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Jenniffer Fogos - Namorado de Aluguel

O livro 'Namorado de Aluguel' narra a história de Sabrina Marino, uma assessora de uma famosa autora de romances eróticos, que se vê em situações inusitadas enquanto explora sua sexualidade e busca por liberdade. Ela se envolve com Adônis Etienne, um garoto de programa de alto padrão, em um clube de entretenimento adulto, onde busca aprender sobre prazer e se libertar das amarras familiares. A obra é uma ficção que aborda temas como relacionamentos, autodescoberta e os desafios de romper com expectativas familiares.

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elliedacosta00
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© All Rights Reserved
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Jenniffer Fogos - Namorado de Aluguel

O livro 'Namorado de Aluguel' narra a história de Sabrina Marino, uma assessora de uma famosa autora de romances eróticos, que se vê em situações inusitadas enquanto explora sua sexualidade e busca por liberdade. Ela se envolve com Adônis Etienne, um garoto de programa de alto padrão, em um clube de entretenimento adulto, onde busca aprender sobre prazer e se libertar das amarras familiares. A obra é uma ficção que aborda temas como relacionamentos, autodescoberta e os desafios de romper com expectativas familiares.

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Copyright © 2022

NAMORADO DE ALUGUEL

1ª Edição
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra poderá ser reproduzida ou transmitida por
qualquer forma, meios eletrônicos ou mecânicos sem consentimento e autorização por escrito do
autor/editor.

Equipe de betagem e revisão:


Hayesha di Maffei
Lola Belluci
Ka Morais

Diagramação:

Fox Assessoria Literária


Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos descritos são produtos da
imaginação da autora. Qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência. Nenhuma parte
deste livro pode ser utilizada ou reproduzida sob quaisquer meios existentes – tangíveis ou
intangíveis – sem prévia autorização da autora. A violação dos direitos autorais é crime estabelecido
na lei nº 9.610/98, punido pelo artigo 184 do código penal.

TEXTO REVISADO SEGUNDO O ACORDO ORTOGRÁFICO DA LÍNGUA

PORTUGUESA.
Sumário

Sinopse

Nota da autora

Dedicatória

Playlist

Prólogo

Capítulo 1 - Adônis

Capítulo 2 - Sabrina

Capítulo 3 - Adônis

Capítulo 4 - Sabrina

Capítulo 5 - Adônis

Capítulo 6 - Sabrina

Capítulo 7 - Adônis

Capítulo 8 - Sabrina

Capítulo 9 - Adônis

Capítulo 10 - Sabrina

Capítulo 11 - Sabrina

Capítulo 12 - Sabrina

Capítulo 13 - Adônis

Capítulo 14 - Sabrina
Capítulo 15 - Adônis

Capítulo 16 - Sabrina

Capítulo 17 - Adônis

Capítulo 18 - Adônis

Capítulo 19 - Adônis

Capítulo 20 - Adônis

Capítulo 21 - Sabrina

Capítulo 22 - Sabrina

Capítulo 23 - Adônis

Capítulo 24 - Sabrina

Capítulo 25 - Sabrina

Capítulo 26 - Adônis

Capítulo 27 - Adônis

Capítulo 28 - Sabrina

Capítulo 29 - Sabrina

Capítulo 30 - Sabrina

Capítulo 31 - Adônis

Capítulo 32 - Adônis

Capítulo 33 - Sabrina

Capítulo 34 - Sabrina

Capítulo 35 - Adônis

Capítulo 36 - Adônis

Capítulo 37 - Sabrina

Capítulo 38 - Adônis

Capítulo 39 - Adônis
Capítulo 40 - Sabrina

Capítulo 41 - Adônis

Capítulo 42 - Sabrina

Capítulo 43 - Adônis

Capítulo 44 - O Colecionador

Capítulo 45 - Adônis

Capítulo 46 - Sabrina

Capítulo 47 - Adônis

Capítulo 48 - Epílogo - Sabrina

Ei, avalie

Agradecimentos

Leia também

Rede Social da Autora


Algumas pessoas sonham com empregos tradicionais, segurança e
uma aposentadoria digna, Sabrina Marino não.
Assessora da mais famosa autora de romances eróticos, ela viaja sem
saber para onde ou quando voltará, e frequentemente se encontra em
situações inusitadas.
Após visitar algumas masmorras de BDSM na Alemanha, a título de
pesquisa para o próximo lançamento da patroa, Sabrina ganha um final de
semana no melhor hotel de Londres.
Os humilhados começam a ser exaltados no momento em que recebe
um convite em seu nome, no envelope é deixado um cartão, luxuoso e
delicado, que faz o seu coração se debater no peito.
Uma proposta irrecusável para uma noite no seleto clube de
entretenimento adulto mais cobiçado do mundo.
Adônis Etienne é, literalmente, o filho de puta mais bem-sucedido da
cidade.
Criado pela mãe para seguir os passos dela e se tornar um garoto de
programa de alto padrão, Adônis tomou um rumo inesperado, ao se formar
diversas vezes, demonstrando que a beleza clássica e arrebatadora que
protagoniza as páginas dos mais famosos romances clichê é a menor das
suas qualidades. Entretanto, o sangue fala sempre mais alto e misturar
negócios com prazer está no seu DNA.
Sócio fundador do clube Nox, Adônis tem o que se pode chamar de
uma fila de prazeres rastejando aos seus pés.
Mas é Sabrina, sedenta por experimentar uma infinidade de
sensações, que chama sua atenção. Ela não só o confunde com um gogo boy
do clube, como pede para lhe ensinar os caminhos do prazer, ansiosa para
garantir um convite e poder se tornar uma sócia do Nox.
E já que ela pediu com tanto jeitinho, ele nunca seria capaz de dizer
não. Afinal, quem resistiria a um convite como esse?
Esse livro sequestrou 6 meses da minha vida, consuma com
moderação.

Aviso e comunico:
ESTE LIVRO PODE CONTER GATILHOS PARA SITUAÇÕES
VARIADAS, NOMEADAMENTE:

- Abuso psicológico.
- Sequestro
- Violência
- Cenas de sexo explícito
Eu gostaria de me desculpar pessoalmente pelas famílias de calcinhas
destruídas durante esta leitura.

Você foi avisada.

Sinto muito pela sua perda.


1 - Nessa virada do Ano vamos fazer diferente - Mc Veiga, Mc Laureta.
2 - Train Wreck - James Arthur
3 -Sei lá - Bárbara Tinoco
4 - Skin - Rihanna
5 - Bad Habit - Joss Stone
6 - Eu me amo mais - Giulia Be
7 - I Put a spell on you - Annie Lennox
8 - Love is a Bitch - Two Feet
9 - I feel like i’m drowning - Casual Sex
10 - Devil Eyes - Hippie Sabotage
11 - Sex in Paris - Nikki Idol
12 - Lady, touch yourself - Nikki Idol
13 - Obsessed - Limi Zandros
14 - Locked Eyes - Casual Sex
15 - I love you… my devil - Nikki Idol
16 - Put it on me - Matt Maeson
17 - Kill our way to heaven - Michl
18 - Bitches broken hearts - Billie Eilish
19 - Black magic - Jaymes Young

