Daniel.: T. Xí-F. - Abril de .1875
Daniel.: T. Xí-F. - Abril de .1875
CONTINUAÇÃO.
II.
TIT
Quem sabe se o tio Matheus não está para casar? disse Azevedo;
nessa idade acho que...
Forte tolice! interrompeu Adelaide.
Casar, tio! exclamava Luiza; ao menos quero ter uma tia bonita?
Será?
Estou que sim, respondeu Matheus.
Entretanto, disse Adelaide, como não é já o casamento, porque
não apparece lá em casa ?
Amanhã, amanhã, com certeza.
Mas ha de jurar, disse Luiza levantando-se e indo ao tio.
Pois sim, juro.
Azevedo tirou o relógio e vio que horas eram.
Está com pressa? perguntou a mulher.
, —Não; foi distracção.
Adelaide inclinou-se-lhe ao ouvido, e soltou-lhe baixinho estas pala-
vras:
É muito bonito estar distraindo. Não tem vergonha de o dizer!
Azevedo ficou como um lacre, e olhou para todos a ver se tinham
a reprimenda; felizmente Matheus conversava com Luiza;
percebido
e Daniel trocara algumas palavras com Carlota.
Das tres irmãs, Carlota parecia ser a mais discreta, e era com certeza
a mais bonita. Era morena e possuía uns magníficas olhos, que ella
movia com graça sem affectação.
Daniel reparou desde principio que era aquella a que fallava menos e
melhor; depois reparou que era bonita, finalmente começou a conversar
com ella e achou uma moça intelligente.
O velho medico propoz que as sobrinhas tomassem chá com elle, e
Azevedo ia distrahidamente aceitando o convite quando Adelaide o ata-
lhou dizendo que não era possivel porque tinham de ir fazer outra
visita.
A outra visita era uma novidade para Azevedo que sahira de casa
com o unico destino de ver o tio; mas não querendo contrariar a mulher
e nâo querendo parecer fraco, contentou-se com esta exclamação :
Ah! éverdade!
Exclamação que queria dizer outra cousa e vinha a ser :
JORNAL DAS FAMÍLIAS. 103
O diabo me leve se eu sei que visita é essa !
As moças despedi ram-se do velho tio e de Daniel, e Adelaide offereceu
a casa ao advogado que se inclinou respeitosamente.
Quando chegaram á ponta da escada, Carlota foi a única que se voltou
sob pretexto de despedir-se outra vez do tio; mas, na realidade para
olhar outra vez para Daniel.
Sahiram as sobrinhas do doutor Matheus, e d'ahi a pouco ouvia-se o
carro que a trouxera.
Continuemos o trabalho, disse Daniel.
Sim, respondeu Matheus, mas antes disso tomemos chá. Que lhe
parecem estas raparigas ?
Bonitas moças, disse Daniel.
Sim, bonitas; mas não pescam por sobra de juizo , excepto a Gar-
lota; essa vale pelas outras duas. Luiza é criança é verdade , mas Áde-
laide alem de não ser criança, é já casada.
Com effeito, noto que...
Pois seé visível. Quanto ao Azevedo...
É um bom moço, interrompeu Daniel.
Bom moço é o senhor , disse o velho; aquelle rapaz não passa de
um asfio... Ora veja lá, e queixam-se de as não visitar!
Daniel procurou desviar a conversa do assumpto em que se achava,
por não poder acompanhar o medico nas suas censuras ás sobrinhas. O
chá veio pouco depois ajudal-o na obraP
Acabado o chá, voltaram para o gabinete de trabalho, e lá se demora-
ram até á meia noite. Daniel voltou para casa sem pensar mais nas sobri-
nhas do medico; duas vezes porem reproduzio-se-lhe na imaginação a
figura de Garlota.
É bonita! pensou elle.
Mas o corpo estava cançado , e a impressão não era tão forte que lhe
impedisse o somno; o advogado dormio tranquillamente até ás oito horas
da manhã.
IV.
Não sei mesmo se algumas achariam bom vêl-o de febre durante uns
i.
dois dias.
Eu satisfaria estes desejos poéticos de minhas leitoras se estivesse ima-
um simples
ginando uma historia; mas repito, o conto é verídico, eu sou
narrador.
