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Este estudo piloto adapta o Teste de Estratégias de Memória (TEM) para uma amostra portuguesa, avaliando suas propriedades psicométricas em 104 idosos. Os resultados indicam que o TEM é capaz de medir simultaneamente funções executivas e memória, apresentando características psicométricas adequadas com correlações fracas a moderadas com testes clássicos. A pesquisa destaca a importância de instrumentos que integrem a avaliação de memória e funções executivas, especialmente em contextos de envelhecimento.

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Este estudo piloto adapta o Teste de Estratégias de Memória (TEM) para uma amostra portuguesa, avaliando suas propriedades psicométricas em 104 idosos. Os resultados indicam que o TEM é capaz de medir simultaneamente funções executivas e memória, apresentando características psicométricas adequadas com correlações fracas a moderadas com testes clássicos. A pesquisa destaca a importância de instrumentos que integrem a avaliação de memória e funções executivas, especialmente em contextos de envelhecimento.

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Carolina de Fátima Ponte Pereira

Propriedades Psicométricas do Teste de Estratégias de Memória: Estudo Piloto

W
IE
EV

Dissertação apresentada na Universidade Portucalense Infante D. Henrique para

obtenção do grau de mestre em psicologia clínica e da saúde realizada sob orientação da


PR

Professora Doutora Sara Fernandes e co-orientação do Professor Doutor Enrique Justo

Departamento de Psicologia e Educação

Outubro, 2016
Agradecimentos

À minha orientadora, Professora Doutora Sara Fernandes, por todo o apoio e


orientação, pelos momentos de reflexão e de aprendizagem, pela dedicação, sugestões e
críticas realizadas ao longo deste percurso que certamente nunca irei esquecer.
À Professora Doutora Alexandra Araújo, pelo conhecimento e contributo
estatístico.
Aos meus pais, Cecília e José, por terem investido em mim, por serem o meu
grande apoio e por me ensinarem a ser determinada e a perseguir os meus sonhos e
objetivos.
À minha irmã e enfermeira, Lisete Pereira, por ser um exemplo de

W
profissionalismo e dedicação ao outro.
Um especial agradecimento à colega e amiga Maria Freitas, grande companheira
de luta nesta guerra, por ser o ponto de refúgio, por me fazer olhar o mundo e as
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dificuldades com outros olhos, por me fazer ver que rir é sempre o melhor remédio.
À minha companheira de caminhada, Sofia Vizinho, por estar sempre ao meu lado
EV

em todos os momentos e por partilhar comigo este percurso comum e ao mesmo tempo
tão diferenciado.
Aos meus amigos e familiares pela força e incentivo, por terem acompanhado o
PR

meu percurso e estarem sempre prontos a renovar a minha esperança e ânimo.


Um agradecimento àqueles que me acompanharam directamente nos primeiros 3
anos e cuja companhia senti por entre a distância ao longo dos últimos 2 anos. Aos
eternos professores: Célia Carvalho, Suzana Caldeira, Joana Cabral, Marina Sousa,
Carolina Dall’Antonia Motta.
Por fim, mas não menos importante, um agradecimento especial às instituições
colaboradoras que permitiram e facilitaram o acesso aos participantes deste estudo.
Propriedades Psicométricas do Teste de Estratégias de Memória: Estudo Piloto

Resumo
Introdução: Não existindo instrumentos que avaliam o impacto das funções
executivas no desempenho de tarefas de memória, torna-se essencial adaptar o Teste de
Estratégias de Memória (TEM) para uma amostra portuguesa. De salientar que a maior
parte dos instrumentos utilizados para medir estas capacidades avaliam de forma
separada a memória e as diferentes FE, sendo que o TEM avalia estes dois construtos
simultaneamente.
Objetivos: O presente estudo procura adaptar o TEM a uma amostra portuguesa e
analisar as caraterísticas psicométricas do instrumento, assim como caraterizar a
amostra em função do seu desempenho.
Metodologia: Trata-se de um estudo descritivo-correlacional, comparativo,

