Me Strado
Me Strado
INSTITUTO DE PSICOLOGIA
DEPARTAMENTO DE PSICOLOGIA CLÍNICA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA CLÍNICA E CULTURA
BRASÍLIA - DF
2019
UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA
INSTITUTO DE PSICOLOGIA
DEPARTAMENTO DE PSICOLOGIA CLÍNICA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA CLÍNICA E CULTURA
BRASÍLIA - DF
2019
UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA
INSTITUTO DE PSICOLOGIA
______________________________________________________________________________
Prof. Dr. Jorge Ponciano Ribeiro - Presidente
Universidade de Brasília – UnB
______________________________________________________________________________
Prof. Dr. Marcelo Tavares - Membro
Universidade de Brasília – UnB
______________________________________________________________________________
Prof. Dr. Sérgio Eduardo Silva de Oliveira - Membro
Universidade de Brasília – UnB
______________________________________________________________________________
Prof. Dra. Tatiana Yokoy de Souza – Membro Suplente
Universidade de Brasília – UnB
Seria inconcebível a mim não externar meu sentimento de gratidão à generosidade, à ética
e à humanidade de Jorge Ponciano Ribeiro. A esse Ser, para além do exercício com maestria de
atuar como professor e orientador, meu sincero agradecimento pela confiança de me deixar ser.
Pela criação. Pela naturalidade e paciência ao respeitar minha responsabilidade diante do sentir-
me livre. É singular a beleza de sua humildade e de sua transparência, não obstante um currículo
tão vasto, em uma sabedoria incrível revelando a singeleza de sua essência no ato de disseminar
bases epistemológicas e agregar ciências respirando-as em seu modo de estar no mundo. A sua
não necessidade de envaidecimento diante de tão honrosa partilha de seu conhecimento me faz
desejar ser humana e melhor. Muito grata pela aceitação em caminhar mais perto, transitar em
minha jornada e acender a minha esperança de que com verdade e competência faz-se possível o
fazer lado-a-lado trafegando espaços.
Aos meus pais, Janffran e Helena, paradoxalmente, pelo exagero de amabilidade que
desconcerta meu coração. A eles reverencio minha existência e o apoio perante tudo que eu confio
em fazer bem, particularmente a minha sede de conhecer. Agradeço fortemente por priorizarem
desde quando preciso fosse o custo da acessibilidade aos livros.
À Dona Xuxu, amiga que segue conectada à minha autenticidade. Nela espelho e acolho o
meu borbulhar crescente em busca do que me nutre e me apazigua enquanto gente. Pelo incentivo
de desafiar a batalha sobre como ser mulher, oxigenando a braveza tênue de ir adiante com garra
e firmeza aliadas ao seio do que se faz belo.
Brindo o coleguismo e as amizades, ainda mais, poucas e profundas. Saber que Suelly,
Greice, Lecyane, Angelina, Antônio, Everardo, Carmen e a variedade de minha árvore genealógica
existem, acalanta a vida. Abdallah me inspira em seu querer-fazer-acontecer. Ao John, estatístico
que a mim descortinou uma linguagem, até então, alijada de minha compreensão. Grata ainda às
confluências e às retiradas com e entre uns e outros as quais favorecem a minha autorregulação.
Um “capítulo” à parte ao Manoel, meu presente nessa altura do campeonato, companheiro
que agracia o tempo. Com a beleza do nosso Encontro, sinto-me potente a trilhar caminhos que
preservem a riqueza do engrandecimento mútuo. Sua tolerância e jeito de amar enobrecem o meu
sentido. Sinto-me florida em nossa parceria.
Aos professores que de bom grado aceitaram fazer parte da minha banca examinadora.
Marcelo Tavares, que, por décadas, dedica com afinco seu conhecimento e prática à esfera da
saúde mental; Sérgio Oliveira, que também se debruça em fontes de pesquisas, esmiuçando
correntes inerentes à avaliação psicológica, ao psicodiagnóstico e à psicopatologia; e Tatiana
Yokoy de Souza, que destina com tenacidade pesquisas voltadas à socioeducação, além de estudos
direcionados à grandeza do desenvolvimento humano.
Ainda àquelas professoras e colegas que me despertaram em mim a importância de
conhecer e visibilizar os entrelaces e as diferenças da diversidade de métodos de pesquisa, saúde
e trabalho sob o contexto histórico e social, questões de gênero e outras desigualdades
(des)figuradas.
À Universidade de Brasília, de forma primordial, ao Instituto de Psicologia, pela
oportunidade de fundamentar esta pesquisa e me possibilitar conhecer campos que alicerçam meu
contínuo processo de preparação. À Universidade Federal de Toulouse Jean Jaurès, França, em
especial, à professora Nicole Cantisano, que, com facilidade, amparou sinteticamente temáticas
previamente apresentadas, desanuviando a necessidade de estudar burnout em um contexto sócio-
histórico universal que, em geral, o meio laboral, cada vez mais, nas diversas relações, privilegia
o ter ao ser.
À Secretaria de Estado de Justiça e Cidadania do Distrito Federal, em especial, à equipe da
Gerência Sociopsicopedagógica e à Diretoria da Unidade de Atendimento Inicial,
fundamentalmente à Aedra Sarah de Andrade e à Juliana Pereira, pelo incentivo e apoio à pesquisa.
À Subsecretaria do Sistema Socioeducativo e à Coordenação de Políticas e Atenção à Saúde de
Jovens e Adolescentes, representadas por quem reverencio o reconhecimento e a presteza em prol
da socioeducação ao autorizar e divulgar o convite para a participação dos gestores neste estudo.
Em destaque: Demontiê Batista Filho, Daphne Cortizo, Natália Pereira e Beatriz Yamada. À
Ouvidoria, a mim desenhada por Carina de Freitas, cuja competência e honestidade identifico em
seu saber fazer diário. Aos gestores e às gestoras do sistema socioeducativo do Distrito Federal
que tiveram a coragem de se deparar com conteúdos difíceis de serem acolhidos e, ainda assim,
participaram desta pesquisa. Finalmente, a todos que se interessam pela construção coletiva do
“entrelace das letras ao arregaçar dos ouvidos e das mangas”, onde verdadeiramente circula o
conhecimento vivo.
Soares, T. (2019). Burnout e a Qualidade de Vida dos Gestores do Sistema Socioeducativo do
Distrito Federal: uma análise estatística descritiva em Saúde Mental. Dissertação de mestrado,
Universidade de Brasília, Brasília, DF, Brasil.
RESUMO
Este trabalho se propõe a identificar e discutir as relações entre a qualidade de vida dos gestores e
os fatores preponderantes ao desenvolvimento da síndrome de burnout relacionados ao contexto
de trabalho no sistema socioeducativo do Distrito Federal. Pesquisas demonstram que a
sobrecarga, o desgaste emocional, as precárias condições de trabalho e a falta de realização
profissional afetam a qualidade de vida dos trabalhadores. Com base nesse entendimento, a
presente dissertação é composta por três artigos. Neles, utilizou-se a análise estatística descritiva;
análise fatorial; análise fatorial confirmatória; testes de hipóteses (Wilcoxon-Mann-Whitney e
Kruskal-Wallis) e de regressão múltipla. Dos participantes, 103 acessaram a pesquisa. Destes, 48
finalizaram todos os três questionários que avaliaram, além do perfil sociodemográfico
relacionado à posição hierárquica dos gestores, a exaustão emocional, a despersonalização e a
realização pessoal correlacionadas ao nível de burnout; a saúde física e mental ligada à qualidade
de vida; e níveis de demanda, controle e suporte vinculados ao contexto de trabalho. O primeiro
artigo teve como objetivo identificar o perfil gestor do atendimento socioeducativo do Distrito
Federal; verificar e descrever a frequência dos graus de esgotamento emocional, despersonalização
e realização pessoal, além de identificar a ocorrência da síndrome na equipe gestora, por meio da
aplicação do questionário Maslach Burnout Inventory Human Services Survey (MBI-HSS).
Concluiu-se que 29,17% dos participantes apresentaram a síndrome, destacando-se o alto índice
de exaustão emocional. O segundo artigo teve como escopo identificar os componentes de saúde
e seus impactos na qualidade de vida da equipe gestora socioeducativa, apontando os domínios
sobressalentes das subescalas de saúde física e de saúde mental. Através do instrumental Medical
Outcomes Study SF-36 Health Survey, identificou-se a frequência desses domínios e se verificou
se as escalas que demonstravam maiores limitações à saúde estavam correlacionadas àquelas que
evidenciaram a síndrome de burnout ou os graus de esgotamento emocional e/ou
despersonalização elevados e/ou ainda a baixa realização pessoal dos gestores. A partir disso,
pôde-se retratar a qualidade de vida sob o ponto de vista dos gestores da socioeducação do Distrito
Federal. Na mesma direção dos primeiros, o terceiro artigo buscou identificar o contexto de
trabalho da gestão da socioeducação do Distrito Federal, através dos componentes 'demanda',
'controle' e 'suporte' institucionais do Job Content Questionnaire. Avaliou-se a correlação de seus
componentes nas relações socioprofissionais, bem como suas implicações na realização
profissional e na qualidade de vida dos gestores. Ao final, nas categorias levantadas, constatou-se
que quanto maior o controle da instituição, menor o nível de saúde mental dos gestores. Salientou-
se, então, uma relação diretamente proporcional sobre assertiva de que 'quanto mais saudável o
trabalhador, maior sua satisfação profissional'. Com base nesses artigos, os resultados sugerem a
urgência do planejamento de uma política pública de atenção à saúde para os trabalhadores que
gerenciam o sistema socioeducativo brasileiro, em especial, do Distrito Federal, foco desta
pesquisa.
This research aims to identify and discuss the relationship [Link] the quality of life of managers
and the factors leading to the development of Burnout Syndrome related to the work context in the
socio-educational system of the Distrito Federal, Brazil. Researches show that overload,
emotional exhaustion, poor working conditions and lack of professional fulfillment affect workers'
quality of life. Based on this understanding, this dissertation is composed of three articles. In them,
descriptive statistical analysis was used from factor analysis; confirmatory factor analysis;
hypothesis tests (Wilcoxon-Mann-Whitney and Kruskal-Wallis) and multiple regression test. Of
the participants, 103 accessed the survey. Of these, 48 completed all three questionnaires (on the
likert scale) that evaluated the sociodemographic profile related to the hierarchical position of the
managers; emotional exhaustion, depersonalization and personal accomplishment correlated with
burnout level; physical and mental health related to quality of life; and levels of demand, control
and support linked to the job context. The first one aimed to identifying the managers profile of
the socio-educational system of the Distrito Federal, Brazil, to verify and describe the frequency
of emotional exhaustion, depersonalization and personal accomplishment and to identifying the
occurrence of the syndrome in the management team. In addition, by applying the Maslach
Burnout Inventory Human Services Survey (MBI-HSS) questionnaire, the frequency was
described and the levels of emotional exhaustion, depersonalization and personal accomplishment
were correlated from the mental health perspective. Of the 48 participants, 29% had a burnout
syndrome, highlighting the high level of emotional exhaustion. The second article aimed to
identify the health components and their impacts on the quality of life of the socio-educational
management team, pointing out the domains of the physical and mental health subscales. Through
the Medical Outcomes Study SF-36 Health Survey, the frequency of these domains was identified
and it was verified whether the scales that showed major limitations to health were correlated with
those that showed burnout syndrome or degrees of emotional exhaustion and/or high
depersonalization and/or low personal achievement of managers. From this, it was possible to
portray the quality of life from the point of view of the managers of socio-education of the Distrito
Federal, Brazil. In the same direction of the first ones, observing their specificity, the third article
sought to identify the job context of the Distrito Federal, Brazil, socio-educational management,
based on the institutional components demand, control and support through the application of the
Job Content Questionnaire. This one evaluated the correlation of its components in professional
relationships, their implications for professional achievement and the quality of life of managers.
In the end, in the categories raised, it was found that the greater the control of the institution, the
lower the mental health level of managers. It was emphasized, then, a directly proportional
relationship about the statement that 'the healthier the worker, the greater his job satisfaction'.
Based on these articles, the results suggest the urgency of planning a public health care policy for
workers who manage the Brazilian socio-educational system, especially in this research, from the
Distrito Federal, Brazil.
APRESENTAÇÃO .................................................................................................................. 13
Universidade de Brasília – 2017/2018 .............................................................................. 15
Universidade Federal de Toulouse Jean Jaurès – 2018/2019............................................. 16
Retorno à Universidade de Brasília – 2019 ....................................................................... 17
APRESENTAÇÃO
aos ouvidos” ocorre. Nesse contexto, “acendem-se as luzes” para a duplicidade (contradição) de
comandos e, muitas vezes, de forma direta, para o pedido de não efetividade e de eficiência sobre
o que “teoricamente” está escrito (regulado) para ser executado. Assim, vivenciei, a depender do
contexto político e governamental federal e local, maiores ou menores processos dicotômicos de
rigidez versus flexibilização, imposição/controle versus autonomia, descrédito versus confiança;
isolamento versus construção coletiva.
(Con)vivi, de forma crescente, além de mim, com colegas revelando gamas de
psicossomatizações “naturalizadas” em grupo. No meu caso, o estresse se configurou em alopécia
(queda de cabelo); e, em fases sob maior pressão institucional, insônia, tensão temporomandibular
e paralisia facial periférica. Estive próxima de profissionais que apresentavam bruxismo, como
hábito parafuncional, resultando em casos mais graves como perdas dentárias; bem como de
colegas com infecções urinárias recorrentes e, ainda, aqueles que utilizavam recursos de
automedicação, a saber, o uso de ansiolíticos e antidepressivos apelidados de “sucos
revitalizantes”.
Particularmente, apesar de ter vivido períodos de turbulência ora mais intensos, ora mais
brandos, não obstante ter a formação de especialista em psicossomática, demorei mais de um ano
para dar-me conta de que esse processo gradativo de adoecimento se devia diretamente ao meu
contexto de trabalho. Talvez pelo processo de mecanismo de defesa psicanalítico da negação do
não desejo de retirar-me do exercício da função de gestão. Sob a função gerencial, ocorriam-me,
ainda que “a olhos vistos”, as grandes chances de não bem suceder ao que mais me motivara estar
ali (trabalhar com uma equipe satisfeita, desejosa de “fazer valer além do papel”), a possibilidade
da construção “a várias mãos” de ações iniciadas, continuadas e/ou inovadoras, baseadas na troca
“dos sabedores do fazer”, incluindo os/as adolescentes e os/as educadores/as da comunidade
socioeducativa.
Ademais, a minha escolha de ocupar cargos comissionados em determinados contextos e
períodos relacionou-se para além do quesito, muito bem-vindo, remuneratório. Somou-se a
prejuízos energéticos ligados à ansiedade e ao estresse, à parte – se é que isso seja possível – da
oportunidade de atuar em contexto de liderança e em grupos, configuração que percebo como
identificação e realização profissional.
Em tempos recentes, reconheço que as vivências sob gestão, de forma geral,
oportunizaram-me também tentativas bem e mal sucedidas de (socio)educar-me, me formar
15
enquanto gente e profissional, compreendendo que a proporção dos cálculos e planos adicionam-
se a um todo com partes incalculáveis, incluindo a mais essencial – que, em virtude do meu
processo de regulação organísmica, do ponto de vista holístico da Teoria de Kurt Goldstein –
possibilitou-me notar e, agora, apreciar minha saúde.
Seguindo este meu tracejar histórico profissional, em função gestora, no sistema
socioeducativo do DF, depois de oito anos de “entradas e saídas”, ao considerar outras
necessidades e possibilidades de realização profissional, flexionei-me à atualização
epistemológica. Para mim, reintroduzir-me nesse panorama significa a busca de fôlego para
debater experiências e fatos calcados em fundamentações filosóficas e teóricas, no intuito de
alicerçar a minha práxis. Sob esse prisma, primo por tecer essa aliança, de forma que, na medida
do possível, o cuidado com a minha qualidade de vida seja preservada, conquanto as dificuldades
vivenciadas em meu contexto de trabalho.
Este relato fia-se à esperança e/ou ao desejo de permeabilidade ao diálogo sob e sobre o
contexto institucional, com colegas que se queixam e interessam-se pelo “como fazer para bem
viver” no meio laboral. Assim, a partilha de experiências pode caminhar com o despertar de uma
consciência coletiva, por meio da (re)construção de valores, cultura e sistema organizacional. A
transformação gradativa “de sentir e agir” no ambiente de trabalho corrobora, possivelmente o
dinamismo de apropriação da qualidade de vida, pela qual o socioeducador e a socioeducadora
possam “incorporar” ao desempenho de sua atividade um sentido prazeroso e dignificante em seu
cotidiano.
Durante o ano acadêmico de 2017, dediquei-me aos estudos voltados à saúde mental, ao
trabalho e ao seu contexto sob a ótica da psicodinâmica. Aos poucos, fui nominando e decifrando,
em conjunto, a temática que, de fato, dava sentido a esta pesquisa.
Assim, o eixo deste estudo se dava nas relações entre saúde, adoecimento e gestão da
socioeducação. Paulatinamente, instigava-me verificar as interferências desse processo na
eficiência e eficácia do atendimento da política pública de socioeducação. O mais difícil nessa
seara foi deparar-me com a situação intersubjetiva de nomear os (meus) processos de sofrimento
e adoecimento no contexto de trabalho. Adentrar em questões acerca do trabalho da mulher,
16
identificando as tecnologias de gênero e como elas são vivenciadas no contexto brasileiro também
me proporcionou a identificação de comportamentos, sentimentos velados, reflexos sobre as
minhas relações e a conseguinte, considerando meus limites, (res)significação de (pre)conceitos.
No decorrer da construção deste trabalho, o desafio maior enquanto pesquisadora foi
delimitar a temática diante da gama de questões a serem exploradas no campo de pesquisa e do
objeto de estudo ”gestores socioeducativos”. De início, a proposta seria explorar as questões
fazendo um estudo comparativo entre os estados brasileiros. Contudo, tão logo, percebi que a
condição temporal (cronológica) não favorecia a obtenção e exploração dos dados. Assim, a
amostra foi reduzida ao DF.
Com sede de ampliar horizontes culturais e epistemológicos, sob anuência e incentivo do
professor orientador desta pesquisa nesta Universidade, fui aprovada em outro processo seletivo,
para cursar o segundo ano do curso de mestrado do Programa de Psicologia Clínica, Psicopatologia
e Psicologia da Saúde, especificamente direcionado ao departamento de Pesquisa Aplicada e
Prevenção em Psicologia e Psicopatologia da Universidade Federal de Toulouse Jean Jaurès, na
França.
INTRODUÇÃO
Para Bisinoto (2014), a educação engloba um processo sociocultural que se forma a partir
de um leque de tradições, normas e valores, diferenciando-se a partir de concepções filosóficas,
políticas e ideológicas. É por meio da manutenção e reprodução de paradigmas que ocorre a sua
transformação, considerando as relações de poder em cada contexto social. Nesse sentido, a
socioeducação insere-se em uma vasta área da educação social, fincada nos direitos humanos,
comprometendo-se com a emancipação e a autonomia de cada sujeito em sua comunidade.
De acordo com Soares et al. (2014) e Silva (2017), a prática socioeducativa foca na
promoção de estímulos e incentivos à cultura e as possibilidades de acesso a serviços públicos.
(...) e que com a identificação por parte dos profissionais, em conjunto e por meio do
(re)conhecimento dos jovens, ocorra o “despertar” de sonhos e de desejos; e, o avistar
de habilidades e dons específicos para novas possibilidades de (re)integração social,
alijado ao contexto infracional e integrados a um universo saudável, com respeito ao
convívio social. A ação socioeducativa decorre dos múltiplos papéis e devem funcionar
como um mecanismo de revisão identitária – que identifica uma pessoa ou um grupo
(Soares et al., 2014, p.13).
Nessa ótica, Pauluk (2013) ratifica que a ação educativa precisa estar centrada nas
potencialidades e aspectos saudáveis, sendo orientada para a vida em liberdade e não se limitando
à adaptação do adolescente aos programas dispostos pela política. A autora acrescenta que as
medidas socioeducativas possuem, sim, um carater sancionatório, entretanto, o foco da ação deve-
se pautar em instrumentos pedagógicos.
De forma oposta à conceituada por Pauluk (2013), os poucos trabalhos existentes sobre a
ação educativa e os trabalhadores do sistema socioeducativo do DF permitem inferir que a
atividade laboral desses profissionais causa um significativo sofrimento psíquico. Esse fator é
agravado pelo fato de existirem disputas pelo poder entre os diferentes grupos de profissionais que
compõem o sistema. Para lidarem com esse sofrimento, os grupos profissionais fazem uso de
diversas estratégias coletivas de defesa que limitam drasticamente a implementação dessa política
pública (Baptista, 2013).
Uma das estratégias coletivas de defesa se vincula ao objetivo de “assegurar” a segurança
dos servidores e da “sociedade”, balizados pelo medo e dificuldades no exercício das atribuições
do cargo. Essa estratégia se reflete no fato de que muitos servidores da carreira pública da SEJUS-
DF que prestam concurso público para o cargo de agente socioeducativo assumem o cargo com
expectativa de exercer suas atribuições da mesma forma que um agente penitenciário. O sistema
termina adquirindo a “estética” de uma organização policial por meio do uso de uniformes,
insígnias e armamentos não letais, o que, muitas vezes, reflete uma relação fantasiosa com a
realidade (pois os profissionais do sistema não possuem poder de polícia) (Amaral, 2008; Baptista,
2013).
