588 Couri et al.
Dipterofauna do Arquipélago de Fernando de Noronha
(Pernambuco, Brasil)
Márcia Souto Couri1,2, Gabriel Pinto da Silva Barros1,3 & Marcelo Pinheiro Orsini1,4
¹Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Quinta da Boa Vista, 20940-040, Rio de Janeiro-RJ, Brasil. mcouri@[Link]
2
Bolsista de Produtividade em Pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, CNPq.
3
Bolsista PIBIC/UFRJ.
4
Bolsista PIBIC/CNPq.
ABSTRACT. Dipterofauna of Fernando de Noronha (Pernambuco, Brazil). This paper records some Diptera from the
island of Fernando de Noronha (Pernambuco, Brazil), presenting the richness of species and their abundance. The
material studied was collected in July 1973. Eight families of Diptera in a total of 11,515 specimens were studied. Among
the families the following seven are new records: Calliphoridae, Muscidae, Fanniidae, Stratiomyidae, Sepsidae, Otitidae
and Tabanidae. The first three and the Sarcophagidae (previously recorded) were identified to species level. The most
abundant families were Sepsidae and Calliphoridae with more than 80% of the total collected, having Cochliomyia
macellaria (Fabricius, 1775), as the dominant species.
KEYWORDS. Diptera; diversity; taxonomy.
RESUMO. Dipterofauna de Fernando de Noronha (Pernambuco, Brasil). Este trabalho registra alguns dípteros da ilha de
Fernando de Noronha (Pernambuco, Brasil), apresentando a riqueza das espécies e sua abundância. O material examinado
foi coletado em julho de 1973. Oito famílias de Diptera, em um total de 11.515 indivíduos foram estudadas. Entre as
famílias encontradas as sete seguintes são novos registros: Calliphoridae, Muscidae, Fanniidae, Stratiomyidae, Sepsidae,
Otitidae e Tabanidae. As três primeiras e os Sarcophagidae (previamente registrada) foram identificadas até o nível de
espécie. As famílias mais abundantes foram Sepsidae e Calliphoridae com mais de 80% do total coletado, tendo Cochliomyia
macellaria (Fabricius, 1775) como espécie dominante.
PALAVRAS-CHAVE. Diptera; diversidade; taxonomia.
O arquipélago de Fernando de Noronha está situado na Esse artigo tem a finalidade de registrar os dípteros
costa brasileira a 360 km de Natal, 710 km de Fortaleza e 545 km existentes no arquipélago com base em amostras coletadas e
de Recife, sendo administrado pelo Estado de Pernambuco. sua abundância, dando ênfase as famílias Muscidae,
São ao todo 21 ilhas ou ilhotas de natureza vulcânica, tendo Calliphoridae, Sarcophagidae e Fanniidae.
se originado a partir de uma erupção ocorrida há 12 milhões de
anos, com a principal ilha detendo o nome do arquipélago, MATERIAL E MÉTODOS
pois é a mais extensa com 17 km2. Clima Tropical, quente
oceânico, de estações bem definidas. Pluviometria média de O material estudado é proveniente da coleta realizada pelo
1.300 mm anual, com maiores índices entre março e maio e Sr. Olmiro Roppa em julho de 1973 na ilha de Fernando de
estiagem entre agosto e janeiro e temperatura média de 25,4° Noronha. Os espécimes foram montados em alfinetes
C. Ventos constantes, velocidade média 6,6 m/seg. com maiores entomológicos e triados por família. Para a identificação das
intensidades entre julho e agosto. Umidade relativa bastante espécies de Calliphoridae, Fanniidae e Muscidae foram
constante, com média anual de 81%. A vegetação predominante utilizadas respectivamente as chaves de Mello (2003),
em Fernando de Noronha é composta por espécies típicas do Albuquerque et al. (1981), Carvalho & Couri (2002) e Couri &
agreste nordestino, perdendo sua folhagem na estação seca. Carvalho (2002). Os exemplares da família Sarcophagidae foram
Em seu aspecto geral, a vegetação apresenta árvores nas áreas triados e identificados pela Drª Cátia Antunes de Mello-Patiu
mais elevadas e arbustos nas superfícies mais planas (Museu Nacional, Rio de Janeiro). Não há dados adicionais de
([Link], consultado em 09/10/2008). coleta junto ao material, porém sabe-se por bibliografia e
Vários projetos envolvendo grupos animais estão sendo comunicação pessoal de pesquisadores do Museu Nacional
desenvolvidos no arquipélago, mas quase não há registros que Olmiro Roppa tinha o hábito de coletar com a armadilha
sobre a dipterofauna da região, salvo Ridley (1890) e Alvarenga do tipo Shannon. Devido à natureza do material coletado,
(1962) que registraram cinco espécies das famílias supõe-se que matéria orgânica em decomposição e fezes
Dolichopodidae, Culicidae, Sarcophagidae e Syrphidae (Tab. tenham sido utilizadas como iscas.
