Havia apenas um destino para Yin.
A princesa nasceu em Sineria, um reino outrora próspero e pacífico, agora
consumido pela calamidade. Suas terras, assoladas pela miséria, abrigavam um
povo cujas súplicas pareciam se perder no vazio, ignoradas pelos próprios deuses.
No trono, governava Rudeo, um rei determinado a restaurar seu orgulho — não
importava o custo.
O desespero de Rudeo o levou a um caminho sem retorno. Quando os deuses
silenciaram diante das preces do povo, o rei se voltou para aqueles que ainda
sussurravam promessas no escuro. Em ato de desespero, procurou um culto das
profundezas dos vilarejos de Sineria, adoradores de forças ancestrais que existiam
muito antes dos próprios deuses.
Eles ofereceram a Rudeo uma promessa: restaurariam o poder de seu reino, trariam
colheitas de volta às terras secas e devolveriam a força às muralhas de sua cidade
imediatamente. Mas toda magia tem seu preço. E o preço de Sineria seria pago com
sangue real.
O pacto foi selado antes mesmo do nascimento de Yin. O rei jurou que, no dia em
que sua filha atingisse a idade certa, seu corpo e sua alma seriam entregues como
oferenda. Em troca, a terra floresceria novamente, e a glória de Sineria renasceria.
Os anos se passaram, e a promessa de Rudeo se tornou um segredo enterrado sob
o peso da coroa. A princesa crescera entre os salões de pedra fria do castelo,
ouvindo os sussurros que se espalhavam como vento pelos corredores. Criada sob
olhares furtivos e silêncios prolongados, aprendeu a escutar o que não era dito. Os
boatos sobre como Sineria se reergueu e um possível pacto de Rudeo não
escapariam dos ouvidos curiosos da princesa. Apesar de murmúrios cruéis, Sineria
voltara a ser uma terra próspera e tampouco importava ao povo qual era o custo da
esperança.
E, mesmo ciente de seu possível destino, Yin não se revoltou.
A princesa não guardava rancor de seu pai, nem dos deuses que a exigiam. Mesmo
que não tivesse fé por tais deuses, mesmo que talvez morresse em vão, nas mãos
do acaso, ela não chorou diante a inevitabilidade de seu fim. Yin escolheu acreditar
que, por amor, havia sido criada. E isso bastava.
Se o sacrifício dela era o preço pela salvação de Sineria, então que assim fosse. A
princesa continuou vivendo todos os dias intensamente, se perguntando se tudo era
tão bonito porque estava condenada.
O dia chegou sem alarde. Yin não protestou quando vieram buscá-la. Seus passos
foram leves, seus pés, que nunca deixavam o castelo, caminhavam em um ritmo
sereno. Aceitara aquele momento há muito tempo — e agora ele estava ali, diante
dela, tão certo.
A levaram, em silêncio, para um lugar onde o vento uivava solitário entre pedras
antigas. Não haviam velas acesas, apenas o silêncio cortante, uma mesa de pedra
fria e uma lâmina à espera.
Yin deitou-se sem hesitar. O contato com a rocha gelada fez seu corpo estremecer.
Fechou os olhos, sentindo o peso do destino.
Então, abriu os olhos e se deparou com o céu estrelado.
Eram apenas brilhos pálidos juntamente com a luz da lua rompendo a escuridão da
noite, mas fizeram uma emoção desconhecida tomar conta de seu peito. Ela queria
viver. Naquele instante, viu o céu que nunca mais veria, e sentiu medo. A luz da lua
refletiu na lâmina e Yin chorou como alguém que nunca quis partir.
De repente, a princesa sentiu a mesa de pedra tremer. Rachaduras se abriram e Yin
sentiu seu corpo caindo em meio à escuridão. Um batimento cardíaco em meio aos
barulhos caóticos podia ser escutado, mas a consciência de Yin se esvaiu antes que
pudesse entender.
Ao acordar, não sentia mais a pedra fria encostando em sua pele; em vez disso,
sentia um calor quente e acolhedor. Yin tocou o casulo que a envolvia e ele se abriu
lentamente. Havia um horizonte vasto adiante.
Ela se perguntou se aquilo era uma segunda chance, mas naquele momento,
tampouco importava. Sua vida parecia mais preciosa do que nunca. Era tudo o que
lhe restava.
Ninguém a tomaria.