22
“A maioria dessas atividades de formação ainda não tem se mostrado suficiente para
promover a profissionalização dos educadores sociais que atuam no SSE nem para engendrar
processos de mudança institucional e desconstruir aquilo a que temos caracterizado como a cultura
da cadeia” (Yokoy de Souza, 2012, p. 25).
A literatura revela que são escassos os estudos que avaliam a situação dos trabalhadores do
sistema distrital, quiçá dos gestores, bem como o seu impacto na execução das medidas
supracitadas. Há ainda menos material quando se trata das vivências de processos de saúde e/ou
adoecimento como as prováveis dificuldades dos gestores e das gestoras com impacto no
atendimento ao jovem autor de atos infracionais.
Verifica-se a existência de pesquisas que avaliam a situação geral dos trabalhadores e das
trabalhadoras exercendo suas atribuições no sistema socioeducativo do Distrito Federal, dentre as
quais pode-se citar:
- a dissertação de mestrado de Amaral (2008), que trata especificamente de uma unidade
de internação denominada CAJE (já fechada);
- a tese de doutorado de Yokoy de Souza (2012), que se refere aos processos de formação
e de desenvolvimento dos profissionais do sistema;
- a tese de doutorado de Baptista (2013), em que foi avaliado o impacto das relações
intersubjetivas na implementação da Política Nacional de Atendimento Socioeducativo diante dos
servidores das unidades de atendimento do sistema socioeducativo do Distrito Federal;
- o artigo de Rodrigues (2016), em que se promoveu uma reflexão sobre a infração juvenil
e o caráter socioeducativo do processo de responsabilização juvenil, avaliando o contexto da
justiça e o processo do atendimento socioeducativo;
- a dissertação de mestrado de Andrade (2017), que analisou significações coletivas e
pessoais de agentes socioeducativos relacionadas ao contexto de trabalho, e;
- a dissertação de mestrado de Rego (2017), a qual mapeou elementos como: as relações
interpessoais, rigidez versus flexibilidade no trabalho, gestão de processos e resultados, execução
do trabalho e vivência deste trabalho junto aos servidores das unidades de meio aberto do sistema
socioeducativo do Distrito Federal. Nesta, conforme dados apontados por Cibele Moreira, em
outubro de 2017, por meio de divulgação eletrônica da rede Agência Brasília do Governo do
Distrito Federal, em que referencia a pesquisa “Saúde Mental: trabalhador do sistema
23
socioeducativo”, “a coleta de dados constatou que cerca de 30% dos afastamentos de servidores
eram por depressão, e outros quase 25%, por ansiedade” (Moreira, 2017).
Ocorre que, conforme Baptista (2013), o sucesso de uma política pública tal como a do
atendimento socioeducativo depende das delicadas conexões entre diversos atores institucionais
devido à sua interdependência. Pequenas falhas nas relações entre os atores institucionais podem
levar ao seu fracasso. Isso torna o estudo do sistema socioeducativo relevante, pois, neste caso, o
governo federal prevê, na lei n. º 12.594, de 18 de janeiro de 2012, que os estados federados, os
municípios e o Distrito Federal se insiram em um Sistema Nacional de Atendimento
Socioeducativo (SINASE), com sistemas estaduais, municipais e distrital.
O subsistema do Distrito Federal, deste modo, é gerenciado pela SUBSIS, vinculada à
Secretaria de Estado de Justiça e Cidadania do Distrito Federal – SEJUS-DF. À subsecretaria do
sistema socioeducativo, compete1, de forma geral, planejar, coordenar, executar e avaliar programas,
projetos e atividades de medidas socioeducativas.
Em que se pese saber que os problemas relativos ao atendimento socioeducativo geram
sofrimento para os profissionais do sistema (Baptista, 2013), entender como os gestores da
SUBSIS lidam com esta mesma questão pode ser crucial para a melhoria dessa política pública. A
complexidade do desenho do sistema socioeducativo e as diversas atribuições dadas a essa
subsecretaria enquanto organização executora do sistema socioeducativo do DF torna mais aguda
esta questão.
Ainda que em uma gestão constatam-se cuidados com a saúde, é possível observar nos
momentos de apoio e assistência, dispositivos de submissão, coerção e docilização dos corpos dos
trabalhadores (Barus-Michel, 2001). Assim, aquele que ocupa o cargo gerencial vive um conflito
entre a esperança de criar, de transformar ou de acrescentar imprimindo algo pessoal ao trabalho
e a obediência àquilo que se espera do cargo. Os gestores sofrem repetitivas tentativas de
desenraizamento da sua condição originária de trabalhador. Na gestão, a existência de dois lados,
o do trabalhador e o da figura do gerente, deflagra uma posição de embate (Gaulejac, 2007).
Observa-se, contudo, que os processos de decisão no âmbito da subsecretaria não foram
estudados. Há a desarticulação com os demais órgãos componentes do sistema socioeducativo,
1
Fonte: Decreto nº 37.896, de 27 de dezembro de 2016.
24
seus conflitos internos e a imposição do medo e do controle como recursos para gerir o sistema
(Baptista, 2013).
Desse modo, há a necessidade de investigação científica das ações dos gestores da
subsecretaria atreladas às suas vivências no contexto organizacional. Faz-se necessário tornar
visível a repercussão dessas ações na efetivação da execução da política pública socioeducativa.
Com isso, urge a necessidade, neste estudo, de trazer luz acerca de: Qual o perfil dos
“líderes” da gestão da socioeducação? Quem são essas pessoas? Como elas se veem? Como o
processo de autorresponsabilização e corresponsabilização é vivido no contexto de trabalho? Qual
o “lugar” do gestor no contexto de trabalho e como ele se percebe nesse “lugar"? Qual o índice de
sua satisfação e realização neste ambiente? Como o gestor identifica a sua autonomia neste
contexto? São satisfatórias as suas relações de trabalho? Como é abrangida a sua saúde neste
contexto? As pessoas que lideram a gestão estão esgotadas emocionalmente? Há um processo de
autocuidado e de amparo institucional em relação às suas próprias vivências de saúde?
Diante do contexto organizacional, de forma didática, Ribeiro (2019), sob o ponto de vista
da saúde, elenca fatores fundamentais que norteiam o desenvolvimento de relações
socioprofissionais saudáveis, sendo eles: considerar a saúde sob qualquer forma de contato a partir
de uma visão sistêmica e integrada; incluir os profissionais e a comunidade atendida como figura
central do programa de atendimento; estimular a corresponsabilidade alida à equanimidade da
competência; usar de modo adequado a linguagem dos líderes, neste caso, os gestores, quer seja
diante da assistência interna ou externa ao usuário do serviço, neste contexto, primordialmente, os
socioeducandos; e, ainda, promover a saúde, de forma não reducionista, para amenizar sintomas.
“A grande questão é: bastam um curso, um programa, para introduzir uma nova atitude, ou
é o coração e a mente das pessoas que têm de ser atingidos ou até mudados?" (Ribeiro, 2019, p.
171).
Nesse sentido, faz-se essencial a atenção aos aspectos individuais, englobando a
integralidade do indivíduo nos aspectos que permeiam sua personalidade, seu comportamento,
sentimento, sensação, contexto social e espiritual; paralelo à contínua revisão identitária na
construção e vivências dos valores, cultura e atitudes da organização.
Talvez pudéssemos falar de um "processo de conversão". Do homem para o homem, em
primeiro lugar, e do homem para uma totalidade que o supera e transcende, e sem a qual
o mero cuidar das partes será sempre um paliativo ao qual ele retornará infalivelmente,
porque isso implica: o despojamento de um poder de autoridade, para a vivência de
25
Semiliberdade - 12
Cargos (7 homens
e 5 mulheres) 41%
SUBSIS 12 Cargos (9
mulheres e 3 homens)
75%
Internação e Central
de Vagas - 179
Cargos (103 homens e
76 mulheres) 42%
Meio Aberto - 30
Cargos (16
mulheres e 14
homens) 53%
Nota. Dados fornecidos pelo Sistema de Gestão de Recursos Humanos, conforme estrutura organizacional em
setembro de 2017. SECriança/DF (órgão à época, correspondente à atual SEJUS/DF).
Eu tinha muita dificuldade de ficar sendo criticada o tempo todo porque entrava em ala,
porque ia dentro do quarto saber o que estava acontecendo, não participava da revista,
mas tinha que ouvir: ‘Vai revistar? Então, agora eu vou sair’. Eu gostava de estar ali
dentro, mas era o tempo todo tendo embate [com os colegas] por causa disso […] é um
excesso de cuidado que os agentes têm com a gente, mas ao mesmo tempo também tem um
monte de estereótipos e é difícil ficar conjugando o tempo todo isso, eu só pensava ‘Só
quero trabalhar, deixa eu fazer o meu aqui’; “[...]porque mulher não entra muito, né? Era
mais, digamos, um visual que a gente fazia” referindo-se a um papel secundário destinado
à agente socioeducativa, de se limitar a uma postura mais passiva e esperar orientações
sobre como deve agir (Andrade, 2017, p. 81).
Ainda que a literatura não aponte a supremacia de mulheres ocupando cargos de gestão,
especialmente aos de hierarquização mais elevados, estes relatos, ainda que de educadoras sociais
não ocupantes de cargos gestores, coadunam com a cultura brasileira, aqui focada na do Distrito
Federal, de que a administração pública do Distrito Federal estabelece a absorção maciça da mão
de obra “dócil”. Ou seja, a mulher é educada para a submissão. Na esfera socioeducativa fica muito
bem representado esse fator cultural, voltada ao suposto “educar”, socialmente esquadrinhado ao
lugar do cuidado.
No sistema socioeducativo brasileiro, além dos estudos anteriormente apontados, após a
revisão sistemática em fontes de pesquisas acadêmicas2, não constam definições e práticas de
gestão desenvolvidas por e desenhadas para mulheres que gerenciam o atendimento
socioeducativo.
Todavia, ressalta-se que este estudo não destacou susbtancialmente as diferenças e
necessidades levantadas por questões de gênero. A presente pesquisa, de forma geral, possui o
propósito de aumentar os escassos estudos sobre o contexto de “saúde-adoecimento” no sistema
socioeducativo do DF, aproximando-se de estudos já realizados pela UnB, mas, de forma pioneira,
colocando como objeto os gestores da SUBSIS.
2
Bases de dados: Google acadêmico, Scielo, Apllied Social Sciences Index and Abstracts – ASSIA (Proquest); ERIC
(Education Resources Information Center), Èrudit, Europeana, Artemis Primary Sources (Gale), Gallica Digital
Library, Oxford Journals, Persée, REDALYC - Red de Revistas América Latina, Caribe, España y Portugal, SAGE
Journals Online, SCOPUS, SLAVERY and Anti-Slavery Collection (Gale), SocINDEX with Full Text (EBSCOhost),
SOCIAL Services Abstracts (ProQuest), Sociological Abstracts (ProQuest),Web of Science, SIBI-USP. Nelas
pesquisaram-se os tópicos (assuntos) - “Mulheres na gestão da administração pública”; “Mulheres e gestão na
administração pública”; "Trabalho Feminino”, “Mulheres”, “Gênero”, “Gestão”, “Socioeducação"; “Women in public
administration management”; “Women in public administration”; “Women”, “Management”, “Gender”, “Social
Education”, “Women’s work”, durante o intervalo de 2013 a 2018.
27
Em tempos recentes, muito se tem estudado sobre a organização do trabalho, mas pouco
dispomos de dados clínicos que amparem o gestor nas dificuldades enfrentadas em seu cotidiano,
sob o ponto de vista da saúde.
Segre (1997), ao considerar a definição de saúde da Organização Mundial de Saúde – OMS
(1948), divulgado na carta de princípios de 7 de abril de 1948 como “um estado de completo bem-
estar físico, mental e social e não somente ausência de afecções e enfermidades”, acrescenta que,
a saúde é um direito social inerente à condição de cidadania, que deve ser assegurado sem distinção
de raça, religião, ideologia política ou condição socioeconômica, sendo, ainda, constituída sob um
valor coletivo.
Sob a ótica da psicossomática, Bion (1988) ressalta que o psíquico responde ao corporal e
vice-versa, havendo, portanto, um sistema onde não se delineia uma nítida divisão entre ambos.
Desse modo, as injunções sociais atuam sobre este aparato complexo que é o sujeito. Saúde implica
estilo e ritmo de vida culturais, modalidade da organização do trabalho, vida urbana, entre tantos
outros fatores, remetendo a uma suposta unidade “socio-psicossomática”.
No que diz respeito, especificamente, ao impacto da natureza do trabalho na sociedade
contemporânea sobre o sujeito, a psicodinâmica do trabalho traz grandes contribuições ao analisar
as formas de organização do trabalho que dificultam o trabalhador de manter seu funcionamento
mental pleno, tendo, assim, que lançar mão de um processo de repressão da vida “fantasmática”
que o induz a responder à excitacão através da somatização (Dejours, 1980).
Para tecer considerações sobre a ”unilateralidade” da definição de saúda dada pela OMS,
há que se discutir o conceito de “qualidade de vida”. Dentro da bioética e do conceito
de “autonomia”, entende-se que “qualidade de vida” seja algo intrínseco, somente passível de ser
avaliado pelo próprio sujeito. Prioriza-se a subjetividade, uma vez que, de acordo com o conceito
de Bion (1988), a realidade é a de cada um. Não há rótulos de “boa” ou “má” qualidade de vida,
embora, a saúde pública, para a elaboração de suas políticas, necessite de “indicadores”.
Assim, são imprescindíveis, dentro de uma sociedade, estatísticas que apontem índices de
“saúde-doença”. De modo geral, a doença não pode ser definida, é claro, apenas sob análises
estatísticas. Para sua definição faz-se mister considerar aspectos físicos, mentais, sociais e os que
se situarem fora da, assim chamada, “normalidade”.
28
Desse modo, Canguilhem (1990) define saúde como um estado ideal em que as forças
vitais predominam na harmonização da variabilidade biopsicossocial, próprias dos princípios
psico-orgânicos humanos, imersos no percurso existencial e na vida social.
Sob o ponto de vista filosófico humanista-existencial, de acordo com Ribeiro (2012), a
consciência é uma totalidade indivisível. O fenômeno é a totalidade consciente.
Mesmo quando não se apreendeu toda a realidade e se pensa que teve acesso à realidade
toda, a consciência continua dividida entre realidade e fantasia. A consciência é um lugar
onde as coisas se processam, onde relações criam compreensão, onde eventos são
ligados por relações de compreensão. Lugar significa um centro, um ponto de
convergência onde as informações da realidade externa, combinando-se encontram
significado. A consciência não produz conhecimento, ela é o lugar onde as coisas, os
eventos se fazem inteligíveis (...). Até que ponto eu capto a realidade como ela é ou como
eu penso que ela é? (Ribeiro, 2012, p. 83).
Nessa direção, esta pesquisa buscou identificar e descrever características sob óticas
diferentes e complementares, ou seja, o intuito é que, a partir da descrição do perfil do gestor e de
processos de saúde-doença, a autopercepção da realidade interna e os aspectos externos
(institucionais) pelos quais convergem o sentido do trabalho possam vir à tona. Consequentemente,
pode ser “a porta estandarte” para se (re)pensarem espaços de reflexões, visando ao
desenvolvimento de propostas atreladas à política pública de saúde mental direcionadas à gestão
da socioeducação do DF.
Primeiramente, a questão central que motivou este estudo foi: como está “a fotografia” de
saúde dos gestores que atuam na execução de medidas socioeducativas no Distrito Federal?
Considerando a saúde como uma “arte” indivisível, integral, sob a esfera transdisciplinar,
o tema do presente estudo são as relações entre qualidade de vida, sob o ponto de vista da saúde;
burnout; condições estruturais e sócio-relacionais de trabalho e a gestão do sistema socioeducativo
do Distrito Federal.
29
da qualidade de vida” é fundamental tanto para o bem individual quanto para o coletivo, sob
diversos aspectos, tendo em vista que os benefícios são maiores quando se tenta evitar que uma
certa disfunção possa atrapalhar o funcionamento da organização.
O terceiro artigo retratou essencialmente o contexto de trabalho dos gestores do sistema
socioeducativo do DF, identificando os aspectos “demanda”, “apoio” e “controle” no trabalho
propostos por Karasek (1985), através do JCQ. Após identificar e descrever os processos de
burnout e qualidade de vida da equipe gestora do sistema socioeducativo do DF, foram realizadas
as relações entre os fatores institucionais (demanda, apoio e controle organizacional), os domínios
sobressalentes da saúde física e saúde mental, de acordo com o SF-36, e os níveis de esgotamento
emocional, despersonalização e realização pessoal, tendo como referência o MBI-HSS.
Portanto, neste estudo, a partir da identificação das variáveis sociodemográficas e dos
questionários aplicados, evidenciou-se o grau de validade interna. Verificou-se também se e quais
fatores relacionados ao trabalho, como recursos e disponibilidade de condições e materiais para a
execução de tarefas, estavam ligados ou não à qualidade de vida vivida pelos gestores, bem como
se houve burnout ou não como consequência das demandas relacionadas ao trabalho.
Finalmente, após essa apresentação geral, ressalta-se que a disposição desta dissertação em
formato de artigos visa à difusão epistemológica, de forma a viabilizar maior acesso à comunidade
científica e àqueles que se interessam pelas especificidades dos temas, para além da totalidade do
universo “saúde mental”.
31
RESUMO
ABSTRACT
Research shows that overload, emotional exhaustion and lack of personal fulfillment affect
workers' health. The present paper aimed to identify the managerial profile of socio-educational
system in the Distrito Federal, Brazil, to verify and describe the frequency of the burnout levels,
as well as to identify the occurrence of the syndrome in the management team. Of the participants,
103 accessed the survey and of these, 48 completed all 105 items - sociodemographic issues further
health aspects and the three applied questionnaires. For this study, it was considered only the first
37 items that evaluated the manager profile and the Maslach Burnout Inventory-Human Services
1 Especialista Socioeducativa da SEJUS/DF. Aluna de Mestrado em Psicologia Clínica e Cultura da UnB. Mestre
em Psicologia Clínica, Psicopatologia e Psicologia da Saúde da Universidade Federal de Toulouse Jean Jaurès,
França. E-mail: [Link]@[Link]
2 Orientador da Pesquisa. Professor titular emérito da UnB e Unimontes (Phd). Fundador e presidente do IGTB,
Introdução
Estudos revelam que burnout pode ser considerado um grande problema no mundo
profissional. Como consequência de um processo de estresse crônico, vale ressaltar que, na
Europa, o estresse aparece como um dos fatores mais importantes em relação à diminuição da
qualidade da saúde na década de 90 (Golembiewsk, 1999).
Nas pesquisas sobre burnout, Schaufeli & Greenglass (2001) verificaram que o burnout é a
resposta a um estado prolongado de estresse e ocorre pela cronificação deste na tentativa de se
adaptar a uma situação claramente incômoda no trabalho. O estresse pode ter aspectos positivos
ou negativos, enquanto o burnout é sempre negativo e relacionado ao mundo do trabalho do
indivíduo, com a exaustiva atividade profissional.
Hans Seley definiu o estresse em seus primeiros estudos na área da saúde na década de
1930, como uma “síndrome geral de adaptação” na qual o organismo visa readquirir a homeostase
perdida diante de certos estímulos (Malagris & Fiorito, 2006). Lipp e Malagris (1995); Selye
(1974) redefiniram o termo estresse como “resposta não específica do corpo a qualquer exigência”.
Burnout é um termo proveniente da gíria inglesa (burn + out) utilizada para sintetizar
queima total, na engenharia aeronáutica. Nas ciências sociais é sinônimo de desgaste humano. No
jargão popular inglês, se refere àquilo que deixou de funcionar por absoluta falta de energia. Enfim,
uma metáfora para significar aquilo, ou aquele, que chegou ao seu limite e, por falta de energia,
não tem mais condições de desempenho físico ou mental (Benevides-Pereira, 2012). O termo
33
burnout foi introduzido para se referir a um fenômeno observado entre os trabalhadores de serviços
humanos que precisavam lidar com indivíduos emocionalmente exigentes.
A Organização Mundial de Saúde (WHO, 1999) indicou a relevância do burnout como um
problema de saúde pública, em que convocou um grupo internacional de estudiosos do assunto
como Cherniss dos Estados Unidos da América, Cooper do Reino Unido, entre outros, a fim de
elaborar medidas para a sua prevenção. Na Suécia, estima-se que a síndrome de burnout contribua
com mais do que o dobro de ausências para o trabalho (Mausner & Eaton, 2001).
A síndrome de burnout não consta no Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders
– DSM-5 – que oferece uma linguagem comum e critérios padrão para a classificação de
transtornos mentais, 5.ª edição, feito pela Associação Americana de Psiquiatria (American
Psychiatric Association, 2015). Esta foi incluída recentemente, em 2018, no International
Classification of Diseases – ICD (Código Internacional de Doenças) - CID, 11.ª edição (ICD-11-
Mortality and Morbidity Statistics, 2019), como a síndrome conceituada como resultante do
estresse crônico no local de trabalho que não foi gerenciado com sucesso. É caracterizado por três
dimensões: sentimentos de esgotamento ou diminuição de energia; aumento da distância mental
do trabalho, ou sentimentos de negativismo ou cinismo relacionados ao trabalho de alguém; e,
eficácia profissional reduzida. No CID-11, burnout refere-se especificamente a fenômenos no
contexto profissional (ocupacional) e não deve ser aplicado para descrever experiências em outras
áreas da vida.
