A sustentabilidade no setor têxtil
em Portugal
Soeiro: um caso do mercado nacional
Ana Micaela Barbosa Lucas
Católica Porto Business School,
2023
A sustentabilidade no setor têxtil
em Portugal
Soeiro: um caso do mercado nacional
Trabalho Final na modalidade de Dissertação
apresentado à Universidade Católica Portuguesa
para obtenção do grau de mestre em Gestão
por
Ana Micaela Barbosa Lucas
sob orientação de
Professor Luís Manuel Dionísio Marques
Católica Porto Business School,
Novembro de 2023
Agradecimentos
A realização desta dissertação de mestrado contou com importantes
apoios e incentivos sem os quais não teria sido possível terminar.
Ao professor Luís Manuel Dionísio Marques, pela sua orientação e
disponibilidade, pelas opiniões e críticas, e total colaboração no esclarecimento
de dúvidas que foram surgindo ao longo deste trabalho.
À empresa Soeiro porque me deu acesso total às informações necessárias
e disponibilidade total para qualquer questão.
Á CITEVE pela inclusão no novo projeto da criação do Relatório de
Sustentabilidade, que se encontra enquadrado com o tema da tese.
Aos meus amigos pela força e apoio dados.
E aos meus pais que todos os dias estavam presentes, pela motivação e
paciência demonstrados.
v
Resumo
A indústria têxtil tem um elevado impacto na vida de cada um, emprega
milhões de pessoas em todo o mundo e é a razão de grandes transações
económicas de todo o planeta. Porém, é uma das indústrias mais poluente e, ao
longo dos anos, o impacto negativo tem sido cada vez mais visível devido a
fenómenos como a moda rápida. Tendo em consideração estes fatores e, uma vez
que, a área da sustentabilidade tem vindo a ser palco de muitas discussões e
preocupações justifica-se a reflexão e desenvolvimento do tema em referência.
O objetivo desta dissertação é estudar o impacto da produção têxtil no
meio ambiente, bem como, perceber que estratégias podem ser usadas para
diminuir o impacto negativo deste setor. Começando por dar a conhecer o
conceito de sustentabilidade, passando pela cadeia do setor têxtil e,
posteriormente, abordar a forma como estão interligadas, bem como as
implicações a nível social e financeiro. Posteriormente, foi estudado o caso de
uma empresa têxtil portuguesa, através da realização de uma entrevista e um
questionário, que permitiu a análise de indicadores de desempenho relacionados
com a sustentabilidade ambiental, social e governança. Em tom de conclusão, as
empresas têxteis reconhecem que vivem uma nova perspetiva de negócio, ainda
que haja alguns entraves na aplicação de novas estratégias. Ainda assim, as
empresas portuguesas estão em contínua aprendizagem, para diminuir o
impacto negativo do setor.
Palavras-chave: Responsabilidade, Economia Circular, Sustentabilidade
vii
Abstract
The textile industry has a huge impact on everyone's life, employs millions
of people around the world and is the reason for major economic transactions
across the planet. However, it is one of the most polluting industries and, over
the years, its negative impact has become increasingly visible due to phenomena
such as fast fashion. Taking these factors into account and given that the area of
sustainability has been the scene of many discussions and concerns, it is justified
to reflect on and develop the topic in question.
The aim of this dissertation is to study the impact of textile production on
the environment, as well as to understand what strategies can be used to reduce
the negative impact of this sector. Starting by introducing the concept of
sustainability, going through the textile sector chain, and then looking at how
they are interconnected, as well as the social and financial implications.
Subsequently, the case of a Portuguese textile company was studied through an
interview and a questionnaire, which allowed the analysis of performance
indicators related to environmental, social and governance sustainability. In
conclusion, textile companies recognize that they are experiencing a new
business perspective, even if there are some obstacles in applying new strategies.
Even so, Portuguese companies are continuously learning in order to reduce the
negative impact of the sector.
Keywords: Responsibility, Circular Economy, Sustainability
ix
Índice
Agradecimentos ................................................................................................................................................................ v
Resumo .................................................................................................................................................................................... vii
Abstract .................................................................................................................................................................................... ix
Índice .......................................................................................................................................................................................... xi
Índice de Figuras ........................................................................................................................................................... xiv
Lista de Abreviaturas e Siglas ........................................................................................................................... xvi
Introdução .............................................................................................................................................................................. 1
Capítulo 1 ........................................................................................................................ 5
O conceito de sustentabilidade e o setor têxtil ...................................................................................... 5
1.1. Conceito de Desenvolvimento Sustentável .............................. 5
1.2. Cadeia do Setor Têxtil ................................................................. 9
1.2.1. Modelo de negócio .............................................................. 10
Capítulo 2 ...................................................................................................................... 12
Revisão de Literatura................................................................................................................................................. 12
2.1 Impacto da indústria têxtil no ambiente ................................. 12
2.1.1 Medidas ..................................................................................... 16
[Link] Novo modelo de negócio ...................................................... 20
2.2 Impacto social e financeiro na indústria têxtil ........................ 22
Capítulo 3 ...................................................................................................................... 25
Metodologia ....................................................................................................................................................................... 25
3.1 Estudo de Caso ............................................................................ 25
3.1.1 Escolha ....................................................................................... 25
3.1.2 Recolha de Informação ............................................................ 26
Capítulo 4 ...................................................................................................................... 28
Setor têxtil e o mercado nacional .................................................................................................................... 28
4.1 Breve enquadramento nacional do setor ................................. 28
4.2 Sustentabilidade ambiental no setor ........................................ 28
4.3 Caso: Soeiro ................................................................................. 31
4.3.1 História ...................................................................................... 31
4.3.2 Apresentação de Resultados ................................................... 32
4.4 Discussão...................................................................................... 38
Capítulo 5 ...................................................................................................................... 42
5.1 Conclusão ..................................................................................... 42
Bibliografia .......................................................................................................................................................................... 44
Anexos..................................................................................................................................................................................... 49
xi
xii
Índice de Figuras
Figura 1 - Nações Unidas (2015). Objetivos de Desenvolvimento Sustentável 7
Figura 2 - Agência de Notícias da Indústria (2018). Estrutura da cadeia
produtiva e de distribuição têxtil e confeção ........................................................... 10
Figura 3 “O sistema atual de produção de roupa coloca pressão nos recursos,
polui o ambiente e cria impactos negativos na sociedade” (em inglês, Ellen
MacArthur Foundation, 2017). .................................................................................. 11
Figura 4. “Impactos negativos da indústria têxtil em 2050.” (em inglês, Ellen
MacArthur Foundation, 2017). .................................................................................. 15
xiv
Lista de Abreviaturas e Siglas
AEA – Agência Europeia do Ambiente
ANIVEC – Associação Nacional das Indústrias de Vestuário e Confeção
ATP – Associação Têxtil e de Vestuário em Portugal
CCR – Centro Comum de Investigação
CITEVE – Centro Tecnológico das empresas do Setor Têxtil e de Vestuário
CTV – Certificação de Têxteis e de Vestuário
ECAP – European Clothing Action Plan
GFA – Global Fashion Agenda
GOTS – Global Organic Textile Standards
GRS – Global Recycled Standard
OCS – Organic Content Standard
KPIs – Indicadores de Performance
ODS – Objetivos de Desenvolvimento Sustentável
RDD – Research, Design Development
UE – União Europeia
xvi
Introdução
Este trabalho corresponde à dissertação final no âmbito do Mestrado em
Gestão na Católica Porto Business School (ramo generalista).
O objetivo deste trabalho é compreender quais as estratégias atuais e
futuras aplicadas nas empresas têxteis em Portugal, no ramo da sustentabilidade.
A escolha do tópico deve-se à importância do tema da sustentabilidade a nível
global na indústria. “Os drives mudaram e já nada nos assegura que os fatores
críticos de sucesso, que fizeram a competitividade do cluster têxtil nacional na
passada década, manterão a sua eficácia, especialmente quando o negócio global
da moda está em profunda transformação. Já antes da pandemia COVID, o
consumo de artigos de moda nos mercados desenvolvidos estava em queda
acentuada, mercê da alteração radical dos valores dos consumidores,
especialmente as gerações mais novas, que exigem transparência às marcas e aos
produtores, escrutinando onde se fabrica, como se fabrica, com que processos e
quais os impactos ambientais e sociais, preocupando-se com as questões da
sustentabilidade ambiental, mas também a social e a económica, pugnando por
modelos de circularidade produtiva, conferindo uma segunda vida às peças de
vestuário ou tornando-as matérias-primas do ciclo industrial seguinte, o que
determina menos consumo, consumo mais responsável e a rastreabilidade de
todo o sistema” (Machado, 2023). Mas não só, como também surgiu uma
oportunidade de aprendizagem e desenvolvimento a nível pessoal e a nível
profissional considerando que estou a ingressar na área da sustentabilidade
têxtil. Não obstante, importa referir que a indústria têxtil apresenta elevada
importância na atividade económica em Portugal, mas também é uma das
indústrias mais poluidoras. “No seu contributo para o Plano de Ação da UE para
a Economia Circular, a AEA estimou, na sua nota informativa sobre os têxteis e
1
o ambiente que, numa perspetiva de ciclo de vida global, e para pressões
selecionadas e mensuráveis, o consumo de têxteis na Europa causa, em média, a
quarta maior pressão no ambiente e nas alterações climáticas, a seguir à
habitação, à alimentação e à mobilidade” (em inglês, Mortensen, 2023).
Ainda que, estejam a ser delineadas estratégias para diminuir os impactos
da indústria têxtil, há necessidade de abranger todos os indivíduos que fazem
parte do processo produtivo no conhecimento do problema e na sua solução.
Assim, com este trabalho procura-se, através da análise de um caso real
compreender os fatores mencionados e analisar a situação da sustentabilidade no
mercado português.
Logo, a principal questão de investigação à qual se pretende dar resposta
é:
Quais as estratégias de sustentabilidade aplicadas a uma empresa
portuguesa do ramo têxtil?
Com o objetivo de responder à questão enunciada esta dissertação
estrutura-se da seguinte forma: No capítulo 1, é desenvolvido o conceito de
sustentabilidade e, de seguida uma breve explicação da cadeia produtiva do setor
têxtil bem como do modelo de negócio atual. No capítulo 2, a revisão de literatura
visa interligar a sustentabilidade ambiental com o setor têxtil, bem como os
outros dois pilares – governança e social. No capítulo 3, é apresentado o método
de investigação e as técnicas de recolha de dados. O capítulo 4 analisa a discute
os resultados obtidos em comparação com o mercado nacional. Por fim, o
capítulo 5 apresenta as conclusões do trabalho, as limitações de investigação e de
tópicos futuros.
2
3
Capítulo 1
O conceito de sustentabilidade e o setor têxtil
Neste capítulo, são abordados os dois principais temas da dissertação.
Iniciamos pelo desenvolvimento do conceito de sustentabilidade e,
posteriormente, é apresentada a cadeia produtiva do setor têxtil e o modelo de
negócio atual.
1.1. Conceito de Desenvolvimento Sustentável
Segundo o Parlamento Europeu, “a política ambiental da UE remonta a
1972, ano em que se realizou em Paris o Conselho Europeu, no qual os Chefes de
Estado e de Governo europeus declararam a necessidade de uma política
ambiental comunitária que acompanhasse a expansão económica” (em inglês,
Kurrer et Lipcaneanu, 2023).
Mais tarde, em 1987 deu-se o Ato Único Europeu “que constituiu a
primeira base jurídica da política ambiental comum, com vista a preservar a
qualidade do ambiente, proteger a saúde humana e garantir uma utilização
racional dos recursos humanos.” (em inglês, Kurrer et Lipcaneanu, 2023).
