Bates
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Resumo ● A partir do século XVII iniciou-se na Amazônia toda uma movimentação de viajantes/naturalistas
atraídos pela biossociodiversidade dessa região dominada por uma floresta do tipo tropical. Henry Bates,
estudioso de história natural, foi um deles, tendo, porém, se deslocado para o norte do Brasil entre os anos
de 1848 e 1859. Nesse contexto, o presente artigo tem como objetivo analisar o processo de transferência
das informações produzidas por esse viajante naturalista após onze anos de trabalho de campo. A partir do
material bibliográfico reunido para esse fim, verificou-se que tal processo foi bem-sucedido, como evidencia
a ampla circulação das obras publicadas por Bates. E, transcorridos 156 anos dessa expedição, a produção
científica de Bates continua a participar do circuito acadêmico de produção de conhecimento sobre a
Amazônia na contemporaneidade, qual seja, no campo da biologia, da zoologia, da sociologia, da história
ou da antropologia.
Palavras-chave ● Henry Walter Bates, transferência da informação, Amazônia.
Title ● Henry Walter Bates: A naturalist Traveler in the Amazon, and the Process of Information Transference
Abstract ● From the 17th century on, in the Amazon, there happened a drive of naturalists/travelers, who
were attracted by the bio-social-diversity of this region occupied by a rain forest. Henry Bates, who
dedicated himself to Natural History, was one of them, but he moved to the north of Brazil between 1848
and 1859. In this context, this paper aims at analyzing the process of the transference of the information
produced by this naturalist traveler after eleven years of practical work. From the biographical material that
was gathered, it was discovered that such process did succeed, as shown by the wide circulation of works
published by Bates. And after 156 years after his expedition, Bates’s scientific output is still present in the
academic circuit for the production of knowledge of the Amazon nowadays: in the fields of biology,
zoology, sociology, history of anthropology.
Keywords ● Henry Walter Bates; information transference; Amazon.
científica. Ela, por sua vez, estrutura-se a partir de se desenvolvendo, expandindo-se conseqüente-
signos lingüísticos cognitivamente processados de mente em número de pesquisas. Assim, por trás
modo que formem sentido sobre aquilo que o dessa expansão opera todo um processo de transfe-
homem vê, sente e pensa, sendo então transferida rência, o qual está permanentemente a alimentar
por meio da ação comunicativa. Dado o seu caráter a comunidade científica. Tal processo corresponde
imaterial, a informação pode ser representada de à ação concreta de socialização da informação,
formas diversificadas, tais como som, imagem e podendo envolver um ou mais canais de comuni-
texto. Essa última, aliás, é a preferida pela comuni- cação. Esses canais podem ser tanto uma conferên-
dade científica, uma vez que a socialização dos resul- cia quanto um artigo, um e-mail ou um capítulo
tados das pesquisas dá-se mais amplamente por de livro. Desse modo, na Figura 1 tem-se um mode-
meio de artigos de periódicos e livros. Ademais, con- lo explicativo acerca desse processo no âmbito
forme Price (1975), as informações resultantes da científico.
atividade científica só são incorporadas aos esto- A idéia de processo como ação contínua está
ques de conhecimento depois de publicadas e bem representada na Figura 1. Nota-se por ela que
julgadas como relevantes pelos demais cientistas para o cientista participa desse processo em duas ins-
a produção de novos conhecimentos. tâncias. Numa primeira, ele se alimenta da trans-
A partir do século XVII, a troca de informa- ferência da informação para pôr em curso seu
ção entre cientistas ganhou uma inovação com a empreendimento científico. Noutra instância, ele
publicação dos primeiros periódicos científicos4. passa a alimentá-la quando os resultados de sua
Por volta de 1850, já existiam cerca de mil títulos pesquisa são comunicados, legitimados pelos seus
em circulação, que em cem anos aumentaram dez pares e incorporados aos estoques de conhecimen-
vezes em número (FIGUEIREDO, 1979). Como se vê, to científico, passando então a fazer parte desse pro-
o volume de informações produzidas no campo cesso como um sujeito ativo. É esse continuum que
científico se multiplicou à medida que a ciência foi garante a “oxigenação” da ciência, contribuindo
assim para que o conhecimento científico não seja pioneiras nessa parte do Brasil (CUNHA, 1991;
puramente cumulativo e, por isso, estanque. Mas LORCH, 2000; PEREIRA, 2003). Henry Walter Bates
que seja renovado e se transforme à medida que chegou em 1848, aportando na cidade de Belém
novos repertórios informacionais sejam agregados no dia 26 de maio, em companhia de seu amigo
a ele. Prova disso são os estágios contemporâneos Alfred Wallace (BATES, 1863, v. 1; CUNHA, 1991)6.