Nas leis trabalhistas brasileiras, burnout consta como doença do trabalho, conforme
Decreto Nacional 3048/99: – Artigo II dos Agentes Patogênicos causadores de Doenças
Profissionais ou do Trabalho, identificando a causa da Síndrome de Burnout ou Síndrome do
Esgotamento Profissional por "ritmo de trabalho penoso", classificado pelo código Z56.3 do
International Classification of Diseases (ICD-10, 2016). O Decreto Nacional Brasileiro nº. 6.042,
de 12 de fevereiro de 2007, que alterou o Regulamento da Previdência Social, aprovado pelo
Decreto nº. 3.048, de 06 de maio de 1999, inseriu na lista B, a síndrome de burnout, no título
sobre transtornos mentais e do comportamento relacionados com o trabalho.
De acordo com o Guidelines for the Primary Prevention of Mental, Neurological and
Psychosocial disorders: Staff Burnout (WHO, 1999), a exaustão emocional abrange sentimentos
de desesperança, solidão, tristeza, raiva, impaciência, irritabilidade, tensão, sensação de baixa
energia, fraqueza e preocupação. Levanta-se a possibilidade de estar associada a cefaleias, náuseas,
34
incômodas sobre o valor pessoal e a realização pessoal. Esse sentimento de realização pessoal
enfatiza a eficácia e o sucesso em ter um impacto benéfico nas pessoas (Maslach, 1993).
Segundo Schaufeli (1999), a hipotética relação entre as escalas que caracterizam a
síndrome é que o esgotamento emocional é uma resposta a estressores emocionais no trabalho e é
a primeira fase do burnout. O indivíduo pode tentar lidar com os estressores afastando-se deles,
desenvolvendo uma resposta de distanciamento afetivo (despersonalização) em relação às pessoas.
Quando ocorre a "despersonalização", o indivíduo tende a avaliar-se criticamente em relação à sua
"realização profissional".
Para a enumeração dos fatores de risco para o desenvolvimento do burnout, a OMS (WHO,
1999) informou que são levadas em consideração quatro dimensões: a organização, o indivíduo, o
trabalho e a sociedade.
Dentre os fatores relacionados à organização (Maslach, 1993; Schaufeli & Greenglass,
2001) que influenciam o desenvolvimento de burnout destacam-se: burocracia (tempo gasto no
preenchimento de formulários, relatórios, participação em reuniões administrativas), falta de
autonomia, regras estritas, frequente mudanças nas regulamentações (induzindo o trabalhador a
erros), falta de confiança entre os membros da equipe, comunicação ineficiente e o ambiente físico
e os riscos, incluindo calor, frio e ruído excessivo ou insuficiente iluminação, falta de higiene, alto
risco tóxico e até a vida (gerando sentimentos de ansiedade, medo e impotência).
As Diretrizes do Guidelines for the Primary Prevention of Mental, Neurological and
Psychosocial disorders: Staff Burnout (WHO, 1999) revelaram que as características individuais
podem estar associadas a altas taxas de burnout. Os tipos de personalidade dessas características
propensos ao desenvolvimento de burnout, segundo Maslach (1993) e Schaufeli & Greenglass
(2001) que sobressaim-se são: super desenvolvimento (indivíduos empáticos, sensíveis e humanos,
com dedicação profissional, altruístas, obsessivos e entusiastas); indivíduos pessimistas,
perfeccionistas, com grandes expectativas, e que tentam controlar outros (têm dificuldade em
delegar tarefas e é difícil trabalhar em grupo). Além disso, se apresentam com locus de controle
interno (pessoas que acreditam que estão no controle da situação, enfrentando situações adversas
com otimismo e uma oportunidade para aprender) e sem resistência ao estresse (indivíduos
competitivos, bastante trabalhadores e impacientes, com excessiva habilidade de controlar
situações, dificuldade de tolerar frustração. Consideram que suas possibilidades e eventos da vida
são consequência da capacidade de outros, sorte ou destino).
36
Ainda distante da ótica conceitual descrita por Bisinoto et al., (2015), no que diz respeito à
realidade do sistema socioeducativo do Distrito Federal, especialmente aos fatores institucionais e
de trabalho, de acordo com Marçal (2007), uma consequência da não disseminação e internalização
sobre 'como fazer' é a redução do trabalho de gestão a atividades de ordem técnico-burocráticas,
em resposta aos requerimentos advindos do sistema de justiça.
37
É notório que a coletividade frente ao diálogo para a construção diária de novos 'saberes e
fazeres' fica em segundo plano, tendo em vista que o tempo é essencialmente dispendido à
execução de atividades que denotam uma espécie de 'defesa registrada' com justificativas para as
denúncias e ausências de encargos, que muitas vezes, caracterizam-se pela precariedade e
escassezes do sistema. Esse processo se dá por meio da confecção de pareceres e ofícios
recorrentes, 'escudados' por regulamentos que ponderam as ausências de insumo, competências, e,
de pessoal, diante a dificuldade do cumprimento de fato das ações sociopsicopedagógicas das
medidas.
Assim, faz-se necessária a significação não somente conceitual e metodológica acerca do
'fazer' socioeducativo, e sim, algo que precede: refiro-me à identificação do próprio sentido e
significância para si, enquanto profissional, do exercício cotidiano de executar atividades de gestão
em uma política pública transversal de tamanha complexidade. A partir de então, procede a busca
de estratégias e enfrentamento para lidar com as respectivas angústias, ansiedades e sensação de
impotência advindos das frustrações inerentes a este ambiente de trabalho.
Considerando que o sistema socioeducativo brasileiro ainda não avançou quanto ao
exercício da prática socioeducativa de acordo com os conceitos e pressupostos metodológicos,
Bisinoto (2017) propõe ainda que a docência na socioeducação se abasteça de novas práticas
calcadas na coletividade, ainda que haja discordâncias entre os profissionais e aqueles inseridos
na comunidade socioeducativa, para que o processo interativo possibilite transformações nas
construções sociais ativas, não apenas teóricas, mas empíricas.
Com isso, as questões que motivaram o desenvolvimento deste artigo foram: Os gestores do
sistema socioeducativo do Distrito Federal apresentam índices de burnout? Há relação entre o
cargo ocupado e o nível de esgotamento emocional e de realização pessoal desses gestores? Nesse
sentido, existe diferenciação por complexidade da função e entre os tipos de medida
socioeducativa, considerando as de meio aberto, semiliberdade e de internação? A pergunta central
foi: Os gestores estão apresentando características do desenvolvimento de burnout e/ou
vivenciando a síndrome?
Para tanto, este artigo objetivou identificar e descrever o perfil dos gestores, comparando as
semelhanças e diferenças sob os índices de burnout de dois grupos de posições hierárquicas
relacionadas ao planejamento e à operacionalização do sistema socioeducativo do Distrito Federal.
Especificamente, pretendeu-se neste estudo:
38
Método
39
Participantes
3
Dados fornecidos pela atual Coordenação de Políticas e Atenção à Saúde de Jovens e Adolescentes da SEJUS-DF
em março de 2019.
40
R$ 8,000. De maneira análoga ao Grupo 1, metade do Grupo 2 tem no máximo 1 ano de cargo
comissionado, entretanto, o mais antigo (homem) está na função há 7 anos. Diferente do grupo
anterior, cerca de 36% relataram ter pelo menos um diagnóstico de doença crônica. Apenas um
participante (homem) do grupo 2 afirmou não ter nenhum apoio emocional para lidar com
problemas, enquanto que cerca de 22% (8 de 36) estão em processo psicoterapêutico.
Com relação às outras atividades fora da SEJUS-DF realizadas pelos 48 participantes, 66%
afirmaram que se ocupam em tarefas domésticas, sendo 24 mulheres e 8 homens. Dos 37% que
executam atividades vinculadas à educação dos filhos, verificou-se 11 mulheres e 7 homens. Dos
gestores se ocupam em outros cursos, os quais totalizam 31% participantes, 12 são mulheres, e, 3,
homens. Há também, 18% em outros empregos. Cerca de 60% dos participantes consideram-se
"parcialmente satisfeito(a)" com o tempo destinado à lazer, cultura, esporte e/ou arte. Enquanto
que, apenas 22% afirmaram estar "totalmente satisfeito(a)". Dos 'parcialmente e totalmente'
satisfeitos, 26 são mulheres, e, 14, homens. Por fim, 16% não estão 'nada satisfeitos' com o tempo
destinado a essas atividades.
Materiais
Procedimentos
O convite para participar foi enviado aos ocupantes de cargos em comissão por meio da
plataforma online LimeSurvey, pela atual Coordenação de Políticas e Atenção à Saúde de Jovens
e Adolescentes da SEJUS-DF, nos meses de fevereiro e março de 2019 aos ocupantes de cargos
em comissão.
A amostra foi validada considerando a representatividade do número total de entrevistados
que preencheram todos os instrumentos de pesquisa (n= 48). O tempo médio para encher todos os
instrumentos foi de aproximadamente 40 minutos.
Resultados
Tabela 1
Gestores e os principais índices de características individuais de burnout
Fatores - Tipos Características
de Personalidade
Super desenvolvimento. “Sou empático(a), sensível, humano(a), com dedicação profissional,
altruísta, obsessivo(a), entusiasta", 68% "concorda parcialmente" e
27% "concorda totalmente".
Locus de controle interno. "Possuo domínio da situação em meu ambiente de trabalho", 60%
"concorda parcialmente", 25% "concorda totalmente" e 10%
"discorda parcialmente".
Indivíduos com grandes "Posso deixar de ser realista e ter grandes chances de me
expectativas. decepcionar", 29% "concorda parcialmente" e 12% "concorda
totalmente".
Nota. Fonte: Maslach, 1993; Schaufeli & Greenglass, 2001.
43
Com isso, apreendeu-se que 85% dos gestores acreditam possuírem habilidade de controle
(locus interno), 95% se veem com super desenvolvimento e 41% se percebem com altas
expectativas.
De acordo com a Tabela 2, os fatores relacionados à instituição que influenciaram o
desenvolvimento de burnout aos gestores foram:
Tabela 2
Aspectos da instituição e o desenvolvimento de burnout dos gestores
Fatores Consequências
Burocracia. "Você considera que há gasto de tempo excessivo e energia para execução de
tarefas, tais como: preenchimento de relatórios, documentos, e, reuniões",
41% "concorda parcialmente" e 12% "concorda totalmente".
Assim, concluiu-se 54% dos gestores percebem que há burocratização de regras e 87%
concordam que existem riscos relacionados ao ambiente físico. Sobre a falta de confiança, respeito
e consideração entre os membros da equipe, 39% concorda com esse aspecto. Com isso, percebeu-
se que considerado o aspecto de discordâncias, o índice de concordância é preponderante e como
consequência disso, evidenciou-se um clima social prejudicial.
Para a validação externa desta pesquisa, os resultados foram analisados de forma
comparativa entre grupos gestores com objetivos de generalizar os resultados considerando a
exigência de execução de tarefas por cargos gerenciais e departamentos distintos.
Tabela 3
Nível de cada escala do MBI-HSS de todos os participantes (n = 48)
Na Tabela 4, a frequência de cada nível pode ser observada nas escalas do MBI-HSS dos
participantes com síndrome de burnout. Destes 14 participantes, a maioria apresentou um alto grau
nas escalas MBI-HSS, com exceção da escala MBI-DE e MBI-RP. Vale ressaltar que cerca de 64%
desses gestores com síndrome de burnout (9 de 14) afirmaram não estar em processo
psicoterapêutico.
Tabela 4
Nível de cada escala MBI-HSS dos participantes diagnosticados com a síndrome de burnout (n = 14)
Nível MBI-EE MBI-RP MBI-DE
Baixo 7% (1) 78% (11) 42% (6)
Moderado 7% (1) 7% (1) 0% (0)
Alto 85% (12) 14% (2) 57% (8)
45
Observando a Tabela 5, pôde-se concluir que não observou-se diferença significativa entre
os níveis de burnout dos dois grupos estudados, pois os resultados dos testes (p) foi maior que o
nível de significância adotado (0,05). A consistência interna das respostas de todos os participantes
(n = 48) é representada por α. Para as escalas EE e RP o nível de consistência foi aceitável (0,87 e
0,84 respectivamente), já para a escala de DE, o nível de consistência não foi aceitável (α = 0,46).
Tabela 5
Níveis de burnout para dois grupos de posições hierárquicas
Grupo 1 Grupo 2
Índice
M DP M DP p α
Esgotamento Emocional 43,00 26,74 50,83 31,06 0,475 0,87
Despersonalização 53,17 26,80 44,72 31,65 0,416 0,46
Realização Pessoal 53,25 19,94 46,06 31,98 0,424 0,84
Nota. M: Média; DP: Desvio Padrão; p: p-value (Teste de Wilcoxon-Mann-Whitney); α: Alfa de Cronbach.
Assim, conforme Tabela 5, baseado no índice de p, a primeira hipótese de que gestores que
ocupam posições hierárquicas superiores sob níveis de responsabilidade gerencial mais elevados,
há maior propensão de apresentarem níveis altos de burnout não foi comprovada, tendo em vista
que os resultados dos testes (p) foi maior que o nível de significância, mostrando que os dois
grupos são estatisticamente equivalentes nesta amostra com relação às escalas do MBI-HSS.
De forma geral, apreendeu-se pelas médias, que o Grupo 1 é menos propenso ao
desenvolvimento de burnout, considerando que o índice de realização pessoal foi maior (mas não
de forma siginificativa, p 0,424). Para o domínio esgotamento emocional, este foi preponderante
com acréscimo de 7% ao Grupo 2. Com isso, pôde-se afirmar, grosso modo que, independente da
hierarquização de cargos, há um alto nível de esgotamento emocional vivenciado por ambos os
grupos, como se evidenciou na Tabela 5. Assim, a primeira hipótese deste artigo não foi
confirmada.
Em relação à síndrome de burnout, ainda que o quantitativo de participantes do Grupo 1
(16 participantes) seja metade do Grupo 2 (32 participantes), não houve parâmetro para
comparação, pois nenhum participante do Grupo 1 foi diagnosticado com a síndrome de burnout.
O Grupo 2 foi o único que teve participantes diagnosticados com esta síndrome, totalizando 14.
Acrescenta-se que conforme a estrutura de cargos do sistema socioeducativo do DF, as funções
46
correspondentes aos cargos contidos no Grupo 1 possuem a proporção duas vezes maior que
aquelas relacionadas ao Grupo 1.
De acordo com o teste de Wilcoxon-Mann-Whitney, não existiu diferença significativa na
propensão de burnout entre os participantes com mais de um ano na mesma função e os que estão
há menos de um ano, tendo em vista os valores p iguais a 0,612; 0,513; e, 0,175 para as respectivas
escalas EE, RP e DE, não confirmando também, a segunda hipótese desta pesquisa de que pessoas
com mais de um ano na mesma função estariam mais propensas à síndrome de burnout.
A mesma conclusão também se aplicou ao tempo de trabalho em diferentes funções, com
valores p iguais a 0,5914; 0,5907; e, 0,7873 para as escalas EE, RP e DE. Portanto,
independentemente do tempo de trabalho, seja na mesma função ou em cargos diferentes este fator
não se mostrou significativo para o desenvolvimento de maiores escalas de burnout. É importante
ressaltar que apenas cerca de 25% dos participantes estão no mesmo cargo de gestão há mais de
três anos.
O modelo final, após o ajuste por meio de uma Análise de Componentes Principais com a
rotação varimax, apresentou uma estrutura simples e semelhante ao modelo original do MBI-HSS.
A distribuição das cargas fatoriais obtidas pela análise fatorial fixada em 3 fatores e aplicada à
amostra total (n = 48) é apresentado na Tabela 6.
Tabela 6
Análise Fatorial para o Maslach Burnout Inventory - Human Services Survey (MBI-HSS)
47
Fatores
Item Comunalidade
1 2 3
EE3 - cansado de manhã 0,87 -0,14 -0,02 0,77
EE2 – consumido 0,81 -0,16 0,11 0,69
EE8 – esgotado 0,77 -0,25 0,26 0,72
EE20 - fim da linha 0,77 -0,05 -0,17 0,62
EE1 – sugado 0,76 -0,06 0,10 0,59
EE13 – frustrado 0,70 -0,10 -0,22 0,55
EE14 - trabalhando demais 0,67 0,02 -0,03 0,45
EE16 - trabalhar com pessoas gera estresse 0,37 -0,53 0,17 0,45
EE6 - trabalhar com pessoas gera tensão 0,14 -0,48 0,28 0,33
DE5 - trato as pessoas como objetos 0,26 -0,17 0,42 0,27
DE15 - não me preocupo com as pessoas da
0,26 -0,11 0,41 0,25
equipe
DE22 - a equipe me culpa por seus problemas 0,52 -0,03 0,30 0,37
DE10 - insensível às pessoas 0,49 0,18 -0,27 0,35
DE11 - preocupado com o endurecimento afetivo 0,46 -0,32 -0,11 0,32
RP7 - lido com problemas de maneira eficaz 0,02 0,85 0,05 0,72
RP19 - realizações valiosas -0,14 0,76 0,14 0,61
RP9 - influencio positivamente 0,09 0,72 0,23 0,58
RP21 - lido com problemas emocionais em
-0,03 0,70 0,07 0,50
silêncio
RP12 - muito disposto -0,22 0,57 0,50 0,62
RP17 - crio um ambiente calmo -0,23 0,46 0,62 0,65
RP18 - animado para trabalhar com a equipe -0,23 0,32 0,70 0,64
RP4 - eu entendo as pessoas -0,11 0,17 0,68 0,50
Nota. Fonte: Ramos, 2010; Maslach, 1993.
A variância total explicada pelo modelo ajustado é de 52%, em que 24% é explicada pelo
fator 1, correspondente à escada EE. Para destaque de índices satisfatórios, cargas fatoriais acima
de 0,50 foram sombreadas em cada escala. Nessa direção, para um melhor ajuste, os itens com
cargas fatoriais menores que 0,40 foram retirados do modelo. Ambos os modelos (um com todos
os itens e outro com os itens de carga fatorial maior que 0,40) foram comparados por meio de uma
análise confirmatória.
Ressalta-se que não é possível apresentar um índice geral das três escalas, tendo em vista
o cálculo das respostas ocorrerem separadamente, conforme o manual do instrumental MBI-HSS
(Maslach, Jackson, & Leiter, 1996).
Notou-se também que a escala original do MBI-HSS precisou de algumas adaptações
pontuais para se ajustar de maneira satisfatória à variabilidade das respostas dos participantes, ou
seja, os itens 4, 6, 10, 11, 16, 18, e, 22 foram removidos para uma melhor adequabilidade aos
dados. Essa melhor adequabilidade pode ser elucidada com mais detalhes na subseção a seguir.
48
Na Tabela 7, são apresentados os índices de qualidade dos dois modelos de análise fatorial:
o primeiro com todos os itens e o segundo apenas com aqueles de carga fatorial maior que 0,40. O
estimador utilizado foi o de máxima verossimilhança. Também nesta tabela, pode se concluir que
o modelo ajustado apenas com itens de cargas fatoriais maiores que 0,40 foi mais significativo,
apesar de ter obtido RMSEA = 0,070.
Tabela 7
Análise fatorial confirmatória para o Maslach Burnout Inventory - Human Services Survey (MBI-
HSS)
CFI TLI RMSEA
Modelo
≥ 0,900 ≥ 0,900 ≤ 0,060
Com todos os itens 0,726 0,693 0,112
Itens com carga fatorial acima de 0,933 0,919 0,070
0,40
Nota. CFI: Comparative Fit Index (Índice de Ajustamento Comparativo); TLI: Tucker-Lewis Index (Índice de Tucker-
Lewis); RMSEA: Root-Mean-Square Error of Aproximation (Raiz do Erro Médio Quadrádico de Aproximação).
Do ponto de vista de burnout, Schaufeli & Greenglass (2001) constataram que as maiores
taxas de burnout estão correlacionadas a características multifatorias, incluindo, o trabalho e a
instituição. Conforme apresentado na Tabela 2, as particularidades sobressalentes do trabalho e os
altos índices ao desenvolvimento de burnout que fazem parte da realidade dos gestores no sistema
socioeducativo do Distrito Federal foram: sobrecarga; quantidade excessiva de demandas, em que
a pressão no trabalho resulta principalmente no aparecimento de esgotamento emocional (o MBI-
EE foi o principal fator relacionado ao desenvolvimento de burnout, evidenciado nas Tabelas 3 e
4); trabalhar por escalas noturnas (o cargo "chefe de plantão" contido no Grupo 2 da Tabela 5
ocupa parte considerável do organograma da organização); apoio organizacional precário;
conflitos funcionais e ambiguidade de função (destaca-se que os gestores não possuem capacitação
profissional para desenvolver as tarefas de suas funções).
Ainda sob a consistência em pesquisas prévias, Schaufeli & Greenglass (2001) descreveram
outras características da instituição que reforçam o desenvolvimento de burnout, as quais no
49
Observou-se ainda que, em direção oposta aos estudos de Nadaoka et al. (1997), sobre
oficiais gestores japoneses, para a amostra desta pesquisa, não houve relação entre o cargo ocupado
e o nível de esgotamento emocional e de realização pessoal, tampouco por complexidade da função
e entre os tipos de medida socioeducativa, assim como o tempo em exercício na respectiva função,
não confirmando as hipóteses deste artigo. Nesse sentido, fortalece outra hipótese, a de que o
esgotamento emocional, aliado à sobrecarga de trabalho, está relacionado fortemente às
características individuais, de trabalho e institucionais, conforme os resultados desta amostra. No
âmbito das características individuais, os fatores de personalidade dos gestores devem ser
considerados de grande relevância para o desenvolvimento de burnout.