As revisões posteriores reforçaram então o compromisso da Europa no
que toca ao desenvolvimento sustentável. Tanto que, o “Tratado de Amesterdão
(1999) instituiu o dever de integrar a proteção do ambiente em todas as políticas
setoriais da UE, tendo em vista promover o desenvolvimento sustentável” (em
inglês, Kurrer et Lipcaneanu, 2023).
5
Deste modo, iniciou-se a discussão sobre o conceito de Desenvolvimento
Sustentável e, desde então, nos diferentes países do mundo tornou-se uma
preocupação dos diferentes governos.
A prova disso prende-se na política ambiental da EU que se baseia “nos
princípios da precaução, da prevenção e da correção da poluição na fonte, bem
como no princípio do «poluidor-pagador». O princípio da precaução é um
instrumento de gestão de risco que pode ser invocado sempre que exista
incerteza científica quanto à suspeita de risco para a saúde humana ou para o
ambiente decorrente de uma determinada ação ou política. A título de exemplo,
se surgirem dúvidas sobre os efeitos potencialmente nocivos de um produto e se,
na sequência de uma avaliação científica objetiva, persistirem incertezas, podem
ser dadas instruções para interromper a distribuição do produto ou para o retirar
do mercado” (em inglês, Kurrer et Lipcaneanu, 2023).
“O princípio do «poluidor-pagador» é aplicado pela Diretiva relativa à
responsabilidade ambiental, que visa a prevenção ou a reparação dos danos
ambientais causados a espécies e habitats naturais protegidos, à água e ao solo.
Os operadores de determinadas atividades profissionais, como o transporte de
substâncias perigosas, ou de atividades que impliquem descargas nas águas,
devem tomar medidas preventivas em caso de ameaça iminente para o ambiente.
Se os danos já tiverem ocorrido, os operadores são obrigados a tomar as medidas
adequadas para reparar esses danos, devendo suportar os respetivos custos.”
(em inglês, Kurrer et Lipcaneanu, 2023).
Para além disso, no ano de 2015 foi criada a Agenda 2030, constituída por
17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) que “é uma agenda
alargada e ambiciosa que aborda várias dimensões do desenvolvimento
sustentável (sócio, económico, ambiental) e que promove a paz, a justiça e
instituições eficazes” (Nações Unidas, 2015), conforme ilustra a imagem abaixo.
6
Figura 1 - Nações Unidas (2015). Objetivos de Desenvolvimento Sustentável
Cada um dos objetivos tem vários planos de ação, sendo que os objetivos
mais pertinentes para este trabalho são o objetivo 6, 7, 8, 9, 11, 12, 13. Abaixo
mencionam-se algumas medidas de cada objetivo:
• Objetivo 6 - Água Potável e Saneamento: reduzir a poluição, eliminar
o despejo e minimizar a libertação de produtos químicos.
• Objetivo 7 – Energias Renováveis e Acessíveis: aumentar o uso de
energias renováveis e torná-las mais acessíveis a todos.
• Objetivo 8 – Trabalho Digno e Crescimento Económico: a inovação,
erradicação da escravidão, aumento de produtividade e inclusão.
• Objetivo 9 – Indústria, inovação e infraestruturas: desenvolvimento de
infraestruturas de qualidade e sustentáveis, modernização da
indústria, apoios financeiros.
• Objetivo 11 – Cidades e Comunidades Sustentáveis: habitações e
transportes sustentáveis e acessíveis, prevenção na construção em
locais que possam degradar o ecossistema.
7
• Objetivo 12 – Produção e Consumo Sustentáveis: uso eficiente de
recursos naturais, reduzir desperdícios alimentares e introdução de
relatórios de sustentabilidade pelas empresas.
• Objetivo 13 – Ação Climática: aumentar a consciencialização e apoiar
países menos desenvolvidos.
Por conseguinte, importa definir o conceito de desenvolvimento
sustentável que, no Relatório Brundtland de 1987 “O Nosso Futuro Comum” da
Comissão Mundial para o Ambiente e o Desenvolvimento Sustentável está
descrito como a “Sustentabilidade é suprir as necessidades do presente sem
comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem as suas próprias
necessidades.” (em inglês, Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e
Desenvolvimento, 1987). O conceito de desenvolvimento sustentável surge de
um alerta no Relatório mencionado, para os possíveis perigos da geração futura
perante tomadas de posições do passado, como é o caso da Revolução Industrial
que permitiu o aumento da produção em massa, mas, em contrapartida, aumento
exponencial da poluição ambiental.
Complementarmente, é um conceito que une o ambiente, a economia e a
sociedade à escala local, regional, nacional e mundial, criando uma ligação
consistente de causas e efeitos. “Tal como comprovado pela teoria do Three
Bottom Line por John Elkington, o desenvolvimento sustentável está ligado à
dimensão financeira e social da empresa” (em inglês, Kenton, 2022). “O Triple
Bottom Line é um conceito de negócios que postula que as empresas devem
comprometer-se a medir seu impacto social e ambiental, além de seu
desempenho financeiro, integrando as três esferas – social, ambiental e
económica – nos valores e resultados de uma empresa. Na ideia fundamental da
teoria, a empresa não é só orientada para obter riqueza, mas também, a melhorar
a vida das pessoas e o bem-estar do planeta” (em inglês, Kenton, 2022). Como
todas as teorias, esta também tem as suas vantagens e desvantagens. “Como
8
vantagens temos o maior impacto ambiental a nível global, os colaboradores
comprometem-se com a empresa visto criar melhores condições e a possibilidade
de haver mais investidores interessados na empresa. Como desvantagens, pode
ser difícil mensurar alguns aspetos sociais e ambientais, a necessidade de
priorizar uma esfera mais do que a outra e mais custos tornando a empresa pouco
competitiva. Há exemplos de empresas que aplicam esta teoria ou parecida como
a LEGO que criou parcerias com empresas não governamentais para ajudar na
preservação da natureza e comprometeu-se a reduzir a pegado carbono” (em
inglês, Kenton, 2022).
Assim, ainda que seja desafiante a integração desta teoria com base nos
três pilares, a verdade é que, atualmente, a competitividade da empresa é
analisada através da preocupação ambiental, social e financeira: ou pelo impacto
positivo que a empresa tem no ambiente, ou pelas melhores condições de
trabalho ou pela lucratividade da empresa.
1.2. Cadeia do Setor Têxtil
Clarificado o termo desenvolvimento sustentável, é importante perceber
como funciona a cadeia produtiva da indústria têxtil. O processo produtivo têxtil
é um conjunto de várias atividades e processos envolvidos na produção e
distribuição de produtos têxteis, desde o abastecimento de matérias-primas até à
chegada dos produtos acabados aos consumidores.
Desta forma, numa primeira fase, há a preparação da matéria-prima, tal
como, a produção de fibras sintéticas e artificiais, algodão e lã, para consequente
produção do fio (fiação). De seguida, o fio é usado para a produção de diferentes
tipos de malha ou tecido, por exemplo, que pode ser modificado numa etapa
seguinte, através do tingimento. Posteriormente, a matéria-prima pode ser
alterada antes ou depois de dar entrada nas confeções para colocação de
estampados, bordados ou outros acabamentos. Por fim, a peça é cortada,
9
confecionada, etiquetada, dobrada e embalada, para chegar ao consumidor final
através da venda online ou física do artigo, conforme ilustrado pela imagem
abaixo.
Figura 2 - Agência de Notícias da Indústria (2018). Estrutura da cadeia produtiva e de
distribuição têxtil e confeção
1.2.1. Modelo de negócio
A cadeia produtiva têxtil carateriza-se por apresentar um modelo de
negócio linear – “é um sistema em que os recursos são extraídos para fabricar
produtos que acabam por se tornar resíduos e são deitados fora. Os produtos e
materiais não são geralmente utilizados em todo o seu potencial numa economia
linear e, como o nome sugere, movem-se sempre numa direção - da matéria-
prima para o lixo. Trata-se de um sistema poluente que degrada os sistemas
naturais e é o motor dos desafios globais, incluindo as alterações climáticas e a
perda de biodiversidade” (Ellen MacArthur Foundation). Aplicando o termo à
indústria têxtil, cada vez mais as roupas têm sido descartáveis, a indústria
10
tornou-se rapidamente globalizada com a aquisição de materiais, a confeção do
artigo e venda do produto em vários países, o que possibilitou o aumento da
produção em massa, dando origem a fenómenos como a moda rápida – “termo
utilizado para descrever o vestuário a baixo preço, que passa rapidamente da
conceção para as lojas de retalho para corresponder às tendências, com novas
coleções a serem introduzidas continuamente” (Adam Hayes, 2023). Em termos
práticos, “estima-se que mais de metade da moda rápida produzida é descartada
em menos de um ano.” (em inglês, Ellen MacArthur Foundation, 2017).
Portanto, é com uma economia linear aplicada e nas várias etapas deste
processo produtivo que a indústria têxtil apresenta elevados e preocupantes
valores de poluição a nível mundial, conforme ilustrado na imagem abaixo.
Figura 3 “O sistema atual de produção de roupa coloca pressão nos recursos, polui o
ambiente e cria impactos negativos na sociedade” (em inglês, Ellen MacArthur Foundation, 2017).
11
Capítulo 2
Revisão de Literatura
Neste capítulo, são abordados os impactos da indústria têxtil no ambiente,
bem como, as medidas presentes e futuras que irão acompanhar o caminho das
empresas para um desenvolvimento sustentável, dando especial enfâse ao
modelo de negócio da economia circular. Posteriormente, é feita uma reflexão
sobre os impactos sociais e financeiros nas indústrias tendo em conta as
mudanças em vista.
2.1 Impacto da indústria têxtil no ambiente
Conforme concluído no capítulo anterior, “os impactos ambientais do
consumo de têxteis e vestuário na EU são difíceis de estimar devido à sua
diversidade e ao facto de ocorrerem em todo o mundo. Um relatório de 2006 do
Centro Comum de Investigação (CCR) estimou que, enquanto a alimentação e as
bebidas, os transportes e a habitação privada representam 70 a 80% do impacto
ambiental do consumo na EU, o vestuário domina o resto, com uma contribuição
de 2 a 10%, consoante o tipo de impacto. Um relatório de 2017 da Global Fashion
Agenda (GFA) estimou a pegada ambiental da EU causada pelo consumo de
têxteis em 4 a 6%. Mais pormenorizadamente, o relatório Pulse of the Fashion
Industry de 2017, elaborado pela GFA e pelo Boston Consulting Group, estimou
que, em 2015, a indústria têxtil e de vestuário mundial foi responsável pelo
consumo de 79 mil milhões de metros cúbicos de água, 1 715 milhões de
toneladas de emissões de CO2 e 92 milhões de toneladas de resíduos. Estima-se
também que até 2030, num cenário de manutenção do status quo, estes números
aumentariam pelo menos 50%.” (em inglês, Sajn, 2019).
12
Ainda assim, é possível obter alguns dados relevantes como descrito pela
Agência Europeia do Ambiente, “Em 2020, o consumo de têxteis na EU causou,
em média, a terceira maior pressão sobre a utilização da água e do solo e a quinta
maior utilização de matérias-primas e emissões de gases com efeito de estufa.
Estima-se que, por pessoa média na EU, o consumo de têxteis exigiu 9 m³ de
água, 400 m² de terra, 391 kg de matérias-primas e causou uma pegada de
carbono de cerca de 270 kg. A libertação de microfibras e microplásticos no
ambiente devido à lavagem de produtos sintéticos é também uma preocupação.”