das ciências humanas e naturais em seus arcabou- Reunir informações em direção ao aprofunda-
ços teóricos, notadamente bem mais desenvolvidos mento da teoria das espécies desenvolvida por
que nos primórdios dos séculos XVII e XVIII. Darwin era o norte que orientava o interesse desse
Embora o processo de transferência da infor- inglês, que desde a infância inclinava-se pela histó-
mação seja uma atividade seminal para a ciência, ria natural. Essa motivação permite situar a viagem
Figueiredo (1979) explica que ele não é de todo de Bates no contexto das “expedições científicas”
perfeito, como pode sugerir a simplicidade da no Brasil, que buscavam especialmente contribuir
Figura 1. Decerto ele está sujeito a ruídos e interfe- para a ampliação do conhecimento em determi-
rências variadas, tal como ocorre em qualquer nadas ramificações da ciência. Bates, nessa pers-
contexto comunicativo e que por isso são fáceis de pectiva, interessava-se pela entomologia.
ser enumeradas. Problemas relacionados a lingua- Expedições dessa ordem tornaram-se possíveis
gem5, cultura informacional negativa em insti- aos viajantes não-portugueses com o casamento
tuições de pesquisa, etnocentrismo científico, de D. Pedro I com a imperatriz Leopoldina. Antes
escassez de recursos para publicações, hermetismos dessa união matrimonial, negociada entre D. João
acadêmicos e falta de estímulos governamentais VI e o imperador da Áustria, Francisco I (NORTON,
seriam algumas das perturbações às quais a trans- 1938; CUNHA, 1991), a entrada de estrangeiros era
ferência da informação estaria sujeita. Entraves proibida, para assegurar a integridade da posse de
temporais e espaciais também participam desse Portugal sobre a colônia sul-americana. Exemplo
quadro de interferências, ainda que no advento de disso foi a recusa quanto à entrada de Alexander
uma sociedade que Masuda (1982), dentre outros Humboldt na Amazônia, em meados do século
autores do pós-modernismo, interpreta como “da XVIII (CUNHA, 1991; BELLUZO, 1994), em razão dos
informação”, tenham sido minimizadas com a intro- embates políticos que ocorriam na Europa entre o
dução de redes de comunicação como a Internet. reino da França e a metrópole lusitana. A mudan-
Certamente eram várias as dificuldades enfren- ça de Leopoldina para o Brasil inaugurou, assim,
tadas pelos viajantes/naturalistas, em especial se um período de produção de informações de caráter
levado em conta que a comunicação interconti- científico, num país sobre o qual pouco se conhe-
nental dependia exclusivamente da via marítima e cia quanto aos seus recursos naturais e suas popu-
a coleta de dados na densa floresta tropical envol- lações nativas. Com Bates e Wallace, a viagem a
via todo tipo de perigos. Mas, como se verá adian- Amazônia seria facilitada pelas relações comer-
te, isso não impediu que Henry Bates transferisse ciais de longa data entre Portugal e Inglaterra.
as informações originadas de seu estudo sobre a Inicialmente Bates deteve-se a alguns levanta-
Amazônia à comunidade científica européia. mentos exploratórios na floresta em torno da
capital paraense, mais precisamente no largo de
. ⁄, Nazareth, onde ficava a residência que o abrigou
, durante sua estada em Belém. Àquela época, a
cidade era ocupada por uma população de 3.200
habitantes e circundada por uma mata que, como
Desde 1542, muitos foram os europeus que traçaram ele bem descrevera, era “um paraíso para os natu-
rotas de viagem à Amazônia. Mauricio de Heriarte, ralistas, e se é contemplativo não há situação mais
Charles La Condamine, Carl Friedrich von Martius, favorável para abandonar-se a esse pendor” (BATES,
Johann von Spix, Johann Natterer e Richard Spruce 1944, v. 1, p. 84). Os insetos amazônicos o fascina-
são nomes ilustrativos das explorações científicas vam, sobretudo por sua diversidade e tamanho.
