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Este trabalho de revisão bibliográfica analisa o Luto Patológico, abordando sua apresentação, diagnóstico e tratamento, com base em 43 artigos publicados entre 1971 e 2017. O Luto Patológico é caracterizado por um luto mais intenso e prolongado do que o normal, sendo tratado principalmente com psicoterapia e medicação antidepressiva. A pesquisa destaca a importância de diferenciar o Luto Patológico do Luto Normal e outras condições psiquiátricas para um diagnóstico e tratamento adequados.
Direitos autorais
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Este trabalho de revisão bibliográfica analisa o Luto Patológico, abordando sua apresentação, diagnóstico e tratamento, com base em 43 artigos publicados entre 1971 e 2017. O Luto Patológico é caracterizado por um luto mais intenso e prolongado do que o normal, sendo tratado principalmente com psicoterapia e medicação antidepressiva. A pesquisa destaca a importância de diferenciar o Luto Patológico do Luto Normal e outras condições psiquiátricas para um diagnóstico e tratamento adequados.
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Clínica Universitária de Psiquiatria e Psicologia Médica

Luto Patológico – Revisão baseada na


melhor evidência
Joana Filipa Pedro Marques
Clínica Universitária de Psiquiatria e Psicologia Médica

Luto Patológico – Revisão baseada na


melhor evidência
Joana Filipa Pedro Marques

Orientado por:

Professor Doutor Diogo Telles Correia


ABSTRACT

Goal: The main goal of this final master’s thesis is to make a bibliographic review,
based on articles that were published between the years of 1971 and 2017, about
Complicated Grief, namely its presentation, diagnosis and treatment. Methods: A
review of articles on Complicated Grief was carried out, and 43 scientific articles were
analyzed. Results: A summary of the collected information was presented, which
includes an introduction on Normal Grief, epidemiology, risk factors, diagnostic criteria
and differential diagnosis, and clinical presentation of Complicated Grief and, finally,
its therapeutic approaches, namely psychotherapy and pharmacology. Conclusions: It
was concluded that Complicated Grief is a multifactorial psychiatric condition that is
characterized by the development of a mourning that is more intense and prolonged than
normal, when faced with a loss. The main therapeutic approaches are antidepressant
medication and individual or group psychotherapy, used alone or combined to
potentiate the effects of them both.

KEY WORDS

Complicated Grief; Uncomplicated Grief; Psychotherapy;


RESUMO

Objetivo: O principal objetivo deste trabalho final de mestrado consiste na realização de


uma revisão bibliográfica, com base em artigos publicados entre 1971 e 2017, sobre
Luto Patológico, nomeadamente a sua apresentação e diagnóstico e o seu tratamento.
Métodos: Efetuou-se uma revisão de artigos sobre Luto Patológico, tendo sido
analisados 43 artigos científicos. Resultados: Apresentou-se um resumo da informação
colhida que inclui uma introdução sobre Luto Normal, epidemiologia, fatores de risco,
critérios de diagnóstico e diagnóstico diferencial, e apresentação clínica do Luto
Patológico e, por fim, as suas principais abordagens terapêuticas, nomeadamente
psicoterapia e farmacologia. Conclusões: Concluiu-se que o Luto Patológico é uma
condição psiquiátrica, multifatorial, que se caracteriza pelo desenvolvimento de um
quadro de luto mais intenso e prolongado que o normal, face a uma perda. As principais
abordagens terapêuticas constituem medicação antidepressiva e psicoterapia individual
ou de grupo, usadas isoladamente ou em combinação para potenciarem os efeitos de
ambas.

PALAVRAS CHAVE

Luto Patológico; Luto Normal; Psicoterapia;

O Trabalho Final exprime a opinão do autor e não da FML.