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— Vamos, faça um pedido, Sabrina! — Fecho meus olhos com força,
apertando os lábios para conter o riso aberto que quer irromper pela minha
boca e apenas agradeço em silêncio, enquanto Gael aguarda no corredor,
entre a escada dos nossos quartos e a cozinha, que eu termine meu pedido
em segredo.
Ele acendeu a vela errada sem querer, e disse que dava azar apagar
vela de aniversário sem fazer um pedido.
— Prontinho — garanto determinada. — Obrigada por vir, Gah.
— Ah, tudo bem. — Sua mão desconsidera meu agradecimento com
um aceno. — Não me causou incômodo nenhum avisar meu patrão e todo o
estúdio que precisava de uma folga, apenas de uma semana inteira, para
fazer uma pequena viagem do Japão até ao Brasil, maninha. Que isso!
Super tranquilo. — As mãos dele levantam na minha direção como se não
estivesse sendo irônico e debochado.
— Também não precisa massacrar, Gael — reclamo, empurrando seu
peito e conseguindo mover um total de zero centímetros do bloco de
músculos, que se contrai num riso displicente e aperta meu bíceps fino,
como se fosse uma bolinha anti-stress.
Puxo o braço e estapeio sua mão com força.
— Eu precisava de vocês todos presentes, e não tenho culpa que você
mora no cu do mundo. — Dou de ombros, reclamando baixinho e cruzando
os braços sobre o peito.
Acompanho o movimento do seu pescoço, pendendo levemente para
o lado, e identifico o sorrisinho de quem até poderia deixar passar a
gracinha, porém decidi que não mereço que pegue leve comigo.
Gael aponta o dedo indicador na minha direção e responde
simplesmente:
— Depende do ponto de referência, talvez quem more no cu do
mundo seja você. — A piscadinha debochada, que aprendi a amar desde a
infância, pontua o final da sua frase e eu sorrio.
Ele é o irmão com quem tenho mais afinidade, e infelizmente com o
qual eu convivo menos. Não tinha percebido que sentia tanta saudade dele,
até o ver de novo e ser apertada em seus braços.
— Não por muito tempo! — aviso, com o coração cheio de esperança
da novidade e do desafio que está por vir.
— Quero só ver. — Os olhos de um cinza pétreo se apertam diante de
mim, me provocando. Ele dá um passo a frente, deixando seu rosto tão
próximo do meu que se fossemos alguns anos mais novos, teria a certeza
que iria morder a minha bochecha e sairia correndo. — Se da próxima vez
que eu pisar no Brasil, você ainda estiver dentro da redoma, eu mesmo vou
chutar essa sua bunda gorda para fora. — A mordida não veio, mas um
beijo estalado sim.
Cruzo os dedos sobre os lábios, prometendo em silêncio que não
estarei. Olho ao meu redor, já começando a me despedir da casa
mentalmente.
Minha graduação. Meu aniversário. Minha liberdade. Todas as
conquistas chegaram juntas, depois de anos sonhando com cada uma delas.
Sempre tive tudo que precisei, mas o que eu quis? Ficou faltando
demais. E por mais que eu seja imensamente grata à minha família, por ter
me permitido crescer cercada de privilégios, também me ressinto deles, pela
corrente imaginária que nunca saiu do meu tornozelo. Que me manteve
cativa, da dívida moral e emocional que sempre acreditei ter com eles.
O susto dos balões que começam a explodir, igual pipoca, me arranca
do transe da minha vã contemplação existencial.
Meu pai se dirige a mim com um olhar pleno, cheio de orgulho e
amor, e quase posso dizer que sinto dor física por isso, e um pouco de pena
também.
O melhor pai do mundo não merece que sua filha caçula seja uma
ingrata, que está planejando fugir pelas suas costas.
— Meus parabéns, meu amor. — Seu abraço me levanta do chão e
aperta meu corpo com força, a voz embargada e a mão fazendo carinho no
meu cabelo, me cumprimentam e me acolhem.
Não importa que eu tenha 24 anos na cara, o Sr. Antônio ainda me
parabeniza exatamente da mesma forma desde que me lembro. Desde que
eu disse a primeira palavra e dei os primeiros passos, até à graduação, ele
sempre teve o seu ritual de esmagamento privado.
— De agora em diante a sua vida vai mudar, e eu não estou
preparado para ver minha menininha por aí, procurando emprego pela rua
— sua voz está afetada pelo pensamento que espanta com a mão. — Seu
irmão vai conversar com você sobre isso — decide e me avisa.
Ter cinco irmãos não me impede de saber exatamente qual deles vai
conversar comigo, sobre os perigos da mera existência feminina.
Reviro os olhos em descrença, escutando um eco das frases que
permearam minha adolescência e toda a minha vida acadêmica.
“Você não precisa trabalhar”, “Está te faltando alguma coisa em
casa?”, “Quando você se formar você trabalha”, “Enquanto eu for vivo você
só trabalha se quiser”, “Seu trabalho é estudar e não se meter em
problemas”…
É ultrajante que eu tenha uma licenciatura e um mestrado e nunca
tenha trabalhado na vida. Ou namorado. Ou me embebedado. Ou feito
qualquer coisa remotamente emocionante em público. Se dependesse do
meu pai e dos meus irmãos, eu ainda seria virgem. Eles espantam todo e
qualquer pretendente que eu possa ter. Com o tempo, aprendi a
simplesmente não os levar para casa, ou sequer mencionar sua existência.
Relacionamentos rápidos e superficiais foi o que me restou, ao
mesmo tempo que não queria dar o direito à minha família de decidir a
minha vida, também não me sentia bem de enganá-los. Culpa e gratidão
sempre andaram lado a lado.
— 24 anos hein, está quase uma adulta. — Heitor me abraça por trás,
beijando o topo da minha cabeça, e meu salto perde feio para sua altura.
Me viro em sua direção e o abraço de volta.
— Tão fofinho para um boneco de posto — brinco em seus braços,
olhando para cima apenas para ver em seu sorriso o reflexo do meu.
— Parabéns, pequena. Eu espero que você consiga tudo o que quer
na vida.
De novo aquele aperto no peito. A culpa sussurrando em meu ouvido
“pequena traidora”, me fazendo contorcer de leve, imaginando o momento
de lhes dizer que eu já tenho um trabalho e não é nem nesse país, e o pior,
que eu vou embora na semana que vem.
O único a quem contei sobre a entrevista foi Gael, ele mora longe,
saiu de casa cedo e sempre achou que eles me tratavam como uma
bonequinha de cristal, então se eu queria viver, ele seria meu cúmplice em
qualquer momento. Sempre ansioso, por me ver me libertando.
Heitor passa o polegar pela minha sobrancelha e segura meu rosto na
direção dos olhos castanhos e gentis, exatamente iguais aos meus, e apenas
diz baixinho:
— Ele vai ficar bem, todos nós vamos, você também. Mudanças
doem. Não pense que vai ser mais fácil para você do que para nós. Nós
podemos ser 5 ursos opressores e 1 urso que finge não ser, mas somos sua
família e seus melhores amigos. Então, se você for embora, esteja
preparada.
O meu coração bate nos ouvidos, e o ar para de entrar em meus
pulmões, enquanto demoro um minuto sônico, congelada e em pânico para
reagir.
Heitor apenas sorri mais uma vez e pisca o olho para mim, me dando
dois tapinhas no ombro e permitindo que outras pessoas se aproximem para
me parabenizar. No entanto, eu pareço um peixe de aquário abrindo e
fechando a boca em absoluto silêncio, incapaz de produzir uma única
palavra inteligente.
É claro que ele sabia.
Aperto meus olhos com os dedos, me sentindo patética. É claro que
as minhas tramoias não passariam despercebidas por um oficial da Agência
Brasileira de Inteligência. E obviamente, ele não me impediria. Se existe
alguém, que odeia tanto o fato de ser o delegado de discursos para
convencer a Sabrina dos perigos da vida, esse alguém é o Heitor.
Constrangedor. Apenas constrangedor.
Vejo um presente embrulhado em papel celofane, bem antes da voz
estridente da Dona Virgínia agredir meus ouvidos, saindo detrás do que
quer que seja, mas extremamente gigantesco, que ela me oferece no meio
da sala.
— Muito obrigada, Dona Virgínia. Não precisava — repito a frase
educada de sempre, mas dessa vez sou honesta. Não precisava mesmo. Que
raios seria aquilo?
— Mas não precisava o quê, menina! Não é todos os dias que a
minha futura enteada se forma e faz 24 anos, não é mesmo? — Minha
reação é simplesmente um sorriso sem graça, que só não é amarelo porque
meus dentes são perfeitamente brancos.
Se um dia, Dona Virgínia entender que meu pai tem um total de zero
intenções de alguma vez sequer entrar na casa dela, ela vai surtar, com
certeza.
Pela minha visão periférica vejo dois vultos se aproximando a toda
velocidade, e apenas me preparo para o impacto. Os gêmeos montam em
mim, cada um em uma das minhas laterais, rodeando meu corpo com as
pernas e me transformando em recheio de sanduíche.
Tento suportar o peso dos dois, mas falho miseravelmente, e caímos
os três no chão.
— Feliz aniversário, mulher adulta e independente que odeia seu pai
e seus irmãos — dizem em simultâneo, do mesmo jeito irritante de sempre,
me dando um abraço duplo que me cola ao piso de madeira, como um
chiclete mastigado.
— Vejo que Heitor já andou fofocando — reclamo abafada.
— Claro. Nós somos irmãos! — Davi se defende. Suas duas amostras
de tempestade, que ele chama de olhos, brilhando com diversão.
— Eu sou mais irmã dele que vocês e nem por isso tenho acesso aos
segredos da trupe de idiotas — protesto, tentando me livrar do aperto dos
dois e abrindo espaço com meus braços entre eles.
— Nossa, que imbecil — Miguel me acusa, apertando mais o lado
esquerdo do meu quadril com a perna.
Ele esfrega a mão no chão empoeirado e depois espalha na minha
boca que fecho com rapidez, tentando mover meu rosto para longe sem
sucesso, porque a mão dele aperta meu pescoço, para me manter no lugar e
sujar todo meu rosto.
— Para aprender a não falar merda, boca suja!
— Não menti. — Dou de ombros sem me afetar.
Toda a vizinhança sabia que eu era a filha bastarda da minha mãe que
meu pai resolveu criar. O que eles não sabiam era que o suposto
primogênito era tão bastardo quanto eu. Nosso sangue nunca impediu meu
pai de nos amar loucamente, mas minha mãe jamais foi capaz.
— Dado o histórico da mamãe, eu diria que é no mínimo muita
confiança sua achar que ela disse a verdade, quando contou que vocês eram
filhos do mesmo pai. Às vezes, ela até te pegou num lixo qualquer, só para
largar mais uma criança pro papai criar, ela achou que estava pouco, sabe
como é — Miguel resmunga, enquanto Davi me ajuda a levantar.
Eles já tinham 6 anos, quando minha mãe apareceu em casa apenas
para me desovar, como uma égua marinha, e nunca mais voltou.
Noah se aproxima da gente com um olhar confuso, nem sabia que ele
já tinha chegado em casa.
— O que a Dona Virgínia está fazendo aqui?
Gael responde logo atrás dele, rindo:
— Veio de penetra, ela foi avisada que a festa era no salão, mas deve
ter visto vocês entrando com as decorações e veio xeretar. Papai acabou de
convidá-la a sair, disse que esse é um momento apenas para a família, acho
que ela só não desmaiou porque estava ocupada, tremendo de ódio.
— Se estamos todos aqui, já podemos cantar os parabéns e dar a
notícia a ele, antes de irmos para o salão — declaro.
Pedi que estivessem todos presentes porque não queria passar por
isso sozinha, e já que meu pai é o único para quem a minha viagem ainda é
um segredo, chegou a hora de acabar com esse suspense de uma vez por
todas.
— O dia de hoje vai ficar marcado para sempre — Davi anuncia. —
Seus 24 anos, sua graduação e o primeiro infarto do papai — ele completa,
rindo e me oferecendo o braço que eu estapeio, antes de aceitar.
Heitor se aproxima com meu pai, que traz a máquina fotográfica na
mão. No espelho da sala encaro nosso reflexo. Eu, abraçada com uma
parede de deuses nórdicos, todos mini cópias do papai em todos os detalhes,
e apenas eu e Heitor quebrando a paleta harmônica de dourado e cinza.
Puxo a barra da camiseta dela, com os nós dos dedos roçando a pele
macia ao retorcer o tecido em meu punho, subo a mão direita do meio das
suas coxas abertas, parando em cima do abdômen liso.
Metade do meu pau está profundamente enterrado no seu cu, e não é
nada além de delicioso. Permito que ela me engula aos poucos, no ritmo
que dito, parando e esperando todas as vezes que sua musculatura trava,
impedindo a minha penetração por um reflexo natural, e quando
relaxamento mais um pouco, quase até ao ponto da dor, paro imediatamente
antes, milimetricamente antes, estrategicamente antes, perfeitamente
controlado.
— Eu consigo — afirma arfando, o estalido da saliva batendo nos
dentes trincados com a respiração pesada passando entre eles, e o rosnado
gostoso de quem está beirando o limite.
Ela tenta sentar de uma só vez em mim, mas a impeço com a mão,
agarrando sua bunda em todas as tentativas, limitando a profundidade da
investida, ajudando-a a me receber corretamente e não na afobação de
querer gozar rápido.
— Claro que consegue, gostosa, mas ninguém está com pressa. —
Corro a língua pelas suas costas até a omoplata, que mordisco devagar,
encorajando-a a seguir minhas instruções, esfregando meu nariz na sua pele
arrepiada, aliciando-a com uma promessa de recompensa.
— Eu estou com pressa, na verdade. — Markoz reclama, estalando a
língua e arrancando murmúrios da pequena plateia feminina que nos assiste.
Ele se recosta languidamente no sofá, imediatamente diante de nós
dois, gostando de ver seu grupo de iniciadas desviando a atenção para ele,
além de nossos corpos grudados.
— Eu gostaria de almoçar hoje, se for possível. — Ele vira o pulso
para olhar o relógio, forçando um ar entediado.
— Qual o seu nome, gostosa? — Meto mais um centímetro para
dentro dela e ela aperta os lábios para controlar os gemidos, suas mãos
travam em minhas coxas sob as dela e as unhas se afundam em minha pele,
a pergunta se perdendo em seu delírio de prazer.
As seis mulheres que nos assistem libertam um suspiro simultâneo,
as luzes roxas dos painéis de led no teto iluminando fortemente o nosso
sofá, deixando-as numa penumbra que lhes permite se movimentar e se
tocar sem se sentirem expostas. Se é que se pode dizer que alguém
completamente nu consegue se sentir de alguma forma além de exposto.
Elas e eu somos os únicos completamente pelados. Markoz está
totalmente vestido, focado na cena como um raio laser, o rosto quadrado e
musculoso compenetrado, reagindo com uma expressão atenta a cada
detalhe, como se assistisse a uma cirurgia ao vivo.
Os olhos verdes predatórios, propositadamente delineados de preto,
para causar o efeito de pirata rústico em pleno século XXI, queimam a pele
da mulher que se contorce em meu colo.
Ela ainda mantém a blusa, que eu uso como acessório, enquanto a
fodo.
Deixo que Markoz absorva o que quer que chama sua atenção por um
segundo, e me dedico a apreciar a imagem das barras de infravermelho
neon acopladas na parede, ressaltando as sombras sensuais das mulheres
que assistem. Algumas se tocam, outras apenas não conseguem desviar o
olhar de nós, hipnotizadas.
Dou uma piscadinha para ninguém em específico, e toco o braço da
mulher, pontuando que ainda aguardo uma resposta, que ela demora uns
segundos a formular.
— Mila, meu nome é Mila — responde num fôlego só.
Levo a mão dela de volta para a umidade crescente entre suas pernas,
alternando o toque dos meus dedos e os seus na boceta carnuda e inchada,
completamente encharcada, implorando atenção. E a mantenho cruelmente
aguardando.
— Você pode vir aqui e foder você mesmo o cu da Mila, Markoz,
tenho a certeza que não ficará entediado — respondo em voz baixa, de
maneira displicente e provocante. Com uma expressão cáustica ele se vira
para mim, levemente ofendido. É muito fácil desconcertá-lo.
— Meu pau está inutilizado, talvez eu nunca mais consiga comer um
cu. — O tom dramático me provoca uma risada, que se converte num
gemido trincado na boca de Mila, ao receber uma pequena investida da
minha ereção tão dentro dela quanto seria possível. — Eu estou doente, não
é engraçado. — Markoz cruza as pernas, com os dentes apertados e acaricia
o próprio pau, como se o confortasse por ter traído o seu melhor amigo.
— Então, cala a boca. Estou te fazendo um favor — pontuo a frase,
saindo de Mila apenas uns poucos centímetros, e segurando ambos os
antebraços dela para ter maior controle sobre a altura dos seus movimentos,
metendo de novo, forte e fundo, sentindo a segunda bolinha de lubrificante,
que introduzimos antes, se explodir dentro dela e escorrer pelas paredes
internas, ao redor do meu pau.
Mordo a sua pele e ela se inclina, se empinando, rebolando, subindo
e descendo devagar, sentindo deslizar com facilidade, testando a sensação
de ser totalmente preenchida por trás pela primeira vez.
Com uma mão aperto sua cintura e afundo a outra em sua nuca,
começando a me movimentar de verdade, socando fundo, me retirando
pouco a cada arremetida. Seus soluços e resmungos são respostas
suficientes de que ela precisa de pouco para gozar, não ajudo estimulando o
seu clitóris nem metendo os dedos simultaneamente em sua boceta sedenta
por preenchimento.
Quero me exibir.
Quero que ela goze apenas com o meu cacete pulsando dentro dela.
Quero ver Markoz chiando ao meu lado por ter perdido mais uma iniciada
para mim.
Não que eu esteja contando, mas as últimas treze mulheres que
gozaram com penetração anal na primeira vez delas, nesse clube, tinham
gozado no meu pau. E talvez eu esteja ficando com o ego inflado por isso.
Nenhuma delas estava despreparada, todas tinham passado pelas
várias etapas necessárias antes de dar o rabo por aí, mas ainda assim, vários
tentaram e muitos falharam. Eu permaneço invicto na arte de dar prazer
anal e me orgulho disso.
Todas as cenas foram conduzidas no galpão de iniciação, este lugar,
apesar de pensado e decorado nos mais pequenos detalhes para servir as
necessidades dos novos membros do clube, é apenas uma pequena amostra
do show à parte que é a decoração do clube nos andares acima.
Nos patamares principais, cada centímetro é forjado para extrair
prazer desde a entrada. Um ambiente naturalmente excitante e sensual.
Os músculos de Mila começam a se contrair no meu colo e me
preparo para ver o prazer explodindo no seu corpo.
— Adônis, eu preciso falar com você — a voz do meu irmão, grave e
urgente, desvia minha atenção e a de Mila também, que praticamente brilha
na direção dele, engolindo em seco, ansiosa.
Ele corre o olhar pelo ambiente, sem sequer abrir a porta totalmente,
como se esperasse que eu simplesmente o atendesse de imediato. Ao ver
que isso não acontece, entra mordendo o lábio por dentro, consternado por
ter que esperar para ser atendido.
Sebastian tem um dom de atrair as atenções quando chega em
qualquer lugar, nunca entendi exatamente qual é o truque do filho da puta,
já que ele evita falar além do estritamente necessário.
Sua beleza é quase mundana, e ainda assim sua presença nunca passa
despercebida. O porte alto e atlético, os cabelos castanhos e barba cerrada
não são totalmente incomuns, se ele tem algo de especial, são os lábios
grossos, e o olhar cínico e arrogante que convence sem esforço. Os cílios
longos, que são sua marca, nem chegam a ter um papel, até que as pessoas
se aproximem.
Talvez seja a aura de autoridade que faz as mulheres quererem se
ajoelhar aos seus pés. Nunca vou entender. Mas já estou acostumado.
Do alto dos meus olhos azuis e cabelos pretos, é fácil para mim
encarnar o moreno sarcástico e desejado pela maioria das mulheres.
Sebastian é apenas uma presença insolente e petulante, revelada em todos
os traços do seu ser, ainda assim, uma presença notável.
— Espere Mila gozar, e eu já te encontro — determino, antes que ele
me interrompa de verdade.
Mila parece recordar com quem está trepando no exato momento em
que aperto seu seio com força, por baixo da camiseta, exigindo sua atenção
e sentindo-a relaxar ao invés de contrair.
Tinha perdido o momento, seu gozo estava quase ali, mas se esvaiu
com a chegada do meu irmão.
— Porque Adônis está fodendo sua iniciada em pleno horário de
almoço? — pergunta para Markoz, que esfrega o rosto com as mãos, num
sofrimento digno de filme, antes de responder com a voz atormentada.
— Eu quebrei meu pau.
Qualquer um imaginaria um osso se quebrando antes de recordar que
pênis não tem ossos, mas Sebastian não se digna a pedir que ele repita,
apenas cruza os braços e espera uma explicação, enquanto eu resolvo dar
mais uma chance para Mila gozar.
Uso os meus dedos para espalhar a lubrificação que escorre da boceta
aberta e ela choraminga no meu colo, o grelo completamente duro,
querendo pulsar a qualquer estímulo contendo toda a tensão do orgasmo
perdido que volta a ondular nela. Evito tocar diretamente nele, seguindo as
arremetidas por trás, apenas massageando, com o polegar e a dobra do
indicador, a carne ao redor do clitóris, afundando o dedo médio e o anelar
apenas na sua entrada, fazendo com que suas terminações nervosas entrem
num estado de latência e tragam de volta para mim o controle sobre o seu
prazer.
— Eu fraturei meu pau, talvez fique impotente — ouço Markoz
acrescentar e explicar a Sebastian sobre a sua lesão, e que não poderia foder
por no mínimo um mês.
Não consigo ver a reação do meu irmão, mas tenho certeza que sua
expressão é de pena, já que ele nunca ficou sem transar desde que perdeu a
virgindade, num puteiro, quando éramos adolescentes. Para ele, transar é
como comer, ou dormir, uma necessidade básica que deve ser atendida de
forma rotineira para a manutenção saudável do organismo.
Ele optaria por um coma, em detrimento de ficar sem trepar por um
mês.
Sebastian não responde a Markoz. Se aproxima de mim, com a sua
atenção renovada. Ameaço ele com o olhar, mas o cretino não se detém. Se
posiciona em frente a Mila, que já está com as pernas tensionadas de
angústia pela demora, mas a segundos de um orgasmo violento e arrasador.
— Posso te tocar? — meu irmão pergunta, umedecendo o lábio
inferior com a língua na frente dela, se abaixando tão próximo do seu corpo,
que a sinto contrair no meu pau, devido ao efeito do hálito quente dele em
sua pele super excitada.
Os dedos do Sebastian deslizam nas laterais do corpo dela,
apaziguando a ansiedade de ter dois machos à disposição.
— Por favor— ela choraminga para ele, rebolando mais forte em
mim.
Eu conheço esse filho da puta e sei exatamente o que está prestes a
fazer. Ele abre bem as pernas de Mila e sopra suavemente, com o rosto
entre as suas coxas e os olhos cravados nos dela, que não sabe mais o que
fazer, desesperada com a expectativa.
— Sebastian — aviso, entredentes.
— Eu estou com pressa — ele esclarece. — Mila pode ser enrabada
lentamente outro dia — decreta com paciência, como quem oferece um
copo de água a um mendigo.
A mulher quase chora ansiosa, em pânico de ter o seu gozo
interrompido novamente, movimentando os quadris numa tentativa afoita
de sequestrar meus dedos que provocam sua entrada sem se afundar nela,
enquanto seu cu me recebe sem a menor dificuldade.
O puto do Sebastian apenas enfia os dedos nela, forte, fundo, rápido e
chupa seu clitóris, sinto a língua dele raspar nos meus dedos antes de os
retirar. Mila grita e suas mãos saem das minhas coxas, voando para os
ombros de Sebastian que a lambe audivelmente, chupando-a com força,
sem a mínima gentileza, provocando a convulsão súbita, exatamente o que
eu estava evitando por todo esse tempo.
Pretendia que o orgasmo a varresse, e não que a quebrasse ao meio.
Ela cola as costas no meu peito, exausta, e tenta se segurar nos
cabelos de Sebastian sem sucesso, totalmente sem forças nas mãos. O puto
do meu irmão ri, satisfeito de arruinar o meu trabalho, as pernas dela estão
tremendo e se contraindo enquanto se fecham entre as minhas.
Sebastian dá um tapinha condescendente no rosto dela, o toque de
quem entende e não se arrepende de nada, e estala a mão aberta na lateral
da minha coxa, me apressando.
Deixo que os espasmos de Mila se acalmem antes de me retirar. Vejo
Sebastian se levantar, espalhando o gozo em seus dedos pelos lábios dela e
lambendo a sua boca.
A ajudo a se sentar corretamente e retiro a camisinha para descartar,
mas sua coluna relaxada não suporta seu peso ereto e ela escorre para o lado
do sofá, em forma de concha.
— Eu cuido dela — Markoz afirma, se aproximando.
Recolho minhas roupas dobradas na poltrona, onde estava sentado
quando Markoz me pediu para comer Mila. Tinha acabado de chegar,
procurando Sebastian que não estava em casa e nem no seu escritório.
Segundo o cronograma de Mila, ela daria o rabo hoje e Markoz podia
quebrar o pau, mas seu cronograma de atividades seria seguido,
independentemente se fosse por ele ou se necessitasse recrutar alguém para
as atividades. Quando me viu, decidiu ser uma boa chance de cumprir o
cronograma e impressionar as mulheres do próximo grupo de iniciadas, sem
se esforçar.
— Você é um cuzão do caralho — acuso meu irmão, olhando de
relance para as mulheres que aguardam em silêncio serem chamadas por
Markoz.
Nas primeiras semanas, as iniciadas apenas assistem se estão muito
cruas, o que deve ser o caso dessas, pelo tom vermelho vivo que agora,
olhando mais atentamente, identifico em seus rostos.
Duas, fracamente mais ousadas que as outras quatro, se masturbam
nos olhando, se exibindo, como se nudez e uma siririca fossem capazes de
nos fazer piscar.
Uma delas se levanta e se aproxima. Imagino Markoz se retesando
atrás de nós, já que não deu essa ordem, e ele não admite a impertinência de
quem está começando.
Ele pode não ter fodido Mila, como era esperado, mas toda a cena foi
orquestrada e dirigida por ele, como um filme com tempos marcados.
— Eu posso ser a próxima? — a loira com aspecto frágil pede
sorrindo.
— Talvez outro dia, Bonita — Sebastian a dispensa, sem sequer olhar
na sua cara. Eu percebo a coragem dela murchando, e observo que as outras
se sentem constrangidas em seu benefício.
Não é novidade para ninguém que tanto eu como Sebastian fodemos
no clube, sermos os donos do lugar não interfere, e a nossa postura
profissional é sempre respeitada quando necessário. Entretanto, é uma
raridade que estejamos disponíveis além do planejado. E nunca estamos
aqui na hora do almoço. Ninguém está no clube na hora do almoço, apenas
iniciadas, iniciados e Markoz, o facilitador principal.
Os novatos são apresentados progressivamente às possibilidades
dentro do clube, e escolhem as primeiras dez experiências que querem
testar com supervisão. Depois disso, o facilitador avaliava se eles estão ou
não prontos para se juntar ao resto dos clientes e fazer suas próprias
escolhas, sem orientação.
— Espero que você tenha uma razão muito boa para eu ainda estar de
pau duro — reclamo com Sebastian, sentindo que meu pau não vai broxar.
— Vai querer que eu te ajude também? — oferece, provocando. —
Eu bem que achei que não — confirma para si mesmo, me fazendo segui-lo
até uma sala do andar, por onde entramos.
Lá de dentro Bianca nos cumprimenta, olhando meu pau e sorrindo
descarada.
— Alguma coisa que eu possa fazer por você? — oferece de cara,
como a profissional treinada que é.
— Por favor, Bia, ajoelha e me chupa. — Ela obedece imediatamente
e eu seguro o seu cabelo, para fodê-la rápido e me livrar da ereção, para
conversar com meu irmão. Lembro, imediatamente, porque vim ao clube no
meio do dia.
— Mamãe está na cidade — aviso, enquanto Bia me coloca inteiro na
boca, sem cerimônias.
— Puta merda! — me responde entredentes, batendo a palma da mão
na coxa e me olhando sério antes de anunciar: — Leona está na cidade.
A boca da Bia no meu pau não abre mais do que a minha em
surpresa.
— Puta merda! — repito sem saber o que dizer. — Londres está
prestes a ficar pequena demais. Onde ela se escondeu esse tempo todo?
Coleiras, algemas, cintos e chicotes produzidos artesanalmente
preenchem a tela do meu tablet enquanto tento escolher os melhores cliques
das fotos que tirei no evento de BDSM. Eu divido a pasta em três grandes
grupos: Couro, Metal e Estética.
Calcinhas, saias, máscaras, ombreiras e arneses são cuidadosamente
colocados em estética.
Ainda faltam 50 minutos para o embarque e só consigo pensar na
minha cama, saí direto da sessão para o aeroporto. E foi uma noite longa.
Entre a viagem de Londres para o Brasil, o natal relâmpago com a
minha família, e a viagem de última hora para Berlim, eu juro que se
alguém jogar um tapete no chão eu me jogo e não saio mais.
Preciso descansar.
Nem sei quando foi a última vez que dormi direito.
Trabalhar para Leona Beaumount é tão eletrizante quanto exaustivo.
Eu com certeza passei mais tempo dos últimos meses em aeroportos e casas
de entretenimento adulto do que no meu próprio apartamento.
E em 2022 eu preciso mudar isso.
Agora que posso fazer tudo o que quero, sem ninguém para me
julgar, eu simplesmente escolho não o fazer e algo de errado não está certo.
Sempre quis estar sozinha e viver todas as experiências que passei por anos
planejando, e agora que posso, parece que alguma coisa ainda me impede,
me segura, me trava.
As pessoas começam a se enfileirar para o embarque, e ainda faltam
trinta minutos. É sempre engraçado esse momento, por que elas se levantam
e esperam em fila se os lugares são marcados? Não é como se fossemos em
pé no avião caso não guardarmos um lugar na fila.
Levanto meu tablet e abro o último relatório que comecei a escrever:
“Eu adoro a moda fetichista, já perdi a conta das vezes que usei um
arnês em eventos sociais apenas pelo prazer de ver as pessoas olhando e se
questionando se seria apenas um estilo arrojado, ou algo mais.
O fetiche vai além do praticante, ele ultrapassa a barreira de quem
nega a existência de algo sensual por detrás do BDSM. É como uma luz que
se acende em vários olhares retraídos, convencidos de que tudo que há para
ver são seus preconceitos. É quase um insulto ver as práticas fetichistas tão
marginalizadas com o público em geral.”
Mentirosa. Impostora. Minha consciência não perdoa a narrativa
dissimulada e artificial do meu próprio texto.
A pessoa confiante e ousada que pareço quando escrevo, está muito
mais próxima da mulher que eu pretendo ser um dia, do que da mulher que
sou agora, e isso está fritando meu cérebro ultimamente.
— Perdão. — Uma mulher surge à minha frente e me interrompe. —
Você está esperando o embarque para Praga? — Seu olhar repousa no tablet
que apoio exposto no colo para poder lhe dar atenção.
Ela engole em seco, e seus olhos se arregalam sem disfarçar. Suas
bochechas adquirem rapidamente um tom avermelhado, os olhos percorrem
meu corpo, parando alguns segundos extras na coleira e no espartilho, que
ela claramente não havia notado antes, disfarçado pela camisa social de
mangas longas, que o faria passar por um top preto se ela não estivesse
olhando perto o suficiente.
Eu podia ter me vestido normalmente, mas gostei dos acessórios do
evento e de como me senti poderosa com eles, ainda que apenas por um
segundo, a mulher do espelho me dava uma sensação de que estava tudo
bem fingir até que ela se tornasse realidade em mim.
Permito que a mulher sane sua curiosidade antes de responder:
— Sim, o voo está atrasado, mas o embarque ocorrerá no portão 22
— informo apontando para o painel mais adiante.
Ela confirma rapidamente com a cabeça, soluçando um “obrigada”
abafado, e se retira para os bancos disponíveis, três fileiras depois do meu.
Não longe o suficiente para me impedir de notar que ela desabotoa a
blusa e se abana disfarçadamente com o livreto que traz na mão,
completamente alheia a qualquer coisa em que seu olhar foque.
Volta a olhar para mim de relance e eu pisco o olho em resposta,
fazendo com que seu corpo retese. Ela descobre um interesse repentino pelo
chão e evita mexer nem sequer um dedo na minha direção novamente.
O sorrisinho sacana que brota no meu rosto não chega a ser
saboreado, porque meu celular vibra no bolso roubando a minha atenção.
— Oi, já estou esperando o embarque, você já chegou? Estou com
muitas novidades! — Minha empolgação é sempre a mesma quando volto
de alguma "oficina de estudo", esteja no modo viva, ou no modo zombie,
sempre atendo Leona como se não pudesse suportar tanto entusiasmo.
E o Oscar de melhor atriz devia estar no meu banheiro, onde ensaio
cada um desses diálogos.
— Quem diria que algum dia você seria a pessoa a trazer novidades
para a minha mesa — a voz dela soa arrogante, apenas o suficiente para ser
provocativa, bem longe da soberba.
— Trabalhando para você, eu sinceramente nunca sei dizer se
realmente estou procurando novas cenas para inspiração dos seus próximos
livros ou se estou sendo testada apenas para o seu entretenimento pessoal.
Menti? Não menti. Mas também não disse a verdade.
— Onde você está? — ela muda de assunto.
— No aeroporto.
— Ótimo. Mudança de planos — ela anuncia. — Você vem para
Londres. O evento de Praga foi cancelado, e a entrega dos livros físicos
para autografar também atrasou, não tem o menor sentido ir para lá.
— Tudo bem — respondo demasiado rápido, já vendo a cor do meu
travesseiro e sentindo a maciez do tecido exorbitantemente caro roçando no
meu rosto. — Te encontro lá para te entregar os relatórios?
— Claro. Boa viagem. — Ela desliga sem esperar que eu me
despeça, como de costume.
Acesso o aplicativo da companhia aérea com o número de sócia de
Leona. A vida dos ricos é fácil demais, em menos de 40 minutos tenho
outro voo marcado e sequer preciso regressar para fazer um segundo check-
in, minha mala de porão será entregue em casa em até 48 horas, e um
funcionário me recolhe num carrinho autorizado para me encaminhar para o
segundo portão de embarque que já está decorrendo.
Eu nunca imaginei sequer que fosse possível pegar um voo sem
marcar com pelo menos 12 horas de antecedência, mas o dinheiro pode
tudo. E as instruções de Leona na mensagem do whatsapp eram claramente
de quem já tinha feito esse procedimento inúmeras vezes.
Saio do carrinho, agradecendo ao funcionário e indo me juntar à fila,
agora de apenas sete pessoas que faltam para embarcar, com um ânimo
renovado. Apenas duas horas para voar de Berlim a Londres, e outras duas
horas entre o trem e o metrô. Às 6h da tarde estarei em casa.
Mal cumprimento os comissários de bordo no meu caminho,
encontro o meu lugar e me sento determinada a terminar meu relatório antes
de pousar e poder aproveitar o dia todo dormindo. Leona nunca acorda
cedo, sempre dorme tarde, o dia para ela não começa antes do meio-dia, o
que eu agradeço, porque isso me dá quase 24 horas de sono para passar do
modo zombie ao modo viva antes de encontrá-la novamente.
Sinto um olhar pesado repousar na minha pele e me viro para
encontrar um senhor claramente incomodado com alguma coisa. Ele olha
para mim com um certo desprezo no olhar, porém não lhe concedo mais do
que alguns segundos de atenção até que entendo qual o seu problema.
As duas mulheres de burca que se acomodam ao meu lado.
Ele me ameaça com o olhar como se apenas por existir eu pudesse
desvirtuar aquelas mulheres. Sustento sua expressão ameaçadora como
fazia com meus irmãos, impávida e serena, ele não pode me coagir, muito
menos sem dizer uma única palavra. A tensão entre nós aumenta no silêncio
incomum que nos cerca, para um avião.
A comissária de bordo aparece lhe indicando que não pode trocar as
mulheres do homem de lugar, como ele claramente tinha pedido ao me ver
no assento que julgava ser seu, e eu sinto asco dele.
Talvez quase tão intenso quanto ele sente de mim.
A comissária pede que nos sentemos e apertemos os cintos e eu
obedeço, respirando fundo, não quero assustar as mulheres com a
agressividade assassina que toma conta de mim.
Minha família sempre me super protegeu, mas nunca me fez sentir
inferior a ninguém em tempo algum, eu sei que provavelmente isto é só um
preconceito meu, e que essas mulheres levam vidas felizes no país delas,
mas me dói profundamente pensar que talvez não seja assim.
Me dói pensar que talvez ele olhe para elas como olha para mim.
Sempre me considerei uma princesinha encastelada e neste momento
quase sinto vergonha por isso, minha família foi perfeita, me criaram o
melhor que souberam, e fizeram tudo que estava ao seu alcance para que eu
fosse a mulher que me tornei.
Em vinte e quatro anos, nunca fizeram nada além de me amar
incondicionalmente e me mostrar isso de todas as formas, todos os dias da
minha vida.
Abro meu caderno de listas, que faço questão de fazer à mão, e
revejo minhas metas do ano passado para me distrair.
O avião levanta voo e ignoro a presença opressora do homem que
parece plantado que nem um fantasma no corredor, em todas as chances que
tem durante o voo, para me concentrar nos meus problemas.
Afinal, pela minha lista, este ano eu falhei. E pretendia mudar isso o
mais rapidamente possível.
Tinha em mãos toda a liberdade e recursos para tornar real cada item
daquela lista, e ainda assim, faltavam dois dias para o ano terminar e eu
estava longe de cumprir sequer a primeira metade.
Ao contrário das mulheres ao meu lado, eu tinha liberdade, e já não
tinha desculpas para não estar vivendo a vida dos meus sonhos, meu pai e
meus irmãos estavam felizes e confiantes em me ver feliz e trabalhando.
Então, era medo do quê que me travava? Que me impedia de
mergulhar fundo em todas as oportunidades pipocando ao meu redor?
Medo de dar certo? Miguel sempre me dizia que alguns de nós não
tem medo do fracasso, tem medo do sucesso, porque fracassar é um
sentimento que causa empatia e o sucesso é um sentimento solitário.
Se você está pronta para estar sozinha, você está pronta para vencer.
Talvez fosse isso, a mesma corrente imaginária que me segurava
antes, era também o tapete que me mantinha em pé e confiante. Ao sair de
casa perdi os dois.
As palavras de Heitor vem na minha mente como um letreiro
piscando em neon:
“Não pense que vai ser mais fácil para você do que para nós…
Então, se você for embora, esteja preparada.”
E decido que hoje é o primeiro dia da Sabrina 2.0. Ela vem com 5
meses de atraso? Talvez, mas ela já vai sair desse avião com o pé direito.
Espero que ela goste de mim e me leve com ela.
Preencho a boca da Bia, que engole meu gozo sem libertar a minha
ereção, os músculos da sua garganta me dando um último aperto glorioso
antes dela se retirar, lambendo toda a minha extensão ao me finalizar.
Finalmente, depois da lenta agonia de preparar e esperar que Mila
tivesse um orgasmo anal, moldando sua excitação de forma gradual e com
paciência para aguardar até que fervesse de tesão… e falhar por conta do
Sebastian. O grande filho da puta atira um pacote de lenços umedecidos na
minha direção, mais uma vez me apressando.
Cretino.
Bia se levanta, com os lábios inchados e brilhantes, os olhos
simpáticos como sempre, nada mais. Ela parece alguém que acabou de se
ajeitar para tirar uma selfie, e não alguém que engoliu meu pau até que não
me restasse nenhuma alternativa, a não ser me esvair nela enquanto
implorava por algo que nem sabia o que era.
O boquete da Bia sempre foi seu ponto forte, além da personalidade
ácida e bem humorada.
Faço um carinho no seu cabelo, e ela me dá um beijo no rosto,
palavras não são necessárias quando você conhece alguém como eu a
conheço.
Bia passa por Sebastian, que desfere um tapa estalado na bunda dela.
Ela pisca para ele e responde que está de folga, mesmo sem ele ter feito
pergunta alguma. Desafiando-o a chamar sua atenção por me dar prazer
naquele momento.
Visto as calças e a camiseta enquanto ela sai.
Meu irmão cruza os braços, acompanhando o rebolar dela até que
feche a porta atrás de si, e nos deixe a sós na sala de treinamento de pole
dance.
O chão reforçado com espuma para reduzir o impacto das quedas, e
vários poles espalhados, rodeados inteiramente por espelhos e luz branca.
O total oposto do lado de fora, que permite que as pessoas se
protejam nos cantos, sob a penumbra aconchegante da luz fraca, desenhada
para simular um ambiente íntimo e sensual. Projetada para deixar as
pessoas à vontade, desinibidas, desatentas das possíveis expressões de
julgamento estampadas nos rostos de quem estiver olhando.
Na sala de pole, os espelhos são tão cruéis quanto os dos provadores
das lojas de roupa mais finas. Luzes berrantes ressaltam todo e qualquer
defeito possível de ser visto a olho nu.
Esta sala grita exposição, e você só deve entrar se estiver confiante
de que suas inseguranças serão viradas do avesso e não será afetado.
— Eu ainda lembro dela vestida de noiva — Sebastian recupera
minha atenção. — Quem diria que ela seria tão safada? — A pergunta
retórica, e completamente despropositada, só poderia vir dele, que além de
ter nos apresentado, tinha-a contratado na primeira oportunidade.
— Todo mundo diria, já que quando a conheci, ela já era puta —
respondo simplesmente, apenas reforçando os fatos.
— E caiu de amores que nem um pardal. — Sua cabeça balança, me
julgando, como se ainda não acreditasse até hoje. O sorrisinho sacana de
quem nunca teve o coração batendo nos pés, perdido de paixão, em toda sua
vida.
Ambos sabemos que essa pose não é verdade, mas ele finge que seu
coração nunca foi quebrado, e eu finjo que nunca o vi chorar por uma
mulher, e a vida segue nos eixos.
— O primeiro casamento a gente nunca esquece. Bia foi a melhor
primeira esposa que eu poderia ter tido.
— Claramente, um divórcio com benefícios, eu diria.
— Se você também quer um boquete Sebastian, é só pedir. Tenho
certeza que Bia não se incomodaria de atender o ex-cunhado. Seja amigo
das suas ex- mulheres. É tudo o que eu tenho a dizer sobre isso. — Meu
sorriso murcha no rosto, e não é por Bia, ou Sebastian, é porque a razão de
estarmos aqui me atravessa como um raio, levando toda a descontração que
o orgasmo me trouxe e fazendo a tensão correr livre pelo meu sangue.
Meu irmão percebe a minha mudança repentina de humor e se
levanta, não conseguindo manter sua postura imperturbável por mais nem
um segundo.
— Onde está a Leona? — questiono sem delongas, ignorando a dor
que vejo brotar em seus olhos imediatamente. — Onde ela está? Eu quero
vê-la! — exijo, me aproximando alguns passos.
Vejo o seu maxilar travar, antes de responder um simples:
— Não.
— Como não? — rebato, ainda mais perto, apenas alguns palmos nos
separando.
— Se ela quisesse te ver, teria vindo te ver — ele esclarece, e eu sinto
o tom de ameaça na sua voz.
— Exatamente. — Dou de ombros. — Eu quero vê-la, logo, vou vê-
la. — Uso sua lógica contra ele, que range os dentes dentro da boca com
tanta força que consigo escutar.
Ele vira o rosto de lado, respirando fundo, a máscara de frieza volta a
ser colocada cuidadosamente e absorvida por completo.
Ele olha para mim de novo. Outra pessoa, como se este Sebastian
aqui parado à minha frente tivesse acabado de chegar na sala.
— Você não entendeu — começa explicar, e já sei que se permitir
que ele fale e se explique vai acabar me convencendo a fazer promessas que
não pretendo cumprir.
— É claro que eu entendi — interrompo seu discurso antes que de
fato comece. — Eu só não partilho do seu orgulho paralisante, você está tão
ansioso quanto eu. — Abro os braços, levo as mãos ao alto e as coloco na
cintura. — Vem comigo, ou…
Dou alguns passos, indicando que sua resposta na realidade é
irrelevante.
— Adônis! — Ele me para, sua mão espalmada no meio do meu
tórax com força, me desafiando por alguns segundos.
— Nem começa, eu vou encontrar com a Leo, tem 5 anos Sebastian,
5 anos que ela sumiu sem dizer nada. — Meu dedo indicador voltado para
sua cara, não é um bom sinal. E minhas palavras atropeladas e ansiosas
também não.
A força do seu olhar falha por um instante que significa o mundo.
Depois pisca em descrença.
— Ela disse alguma coisa? — indago, sabendo que foi essa parte da
frase que provocou a quebra na sua fachada. — Ela disse alguma coisa
antes de ir embora, Sebastian?
Ele me encara confuso, mas nada disposto a responder.
— Seu olhos, eles piscaram de um jeito diferente quando eu disse
que ela não disse nada, o que significa que você mentiu pra mim e só
lembrou agora — explico, como fazia quando éramos mais novos, não lhe
deixando a alternativa de fingir que não entendeu o que eu queria. —
Sebastian, responde, caralho!
— Ela precisava ir embora, isso é tudo que você tem que saber. — A
altivez do seu semblante me irrita, dou um tapa na cabeça dele e empurro o
seu ombro com força.
— Você só pode estar de sacanagem — reclamo. — Onde ela está,
Sebastian? Não vou perguntar de novo, e você não quer que eu procure por
ela, porque a localização não é tudo o que vou encontrar. Eu prometi que
não procuraria antes e me arrependi, não ouse tentar me afastar de novo, a
Leo não era só sua para perder.
Por um segundo assisto o incendiar do seu olhar. Espero uma reação
violenta da sua parte, indicando que perdeu a paciência, mas não me calo.
— Ela era minha…
— Sua melhor amiga — ele completa por mim. — Eu já perdi a
conta das vezes que você jogou essa merda na minha cara.
— Minha única amiga, Sebastian. Caralho. Mil mulheres à tua
direita, mil mulheres à tua esquerda, mas você tinha que mirar justo na
única que era como uma irmã para mim, porra?
— Eu sei — admite. — Eu sei.
— Eu te pedi tantas vezes para não brincar com ela, eu soube no
momento em que vocês se olharam pela primeira que ia dar merda. Não que
precisasse ser um gênio para chegar a essa conclusão.
Ele ri, lembrando de alguma coisa e eu reviro os olhos, bufando em
resposta.
— Ela era minha melhor amiga também, Don.
O desgosto que nos toma é imediato e visível, quase palpável. Tomo
fôlego para não o acusar injustamente antes de fazer exatamente isso.
— Então, porque você não segurou o pau dentro das calças e evitou
enfiar ele nela, é algo que me ultrapassa, ela era importante… — De novo,
depois de tantos anos sinto a urgência de quebrar a cara do meu irmão pelo
sumiço da Leona e tento me controlar para não o agredir.
— Obrigada — pede baixo.
— Pelo quê? — pergunto raivoso.
— Por nunca ter usado seus recursos profissionais para localizá-la
antes.
— Eu pensei sobre isso muitas vezes ao longo dos anos — admito
com honestidade. Minha raiva se esvaindo a cada palavra. — Todas as
vezes que eu ficava feliz, triste, apaixonado, todas as vezes que a gente
brigava… — Me sento numas das poltronas, incapaz de me manter nessa
mesma posição, de pé irrequieto. — Eu queria alguém que te entendesse —
explico para ele, que me olha de cima, ainda de pé. — Que te amasse como
eu amo — adiciono e ele se aproxima, apoiando a mão direita no meu
ombro. — E que fosse capaz de te odiar só por um momento, junto comigo.
— Ele ri, e concorda com a cabeça. — Você é um filho da puta difícil de
lidar, Sebastian — acuso, pressionando as têmporas sob os dedos e
massageando.
Ele move a mão do meu ombro para o meu pescoço e me puxa para
um abraço. Beija a minha bochecha como se fossemos duas crianças no
jardim de infância buscando perdão.
— Eu sei — aceita simplesmente, sem se defender.
— Mas ela está de volta, e isso significa... — Penso bem nas minhas
próximas palavras, fazendo uma pausa que queria que fosse sensata, mas se
torna dramática pelo tempo que dura. — Isso significa que talvez ela tenha
sentido a nossa falta também. — Dou de ombros.
— Talvez… ou pode apenas querer dizer que ela sentiu falta da
cidade e ainda esteja sendo perseguida pelos mesmos demônios que a
conduziram para fora daqui. Ela não procurou a gente… Ela está em
Londres há cinco meses, Don.
A vulnerabilidade estilhaçada no olhar de Sebastian aperta minha
garganta e seca minha boca. Não consigo reagir, sinto que a corda da tensão
que ele pode suportar sobre esse assunto foi esticada ao máximo e a
qualquer sopro pode quebrar e varrer não só seu autocontrole como quem
estiver ao seu alcance quando o surto vier.
Reconheço a fragilidade tão bem escondida atrás da parede de aço
que ele normalmente levanta para todos, menos para mim, e me calo.
Engolindo meus pensamentos, que fervilham, transbordando em meu
cérebro.
— Se ela voltar para gente, caralho, eu vou ser o primeiro a deixar
que ela me pise com salto 15, se assim desejar, mas até que ela venha…
— Você não quer estender o tapete vermelho a alguém que pode estar
chegando para destruir seu coração.
— É dela de qualquer forma, pode esmagar como bem entender, eu
só não quero que ela se sinta pressionada e corra de novo.
Sustenho a respiração, entendendo Sebastian pela primeira vez e
compreendendo que eu senti falta de Leona todo esse tempo, sim, mas ele
foi quebrado em dois. Esse que estou vendo é a metade que ela levou
consigo e só retornou agora.
— Vou fazer o meu melhor, Seb — prometo honestamente.
— Terá que ser suficiente — responde, claramente confiante de que
falharei.
Me aproximo mais uma vez, e seguro o seu pescoço por trás, o
abraçando.
— Eu te amo, cara — relembro, ele apenas concorda em silêncio, me
apertando entre os braços com uma força esmagadora. — E, por mais que
eu adorasse prolongar esse momento boiola com todas as minhas forças
para usar contra você depois, nós temos outro problema.
— Mamãe — ele assume, virando a cabeça para o céu, como se
pedisse perdão aos deuses antecipadamente.
— Ela está esperando por nós — anuncio, e é a minha vez de apertar
seu ombro, para apaziguar a cara de sofrimento que ele faz.
— Tenho certeza de que está, como se Louise Etienne esperasse por
alguém! — Os olhos reviram e o desdém é notável. — Onde ela está
hospedada?
— Você realmente precisa perguntar isso, irmãozinho? No melhor
hotel de Londres, a segunda casa da senhora nossa mãe.
Lar doce Lar, o pensamento cinematográfico invade a minha
cabeça.
Nos filmes, quando a mocinha volta para casa tem uma família
esperando por ela, comida quente pronta, amor, carinho, um animal de
estimação se mijando de felicidade e biscoitos de gengibre.
Ah, e é sempre inverno. Parece muito legal, mas aí tem a realidade,
e é essa que me espera quando giro a chave na maçaneta e sou esbofeteada
por um cheiro nauseabundo de comida mofada que eu não tenho a mais
ninguém a quem culpar além de mim mesma, afinal, moro sozinha.
Me debato com uma decisão de suma importância, abrir a janela e
morrer de frio, ou suportar o cheiro até o vômito começar a se formar na
minha boca.
Meus saltos agarram no carpete horrendo ao caminhar, tiro as botas
de cano alto antes de deixar minha mala de lado para conferir os estragos de
uma saída às pressas:
Louça com mofo. Check.
Larvas nos restos de lasanha, ainda dentro da travessa, no forno?
Check.
Roupa suja e com cheiro de umidade? Check.
Geladeira minando água sabe-se lá Deus por quê? Check.
Minhas roupas do varal duras que nem um pau? Check.
Olho ao redor e não sei quem eu limpo primeiro, se a mim mesma,
depois de tantas horas de viagem sem banho, ou ao meu apartamento, mas
decido que não vou conseguir limpar nada estando suja.
Lavo um dos dois copos que eu tenho repetidas vezes, depois de
lavar a própria esponja e tomo duas aspirinas. A dor de cabeça está gritando
exaustão e dança no compasso do esgotamento dentro do meu crânio.
Meu alarme começa a soar. Merda. Esqueci de colocar o código.
Corro para a parede e insiro os quatro algarismos.
Errado, óbvio.
Heitor programou essa joça para mudar de senha a cada sete dias,
eu sei a lógica para calcular as alterações alfanuméricas, mas nunca sei
quando passaram sete dias. Eu raramente sei sequer o dia em que me
encontro.
São necessárias cinco tentativas, com aquele barulho horrível
perfurando meus olhos e tentando arrancá-los no grito, para eu conseguir
desativar este inferno.
Procuro meu celular na bolsa e já ligo no carregador, se o meu
alarme toca, as ligações começam, um a um meus irmãos telefonam para
saber se aconteceu alguma coisa.
Heitor insistiu que eu instalasse uma câmera oculta para ele poder
checar quando esse tipo de coisa acontecesse. Óbvio que não aceitei. Qual
seria o ponto de morar sozinha, se eles poderiam me manter debaixo de
seus olhos a todo tempo?
O telefone toca e, como previsto, Heitor é o primeiro.
— Oi, está tudo bem, eu esqueci o código de novo, acabei de chegar
em casa.
— Ótimo, espero que descanse então, você anda perdendo noites de
sono a mais. Você me pareceu abatida no Natal, se o seu trabalho…
A ladainha começa e eu o deixo em viva voz para que possa
começar a me movimentar, quanto mais depressa terminar, mais depressa
me encontrarei nos braços de Morfeu.
— Você está me ouvindo? — meu irmão pergunta, depois de alguns
minutos sem resposta.
— Estou sim, Heitor, e eu agradeço a sua preocupação, mas está
tudo bem, nem todos os patrões do mundo vão pegar leve no meu trabalho,
só porque meu pai e meus irmãos acham que estou com olheiras, sabe?
— Entendido, senhorita. Pois, descanse, por favor, não quero ser
intimado a te resgatar tão cedo, ok?
— Vou fazer o melhor que eu puder, prometo.
— Estou contando com isso. Te amo. — Ele desliga na minha cara,
e estou para conhecer alguém tão meigo e tão cavalo ao mesmo tempo.
A ligação quase que se emenda na do meu pai.
— Oi pai, está tudo bem, Heitor já me ligou e me passou um
sermão. Eu acabei de chegar em casa. Sim, esqueci de novo, paizinho.
Estou ótima, só cansada. Vou comer, já já. Obrigada pai, também amo você.
Me adianto assim que ele desliga e mando uma mensagem no grupo
de whatsapp com todos os meus irmãos.
Gael já tinha mandado uma figurinha, com o placar de quantas
vezes Sabrina tinha esquecido a senha do alarme, atualizada. E quantas
vezes Heitor e papai tinham surtado até então.
Noah seguiu a onda dele e colocou um trailer parecido com os da
netflix contando a história da Rapunzel moderna, uma boneca de palitos
com a minha cabeça adesivada.
Davi estava de fato preocupado, mas se recusava a passar a
vergonha de ligar também, porque Miguel já adicionava pequenos
microcontos de terror à conversa todas as vezes que isso acontecia, com
todas as tragédias que poderiam ter me acontecido enquanto os irmãos
Marino dormiam.
Era um dom que eles tinham, de me humilhar com carinho.
Depois de algumas figurinhas e insultos trocados, deixo a conversa,
fingindo que vou dormir. Ligo o celular no spotify e coloco uma playlist
zen que não demora nem o tempo de tirar a roupa para me irritar.
Troco a playlist antes de entrar na banheira e ligar o chuveiro. A
água insuportavelmente quente e relaxante deixa minha pele vermelha num
nível quase preocupante.
Aproveito a semi acordada que o banho me dá, para correr antes
que a pilha acabe.
Ligo os três aquecedores da casa e recolho todo o lixo, depois toda
a roupa, que dobro e deposito numa cadeira. Lavo a louça e limpo as
superfícies duas vezes. Em menos de duas horas minha casa parece uma
casa de novo, se é que alguém pode chamar um apartamento de dois
cômodos de casa.
Minha cama é um sofá gigante que uso para tudo, a cozinha é
separada da sala, apenas pela mesa que eu mesma comprei, e uma única
coluna colocada ali no meio, com certeza, por um pedreiro sob o efeito de
entorpecentes.
A televisão, da qual me orgulho por ocupar quase toda a parede, é
meu xodó. E onde passo meu tempo livre dormindo, enquanto finjo para
mim mesma que estou maratonando minhas séries preferidas, mas nem a
Netflix eu consigo enganar.
O serviço de streaming me questiona cada vez em intervalos
menores de tempo se estou mesmo assistindo.
Um último banho, só para dormir na paz de cristo e por fim ganho o
direito de descansar. Meu corpo foi avisado que aquela era a hora de
desligar, e sequer me recordo de fazer o caminho de volta do banheiro para
o sofá-cama antes de entrar num estado semicomatoso.
O suor escorrendo no meu rosto é testemunha do quanto eu corri
para alcançar Leona antes de ela sair, e o espelho na parede do escritório,
testemunha de que falhei.
Sento no sofá confortável e ligo para ela, tentando acalmar minha
respiração antes que ela atenda.
Londres é conhecida pela rede de metrô, que te leva a qualquer
lugar, mas ninguém te diz as centenas de escadas que você tem que vencer a
cada trecho do trajeto.
— Oi, eu saí não tem nem dois minutos. Mas deixei instruções
numa pasta roxa na segunda gaveta da minha mesa.
— Tudo bem. Quando volta?
— Dia 3 de janeiro.
Ótimo, vou passar a virada de ano sozinha, podia ter ficado em casa
com minha família, o Natal foi tão bom.
— Quando eu regressar vamos conversar sobre seus resultados,
Sabrina.
— Você não aprovou meus últimos relatórios? Algo de errado?
— Eu sugiro que você reveja as descrições do seu cargo, Sabrina.
Lamento te informar, mas você não foi contratada para tirar fotografias. Eu
quero experiências. Não essas baboseiras que você inventa nos seus
relatórios. Você está trabalhando para mim há cinco meses, eu deixei que
levasse seu tempo para se adaptar, mas ainda preciso de uma assessora
capaz de cumprir o combinado. Eu entendo que não é um trabalho
convencional e que talvez você estivesse muito determinada em sair de casa
e se mudar, mas só chegando aqui se confrontou com a realidade, mas não
posso mais esperar, se não começar a cumprir sua função, pode se
considerar dispensada quando completar os seis meses de experiência.
Minha boca abre e fecha, devagar. Como ela sabia que eu mentia?
Que não participava das sessões? Que apenas assistia? Meus relatórios são
revisados várias vezes. Droga, quem eu achei que estava enganando?
Não consigo pensar em nada para dizer, sei que Leona odeia a
palavra desculpa. Desculpas não se pedem se evitam.
Murmuro um som aleatório.
— Eu sinto muito que você vá começar o ano novo sozinha,
Sabrina, espero que use o tempo para definir suas prioridades. Retorno na
segunda-feira, conversaremos na terça. Deixei um presente de ano novo
para você. Use-o com sabedoria. Todas as informações estão na nossa
conversa de WhatsApp que você ignorou nas últimas três horas, me
obrigando a me comunicar com você como uma neandertal. Espero que não
se repita. — Ela desliga sem se despedir, repetindo seu ritual de me deixar
falando sozinha, exceto que desta vez nenhuma palavra saiu da minha boca,
fosse para me defender ou agradecer.
Me levanto e abro a gaveta esperando que meu presente não seja
uma carta de dispensa pré assinada. Seria no mínimo decadente.
E quando minhas mãos passam pela superfície de veludo roxa, um
sorriso brota no meu rosto, ainda que eu tenha sido semi demitida apenas há
alguns minutos.
Duas noites no Hotel Four Seasons, com direito a um mini cruzeiro
de ano novo no rio Tâmisa para ver os fogos de artifício.
As duas coisas constavam na minha lista.
Uma noite no Four Season estava na minha lista de dez coisas
extravagantes para fazer antes de morrer.
O cruzeiro já estava na minha lista de quarenta coisas para fazer em
Londres, embora não seja mesmo um cruzeiro. Os barcos apenas ficam no
meio do rio para ter uma vista privilegiada dos fogos de artifício. Penso na
minha lista de dez itens para cada estação do ano, e me recordo que além
dessas duas posso visitar a Winter Wonderland antes que termine.
Já vi fotos maravilhosas desse mercado de Natal, os shows, as
luzes, a patinação no gelo e até o mini parque de diversões me parecem o
cenário da mais pura perfeição. Tirando as milhares de pessoas que estarão
lá também e as possíveis filas quilométricas que me aguardam, tenho a
certeza que vou me divertir muito.
Se eu vou perder meu emprego, vou aproveitar meus últimos dias
como uma funcionária legalizada nesse país, antes que chutem minha bunda
desempregada de volta para o outro lado do oceano.
Excitação e medo se acumulam em igual medida dentro de mim,
nem sei por onde começar. Tento resolver meus problemas primeiro, ou
aproveito essa oportunidade única que a louca da minha patroa acabou de
me dar?
Definitivamente a oportunidade.
Afinal, o emprego pode já não existir quando ela voltar.
Four seasons aqui vou eu!
— Brunch? Mãe, já passam das duas da tarde. O bufê com certeza já
está encerrado.
Observo o salão e as pessoas parecem entretidas com suas refeições,
ninguém chegando, no entanto.
— Meu amor, para pessoas como nós não existem horários, eles
servem comida o dia inteiro aqui no hotel. Seja bem-vindo à civilização.
Eu e meu irmão a seguimos para a mesa indicada pelo funcionário
que já conhece minha mãe e pergunta se gostaria de ser servida. Toda a
lógica de um bufê é que cada pessoa se sirva do que quiser, mas claro que
Louise Etienne não obedece a esse tipo de convenção tão mundana.
Fazemos nossos pedidos e o homem nos deixa.
— Eu vim convidar os dois para a minha festa de aniversário,
amanhã. — Revela com entusiasmo, gesticulando de forma elegante.
— Onde? — Sebastian questiona e tenho a certeza que pergunta
apenas para riscar esse lugar do seu mapa pessoal.
— Onde? Como, onde? No Nox, óbvio. Já enviei os convites e tudo,
apenas os de vocês eu quis entregar pessoalmente. Aqui estão. — Minha
mãe tira dois convites da bolsa com a maior das naturalidades e nos entrega
em mãos.
Ela age como se de fato estivesse nos fazendo um favor, ao nos
entregar convites para uma festa de aniversário que ela resolveu nos avisar
apenas hoje e que ocorreria no nosso clube.
O mesmo clube onde fazemos leilões de entrada todos os meses para
pessoas que queiram passar à frente da fila, o mesmo clube que não dá
festas não programadas, o mesmo clube que fizemos questão de manter na
sombra da mídia, não só para gerar curiosidade, mas também para manter a
identidade dos nossos sócios e membros em segredo.
As pessoas que frequentam o Nox não pagam alto apenas por prazer,
elas pagam pelo sigilo.
— Por que eu precisaria de convite para uma festa no meu próprio
clube? Uma festa que, inclusive, não vai existir? — O tom da voz de
Sebastian é determinado e a veia saltada em sua têmpora indica que está se
esforçando para não gritar. Não que sua voz baixa e gélida seja menos
ameaçadora, de todo.
Ele parece prestes a ter uma síncope. Seus olhos piscam rápido,
lacrimejantes, como se tivesse levado uma lufada de areia na cara, e
qualquer desavisado que olhasse na sua direção pensaria que ele está
emocionado, mas eu sei bem que a única emoção que atravessa seu rosto e
molda sua postura nesse momento é uma necessidade férrea de se controlar
para não esmagar nossa mãe com uma tonelada de insultos.
Se tem uma coisa que Sebastian odeia e repudia é que mudem seus
planos. Perder o controle sobre qualquer parte da sua rotina é motivo
suficiente para tirá-lo do sério. Quase posso ver a lenta engrenagem na sua
mente rodar como um moinho movido a água fervente.
Em seu benefício, ele demora a responder, noutros tempos ele teria
apenas se levantado e ido embora. Neste segundo, seu silêncio é prova de
que, embora tenha vetado a festa de imediato, ainda está considerando todas
as possibilidades.
— Eu trouxe os convites para oficializar o meu convite, e, claro, para
que os seguranças os reconheçam quando os convidados chegarem ao
clube. Quando se espalhar a notícia, com certeza haverá algum audacioso
tentando entrar de penetra.
Mamãe não o pressiona. Seu tom de voz é calmo e doce. Ela sabe que
abusou no pedido e está esperando um ataque para se fazer de vítima
quando ele negar seu pedido oficialmente. A mesma luta pelo poder que
travam desde que me entendo por gente.
— Nem fodendo — Sebastian decide, definitivo. — Mude a festa
para qualquer outro lugar, Dona Etienne. Eu pago todos os gastos inerentes,
apenas mantenha-se longe do Nox.
Ela torce os lábios e mexe o nariz ao ouvi-lo chamá-la pelo nome,
outra luta que assisto há anos. No fundo Sebastian faz isso apenas para
irritá-la, e consegue sempre.
Ela pede ao garçom que lhe sirva mais vinho, ganhando tempo para
responder e ele atende com prontidão, como se não houvesse mais pessoas
no salão.
— Acho muito fofo que você considere que eu estava fazendo um
pedido, meu querido. A festa vai acontecer, a única parte dela que lhe cabe
decidir, é se será um sucesso ou escândalo.
Antes que Sebastian a ataque pela ameaça ela esclarece:
— Não. Não estou te ameaçando, meu querido filho, estou apenas
falando dos fatos. E de qualquer forma, 80% dos meus convidados já são
membros do clube, você só teria que acomodar os restantes. É uma festa
pequena e discreta, são apenas cinquenta e sete pessoas que eu pretendo
impressionar.
— E não há outra forma de fazê-lo? — ele a desafia.
— Claro que há, já foi feito aliás, a festa será apenas o golpe de
misericórdia. — ela se gaba.
— Eu espero que você não esteja planejando fraudar pessoas no meu
clube, Louise.
Os olhos dela o percorrem de cima a baixo com uma expressão de
desdém, mas ela se dirige a mim, apelando:
— Adônis, você pode, por favor querido, lembrar ao seu irmão que
eu também sou sócia do clube e posso fazer o que quiser? Obrigada. — Ela
pode parecer confiante, mas sei que está apenas esticando a corda da sorte
para ver até onde ela vai sem arrebentar.
— Nós compramos a sua parte há dois anos, você não tem nenhum
poder sobre o funcionamento do Nox — recordo-a e Sebastian concorda
com a cabeça, cruzando os braços ao peito e respirando fundo.
— Eu tenho um contrato que diz o contrário, não me faça trazê-lo à
tona, seria uma pena que uma mãe precisasse usar um papel oficial e
legalizado para conseguir uma festa no clube da própria família, e que ela
ajudou a fundar com as próprias mãos.
O pequeno show de afetação emocionada não atinge nenhum de nós
dois, mas Sebastian leva qualquer coisa escrita em papel muito a sério, um
contrato não seria diferente, fosse legal ou escrito num guardanapo, para ele
teria o mesmo valor.
— Eu não posso fazer isso, mãe. — Ele parece pedir, vendo suas
chances de negar-lhe seja o que for escaparem por entre os dedos.
Ele sabe que nossa mãe é mulher para simplesmente aparecer lá com
os 80% dos convidados e decretar que é sua festa, interrompendo qualquer
que seja a programação e provocando o máximo de caos por onde passar.
— Vocês podem fechar para o público por uma noite, acidentes
acontecem, uma inundação, uma fuga de gás, estou certa de que você
conseguirá ser criativo com seus próprios meios para encontrar a desculpa
perfeita. Dispense seus convidados e lhes garanta uma compensação em
outro dia qualquer. Não haverá retaliações ou reclamações se você for
generoso o suficiente. Assim, todos conseguem o que querem.
— Um andar — me intrometo, depois de reprogramar na minha
cabeça todas as atividades para a noite de amanhã e reorientá-las pelos
espaços disponíveis enquanto discutiam.
Sebastian me fita como se eu tivesse roubado seu rim e oferecido por
alguns trocados no mercado clandestino e eu apenas indico com o olhar que
está tudo bem. Ele respira aliviado, mas atento.
Mamãe sabe que não pode discutir comigo, ao contrário de Sebastian,
não sou emocionalmente manipulável e seus truques nunca funcionaram
comigo. Ela sequer tenta negociar, sabe que perderá. Sebastian vê a
aceitação se instalar na forma como ela retorce os lábios, como se tivesse
comido uma fruta amarga.
— Eu não pedi nada mais, meu querido, seu irmão que é um homem
irascível que prima por provocar a desarmonia entre os povos, exatamente
como o pai. — O sorriso sarcástico e contido se rasga em seus lábios e vejo
Sebastian espelha-lo imediatamente ao meu lado.
Seria engraçado se não fosse trágico que os dois sejam tão diferentes
e ao mesmo tempo tão iguais.
— Então, geniozinho. — Ele se vira para mim, como se eu estivesse
em algum tipo de complô com mamãe para foder com a vida dele. — O que
você sugere que eu faça com as promessas de exclusividade que vou ter que
retirar? Enfie no cu junto com a minha credibilidade? Ou sugiro que eles
pagaram para ter privacidade e ganharam de brinde algumas pessoas que eu
tive que realocar para a festa da minha digníssima mamãe?
Apenas rio e nego com a cabeça.
— Nós podemos fazê-lo sem provocar nenhum constrangimento,
garanto.
Mamãe se levanta e diz:
— Parece para mim, que você já encontrou meu presente de
aniversário. Faça acontecer! — Ela procura o garçom que desapareceu na
sua vista por um momento e torna a se voltar para nós. — Adônis, você
precisa foder mais, querido, sua pele está pálida, qual foi a última vez que
você viu a luz do sol? Parece um vampiro de série adolescente, conheço um
lugar ótimo para te dar um ar mais saudável. Te espero amanhã às quatro
horas.
— Eu não posso, eu trabalho — respondo apenas para contrariar, sem
muita vontade de recusar uma boa massagem, o spa que costumamos ir é
divinal.
— Tenho certeza que seus jogos podem esperar para ser jogados sem
ferir nenhuma criança ou idoso no caminho. — Eu posso ter mil profissões,
mas mamãe jamais vai se recuperar do baque que é ter um filho
desenvolvedor de jogos.
Não que ela conheça os detalhes do meu emprego de verdade, esse
apenas meu irmão sabe do que se trata, mas ainda assim, para ela não existe
um abismo entre desenvolver jogos e jogá-los, todos eles são uma perda
total de tempo e habilidade.
— Eu não quero ir, mãe — insisto, mais do que ciente que vou com
ela, só quero que ela ache que me convenceu. É sempre bom que as outras
pessoas pensem que estão te obrigando a fazer algo, isso faz delas mais
propensas a fazer o que você quiser numa próxima oportunidade.
— É claro que não quer, razões pelas quais precisa, você nunca quis
o que é melhor para você. Amanhã às quatro. — Ela apoia as mãos nas
costas da cadeira alta de veludo cor de vinho e detalhes dourados. — E
querido, por favor, não vamos perder o nosso tempo fingindo que você tem
uma opção, tudo bem? — Essa deve ser a frase preferida da minha mãe.
Tem pouco efeito, mas ela considera o máximo esse delírio de poder.
Ela se inclina e fala baixinho, em tom de segredo para Sebastian:
— A propósito querido, você pode convidar seu pai — avisa,
sorrindo.
Nós dois partilhamos um esgar de nojo enquanto ela se afasta para
cumprimentar alguém.
Eu olho para o meu irmão, esperando o rio de reclamações começar a
correr forte na minha direção, mas ele parece apenas exausto dessas
reuniões familiares forçadas. E esta foi só a primeira, tenho a certeza que
mamãe não ficará em Londres apenas para o aniversário.
— Por que que a gente deixa ela fazer isso conosco, cara?
— Porque se bater ela chora, se matar é pecado. Só nos resta aceitar,
ela é nossa mãe.
— Verdade, tem também o detalhe de ser crime. Eu não duraria dois
segundos na prisão. E você, com essa carinha de boneca, também não —
ele acrescenta, como se realmente estivesse pesando essa possibilidade. —
Certo. Vamos fazer essa loucura acontecer e rezar para que ela resolva
passear no Japão depois.
Uno as mãos em sinal de oração, viro a cabeça para o teto e digo com
seriedade:
— Oi Deus, sou eu de novo…
Gael atende o celular no terceiro toque.
— Alguma chance de você querer voar de onde quer que esteja e
dividir uma suíte comigo no Hotel Four Seasons? — quase grito
esganiçada, tomada pela emoção de estar ali, e que ainda não consegui
absorver desde o Hall de entrada até aqui.
Gael assobia do outro lado e ouço barulho de roupa farfalhando.
— Que chique ela, espero que não esteja se prostituindo, mas se tiver
me passe o número da sua agência!
— Não, idiota, Leona me deu de presente.
— Ela ficou mesmerizada com seu trabalho e te deu um bônus desse
calibre? Nossa. Parabéns!
— Não, na verdade, o mais provável é que ela me demita quando eu
completar os seis meses de experiência, mas até terça-feira, vou aproveitar
todas as oportunidades que esse trabalho me deu e guardei para depois.
— Muito bem! Eu não vou perguntar porque você está sendo
demitida, não quando a consequência é uma estadia no Four Seasons,
inclusive preciso sugerir esse tipo de castigo aos meus patrões. Sério.
Sensacional. Quais seus planos?
— Ficar bêbada do champanhe mais caro, comer todos os mimos que
foram enviados de graça em nome da Leona e cair feito um peixe balão na
jacuzzi mais próxima até desmaiar. Quero acordar no hospital e não saber
como fui parar lá.
— Tenho a certeza que papai e Heitor vão adorar conhecer Londres
quando a ligação de emergência for feita.
— Você é o meu contato de emergência.
— Que você saiba, né? Duvido que Heitor não tenha mexido os
pauzinhos para que eu não seja. Ele confia tanto em mim quanto em você,
bebê. E o fato de estarmos no mesmo continente só o deixa mais atento. Ele
tem agora duas pontas soltas permanentes com que se preocupar.
Me jogo na cama e nunca nada tão macio esteve sob mim.
— Gael, o colchão. Eu transaria com esse colchão, juro. Ele é tão
gostoso e macio.
— Você pode fazer isso — ele responde rindo.
— Eu posso — confirmo no mesmo tom.
— Hey, muita informação — reclama, abafando o celular como se
pudesse apagar as palavras ouvidas.
— Você que sugeriu!
— Eu estava brincando, que nojo. Vou ser obrigado a te deixar
porque preciso ir ali enfiar minha cabeça na lareira até que a imagem de
você se masturbando com uma almofada com penas de ganso egípcio
derreta da minha mente.
— Onde você está?
— Na França, tão perto e tão longe, irmãzinha. Divirta-se. Vá
aproveitar, tire fotos, não publique nenhuma, desligue sua internet até
próxima ordem, e não faça nada que o Heitor faria. Na dúvida pense: o que
o Gael faria? Se eu faria, faça. Se eu não faria, faça também, lidamos com
as consequências ano que vem. Eu preciso mesmo ir nessa.
— Tudo bem. Te amo.
— Também amo você, meu saco de baba preferido.
Ainda estou rindo quando batem na porta e me levanto para abrir.
— Bom dia, Senhorita Beaumount — o homem fardado me
cumprimenta, num inglês modulado e tão empertigado que me custa a
entender. Ele me explica que o carrinho de caixas que traz consigo não são
as únicas coisas que chegaram para mim. Mas que se eu confirmar a entrega
de todos os itens, quando descer para o brunch, eles trarão o resto das coisas
logo em seguida.
Meus olhos brilham porque sei que os fãs da Leona sempre
descobrem onde ela se hospeda, além das marcas e editoras que flertam
com ela para conseguir seu próximo best-seller e mandam imensos
presentes sensacionais.
Estava contando que isso acontecesse e quase dou dois pulinhos
quando o camareiro sai e fecha a porta atrás de si.
Quando voltar posso brincar de “hoje é Natal outra vez”, agora vou
descer e me empanturrar de comida até o botão das calças estourar.
Vou usar um vestido, comporta uma expansão corporal maior.

— Senhorita Beaumont? Por favor, espere. — Me viro ao ouvir o


sobrenome de Leona mais uma vez, esquecendo por um segundo que eles
acreditam que ela sou eu.
Talvez eu tenha deixado que pensassem que eu era minha chefe?
Talvez. Mas não queria que parassem de trazer todos os mimos e presentes
que estão chegando.
— Poderia assinar este documento autorizando a entrega dos itens
diretamente na sua suíte, por favor? — O recepcionista me alcança e me
direciona uma prancheta, me oferecendo uma caneta que tira do bolso do
uniforme.
Pelo sorriso rasgado que carrego desde que pisei nesse lugar,
ninguém diria que estou prestes a ir para rua da amargura, mas não consigo
ficar triste. Leona me deu o melhor presente de sempre, e ainda que seja um
presente de despedida que ela me repassou apenas porque ia viajar e não
conseguiria comparecer, ainda assim, considero um mini bilhete de loteria
premiado.
O arroto que sai da minha boca enquanto rubrico a última de três
folhas faz o homem à minha frente se contorcer de constrangimento.
— Perdão — peço, enfiando a caneta de volta no bolso dele e me
afastando o mais rápido possível até a mesa mais distante disponível .
Está claro que os ricos não se regem pelos horários normais. São
quase três da tarde e o bufê, do que deveria ser um café da manhã tardio,
segue sem que nenhum dos tabuleiros chiquérrimos esteja começando a
ficar remotamente vazio.
Jamais vou entender o conceito de feijão doce com ovos e bacon dos
ingleses, nunca provei e tenho vontade de nunca experimentar.
Me sirvo de mais panquecas do que seria educado para qualquer
pessoa num raio de um quilômetro, e adiciono várias coberturas. Começo
pelos doces porque não sei se serei capaz de comer muito mais depois.
A mesa de doces é insana, croissants acabados de fazer, nutella num
recipiente escandaloso de lindo, que quase dá medo de tocar e quebrar.
Essa merda deve custar uns 10 salários mínimos. Ainda no prato
coloco um muffin de mirtilos, um brioche, e um potinho de geleia, que
Deus e eu sabemos que vai ser sequestrado por mim assim que tiver
oportunidade. Sigo com ele abarrotado, ainda de olho no risoto de
cogumelos e queijo brie e na massa de sabe-se lá o quê com molho branco,
que parece estar gostosa num nível de vender um parente em troca de um
pedaço.
Me sento sendo nada além de feliz. O salão enorme está pouco
movimentado, o que me deixa à vontade no ambiente estranho.
Se existe alguma coisa melhor do que comida boa, eu desconheço.
O garçom me serve quatro sucos diferentes enquanto como, e quando
me levanto para me servir de novo, ele recolhe meu prato. Acho que até ele
se sentiu envergonhado do tanto que estou comendo e resolveu me ajudar a
não passar vergonha.
Quando volto com a segunda leva de comida meu lugar parece
intacto, dando a impressão de que nunca me sentei ali e comi o suficiente
para alimentar uma pequena família de elefantes.
Peço um coquetel cítrico para desenjoar e ainda me aventuro com
uma tigela de sorvete e iogurte grego, que se eu soubesse que estaria tão
delicioso, com frutos secos e fruta fresca cortada tão fininha que se desfaz
na boca, eu teria, com toda a certeza, pulado tudo que comi antes para
comer apenas isso o resto da vida inteira.
Tenho certeza que esse iogurte foi batido pelas mãos dos elfos
domésticos mais mágicos.
Respirar se torna difícil e decido que é hora de tirar um cochilo no
meu colchão de rainha, ou talvez eu durma na banheira. É isso, vou dormir
na banheira, servir um copo de vinho que nunca beberei, mas a foto mental
vai ficar linda.
Quando acordar, a Winter Wonderland será meu destino, andar um
pouco para poder comer tudo isso de novo amanhã antes de ir para o baile
de gala no museu de história natural e ver a queima de fogos.
Eu tinha planos com a sauna esta tarde e uma piscina de champanhe,
mas a jacuzzi vai ter que servir.
Me levanto em direção ao elevador e dou de cara com uma das
mulheres mais lindas que eu já pus meus olhos em cima. Ela mal me vê,
procurando alguém com o olhar, entro no elevador e vejo as portas se
fecharem para dois deuses gregos que a apressam e reclamam que ela está
demorando demais.
Sou tentada a impedir que a porta se feche para olhar por mais uns
segundos, mas não sou rápida o suficiente e a porta corta minha visão. Mas
ainda ouço a voz da mulher se defendendo.
— São apenas quatro da tarde. Ou você tem pressa ou perfeição, e eu
acordo todos os dias e escolho a perfeição.