I). O material estudado por estes autores foi proveniente de Todo material estudado foi incorporado à coleção do
expedições científicas realizadas na ilha de Fernando de Museu Nacional (MNRJ).
Noronha respectivamente em 1887 e 1954.
Revista Brasileira de Entomologia 52(4): 588-590, dezembro 2008
Dipterofauna do Arquipélago de Fernando de Noronha 589
RESULTADOS E DISCUSSÃO está representada por seis espécies (Fig. 2): Musca domestica
Linnaeus, 1758; Atherigona orientalis Schiner, 1868; Brontaea
Foram triados um total de 11,515 indivíduos e identificadas quadristigma (Thomson, 1869); Brontaea debilis (Williston,
oito famílias: Calliphoridae, Fanniidae, Muscidae, Otitidae, 1896); Cyrtoneuropsis rescita (Walker, 1861) e Synthesiomyia
Sarcophagidae, Sepsidae, Stratiomyidae e Tabanidae (Tab.I). nudiseta (Wulp, 1883). As espécies de Brontaea criam-se
Em termos de abundância de indivíduos, Sepsidae e exclusivamente em fezes de mamíferos. Do total de Muscidae
Calliphoridae representaram a grande maioria do material, com coletados, A. (Acritochaeta) orientalis representou quase
42,9% e 41,2 % respectivamente, totalizando mais de 80% do 60%. Esta espécie cria-se em matéria orgânica ou vegetal, sendo
material examinado. A seguir, a família Muscidae, a mais saprófaga ou carnívora facultativa. Há registros na literatura
diversificada com seis espécies, representou 10% do total, desta espécie atacando tecidos vegetais vivos, porém, a
enquanto Sarcophagidae com três espécies representou 5,2% importância econômica deste gênero está mais relacionada
(Fig.1). com as espécies de Atherigona s.s. (sub-gênero Atherigona)
A família Fanniidae está representada por machos de tendo elas considerável importância como pragas de
Fannia pusio (Wiedemann, 1830) e fêmeas do grupo pusio. plantações de cereais.
Os adultos do gênero Fannia são encontrados freqüentemente Os Sarcophagidae estão representados por três espécies:
associados ao ambiente modificado pelo homem, com suas Peckia chrysostoma (Wiedemann, 1830), Oxysarcodexia
larvas criando-se em matéria orgânica em decomposição (Pont thornax (Walker, 1849) e Tricharaea occidua (Fabricius, 1794).
1977). Alvarenga (1962) registrou Nephochaetopteryx calida
A família Calliphoridae foi representada por Cochliomyia (Wiedemann, 1856) (=Sarcophaga calida) como única espécie
macellaria (Fabricius, 1775) e Lucilia eximia (Wiedemann, da família presente no arquipélago, porém esta não foi
1819). C. macellaria umas das principais espécies causadora encontrada nesta coleta.
de miíase secundária no Brasil foi a mais abundante Todas as espécies assinaladas são novos registros para o
ultrapassando os 99% da população de califorídeos. Três arquipélago de Fernando de Noronha, bem como as famílias
espécies do gênero Chrysomya Robineau-Desvoidy, 1830: C. Calliphoridae, Muscidae, Fanniidae, Stratiomyidae, Sepsidae,
megacephala (Fabricius, 1794), C. albiceps (Wiedemann, 1819) Otitidae e Tabanidae. Não foram assinaladas espécies
e C. putoria (Wiedemann, 1818) foram introduzidas e se endêmicas, sendo a maioria das espécies coletadas
dispersaram no Brasil na década de 70 (Guimarães et al. 1978; sinantrópicas e, portanto, associadas ao homem e ao ambiente
Prado & Guimarães, 1982). Estas espécies competem com C. modificado por ele. A origem das ilhas do arquipélago,
macellaria e L. eximia; assim, novas coletas na ilha, seriam associada a erupções vulcânicas, lhes confere ambientes
interessantes para verificar a introdução das espécies de singulares, diferentes do continente e propícios ao endemismo
Chrysomya e uma conseqüente diminuição nas populações de espécies, como já verificado nas ilhas para outros grupos
de C. macellaria e L. eximia. animais, entretanto, ainda não foram reconhecidos dípteros
A família Muscidae é a que representa maior diversidade e endêmicos neste arquipélago. Coletas futuras na ilha e a
utilização de iscas da fauna local, como por exemplo, carcaças
de animais marinhos, certamente complementarão esta lista
que servirá para estudos comparativos.
