Introdução
O comportamento de indivíduos em situação de doenças é um tema complexo qu
e envolve uma variedade de fatores sociais, culturais e individuais. A compreensão do c
omportamento de doença é fundamental para a promoção da saúde e a intervenção em si
tuações de saúde. A pesquisa sobre o comportamento de doença tem sido desenvolvida
em várias áreas, incluindo a Psicologia da Saúde e a Análise do Comportamento Aplica
da, que têm contribuído significativamente para a compreensão e intervenção em proble
mas de saúde.
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Comportamento de Doença
Mudanças bruscas de personalidade e de comportamento podem ser geralmente
classificadas com base nos tipos de sintomas a seguir:
Confusão ou delirium
Delírios
Fala ou comportamento desorganizado
Alucinações
Extremos de humor (por exemplo, depressão ou mania)
Essas categorias não são doenças mentais específicas. Elas são apenas uma
maneira que os médicos usam para organizar diferentes tipos de pensamento, fala e
comportamento anormal. Essas mudanças de personalidade e comportamento podem ser
causadas por problemas de saúde mental ou doenças no geral.
As pessoas podem ter mais de 1 tipo de mudança. Por exemplo, pessoas com
confusão devido a uma interação medicamentosa às vezes têm alucinações, e pessoas
com extremos de humor podem ter delírios.
Confusão e delirium
Confusão e delirium dizem respeito a uma perturbação da consciência. Ou seja, a
pessoa está menos consciente do seu ambiente e, dependendo da causa, pode ficar
excessivamente agitada e violenta ou sonolenta e lenta. Algumas pessoas alternam entre
falta de atenção e excesso de atenção.
O seu pensamento parece nebuloso e lento, ou não apropriado. A pessoa tem
dificuldade de se concentrar em perguntas simples e demora a responder. A fala pode
ficar arrastada. Frequentemente, a pessoa não sabe que dia é, e é possível que ela não
consiga dizer onde está. Algumas não conseguem dizer o seu nome.
O delírio frequentemente resulta de um problema médico geral recentemente
surgido ou de uma reação a um medicamento, especialmente em adultos mais velhos.
As pessoas que têm delirium precisam de cuidados médicos imediatos. Se a causa do
delírio for identificada e corrigida rapidamente, com frequência ocorre a resolução do
delírio.
Delírios
Delírios são crenças fixas falsas que a pessoa tem, apesar de existirem provas em
contrário. Alguns delírios estão baseados em uma interpretação errada de percepções e
experiências reais. Por exemplo, a pessoa pode se sentir perseguida, pensando que ela
está sendo seguida pela pessoa que está atrás dela na rua ou que um comum acidente é
uma sabotagem propositada.
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Outras pessoas pensam que a letra de uma música ou artigos de jornal contêm
mensagens que dizem respeito especificamente a elas (um quadro clínico denominado
delírio de referência).
Algumas crenças parecem mais plausíveis e podem ser difíceis de identificar
como sendo delírios, porque elas poderiam ocorrer ou já ocorreram na vida real. Por
exemplo, pessoas são ocasionalmente seguidas por investigadores do governo ou têm o
seu trabalho prejudicado pelos colegas.
Nesses casos, é possível classificar a crença como sendo um delírio devido à
insistência da pessoa em continuar a manter a crença apesar de existirem provas em
contrário.
Outros delírios são mais fáceis de identificar. Por exemplo, em delírios religiosos
ou de grandiosidade, a pessoa pode crer que ela é sagrada ou o é o presidente do país.
Alguns delírios são bastante estranhos. Por exemplo, a pessoa pode pensar que seus
órgãos foram todos substituídos por peças mecânicas, ou que sua cabeça contém um
rádio que recebe mensagens do governo.
Fala desorganizada
Fala desorganizada se refere à fala que não contém as ligações lógicas esperadas
entre os pensamentos ou entre perguntas e respostas. Por exemplo, a pessoa pode pular
de um assunto para outro sem nunca concluir um pensamento. Os assuntos podem ser
pouco relacionados ou totalmente não relacionados.
