou elle apenas entrou.
Um meio que me não parece máo.
Vejamos.
Espera. Disseste-me que tua prima Fernanda gosta de ti?
Assim o diz meu pae.
¦- E elle acerescenta que se ella não gostasse de ti, não se faria o ca-
samento?
Justo.
Pois bem; talvez se arranje tudo.
- — Como?
Fazendo com que ella goste de outro. ,.
Luiz deixou cahir os braços.
Entrara com a esperança de que a difficuldade ia ser vencida, e para
idéa
isso contava com um meio realmente decisivo e immediato. A
U6 JORNAL DAS FAMÍLIAS.
ridícula. Ia dizer lh'o com todas as lettras, quando
de Ernesto pareceu-lhe
o amigo continuou :
_ Achas isto naturalmente muito vago; também a mim me parece;
execução.
mas pensando bem, não vejo que seja de impossível
Sim ? disse Luiz com ironia.
—- Sim.
a di-
Diremos então ao coração de Fernanda : não te voltes para
reita, que ha um precipicio, volta-te...
é a única cousa que se lhe dirá. Não se
Volta-te para a esquerda,
isso é aggravar o mal e enraizar o amor. O
deve Mar mal de ti; que
"
que cumpre-fazeré ehamal-a para-outrojpqntq. cha-
_ Tu estas doudo! Não me dirás de que maneira se fará esse
mado? .
Simplesmente, respondeu com tranquillidade Ernesto Guimarães;
alguém de lhe captar a attenção, de se lhe insinuar primeiro
incumba-se
no coração. Entre um adora e outro que a trata
no espirito, e depois que
é a escolha não se demora, e tudo esta salvo.
com indifferença, possível que
Que te parece?
Sim, o meio não seria máo, respondeu Luiz; mas não é decisivo
nem prompto. .
-Decisivo não é, mas é um meio e pode ser tentado; pelo que res-
o casamento não é já e ha tempo para mudar muita
peita á promptidão,
cousa.
Luiz reflectio alguns instantes.
Que te parece ? perguntou outra vez Ernesto Guimarães.
Uma tolice. Duas objeccões opponho que deitam por terra o teu
projecto.
Vejamos a primeira.
A primeira é que eu não vejo quem se encarregará de attrahir a
Fernanda.
' —
Eu.
Tu?
Que tem?
Luiz não pôde deixar de rir-se a bandeiras despregadas. O amigo rio-
se também, mas a final foi obrigado a interromper a hilaridade do amigo
que dissesse em que peccava a sua pessoa para o papel a que
pedindo-lhe
se propunha.
Em cousa nenhuma, respondeu o bacharel; acho-te excellente.
JORNAL DAS FAMÍLIAS. m
Rio-me de ver que te queres prestar a este capitulo de romance, verda-
deiro capitulo de massada.
*— Vejamos a segunda objecção, disse Ernesto.
À segunda objecção é clara e não tem fácil resposta. Vemos que ai-
cancemos tudo. Que adiantamos nós? A Fernanda não é um fim, é um
meio; meu pae quer casar me, é o seu fim. Escolhe minha prima por
que elle me tem alguma afeição ; no caso em que ella goste de outro,
nem por isso meu pae desiste do primeiro intento.
Ernesto abanou a cabeça.
És um pateta, Luiz. Não nasceste para as grandes dilficuldades.
Que importa que teu pae não desista do intento? D'aqui até Março tens
tempo bastante para iniciar certa reforma
Reforma?
Apparente.
Ah!J
Dissipada a paixão de tua prima, não é crivei que teu
pae ache
logo á mão outra noiva. Tu continuas, entretanto, a tua reforma; vás ao
jury; encommendas algumas causas; eu posso até mandar citar o Mar-
tins por uns cem mil reis que me deve ha quinze dias. Teu pae vae per-
dendo a idéa do casamento á medida que te fôr vendo moderado... e o
resto á sorte.
Não ha que dizer, observou Luiz quando o amigo acabou de expor-
lhe assim a traços largos o seu systema; a idéa não é má e visto que
não ha outra, é certamente a melhor. Está dito; vás salvar-me.
Às tuas ordens.
Pobre amigo ! é um verdadeiro sacrifício o que vás fazer.
Naa é, replicou Ernesto Guimarães, édistracção. Eu ando enjoado,
Luiz; é~me necessário torcer por algum tempo o rumo á vida para lhe
achar depois melhor sabor. A monotonia é o veneno do espirito. Um
anno mais da vida que levo mata-me de aborrecimento; mas se me
afastar d'ella alguns mezes; com que alegria não voltarei depois! com
que novas forças me atirarei a este mundo, que é o meul Não é um favor
que te faço; é um remédio que tomo e me ha de curar. Incapaz de narno-
rar uma moça por mim mesmo, acho certo prazer para servir a um
amigo. Eis tudo.
Sabes a minha opinião a meu respeito ?
Dize. . * . .
.— Acho-te feroz.\ $
Eu acho-me angélico,
*
118 JORNAL DAS FAMÍLIAS.
Tenho medo de vir a ser como tu. *
Então casa-te.
Antes a morte.
Ou esta vida.
Apoiado!
Fica pois assentado que eu vou sitiar o coração de tua prima. É
bonita?
Não é feia.
Espirituosa?
Como um cepo.
Paciência !jí uma paixão interina. Vam
— Vamos.
o. o.
(Continuar-se-ha.)

