Rafael nunca entendeu direito o que era ser criança.
Para ele, infância não tinha a ver com brincar
no quintal ou rir até a barriga doer. Era acordar com medo de decepcionar e tentar ser forte o tempo
todo, porque, na cabeça do pai, fraqueza era quase um crime.
Guilherme, o pai, acreditava que os filhos precisavam ser duros para sobreviver. E fazia isso do jeito
mais bruto possível. Corrida descalça em terreno cheio de pedras, flexão até o braço falhar, briga
de treino que às vezes virava briga de verdade. Tudo num armazém velho, com cheiro de ferrugem
e umidade. Foi ali que Rafael e o irmão mais velho, Lucas, cresceram.
Lucas, dois anos mais velho, tentava ser um escudo. Quando percebia que o pai estava prestes a
explodir, se colocava na frente. Levava bronca, golpe, o peso inteiro. Rafael retribuía quando
conseguia, protegendo o irmão nos dias em que o pai descontava uma raiva que não era deles. Era
um cuidado torto, mas era o que tinham.
Às vezes, depois de um treino que deixava os dois destruídos, Lucas escondia um chocolate ou
uma bala no bolso e dividia com Rafael. Quase não falavam. Só se olhavam. E aquele olhar dizia:
“aguenta firme, eu tô aqui”.
Até que, numa noite, o pai quis “subir o nível”. Mandou os dois fazerem um exercício tão idiota
quanto perigoso. Lucas foi primeiro, como sempre, tentando mostrar que dava conta. Escorregou,
caiu mal e bateu a cabeça no concreto. Rafael ouviu o barulho seco. Viu o irmão no chão, olhos
abertos, imóvel.
Depois disso, Rafael desligou. Não chorou na hora, nem no enterro, nem nas semanas seguintes. O
choro só veio muito depois, em momentos inesperados: o cheiro de ferrugem, o som de uma corda
de violão afinada errado, uma música no rádio que despertava alguma lembrança.
A mãe, Elisa, enfim expulsou Guilherme de casa. Mas já era tarde para muita coisa. Ela amava
Rafael, só não sabia mais como alcançá-lo. E ele não sabia como deixá-la chegar. Continuava
acordando às cinco, fazia flexão escondido no quintal e sentia culpa até por sorrir por alguns
segundos.
Até que encontrou um violão velho na escola, largado num canto empoeirado. Rafael pegou,
passou os dedos nas cordas sem força… e ouviu um som que não machucava. Era a primeira coisa
em anos que não doía.
Começou a tocar como quem volta a respirar depois de muito tempo. No início era torto,
desafinado, sem jeito. Mas era dele. Aos poucos criou melodias que diziam o que ele não
conseguia colocar em palavras.
Mais tarde, juntou alguns caras que também carregavam seus próprios pesos. Formaram a banda
Dragões Gêmeos. Rafael manteve o nome porque, de algum modo, era uma forma de levar Lucas
junto.
Hoje ele é adulto. Reconstruiu sozinho um Impala 67 quatro portas, lixando, pintando e trocando
peça por peça ao longo de meses. Quando entra no carro e liga o motor, sente um silêncio que não
machuca. Um silêncio possível.
Ele ainda carrega o passado. Ainda acorda cedo demais. Ainda se culpa pelo que não controla. Mas
agora tem a música, o carro e amigos que entendem sem que ele precise explicar. E, principalmente,
tem dias em que consegue respirar sem sentir que está traindo a
lguém.
É pouco. Mas, para quem achou que nunca mais ia conseguir respirar direito, é bastante.
Rafael nunca entendeu direito o que era ser criança. Para ele, infância não tinha a ver com brincar
no quintal ou rir até a barriga doer. Era acordar com medo de decepcionar e tentar ser forte o tempo
todo, porque, na cabeça do pai, fraqueza era quase um crime.
Guilherme, o pai, acreditava que os filhos precisavam ser duros para sobreviver. E fazia isso do jeito
mais bruto possível. Corrida descalça em terreno cheio de pedras, flexão até o braço falhar, briga
de treino que às vezes virava briga de verdade. Tudo num armazém velho, com cheiro de ferrugem
e umidade. Foi ali que Rafael e o irmão mais velho, Lucas, cresceram.
Lucas, dois anos mais velho, tentava ser um escudo. Quando percebia que o pai estava prestes a
explodir, se colocava na frente. Levava bronca, golpe, o peso inteiro. Rafael retribuía quando
conseguia, protegendo o irmão nos dias em que o pai descontava uma raiva que não era deles. Era
um cuidado torto, mas era o que tinham.
Às vezes, depois de um treino que deixava os dois destruídos, Lucas escondia um chocolate ou
uma bala no bolso e dividia com Rafael. Quase não falavam. Só se olhavam. E aquele olhar dizia:
“aguenta firme, eu tô aqui”.