ÍNDICE

ABSTRACT ............................................................................................................................ 3
KEY WORDS ......................................................................................................................... 3
RESUMO ................................................................................................................................ 4
PALAVRAS CHAVE.............................................................................................................. 4
INTRODUÇÃO....................................................................................................................... 6
METODOLOGIA ................................................................................................................... 8
RESULTADOS ....................................................................................................................... 9
1. Apresentação do Luto Patológico................................................................................ 9
2. Diagnóstico do luto patológico .................................................................................. 10
3. Epidemiologia do Luto Patológico ............................................................................ 13
4. Fatores de Risco ......................................................................................................... 14
5. Abordagem Psicoterapêutica e Farmacológica......................................................... 16
CONCLUSÕES ..................................................................................................................... 19
AGRADECIMENTOS .......................................................................................................... 20
BIBLIOGRAFIA .................................................................................................................. 21
INTRODUÇÃO

O Luto corresponde a um conjunto de reações emocionais, físicas, comportamentais e


sociais normais experienciadas pelo ser humano face à perda de um ente querido
(Delalibera, Coelho, & Barbosa, 2011; M. K. Shear, 2015). Esta perda é experienciada
pela maioria das pessoas e implica uma mudança permanente na vida do próprio (Joe et
al., 2016). Apesar de transversal, o Luto é uma experiência muito pessoal e que pode ser
diferente de pessoa para pessoa, sendo bastante variável em termos de evolução
temporal, intensidade e resposta emocional que o individuo tem (Barbosa, 2016).

O Luto Normal é um processo multidimensional e de causas multifatoriais, tornando


difícil prever de que modo é que o enlutado vai viver esta sua experiência ou, também,
quais os mecanismos adaptativos aos quais o mesmo vai recorrer para lidar com a
própria experiência. Habitualmente, após sofrerem uma perda, sobretudo se se tratar de
um ente próximo, os enlutados passam por um período emocionalmente intenso
(Bousquet J, Jeffery PK, Buse WW, Of, & Art, 2006). O esperado é que os mesmos
adotem comportamentos e rituais que os auxiliem no decorrer do processo do Luto
(Bousquet J, Jeffery PK, Buse WW et al., 2006). Apesar disso, a maioria dos indivíduos
enlutados, cerca de 80-90% (Delalibera et al., 2011), consegue ultrapassar e integrar a
perda, o que se denomina de Luto Resolvido (Delalibera et al., 2011). Contudo,
ultrapassar a pedra não é sinónimo de esquecer a pessoa que faleceu. O Luto é
permanente (Bousquet J, Jeffery PK, Buse WW et al., 2006).

O Luto foi pela primeira vez dividido em cinco fases em 1969 pela Psiquiatra Elisabeth
Kübler-Ross, no livro “On Death and Dying”, tendo em conta doentes diagnosticados
com uma doença grave em estadio terminal. As cinco fases definidas são Negação,
Raiva, Negociação, Depressão e Aceitação. Contudo, e apesar das cinco fases se
encontrarem descritas por ordem sequencial lógica, Elisabeth Kübler-Ross afirmou que
o individuo não tem que experienciar as fases do Luto por esta ordem nem tem que
passar por todas, podendo, por vezes, apenas vivenciar duas (Kubler-Ross, 1971).

A fase da Negação é a primeira fase das cinco descritas por Kübler-Ross (“On Death
and Dying”, 1969) e aquela na qual o entorpecimento emocional está mais presente. O
enlutado sente-se em choque, sem saber de que modo conseguirá viver a sua vida sem a
pessoa querida que acabou de perder. É nesta fase que o enlutado suprime todas as
emoções, que pode vir eventualmente a sentir nas fases seguintes, como forma de lidar
com a nova realidade. Por exemplo, no caso de um doente a quem foi diagnosticado
uma doença terminal este pensará que poderá ter ocorrido um erro de diagnóstico e que
terá muitos anos para viver. É a negação da situação atual que leva a experienciar todas
as emoções que se seguem de uma forma mais gradual do que se a fase supracitada não
existisse (Kubler-Ross, 1971).