Estas reflexões acerca do perfil dos gestores é o passo inicial para identificar o processo de
desenvolvimento de burnout e as tendências para a propensão da síndrome. O propósito, por fim,
sob um ponto de vista macro, é dar vazão ao sentido do trabalho para que (res)significações possam
vir à tona sob parâmetros individuais e formações coletivas, no ambiente laboral.
Em relação às pesquisas posteriores, sugere-se que seja dada relevância às correlações entre
os fatores atrelados para além da exaustão (e sua conexão com a sobrecarga de trabalho), pois a
dimensão esgotamento captura o problema de falta de energia suficiente para dar uma contribuição
útil e duradoura no trabalho. Segundo Ferreira & Mendes (2003), é a dimensão do cinismo que
capta a dificuldade de lidar com outras pessoas e atividades no mundo do trabalho. Nessa seara,
faz-se pertinente avaliar minuciosamente se as relações de cinismo estão 'mascaradas' sob um
relacionamento 'satisfatório entre os membros da equipe', pois fatores ligados à cultura tendem a
‘regra’ da 'política de boa vizinhança', em especial, quando associado ao papel de 'estar parte da
gestão'. Ferreira e Mendes (2003) ainda realçam que a experiência do cinismo pode ser mais uma
parte essencial do burnout do que a da exaustão. Adiante, para estudos futuros, faz-se pertinente
investigar mais a fundo características ligadas ao nível de despersonalização, pois neste artigo este
domínio não foi validado para esta amostra.
Em contrapartida, para os gestores participantes desta pesquisa, comprovou-se que 50% se
percebem com níveis baixos e moderados de realização pessoal, fator este que revela que o cinismo
pode estar mais conectado ao ambiente de trabalho. De acordo com Ferreira & Mendes (2003), em
termos da baixa qualidade das relações sociais no trabalho e da falta de recursos críticos, o cinismo
pode levar à redução da satisfação no trabalho, o que está diretamente ligado à realização pessoal.
Em média, 50% dos gestores referem-se à burocratização e frequentes mudanças em processos
52
Agradecimentos
Agradecemos imensamente a atual equipe gestora do Sistema Socioeducativo do Distrito
Federal pela colaboração na realização desta pesquisa.
Referências
Bisinoto, C.; Brigitte, O.; Arraes, J.; Yoshii, C.; Amorim, G. e Stemler, L. (2015). Socioeducação:
origem, significado e implicações para o atendimento socioeducativo. Psicologia em Estudo,
vol. 20, (4), 575-585.
54
Golembiewsk RT. (1999). Next stage of Burnout research and application. Psychol Rep; 84:443-
446.
Hu, L. T. e Bentler, P. M. (1999). Cutoff criteria for fit indexes in covariance structure analysis:
conventional criteria versus new alternatives. Structural equation modeling: a
multidisciplinary journal. 6 (1), 1–55.
International Classification of Diseases - ICD-11. (2019). Mortality and Morbidity Statistics. 11th
Revision. In: [Link]
Lipp, M. E. N., & Malagris, L. E. N. (1995). Manejo do estresse. In B. Range (Org.), Psicoterapia
Comportamental e cognitiva: pesquisa, prática, aplicações e problemas (p.279-292).
Campinas: Ed. Psy II.
Malagris L. E. N. & Fiorito A. C. C., (2006). Avaliação do nível de stress de técnicos da área da
saúde. Retrieved from: <[Link]
Maslach, C., Schaufeli, W.B., Leiter, M.P. (2001). Job burnout. Annual Review of Psychology, 52:
397-422.
Nadaoka, T., Kashiwakura, M., Oiji, A., Morioka, Y., Totsuka S. (1997). Stress and psychiatric
disorders in local government officials in Japan, in relation to their employment level. Acta
Psychiatr Scand;96(3):176-83.
WHO (1999). Guidelines for the primary prevention of mental, neurological and psychosocial
disorders: staff burnout. Germany: Division of Mental Health World Health Organization.
R Core Team. (2019). R: a language and environment for statistical computing. R Foundation for
Statistical Computing. Vienna, Austria. Retrieved from [Link]
Ramos, T. (2010). Validade fatorial do Maslach Burnout Inventory-Human Services Survey (MBI-
HSS) em uma amostra brasileira de auxiliares de Enfermagem de um Hospital Universitário:
influência da depressão. São Paulo. Dissertação (mestrado). Faculdade de Medicina da
Universidade de São Paulo. Programa de Psiquiatria.
Schaufeli W. (1999). Burnout. In: Payne JF-CR, editor. Stress in Health Professionals.
Schaufeli, W. B. & Greenglass, E. R. (2001). Introduction to special issue on burnout and health.
Psychology Health, 16 (5), 501–510.
Seligmann-Silva, E. (2011). Trabalho e Desgaste Mental: o direito de ser dono de si mesmo. São
Paulo: Cortez.
56
RESUMO
A Organização Mundial da Saúde vem destacando, em tempos recentes, a qualidade de vida como
a percepção do indivíduo sobre a sua posição na vida, cultura e sistemas de valores, abrangendo a
saúde. Nesse sentido, a qualidade de vida está diretamente relacionada às interações vividas nas
relações, inclusive as vivenciadas no contexto do trabalho. Especificamente, este estudo teve como
propósito identificar e descrever os componentes de saúde física e mental sob os processos de
saúde para avaliar a qualidade de vida da equipe gestora socioeducativa do Distrito Federal.
Através do instrumental Medical Outcomes Study SF-36 Health Survey, partindo de uma análise
estatística descritiva com correlações, análise fatorial e testes de hipóteses não paramétricos,
objetivou-se identificar a frequência das escalas deste questionário. Esta análise considerou a
hierarquização de cargos por departamentos da organização socioeducativa e contou com 48
participantes que finalizaram os 105 itens subdivididos em dados sociodemográficos, questões de
saúde relacionadas à burnout e 3 questionários que avaliam a saúde. Para a coleta de dados,
utilizou-se, neste artigo, o SF-36, sob a escala likert, analisado a partir da identificação dos dados
sociodemográficos dos participantes. Após este procedimento, procedeu-se a correlação dos
índices mais relevantes do questionário Maslach Burnout Inventory-Human Services Survey (MBI-
HSS), tendo por finalidade o destaque às vivências de saúde e a qualidade de vida dos gestores. Os
resultados apontaram diferenças significativas entre os níveis de saúde física e mental. Enquanto
os índices de saúde física foram elevados, a baixa qualidade de vida foi evidenciada sob o aspecto
da saúde mental. Sobre a qualidade de vida relacionada ao desenvolvimento de burnout, constatou-
se que, quanto maior o esgotamento emocional, mais as relações com a equipe de trabalho são
afetadas. Com relação à saúde mental, notou-se uma correlação significativa entre saúde mental e
vitalidade, ou seja, quanto maior a vitalidade, melhor tende a ser a saúde mental e quanto menor o
esgotamento emocional, maior a qualidade da saúde mental do gestor. De forma geral, este estudo
intenciona apresentar à comunidade socioeducativa, incluindo governantes que gerenciam a
administração dessa política pública, o “retrato de saúde" dos gestores, de forma a propiciar
reflexões sobre a escolha de gerenciar um sistema complexo, conciliando e/ou privilegiando ou
desconsiderando a“vivacidade” de sua própria saúde. Além disso, considera-se que verificar como
está "a fotografia” de saúde dos gestores que atuam na execução de medidas socioeducativas no
Distrito Federal pode contribuir com o avanço das pesquisas sobre os processos de saúde da gestão
da administração pública, particularmente a do sistema socioeducativo.
1Aluna de Mestrado em Psicologia Clínica e Cultura da UnB. Mestre em Psicologia Clínica, Psicopatologia e
Psicologia da Saúde da Universidade Federal de Toulouse Jean Jaurès, França. Especialista Socioeducativa da
SEJUS/DF. E-mail: [Link]@[Link].
2 Orientador da
Pesquisa. Professor titular emérito da UnB e Unimontes (Phd). Fundador e presidente do IGTB,
charter member of the IGTA.
57
ABSTRACT
The World Health Organization has recently highlighted quality of life as the individual's
perception of their position in life, culture and value systems, encompassing health. In this sense,
quality of life is directly related to interactions experienced in relations, including those
experienced in the work context. Specifically, this study aimed to identify and describe the
physical and mental health components on health processes to assess the quality of life of the socio-
educational management team of the Distrito Federal, Brazil. Through the Medical Outcomes
Study SF-36 Health Survey, based on a descriptive statistical analysis with correlations, factor
analysis and multiple regression, the objective was to identify the frequency of the domains of this
questionnaire. This analysis considered the hierarchy of positions by departments of the socio-
educational organization. Of the 48 participants who completed the 105 items about
sociodemographic data, health issues related to burnout, and 3 health questionnaires, the SF-36,
under the likert scale, was analyzed in this article, from the identification of sociodemographic
data of participants. After this analysis, the most relevant indices of the Maslach Burnout
Inventory-Human Services Survey (MBI-HSS) questionnaire were correlated with the purpose of
highlighting the health experiences and the quality of life of managers. The results showed
significant differences between physical and mental health levels. While the physical health
indexes were high, the low quality of life was evidenced from the mental health aspect. Regarding
the quality of life related to the development of burnout, it was found that the greater the emotional
exhaustion, the more the relationships with the work team are affected. Regarding mental health,
a moderately strong correlation was noted between mental health and vitality, it was verified, the
higher the vitality, the better the mental health tends to be and the lower the emotional exhaustion,
the higher the quality of the manager's mental health. In general, this study intends to present to
the socio-educational community, including governors who manage the administration of this
public policy, the “health portrait” of managers, in order to provide reflections on the choice of
managing a complex system, reconciling and / or privileging and / or disregarding the 'vividness'
of their own [Link] addition, it is considered that verifying the health 'photography' of managers
who works with socio-educational measures in the Distrito Federal Brazil, may contribute to the
advancement of research on health processes to managers of public administration, particularly
that of the socio-educational system.
Introdução
A Organização Mundial de Saúde (WHO, 1994) considera que, para viver uma 'boa saúde',
faz-se necessário basicamente o acesso a serviços de prevenção e assistência médica de qualidade;
ter um padrão financeiro que proporcione qualidade de vida, educação e vida social 'adequada',
58
contar com reservas naturais de qualidade, água potável, ar com baixos índices de poluição,
trabalho em condições adequadas e segurança, considerar aspectos hereditários – genéticos,
atentar-se a uma rotina que trate questões ligadas a bebidas alcoólicas, outras substâncias químicas
e dificuldades psicológicas. A falta de atividades físicas é outro fator importante a ser analisado
(Souza et al., 2019).
Nesse panorama, saúde é entendida como um princípio orientador e estimulante da efetiva
contemplação de questões relacionadas aos agravos que as injustiças sociais e os problemas
ambientais produzem na saúde, assim como a criação de ambientes favoráveis (Bezerra &
Sorpreso, 2016). Com isso, uma boa percepção da saúde é importante para avaliar se o quadro de
saúde da população é satisfatório, além de poder definir se as intervenções de assistência à saúde
estão sendo benéficas. Entretanto, muitas medidas existentes focavam na mortalidade e morbidade
(Brazier et al., 1992). Houve também quem apontasse ter boa saúde por não apresentar doenças
associadas. Vale destacar a premissa da OMS que: "saúde é um estado de completo bem-estar
físico, mental e social e não apenas a ausência de doença ou enfermidade" (WHO, 1986).
No Brasil, a saúde é um dos direitos à cidadania fixados na Constituição da República
Federativa do Brasil (1988). Os artigos 196, 197, 198 e 199 abordam este tema. É dever do Estado
garantir boas condições de acesso à saúde. A legislação remete à ideia de uma “saúde ótima”,
possivelmente inatingível e utópica já que a mudança e não a estabilidade é predominante na vida.
Sob este prisma, saúde não é um “estado estável”, que uma vez atingido, possa ser mantido.
A própria compreensão de saúde tem também alto grau de subjetividade e determinação
histórica, na medida em que indivíduos e sociedades consideram ter mais ou menos saúde
dependendo do momento, do referencial e dos valores que atribuam a uma situação (Boorse, 1977).
Para falar de saúde é necessário qualificar tanto a experiência ideológica do sujeito (e
como ele entende/interpreta seu sofrimento), a partir de uma escuta qualificada de sua
fala, quanto os sentidos sociais, culturalmente partilhados pela comunidade da qual faz
parte. No núcleo da ideia de identidade existe a autointerpretação. Só podemos ter
identidade se estamos comprometidos, saibamos ou não, com questões de valor moral. Ou
seja, com o que nos capacita definir o que é importante para nós. Ter identidade, nesse
sentido, concerne nem tanto ao que você faz, mas ao ‘lugar’ a que você pertence. O senso,
o sentido de quem somos nós, é ligado ao tecido que nos é dado socialmente, baseado em
tradições, práticas compartilhadas, instituições, imaginário social, e não apenas em
escolhas pessoais por meio da autorreflexão. Assim, como pessoas, 'não temos apenas
desejos, mas desejos sobre quais desejos ter' (Brinkmann, 2008, p. 409).
59
Zanello (2018) salienta que a 'criação de tipos humanos' interpela as identidades e de forma
simultânea, as práticas institucionais e mudanças materiais estão interligadas a esse processo de
construção identitária.
que o interesse no conceito deste termo é relativamente recente e se deve, de alguma forma, aos
novos paradigmas que influenciaram as políticas e práticas do setor em anos recentes. Os
determinantes do processo saúde-doença são multifatoriais e complexos. Assim, a saúde e a doença
constituem processos entendidos como um continuum, relacionado à experiência e aos estilos de
vida econômicos, socioculturais e pessoais.
Dessa forma, de acordo com a OMS (WHO, 1994), a definição de qualidade de vida pode
ser entendida como a percepção do indivíduo sobre a sua posição na vida, no contexto da cultura
e sistemas de valores em que vive, e, em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e
interesses (Seidl e Zannon, 2004, p.1405).
Qualidade de Vida ganha proeminência como conceito à medida que os departamentos do
governo estabelecem avaliações de programas. O que pode, no entanto, ser esperado por aqueles
que gerem e administram políticas, é que a política sobre a qualidade de vida possa alterar o
ambiente, a prestação de serviços, a distribuição de riqueza, e assim por diante, e que tais fatores
influenciarão sobre as percepções de qualidade de vida. O nível de felicidade ou bem-estar
subjetivo, que resulta disso, entretanto, será determinado, pode-se argumentar, por traços
individuais de personalidade. A saúde física será um grande impacto nas percepções da "qualidade
de vida". No entanto, nos últimos anos, tem sido argumentado que, em nível de governo, as
políticas têm um grande impacto sobre a probabilidade de problemas de saúde (Older, 2005).
Assim, faz-se primordial a disseminação social desmitificando o conceito de qualidade de
vida associado ao mito de felicidade e buscar como recurso em organizações que percebem que a
saúde do trabalhador está diretamente proporcional ao nível de produtividade. Ainda que o
interesse da política neoliberal esteja associado à produtividade e ao lucro, a ideia é de trazer luz
à realidade direta de que 'quanto mais elevada a qualidade de vida da população, maior a
probabilidade do nível de produtividade', considerando o bem-estar e limitações de ordem psíquica
e física individuais.
Nas pesquisas acerca da avaliação de qualidade de vida, o SF-36 é um instrumento de
medida designado para o uso em prática clínica e pesquisa, evolução em políticas de saúde e
pesquisas para a população em geral (Bowling & Brazier, 1995). Por ser o mais utilizado para
avaliação da qualidade de vida, sob o ponto de vista da saúde, o SF-36 foi o instrumento escolhido
para análise do presente estudo.
61
Essencial destacar neste estudo que, embora o instrumental utilizado traga um panorama
da saúde, subdivido em escalas de saúde física e mental, o objetivo de análise, ao final, é integrá-
los, contemplando uma análise do indivíduo em suas características multifacetada e unas. Com
isso, quero dizer que, de acordo com Goldstein, sob a teoria organísmica, "o organismo é uma só
unidade; o que ocorre em uma parte, afeta o todo”. A pessoa é integrada e consistente (Goldstein,
1939, p. 307).
Ribeiro (2019) enfatiza ainda que, sob o aspecto da saúde, a organização é natural ao
organismo e a desorganização é patológica.
Desenvolver-se em um meio apropriado significa formar uma personalidade sadia e
integrada. Não há nada que seja naturalmente mau no organismo; faz-se mau por
interferência do ambiente inadequado. O princípio da equalização do organismo explica
a consistência, a coerência e a ordenação do comportamento, apesar da influência de
estímulos perturbadores (Goldstein, 1939, p. 307).
Assim, esse estudo intencionou identificar aspectos da saúde, sob o instrumental descrito
(SF-36), não no sentido de 'desmembrar' características de saúde evidenciadas pelos gestores no
contexto da socioeducação, e sim, de apresentá-las, sem perder de vista a interação, correlação e
interdependência, no sentido uno do funcionamento do organismo, como aponta Goldstein.
Ribeiro (2019) acrescenta que saúde resulta de um encontro de partes, em um sistema
específico, em que o todo, de forma harmoniosa pode expressar um contato transformador. Saúde,
em suma, é a fusão de um encontro saudável entre a realidade vivente e a interação com o
organismo, dentro de um encontro de diferenças que se respeitam, na procura de uma unidade de
sentido.
Com isso, a ideia geral deste artigo é fotografar a qualidade de vida dos gestores do sistema
socioeducativo do Distrito Federal, no sentido de que, identificando as partes, faz-se possível
'alinhavar' o todo.
Tendo em vista a qualidade de vida abranger aspectos de saúde física e mental, o SF-36
tem sido de suma importância para vincular a vivência de estresse, incluindo o estresse crônico no
trabalho, a resultados adversos à saúde física e mental (Siegrist, 1996), tais como processos de
ansiedade, depressão (Murcia, Chastang, & Niedhammer, 2013) e burnout (Anderson & Publich,
2001).
Em revisão sistemática e meta-análise de 485 estudos com uma amostra de 267.995
indivíduos, avaliaram-se evidências que relacionavam satisfação com o trabalho ao bem-estar
62
físico e mental (Reime & Steiner, 2001). Houve forte associação entre baixos níveis de satisfação
com o trabalho e problemas mentais e psicológicos como burnout, baixa autoestima, tristeza e
ansiedade.
Ferreira & Mendes (2003) associam o conceito de saúde no trabalho à busca permanente
pela integridade física, psíquica e social. Assim, a pergunta que motivou este artigo foi: Como está
a qualidade de vida, sob o ponto de vista da saúde, dos gestores do sistema socioeducativo do
Distrito Federal? Consequentemente, os gestores estão vivendo um processo saudável dentro na
organização, no contexto de trabalho? Como está a percepção de si, sob os aspectos de saúde?
De acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA - Lei Federal 8069/90 (Brasil
(1990), medidas socioeducativas são medidas aplicáveis ao adolescente que pratica um ato
infracional (a conduta descrita como crime ou contravenção penal). A medida somente é aplicada
após o devido processo legal, podendo ser não privativas de liberdade (medidas de meio aberto),
não restritiva de liberdade (semiliberdade) e privativa de liberdade (internação).
Nesta pesquisa, o objeto de estudo são os gestores do sistema socioeducativo do Distrito
Federal. A Subsecretaria do Sistema Socioeducativo – SUBSIS elabora, coordena e executa a
política de atendimento do adolescente autor de ato infracional. Entre as diretrizes desta política
pública de acordo com o Sistema Nacional Socioeducativo – Lei 12.594/2012 – SINASE estão,
além da responsabilização do jovem, o resgate da convivência familiar, o incentivo ao estudo, o
fortalecimento de vínculos comunitários e o estímulo à autonomia por meio da participação social.
Com contribuições críticas, apontando a realidade da socioeducação brasileira, Yokoy de
Souza (2012), em sua tese de doutorado, enfatiza que: "a saúde dos profissionais dos programas
de atendimento socioeducativo é tema secundário nas pesquisas atuais e não existem dados
epidemiológicos sistematizados sobre os processos de adoecimento no trabalho para essa
população" (Yokoy de Souza, 2012, p. 7), quiçá à saúde voltada a gestores que, em tese, se
debruçam a formar a socioeducação brasileira pautada fundamentalmente no SINASE e I Plano
Decenal de Atendimento Socioeducativo – PDASE, elaborado em 2016.
A saúde dos educadores sociais é tema que emerge indiretamente e que remete a relatos
sobre a precariedade das condições e dos meios de trabalho, sobre a baixa qualidade de
vida no ambiente de trabalho, bem como sobre os principais sintomas percebidos fora da
unidade socioeducativa (Yokoy de Souza, 2012, p. 7; Roman, 2009; Romans, Patrus e
Trilla, 2003).
63
Método
Participantes
acessaram o convite para participação desta pesquisa. O convite para participar foi enviado aos
ocupantes de cargos em comissão por meio da plataforma online LimeSurvey. Destes 180
participantes, 103 responderam algumas questões dos questionários e 48 deles concluíram
completamente a todas as perguntas e questionários.
Materiais
de burnout ligado aos aspectos institucionais e às escalas do MBI com as medidas de saúde
(verificadas pelo SF-36). As variáveis dependentes foram: PCS e MCS; e as independentes: MBI-
EE (escala de esgotamento emocional), MBI-DE (escala de despersonalização), MBI-RP (escala
de realização pessoal).
Dado que um dos objetivos da pesquisa foi avaliar se houve diferença significativa entre os
níveis de saúde, de acordo com os cargos ocupados pelos gestores, utilizou-se o teste não
paramétrico de Wilcoxon-Mann-Whitney. Além disso, o teste de Kruskal-Wallis foi usado para
comparar saúde física ou mental e relações sociais no trabalho.