W
transversal, utilizando a metodologia quantitativa. Participaram no estudo 104 idosos
com 60 ou mais anos, letrados, sem daltonismo, défice cognitivo ou qualquer
IE
perturbação e incluídos em centros de dia, de convívio ou lares do distrito do Porto.
Procedimento e Instrumentos: Numa sessão de aproximadamente 60 minutos, e
após o consentimento informado, foram aplicados oito instrumentos: questionário sócio-
EV

demográfico, Mini Metal State Examination (MMSE), Teste de memória Lógica I e II


(WMS-III), Teste de Cores e Palavras de Stroop, Teste de Estratégias de Memória
(TEM), sub-testes Vocabulário e Memória de Dígitos da WAIS-III (Wechsler Adult
PR

Intelligence Scale), Teste de Fluência Verbal e a Classificação de Cartões de Wisconsin


(WSCT).
Resultados: Verificou-se a existência de diferenças de desempenho nos sujeitos
ao longo das listas do TEM, bem como indicadores de fiabilidade (α = .66) e de validade
de construto e de critério, apresentando correlações fracas a moderadas entre r = .20 e r
= .52 com os testes clássicos da memória e entre r = -24 e r =.38 com os testes clássicos
das funções executivas.
Conclusão: O TEM revelou possuir capacidade para medir as funções executivas
e a memória simultâneamente, demonstrando características psicométricas adequadas.

Palavras-chave: funções executivas, estratégias de memória, envelhecimento,


memória.
Psychometric properties of the Test of Memory Strategies: Pilot Study

Abstract

Introduction: In the absence of instruments to assess the impact of executive


functions in the performance of memory tasks, the adaptation of the Testof Memory
Strategies (TEM) for a portuguese sample is essential. Furthermore, most of the
instruments used for measuring these capabilities evaluate memory and the different
EFs separately, and the TEM evaluates these two constructs simultaneously.
Objectives: This study aimed to adapt TEM to a portuguese sample and analyze
the psychometric characteristics of the instrument, as well as characterize the sample
according to their performance.
Metodology: This is a descriptive-correlational, comparative and cross study,
using quantitative methodology. Participated in this study 105 elderly over 60 years,

W
literate, without color blindness, cognitive impairment or disturbance and included in
day centers, community or home in the district of Porto.
IE
Procedure and instruments: In a session of 60 minute approximately, and after
informed consent, were applied eight instruments: socio-demographic questionnaire,
EV

Mini Metal State Examination (MMSE), Logical Memory I and II Test (WMS-III),
Stroop Color and Word Test, Test of Memory Strategies (TEM), the subtests
Vocabulary and Digit Memory WAIS-III (Wechsler Adult Intelligence Scale), Verbal
Fluency Test and Wisconsin Card Rating (WSCT).
PR

Results: It has been found an improved performance in the subjects through TEM
lists and reliability indicators (α = .66), and construct validity and criterion, with weak
to moderate correlations between r = .20 and r = .52 with the classic tests of memory
and between r = -24 and r = .38 with the classic tests of executive functions.
Conclusion: The TEM reveals have the ability to measure executive functions and
memory simultaneously, demonstrating adequate psychometric characteristics.

Keywords: executive functions, memory of strategies, memory, aging.


Índice

Introdução ....................................................................................................................... 10

Memória ......................................................................................................................... 16

Funções Executivas (FE) ................................................................................................ 23

O Presente Estudo ........................................................................................................... 36

Objetivo geral ............................................................................................................. 37

Objetivos específicos .................................................................................................. 37

Participantes ................................................................................................................... 37

Resultados....................................................................................................................... 45

W
Fiabilidade do TEM .................................................................................................... 45
IE
Validade de Construto do TEM .................................................................................. 45

Validade concorrente do TEM .................................................................................... 46


EV

Validade divergente do TEM ...................................................................................... 51

Análise do efeito da idade, sexo e escolaridade no desempenho dos sujeitos ao nível


do TEM ....................................................................................................................... 53
PR