(em inglês, Agência Europeia do Ambiente, 2023).
Na prática, todo o processo produtivo da indústria têxtil implica cuidados a
nível ambiental. Começando na produção de matérias-primas, “O algodão, que,
de acordo com um relatório de 2015 do Plano de Ação Europeu para o Vestuário
(ECAP), representa mais de 43% de todas as fibras utilizadas no vestuário no
mercado da EU, é considerado especialmente problemático porque requer
enormes quantidades de terra, água, fertilizantes e pesticidas. (Parlamento
Europeu, 2019). “O poliéster, que é fabricado a partir de combustíveis fósseis e
não é biodegradável, representou 16% das fibras utilizadas no vestuário, de
acordo com o ECAP.” (Parlamento Europeu, 2019). Aliás, “(...) vários estudos
recentes mostraram também que uma carga de roupa de poliéster (também de
nylon e acrílico) pode libertar 700 000 fibras microplásticas, que libertam toxinas
para o ambiente e podem acabar na cadeia alimentar humana. As estimativas
indicam que, todos os anos, cerca de meio milhão de toneladas de microfibras de
plástico provenientes da lavagem de roupa vão parar ao oceano.” (em inglês,
Sajn, 2019).
Já nos processos seguintes de fiação, produção de malha ou tecido,
tingimentos e confeção é também gasta muita energia, água e produtos químicos.
“Na produção de vestuário são utilizados mais de 1 900 produtos químicos, dos
quais 165 são classificados pela EU como perigosos para a saúde ou para o
13
ambiente. De acordo com o relatório Pulse of the Fashion Industry de 2017, o
tingimento pode exigir até 150 litros de água por quilograma de tecido e, nos
países em desenvolvimento, onde se realiza a maior parte da produção e onde a
legislação ambiental não é tão rigorosa como na EU, as águas residuais são
frequentemente descarregadas sem filtragem nos cursos de água. A própria
produção de vestuário consome uma quantidade significativa de energia para o
equipamento de costura, colagem, soldadura e costura. Os retalhos que sobram
depois de cortados os moldes para as roupas são também responsáveis por cerca
de 20 % dos resíduos de tecido da indústria.” (em inglês, Sajn, 2019).
Na parte final do processo produtivo que inclui o transporte e os produtos
finais, “de acordo com o relatório Pulse of the Fashion Industry, esta fase
representa apenas 2% dos impactos da indústria nas alterações climáticas, uma
vez que a maioria dos grandes operadores otimizou o fluxo de mercadorias. No
entanto, esta fase também se caracteriza pelos resíduos gerados pelas
embalagens, etiquetas, cabides e sacos, bem como por uma grande proporção de
produtos que nunca chegam aos consumidores, uma vez que as sobras não
vendidas são deitadas fora.” (em inglês, Sajn, 2019).
Por último, mas não menos importante, a compra da peça pelo consumidor
final, revela-se ser “a maior pegada ambiental no ciclo de vida do vestuário,
devido à água, à energia e aos produtos químicos (principalmente detergentes)
utilizados na lavagem, na secagem na máquina e na passagem a ferro, bem como
aos microplásticos que se desprendem na água.” (em inglês, Sajn, 2019). Além
disso, é de notar que maioria dos consumidores não reutilizam as roupas nem
reciclam, dão uma única vida à peça para posteriormente serem colocadas no
lixo. Conforme apresentado no report da Ellen MacArthur Foundation, “Menos
de 1% do material utilizado para produzir vestuário é reciclado em vestuário
novo” (em inglês, Ellen MacArthur Foundation, 2017).
14
Aliado aos impactos negativos apresentados anteriormente nas diferentes
fases do processo produtivo, “se o crescimento continuar como esperado, o total
de vendas de vestuário atingirá 160 milhões de toneladas em 2050 – mais do
triplo da quantidade atual.” (em inglês, Ellen MacArthur Foundation, 2017).
Deste modo, a continuidade da indústria têxtil desta forma irá originar
consequências catastróficas – “aumento em 26% do uso do orçamento têxtil na
pegada do carbono, em comparação com os 2% de momento, aumento da
produção renovável em 202 milhões de toneladas e acumulação de 22 milhões de
toneladas de microfibras nos oceanos, conforme ilustrado na imagem abaixo. (em
inglês, Ellen MacArthur Foundation, 2017).
Figura 4. “Impactos negativos da indústria têxtil em 2050.” (em inglês, Ellen MacArthur
Foundation, 2017).
Perante a problemática apresentada, a indústria têxtil tem vindo a colaborar
com diferentes instituições de vários países para encontrar soluções que
diminuam o impacto negativo desta indústria no ambiente.
15
2.1.1 Medidas
Nos últimos anos tem existido uma maior consciencialização do impacto
negativo da indústria têxtil no ambiente, como podemos observar pelo aumento
das aplicações e o interesse da população global em vender roupa em segunda
mão, que já não usa mais. Um bom exemplo é a aplicação vinted que “está aberta
a todos os que acreditam que a boa roupa deve durar.” (Vinted, 2008). Aliada a
esta solução, existem outras medidas em curso que permitem minimizar os danos
no final do processo produtivo, “As novas estratégias para resolver esta questão
incluem o desenvolvimento de novos modelos de negócio para o aluguer de
vestuário, a conceção de produtos de forma a facilitar a reutilização e a
reciclagem (moda circular), convencer os consumidores a comprar vestuário de
melhor qualidade em menor quantidade (slow fashion) e, de um modo geral,
orientar o comportamento dos consumidores para opções mais sustentáveis.”
(em inglês, Parlamento Europeu, 2023).
Ainda que o fim do ciclo produtivo seja uma das etapas mais preocupantes
a nível ambiental, é essencial transformar todo o processo produtivo.
Em Março foi publicada a Estratégia da UE em prol da Sustentabilidade e
Circularidade dos Têxteis na qual estabelece o seguinte objetivo até 2030, “os
produtos têxteis colocados no mercado da EU são duradouros e recicláveis,
fabricados em grande parte a partir de fibras recicladas, livres de substâncias
perigosas e produzidas no respeito dos direitos sociais e do ambiente. Os
consumidores beneficiam mais tempo de têxteis de alta qualidade e a preços
acessíveis, a moda rápida está fora da moda e estão amplamente disponíveis
serviços lucrativos de reutilização e reparação. Num setor têxtil competitivo,
resiliente e inovador, os produtores assumem a responsabilidade pelos seus
produtos ao longo da cadeia de valor, inclusive quando se tornam resíduos. O
ecossistema têxtil circular está a prosperar, impulsionado por capacidades
suficientes e inovadores de reciclagem de fibras em novas fibras, ao passo que a
16
incineração e a deposição em aterro de têxteis estão reduzidas ao mínimo.”
(Comissão Europeia, 2022).
Desta forma, nascem um conjunto de ações para toda a cadeia produtiva
em prol da sustentabilidade do setor têxtil:
• “A forma mais eficaz de reduzir significativamente o impacto dos
produtos têxteis no clima e no ambiente é prolongar a sua vida útil”,
desta forma, surgem novos requisitos de conceção dos produtos, tais
como “critérios pormenorizados relativos a produtos duradouros e de
boa qualidade, restrições de produtos químicos perigosos” (Comissão
Europeia, 2022).
• “A destruição de bens não vendidos ou devolvidos, incluindo
vestuário, constitui um desperdício de valor e de recursos. Para
desincentivar esta prática, a Comissão propõe uma obrigação de
transparência por força da qual as grandes empresas deverão divulgar
publicamente a quantidade de produtos que descartam e destroem
inclui têxteis, e o tratamento posterior dos mesmos em termos de
preparação para reutilização, reciclagem, incineração ou deposição em
aterro.” (Comissão Europeia, 2022).
• “A poluição da natureza, incluindo o ambiente marinho, por
microplásticos tornou-se generalizada e suscita uma profunda e
crescente preocupação. Uma das principais fontes de libertação não
intencional de microplásticos são os têxteis feitos de fibras sintéticas.“.
Deste modo, “a Comissão tenciona abordar as diferentes fases do ciclo
de vida em que as fibras sintéticas são libertadas no ambiente,
mediante um conjunto de medidas de prevenção e redução (...). Além
da conceção dos produtos, as medidas visarão os processos de fabrico,
a pré-lavagem nas instalações de fabrico industrial, a rotulagem e a
promoção de materiais inovadores.” (Comissão Europeia, 2022).
17
• “A existência de informações claras, estruturadas e acessíveis sobre as
caraterísticas de sustentabilidade ambiental dos produtos habilita as
empresas e os consumidores a fazerem melhores escolhas e aperfeiçoa
a comunicação entre os intervenientes ao longo das cadeias de valor,
incluindo produtores e operadores de reciclagem.” Assim, “a comissão
introduzirá um passaporte digital dos produtos têxteis baseado em
requisitos de informações obrigatórios sobre a circularidade e outros
aspetos ambientais fundamentais”. (Comissão Europeia, 2022).
• “Os consumidores dispostos a comprar produtos mais sustentáveis são
muitas vezes desencorajados pela falta de fiabilidade das alegações:
uma análise recente das alegações de sustentabilidade no setor têxtil,
do vestuário e do calçado sugeriu que 39% poderão ser falsas ou
enganadoras.” Para tal, “As novas regras da UE garantirão que os
consumidores recebam, no ponto de venda, informações sobre uma
garantia comercial de durabilidade, bem como informações
importantes sobre reparação, incluindo uma pontuação de
reparabilidade”. (Comissão Europeia, 2022).
• “É essencial responsabilizar os produtores pelos resíduos que os seus
produtos geram (...). A responsabilidade alargada do produtor pode
incentivar modelos de conceção de produtos que promovam a
circularidade ao longo do ciclo de vida dos materiais e tenham em
conta o fim de vida dos produtos”. Deste modo, “a Comissão proporá
regras harmonizadas da UE em matéria de responsabilidade alargado
do produtor de têxteis, incluindo ecomodulação das taxas. O principal
objetivo será criar uma economia de recolha, triagem, reutilização e
preparação para reutilização e reciclagem, bem como incentivos para
que os produtores e as marcas assegurem que os seus produtos sejam
18
concebidos de acordo com princípios de circularidade”. (Comissão
Europeia, 2022).
Para a imposição das novas medidas referidas, há que promover
condições favoráveis que permitam criar a indústria têxtil do futuro. Nesse
sentido, a Comissão aponta algumas dimensões:
• Criação de Vias de Transição, como ferramentas colaborativas para a
transformação do ecossistema industrial. “Através das diferentes
partes interessadas no processo, escolher os processos de fabrico mais
eficientes a adotar na utilização de recursos, na reutilização, na
reparação e de novos modelos de negócio.” (Comissão Europeia, 2022).
• Adoção de novos modelos de negócio por parte das empresas –
inverter os excessos na produção – para reformular novos hábitos de
compra nos consumidores – inverter os excessos de consumo.
• “Garantir a concorrência leal e o cumprimento das regras num
mercado interno em bom funcionamento.” (Comissão Europeia, 2022).
• Apoio à investigação, inovação e aos investimentos que, neste
momento, desempenharão um papel necessário nas empresas do setor.
Para tal, é importante, a existência de parcerias como Parceria Made in
Europe “que promoverá as tecnologias digitais facilitadores, a
competitividade, a ecologização, a sustentabilidade social e a
resiliência no fabrico e na utilização de têxteis.” (Comissão Europeia,
2022).
• “Desenvolver as competências necessárias para a dupla transição
ecológica e digital” é um tema que suscita alguma discussão nas
empresas têxteis, uma vez que, o setor têxtil é muito envelhecido. Deste
modo, “a Comissão apoiou a criação de uma parceria de competências
em grande escala no ecossistema têxtil, a fim de promover a melhoria
19
de competências, requalificação e a aquisição e transferência de
competências ecológicas e digitais”. (Comissão Europeia, 2022).