¦¦¦<¦]
__
ECONOMIA DOMESTICA.

RECEITAS DAS POMADAS PARA O CABELLO.

(Extrahidas do Formulário do D* Chernoviz, 9a edição, 1874.)

Pomada simples para o cabelloa


Banha . . . 60 gr. | Sebo de carneiro . 30 gr.

Deite tudo em agua fervendo, derreta, deixe precipitar as impurezas,


e faça escorrer a agua.
Pôde-se aromatizar esta pomada com essência de rosa, limão, berga*
mota, canella, etc*, ou com um dos cheiros seguintes; para 500 gram-
mas de pomada, 15 gramrnas de um d'estes cheiros t

Cheiros pára aspomadas de cabello. Io. Óleo essencial de bergamota


4 partes, óleo essencial de limão 2, óleo essencial de cravo 1.
2° Oleo essencial de bergamota 8 partes, óleo essencial de limão 8,
óleo essencial de cravo 2, oleo essencial de sassafraz 1, oleo essencial de
laranja 1.
3° Chamado Cheiro de mil flores. Tintura de âmbar cinzento 16 partes,
oleo essencial de limão 12, oleo essencial de cravo 1, oleo essencial de
alfazema 1, oleo essencial de bergamota 4.

Pomada de baunilha para o cabello.


Pomada rosada. . 360 gr. Agua. ... • i 30 gr.
Baunilha em pó . 30 o i..
12o JORNAL DAS FAMÍLIAS.

uma hora, deixe escorrer a agua e ajunte : (deo essencial de


Triture por
limão 24 gottas. ^
-Pomada de canella para o cabello.

. . 500 gr. | Oleo de ricino .... 500 gr.


Pomada simples. .

Faça clarear pela trituração e ajunte :


*

de canella . . 4 gr. Oleo essencial de neroli. 20 gottas


Oleo essencial —
— — de limão. 15
Tintura alcoólica de jas-
I — de rosas. 5 —
mim ^8r#
orcanéta
Póde-se dar a côr vermelha a esta pomada, ajuntando-lhê

Pomada indiana para o cabello,


750 gr. Oleo de ricino 60 gr.
Sebo de carneiro . . .
• • i»000 Benjoim . * 100
Banha •
2S0 Almiscar . . 1
Cera branca

a fogo brando o sebo, a banha e a cera; triture á parte o oleo


Derreta
com o benjoim e o almiscar; ajunte o sebo, a banha e a cera
de ricino
deixe tudo de infusão por duas horas, decante, e ajunte :
liquida,
limão; . 30 Oleo essencial de canella. 4 gr,
Oleo essencial de gr.
_ — 8 — — de verbena 4
de alfazema.
— — de cravo. . 4

de conserval-as
A addição do benjoim ás pomadas tem a propriedade
muito tempo, e impedir que fiquem rancidas.
por
Banha de urso).
Pomada para o cabello (chamada impropriamente
500 gr. Sebo de carneiro. . 750 gr.
Cera .
1,000 Azeite doce. . . 1,000
Banha.