Descrição alterações no desempenho dos sujeitos mediante a crescente organização


das tarefas do TEM ..................................................................................................... 55

Discussão ........................................................................................................................ 57

Considerações Finais ...................................................................................................... 61

Anexos ............................................................................................................................ 72
Lista de Abreviaturas e Siglas

CCC – Teoria da Complexidade e Controlo Cognitivo


CPF – Córtex Pré-frontal
FE – Funções Executivas
MMSE – Mini-Mental State Examination
MS – Marcador Somático
MT – Memória de Trabalho
PET – Tomografia por Emissão de Positrões
SPECT - Tomografia Computadorizada por Emissão de Fóton Único
SAS – Sistema Atencional Supervisor
SPSS - Statistical Package for the Social Sciences

W
STROOP – Teste de Cores e Palavras de Stroop
TEM - Teste de Estratégias de Memória
IE
Vs - Versus
WAIS-III – Escala de Inteligência para adultos de Wechsler
EV

WMS-III – Escala de memória de Wechsler


PR
Lista de Tabelas

Tabela 1 – Caracterização dos Participantes .................................................................. 38

Tabela 2 – Correlações Corrigidas entre as Listas e o Total da Escala e Alphas se Lista


for Excluído .................................................................................................................... 45

Tabela 3 – Análise Fatorial do Teste de Estratégias de Memória .................................. 46

Tabela 4 – Matriz de correlações das diferentes listas do Teste de Estratégias de


Memória ......................................................................................................................... 47

W
Tabela 5 – Matriz de Correlações entre as Listas do Teste de Estratégias de Memória e
as Medidas Neuropsicológicas das Funções Executivas ................................................ 48
IE
Tabela 6 – Matriz de Correlações entre as Listas do Teste de Estratégias de Memória e
as Medidas Neuropsicológicas da Memória ................................................................... 49
EV

Tabela 7 – Matriz de Correlações entre as Listas do Teste de Estratégias de Memória e o


Vocabulário da WAIS-III e as Dimensões Orientação e Habilidade Construtiva da
PR

MMSE, bem como os Itens Nomeação, Seguir Instrução e Escrever Frase da Dimensão
Linguagem da MMSE ................................................................................................... 51

Tabela 8 – Test t de Student, Média e Desvio-Padrão para Diferentes Grupos Etários . 53

Tabela 9 – Teste t de Student, Média e Desvio-Padrão para o Sexo Feminino e para o


Sexo Masculino .............................................................................................................. 54

Tabela 10 – Teste t de Student, Média e Desvio-Padrão paraa Escolaridade em Anos de


Estudo ............................................................................................................................. 54

Tabela 11 – Frequências Relativas, Moda e Mediana para os Diferentes Itens do Teste


de Estratégias de Memória (TEM) ................................................................................. 56
Lista de Gráficos

Gráfico 1. Desempenho dos participantes ao logo das listas de palavras do Teste de


Estratégias de Memória (TEM). ..................................................................................... 57

W
IE
EV
PR
Lista de Anexos

Anexo 1 – Definições de Funções Executivas Organizadas por Ordem Cronológica. .. 72


Anexo 2 – Consentimento Informado dos Participantes. ............................................... 79

W
IE
EV
PR
Introdução

Nas últimas décadas a população idosa tem aumentado em Portugal,


correspondendo atualmente a 129 idosos por cada 100 jovens, (PORDATA, 2014). Face
a esta expetativa de vida, preocupações acerca do processo de envelhecimento têm sido
alvo de interesse por vários investigadores, nomeadamente aspetos ligados à perda das
capacidades cognitivas ao nível da memória e das funções executivas bem como à
prevenção e ao modo de tratamento ou reabilitação destes défices.
Sabendo que áreas como o córtex pré-frontal (CPF) e o lobo temporal são as
primeiras a sofrer alterações com o processo de envelhecimento, não será de admirar o
surgimento de alterações nas funções executivas e de memória, já que estas áreas são
consideradas as estruturas cerebrais responsáveis por estas funções cognitivas (West,