Procedimentos
Resultados
não possuir nenhum diagnóstico de doença crônica. Todos afirmaram ter algum suporte emocional
para lidar com problemas em geral e um se encontra em processo psicoterápico.
O outro Grupo foi formado por 36 gestores (participantes ocupantes de cargos comissionados
correspondentes ao gerenciamento ligado à operacionalização e/ou assessoramento na execução
da política pública da socioeducação do DF), contendo 24 mulheres e 12 homens, sendo 23
'solteiros' e 13 'em um relacionamento'. Este Grupo referiu-se aos cargos hierárquicos de execução
operacional de gestão e assessoria, podendo conter as funções de vice-diretor; gerente; assessor;
assessor da escola; chefe de plantão; e supervisor. A 𝑀𝐼𝑑𝑎𝑑𝑒 = 40 e variou entre 28-59 anos.
Diferente do Grupo 1, aproximadamente 36% informaram ter pelo menos um diagnóstico de
doença crônica e somente um gestor deste Grupo mencionou não possuir apoio emocional para
lidar com problemas, enquanto que, cerca de 22% estão em processo psicoterapêutico.
Sobre suas atividades extras as da secretaria (realizadas pelos 48 participantes), 66%
informaram exercer atividades domésticas e 37% executam atividades vinculadas à educação dos
filhos. Já 31% dos participantes se ocupam em outros cursos e 18% em outros empregos. Cerca de
60% dos participantes consideram-se 'parcialmente satisfeitos' com o tempo empregado em suas
atividades de lazer, cultura, esporte e/ou arte. Somente 22% relataram estar plenamente satisfeitos
e 16% não estão satisfeitos com o tempo direcionado à diversão, cultura, atividades esportivas e/ou
artísticas.
Esses dados são importantes para ponderar que os resultados de saúde apontados pelo SF-36
podem ser influenciados também pelas atividades trabalhosas além do desempenho da função no
ambiente de trabalho. A maior parte dos gestores não se encontra satisfeita com o tempo dedicado
às atividades consideradas, grosso modo, 'não estressantes'. Além disso, as atividades mais
realizadas fora do trabalho no sistema socioeducativo são caracterizadas por alta sobrecarga, a
saber, as de cunho doméstico.
dos respectivos cargos (Grupo 1: Chefe, Diretor e Coordenador) e Grupo 2. As caixas estão em
posições próximas nos dois aspectos de saúde, indicando que não há diferença significativa entre
os dois grupos de gestores, de acordo com a proporcionalidade das respectivas medianas
(participação da metade dos participantes de cada grupo, relacionados aos níveis de saúde - PCS
e MCS). O Teste de Wilcoxon-Mann-Whitney apresentou a mesma conclusão (p= 0,533 e p= 0,488
para PCS e MCS, respectivamente). Entretanto, a diferença entre os níveis de saúde física e mental
foram claramente desiguais. Ambos os grupos apresentaram índices maiores de saúde física e
mostraram baixa qualidade de vida, sob o aspecto da saúde mental
Destaca-se que, para fins de interpretação, o SF-36 não possui a finalidade de diagnóstico.
Figura 1- Comparação do estado de saúde física e mental entre os dois grupos avaliados
Tabela 1
Medidas descritivas para os oito domínios do SF-36 dos dois grupos de hierarquia
CF LF DO SG VT AS LE SP
Grupo 1 N=12
Média 92 73 69 79 55 62 70 70
IC (95%) 90; 94 69; 78 63; 75 75; 83 52; 57 58; 66 66; 75 68; 73
Grupo 2 N=36
Média 86,4 77,6 68,5 69,4 54,6 58,0 73,8 70,6
IC (95%) 73,8;81, 65,0;72, 66,1;72, 52,6;56, 69,9;77, 68,7;72,
83,5 ; 89,3 4 0 7 6 54,9;61,1 8 5
68
Nota. CF – Capacidade Funcional; LF – Limitações por aspectos físicos; DO – Dor; SG – Quadro geral da saúde; VT
– Vitalidade; AS – Aspectos sociais; LE – Limitações por aspectos emocionais; SP – Saúde psíquica.
Para o SF-36, os dois estados de saúde (física e mental) são variáveis que dependem dos
outros domínios. A Tabela 1 contém a comparação entre os dois grupos hierárquicos observando
os níveis dos oito domínios desenvolvidos pelo SF-36. A Capacidade Funcional (CF) possui um
nível médio maior para o Grupo 1 e a estimativa de erro da média pode variar até quase 95,
mostrando que, em geral, o Grupo 1 possui ótima capacidade funcional, dado que o máximo é 100.
Entretanto, o escore médio da vitalidade (VT) apresentou um índice significativamente menor que
o do domínio da Capacidade Funcional. Além disso, o domínio (VT) foi equivalente em ambos os
grupos.
Com relação aos domínios específicos de saúde psíquica (SP) e dor (DO) também não
houve diferença relevante entre os dois Grupos.
Dos participantes com menores índices de vitalidade (n = 14, com escore abaixo de 45),
cerca de 36% deles afirmaram passar por tratamento psiquiátrico e 93% destes 14 participantes,
concordaram que 'há riscos no ambiente de trabalho, tais como calor, frio e ruídos excessivos ou
iluminação insuficiente, pouca higiene, alto risco tóxico e até a vida'. Para os que possuem um
índice maior de vitalidade, esse percentual baixa para 85%, confirmando então, a segunda hipótese
deste artigo. Aqueles gestores que obtiveram índices baixos em relação à qualidade da saúde, sob
o ponto de vista do SF-36, apresentaram mais dificuldades na execução das atividades diárias,
devido à riscos no ambiente de trabalho. É importante observar que o nível de escore médio da
vitalidade foi o menor dentre os oitos domínios, independentemente da hierarquia entre os cargos.
Outro domínio de destaque foi o referente ao quadro geral da saúde (SG), em que
apresentou índice médio 10 pontos menor no Grupo 2 com relação ao Grupo 1, e, essa diferença é
mantida também no Intervalo de Confiança. Com isso, concluiu-se que os participantes que
executam funções operacionais de gestão e assessoramento, podendo conter os cargos de vice-
diretor; gerente; assessor; assessor da escola; chefe de plantão; e supervisor – Grupo 2, ainda que,
com a taxa de 10 pontos menor em relação ao Grupo referente às posições hierárquicas de execução
para coordenação, planejamento e gestão, especificamente relacionadas às funções de coordenador
geral; coordenador; chefe e diretor, de forma geral – Grupo 1, os domínios não revelaram
diferenças significativas entre eles. Vale ressaltar que estes dados supostamente 'equivalentes' para
ambos os grupos não mensuraram as consequências de saúde pelo fato do Grupo 2 ser três vezes
69
Figura 2 - Comparação entre saúde mental (MCS) e percepção no mundo de forma competitiva e
impaciente
De acordo com Maslach (1993) e com Schaufeli & Greenglass (2001), tendo como
referência os 'indivíduos e principais índices de burnout', há relação de dependência entre o fator
70
Ainda acerca dos fatores 'tipos de personalidade' relacionados aos aspectos individuais e
principais taxas de desenvolvimento de burnout (Maslach, 1993; Schaufeli & Greenglass, 2001),
em especial, à 'indivíduos com grandes expectativas', não houve indícios de relação entre a
característica 'posso deixar de ser realista e ter grandes chances de me decepcionar' e o nível de
saúde mental dos gestores, de acordo com a figura acima e o teste de Kruskal-Wallis (p = 0,268).
71
Figura 4 - Comparação entre saúde mental (MCS) e estresse ao trabalhar com pessoas
a primeira hipótese deste artigo, 'gestores com nível de esgotamento emocional mais elevado'
possuem a saúde mental mais prejudicada.
que se notou a baixa qualidade de vida no ambiente de trabalho, bem como sobre os principais
sintomas percebidos fora da unidade socioeducativa (Yokoy de Souza, 2012; Roman, 2009;
Romans, Patrus e Trilla, 2003).
Para as pesquisas conseguintes, de acordo com a perspectiva da Organização Mundial de
Saúde (WHO, 1994) acerca da prospecção de uma qualidade de vida considerada 'saudável', este
estudo indicou que há a necessidade de identificação e descrição dos fatores ligados à 'saúde física,
o estado psicológico, o nível de independência e as relações sociais do indivíduo e suas interfaces
com o meio onde está inserido' e se estão correlacionados à baixa saúde mental experimentada
pelos gestores, de acordo com o resultado do nível MCS, SF-36 (pontuação de 24,54). E ainda,
verificar, conforme Ware e Gandek (1994), quais fatores negativos (síndromes ou doenças) estão
concomitantes a baixa taxa de saúde mental.
Por outro lado, de forma também relevante, é importante averiguar os aspectos positivos
relacionados ao bem-estar, pois esses podem legitimar a ressignificação de modos e estilos de vida,
assim como a contínua construção e atualização de propostas que visem a saúde do trabalhador
que gerencia a socioeducação no Distrito Federal.
Grosso modo, este estudo com a avaliação da saúde, a partir do SF-36, forneceu subsídios
para criação de propostas e programas de saúde pública destindos aos profissionais que atuam em
entidades governamentais, especialmente àquelas que realizam atendimento com altos níveis de
complexidade em termos de psicológicos, emocionais e de sobrecarga de trabalho. Sob esta
finalidade, pode-se provocar uma atitude proativa por parte da instituição, a partir de um
entendimento de que os benefícios são maiores quando se tenta evitar que uma certa disfunção
possa atrapalhar o funcionamento da organização.
Entretanto, a avaliação deste artigo foi fundamentada na análise de instrumentais que
avaliam índices de saúde e níveis de burnout. Há de se considerar que, para se realizar um
panorama de saúde sob o ponto de vista holístico e da teoria organísmica, como propõem Ribeiro
(2019) e Goldstein (1939), faz-se vital analisar outros aspectos para além do contexto de trabalho.
Como identificados nesta pesquisa, 66% dos gestores dedicam-se à atividades domésticas; 37% às
de educação dos filhos; 31% realizam outros cursos; 18% trabalham em mais de um emprego; e
60% estão 'parcialmente satisfeitos' com as vivências de lazer, culturais, esportivas e/ou artísticas.
Em especial, é relevante focar na autopercepção sobre formas de estar inserido e integrado (no
sentido relacional), de fazer contato na vida para, neste contexto, surgir a necessidade do
75
territoriais e/ou culturais. Uma vez que cada profissional apresenta uma demanda específica, cabe-
lhe reconhecer e adaptar sua necessidade aos instrumentos a que tem acesso, adotando a técnica
mais adequada para lidar com o quadro de saúde apresentado.
Ferreira & Mendes (2003) sugerem em estudos relacionados à qualidade de vida e contexto
de trabalho, de forma complementar, a utilização de análises qualitativas descritivas e inferências
(análise de conteúdo, de discurso e hermenêutica), tendo em vista que a diversificação da técnica
de coleta e análise de dados é de grande valia quando o objeto de estudo é a inter-relação
‘indivíduo-trabalho-saúde'.
Diante disso, este estudo pretendeu contribuir com o avanço nas pesquisas sobre os
processos de saúde e se propõe, ainda, a partir de possíveis identificações de ações e mediações
dos gestores da subsecretaria e de suas vivências de prazer e sofrimento no contexto
organizacional, dar visibilidade à repercussão dessas ações na efetivação da execução da política
pública socioeducativa.
Aliadas à outras pesquisas, propostas de valorização à saúde e qualidade de vida do
trabalhador, especialmente àqueles que lidam com contexto de alto nível de pressão gestora,
possam surgir de forma a reverberar não só na saúde mental e qualidade de vida dos servidores
públicos, mas também a qualidade, eficiência e eficácia do servido público prestado.
Agradecimentos
Referências
Anderson, P & Publich, M. (2011). Managing workplace stress in a dynamic environment. Health
Care Manag.
Boorse, C. (1977). Health as a theoretical concept. Philosophy of Science, v.44, p.542-73. In:
[Link]
Acesso em: 17 dez. 2018
Bowling A. e Brazier J. (1995). Quality of life in social science and medicine Introduction. Soc
Sci Med. 41:1337-8.
Brazier J. E. , Harper R., Jones N. M. B., O'Cathian A., Thomas K. J., Unsherwood T., Westlake
L. (1992). Validating the SF-36 health survey questionnaire: new outcome measure for
primary care. BMJ, 305: 160-4.
Maslach, C. Job Burnout: New directions in research and intervention. (2003). Current Directions
in Psychological Science, v. 12, n. 5, p. 189-192, Oct. ISSN 0963-7214. Retrieved from: <
<Go to ISI>://WOS:000185645800009 >.
78
McHorney C. A., Ware J. E., Rogers W., Raczek A. E., Lu J. F. R. (1992). The validity and relative
precision of MOS short and long-form health status scales and Dartmouth COOP charts.
Medical Care, 30(5): MS253-65.
Murcia, M., Chastang, F., e Niedhammer I. (2013). Psychosocial work factors, major depressive
and generalized anxiety disorders: results from the French national SIP study. J AffctDisord.;
146(3): 319-27.
Older, G. (2005). Understanding Quality of Life in Old Age. Quality of life: meaning and
measurement. Berkshire, England: Open University Press.
R Core Team. (2019). R: a language and environment for statistical computing. R Foundation for
Statistical Computing. Vienna, Austria. Retrieved from [Link]
Ribeiro, J. (2019). O ciclo do contato: temas básicos na abordagem gestáltica. 8. ed. São Paulo:
Summus.
Romans, M.; Patrus, A. e Trilla, J. (2003). Profissão: educador social. Trad. Ernani Rosa. Porto
Alegre: Artmed.
Siegrist, J. (1996). Adverse health effects of higt – effort/low-reward conditions. Ocuup Health
Psychol., 1(1), 27-41.
Schaufeli, W. B. & Greenglass, E. R. (2001). Introduction to special issue on burnout and health.
Psychology Health, 16 (5), 501–510.
Souza J. C., Paiva T. e Reimão R. (2006). Qualidade de vida de caminhoneiros. Jornal Brasileiro
de Psiquiatria, 55(3), 184-189. [Link]
Ware J. E., Brook R. H., Rogers W. H., Keeper E. B., Davies A. R., Sherbourne C. D., Goldenberg
G. A., Camp P. e Newhouse J. P. (1986). Comparison of health outcomes at a health
maintenance organization with those of fee-for-service care. Lancet, 1, 1017-1022.
Ware J. E., Gandek B. (1994). The SF-36 health survey: development and use in mental health
research and the IQOLA Project. Int J Ment Health, 23: 49-73.
Ware J. E. e Sherbourne C. D. (1992). The MOS 36-Item Short-Form Health Survey (SF-36): I.
Conceptual framework and item selection. Med Care, 30, 473-83.
WHO (1986). The Ottawa Charter for Health Promotion. Geneva: World Health Organization.
Disponível em: [Link]
Acesso em: 28 maio 2018.
WHO (1994). Quality of life assessment an annotated bibliography. Geneva: World Health
Organization. Disponível em:
[Link]
e=1&isAllowed=y. Acesso em: 02 ago. 2019.
RESUMO
Um aumento no número de horas gastas na força de trabalho e, o estresse no trabalho têm sido
fatores proeminentes no aumento dos problemas de saúde. Nas organizações, o conceito de
trabalho possui interface importante com o perfil da gestão e o trabalho ocupa um papel central na
formação das subjetividades dos gestores. Esta pesquisa objetivou, por meio do Job Content
Questionnaire (JCQ), identificar e descrever o nível das escalas 'demanda, 'controle' e 'apoio'
institucionais aliados ao contexto de trabalho e à realização profissional da gestão da
socioeducação no Distrito Federal. Através de correlações, avaliaram-se as relações sociais no
trabalho, a saúde mental e o impacto na qualidade de vida e no desenvolvimento de burnout,
aliados à precarização do ambiente de trabalho. Com isso, as regressões múltiplas ocorreram a
partir das variáveis do Medical Outcomes Study SF-36 Health Survey (SF-36), Burnout Inventory-
Human Services Survey (MBI-HSS) e JCQ. A amostra deste estudo foi constituída por 48 gestores
que concluíram todas as questões, sobre: itens sociodemográficos; níveis de saúde física, mental,
burnout; e contexto de trabalho. Entretanto, neste artigo em especial, focou-se na avaliação do
instrumental proposto por Robert Karasek acerca da satisfação no trabalho. Nos resultados,
verificou-se que, independente da hierarquização de cargos, o controle e o apoio institucional
tiveram a mesma influência nos gestores que apresentaram níveis de burnout. Evidenciou-se que,
quanto maior o esgotamento emocional, mais as relações com a equipe de trabalho foram afetadas.
Sobre a qualidade de vida, quanto menor a capacidade funcional, maiores as perdas da saúde, em
aspectos físicos, e, quanto menor a autonomia do gestor, menor o nível de saúde mental. Acerca
das condições de trabalho, 77% (37 de 48 participantes) afirmaram que há repetição frequente das
mesmas atividades e com relação à escala demanda, cerca de 66% (32 de 48 participantes)
precisam rotineiramente realizar seu trabalho de maneira célere, fatos que podem ser levar à piora
do quadro de saúde mental. De forma geral, este artigo visou possibilitar a identificação de
elementos que possam suscitar em instrumento político, fundamentado em reflexões sobre a saúde
do gestor no campo do trabalho. Com isso, é possível desembocar em ideias e práticas, poderão
ser revistas inter-relações, relações de poder, ações políticas e formas de gestão de acordo com a
estrutura e cultura organizacional, e mobilização/interesse da equipe gestora.
1 Aluna de Mestrado de Pós-Graduação em Psicologia Clínica e Cultura da UnB, Brasília. Mestre em Psicologia
Clínica, Psicopatologia e Psicologia da Saúde da Universidade Federal de Toulouse Jean Jaurès, França. E-mail:
[Link]@[Link].
2Orientador da Pesquisa. Professor titular emérito da UnB e Unimontes (Phd). Fundador e presidente do
IGTB, charter member of the IGTA.
81
ABSTRACT
An increase in the number of hours spent at work and, as a result, stress at work has been a
prominent factor in increasing health problems. In organizations, the concept of work has an
important interface with the management profile and work occupies a central role in the managers'
subjectivities. This research aimed, through the Job Content Questionnaire (JCQ), to identify and
describe the level of the demand, control and support of the organization allied to the work context
and the professional accomplishment of the management of socio-education in the Distrito
Federal, Brazil. Through correlations, it was assessed social relationships at work and mental
health and the impact on quality of life and burnout development, allied to the precariousness of
the work environment. Thus, multiple regressions were occurred from the variables of the Medical
Outcomes Study (SF-36), Health Survey (SF-36), Burnout Inventory Human Services Survey
(MBI-HSS) and JCQ. The sample of this study consisted of 48 managers who completed all
questions about sociodemographic items; levels of physical health, mental health, burnout; and,
job context. However, in this particular paper, it was focused on the assessment of the instrument
proposed by Robert Karasek on job satisfaction. In the results, it was found that regardless of the
hierarchy of positions, institutional control and support had the same influence on managers who
had burnout levels. It was evidenced that the greater the emotional exhaustion, the more the
relations with the work team were affected. Regarding quality of life, the lower the functional
capacity, the greater the health losses, in physical aspects. And the lower the autonomy of the
manager, the lower the mental health level. Regarding working conditions, 77% (37 of 48
participants) stated that there is frequent repetition of the same activities, and regarding the demand
scale, about 66% (32 of 48 participants) routinely need to perform their work quickly. These facts
can be detrimental to the worsening of mental health. In general, this research aimed to make
possible from the presented data, the identification of elements that can raise in political
instrument, based on reflections on the health of the manager in the job context.
Introdução
processos de adoecimento na população ativa (Briner, 2000). A questão mais preocupante em torno
do estresse no trabalho é o impacto que ele exerce sobre a saúde.
Evidências sugerem que o estresse no trabalho está implicado no aumento das taxas de
absenteísmo (Krantz & Lundberg, 2006), níveis altos de cortisol nas mulheres (Evolahti,
Hultcrantz, & Collins, 2006), efeito bidirecional do Índice de Massa Corporal em homens
(Kivimäki et al., 2006) e alta associação entre dor crônica e depressão (Munce, Weller, Blackmore,
Heinmaac, Katz, & Stewart, 2006). É importante ressaltar que nem todos os ambientes da
instituição influenciam da mesma maneira o estresse no trabalho. Pelo contrário, o estresse é uma
combinação dos ambientes físicos e psicológicos (Briner, 2000).
O estresse crônico no ambiente de trabalho resulta na perda do sentido do trabalhador e da
sua relação com o trabalho. Como profissionais de risco são apontados os da área de educação e
de saúde, policiais e agentes penitenciários, entre outros (Dememouti, Bakker, Nachreiner,
Schaufeli, 2001).
De um ponto de vista socioeconômico, de forma gradativa, de acordo com Sauter et al.
(2004), a nova economia do mercado globalizado tem modificado as práticas organizacionais no
universo do trabalho. De acordo com Seligmann-Silva (2011), o capital, a globalização, o domínio
de poder sob a expansão de desigualdade de classes e a influência do patriarcado tentam os
indivíduos à busca de crescerem sob uma ótica metrificada a alcançarem renda e status
independente da experiência política. Adota-se um modelo gerencial sem o objetivo de focar em
ação política. Assim, ocorre uma espécie de apartheid entre a demanda social e o que é ofertado à
e pela esfera pública. Com isso, os gestores se fundem e se partem em contradições de suas próprias
necessidades, sentimentos e compreensão daquilo que seja prescrito, subentendido e/ou explícito
em regras, normas, cultura e valores da organização.