[Link] Novo modelo de negócio
Consequentemente, assiste-se à necessidade de tornar todo o processo
produtivo da indústria têxtil mais sustentável, com vista à transição para um
modelo de negócio diferente do atual – economia circular. Considerando como
ponto de partida a definição dada pelo Parlamento Europeu em 2016 - “A
economia circular é um modelo de produção e de consumo que envolve a
partilha, o aluguer, a reutilização, a reparação, a renovação e a reciclagem de
materiais e produtos existentes, enquanto possível. Desta forma, o ciclo de vida
dos produtos é alargado. Na prática, a economia circular implica a redução do
desperdício ou dos resíduos ao mínimo. Quando um produto chega ao fim do
seu ciclo de vida, os seus materiais são mantidos dentro da economia sempre que
possível graças à reciclagem. E podem, deste modo, ser utilizados uma e outra
vez, o que permite criar mais valor.” (Parlamento Europeu, 2023).
A adoção deste modelo de negócio traz grandes mudanças ao longo de
todo o processo produtivo. De uma forma geral, conforme é apresentado abaixo:
• “assegurar a longevidade e durabilidade dos produtos têxteis através
da conceção circular. O aumento da durabilidade permite uma
utilização e reutilização mais prolongadas dos produtos, contribuindo
para alargar o ciclo de vida dos têxteis”. Para tal, na fase de conceção
deve haver uma a seleção cuidadosa dos materiais, para que sejam
duradouros e ecológicos. Adicionalmente, é importante haver
mudanças de comportamento nos consumidores – moda lenta – para
contrariar as tendências atuais. (em inglês, Agência Europeia do
Ambiente, 2022).
20
• “otimização da utilização dos recursos para reduzir a pressão” através
do uso de “produtos químicos seguros e materiais biodegradáveis
diversificados”. Na fase de produção terá de ser implementado “a
redução de emissões, dos resíduos e dos fatores de produção, como a
água, os produtos químicos e a energia, e a produção de fibras a partir
de fontes renováveis e/ou conteúdos reciclados.” (em inglês, Agência
Europeia do Ambiente, 2022).
• “o design desempenha um papel na coleção e na reutilização dos
têxteis”. “Os modelos de negócio circulares construídos em torna da
recolha e revenda de têxteis visam prolongar a sua vida útil para alem
do primeiro utilizador.” Não obstante, “o sucesso destes modelos de
negócio alternativos depende da imagem da marca e o estilo e
qualidade do produto”. (em inglês, Agência Europeia do Ambiente,
2022).
• “Ao reduzir a utilização de recursos e prolongar a vida útil dos têxteis,
este modelo permite fechar o ciclo, transformando os resíduos têxteis
em matéria-prima para novos têxteis ou outras cadeias de produção”.
Ainda que, os produtos têxteis tenham bastantes especificações que
nem sempre permitem a reciclagem, devem ser criados artigos mais
simples que devem estar etiquetados com todas as informações para
tornar possível e fácil fechar o ciclo de forma sustentável. (em inglês,
Agência Europeia do Ambiente, 2022).
Na prática, percebemos que se aproxima uma nova e desafiante realidade
na indústria têxtil, mas, com o esforço de todos os intervenientes industriais e de
diversas iniciativas desenvolvidas em todo o mundo incorporamos a
sustentabilidade em todo e qualquer processo, produto ou estratégia do setor.
21
2.2 Impacto social e financeiro na indústria têxtil
O desenvolvimento de uma nova economia têxtil no futuro é fundamental
para o bem-estar ambiental, não descurando as vertentes social e financeira do
negócio. Os negócios atualmente estão profundamente ligados a três pilares –
ambiental, social e de governação. A evidência deste pressuposto é explicada no
conceito ESG - sigla em inglês que significa environmental, social and governance -
que engloba as práticas ambientais, sociais e de governança de uma
organização. O termo foi apresentado em 2004 num relatório designado Who
Cares Wins (Jornal Público).
Portanto, clarificando os três pilares:
• “As questões ambientais podem incluir a utilização de energia,
quantidade de resíduos e conservação de recursos naturais (...),
emissões diretas e indiretas de gases com efeito de estufa, gestão de
resíduos tóxicos e cumprimento da regulamentação ambiental.”
(em inglês, Investopedia, 2023).
• “Os aspetos sociais analisam a relação da empresa com as partes
interessadas internas e externas. A empresa impõe aos fornecedores
as suas próprias normas ESG? A empresa doa uma percentagem dos
seus lucros à comunidade local ou incentiva os empregados a
efetuarem trabalho voluntário nessa comunidade? As condições do
local de trabalho refletem uma elevada consideração pela saúde e
segurança dos trabalhadores?” (em inglês, Investopedia, 2023).
• “As normas de governação ESG garantem que uma empresa utiliza
métodos contabilísticos rigorosos e transparentes, procura a
integridade e a diversidade na seleção da sua liderança” (em inglês,
Investopedia, 2023).
22
Definido o conceito, no estudo da Mckinsey a seguir apresentado,
podemos aprofundar cinco formas de criação de valor através da aplicação do
ESG:
• Crescimento do volume de negócios – “Uma sólida proposta de ESG
ajuda as empresas a explorar novos mercados e expandir aqueles
em que operam atualmente.” Por exemplo, “Quando a Unilever
desenvolveu a Sunlight, uma marca de líquido para lavar louças que
usava muito menos água que outras marcas, as vendas de Sunlight
e de outros produtos que economizam água superaram o
crescimento da categoria em mais de 20% em diversos mercados que
enfrentavam escassez de água.” (em inglês, Henisz, Koller et
Nuttall, 2019). Neste caso, verificamos que não só a marca obteve
lucros pelo aumento das vendas, como também, houve uma
mudança no comportamento do consumidor adquirindo um
produto mais sustentável.
• Redução de custos – o conceito apresentado pode ajudar a combater
o aumento nos gastos operacionais (como o transporte de matéria-
prima no setor têxtil). Por exemplo, “A FedEx tem o objetivo de
converter toda a sua frota de 35 mil veículos para motores elétricos
ou híbridos. Até agora, 20% foram convertidos, o que já reduziu o
consumo de combustível em mais de 190 milhões de litros”. (em
inglês, Henisz, Koller et Nuttall, 2019).
• Redução das intervenções regulatórias e legais – “Uma proposta de
valor externa mais sólida pode possibilitar que as empresas tenham
maior liberdade estratégica, aliviando a pressão regulatória”. (em
inglês, Henisz, Koller et Nuttall, 2019).
• Aumento da produtividade dos funcionários – “Quanto maior for a
perceção do funcionário sobre o impacto que seu trabalho tem para
23
a empresa, maior é sua motivação para atuar de forma “pró-
social””. (em inglês, Henisz, Koller et Nuttall, 2019). Por exemplo,
a marca de gelados Ben & Jerry’s apoia o Comércio Justo,
permitindo a agricultores de países em desenvolvimento entrem no
mercado global e doando bónus sociais. Em termos práticos,
produzem 5 ingredientes principais – açúcar, cacao, baunilha, café e
bananas. (Ben & Jerry’s)
• Otimização de ativos e investimentos no presente – “Embora os
investimentos necessários para inovar possam ser substanciais,
optar por esperar pode ser a opção mais dispendiosa de todas. (...)
as respostas regulamentares às emissões afetarão provavelmente os
custos da energia e poderão afetar especialmente os balanços das
indústrias com grande intensidade de carbono. E as proibições ou
limitações como os plásticos de utilização única ou os carros a
gasóleo nos centros das cidades introduzirão novos
constrangimentos em várias empresas, muitas das quais poderão
ver-se obrigadas a recuperar o atraso.” (em inglês, Henisz, Koller et
Nuttall, 2019).
Em termos práticos, a introdução deste novo conceito no meio empresarial
permitiu obter informações relevantes sobre os três pilares no negócio de uma
empresa. Ainda que a inclusão da sustentabilidade ambiental e social no seio
empresarial seja um percurso que está a ser feito, este conceito tripartido
apresenta algumas limitações como as dificuldades em mensuração dos dados e
o investimento da empresa para realização dos relatórios.
24
Capítulo 3
Metodologia
Neste capítulo é apresentada a metodologia adotada neste trabalho de
investigação e as técnicas para recolha de informação.
O método de investigação adotada é o método qualitativo (em inglês,
Creswell, 2007, p.36). A escolha deve-se ao facto de o trabalho procurar
compreender os fenómenos que permitem interligar a sustentabilidade como
sendo uma estratégia do setor têxtil em Portugal.
3.1 Estudo de Caso
A estratégia adotada é o estudo de caso que Creswell define como
“abordagem qualitativa na qual o investigador explora um ou múltiplos casos
(...), através da recolha detalhada de dados, envolvendo múltiplas fontes de
informação (...) e relata uma descrição do caso e temas relacionados”. (em inglês,
Creswell, 2007, p.74). É um Estudo de Caso exploratório, uma vez que, é feito um
estudo sobre a sustentabilidade ambiental na indústria têxtil, que permitirá uma
melhor compreensão e desenvolvimento do tema. (Yin, 1994, p.15). Para tal foi
escolhido um estudo de caso, a Soeiro Centro Têxtil, Lda que, daqui em diante
será identificada como Soeiro.
3.1.1 Escolha
Os principais motivos de escolha desta empresa foram o início como
colaboradora na empresa na área de marketing, bem como, a ligação do
marketing à sustentabilidade ambiental atualmente, que foi desde logo uma
preocupação inicial apresentada pela empresa.
25
Adicionalmente, a empresa já trabalha em ambiente ligado à sustentabilidade
ambiental, conforme encontramos nas suas redes sociais, apresenta certificados
como GOTS (Global Organic Textile Standards), GRS (Global Recycled Standard),
OEKO-TEX Standard 100 e OCS (Organic 100 e Organic Blended).
E, também o facto da empresa trabalhar em conjunto com as organizações
têxteis em Portugal, o que permite parcerias e obter informações úteis para o
desenvolvimento deste trabalho.
Após a escolha, comecei por conhecer os valores e estratégias futuras da
empresa através de uma entrevista com a gerência. Posteriormente, no âmbito de
uma visita à MODTISSIMO com a empresa foi possível conhecer algumas
parcerias com as quais a empresa trabalha e possíveis novas. Deste modo,
selecionadas as 4 organizações CITEVE, ATP, CTV e ANIVEC, foi enviado um
email, a explicar o âmbito do projeto e a possibilidade da realização de um
questionário. Contudo, apenas obtive resposta da CITEVE com a possibilidade
de reunirmos e falarmos sobre o tema do trabalho. Na reunião remota foi
explicado o âmbito deste trabalho de investigação e foi colocado à Soeiro, o
desafio de participar no projeto Sustentabilidade que consiste na realização do
Relatório de Sustentabilidade do Setor Têxtil. No projeto foi disponibilizado um
link para colocarmos os diferentes KPIs da empresa em relação a três esferas –
ambiental, social e de governação para seguinte avaliação e comunicação do
relatório.
3.1.2 Recolha de Informação
Para responder à questão de investigação apresentada foi realizada uma
entrevista num formato semiestruturado, que permitiu a recolha de informação
geral sobre a empresa e o tema da sustentabilidade, a opinião dos inquiridos e
possíveis futuras estratégias.
26
De forma a garantir uma melhor recolha de dados foram selecionados dois
elementos para responder à entrevista realizada com base na revisão de literatura
(ver o Anexo 1).