W
1996).
Apesar disto, as funções executivas parecem também estar implicadas na
realização de tarefas de memória, pois os processos da responsabilidade das FE
IE
interagem com os processos da memória e o cortéx pré-frontal é conhecido por
estabelecer ligações com as restantes áreas cerebrais (inclusive com as áreas envolvidas
EV

na memória) (Royall, Lauterbach, Cummings, Reeve, Rummans, Kaufer, LaFrance &


Coffey, 2002; Hamdan & Pereira, 2008; De León, Llanero-Luque, Lozoyo-Delgado,
Férnández-Blázquez & Pedrero-Pérez, 2010).
PR

Uma vez que diversos estudos (Levine, Svobada & Hay, 2003; Banhato &
Nascimento, 2007; Salthouse, 2009; Ska, Fonseca, Scherer, Oliveira, Parente &
Joanette, 2009; Zibetti, Gindri, Pawlowski, Fumagalli, Parente, Bandeira, Fachel &
Fonseca, 2010; Ribeiro, Oliveira, Cupertino, Neri & Yassuda, 2010; Silva, Yassuda,
Guimarães & Florindo, 2011) apontam para o declínio da memória e das FE no
envelhecimento, optou-se por explorar, ainda que de modo não exaustivo, estes aspetos.
Assim, o envelhecimento é gradual, inevitável e variável de indivíduo para
indivíduo. Face a isto, uma primeira questão toma a nossa atenção: quando se inicia o
processo de envelhecimento? Numa revisão de literatura realizada por Salthouse (2009)
podemos concluir que os investigadores elaboraram e continuam a desenvolver um
conjunto de estudos cujos resultados têm sido inconsistentes. Alguns estudos indicam
que o envelhecimento inicia-se por volta dos 20 ou 30 anos, quando a mielinização dos
neurónios se completa e começam a surgir alterações no cérebro. Todavia, alguns

10
autores apontam os 60 anos como a idade em que as alterações cerebrais são mais
evidentes. Para além disto, Salthouse (2009) verificou que o declínio da velocidade de
processamento é duas vezes superior em idosos com mais de 60 anos comparativamente
a adultos e, que o declínio da memória é 4 vezes superior na mesma amostra.
Embora os resultados dos estudos relativamente às origens das alterações
cognitivas nos idosos sejam contraditórios, Raz (2000) justifica o declínio que ocorre
durante ao envelhecimento com as mudanças que ocorrem no cérebro, nomeadamente
com a redução da massa e volume cerebral, alargamento dos sulcos e ventrículos
cerebrais, diminuição do número e tamanho dos neurónios, redução de sinapses, hipóxia
(inadequação da quantidade de oxigénio) e, por fim, com a diminuição da concentração
de neurotransmissores. Estas alterações não ocorrem apenas no córtex cerebral, mas
também no sistema límbico, núcleos de base e cerebelo. Segundo West (1996) a região

W
do CPF é das primeiras a sofrer um declínio no envelhecimento. A esta conjuga-se o
lobo temporal, embora com uma perda de volume menor. Considerando que o CPF é
responsável pelas FE e que o lobo temporal, sistema límbico e cerebelo estão
IE
envolvidos na memória, então, ao longo do envelhecimento é esperado um declínio
destas funções.
EV

Assim sendo, ao longo dos anos, estas alterações neurológicas provocam


mudanças ao nível do funcionamento cognitivo dos idosos e torna-se fundamental
compreender qual o limite entre as alterações patológicas e as alterações normais. A este
PR