A segunda fase descrita foi a fase da Raiva. Uma vez passada a negação, o enlutado
começa a aperceber-se da verdadeira realidade levando a que sensações, tais como a
revolta, descrença ou incompreensão, o levem a dirigir toda a sua raiva para alguém ou
alguma coisa (Kubler-Ross, 1971).

A terceira fase, ou fase da Negociação, é aquela em que o enlutado se culpa pela perda
e tenta, a todo o custo, arranjar factos que pudessem ter evitado a morte do ente querido.
O enlutado tenta negociar algo com Deus, ou com algo ou alguém que o mesmo
reconheça como uma força superior, para desfazer a morte do ente querido (Kubler-
Ross, 1971). Normalmente, realizam-se promessas para reverter a situação de forma a
que esta possa voltar a ser o que era antes da perda se ter sucedido.

A fase da Depressão é a fase mais associada ao Luto, pela sociedade (Tofthagen, Kip,
Witt, & Mcmillan, 2011). É nela que o enlutado se convence finalmente de que a perda
é algo irreversível e entrega-se à sensação de vazio. É nesta fase que residem todas as
emoções mais profundas do ser, tais como a tristeza, a sensação de impotência e a dor
emocional (Kubler-Ross, 1971). É aqui que o individuo deixa de ter forças para
questionar o que aconteceu ou para lutar contra isso e, por isso, tem tendência a evitar
comunicar com os outros.

A última fase, ou fase da Aceitação, não significa que o enlutado se sente bem
relativamente à perda que sofreu. Significa, no entanto, que aceitou o que aconteceu
como uma nova realidade que não pode ser alterada. O individuo começa, então, a
ganhar responsabilidade sobre a própria vida e tenta retomar algumas atividades que
abandonou na altura em que a perda se sucedeu (Kubler-Ross, 1971).
Apesar de o Luto ser frequentemente referido como o processo que advém da perda de
uma pessoa, este ultrapassa esta definição algo simplista ou linear. O Luto pode resultar
da privação de algo tangível, como algo material ou o emprego do próprio, ou
intangível, como projetos de vida ou ambições pessoais (Barbosa, 2016). Nesta
discussão, irei abordar o Luto em contexto de perda de entes queridos.

O Luto Normal pode tornar-se Patológico quando existe uma má adaptação ao processo
normal do mesmo ou quando as circunstâncias e/ou consequências da perda não são
normais (M. K. Shear, Ghesquiere, & Glickman, 2014).

O Luto Patológico, contudo, é considerado uma entidade que afeta indivíduos que
possuem características predisponentes para que tal aconteça. O principal objetivo desta
revisão de literatura é reunir informação acerca do Luto Patológico, diferenciá-lo do
Luto Normal e encará-lo como uma condição individual e não como um subtipo de
Depressão, uma vez que esta é a perturbação com a qual é mais frequentemente
confundido. Pretende-se, ainda, abordar as medidas terapêuticas que estão disponíveis e
tentar perceber de que modo é que, como médicos, conseguimos diagnosticar alguém
que está a passar por um Luto Patológico, diferenciando de forma mais convicta e
concreta os dois tipos de Luto referidos anteriormente.

METODOLOGIA

Foi realizada uma pesquisa bibliográfica nas bases de dados PubMed, UpToDate e
Cochrane Library, tendo sido reunidos 34 artigos no total, entre os anos 1971 e 2018.
20 artigos eram de revisão. De todos os artigos utilizados, 33 escritos na língua inglesa,
apenas um se encontrava escrito em português. Para além dos artigos, este trabalho foi
complementado com a consulta de livros, nomeadamente do Diagnostic and Statistical
Manual of Mental Disorders (DSM-5) e do Manual de Cuidados Paliativos. As palavras
pesquisadas foram “grief”, “complicated grief”, “pathological grief” e “psychotherapy”.
RESULTADOS