Em outros casos, a pessoa responde a perguntas simples com respostas longas e
divagantes, cheias de detalhes irrelevantes. As respostas podem ser ilógicas ou
completamente incoerentes. Esse tipo de fala difere da dificuldade em expressar ou
compreender a linguagem (afasia) ou de formar palavras (disartria) que é causada por
um distúrbio cerebral como, por exemplo, um acidente vascular cerebral.
Ocasionalmente, uma fala incompreensível ou intencionalmente evasiva, rude ou
humorística pode não ser considerada uma fala desorganizada.
Comportamento desorganizado
Comportamento desorganizado diz respeito a fazer coisas bastante inusitadas
(por exemplo, se despir ou se masturbar em público ou gritar e xingar sem uma razão
aparente). A pessoa com comportamento desorganizado em geral tem dificuldade para
realizar suas atividades diárias normais (como manter uma boa higiene pessoal ou
comprar alimentos).
Alucinações
Alucinação diz respeito a ouvir, ver, sentir o odor, sentir o gosto ou sentir coisas
que não existem de verdade. Ou seja, a pessoa percebe coisas, aparentemente através
dos seus sentidos, que não são causadas por estímulos externos. Isso pode ocorrer com
qualquer sentido. As alucinações mais comuns incluem escutar coisas (alucinações
auditivas), geralmente vozes. As vozes fazem em geral comentários negativos sobre a
pessoa ou ordenam a pessoa a fazer alguma coisa.
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Nem todas as alucinações são causadas por problemas de saúde mental.
As drogas psicodélicas, como o LSD, a mescalina e a psilocibina, são chamadas
alucinógenos porque podem causar alucinações visuais.
Alguns tipos de alucinações têm maior probabilidade de serem causadas por
um transtorno neurológico. Por exemplo, antes de uma convulsão ocorrer, a pessoa pode
sentir o cheiro de algo quando na realidade não há nenhum cheiro (uma alucinação
olfativa).
Extremos de humor
Humores extremos incluem ataques de raiva, períodos de extrema euforia
(mania) ou depressão e, inversamente, uma expressão constante de pouca ou nenhuma
emoção (a pessoa parece não responsiva ou apática).
Causas de alterações de comportamento e personalidade
Embora às vezes as pessoas presumam que mudanças de personalidade,
pensamento ou comportamento são todas devidas a doenças mentais, existem muitas
causas possíveis. Em última análise, todas as causas envolvem o cérebro, mas dividi-las
em 3 categorias pode ser útil:
Distúrbios psicológicos podem ser causados por:
Uso de substâncias (incluindo intoxicação ou abstinência de medicamentos)
Efeitos colaterais de medicamentos
Transtornos que afetam principalmente o cérebro
Transtornos em todo o corpo (sistêmicos) que também afetam o cérebro
Os modelos teóricos cognitivo-comportamentais são, por definição, a base do
que se considera atualmente a Psicologia da Saúde, uma área da Psicologia que se
preocupa com os processos de saúde-doença nos diferentes níveis de atenção
(Matarazzo, 1980; Straub, 2014).
Nessa perspectiva, a cognição é um dos fatores essenciais na compreensão da
saúde e da doença, pois a maneira como o indivíduo lida com uma experiência
estressante diz respeito a maneira como tal evento será avaliado e interpretado
(Montgomery, 2004). Além disso, a mudança do comportamento humano, questão que
tem sido foco da Psicologia por muitas décadas, também possui relevância na
Psicologia da Saúde, ao contribuir na promoção da saúde dos cidadãos (Matarazzo,
1980).
Atualmente, o conceito de saúde é mais complexo, já que se ocupa dos processos
de saúde e doença, e da multiplicidade de variáveis pessoais e ambientais envolvidas a
partir do paradigma biopsicossocial (Adler, 2009; Engel, 1977).
A Organização Mundial de Saúde (OMS) conceitua saúde como "um estado de
completo bem-estar físico, mental e social e não somente ausência de afecções e
enfermidades" (Organização Mundial da Saúde, 2020).
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A principal mudança reside na compreensão de que a saúde não é uma condição
isolada e estática, mas envolve também a qualidade das relações e do contexto familiar,
profissional, social, econômico, político, entre outros, em que o indivíduo está inserido
e que, portanto, exercem influência sobre ele (Adler, 2009; Bezerra & Sorpreso, 2016;
Engel, 1977). Uma questão central em Psicologia da Saúde é a mudança de foco da
"doença" para a "saúde" (Remor & Castro, 2018; Ribeiro, 2011).