Daniel dormio perfeitamente na noite do encontro com Carlota, tão
tranquillamente como eu espero dormir acabando este capitulo.
Bem sei que o amor ás vezes vem com febre; mas, n'este caso ainda
não havia amor, havia apenas um encontro e uma impressão. Se os dois
se não encontrassem mais esquecer-se-hiam facilmente um do outro.
Mas encontráram-se.
Quando?
Aqui peço licença á curiosidade do leitor para dizer que antes de con-
tar o segundo encontro de Daniel com a sobrinha de Matheus, temos uma
pagina obrigada : é a introducção de um novo personagem.
Uma tarde em que Daniel, saindo de sua casa á da rua do Cano, dava
o seu passeio habitual, até ao Passeio Publico (onde pouca gente passeia,
o que é excellente para quem quizer fugir aos importunos), encontrou-se
á porta d'aquelle estabelecimento com um sujeito alto e magro , que lhe
pedio fogo.
Daniel attendeu ao pedido do desconhecido, o qual depois de accender
o seu charuto, agradeceu-lhe o obséquio , e deixou-se ficar encostado ao
portal em quanto Daniel entrava pelo jardim.
No fim de um quarto de hora, caminhava Daniel por uma alameda intei-
ramente deserta, quando lhe sahio á frente o homem do charuto, cami-
nhando lentamente como Daniel, e parecendo absorvido em gravíssimos *
pensamentos.
O sujeito não vio Daniel, e provavelmente nem lhe ouvio os passos;
ia com os olhos baixos e o espirito alheio ao que o rodeava.
Era ainda moço o desconhecido. Parecia ter trinta e dois «annos; a
physionomia não estava cançada, mas cobria-a um véo de tristeza. 0 ra-
paz era sympathico e extremamente elegante; mas elegância que naquelle
momento só um olhar observador adivinhava atravez do desalinho.
Daniel proseguio no seu passeio, e encontrou-se ainda uma vez com o
. desconhecido, o qual então estava assentado em um banco de pedra e
traçava com a bengala na arêa uns arabescos fantásticos.
Ainda d'esta vez a presença de Daniel não foi notada pelo desconhe-
cido.
Este continuava a fumar; era o segundo charuto depois da entrada
JORNAL DAS FAMÍLIAS. 105
de Daniel, e já estava no fim. Depois de tirar algumas fumaças ultimas, o
desconhecido pegou na pequena ponta que restava do charuto; olhou
para
estaj; sorrio furtivamente, depois atirou-a fora.
O sol tinha completamente desapparecido; a tarde era fresca e bella ;
uma ligeira viração do mar agitava as folhas das arvores; as ondas ba-
tiam de quando em quando na praia próxima, e o som chegava aos ouvi-
dos dos raros passeiantes com a mais agradável monotonia.
Daniel atravessava então um caminho que ficava por traz daquelle
onde se achava sentado o desconhecido. Este estava completamente só;
olhou em roda de si e metteu a mão no bolso. Agitou a cabeça com ar
de desespero...
Daniel tinha parado e olhava para o homem com curiosidade. ,
O desconhecido tirou do bolso uma pistola, engatilhou-a e encostou-a
ao ouvido, e disparou-a...
Mas Daniel desde que o vira tirar a pistola, dera um salto sobre a relva,
e caminhara para o homem , segurando-lhe no braço, exactamente
quanto a pistola disparara ; a bala foi cravar-se no tronco de uma ar-
vore.
O desconhecido olhou espantado para Daniel; este por simples explica-
ção, disse-lhe :
Que ia fazer o senhor?
O rapaz deixou-se cahir sobre o banco de pedra, e baixou os olhos;
estava dominado por um duplo sentimento de enfado e de vergonha.
Daniel sentou-se ao lado d'elle.
Depois de algum silencio, o rapaz levantou a cabeça, olhou para Daniel,
e perguntou-lhe com voz débil.
Porque me interrompeu?
Se o não fizesse, seria cúmplice no seu crime.
O rapaz sorrio tristemente :
Crime! disse elle.