Fig. 1. Percentual de riqueza das famílias de Diptera no arquipélago de Fig. 2. Percentual de riqueza das espécies de Muscidae no arquipélago de
Fernando de Noronha (Pernambuco, Brasil). Fernando de Noronha (Pernambuco, Brasil).
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590 Couri et al.
Tabela I. Dipterofauna de Fernando de Noronha (Pernambuco, Brasil)
Famílias/espécies Nº de indivíduos Fonte
Culicidae
Culex pipiens fatigans Wiedemann, 1828 - Alvarenga, 1962
Aedes taeniorhynchus (Wiedemann, 1821) - Alvarenga, 1962
Dolichopodidae
Condylostylos longicornis Fabricius, 1775 (=Psilopus metallifer Walter, 1849) - Ridley, 1890
Syrphidae
Temnocera vesiculosa (Fabricius, 1805) - Ridley, 1890
Sarcophagidae
Nephochaetopteryx calida (Wiedemann, 1856) (=Sarcophaga calida Wiedemann, 1846) - Ridley, 1890
Peckia crysostoma (Wiedemann, 1830) 24 presente publicação
Oxysarcodexia thornax (Walker, 1849) 557 presente publicação
Tricharaea occidua (Fabricius, 1794) 18 presente publicação
Sepsidae
Palaeosepsis sp. (Duda, 1926) 4940 presente publicação
Calliphoridae
Lucilia eximia (Wiedemann, 1819) 06 presente publicação
Cochliomyia macellaria (Fabricius, 1775) 4743 presente publicação
Fanniidae
Grupo pusio (fêmeas) 20 presente publicação
Fannia pusio (Wiedemann, 1830) 03 presente publicação
Muscidae
Atherigona orientalis Schiner,1868 687 presente publicação
Brontaea quadristigma (Thomson, 1869) 189 presente publicação
Brontaea debilis (Williston, 1896) 105 presente publicação
Cyrtoneuropsis rescita (Walker, 1861) 117 presente publicação
Musca domestica Linnaeus, 1758 14 presente publicação
Synthesiomyia nudiseta (Wulp, 1883) 45 presente publicação
Tabanidae 01 presente publicação
Stratiomyidae 02 presente publicação
Otitidae 18 presente publicação
Outros 26 presente publicação
Total 11.515
Agradecimentos. A Drª Cátia Antunes de Mello-Patiu e Wallace Couri, M. S. & C. J. B de Carvalho. 2002. Part II. Apical groups: 133–
Soares Faria (Museu Nacional, UFRJ) pela identificação dos espécimes 257, In: C. J. B de Carvalho ed., Muscidae (Diptera) of the
da família Sarcophagidae e ao CNPq pelo apoio financeiro. Neotropical Region, Taxonomy. Curitiba, Editora Universidade
Federal do Paraná: 287 p.
Guimarães, J. H.; A. P. Prado & A. X. Linhares. 1978. Three newly
introduced blowfly species in southern Brazil (Diptera,
REFERÊNCIAS Calliphoridae). Revista Brasileira de Entomologia 22: 53–60.
Mello, R. P. 2003. Chave para identificação das formas adultas das
Albuquerque, D. de O.; D. M. Pamplona & C. J. B de Carvalho. 1981. espécies da família Calliphoridae (Diptera, Brachycera,
Contribuição ao conhecimento dos Fannia R. D., 1830 da região Cyclorrhapha) encontradas no Brasil. Entomologia y Vectores
neotropical (Diptera, Fanniidae). Arquivos do Museu Nacional 10: 255–268.
56: 9–34. Pont, A. C. 1977. A revision of Australian Fanniidae (Diptera:
Alvarenga, M. 1962. A entomofauna do arquipélago de Fernando de Calyptrata). Australian Journal of Zoology. Supl. 51: 1–60.
Noronha, Brasil. Arquivos do Museu Nacional 52: 21–26. Prado, A. P. & J. H. Guimarães. 1982. Estudo atual de dispersão e
Carvalho, C. J. B de & M. S. Couri. 2002. Part I. Basal groups: 17-132, distribuição do gênero Chrysomya Robineau-Desvoidy na região
In C.J.B de Carvalho ed., Muscidae (Diptera) of the Neotropical neotropical (Diptera, Calliphoridae). Revista Brasileira de
Region, Taxonomy. Curitiba, Editora Universidade Federal do Entomologia 26: 225–231.
Paraná: 287 p. Ridley, H. N. 1890. Notes on the Zoology of Fernando de Noronha.
Journal of the Linnean Society of London 20: 473–56.
Recebido em 26/10/2007; aceito em 08/10/2008
Revista Brasileira de Entomologia 52(4): 588-590, dezembro 2008