propósito, Ska, Fonseca, Scherer, Oliveira, Parente e Joanette, (2009) indicam que há
declínio de um conjunto de funções, surgindo dificuldades em: manipular e tratar
informação visual e espacial, memorizar, encontrar a palavra mais adequada ao contexto
e executar tarefas em simultâneo. Silva, Yassuda, Guimarães e Florindo (2011) afirmam
que o processo de envelhecimento cognitivo é caracterizado por alterações sobretudo
nas funções executivas e alguns subsistemas da memória. Também Banhato e
Nascimento (2007) afirmam que o envelhecimento normal e patológico são
semelhantes, verificando-se que as alterações nas funções executivas ocorrem de modo
gradual e relativamente lento até aos 60 anos, mas adquirem um ritmo mais acelerado a
partir dos 70 anos de idade. Por exemplo, um estudo realizado por Zibetti, Gindri,
Pawlowski, Fumagalli, Parente, Bandeira, Fachel e Fonseca (2010) permitiu identificar
a existência de diferenças entre idosos longevos (com idade superior a 76 anos) e idosos
(com idade compreendida entre 60 e 75 anos) ao nível da perceção, resolução de
problemas, fluência verbal, memória de trabalho, memória episódica e memória

11
prospetiva. Quando os idosos são comparados com grupos mais jovens evidencia-se o
declínio na linguagem e nas habilidades construtivas. Outro estudo realizado por
Ribeiro, Oliveira, Cupertino, Neri e Yassuda (2010) verificou que quanto maior a idade,
menor a pontuação nos testes de nomeação, evocação, fluência verbal e habilidades
percetivas e visuo-construtivas. Banhato e Nascimento (2007) identificaram como
funções influenciadas pela idade o raciocínio abstrato, organização
perceptovisuomotora, velocidade do processamento da informação, atenção e memória
de trabalho.
De outro modo, estudos demonstram que certas funções mantêm-se estáveis ou
até melhoram com o avançar da idade. A este prepósito um estudo realizado por De
Souza, Borges, Vitória e Chiappetta (2009) verificou que a linguagem manteve-se
estável independentemente da idade dos idosos. Também Ribeiro, Oliveira, Cupertino,

W
Neri e Yassuda (2010) concluíram que o reconhecimento não é influenciado pela idade,
enquanto Zibetti, Gindri, Pawlowski, Fumagalli, Parente, Bandeira, Fachel e Fonseca,
(2010) não encontraram diferenças entre vários grupos de idades no que concerne à
IE
orientação espaço-temporal, linguagem oral e memória de curto-prazo.
Deste modo, perceba-se que não há um consenso por parte dos investigadores
EV

relativamente ao desenvolvimento cognitivo em idosos a partir dos 60 anos de idade.


Todavia, Ska, Fonseca, Scherer, Oliveira, Parente e Joanette (2009) concluíram que na
literatura existem três posições possíveis relativamente ao funcionamento cognitivo
PR

destes sujeitos: a) há um declínio no funcionamento cognitivo; b) há a manutenção de


algumas funções neuropsicológicas; c) há a melhoria de algumas funções
neuropsicológicas.
Para além disto, Ska, Fonseca, Scherer, Oliveira, Parente e Joanette (2009)
afirmam que o desenvolvimento cognitivo dos idosos está relacionado com diferenças
entre e intraindividuais. Tais modificações são não lineares, pois nem todos os domínios
da cognição são alterados e nem todo o declínio obedece a um percurso similar em
todos os sujeitos. A este respeito, estudos evidenciam que alguns sistemas que
compõem uma mesma função possuem percursos diferentes. É o caso, por exemplo, da
memória de trabalho, a qual diminui antes de outros sistemas de memória, embora Craik
(1986) justifique estas mudanças com o declínio dos processos subjacentes à memória,
isto é, com as dificuldades na aquisição, retenção ou recuperação de informação.
Também o processamento de palavras ou sistema lexical da linguagem é afetado antes
do sistema fonológico (ou tratamento dos sons da linguagem), uma vez que não existem