As emoções da noite não parecem cessar, mesmo que eu tenha


decidido ficar no quarto e descansar esta noite. Escuto a sineta que marca a
presença de um funcionário na suíte tocar, alguns minutos depois, ouço o
barulho de novo, que indica que ele já se retirou. Me enrolo numa toalha,
que caberia eu e mais cinco de mim confortavelmente, ignorando por hora o
robe de seda pendurado no cabide e saio do banheiro.
Meu celular vibra e ao encontrá-lo na bolsa, tarde demais para
atender, e com muito pouca vontade de devolver a chamada, olho para o
envelope pequeno e delicado, com um aspecto caríssimo, que o funcionário
deixou em cima da mesa de vidro, vários arranjos de flores e algumas
caixas embrulhadas em papel celofane, uma parece ser um cesto de cartas
enroladas como se fossem papiros.
Preciso agradecer por não fazer parte das minhas funções responder
às cartas e emails dos fãs das histórias de Leona, eles são alucinados e sem
um pingo de senso comum.
Toco o envelope e o tecido de que é feito é gostoso, um courinho
polido e sofisticado, abro-o e leio o cabeçalho de um convite para uma festa
de aniversário.
Nenhum que eu vá aceitar, amanhã é véspera de ano novo e pretendo
usar todos os convites que já tenho para aproveitar os eventos mais famosos
de Londres, incluindo terminar a noite num cruzeiro para ver a queima de
fogos, e eu mal consigo conter minha felicidade.
“Louise Etienne e família” está escrito à mão, diferente do restante
do texto impresso na folha. Não me recordo de nenhuma Louise na lista de
contatos de Leona, mas o que chama a minha atenção é o cartão que sai do
envelope quando tento dobrar a carta e guardá-la de volta.
Nox.
Apenas, nada mais, um cartão de convite para entrada no Nox.
Antes que o surto faça todas as células do meu cérebro colapsarem,
voo para o quarto e abro meu tablet, agradecendo a mim mesma por
organizar tudo da forma mais metódica possível. Abro a pasta dos clubes
eróticos mais exclusivos do planeta.
Nox.
O clube de entretenimento adulto mais cobiçado do mundo. Com
sedes espalhadas por mais de trinta capitais e uma fila de espera de quase
três anos que diz mais sobre o lugar que o secretismo que permeia a sua
existência.
Passo a tela por um artigo que menciona a ausência de fotos não
oficiais no local.
Leona é muito mais bem relacionada do que eu antecipei, porque este
convite tem escrito proposta irrecusável em tudo que ele representa.
Será que ela vai ficar muito puta se eu for a essa festa? Bom, o que
ela vai fazer? Me demitir de novo? Não é como se eu tivesse muito a
perder.
O pequeno retângulo do mais fino metal queima na minha mão numa
provocação inquestionável, e eu sei o que é certo a fazer, mas pela primeira
vez na vida vou fazer o exato oposto.
Nada vai me impedir de ver o que há por detrás das sombras que
encobrem o clube de prazer. Ir a esse clube está com certeza no topo das
dez coisas que nunca sequer cogitei colocar numa lista porque não tive
tempo de desejar algo tão fora da minha realidade.
Talvez eu chegue lá e seja apenas mais uma espectadora, mas serei a
espectadora mais atenta que já pisou o chão daquele lugar.
Eu não tenho a menor condição de resistir a uma oportunidade como
essa. Leona terá que me perdoar.
Na verdade, um pensamento me ocorre e se instala em mim com
rapidez, tão insistente como a batida do meu coração:
E se eu não for uma espectadora? E se eu de fato conseguir me servir
de uma das experiências mais loucas da minha vida e fizer um relatório
verdadeiro pela primeira vez?
Talvez consiga convencer Leona a me dar uma segunda chance.
Com o cartão numa mão e o celular na outra, me atiro na cama,
nervosa, cultivando um poço de pânico a cada toque.
Gael é a pessoa certa a quem pedir um conselho. Eu posso ser louca,
mas não sou maluca. Será que posso ser presa por falsidade ideológica?
Continua chamando e nada de ele atender. Com certeza não, para isso teria
que assinar alguma coisa, eu tenho um convite e um cartão. Não faria
sentido ser presa. Será?
Um resmungo do outro lado da linha indica que Gael enfim me
atendeu, e meu coração sai pela boca antes das primeiras palavras
atropeladas pela ansiedade crescente já se transformando em enjoo.
Ele que lute, preciso de ajuda e de um assessor de putaria, e preciso
agora.
Verifico alguns detalhes na coordenação dos painéis inteligentes,
programados para seguir o roteiro da noite.
Cada parede é programada de forma individual para que todas
mudem ao mesmo ritmo. Ao longo do evento, as mesmas paredes que são
apenas tijolos, escuros como o breu, se transfiguram em gradeamentos de
luz neon vermelha, passam por imagens de amantes protegidos pela
penumbra, e explodem em várias experiências sensoriais como o vidro
fosco, dando a impressão de que conseguimos ver através delas quando na
verdade são imagens plantadas para incutir o máximo de sensualidade a
quem observa.
As paredes se moldam e acolhem cada show, fazendo parte dele,
interagindo de forma direta com os sentidos das pessoas. E à meia noite elas
se tornarão cascatas infinitas de luz, simulando o mais elegante dos shows
refletido em espelhos de água por todos os lados.
Tudo digitalmente manipulado para ser perfeito, cronometrado e
hipnotizante.
Nossas paredes são nossa maior exclusividade no clube, feitas todas e
cada uma delas por encomenda, programadas internamente e instaladas à
mão uma por uma, o conjunto cria um ambiente único e uma visão
esmagadora a cada experiência.
Cada andar conta uma história e dependendo do ponto dessa história
em que a pessoa começa a entendê-las, ela chega a uma conclusão diferente
do significado e da lógica por detrás da maneira como elas interagem com
as temáticas da noite.
A noite da virada é o único dia do ano em que todas as paredes
mostram a mesma coisa por mais de 20 minutos inteiros: o show de fogos
de artifício. Todo o sistema de som e climatização do clube se une à
tecnologia dos painéis para simular um show ao vivo que todos podem
assistir em simultâneo.
No resto do ano inteiro, um grupo de pessoas pode estar no clube no
mesmo dia, ao mesmo tempo, e se não estiverem na mesma sala, não terão
vivenciado a mesma coisa, e muitos dos nossos membros fazem questão de
colecionar esses momentos e circular por zonas do clube que não
necessariamente conversam com suas preferências sexuais, mas querem
descobrir como as paredes se comportam em cada ambiente, apenas para se
frustrarem ao perceber que mesmo repetindo temáticas, as imagens não se
repetem jamais, impedindo-os de conseguir contabilizar o quanto do clube
já vivenciaram e competir uns com os outros, já que ninguém sabe qual o
máximo possível, ou se existe máximo.
— Adônis, sua mãe chegou — Romeu, o mestre de cerimônias da
noite, se aproxima avisando. — Sigo as instruções dela para hoje, confere?
— Ele espera a confirmação ajeitando a gravata desnecessária que usa na
camisa aberta, exibindo o peitoral e abdômen trincado.
— Isso, ela vai apenas repetir aquilo que já combinamos, mas finja
que ela inventou a roda para que ela fique feliz e nós fora de problemas e
mudanças de planos.
— Beleza.
Louise Etienne anda pelo lugar como se lhe pertencesse, e na
realidade pertenceu um dia. Seu olhar de orgulho é engraçado. Ela sempre
foi uma mãe fora da curva, que desprezava meus méritos escolares e tratava
minha aparência como se fosse um carro forte carregando toda a sua
fortuna. Ela era exatamente o que chamavam de mãe de miss. A diferença é
que para mal dos seus pecados, não teve nenhuma filha mulher, mas isso
não a demoveu de nos criar para monetizar nossos corpos, e o fez de forma
exemplar.
Sebastian ainda teve a mão de ferro do pai na sua criação, mas eu sou
100% cria dela, sem interferências além das que eu mesmo criei. Bastardo
em todos os sentidos da palavra.
— O chefe de segurança já confirmou que todos os cartões dos meus
convidados estão ativados e liberados. Obrigada, querido. — Ela me
cumprimenta jogando dois beijos no ar e eu me recordo do convite que
mandei para Leona no hotel.
Sebastian vai comer meu ovo quando souber que procurei onde ela
estaria, ainda no caminho para o hotel enquanto ele dirigia em completo e
absoluto silêncio. Foi uma tentação maior do que eu seria capaz de suportar.
Saber que ela e a mamãe estavam hospedadas no mesmo lugar, era como se
o destino estivesse insistindo para que eu tomasse uma atitude, e eu nunca
fui de resistir muito tempo.
Tinha que pensar rápido, a estadia dela era curta e não queria enganar
meu irmão durante muito tempo, então assim que regressamos para o clube
preparei um cartão de sócia com o nome dela e mandei entregar na
recepção, junto com o convite da festa de aniversário. Ela era adorada por
minha mãe e as duas sempre se deram muito bem, assinei com o nome dela
esperando que Leona se sentisse tentada a estar aqui hoje.
— Onde está o seu irmão? Se escondendo de mim? — pergunta,
mapeando o lugar com o olhar.
— Tenho a certeza que sim — respondo, rindo junto com Sebastian
que se faz ouvir no intercomunicador que trago ao ouvido.
Talvez eu também devesse me esconder dele quando Leona aparecer
sem aviso, se ela vier.
— Ele sempre foi muito sensível — ela debocha, e eu não poderia
discordar mais, mesmo se quisesse.
Sebastian faz um som sarcástico e estala a língua. O
intercomunicador tem via dupla e ele pode escolher o que ouvir com o
controle remoto. Quando temos eventos sempre mantemos o nosso canal de
som aberto para que possamos acompanhar os passos um do outro em
tempo real.
— Se tem uma coisa que Sebastian não é, mãe, é sensível, eu sou seu
filho emocionado. Sebastian é feito da mesma essência que as paredes de
granito.
— Você que pensa, querido, não é porque você se apaixona por tudo
que anda e bate os olhos na sua direção, que você é mais sensível que ele.
Antes pelo contrário, ele se protege exatamente por ser fácil de quebrar.
Você apenas vive, poucas coisas te abalam. Quem manipula as leis do amor,
não teme nada. E você faz isso de um jeito espetacular, como quase tudo em
que coloca as mãos, devo acrescentar. Você não quebra, você se dobra, se
contorce e supera as dificuldades, sempre.
— Estamos trocando elogios, agora, por que eu tenho a impressão
que isso não é gratuito?
— Não. Apenas fatos. Você está com um aspeto muito melhor depois
da tarde de beleza. — Ela inspeciona meu rosto, satisfeita. — Quase parece
a criança perfeita que saiu de mim, mais um tratamento ou dois e estará
impecável. Eu tenho um pedido a fazer.
— Claro que tem. — Não me surpreendo, era expectável que ela
tivesse rasgando elogios usando frases inteiras sem mencionar a si mesma...
— Não seja pedante, ainda é meu aniversário.
— E é por causa disso que você não encontra Sebastian em lugar
algum esta noite, ele previu que a festa não seria sua única exigência e se
colocou a uma distância segura de você.
— Eu gostaria que você se exibisse um pouco — ela me pede,
afetada pelo que eu acabei de dizer.
— Defina exibir, mãe.
— Talvez eu tenha prometido para as filhas das minhas melhores
amigas que você se apresentaria para nós.
— Apresentar? Dançando? Eu tenho cara de gogo boy, Louise
Etienne?
— Tem cara, corpo, histórico e DNA. Além de todas as habilidades
necessárias que eu mesma garanti no seu currículo impecável. — Ali estava
um elogio verdadeiro, eles sempre envolvem algo que ela fez. — E por
favor, não faça essa cara de choque, eu sei que é fingimento, querido, você
gosta de ser exibido tanto quanto eu. Seus empregados são bem treinados,
mas não são você.
Concordo. É verdade. Tem uns dois meses que não me apresento no
clube, não que minha mãe saiba que eu me apresento com certa frequência,
que gosto disso, ou que meu irmão já tinha feito a mesma exigência ontem
quando revimos os planos para a noite de hoje depois de a trazer para visitar
o andar da festa.
Eu prometi manter a ela e a sua trupe entretidas e longe dos outros
andares. Todos deverão ser mantidos no primeiro piso, longe dos outros
membros, as equipes de serviço foram divididas para comportar a festa, que
está perfeita. Feita contra a vontade ou não, Sebastian nunca permitiria que
uma festa fosse menos que sensacional sobre o nosso teto e isso é visível na
decoração e nos preparativos de última hora que ele supervisiona
pessoalmente, além dos funcionários escolhidos a dedo e na programação
da noite em si. Uma versão leve, descontraída e elegante de tudo que o
clube tem para oferecer.
A verdadeira festa rola nos andares inferiores.
— Ano que vem, não espere presentes, você está usando todas as
suas cartas hoje.
— Posso sobreviver com isso, e Adônis, apenas se exiba, não
coloque um anel na mão de nenhuma delas, eu não quero mais parentes
adicionadas à nossa árvore genealógica.
— Vou fazer o meu melhor — prometo, sorrindo enigmático.
— O seu melhor é excelente. — O olhar dela se desvia do meu,
avistando a chegada dos seus convidados que pareciam estar esperando a
hora indicada no convite para começar a entrar um atrás dos outros como
formigas numa missão.
O salão enche com rapidez e dou a ordem para que os monitores
sejam acionados e as paredes comecem a mudar.
— Perfeito como sempre. — Ouço Sebastian ainda dentro do meu
ouvido. — Parabéns pelo trabalho. Você devia aparecer mais vezes, não
precisa esperar ser convocado para sair da batcaverna. — O avisto se
aproximando ainda de longe, mantendo a posição da nossa mãe sobre
controle.
— Acho aterradora a forma como ela te convence a se prostituir na
própria festa de aniversário e você aceita sorrindo. Sabe que ela quer que
coma as filhas das amigas delas para poder se fazer de íntima das mulheres
para seja lá que inferno for que ela está tramando, não é?
— E você, por que me prostitui, Sebastian? Até onde eu sei, faço a
mesma coisa para você, pelo menos uma vez por mês aqui no clube.
— Está no seu contrato. Todos os membros e sócios se apresentam
para alguma ação do clube, você conhece as regras. Seria muito difícil
manter o secretismo do lugar se todos os membros não tivessem rabo preso
em igual medida, nós simplesmente mostramos que não somos exceção.
Qualquer pessoa entra aqui dentro sabendo que qualquer limite pode ser
quebrado e não vazará para a imprensa desde que as regras de segurança
sejam respeitadas. — Ele dá de ombros já na minha frente.
— Então, é isso. Você e a mamãe não são diferentes nesse ponto. Ela
também quer comprometimento em troca da exibição da minha figura, que
preciso acrescentar, é formidável. — Dou uma piscadinha para ele, que
julga minha descontração, meu irmão preferia que eu me importasse, que
me recusasse, que fincasse o pé no chão e dissesse que eles não mandam em
mim.
E eles não mandam, minha mãe tem razão quando diz que eu gosto
de me exibir, não é esforço algum dar um show para as mulheres presentes,
hoje ou em qualquer outro dia, como ela sempre diz: me ensinou certinho.
— Ela te treinou tão bem que às vezes me pergunto como conseguiu
sair da teia que ela costurou e ser o homem que se tornou.
— Eu sempre gostei de experimentar coisas novas, sem preconceito.
Não me aborrecia fácil como era de esperar pela minha idade. O que
quisessem me ensinar eu treinava até fazer na perfeição e frequentemente
continuava fazendo, tinha interesse genuíno e me orgulhava de tudo, fossem
aulas de dança moderna, pole dance, ou engenharia de sistemas e
programação de jogos.
— Eu já me perdi na quantidade de coisas nas quais você é bom
desde que você tinha dezoito anos.
— Muitas. Eu sou muito bom em muitas coisas — afirmo com um
sorriso sacana. Ele dá um tapão forte no meu ombro.
— Você que perguntou — reclamo rindo, protegendo o abdômen, o
próximo local a ser socado.
— Eu não perguntei nada, seu otário. — Ele me olha de cima a baixo
e sacode a cabeça.
— Se conta pra alguma coisa, eu não seria metade disso sem você,
você financiou tudo, eu só sou bom por sua causa.
— Você sempre se virou muito bem, e mamãe nunca deixaria faltar
nada pra nenhum de nós. Ela é louca, mas não é idiota, sempre recebeu uma
pensão gorda do meu pai. Ela não me vendeu por pouco.
— Sim, mas nem ela poderia patrocinar a minha liberdade. Nem
mesmo Louise e seu dom para fazer dinheiro do nada poderiam financiar
isso. Talvez eu pudesse, alguns anos depois do meu primeiro curso, mas
nunca teria a autonomia que tive, seria obrigado a aceitar qualquer uma das
propostas de emprego restritivas que recebi. Não teria chegado aonde estou
hoje, era muito provável que fosse infeliz programando para algum velho
rabugento encher o cu de dinheiro.
— Graças a Deus que esse velho rabugento sou eu. Você transformou
o Nox no que há de melhor. Foi o meu melhor investimento — ele garante,
com uma piscadinha.
— Podres de ricos. Com ou sem dinheiro da mamãe e do seu pai.
Isso é tudo. — Procuro-a entre as pessoas que exploram cada cantinho ao
seu redor, tocando os painéis que agora refletem pessoas e sombras que
parecem reais até que desapareçam e se fundam noutra coisa diante dos
olhos mais atentos. — De um jeito ou de outro, eles nos fizeram tudo que
somos — concluo com carinho. Não me ressinto de nada na vida e me
considero uma pessoa de sorte por isso.
— Sim — meu irmão concorda, para minha surpresa.
— Um brinde — sugiro. Alcançando um balde com garrafas à
disposição dos convidados no intervalo entre cada sofá e sirvo dois copos
de uísque sem gelo.
— Etienne. — O intercomunicador soa em meu ouvido e no de
Sebastian também. — Ela está aqui — o segurança anuncia e eu fico tenso
de imediato. — A próxima a entrar.
— Quem está aqui? — Sebastian pergunta, arrumando o auricular na
orelha.
Avisei os seguranças para receber Leona como uma rainha quando
chegasse e Sebastian vai acabar com a minha raça quando a vir entrar, sem
aviso. Me viro com a expectativa a mil, por mim e por ele e quando ela
entra... Não é Leona.
Espero uma e outra pessoa passar pela porta e nada.
— Onde ela está? Em que andar a deixou? — questiono ansioso.
— Nesse mesmo, chefe. Vestido prateado, corrente de brilhantes de
volta tripla na coxa, cabelo preso e salto alto com a sola vermelha — ele
descreve a mulher que eu vi entrar. — Ela acabou de passar.
Não sei quem ela é, mas se entrou usando o nome de Leona, pretendo
descobrir antes do meu irmão perceber o que fiz e querer usar minha fuça
para esfregar o chão da rua.
Dou uns passos adiante, determinado, e Sebastian me segura pelo
braço antes que possa avançar mais na direção da morena hesitante que é
meu alvo.
— O que está acontecendo? Quem é ela? — ele pergunta,
incomodado pela minha expressão.
— Hum, ninguém que você conheça — respondo, evitando mentir,
satisfeito com a saída que encontrei.
— A próxima Sra. Etienne? — ele arrisca, sua sobrancelha esquerda
arqueando para mim.
Queria saber porque todo mundo sempre assume que qualquer
mulher que atravesse meu caminho duas vezes será minha próxima esposa.
Eu não me casei assim tantas vezes.
— Talvez — respondo, aproveitando a deixa.
— Por favor Adônis, de novo não. — Ele esfrega a testa e bufa
apontando o dedo para mim. — Se me convidar para padrinho de novo, eu
garanto que mando te internar antes de conseguir dizer sim, aceito — me
ameaça, e eu sei que assim como nas cinco vezes anteriores, estaria ao meu
lado como sempre esteve.
Reclamando o tempo inteiro? Talvez, mas estaria lá, dividindo o altar
com minha mãe desgostosa pelo nível de exclusividade que eu pareço
disposto a entregar a alguém de graça.
Lotada. Toda a cidade está abarrotada de gente, os metrôs parecem
transbordar de corpos de todos os tipos e todos os níveis de álcool no
sangue. Chegar a Camden é uma gincana e por pelo menos sete vezes
pensei em desistir. Afinal, o que estou fazendo?
O nervoso me trava de novo enquanto me esgueiro por entre as
pessoas que andam em grupos e se chocam contra mim vez por outra.
Obrigo minhas pernas e meus dedos, que posso jurar já terem iniciado o
processo de gangrena há pelo menos uma hora. Não consigo sentir nenhum
dos meus dedos dos pés, é como se no lugar dele tivesse nascido uma pata
de camelo.
A minha determinação se esvai um pouquinho a cada metro que fico
mais próxima do endereço.
E se eu não conseguir entrar e for desmascarada logo na entrada do
clube?
Pior, e se eu conseguir e for expulsa?
Pelo menos terei visto o interior do lugar, já que não encontrei uma
única fotografia vazada, e as paredes da minha suíte são testemunha de que
tentei. Tentei durante muito mais horas do que deveria, tendo em conta que
cada segundo que passava trancafiada naquele quarto era uma experiência
que perdia.
Listei pelo menos 33 coisas diferentes que poderia ter feito naquela
noite, e de manhã ainda estava ligada no 220. Meu irmão me abandonou
falando sozinha depois de horas lendo várias notícias sobre o Nox,
anotando informações importantes como se fosse uma maníaca.
Eu sou formada em Harry Potter, com certeza existiria uma senha
para entrar naquele lugar. Se nas masmorras que frequentei era preciso uma,
aqui, a porta deve ser guardada por gárgulas, no mínimo.
Esfrego os punhos dentro dos bolsos do casaco, tentando aproveitar
ao máximo a temperatura dos aquecedores de mão milagrosos que dão de
brinde no hotel. A ponta do meu nariz já foi com Deus e minhas orelhas
devem estar roxas.
A mulher do Google Mapas me diz que faltam apenas cinquenta
metros e eu paro no meio da rua, provocando um mini acidente em
sequência das pessoas que vinham atrás de mim e não foram rápidas o
suficiente para se desviar.
Me desculpo e engulo seco, repensando uma última vez antes de
chegar.
Seu destino é à sua direita.
Perdão?
À minha direita não tem nada. Ando mais para a frente prestando
atenção nas fachadas e todas elas pertencem a lojas ou estúdios. Confiro
uma por uma até ao final da rua, e volto.
Seu destino está à sua esquerda.
Tudo que há à minha esquerda é um paredão preto. Contorno a
esquina procurando alguma entrada nas traseiras, dou a volta ao que nem
parece ser um edifício, apenas uma construção não identificada e retorno
sem sucesso.
Começo a dar pulinhos numa perna só, depois na outra para me
manter descongelada enquanto penso. Estou certa de que é nesta rua, talvez
numa entrada alternativa.
Atravesso a rua para ver as coisas de outra perspectiva, obviamente,
me parece tudo igual, porque é de fato igual, só me movi uns metros.
Um casal se aproxima do paredão preto e para sorrindo. Tiram
alguma coisa do bolso e observo quase em choque a parede se abrir como
um portão pesado e imponente. Não consigo ver muita coisa porque ela
volta a se fechar antes de abrir totalmente.
As pessoas na rua parecem não reparar que a parede se mexeu e eu
fico com vontade de parar alguém para contar. Quer dizer, a parede se
mexeu! A parede é um portão!
Volto para o lado certo da rua e observo mais atentamente a estrutura
do portão, nenhuma ranhura à vista, ninguém imaginaria que esta parede
abre.
Pego meu cartão no sutiã, tudo que me faltava era ser assaltada e
perder esse vale de milhões, não literais, mas com certeza esse pequeno
pedaço de metal vale algumas dezenas de salários meus.
Ao aproximar o cartão da porta, caminhos de luzes que imitam veios
luminescentes aparecem no fundo preto e o portão se abre mais uma vez
para mim. Coloco a cabeça para dentro, desconfiada, mas não vejo uma
viva alma. Apenas um elevador.
É agora que vão me pedir uma senha. Parabéns, Sabrina, você vai
conseguir chegar ao elevador do Nox, já pode colocar no currículo esse
feito notável.
O portão se fechou tão silenciosamente atrás de mim que só percebo
quando sinto calor, uma lufada morna e aconchegante abraça meu corpo
fazendo minha pele formigar. Tento não me mexer para não perder aquela
sensação gostosa e ela não se vai. Me deixo descongelar como um peru no
micro-ondas, preso e sem rodar.
Talvez eu devesse esperar que mais alguém chegasse para saber qual
a senha do elevador.
Dou alguns passos, já me sentindo bem melhor, me arriscando a tirar
as mãos dos bolsos e reconhecendo as extremidades dos meus dedos dos
pés, todos vivos, do dedão ao mindinho.
A porta do elevador se abre sozinha e eu me assusto, um painel do
teto ao chão se acende e começa a falar comigo.
As paredes estão falando comigo. A revolta dos robôs está próxima,
com certeza.
Palavras aparecem na tela me instruindo a entrar. A razão pela qual
eu obedeço está além da minha compreensão, mas o fato é que entro e
espero que algo excêntrico aconteça. Sei lá. Talvez o painel me peça para
ficar nua ali mesmo.
Sou atravessada por várias luzes infravermelhas enquanto sinto a
caixa de aço descer, na tela a palavra: Liberada pisca para mim e a porta se
abre. Ou pelo menos ouço o barulho da porta abrindo. Só percebo que foi
atrás de mim, e não à minha frente, quando ouço:
— Por favor, senhorita. — E só não fico patinando em merda, por
conta do susto, quando me viro, porque sei da reputação deste lugar. Mas se
o homem enorme e encapuzado diante de mim dissesse “é aqui que você
fica sem órgãos” eu não me surpreenderia, mas ele apenas me dá a mão e o
outro homem, com um capuz tão elegante quanto o dele, que me impede de
ver sequer um centímetro do seu rosto, me oferece a mão também.
Aceito as duas antes de perceber minha burrice e retiro as mãos para
pegar o convite, que entrego com uma rapidez estúpida na mão do,
porteiro? Segurança? Recepcionista? Nenhum crachá à vista para que eu
decida.
— Não será necessário, seu cartão já foi identificado, Senhora, agora
precisa apenas nos seguir até ao seu andar.
Novamente as mãos me são oferecidas e aceito, eles me levam por
um corredor que parece feito sob medida para que eles ladeiem
respeitosamente, o corredor não parece diminuir conforme nossos passos
avançam, mas a luz vai ficando cada vez mais fraca até que se torne
totalmente em breu.
O homem ao meu lado me indica a fraca luz da pulseira em seu
pulso, e eu devo estar ficando louca por ainda não ter saído correndo deste
lugar a sete pés.
Depois de aproximadamente três minutos andando, outra porta se
abre e sou entregue a um segundo elevador, onde as luzes se acendem de
volta.
— Aproveite a sua noite, Senhorita — ambos dizem em uníssono.
Um arrepio me percorre lembrando os gêmeos. Já me incomodava
quando meus irmãos faziam isso, que dirá esses dois homenzarrões sem
cara.
A porta se fecha e eu já me viro, esperando que se abra atrás de mim
de novo, mas claro que estava errada.
O som da festa me recebe e me viro com o coração nas mãos.
Ninguém diria que passei meses frequentando os lugares mais inusitados
que Leona conseguiu encontrar. Mas alguma coisa no fato de ser, de alguma
forma, supervisionada e estar a trabalho, independentemente das
circunstâncias, me fazia sentir segura.
Aqui, sou apenas uma ladra de cartões prestes a ser descoberta,
burlando um clube de prazer. Cada uma dessas palavras me soa como um
ano extra de cadeia. Traço uma linha reta na cabeça e a sigo como se
soubesse o que estou fazendo, antes que eu desista e volte para trás.
Nem olho muito ao redor, apenas caminho, bem devagar, de cabeça
erguida e um sorriso contido. Paro estrategicamente junto a um pequeno
grupo de mulheres que parecem tão excitadas quanto eu estaria se essa
fosse a minha primeira vez aqui. Escuto atentamente o que dizem, tentando
aparentar fazer parte da conversa para quem passa por mim, sem que elas
percebam o que estou fazendo.
— Eu não conheço ninguém aqui, vim com o convite da minha mãe,
não perderia essa festa por nada — uma das mulheres grita, alto o suficiente
para ser expulsa e isso me faz relaxar um pouco. Posso usar essa deixa para
mim, quantas pessoas nessa festa conhecem Leona? Ela vive quase reclusa
além dos eventos literários que é obrigada a ir por contrato.
Por um momento, me permito então apreciar a estética do lugar,
esquadrinhando cada centímetro de superfície ao alcance da minha vista.
O espaço é enorme e só posso admirar a sacada que é o fato de toda a
construção ser subterrânea. Genial. Nenhuma indicação do que poderia
encontrar, falsa ou fantasiosa, me preparou para estar aqui.
Quase bebo os detalhes com atenção, desde os sofás, todos de
formatos e texturas diferentes, mas ornando como se tivessem sido
escolhidos a dedo para dar a impressão de que tudo é exclusivo e nada se
repete.
Os copos e as taças nas mãos das pessoas também são de diferentes
formatos, mas ao invés de parecer caótico, parece perfeitamente organizado,
tudo da mesma cor. Um vermelho tão profundo quanto uma cor que não é
preto pode ser. Os sofás também e praticamente todos os móveis do lugar.
Noto as paredes se movendo e pisco duas vezes, percebendo que cada
tijolo exposto tem o brilho profundo do carvão em brasa, dou um passo
querendo ver mais de perto.
— Quem é você? — O hálito quente na minha nuca faz algo no meu
corpo tremer e tenho que acomodar essa sensação antes de ser capaz de
elaborar uma resposta.
Não se passaram nem dez malditos minutos e já estou em vias de ser
desmascarada.
— Leona — respondo sem pensar e me arrependo imediatamente.
Droga!
A risada pesada e baixa, abafada pela música, que não é alta o
suficiente para camuflar o som, faz cada célula do meu corpo reagir à
presença do homem diante de mim.
— Você não se parece com uma Leona. — Persigo o curto e quente
caminho que sua língua percorre, umedecendo o lábio inferior antes de
sorrir.
Mascaro meu erro com uma expressão de desafio que já usei mil
vezes antes. Sua proximidade informal paralisa meu corpo, mas minha boca
reage.
— E como uma Leona se parece? — pergunto atrevida.
O medo nunca levou ninguém a lugar algum, se eu for expulsa, que
seja. Eu não queria um ano emocionante? Pois então, vou poder colocar a
noite de hoje na minha lista das viradas de ano mais surpreendentes.
Não que seja alguma surpresa que eu seja expulsa, a única coisa que
me admira é de fato ter conseguido entrar.
— Loira, alta, pernas longas, uma trança grossa, cabelo longo — ele
descreve exatamente as características de Leona e meu estômago começa a
gritar, mas meu sorriso sonso se congela no meu rosto, enquanto o moreno,
dono de olhos cor do ártico, parece levar alguns segundos para completar
seu raciocínio, ainda sorrindo despreocupadamente. — E pernas torneadas
— ele completa balançando a cabeça, satisfeito com a sua descrição, me
analisando sem disfarçar.
A cabeça dele recai para o lado direito antes que sacuda os ombros
descartando sua própria fala.
— Ou talvez, ruiva, de olhos verdes, quem sabe? — ele completa,
dando de ombros mais uma vez, para o meu completo e absoluto alívio.
Ele não conhece Leona. Eu posso fazer isto. Está tudo bem. Primeiro
round vencido.
Um vislumbre de familiaridade me percorre. É a segunda vez que nos
encontramos. Ele é um dos deuses gregos que vi de relance no hotel, de
dentro do elevador.
É apenas um cara rico flertando com uma garota qualquer na última
noite do ano.
— E com o que eu me pareço? — provoco, sentindo mais segurança
agora.
— Qual a sua comida preferida?
— Macarrão com queijo — respondo entre risadas.
— Hum, não. A minha comida preferida é jujuba — ele me informa,
sério. — Você se parece com um saco de jujubas — decide com ar
divertido, me queimando com o olhar.
— Não sendo um saco de batatas, já estou no lucro.
Ele olha através de mim e sei que mereço uma salva de palmas no
meio da minha cara. Um saco de batatas? Sério que essa foi a coisa mais
espirituosa que consegui pensar para conversar com um homem desses?
Alguém dá um tiro no meio da minha testa e acaba com esse
sofrimento que é ser uma imbecil, eu imploro.
— Querido, por favor — A mulher mais bonita do planeta me avalia,
me vendo pela primeira vez verdadeiramente, embora seja a segunda vez
que nos cruzamos. — Vamos, quero te apresentar a algumas pessoas, elas
estão aos prantos para te encontrar finalmente.
— Se me permite… — Ele se dirige a mim, ignorando-a, esperando
que complete com meu nome e eu o faço sem hesitação.
— Sabrina — respondo a verdade num impulso. — Pode me chamar
de Sabrina — completo, esperando que não me peça explicações.
— Sabrina. — Ele acena levemente com a cabeça dizendo meu nome
devagar como se provasse meu sabor.
Sinto a vermelhidão invadir meu rosto e sou salva porque sua atenção
é requerida novamente.
— Vamos logo, querido. Quero que elas te conheçam antes do show
— ela avisa, entrelaçando um braço ao dele, andando ao seu lado e
encarando as pessoas com o nariz empinado, o tratando como se exibisse
uma peça de arte.
Quando os perco de vista, em meio a um grupo de outras mulheres
percebo:
Ele não me disse seu nome.
Sair de perto dela, carregado pela minha mãe, deixa um gosto amargo
na minha boca. A garota é no mínimo refrescante. Seus gestos nada
posados, o rosto gritando seus pensamentos para quem tiver dois segundos
para olhar com atenção. O jeito que a boca retorce se recusando a proferir
palavras mentirosas, seria cômico se não fosse tão fofo.
Riso e carinho. Ela parece ser esse tipo de pessoa. E me pergunto o
que terá a ver com Leona. A mentira ensaiada de se fazer passar por ela já
caiu por terra e a verdade é que não preciso que me conte para descobrir.
Com certeza é alguém próximo da Leo e com a coragem de dois feijões,
dado o estado de nervosismo por mentir sobre seu nome. Ela ainda não
tinha proferido a última sílaba de Leona e seus olhos já se arregalavam em
pânico.
As reações silenciosas e exacerbadas me fizeram ter vontade de
brincar com ela. Ver de perto com quantas mais caras e bocas ela é capaz de
me surpreender.
Depois.
Mais tarde.
Ela não vai sair daqui sem que eu saiba. Me certifico disso avisando
os seguranças. Leona pode não ter dado o ar da sua graça, mas o
presentinho que veio em seu lugar me deixou intrigado.
— Vamos querido, seja simpático com as visitas — minha mãe fala,
agarrada ao meu braço como se eu fosse sair correndo quando ela me
entregar aos lobos, o que não é do meu feitio.
Cinco mulheres que deveriam ter idade para ter juízo, vestidas como
se tivessem acabado de sair de uma liquidação de grife e maquiadas de
forma condizente, me olham com volúpia.
Nenhuma delas parece ver além do meu corpo, algumas se dividem
entre mirar a minha boca e o meu pau, evitando meu olhar. A única coisa
que não consigo camuflar, de todos os meus gestos pensados e treinados
para performar uma encenação elegante, meus olhos nunca seguem o
roteiro. E posso sentir o estalar na pele de cada uma delas o desdém que
lhes dirijo. Claro que o confundem com desejo, e eu posso trabalhar com
isso.
— Sejam bem-vindas ao nosso clube — cumprimento, olhando
dentro dos olhos da única que parece se destacar ligeiramente.
É a que se posiciona à frente das outras e a que falava mais alto
quando nos aproximávamos. Deve ser a líder daquela torcida sem sal. Elas
nem deveriam estar aqui, parecem demasiado novas para as regras do clube,
mas finjo que não vejo.
Sebastian atearia fogo na minha mãe em pleno clube se sonhar que
existem menores de idade aqui. Acredito que ela também saiba disso, então
nenhuma deve ter menos de 18 anos, mas com certeza não aparentam ter
mais de 21, como manda nossa regra número um, e um arrepio de
incômodo me percorre ao pensar no fim do mundo que vai ser se meu irmão
perceber essa merda.
— Diana, encantada — ela responde, quase rebolando na minha
frente. Se fazendo mais alta, alinhando a postura e empinando os seios na
minha direção. Uma reação expectável que acolho como se me agradasse.
Lhe dedico um aceno de cabeça e percorro seu corpo lentamente,
sentindo a tensão das outras, que observam a cena, aumentar. As
respirações suspensas e expectativas altas ficam claras quando entreabro a
boca ligeiramente e aperto os lábios para ela. Depois repito com as outras,
mas todas de uma vez, sem direcionar o olhar a nenhuma em particular.
Esse gesto costuma deixar evidente, sem gastar nenhuma palavra, que eu já
tenho uma escolhida e as outras devem esperar a vez delas.
— A festa está perfeita — Diana elogia e minha mãe sorri, erguendo
os ombros, como se ela estivesse apenas dizendo o óbvio.
— Nosso objetivo é agradar — completo, cínico.
O mestre de cerimônias se aproxima de nós e eu o apresento:
— Romeu, nosso MC. Acredito que já tiveram a oportunidade de vê-
lo ou pelo menos de ouvir sua voz se foram apresentadas à secção de
palcos.
— Perdão por interrompê-los, mas vou precisar roubar Adônis por
um momento — ele avisa, colocando a mão no meu ombro enquanto fala
diretamente para o pequeno grupo atento. — É por uma boa causa, eu
prometo que não ficarão decepcionadas — garante com uma piscadinha.
— A hora do show! — Mamãe anuncia batendo com os dedos da
mão direita nas costas da mão esquerda numa salva de palmas esnobe.
— Espero que se divirtam, este show foi feito para vocês — anuncio,
e é o golpe de misericórdia.
É desanimador que seja tão fácil impressionar tantas garotas em
simultâneo. Meia dúzia de olhares calculados e meias-palavras mentirosas é
o que basta.
Me retiro com Romeu, que repassa comigo as deixas da apresentação
para eu poder cronometrar minhas entradas com as interferências
programadas do público.
— Você quer escolher suas mulheres? — Duas serão chamadas ao
palco durante o show e nunca a expressão matar dois coelhos com uma
cajadada significou tanto para mim.
— Diana e Sabrina. Eu quero a Diana primeiro, sem mãos. E Sabrina
livre.
— Me aponte a Sabrina quando ela se sentar, não me recordo de
quem seja.
— Fácil. A única que não vai estar gritando quando eu entrar.
— E me deixe adivinhar: Você reclama quando as mulheres são
fáceis, mas se ressente das difíceis.
Apenas sorrio em resposta, porque é quase isso. Afinal, eu sou sim,
filho da minha mãe e gosto de ser bajulado, mas também gosto da emoção
da caça.