Sobre as relações sociais do trabalho, Gardell (1982) e Seligmann-Silva (2011) acreditam
que a ética e o respeito à dignidade humana ocupam posição cada vez menor no cotidiano social.
Os vínculos e relacionamentos humanos foram atingidos por outro fenômeno assustador de
precarização, que invade a identidade e a própria subjetividade. Essa evidência exige analisar
implicações e desafios que dizem respeito à saúde mental. Como os impactos sobre a saúde mental
se colocam tanto no ponto de vista individual como do coletivo da saúde, os desafios dizem
respeito tanto às politicas públicas como às competências que atuam na esfera de saúde, as quais
precisam ser ainda devidamente integradas (Dubar, 2005).
83
Nessa direção, de acordo com Dubar (2005), a lógica do modelo organizacional no serviço
público é a vertical e de hierarquia em linha. Na administração pública brasileira, o poder de tomar
decisões é muito fragmentado. Tratam-se de dificuldades geradas pela impossibilidade de
flexibilização do processo de trabalho, pelo não gerenciamento dos próprios recursos financeiros,
pela impossibilidade de escolher os instrumentos mais adequados para o exercício da função,
respeitando as especificidades das condições locais. Logo, se percebem dificuldades em
influenciar no gerenciamento e distribuição de recursos, mesmo que seja para o bem-estar dos
integrantes da instituição; e condições muito frustrantes para os profissionais. Esse afastamento do
processo decisório apenas gera dificuldades para o bom desenvolvimento do trabalho.
Para Dejours (2008), o reconhecimento e a valorização do gestor pelo sistema
organizacional, a descentralização de decisões e a hierarquia flexível são aspectos fundamentais
relacionados ao prazer no contexto de trabalho. Tarefas padronizadas, desvalorização do potencial
técnico e criativo, uma obediência hierárquica rigorosa, a ausência de reconhecimento profissional,
além de ingerências políticas, são processos quem podem acarretar no individualismo entre o
grupo de trabalho e o sofrimento.
Compreende-se a organização do trabalho como “um processo intersubjetivo, no qual
encontram-se envolvidos diferentes sujeitos em interação com uma dada realidade, resultando em
uma dinâmica própria às situações de trabalho enquanto lugar de produção de significações
psíquicas e de construção de relações sociais” (Mendes, 1999, p.40).
Dejours (2011) acredita que, ao nomear/identificar os sintomas, é possível que
gradualmente as resistências decresçam, passando essa intervenção a ser 'colaboradora' no
trabalho, à medida que deriva daquilo que está para se desvendar e indica caminho para o que deve
ser examinado.
Sobre o processo de adoecimento, Bowling e Brazier (1995) e Karasek e Theorell (1990),
concluíram que os aspectos relacionados à precariedade das condições estruturais no contexto de
trabalho geralmente causam sobrecarga e esgotamento emocional.
Maslach (1993) indica que o esgotamento é causado por altas demandas de trabalho que
drenam a energia do profissional e, na tentativa de lidar com a exaustão resultante, este se retira
mentalmente. No entanto, essa é uma estratégia inadequada, pois impede o desempenho
apropriado.
84
Com isso, Tavares (2004) enfatiza que a saúde psicológica depende da habilidade do
gerenciamento de angústias e habilidades de outro suporte (todo tipo de apoio de ordem
interpessoal, social, material) - que o sujeito possa necessitar para superar uma situação - à
85
Envolver-se é uma questão inerente ao trabalho. Como lidar com a questão entre envolver-
se afetivamente e não completar o circuito afetivo? A tensão gerada por essa ruptura é
entendida como um esforço para restabelecer o circuito cuidado-afeto e para reconhecer
a efetividade no trabalho. Cada trabalhador, encontra seu modo de viver e conviver e dar
vazão a esta tensão (Vasques-Menezes, 2004, p. 37).
partir disso, foi desenvolvido o Job Content Questionnaire (Johnson & Hall, 1988; Karasek et al.,
1998).
Robert Karasek foi um dos pesquisadores pioneiros a procurar nas relações sociais as
principais fontes geradoras de estresse no local de trabalho e seus impactos na saúde. Ele propôs
um modelo teórico bidimensional que relaciona dois aspectos - demanda e controle no trabalho -
ao risco de adoecer. As demandas são pressões psicológicas, sejam quantitativas, como tempo e
velocidade no desempenho do trabalho, ou qualitativas, como conflitos entre demandas
contraditórias. Controle é a maneira pela qual as instituições organizacionais interferem na
autonomia intelectual e produtiva do trabalhador (Karasek, 1985).
As duas dimensões do modelo 'demanda-controle' envolvem aspectos específicos do
processo de trabalho (Karasek et al., 1981). O "controle" no trabalho compreende dois
componentes: aspectos referentes ao uso de habilidades - o grau pelo qual o trabalho envolve
aprendizagem de coisas novas, repetitividade, criatividade, tarefas variadas e o desenvolvimento
de habilidades especiais individuais; e, autoridade decisória - abarca a habilidade individual para
a tomada de decisões sobre o próprio trabalho, a influência do grupo de trabalho e a influência na
política gerencial (Karasek, 1979).
No que abrange as condições de trabalho, o conceito de autonomia pode ser definido como
o grau de controle que um trabalhador exerce sobre sua própria programação e tarefas imediatas
(Li et al., 2004). O apoio social pode ser geralmente conceituado como as interações ou trocas de
recursos entre pessoas em relacionamentos formais e informais. De modo complementar,
verificou-se que o apoio social é uma condição de trabalho que reduz os efeitos negativos do
estresse relacionado ao trabalho (Karasek & Theorell, 1990).
Os efeitos de interação entre estresse, autonomia no trabalho e apoio social na previsão de
tensões no trabalho têm evidenciado, conforme a teoria do estresse no trabalho (Karasek &
Theorell, 1990) e o modelo expandido de demanda de trabalho-controle-apoio (Johnson & Hall,
1988), que os trabalhadores que estão em condições de trabalho que combinam altas demandas,
baixo controle e baixo apoio têm o maior risco de desordem psicológica. O risco de estresse
psicológico pode ser diminuído, no entanto, pela alteração de fatores no local de trabalho
(Demerouti et al., 2001). Assim, sugere-se que a autonomia no trabalho e o apoio social moderam
a relação entre estresse e esgotamento.
87
organização. A medida que a sobrecarga de trabalho cresce, o temor de não dar conta ou
cometer erros se torna atemorizante, da mesma forma, a fadiga se acumula e o
desempenho diminui. Recorrer a estimulantes e tranquilizantes começa a buscar força em
produtos e alimentos energéticos aos hábitos que foram assumidos pela gestão no
neoliberalismo. Todo aparelho do estado se encontra contaminado pelos mais desejáveis
resultados contáveis do que os sociais (Gaulejac, 2009, p. 9).
Yokoy de Souza (2012) em sua tese de doutorado ressaltou que alguns fatores
potencializariam o adoecimento dos educadores sociais, "segundo Moraes e Lima (2007), como:
a organização do trabalho em regime de plantão; o turno fixo noturno; as situações altamente
estressoras (ex.: rebeliões e fugas dos adolescentes); e, especialmente, o grande envolvimento
subjetivo e o desgaste emocional" (Yokoy de Souza, 2012, p. 83).
Portanto, é razoável que os gestores da SUBSIS, ao possuírem sofrimentos similares aos
dos demais profissionais do sistema socioeducativo, adotem estratégias coletivas de defesa que
levem a riscos e adoecimento psicossocial (Baptista, 2013).
Devido à recorrência da insatisfação no mundo do trabalho e, em consonância com a
carência de pesquisas que identifiquem o contexto de trabalho correlacionado a processos de
adoecimento, especificamente a trabalhadores ocupantes de cargos gerenciais que executam a
índices moderados ou elevados de burnout, bem como, mais prejuízos em relação à qualidade de
vida, sob o ponto de vista da saúde.
O JCQ não inclui nenhuma escala de medida para estressores não relacionados ao trabalho.
Esse instrumento é proposto para medir essas dimensões do trabalho. Nesse sentido, este artigo
tem ainda como finalidade identificar a demanda, o controle e o apoio nas diferentes situações de
trabalho do contexto da gestão do atendimento socioeducativo do Distrito Federal. A partir da
combinação dessas duas dimensões, o modelo distingue situações de trabalho específicas que, por
sua vez, estruturam riscos diferenciados à saúde (Karasek et al., 1981).
Método
Participantes
4Dados enviados pela atual Coordenação de Políticas e Atenção à Saúde de Jovens e Adolescentes da SEJUS-
DF (março de 2019).
91
informaram possuir pelo menos um diagnóstico de doença crônica, um acrescentou não possuir
apoio emocional para lidar com problemas e 8 de 36 estão em processo psicoterapêutico.
Materiais
Três questionários foram aplicados. A maioria das medidas consistiu em itens classificados
em escalas Likert.
O instrumento utilizado para avaliar a qualidade de vida dos gestores do Distrito Federal foi
o Medical Outcomes Study SF-36 Health Survey (SF-36) (Bowling & Brazier, 1995). Este
questionário sintetiza o componente físico (PCS-36) e o componente mental (MCS-36). Para
verificar o nível desenvolvimento de esgotamento emocional, realização pessoal e
despersonalização, utilizou-se o Maslach Burnout Inventory Human Services Survey (MBI-HSS)
(Maslach, Jackson & Leiter, 1996).
Para analisar uma possível tendência linear entre as escalas de burnout; saúde física (PCS),
saúde mental (MCS) e os outros domínios do SF-36 foi verificado o coeficiente de correlação de
Pearson e modelagem, via modelos de regressão múltipla em que as variáveis dependentes foram:
PCS e MCS; e as independentes: MBI-EE (escala de esgotamento emocional), MBI-DE (escala de
despersonalização), MBI-RP (escala de realização pessoal), JCQ-D (escala de demanda), JCQ-C
(escala de controle) e JCQ-A (escala de apoio). A consistência interna das respostas foi verificada
pelo coeficiente alfa de Cronbach e os testes Kruskal-Wallis e Wilcoxon-Mann-Whitney foram
utilizados para realizar a comparação entre MCS e as relações no contexto de trabalho, entre os
grupos dos participantes subdivididos por cargos hierárquicos, respectivamente.
Na análise da organização do trabalho, para o Job Content Questionnaire (JCQ), visando
uma melhor adequação ao contexto brasileiro, foi utilizada uma versão reduzida do questionário
original elaborado por Karasek & Theorell (1990), contendo 17 questões: cinco para avaliar a
"demanda", seis para estimar o "controle" e seis para computar o "apoio social". Na análise dos
dados desse instrumento, após a descrição da população, foram construídos os indicadores de
controle sobre o trabalho e a demanda psicológica.
Para a constituição dos índices de 'demanda' e 'controle' foi considerado o somatório das
variáveis relacionadas a cada um desses indicadores e a dicotomização de "controle" (baixa / alta)
e "demanda" (baixa / alta), foi estabelecida por um ponto de corte sobre a média, conforme
92
Procedimentos
O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (Apêndice) foi enviado por e-mail pela atual
Coordenação de Políticas e Saúde Mental do Sistema Socioeducativo do Distrito Federal,
disponibilizando acesso à plataforma online LimeSurvey. A amostra foi validada considerando
todos os respondentes que finalizaram os instrumentais de pesquisa. Este Termo grafou a
voluntariedade, não identificação dos participantes e a garantia de sigilo acerca das respostas. Nele
constou ainda, que quando da finalização desta pesquisa, os resultados estariam disponíveis para
acesso público.
A análise dos dados foi realizada através do software livre R-3.6.1 (R Core Team, 2019).
Especificamente para a análise de dados do JCQ, após descrever a amostra, segundo características
socioeconômicas, procedeu-se à construção dos indicadores de controle e apoio sobre o trabalho e
de demanda psicológica e de correlações entre as escalas do MBI-HSS e SF-36.
Resultados
Na escala 'controle' (JCQ-C) foi obtida uma consistência de α = 0,69, considerado ainda
como satisfatório. Já a escala de 'apoio' (JCQ-A) foi a que apresentou maior consistência dentre os
três domínios α = 0,84.
Os 14 participantes diagnosticados com burnout têm escore médio de JCQ-D igual a 6,857
e os que não tiveram a síndrome têm em média 6,353. Não houve diferença significativa entre
estes dois grupos (p =0,4589). Comparando esses dois grupos com a escala JCQ-C, a pontuação
média foi de 9,929 e 8,147 entre aqueles que tiveram e aqueles que não foram diagnosticados com
burnout (diferença não significativa, p = 0,0658), respectivamente. Para a escala JCQ-A, as médias
foram 11.143 e 10.147 entre os que possuem e os que não apresentam essa síndrome (diferença
não significativa, p = 0,6639). Com isso, concluiu-se de forma geral, que os itens 'demanda',
'apoio', 'controle' e os níveis de burnout não apresentaram diferença significativa entre os
participantes com burnout e sem burnout.
Ao investigar as condições de trabalho e as relações sociais entre a equipe, notou-se que 41%
(20 de 48) não consideraram que trabalhar o dia inteiro com outras pessoas gera relações tensas e
desses 20, apenas um 'discorda parcialmente' que a equipe 'se dá bem' no ambiente de trabalho.
Cerca de 47% (23 de 48), consideraram influenciar de maneira positiva outras pessoas no trabalho,
enquanto que outros 15 afirmaram que tal influência ocorre todos os dias. Ainda, 27% afirmou que
'trabalhar com pessoas pode estressá-lo' mais de uma vez ao mês.
Sobre as condições de trabalho e a qualidade de vida dos participantes (pela análise do SF-
36), a Figura 2 ilustrou que o fator de maior destaque foi o fato de que 77% (37 de 48) 'deve fazer
frequentemente a mesma atividade' e 87% concordaram que existem riscos em relação ao ambiente
físico. Essas circunstâncias podem ser prejudiciais para a piora no quadro de saúde mental (MCS),
pois a característica de ambiente sob risco provoca sentimentos de ansiedade, medo e impotência
95
(Maslach, 1993; Schaufeli & Greenglass, 2001), e o controle da instituição sob a autonomia do
trabalhador influencia significativamente em sua qualidade de vida, sob o aspecto de saúde mental
(Gil-Monte et al., 1988; Karasek, 1985). Aqui, se confirmou a segunda hipótese desta pesquisa em
relação à precariedade das condições de trabalho e os danos em relação à qualidade de vida,
especialmente sob o foco da saúde mental.
Com relação a escala 'demanda', cerca de 66% (32 de 48) precisam 'frequentemente realizar
seu trabalho de maneira rápida', e apenas um participante afirmou que 'o trabalho nunca exige
muito esforço', apesar de vários participantes estarem sujeitos a demandas intensas e exigentes,
56% (27 de 48) afirmaram que 'frequentemente possuem tempo para fazer tudo'. E ainda, as
demandas acabaram não influenciando de maneira significativa na saúde física (PCS) deles, como
se verificou na subseção de análise de regressão.
A seguir, na Figura 3, pelo teste de Kruskal-Wallis, pôde-se concluir que não ocorreu relação
entre a saúde física (PCS) e o sentimento de 'insensibilidade' após a assunção da execução da
respectiva função no trabalho (p= 0,7702). Do mesmo modo, averiguou-se esta conclusão à relação
entre o sentimento de 'insensibilidade' após a assunção da execução da respectiva função no
trabalho para a saúde mental (p= 0,6217).
Apesar de não haver indícios de dependência entre a saúde mental e sentimento de 'culpa
pelos problemas da equipe' (p = 0,1086), é importante ressaltar que aqueles que afirmaram sentir
isso durante 'uma vez por semana' apresentaram a qualidade de saúde mental abaixo dos demais
(Figura 4).
Figura 4. Comparação entre saúde mental (MCS) e 'sentir que os colegas me culpam por seus problemas'
As correlações entre MCS e MBI-EE (corr = −0,5282), PCS e MBI-EE (corr = −0,5096),
MCS e JCQ-C (corr = −0,5457) apresentaram correlação inversa, por exemplo, quanto maior o
nível de controle da instituição sob a autonomia do trabalhador (JCQ-C), menor o nível de saúde
mental (MCS), confirmando assim, a primeira hipótese deste estudo sobre a relação entre o controle
da instituição e a saúde mental.
Destaca-se que, para interpretação dos índices de correlação, o coeficiente de correlação
linear, indica que: quando apresenta entre 0-0.29, a correlação é fraca, de 0.30-0.60, é moderada,
de 0.60 a 0.90, é forte, de 0.90-1.00 é muito forte. O mesmo parâmetro é utilizado para valores
negativos (Callegari-Jacques, 2003).
Para destaque das correlações significantes, foram sombreadas em cada escala as relações
lineares de Pearson diferentes de 0 e que fobtiveram concomitantes a análise do p<0,05.
Pela Figura 5, pareceu uma forte tendência linear entre:
PCS x MBI-EE; PCS x MBI-DE; PCS x JCQ-D
MCS x MBI-EE; MCS x MBI-RP; MCS x JCQ-C; MCS x JCQ-A
A subseção a seguir retratou cada um desses modelos para confirmar esses dados.
98
Análise de regressão
Tabela 2
Modelo de regressão utilizando PCS como variável dependente (n = 48)
Parâmetro Estimativa Erro padrão 𝑡44 𝑝
MBI-EE -0,3715 0,1684 -2,2055 0,0327**
MBI-DE -0,1052 0,1530 -0,6878 0,4952
JCQ-D 0,1704 0,1439 1,1838 0,2429
Nota. PCS – Saúde Física; MBI-EE – Esgotamento Emocional; MBI-DE – Despersonalização; JCQ-D – Demanda.
Em relação ao nível de saúde mental, a Tabela 3 mostrou que o MBI-EE e o JCQ-C foram
significativos (p <0,05) e, à semelhança do modelo anterior, suas estimativas também foram
negativas, revelando a tendência inversamente proporcional. Ou seja, a cada diminuição de 0,304
pontos no nível de controle da instituição sob autonomia do trabalhador (JCQ-C), a saúde mental
aumenta seu nível em uma unidade, ratificando a primeira hipótese de que o controle da instituição
sob o trabalhador influencia na qualidade de vida, sob o aspecto de saúde mental. Além disso,
quanto menor o esgotamento emocional, maior a qualidade da saúde mental do participante. Caso
haja uma redução de 0,3487 pontos na escala de esgotamento emocional, a saúde mental será
aumentada em uma unidade. Este dado também confirmou a segunda hipótese deste estudo,
evidenciando que o esgotamento emocional também exerceu influência direta sobre os prejuízos
à saúde.
Tabela 3
Modelo de regressão utilizando MCS como variável dependente (n = 48)
Parâmetro Estimativa Erro padrão 𝑡43 𝑝
MBI-EE -0,3487 0,1305 -2,6716 0,0106**
MBI-RP 0,2176 0,1335 1,6304 0,1103
JCQ-C -0,3038 0,1358 -2,2372 0,0305**
99
Partindo de pesquisas anteriores que evidenciaram que não existem muitas análises acerca
da compreensão dos trabalhadores na execução de políticas públicas (Seligmann-Silva, 2011;
Mendes, 1999), e ainda menos às que se referem à saúde e à qualidade de vida do sistema
socioeducativo (Yokoy de Souza & Oliveira, 2012; Baptista, 2013), este estudo foi a primeira
tentativa de explorar a relação entre a qualidade de vida dos gestores, a síndrome de burnout e a
percepção do contexto de trabalho no sistema socioeducativo do Distrito Federal.
De um ponto de vista macrossocial, para este artigo, o intuito foi viabilizar a exposição do
contexto de trabalho e das relações 'afetivas' correlacionados à qualidade de vida do gestor, para
que, a partir da descrição do cenário geral, haja maiores possibilidades de identificação da
'qualidade' da própria saúde, e que por sua vez, através da mobilização individual e/ou coletiva,
possa desembocar em propostas preventivas, originadas das necessidades apresentadas pelo/no
contexto de trabalho.
Acerca da 'qualidade da saúde' (Bowling & Brazier, 1995), evidenciou-se a necessidade de
ampliar as possibilidades de qualidade de vida 'saudável' aos gestores no contexto de trabalho. Na
pesquisa, evidenciou-se que o fator 'esgotamento emocional' (Maslasch, 1993), relacionado a
baixos níveis de 'saúde mental' (SF-36, MCS) e a 'condições de trabalho' (Karasek & Theorell,
1990) precárias, acarreta prejuízos na saúde. Esta necessidade advém da premissa que, a partir da
nomeção/identificação dos 'sintomas', é possível que as resistências diminuam, possibilitando uma
intervenção no trabalho e indicando um caminho para o que deve ser examinado (Dejours, 2011).
A nomeação do sofrimento pode desembocar em estratégias para lidar com o sofrimento (Dejours,
2009).
Em consonância ao estudo de Lee & Ashforth (1996), observou-se nesta pesquisa que o
esgotamento emocional está relacionado às demandas do trabalho, como a pressão do tempo e a
sobrecarga de trabalho. A Figura 2 – condições de trabalho - mostrou que 37 de 48 participantes
'deve fazer frequentemente a mesma atividade', que 66% precisam 'frequentemente realizar seu
trabalho de maneira rápida' e que 43% discordaram que 'frequentemente eles têm tempo para fazer
100
tudo'. Assim, concluiu-se que os aspectos ligados à precariedade das condições estruturais no
contexto de trabalho socioeducativo possuem relação direta com o baixo nível de saúde mental,
denotando a sobrecarga e a exaustão emocional.
Esta conclusão é reforçada pelo achado que 87% dos gestores concordaram que existem
riscos em relação ao ambiente físico. Além disso, tanto a frequência e a repetição da mesma
atividade quanto a precariedade das condições físicas podem piorar o quadro de saúde mental
(MCS), tendo em vista as consequências acarretadas à saúde, como a baixa vitalidade e os
sentimentos de ansiedade (Bowling & Brazier, 1995; Maslasch, 1993; Karasek & Theorell, 1990).