12
diferenças significativas entre idosos e jovens adultos relativamente a este último
sistema (Balota & Duchek, 1988). Nesta lógica, um estudo realizado por Levine,
Svoboda, Hay, Winocur e Moscovitch (2002) acerca da memória indicou que a
memória semântica mantém-se estável ou melhora em idosos, ao passo que a memória
episódica sofre um défice.
Face a todas estas alterações que ocorrem no envelhecimento, Muñoz-Céspedes e
Tirapu-Ustárroz (2004) consideram que a perda de FE, como as descritas anteriormente,
afetaria as capacidades do indivíduo e consequentemente a sua vida em termos de
independência e vida social. Diamond (2013) vai mais longe ao admitir que as FE são
essenciais para a saúde mental e física, para o sucesso na escola e na vida, bem como
para o desenvolvimento cognitivo, social e psicológico, estando envolvidas: na
qualidade de vida, na matemática e leitura, nas dificuldades em ter e manter um

W
emprego, na baixa produtividade, em problemas sociais (crime, violência), na
impulsividade, na pouca adesão aos tratamentos e em muitas perturbações mentais.
Numa revisão realizada por Muñoz-Céspedes e Tirapu-Ustárroz (2004) estes
IE
verificaram que as alterações executivas provocavam alterações diferentes: a) um défice
na atenção seletiva estaria associada a alterações na diminuição do rendimento e
EV

impersistência; b) um défice na inibição de interferências estaria associada à distração,


fragmentação, desorganização do comportamento e alterações na conduta a utilizar; d)
uma alteração da função executiva de planificação estaria ligada a impulsividade e a
PR

comportamentos erráticos; e) um défice na supervisão e controlo do comportamento


estaria relacionado com a desinibição e escassa correção de erros cometidos; e f) uma
alteração da flexibilidade concetual estaria associada a alterações na perseveração,
rigidez e fracasso na realização de tarefas novas.
Também ao nível da memória os autores alertam para défices na realização de
atividades diárias, dificuldades na autonomia, além de implicações na saúde de idosos
(Yassuda, Batistoni, Fortes & Neri, 2006). Souza e Chaves (2005) acrescentam ainda
questões relacionadas com a segurança e com o quotidiano dos idosos.
Os benefícios da avaliação das FE e da memória são apontados na literatura: a)
distinção entre idosos saudáveis e estados iniciais de demências, isto é, a criação de um
marcador entre o funcionamento normal e o funcionamento patológico (Hamdan &
Pereira, 2008; Ávila & Miotto, 2003; Yassuda, Batistoni, Fortes & Neri, 2006; Banhato
& Nascimento, 2007; Zibetti, Gindri, Pawlowski, De Salles, Parente, Bandeira, Fachel
& Fonseca, 2010); b) predizer sujeitos que vão desenvolver demência ou outros défices

13
(Damasceno, 1999; Banhato & Nascimento, 2007; Hamdan & Corrêa, 2009; Sala-
Llonch, Junqué, Arenaza-Urquijo, Vidal-Piñeiro, Pedret, Palacios, Domènech, Salvà,
Bargalló & Bartrés-Faz, 2014); c) contribuir para o desenvolvimento de tratamentos,
intervenções, prevenções ou reabilitações ao nível das FE e da memória (Nouchi, Taki,
Takeuchi, Sekiguchi, Hashizume, Nozawa, Nouchi & Kawashima, 2014; Irigaray,
Filho & Schneider, 2010; Argimon, Bicca, Timm & Vivan, 2006; Hamdan & Corrêa,
2009; Muñoz-Céspedes & Tirapu-Ustárroz, 2004; Ávilla e Miotto, 2003).
Face aos benefícios da avaliação de FE e da memória, estes apenas são suscetíveis
de serem medidos através de instrumentos/tarefas concebidos para tal. Apesar do
elevado número de testes para a avaliação das FE e da memória muitos deles são
antigos e não se encontram adaptados e validados à população portuguesa. Alguns testes
utilizados para medir FE em Portugal são Teste de palavras e cores de Stroop (Golden,

W
& Freshwater, 1978; Fernandes, 2013), Teste de Fluência Verbal (Tombaugh, Kozak &
Rees, 1999; adaptação portuguesa de Cavaco, Gonçalves, Pinto, Almeida, Gomes,
Moreira, Fernandes & Teixeira-Pinto, 2013) e a Escala de Inteligência para Adultos de
IE
Wechsler (WAIS-III, Wechsler, 1997, adaptação de Rocha, Ferreira, Barrete, Moreira, &
Machado, 2008). Se tal é verdade para as FE, o oposto acontece no âmbito da avaliação
EV

da memória de onde podemos destacar a Escala de Memória de Wechsler (WMS-III,


Wechsler, 2008; adaptação Machado, Menezes, Rocha, Barreto, Moreira, & Castro
(2008), Bateria Multifatorial de Memória (BMM, Aristides, Almeida & Adánez, 2010) e
PR

as Provas de Memória Imediata (PMI, Sá, 2010).