No camarim, imediatamente atrás da coxia do palco doze, os outros


dançarinos do número que vamos apresentar estão terminando de se vestir.
Todos com o mesmo moletom, que por baixo esconde os mais diversos
adereços. Quando as roupas saem, cada um dos nossos looks é pensado para
agradar um tipo de pessoa. Inclusive homens, embora este seja um show
particular para mulheres.
O arnês que Derek traz ao peito não marca sua musculatura no lugar
correto, ele fica parecendo muito grande para a peça que o aperta de um
jeito tosco. Emma o ajuda a tentar abrir o fecho duplo e puxar a haste do
elástico extra, mas ainda assim não funciona.
— Apenas tire o arnês, Derek. Use um colete — ordeno e ele se
encolhe. Eles odeiam se apresentar comigo porque aparentemente eu sou
um filho da puta controlador. Não é verdade, apenas acho que se você vai
fazer algo, deve fazê-lo corretamente, ou não fazer, de todo.
— Quem vai para a gaiola? — Emma questiona segurando dois kits
de cabos de suspensão.
Thierry e Juan se aproximam, parando em frente a ela e abrindo as
pernas ainda sem calças. Eles seguram o pau e as bolas de modo protetor.
Emma é conhecida por ser carniceira e já arrancou a pele de alguns
dançarinos com as unhas desnecessariamente grandes.
— Cuidado, Tigresa — aviso quando a vejo bater com as unhas na
coxa de Thierry. — Não esqueça que você está de sobreaviso. Seu chefe vai
chutar seu rabo daqui se escutar mais uma única reclamação sobre suas
garras. Não o teste.
— Você sempre coloca o peso do poder nas mãos de Sebastian, mas
todos nós sabemos que a mão de ferro nesse lugar é você, docinho — ela
responde atrevida.
— Está errada, se eu tomasse esse tipo de decisões você teria sido
demitida na primeira vez. As regras sobre extensão de unhas neste clube são
claras. Curtas, salvo se necessário montagem para alguma exibição. No que
me diz respeito, você escolhe desobedecê-las diariamente chegando aqui
com essas mãos de tesoura.
Machucar seus colegas de trabalho não é um acidente, é premeditado.
— Então devo assumir que sou a favorita do seu irmão? — ela se
gaba, arranhando de leve Juan, já preparado enquanto conversamos.
— Deve assumir que não é a minha favorita. — Pisco os olhos
lentamente e não sorrio. — Eu nunca especifiquei a qual dos chefes estava
me referindo. Na última vez que conferi, éramos dois.
— Sim, senhor. — Ela assente, sentindo o tom descontraído da
conversa mudar.
Emma se levanta e sai pegando todos os adereços experimentados e
não usados. Eu termino de afivelar a correia que levo na coxa e estamos
prontos.
O placar de tempo mostra que temos dois minutos antes de entrar,
fazemos uma fila e passamos pelo chuveiro de perfume. Literalmente um
chuveiro, mas em vez de jorrar água, jatos de uma bruma suave com uma
fragrância tipicamente masculina perfumam nossa pele ao passar.
A voz de Romeu se torna mais alta quando nos posicionamos
imediatamente atrás do palco, Thierry e Juan entram nas gaiolas suspensas
a poucos centímetros do chão.
As luzes se apagam totalmente, Romeu nos anuncia, a plateia se
incendeia e os gritos se unem à música. A parede que nos protegia sobe e
luzes partindo dos nossos pés se acendem, nos revelando e arrastando a
iluminação até ao teto.
Todos os painéis da sala se tornam parte da nossa apresentação,
começando pela direita, refletindo espelhos perfeitos de nós. A sensação de
que há vários grupos se apresentando numa versão 360 graus leva as
mulheres à loucura, tentando acompanhar tudo ao seu redor.
Toda a sala é agora extensão do palco, as luzes se tornam
intermitentes, obedecendo à batida da música grave, e um holofote se
acende individualmente em cima de cada um dos strippers. Um de cada vez,
enquanto Romeu continua suas apresentações individuais.
Eu sou o último, e o primeiro, o feixe de luz muda de cor sobre a
minha pele e fragmenta, se abrindo num paredão que percorre os corpos de
todos os homens no palco como uma rajada de vento faria.
Os paredões nos refletem e Romeu se retira do palco ao som
ensandecido das convidadas. Meus ouvidos se tornam surdos com os gritos,
e nós ainda nem começamos.
Encontro Sabrina como a esperava, os olhos grandes e angulosos
vidrados, atentos, as coxas tensas e as mãos cruzadas com ansiedade em
cima delas. E uma vez que ponho os olhos nela, faço deles uma presença,
provocando a sua pele durante toda a apresentação.
Adônis. Ouvi seu nome da boca das mulheres gritando pedidos que
até o diabo desconfia. Não posso me fazer de rogada, se fosse um
centímetro mais desavergonhada pediria o mesmo. Ninguém se aproximava
do palco sem ser punido. Sempre que alguma das mulheres se aproximava
demais, as luzes começavam a se apagar, cortando a vista impactante que
era ver aquele pequeno batalhão de homens malhados e cheirosos se
exibindo.
Não era um show qualquer. Eu já vi alguns shows de strip,
normalmente é tudo sobre, foda o ar, os objetos ao redor, as pessoas, as
cortinas, as luzes. Simule sexo ao vivo e vai que é tua, campeão. As roupas
de velcro também eram de uma cafonice sem limites, e as tangas, meu
Deus, se é suposto alguém sentir tesão vendo um macho de tanga, devo ter
vindo com as configurações todas erradas, porque nenhuma gota de
excitação era produzida em meu corpo com esse tipo de visão.
Mas hoje estava pagando a língua e definitivamente pagando pau
para Adônis. Toda a coreografia era envolvente, sensual e solta. A
organização entre eles e a sincronia com os painéis era surreal, não me
restava opção a não ser apreciar completamente surpresa e impactada.
A música por si só já simulava alguns arquejos e gemidos, que
coincidiam com momentos em que as luzes recaiam sobre os gogo boys
como se pesassem, como se os tocassem, como se nos induzissem a tocá-
los, evidenciando o que estávamos perdendo.
As duas gaiolas rodavam lentamente e os dois homens que se
apresentavam lá dentro só podiam ser profissionais circenses. A força, os
braços, e as coxas, os tipos de acrobacias e como conseguiam tirar a roupa
sem perder um pingo de sensualidade enquanto davam passos firmes num
chão gradeado, era hipnotizante.
Consegui me focar neles, mas em momento nenhum consegui me
libertar da sensação de ter Adônis me secando. Ele só podia estar fazendo
de propósito. Não importava em que parte do palco estivesse, em qual
ângulo ou posição, eu sentia como se estivesse dançando só para mim.
Meus mamilos gostavam da atenção, minha roupa não. Tinha a
sensação de que quando me levantasse a prova da minha excitação
crescente estaria estampada na minha poltrona.
Estava apertando as pernas juntas, querendo sair dali o mais rápido
possível, mas não queria me levantar e chamar atenção. Para sair, tinha que
passar no meio do corredor que se iluminava fortemente sempre que alguém
pisava ali.
A mulher mais bonita do mundo era a aniversariante. Também ouvi o
nome dela, quando a parabenizaram pelo desempenho de Adônis. Eu não
sou preconceituosa, mas senti um relampejar de nojo ao entender que ela
pagava por ele. E quando entendi que ela o trouxe ali para se exibir para
todas aquelas mulheres de propósito, meu estômago se revolveu.
Eu entendia. Juro que sim. Ele é lindo, gostoso, másculo, intenso.
Cada um dos gominhos do seu abdômen trincado pede por favor para serem
lambidos e não sei se seria alguma vez capaz de negar alguma coisa que
aquele homem me pedisse de olhos abertos. Porque seu sorriso pode ser
deslumbrante, e o desenho dos lábios desafiam as proporções divinas, mas
os olhos... Eram segundas mãos que varriam e esmagavam tudo por onde
passavam. E era assim que me sentia agora, com ele olhando diretamente
para mim, suando, com a respiração entrecortada. Eu me sentia apertada,
queria que me apertasse, porque sentia a presença do seu toque mesmo que
estivesse a metros de distância e isso estava me enlouquecendo.
O magnetismo do seu olhar me fazia prisioneira e eu me perguntava
se era assim que se sentiam todas as mulheres naquele lugar.
Algumas calcinhas e sutiãs foram atiradas pelas minhas colegas de
fila e decoravam o chão do palco. Fiquei mortificada quando a mulher à
minha direita beijou a própria calcinha e atingiu Adônis com ela, enquanto
ele rebolava bem próximo do chão, nos presenteando com a visão do seu
corpo perfeitamente esculpido na linha dos nossos rostos.
Eu já tinha visto homens cheirosos, mas puta merda, o cheiro deles,
quando se moviam rápido chegava até mim e me deixava com água na
boca. Como que até o cheiro dos caras podia ter um apelo erótico e carnal?
As imagens do painel atrás do palco se enevoaram e ficaram pintadas
de vermelho, uma espécie de gradeamento surgiu e a voz do mestre de
cerimônias, que eu não via mais em lugar nenhum, soou atrás de mim.
Ele trazia uma garota pela mão e a dirigia ao palco, logo uma cadeira
apareceu para que ela se sentasse.
Meu pai amado. Eles dançariam para ela, tocariam nela, meu coração
batia no peito invejoso. Minha buceta pulsava na calcinha inconformada.
Sacudi a cabeça tentando me livrar daqueles pensamentos, sabendo que
cairia dura de vergonha se tivessem escolhido a mim e arruinaria o show,
porque teria que ser carregada para fora do estabelecimento de ambulância.
A garota teve pouca sorte, no entanto. Assim que tocou Adônis, que
se aproximou dela primeiro, suas mãos foram amarradas atrás das costas. A
rapidez com que ele a imobilizou me provocou um arrepio em todos os
lugares certos e eu precisava sair dali antes que o tecido da poltrona ficasse
arruinado. Me sentia ensopando e as minhas coxas já dançavam uma na
outra conforme me remexia. Apertei forte a corrente de metal na minha
coxa, juntando as três tiras na palma da minha mão quando Adônis subiu na
cadeira da garota pelas laterais e sentou nela se esfregando devagar, senti a
investida diretamente no meu ventre e um murmúrio vergonhoso escapou
da minha boca.
Mordi meus lábios e senti meus seios pesarem, não importava que
não fosse a mim que ele estava atiçando, vê-lo provocando aquela mulher
estava tendo um efeito devastador em mim.
Os outros homens apenas dançavam lentamente, sem tocar na garota
e eu entendia o porquê, ela entraria em combustão espontânea se tivesse que
lidar com mais do que um deles tocando nela.
Quando Adônis abriu as pernas dela, roçando a boca ao longo da sua
coxa e com o nariz estupidamente perto do vão entre as suas coxas eu me
contorci e perdi a vergonha na cara, começando lentamente a rebolar na
cadeira, tentando matar aquilo que estava me matando.
Movimentos lentos e pesados e eu já não queria saber se estávamos
em público, apenas me esfregava sem tirar os olhos dos dois, me segurando
para não afundar a mão entre as minhas pernas.
Quantas pessoas estariam realmente olhando para mim quando
tinham aquela horda de homens gostosos encarnando o pecado ao vivo e a
cores?
Minha resposta veio quase imediatamente, um sinal de que Deus não
devia aprovar o meu comportamento, porque um holofote apareceu em
cima de mim, paralisando imediatamente a minha mão que já estava no
meio da coxa.
Cruzo as pernas rápido, sentindo todos os olhares se voltarem na
minha direção e é a minha hora de morrer. Eu sabia que chegaria. O mestre
de cerimônias devolve a garota atordoada que subiu ao palco enquanto
Adônis desce e se dirige a mim com um sorriso predador.
Faço que não com o rosto, pedindo por favor que não faça isso
comigo com o olhar.
— Por favor — imploro quando ele avança pelo meu pescoço e
aspira meu cheiro, me obrigando a me esticar de costas na poltrona para
evitar tocar seu corpo, a mera sensação da correia que ele traz na coxa
roçando na minha perna e a sua presença devastadora tão próxima, me
arranca um arquejo e ele sorri.
— Por favor, o quê? Sabrina? — ele sussurra no meu ouvido, e os
gritos aumentam. Assim como eu, todas as mulheres devem estar sentindo
as réplicas da minha excitação e ter seu objeto de desejo ao alcance de suas
mãos é garantia de surto na certa.
— Eu não quero subir no palco — peço, baixinho. A boca dele
pairando sobre a minha, o calor do seu peito irradiando contra a minha pele.
— Você não vai, nós vamos ficar bem aqui — ele anuncia, numa
mistura de sorriso com rosnado delicioso. Olho ao redor e os outros também
desceram e se movimentam entre as mulheres. Dançam, se permitem serem
tocados, seduzem mulheres aos pares.
Nós. Uma palavrinha assustadora quando proferida pela boca
insanamente pecaminosa de um gogo boy, te encurralando com o corpo,
completamente molhada, num clube e em público.
Ele retrocede e ajoelha na minha frente, arrasta dois dedos com as
costas da mão na minha pele e para imediatamente na união das minhas
coxas, a mão recai pesada na minha perna e sinto seu polegar sendo
arrastado na minha umidade.
Meu coração declara como dada a largada e desembesta a bater,
como se alguém o tivesse impedido de o fazer durante muito tempo e agora
corresse livre e selvagem dentro do meu peito.
A outra mão brinca com a corrente na minha coxa, e quando ele leva
o pingente à boca, o puxa entre os dentes e o chupa contra minha pele,
renuncio à ilusão de que tenho ainda algum controle e gemo, me esfregando
no seu rosto, descarada.
Ele ri na minha pele e leva a mão pela minha lateral até ao meu rabo
de cavalo, puxa meu rosto contra o seu de leve, e enlaça meu pescoço entre
os dedos, vira a minha cabeça de lado, o polegar pressionando o meu
queixo, afunda a outra mão na abertura do meu vestido e me toca com o
polegar por cima da calcinha ensopada.
As mulheres da sala começam a assobiar em polvorosa e eu sei que
estou perdida quando isso não tem o efeito esperado sobre mim, que ao
invés de me retrair com vergonha, me exponho ainda mais, abrindo as
pernas para lhe dar melhor acesso.
Seu polegar apenas escorrega para dentro da minha calcinha e reparte
minha carne, sobre o olhar desejoso de dezenas de pessoas e só não me
retraio porque estou enlouquecida de tesão.
As luzes diminuem quase até se apagarem, ele afunda o dedo
indicador e médio dentro de mim e gira o polegar no meu clitóris enquanto
abocanha minha garganta no segundo exato que me faz explodir na sua
mão.
Meus gritos se confundem com os gemidos da música e nossas
sombras refletidas nos painéis de toda a sala são aplaudidas de pé enquanto
presencio meus espasmos de prazer em todas as telas.
Todas as luzes se acendem e os dançarinos circulam pelo recinto.
Algumas pessoas começam a se dispersar, outras ficam para cumprimentar
Adônis e uma pequena fila se forma ao meu lado.
Eu nunca fui de pedir muito a Deus, seria uma boa hora para pedir
que me leve rápido e sem dor?
Adônis me estende a mão, mas não tenho coragem de tocá-lo. Ele me
fez gozar em público. Ele me fez querer gozar em público e eu acho que
vou desmaiar.
— Sabrina — ele me chama, fitando a própria mão estendida que eu
não aceitei.
Tudo que eu queria era me dissolver nessa poltrona e desaparecer
para longe dos olhares que me testemunharam convulsionar de prazer
apenas sendo tocada por um total desconhecido.
Fito-o com um sentimento no peito que sou incapaz de identificar,
talvez seja assombro. Vejo a cliente dele se aproximar e meu sangue resolve
que é um ótimo momento para correr todo para os pés.
Perco a sensibilidade nas pontas dos dedos e minha pele gelada
parece revestida de cerâmica. Me preparo para ser rechaçada em praça
pública. Ela vai me esculhambar tanto e nem vou poder me defender, eu
usei o prostituto dela de graça, na frente dela e ainda tive a audácia de gozar
com ele metendo os dedos em mim enquanto rebolava aflita na sua mão.
Apago um a um cada item da minha lista mental das maiores
humilhações que já sofri na vida, nada que eu tenha feito antes é merecedor
de dividir lugar com esse momento.
Ela se dirige a Adônis com um sorriso, e eu espero por um daqueles
momentos de filmes, em que a mulher se aproxima fingindo costume e
derrama um copo de alguma coisa na cabeça do homem e dá na cara da
mulher que encontra com ele.
— Fenomenal. A sua apresentação foi impecável, meu filho.
Parabéns. E muito obrigada pelo presente.
Filho? Por favor, ela não pode estar falando sério. Ela o chama de
filho? Adônis é um sugar boy? Minha apatia se transfigura em nojo e aperto
os lábios com força, por reflexo, desejando do fundo do meu coração que
amanhã eu não pague um preço tão caro pelo dom de escutar.
— Obrigada, mamãe, Feliz aniversário — ele responde a abraçando,
me conferindo de rabo de olho, desconfiado.
Espera. Ele disse mamãe?
— E você. — Ela parece me notar por conta do interesse dele, que
não desgruda os olhos dos meus. Sinto meus músculos se retesarem,
apertando minha carne contra a pele de um jeito incomodativo e me levanto
tão rápido que quase a empurro. — Sensacional. Nem eu imaginei que
tivéssemos uma profissional na plateia. A naturalidade que você imprimiu
na cena. — Ela junta as mãos, impressionada. — Perfeita. Vocês fizeram
uma apresentação digna de fechar o ano. Foi um prazer assistir aos dois.
Você tem futuro, querida.
Eu vou desmaiar, não tenho a menor dúvida. Vou cair dura no chão e
espero que morra. É a única solução. Adônis coloca a mão no meu braço e
desce até ao meu punho onde ele esfrega o polegar tentando me acalmar de
um frenesi que não faz ideia que eu sinto por dentro.
— Sabrina, está tudo bem? Você está pálida. — Minha respiração
abafada é minha única resposta. — Mãe, por favor, me deixe pegar alguma
coisa para ela beber.
Ela assente e Adônis me deixa sob seus cuidados.
— Louise, você tinha razão. — Uma voz um pouco estridente soa
atrás de nós. — Seu filho é extraordinário, simplesmente excelente.
Ela é mesmo a mãe dele e eu acho que vou precisar de mais algumas
encarnações para apagar esse momento da minha existência.
— Obrigada. Ele é mesmo — ela confirma.
— Que idade você tem? — pergunto de supetão, soando rude e
perturbada antes mesmo dela reagir.
Contra todas as expectativas, prefiro pensar que ela paga por sexo
com um homem mais novo, do que encarar o fato de que eu gozei na frente
da mãe de uma pessoa. Seja essa pessoa quem for!
Você não goza na presença da mãe de ninguém, é a primeira lei das
escrituras!
Não gozarás na frente da mãe alheia em vão.
— Isso não se pergunta a ninguém, parei de contar aos 33 — Louise
brinca. As mulheres atrás dela olham através de mim e se desfazem em
sorrisos, entendo o porquê quando Adônis toca minhas costas, e me passa
uma garrafa de água e um copo com uma bebida forte.
Pelo cheiro é algo que ele tirou diretamente do esgoto, o fedor
machuca meu cérebro quando inspiro e lhe devolvo o copo imediatamente.
— Uísque — ele me diz, insistindo.
— Não, obrigada. Água está ótimo. Obrigada.
Uma das garotas chama a atenção dele e eu aproveito para fugir dali.
Nas minhas coxas uma prova irrefutável do que tinha acabado de acontecer
há alguns minutos.
Tenho a certeza de que quando Gael disse para fazer tudo que ele
faria, ele nunca imaginou um cenário desses. O pior de tudo é que eu quero
mais e preciso sair deste lugar antes que vá pedir. Isso seria o fim da picada.
Além disso, ainda passei por stripper, ou puta, venha o diabo e
escolha o que Louise entende por profissional, como se referiu a mim.
Me dirijo ao elevador meio que flutuando, um misto de vergonha
com um sentimento de vitória. Nunca esperei que nada disso acontecesse,
mas na verdade, se pensar bem, era exatamente aquilo que vim buscar.
Uma noite insana, num lugar absurdo, que colocasse nas minhas
mãos um material tão surpreendente que pudesse impressionar Leona.
Consegui os três. Nunca mais vou poder pisar aqui, e Deus sabe que eu
nunca teria pisado de qualquer forma, se não fosse o cartão misterioso que
preciso devolver logo que tenha oportunidade.
Paro em frente ao elevador decidida de que chega de emoções fortes
por hoje. Com o cartão em mãos não resisto a olhar para trás, tentar dar uma
última espiada em Adônis. Louise tem razão, ele é excepcional. A
naturalidade com que ele me seduziu e a facilidade com que me convenceu
sem dizer muito, a me exibir sem pudores, era algo que nunca pensei viver
ou sequer presenciar.
Vejo-o passeando pelo salão, e volto a me impressionar com a
decoração genial do lugar, desacreditada de que conseguiram manter tudo
isso longe da mídia por tanto tempo.
Meus olhos voltam para Adônis e sinto um puxão na coluna, sei que
meu corpo quer muito mais dele, mas não estou disposta a lhe dar. Ele
desfila entre as pessoas como se fosse o dono do clube, e tenho a certeza
que é o dono e proprietário de metade das calcinhas presentes. Por onde ele
passa as cabeças giram, e eu adoraria ter esse poder de atração, de me exibir
sem travas nem amarras.
No fundo, embora regado a muita vergonha, essa foi a melhor noite
da minha vida. Agradeço a ele em silêncio e me viro sorrindo, certa de que
se correr ainda pego a queima de fogos.
Passo o cartão no elevador esperando que se abra, mas nada
acontece. Viro-o ao contrário e tento de novo, mas novamente nada
acontece. Tento mais uma vez com ambos os lados e não tenho sucesso.
Será que tem limite de tempo? Não posso acreditar nisso. Verifico o
relógio e decido que não pode ser. Será que há uma hora certa de sair?
Talvez seja isso. Faria algum sentido. Engulo em seco sentindo o olhar de
Adônis repousar em mim, se intensificando a cada segundo e não é uma
surpresa quando o escuto falar contra o meu pescoço:
— O que procura, Sabrina? — Um tremor delicioso me percorre, a
sensação fantasma das suas mãos no meu corpo voltando forte da minha
memória. Se fechar os olhos posso sentir que estou naquela poltrona outra
vez, completamente rendida.
Me viro ao seu encontro e lhe dedico um sorriso modesto, não vou
me fazer de doida, posso ser honesta com ele. Não é como se fosse voltar a
vê-lo e pudesse me arrepender todos os dias dessa decisão.
— O que procura esta noite? — ele insiste quando não respondo,
paciente, descarado, perto o suficiente para que sinta seu calor, longe o
bastante para não me tocar.
Sinto um sorriso se espalhar na minha boca e respondo com toda a
sinceridade que sou capaz de reunir ao pouquinho de coragem que achei no
chão.
— Você. — Seus olhos se apertam e ele ri. — Eu estava procurando
por você — repito devagar, sentindo o poder libertador de cada uma
daquelas palavras. — Eu acho — completo, hesitante. — Na verdade não
tinha percebido isso até que te achei — confesso e sinto a vermelhidão
voltar ao meu rosto que esquenta de súbito.
Ao contrário de mim, ele não precisa de tempo para pensar ou criar
coragem para dizer seja o que for.
Seus braços me encurralam, se esticando acima dos meus ombros me
fazendo dar um passo para trás, me encostando nas portas do elevador que
sinto frias contra a minha pele quente.
Uns segundos de proximidade e sou de novo refém do seu olhar que
me convida a realizar os meus desejos mais selvagens, alguns que nem
sabia que tinha, sua boca tão perto me deixa ansiosa por experimentar seu
sabor.
Nunca antes me senti ansiosa por ninguém.
— E o que você vai fazer agora que me encontrou? — Sua voz é
rouca na minha pele e ele toca meu rosto da mesma forma que antes tocou
minha barriga, com as costas da mão. — Eu recebo um roteiro ou devo
improvisar? — pergunta provocante, seus lábios despertando os meus.
Encosto minha testa na dele, me surpreendendo com a falta de ar que
sinto e gostando da sensação de viver no limite, de não saber o que fazer, de
me deixar ser conduzida, por, ainda que de um jeito completamente
diferente do que planejei, me sentir completamente livre.
Encaro seus olhos com uma dose renovada de coragem e respondo
com confiança:
— Por favor, me surpreenda. — Abro um sorriso rasgado. — E não
pare, mesmo que eu peça. — Engulo em seco ao absorver a potência do seu
olhar.
Ele arrasta o nariz na minha bochecha e solta um “uhumm” arrastado
que marca um 7 na escala de Richter do meu corpo.
— Qual a sua palavra de segurança? — Com a mão direita enlaça
meu queixo por baixo, num sinal claro de dominação.
Eu tenho uma palavra de segurança?
Eu não tenho uma palavra de segurança!
Seus olhos me exigem respostas e penso rapidamente em algo
inteligente para dizer, o que significa que só consigo pensar em coisas
estapafúrdias.
Polícia. Seu toque me urge a responder logo.
Hospício. Se ele parasse de olhar dentro dos meus olhos com tanta
determinação talvez eu conseguisse me concentrar.
Samu. Samu é ótima. Ele encosta o corpo ao meu e agora se me
perguntar o meu nome acho que sou capaz de errar. O coração bate na boca
e eu me desespero um pouquinho.
— Gritos desesperados não servem? — pergunto atropelando as
palavras, ansiosa.
— Servem. — Ele espalha os dedos na minha boca e beija a própria
pele, que cobre a minha, numa promessa silenciosa que me deixa
imediatamente aflita pelo que me nega.
— Ótimo — concordo rápido, para que saiamos dali antes que eu
goze de nervoso.
— Servem de incentivo — ele acrescenta, só para me torturar um
pouco mais e desconfio que ele deve ser um sádico sedutor.
— Ok. — Penso rápido. — Relatório! — quase grito, o pegando de
surpresa com a afobação.
— Relatório? — Ele ri com vontade.
— Relatório — confirmo séria.
— Tudo bem — ele aceita, e o vejo se abaixar diante de mim, suas
mãos tomando completamente meu corpo, procurando espaço entre as
minhas pernas e não posso acreditar que achou que eu quis dizer para me
foder ali mesmo, mas também não consigo lhe pedir que pare, e ainda que
pedisse ele não pararia porque eu literalmente acabei de lhe dizer que não o
fizesse.
Seus dedos vão direto à linha abaixo do meu umbigo e puxam o
elástico da minha calcinha, por debaixo do vestido, sua mão protegendo os
fios do tecido da corrente na minha coxa com atenção, várias cabeças se
viram para nos observar e a sensação de mortificação me atinge mais uma
vez esta noite.
Levanto os pés, um de cada vez, e ele coloca minha calcinha no
bolso, descontraído. Nas suas configurações de fábrica com certeza não
vem o item pudor. Nem um pingo. Nada. Zero.
— Eu quero que você encontre um lugar para se tocar para mim. —
O sangue corre em direção aos meus ouvidos junto com suas palavras e
sinto a pulsação ecoar na minha cabeça. — Eu vou te dar 10 minutos de
vantagem, depois vou atrás de você.
Ele me dá uns segundos para reagir antes de continuar, mas só
consigo sentir a explosão de adrenalina se espalhando nas minhas veias.
Adônis parece satisfeito com o efeito devastador que tem em mim.
— Eu quero te foder até ver essa expressão de embaraço se
desintegrar do seu rosto. Eu quero te comer tão gostoso que você esqueça
de novo que existem pessoas à nossa volta, que existe qualquer outra coisa
além do seu desejo, do seu prazer. Eu quero experimentar o gosto do seu
gozo pleno e puro quando você transbordar de tesão na minha boca. Eu
quero estar enterrado dentro de você antes do ano acabar.
Cada uma de suas palavras é um pequeno incêndio se espalhando no
meu corpo que já se rendeu totalmente ao seu domínio, mas ele não tem dó
e intensifica minha tormenta:
— Se você estiver se tocando quando eu te encontrar, é
recompensada. Se não estiver, será punida — me explica.
— Como? — consigo perguntar a meia voz, não que isso importe
realmente.
— Gritos desesperados, para começar. — Tenho vontade de morder
seu sorriso sarcástico, mas não tenho tempo. Não sei se se refere à
recompensa ou a punição, mas estou pronta para começar a gritar agora
mesmo.
Ele dá um tapa na minha bunda, que me impele a começar a me
mexer, mas mal dou um passo na direção contrária à sua, reagindo
finalmente, Adônis me puxa de volta para si com força, me virando de
frente para ele.
— E Sabrina… — O tom é excitante e perigoso, sua língua percorre
meu maxilar com cuidado. — Você ganha pontos extras se gozar sozinha
antes de eu te pegar.
Maldito seja aquele cretino. Gozar sozinha? Onde ele espera que eu
esteja me tocando? Em público, de novo? Aperto minhas mãos levemente
inchadas de ansiedade enquanto caminho rapidamente, perdida, procurando
um lugar para parar e pensar sem senti-lo no meu encalço.
A merda dos painéis me confundem. Entro em corredores com portas
e quando tento abrir as malditas são apenas imagens tão reais que me
deixam frustrada. Já nem sei onde estou.
Me encosto à parede confusa e profundamente excitada, tentando
acomodar ambos os sentimentos em mim, respirando devagar. Por que raios
estou correndo se eu quero ser encontrada? Porque não quero que ele me
foda na frente do clube inteiro!
Algumas sombras surgem na minha direção e meu corpo se inunda
de expectativa com as vozes se aproximando. A aflição de o encontrar pulsa
no meu peito enquanto as pessoas passam reto, como se eu fosse invisível.
Não sinto medo nem vergonha, e isso me atinge como um soco.
Consigo sentir a sensação do toque de Adônis em todos os lugares em que
ele encostou como se meu cérebro se recusasse a se livrar da sensação e
escravizasse meus sentidos para que perpetuassem o impacto do contato da
pele dele com a minha.
Uma mulher para e me olha de lado, a própria encarnação de uma
princesa da Disney me encarando com um sorriso amigável.
Ela fita a minha corrente na coxa com interesse.
— Precisa de ajuda? — Até a voz dela é afetuosa e gentil, o que não
combina em nada com as roupas escandalosas que cobrem muito pouco da
sua pele. — Você é a garota do show do Adônis, não é? — Aponta para
mim parecendo se lembrar e eu aperto os olhos contraindo o rosto numa
expressão de dor.
Quantas pessoas mais teriam me visto e seriam capazes de me
identificar, meu Deus?
Ela ri, e coloca a mão no meu ombro.
— Qual o seu nome?
— Sabrina.
— Sabrina, você parece prestes a ter um orgasmo espontâneo, ou
desmaiar. Deixe-me adivinhar. Adônis te excitou além do suportável e te
abandonou?
Engulo em seco antes de responder, indecisa sobre ter essa conversa
com uma completa desconhecida, mas o olhar complacente me acalma e eu
respondo:
— Ele está atrás de mim. — Levo a mão ao estômago tentando me
livrar do nervoso insistente que se acumula ali.
Ela ri, com gosto.
— A emoção da caça. É claro que está. E você está fugindo ou
tentando ser encontrada?
— Os dois? — respondo sofrida, batendo a cabeça de leve na parede.
Ela parece tirar uns segundos para pensar e segura a minha mão na
sua com intimidade.
— Vem. — Não me dá opção de não a seguir, começando a andar
comigo a tiracolo, ao longo dos corredores, cujas paredes ela parece ignorar
conforme mudam, sem se perder em caminhos ilusórios.
Umas atrás das outras várias paredes mudam e se já estava perdida
antes, agora não existe a menor possibilidade de encontrar a saída sozinha.
Ela leva a mão até uma maçaneta que, por fim, existe e abre uma
porta à nossa direita.
— De nada, Sabrina. — Indica com a cabeça para que eu entre. Dou
meio passo antes de ouvir a voz de Adônis atrás de nós.
— Aqui está você. Oi Bia, está brincando com o que é meu? —
pergunta a ela, olhando para mim, pegando minhas mãos e inspecionando
cuidadosamente
— Secas. — Ele comenta muito perto do meu ouvido, fazendo o
sangue no meu corpo voltar a correr a uma velocidade diferente de
imediato. — Vejo que não estava se tocando. — Ele torce meu rabo de
cavalo no punho, abrindo caminho para o meu pescoço e me lambe. — Não
pensei que estaria tão ansiosa por ser punida — murmura na minha pele.
Cada palavra implantando em mim uma promessa de prazer.
— É a primeira vez dela por aqui Adônis, não seja um cretino. — Bia
estapeia o ombro dele e nos deixa.
— Covarde — ele me acusa, lambendo a palma da minha mão. —
Procurando um lugar para se esconder, quando poderia partilhar tudo isso
com as pessoas. — A mão traça um caminho da minha cintura até meu
peito, que ele aperta com força, depositando um beijo ali e chupando minha
pele logo em seguida. — Um corpo tão generoso, e uma mente tão
mesquinha. — Seus olhos me queimam e encaro seus lábios. — Seja feita a
vossa vontade, meu bem. — Ele me empurra para dentro do banheiro de
acesso restrito. — Mas saiba que tudo tem um preço. — A mão na minha
barriga me guia até à parede mais próxima. Ele traça um caminho com a
língua no meu pescoço e eu me esfrego nele, descarada. — E no Nox,
privacidade se paga caro — ameaça, segurando meu rosto com firmeza, me
incendiando com o olhar.
Adônis não me dá um único segundo para me recompor, apenas
segura minhas mãos e me vira, me colando à coluna fria que separa as
portas dos cubículos dos banheiros, esfregando apenas o lábio inferior na
parte descoberta das minhas costas, mordiscando a minha pele no final.
Sinto meus mamilos enrijecerem imediatamente e minhas coxas se
apertam juntas. Ele coloca o joelho entre os meus colando a coxa poderosa
na minha bunda, me pressionando e me permitindo sentir sua rigidez na
cueca.
Seus dedos se entrelaçam com os meus, levantando meus braços
acima da cabeça, e seu peito gruda nas minhas costas, a camisa aberta não
deixa nada por imaginar, posso sentir cada gomo do seu abdômen
desenhado em mim.
Me sinto como um brinquedo, suas mãos guiam as minhas pelo meu
corpo, os nós dos dedos tocando a minha pele pelo caminho até às minhas
coxas levantando meu vestido, nossos dedos entrelaçados.
Adônis nos vira com facilidade apoiando as suas costas na parede
onde antes estava meu corpo, nos deixando de frente para o imenso e
iluminado espelho.
Vejo um sorriso sem vergonha se rasgar na cara dele e mordo meu
lábio em expectativa, completamente exposta, de pernas abertas e mãos nas
coxas, encostada totalmente no seu tronco musculoso e nu.
Ele tira as mãos das minhas para tirar o pau das calças e enfiar entre
as minhas pernas, ouço-o rasgar o pacote da camisinha e inspiro
profundamente, antecipando que vai me penetrar num fôlego só, mas ele
não seria gentil desse modo.
Apenas roça sua rigidez que atravessa minhas coxas e abre meus
lábios, espalhando minha excitação pela minha parte mais íntima.
Alinhando nossos sexos, me afogando de desejo vendo a união dos nossos
corpos no reflexo, ansiosa pela expectativa de que a qualquer momento
alguém pode entrar.
— Esta é a sua última chance de se tocar para mim sem maiores
consequências. — As alças do meu vestido são abertas e meu seio esquerdo
possuído pela mão pesada que me aperta sem cerimônias. — Para o caso de
você não ter entendido, isso é uma ordem, meu bem.
Minha cabeça fica leve com tantos estímulos ao mesmo tempo, mas
obedeço, minha mão encontrando a união entre a minha boceta e a cabeça
do seu pau, que continua se esfregando em mim como se tivesse todo o
tempo do mundo. Forte, lento e angustiante. A minha entrada babando nele,
implorando para ser possuída.
Evito tocar meu clitóris, explorando minha intimidade com os dedos
abertos, sentindo a pele dele a cada investida, querendo deixar a minha
carne para tocar na dele em todas as vezes que nossas peles se encontram.
Ele tira as mãos que estavam cravadas na minha cintura e me apoia
no seu peito de forma a me ver melhor, abre mais as minhas coxas, me
arreganhando para o espelho e para de se mexer atrás de mim para me
admirar.
Sinto falta do calor do seu pau, então rebolo nele, encaixado entre as
bandas da minha bunda, a cabeça perfeitamente alinhada com a entrada da
minha boceta, tudo que eu tinha que fazer era uma ligeira inclinação,
empurrar para trás e ele estaria dentro de mim. Mas não me atrevo, já senti
o peso da sua mão e devo estar marcada até agora.
Não pretendo contrariá-lo, não quando suas mãos não me deixam
esquecer seus comandos em momento algum. Saindo das minhas coxas e
mais uma vez guiando a intensidade do meu toque, seus dedos procurando
meu sexo por cima dos meus, se encharcando em mim e espalhando minha
lubrificação com uma calma ofensiva no meu clitóris inchado.
Um lamurio ofegante atravessa meus gemidos e ele ri de mim.
— Isso. Assim — me orienta arrastando as vogais, levando uma das
mãos ao meu seio, massageando ali. Meu vestido completamente embolado
na minha cintura, que ele ignora como se tivesse evaporado entre nós.
O desespero imprime velocidade à minha mão e preciso gozar antes
que derreta. Até meu couro cabeludo está pinicando com o calor absurdo
que se espalha em mim.
— Gostosa — elogia, esfregando o rosto em mim.
Fecho os olhos ao sentir as contrações dos meus músculos
anunciarem um orgasmo rápido, e o tapa violento que Adônis estala na
minha coxa acorda minha pele do torpor, me assustando.
— Abra os olhos. Eu quero que assista. — As pontas dos seus dedos
desenham círculos gentis na pele ardida. — Abra os olhos — repete rude e
eu obedeço.
Tento me concentrar, mas a iminência de apanhar sem aviso me deixa
alerta.
— Está perdendo pontos, meu bem. Você é uma cachorra
desobediente. — A palma da mão dele cobre todo meu ventre, os dedos
resvalando em mim, e eu gemo mais alto do que seria aceitável.
Não sou capaz de formar palavras para lhe responder, apenas volto a
me masturbar, enfiando a minha mão debaixo da dele e movendo meus
dedos numa velocidade vertiginosa, decidida a acabar com aquela agonia de
uma vez.
Meu corpo desiste de manter tensão nos meus músculos das pernas e
ele me segura para não escorregar no chão ao atingir o clímax em seus
braços.
— Linda menina, muito bem — diz, traçando a linha do meu maxilar
com a língua, prolongando meus espasmos, chupando meu pescoço, que
parece implorar por uma mão ao seu redor, se esticando para ele.
Me vira de frente para si com rispidez, me encurralando. Minhas
pernas ainda frágeis dão passos vacilantes até a bunda encostar na bancada
de mármore.
Ele avança rápido sobre mim, e me preparo para ser beijada com
violência, mas ele apenas segura meu rosto e lambe meus lábios, evitando
maior contato com a minha boca, me permitindo sentir o calor do seu hálito,
mas não o gosto da sua língua. Resmungo de frustração.
— Agora é a minha vez — avisa, chupando meu queixo. As mãos
seguram minha bunda e os braços poderosos me levantam na bancada.
Apoio minhas mãos na parte de trás e ele desce o rosto, distribuindo beijos
molhados na minha pele. Minha boca se contorce num grito mudo quando
ele morde meu peito, abocanhando um pedaço farto de carne quente,
arrastando a língua macia e pesada na pele já excitada.
Os dentes raspam no meu abdômen e cada toque é um prelúdio do
que virá, e me faz me esfregar na bancada, impaciente. Ele aperta meu
quadril com as duas mãos, se baixando completamente e me envolvendo
com luxúria, lambendo meu baixo ventre devagar, pincelando a força do
meu desejo, espalhando saliva na união dos meus lábios já encharcados de
tesão.
Sinto o hálito quente acertar minha virilha imediatamente antes de
estar completamente em sua boca, e gemo desconexa pelo assalto perverso.
Ele puxa a minha cintura, me trazendo mais para frente, me abrindo,
empurrando meu peito para trás. Me arqueio e rebolo sentada na sua cara.
Meu corpo treme febril sob seu toque, e sua boca não me deixa um
segundo antes que seu dedo teste minha profundidade e espalhe minha
lubrificação, me experimentando com um dedo de cada vez, forte e
profundamente.
Encaro seu rosto alternando entre chupar minha excitação e me
marcar com leves mordidas. Levo uma mão ao seio, me apertando, e ele
desfere outro tapa me impedindo. Desta vez, apenas uma chamada de
atenção, um aviso. Não doeu de fato.
— Eu disse que era a minha vez, cachorra — me recorda, coloco a
mão de volta no lugar, ao lado da minha coxa, contraindo os músculos sob
suas ordens disfarçadas de sugestões. — Você fica quieta agora. Seu corpo é
meu até que eu te diga o contrário.
Ele enfia três dedos profundamente em mim e esfrega a língua no
meu clitóris com força, e quase pulo com o impacto do seu gesto.
Os dedos saem carregados, ele levanta e espalha a lubrificação pelos
meus mamilos, olhando dentro dos meus olhos e sorrindo, me matando um
pouco, antes de me lamber ali, marcando meu peito com a boca.
Já não reconheço meus gemidos de tão roucos e secos que soam.
Adônis se mantém implacável. Seu corpo brilha de suor e as mãos prendem
minha bunda contra si, seu pau encontrando o meu rebolado novamente. Me
torturando sem me penetrar.
Me esfrego como um animal no cio e sinto seus dentes se abrindo
num sorriso sobre meu seio, que ele chupa, lambe e larga, me fazendo sentir
o peso de volta.
Os olhos se fixam nos meus, firmes, ardentes, a palma da mão aperta
a ereção contra minha carne, aumentando a fricção que divide meus grandes
lábios, fazendo a cabeça do pau bater diretamente no meu clitóris,
estocando rápido e duro até que eu transbordo em mim mesma, meus gritos
e seus gemidos ecoando pelo ambiente.
Fraca do gozo que me tomou com violência, me deixo escorrer com
as costas no espelho, quase deitada na bancada. Ele sorri como um
psicopata correndo os dedos do meu lábio inferior, traçando uma linha reta
e suave até meu ventre que ainda rebola em seco por puro reflexo à
proximidade da sua mão.
Seus dedos enlaçam meu pescoço e ele me levanta, me puxando ao
seu encontro. Meu corpo inteiro vibra em submissão. Ele me vira de costas
para si e empurra a mão na minha coluna, me curvando à força na bancada
com as pernas esticadas.
Adônis crava as mãos no meu quadril com a bunda empinada para o
receber e me puxa, me penetrando de vez, com uma única estocada, me
preenchendo por inteiro.
Minha pele escorrega pelo mármore, meus seios espremidos contra a
pedra e seu quadril choca no meu, seu pau tão fundo que sinto as bolas
pressionadas contra mim, a carne dura como pedra abrindo meus músculos
para todos os lados, me possuindo em todos os sentidos da palavra,
retorcendo completamente meus nervos de prazer.
Ele abandona qualquer resquício de cordialidade, me marca por fora
e por dentro com as investidas da sua rigidez a cada segundo mais imediata
e violenta dentro de mim.
É demais. Não vou suportar. Não acredito que eu tenha sequer em
mim energia para gozar de novo.
Seu peito se encosta nas minhas costas, estocando curto por um
segundo em que segura minha cabeça de frente para o espelho e pergunta
diretamente ao meu reflexo:
— Quantas vezes será que você consegue gozar sem desmaiar?
Minha pergunta fica no ar e os olhos ferinos encaram meu sorriso de
chacota na sua direção.
— Você tem sorte de eu ser um filho da puta generoso e civilizado.
— Encharcada ao redor do meu pau, se contorcendo, Sabrina responde
apenas com murmúrios entrecortados.
Continuo falando, mas não paro de meter, fico entre as suas pernas,
os dedos fundos na cintura macia socando lenta e profundamente, tirando o
pau até ao limite e metendo de novo, brincando com o barulho úmido
chocando entre nós.
— Eu te fiz esperar para ser fodida. — O rosto dela se retorce,
trincando os lábios até perderem a cor. — Isso foi cruel. É verdade. Mas
tudo que você tinha que fazer. — Empurro meus quadris na sua bunda e
rebolo pressionando todas as zonas sensíveis pelos orgasmos anteriores. —
Era ter obedecido às minhas instruções — pontuo com outra estocada.
Ela leva as mãos às minhas coxas numa tentativa falha de controlar o
ritmo que a atormenta. Capturo os seus pulsos, fodendo-a numa posição
mais restritiva, penetrando com firmeza, estocando ainda mais curto e mais
pesado.
— Cachorras não escolhem o lugar onde serão fodidas. Cachorras
sentam, esperam e rebolam quando recompensadas. — Sabrina geme no
meu pau, me apertando por dentro, trancando seus músculos ao meu redor.
Me mordendo do único jeito que consegue.
— Da próxima vez que eu te der uma ordem, vai obedecer.
— Sim. — Ela abre a boca gemendo suplicante.
— Da próxima vez que eu te mandar se tocar para mim não vai
procurar um lugar para se esconder. Não vai pedir. Não vai falar. Cachorras
não tem direito a pedir nada. Apenas agradecer. Entendido?
— Sim. Por favor — ela murmura num suspiro, implorando para ser
finalizada, encharcando meu pau de um jeito abrasador.
Minhas três palavrinhas preferidas saindo daquela boca gostosa
transformam meu sangue em lava quente. Minhas estocadas adquirem
velocidade de recompensa cessando a punição e ela começa a gritar de
imediato, arquejando e arqueando para mim, os espasmos começando a
pulsar no meu pau, o prelúdio de mais um orgasmo querendo se libertar.
— Bunda para cima — comando quando a sinto perder as forças nas
pernas, corrigindo sua postura no tapa, guiando-a para a posição correta.
Seguro a sua bunda nas minhas mãos e aperto forte, metendo com
determinação, mais rápido do que antes.
Seus gemidos se convertem em gritos, recebendo toda a minha
espessura e tamanho, se contraindo, esmagando meu pau ao ponto de eu
gemer num rosnado alucinado.
O corpo todo se debate com cada socada funda, e ela se engasga com
o excesso de saliva. Um som perturbadoramente gostoso.
Seu corpo está além do prazer, como se tivesse apertado num botão
de ligar todos os fios responsáveis pelo seu desejo e todo ele tenha
despertado para me receber melhor.
Cravo meus dedos com ainda mais força, certo de que ficará roxa,
mantenho-a empinada com os movimentos incessantes do meu pau, que tiro
quase todo de dentro dela a ouvindo resfolegar em protesto. Massageio
apenas a sua entrada com a cabeça grossa e latejante também pronta para se
liberar nela.
Seus gemidos se transformam em soluços afogados quando volto a
estocar fundo, sentindo-a se contrair com toda a força na minha carne
palpitante, me dominando por dentro a cada investida feroz.
Sabrina convulsiona uma última vez numa inundação de prazer
violento que começa nela, mas me atinge em cheio. Uma onda de
eletricidade estática condensada na fricção dos nossos corpos retorce
minhas terminações nervosas estalando uma de cada vez, prolongando o
pico de prazer quase até ao ponto insuportável, beirando a linha tênue da
dor. O prazer eletrizante me varre em ondas cada vez mais espaçadas, e nem
por isso menos violentas. Me surpreendendo totalmente por perder o
controle da trepada.
Há imoralidade na minha voz quando controlo meu tom e digo com
simplicidade:
— Feliz ano novo, Sabrina — digo, ainda enterrado nela,
completamente mole, com o corpo saciado, incapaz de se mover, a
respiração se acalmando aos poucos enquanto assiste desnorteada as
cascatas de luz surgindo nas paredes, o som artificial tomando o ambiente
enquanto os fogos de artifício explodem ostensivos ao nosso redor.
— Eu poderia me viciar em você — confesso, admirando o sorriso
radiante em seus lábios entreabertos. Seu corpo recuperando lentamente o
controle dos próprios movimentos.
Ela se levanta e planta um beijo calmo, gentil e demorado na minha
bochecha.
— A minha palavra de segurança deveria ter sido samu, tenho a
impressão que esse vai ser o único jeito de eu conseguir sair daqui. — Ela
faz uma pausa dramática e a encaro preocupado cogitando se a teria
machucado. — Carregada — ela completa, cínica, levantando um ombro,
como se fosse óbvio.
Abro um sorriso que faz meu rosto doer e explodimos em
gargalhadas.
Uma mulher sensual, despertando para seus desejos e de riso fácil. A
combinação perfeita para me foder, percebo encantado.
Viro o segundo copo de água para desespero do barman que me
encara desgostoso. As coqueteleiras de metal me julgam dos pinos de
madeira em que descansam e até as frutinhas num degradê colorido gritam
que eu sou uma decepção.
Tenho a nítida impressão que é algum tipo de contravenção pedir
água nesse bar equipado para realizar todos os meus desejos líquidos.
Esse ano vai com certeza para a lista de passagens de ano mais
decadentes da minha lista, e Deus, eu espero que ela seja imensa.
Na realidade, transar com um desconhecido num banheiro realiza
itens de várias listas.
A lista de fetiches, claro. Quer dizer, ele me chamou de cachorra, me
bateu, e eu só faltei latir. Introdução à degradação aula 101, CHECK;
A lista de encontros inusitados. Esse com certeza humilhou a patética
lista de encontros escondidos que eu tinha antes. Essa lista deveria se
chamar Adônis. Vou substituir o título;
A lista de clubes de prazer em que fiz algo além de fotografar;
A lista de cidades onde assisti à queima de fogos. Hum. É, essa
talvez não. Não Check. Mas vou adicionar para futura referência.
— Uma jujuba pelos seus pensamentos! — Me viro no banco
rotatório com um sorriso que sou incapaz de conter.
Adônis está em pé na minha frente, quase tocando os meus joelhos
com as coxas, e com uma roupa completamente diferente. Quer dizer, agora
ele está mesmo vestido e a sua elegância me faz sentir nua e fora de
validade.
Meu vestido todo amassado, as alças apertadas de qualquer jeito, e a
maquiagem que fui obrigada a lavar não tem a menor chance de competir
contra o alinhamento profissional do corte do terno totalmente preto do
filho da mãe se exibindo diante de mim com a mão suja de açúcar e uma
jujuba entre os dedos esperando uma resposta.
— Onde você encontrou uma jujuba? — É a única coisa que consigo
dizer enquanto tento me abstrair dos seus olhos imensamente mais azuis
que antes. Eu juro que não pensei que fosse possível, até vê-lo de preto.
Acerto a postura no banquinho, estico as costas e fecho a boca. Eu
não sou a porra de uma ninfomaníaca para já estar toda me querendo para
cima dele, pelo amor de Deus, Sabrina. Se controle!
— Eu adoro jujuba, saio sem roupa, mas não saio sem jujuba —
responde, jogando o doce para cima e pegando com a boca.
— Você disse que eu parecia um saco de jujuba, eu achei que estava
debochando de mim.
— Eu estava. Você é gostosa, mas meu amor. — Ele se acomoda no
banco ao lado do meu. — Você já comeu uma jujuba?
Reviro os olhos com a comparação displicente, pego tantas jujubas
quantas cabem na minha mão e as forço contra os lábios dele, esfregando
como se lavasse a sua boca. Oi, infantilidade, tudo bom?
Ele ri na maior das calmas, com a boca cheia, vira a cabeça para cima
para mastigar cada um dos doces sem deixar cair e lambe os lábios quando
volta a olhar para mim.
— Você está muito séria. — Ele cruza a perna uma na outra, se
aproxima do meu corpo, e toca meu joelho, falando em tom de segredo: —
Me fala, se arrependeu de foder um desconhecido e gozar em público?
Esfrego o rosto tentando lidar com a personalidade aleatória da
entidade que habita o corpo desse cara. Respiro fundo, e como não poderia
deixar de ser, sou honesta.
— Não — respondo, negando também com a cabeça, meus olhos se
apertando com a minha confissão. — Isso que está me matando —
acrescento, unindo as mãos e apertando forte os meus dedos entrelaçados.
— Não se arrepender?
— É. Não é como se eu fizesse isso todos os dias — digo baixinho.
Ele se gaba, rindo:
— Eu, definitivamente, ouço isso todos os dias.
— Sim, mas eu estou dizendo a verdade. — Levanto os ombros.
Adônis sinaliza com o indicador para o barman que respira de alívio
e começa a preparar algo imediatamente, ainda que ele não tenha
verbalizado pedido algum.
— Você quer beber alguma coisa? — Nego com a cabeça, e o olhar
acusatório do Barman encontra uma linha reta até mim. — Hum. — Adônis
volta a me dar atenção. — Bom. Por que quer se obrigar a se arrepender,
então?
— Eu não quero. Eu só… não esperava me sentir assim. Foi… —
Arrasto a palavra na boca. — Surpreendente. Só isso. — Confirmo com a
cabeça. Eu poderia te contratar pra vida toda, sério.
— Mulher. — Ele se encosta em mim, divertido, colocando o braço
por cima do meu ombro. — Você está me pedindo em casamento?
Me sinto gelar no mesmo instante, eu sou uma bocuda e disse aquela
merda em voz alta. Meu coração passa a quinta marcha da vergonha alheia
e pega a via rápida sem olhar para trás. Por sorte meu cérebro não é um
órgão tão egoísta e não me abandona para lidar com essa situação sozinha e
a resposta sarcástica sai da minha boca com naturalidade.
— Você é bom, meu amor, mas não tão bom — repito suas palavras
de antes, sentindo minha alma testar a entrada do meu corpo e decidindo
que é seguro se aproximar e voltar ao seu lugar de direito. Outra traidora
que me abandona sempre que tem oportunidade.
— Ponto um. — Adônis se levanta e espalma as mãos nas minhas
coxas, falando muito próximo da minha boca que formiga com a
proximidade inesperada. — Bom é medíocre — me explica sério. — Eu
nunca fui bom em nada em toda a minha vida. — Seus olhos sobem para os
meus olhos num sinal claro de ameaça. — Se for menos do que
excepcional, algo está profundamente errado. — Ele vira minha cabeça de
leve, usando apenas a força de dois dedos no meu queixo, abrindo caminho
entre o meu pescoço e falando no meu ouvido: — Ponto dois: ainda não
vejo qual o seu problema. Explique-se — exige, interessado.
— O problema é que eu vou sair por aquela porta e não sei como
voltar.
Ele se dobra sobre si mesmo, rindo com descaramento, e volta a se
sentar. Recebendo um coquetel que o barman repousa no balcão.
— Você pode usar o mesmo cartão que usou dessa vez, sabe? — me
desafia, e eu reviro os olhos, certa que estamos além desse joguinho.
— A essa altura do campeonato acho que já estabelecemos que eu
roubei esse cartão — reclamo determinada.
— Roubou de quem? — A naturalidade, meu pai. Deve ser difícil
chocar esse homem. Eu acabei de admitir que cometi um crime com todas
as palavras e ele me observa tranquilo.
— Da minha patroa. — Perdida por cem perdida por mil, não tenho
porque mentir.
— Leona. Claro. A loira.
— Ela é, de fato, loira — esclareço.
— Eu sei — ele assume.
— Você a conhece! — Estapeio seu ombro com força e ele responde
que sim, protegendo a bebida dos meus golpes. — Então por que fingiu que
não conhecia?
— Eu estava entediado, quis brincar com você.
— Que cretino! — acuso, cruzando os braços ao peito. — Eu estava
nervosa!
— Você é nervosa — ele corrige. O barman não se contém e arrasta
um coquetel na minha direção também. Não me faço de rogada e bebo tudo
de uma vez só, chateada. — Você precisa transar mais. Você é uma delícia
trepando, por que fica tanto tempo sem sexo?
Se minha cara não estivesse ardendo tanto, e o barman não estivesse
ativamente fingindo que não ouviu nada que Adônis disse, eu me viraria e
daria uma cabeçada na cara desse infeliz aqui mesmo.
— Por que você assume que eu fico muito tempo sem transar? — A
pergunta sai entredentes. Meu corpo ainda virado para o barman, e o meu
rosto retorcido na direção de Adônis.
— Sério? — debocha.
— Sério — insisto. Os dedos segurando o copo com força.
— Você quase passou mal — me lembra como se fosse óbvio.
— Você me fez gozar três vezes antes de me comer, é claro que eu
quase passei mal! — murmuro a contragosto.
— É uma questão de treino.
— Nem todo mundo transa profissionalmente, Adônis!
— Profissionalmente? — Ele parece confuso.
— Ai meu Deus! Você não é um prostituto? Desculpa eu pensei
que… — Embolo as palavras e acabo dizendo todas mais rápido do que
meu cérebro filtra. — O que você faz aqui? Só dança?
— Não — nega, rindo de novo. — Faço programas. — O alívio
percorre o meu corpo da cabeça aos pés, e a indignação sobe pelo caminho
inverso.
— Você é um idiota, quase morri aqui. Isso não se faz. — É
definitivamente prostituto e eu adoraria que estivesse importunando a
minha boceta e não a minha mente. Graças a Deus, esse pensamento eu
consegui manter preso nas paredes do meu crânio apenas, mantendo a boca
fechada. — O que é necessário para me tornar parte do clube?
— Você tem que ser indicada por um sócio, ou membro recorrente,
pagar a mensalidade e fazer a iniciação.
— Iniciação? Tipo uma seita? — A curiosidade matou a gata e minha
atenção já é toda dele de novo.
— Tipo uma seita — confirma com uma expressão modesta.
— Você fez isso?
— Sim.
— É difícil?
— Depende.
— De quê?
— Do seu facilitador, ou facilitadora. A pessoa que guia suas
primeiras dez experiências aqui no clube, até que você seja considerada
apta para ter independência sem quebrar regras, e sem incomodar os sócios
e membros antigos com a sua ignorância.
Minha ignorância?
— Você é sempre tão gentil?
— Não. Mas eu gostei de você.
— Eu estava sendo irônica.
— Eu não, Sabrina — me responde com seriedade. — O que você
fez é uma clara violação das regras do clube. Aqui a palavra de ordem é
exclusividade, não permitimos penetras. Você foi uma exceção à regra.
— Quanto custa o seu tempo?
— Gostou da amostra grátis e agora quer uma assinatura? — O
sarcasmo escorre em cada uma das sílabas de suas palavras.
— Me tornar sócia me faria manter meu emprego — confesso mais
para mim do que para ele.
— O que você faz para a loira Leona?
— Sou assistente.
— E vai virar puta? Porque não estamos contratando.
— Que engraçado.
O bendito saco de jujuba volta a aparecer do bolso em suas mãos. Ou
talvez seja outro. Será que não consegue ficar dois minutos sem mastigar
alguma coisa?
— Você é um sócio?
— Sou.
— Poderia ser meu facilitador?
— Não sei, poderia? Por que eu?
— Por que não?
— Você ainda precisaria ser indicada por um sócio — explica,
apontando o indicador para mim.
— Você é um sócio.
— Mas eu não sou seu amigo e nem te conheço de lugar nenhum. —
A expressão inocente com que ele diz isso me faz parecer a maluca do
parque que os jornais noticiam volta e meia. — Mas você pode pedir à sua
patroa. — Mais uma vez o sorrisinho de desafio. Que filho da puta.
— Porque você não pega logo uma faca e corta meus pulsos de vez,
se seu único objetivo é me ver agonizar até a morte?
— Isso demoraria horas, sujaria tudo, o proprietário não ficaria feliz,
e é aniversário da minha mãe. Não é o melhor dia para acabar na cadeia.
— Para de comer jujuba, meu Deus.
— Tem mais alguma coisa para eu colocar na boca?
— Ofereceria a minha, mas você tem algo contra beijos.
— Se a memória não me falha, isso configura uma mentira, Dona
Sabrina.
— Você beijou todo meu corpo, é um fato, menos a minha boca.
Ele se levanta com um olhar felino, procurando proximidade. Inspiro
o seu cheiro devagar para não ser flagrada.
— Não beijei seus pés. — A voz baixa e grave retorna ao eterno jogo
de vamos atormentar a Sabrina até ela gritar. — Nem a parte de trás dos
seus joelhos. — O polegar percorre minha coxa e traça um caminho até a
junta dos meu joelhos e os outros dedos se fecham atrás. — Com certeza
não beijei todos e cada um dos seus dedos. — Com a mão livre percorre a
minha pele do cotovelo até minha palma aberta e entrelaça os dedos nos
meus com suavidade. — Absolutamente, mais certo que o ar que eu respiro,
eu não beijei a junção dos seus seios. — A mão que deixa meu joelho
aponta para a união do meu decote e percorre a curva inferior do meu peito,
ainda que por cima do pano posso sentir o calor na minha pele. — Mas
podemos cuidar disso agora.
Reúno todas as forças que encontro e coloco a minha melhor cara de
paisagem antes de responder. Ele não pode simplesmente me ter aos seus
pés sempre que me tocar, ainda que me tenha, não pode saber disso.
— Isso é uma coisa de prostituto ou uma regra do clube? — Tento
desconcerta-lo.
— É uma coisa minha, apenas não quis te beijar. Por que insiste?
Ficou na vontade? — provoca, sabendo que eu não vou dar o braço a torcer.
— Acho que simplesmente estou acostumada a beijar todo mundo
com quem eu transo.
— Estamos falando de quantas pessoas?
— Eu não vou ter essa conversa com você.
— Já conversou bastante. Já rebolou na minha boca. Já sentiu meu
pau por dentro. Acho um pouco tarde para constrangimentos.
— Você não é meu amigo. — Pela segunda vez uso suas palavras
contra ele.
— Touché!
— Adônis. Preciso de você aqui.
Não me viro para ver quem o chama pelas minhas costas.
— Tenho que ir — ele me avisa, ficando sério de novo, segura no
meu braço com delicadeza e me fala: — Se conseguir convencer sua patroa
a te indicar, eu aceito ser seu facilitador. Se não tiver coragem de tentar
conseguir o que precisa… Bom… nunca vai saber o que perdeu. — Sua
mão deixa a minha pele e ele completa antes de se virar: — Você tem 48
horas.
— Espera! — Me levanto alarmada. — Como que eu entro em
contato com você?
— Eu te encontro. — É tudo que me diz, já de costas para mim e se
afastando.
Aguardo os três cliques do alarme de segurança para entrar em casa
já tirando a roupa. Avanço e escuto o último clique indicando que o sistema
está desativado.
— Ozzy, ligue as câmeras, por favor — digo em voz alta, ativando o
controle à distância da assistente inteligente. Um dos meus melhores
trabalhos, embora ainda esteja em fase de teste. Não foi criada para mim,
mas me apropriei do sistema que estou desenvolvendo para uma empresa
brasileira.
Os vidros do teto ao chão do meu apartamento são lentamente
substituídos pelos painéis gêmeos dos que desenvolvi para o clube. É
seguro dizer que a cada trabalho que desenvolvo, algo é adicionado ao
sistema da minha casa. Razões pelas quais nunca vou me mudar.
Nada pode substituir o prazer de entrar no apartamento e sentir o
cheiro de café acabado de ferver e o dispensador de jujubas artesanal
misturando a dose calculada de açúcar ao meu doce preferido.
Tiro as roupas da rua no cesto do corredor e entro nu, indo
diretamente para o banho. Dormir no clube e festejar o 1º dia do ano com os
funcionários vai me custar caro amanhã.
As filmagens ao vivo de câmeras marcadas nos mais diversos lugares
do mundo surgem nas paredes e olho para todas elas sem ver
verdadeiramente nenhuma.
O marcador de luz a laser está piscando.
— Ozzy, corre um diagnóstico no sistema do banheiro, por favor. —
Verifico o painel enquanto espero.
— O laser precisa de substituição, falta de energia de alimentação. —
A voz mecânica lê as mesmas palavras que aparecem na tela.
— Ozzy, ligue os aquecedores, por favor.
— Aquecedores nas zonas comuns iniciados há trinta e três minutos.
— Ligue o do meu quarto e o do escritório também.
— Falha na execução do comando, Senhor. Repita, por favor.
— Ozzy, ligue o aquecimento geral, por favor.
— Ó kapa, ó kapa.
Rio do recente erro de sistema.
Sigo para o outro banheiro ressentido, porque não tem um aparelho
de cromoterapia instalado. Tomar banho no escuro com cores pulsando nos
jatos de água faz parte do meu ritual. Não fico nem dois minutos debaixo da
água entediante do banheiro de visitas.
Passo a toalha rapidamente pelo corpo, só para não escorrer água no
chão enquanto pego meu café e assisto as notícias no painel da cozinha.
— Ozzy, passe os títulos das principais notícias do dia na tela, por
favor.
Nada de interessante, ou remotamente surpreendente acontecendo.
Deixo meu celular na placa carregadora e quando me jogo na cama e me
cubro, o relógio marca menos de 4 horas de sono.
— Ozzy, repete a receita do café hoje, por favor?
— 1 colher de leite condensado, 2 colheres de chocolate em pó, a
xícara de café quente e gelo picado. Bater durante 5 segundos em
velocidade 3.
— Ozzy, vamos adicionar mais meia colher de leite condensado a
partir de amanhã, por favor.
Preciso remover a necessidade de pedir por favor para ativar cada
comando de voz. Inicialmente pareceu legal, mas está ficando chato.
— Ozzy, adicione remoção do por favor no seu algoritmo, por favor.
Nem dois minutos depois o alarme soa e eu me levanto rápido, abro
meus olhos já em pé.
Ozzy atende a chamada, no modo automático.
— Adônis, nós precisamos de ajuda agora. Temos um container com
34 pessoas, 12 delas são crianças. Perdemos o trilho da carga em Verdara, e
as próximas horas são cruciais. Eu não quero saber se você foi vetado pela
polícia de trabalhar em qualquer caso oficial, apenas encontre onde
pretendem fazer a troca.
— Nós precisamos parar de nos encontrar desse jeito — digo, já
ligando o computador e redirecionando todos os programas de Ozzy para as
varreduras automáticas nos sistemas sequestrados sobre os quais mantenho
controle. — Todas as vezes que você me liga implorando ajuda, eu estou
completamente nu. Você nem esperou o sol do segundo dia do ano nascer
para me procurar no meio da noite. São 4 da manhã. As pessoas vão achar
que a gente tem um lance.
O capitão da força fronteiriça britânica rosna.
— Faça seu trabalho, garoto. Eu não estou implorando por nada, mas
as pessoas dentro daquele container com certeza estão. Seja a resposta da
prece delas para que eu possa fazer o meu trabalho, e chega de gracinhas.
— Um dia, você vai reconhecer que não vive sem mim e o meu
corpo sensual.
Apenas desligo o canal de comunicação, Ozzy desliga todas as luzes
e as telas exteriores e eu entro no modo maníaco. Tudo que vejo é
informação. Em folhas, colunas, linhas, quadrados, células. Toda e qualquer
transação comercial, clandestina ou não, deixa rastros informáticos. É
humanamente impossível mover alguém por mais de 50 metros sem deixar
uma pista que eu possa encontrar. E isso é tudo que eu preciso, a primeira
migalha.
Meus métodos nada ortodoxos conhecem poucos limites e por isso
sou barrado por qualquer autoridade que se orgulhe de trabalhar dentro da
lei. Também por isso, não demoro tanto quanto eles. A lei é falha. A lei é
velha. A lei é completamente manipulável e beneficia quem for esperto o
suficiente para a usar em seu benefício.
Eu cometi vários crimes digitais desde o meu segundo ano de
faculdade. Há testemunhas físicas, provas e muitas pessoas querendo me
enterrar por interferir nos negócios delas. Já fui preso algumas vezes, mas
nunca conseguiram me manter na prisão por mais do que dois dias.
Não que eu fosse inocente, mas a lei sempre foi flexível, aberta a
interpretação. E a cada pegada que deixo, eu crio outra, gêmea, de igual
intensidade que informe exatamente o contrário quando encontrada. Nunca
deixo apenas um trilho, deixo vários. Ninguém nunca foi paciente o
bastante para encontrar algo substancial porque não tem pessoas suficientes
para seguir todos os caminhos e descartar os inúteis.
Nenhum deles é como eu. Não tenho nada além de tempo e vontade
de encontrar esses miseráveis que se dão ao luxo de submeter inocentes a
qualquer tipo de abuso, que os fazem se sentir sozinhos, se sentir pequenos,
se sentirem nada. Indignos de respeito.
O sistema protege abusadores em todos os níveis e quanto mais eu
estudo o sistema, mas eu odeio a existência dele. A violência e o absurdo
são tão normalizados que te deixam doente, perdendo a noção do que é
aceitável ou não.
Pessoas só são sensíveis a atrocidades quando é o pescoço delas em
jogo. A maioria dos meus colegas, analistas de segurança tão bons quanto
eu, ou até melhores, falham todos os dias na única coisa que deveriam ter
como certeza: se importar.
Depois de um tempo, se você ainda se importa, cada caso destrói um
pedaço de você. Cada caso semeia um novo trauma. Cada caso te traz um
novo medo. Conhecimento é uma arma. O que ninguém te fala é que é uma
arma virada contra a sua própria cabeça.
Eu não sou o melhor na minha área. Sequer tenho a melhor
tecnologia, mas eu sou aquele que não desiste. E não estou sozinho.
Assim que monto o primeiro quadro de informação entro no jogo de
RPG que eu mesmo montei. As mentes mais geniais que encontrei nas salas
de jogos. Os melhores programadores amadores. E melhor, jovens, com
muito tempo para desperdiçar.
Eles são a minha equipe, trabalham comigo em todos os casos, e seus
esforços nunca serão reconhecidos, porque até onde eles sabem estão
apenas trabalhando numa realidade fictícia, um caso montado apenas para
desafiar suas mentes. Quanto mais difícil e mais tempo, mais joias virtuais
eles recebem, que podem ser convertidas em satoshis e facilmente
transformadas na moeda de qualquer país. Eles são pagos pelo jogo para
jogar. Esse é o sonho de qualquer jovem, assim como era o meu.
A equipe perfeita e indetectável, porque não existe. Não o suficiente
para ser encontrada. Para ser legislada. Para ser podada. Para fazer parte de
um sistema que chega sempre tarde demais.