1. Apresentação do Luto Patológico

O individuo que sofre de Luto Patológico, inicialmente, apresenta os mesmos sinais e


sintomas que o individuo que passa por um Luto Normal possui. Contudo, os sinais e
sintomas anteriormente referidos, em vez de resolverem com o passar do tempo,
mantêm-se, podendo até mesmo agravar. A intensidade e a duração dos mesmos são
extremas (Piper, Ogrodniczuk, Azim, & Weideman, 2001). As características mais
fortemente associadas a um quadro de Luto Patológico são a saudade intensa, a
descrença relativamente à perda, a raiva, a tristeza e solidão e a preocupação pela pessoa
falecida (K. Shear, Frank, Houck, & Iii, 2005; M. K. Shear, 2015). A preocupação e a
dormência emocional pela própria perda e a dificuldade em aceitar a realidade da morte
afetam muito a vivência do enlutado (Horowitz et al., 1997), pois o mesmo pode
desenvolver um quadro de imagens e pensamentos intrusivos relacionados com a pessoa
falecida (M. K. Shear, 2015).

O individuo pode sentir, para além dos sintomas supracitados, uma culpa imensa
relativamente às circunstâncias da perda, podendo mesmo desejar ter morrido no lugar
do outro (M. K. Shear, 2015). Por outro lado, o enlutado tenta ao máximo evitar
relembrar a pessoa que faleceu, inclusive as boas memórias que passou com a mesma
(K. Shear, Frank, Houck, & Iii, 2005) pois estas são causadoras de sofrimento. Existe
também uma sensação de perda de identidade com a morte de alguém; o próprio perde o
interesse por tudo, especialmente pelo futuro.

Os individuos que sofrem de Luto Patológico podem experienciar, para além dos
sintomas psicológicos, sintomas físicos, tais como dor física, agitação psicomotora,
alterações do sono e cansaço generalizado (Waller, Turon, Mansfield, Hobden, &
Sanson-fisher, 2016).

O Luto Patológico é uma condição extremamente limitante e é quase impossível para os


indivíduos que passam por um Luto Patológico continuarem a executar as tarefas do
dia-a-dia, tornando-se solitários ao evitarem o contacto com pessoas que o rodeiam.
2. Diagnóstico do Luto Patológico

O Luto Patológico é uma condição que é possível de ser diagnosticada através de um


sistema nosologico categorial (ICD, DSM) ou de questionários aplicados ao enlutado
(Osso, 2013), (M. K. Shear et al., 2011).
Apesar da falta de consenso entre várias entidades, tais como o ICD-11 (International
Classification of Diseases, 11th Edition) e o DSM-5 (Diagnostic and Statistical Manual
of Mental Disorders, 5th Edition), foram desenvolvidas várias guidelines que permitem
ao médico, realizar um diagnóstico mais preciso, tendo em conta os sintomas e sinais
que o doente possui.

Figura 1. Critérios de diagnóstico de Luto Patológico, no ICD-11 e no DSM-5 (Jordan


& Litz, 2014).

Na Figura 1 é possível visualizar os critérios de diagnóstico, definidos para o Luto


Patológico, pelo ICD-11, que lhe atribui o nome Prolonged Grief Disorder, e pelo
DSM-5, que se refere ao Luto Patológico como Persistent Complex Bereavement-
Related Disorder, a sua definição mais recente. É evidente que o DSM-5 definiu um
grupo mais alargado de critérios, contudo, e apesar de algumas características se
sobreporem à classificação do ICD-11, este facto condiciona uma maior
heterogeneidade de diagnóstico (Jordan & Litz, 2014).
Apesar de ter características específicas, o Luto Patológico é muitas vezes confundido
com outras perturbações. São elas o Luto Normal ou Luto Agudo, a Perturbação da
Ansiedade de Separação, a Depressão major e a Perturbação de Stress Pós-Traumático.
Por essa razão, é deveras importante ter bem presente as características especificas de
cada patologia, que diferem umas das outras, de modo a ser possível realizar-se um
diagnóstico diferencial correto e, posteriormente, tratar devidamente a patologia em
questão (Maciejewski, Maercker, Boelen, & Prigerson, 2016).