Johnson & Hall (1988) acentuam que os trabalhadores que estão em condições de trabalho com
altas demandas possuem o maior risco de desordem psicológica. Ainda, as tarefas excessivamente
padronizadas podem levar ao individualismo entre a equipe de trabalho (Dejours, 2011) e à
insatisfação profissional.
Ainda em relação à qualidade de vida dos participantes (pela análise do SF-36), evidenciou-
se, conforme ilustrado na Figura 5, que quanto mais baixa a saúde mental, menor a apresentação
de aspectos de vitalidade (corr = 0,7055) e que quanto maior o nível de controle institucional,
menor a qualidade da saúde mental do gestor (MCS e JCQ-C, corr = −0,5457). Estes indícios
sugeriram que, em relação às características 'demanda', 'controle' e 'apoio' da organização
(Karasek, 1985), o abalo da saúde mental dos gestores do sistema socioeducativo do DF esteve
mais correlacionado ao nível de 'controle' e 'demanda', tendo em vista que, neste estudo, as taxas
de realização pessoal e apoio institucional (JCQ-A) não interferiram significativamente sobre a
saúde.
Assim, estes resultados confirmaram para o contexto de trabalho da gestão do sistema
socioeducativo no DF que os efeitos de interação entre alto controle institucional, pouca autonomia
no trabalho e o elevado índice de esgotamento emocional, a partir de tensões no trabalho (Karasek
& Theorell, 1990) impactaram de modo negativo à saúde dos gestores.
Sob esta circunstância, Karasek (1979) sublinha que o controle no trabalho se eleva à
medida da caracterização do baixo grau de dinamização e criatividade para novas aprendizagens,
repetitividade, tarefas monótonas, aludindo então, a ideia de que o controle da organização
interfere diretamente à inovação e ao processo de autonomia para tomada de decisões, criação e
atualização de novos projetos de trabalho aos e por parte dos gestores, de acordo com as
necessidades da equipe de trabalho.
101
A partir das correlações entre MCS e MBI-EE (corr = −0,5282), PCS e MBI-EE (corr =
−0,5096), constatou-se que, a organização corrobora para o desenvolvimento de exaustão,
desencadeando o burnout. Paralelo a isso, verificou-se que a insatisfação com a realização pessoal
e os aspectos relacionados ao controle e demanda de trabalho interferem negativamente na
qualidade de vida desses gestores (Glass & Mcknight, 1996; Karasek & Theorell, 1990). Posig &
Kickul (2003), sobre o processo de adoecimento, afirmam que o esgotamento emocional é
provocado por percepções individuais de falta de controle no trabalho e a falta de envolvimento
na tomada de decisões.
No que diz respeito à saúde física (SF-36, PCS) e ao esgotamento emocional, notou-se que
quanto mais aumentam os níveis de saúde física, menor a taxa de exaustão (a cada diminuição de
0,372 pontos na escala MBI-EE, o grau de saúde física é adicionado de um ponto). Em relação ao
esgotamento e as relações com a equipe de trabalho, observou-se que estas relações são afetadas
de maneira diretamente proporcional à exaustão advinda do contexto de trabalho, pois a correlação
entre MBI-EE e MBI-DE foi significativamente moderada (corr = 0,5553).
Com esses achados, de forma geral, sugere-se que o elevado esgotamento emocional, como
consequência do conflito entre afeto e razão, as relações sociais de trabalho e a exigência de
controle (Gil-Monte et al., 1988) no sistema socioeducativo do Distrito Federal traz danos à saúde,
interferindo negativamente na qualidade de vida dos gestores.
Considera-se que, a partir da visibilidade social e científica dos aspectos de saúde, a ação
política pode surgir diante os elementos do contexto de trabalho dos gestores do atendimento
socioeducativo no DF, especialmente àqueles que lidam com contexto de alto nível de pressão,
tendo em vista as consequências danosas advindas de um processo de insatisfação, perante a
própria qualidade de vida e que, o esgotamento emocional e a sobrecarga de trabalho conduzem à
desmotivação e ao automatismo na execução das tarefas (Maslach, 1993; Schaufeli & Greenglass,
2001, Seligmann-Silva, 2011; Gil-Monte et al., 1988). Esse processo, por sua vez, pode acarretar
em uma baixa eficiência e efetividade (CODEPLAN, 2013), e, sob uma perspectiva maior,
interferir diretamente na vida da sociedade (dados da SEJUS-DF, 2019), 'na qualidade de vida' do
cidadão brasileiro.
Sugere-se, a partir dos resultados, a (re)formulação de uma política de saúde e criação de
intervenção com foco à qualidade de vida dos gestores, a partir dos níveis 'demanda', 'controle' e
'esgotamento emocional'. Conforme aponta Tavares (2004), ao identificar os fatores de risco de
102
uma determinada função, pode-se conduzir à identificação dos fatores de proteção, que por sua
vez, viabilizam o desenvolvimento de ações coletivas de promoção de saúde.
De acordo com os estudos de Bowling e Brazier (1995), Maslasch (1993), Karasek e
Theorell (1990), os aspectos relacionados à precariedade de condições estruturais no contexto de
trabalho, o distanciamento nas relações interpessoais, a tensão sob atividades exigidas e o controle
das instituições sob a autonomia intelectual e produtiva do gestor comumente geram fatores de
estresse, sobrecarga, desgaste emocional e sentimentos negativos em relação ao colega de trabalho.
Isso ocorre principalmente no exercício de funções cuja natureza implicam em cuidado, quer seja
específica à área de saúde, socioassistencial ou educacional.
Ao investigar a correlação entre as condições de trabalho e as relações sociais entre a
equipe, notou-se que apenas um participante 'discorda parcialmente' que a equipe 'se dá bem' no
ambiente de trabalho.
Estes dados podem estar associados às premissas de Gaulejac (2009), que realça a
frequente cisão do sentimento associado às relações sociais entre a equipe de trabalho, diante das
exigências prescritas de tarefas e de desempenho satisfatório e ante ao que é recomendado para se
manter sob uma função gestora. Gaulejac (2009) avalia que pode ocorrer uma 'rachadura' na
vivência subjetiva de uma divisão entre o amor obediente e o medo da rejeição que incita a cautela
e a defesa. A utilização de mecanismos de defesa psicológica pode conduzir à servidão voluntária
e passividade, caracterizadas por uma constituição subjetiva de dependência, em que a necessidade
de reconhecimento eleva-se consoante à carência do apreço e do pertencimento ao grupo, não
obstante à sobrecarga e se pautando em uma distorção dos preceitos normativos organizacionais.
Com isso, neste estudo, as respostas referentes às relações sociais podem ter sido
influenciadas por (pre)conceitos de ordem moral e 'ética', sob teores da cultura cristã ocidental,
fundindo-se e/ou partindo-se em contradições das próprias necessidades, sentimentos e
compreensão (Seligmann-Silva, 2011). Nessa complexidade, Seligmann-Silva (2011) chama a
atenção ao fato de que a cultura organizacional pode estar calcada no medo, levando ao estado de
alerta para não perder o cargo gerencial que denota um domínio de poder, somado ao aumento da
renda e suposto status, independente de experiência política.
Nesse caminho, Gardell (1982) e Seligmann-Silva (2011) acrescentam que a desconfiança,
grosso modo, impera entre os vários níveis hierárquicos de grande parte das organizações. Assim,
o tempo para estabelecer experiência e relações duráveis tem sido atropelado pela instabilidade e
103
pela alta rotatividade. Para os cargos do sistema socioeducativo do DF, verificou-se a alta
rotatividade, a partir da identificação de que a metade dos participantes possui no máximo um ano
em exercício na função comissionada. Os resultados robustecem as pesquisas anteriores de que a
precarização social e do trabalho se relacionam à precarização na saúde mental (Karasek &
Theorell, 1990; Gil-Monte et al., 1988).
Com isso, Seligmann-Silva (2011) ratifica que a precarização das condições de trabalho
comumente invade a identidade e a própria subjetividade. Assim, para avaliar as relações entre a
equipe e realizar conclusões contundentes sobre a criação de propostas eficazes de promoção de
saúde, faz-se necessário analisar minuciosamente as implicações e os desafios que dizem respeito
às relações sociais entre os trabalhadores e a saúde mental.
Diante estas reflexões, as limitações deste estudo se referem à não identificação e descrição
de fatores e causas ligados às relações sociais entre as equipes de trabalho, que não associaram o
nível de despersonalização da escala do Burnout Inventory-Human Services Survey (MBI-HSS) ao
processo de desenvolvimento de burnout e à insatisfação na realização pessoal dos gestores.
Adverte-se que, de acordo com o CID-11 (International Classification of Diseases, 2019), o
burnout também é conceituado por sentimentos de negativismo ou cinismo relacionados ao
trabalho e, ainda, é a característica do cinismo que pode "camulflar" o nível de realização pessoal
ligado ao contexto de trabalho. Além disso, a falta de recursos físicos, em geral, relaciona-se à
baixa qualidade das relações sociais no trabalho e, consequentemente, à insatisfação profissional
(Ferreira & Mendes, 2003).
Outro aspecto limitante desta pesquisa, é o fato de que, não está reluzente até que ponto as
descobertas dos resultados deste estudo podem ser generalizados para a maior população de
gestores, posto que, embora selecionada aleatoriamente, a amostra foi limitada a 180 dos 218
gestores que compunham o organograma de cargos quando da coleta de dados, sendo que, 48
preencheram todos os itens deste estudo.
Para pesquisas futuras, sugerem-se, por meio do estudo qualitativo descritivo, análises que
incluam os aspectos ligados aos preconceitos, valores e processos intersubjetivos, de forma a
verificar e qualificar, aliados a resultados estatísticos, de que modo são constituídas as relações
sociais que desembocam na (não) realização pessoal (MBI-RP) no contexto de trabalho. Diante
disso, a formulação de projetos específicos pode ser mais adequada para contemplar e efetivar a
promoção da qualidade de vida 'saudável' para a gestão do sistema socioeducativo do Distrito
104
Federal.
De forma precípua, entre os 'sabores e dissabores' do universo laboral da gestão do sistema
socioeducativo no DF, este estudo pretendeu abranger e identificar como se encontra a situação
atual relacionada ao ambiente físico, às condições estruturais, às relações sociais entre as equipes,
e à saúde, em seus aspectos físicos e mentais, vivida por estes gestores.
Embora esta pesquisa forneça uma melhor compreensão do contexto de trabalho ligado à
qualidade de vida e níveis de burnout, estudos de periodicidade mais longa podem analisar as
variações entre os entrelaces das características desses fatores e informar a descrição de
particularidades das relações causais entre burnout; controle, demanda e apoio institucionais;
insatisfação profissional e a rotatividade no cargo gestor.
Dado que o objetivo do 'tratamento' para o esgotamento emocional é, de forma global,
permitir que as pessoas (res)signifiquem a sua satisfação no trabalho, ousa-se aqui dizer que a
clínica do trabalho (Dejours, 2011) poderia dar uma contribuição importante ao panorama de saúde
do contexto socioeducativo, ao considerar que visa identificar as estratégias de enfrentamento que
seriam mais eficazes para alcançar esse objetivo. Outras colaborações podem prosseguir na
investigação sobre o modo que os gestores desse sistema percebem seus processos de subjetivação,
em suas relações e no ambiente de trabalho, seja em relações socioprofissionais e nas
configurações de estrutura, organogramas, planejamento estratégico e tomada de decisões.
Agradecimentos
Referências
Barus-Michel (2001). A democracia ou a sociedade sem pai. In J. Araujo, L. Souc & C. Faria.
Figura paterna e ordem social. Cap. 3, pp. 29-390. Belo Horizonte: Autentica.
Bowling, A. e Brazier, J. (1995). Quality of life in social science and medicine introduction. 41,
105
1337–8.
Briner, R.B. (2000). Relationships between work environments, psychological environments and
psychological well-being. Occupational Medicine, 50, 299-303.
Dejours, C. (2009). Travailvivant tome II: travail et émancipation. Paris: Payot &Rivages.
Dubar, C. (2005). A socialização: contrução das identidades sociais e profissionais. São Paulo:
Martins Fontes.
Evolahti, A., Hultcrantz, M., e Collins, A. (2006). Women's work stress and cortisol levels: A
longitudinal study of the association between the psychosocial work environment and serum
cortisol. Journal of Psychosomatic Research, 61, 645-652.
Gardell, B. (1982). Scandinavian research on stress and workinglife. International Journal Health
services, 12, 1, 31-41.
Gaulejac, V. (2007). Gestão como doença social: ideologia, poder gerencialista e fragmentação
social. Aparecida – SP: Ideias & Letras.
Gil-Monte, P.R., Peiró, J.M., Valcárcel, P. (1988). A model of Burnout process development: An
alternative from appraisal models of stress. Comportamento Organizacional e Gestão. Vol. 4,
No. 1, 165-179.
House, J. S. e Wells, J.A. (1977). Estresse ocupacional, apoio social e saúde. Reduzindo o estresse
106
Johnson, J. V. e Hall, E. M. (1988). Stress no trabalho, apoio social no local de trabalho e doenças
cardiovasculares: um estudo transversal de uma amostra aleatória de a população trabalhadora
sueca. American Journal of Public Health, 78, 1336–1342.
Karasek, R. A. (1979). Job demands, job decision latitude and mental strain: implications for job
redesign. Administrative Science Quarterly, 24, 285-308.
Karasek R. A., Baker D., Maxer F., Ahlbom A., Theorell T. (1981). Job decision latitude, job
demands, and cardiovascular disease: a prospective study of Swedish men. American Journal
of Public Health, 71(7), 694-705.
Karasek, R. (1985). Job content instrument questionnaire and user’s guide, version 1.1.
Department of Industrial and Systems Engineering. Los Angeles: University of Southern
California.
Karasek, R., e Theorell, T. (1990). Healthy work: stress, productivity, and the reconstruction of
working life. New York: Basic Books, Inc., Publishers
Karasek, R., Brisson, C., Kawakami, N., Houtman, I., e Bongers, P. (1998). The job content
questionnaire (JCQ): An instrument for internationally comparative assessments of
psychosocial job characteristics. Journal of Occupational Health Psychology, 4, 322-355.
Krantz, G., e Lundberg, U. (2006). Workload, work stress, and sickness absence in Swedish male
and female white-collar employees. Scandinavian Journal of Public Health, 34, 238-246.
Lee, R. L., e Ashforth, B. (1996). A meta-analytic examination of the correlates of the three
dimensions of job burnout. Journal of Applied Psychology, 81(2), 123
133. [Link]
Li, J., Yang W., Liu P., Xu Z., Cho S. (2004). Psychometric evaluation of the Chinese (mainland)
version of Job Content Questionnaire: a study in university hospitals. Ind Health, 42(2), 260-
267.
Maslach, C., Jackson, S. E., e Leiter, M. (1996). Maslach burnout inventory manual (3rd ed.). Palo
Alto, CA: Consulting Psychology Press.
Munce, S.E.P., Weller, I., Blackmore, E.K.R, Heinmaac, M., Katz, e Stewart, D.E. (2006). The
role of work stress as a moderating variable in the chronic pain and depression association.
Journal of Psychosomatic Research, 61, 653- 660.
House, J. S. e Wells, J.A. (1977). Estresse ocupacional, apoio social e saúde. Reduzindo o estresse
ocupacional: Anais de uma conferência. Divisão Westchester, New York Hospital-Cornell
Medical Center. p.8-29. Publicação do Instituto Nacional de Saúde e Segurança Ocupacional
(NIDSH) no. 78-140.
R Core Team. (2019). R: a language and environment for statistical computing. R Foundation for
Statistical Computing. Vienna, Austria. Retrieved from [Link]
Seligmann-Silva, E. (2011). Trabalho e Desgaste Mental: o direito de ser dono de si mesmo. São
Paulo: Cortez.
Vasques-Menezes, I. (2004). Por onde passa a categoria trabalho na prática terapêutica? In Codo,
W. O Trabalho enlouquece? Petropólis – RJ: Vozes.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir de um método científico que utiliza diferentes técnicas estatísticas para mensurar
e destacar experiências humanas, o desafio de ampliar as perspectivas dos entrelaces de processos
de saúde-doença, em uma política pública de tamanha complexidade, fez parte do processo de
construção deste trabalho. Com uma amostra tão peculiar, que, no senso comum, é recortada a um
esteriótipo “invencível” e “inquebrável” de que “ser forte é não adoecer”, utilizando qualificações
que escamonteiam a realidade, tais como adjetivos de “guerreiro”, “homem de ferro”, (Zanello,
2018; Baptista, 2013), considerou-se a indissolubidade e integralidade do conceito de saúde como
cerne desta pesquisa.
Como consequência, este estudo visou desmitificar a susposta ideia de que pessoas que
possuem o perfil de liderança e eficiência, geralmente selecionadas para exercer funções de gestão,
em tese, não possuem processos de adoecimento. No senso comum, cria-se a imagem do “super
envolvimento” – característica individual tendenciosa ao desenvolvimento de burnout (Maslach,
Jackson, & Leiter, 2016) – como um atributo associado à ideia de “inesgotável”. Este, por sua vez,
é comumente apreciado, em especial, no sistema organizacional.
A pesquisa concluiu que os gestores do sistema socioeducativo do Distrito Federal
vivenciam desarmonias em seu processo de saúde e no modo de fazer contato (Ribeiro, 2019), o
que foi demonstrado em aspectos de baixa vitalidade, conduzindo a prejuízos na saúde mental e
na qualidade de vida.
Sob a configuração de três artigos, avaliaram-se os níveis e se identificou a síndrome de
burnout, foi traçado o perfil gestor, foi retratada a qualidade de vida e foram identificados os
(dis)sabores do contexto do trabalho da gestão da socioeducação do Distrito Federal. Além de
nomear as implicâncias de saúde no cotidiano deste universo, a pesquisa traz à comunidade
socioeducativa a oportunidade de “conhecer”, considerando as limitações deste estudo, sob quais
circunstâncias atua quem planeja, coordena e executa essa esfera da administração pública, perante
um contexto de "faltas" ao atendimento de um público que vivencia constantes dificuldades de
acesso, majoritariamente, à educação e à saúde (CODEPLAN, 2013).
Conforme apontado na literatura, não existem muitas análises que visem compreender as
ações de trabalhadores em função gestora na execução de políticas públicas e sua consequente
mediação para administrar suas funções (Ferreira & Mendes, 2003). Antes disso, o sistema
109
socioeducativo ainda não possui coesão na compreensão do que seja a socioeducação no sentido
estrito da lei, como política pública integrada (Yokoy de Souza, 2012; Bisinoto, 2017). Essa falta
de inclinação epistemológica voltada ao exercício transdisciciplinar do “saber fazer” sob uma
formação integrada de “como fazer” causa conflitos organizacionais e tem como uma de suas
origens as vivências de sofrimento no trabalho (Baptista, 2013; Dejours, 2011).
Sob a integralidade do conceito de saúde enfatizado por Ribeiro (2019), esta pesquisa
intencionou, com os dados apresentados, relacionar as possíveis interações entre os processos de
saúde-doença, discutindo-os a partir de uma perspectiva “metrificada” e esmiuçando “partes”.
Entretanto, é importante apreender o indivíduo como um “todo indivisível”, do ponto de vista
holístico e da Psicologia da Gestalt, as partes interferem no todo e o todo nas partes.
Ainda que, aparentemente, processos subjetivos não sejam culturalmente no Brasil ligados
à tentativa de uma espécie de “redução numerológica”’ para análise de dados científicos, em
especial para pesquisas humanas, o leque de artigos, periódicos e materiais internacionais que
utilizam a abordagem quantitativa traz, em sua riqueza metodológica, reflexões com temáticas
“não palpáveis” que possuem como finalidade, em geral, nomear da forma mais aproximável
possível, dados sobre o que não se pode afirmar 100%. Essa quantificação “descritiva” de
informações é fundamental, epistemologicamente para a construção e ao embasamento conceitual
de fenômenos que urgem serem identificados e visibilizados. Aqui, neste estudo, de forma a
promover a saúde, representando pela vivência de burnout no contexto socioeducativo e tendo
como objeto de estudo o trabalhador gestor. Ressalta-se aqui não a inferência de conceitos
metodológicos mais ou menos “confiáveis”, e sim, essencialmente, a aplicabilidade e a
complementariedade da diversidade deles.
Como fator limitante, não perpassou por esta pesquisa o intento de especificar nuances
particulares caracterizadas pela cultura e pelo território do centro-oeste brasileiro. Para uma visão
mais detalhada, as fundamentações quantiqualitativas podem enriquecer discussões mais
aprofundadas e arraigadas sobre os gestores do sistema socioeducativo do Distrito Federal.
Também, como questão relevante quanto à abrangência do método científico neste estudo,
o qual subdividiu a identificação do perfil da gestão em dois grupos sob hierarquização de cargos
e consequentes divisões setoriais, faz-se mister considerar que nem todos os ambientes da
instituição influenciam da mesma maneira o estresse e/ou burnout no trabalho (Briner, 2000).
110
quanto na maneira de lidar com esses fatores. Existem, realmente, fatores discriminatórios em um
contexto social e de trabalho dominado por regras que privilegiam os interesses dos homens (Diniz,
2004). Essa afirmativa é reforçada pelos dados narrados a partir das percepções de trabalhadoras
da socioeducação no Distrito Federal (Andrade, 2017) que, ainda que gerida, como apontou-se na
introdução deste trabalho, em sua maior parte, por mulheres, ao tratar-se supostamente de uma
política pública gendrada ao cuidado, a questão central institucional da socioeducação paira na
dicotomia de um universo planejado e operacionalizado para trabalhadores homens. Sob esse
contexto de constituição identitária sócio-historico, percebe-se no universo socioeducativo um
empoderamento de gênero (Diniz, 2004).