Meus olhos vão ficando cada vez mais secos e lacrimejantes. As


horas passam e estou na pior posição que conheço. A de espectador. A de
quem espera. E quem espera, desespera. O ditado é real.
Localizamos o container. Meu trabalho foi concluído com sucesso,
mas minha mente ainda está conectada àquela coordenada até que eu veja o
resultado com meus próprios olhos.
O processo de resgate é lento, as autorizações de invasão demoradas
e mal posso suportar acompanhar os registros de pedidos entrando e saindo
da caixa de email dos responsáveis pelas áreas envolvidas, e deles para seus
superiores, ninguém querendo se responsabilizar por agir e falhar. Ninguém
querendo ser o elo onde a corda arrebenta. Todos preocupados em como a
falha será vista e não em como o sucesso é urgente e crucial para cada uma
das vidas que esperam numa caixa de metal no meio do mar.
Um cenário de agonia e expectativa, mantido em banho maria por
covardes fardados e despreparados que não se importam. Não mais, talvez
um dia tenham se importado, mas esse dia não é hoje, esse tempo não é já.
Seguro a minha respiração junto com a equipe autorizada a avançar.
O sinal de rádio duplicado ligado ao meu sistema de som. Algo pesado se
instala no meu peito quando começo a ouvir as vozes de longe. A
dormência se espalha pela minha pele. Minha garganta aperta como se
alguém estivesse tentando me enforcar quando ouço o capitão falar:
— 28 resgatados com vida. Missão concluída com sucesso.
Sucesso. Expulso uma risada obscura e nasalada. Sucesso.
Desligo o som quando começo a ouvir a equipe ser parabenizada. O
nojo que sinto me corroendo por dentro.
Ozzy sintoniza quase em tempo real as filmagens que já estão sendo
transmitidas para o canal de notícias.
36 horas trabalhando, e agora que posso descansar, minha mente não
me permite.
Não quando as imagens das 6 crianças mortas estão gravadas a ferro
e fogo em mim.
Não quando ainda posso ouvir o choro das mães segurando seus
corpos nas filmagens. Quando fecho os olhos e sou incapaz de afastar a
cena grotesca dos pequenos cadáveres sendo arrancados dos seus braços e
serem tapados por um lençol branco.
Não quando para aquelas famílias eu fui como o sistema. Cheguei
tarde demais.
Você não pode ser melhor que o sistema, se faz parte dele. Aquelas
crianças estavam condenadas desde o início e no fundo eu sabia. Tinha que
ter sido mais rápido. Melhor. Se eu tivesse ganhado algumas horas para que
aqueles imbecis pudessem perder. Não teríamos sacrificado ninguém por
medo de arriscar.
Me deixo cair no sofá. A exaustão me trouxe a um estado de energia
doloroso que não me deixa fechar os olhos sem querer gritar, nem me deitar
sem parecer que minha pele vai descolar do corpo.
As jujubas na minha boca tem gosto de cartão e nenhuma outra
comida me apetece. Preciso acalmar minha mente, mas meu corpo está no
estado máximo de alerta. Preso nas imagens em looping de todo o processo,
refazendo mentalmente cada passo, analisando onde eu poderia ter sido
mais rápido, onde poderia ter sido melhor, me frustrando ao encontrar
pouco ou nada que pudesse ter feito diferente.
Apenas eles poderiam ter feito mais. E escolheram não fazer. Em
alguns dias, a única coisa que eu queria era um galão de gasolina, um
fósforo e dois minutos a sós com algumas pessoas. Mas isso também não
traria aquelas crianças de volta.
Me concentro em imaginar uma luz dourada. Preciso quebrar o ciclo
das imagens monstruosas se engalfinhando na minha mente. Lentamente
faço a luz cobrir todo o meu corpo, consumir cada um dos pensamentos que
a minha consciência evoca, digerir cada instinto de violência que se agita
em mim.
O riso constrangido de Sabrina pulsa na minha memória e a sensação
é boa. Me seguro naquele som longe como se não houvesse mais ninguém
para lembrar. Mais nada a recordar.
Ela é leve, divertida, inocente e determinada. Quero vê-la sorrindo de
novo. Também quero vê-la gritar. Tem tantas coisas que poderia mostrar
àquela mente curiosa e disposta a experimentar.
Confiro o relógio e faço as contas rapidamente, e em meia hora posso
ligar. Eu lhe dei 48 horas desde que a deixei no clube. E elas estão perto de
terminar.
Vou descobrir o número do seu celular e me intoxicar da sua voz
satisfeita e dos seus risinhos de vergonha.
Isso é tudo que eu preciso para desligar a engrenagem de miséria e
tragédia rodando na minha cabeça.
A memória do seu gosto faz meu sangue frio começar a esquentar.
Meus pés marcam o compasso de cada segundo que passa enquanto
espero Leona chegar.
Voltando ao hotel para recolher minhas coisas, me senti ousada,
criativa, determinada. Abri uma nova pasta no meu tablet e ainda estava
dentro do metrô quando a ideia surgiu. Eu não escreveria um relatório.
Escreveria uma história. A minha história. Não era isso que Leona queria?
Que lhe contasse as minhas experiências em primeira pessoa? Que
descrevesse o mundo dos prazeres sensuais para quem está começando?
Adônis me deu a oportunidade perfeita e nem tive que me esforçar.
Cada toque, cada sensação, cada uma das suas palavras ainda
dançavam em mim, as memórias me acompanhando como se fossem a
minha própria sombra. Os detalhes vívidos, ao ponto de ficar vermelha
apenas por repetir alguns pormenores na minha mente. Quem me olhasse no
metrô teria a certeza de que eu estava vendo pornografia. E eu estava, mas
não no meu tablet, apenas dentro dos limites do meu crânio.
Deveria ser um lugar seguro, e livre de preconceitos e pudores.
Alerta de spoiler: Não era.
Perdi a minha parada tantas vezes, que fiquei indo e voltando do
ponto final do trilho, até ser arrancada, com educação, pelo segurança que
tentou validar meu bilhete, mas já tinha expirado para aquela viagem há
mais de quatro horas.
Mais uma humilhação para a lista e menos 70 libras depois, eu tinha
uma ideia robusta e um texto rudimentar, mas com muito potencial
rascunhado. E eu estava animada.
Cheguei em casa e meu único objetivo foi aperfeiçoar cada uma
daquelas palavras até se transformarem num relato autêntico e espontâneo.
Talvez eu tenha feito isso da forma mais metódica possível, e tenha
inclusive pedido socorro ao Miguel para rever meu texto.
Como escritor fantasma, ele lida com os mais diversos tipos de
histórias, ficção ou não. Um conto erótico não o perturbou. Achei estranho
que não se sentisse constrangido até que o gêmeo perguntou:
— Não se sente incomodada que sua patroa escreva personagens
inspiradas em você? Não se sente invadida com algo tão gráfico sendo
escrito com uma versão literária sua?
A coca-cola que eu bebia saiu pelo meu nariz e apenas respondi que
sim, às vezes. Preferia ser atropelada e quebrar as duas pernas que explicar
que aquele texto não era de Leona e que aquela versão de mim, era muito
pouco ou quase nada, literária. Afinal, minhas pernas estariam curadas em 6
meses, já a minha moral, carregaria sequelas para sempre.
Você simplesmente não conta para um dos seus irmãos mais velhos
que deu para um desconhecido em um banheiro e foi chamada de cachorra,
de ânimo leve. Não. Você se cala bem caladinha, limpa a coca-cola do rosto
e finge que não ficou cega por alguns segundos com o gás que subiu para o
cérebro e segue a vida com qualquer versão dos fatos que ele consiga criar.
Sua patroa está escrevendo uma história sobre você? Sim. Ótima
interpretação. Dez pontos para ele.
Eu estava tão possuída pelo ritmo ragatanga que nem me lembrei de
mudar pelo menos os nomes dos personagens.
Depois de rever o mesmo texto até à exaustão e adicionar descrições
dos cenários, cenas extra sobre cada coisa que vi, e detalhes que observei
num glossário inovador, que mais parecia um mosaico de feed de
Instagram, esperei o sol nascer para não parecer uma louca desvairada que
manda e-mails às 5 da manhã a alguém e cliquei em enviar.
Meu dedo indicador está com tique nervoso desde então, clicando
frenético em cancelar o envio dessa mensagem.
Agora meus pés tocam a mesma canção irritante e contínua porque
sou incapaz de controlar o movimento repetitivo.
É seguro dizer que estou tão nervosa que minhas orelhas estão
ardendo.
Mandei um conto erótico para a minha patroa e se eu já achava
aceitável quebrar as duas pernas para não passar pela vergonha de explicar a
verdade ao meu irmão, que me ama e faria qualquer coisa por mim, depois
de me zoar eternamente e contar tudo para Heitor para que ele me desse
uma bronca porque Miguel seria incapaz... Agora estava contabilizando a
pequena lista de órgãos sem os quais poderia continuar vivendo e que eu
trocaria para poder voltar 7 míseras horas atrás no tempo e não ter enviado
o texto para ela.
O que eu estava pensando?
Toma Leona. Você achou que eu não era uma boa profissional? Leia
um capítulo do diário que eu escrevi, e meu irmão revisou e me deu dicas
de alteração.
Olha, às vezes eu me surpreendo com a minha capacidade de ser
imbecil.
Quando ela entrar por aquela porta eu tenho duas opções:
Deitar no chão me balançando em posição fetal para que ela não me
humilhe antes de me internar, ou prometer meu primogênito para o Deus
pagão que estiver mais próximo, pedindo para ele apagar a minha existência
da memória dela e fazer a minha entrevista de emprego de novo.
Ouço o salto dos sapatos, exatos 16 angustiantes segundos antes dela
entrar pela porta, e minha alma covarde sair pela outra. Confiro se meu
coração e meu cérebro ainda estão na missão de existir e o batimento está
lá, nenhum sinal de abandono, não posso ter tanta certeza do meu cérebro
até que comece a falar.
— Você e eu. — Leona aponta na minha direção. — Almoço, agora.
— Me levanto tão rápido que meus joelhos berram pela agressão. Coloco
um sorriso modesto no rosto e a sigo em silêncio.

— Eu estava quase desfalecendo de fome — Leona diz para a minha


cara pálida de tanto conter a tensão enquanto ela comia.
Morri três ou quatro vezes entre os ovos e bacon que ela mastigou
com a avidez de dez mendigos e permaneci com a minha fachada plácida e
imperturbável, a personificação de uma bonequinha de porcelana num filme
de terror pronta a criar vida em cima de um guarda-roupa e dar o bote,
beliscando um bolinho de arroz com as pontas dos dedos, basicamente
esfarelando-o dentro do pires enquanto esperava.
O empregado tira nossos pratos e ela geme de satisfação. Limpando
os cantos da boca com o guardanapo, satisfeita. Sua personalidade
expansiva nunca me incomodou antes, mas agora era capaz de socar a cara
dela até amassar a perfeição dos seus traços por me fazer passar por isso em
público.
Ela retira uma resma de papéis de dentro da bolsa e reconheço meu
texto pelas poucas palavras que pesco enquanto o pousa em cima da mesa.
— Isso é realidade ou inventado? — pergunta casualmente, como se
a minha vida não dependesse disso.
Começo a me explicar na velocidade da luz, as palavras se
atropelando nos lábios que não se abrem rápido o suficiente para as deixar
passar com clareza, querendo acabar com essa tortura e garantir que mais
ninguém ao nosso redor possa entender o que estou dizendo.
— É perfeito — ela me interrompe e continuo falando por cima da
sua voz no meu discurso interminável, recitando todas as boas razões que
pensei serem ótimas no metrô, e lembrando que estava sem dormir direito
para justificar…
— Espera. O quê? — Meu cérebro rebobina a cena, pausando numa
realidade paralela em que ela disse que era perfeito.
— Está fantástico. Eu adorei. Está tão bom que nem importa se não
for verdade, ele vende verdade e é isso que eu quero. A emoção da garota
inexperiente se descobrindo num mundo de prazeres. Você captou com
perfeição. Eu sabia que isso aconteceria eventualmente. Parabéns.
Minha boca abre e fecha como um peixe que escapou para fora do
aquário e se debate com a secura do ar, as vias respiratórias se colando e
ardendo, sufocando com o excesso de oxigênio.
— Desculpa, Leona, você pode repetir isso? — peço em câmera
lenta, e sacudo a cabeça.
— Onde você estava se escondendo, garota. — Ela bate no
manuscrito com o dedo indicador. — Está tudo aqui. Você agora pode lidar
diretamente com a equipe de marketing e eu pretendo não ter que estar
presente em nenhuma reunião que apareça na minha agenda. Você é o nosso
produto. Você pode defendê-lo melhor do que eu. Está decidido.
— Eu? O quê?
— Você vai assumir o agenciamento da nossa nova linha editorial.
— A que você rasgou o contrato há duas semanas?
— Sim, imprima de novo e finja que nunca aconteceu. Nós vamos
produzir…
— Eu tive ajuda — confesso rapidamente, querendo parar seu fluxo
delirante de ideias apressadas.
— De quem?
— O meu irmão. Eu escrevi um rascunho e ele me ajudou a editar.
— Contrate-o também.
Muita informação para minha cabeça.
— Então o meu trabalho vai mudar. É isso?
— Já mudou, Sabrina. Nós precisamos de mais 11 ensaios como esse.
— 11?
— Sim. Um para cada mês. Vamos produzir uma série. Você vai
escrever os primeiros capítulos, junto com… — Ela pausa, olhando e
esperando que eu complete e estala os dedos quando não o faço. — Qual o
nome do seu irmão, Sabrina? Você precisa dormir.
— Miguel. Miguel — repito, ainda confusa.
— Você vai escrever os primeiros capítulos de cada título da série,
baseado nas suas experiências, e eu vou continuar daí.
— Tudo isso foi apenas para criar uma série de livros com uma
protagonista inexperiente? Porque apenas não usou a criatividade, Leona?
Eu tenho a certeza que você já foi inexperiente um dia!
Uma sombra passa rapidamente pelos seus olhos grandes e
brilhantes, mas dura apenas o intervalo de uma piscada.
— Você não quer o emprego?
— Claro que quero — respondo rápido.
— Então por que ainda estamos neste tópico?
— Eu estava tentando entender, se você me permitir, claro —
respondo ácida, com mais confiança do que a que tenho na realidade.
— Sabrina, você já leu meus livros, certo?
— Sim.
— A minha editora parece achar que eles estão ficando sórdidos
demais, deixando de ser apropriados para as massas, e se tornando
restritivos, direcionados para um determinado nicho que ocupa uma
pequena parcela da sociedade literária. E eu concordo. Comercialmente
falando, meus livros estão se tornando… — Ela faz uma pausa dramática,
testando a palavra na boca antes de a proferir em voz alta. — Vulgares —
completa com desdém. — Aos olhos do meu público-alvo.
Ela se ajeita na cadeira, e une as mãos numa pose de autoridade antes
de continuar.
— E ao mesmo tempo que eu quero agradá-los, convenhamos, eu não
pretendo deixar de ser rica nem de escrever, mas eu me sinto
profundamente entediada em descer a esse nível patético e escrever de um
ponto de vista tão… — Mais uma vez ela se dá um segundo para testar a
palavra. — Insípido — completa. — Eu geralmente me empolgo com a
história, perco a mão, faço mais do mesmo, no nível de imoralidade que me
satisfaz, e o resultado de quando escrevo personagens baseadas nas minhas
experiência é um texto que servirá apenas para acender fogueiras nas casas
da donas de casa que aguardam meus lançamentos com ansiedade.
— Mas você é um sucesso de vendas.
— E pretendo continuar sendo. Com uma nova linha de base. — Ela
aponta para o meu texto novamente. — Tenho a certeza de que consigo me
ater ao que agradará a gregas e a troianas. Isso é bom. Muito bom — repete,
me entregando meu próprio manuscrito entre mãos. — E o fato de você
entender o produto a nível pessoal te faz a melhor pessoa para liderar a
parte criativa da estratégia de marketing, que era a proposta do seu trabalho
desde o início. Isso é explicação suficiente ou você precisa que escreva um
ebook sobre o caso?
Levanto as mãos em sinal de desistência.
— Tudo bem, Leona. Existe apenas um problema, que eu tenho a
certeza que, depois de tudo isso, não será um problema de fato.
— Qual?
— Vou precisar que me indique para ser sócia do Nox e financie um
prostituto para que eu possa me submeter a todas as experiências
necessárias. Acho que está mais do que claro que não funciona para mim
apenas viajar para lugares diferentes em busca de encontros inusitados e
revelações. Preciso me sentir à vontade para conseguir interagir. Não posso
fazer isso mudando de pessoa e ambiente a cada noite. Acredito que estar
no mesmo lugar e com a mesma pessoa resolveria a minha dificuldade, e
chegaríamos num meio termo que serve a nós duas.
Olho para os lados, conferindo se o tempo parou ao meu redor
também, antes de decidir que Leona pode estar tendo uma síncope.
— Leona. — Toco seu braço, sacudindo-a levemente. Como quem
acorda um sonâmbulo. Seus olhos vidrados, completamente assustadores.
— Você disse Nox?
— Sim. Alterei os nomes do lugar e dos protagonistas no texto antes
de te mandar. Mas isso aconteceu na sede deles aqui em Londres. Não vou
saber te dizer o nome do cara, mas você deve conhecê-lo pelo nome
comercial também. Ele sabia quem você era quando te mencionei.
— Qual o nome dele? — A cor da pele dela, anormalmente
desvanecida.
— Adônis. Ele é um gogo boy e garoto de programa, aceitou ser meu
facilitador se você me indicar.
— Como você chegou ao Nox, Sabrina?
— Eu posso, talvez, ter usado o seu cartão de sócia…
— Eu não tenho um cartão de sócia.
— Claro que tem, alcanço a minha bolsa. Você o recebeu enquanto
eu estava no hotel. Um presente, acredito. Veio junto com o convite da festa
de aniversário da Senhora Etienne.
Ela fecha os olhos e parece conter algo dentro dela.
— Peço desculpa por ter invadido a sua privacidade, Leona, não
pretendia..
Ela ergue a mão na minha frente para que eu pare de falar.
— Está tudo bem, Sabrina. Eu vou falar com ele sobre a questão da
sua iniciação.
— Então você está por dentro do processo.
— Eu já frequentei outras das sedes deles pelo mundo.
— Por acaso não teria o número de Adônis? Qual o nome verdadeiro
dele?
— Esse é seu nome verdadeiro. Adônis Etienne. E não, não tenho o
número.
— E como pretende contatá-lo?
— Ele vai nos encontrar.
Ela deve ter alguma história não acabada com ele porque fica, sei lá,
triste pela primeira vez desde que a conheço. Já a vi irritada, feliz, furiosa,
entediada, satisfeita, entusiasmada, mas é a primeira vez que a vejo com
cara de desânimo.
Remoo algumas perguntas dentro de mim, e sou interrompida assim
que começo a falar pelo toque do meu celular.
Atendo apenas para ouvir:
— Bom dia, meu bem, sentiu saudades minhas?
— Adônis? — pergunto, e capturo a atenção imediata de Leona.
— Se precisa mesmo perguntar, vou considerar que já passou tempo
demais desde a última vez que gritou meu nome.
Minha cara arde, e Leona ri, assumindo sua postura normal de
descontração, a nuvem que a cobriu por uns momentos se dissipando.
— Posso te ligar de volta em alguns minutos? — peço, querendo
fazê-lo em privado.
— Claro. Te vejo em duas horas, te envio a localização pelo
whatsapp.
— Eu estou no meu horário de trabalho.
— Você pode vir buscá-la aqui — Leona interfere em voz alta.
— Te vejo em 60 minutos, então — avisa desligando imediatamente,
me deixando no completo e absoluto vácuo.
— Ele desligou na minha cara — reclamo com Leona.
— Isso se parece bastante com algo que ele faria.
— Você já contratou os serviços dele? Preciso saber o passado de
vocês antes de me meter nessa história?
— Você já está metida nessa história até a raiz dos cabelos. — Ela dá
mais uma vez a risadinha afetada de quem sabe mais do que eu. — Nós
costumávamos ser melhores amigos.
— Vocês… — Hesito por um momento.
— Nunca trepamos — ela responde sem qualquer pudor.
— Por que deixaram de ser amigos, então?
— Suponho que ainda sejamos — explica pensativa —, algumas
coisas nunca se apagam, algumas pessoas são para sempre.
— E você tem certeza que não existe uma história romântica por
detrás dessa situação?
— Você pode respirar tranquila, Sabrina, seu prostituto de estimação
nunca passeou no meu parquinho.
Ela pega a bolsa e se prepara para sair da cafeteria.
— Sabrina, você sabe que, ainda que suas funções sejam pouco
ortodoxas, você não é obrigada a fazer nada que não queira. Isso está claro?
— Eu aceitei esse emprego exatamente por ser algo que eu nunca
teria coragem de procurar — admito.
— Você pode ser livre de outras formas. — Ela abotoa o casaco com
uma elegância surpreendente.
— Sim, mas agora que eu comecei por essa… — Ergo os ombros,
admitindo para mim e para ela a realidade.
— Uma devassa em construção — ela observa.
— O que eu posso dizer? Já tinha gostado, eu só ainda não tinha me
sentido envolvida o suficiente para mergulhar na experiência de cabeça.
— E Adônis foi o mágico que tirou o coelho da cartola?
— Eu acho que ele estava no lugar certo, na hora certa, e eu estava
propriamente motivada. — Mordo os lábios para conter as imagens de
brotarem na minha mente e me envergonharem de novo.
— Quantas vezes você gozou, realmente? — Baixo a cabeça
fechando os olhos e sentindo um arrepio se espalhar nas minhas costas,
esticando minha pele.
Subo quatro dedos da mão, respondendo em silêncio.
— Propriamente motivada. — Ela confirma com a cabeça. — Sei —
debocha, já colocando a bolsa no ombro ao sair.
Preciso de meio litro de suco de maracujá.
— Vou estar te esperando — garanto a Sabrina do outro lado do
telefone. — Não se preocupe, eu consigo me manter entretido com
facilidade. — Baixo a voz, como se estivesse falando perto do seu ouvido.
— Por favor, não agarre ninguém. — O resmungo de frustração me
faz rir muito, e foi exatamente por isso que eu vim.
— Egoísta demais essa mulher, sabe, senhora... — Verifico o crachá
da mulher sentada atrás da mesa, na recepção. Lentes grossas e uma
armação fina com apoio no nariz, talvez nos seus mais de sessenta anos. —
Collins. Ela não quer me dividir com ninguém. — Aponto para o celular
brincando. — Me conheceu há três dias e já está toda possessiva. Pode isso?
— Adônis, pare de assediar a mulher, ela tem 63 anos!
— Sempre gostei de mulheres mais velhas — digo, sentando na mesa
e dando um beijo na bochecha da senhora. — Eu e a senhora Collins vamos
nos divertir enquanto você não chega — completo, tirando uma selfie de
nós dois e enviando diretamente para Sabrina.
— Mantenha as mãos longe dela, seu depravado.
— Não se preocupe amor, elas estarão prontas para você.
A senhora Collins se empertiga toda quando a porta abre e Leona sai
da sua sala trazendo uns papéis. Ela congela quando me vê.
— Oi, sumida — cumprimento calmo.
Achei que quando a visse de novo fosse sentir toda a falta que ela me
fez durante esse tempo condensada num único instante, contraindo como
um corpo vivo se expandindo no espaço, mas eu olho para ela e realmente é
como se a tivesse visto na noite anterior.
É apenas Leo, minha melhor amiga. E tudo que consigo sentir é a
necessidade quase dolorosa de a abraçar apertado.
Pulo da mesa num impulso apenas, abandonando a pobre senhora
Collins que faz sua cabeça de bola de ping pong entre nós. Ela acabou de
me ver apertando a bunda de Sabrina poucos minutos antes dela sair
correndo para enviar um documento por correio, acompanhou nossa
conversa pelo celular e agora me vê abraçando Leo como se pudesse me
fundir com ela. Tenho a certeza que está confusa. E pensando que eu sou
um péssimo pretendente. Afinal, me apresentei a ela como namorado da
Sabrina assim que pisei no escritório.
Leo relaxa em meus braços e não a largo, suas mãos me apertam de
volta, a cabeça afundando no meu peito, inspirando fundo, sentindo meu
cheiro. Ela se afasta apenas para me ver melhor e seu sorriso é contagiante.
— Eu já te disse como te amo hoje? — recorda nossa pequena
brincadeira.
— Não — respondo, e ouço o murmúrio de surpresa da senhora
Collins atrás de mim.
— Talvez eu te diga amanhã, então — Leona completa, e eu sorrio.
No instante seguinte a atmosfera natural se desfaz, é como se o peso
do tempo recaísse sobre nós. O seu sorriso se fecha numa linha fina, e eu a
encaro, me perguntando como ela conseguiu ficar tanto tempo longe.
Eu tinha Sebastian, ela tinha a quem?
Ela abre a porta e faz sinal para que eu entre para desespero da
senhora Collins.
Eu me preparei por anos para este momento, há pelo menos um
milhão de perguntas que gostaria de lhe fazer, momentos que quero
partilhar, mas seu rosto tenso me diz que não é a hora de ter uma conversa
de meia-noite.
Eu posso esperar.
As palavras de Sebastian flutuam na minha mente:
“Eu só não quero que ela se sinta pressionada e corra de novo.”
— Há um mundo de coisas que eu gostaria de te perguntar, Leo, mas
a única que realmente precisa ser feita agora é algo que me corroeu por
dentro durante muitos anos, por meses eu deitava a cabeça no travesseiro e
pensava: teria feito diferença se eu tivesse ido atrás de você?
Ela nega com a cabeça.
— Eu não estava fugindo de você. Estava correndo de mim mesma.
Demorou um bom tempo para que eu entendesse isso. Você e Sebastian
eram tudo para mim, e pensar numa vida sem vocês me fazia sentir...
Não insisto nem a pressiono, no fundo o que sempre quis lhe dizer
era apenas que eu estaria no mesmo lugar quando quisesse voltar para casa.