Deste modo, iniciou-se a marcação presencial da entrevista, tendo sido
entrevistados os dois gerentes, Antonieta Barbosa e Abel Barbosa.
Adicionalmente, visto que ingressei na empresa este ano, tenho vindo a
acompanhar o processo produtivo o que me permite ter uma melhor visão da
atividade e de que forma a sustentabilidade está e pode estar presente durante o
processo produtivo.
Adicionalmente, foi realizado o questionário do mesmo modo que a
entrevista, às organizações têxteis ainda que não tenha sido usado devido ao
convite para o projeto Sustentabilidade que ocupou os restantes meses com a
procura de informação nos diferentes relatórios relacionados com o ambiente,
social e financeiro, bem como, no programa têxtil com a qual a empresa trabalha
– PROTÊXTIL, para posterior resposta aos KPIs. (ver Anexo 2)
27
Capítulo 4
Setor têxtil e o mercado nacional
Neste capítulo é feita uma breve apresentação da indústria têxtil no
mercado nacional e de que forma a sustentabilidade ambiental está presente.
Posteriormente mostrar e analisar os principais resultados do estudo de caso, de
modo dar resposta à questão de investigação.
4.1 Breve enquadramento nacional do setor
“A Indústria Têxtil e de Vestuário é uma das mais importantes industriais
para a economia portuguesa. Representa: 10% do total das exportações
portuguesas, 20% do emprego da indústria transformadora, 9% do volume de
negócios da indústria transformadora e 9% da produção da indústria
transformadora.” (ATP)
No âmbito da análise setorial da indústria dos têxteis e vestuário pelo Banco
de Portugal em 2023, Portugal tem 6 339 empresas, predominantemente
pequenas e Médias Empresas (PME). Braga e Porto são os dois distritos que tem
o maior número de empresas deste setor.
Os principais países de exportação são Espanha, França, Alemanha, EUA,
Itália. (ATP, 2022).
4.2 Sustentabilidade ambiental no setor
“Líder em inovação e sustentabilidade. Este é o novo cartão de visita
internacional da Indústria Têxtil e do Vestuário portuguesa que, nos últimos
anos, tem sabido reinventar-se, assumindo o papel de líder mundial na transição
28
para um sector mais amigo do planeta e acrescentando valor "verde" aos seus
produtos inovadores.” ATP, 2022).
“Tradicionalmente baseado na produção à medida dos clientes, a preços
muito competitivos, o sector têxtil e do vestuário português acabou por enfrentar
a questão da produção barata e em massa feita nos países do Sudeste Asiático.”.
(ATP, 2022).
No entanto, “tirando partido do seu próprio know-how industrial, apostando
na inovação tecnológica, na mão de obra qualificada, na qualidade dos produtos
e na produção responsável”, Portugal posicionou-se na frente das boas práticas
sustentáveis. (ATP, 2022).
Portanto, “este é, hoje, o principal pilar estratégico da indústria de moda
portuguesa: ser um game-changer num sector extremamente competitivo e com
grandes desafios pela frente.” (ATP, 2022).
Em 2023, a ATP reuniu no report “The Green Way”, alguns exemplos de várias
empresas têxteis que já começaram a adotar medidas no âmbito da
sustentabilidade:
• Diminuição do uso água: a empresa A. Sampaio “garante a melhor
gestão de água possível com colaborações rigorosas com parceiros de
acabamento e tinturaria, cujos processos estão a evoluir para reduzir a
água necessária. (...) O fio feito de plástico retirado dos oceanos numa
geografia próxima é” um exemplo da oferta de fios sustentáveis da
empresa. (ATP, 2023)
• Utilização de energias renováveis: “o grupo SOMELOS tem vindo a
investir fortemente para se tornar 60-70% independente no prazo de
dois anos. Para isso, estão a ser instaladas duas novas áreas de painéis
solares que mais do que triplicam a sua produção atual e está em fase
de instalação uma nova caldeira de biomassa.” (ATP, 2023)
29
• Rastreabilidade: “a Polopiqué adquiriu uma tecnologia inovadora da
Smartex. A tecnologia, baseada num software de hardware e visão
artificial, deteta defeitos têxteis em tempo real na produção têxtil,
incluindo malhas circulares. A rastreabilidade e a deteção destes
defeitos evitam o desperdício de energia, material e custos humanos
relacionados com o reprocessamento destes artigos defeituosos.”
(ATP, 2023)
• Tingimento: “INFUSION da JFA JF ALMEIDA cria tinturas a partir de
folhas de chá certificadas pela SGS, aplicáveis a fibras de algodão e
suas misturas. A infusão baseia-se na utilização de resíduos de folhas
de chá. (...) A JF Almeida possui uma linha de corantes naturais para
fibra de algodão, a LandColors, um processo de tingimento que
permite economizar 30% de água e gastar 20% menos tempo de
processo.” (ATP, 2023)
• Impressão: Na RDD TEXTILES o “Eco black é feito a partir de resíduos
de madeira com uma produção em circuito fechado, que emite zero
gases com efeito de estufa (incluindo dióxido de carbono) e é seguro
para a saúde humana, ao contrário de quaisquer outros pigmentos
negros derivados do petróleo. (...) os pigmentos são adequados para
uma vasta gama de aplicações, com numerosas dispersões, e são
também compatíveis com quase todas as fórmulas de impressão e
revestimento, o que os torna um substituto fácil para os pigmentos
pretos nocivos.” (ATP, 2023)
• Acabamentos: “Durante o ano passado, a Adalberto desenvolveu o Bio
Ultimation Process, no qual é utilizado um tingimento biológico que
substitui os produtos petroquímicos. Este processo é desenvolvido
com bioquímicos biodegradáveis e tem uma utilização muito mais
eficiente de fontes renováveis, consumindo menos energia e água. O
30
processo inclui a biolavagem e o tingimento natural. (...) O processo
Bio Ultimation é altamente sustentável, reduzindo o consumo de
eletricidade em 50%, de água em 27%, de produtos químicos em 30% e
as emissões de gases com efeito de estufa.” (ATP, 2023)
• Reciclagem: A empresa Lurdes Sampaio “pode apoiar e
partilhar a rastreabilidade com os clientes desde a fase de reciclagem
até à produção. Toda a informação da cadeia é fornecida para alcançar
um processo de moda verdadeiramente circular, apoiado pela
certificação GRS e pela metodologia LCA. (...) A parceria com a
Recutex, empresa portuguesa de reciclagem, e a Fiavit, empresa
portuguesa de fiação, faz deste projeto uma "economia circular all
made Portugal". É um ciclo fechado, recolhemos a cintura pré e pós-
consumo das marcas e fabricantes e transformamo-la de acordo com as
necessidades da marca numa nova fibra, novo fio, nova roupa, nova
vida...menos cintura. (...) As poupanças ambientais foram testadas
através da metodologia LCA: 90% de redução de gases com efeito de
estufa; 70% de poupança de energia; 60% menos consumo de água;
Sem químicos.” (ATP, 2023).
4.3 Caso: Soeiro
4.3.1 História
Criada em 1986, a Soeiro – Made In Portugal, é uma empresa familiar que
exporta 100% da sua produção. É especializada em produção de vestuário para
homem, mulher, criança e bebé. Com um universo de quase 100 colaboradores,
a empresa é especializada em private label.
A empresa conta com certificações como GOTS, OCS, GRS, OEKO-
TEX100.
31
A empresa encontra-se sediada em Paredes e está organizada por diversos
departamentos: corte constituída por três máquinas, duas máquinas de
bordados, uma linha de amostras e duas linhas de confeção, embalagem,
packaging e laboratório para controlo de qualidade. Nos picos de maior trabalho,
a empresa vê-se obrigada a subcontratar empresas nacionais, nomeadamente
para corte, bordados e confeção.
As exportações da empresa são, maioritariamente para França, Alemanha,
Inglaterra, Finlândia, Holanda, Bélgica, estando os dois primeiros países de
acordo com o estudo do setor nacional apresentado no tópico anterior. A empresa
pretende crescer nos mercados externos, particularmente no mercado de Itália
que também é um dos 5 países para o qual Portugal mais exporta.
4.3.2 Apresentação de Resultados
Sustentabilidade
O questionário iniciou-se com o conceito de desenvolvimento sustentável e
na visão da gerência, a sustentabilidade é o desenvolvimento, neste caso, do
negócio de uma forma contínua e estável. Abel Barbosa adicionou ainda a
importância desse desenvolvimento sustentável ser a nível ambiental, referindo
que na empresa tentam consumir pouca energia, usar produtos mais sustentáveis
e incentivar os colabores a terem cuidados com o ambiente.
Deste modo, há um entendimento de definição por ambas as partes ainda
que não seja absoluto e há uma relevância do conceito para a vertente ambiental.
Impacto setor têxtil no ambiente
A empresa apresenta algumas preocupações ambientais e trabalham para a
existência de mais cuidados no dia-a-dia e no processo produtivo têxtil.
Concordam que se a preocupação não começar na vida pessoal, muito
dificilmente terão cuidados na empresa.
32
Abel Barbosa refere que a indústria têxtil é poluente em todo o seu processo
produtivo, mas existem subsetores mais poluentes do que outros, como é o caso
do tingimento que utiliza bastante água. No caso deles, não se usa muita água e
a que é usada é do poço. Aliás, estão de momento a tratar de incluir saneamento
para obter ter valores concretos.
O gerente indica ainda que no que toca à matéria-prima utilizada, têm os
valores contabilizados em sistema, mas não estão organizados nem é feita sua
análise. Porém, no que toca ao sistema de stocks de sobras de malha está a
finalizar pormenores para obterem valores ainda mais concretos, visto que
semanalmente recorrem a essa análise.
Antonieta Barbosa refere-se a outros dois indicadores importantes,
nomeadamente o ciclo de vida do produto indica que é um indicador pertinente
no caso de confeção, mas que depende das várias áreas do setor. Ainda que não
haja valores da vida útil das peças, afirma que são peças com muita durabilidade
uma vez que os clientes da empresa estão inseridos predominantemente na moda
lenta e exigem malhas com qualidade e duráveis. Adicionalmente, refere que as
quantidades de peças que sobram são uma dificuldade para a empresa, visto que
nem todos os clientes aceitam peças em excesso e não podem destruir nem
vender as peças.
De acordo com o mencionado acima, podemos perceber que as empresas da
indústria estão a fazer esforços para caminhar lado a lado com a sustentabilidade,
porém, têm algumas dificuldades, nomeadamente, em implementar soluções
práticas que já existem atualmente como a contabilização do consumo de água,
valores relativos a gastos com matérias-primas e stocks. No seu ponto de vista, a
gerência acrescentou que a contratação de um responsável de sustentabilidade
nas empresas será um bom ponto de partida.
33
Práticas implementadas na empresa, fornecedores e clientes, colaboradores
Antonieta Barbosa refere que têm algumas práticas implementadas por força
de vontade da própria empresa, uma vez que, atualmente, admite ser impossível
trabalhar com alguns mercados sem certos requisitos.
Abel Barbosa refere que a gestão da cadeia de abastecimento está alinhada
com os requisitos dos clientes, ambientais, sociais e da empresa.
Desta forma, a empresa tem os certificados OEKO-TEX100, GTS, CRS, OCS
que permite trabalhar com malhas orgânicas em conjunto com os fornecedores e
clientes. A produção dos artigos é normalmente realizada sempre com os
mesmos fornecedores, visto que, estes lhes dão garantias e confiança do uso de
produtos sustentáveis, o que é já é uma barreira no mercado nacional português.