Relativamente ao Luto Normal, é possível diferenciá-lo do Luto Patológico


relativamente ao período de tempo e à intensidade dos sintomas. O Luto Patológico,
como discutido anteriormente, caracteriza-se pela intensidade acrescida dos sintomas,
também presentes numa situação de Luto Normal, e que duram mais do que 12 meses.
No caso do Luto Normal, ou Luto Agudo como referido anteriormente, os sintomas têm
tendência a desvanecerem gradualmente à medida que o individuo enlutado se vai
adaptando a uma nova realidade, da qual não faz parte o ente querido que faleceu (Osso,
2013).

A Perturbação da Ansiedade de Separação partilha com o Luto Patológico a ansiedade


de separação da pessoa. Contudo, a principal diferença centra-se no tipo de separação
que se sucedeu. Enquanto que no Luto Patológico a ansiedade é dirigida ao ente querido
que faleceu, na Perturbação da Ansiedade de Separação o próprio sente-se apreensivo
pela separação do individuo com quem tem uma ligação ansiosa, sendo a relação de um
bebé com a mãe um exemplo (Ehrenreich, Santucci, & Weiner, 2008).

Em relação à Depressão major, a tristeza e a ideação suicida são características que


também se encontram presentes no Luto Patológico mas, neste último caso, a
sintomatologia está associada à perda. A principal diferença entre estas duas entidades é
o humor. Na Depressão major, o humor é maioritariamente negativo enquanto que no
Luto os sentimentos negativos alternam com memórias positivas da pessoa que faleceu
(Assareh, Sharpley, McFarlane, & Sachdev, 2015). Cerca de 42% dos individuos
(Assareh et al., 2015) que sofreram uma perda, são diagnosticados com depressão
clínica no primeiro mês. E, por isso, em muitos casos, o Luto Patológico pode ser
erradamente diagnosticado como uma Depressão major (Sung et al., 2011) uma vez que
esta não difere muito, em termos de sintomatologia e duração, da depressão pós-Luto
Normal (Pies, 2012).

Diferenciar Luto Patológico de Perturbação de Stress Pós-Traumático pode ser mais


complexo pelas inúmeras características que ambos partilham.

Figura 3. Diagnóstico diferencial entre LP, DM e PSPT (M. K. Shear, 2015).

Relativamente às escalas, foram criados foram criados vários questionários específicos


para o efeito, entre eles destacam-se o ICG (Inventory of Complicated Grief), o ICG-R
(Inventory of Complicated Grief Revised), o PG-13 (Prolonged Grief 13) e, por último,
o BGQ (Brief Grief Questionnaire), todos específicos para o Luto Patológico (Sealey,
Breen, O’Connor, & Aoun, 2015).
Figura 4. Medidas de Luto Patológico, após a morte de um ente querido (Sealey et al.,
2015).

3. Epidemiologia do Luto Patológico

O Luto Patológico é uma condição que afeta cerca de 2-3% da população mundial (M.
K. Shear, 2015) e que se caracteriza por “Luto intenso que dura mais tempo do que
aquele que é expectável, de acordo com as normas da sociedade, e que prejudica o
funcionamento do dia-a-dia” (M. K. Shear, 2015). A sua prevalência depende de vários
fatores, nomeadamente do tipo de relação que o enlutado tinha com o falecido e das
circunstâncias da morte .