40 minutos de conversa não são nada para cinco anos de silêncio,


mas aceito o que me dá. Ela teve suas razões para ir embora, mas escolheu
voltar. As coisas não precisam voltar ao que eram ontem. Posso ser seu
amigo de novo, não procuro a antiga Leona, estou disposto a reconhecer e
acolher quaisquer mudanças que o tempo tenha provocado nela.
Só não posso suportar que nos comportemos como dois estranhos, e
não pretendo permitir que desapareça de novo.
Escutei calado o que quis me contar e prometi não dizer a Sebastian
que a vi até que ela se encontre com ele, o que prometeu que faria.
Inspiro fundo, resistindo a quebrar a sensação gostosa que a nossa
conversa rápida deixou, não posso simplesmente ir embora sem falar nisso.
Encaro o chão longamente e sinto que ela se prepara para o momento de
tensão.
— Ele também está esperando por você, Leo. Sempre esteve —
completo, olhando nos seus olhos pequenos e delicados.
Ela encara o chão e se demora num momento infinito ali.
Quando me olha, seu rosto é a viva imagem da angústia. Os olhos se
enchem de água a uma velocidade alarmante.
Ela me diz em meia voz:
— Eu estou noiva, Adônis. — A loira remexe o dedo anelar e uma
pedra surge onde antes havia apenas uma banda de ouro branco. Um anel de
noivado.
Me sinto pequeno, porque sei como aquilo vai afetar meu irmão, mas
não posso me meter na história deles, não posso exigir nada dela, nem
posso julgar suas decisões.
Deixo a informação se acomodar em mim. Permito que encontre
espaço entre as entranhas da minha mente. Engulo em seco, dividido entre
as palavras que se formam na minha cabeça, todas parecendo inadequadas e
fora de tom, então opto por não dizer nada.
Apenas confirmo com a cabeça, me virando, tentando me livrar da
sensação de que estou traindo Sebastian por não o avisar. Meu coração grita
basta, e eu dou um passo em direção à porta tentando contê-lo, mas não
adianta. As palavras saem da minha boca ainda no caminho, antes que
consiga me colocar longe o suficiente. Nunca fui de conter seja o que fosse,
hoje me parece um péssimo dia para começar:
— Isso vai destruí-lo, Leo.
Ela pisca e vira o rosto, tentando esconder a cortina de lágrimas
gordas esculpindo o contorno da sua pele como se molhasse uma escultura
de mármore.
Apenas saio, incapaz de a ver sofrer, com o coração apertado, porque
sei que ela não será a única. Sebastian será pior.
Pelas minhas costas, ela diz em voz alta:
— Não estrague a minha assessora, Adônis. Tenho planos para ela.
Me viro, piscando para senhora Collins que mal pode conter sua
curiosidade:
— Não se preocupe, na pior das hipóteses vou casar com ela. — Dou
de ombros e a mulher ao meu lado cobre a boca com ambas as mãos.
— Não precisa exagerar — Leo diz, rindo da reação da secretária,
julgando meu pequeno show.
— Não estou exagerando, Leo. Eu estou apaixonado.
Ela ri como nos velhos tempos. Todas as vezes que me apaixonava
ela tinha a mesma reação, às vezes pela moça da cantina, às vezes por
alguém no metrô, eu sempre achava que estava apaixonado por alguém.
E, de novo, sou preenchido por aquela sensação de que não passou
tempo algum entre nós.
Sabrina se esgueira pela lateral da fila gigante da minha gelataria
preferida. Sorrio ao lembrar que ela ainda acha que eu sou um garoto de
programa. Pelo menos, parece disposta a pagar pelos meus serviços.
Em suas mãos, traz duas cestinhas de biscoito cheias da minha
segunda sobremesa preferida.
— Snow Flake — ela lê o nome na parede. — Não conhecia esse
lugar.
— Meu bem, você me parece desconhecedora de coisas demais. Esse
é o melhor gelato dessa cidade e arredores!
Ela assume uma expressão de deboche, torce os lábios e estala a
língua para mim, e tenho vontade de corrigir sua atitude no tapa, mas
decido por uma alternativa menos agressiva e com mais potencial de surtir
efeito imediato.
Seguro seu rosto enquanto ela protege as cestinhas da minha
aproximação inesperada e digo olhando a centímetros do seu rosto, sentindo
o calor da sua respiração contra minha boca.
— Da próxima vez que seu rosto me mostrar algo além de obediência
e boa vontade… — Ela fica séria consciente das pessoas ao nosso redor nos
encarando. — Eu não vou conter o impulso urgente de te disciplinar. Esse é
o primeiro e último aviso que terá. — Contorno seu lábio inferior com o
polegar e ela se encolhe subtilmente, acolhendo um arrepio.
Pego minha cestinha das suas mãos e começo a caminhar com ela no
meu encalço.
— Eu não quero ser sua submissa, Adônis — sussurra baixinho.
— O quê? — Me viro, lambendo a colher lentamente, mantendo sua
atenção na minha língua.
— Você escutou. — Ela olha para os lados, voltando a me seguir,
agora já ao meu lado. Troco de lugar com ela, para que fique do lado de
dentro da calçada. Londres é a capital da correria e dos acidentes de
bicicleta, o lado de fora da calçada pode ser mais perigoso que a própria
estrada, segundo as estatísticas.
— Ok — respondo e ela respira aliviada, apenas para torcer o
pescoço na minha direção com uma rapidez alucinante quando resolvo
provocá-la um pouquinho. — Vou adicionar ao seu contrato.
— Que contrato? — A voz aguda e exasperada soa como um assobio.
— Seu contrato de submissão! — Minha risada é alta e
espalhafatosa. Ela para e cruza os braços, as pessoas se desviando para
passar sem encostar nela. — Estou brincando — garanto. — Se não quiser
ser submissa, não será. Nenhum problema para mim.
Seu rosto diz que achou fácil demais me convencer.
— Tudo isso é sobre você, Sabrina. Não sobre mim. Se não tem
curiosidade de saber qual o real sabor de se submeter como a boa cachorra
que você sabe que é — Aponto para o seu coração com a pequena colher.
— Tudo bem para mim. Mas, em seu benefício, sou obrigado a te informar.
— Levo a mão ao seu pescoço, suavemente, só para que sinta meus dedos
ao redor da sua garganta, depois traço uma linha determinada com as costas
dos dedos até o seu ombro. — Você iria adorar usar uma coleira com meu
nome. — Pisco com o olho esquerdo e vejo seu cérebro congelar com uma
satisfação perversa.
— Eu… — Ela morde o interior do lábio repensando.
— Foi o que imaginei — debocho antes dela completar o raciocínio.
— Você é insuportável, sabia?
— Uhum, deliciosamente insuportável, eu suponho. Sorte a sua.
— Onde estamos indo?
— Temos que discutir os termos da sua iniciação antes de começar.
Você já tem um facilitador. — Aponto para mim mesmo. — Já tem a
indicação. — Confirmo com a cabeça. — Agora precisamos de um plano.
— E não havia nenhum outro lugar que não as ruas lotadas para
fazermos isso?
— Está tentando ficar a sós comigo, meu bem? Eu entendo.
Contenha-se, preciso que foque primeiro.
— Você se recorda que você foi contratado para essa iniciação, logo,
a patroa sou eu, certo?
Apenas abro um sorriso gigante em resposta e ela passa a língua na
linha dos dentes irritada.
— E você tem alguma ordem para mim? — Aperto sua cintura,
trazendo-a para perto. Quando ela hesita beijo sua bochecha. — Vamos
falar de coisas sérias, então. E Sabrina, eu não tenho nada contra receber
ordens.
Meu olhar sugestivo é recebido com uma careta impertinente.
— Você seria meu submisso? — provoca, insolente.
— Sim.
— Isso foi uma resposta insanamente rápida. — É gostoso ver como
ela se desarma com facilidade.
— Não tem nada que você possa propor que eu não fizesse, não perca
seu tempo listando coisas de uma realidade paralela em que existe algo que
eu não faria por prazer. O que quer que sua linda cabeça consiga cogitar, a
resposta é sim. Mas por hora, o dono da coleira ao redor do seu pescoço
ainda sou eu, comporte-se bem e talvez seja recompensada.
— Ainda não gosto dessa coisa de submissão — pontua, séria.
— E quando testou? Da única vez que te submeti, você pareceu bem
satisfeita. Ou é uma atriz digna de óscar e precisamos te inscrever na
academia de belas artes.
Ela ajeita as madeixas que o vento bagunçou e enterra as mãos nos
bolsos, depois de apertar o cachecol tapando até a ponta do nariz.
— Eu já vi muita coisa que me desagradou. Gostei da nossa transa,
claro, foi… emocionante. Mas eu já vi submissão real, e não é algo que eu
gostaria de fazer.
Muitas pessoas confundem ser submissa com ser escrava sexual de
alguém, são formas e níveis de submissão totalmente diferentes, porém,
ainda assim consensuais, como tudo nas práticas de BDSM. Julgar um
relacionamento entre um dom e uma submissa por uma cena avulsa na
relação deles pode ser traumático para alguns iniciantes e travar seus
interesses.
— Você tem uma palavra de segurança, use-a. Precisamos de gestos
de segurança também, para quando não puder usar a boca. — Seus olhos
perfuram minha pele ao receber a informação, mas não comenta. Aposto
que em sua cabeça passam todos o tipo de cenas pesadas em que ela estaria
com a boca amordaçada e impedida de dar um belo de um chute no meio da
minha cara. — Não deve se forçar a nenhum desconforto dentro ou fora de
uma cena. Tudo que será feito com você, será discutido antes, submissa ou
não, nada acontecerá sem o seu consentimento. De qualquer forma, há
muitas outras coisas para você experimentar antes disso.
— Tudo bem. Mas deveríamos estabelecer limites.
— Nós podemos estabelecer uma base, você ainda não conhece os
seus limites inteiramente. É muito cedo para defini-los. Vou te fazer umas
perguntas.
— Mais?
— Direcionadas. Nada demais.
— Lá vem.
— Não precisa justificar, apenas responder. Não vou interagir com as
respostas.
— Gosto disso. Também posso fazer perguntas?
— Está querendo saber coisas sobre mim?
Ela levanta um ombro e aperta o cinto do casaco mais apertado. O
vento gelado corta nossas peles, mas continuamos conversando e
caminhando.
— Só para me manter distraída.
— Feito. — Paro apenas um instante para lhe estender a mão e selar
um acordo e nem lhe dou tempo de tirar a mão antes da primeira questão.
— Qual foi o último sonho erótico que você teve?
Volto a caminhar com ela, alheia à distância que já percorremos, ou
ao caminho que estamos fazendo. Começo a sentir os sinais alarmantes da
exaustão. As pontas dos meus dedos vermelhas de frio. Gelato e inverno
não combinam, mas não pude resistir. Preciso dormir de verdade.
— Não consigo me lembrar. Nunca me lembro dos meus sonhos. —
Decido que está sendo honesta, seu rosto não estava envergonhado, sua
expressão parecia curiosa, como se ela também gostasse de saber.
— Seus vizinhos já te ouviram transando? — Talvez eu só queira
saber se ela tem o hábito de levar pessoas para casa, mas quem pode me
julgar?
— Não.
— Qual seu tipo de pornô favorito? — Sinto seu pensamento pesar
antes dela responder.
— Massagens. Gosto de assistir a massagens, mas não sou muito de
vídeos, prefiro áudios.
Interessante.
— Já transou com alguém te assistindo?
— Não.
— Gostaria? — As perguntas diretas e rápidas não lhe dão tempo
para se preparar e ela responde quase por impulso, se surpreendendo com
suas próprias respostas.
— Tendo em conta as cenas dos últimos capítulos, acredito que a
resposta correta é sim.
— Já pagou por sexo?
— Estou pagando agora, suponho. — Não estou completamente certo
de querer que ela pense que está me pagando por sexo, mas gosto que pense
que temos um acordo financeiro declarado.
— Você já pensou em sexo hoje?
— Sim.
— Já transou com mais de uma pessoa ao mesmo tempo?
— Não.
— Gostaria?
— Sim. Mas não com dois homens.
— Você gosta de mulheres?
— Não.
É a minha vez de a olhar confuso.
— Não entendi. Então por que não com dois homens?
— Eu não gosto de anal.
— Isso não faz o menor sentido.
— Você disse que não ia interagir com as minhas respostas — ela se
defende, e eu ainda estou lidando com a falta de criatividade que é alguém
pensar que num ménage a única coisa a ser feita com dois machos à
disposição é ser penetrada simultaneamente pelos dois.
— Quando foi a última vez que você se masturbou? — Ela retorce os
lábios, se recusando. — Ok. Se só pudesse transar numa posição o resto da
vida, qual seria?
— Sentada, por cima.
Eu paro e tiro meu cartão do bolso, abro a porta de metal para que
entre.
— Onde estamos indo?
— Dar uma volta no Nox — explico, sabendo que ela não reconhece
esta entrada e só agora se situou no mapa. — Quero que escolha algumas
coisas, começamos amanhã.
— Eu ainda preciso voltar ao escritório hoje.
— Vai ser rápido. Prometo não amassar suas roupas.
— Por que será que eu não acredito nisso?
— Porque você é uma mulher de pouca fé! Entre.

— E você vai ser o facilitador dela? — Markoz me pergunta


desconfiado.
— Sim.
— Está tentando roubar meu emprego Adônis, ou isso tem a ver com
a lesão no meu pau? — Ele ainda não consegue ter uma ereção desde a
lesão e está ficando levemente surtado com a possibilidade de impotência
permanente.
— Claro que não.
— Estamos perante a próxima senhora Etienne? — Sua sobrancelha
se arqueia e os lábios se apertam querendo rir.
— Talvez. — Não minto e nem digo totalmente a verdade.
— Você não tem jeito Adônis. Sebastian sabe sobre esse lance?
— Não.
Ele levanta as mãos para o ar.
— Lá vamos nós de novo. — Ele leva os punhos ao quadril. — O
que você quer de mim, tenho a certeza que não veio me avisar só porque eu
sou bonito.
— Preciso de um contrato — respondo, colocando uma folha e uma
caneta na mesinha entre nós, lhe indicando que se sente no sofá.
— Nós não fazemos contratos com iniciadas, esse é o ponto. Que
possam desistir sem compromissos a qualquer momento, antes de se
tornarem sócias plenas.
— Agora fazemos.
— Eu não sei se gosto disso.
— Não é para você assinar, relaxa.
Carregado.
Frio e imagens rápidas passam a cada piscada lenta que dou. Um
aperto no estômago e a cara bem perto do piso claro do apartamento.
Percebo que o aperto na barriga era o ombro de Sebastian só quando ele me
coloca sentado no box de qualquer jeito e tenta ligar o chuveiro.
— O quê que está acontecendo, cara? — A minha visão está um
pouco turva ainda, meio acordada e Sebastian enfia a mão na minha cara.
— Você está maluco, caralho? Como que liga essa merda? — ele
pergunta, sacudindo a mão aleatoriamente na frente do laser, conseguindo
ligar a água que jorra gelada em cima de mim.
— Puta que pariu, Sebastian. Que porra? — Me levanto e ele
arregaça a mão na minha cara de novo, me mantendo preso, os dedos
retorcidos no meu couro cabeludo. — Ah, você já descobriu que eu
encontrei a Leona. — Ele me força na direção da água de novo, empurro-o
para longe de mim, ele quase rosna, e caralho eu não estou entendendo
porra nenhuma. Me sento no chão do box um pouco tonto.
Ele me segura pelo pescoço com raiva e pergunta com um tom severo
que o vi usar pouquíssimas vezes na vida, mas sei que não significa boas
notícias:
— Você está drogado, Adônis?
Engulo em seco.
— Não.
— Suas pupilas não receberam o memorando, elas estão gritando o
contrário. O que você tomou?
— Eu juro que… — A lembrança interrompe minha própria fala e
outro tapa estala no meu rosto. Tiro suas mãos de cima de mim com os
braços. — Calma, porra. Para de me bater. Eu não consigo pensar se você
estiver sacudindo meu cérebro, merda. O que você está fazendo aqui?
— Você pegou essa merda de trabalho de novo, não é? — me acusa,
quase cuspindo com a violência da sua fala. — Qual o seu problema?
Sebastian nunca superou os meses em que eu precisei de tratamento
psicológico depois do trauma de perder dezenas de pessoas para o tráfico,
numa operação quando ainda trabalhava diretamente com a força de
segurança nacional. Eu caí muito fundo, mas estive anestesiado a maior
parte do tempo. Ele não. Meu irmão esteve sempre em pé, do meu lado,
garantindo que eu tinha todas as condições para sair daquele buraco mental
onde tinha me enfiado.
A minha promessa de não pegar nenhum trabalho que pudesse ser
gatilho ecoa na minha cabeça e fecho os olhos, os apertando, descansando
as costas na parede e deixando a água apaziguar meus pensamentos.
Ele não me dá trégua, apenas continua:
— Nós tínhamos a reunião da AlfaTech para aprovar o pedido de
patente do protótipo da Ozzy, e você não apareceu. As ações da AlfaTech
estão mais altas do que as do Nox, e caralho, o Nox já é um negócio
milionário. — Seu corpo demonstra sua indignação gesticulando sem
sentido. — Eu já tenho que lidar com o conselho da Lenox Entreprises
querendo vetar toda e qualquer decisão minha porque eles enfiaram a porra
da cabeça no cu e acham que podem me dizer o que fazer, tenho que escutar
meu pai reclamar, dizendo que eu me dedico mais a um puteiro do que ao
legado dele, e você é incapaz de parar de brincar com a porra da sorte e
cuidar da sua vida e da sua própria empresa?
— Merda — respondo apenas. Puta que pariu. Pior do que ter que
lidar com meu irmão quando ele não tem razão, é ter que aturar quando ele
tem.
— Eu tomei um remédio pra dormir, eu estava estressado. Sim,
aceitei um trabalho que não devia, não imaginei que poderia dar tão errado.
Mas eu não estava tendo uma crise nem nada do tipo, só estava estressado
querendo relaxar — minto, como se esse trabalho tivesse sido algo pontual.
— E o seu pau quebrou também por acaso? Porque não arrumou a
porra de uma mulher, ou duas e trepou até cair para o lado? Por que raios
está todo mundo dando defeito ultimamente?
— Eram crianças — lembro em voz alta, ele se encolhe e silencia por
um momento.
— Você está proibido de aceitar qualquer trabalho desse tipo
enquanto a Ozzy não for aprovada. Encontre uma mulher na padaria, traga-
a para casa, ponha um anel no dedo dela e se case em uma semana se
quiser, mas não aceite mais nenhum trabalho de segurança. Eu fui claro?
— Eu vi a Leona.
— Eu escutei da primeira vez.
— Eu me encontrei com ela, conversei… — adiciono bem devagar,
testando o terreno e ele não parece chateado. — Ok. Você não vai afundar a
minha cara nos azulejos — confirmo espantado.
— Não — ele concorda.
— Por que? Eu prometi que não o faria.
— Você promete coisas demais, Adônis. Inclusive amor eterno a
todas as suas mulheres, e assim como o seu amor, seu comprometimento se
reduz a ser eterno enquanto dure. Aproveite e diga a essa desalmada que ela
me deve 1000 dólares.
— O quê? Por quê? — Fico confuso. Primeiro não queria tocar no
nome dela e agora já quer mandar recadinhos?
— Coisa nossa.
— Então diga você.
— Direi.
— Você vai procurá-la?
— Não.
— Então?
— Ela vai me procurar. — Ele cruza os braços diante de mim, sem
piscar nenhuma vez. Bato com a cabeça no azulejo prevendo o filme que
ele está formando na cabeça.
— Eu não me droguei. Não do jeito que você está pensando — me
defendo, exausto só da expectativa de ter que explicar tudo até que ele
aceite. — Eu tomei um remédio para relaxar e fui dormir. Foi só isso.
A descrença severa em seu olhar e os lábios levemente torcidos no
lado esquerdo da boca indicam que está tentando se controlar. Os
antebraços tensionados e as mãos fechadas em punho contra o peito
completam a abordagem sombria e intransigente.
— Puta que pariu, Sebastian. Eu te odeio.
— Eu adoraria poder dizer o mesmo, e não ter tido que lidar com as
imagens formadas na minha cabeça quando tentei te acordar e não
consegui.
Saio do banheiro batendo os pés no chão, encharcando tudo pelo
caminho, completamente pelado e abro a mesinha de cabeceira pegando o
frasco de comprimidos e a receita médica acompanhada. Aperto os dois
entre os dedos, e os esmago em seu peito, deixando-o sozinho por um
segundo e nem um pouco mais, já que ouço seus passos logo atrás de mim.
— Oxicodona. Você acha que isso não é droga?
— Não do tipo que…
— Não tem tipo de nada, Adônis. Você não precisa dessa merda. O
que você precisa é entender que não pode abraçar o mundo e se concentrar
no que você tem. O planeta tem quase 8 bilhões de pessoas, você não vai
ser o alecrim dourado que vai conseguir salvar todas elas.
Ele despeja o frasco dos comprimidos na lata de lixo e me encara um
pouco mais calmo.
— Quanto à mulher, eu já achei — revelo, mudando de assunto, de
novo, já que o assunto Leona não colou. — Não foi na padaria — pontuo,
esperando a reação que não vem. — Ela trabalha com a Leona. — Ele
apenas me lança um olhar cauteloso, pega o celular e digita qualquer coisa.
— Vou levá-la ao Nox.
Seus olhos saem da tela do celular e focam em mim, embora seus
dedos continuem digitando quando me pergunta, estranhamente calmo:
— Você está tentando me tirar do sério?
— Estou achando esquisito que não tenha tirado ainda. — Levanto
um ombro, desconfiado.
— Não teste a sorte.
— Eu vou ser o facilitador dela na iniciação — continuo adicionando
aleatoriamente, sem reter sua atenção. — Ela acha que eu sou um prostituto.
— A que propósito? — Consigo despertar sua curiosidade.
— Nenhum, só achei engraçado.
— Bom, ela não está muito longe da verdade.
— Você só veio aqui porque eu faltei à reunião ou veio chorar porque
eu não fui ao jantar com a mamãe, ontem?
— Ora, o moribundo se recorda! — ele debocha e ri sem nenhum
divertimento na voz. — Ela convidou o papai — me conta sofrido.
— E como foi? — Passo um café para suas mãos, e seguro o meu,
nos sentando cada um em lado da mesa da cozinha.
Ele procura as palavras por um segundo e as testa.
— Nojento? Decrépito? Decadente? Eles continuam flertando como
se fossem um casal, eu estou enjoado até agora — confessa, alisando o
estômago em movimentos circulares.
— Um dia eles ainda vão acabar juntos, você sabe. — Ele se arrepia.
— Duvido, Nero Lenox tem mais orgulho que dinheiro, ele nunca
perdoou a mamãe por ter ido embora.
— Eu acho que ele nunca perdoou por ela ter voltado comigo a
tiracolo — acrescento.
— Ele gosta de você.
— Eu sei, mas quem não gosta?
— Eu não seria capaz de reunir a mão de obra necessária para listar
todas as pessoas em menos de um mês.
— Eu não deixo de ser a prova viva de que, para a Louise Etienne, a
relação deles nunca passou de uma negociação.
— Sim. Ele nunca pensou que a puta seria uma rebelde sem causa e o
abandonaria.
— Deve ser de família, vovó também era uma boa bisca. Ainda me
lembro de ficar espantado com a semelhança entre as duas.
— Eu acho que meu pai ama a mamãe.
— Eu tenho certeza.
— Que puto de nojo.
Ele se levanta e abre os armários, contemplando temas filosóficos
que encontra lá dentro pelo tempo que demora. Pega um prato, uma
frigideira, o liquidificador e não me recordo a última vez que ele comeu
alguma coisa aqui em casa. Sebastian odeia tudo que é gostoso, menos
sexo. Mas não digo nada, vou esperar que vá embora para comer um
hamburger escorrendo queijo e entupir minhas veias em paz.
Duas batatas, um dente de alho, uma cebola, duas cenouras e água
são adicionadas à frigideira até ferver. Quando já está um cheiro de mato
fervido em todo o apartamento, ele bate aquilo num caldo amarelo, e
adiciona uns pedaços de repolho, azeite e sal. Me remexo no lugar em
agonia.
Ele não se vira nem me dirige a palavra, concentrado. Permaneço
quieto, olhando e rezando para aquilo não ser a minha próxima refeição.
Meu dispensador de jujubas começa a funcionar sozinho, e vejo a
veia do pescoço do meu irmão saltar, notando a quantidade de açúcar
misturada nas jujubas acabadas de cortar. Perfeitas aos olhos do pai. Mas
não me levanto para me servir. Ele está armado com pelo menos duas facas,
perfeitamente capaz de decepar meus dedos num momento de stress.
Esvazia dois maracujás dentro do liquidificador e adiciona 3 fatias
milimetricamente simétricas de pepino, dois morangos inteiros, sem sequer
tirar o cabo com o matinho verde e o suco de um limão espremido. Açúcar,
nunca ouviu falar. Bate tudo por um minuto, nem mais, nem menos, sem
sequer olhar no cronômetro e eu rio discretamente. Se tivesse programado
Sebastian, ele não seria tão parecido com a Ozzy. Um robozinho ao vivo e a
cores.
Numa frigideira coloca dois ovos e duas fatias de bacon. Até aí tudo
bem, mas decide estragar tudo cobrindo com espinafres.
Não satisfeito, pega um abacate e salmão defumado da geladeira,
dois itens que foram trocados na entrega do supermercado essa semana e eu
não quis dizer que não aceitava a troca, embora achasse que trocar melancia
por abacate, e pasta de atum com maionese por salmão cru não fosse a
melhor das substituições. Todas as semanas havia erros.
Duas torradas recheadas daquela gogororoba que faz meu estômago
querer sair correndo para fora do corpo, dois ovos semi crus com a gema
perigosamente frágil por debaixo do espinafre todo lambido e o bacon frito
para disfarçar aquela coisa que ele chama de comida são servidas.
Acompanhadas de uma tigela da sopa de enxofre, que só pode ser
receita do demônio em pessoa, e o suco já com a polpa toda fibrosa se
acumulando no fundo.
Há apenas um prato e é o meu. Com certeza um castigo. Uma
punição. Ele vai me obrigar a comer essa porção de veneno.
— Você precisa se alimentar direito — diz simplesmente, me
alcançando os talheres e um guardanapo.
Pela primeira vez na vida lamento não ter um animal de estimação
que me ame incondicionalmente e que aceitaria essa missão de bom grado.
Somos interrompidos com o barulho da porta abrindo, e ouço mais
que um par de passos vindo em nossa direção. Dou graças a Deus por adiar
essa tortura gastronômica.
Minhas 5 ex-mulheres aparecem num pequeno batalhão, com sacolas,
vasos de plantas, falando sem parar, abrindo minhas gavetas, e mexendo na
geladeira e armários.
Lauren se vira na minha direção e manda um:
— Querido, chegamos.
Sorrio porque é sempre bom vê-las, mas não é costume que apareçam
todas juntas. Lauren fala comigo quase todos os dias, trabalhamos juntos,
inclusive me ajudou a fazer uns ajustes no sistema de Ozzy na semana
passada. Bia, vejo sempre que vou ao Nox, algumas vezes ela dorme aqui
em casa, e fazemos noite de filmes com a Anya, que vejo bem menos, mas
sempre trocamos mensagens no nosso grupo do WhatsApp. E Emily pelo
menos uma vez por semana vem trocar as flores mortas por outras frescas e
sei que esteve em casa mesmo quando não a encontro, ela sempre deixa um
bilhete fofo e um cheiro suave da sua presença. Ali está com cara de
cansada e eu espero que não tenha vindo de um plantão para cá a toa.
— E eu vou nessa. Cuidem dele — Sebastian anuncia.
— Era isso que você estava fazendo no celular? Fofocando para elas
sobre o que aconteceu? Caralho Sebastian, foi só um acidente. Talvez eu
tenha tomado mais do que a dose recomendada de comprimidos, sim, mas
eu estou bem. Foi uma única vez, não é uma rotina.
— Não é a mim que você tem que explicar isso, irmãozinho. — A
cara inocente nem combina com seu rosto. — Tenho a certeza, que sua
médica, Alisson, vai adorar saber como eu te encontrei desacordado e sem
sentidos na sua cama. Ou talvez, Anya, a sua advogada possa te ajudar a se
defender. — Anya nega veemente. — Emily com certeza te colocaria no
cantinho de castigo como faz com as crianças que ela ensina, e Deus, como
eu queria que Bia tivesse trazido um chicote para te fazer se arrepender,
como ela faz com todos os brutamontes que chegam ao clube achando que
essa cara de princesa da disney esconde algo diferente de uma mulher capaz
de os fazer ajoelhar e implorar que ela pare.
Bia acena agradecendo, como se ele a tivesse elogiado. E o filho da
mãe simplesmente se vira e sai. Sem nem me dar tchau. Me deixa com o
pelotão de fuzilamento pronto para me atacar. Não espero nem escutar o
barulho da porta se fechando para me livrar da refeição repulsiva sob os
olhares atentos delas.
— Primeiro você se veste. Eu sou uma mulher comprometida. Não
posso ficar andando por aí com meu ex-marido nu — Emily avisa e eu me
levanto.
Levo um tapa na bunda de Bia quando passo e Lauren me para:
— Ninguém vai te morder, xuxu — avisa sorrindo, Anya a demônia
completa: — A não ser que insista, é claro.
Me viro apenas para olhar para Alisson, certo de que também quer
dizer alguma coisa.
— Se queria atenção, carinho, tudo que tinha que fazer era pedir.
Decido que a noite vai ser longa e alcanço um moletom para ficar
confortável, me espalho no sofá com uma almofada em mãos e me preparo.
Pior do que Sebastian com razão, são minhas ex-mulheres se unindo
para cuidar de mim. Nunca fui capaz de dizer que não a nada para nenhuma
delas, e o céu é testemunha de que não vou começar hoje.
Meu irmão me paga.
As pernas de Alisson descansam sobre as minhas e aliso sua coxa,
mandando-a pela quarta vez para a cama, ela recusa com um resmungo,
virando de lado, bem pertinho da beirada do sofá, quase se desequilibrando
ao gesticular que está escutando tudo.
Anya e Bia, debruçadas na bancada, montam um cronograma
semanal com os meus horários e compromissos da semana. Ozzy responde
prontamente a suas perguntas, garantindo que tenham as informações
atualizadas sempre que eu tento ser evasivo.
Maquininha traidora. Estou literalmente criando um monstro com
acesso a tudo na minha vida.
— Eu posso ficar com a quinta-feira — Emily se oferece, e Bia anota
na planilha. — Vamos tomar café da manhã juntos antes de eu ir para escola
— ela acrescenta. — Sem jujubas.
Levo a mão ao peito com os olhos arregalados, como se tivesse
levado um tiro e todas riem.
— Você precisa parar de comer esse veneno — Alisson balbucia sem
abrir os olhos, provando que realmente está se esforçando por escutar tudo,
mesmo que o resto do seu corpo tenha decidido desistir da missão.
— Vou parar — respondo determinado. — No dia que meu coração
parar de bater! — acrescento levantando.
Ali reclama quando a pego no colo e levo para o quarto. Deposito-a
na cama e começo a cobri-la enquanto digo:
— Você não fez inferninho por conta dos remédios porque sabe que
também está se matando aos poucos, não é? Você precisa descansar, Ali.
Está parecendo uma vampira, e não das sexys.
Ela ajeita a almofada entre os braços, e lhe alcanço uma segunda para
colocar entre as pernas, sempre gostou de dormir escorada.
— Sebastian disse que era urgente. Quando ele falou que estava se
drogando e tinha te encontrado desmaiado, achei que era sério.
— Aposto que não disse a ele que quem me arrumou a receita para a
oxicodona foi você mesma — acuso num murmúrio abafado, quase rindo.
— Claro que não, ele voaria na minha jugular. Esse fato específico é
um segredo nosso — completa, abrindo os olhos completamente. — Essa
foi uma das razões porque cheguei aqui na velocidade da luz. Não ia me
perdoar se você realmente tivesse tido uma recaída e eu estivesse te
ajudando a se afundar.
Beijo sua bochecha e enrosco o edredom ao redor dos seus ombros.
— Sebastian é um pouco dramático, não o leve tão a sério. Faz mal
para o coração.
— Ele tem o dom de estar sempre certo no final, então sugiro não o
contrariar nessa, Adônis.
— A médica aqui é você. Se acha que eu estou bem, seu diagnóstico
deve valer mais do que o dele — insisto, indignado.
— Quando você caiu, eu também achei que estava bem. Achei que
era só uma fase, e não fiz nada para parar aquele trem de horrores
atravessando a nossa vida. E sabe quem esteve lá o tempo todo enquanto eu
me culpava por não ter visto o que estava acontecendo antes de ser tarde
demais? Quem segurou na minha mão quando eu me sentia um lixo por
trabalhar além do limite e não te dar atenção quando isso era tudo que você
precisava? Exatamente, o Sebastian. Errar uma vez é humano, insistir no
erro é imbecilidade.
— Eu não estou me drogando, Ali.
— Eu sei, mas o seu irmão não, e até que ele também tenha essa
certeza, nós vamos fazer o que ele quer.
— Não sabia que você tinha medo dele — provoco.
— Pois, então agora você está sabendo.
— Boa noite, Ali. — Beijo sua testa, sem insistir e a deixo dormir em
paz.
Fecho a porta atrás de mim e volto para a sala onde Bia e Anya
discutem sobre o que vamos assistir. Pipocas estouram na panela que
Lauren tapa como se sua vida dependesse disso.
Seguro a tampa e ela tira a mão rápido, com pressa de se livrar.
— Você sabe que existe uma pipoqueira nessa casa, certo? — Tudo
indica que tem pipoca demais para panela de menos, mas não lhe digo isso
ao sentir o milho estourado se acumulando contra a tampa.
— Pessoas normais tem pipoca de micro-ondas. Por que você não
tem também?
— Talvez, só talvez, minha cara padawan, seja porque eu tenho uma
pipoqueira.
Bia separa sal, manteiga e leite condensado em três tigelas pequenas
e me passa duas bacias para colocar as pipocas. Equilibrando a coca-cola
numa mão, e um prato com as tigelas dentro, na outra.
Lauren despeja dois pacotinhos de cheetos numa travessa e completa
o espaço restante com rolinhos de queijo e presunto e também se senta.
Me junto a elas, sento na ponta do sofá porque as espaçosas estão
todas espalhadas.
— Vocês vão dormir aqui? — pergunto, enchendo a boca de pipoca.
— Eu não, que eu não tenho a sua vida, né príncipe? Nós viemos
salvar o rapunzelo emocionado, mas seu irmão arranca o meu couro se eu
não aparecer no trabalho hoje. Vou direto daqui para o Nox.
Bia se ajeita com as pernas para o alto, apoiando-as nas costas do
sofá.
— Tenho a certeza que ele faria vista grossa se você quisesse ficar
com a gente.
— A gente quem? — Emily interrompe. — Eu também vou embora,
amanhã eu trabalho cedíssimo. Alisson e Lauren ficam com você essa noite.
Só para ter a certeza que o chorão do seu irmão não vai ter um ataque
nervoso porque o bebê dele exagerou nas jujubas.
— Durante a semana vamos nos revezar, checando você até que sua
excelência e amo Lenox te dê alta — Anya arremata com todo o seu
cinismo.
— Então basicamente, todas vieram aqui, não porque acharam que eu
ia morrer, mas porque meu irmão é o rei do drama e vocês não conseguem
dizer não a ele?
— Isso — confirmam sem uma ponta de constrangimento.
— Vocês são ridículas. — Pipocas voam na direção delas. — Então
por que todo o discurso de quase duas horas e toda aquela merda filosófica
mais cedo?
— Não íamos perder uma oportunidade perfeitamente boa de te
azucrinar com propriedade — Anya esclarece.
— Meu cérebro sofreu danos permanentes com aquele discursinho
patético.
— Sua cara também sofreu, a mão do Sebastian ainda está marcada
nela — Lauren observa, me olhando de bem perto.
Me recosto no sofá e elas se ajeitam, quando escutamos o tu dum eu
digo casualmente.
— Eu conheci uma garota.
Todos os olhares se viram para mim. O programa é pausado
imediatamente.
— Temos uma nova senhora Etienne para o grupo?
— Por que todo mundo continua me perguntando isso?
— Como ela é?
— O que ela faz?
Elas vão perguntando em sequência e eu as ignoro de propósito para
me vingar.
— Eu vou gostar dela? — Em. pergunta preocupada, sempre insegura
sobre conhecer pessoas novas.
— Ela é sócia do Nox?
— Quando vamos conhecê-la?
— Vai nos apresentar, não é?
— Será que ela é ciumenta?
Deixo as perguntas soltas recaírem no silêncio da expectativa e
adiciono uma informação de forma teatral.
— Bia já a encontrou, ela não contou nada para vocês?
— Bia! — elas reclamam.
— O quê, como é que eu ia saber que não era só um caso de uma
noite, gente?
— É o Adônis, Bia, qualquer caso de uma noite é uma esposa em
potencial. Quer dizer, quem de nós não era?
Sou obrigado a concordar com Anya.
— Quando você vai vê-la?
— Amanhã. Se as senhoras quebrarem o protocolo “Vamos agradar
São Sebastião protetor dos frascos e dos comprimidos” e me deixarem em
paz para preparar uma surpresinha para ela.
— Vocês vão se encontrar em casa? Socorro! — Emily grita
entusiasmada.
— Nós não somos suas seguranças, sabe? Só temos que garantir que
não fique sozinho por tempo demais, não vamos ficar que nem sombras
atrás de você — Bia esclarece, entediada.
— Lauren pode ficar, inclusive preciso da sua ajuda — aponto para a
loira.
— Por que?
— Quero programar uma nova função da Ozzy, vai ser mais rápido
se tiver você comigo.
Anya tem uma ideia:
— Aproveita e programa a Ozzy para filmar todos os passos da
garota, para a gente ver depois e analisar com calma.
— Que horror suas harpias, desse jeito ela vai sair correndo quando
descobrir que eu tenho 5 exs psicóticas.
— Vai sair correndo para os nossos braços quando você quebrar o
coração dela, isso sim. É melhor que se acostume logo — sentencia
rapidamente.
— Nossa, vocês fazem parecer que eu sou um cafajeste
irresponsável.
— Nunca dissemos isso — Emily se defende.
— Mas que você tem um coração vadio, você tem. Não tem como
negar — Lauren esclarece. — Olhe para nós. Nossos casamentos duraram
pouco mais de um ano. Só Alisson durou mais, e foi só porque vocês pouco
se viam. E os dois eram bem mais novos também.
— Eu não quebrei o coração de nenhuma de vocês. Que absurdo.
— Quebrou sim, mas juntou os pedaços bem bonitinho, com todo o
cuidado e quase não deu para notar — responde rápido.
— Agora, se não vai nos contar mais nada, então cale-se e vamos ver
o episódio.
Bufo consternado, e Bia pede a Ozzy que dê play.