Derreta e ajunte:
Oleo essencial de cravo. 60 gottas Oleo essenc. de bergam. 90 gr.
—. — de neroli. 20 — Tintura de âmbar ein-
— de alfa- zento. . . * > . 50 gottas
zema . 60 Tintura de almiscar. . 50 -

, Pomada para o cabello (chamada Tutano de boi).


1,500 gr. Espermacete 120 gr.
Tutano de boi. .....

Cera. . . ¦ 360
JORNAL DAS FAMÍLIAS.
121
Derreta a fogo brando e a junte :
Bemjoim em pó . . . v . , 30 RP,
Deixe de infusão por algumas horas, côe, e ajunte
qualquer oleo essen-
ciai, ou um dos cheiros indicados acima.
**

Pomada ingleza para o cabello,


Esta pomada é feita com oleo de ricino, cera branca e espermacete : é
muito usada na Inglaterra; ajunta-se-lhe ás vezes tintura de cantha-
ridas.
~ Pomada
pararfazer crescer-crcabello (GriffiUi)^
Manteiga de cacáo ... 30 gr. Essência de alfazema. . . 30 gr.
Manteiga de moscada . . 30
Derreta a b. m., e misture.

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HHBhBF I! IHkJIBMBB^MM
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POESIA.

O QUE EU AMO...

Eu amo a nuvem formosa


Que no horizonte diviso
Correndo serenamente
Pelo céo ameno e liso;
Eu amo-a, que n'ella vejo
Um sorrir do paraíso.

Eu amo da noite bella


Formosa lua de prata
Que nas águas d'0ceano
A nivea face retrata,
E um céo bordado de estrellas
Que de encantos me arrebata!

Eu amo das avezinhas


0 canto melodioso,
Quando ao bafejo das brisas
Se embalam no galho annoso,
E o sol para o occaso
Descamba triste e saudoso.
JORNAL DAS FAMÍLIAS. 123
Eu amo, como a andorinha,
Os quentes raios do sol,
Como a creança innocente
Amo o formoso arrebol;
Eu amo com mais delicias
A canção do rouxinol.

Eu amo a loura creança


Quando contente a brincar
Vem despertarão saudade
-Gom-seu ingênuo folgar,
Lembrança da minha infância
Que não mais ha de voltar.

Eu amo o doce murmúrio


Da fontinha do deserto,
Porque sei que a sede apaga
Do viajor cançado e incerto ;
Amo também a roseira
Gom seu botão entreaberto,

Amo os campos verdejantes,


Amo o bosque e seus primores;
Amo os dourados insectos,
Amo os prados e amo as flores;
Amo também a poesia,
Chamo a ella — meus amores I
D. MARIA J. MAGNO.
£•-> ..^«SS; _
^^ _-*¦ ""__'

MODAS.

DESCRIPCAO DO FIGURINO DE MODAS.

Primeiro vestuário. — Vestido de dois matizes granate escuro e granate


claro. Corpinho escuro com abas atraz; panno do meio atraz mais comprido e
arregaçado com laços de fita; a frente forma tres folhos chatos; saia guar-
necida com folhos orlados de macheados. Chapéo de veludo e faüle ; uma
grinalda de rosas rodeia a copa; tudo e ornado com plumas claras encres-
padas; c bordados de azeviche. •
Segundo vestuário. — Trajo de veludo e faüle. Corpinho couraça; as man-
gas e a frente de veludo (ver o molde no verso da estampa de bordados).
Tunica-avenlal de veludo, formando pregas na frente , bordada com azevi-
che; saia guarnecida com folhos.

TRABALHOS.

EXPLICAÇÃO DA ESTAMPA DE BORDADOS E TRABALHOS.