O Luto Patológico é mais frequente em indivíduos do sexo feminino, com idade acima
dos 60 anos e de estatuto socioeconómico baixo (M. K. Shear, 2015). A sua prevalência
depende também da raça do enlutado, sendo que os indivíduos caucasianos são os
menos afetados (Simon et al., 2010). Indivíduos com história de perturbação
psiquiátrica prévia também são mais vulneráveis ao desenvolvimento de um Luto
Patológico. Sabe-se que cerca de 20% dos indivíduos que padecem de uma perturbação
do humor desenvolvem Luto Patológico aquando a perda de um ente querido (M. K.
Shear et al., 2012). A prevalência de outras doenças coexistentes com Luto Patológico,
nomeadamente Depressão major e PSPT variam, respetivamente, entre 21-54% e 30-
50% (K. Shear, Frank, Houck, & Reynolds, 2005).
A prevalência mais elevada do Luto Patológico é cerca de 60% e encontra-se no grupo
de pessoas que perdem um filho, seguindo-se o grupo cuja perda decorre de um
suicídio, homicídio ou situação inesperada, com percentagens compreendidas entre os
20 e os 40% (M. K. Shear et al., 2012). Por fim, contudo com o mesmo grau de
importância, segue-se o grupo de indivíduos que perderam um/a esposo/a, com 10-20%
dos enlutados a desenvolverem Luto Patológico (K. Shear, Frank, Houck, & Iii, 2005).

4. Fatores de Risco

Vários estudos demonstraram que o Luto Patológico se encontra associado a um maior


risco de desenvolver problemas físicos e psicológicos, bem como a uma elevada
mortalidade (van der Houwen et al., 2010). Um dos maiores problemas relacionados
com este quadro é o facto de o individuo, para além de ter que lidar com uma perda,
estar vulnerável a um elevado conjunto de fatores de risco (Stroebe, Folkman, Hansson,
& Schut, 2006).

O Luto Patológico é influenciado por uma série de fatores de risco, sendo que os
podemos dividir em três grupos (Grief, 2015): fatores que existiam antes da perda,
fatores relacionados com a própria perda e fatores que se desenvolvem após a perda ou
fatores peri-perda.

Os fatores que existem antes da perda são idade, o género, o estatuto


socioeconómico, a raça, a existência ou não de perturbação psiquiátrica prévia e o tipo
de relação que existia entre o enlutado e o falecido. Os fatores relacionados com a
própria perda referem-se às circunstâncias em que a mesma se sucedeu. Os indivíduos
que tenham perdido um ente querido por uma morte inesperada ou violenta, tais como
um acidente, homicídio ou suicídio, estão mais em risco de desenvolver um Luto
Patológico. Os fatores peri-perda relacionam-se com a capacidade emocional que o
enlutado tem para lidar com a perda e também com o tipo de resposta que desenvolve à
mesma.

Existem fatores de risco que se podem desenvolver ainda na infância da pessoa, muito
antes da perda se suceder, tais como história de ansiedade de separação durante a
infância (Vanderwerker, Jacobs, & Parkes, 2006) e história de relação controladora por
parte dos pais (Johnson, Zhang, Greer, & Prigerson, 2007). Existe evidência de que
problemas relacionados com ligações emocionais podem predispor o individuo ao
desenvolvimento de um quadro de Luto Patológico aquando uma perda, sendo ligações
inseguras, dependência conjugal e história de relação abusiva por parte dos progenitores
as que mais influenciam o individuo enlutado (Prigerson et al., 2009). Quanto mais
próxima for a relação entre o enlutado e o falecido, maior será o risco do enlutado
desenvolver um Luto Patológico (Tofthagen et al., 2011).

Por outro lado, a falta de prepação pessoal para a perda (Johnson, Vanderwerker,
Bornstein, Zhang, & Prigerson, 2006) também constitui um fator de risco. A
proximidade e as relações inter-pessoais dentro da familia vão influenciar a maneira
como o próprio resolve, ou não, o Luto (Andriessen et al., 2018).