Até que, numa noite, o pai quis “subir o nível”. Mandou os dois fazerem um exercício tão idiota
quanto perigoso. Lucas foi primeiro, como sempre, tentando mostrar que dava conta. Escorregou,
caiu mal e bateu a cabeça no concreto. Rafael ouviu o barulho seco. Viu o irmão no chão, olhos
abertos, imóvel.
Depois disso, Rafael desligou. Não chorou na hora, nem no enterro, nem nas semanas seguintes. O
choro só veio muito depois, em momentos inesperados: o cheiro de ferrugem, o som de uma corda
de violão afinada errado, uma música no rádio que despertava alguma lembrança.
A mãe, Elisa, enfim expulsou Guilherme de casa. Mas já era tarde para muita coisa. Ela amava
Rafael, só não sabia mais como alcançá-lo. E ele não sabia como deixá-la chegar. Continuava
acordando às cinco, fazia flexão escondido no quintal e sentia culpa até por sorrir por alguns
segundos.
Até que encontrou um violão velho na escola, largado num canto empoeirado. Rafael pegou,
passou os dedos nas cordas sem força… e ouviu um som que não machucava. Era a primeira coisa
em anos que não doía.
Começou a tocar como quem volta a respirar depois de muito tempo. No início era torto,
desafinado, sem jeito. Mas era dele. Aos poucos criou melodias que diziam o que ele não
conseguia colocar em palavras.
Mais tarde, juntou alguns caras que também carregavam seus próprios pesos. Formaram a banda
Dragões Gêmeos. Rafael manteve o nome porque, de algum modo, era uma forma de levar Lucas
junto.
Hoje ele é adulto. Reconstruiu sozinho um Impala 67 quatro portas, lixando, pintando e trocando
peça por peça ao longo de meses. Quando entra no carro e liga o motor, sente um silêncio que não
machuca. Um silêncio possível.
Ele ainda carrega o passado. Ainda acorda cedo demais. Ainda se culpa pelo que não controla. Mas
agora tem a música, o carro e amigos que entendem sem que ele precise explicar. E, principalmente,
tem dias em que consegue respirar sem sentir que está traindo a
lguém.
É pouco. Mas, para quem achou que nunca mais ia conseguir respirar direito, é bastante.
Rafael nunca entendeu direito o que era ser criança. Para ele, infância não tinha a ver com brincar
no quintal ou rir até a barriga doer. Era acordar com medo de decepcionar e tentar ser forte o tempo
todo, porque, na cabeça do pai, fraqueza era quase um crime.
Guilherme, o pai, acreditava que os filhos precisavam ser duros para sobreviver. E fazia isso do jeito
mais bruto possível. Corrida descalça em terreno cheio de pedras, flexão até o braço falhar, briga
de treino que às vezes virava briga de verdade. Tudo num armazém velho, com cheiro de ferrugem
e umidade. Foi ali que Rafael e o irmão mais velho, Lucas, cresceram.
Lucas, dois anos mais velho, tentava ser um escudo. Quando percebia que o pai estava prestes a
explodir, se colocava na frente. Levava bronca, golpe, o peso inteiro. Rafael retribuía quando
conseguia, protegendo o irmão nos dias em que o pai descontava uma raiva que não era deles. Era
um cuidado torto, mas era o que tinham.
Às vezes, depois de um treino que deixava os dois destruídos, Lucas escondia um chocolate ou
uma bala no bolso e dividia com Rafael. Quase não falavam. Só se olhavam. E aquele olhar dizia:
“aguenta firme, eu tô aqui”.
Até que, numa noite, o pai quis “subir o nível”. Mandou os dois fazerem um exercício tão idiota
quanto perigoso. Lucas foi primeiro, como sempre, tentando mostrar que dava conta. Escorregou,
caiu mal e bateu a cabeça no concreto. Rafael ouviu o barulho seco. Viu o irmão no chão, olhos
abertos, imóvel.
Depois disso, Rafael desligou. Não chorou na hora, nem no enterro, nem nas semanas seguintes. O
choro só veio muito depois, em momentos inesperados: o cheiro de ferrugem, o som de uma corda
de violão afinada errado, uma música no rádio que despertava alguma lembrança.
A mãe, Elisa, enfim expulsou Guilherme de casa. Mas já era tarde para muita coisa. Ela amava
Rafael, só não sabia mais como alcançá-lo. E ele não sabia como deixá-la chegar. Continuava
acordando às cinco, fazia flexão escondido no quintal e sentia culpa até por sorrir por alguns
segundos.