Argimon, Bicca, Timm e Vivan (2006) referem ainda que existe carência de
padronização de instrumentos para a população idosa, não permitindo interpretações
precisas, além de que alguns dos instrumentos utilizados na medição de FE não foram
desenvolvidos com esse objetivo.
Face a estas dificuldades e, visto que, nenhum dos instrumentos anteriormente
mencionados avalia o impacto das FE na memória, Yubero, Paul, Gil e Maestú (2011)
propuseram o Teste de Estratégias de Memória (TEM). Assim, este teste procura medir
o impacto das FE numa tarefa de memória episódica que consiste em ouvir e reproduzir
5 listas de 10 palavras.
Marino e Julián (2010) argumentam que um dos problemas dos testes de FE é a
sua “impureza”, isto é, a incapacidade de medir uma FE em específico sem a
intervenção de outras, para além dos diferentes pesos que cada componente terá nas
distintas FE e da possibilidade de cada uma, talvez, ser divisível em outros processos ou

14
operações mais básicas. Deste modo, não é tarefa fácil classificar os testes de acordo
com uma FE específica, o que dificulta a interpretação dos resultados dos mesmos. A
este propósito, Corso, Sperb, Jou e Salles (2013) defendem que no estudo das FE o
objetivo da investigação assenta na determinação das funções específicas envolvidas em
cada teste, bem como na investigação do peso destas funções nas diferentes tarefas
usadas.
Ardila (2013) também assume que certos pacientes com défices no lobo frontal
apresentam um bom desempenho em certos teste de FE, mas não em outros. Hamdan e
Pereira (2008) concordam com esta perspetiva ao enfatizar que outras lesões para além
das encontradas no CPF podem interferir no desempenho de testes de FE, mesmo na
ausência de disfunção executiva, através da interrupção dos processos que estão sob o
seu controlo durante a realização do teste.

W
Ao nível da medição de construtos psicológicos várias dificuldades surgem
nomeadamente o efeito de variáveis não controladas e dificuldades sensoriais, que
interferem nos resultados (Ávila e Miotto, 2003) e a utilização de testes não fidedignos
IE
e não validados (Pasquali, 2004).
Deste modo, procura-se verificar duas caraterísticas fundamentais dos testes, isto
EV

é a fiabilidade e a validade, pois medidas confiáveis são replicáveis e consistentes


(Martins, 2006), ao mesmo tempo que permitem verificar a qualidade da informação
recolhida, no sentido de se poder aceitar os resultados da investigação como fatos
PR

verdadeiros, com rigor preditivo ou de acordo com o conhecimento estabelecido


(validade) e independentemente do investigador, das condições de administração e do
instrumento utilizado (fiabilidade) (Coutinho, 2014).
Salienta-se que diversos fatores influenciam a validade do teste entre estes a
heterogeneidade dos itens (que costumam diminuir a fidedignidade, mas aumenta a
validade), a representatividade da amostra de itens (se são incluídos itens apenas de uma
parte do fenómeno, os resultados do teste não serão válidos, pois é necessário cobrir a
totalidade do fenómeno), bem como pela escolha do critério e pela heterogeneidade do
grupo (Erthal, 2009). Pasquali (2004) descreve outras limitações como: erros na
formulação da teoria, erros durante o processo de recolha de dados (procedimento de
aplicação, direitos dos participantes, controlo de erros do aplicador, normas para a
divulgação de resultados, etc) e erros na análise estatística da informação.

15

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