Sabe-se também que a personalidade do próprio influencia bastante a maneira como o


mesmo lida com o processo de Luto (Tofthagen et al., 2011). Experienciar sentimentos
de culpa, vergonha e arrependimento, intensamente, predispõe o enlutado, sendo que os
individuos com personalidades ansiosas, que sofram de solidão emocional e que tenham
baixa auto-estima têm maior risco de desenvolver um processo mal-adaptativo (Vachon
[Link], 1982) bem como aqueles que durante a sua vida tenham sofrido de depressão
(Stroebe et al., 2006). Estudos afirmam também que individuos que tenham estratégias
de coping ruminativas ou evitantes encontram-se mais vulneráveis (Roberts et al.,
2017).

O Luto Patológico e os sintomas depressivos são mais comuns em individuos que


experienciaram uma morte repentina e inesperada (van der Houwen et al., 2010), sendo
que estes têm um maior risco de desenvolver outras comorbilidades, tais como PSPT
(Stroebe et al., 2006).
5. Abordagem Psicoterapêutica e Farmacológica

A abordagem ao paciente que sofre de Luto Patológico é algo que ainda gera muitas
dúvidas, tendo em conta que os sintomas desta entidade diferem dos sintomas de outras
perturbações, nomeadamente perturbações da ansiedade e da depressão (Latham &
Prigerson, 2004). Por outro lado, existe alguma dificuldade para os profissionais de
saúde ajudarem todos os doentes que sofrem de Luto Patológico, uma vez que o
acontecimento da perda raramente leva a que os indivíduos enlutados procurem ajuda
(Piper et al., 2001).

Atualmente, existem quatro tipos de abordagens aos Luto Patológico: os grupos de


apoio, as consultas de aconselhamento com um profissional especializado na área, a
terapêutica farmacológica e a psicoterapia, sendo as duas últimas as mais utilizadas
(Waller et al., 2016). A terapêutica farmacológica e a psicoterapia podem ser utilizadas
em simultâneo com o objetivo de se potenciarem mutuamente. As sessões de
psicoterapia podem ser individuais ou de grupo.

Existem várias modalidades de psicoterapia, nomeadamente a terapia cognitivo-


comportamental, a terapia de reestruturação cognitiva, a terapia de exposição e a terapia
interpessoal (M. K. Shear, 2015).
Figura 5. Tipos de Psicoterapia (M. K. Shear, 2015).

Uma vez que o Luto Patológico engloba sintomas típicos de depressão, tais como a
tristeza e o afastamento social, inicialmente os individuos enlutados começaram a ser
tratados com IPT, ou Psicoterapia Interpessoal. A IPT foi desenvolvida primeiramente
para tratar indivíduos com Depressão major tendo, posteriormente, sido adaptada a
outras patologias, tais como a PSPT e, mais recentemente, o Luto Patológico. Esta
estratégia é formada por três fases, uma fase introdutória, uma fase intermédia e uma
fase final, sendo que em cada uma delas são abordados diferentes aspetos do Luto
(Simon et al., 2010).

Contudo, a abordagem que se utiliza hoje em dia é a CGT, ou Complicated Grief


Therapy. Esta estratégia foi adaptada da IPT e aprovada em 2005 especificamente para
os casos de Luto Patológico uma vez que os mesmos não respondiam às intervenções
direcionadas para os casos de depressão (K. Shear, Frank, Houck, & Iii, 2005). Estudos
provaram que indivíduos enlutados respondiam melhor a CGT do que a IPT (K. Shear,
Frank, Houck, & Iii, 2005; Simon et al., 2010)

Para além dos sintomas depressivos, o Luto Patológico também partilha características
com a PSPT, pelo que se introduziram na CGT técnicas de terapia cognitivo-
comportamental mais utilizadas nos casos de trauma (K. Shear, Frank, Houck, & Iii,
2005), e que se focam essencialmente nas memórias intrusivas que o individuo tem do
ente querido que faleceu e na evicção de determinados comportamentos que o
relembrem do mesmo (Wetherell, 2012).