. ⁄ .⁄ . ● ● , º ● - 235
A tocandira (Dinoponera grandis), uma formiga eram perfeitamente capazes de cortar ao meio a
carnívora comum na região, chamara a atenção perna de um homem.
de Bates por suas dimensões superiores às das
formigas inglesas. Por conseguinte, esses contatos Mas, se, por um lado, a natureza oferecia aven-
iniciais com uma fauna ímpar certamente alimen- turas desse tipo ao viajante/naturalista inglês, por
tavam as expectativas desse viajante quanto ao que outro, ela também o abatia no corpo.
ele ainda poderia observar na Amazônia. Na Amazônia do século XIX, a febre amarela
Em comparação ao que lera sobre a fauna do era uma moléstia que assustava o homem europeu.
continente africano, Bates notara que a vida ani- Bates, em suas idas ao campo, não escapou dela,
mal na floresta tropical brasileira era menos fato que notadamente acabou por interferir na
expressiva em número e variedade de mamíferos. continuidade do trabalho que pretendia esten-
Sobre essa evidência, comentara o viajante euro- der até as cidades de Pebas e Moibamba, ambas
peu que “O Brasil é, entretanto, pobre em mamais situadas no Peru. Não só a febre o abatera, como
terrestres (...) Ficaria desapontado quem esperas- também o esgotamento físico resultante da labu-
se encontrar aqui bandos de animais comparáveis ta intensa numa região de clima tropical, tal como
às manadas de búfalos, hordas de pesados paqui- deixa transparecer nesse relato:
dermes de África do Sul” (BATES, 1944, v. 1, p. 106).
O silêncio da floresta contrariara a multiplicidade Minha febre parecia ser a culminância da dete-
de sons que ele esperava ouvir, sendo às vezes rioração da saúde, que se vinha processando
tocado por sentimentos de solidão e melancolia há alguns anos. Expusera-me demais ao sol,
em meio à mata. Mas era à medida que se distan- trabalhara além de minhas forças seis dias por
ciava de Belém, percorrendo o interior do Pará e semana, além de tudo, sofrera muito com a
do Amazonas, que os perigos começavam a pôr alimentação má e insuficiente (...) (BATES, 1944,
ânimo em sua expedição, que em seu trajeto pas- v. 2, p. 390)
sara pelo Rio Tocantins, Cametá, Santarém, por
Óbidos e por Éga, essa última, aliás, conhecida Ao que tudo indica, as incursões intensas de
contemporaneamente como Tefé (AM). europeus na Amazônia afetavam sobremaneira a
Às proximidades de Éga, ele e os homens que saúde dos viajantes, a exemplo do que ocorrera
o acompanhavam depararam com uma sucuri também com Langsdorff e Agassiz (CUNHA, 1991)7.
(Eunectes murinus) e um jacaré-açu (Melanosuchus Nessa direção, após viver anos no norte do Brasil
niger). Sobre o encontro com este último animal, e debilitado, Bates decidiu regressar à Inglaterra
Bates (1944, v. 2, p. 253) descrevera que em 2 de junho 1859.
um importante canal de comunicação de dados e dos artigos publicados, significativa foi também
evidências. Segundo Outram (1980), as cartas dos a utilização de recursos imagéticos para a repre-
viajantes e naturalistas constituem uma docu- sentação das informações coletadas durante suas
mentação tão valiosa quanto os diários, especial- incursões à mata. Tem-se, assim, na produção cien-
mente pelo fato de que elas permitem reconstituir tífica dos viajantes/naturalistas dos anos de 1800,
parte do background dessas expedições, trazendo à uma diversidade de imagens que – na medida do
tona as particularidades dos contatos desses sujei- possível, e às vezes com tal perfeição ou de forma
tos com seus pares científicos, agentes financiado- romanceada – reproduz o ambiente explorado,
res, políticos ou mesmo com familiares. Mas durante os seres e o cotidiano das comunidades indígenas
o levantamento bibliográfico para este artigo, não e não-indígenas. Nessa perspectiva, Bates não foi
se verificou nenhuma referência acerca da publici- um dos que mais exploraram tal forma de repre-
zação de tal documentação, a exemplo do que se sentar a informação, mas o conjunto das 41 plates
tem recentemente sobre as cartas de Martius, que compõem a iconografia dos dois volumes da
pertencentes ao acervo da Biblioteca Central da obra The Naturalist on the River Amazon chama a
Universidade Federal do Pará, e objeto de análise atenção pela riqueza dos detalhes e, principal-
do artigo de Izabel Arruda (2003), escrito para o mente, por terem sido esboçadas pelo próprio
XI Congresso da Associação Latino-Americana de natura-lista. De fato, na história natural era e
Estudos Germanísticos. continua a ser importante não apenas a descrição
Provavelmente, Bates realizou contatos regu- textual agu-çada sobre o objeto observado, como
lares (ou mesmo esporádicos) por correspondên- também o registro iconográfico minucioso deste
cia com seus compatriotas, notadamente quando para fins taxonômicos.