Por fim, espera-se, com esta pesquisa, contribuir com estudos no campo da saúde,
psicopatologia e contexto organizacional, de forma a trazer luz a processos que busquem a
primazia da saúde, da ética e do respeito à dignidade humana para fortalecer relações
socioprofissionais, contrapondo-se aos modelos de gestão em que imperam as relações de poder.
O intuito majoritário é “politizar” a ação destinada ao gestor, com foco em um ambiente de
qualidade de vida e experiências mais saudáveis na esfera da administração pública, em especial,
a da socioeducação.
114
REFERÊNCIAS5
Andrade, A. S. de (2017). “Aqui as flores nascem no concreto”: negociações nas atuações laborais
de agentes socioeducativos. xv, 161 f., il. Dissertação (Mestrado em Processos de
Desenvolvimento Humano e Saúde). Brasília: Universidade de Brasília.
Beck, A. T. (1988). The Beck Ansiety Inventory. Journal of Consulting and Clinical Psychology,
Washington, 56, 4, 893-897.
Bion, W. R. (1988). Estudos psicanalíticos revisados (Second thoughts). Rio de Janeiro, Imago.
Briner, R.B. (2000). Relationships between work environments, psychological environments and
psychological well-being. Occupational Medicine, 50, 299-303.
Byrne, B. M. (1993). The Maslach Burnout Inventory: Testing for factorial validity and invariance
across elementary, intermediate and secondary teachers. Journal of Occupational and
Organizational Psychology, 66, 197-212.
Campos, J.; Carlotto, M. S.; Maroco, J. O. (2012). Burnout Inventory - Student Version: Cultural
Adaptation and Validation into Portuguese. Psicologia-Reflexão e Critica, 25, 4, 709-718.
ISSN 0102-7972. Retrieved from: < <Go to ISI>://WOS:000314239300010 >.
5
Aqui estão citadas somente as referências da Introdução que apresenta esta dissertação e das Considerações Finais,
últimas, que conclui este trabalho.
115
Cherniss C. (1980). Staff Burnout: job stress in the human service. CA: Sage.
Cherniss C. (1980). Professional Burnout in Human Service Organizations. New York: Praeger.
Diniz, G. (2004). Mulher, trabalho e saúde mental. In Codo, W. (2004). O Trabalho enlouquece?
Petropólis – RJ: Vozes.
International Classification of Diseases - ICD-11. (2019). Mortality and Morbidity Statistics. 11th
Revision. In: [Link]
Karasek, R. (1985). Job content instrument questionnaire and user’s guide, version 1.1.
Department of Industrial and Systems Engineering. Los Angeles: University of Southern
California.
Karasek, R., e Theorell, T. (1990). Healthy work: stress, productivity, and the reconstruction of
working life. New York: Basic Books, Inc., Publishers
Malhotra, N. (2001). Pesquisa de marketing: uma orientação aplicada. 3a. ed. Porto Alegre:
Bookman.
Maslach, C.; Jackson, S.E.; Leiter, M.P. (2016). Maslach Burnout Inventory Manual (Fourth
Edition). Menlo Park, CA: Mind Garden, Inc.
Maslach, C. Job Burnout: New directions in research and intervention. (2003). Current Directions
in Psychological Science, v. 12, n. 5, p. 189-192, Oct. ISSN 0963-7214. Retrieved from: <
<Go to ISI>://WOS:000185645800009 >.
Reime B. e Steiner I. (2001). Burned-out or depressive? An empirical study regarding the construct
validity of Burnout in contrast to depression. Psychother Psychosom Med Psychol; 51(8), 304-
7.
Ribeiro, J. (2012). Gestat-terapia: refazendo um caminho. 8. ed. rev. São Paulo: Summus.
Ribeiro, J. (2019). O ciclo do contato: temas básicos na abordagem gestáltica. 8. ed. São Paulo:
Summus.
Seligmann-Silva, E. (2011). Trabalho e Desgaste Mental: o direito de ser dono de si mesmo. São
Paulo: Cortez.
Snorradottir, A., Vilhjalmsson, R., Rafnsdottir, G.L. e Tomasson K. (2013). Financial Crisis and
collapsed banks: psychological distress and work related factors among surviving employees
– a nation – wide study. Am J Ind Med., 56(9), 1095 – 106.
Soares, T.; Silva, R. & Antun, A. (2014). Leitura: A Arte do Saber: Proposta de (Re)integração
Social a Adolescentes sob cumprimento de Medida Socioeducativa de Internação. [Projeto
Piloto – Unidade de Internação de Santa Maria não publicado]. Certidão de Registro n. 673.
264. da Fundação Biblioteca Nacional do Ministério da Cultura, RJ.
APÊNDICE
Burnout e a Qualidade de Vida dos Gestores do Sistema Socioeducativo do Distrito Federal: Uma
Análise Estatística Descritiva em Saúde Mental
(Flavors and dislikes in the professional world: Burnout - Quality of life of the managers of the
socio educative system of the Distrito Federal, Brazil, from the point of view of mental health)
Você está sendo convidado(a) a participar de uma pesquisa. Esse documento, chamado Termo de
Consentimento Livre e Esclarecido, visa assegurar seus direitos como participante da pesquisa.
Por favor, leia com atenção. Se houver perguntas, você poderá esclarecê-las com a pesquisadora
por e-mail e/ou contato telefônico (whatsapp). Não haverá nenhum tipo de penalização ou prejuízo se você
não aceitar participar ou retirar sua autorização em qualquer momento.
Justificativa e objetivos:
O objetivo desta pesquisa é identificar a qualidade de vida da gestão do sistema socioeducativo
brasileiro, em especial, do Distrito Federal, do ponto de vista da saúde. É importante ressaltar que essas
reflexões sobre o perfil da gestão têm a perspectiva de dar sentido ao trabalho.
Consideramos que é a partir da sua experiência enquanto gestor(a), profissional que
vivencia o contexto de trabalho no sistema socioeducativo, que propostas institucionais primando o
"bem viver" (de forma integral – físico, psíquico, social, espiritual), do ponto de vista da saúde,
possam surgir para atender as reais necessidades do(da) trabalhador(a) no universo laboral.
Dessa forma, a fim de ofertar uma atitude proativa por parte da instituição, no que diz respeito à
saúde do(a) gestor(a), faz-se necessário de início, traçar a "fotografia da qualidade de vida", do ponto de
vista da saúde.
Com isso, este estudo pretende contribuir para o avanço da pesquisa sobre os processos de saúde
na gestão da administração pública, particularmente no sistema socioeducativo.
Procedimentos:
Como critério de seleção, todos(as) os(as) gestores(as) ocupantes de cargos gerenciais do sistema
socioeducativo serão convidados(as) a participar desta pesquisa.
Você está sendo convidado(a) a preencher um formulário com a identificação de dados
sociodemográficos, profissiográficos, psicossocias; e os três questionários mais utilizados mundialmente,
segundo uma recente revisão sistemática sobre o tema Burnout (Esgotamento), Qualidade de Vida e
Características do Contexto de Trabalho, do ponto de vista da saúde, sendo eles: Maslasch Burnout
Inventory Human Survey (MBI-HSS), Short Form -36 (SF-36), e, Job Content Questionnaire (JCQ);
validados no Brasil.
1Aluna de Mestrado em Psicologia Clínica e Cultura da UnB e em Psicologia Clínica, Psicopatologia e Psicologia
da Saúde da UFTJJ, França. Contato telefônico: (61) 98400-4444. E-mail: [Link]@[Link]
119
Garantimos sigilo quanto à sua identificação como participante nesta pesquisa. Os instrumentais
respondidos não identificam os(as) participantes que responderam a pesquisa para à equipe
pesquisadora. Nenhuma informação de identificação dos dados será fornecida à Secretaria executora
da política pública do atendimento socioeducativo ou a qualquer outra instituição e/ou pessoa.
O tempo total para o preenchimento desses instrumentos de pesquisa é de aproximadamente 40
minutos. A maneira de aplicá-los por e-mail, através da inclusão dos formulários na plataforma
LimeSurvey, visa disponibilizá-lo(a) maior flexibilidade e otimização de tempo para o preenchimento das
questões, conforme seus compromissos, enquanto participante.
Para a análise dos dados, o arquivo será armazenado pela equipe da pesquisa, com o objetivo
exclusivo de utilização para o conhecimento científico, visando por fim, a corroboração social no campo
da saúde, à comunidade, em especial, trabalhadores(as) gestores(as) da administração pública.
Após a conclusão desta pesquisa, os resultados deverão ser divulgados aos(às) participantes pela
plataforma LimeSurvey e à gestão superior hierárquica do atendimento socioeducativo do DF.
Desconfortos e riscos:
Você não precisa participar deste estudo se avaliar possibilidades de danos à dimensão física,
psíquica, moral, intelectual, cultural ou espiritual como ser humano, oriundos desta pesquisa.
Caso não consiga dimensionar riscos, informo que esta pesquisa não apresenta riscos "previsíveis”.
Se decidir por participar e apresentar qualquer desconforto decorrente de sua participação, a pesquisadora
coloca-se à disposição para o suporte, com encaminhamentos e orientações no campo da psicologia clínica,
se necessário.
Benefícios:
Com este estudo, a partir de uma avaliação sobre saúde, a instituição, se avaliar pertinente, terá
subsídios que poderão viabilizar a implementação de um programa de saúde pública para profissionais que
atuam em entidades governamentais, especialmente àquelas que realizam cuidados com altos níveis de
complexidade em termos psicológicos, emocionais e sobrecarga de trabalho.
Acompanhamento e Acesso:
Você terá acesso aos resultados da pesquisa, quando finalizada.
Sigilo e privacidade:
A equipe de pesquisa garante que não terá acesso ao seu nome e nenhuma informação de dados
será dada a outras pessoas que não façam parte do corpo de pesquisadores. Na divulgação dos
resultados deste estudo, não haverá divulgação de sua identidade.
Ressarcimento e Indenização:
A participação para a coleta de dados desta pesquisa é de caráter voluntário, na qual não haverá
remuneração pela participação neste estudo.
ANEXO A
A proposta das 23 questões seguintes é de identificar dados referentes ao comportamento social das
interações e organizações humanas, em relação à quantidade de um determinado grupo de pessoas por um
determinado território. Aqui também constarão itens acerca do contexto profissional relacionado à atividade
de trabalho, aspectos individuais, de saúde e a relação entre o convívio social do ponto de vista da
psicologia.
Data: _______
2 – Sexo:
__________ Feminino
__________ Masculino
4 – Estado Civil:
__________Solteiro(a) (refere-se a quaisquer contextos sem um relacionamento amoroso)
__________Casado(a) (refere-se a quaisquer contextos em um relacionamento amoroso)
8 - Além do emprego vinculado à Secretaria, se for o caso, que outro(s) trabalho(s) você executa em seu
cotidiano?
a) Atividades domésticas
b) Educação com o(a)(s) filho(a)(s)
c) Curso(s)
d) Outro(s) emprego(s) e/ou atividades profissionais
e) Outro(s)
9 - Você se sente satisfeito(a) com o tempo que destina à atividades de diversão, cultura, arte, esporte e/ou
lazer?
a) Totalmente satisfeito(a)
b) Parcialmente satisfeito(a)
c) Nada satisfeito(a)
11 - Qual o rendimento líquido familiar (pessoas com quem possui vínculo afetivo e participam de suas
despesas) mensal atual?
a) Entre 3.000 R$ a 6.000 R$
b) Entre 7.000 R$ a 10.000 R$
c) Entre11.000 R$ a 14.000 R$
d) Entre 15.000 R$ a 18.000 R$
e) Entre 19.000 R$ a 22.000 R$
f) Acima de 23.000 R$
g) Outro
f) Chefe de plantão
g) Chefe
h) Coordenador(a)
i) Subsecretário(a)
j) Supervisor(a)
k) Outro
___________________
16 - Qual o setor mais próximo vinculado ao seu cargo em comissão atual?
a) SUBSIS
b) Coordenação/SUBSIS
c) Central de Vagas/SUBSIS
d) Diretoria/SUBSIS
e) Unidade de Internação
f) Unidade de Semiliberdade
g) Unidade de Meio Aberto
h) UAI
17 - Caso você já tenha assumido outras funções comissionadas, qual o tempo total de serviço em funções
comissionadas na Secretaria, exceto a atual?
___________________
19 - Em caso afirmativo da questão anterior, você está sob tratamento desta(s) doença(s) crônica(s)?
a) Sim, para uma delas
b) Sim, para mais de uma delas
c) Não, para nenhuma
d) Não possuo o diagnóstico de doença crônica
20 - Assinale item/itens que você se identifica, se for o caso. Você possui suporte emocional para lidar com
seus problemas, de forma geral?
a) De forma geral, sim
b) Sim, em processo psicoterápico
c) Sim, com amigo(a)(s) e/ou relacionamento(s) interpessoal/interpessoais
d) Sim, por meio de minha fé/crença religiosa e/ou espiritual
e) Não
_______a) "Me percebo no mundo de forma competitiva, impaciente, com excessiva necessidade de
controle das situações"
_______b) "Considero que minhas possibilidades e acontecimentos de vida são consequentes à capacidade
de outros, à sorte ou ao destino"
_______c) "Possuo domínio da situação em meu ambiente de trabalho"
_______d) "Encaro as situações adversas com otimismo e como oportunidade de aprendizagem"
_______e) "Me sinto responsável pelos sucessos de minha própria vida, sendo estes encarados como
consequentes às minhas habilidades e meus esforços"
_______f) "Sou empático(a), sensível, humano(a), com dedicação profissional, altruísta, obsessivo(a),
entusiasta"
_______g) "Me destaco nos aspectos negativos, prevejo insucesso, sofro por antecipação. Sou bastante
exigente comigo e com os outros, não tolerando erros e dificilmente me satisfaço com os resultados das
tarefas realizadas"
_______h) "Posso deixar de ser realista e ter grandes chances de me decepcionar"
_______i) "Me sinto inseguro(a), preocupo-me excessivamente, tenho dificuldade em delegar tarefas e
dificuldade em trabalhar em grupo"
_______j) "Me mantenho na defensiva e tendo à evitação diante das dificuldades"
23 - Sobre o seu ambiente de trabalho, assinale os itens conforme o seu contexto, de forma geral. Quanto à
normatização (regras), você considera:
1 Discordo totalmente
2 Discordo parcialmente
3 Indiferente
4 Concordo parcialmente
5 Concordo totalmente
ANEXO B
0 – Nunca
1 – Algumas vezes ao ano ou menos
2 – Uma vez ao mês ou menos
3 – Algumas vezes por mês
4 – Uma vez por semana
5 – Algumas vezes por semana
6 – Todos os dias
ANEXO C
ANEXO D
Dear Telma,
Thank you for sending me the Portuguese translation and back-translation of the MBI-HSS, via
CPP. I think you did a very fine job with the translation, and I hope your research project will go
well.I had not realized that you wanted a specific reply from me, so I apologize for this late answer
to your query.
I would be interested in hearing about the results of your research. Best wishes, Christina
Maslach
127
ANEXO E
Questionário sobre estado de saúde
SF-36
Translation into Portuguese on the original English version
INSTRUÇÕES: As questões que se seguem pedem-lhe opinião sobre a sua saúde, a forma como se sente e sobre
a sua capacidade de desempenhar as atividades habituais.
Pedimos que leia com atenção cada pergunta e que responda o mais honestamente possível. Se não tiver a
certeza sobre a resposta a dar, dê-nos a que achar mais apropriada e, se quiser, escreva um comentário a seguir
à pergunta.
Para as perguntas 1 e 2, por favor coloque um círculo no número que melhor descreve a sua saúde.
1 – Em geral diria que a sua saúde é:
Ótima Muito boa Boa Razoável Fraca
1 2 3 4 5
2 – Comparando com o que acontecia há um ano, como descreve o seu estado geral atual:
Muito melhor Com algumas Aproximadamente Um pouco pior Muito pior
melhoras igual
1 2 3 4 5
3 – As perguntas que se seguem são sobre atividades que executa no seu dia-a-dia. Será que sua saúde o/a
limita nestas atividades? Se sim, quanto? (Por favor, assinale com um círculo um número em cada linha).
Sim, muito Sim, um pouco Não, nada
limitado(a) limitado(a) limitado(a)
a. a. Atividades rigorosas, tais como correr,
levantar pesos, participar de esportes 1 2 3
extenuantes…
b. b. Atividades moderadas, tais como
deslocar uma 1 2 3
mesa ou aspirar a casa…
c. c. Levantar ou pegar as compras de
mercearia… 1 2 3
d. d. Subir vários degraus de escada… 1 2 3
4 - Durante as quatro últimas semanas, teve no seu trabalho ou atividades diárias, alguns dos problemas
apresentados a seguir como consequência do seu estado de saúde físico?
Quanto tempo nas últimas quatro Sempre A maior parte Algum Pouco Nunca
semanas… do tempo tempo tempo
a. a. Diminuiu o tempo gasto a
trabalhar ou em outras atividades… 1 2 3 4 5
128
5 - Durante as quatro últimas semanas, teve no seu trabalho ou atividades diárias, alguns dos problemas
apresentados a seguir, devido a quaisquer problemas emocionais (tal como sentir-se deprimido(a) ou
ansioso(a)?
Quanto tempo nas últimas quatro Sempre A maior parte Algum Pouco Nunca
semanas… do tempo tempo tempo
a. a. Diminuiu o tempo gasto a
trabalhar ou em outras atividades… 1 2 3 4 5
b. b. Fez menos do que queria… 1 2 3 4 5
c. c. Executou o seu trabalho ou
outras atividades menos
cuidadosamente do que era de 1 2 3 4 5
costume…
Para cada uma das perguntas 6, 7 e 8, por favor, ponha um círculo no número que melhor descreve
a sua saúde.
6 – Durante as últimas quatro semanas, em que medida é que a sua saúde física ou problemas emocionais
interferiram no seu relacionamento social normal com a família, amigos, vizinhos ou outras pessoas?
Absolutamente nada Pouco Moderadamente Bastante Imenso
1 2 3 4 5
8 – Durante as últimas quatro semanas, de que forma é que a dor interferiu com o seu trabalho normal
(tanto o trabalho fora de casa como o trabalho doméstico?
Absolutamente nada Pouco Moderadamente Bastante Imenso
1 2 3 4 5
9 – As perguntas que se seguem pretendem avaliar a forma como você se sentiu e como lhe correrram as
coisas nas últimas quarto semanas. Para cada pergunta, coloque, por favor, um círculo a volta do número
que melhor descreve a forma como se sentiu (Certifique-se que coloca um círculo em cada linha).
Quanto tempo nas últimas quatro Sempre A maior parte do Pouco tempo Nunca
semanas… tempo
a. a. Se sentiu cheio(a) de vitalidade?
1 2 3 4
b. b. Se sentiu muito nervosa(a)? 1 2 3 4
c. c. Se sentiu tão deprimido(a) que
nada o(a) animava? 1 2 3 4
d. d. Se sentiu calmo(a) e
tranquilo(a)? 1 2 3 4
e. e. Se sentiu com muita energia?
129
1 2 3 4
f. f. Se sentiu deprimido(a)? 1 2 3 4
g. g. Se sentiu estafado(a)? 1 2 3 4
h. h. Se sentiu feliz? 1 2 3 4
i. i. Se sentiu cansado(a)? 1 2 3 4
10 – Durante as quatro últimas semanas, até que ponto que a sua saúde física ou problemas emocionais
limitaram a sua atividade social (tal como visitar amigos ou familiares próximos)?
Sempre A maior parte do tempo Algum tempo Pouco tempo Nunca
1 2 3 4 5
11 – Por favor, diga em que medida são verdadeiras ou falsas as seguintes afirmações. Ponha um círculo
para cada linha.
Absolutamente Verdade Não sei Falso Absolu-
verdade tamente
falso
a. a. Parece que adoeço mais facilmente
do que os outros… 1 2 3 4 5
b. b. Sou tão saudável como qualquer
outra pessoa… 1 2 3 4 5
c. c. Estou convencido(a) que a minha
saúde vai piorar… 1 2 3 4 5
d. d. A minha saúde é ótima… 1 2 3 4 5
Muito obrigada!
130
ANEXO F
1) ___Com que frequência você tem que fazer suas tarefas de trabalho com muita rapidez?
2) ___Com que frequência você tem que trabalhar intensamente (isto é, produzir muito em pouco tempo)?
3) ___Seu trabalho exige demais de você?
4) ___Você tem tempo suficiente para cumprir todas as tarefas de seu trabalho?
5) ___O seu trabalho costuma apresentar exigências contraditórias ou discordantes?
6) ___Você tem possibilidade de aprender coisas novas em seu trabalho?
7) ___Seu trabalho exige muita habilidade ou conhecimentos especializados?
8) ___Seu trabalho exige que você tome iniciativas?
9) ___No seu trabalho, você tem que repetir muitas vezes as mesmas tarefas?
10) ___Você pode escolher COMO fazer o seu trabalho?
11) ___Você pode escolher O QUE fazer no seu trabalho?
Opções de resposta de 1 até 11: Frequentemente; Às vezes; Raramente; Nunca ou Quase nunca
Opções de resposta de 12 até 17: Concordo totalmente; Concordo mais que discordo; Discordo mais
que concordo; Discordo totalmente