N° 1. — Esmoleira. O nosso modelo era de veludo preto bordado com


pérolas pretas; o franjado com pérolas tambem. No caso de querer empre-
gal-a para joven commungante, será preciso fazel-a àefaille ou setim branco,
bordado com pérolas brancas. Do outro lado não ha bordado.
N° 2. — MetaUe d'um collarinho a marujo para menino ou menina. Para
fazer este bonito collarinho é preciso tirar contraprova do desenho sobre
papel transparente que depois se engruda sobre um pedaço de oleado ou
panninho forte e teso. Depois alinhava-se trancelim inglez sobre a dita con-
traprova, faz-se as barrinhas conforme estão indicadas e quando tudo está
acabado, corta-se o alinhavo que segurava a obra sobre o papel.
JORNAL DAS FAMÍLIAS. 125
N° 3. —. Cercadura com pérolas [Link] ou roupa lina Pode
sér
executada seja com cordãozinho preto , branco ou crú. No
unicamente empregar-se-ha pérolas. Este bordado é feito como primeiro caso
mos para o collarinho n° 2. As pérolas se collocam depois : já explica
compridas ou redondas ou alternadas como no desenho. podem ellas ser
N° 4. — Outra cercadura para confection ou roupa fina. Pode ser tambem
preta, branca ou crua com pérolas ou sem ellas. Para executal-a ver a ex-
plicação do collarinho n° 2.
N° 5. — Cercadura; ver a explicação n° 2.
N° 6. — Orla de lenço que poderia tambem servir
para roupa fina. Ilhós
plumetis e rodinhas. \\
N° 7. — Quarta parte d'um lenço. Este bonito desenho serviriam-
bem para fronbas, lençóes, etc. A obra toda t>e faz em poderia
pontõ~dê~festâo • de-
pois de acabada, recorta-se a fazenda sob as barrinhas.
»-v_r.io_rl_r\r./^rkl-v_-._J«..-_ i__ -i ._ *

N° 8. — Desenho para chinella. Este desenho se faz seja de trancelins,


seja em ponto de chainetle ou tambem de cordãozinho napolitano. Na
outra
metade repetir-se-ha o mesmo desenho. O nosso modelo era de
panno azul
escuro, bordado com trancelins de ouro.
N° 9. — Cercadura pequena para roupa fina
para criança. Plumetis, ilhós
e festão.
N° 10. — Outra cercadura pequena mais simples; festão e de armas.
N° 11. — ponto
Trajo para menina, de lã côr cinzenta-pervinca. Saia
cida com um macheado dobrado e guarne-
pregas deitadas. Corpinho com abas
formando túnica na frente; guarnição de
galão e botões mais escuros.
Os galões na frente formam um peitilho e cahem em forma de avental até a
parte inferior da túnica.
N° 12. — Trajo para menina. Vestido de linbs beije. Collarinho, cintura,
algibeira e revezes de faille azul com debruns brancos. Chapéo de feltro;
plumas azueis e brancas.
N° 13. — Outro trajo para menina. Vestido de
foulardAW branco azul;
cinto, revezes e viezes da saia de foulard côr de rosa com brancos.
Botões grandes côr de rosa. grãos
N° 14. ~ Trajo para menina de 10 para 12 annos. Vestido verde dito ma-
rina muito claro; mangas, cinto, viezes
que ornam o avental e o revez de
tafetá com quadradinhos do mesmo matiz
que a saia.
N° 15. — Vestido para baptisado. Este vestido é de nanzouk fino, com tres
preguinhas na parte inferior por cima da bainha. A frente é ornada com um
desenho de preguinhas atravessadas cortadas
por entremeios e encaixilha-
das dentro d'um macheado festoado na orla e deixando ver o dente redondo,
preso em cada canto por um laço de fita côr de rosa ou azul. Um bello entre-
meio cercado com uma tira bordada em cada extremidade , forma a fecha-
dura. Collarinho abaixado; tira bordada na orla. Mangas compridas com
cotovello e punhos de preguinhas e tira festoada ao redor.
N° 16. — Cercadura paralençóes, fronhas, etc. Ilhós, cordãozinho efes-
tão; depois de acabado, recorta-se a fazenda sob as barrinhas.
N° 17. — Cercadura para lenço ou roupa fina. Plumetis, festão e rodinhas.
N° 18. — Pequeno entremeio. Bordado inglez.
N° 19. — Reverso para collarinho para vestido aberto em forma de cora-
Ção. Plumetis, cordãozinho e festão.
N° 20. — Entremeio para saia ou vestido para criança. A obra toda é feita
126 JORNAL DAS FAMÍLIAS.
em ponto de festão. Depois de acabada, recorta-se a fazenda sob as barri-
nhas.
N° 21. — Metade d3 um tapete de candieiro. Ilhós e ponto de festão. Pode
elle ser egualmente de cassa, linho ou tafetá cie côr. N'este caso borda-se
com cordãozinho de retroz d'uma côr que sobresaia sobre a fazenda; põe-se
um transparente de fazenda de ouro ou prata; Quando o tapete fôr branco,
o transparente será de fazenda de seda de côr viva. Estende-se a obra so-
bre um papelão da mesma dimensão e forra-se com panninho.
N° 22. — Cercadura para roupa fina e vestido para criança. Plumetis e
festão.
N° 23. — Desenho para chinella. O nosso modelo era em ponto de chainette
de cordãozinho de retroz havane claro sobre panno da mesma côr, porem
mais escura. Escolher-se-ha a côr preferida.
N~°~24. — Cõtiãrinho nova forma. A orla é de trancelitn-4ngtez-e-M^fmf-
dise; o fundo de cassa bordada com plumetis. Para tel-o mais pequeno, basta
supprimir a- orla. O collarinho ficaria acabado por dentes pequenos.
N° 25. — Quadradinho de filet-guipure para. véo de poltrona, colcha, etc.
Pontos de serzido e de relevo. A orla ern ponto de espirito.
N° 26. — Outro quadradinho de füet guipure para alternar com o n° 25.
Ponto de espirito, ponto de relevo e serzido.
N° 27. — Debuxo para canto de lenço. Plumetis e cordãozinho.