da remessa de duplicatas para o Museu Britânico. Diferentemente de Friederick Alexander (1805-
Entretanto, em que pese a falta de informações 1837), barão de Humboldt, que dedicou várias
nessa direção, um dado sobre o qual se tem conhe- folhas dos 29 volumes de Voyage aux régions
cimento diz respeito à precariedade de notícias équinoxiales du Nouveau Continent à representação
quanto aos acontecimentos científicos, políticos, imagética das plantas que estudara em sua viagem
sociais e culturais que se sucediam na Inglaterra e à América do Sul, muitas das quais em plates
no restante da Europa nos anos em que ele perma- coloridas, Bates deteve-se numa ilustração mais
neceu no Brasil. Dadas as condições de isolamento sucinta de sua expedição à Amazônia. As imagens
durante o trabalho de campo na Amazônia, Pinhei- impressas em preto-e-branco tratam de temas que
ro (2003) argumenta que os viajantes/naturalistas variam entre a botânica e a zoologia, permeando
eram quase que completamente esquecidos quan- também a etnologia; esse último tema, aliás, pode
do se ausentavam de seu país de origem, embora ser visto na Figura 3, em que estão representados
houvesse inicialmente toda uma repercussão social os índios ticunas com suas tradicio-nais máscaras
ante os preparativos da viagem propriamente cerimoniais. As ilustrações correspondentes à his-
dita. Desse modo, ainda que a Amazônia fosse tória natural foram elaboradas por ele próprio, e
atrativa como espaço empírico para os estudos em alguns esboços foram aperfeiçoados por artistas
história natural, Henry Bates não deixou de se como Wolf, Zwecker e Robson (BATES, 1944, p. 16,
desanimar com a falta de contato com o Velho 17). No quadro de análise da transferência da in-
Continente, mais precisamente da companhia de formação, essa iconografia desempenha uma fun-
homens do mesmo nível cultural e intelectual, com ção seminal no que concerne à exposição da
os quais pudesse discutir acerca de suas observa- paisagem visitada e analisada pelos viajantes e
ções e descobertas científicas. naturalistas entre os séculos XVII e XIX.
Muito embora as evidências produzidas pelos Por meio delas, Bates pôde mostrar na Europa
viajantes e naturalistas tenham sido amplamente a biossociodiversidade de uma floresta tropical
registradas na forma de texto, a exemplo dos diá- que em muito estimulava o imaginário da socie-
rios de campo, das correspondências, dos livros e dade européia.
238 ● Henry Walter Bates
nível das micro quanto no das macroestruturas sociais. 7 Quando da passagem de Georg Henrik von Langsdorff
Como ser social, ele está a realizar trocas de informações de pelo Rio Amazonas, ele e outros homens que compunham
diferente natureza com o meio, sejam aquelas que permitam sua expedição sofreram de uma repentina loucura súbita,
resolver pequenas questões do dia-a-dia, sejam aquelas de provocada pelas fortes febres que os atormentavam. Jean
natureza mais complexa, como as que se processam nos Louis Rodolphe Agassiz, por sua vez, sofreu de paralisia, da
domínios da ciência. qual felizmente conseguiu se recuperar algum tempo depois
3 Particularmente para a biblioteconomia e para a ciência da nos Estados Unidos (CUNHA, 1991, pp. 70, 77).
informação. 8 Posteriormente a1 essa primeira edição, Bates publicou
4 O Journal des Sçavants e o Philosophical Transactions outra versão de seu livro, em 1864, na qual subtraiu várias
foram os primeiros periódicos científicos, ambos publicados informações, muitas das quais de cunho faunístico,
em 1665 (FIGUEIREDO, 1979; STUMPF, 1996). geográfico e sociocultural (MELO-LEITÃO, 1944, prefácio).
5 Como a dificuldade de expressão oral e/ou escrita e 9 Diferentemente de Bates, Wallace pôde sobreviver graças a
mesmo as de ordem idiomática, a exemplo das traduções uma pensão de duzentas libras anuais, paga pelo governo
omissas, com termos imprecisos na língua do tradutor ou os britânico a partir de 1881 (MAGALHÃES, 1939).
erros de tradução em si. 10 A Biblioteca “Domingos Soares Ferreira Penna”, do
6 Bates e Wallace planejaram sua viagem por três meses, Museu Paraense Emílio Goeldi, possui em seu acervo
antes de chagarem ao Pará. Contudo, em Belém, os científico um exemplar da publicação original de The
interesses particulares acabaram por separá-los após Naturalist on the River Amazon, de 1863. Na Internet, essa
sucessivos encontros e desencontros, seguindo Wallace para mesma edição pode ser obtida integral e gratuitamente, em
o rio Negro e Bates para Tefé. Dessa feita, Wallace será arquivo do tipo PDF, no seguinte endereço: http://
mencionado somente quando conveniente, uma vez que o [Link]/titles/[Link].
foco deste trabalho recai sobre Bates.