Caso clínico
Identificação do paciente:
Nome: Gonçalo M. Luamba
Idade: 38 anos
Sexo: Masculino
Profissão: Motorista
Queixa principal:
“Doutor, eu tenho certeza que estou com uma doença grave, mesmo os exames não
mostram nada.”
História da doença atual:
Paciente do sexo masculino, 38 anos, que recorre frequentemente aos serviços de
saúde há aproximadamente 8 meses, apresentando queixas inespecíficas como dores
difusas no corpo, principalmente na região torácica e abdominal, associadas a episódios
de tontura, palpitações e fadiga constante. Relata que os sintomas surgem de forma
intermitente, mas com intensidade suficiente para causar preocupação significativa.
O paciente já realizou múltiplos exames complementares, incluindo análises
laboratoriais, eletrocardiograma, radiografia e ecografia abdominal, todos sem
alterações relevantes. Apesar disso, mantém a convicção de que possui uma doença
grave não diagnosticada, como câncer ou doença cardíaca.
Apresenta comportamento de procura repetida por diferentes profissionais de
saúde, demonstrando insatisfação com os resultados e dificuldade em aceitar
explicações médicas.
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História pessoal e social:
O paciente refere elevado nível de stress relacionado ao trabalho e dificuldades
financeiras recentes. Não apresenta histórico de doenças crónicas nem acompanhamento
psiquiátrico prévio. Relata também preocupação constante com a saúde e tendência a
pesquisar sintomas na internet.
Exame físico:
Sinais vitais dentro dos parâmetros normais. Exame físico geral sem alterações
significativas.
Hipótese diagnóstica:
Transtorno de ansiedade de doença
Comportamento de doença exacerbado
Discussão clínica
O caso apresentado ilustra um padrão típico de comportamento de doença
alterado, no qual há discrepância entre os achados clínicos objetivos e a perceção
subjetiva do paciente. Apesar da ausência de evidências orgânicas, o indivíduo mantém
uma crença persistente de doença grave.
Conceito de comportamento de doença:
Refere-se à forma como o indivíduo percebe, interpreta e responde aos sinais e sintomas
do seu corpo. Inclui a decisão de procurar cuidados médicos, a adesão ao tratamento e a
forma como lida com o diagnóstico.
Análise do caso:
O paciente apresenta um padrão de hipervigilância corporal, interpretando sensações
normais como sinais de doença grave. A ausência de alívio após exames normais sugere
componente ansioso significativo, compatível com transtorno de ansiedade de doença.
Fatores contribuintes:
- Stress psicossocial
- Ansiedade não diagnosticada
- Falta de suporte emocional
- Exposição excessiva a informações médicas (internet)
Diagnóstico diferencial:
- Transtornos somáticos
- Transtorno de pânico
- Depressão
- Doença orgânica não identificada (deve sempre ser considerada inicialmente)
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Abordagem terapêutica:
A abordagem deve ser centrada no modelo biopsicossocial, incluindo
comunicação eficaz, validação do sofrimento do paciente e redução de exames
desnecessários.
A psicoterapia, especialmente a terapia cognitivo-comportamental, é
fundamental para ajudar o paciente a reinterpretar os sintomas. Em alguns casos, pode
ser necessário o uso de medicação ansiolítica ou antidepressiva.
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Conclusão:
O comportamento de doença tem impacto significativo na prática clínica, sendo
essencial reconhecer este padrão para evitar intervenções desnecessárias e melhorar a
qualidade de vida do paciente através de uma abordagem adequada.
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Referência bibliográfica
(Adler, 2009; Bezerra & Sorpreso, 2016; Engel, 1977)). Engel's biopsychosocial model
is still relevant today. Journal of Psychosomatic Research, 67(6), 607-611.
[Link]
American Psychiatric Association [APA]. (Matarazzo, 1980). Manual diagnóstico e
estatístico de transtornos mentais.5. ed. Porto Alegre: Artmed.
American Psychological Association. (2003). Página oficial da Associação. Recuperado
em 11 março de 2020