EXPLICAÇÃO DA ESTAMPA DE MOLDES.


'
VERSO DA PRECEDENTE ESTAMPA DE BORDADOS.

Molde do corpinho bordado do 2o figurino da gravura de modas*


N° 1. — Frente.
N° 2. — Costas.
N° 3. — Pequeno lado.
N° 4. — Manga que se corta em dois pedaços. A parte inferior está indi-
cada pela linha em pontos. Borda-se só a parte superior.
Ntí 5. — Peitilho da frente, que se corta d'um pedaço só ou de dois, que-
rendo* Nosso modelo era d'um pedaço só abotoado de lado. Pode-se também
abotoar no meio e pôr egualmente botões nos dentes. No nosso modelo as
mangas, o peitilho e a tunica-avental eram de veludo bordado com azeviche.
Pode-se empregar tafetá ou faille para substituir o veludo^ e o vestido pode
ser de lã fantasia e as partes bordadas de seda. As costas podem ser de
veludo ou tafetá como o mais. N'este caso borda-se n'ellas a grinalda do
peitilho ; é muilo bonito assim, porem um pouco exquisito. Nosso modelo
tinha as costas como a saia. Na tunica-avental pode-se bordar tres fileiras da
grinalda que orna as mangas, grinalda indicada entre as duas lettras P.
N° 6. — Collarinho. As lettras indicam como elle deve ser collocado.
N° 7. — Alphabeto para fronhas, guardanapos, toalhas, etc. Plumetis e
cordãozinho.
N° 8. — Esdudo para o dito alphabeto^
JORNAL DAS FAMÍLIAS.
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EXPLICAÇÃO DA SEGUNDA ESTAMPA DE MOLDES.