Relativamente à realização de terapêutica farmacológica, a mais utilizada é a


antidepressiva. Contudo, verificou-se que esta não tem beneficio se utilizada
isoladamente (K. Shear, Frank, Houck, & Reynolds, 2005), obtendo-se resultados
positivos apenas quando é utilizada como co-adjuvante à psicoterapia (Bousquet J,
Jeffery PK, Buse WW et al., 2006). A melhor evidência disso é a percentagem de
dropouts que ocorrem em doentes sob farmacoterapia com antidepressivos e
psicoterapia com CGT, percentagem esta de apenas 9%, comparativamente com a
percentagem de doentes não medicados que desistem da CGT, cerca de 42% (Simon et
al., 2010). Contudo, indivíduos enlutados que estão sob terapêutica antidepressiva e
CGT têm melhores respostas do que aqueles que estão sob a mesma terapêutica
antidepressiva mas a realizar IPT.

Todas estas abordagens mostram que o Luto Patológico, por ser uma condição tão
específica, carece do desenvolvimento de uma abordagem específica que cubra todas as
componentes psicológicas e sociais do indivíduo que necessitem de ajustes à nova
realidade.
CONCLUSÕES

Esta revisão bibliográfica permitiu compreender melhor o Luto Patológico, que consiste
numa condição que afeta cerca de 2-3% da população mundial e que se caracteriza por
ser mais prolongado e mais intenso do que o normal. As suas características mais típicas
são a saudade intensa, a tristeza e solidão, o isolamento social, o sentimento de culpa e
os pensamentos intrusivos acerca da pessoa que faleceu. A sua prevalência depende de
vários fatores, que podem existir antes da perda, estar relacionados com a perda ou
desenvolverem-se após a perda. O Luto Patológico é mais frequente em individuos do
sexo feminino, com mais de 60 anos de idade ou que tenham perdido um filho.
Encontram-se mais vulneráveis aqueles que tenham perdido um ente querido por uma
morte inesperada, como por exemplo, suicídio ou homicídio. Apesar de haver cada vez
mais esforços pela comunidade cientifíca para definir o Luto Patológico como uma
entidade individual que carece de tratamento específico, a abordagem ao mesmo ainda
gera muitas dúvidas. Contudo, tem havido progressos no desenvolvimento de novas
psicoterapias, nomeadamente a CGT. A CGT, especialmente quando utilizada
sinergicamente com terapia farmacológica com antidepressivos, mostrou eficácia na
melhoria significativa do quadro clínico de Luto Patológico dos enlutados.
AGRADECIMENTOS

Ao Professor Doutor Diogo Telles Correia, por ter confiado nas minhas capacidades ao
aceitar ser meu orientador neste trabalho final de mestrado e por toda a sua
disponibilidade em rever e criticar construtivamente as várias versões que lhe enviei.

À Doutora Filomena Sousa, por prontamente me ter enviado grande parte da


bibliografia que utilizei para a realização deste trabalho.

Aos meus pais, fontes de força e motivação constantes. Obrigada por acreditarem
sempre em mim, mesmo quando eu acho que não sou capaz.

À Pat, por corrigir o meu português imperfeito e por ver sempre algo de positivo.

A todos aqueles que, direta ou indiretamente, contribuíram para que a realização deste
trabalho fosse possível.
BIBLIOGRAFIA

Andriessen, K., Mowll, J., Lobb, E., Draper, B., Dudley, M., Mitchell, P. B., … Dudley,
M. (2018). “ Don ’ t bother about me .” The grief and mental health of bereaved
adolescents. Death Studies, 42(10), 607–615.
Assareh, A. A., Sharpley, C. F., McFarlane, J. R., & Sachdev, P. S. (2015). Biological
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