Até que encontrou um violão velho na escola, largado num canto empoeirado. Rafael pegou,
passou os dedos nas cordas sem força… e ouviu um som que não machucava. Era a primeira coisa
em anos que não doía.
Começou a tocar como quem volta a respirar depois de muito tempo. No início era torto,
desafinado, sem jeito. Mas era dele. Aos poucos criou melodias que diziam o que ele não
conseguia colocar em palavras.
Mais tarde, juntou alguns caras que também carregavam seus próprios pesos. Formaram a banda
Dragões Gêmeos. Rafael manteve o nome porque, de algum modo, era uma forma de levar Lucas
junto.
Hoje ele é adulto. Reconstruiu sozinho um Impala 67 quatro portas, lixando, pintando e trocando
peça por peça ao longo de meses. Quando entra no carro e liga o motor, sente um silêncio que não
machuca. Um silêncio possível.
Ele ainda carrega o passado. Ainda acorda cedo demais. Ainda se culpa pelo que não controla. Mas
agora tem a música, o carro e amigos que entendem sem que ele precise explicar. E, principalmente,
tem dias em que consegue respirar sem sentir que está traindo a
lguém.
É pouco. Mas, para quem achou que nunca mais ia conseguir respirar direito, é bastante.
Rafael nunca entendeu direito o que era ser criança. Para ele, infância não tinha a ver com brincar
no quintal ou rir até a barriga doer. Era acordar com medo de decepcionar e tentar ser forte o tempo
todo, porque, na cabeça do pai, fraqueza era quase um crime.
Guilherme, o pai, acreditava que os filhos precisavam ser duros para sobreviver. E fazia isso do jeito
mais bruto possível. Corrida descalça em terreno cheio de pedras, flexão até o braço falhar, briga
de treino que às vezes virava briga de verdade. Tudo num armazém velho, com cheiro de ferrugem
e umidade. Foi ali que Rafael e o irmão mais velho, Lucas, cresceram.
Lucas, dois anos mais velho, tentava ser um escudo. Quando percebia que o pai estava prestes a
explodir, se colocava na frente. Levava bronca, golpe, o peso inteiro. Rafael retribuía quando
conseguia, protegendo o irmão nos dias em que o pai descontava uma raiva que não era deles. Era
um cuidado torto, mas era o que tinham.
Às vezes, depois de um treino que deixava os dois destruídos, Lucas escondia um chocolate ou
uma bala no bolso e dividia com Rafael. Quase não falavam. Só se olhavam. E aquele olhar dizia:
“aguenta firme, eu tô aqui”.
Até que, numa noite, o pai quis “subir o nível”. Mandou os dois fazerem um exercício tão idiota
quanto perigoso. Lucas foi primeiro, como sempre, tentando mostrar que dava conta. Escorregou,
caiu mal e bateu a cabeça no concreto. Rafael ouviu o barulho seco. Viu o irmão no chão, olhos
abertos, imóvel.
Depois disso, Rafael desligou. Não chorou na hora, nem no enterro, nem nas semanas seguintes. O
choro só veio muito depois, em momentos inesperados: o cheiro de ferrugem, o som de uma corda
de violão afinada errado, uma música no rádio que despertava alguma lembrança.
A mãe, Elisa, enfim expulsou Guilherme de casa. Mas já era tarde para muita coisa. Ela amava
Rafael, só não sabia mais como alcançá-lo. E ele não sabia como deixá-la chegar. Continuava
acordando às cinco, fazia flexão escondido no quintal e sentia culpa até por sorrir por alguns
segundos.
Até que encontrou um violão velho na escola, largado num canto empoeirado. Rafael pegou,
passou os dedos nas cordas sem força… e ouviu um som que não machucava. Era a primeira coisa
em anos que não doía.
Começou a tocar como quem volta a respirar depois de muito tempo. No início era torto,
desafinado, sem jeito. Mas era dele. Aos poucos criou melodias que diziam o que ele não
conseguia colocar em palavras.
Mais tarde, juntou alguns caras que também carregavam seus próprios pesos. Formaram a banda
Dragões Gêmeos. Rafael manteve o nome porque, de algum modo, era uma forma de levar Lucas
junto.
Hoje ele é adulto. Reconstruiu sozinho um Impala 67 quatro portas, lixando, pintando e trocando
peça por peça ao longo de meses. Quando entra no carro e liga o motor, sente um silêncio que não
machuca. Um silêncio possível.
Ele ainda carrega o passado. Ainda acorda cedo demais. Ainda se culpa pelo que não controla. Mas
agora tem a música, o carro e amigos que entendem sem que ele precise explicar. E, principalmente,
tem dias em que consegue respirar sem sentir que está traindo a
lguém.
É pouco. Mas, para quem achou que nunca mais ia conseguir respirar direito, é bastante.