— Bora levantar cambada — Alisson grita, com muito mais energia


do que deveria ser permitido por lei aquela hora da manhã. Lauren está
caída para um lado do sofá, de costas para mim.
— Que cambada, louca? Somos só nós. Em. também foi embora
ontem.
— Ela está comprometida — repetimos ao mesmo tempo, zoando
Emily que ultimamente parece robotizada, lembrando a todos, o tempo
inteiro, que está noiva.
— Eu estou com fome, vou chegar atrasada se nenhum dos bonitos se
levantar para fazer meu café da manhã.
Imediatamente reclamo com Lauren, ainda sonolenta:
— Você acredita na audácia dessa...
— Hey, mais respeito com sua ex-mulher, olha a boca!
— Vai tomar seu banho, vagabunda, eu faço uma omelete para você.
— Você é e sempre será meu ex-marido preferido! — ela agradece,
me abraçando.
— Saiba que a minha ex favorita não é você!
— É a Lauren, eu sei. Tudo bem, eu também amo ela. — Ali pisca
para nós e eu levanto, arrastando Lauren pelas pernas até ao meu lado do
sofá. Ela me acerta com uma almofada no processo, mas não consegue me
demover.
— Vem, levanta, quero te explicar o que vamos fazer com a Ozzy, é
simples, mas pode demorar.
— Tudo bem, você é o meu patrão de qualquer forma.
Algo na sua expressão não está certo.
— Você está chateada?
— Não. — Ela sacode a cabeça, se pondo de pé. — Desculpa. Tive
uns sonhos chatinhos, só isso.
— Você também pareceu meio aérea ontem. O que está acontecendo?
— O Owen conseguiu se tornar sócio do Nox há algumas semanas, e
ele tem me rondado por lá. Sempre vou lá com as meninas, você sabe, e sei
lá, é estranho, não me sinto tão à vontade. Volta e meia isso pipoca na
minha cabeça.
— Lauren, o clube é meu. Vou expulsá-lo hoje mesmo — garanto,
segurando seu rosto entre as mãos, preocupado. Ela não é de se queixar,
nunca, então isso deve realmente estar sendo perturbador.
— Não. Eu não quero isso. Ele nunca superou a traição. Não fui
honesta com ele. Fiquei com vocês dois ao mesmo tempo, e ah, sei lá. Acho
que ele sempre teve curiosidade, e muito ressentimento. Estar ali, ver como
as coisas realmente funcionam, talvez ele entenda que não é um antro de
perdição e um muquifo fedido.
— Ele teve que esperar no mínimo dois anos para entrar. Acredito
que não exista essa lista de espera nos muquifos que ele conhece. Tem
certeza que não quer que o tire de lá? Não quero te ver com essa cara por
causa de um infeliz qualquer.
— Tenho. Eu acho. Não sei. Deixa ele por agora. Ele não fez nada
demais. Eu acho que pode ser bom para ele frequentar o lugar, abrir um
pouco a cabeça. Nada vai apagar o fato de que eu o enganei, mas acho que
ele está até namorando uma das meninas de lá.
— Quem?
— Diana. — Procuro mentalmente um rosto com aquele nome.
— Ela não é uma das funcionárias.
— Ah, não conheço todos os membros, principalmente os sócios
mais recentes.
— Ela é uma fofa. Nos cruzamos algumas vezes quando era iniciada,
e foi sempre super simpática.
— Ela entrou muito tempo antes dele?
— Sim.
— Ah, então talvez ele tenha ido atrás dela, e não de você.
— Sim, é isso que eu quero dizer, talvez ele só esteja tentando me
evitar tanto quanto eu estou tentando evitá-lo, mas acabamos por nos
esbarrar.
— Bom, se continuar se sentindo incomodada, ele está fora —
sentencio.
— Obrigada, acho que não será necessário. — Ela ganha fôlego antes
de perguntar: — O que vamos programar na Ozzy hoje?
— Você vai adorar!
O vento gelado que circula no escritório beija a minha pele e quebra
a minha atenção por um segundo.
Fecho os últimos botões do casaco e esfrego as pernas tentando me
concentrar, mesmo de calça e blusa comprida por baixo minha pele ainda
está dormente do frio que atravessa o saco plástico que tapa precariamente a
janela quebrada desde a manhã.
A Senhora Collins se aproxima da minha mesa com uma caneca de
chá fumegante e a deposita na minha frente me avisando:
— Acabaram de ligar confirmando a entrada do vidraceiro na
portaria, não deve demorar muito mais para ser substituído.
Vestida com o seu habitual conjunto de saia comprida e blazer escuro
com apenas uma blusinha fina por baixo, a Senhora Collins simplesmente
sorri para mim enquanto me agarro à caneca sofregamente. Dou apenas um
gole e a coloco sobre as coxas, aproveitando o calor aconchegante contra
meus dedos dormentes.
— Como pode não ter frio? Eu estou aqui prestes a atear fogo em
mim mesma para me esquentar.
— Eu vivi em Londres a vida inteira. Não está frio para mim,
querida. Você é de uma terra mais quente, é normal que seu corpo se
desespere por pouco. Com o tempo se acostuma — garante, dispensando a
minha atenção e se sentando atrás da sua própria mesa.
— Estão 8 graus lá fora, Senhora Collins.
— Exato — ela concorda condescendente. — Ainda nem chegamos a
temperaturas negativas. É um inverno ameno, devo dizer.
A porta se abre, mas não é o vidraceiro que entra e sim o rapaz das
entregas especiais, uniformizado.
Procuro rapidamente na memória se deveríamos receber algum
material de divulgação, mas a única coisa que deveria chegar essa semana
seriam os livros de capa dura, da edição de luxo da série de máfia que
comemora três anos no mês que vem.
Seriam mais de 12 caixas, então descarto a possibilidade quando o
rapaz retira a encomenda da sua bolsa que mal cabe uma pizza dentro.
Assino o aviso de entrega e ele passa por mim para pegar três
balinhas da mesa da Senhora Collins, que oferece doces a toda e qualquer
alma que entre no nosso andar.
— O que é? Envelope bonito! — comenta me vendo abrir o papel
elegante com uma cor de âmbar, com certeza feita por encomenda, já que
nunca vi nada igual a não ser em manuscritos de mapas do tesouro nos
filmes. Também sempre têm uma camada de verniz que dá esse aspecto
antigo e precioso ao mesmo tempo a qualquer papel de chiclete que apareça
na televisão.
Meu coração entra em ponto morto e se senta em cima do meu
estômago fazendo um peso desconfortável enquanto leio “Nox” sobre o
logotipo do clube com relevo aveludado na capa do documento. Uma rosa
com pétalas vermelho sangue por dentro e negras por fora, com as bordas
em brasa e o cabo acorrentado.
Já o tinha visto no clube, cravado ou bordado em quase todos os
lugares, mas nunca fora das paredes protegidas nem em nenhum tipo de
comunicação pública exposta por eles. Normalmente usavam apenas o
nome do clube e era mais do que suficiente.
Um arrepio percorre uma linha que se estica do meu pescoço até ao
final da minha coluna. Endireito as costas para me livrar da sensação. A
Senhora Collins mantém os olhos ávidos sobre mim.
— Ahm, é um contrato que eu estava esperando. Nada demais —
minto, mas minha cara não. Sinto a vermelhidão me lamber como uma
lufada de ar quente, se espalhando pelo meu rosto até chegar às pontas das
orelhas e se concentrando ali.
Ela nota, claro, mas não insiste, apenas confirma apertando os lábios
em descrença. Como uma pessoa que já viveu muito e não fica ansiosa por
nada, se levanta e diz que vai à recepção saber do paradeiro do vidraceiro,
me deixando sozinha para lidar com aquele pacotinho de perturbação em
paz.
Entro na sala da Leona com receio do que posso revelar caso abra e
entre alguém no escritório, e viro a capa requintada depois de passar os
dedos nas bordas da rosa aveludada, admirando seus contornos por um
segundo.

CONTRATO ENTRE ADÔNIS ETIENNE (O FACILITADOR) E


SABRINA MARINO (A INICIADA).

Ele enviou o contrato para o meu trabalho? Bom, o contrato faz parte
do meu trabalho. Será que devo mostrá-lo a Leona? Deveria esperar para ler
em casa? A quem estou tentando enganar, ainda faltam 4 horas para o
expediente terminar e eu mal posso esperar mais 4 minutos.
Como em todos os documentos importantes, me sento, para fazer
uma primeira leitura, separando os marca-texto nas cores vermelho, laranja
e verde, para destacar tudo que é importante e fazer a lista do que não
concordo, e o que precisa ser negociado ou pelo menos sofrer alguma
alteração.
Não uso nenhum, porque função atrás de função, minha indignação
apenas aumenta, me impedindo de raciocinar friamente.
Quando termino a primeira leitura, já não sinto mais frio. Tirando os
fundamentos e a primeira cláusula, que me iludiram por segundos, me
fazendo acreditar que o texto em minhas mãos poderia realmente ter sido
redigido de forma sensível e razoável, todo o resto é só uma listagem de
...argh, até me faltam palavras.
Espalho as folhas em ordem na mesa comprida e releio cada uma
delas tentando controlar os gritos que pretendo dirigir apenas ao culpado
pelo meu estado de exaltação.
Me levanto sacudindo as mãos e alongando dedos dos pés dentro do
sapato, os abrindo e fechando, endurecidos de nervoso.
O relógio parece ter parado só para me irritar mais um pouco.
Preciso voltar para o trabalho, mas sou incapaz de desgrudar os olhos
das folhas que riem de mim com sarcasmo.
— Sabrina? — Leona entra arrumando a bolsa no cabide, e
conferindo se o aquecimento está ligado antes de decidir não tirar o casaco.
— O que foi? — me questiona com a sobrancelha levemente arqueada ao
perceber meu estado de espírito.
— Isso! — Aponto para as folhas como se pudesse pular e me atacar
a qualquer instante.
Ela vira a cabeça, tentando encontrar um ângulo melhor para ler as
folhas de ponta cabeça.
— Ah, seu contrato. — Ela se senta apoiando uma coxa na mesa e
alinhando as duas primeiras folhas com seu olhar — Qual o problema? —
questiona sem me olhar.
— Leia — indico. Cinismo escorrendo na minha voz.
Ela apenas sorri complacente e começa a ler em voz alta, fazendo
minha mortificação aumentar numa escadinha infinita a cada linha recitada.

CONTRATO ENTRE ADÔNIS ETIENNE (O FACILITADOR) E


SABRINA MARINO (A INICIADA).
O propósito fundamental deste contrato é permitir que a Iniciada
explore sua sensualidade e seus limites de forma segura, com o devido
respeito, e cuidar de suas necessidades, seus limites e seu bem-estar.

AS PARTES ACORDAM OS SEGUINTES TERMOS:

1) PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DE QUAISQUER PRÁTICAS


NAS INSTALAÇÕES DO CLUBE NOX:

1.1) SÃO, SEGURO E CONSENSUAL


1.1.1) Consensualidade pressupõe entendimento e aceitação mútua
das regras e dos limites acordados, e que nunca devem ser desrespeitados.
1.1.2) Os praticantes podem revestir-se de algum grau de risco. Antes
do envolvimento nessas práticas, devem os seus intervenientes documentar-
se e desenvolver competências de modo a reduzir o risco e evitar acidentes,
alguns dos quais com consequências, a curto ou longo prazo, irreversíveis.
Devem igualmente munir-se dos instrumentos indispensáveis à
minimização de danos e, em caso de acidente, utilizar sempre o melhor e
mais rápido acesso a meios de ajuda adequados a cada situação, incluindo a
ajuda de terceiros.
1.1.3) Os praticantes atingem graus elevados de intensidade física
e/ou emocional, pelo que a atenção e a comunicação devem ser constantes
durante e após cada “sessão”, de forma a garantir o bem-estar dos
intervenientes. Quando for desejo de uma das partes que a atividade cesse,
deve-se parar e fazer uso da “palavra de segurança” sem quaisquer receios.

1.2) RESPONSABILIDADE
1.2.1) Cada pessoa envolvida em BDSM é responsável pelos seus
atos, seja Dominador, Submisso, Facilitador, Mentor ou Iniciada, devendo
zelar pela sua segurança e promover, sempre que possível, a dos outros.
1.2.2) Cada praticante de BDSM, no âmbito do dever de
responsabilidade que lhe incumbe deverá abster-se, de forma absoluta e
imediata, de práticas com menores e, em caso de dúvida, deverá certificar-
se de que o mesmo é maior por todas as vias e meios que tiver ao seu
alcance. Caso subsistam dúvidas, não deverá iniciar qualquer tipo de
interação.
1.2.3) Deverá igualmente abster-se de forma absoluta e imediata de
levar a cabo atividades, ou obter vantagens, com pessoas que notoriamente
apresentem diminuição das capacidades cognitivas e de avaliação, seja de
forma permanente ou temporária, ou ainda debilidade física ou emocional,
seja por causa natural, por doença ou pelo consumo ou utilização de
substâncias que a promovam.
1.2.4) A responsabilidade de qualquer indivíduo para com a
comunidade passa pelo repúdio de quaisquer atividades que à luz da lei
configurem uma prática ilícita, e pela tomada de medidas que promovam a
sua prevenção.

1.3) INTEGRIDADE
1.3.1.) O aproveitamento do contexto BDSM de uma forma
dissimulada em prejuízo de terceiros, nomeadamente para satisfazer
frustrações, interesses e caprichos pessoais, é considerado reprovável e não
deve ser incentivado.

1.4) TOLERÂNCIA
1.4.1) Deveremos respeitar as práticas dos outros, ainda que sejam
diferentes das nossas. Ninguém deverá ser discriminado pelos seus fetiches,
gostos, preferências ou orientações sexuais, desde que estas se enquadrem
dentro dos princípios que constam neste código.

1.5) VERDADE E TRANSPARÊNCIA


1.5.1) Antes de iniciar qualquer tipo de interação, devem os seus
intervenientes, fornecer de forma clara e exata, informação sobre o seu grau
de experiência, limitações físicas ou psicológicas, estado de saúde e limites,
de forma a permitir o exercício de escolhas livres e informadas. Os
intervenientes devem esclarecer-se mútua e honestamente quanto a todos e
quaisquer fatos que, em consciência, possam condicionar as referidas
escolhas ou potenciar danos emocionais ou psicológicos.

1.6) PRIVACIDADE E SIGILO


1.6.1) Os praticantes devem ter a noção exata do significado das
palavras privacidade e sigilo, sendo que as referidas noções implicam, entre
outras questões, a não exposição pública dos parceiros ou de terceiros
contra a sua vontade.

2. FUNÇÕES DO FACILITADOR E DA INICIADA


2.1) O Facilitador deve priorizar em todo momento a saúde e a
segurança da Iniciada. O Facilitador em nenhum momento exigirá,
solicitará, permitirá nem pedirá à Iniciada que participe das atividades
detalhadas na seção de limites rígidos ou em toda atividade que qualquer
das duas partes considere insegura.
2.2) Em caso de enfermidade ou ferida, o Facilitador cuidará da
Iniciada, vigiará sua saúde e sua segurança, e solicitará atenção médica
quando o considerar necessário.
2.3) O Facilitador garantirá que todo o equipamento utilizado para o
treinamento e a disciplina se mantenha limpo, higienizado e seguro em todo
momento.
2.4) A Iniciada tomará medidas necessárias para cuidar da sua saúde,
solicitará ou procurará atenção médica quando a necessitar, e em todo
momento manterá informado o Facilitador de qualquer problema de saúde
que possa surgir.
2.5) A Iniciada aceitará sem questionar todas e cada uma das ações
disciplinadoras que o Facilitador considere necessárias, e em todo momento
recordará seu papel e sua função perante o Facilitador.
2.6) A Iniciada não se tocará e nem se proporcionará prazer sexual
sem a permissão do Facilitador.
2.7) A Iniciada não participará de atividades ou atos sexuais que
qualquer das duas partes considere inseguras.
2.8) O Facilitador pode usar o corpo da Iniciada a qualquer momento
durante as horas designadas, ou em quaisquer horas extras acordadas, da
maneira que julgar apropriada.
2.9) No treinamento e na aplicação da disciplina, o Facilitador
assegurará que não sejam deixadas marcas permanentes no corpo da
Iniciada e nem sejam provocados ferimentos que possam exigir cuidados
médicos.
2.10) O Facilitador não emprestará a Iniciada a outro Facilitador sem
consentimento.
2.11) O Facilitador poderá prender, algemar ou amarrar a Iniciada a
qualquer momento durante as horas designadas ou em quaisquer horas
extras acordadas por qualquer razão e por períodos prolongados, tendo a
devida consideração com a saúde e segurança da Iniciada.
2.12) A Iniciada sempre se dirigirá de maneira respeitosa ao
Facilitador dirigindo-se a ele nas Horas Designadas usando “Por favor”
como pronome de tratamento.
2.13) A Iniciada deve usar uma coleira em qualquer sessão, mesmo
que seja uma sessão esporádica e sem intenção de manter-se uma relação
duradoura.
2.14) O Facilitador e a Iniciada acordam e admitem que tudo o que
aconteça sob os termos deste contrato será consensual e confidencial, e
estará sujeito aos limites acordados e aos procedimentos de segurança que
se contemplam neste contrato. Podem acrescentar-se limites e
procedimentos de segurança adicionais.
2.15) O Facilitador e a Iniciada garantem que não padecem de
infecções sexuais nem enfermidades graves, incluindo HIV, herpes e
hepatite, entre outras. Se durante a vigência do contrato (como se define
abaixo) ou de qualquer ampliação do mesmo, uma das partes for
diagnosticada ou tiver conhecimento de padecer de alguma destas
enfermidades, compromete-se a informar à outra imediatamente e em todo
caso, antes que se produza qualquer tipo de contato entre as partes.

3. LIMITES
3.1) Limites Rígidos
3.1.1) Sem atos com fogo.
3.1.2) Sem atos com urina, ou defecção e seus produtos.
3.1.3) Sem atos com agulhas, facas, perfurações e sangue.
3.1.4) Sem atos envolvendo instrumentos médico ginecológicos.
3.1.5) Sem atos com animais.
3.1.6) Sem atos que deixem marcas permanentes na pele.

3.2) Limites Suaves


A discutir com sugestões:
3.2.1) A ingestão de sêmen é aceitável para a Iniciada?

3.2.2) O uso de brinquedos sexuais é aceitável para a Iniciada?


• Vibradores
• Plugs anais
• Outros brinquedos
3.2.3) A Iniciada aceita o uso de Bondage?
• Mãos na frente
• Mãos atrás
• Tornozelos
• Joelhos
• Cotovelos
• Pulsos aos tornozelos
• Barras de amarração
• Amarrada à mobília
• Vendar
• Colocação de mordaça
• Bondage com cordas
• Bondage com fita adesiva
• Bondage com algemas de couro
• Suspensão
• Bondage com algemas de metal/restrições

3.2.4) Quanto de dor a Iniciada está disposta a experimentar?


[Link]) Onde 1 equivale a que gosta muito e 5, a que lhe desgosta
muito:
1–2–3–4–5

[Link]) Aceita a Iniciada as seguintes formas de


dor/castigo/disciplina?
Onde 1 é para nada e 5 é para com certeza: 1 – 2 – 3 – 4 – 5
• Açoites
• Chicotadas
• Açoites com vara
• Mordidas
• Pinças para mamilos
• Pinças genitais
• Gelo
• Cera quente
• Outros tipos/métodos de dor
• Manipulação psicológica

4. PALAVRAS DE SEGURANÇA
4.1) O Facilitador e a Iniciada admitem que o Facilitador pode
solicitar à Iniciada ações que não possam levar-se a cabo sem incorrer em
danos físicos, mentais, emocionais, espirituais ou de outro tipo no momento
em que lhe solicitam. Neste tipo de circunstâncias, a Iniciada pode utilizar
uma palavra de segurança. Serão incluídas duas palavras de segurança em
função da intensidade das demandas.
4.2) Será utilizada a palavra de segurança “Amarelo” para indicar ao
Facilitador que a Iniciada está chegando ao limite da resistência.
4.3) Será utilizada a palavra de segurança “Vermelho” para indicar ao
Facilitador que a Iniciada já não pode tolerar mais exigências. Quando
disser esta palavra, a ação do Facilitador cessará totalmente, com efeito
imediato.

5) DISPONIBILIDADE
A Iniciada estará disponível para o Facilitador desde sexta-feira à
noite até o domingo pela tarde, todas as semanas durante a vigência do
contrato, com as horas a especificar pelo Facilitador (“horas designadas”).
Podem acordar mutuamente por mais horas, atribuídas como adicionais.

6) LOCALIZAÇÃO
A Iniciada estará disponível às horas designadas e às horas
adicionais, nos lugares que determine o Facilitador.

7) PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS
7.1). As duas partes discutem e acordam as seguintes prestações de
serviços, e ambas deverão as cumprir durante a vigência do contrato.
Ambas as partes aceitam que podem surgir questões não contempladas nos
termos deste contrato de prestação de serviços, e que determinadas questões
poderão renegociar-se. Nestas circunstâncias, poderão propor-se cláusulas
adicionais a modo de emenda. Ambas as partes deverão acordar, redigir e
assinar toda cláusula adicional ou emenda.

Cláusula Magna: O Facilitador e a Iniciada assinam este contrato na


data de início, conscientes de sua natureza e comprometendo-se a acatar
suas condições, sem exceção.

Assinaturas:
Data de início:
Vigência: 10 semanas

— Parece tudo certo. — A loira posa a última folha na mesa, me


encarando e dando de ombros. — Não entendi. Com o que você discorda
exatamente?
Adoraria que ela falasse mais baixo, porque vejo pelo vidro da sala a
Senhora Collins entrando com o vidraceiro.
— Nem preencheu o questionário. — Ela aponta. — É importante
que o faça.
— Leona, quantas vezes tenho que dizer que não pretendo ser
submissa de ninguém?
— Isso não é um contrato de dominação. — Nega com a cabeça,
discordando obstinada. — Sim, você concorda em se submeter a várias
coisas. — Seu dedo aponta para mesa aleatoriamente, marcando o
compasso de seus argumentos. — Mas é restrito às Horas Designadas, dura
apenas o final de semana, e todas as sessões serão discutidas com
antecedência. — Ela coloca as duas palmas na superfície de vidro, se
aproximando de mim. — Seus limites estão listados. O que esperava de
diferente? Como pode ser surpreendida se não se submeter ao plano do seu
mentor? — Ela inclina a cabeça, pensando. — Não confia nele?
Será que confio? Suponho que sim. Mal o conheço, é um fato, mas
me sinto confortável na sua presença. Menos quando resolve me
atormentar, é claro.
Leona não aguarda minha resposta. Sabe que estou presa nas vozes
da minha cabeça, falando todas ao mesmo tempo, tentando organizar a
confusão que vai aqui dentro.
— A maioria das pessoas desconhece o verdadeiro sabor da rendição.
É verdade a frase que diz “Tudo no mundo é sobre sexo, exceto o sexo.
Sexo é sobre poder.” — sentencia, e me dá um segundo completo para
absorver antes de continuar explicando com mais leveza do que é normal
demonstrar na sua personalidade. — Não existe nada mais poderoso do que
ver um homem reverenciando seu corpo, aprendendo a manipular seus
níveis de excitação com o único intuito de te proporcionar prazer. Puro.
Duro. Extremo.
Ela dá a volta à mesa, e se senta na poltrona à esquerda, cruzando as
pernas e se recostando, à vontade.
— O Dominador te conduz, te guia, te treina. Nós fazemos o mesmo
a vida inteira, Sabrina.
Me sento também, começando a me acalmar, tentando decidir se sou
tão influenciável ao ponto de estar mudando de ideias tão rápido, mas o que
ela diz faz sentido.
Leona se inclina como se fosse me contar um segredo, e meus olhos
se desviam rapidamente para marcar a localização do vidraceiro se
esgueirando pela janela para encaixar o vidro novo.
— Nós aprendemos a andar, falar, pensar, trepar, viver, sendo
dominados pela falsa ideia de que uma figura de autoridade sabe mais do
que nós e precisa nos passar essa informação, esse conhecimento, esse
aprendizado. Pais, amigos, professores, patrões… — enumera com
simplicidade. — Um dominador pode comandar o aperto da sua coleira, é
verdade, mas o poder? Esse está inteiramente nas suas mãos. E não existe
afrodisíaco mais potente que esse. Te garanto.
Fecho os olhos e expiro longamente, deixando que as palavras se
afundem em mim. Permitindo que atravessem minha hesitação e penetrem
nas profundezas das minhas vulnerabilidades.
— No fim das contas, Sabrina, tudo se resume a você. Se submeter é
uma escolha. Um privilégio. Se libertar do controle para transcender seu
prazer. Você é capaz?
Aperto o celular entre as mãos e me concentro no reflexo na janela
do carro, o motorista corta a estrada de forma elegante e me pergunto se
algum dia serei capaz de dirigir nessa cidade sem provocar um acidente.
Sempre achei que me mudar para a Europa seria o início de um novo
ciclo em que usaria a minha habilitação para algo além de enfeitar minha
carteira, que o trânsito seria mais civilizado e eu me sentiria menos ansiosa
ao volante, mas me enganei.
Por que raios eles tinham que dirigir do lado errado da estrada? Até
hoje pulo no banco, achando que os ônibus estão vindo diretamente na
minha direção em cada cruzamento feito abruptamente. Se ainda não
dominei sequer a função ser carona, que dirá a função ser motorista. Com
certeza no primeiro dia ao volante pararia na manchete de vários jornais.
Sigo o GPS do taxista quando paramos num sinal e ainda faltam 20
minutos de caminho, com certeza se tivesse ido de metrô já teria chegado.
Outra coisa que me choca: viajar de carro é provavelmente a forma menos
eficiente de se locomover nessa cidade. Todas as vezes que peço um carro,
me arrependo. Essa não será diferente.
Confiro o relógio e a mensagem de Adônis. “Te espero às 6h.” Ainda
nem são 5h da tarde. Faço tempo, ou bato na porta dele? Seria de bom-tom
fazer tempo em algum lugar, mas porque eu seguiria regras da boa educação
com uma pessoa que pretende, literalmente, colocar uma coleira no meu
pescoço e manda essa sugestão por contrato para o meu trabalho?
12 minutos de caminho. E cada minuto que o relógio marca a menos
é mais uma camada de ansiedade se acumulando no meu estômago. Ao
mesmo tempo que quero reclamar de 60% das cláusulas do contrato, quero
assinar logo essa porcaria e começar. As palavras de Leona piscam na
minha mente. “Você é capaz?”
Lutar por espaço individual numa família com 6 homens cuidando de
mim e tomando conta da minha vida o tempo inteiro me fez lutar contra
cedências opcionais com todas as forças. Fosse o que fosse, desde o meu
dia de lavar louça, à hora de chegar em casa. Se eu podia chegar até as 10h,
eu chegaria às 9h59 em ponto, mesmo que não estivesse fazendo nada na
rua desde às 7h. Se meu dia de lavar a louça era às terças-feiras, nunca o
trocaria pelas quartas, ainda que na quarta eu tivesse aulas até tarde e fosse
legal não ter que ficar arrumando a cozinha após o jantar.
Ceder a uma coleira, ceder aos meus desejos, ceder a um
desconhecido tem gosto de novidade, tem cheiro de perigo. Todas as células
do meu corpo vibram querendo que eu grite sim, é para já, mas meu cérebro
regrado e condicionado a pequenas vitórias se ressente dessa sensação, me
dando estímulos de impulso para que corra, e segundos depois permitindo
que meu corpo tome conta e decida algo completamente diferente da minha
linha de raciocínio.
3 minutos.
Já separo o cartão para pagar a corrida e confirmo o andar e o número
do apartamento. Envio uma mensagem antes de cogitar ficar esperando o
horário combinado.
Sabrina: “Cheguei mais cedo. Posso subir?”
Adônis: “Quer tomar banho comigo ou prefere só assistir?”
Gargalho com a facilidade que ele tem de fazer parecer que existem
sempre apenas duas opções de escolha entre os delírios da cabeça dele, e
como sempre, fico tentada.
Com o celular numa mão e a outra estendida esperando o pagamento
ser concluído, vejo a notificação de uma chamada de vídeo e atendo.
Adônis está em tronco nu e com aquele sorriso que tem um efeito
devastador na minha memória muscular e deixa minhas pernas dormentes.
— Pego uma cadeira ou você prefere sentar em mim? — A voz nada
inocente soa dentro do carro.
O olhar do motorista só não se arregala mais do que o meu, que
atrapalhadamente tento tirar o som da chamada e impedir que ele ouça mais
alguma coisa.
— Eu estou no táxi! — repreendo-o, iludida de que isso é o
suficiente.
— Eu estou vendo. Isso é uma proposta? Quer que o taxista tome
banho com a gente? Ou que nos assista tomando banho juntos?
— Perdão! — digo ao motorista em sofrimento. — Meu namorado é
comediante, senhor, e ele acha engraçado me colocar em situações
constrangedoras.
O homem me dá um sorriso ensaiado e nada divertido, e encara a
porta, me convidando a sair com o olhar desconfiado.
— Ah, agora eu sou namorado? Cadê meu pedido? Eu recebo flores?
Até ontem era seu prostituto particular, hoje já fui promovido.
Desligo finalmente a chamada e fecho a porta do táxi, entrando no
prédio rindo. Esse cara vai me enlouquecer, nunca estou preparada para as
besteiras que ele vai dizer.
O porteiro do prédio me libera assim que olha para mim, segurando o
telefone entre o ombro e o ouvido enquanto me indica o elevador.
Adônis poderia ter deixado a porta entreaberta, ou esperar que eu
batesse, mas não, ele está completamente nu no corredor me esperando
quando as portas se abrem e eu engulo em seco despreparada para a
violência da sua beleza contra a luz do sol que emoldura cada um dos seus
contornos e deixa seus olhos mais brilhantes que qualquer pedra preciosa
que eu conheça.
Ele é um clichê ambulante, e eu adoro isso.
Seu olhar percorre minha pele sem dizer nada, apenas me encarando
intensamente por alguns segundos.
— Vamos entrar? Ou é para ficar aqui no corredor fazendo exibição
da sua figura? — pergunto como se meu coração não tivesse acelerado pela
visão, posando aparentemente não afetada.
Quando ele não responde apenas descanso o peso do corpo na perna
direita e cruzo os braços, esperando.
Adônis dá alguns passos rápidos na minha direção e o ar que ele
move beija a minha pele antes de seus lábios tocarem minha bochecha.
Inspiro com força consciente do meu grau de alerta perto dele, que esfrega
o rosto no meu pescoço.
Ele acompanha o arrepiar que se concentra na minha nuca e se
espalha pelos meus braços.
— Bem-vinda, namorada.
— Que engraçadinho.
— Queria deixar claro que aceito, mas você fica me devendo um
pedido.
— Caso não se lembre, você se declarou meu namorado primeiro,
então quem me deve um pedido é você.
— Justo. Pode esperar! — promete com divertimento no olhar, e os
lábios apertados numa expressão de quem vai aprontar.
Sua mão ganha lugar nas minhas costas e me guia suavemente até a
porta do apartamento.
— Quer beber alguma coisa? — oferece enquanto eu inspeciono a
semelhança das paredes interiores com as paredes do clube, impressionada.
— Sabrina?
— Sim.
— Você quer alguma coisa pra beber?
— Porque sua casa é igual ao clube?
— Eu não diria igual, tem apenas o mesmo sistema. Fui eu que
desenvolvi.
— Claro — adiciono sarcástica. Completamente descrente. Ele dá de
ombros e segue pelo corredor.
— Leu o contrato?
— Claro que li. — Minha atenção retorna com força total.
— E já assinou, ou tem alguma questão?
Ele abre a porta do banheiro e espera que eu passe primeiro.
— Eu trouxe uma cadeira — avisa antes de eu perguntar.
— E porquê que eu ficaria te olhando tomar banho?
— Por que não? — Adônis aponta para o corpo esculpido por um
deus cruel com o único intuito de atentar o meu juízo. Talvez essa tenha
sido a razão de Eva ter mordido a maçã. Ela nunca teve opção.
— Você também pode esperar na sala, mas não estou entendo qual o
seu problema.
— Você é assim com todas as mulheres da sua vida?
— Nossa, como você é convencida. Acabou de me pedir em namoro
e já quer ser a mulher da minha vida. — Com um aceno de mão, a água do
chuveiro, cuja ducha é maior do que minha cabeça, liga e um sistema de
luzes coloridas pulsa dentro do box elegante.
Adônis ignora a minha presença deixando a água escorrer pelos seus
músculos e eu adoraria saber como ele consegue estar tão relaxado sabendo
que eu estou bem aqui, assistindo. Eu sei que ele dança seminu para
estranhos, mas eu estou dentro da casa dele, do banheiro dele, acabada de
vir do trabalho, não existe nada de íntimo nesse momento além do óbvio:
Ele está tomando banho na minha frente, com o tipo de naturalidade que
casais levam meses para conquistar e por mais que eu ache estranho, a
verdade é que me forço a achar estranho. Majoritariamente porque não me
sinto deslocada, não me sinto invadindo nada, talvez o seu jeito de ser esteja
me contagiando por osmose, porque me sinto como se de fato fosse normal,
ser recebida na casa de alguém e participar do seu banho.
— Você pode falar, sabia? — Ele leva as mãos espalmadas no vidro
grosso, e minha pele se retrai, querendo que ele estivesse tocando em mim.
Com a mão direita, Adônis penteia o cabelo da frente da testa para trás e
pisca para mim, avisando: — Vai pagar o mesmo.
— Ou seja, uma fortuna! — respondo brincando também.
— Pois é. Deveria tomar banho comigo para poupar água e luz na sua
casa.
— Você jura que essas cantadas funcionam com as garotas? —
pergunto e me levanto para que seus olhos fiquem no mesmo nível que os
meus. Olhá-lo sentada está me deixando excitada, preciso me mexer antes
que comece a esfregar as pernas uma na outra e ele note.
— Isso não é uma cantada, namorada, vulgo mulher da minha vida.
A minha risada é alta. Qualquer outra pessoa usando esse tipo de
apelido e eu sairia correndo gritando: Alertem o hospício. Na boca dele soa
só engraçado, e sei lá, aconchegante. Ele tem esse jeito de dizer absurdos
que parecem plausíveis.
— Sei. Pareceu. — Ele vira o rosto e pressiona os lábios de um jeito
que deveria me servir de aviso o suficiente, mas ainda assim sou pega de
surpresa quando ele simplesmente sai do box e me agarra, água ainda
escorrendo pelo seu corpo, molhando toda a minha roupa.
Meu grito de surpresa se transforma num gemido quando ele lambe a
pele do meu pescoço por trás e o segura com precisão, me pressionando no
vidro do box, descendo a mão até a minha bunda e apertando. Impulsiono a
bunda para trás e abro ambas as mãos no vidro.
— Você tem um cheiro gostoso — diz, marcando minha coluna por
cima da roupa, deixando um rastro de calor em cada ponto que sua boca
toca. — Eu quero te lamber até que cada centímetro da sua pele esteja com
o meu cheiro.
Ele beija e chupa a última vértebra da minha coluna, um aviso de que
se eu quiser mais terei que pedir e eu grudo minha testa no vidro, respirando
com calma, apaziguando meu desejo quando ele se afasta e volta para o
banho.
Quando levanto a cabeça o filho da puta está rindo.
— Isso foi uma cantada. Sentiu a diferença? — me provoca sem dó.
— Você não vale nada, Adônis.
— O banho ainda está de pé, você está toda molhada.
Tiro o blazer e pego uma toalha para secar um pouco o tecido. Me
viro de costas para o espelho e percebo suas mãos marcadas na saia. A
blusa está seca.
Ele desliga a água e se seca despreocupadamente, sem sensualizar só
porque eu estou ali. Deixa a toalha e o cheiro de sal marinho e eucalipto do
gel de banho para trás. Sigo-o, ainda que não tenha me chamado.
Ele coloca uma calça de moletom sem cueca por baixo e uma
camiseta preta e vem na minha direção.
— Tira a roupa.
— Não tiro nada, Adônis. Eu quero conversar sobre o contrato, eu
não vim aqui transar com você — respondo séria.
— Para colocar na máquina de secar sua tarada. Meu deus, será
possível que você não consiga ficar sem pensar em sexo um segundo
sequer?
Ele é um idiota, mas sempre me pega com essas gracinhas. Entrego o
blazer na sua mão e alcanço o primeiro de uma longa linha de botões nas
costas da minha saia. Ele coloca o meu blazer no ombro e me vira pelo
braço, abrindo os botões com mais facilidade que eu, sem me tocar além do
necessário para aquela tarefa. O que me impressiona por alguns segundos,
até que ele enlaça o meu quadril com ambas as mãos e as desce abertas e
apertadas por todo o caminho pelas laterais das minhas pernas, removendo
a minha saia, tocando o meu corpo muito mais do que seria necessário. Não
satisfeito, estala um beijo despreocupado na minha bunda.
— Gostosa — diz antes de se virar e me deixar no quarto sozinha.
Pego outra calça de moletom e visto, dobrando a borda da cintura
algumas vezes para que não caia e sigo até a sala, que é junto com a
cozinha, me sento numa cadeira, tiro o contrato da minha bolsa, todo
rabiscado e espero que ele volte.
— Vamos a isso. — Ele decide quando me vê de caneta e papel nas
mãos.
Adônis se senta no extremo oposto da mesa. Mantendo uma distância
quase excessiva entre nós e isso me deixa mais calma. Não quero brigar
com ele se esfregando em mim toda hora para me distrair.
— O que você gostaria de acrescentar no contrato?
— Acrescentar? Eu quero tirar coisas! Não colocar mais.
— Tirar? O quê? Eu coloquei só o básico do básico!
— 2.5) Cláusula de obediência — Começo a ler em voz alta:
“A Iniciada aceitará sem questionar todas e cada uma das ações
disciplinadoras que o Facilitador considere necessárias, e em todo momento
recordará seu papel e sua função perante o Facilitador.”
— Sem questionar? E se eu não concordar? Claro que vou
questionar!
— Sabrina, nós vamos discutir todas as sessões antes, com detalhes,
definindo limites rígidos para cada uma delas, além dos óbvios que eu já
enunciei no contrato. Esse mesmo que você está segurando, no qual pode
adicionar o que mais achar necessário. Se você for para cada sessão
disposta a me questionar a qualquer decisão que eu tome, o melhor é que
paremos antes mesmo de começar. Nada será feito sem o seu
consentimento. Você não precisa se manter na defensiva.
— “A Iniciada não se tocará e nem se proporcionará prazer sexual
sem a permissão do Facilitador.” Como assim eu não posso me tocar em
momentos privados?
— Não pode. Você vai estar seguindo um plano para desafiar os
limites do seu prazer, para aprender qual é o seu ponto de ruptura, até onde
seu corpo é capaz de ir. Eu gostaria que seu prazer estivesse sob o meu
controle pelo tempo de vigência do nosso contrato. Mas se você não é capaz
de ficar sem masturbação durante a semana eu posso cuidar disso também,
para que as suas práticas solo sejam condizentes com as nossas práticas
conjuntas. Mas, ainda assim, teria que seguir instruções, não seria uma
prática masturbatória livre.
A facilidade com que ele diz cada uma dessas palavras é algo que eu
quero para mim. Ter a frieza de falar de práticas masturbatórias, na mesa da
cozinha como se estivesse numa reunião de aprovação de orçamento anual.
— 2.8) “O Facilitador pode usar o corpo da Iniciada a qualquer
momento durante as horas designadas, ou em quaisquer horas extras
acordadas, da maneira que julgar apropriada.” Da maneira que julgar
apropriada? Você não pretende tentar me colocar para fazer aquelas coisas
patéticas tipo limpar o chão que você pisa e servir suas bebidas quando
estivermos em público, certo?
— Não. Eu tenho empregados para isso. Próxima.
— 2.10) “O Facilitador não emprestará a Iniciada a outro Facilitador
sem consentimento.” Eu não sabia que existia a possibilidade de eu ser
emprestada. Pensava que o propósito desse contrato era exclusividade e
restrição a outros membros do clube até que eu esteja preparada.
— Não estaríamos falando de um membro qualquer, provavelmente
estaríamos explorando algum tipo de prática em que existe alguém melhor
do que eu para performar na sua sessão.
— Então você não é o melhor em tudo? — debocho, me
arrependendo imediatamente da abordagem infantil.
— Não é bom monopolizar as sessões quando a ideia final não é
formar uma submissa — responde ainda seriamente, me fazendo sentir
ainda pior e retomo a leitura das cláusulas:
2.11) “O Facilitador poderá prender, algemar ou amarrar a Iniciada a
qualquer momento durante as horas designadas ou em quaisquer horas
extras acordadas por qualquer razão e por períodos prolongados, tendo a
devida consideração com a saúde e segurança da Iniciada.”
— Sem qualquer razão? Se você quiser me amarrar a uma cama e me
deixar lá eu tenho que aceitar?
— Você lembra da parte em que eu já disse, e repeti, que todas as
sessões serão discutidas com antecedência. Se eu estiver por algum motivo
planejando uma prática em que você tenha que ficar sozinha amarrada a
uma cama, você vai saber e concordar com tudo antes.
— E se eu não concordar?
— Não o faremos.
— Simples assim.
— Simples assim — repete como se eu tivesse algum tipo de
disfunção cognitiva.
— 2.12) “A Iniciada sempre se dirigirá de maneira respeitosa ao
Facilitador dirigindo-se a ele nas Horas Designadas usando “Por favor”
como pronome de tratamento.” Não entendi isso. Em vez de senhor, ou
mestre eu devo usar por favor? Por quê?
— Porque algumas práticas mais leves podem acontecer fora do
clube, e eu não quero que se sinta constrangida ao me chamar de senhor,
amo, mestre, ou qualquer outra coisa. Por favor, para os outros vai parecer
apenas uma forma educada de iniciar qualquer frase, mas nós dois
saberemos que estamos jogando.
A forma como a palavra jogando se forma nos lábios dele acorda a
parte de mim que está aos pulos dizendo sim desde que saí do escritório e
ela começa a ficar nervosa com a demora.
— 2.13) “A Iniciada deve usar uma coleira em qualquer sessão,
mesmo que seja uma sessão esporádica e sem intenção de manter-se uma
relação duradoura.” Eu não vou usar uma coleira!
— Claro que vai.
— Não vou, não.
— Como os outros vão saber que você é minha se não andar com
meu nome escrito no pescoço?
— Um: eu não sou sua. Dois: não existe a menor possibilidade de eu
usar uma coleira com seu nome por aí.
Adônis torce os lábios e me encara taxativo:
— Nesse caso, não precisamos continuar. Essa cláusula não é
negociável.
Ele se levanta com tranquilidade e coloca dois pães na torradeira.
— Você gosta de ovos mexidos com torrada? Eu estou com fome.
A displicência com que ele simplesmente encerrou o assunto faz o
contrato em minhas mãos pesar uma tonelada.
— Eu não quero usar uma coleira, por que isso é um fator decisivo?
— Tem muitas coisas que você não quer fazer, Sabrina, eu
sinceramente acho que não está preparada para uma experiência assim. E
tudo bem. Não é para qualquer um. — Ele dá de ombros e pergunta: — Sal?
— Eu estou preparada sim, eu só tenho algumas questões, droga —
insisto indignada.
— Você pode tentar com outro facilitador, posso te indicar alguns,
comigo, ou você usa uma coleira, ou nada feito. Regras da casa!
— Eu posso escolher a coleira?
— Para que você escolha uma que se pareça com um colar e não com
a de uma cachorra raivosa?
Sinto meu rosto se avermelhando com a velocidade com que ele
entendeu meu ponto. Não é sobre a coleira, é sobre o que vai parecer
quando eu a usar.
— Eu já fiz isso, Sabrina — Adônis completa com um tom
decepcionado na voz. — Quando estiver jogando um jogo de humilhação
você será avisada. Suas coleiras são perfeitas, e eu pretendo que as use
sempre, mas serão apenas obrigatórias nas sessões, de qualquer forma não
te faria usar uma marca de dominação em plena luz do dia, embora tenha a
certeza que Leona não se oporia.
— Ela não se opõe a nada. Ela achou o contrato “decente”.
— Você mostrou a ela?
— Sim.
— E ela disse que era decente?
— Disse.
— Duvido.
— Por quê?
— Leona já foi parceira do meu irmão, e o tipo de contrato que
Sebastian ofereceria, meu Deus, é completamente diferente, Leona está a
anos-luz daquilo que pode ser considerado “decente”.
— Leona era submissa do seu irmão?
Adônis apenas confirma com uma expressão enigmática de quem
sabe muito mais detalhes do que está disposto a compartilhar.
— Me custa a acreditar que alguém como ela possa se submeter
dessa forma.
— As pessoas mais dominantes na vida, são as mais submissas na
cama. Submissão é uma forma de poder. E uma vez que você entende isso,
é difícil voltar atrás.
— Ela me disse algo assim. Ainda assim, é difícil formar essa
imagem mental.
— Você é bastante preconceituosa.
— Estou vendo que sim, e odeio isso. Me mostre as minhas coleiras,
então. Eu quero vê-las.
— Por favor.
— Por favor, me mostre as minhas coleiras.
— Boa cachorra. — Ele joga uma jujuba na minha direção e por
impulso abro a boca e ambos caímos na risada.
— Eu te odeio.
— Uhum, sei — diz mordendo uma jujuba também. — Mais alguma
objeção?
— Ingestão de sêmen. Eu não vou engolir porra dos outros.
— Ok. — pausa. — Eu sou considerado os outros?
— Não.
— Você aceita engolir a minha porra, então?
— Você vai foder outras pessoas durante o nosso contrato?
— Sim. Você também vai. Nossas sessões não serão monogâmicas.
— Então, não.
— Ok.
— Você aceitou isso rápido demais.
— Não tenho porque fazer questão de algo assim. De qualquer forma
todos os membros do clube entregam exames a cada três meses, e as
colheitas são feitas no nosso laboratório. Inclusive você tem uma marcação
depois de amanhã, às 8 horas.
— Não vi nada sobre contracepção.
— Ninguém vai te tocar sem camisinha. Você apenas deve declarar
que não faz uso de um método hormonal de contracepção quando for
examinada pelo médico para garantir que as regras de segurança sejam
adaptadas sempre.
— Eu vou tomar a pílula, ainda assim, não quero o povo gozando em
mim sem restrições.
— Dentro de você, ou no geral?
— Dentro de mim, eu acho.
— Ninguém gozaria dentro de você com ou sem pílula. Não num
processo de iniciação.
— Bom, engolir esperma é tão perigoso quanto gozar dentro e isso
estava sendo colocado como opção.
— Sim, não seria qualquer um. Apenas membros com histórico de
anos limpos, sem nunca terem contraído nenhuma doença ou infecção são
cogitados para participar em sessões de iniciação. A segurança vem sempre
em primeiro lugar. Regra não negociável.
— Estamos confiando em você — digo por mim e pelas vozes na
minha cabeça, assinando o contrato de olhos fechados e o entregando em
suas mãos.
— Agora eu sou teu dono durante 10 semanas. — Ele sorri e lambe
os lábios saboreando o que acabou de me dizer.
— Só não se esqueça do nome que assina os cheques dos seus
pagamentos. — recordo-o tentando retomar o poder e seu sorriso cresce
ainda mais.
— A propósito, eu não sou um prostituto, sou dono do clube, então
quando estiver lá, você vai ser minha propriedade, dentro da minha
propriedade, incluindo esse rabo gostoso que eu mal posso esperar para
comer.
O choque dura apenas o segundo que levo para perceber que ele está
montando um personagem e estabelecendo uma hierarquia de poder entre
nós.
Não é prostituto. É o dono do clube e trabalha com programação.
Uma combinação surreal até para quem quer se esforçar a acreditar.
— Eu não gosto de anal — respondo entrando no jogo.
— Blasfêmia! — ele grita me pegando pela mão. — Vem aqui.
— Fazer o quê? — Resisto, puxando meu braço de volta.
— Não vou comer seu cu do nada, Sabrina, me respeita. Vou te dar
um presente de assinatura de contrato. Você já ouviu falar em Tantra?
Afirmo e ele apenas diz “Ozzy” para o nada, e as luzes começam a
diminuir, e uma música suave toca, e a sala para onde nos dirigimos me
passou despercebida quando atravessei o corredor, mas quando suas portas
de correr se abrem meu queixo cai e eu devo ser a cachorra mais sortuda de
Londres neste preciso momento.
É a minha vez de sorrir como se a minha boca não coubesse no rosto.
Lá no fundo, isso foi algo que eu sempre quis: ser surpreendida a cada
passo.
Sinto os passos de Sabrina se aproximando e sorrio antes do seu
cheiro invadir minha memória. Gostosa. Ela é toda gostosa. É gostosa de
ver, gostosa de conversar, gostosa rindo, gostosa brigando, gostosa gozando
e meu santo Deus da paudurecência como ela é gostosa fodendo.
Esperar para estar completamente dentro dela de novo está se
tornando um desafio. Mas eu não quero apenas trepar com ela, eu quero que
ela implore, de joelhos, quero que use “Por favor” como uma forma de
oração, enlouquecida com seu próprio prazer.
Ela não diz nada, apenas entra no escritório com naturalidade e me
encontra de frente para ela, sentado na cadeira da minha mesa, a encarando
assim que passa pelo portal. As luzes baixas emolduram suas formas,
dispersando sombras pelos painéis apagados nas paredes.
Minha camisa no seu corpo não fica tão grande, deixa uma
quantidade apetecível de pele exposta, tapando apenas o necessário para
não a considerar seminua. Espalmo a mão no quadril macio e beijo seu
ventre por cima do tecido quando chega perto de mim. Ela beija a minha
têmpora esquerda com cuidado e a conduzo ao meu colo, oferecendo uma
pequena garrafa de água que bebe com ânsia, deixando algumas gotas
escorrerem pelos cantos dos lábios, que lambo com paciência, sentindo-a
estremecer no meu colo. A bunda quente, na minha coxa também nua, me
atiçando em silêncio.
— Você nunca usa roupa? — Sabrina pergunta. A impressão deixada
pelo seu tom é de que sua alma voltou para o corpo apenas agora.
— Não se puder evitar.
Ela apoia os braços nos meus ombros e sinto que vai me roubar um
beijo. Chega perto, mas sua boca não toca a minha e eu não movo a cabeça,
apenas abraço sua cintura apertado e ela encosta a cabeça no meu pescoço,
esfregando o rosto em mim, como sempre faço com ela.
Meu peito vibra com a minha risada.
— Você está muito gatinha para uma cachorra — comento baixinho
no seu ouvido, traçando linhas desconexas nas suas costas e mais uma vez
ela estremece contra mim.
— Você prefere quando eu mordo? — A voz grave e levemente rouca
reverbera diretamente no meu pau, ainda ressentido de não ter sido
convidado para a massagem mais cedo.
— Se eu soubesse que só precisava de uma boa massagem para ficar
toda molinha e receptiva na minha mão você teria ganhado uma antes. —
Raspo meus dentes na pele do seu ombro exposto, tentado a deixar uma
marca, mas me contenho.
— Se tivéssemos começado por aí — ela me diz com um meio riso
preguiçoso que se torna uma espécie de soluço fraco no meio do caminho
—, eu teria assinado uma folha em branco sem sequer me preocupar com as
cláusulas — termina a frase espirituosa, se esforçando para articular as
palavras corretamente e gargalho com força de novo.
Ela se ajeita sem se esfregar, poupando meu pau da tortura de tê-la
tão perto e não poder entrar.
Arrumo o cabelo bagunçado com os dedos e seu rosto pende de leve
para a palma da minha mão.
— Está com fome?
— Acho que sim.
— Não tem certeza? Acho que eu desconfigurei o seu sistema —
brinco, fechando mais alguns botões da camisa meio aberta que estava
deixando o contorno dos seus seios à mostra.
— Eu acho que estou em coma sexual. Meu cérebro derreteu e eu só
queria ficar dormindo mais uma eternidade ou duas.
— Seja bem-vinda ao Tantra.
— Obrigada. — O olhar de seriedade não combina com o
relaxamento do corpo quente sobre o meu.
— Pela massagem?
— Não foi só uma massagem. Foi… — Seus olhos fecham
procurando as palavras certas para descrever a experiência. — Eu não sei.
Mas foi.
— Você estava muito apegada à parte burocrática da iniciação. Eu
quis te lembrar o que realmente importa, e o porquê de estarmos fazendo
isso. A quantidade de prazer que seu corpo é capaz de sentir é infinita e
você só pode expandir os seus limites se se permitir explorar sem reservas.
— Sim, senhor. — Ela bate uma continência debochada.
— Vai dormir comigo?
— Isso é um convite ou uma ordem?
— Minhas ordens tendem a começar com você de joelhos — aviso,
notando seus olhos se apertarem brilhantes.
— Então é um convite?
— Sempre.
— Que horas são? — Ela procura alguma referência com o olhar,
uma janela talvez? Não encontra nenhuma. O sistema de iluminação da
minha casa foi planejado para que, independente do horário, eu decida se é
dia ou noite aqui dentro.
— Quase 11h da noite.
— Quê? Eu achei que tinha cochilado uns minutos.
— Você apagou durante quase 4h seguidas.
Sua surpresa só não é maior que a curiosidade.
— Preciso pesquisar sobre o Tantra. Como você aprendeu?
— Por mais bizarro que possa parecer, com a minha mãe. Ela é uma
vadia fria e calculista, mas também é budista. Eu não faço ideia de como
essas duas personalidades se encontram dentro dela, mas a verdade é que
ela me mostrou várias práticas budistas, uma delas o Tantra. O viés sexual
eu desenvolvi por iniciativa própria, mas a curiosidade pela prática foi ela
que cultivou.
— Eu não vou dormir com você — decide, agora mais desperta.
— Tudo bem. Quer jantar?
— Prefiro comer em casa. Eu tenho que ligar para minha família ou
eles vão ficar preocupados.
— Você fala com eles todos os dias?
— Sim.
— Ok. — Beijo seu queixo rapidamente. — Nesse caso, levante esse
rabo gostoso e vá embora.
— Está me expulsando? — questiona já se levantando, a mão ainda
entrelaçada na minha.
— Sim. Está ficando tarde. Quer que eu te leve?
— Não precisa, mas obrigada por oferecer.
— Tão educadinha e delicada... Que menininha boazinha — debocho
fazendo beicinho. — Eu quero minha cachorra de volta até sexta-feira —
ordeno com o dedo esticado em ameaça na sua direção.
— Terá!
— Promete?
— Eu assinei um contrato.