Abel Barbosa acrescenta que têm parceria uma empresa de resíduos que
coleta sobras de matéria-prima que são usadas para têxtil lar (waste design), tema
abordado anteriormente como uma das medidas para a indústria. Recentemente,
investiram no carro elétrico para viagens curtas e necessárias de modo a reduzir
emissões de CO2 e diminuir gastos operacionais, tal como o exemplo da Fedex
apresentado. É importante referir que, as rotas de saída com o carro estão sempre
programadas.
Antonieta Barbosa refere ainda o cumprimento de certificação dos químicos
que a indústria usa, no caso deles, o produto SIQ (limpeza de peças) que contém
o certificado REACH.
Os dois gerentes confessam ainda que é difícil consciencializar a equipa, no
sentido da responsabilidade ambiental. O facto de os colaboradores serem
maioritariamente de uma faixa etária mais velha e a falta de conhecimento são,
por vezes, entraves a esse desenvolvimento. Porém, a empresa implementa
algumas medidas como o uso de copos de papel para os cafés, reciclagem,
reutilização de capas e papel e número de impressões controladas, de modo a
sensibilizar as pessoas.
34
Novas Estratégias da EU
Antonieta Barbosa indica que está a par das novas estratégias da EU e é
completamente a favor de medidas tais como o passaporte digital dos artigos. A
gerente indica que é um grande passo para otimizar o impacto negativo que a
indústria tem a nível ambiental e social, vertente que também a preocupa e que
na sua opinião, esta mudança para um novo modelo de negócio pode ajudar a
minimizar as empresas escravas da indústria. Adicionalmente, refere que é uma
oportunidade de negócio, uma vez que, no seu caso sem alguns certificados não
consegue trabalhar com o mercado de França, por exemplo.
Já Abel Barbosa não estava a par das novas estratégias, mas por força de
vontade própria e com o conhecimento implementa medidas e formas de tornar
o negócio familiar mais sustentável a nível ambiental. Afirma que, a comunicação
das instituições e do governo com as empresas do setor seria fulcral.
Conceito ESG
Quando questionados sobre o conceito ESG, nenhum membro conhecia e, foi
dada uma breve explicação do conceito.
Ambos concordaram que a introdução dos três pilares no relatório da
empresa é importante e fundamental, uma vez que, atualmente, para a escolha
de empresas os clientes procuram saber de que forma se comporta a firma nas
três áreas. De tal forma que, de momento, já enviamos relatórios aos nossos
clientes, dizem eles.
Porém, referem os dois a mesma dificuldade, o pensamento empresarial está
muito ligado à vertente financeira de uma empresa e será necessário tempo para
mudar a noção de empresa = lucro e associar a empresa = lucro, social, ambiente.
Ainda existe o pensamento de que basta associar a empresa a uma instituição
para tornar a empresa sustentável a nível social ou ambiental (greenwashing) e,
neste caso, estamos a falar de um conceito que obriga as empresas a agir.
35
Antonieta Barbosa ainda que apologista refere que a inclusão do conceito em
ambiente empresarial trará também elevados investimentos aos quais as
empresas irão precisar de apoio.
Impacto Social e Governação
No que refere à estrutura, Abel Barbosa indica que a empresa apresenta
cuidados nas instalações, mas, para tornar a empresa amiga do ambiente teria de
ser refeita uma nova empresa com novas tecnologias que obrigavam a um
elevado investimento. Para contornar, tudo o que é implementado de novo é feito
com cuidado.
Quanto ao Impacto Social, Abel Barbosa, menciona que é feito um
questionário interno aos colaboradores e é realizado o relatório da SMETA que
indica se a empresa cumpre com certos requisitos, bem como, apresenta algumas
áreas de melhoria. Indicam que este ano foram feitas algumas propostas no
relatório interno, como a introdução de rádio no escritório e a inclusão de
prémios de assiduidade na produção.
A empresa apresenta salários justos e estão sempre atentos a possíveis
mudanças e disponíveis para rever junto dos colaboradores. A equipa tem
flexibilidade e duas tardes livres por mês para usufruir se necessitar.
Adicionalmente, a Soeiro em parceria com instituições têxteis aposta na
formação, ainda que seja um ponto a melhorar, revela Abel Barbosa. Mais de 80%
dos colaboradores são mulheres e a empresa preza por dar possibilidade às
pessoas internas para evoluir nos cargos. O gerente acrescenta ainda que, como
é uma empresa familiar e ligada ao local onde está sediada, a sua mãe, Maria
Fernanda de Abreu Nogueira e o seu pai António Ferreira Barbosa, fundadores
da empresa, sempre proporcionaram apoio à comunidade através de doações
monetárias, em produtos e apoio a eventos. Além disso, a empresa realiza
36
eventos como o Dia da família com todos os colaboradores. Por fim, estão de
momento a incluir um inquérito de satisfação do cliente.
No âmbito financeiro, Antonieta Barbosa refere que a empresa já apresenta
relatórios de conta públicos e relatórios do âmbito social que apenas são
apresentados se assim for pedido. Não existe para já o relatório de impactos no
desenvolvimento sustentável, mas com a entrada no projeto Sustentabilidade
pretendemos obter conhecimento e formação para a criação do relatório.
Perspetiva Futura
A gerência indica que irá ter a tempo inteiro um responsável da área de
sustentabilidade que possa ajuda para encontrar as falhas e colmatá-las. Para tal,
já sublinhou algumas áreas de melhoria como a redução de stocks de matéria-
prima na área de compras, aumento de certificados, parcerias para o
desenvolvimento da produção sustentável em toda a cadeia produtiva e
diminuição do stock de peças já feitas. A par disso, esta a ser desenvolvida a
instalação de painéis solares na empresa e a instalação de iluminação LED, indica
Abel Barbosa.
Como refere Abel Barbosa e Antonieta Barbosa, estas medidas estão ligadas
diretamente à vertente ambiental, mas, se analisarmos cada uma terá também
impacto a nível social bem como financeiro. Logo, as três vertentes acabam por
estar sempre relacionadas.
Conclusão
Tal como foi visto na revisão de literatura, a Soeiro vê a sustentabilidade na
perspetiva social, ambiental e financeira. A nível social, apresenta um bom
ambiente de trabalho. A nível ambiental, a empresa tem procurado moldar-se ao
novo modelo de negócio encarando como oportunidade de negócio. A nível
financeiro, é uma empresa transparente e com práticas empresariais
responsáveis.
37
Do ponto de visto da empresa, é fundamental associarem-se a projetos para
obter know-how e evoluir no conceito de desenvolvimento sustentável, ainda que,
a certificação e a nova oportunidade de um responsável da área contribuem para
uma maior reputação da empresa e para a otimização dos processos.
Conforme o testemunho recolhido, concluímos que a Soeiro é uma empresa
com elevada consciência social e ambiental, valorizando sempre o talento interno
e, nos dias de hoje, mais preocupados com a inovação das diferentes áreas da
empresa de forma a criar um impacto positivo no ambiente. Por outro lado, a
empresa revela que a falta de conhecimento e o não desenvolvimento
atempadamente de algumas estratégias para possibilitar a expansão do mercado,
são barreiras para o negócio.
Desta forma, na perspetiva da gerência da Soeiro, o sucesso da
sustentabilidade irá depender do trabalho conjunto de toda a cadeia produtiva,
ou seja, todos terão de contribuir para encontrar soluções sustentáveis e
competitivas. Para tal, é necessário um maior envolvimento das empresas do
setor e maior apoio governamental nas indústrias da área têxtil.
Para a Soeiro, a introdução das medidas sustentáveis traz benefícios como a
evolução industrial, sendo que, o contínuo desenvolvimento da indústria neste
percurso implicará grandes investimentos que podem ser implementados em
pequenos passos e chegar cada vez mais longe, tal como os seus pais sempre
ensinaram na gestão da empresa.
4.4 Discussão
Portanto, através da realização de uma entrevista e um questionário a uma
empresa portuguesa têxtil - a Soeiro, foi atingido o objetivo do estudo da
sustentabilidade e das estratégias aplicadas à indústria têxtil. Deste modo, é
pertinente discutir os resultados obtidos e responder à questão de investigação.
38
Ainda que haja pouco envolvimento da empresa estudada nas novas
estratégias do mercado nacional e internacional, a empresa demonstra
preocupação ambiental tal como na generalidade das empresas mencionadas ao
longo do estudo. No Relatório Diagnóstico Necessidades Formativas,
apresentado pelo projeto be@t, concluiu-se que “86% dos inquiridos afirmam que
a sua empresa beneficiaria com formação em Sustentabilidade” e “78% das
empresas afirma implementar melhorias nos seus processos produtivos, mas
uma percentagem significativa não tem um responsável de Sustentabilidade”
(be@t, 2023). Deste modo, a empresa estudada é um exemplo que demonstra a
necessidade de desenvolvimento do tema da sustentabilidade junto das
empresas têxteis, organizações e apoios do governo, bem como, a introdução de
uma nova área nas indústrias têxteis, como é o caso do Grupo Valérius que detém
a RDD, uma empresa de inovação e desenvolvimento de produtos sustentáveis
para o qual foram contratadas biólogas para o estudo de novos métodos que
permitem reduzir a pegada ambiental, como refere José Manuel Ferreira,
Presidente Grupo Valérius. (Alves at al, 2023).
Por outro lado, no que refere às medidas implementadas, percebemos que
existe não só uma preocupação, mas um diagnóstico de atividade estratégica das
empresas por forma a tornar a indústria têxtil e de vestuário mais sustentável.
Algumas estratégias já incorporadas são: a instalação de painéis fotovoltaicos,
reutilização de material de sobras, inovação no âmbito da produção de matérias-
primas, como o uso de chás e a introdução dos relatórios de sustentabilidade que
implica a adoção de KPIs ambientais e sociais.
No que refere às medidas mencionadas, importa desenvolver o último tópico,
uma vez que, no estudo da área da sustentabilidade ambiental, o impacto social
e o contexto financeiro da empresa revelam-se igualmente importantes. De tal
forma, que os três pilares apresentam-se como uma relação de simbiose pois, são
vitais para alcançar resultados significativos e sustentáveis. Deste modo, a
39
introdução dos relatórios de sustentabilidade é um complemento à empresa e
incluem os KPIs sociais e ambientais de igual modo como os KPIs financeiros são
apresentados nos relatórios de contas.
Em relação aos indicadores de desempenho sociais, estes implicam a
descrição das práticas laborais, como os direitos dos trabalhadores, salários justos
e condições de trabalho seguras; a divulgação de informações sobre o modo de
trabalho dos fornecedores; a menção de iniciativas de apoio às comunidades
locais. Deste modo, na empresa estudada, a introdução de prémios de
assiduidade por parte da área dos recursos humanos, é uma medida que está a
ser estudada para ser implementada em breve e, portanto, apresentada e
analisada no relatório. Relativamente aos indicadores ambientais, estes
englobam a avaliação do impacto ambiental dos produtos durante todo ciclo de
vida; o desenvolvimento de produtos sustentáveis, como a utilização de
materiais orgânicos ou processos de fabrico inovadores; a adesão a certificações
ambientais. Como incentivo às empresas, foram criados os green bonds que
incentivam as empresas a investir no âmbito ambiental, “(...) são um tipo de
instrumento de rendimento fixo que se destina especificamente a financiar
projetos amigos do ambiente e relacionados com o clima” (em inglês, European
Union, 2023).