Pois então! respondeu Daniel, Que é isso senão um crime? Atten-
tar contra os seus dias! Onde estaria a virtude, a constância , a grandeza
d'alma, a grandeza d'animo, se todos os que são victimas de um desastre
recorressem á aniquilação da vida ?
Uns são fortes, respondeu o moço, mas outros são fracos. É fácil
pregar boa moral quando se tem o animo robusto e não se tem soffrido
como eu.
Soffreu então muito ? perguntou Daniel segurando-lhe a mão.
Muito.
T. xm. 4-
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V.
(Continuar-se-ha.) cristal,
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3 1
V.<*
I.
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na alcova, se ao menos me
-
JORNAL DAS FAMÍLIAS. 113
enforcasse com uma corda de seda, vá. Mas, não, senhor; enforcam-me
com uma corda de estopa. Em cima de queda, couce. Matam-me e esfo-
lam-me ao mesme tempo.
0 pae do bacharel ficou assaz admirado com a impressão que vio causar
nó filho o nome da noiva. Imaginava elle, pelo contrario, que Fernanda
seria o mel de que falia o poeta, com que se adoça a beira da chicara do
remédio para fazel-o beber á creança. Nem por isso recuou; era dispo-
sição sua que o filho casasse, e por mais amarga que lhe parecesse o
trance, o filho havia de obedecer.
Estamos em dezembro, disse elle levantando-se, casas-te em março.
Estou certo de que em abril me virás agradecer esta resolução. ~
O desembargador despedio o filho com um gesto. Luiz apressou-se a
sahir, não tendo articulado uma só palavra, mas firmemente resolvido a
affrontar tudo, antes de que entregar o collo ao cutello.
Não! exclamava elle na alcova logo depois da entrevista que acabo
de resumir, não! Vae longe o tempo em que os pães preparavam os ca-
samentos ainda contra a vontade dos filhos. Não sou creança nem menina
inexperiente; seria até ridiculo que eu me prestasse a semelhante co-
media. *
Gom estas e semelhantes reflexões, encheu Luiz Fonseca o tempo até a
hora de jantar, a que, como vimos, não pôde deixar de ir. Ás ave-marias
sahio de casa para ir narrar as suas desgraças a seus amigos Íntimos.
II.
Um dos amigos morava na rua dos Ciganos, que era, como sabem, o
nome antigo da actual rua da Constituição. Quiz a sua fortuna, que em
casa d'esse encontrasse o outro amigo, e que uma só narração bastasse
unir as lagrimas d'elles ás suas. Lagrimas é figura.
para
Ernesto Guimarães chamava-se o dono da casa; o segundo acudia ao
nome de Martins. Tinham ambos pouco mais ou menos a mesma edade,
trinta annos. Martins era baixinho, cheio de corpo, boliçoso e alegre.
Era menos alegre e menos boliçoso Ernesto Guimarães ^ media um
mais o outro, e era alem d'isso um bonito rapaz, cousa que se
palmo que
não podia dizer do Martins e muito mais naturalmente elegante do que
¦
este.
Luiz Fonseca achou-os a folhear um álbum de dansarinas de Pariz,
mezes
lembrança que o Martins, trouxera da sua viagem á Europa alguns
114 JORNAL DAS FAMÍLIAS.
ni.
*
¦¦¦<¦]
__
ECONOMIA DOMESTICA.
de conserval-as
A addição do benjoim ás pomadas tem a propriedade
muito tempo, e impedir que fiquem rancidas.
por
Banha de urso).
Pomada para o cabello (chamada impropriamente
500 gr. Sebo de carneiro. . 750 gr.
Cera .
1,000 Azeite doce. . . 1,000
Banha.
Derreta e ajunte:
Oleo essencial de cravo. 60 gottas Oleo essenc. de bergam. 90 gr.
—. — de neroli. 20 — Tintura de âmbar ein-
— de alfa- zento. . . * > . 50 gottas
zema . 60 Tintura de almiscar. . 50 -
Cera. . . ¦ 360
JORNAL DAS FAMÍLIAS.
121
Derreta a fogo brando e a junte :
Bemjoim em pó . . . v . , 30 RP,
Deixe de infusão por algumas horas, côe, e ajunte
qualquer oleo essen-
ciai, ou um dos cheiros indicados acima.
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POESIA.
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