TEXTO 5: A RELAÇÃO DA CRIANÇA AUTISTA COM O CAMPO DE EXPERIÊNCIA “ESPAÇOS,
TEMPOS, QUANTIDADES, RELAÇÕES E TRANSFORMAÇÕES” NA EDUCAÇÃO INFANTIL
O campo de experiência “Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações”,
proposto pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), está diretamente relacionado ao
desenvolvimento do pensamento lógico, matemático e científico na Educação Infantil. Ao abordar
noções de organização espacial, temporalidade, classificação, comparação e transformação,
esse campo contribui para que a criança compreenda o mundo que a cerca. Quando analisado
sob a perspectiva da criança com Transtorno do Espectro Autista (TEA), esse campo revela
potencialidades e desafios que exigem práticas pedagógicas inclusivas, intencionais e sensíveis
às singularidades do desenvolvimento.
A criança autista apresenta características específicas que influenciam sua forma de
perceber, interpretar e interagir com o ambiente. Dificuldades na comunicação social, padrões
repetitivos de comportamento e interesses restritos são algumas das características mais
comuns. No entanto, é fundamental destacar que o espectro autista é amplo e heterogêneo, o
que significa que cada criança apresenta necessidades e habilidades distintas. Nesse contexto, o
campo “Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações” pode ser uma importante via
de aprendizagem, desde que mediado de forma adequada.
Um dos aspectos mais relevantes desse campo para a criança autista refere-se à
organização do espaço. Muitas crianças com TEA demonstram necessidade de previsibilidade e
estrutura, o que torna a organização espacial da sala de aula um fator essencial. Ambientes bem
estruturados, com rotinas claras e sinalizações visuais, contribuem para a compreensão do
espaço e para a redução da ansiedade. A utilização de recursos visuais, como pictogramas e
sequências ilustradas, favorece a orientação e a autonomia da criança.
No que diz respeito ao tempo, a compreensão da temporalidade pode representar um
desafio significativo para crianças autistas. A noção de passado, presente e futuro, bem como a
antecipação de atividades, nem sempre ocorre de forma espontânea. Nesse sentido, o uso de
rotinas visuais, calendários e agendas estruturadas torna-se uma estratégia fundamental. Esses
recursos permitem que a criança compreenda a sequência dos acontecimentos, promovendo
maior segurança e participação nas atividades.
As noções de quantidade e relações lógicas também se apresentam de forma
particular no desenvolvimento da criança autista. Algumas crianças demonstram habilidades
avançadas em áreas como contagem, classificação e reconhecimento de padrões, enquanto
outras podem apresentar dificuldades nessas mesmas áreas. O importante é reconhecer essas
singularidades e propor atividades que partam dos interesses da criança, tornando a
aprendizagem mais significativa.
Sob uma perspectiva reflexiva, é possível afirmar que o campo “Espaços, tempos,
quantidades, relações e transformações” oferece oportunidades valiosas para o desenvolvimento
cognitivo da criança autista, especialmente quando associado a experiências concretas e
sensoriais. Atividades que envolvem manipulação de objetos, experimentação e exploração do
ambiente favorecem a construção de conceitos e o desenvolvimento do pensamento lógico.
Outro aspecto importante refere-se à mediação pedagógica. O professor desempenha
papel central na adaptação das propostas, garantindo que todas as crianças tenham acesso às
experiências de aprendizagem. Isso inclui a flexibilização de atividades, o uso de recursos
diferenciados e a oferta de apoio individualizado quando necessário. A prática pedagógica
inclusiva exige planejamento, observação e constante avaliação.
A interação social, embora seja um desafio para muitas crianças com TEA, também
pode ser favorecida nesse campo de experiência. Atividades que envolvem jogos de
classificação, construção e resolução de problemas em grupo podem estimular a cooperação e a
comunicação. No entanto, é importante respeitar o tempo da criança e evitar situações que gerem
sobrecarga sensorial ou emocional.
A dimensão das transformações, presente nesse campo, também pode ser explorada
de maneira significativa. Experiências com mudanças de estado da matéria, crescimento de
plantas ou transformações no ambiente permitem que a criança observe, compare e compreenda
processos. Para a criança autista, essas experiências podem ser ainda mais enriquecedoras
quando acompanhadas de recursos visuais e explicações claras.
Entretanto, a efetivação desse campo de experiência na perspectiva inclusiva ainda
enfrenta desafios. A falta de formação específica dos professores, a ausência de recursos
adequados e a limitação de apoio especializado são fatores que dificultam a implementação de
práticas inclusivas. Além disso, ainda há concepções equivocadas sobre o potencial de
aprendizagem da criança autista, o que pode levar à subestimação de suas capacidades.
Diante desse cenário, torna-se fundamental promover uma educação que reconheça e
valorize a diversidade. A inclusão não se resume à presença da criança na sala de aula, mas
implica garantir sua participação ativa e significativa. O campo “Espaços, tempos, quantidades,
relações e transformações” pode contribuir para esse processo ao oferecer experiências que
respeitam diferentes formas de aprender.
Outro ponto de análise refere-se à importância da parceria com a família e com
profissionais especializados. O trabalho colaborativo entre escola, família e equipe multidisciplinar
favorece a construção de estratégias mais eficazes e adequadas às necessidades da criança.
Essa articulação é essencial para garantir a continuidade do processo de aprendizagem.
Em síntese, a relação entre a criança autista e o campo de experiência “Espaços,
tempos, quantidades, relações e transformações” evidencia a necessidade de práticas
pedagógicas inclusivas, flexíveis e contextualizadas. Esse campo, quando bem trabalhado, pode
potencializar o desenvolvimento cognitivo, promover a autonomia e favorecer a participação
social da criança. Portanto, é imprescindível que os educadores assumam uma postura reflexiva
e comprometida com a inclusão, buscando estratégias que garantam o acesso e a permanência
de todas as crianças nas experiências de aprendizagem. Mais do que adaptar conteúdos, trata-se
de transformar a prática pedagógica, reconhecendo a criança autista como sujeito de direitos e de
potencialidades.
Referência Bibliográfica
BOSA, Cleonice Alves. Autismo: intervenções psicoeducacionais. Porto Alegre: Artmed, 2006.