Assim, as informações presentes nos relatórios de sustentabilidade servem
para comunicar dados relacionados com os objetivos de desenvolvimento
sustentável da empresa, bem como apresentar atualizações sobre o progresso e
identificar áreas de melhoria. O conceito por detrás da implementação destes
relatórios implica que sejam apresentados publicamente pelas empresas
permitindo aumentar a transparência, fornecendo às partes interessadas
informações sobre as práticas de sustentabilidade da empresa, bem como,
responsabilizar as empresas pelos seus impactos ambientais e sociais,
encorajando-as a adotar práticas responsáveis. Adicionalmente, os relatórios irão
40
ajudar as empresas têxteis a demonstrar a conformidade com os regulamentos
presentes em muitas regiões ou países, enquanto contribuem para a construção
de uma imagem e reputação positivas do negócio. De certa forma, a elaboração
regular de relatórios incentiva uma cultura de melhoria contínua, levando as
empresas a definir objetivos de sustentabilidade mais ambiciosos e a
implementar estratégias eficazes para os atingir.
Por conseguinte, está em vista a introdução do conceito ESG nos negócios,
que reúne a análise das três esferas, através de relatórios de sustentabilidade, no
qual a Soeiro está a participar. O envolvimento da empresa neste projeto permitiu
o próprio desenvolvimento do negócio, uma vez que, mudou a mentalidade da
empresa – adaptou-se aos temas da atualidade e pensou em novas formas de
atuar. Adicionalmente, permite que a Soeiro seja um exemplo a seguir, no que
refere ao desenvolvimento sustentável, para as indústrias dos diferentes setores.
Não obstante, a junção das três esferas é complexa e gera alguma discussão
entre as indústrias, tanto é vista como uma inovação e oportunidade de negócio
como também, tem o outro lado da moeda, como a implicação de grandes
investimentos por parte das empresas e a perda de competitividade. Portanto, é
importante que esta transformação da indústria têxtil seja como um todo, tanto a
nível do setor como de todos os outros setores, através de normas comuns,
incentivos governamentais, reeducação do consumidor e partilha de tecnologias,
para não haver repercussões financeiras graves. Todos os setores envolvidos e
com um objetivo comum permitirão atingir melhores resultados e mais eficazes
para uma indústria têxtil mais sustentável a nível ambiental, social e de
governança.
41
Capítulo 5
Neste capítulo é apresentada a conclusão deste trabalho de investigação, bem
como apresentadas algumas limitações do estudo e tópicos de investigação
futura.
5.1 Conclusão
A indústria têxtil tem vindo a ser desafiada a ter um olhar crítico para a área
da sustentabilidade, começando por introduzir o conceito no processo produtivo.
Na prática, a indústria têxtil voltou atrás no tempo e começou a repensar em todo
o processo produtivo para arranjar soluções sustentáveis.
Tendo em conta o contexto atual e a movimentação profissional realizada por
mim, identificou-se uma oportunidade de fazer uma análise sobre o tema e
refletir um pouco sobre o papel de todos os intervenientes.
De certa forma, a revisão permitiu ter uma noção concreta dos impactos
ambientais que a indústria têxtil tem e aprendizagem das diferentes estratégias e
esforços que estão a ser feitos a nível nacional e internacional para a mudança do
paradigma.
Para tal, é necessário que toda a cadeia produtiva esteja alinhada e orientada
para um mesmo objetivo – desenvolvimento sustentável do negócio. Há ainda
quem esteja mais reticente devido aos elevados investimentos que terá, mas há
quem veja como uma oportunidade de negócio.
No estudo feito à Soeiro e com os exemplos referidos de outras empresas,
percebemos a força de vontade própria que cada um tem em fazer a diferença.
Ainda que dê para entender alguns entraves como a falta de formação e
envolvimento de algumas indústrias no mercado nacional. Para tal, concluímos
que o investimento num responsável pode ser uma solução e ajuda para as
empresas estarem mais atentas e incluídas nos processos.
42
Adicionalmente às alterações na cadeia produtiva têxtil, o caso da Soeiro alerta
para as alterações no pensamento do consumidor, ou seja, o que acontece aos
artigos com defeito ou artigos que as pessoas não usam mais?
Deste modo, acredita-se que se conseguiu atingir o objetivo inicial, entender
que estratégias ambientais são aplicadas nas indústrias têxteis para percorrer o
caminho de um desenvolvimento sustentável a nível ambiental, social e
financeiro.
Ainda assim, surgiram algumas dificuldades que levaram a limitações da
investigação tais como, os dados incompletos e a falta de aprofundamento do
conhecimento do tema na Soeiro.
Em trabalhos futuros, sugiro a reflexão sobre a forma como os governos
podem contactar mais com as empresas têxteis de modo que estas estejam a par
das medidas em vigor e futuras medidas, possibilitando assim a sua aplicação
mais eficaz.
Adicionalmente, o estudo da sustentabilidade ambiental no pós-consumo é
uma área ainda em crescimento que necessita de intervenção e desenvolvimento.
43
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48
Anexos
Anexo 1
Guião de Entrevista
Questões para Empresa
1. Na vossa opinião, como definem o conceito de desenvolvimento
sustentável?
2. Atualmente, a cadeia do setor têxtil apresenta um modelo de negócio
linear, o que provoca algumas preocupações ambientais. Posto isto, de que
forma a sustentabilidade ambiental vos preocupa?
3. Toda a cadeia produtiva afeta o meio ambiente. Para terem um exemplo
prático, em 2020 o consumo de médio de têxteis por pessoa na UE exigia:
400m2 de terreno, 9m3 de água e 391kg de matérias-primas, o que provoca
uma pegada de carbono de 270kg. Ainda que, o processo produtivo é
bastante poluente, o pós-consumo atinge também valores elevados devido
a stocks de malha, stocks de peças com defeitos, peças apenas usadas uma
vez, entre outros. Desta forma, usando 4 indicadores da sustentabilidade
como exemplo - quantidade de água consumida, ciclo de vida de produto,
matéria-prima utilizada e quantidade de peças de sobra - de que forma
conseguem monitorizar os indicadores?
4. Existem práticas sustentáveis implementadas na vossa empresa? E nas
equipas? E nos fornecedores? Se sim, quais?
5. Estão a par das novas estratégias da UE para a evolução da indústria têxtil
para um modelo de negócio circular, tais como: introdução de um
passaporte digital e a responsabilização dos produtores pelos resíduos e
sobras? Qual é a vossa opinião sobre um novo modelo de negócio?
6. Conhecem o conceito ESG?
49
7. Concordam com a introdução na análise de uma empresa usando os
pilares: ambiental, social e governança? Veem algum entrave na
introdução da vertente ambiental como um pilar igualitário à vertente
social e financeira de uma empresa?
8. A estrutura da empresa preza por instalações amigas do ambiente e
condições favoráveis aos colaboradores?
9. Existe alguma mudança que pretendam implementar, no que toca à
sustentabilidade ambiental?
Anexo 2
KPIs Relatório de Sustentabilidade
Ambiente
Eficiência energética e energias renováveis
• Consumo total de combustíveis dentro da organização oriundos de fontes
renováveis e não renováveis, inclusive os tipos de combustíveis usados:
Consumo total de energia dentro da organização = (Combustíveis não renováveis
consumidos + Combustíveis renováveis consumidos + Eletricidade, vapor e água
quente adquiridos para consumo)
• Consumo de energia fora da organização. Podem ser usadas as seguintes
categorias: Bens e Serviços comprados; Bens de capital; Atividades
relacionadas a combustíveis e energia (não incluídas na questão anterior);
Transporte e distribuição; Resíduos Gerados; Viagens de negócios;
Mobilidade (deslocações de colaboradores); Ativos alugados; Transformação
de produtos vendidos; Uso de produtos vendidos; Tratamento e fim de vida
dos produtos vendidos; Franchises; Investimentos.
50
Consumo de energia fora da organização.
• Redução do consumo de energia. Tipos de energia incluídos nas reduções: se
combustível, eletricidade, aquecimento, refrigeração, vapor ou todos.
Volume das reduções do consumo de energia obtidas diretamente em
decorrência de iniciativas de conservação e eficiência.
• Redução nos requisitos energéticos de produtos e serviços.
Redução nos requisitos energéticos de produtos e serviços vendidos alcançadas
durante o período de relato.
Gestão da água
a. Efluentes de água da empresa são direcionados para i. ETAR
Total de efluentes de água em todas as áreas em metros cúbicos, discriminando
esse total pelos seguintes tipos de destinação, se aplicável.
b. Efluentes de água da empresa são direcionados para ii. Saneamento
Público
Total de efluentes de água em todas as áreas em metros cúbicos, discriminando
esse total pelos seguintes tipos de destinação, se aplicável
c. Consumo total de água de todas as áreas em metros cúbicos.
Consumo de água = captação total de água - descarte total de água
Gestão de impactos na biodiversidade
a. A empresa avalia a Natureza dos impactos diretos e indiretos
significativos na biodiversidade em relação a um ou mais dos seguintes
pontos:
Selecionar hipótese (s): i. Construção ou uso de fábricas, minas e infraestrutura
de transportes; ii. Poluição (introdução de substâncias que não ocorrem
naturalmente no habitat, oriundas de fontes pontuais e não pontuais); iii.
Redução de espécies; iv. Mudanças em processos ecológicos fora da faixa natural
51
de variação (ex.: salinidade ou mudanças no nível da água subterrânea); v.
Outros; vi. Nenhum.
b. A empresa avalia as consequências diretas e indiretas significativas, tanto
positivas como negativas, nas seguintes categorias:
Selecionar hipótese (s): i. Espécies afetadas; ii. Extensão das áreas impactadas; iii.
Duração dos impactos; iv. Reversibilidade ou irreversibilidade dos impactos; v.
Outros; vi. Nenhum.
Gestão de resíduos
• Total de Resíduos Gerados
Peso total dos resíduos gerados em toneladas métricas.
• Composição dos resíduos por código LER: embalagens de papel/cartão
(150101)
Discriminação desse total por composição dos resíduos.
• Composição dos resíduos por código LER: embalagens de plástico (150102)
Discriminação desse total por composição dos resíduos.
• Composição dos resíduos por código LER: resíduos fibras têxteis 040221 e
040222
Discriminação desse total por composição dos resíduos.
• Composição dos resíduos por código LER: outros
Discriminação desse total por composição dos resíduos.
• Peso total dos resíduos não valorizados em toneladas.
Peso total dos resíduos não valorizados em toneladas.
Nota explicativa: Resíduos não valorizados para eliminação. Considerar pela e-
GARS a operação com a letra D (D1 a D15)
• Resíduos não valorizados. b. e c.: incineração (com recuperação de energia);
incineração (sem recuperação de energia); Aterro; Outras operações de
disposição; Para cada operação de disposição citada nos conteúdos 306-5-b e
52
306-5-c, uma discriminação do peso total em toneladas métricas dos resíduos
perigosos e dos resíduos não valorizados.
b. i) Peso total dos resíduos perigosos não valorizados dentro da organização, em
toneladas métricas e uma discriminação desse total pelas operações de
disposição.
Nota explicativa: b. i) Peso total dos resíduos perigosos não valorizados dentro
da organização, em toneladas. Considerar pela e-GARS a operação com a letra D
(D1 a D15) para os resíduos perigosos.
• Resíduos não valorizados. b. e c.: incineração (com recuperação de energia);
incineração (sem recuperação de energia); Aterramento; Outras operações de
disposição; Para cada operação de disposição citada nos conteúdos 306-5-b e
306-5-c, uma discriminação do peso total em toneladas métricas dos resíduos
perigosos e dos resíduos não valorizados. i. Dentro da organização; ii. Fora
da organização.
b. i) Peso total dos resíduos perigosos não valorizados dentro da organização, em
toneladas métricas e uma discriminação desse total pelas operações de
disposição.