Un. — Touca para criancinha. Compõe-se de duas


fi* 1 e 2
Fig. 1.- Frente. Corta-se deTio direito na frente e peças se franze para armal-o
sobre o fundo (fig. 2) reunindo os A um sobre o outro por uma pequena
costura. u*Hmw
Fig. 2. - Fundo. Corta-se de fio direito e ajunta-se com
— a fis )
N° 2, Calças com punho. Uma peça fig. 3.
Fig. 3. - Corta-se de fio direito sem costura sobre o lado.
e se arma sobre
um cinto com corrediça. 0 baixo da
perna é levemente franzido para [pôr
um punho. l
N° 3. — Blouse. Tres peças, fig. 4, 5 e 6.
h8- *' - trmte- ^orta-se dobradode lio direito sem
co"^IUi^iYSdYY
reune-secom as costas (fig.5). Formar depois na frente e
e ocas por traz tres pregas
grandes que ficarão presas na parte superior debaixo d'uma tira pequena
bordada e na cintura por um cinto movei
- que se collocará conforme o gosto
lig. o. Parte trazeira. Mesma explicação
que na fig. precedente
Fig. 6.- Manga. Corta-se de fio direito e colloca-se sobre
a blouse quando
esta ajuntada nos lugares marcados
pelas*lettras.
N° 4. — Calças. Duas peças, fig. 7 e 8.
F,Íg' 7. ~".Corta-se de fio direito sem costura sobre o lado,
• arma-se sobre
cmlo redondo na frente e de corrediça atraz.
Fig. 8. — Cintura. Corta-se
quatro vezes e colioca-se sobre a calca nos
lugares marcados com lettras.
N° 5. — Camisa de dormir. Tres
- peças fig. 9, 10 e 11*
Fig. 9. Camisa Corta-se de fio direito; chanfrar a frente
figura com o collarinho. e ajuntar esta
Fig. 10. - Collarinho. Corta-se de fio direito no meio
e colloca-se sobre a
camisa depois de acabada.
~ Pmh°' PÔe"Se S°bre a manga COm° "m
hv»Héái canhão- A man8a é
N^ 6. — Chinella de fianella. Duas
peças, fig. Í2 c 13.
FlS-J2-— Gorta se dobrado, ajunta-se no meio e arma-se
sobre a sola
(ng. 13), ajuntando as lettras irmãs.
hg. 13. — Sola. Corta-se de fio direito.e arma-se sobre a fig.
12.
N° 7. — Avental. Tres peças fig. 14, 15 e 16.
Fig. 14. — Corta-se dobrado sem costura na frente e depois
colloca-se
sobre a peça (fig. 15) de maneira a ajuntar as lettras irmãs.
Fig. 15. - Peça, corta-se de fio direito no meio e se
do avental. põe sobre o fundo
Fig. 16. — Manga. Corta-se de viez, e arma-se sobre ò avental
estiver acabado, ajuntando as lettras. quando este
. N" 8. — Chinella alta. Duas peças, fig. 17 e 18. Mesmas explicações que
para o nò 6. 4
N° 9. — Calças cueiras. Uma peça, fig. 19.
Fig. 19. — Corta-se d'um pedaço só, dobra-se na frünte e sobre
os lados
de maneira a ajuntar todos os R; as lettras S formam uma
iormam a outra, perna e os T
128 JORNAL DAS FAMÍLIAS.
N° 10. — Polaina. Uma peça, fig. 20.
Fig. 20. — Corta-se dobrado e ajunta-se;
pôr depois uma tira de couro
presa de cada lado para formar presilha.
N° 11. — Camisinha. Forma quatro
— peças, fig. 21, 22, 23 e 24.
Fig. 21. Frente. Corta-se de fio dobrado sem costura na frente e reúne-
se com a fig. 22, costas.
Fig. 22. — Costas. Corta-se dobrado e se abre meio reunindo-se com
a fig. 21. pelo
Fig. 23. — Collarinho. Corta-se d'uma só de fio direito e põe-se sobre
o corpinho depois de ajuntado. peça
Fig. 24. — Manga. Corta-se de fio direito dobrado sem
costura, franze-
se levemente para armal-o sobre um
— punho tendo 0m12.
N° 12. Babadouro. Tem uma peça só, fig. 25.
Fig. 25. - Corta-se d'um pedaço só e
onaa
guarnece-se com um bordado na
BfaC\°W°x fiStâ° (flgl 26)" Corta-se d'uma »eca *6 e guarnece-
^N..13,~ Í
se com uma ura boraada levemente encanudada
Fig. 27, 28 e 29. As lettras X. Y, Z.
n0SS0S, m0ldrS eStã0 Cortados rentes sol^oS
JZtT contornos aonde
C° ": -G PreC1S° P0ÍS COrtando sobre os moldes. deixar
sobraaa fazenda
sobra Sfí necessária de
para as bainhas e as costuras formando relegos

Paris. - Typographia de G. [Link] dosSantcs-radres,


19.
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