Nota explicativa: c. i) Peso total dos resíduos não perigosos não valorizados
dentro da organização, em toneladas.
Gestão do packaging dos produtos
• A empresa tem como meta assegurar que todas as embalagens de plástico
sejam 100% compostas, por conteúdo reciclado, até 2030 para B2B?
Sim, não ou não aplicável
• A empresa tem como meta assegurar que todas as embalagens de plástico
sejam 100% compostas, por conteúdo reciclado, até 2025 para B2C?
Sim, não ou não aplicável
53
Sensibilização ambiental dos trabalhadores
• Existem medidas de sensibilização ambiental dos trabalhadores? Sim ou Não
• Se sim, em que temas? Selecionar Hipóteses: i. Triagem de Resíduos, ii.
Redução de consumos de água, iii. Redução de consumos de energia, iv.
Utilização correta de produtos químicos, v. produção responsável, vi. Outros
Gestão de eficiência dos materiais
• Peso total de materiais não renováveis utilizados.
Peso total de materiais não renováveis usados para produzir os principais
produtos e serviços da organização no decorrer do período relato.
Nota explicativa: Peso total de materiais usados para produzir os principais
produtos e serviços da organização no decorrer do período de relato. Os
consumos utilizados para fabricar os produtos e serviços de uma organização
podem ser materiais não renováveis, tais como minerais, metais, petróleo, gás e
carvão mineral. Os materiais não renováveis podem ser compostos de matérias-
primas ou materiais reciclados. Exemplos de materiais de origem fóssil.:
Poliéster, poliamida, acrílicas
• Peso total de materiais renováveis utilizados.
Peso total de materiais renováveis usados para produzir os principais produtos
e serviços da organização no decorrer do período relato.
Nota explicativa: Peso total de materiais usados para produzir os principais
produtos e serviços da organização no decorrer do período de relato. Os
materiais renováveis podem ser compostos de matérias-primas ou materiais
reciclados. Materiais de base natural - Exemplos: linho, algodão, lã, liocel,
viscose, etc..
• Peso total de materiais não renováveis usados para embalar os principais
produtos e serviços da organização no decorrer do período de relato.
54
Peso total de materiais não renováveis usados para embalar os principais
produtos e serviços da organização no decorrer do período de relato.
Nota explicativa: Peso total de materiais usados para embalar os principais
produtos e serviços da organização no decorrer do período de relato. Os
materiais utilizados para embalar os produtos e serviços de uma organização
podem ser materiais não renováveis, tais como minerais, metais, petróleo, gás e
carvão mineral, como exemplo - plástico, Os materiais não renováveis podem
ser compostos de matérias-primas ou materiais reciclados.
• Peso total de materiais renováveis usados para embalar os principais
produtos e serviços da organização no decorrer do período de relato.
Peso total de materiais renováveis usados para embalar os principais produtos e
serviços da organização no decorrer do período de relato.
Nota explicativa: Peso total de materiais usados para embalar os principais
produtos e serviços da organização no decorrer do período de relato. Os
materiais utilizados para embalar os produtos e serviços de uma organização
podem ser materiais renováveis, tais como madeira, papel, têxtil de base natural,
etc. Os materiais renováveis podem ser compostos de matérias-primas ou
materiais reciclados.
• A empresa reduz o consumo de produtos químicos?
• A empresa realiza a substituição de produtos químicos por outros menos
nocivos?
• Cumprimento de certificação/aprovação de químicos.
Selecionar hipótese(s): i. REACH;
ii. ZDHC;
iii. Eco-Passport;
iv. Detox to zero;
v. MRSL (clientes);
vi. Outros.
55
Uso de materiais mais sustentáveis
• Total de materiais reciclados utilizados, em relação ao total de materiais.
Total de materiais reciclados utilizados.
• Total de materiais orgânicos/biológicos utilizados, em relação ao total de
materiais.
Total de materiais orgânicos/biológicos utilizados.
• Total de embalagens reaproveitadas durante o período de relato.
(Embalagens reaproveitadas durante o período de relato/Produtos vendidos no
período de relato) *100
• Total de produtos vendidos durante o período de relato.
• Produtos com rotulo ecológico.
Peso ou volume total de produtos com rotulo ecológico/total de produtos
vendidos*100
Processos Sustentáveis
• A empresa, nos processos de fabricação utiliza as melhores técnicas de
sustentabilidade?
• Se sim, quais?
Selecionar hipótese(s):
i. Eco-design
ii. Eco-engenharia
iii. Digitalização
iv. MTD (Melhores Técnicas Disponíveis)
Uso de produtos mais sustentáveis
• Identificar as certificações dos rótulos ecológicos que a empresa dispõe:
Selecionar hipótese(s): [Link]
ii. OCS
56
iii. GRS
iv. RCS
v. BCI
vi. OEKO-TEX100
v. Outros
Redução das emissões
• Gases incluídos no cálculo: se CO2, CH4 , N2O, HFCs, PFCs, SF6 , NF3 ou
todos. Emissões de CO2 em toneladas métricas de CO2 equivalente.
Selecionar hipótese(s):
Total de emissões diretas (Âmbito 1) de GEE em toneladas métricas de CO2
equivalente.
• Se aplicável, o total de emissões indiretas de GEE (Âmbito 2) provenientes da
aquisição de energia em toneladas métricas de CO equivalente calculadas
com base no mercado. Se disponível, os gases incluídos no cálculo; se CO, CH
, N O, HFCs, PFCs, SF , NF ou todos.
Total de emissões indiretas (Âmbito 2) de GEE provenientes da aquisição de
energia em toneladas métricas de CO2 equivalente calculadas com base na
localização.
Redução do uso de plástico
• Peso total de plásticos usados para embalar os principais produtos e serviços
da organização no decorrer do período de relato.
Modelos de negócio circulares/Projetos de circularidade
• A empresa possui projetos de circularidade?
Nota explicativa: Por projetos de circularidade entende-se: projetos cujo objetivo
passa por manter o valor dos produtos, materiais e recursos e redirecioná-los de
57
volta ao uso pelo maior tempo possível e com a menor pegada de carbono e de
recursos possível, de forma que sejam extraídos menos recursos e matérias-
primas e que a geração de resíduos seja evitada
Governance
Transparência
• Existe um relatório públicos dos tributos e praticas tributarias da empresa
(Exemplo Relatório de Contas e Anual)
Sim, não ou não aplicável.
• A empresa relata internamente informações sobre os seus impactos no
desenvolvimento sustentável.
Sim ou não.
• A empresa relata publicamente informações sobre os seus impactos e
desempenho de desenvolvimento sustentável, através de relatórios de
sustentabilidade de acordo com referenciais reconhecidos?
Sim, não ou não aplicável.
• A empresa possui algum tipo de certificação?
Sim ou não.
• Se sim, das opções indicar quais as que está certificada
selecionar hipótese(s):
i) ISO 9001
ii) ISO 14001
iii) STeP
iv) Bluesign
v) SA 8000
vi) NP 4457
vii) NP 4552
viii) Outros
58
Qualidade e segurança do produto
• A empresa cumpre com os requisitos legais, regulações e cadernos de
encargos de clientes?
Sim ou não.
Gestão da cadeia de abastecimento
• A gestão da cadeia de abastecimento está alinhada com:
selecionar hipótese(s): i. os requisitos dos clientes (relação qualidade/serviço
ii. requisitos ambientais;
iii. requisitos sociais;
iv. rótulos ecológicos;
v. Certificações de empresa;
vi. outros
vi. nenhum.
Ética e integridade do negócio
• A empresa compromete-se com a integridade, a governança transparente e as
práticas empresariais responsáveis, no seu Código de Ética e Conduta?
Sim ou não.
Gestão de Riscos
• A empresa avalia os riscos da sua atividade, particularmente os riscos ESG?
Sim ou não.
Social
Capacitação dos trabalhadores
• Número de horas de formação, por ano, realizada pelos empregados da
organização do género feminino
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i. Média de horas de formação por mulheres = Número total de horas de
formação oferecida a empregados do género feminino / Número total de
empregados do género feminino.
• Número de horas de formação, por ano, realizada pelos empregados da
organização do género masculino
ii. Média de horas de formação por homens = Número total de horas de formação
oferecida a empregados do género masculino / Número total de empregados do
género masculino
• % de empregados que recebem avaliações regulares de desempenho e de
desenvolvimento de carreira
Percentual do total de empregados, que receberam avaliação regular de
desempenho e de desenvolvimento de carreira durante o período de relato.
Social e segurança dos trabalhadores
• Trabalhadores cobertos por um sistema de gestão de saúde e segurança do
trabalho. a. Se a organização implementou um sistema de gestão de saúde e
segurança do trabalho baseado em exigências legais e/ou normas/diretrizes
reconhecidas;
Total de trabalhadores cobertos por um sistema de gestão de saúde e segurança
do trabalho
• Especificar tipologia de serviço
Selecionar hipótese(s): interno ou externo
• Acidentes de trabalho mencionados no Relatório Único
Número total de acidentes de trabalho
• Doenças profissionais mencionadas no Relatório Único
Número total de doenças profissionais
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Diversidade, igualdade e inclusão
• Face ao tema da diversidade, igualdade e inclusão, a empresa aplica medidas
corretivas, tais como Planos de Reparação?
• Número total de empregados, discriminado por género feminino
Total de empregados do género feminino
• Número total de empregados, discriminado por género masculino
Total de empregados do género masculino
Compromissos e apoio às comunidades
• Relativamente ao compromisso e apoio à comunidade, quais destes se
aplicam à sua empresa:
Selecionar hipótese(s): i. doações monetárias;
ii. doações em produtos;
iii. apoio a eventos, através de patrocínios ou outros;
iv. outros;
v. nenhum.
Atração e retenção de talento
• Taxa de rotatividade/turnover
i. Taxa média de saída de funcionários (demissões voluntárias e involuntárias)
/número médio de funcionários de uma empresa em determinado espaço de
tempo
• Antiguidade (em anos)
ii. Média de anos na empresa (colaboradores)
• Contratação de estagiários
Número total de estagiários que entraram no ano de reporte.
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Satisfação do cliente
• A empresa realiza a Avaliação de Satisfação de Cliente?
Sim ou Não
Colaboração para a adoção de melhores práticas
• Fornecedores selecionados com base em critérios ambientas.
Percentual de fornecedores que são selecionados com base em critério
ambientais.
• Fornecedores selecionados com base em critérios sociais.
Percentual de fornecedores que são selecionados com base em critério sociais.
Benefícios e flexibilidade aos trabalhadores
• Benefícios oferecidos a empregados:
Selecionar hipótese(s): i. seguro de vida;
ii. plano de saúde;
iii. auxílio deficiência e invalidez;
iv. licença extra de parentalidade;
v. planos de reforma;
vi. plano de aquisição de ações;
vii. flexibilidade de horários;
viii. teletrabalho;
ix. outros;
x. nenhum.
Proteção de dados dos clientes
• Queixas comprovadas relativas a violação da privacidade e perda de dados
de clientes, se aplicável. a. i. Categorizadas por: queixas recebidas de partes
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externas e comprovadas pela organização; ii. queixas de agências
reguladoras.
a. Número total de queixas comprovadas relativas a violação da privacidade do
cliente
Compromisso no fornecimento de boas condições no local de trabalho
• A empresa compromete-se a fornecer boas condições no local de trabalho?
• Se sim, das opções indicar quais as medidas já em vigor
Selecionar hipótese(s):
i. Bom ambiente de trabalho
ii. Pausas estratégicas para descanso mental/físico
iii. Ergonomia do espaço de trabalho
iv. Fornecimento de material necessário à função de trabalho
v. Outros
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