— Adônis, você viu meu celular? — Sabrina pergunta, já


completamente vestida, o relaxamento longe do seu rosto. Uma pena, mas
essa versão executiva combina mais com ela que a gatinha em busca de
carinho.
— Não.
— Me liga, por favor?
— Ozzy, liga para a minha cachorra! — ordeno para o nada e Sabrina
arregala os olhos quando a música começa a tocar.
— Ozzy? — questiona interessada e eu me levanto em direção ao
som crescente.
— É um sistema de inteligência artificial que estou desenvolvendo
para uma empresa.
Alcanço seu celular e na tela vejo escrito: “Namorado de Aluguel”
sorrio do apelido, apropriado para dizer o mínimo.
— Foi com ele que você programou aqueles efeitos na sala de
massagens! — ela reclama como se tivesse sido ludibriada.
— Ela.
— O quê?
— Ozzy é uma fêmea.
— Claro que é, você não perderia uma chance dessas. O que mais ela
faz? Além de impressionar mulheres inocentes com salas de massagem sob
demanda?
— Isso ela fez só para você. Um presente de boas-vindas à nossa
humilde residência. — Faço uma cortesia exagerada.
— Claro — desconsidera. — Eu fui a primeira a conhecer suas
habilidades tântricas naquela sala sob a benção tecnológica da assistente
virtual que você não criou para impressionar mulheres. — Ela torce os
lábios, evidenciando o tom de descrença total. — Você nem sabia se eu
viria — me acusa, por fim.
— Tinha a certeza que viria. Talvez não hoje, mas eventualmente. Eu
gosto de estar preparado.
— O que mais ela faz? — questiona olhando ao redor do teto como
se Ozzy fosse algum tipo de entidade que pudesse incorporar a qualquer
momento.
— Muitas coisas, ainda estamos inserindo comandos no sistema. Ela
está aprendendo a ser engraçada, ultimamente. Pergunte algo a ela.
— Ozzy? Quantas vezes você executou o programa de massagem
nesta casa?
Um dos painéis acende aumentando vertiginosamente de um até mil,
Sabrina cruza os braços me desafiando a negar os números que retrocedem
até pararem na marca de 346.
— 346 massagens exclusivas, Adônis? Pensando bem, talvez para
alguém como você isso seja exclusivo.
Que filha da puta.
— Ozzy, você pode mostrar os códigos de tempo de cada uma dessas
marcações, por favor? — A alteração da programação já não exige que eu
diga por favor, mas digo mesmo assim.
Os carimbos de tempo com microssegundos de diferença se juntam
aos números de um a 344, apenas o 345 e o 346 mostrando intervalos de
tempo contáveis.
— Nem que eu fosse um campeão de massagem seria possível ter
feito 344 massagens no mesmo dia. — Aponto para o painel sem diversão
no tom de voz. — Foram 344 execuções de teste do algoritmo e apenas
duas com sucesso. A primeira, e a sua. Como você pode ver, algumas horas
antes de você chegar.
— Você realmente estava me esperando. — Vergonha pinta sua pele,
e ela morde o canto da boca por dentro, preocupada, mas apenas por um
segundo antes que da linha dos seus lábios brote um sorriso sacana.
— Lamento te informar, namorado, mas eu acho que você está
apaixonado — provoca, brincando, batendo seu ombro no meu.
— Lamento te informar, namorada, mas isso não é novidade
nenhuma.
“Admita que amou e está doida para usá-las em público”
A mensagem de Adônis me provoca na nossa conversa do WhatsApp
aberta.
Odeio lhe dar razão, mas as coleiras estão perfeitas. Já tinha gostado
das duas primeiras, mas essas são sensacionais. Não tem nada a ver com os
pedaços de couro com aspecto duvidoso que eu já tinha visto outras pessoas
usarem. O tecido macio e resistente e as incrustações com seu nome
assentam bem na minha pele. A coleira que eu mesma comprei na minha
última viagem é humilhada pelas novas coleguinhas com sucesso.
Testo seu aperto puxando um pouco com os dedos e sinto a
circulação ser cortada imediatamente. Liberto a tensão e tiro algumas fotos
com todos os 6 modelos luxuosos que ele me enviou. Todas cortadas com
perfeição, sem folgas. A precisão da medida que ele teve acesso apenas
com as mãos me faz engolir em seco.
Monto as fotos numa grade e adiciono o título: “Que tipo de cachorra
é você?” Descubra neste teste do buzzfeed. E envio esperando como
resposta um gif com uma risada escandalosa, recebendo em vez disso uma
resposta que me faz minhas coxas se apertarem e meu rosto esquentar.
“Minha.” — Uma pequena palavra, grandes intenções. — “Minha
cachorra, esse é o tipo de cachorra que você é.” — Reforça, ainda sem
nenhum emoji ou gif rindo.
Namorado de Aluguel aparece na minha tela, com um toque
personalizado que ele mesmo colocou porque se recusa a ser identificado
como qualquer outro e eu atendo no primeiro toque.
— Está com fome?
— Estou.
— Te pego em 5 minutos?
— Já estou pronta!
— E essa é uma das razões pelas quais você é a mulher perfeita!
— Quando a competição é com você, não é como se fosse difícil
impressionar pela minha rapidez.
— Eu não demoro muito.
— Adônis, você sempre demora mais do que eu. Só essa semana
você se atrasou três vezes!
— Claro, eu tenho uma reputação a zelar.
— Você não está vindo me buscar de surpresa só para conferir se eu
não vou sair correndo, não é mesmo?
— Claro que não. Por que eu faria isso?
— Porque amanhã é sexta e nosso contrato entra oficialmente em
vigor.
— Já se passaram duas semanas, o nosso contrato começou no
momento em que você assinou seu nome nele.
— Você entendeu o que eu quis dizer.
— Eu entendi. E eu não estou conferindo se você vai sair correndo
amanhã, eu tenho certeza que não. Não adiei nosso primeiro encontro no
clube por acaso. Intimidade e confiança são longos caminhos, mas nós
precisávamos ter percorrido pelo menos os primeiros metros dessa
maratona antes de eu te enfiar no clube sob minhas ordens.
— E agora eu estou pronta?
— Você está pronta desde o segundo em que ao invés de ter receio de
ir para lá, começou a se sentir ansiosa para chegar.
— Então o que estávamos esperando? Eu já estou ansiosa desde a
primeira sexta-feira em que você me deixou plantada te esperando.
— Eu nunca disse para que me esperasse.
— Você é um idiota!
— Um idiota lindo e gostoso que está te esperando na porta do seu
prédio. Traga uma coleira.
Pego duas das coleiras que esticam e as forço pelas minhas pernas,
levando-as até a separação entre a coxa e a bunda. Tem Adônis, escrito na
frente da minha perna esquerda, e atrás da minha perna direita, sorrio
satisfeita. Desço as escadas com o pescoço livre só para provocar.
Saio pela porta sem o ver, mas sinto a sua presença imediatamente
atrás de mim antes da mão dele tocar minha cintura e me puxar para trás,
beijando meu ombro.
— Boa noite, Dona Namorada.
— Boa noite.
— Eu pensei que tinha te dado uma ordem.
— E eu cumpri — respondo encolhendo o ombro. Seus olhos
procuram imediatamente minhas pernas, adivinhando exatamente ao que
me referia.
— Espero que você tenha vindo preparada para ficar sem calcinha no
meio da rua — me avisa antes de colocar a mão por baixo do meu vestido e
começar a puxar o tecido para baixo. Olho para os lados procurando
testemunhas e me lembro que a última vez que ele fez isso eu quase morri,
estávamos no clube, agora estamos no meio da rua e eu não reclamei nem
tentei escapar das suas mãos.
— Vamos. — Ele me oferece a mão e eu seguro enquanto guarda
minha calcinha no bolso.

— Você tem certeza que quer jantar aqui? — pergunto sentindo calor
ao entrar no restaurante lotado.
— Sim. É o meu restaurante favorito. — O olhar de quem está
aprontando é claro e diz mais do que qualquer palavra poderia.
— O que você está tramando? — pergunto procurando o banheiro
com o olhar.
Ainda estou sem calcinha, e ele não me deu folga durante todo o
trajeto. Minhas coxas escorregadias são evidências mais do que suficientes
de que o caminho até aqui foi uma provação para os meus sentidos.
— Eu vou ao banheiro.
— Não vai não. — Sua mão segura meu braço e ele me empurra com
educação e firmeza para uma mesa comprida, mas estreita em largura, uma
espécie de balcão comunitário perto da vidraça que chamou sua atenção
quando passávamos.
A publicidade colada no vidro deixa antever apenas uma parte do que
acontece aqui dentro.
O garçom oferece sangria da casa e aceitamos. Adônis tira o casaco e
o coloca dobrado ao meio atravessado no banco ao seu lado. Sua atenção
me deixa alerta, principalmente quando começa a dobrar a camisa
cuidadosamente até o meio do antebraço sem trocar uma única palavra
comigo. Cada um de seus movimentos se tornando conscientes, ensaiados.
— Adônis…
— Você precisa aprender que todas as ações, por menores que sejam,
têm consequências. E precisa entender que quando eu te mando vir de
coleira, você deve trazê-la no seu pescoço e exibir meu nome com orgulho e
não escondê-la covardemente por baixo das roupas.
— Eu estava só brincando.
Seus dedos tocam o meu joelho por baixo da mesa.
— O que você está fazendo? — sussurro totalmente consciente da
resposta óbvia.
— Agora eu também quero brincar. — Suas mãos deslizam pelas
minhas coxas, abrindo-as mais do que seria aceitável num lugar como este.
Aperto minhas mãos sobre as dele ao sentir seu polegar levantar uma
das coleiras, me acariciando de leve, raspando casualmente minha virilha.
— Mãos em cima da mesa. — Sinto as pernas perderem as forças,
apenas pelo tom da sua voz e a promessa cretina no seu olhar.
Tento pensar em todas as razões pelas quais não deveria permitir que
ele faça isso. Mas não consigo pensar em nenhuma além de sermos presos
por atentado ao pudor e essa não me parece uma razão boa o suficiente.
Então lentamente faço o que me diz, repousando minhas mãos sobre a
mesa.
— Você vai gozar aqui, na frente de todo mundo, antes da nossa
comida chegar, e não vai dar nem um pio. Eu fui claro?
— Sim.
— Como?
— Sim, senhor — conserto rapidamente.
Ele estapeia minha perna com mais força do que o ângulo apertado
da mesa deveria permitir, chamando atenção do casal que se senta ao nosso
lado e nos cumprimenta educadamente, mas isso não o intimida.
— Sim, Por favor — me corrijo baixinho, para que não me ouçam e
soluço com a sensação do polegar puxando meu clitóris até ao dedo
indicador, que o aperta, provocando um leve desconforto, uma sensação
longe do prazer.
— Olhos em mim — ordena com a voz tentadora, acalmando o
aperto e percorrendo meus lábios longamente com os dois dedos, me
pincelando devagar, subindo e descendo, me abrindo como se tivesse todo
tempo do mundo. Como se o casal, que agora nos olha interessado não
existisse, como se minhas coxas não estivessem tensas por impedir o
reflexo de fechá-las a cada toque.
O garçom se aproxima com as nossas bebidas e eu o ameaço com o
olhar.
— Ele só vai saber se você gemer. E se você gemer eu vou parar e
você vai ter que passar o jantar inteiro se esfregando na cadeira para se
acalmar.
— Eles estão olhando para nós. — Aponto o casal com a cabeça.
— Deixe que desfrutem também.
Não acredito que ele está me tocando desse jeito no meio de um
restaurante especialmente lotado que agora tenho a certeza de que ele
escolheu a dedo para me enlouquecer.
Aperto o maxilar, rangendo os dentes e levo as mãos, que molhei no
ressoar da jarra em cima da mesa, até o pescoço, sentindo a pressão da
minha corrente sanguínea pulsando forte. O calor que sinto não tem nada a
ver com a quantidade de gente nesse lugar.
Adônis não tira os olhos de mim e meu queixo começa a tremer de
vontade de gemer, seus dedos deslizam forte para dentro e minha respiração
se torna audível. O casal simplesmente vidrado, nos observa, sem disfarçar.
Os dedos entram e saem rudes de mim, posso ouvir minha excitação
em nossas peles se chocando, pequenos sons molhados e rápidos. Não olho
em volta para descobrir se mais alguém percebeu. Encaro o tampo da mesa
e tento respirar sem choramingar, e eu nunca quis tanto pedir por favor.
Para que pare. Para que continue? Para que me coloque em cima da
mesa, me chupe e me permita gritar até que a polícia chegue? Não sei. Só
sei que não aguento mais e ele sabe.
Quero morder o sorriso cretino que tem estampado no rosto.
Cravo as unhas na mesa e me remexo mesmo tentando não o fazer,
minhas pernas tremem e já sinto meu abdômen retesar se preparando para
receber a onda violenta.
Meu cérebro apaga o meu sistema de iluminação interna e vejo tudo
escuro pelo breve momento em que ele para de me masturbar, minhas
orelhas ardendo em brasa, meu rosto completamente afogueado.
Gozo olhando para o garçom e suplantando meus gemidos que
seriam mais discretos se fossem libertados de uma vez e não contidos como
um animal selvagem dentro da minha garganta, lutando para sair.
Me encosto nas costas do banco numa posição precária. Ele mal
tocou as coleiras, e, por isso, sei que isso ainda não acabou.
Adônis leva os dedos à boca e chupa escandalosamente meu gosto da
sua pele, essa visão se une aos meus tremores, prolongando-os e estou tão
sensível que estar sentada me incomoda. A pele formigando, os mamilos
doloridos dentro do vestido aparentemente comportado.
— Eu mal posso esperar para te ensinar a implorar do jeito certo. —
Ele simplesmente beija minha testa, como um amigo faria.
O garçom serve um pratinho com cogumelos recheados que Adônis
fura com um garfo, se recostando no banco com elegância.
Sinto parte da minha alma morrer ao vê-lo levantar seu copo em um
brinde silencioso ao casal ao nosso lado e piscar para eles.
Encosto minha testa na mesa por alguns segundos, cansada,
atualizando a minha lista de lugares em que esse homem já me fez gozar.
— Um cogumelo pelos seus pensamentos.
— Os seus limites, Adônis? Quais são?
— Fique comigo uns anos, talvez consiga descobrir.
Ele vai acabar com a minha raça.
E com razão.
Meus olhos percorrem frenéticos todos os pescoços num raio de 5
metros. Não presto atenção em mais nada. Todas as vozes, a música, o
ambiente se tornam um borrão desde o momento em que coloco o pé no
salão do clube e me vejo refletida num painel de luz.
Segui todas as instruções acordadas até aqui. Menos a coleira! Eu
esqueci a porra da coleira e eu gostaria que alguém pegasse um pinheiro e
atravessasse no meio do meu crânio para acabar com o sofrimento dessa
existência em que a pessoa vem para o primeiro encontro oficial de
iniciação, depois de milhares de conversas sobre o mesmo tema, depois de
assinar um contrato e depois de já ter brincado com o assunto fora do
contexto no qual eu poderia ser de fato penalizada por essa infração e eu
apareço no clube sem coleira.
Era melhor me voluntariar para uma guerra sem saber atirar. Seria
mais coerente do que aparecer na frente de Adônis hoje sem a porra da
coleira.
O pior? Só percebi quando me vi refletida sem ela. Na minha
memória um flashback do momento exato em que a tirei para não sujar de
base, depois lembrei que não podia usar maquiagem e fui lavar o rosto e
acabei deixando no armário da entrada, onde coloquei, justamente do lado
do cinzeiro com as chaves, para não correr o risco de esquecer.
Todos os limites da imbecilidade foram ultrapassados.
Meu celular, relógio e bolsa foram confiscados na entrada, não posso
sequer fazer os cálculos para ver se dá tempo de voltar em casa para buscar
a maldita.
— Pronta? — uma voz pergunta atrás de mim e preciso me segurar
para não me deitar no chão esperneando e gritando que não.
Não é a primeira vez que vejo essa mulher que olha para mim com
divertimento. Ah, lembrei. Ela me ajudou na minha primeira vez aqui.
— Bia, não é?
— Em carne e osso. Mais carne que osso, é claro. — Aponta as
curvas sinuosas do seu corpo bem trabalhado. — Hoje eu sou o seu
Caronte.[1] — Ela me estende a mão com graça e elegância. Adoraria saber
como consegue se comportar como a mais condecorada entidade da família
real estando semi nua num clube noturno.
— Caronte não atravessava as almas do purgatório? Que horror. —
Levo a mão ao peito entendendo o que quis dizer.
— Bom querida, algumas linhas depois de atravessadas… — Ela faz
uma pausa na fala que leva meus olhos diretamente aos seus lábios, ansiosa
para que conclua o raciocínio. — Não nos permitem que voltemos atrás.
— Eu esqueci minha coleira — digo em voz alta apenas para tentar
perceber se não estou surtando à toa.
Bia perde a compostura, e a vibe sexy misteriosa, seus olhos apenas
se arregalam, o maxilar abrindo, mesmo que ela tente disfarçar passando a
ponta da língua pelos dentes e cobrindo a boca com a mão.
— Muito obrigada, agora eu estou muito mais calma.
— Mas eu não disse nada! — exclama se defendendo, ainda vejo a
pena estampada nos seus olhos.
— Exatamente. Seu silêncio disse tudo — reclamo desanimada.
Ela dá um tapa no meu ombro para chamar a minha atenção.
— Ah, relaxa. Quando ele olhar pro seu pescoço e quiser te enforcar
com requinte, você só… — Ela faz de novo a pausa dramática irritante
enquanto pensa. — Deita, rebola e se finge de morta? — Ela levanta as
mãos pro alto.
Franzindo os lábios pergunto numa última tentativa de me safar:
— Você, assim, só por acaso, não teria por aí, dando sopa de bobeira,
uma coleira com o nome do Adônis escrito em letras brilhantes e garrafais,
não é?
Ela tapa a boca com as duas mãos e um olhar divertido arregalando
os olhos mais uma vez.
— Olha garota, eu vou te dizer que você tem mais sorte que juízo.
— Você tem uma coleira?
— Tenho.
— Com o nome Adônis?
— Sim.
— Escrito em letras garrafais?
— Uhum
— Por quê?
— Primeira esposa, baby. Todas guardamos memórias, eu guardo
coleiras!
Meu corpo grita de alívio e meu cérebro entra em imediato colapso.
— Primeira esposa? Isso significa que ele tem outras?
Bia apenas gargalha e puxa a minha mão me apressando.
— Pera aí! — Eu estaco no meio do corredor. Pessoas passando sem
realmente nos ver. A mão dela ainda segurando a minha. — O Adônis é
casado? — quase grito.
— Não. Anda logo mulher, ou além de chegar com a coleira trocada
você ainda quer chegar depois dele e fazê-lo esperar?
— Você acha que ele vai perceber?
Ela ri com vontade agora, segurando o abdômen, eu riria também se a
bandida não estivesse rindo às custas da minha desgraça.
— Você é engraçada, Sabrina. Sério. Muito engraçada.

De pé, com o coração aos pulos, e as palmas da mão cobertas com


suor frio, entro na sala indicada, a coleira errada pesa no pescoço como se
eu tivesse cometido algum crime. Droga! Que inferno. Respiro fundo
tentando me acalmar e limpo as mãos nas laterais do vestido. Também não é
para tanto, é só uma coleira, minto para mim mesma para ver se acredito e
não funciona.
A sala está preparada exatamente como ele disse que estaria. O
cheiro forte de couro, as paredes estofadas como a cabeceira de uma cama
de luxo num tom de vinho que por si só é sensual e os apetrechos
pendurados, alinhados e organizados por tamanho e cor.
Nenhuma novidade, está tudo certo. Nós falamos sobre isso. Eu
concordei com isso. E eu confio no Adônis para fazer o que quiser comigo
dentro dessas quatro paredes ou fora delas.
Essa constatação me faz sorrir com ternura. É inegável que eu confio
nesse homem mais do que deveria, a verdade é que confiei nele desde o dia
zero. Ele é completamente controverso em tudo que faz, mas me faz sentir
saudades de coisas que nunca vivi, me faz sentir nostalgia do tempo em que
não experimentei. Me faz sentir viva e expectante porque nunca sei o que
esperar, nunca sei qual das suas versões vou encontrar.
O cara fofo que só quer me fazer rir até a minha barriga doer.
O cara safado que quer me foder com força contra qualquer
superfície disponível.
O cara sério que quer me explicar tudo e mais alguma coisa sobre o
mundo onde estou entrando como se eu tivesse ficado presa numa caverna
nos últimos 20 anos e ele fosse a minha única conexão com a sociedade
atual.
O cara que quer me contar fofocas sobre pessoas que eu não conheço.
O que cara me azucrina, me atormenta e me testa em todas as
oportunidades possíveis.
O cara que, o tempo inteiro, faz minha presença parecer um presente,
mesmo que eu saiba que a realidade está longe disso. Sua companhia é
sempre brutal e plena, cada minuto significa muito, porque ele vive tudo ao
máximo e me faz querer viver também. Me faz querer pular do mesmo
abismo só para saber o que tem no fundo dele.
Eu não faço a mínima ideia de como cheguei até aqui, mas é um fato
mais provado do que a água ferver a 100 graus célsius que eu estou a uma
centelha de me apaixonar por esse desgraçado.
Foram apenas duas semanas de encontros marcados, momentos
roubados, mensagens alucinadas e muita expectativa e antecipação, tenho
medo de imaginar o que pode acontecer até o fim do contrato.
Ele não me fodeu mais nenhuma vez. A última vez que tive mais do
que a sua boca ou dedos em mim, parece ter sido há anos, e não há menos
de um mês. Ele ainda não beijou a porra da minha boca e está cada vez mais
difícil resistir, mas deixou claro que vou ter que fazer por merecer.
Aparentemente ele pode me foder de todas as formas possíveis e
imaginárias, mas para beijar a minha boca é necessário um sermão e missa
cantada.
Meus músculos se retesam de susto quando uma sombra se separa da
penumbra no canto da sala. Aperto os olhos, completamente gelada vendo
Adônis se levantar de uma cadeira no mesmo padrão da sala vestindo
apenas uma calça jeans.
Como, em nome de Deus, eu ainda não tinha sentido a sua presença,
o seu olhar, ou notado a sua respiração até agora é um mistério, porque seus
olhos abertos me encarando parecem dois vaga-lumes me hipnotizando.
Vejo seu olhar repousar no meu corpo e me viro na sua direção. O
homem divertido e descarado deve ter ficado em casa, quem está usando
aquele corpo glorioso hoje é um homem mau, uma alma antiga, um
predador calculista.
A atenção gélida com que me encara me esquenta um pouco por
dentro, sinto a aura de violência se formar ao seu redor quando os olhos
brilhantes tiram cada uma das minhas medidas e param exatamente no meu
pescoço, sua expressão endurece, mas não demonstra se acabou de ter um
AVC ou dois ao me ver com uma coleira emprestada.
Mesmo de longe, foi a primeira coisa que ele reparou e seu olhar de
desagrado é tão físico que consigo sentir seu toque me apertando, mesmo
que não tenha dado mais um passo sequer na minha direção.
Meu coração está brincando de rapel no meu corpo, ora bate na
garganta, ora nos pés, periga de eu nem chegar ao final do primeiro round e
cair dura aqui se ele não vier logo fazer o que tiver que fazer e me deixar
esperando que nem uma perdida desvairada para saber qual será minha
punição.
Tento fingir uma expressão neutra pra não ficar tão óbvio meu
desespero, mas olhando para ele, ao invés de surtar de vez, começo a me
acalmar.
Palavra de segurança: Socorro! Eu não devia estar brincando de não
saber minha palavra de segurança numa hora dessas, devia?
Não, não, não, reprimo a mim mesma, avançando e seguindo até ele,
mais confiante a cada passo.
— Por favor — cumprimento educada, olhando diretamente em seus
olhos.
— Vejo que decidiu me dar um presente. — A voz grave e rouca nem
parece dele. Sempre tão jovial e divertido. Mas a frequência desse som se
conecta diretamente com o sinal de wifi da minha boceta conforme ele me
rodeia, analisando meu corpo, minha roupa, meu cheiro. — Porque só pode
ser isso, não é? — A voz melodiosa e feita para me fazer querer ajoelhar
sem entender porquê continua: — Aparecer na nossa sessão com a coleira
de outra cachorra no pescoço só pode ser um pedido desesperado por uma
punição. Se você queria começar apanhando, era só ter pedido.
— Sim, Por favor. — Não vou contrariar maluco, se ele acha que foi
um presente, é louco, mas não sou eu que vou contar a longa história de 5
palavras que me trouxe até aqui: eu sou uma idiota completa.
— Você está fazendo o seu Dono muito feliz, cachorra. Muito feliz.
— O arrepio gelado que escorre lentamente pela minha coluna nada tem a
ver com sua proximidade, ou como a palma da sua mão repousa na minha
nuca e me segura com uma calma devastadora, me encostando no seu peito
forte e largo, e sim com as palavras que ele murmura no meu ouvido.
Uma ameaça.
Uma promessa.
— Eu não vou ter pena desse rabo.
— Eu peço perdão, Por favor. — As palavras saem com honestidade,
sem um pingo de sarcasmo manchando a minha voz.
— Eu posso ser benevolente, sabe? Você ainda está aprendendo, a
questão é: Será que você está se esforçando para me desobedecer? Porque
meu dedos estão coçando de vontade de te mostrar umas trinta razões pelas
quais não deveria fazer isso, mas eu não posso recompensar uma cachorra
indisciplinada.
Ansiedade inunda meu corpo.
— Recompensar? Não seria punir?
— Seria uma punição, se quando eu estiver te batendo seu corpo não
entrasse em estado de alerta. Se a cada estalar da minha mão um ponto
nervoso seu não acordasse. Se quando eu acabar, você não estiver tão
sensível quanto poderia alguma vez estar. Se quando eu meter em você,
você não gozasse tão forte que ficasse com câimbras. Seria, se isso sequer
fosse o suficiente e eu não estivesse disposto a te dar muito mais, Sabrina.
Sabrina, nunca pensei que ouvir meu próprio nome me fizesse
encolher. Ele nunca o usa. Sentir falta dos apelidos idiotas é decadente num
nível que eu nunca esperei atingir.
— Sabrina, Sabrina — me chama, parecendo ler a minha mente e o
quanto aquilo me incomoda. — O que eu vou fazer com você? — Parece
tentar escolher entre cenários variados aos quais não tenho acesso porque se
desenrolam apenas na cabeça dele. — O que você vai fazer para me
recompensar por aceitar disciplinar uma insolente arrogante como você?
Ele segura meu queixo com a mão e me puxa para tão perto que sua
respiração faz ricochete na minha pele.
— O que você está disposta a fazer para não estragar o resto da
minha noite? — Não é uma pergunta. É um desafio. O joguinho de gato e
rato que ele tanto gosta e eu aprendi a apreciar também.
Para sua total surpresa eu não respondo com palavras, apenas tiro
meus sapatos com calma, sob sua observação clínica. Removo minha roupa,
ganhando vários pontos na sua consideração quando constata que eu já vim
sem nada por baixo. Amarrando meu cabelo rapidamente e por fim, me
sentando sob os calcanhares e finalmente baixando minha cabeça,
inaugurando a primeira sessão fazendo tudo aquilo que sempre disse que
nunca faria: me submetendo completa e absolutamente.
— Cachorra. — Me presenteia com meu nome de volta.
— Por favor.
Ele não consegue disfarçar a sensação de prazer imoral que o domina
e se aloja no sorriso depravado que se desenha no seu rosto. Adônis alcança
uma chibata de ponta larga pendurada na parede e se aproxima de mim com
ela, marcando com precisão o contorno do meu rosto com o objeto. Abrindo
meus lábios com a ponta macia para lamber o pedaço de couro que será
meu carrasco. Usa a peça para não me tocar diretamente e eu entendo que já
comecei a ser punida sem perceber.
Ele não me dirige mais palavras, apenas indica a direção com a ponta
da chibata, me orientando até o local onde me quer apenas através do
contato com o tecido macio na minha pele.
Ele escolhe no arsenal pendurado na parede uma espécie de casaco só
com ombros e mangas compridas e joga no chão, indicando que eu o
coloque.
Eu poderia me sentir humilhada por ter que me abaixar para pegar a
peça que ele podia muito bem ter passado para a minha mão, mas entendo
seu ponto, e não vai funcionar. Ele não vai me tirar do sério tão facilmente
assim.
Coloco o casaco, que estranhamente me serve como uma luva, como
se tivesse sido costurado em mim. Nos pulsos duas anilhas grossas se
destacam e Adônis me indica com a chibata que estique os braços, e eu
obedeço. Ele encaixa as duas braçadeiras largas nas anilhas e acopla um elo
de uma corrente a cada um delas, restringindo meus movimentos.
Ainda sem me tocar, puxa a corrente e sou literalmente içada, os
braços esticados bem acima da cabeça, sustentados por um gancho que
desce do teto rebaixado, ele ajusta a altura até que eu tenha que ficar na
ponta dos dedos para me manter em pé, lutando contra o desequilíbrio.
Para minha total surpresa, ele larga a chibata e se aproxima de mim
por trás, um cheiro gostoso inunda o ar e sinto uma massa quente
encostando na minha pele. Bem mais espessa que um hidratante, ou
qualquer óleo de massagem que eu conheça.
É uma sensação gostosa e suas mãos passeando em mim, substituem
a curiosidade pela excitação que começava a correr livre no meu sangue.
Cera. A massa é cera quente, mas não quente ao ponto de queimar, apenas
quente o suficiente para se moldar aos contornos do meu corpo.
Ele não se apressa, leva seu tempo adorando meu corpo com as mãos,
ou pelo menos é como me sinto, completamente exposta e vulnerável sendo
massageada com cuidado ainda que numa posição completamente
desconfortável.
A cera começa a endurecer na minha pele, diferente da cera
depilatória esta não repuxa nem arde, é apenas a sensação de calor gostosa
que vai se dissipando conforme seca e endurece mais.
— Pronta?
— Por favor — respondo com prontidão e ganho um aceno de
confirmação.
Adônis estala a chibata no meu quadril uma primeira vez, testando
minha pele e a cera que ele espalhou, agora totalmente dura, se estilhaça
sob o choque do couro em mim, esfarelando no chão sob os meus pés e
deixando uma sensação indescritível que mistura o ardido do golpe com o
aconchego do calor renovado.
Não tenho tempo de pensar muito até que ele me acerte de novo, com
mais intensidade, quebrando mais um centímetro ou dois da cera, que se
junta aos outros pedacinhos no chão.
Nesse passo ele pode me chicotear por horas e não vou reclamar. A
dor não chega a ser de fato dor até que ele acerta meu mamilo, me vendo
relaxar nas correntes, e eu grito com o impacto e a surpresa, antes que feche
a boca ele me bate de novo no mesmo lugar, e mais uma vez e mais uma e
eu quase rosno, apertando os dentes.
Minha boceta traidora começa a pulsar em seco, se sentindo deixada
de fora da festa. Adônis segue fustigando minha pele, me atentando, sem
dizer uma única palavra. Os únicos sons na sala são meus gritos,
murmúrios, e o estalar inconstante da chibata arrancando a cera da minha
pele e deixando aquela sensação agridoce, fazendo minha boceta se
contorcer e confundindo meu cérebro que não sabe se manda estímulos de
dor ou de prazer, então me inunda de ambos em enxurradas.
A cada 5 chibatadas Adônis acaricia meu corpo com a extremidade
macia, tocando pontos sensíveis e esfregando aquela coisa maldita em cada
um deles, lentamente me deixando sedenta por sentir seu toque verdadeiro.
Ansiosa pelas suas mãos voltando a conversar com minha pele naquela
fluência que só eles conhecem.
Ele me dá várias chances de o parar, de usar alguma das minhas
palavras de alerta, mas permaneço calada além dos gemidos que agora são
mais frequentes que os gritos. Aceitando de bom grado tudo que me dá.
O suor começa a se acumular na minha pele, gotículas descem pelo
vale dos meus seios e me remexo incomodada.
Adônis colhe a gota de suor com cuidado, permitindo que ela escorra
na chibata e lambe a porra da ponta olhando diretamente nos meus olhos.
Meu ventre reclama e se contorce dolorosamente, me castigando por não
sermos nós na ponta daquela língua.
Com a chibata, espalha saliva na minha pele, traçando uma linha
entre meu ventre até o meio das minhas pernas, que eu abro com
dificuldade e choramingo quando ele inicia uma sequência de movimentos
por toda minha excitação, espalhando a lubrificação da minha entrada até o
meu clitóris sensível e retorcendo a chibata ali.
Pendo a cabeça para trás num gemido profundo, querendo lhe dar
mais espaço, mais alcance, mas a posição difícil não me permite abrir como
preciso e ele se aproxima, finalmente colocando a mão em mim. Permitindo
que eu apoie uma das minhas pernas nele, percebendo o pau pressionando a
calça com força. Ele deixa a chibata de lado e tira do bolso um vibrador
pequeno.
“Punição física é uma forma de preparação para o prazer.” Suas
palavras, ditas há alguns dias ecoam na minha mente.
A boca descarada deposita um beijo na curva do meu pescoço,
mordisca a dobra do meu peito e rodeia meu mamilo com a língua,
deixando um rastro molhado que ele sopra me assistindo endurecer.
O vibrador toca meu centro e me sinto derreter, o meu peso nos
braços começa a cobrar seu preço e o incômodo da posição se intensifica.
Fecho os olhos tentando me concentrar apenas no prazer se intensificando
sobre a minha pele, tomando espaço, se aglomerando em pequenos focos de
calor que irradiam sem direção, me deixando atordoada, bêbada de prazer.
Adônis dá um tapa forte no meu seio, me trazendo de volta para a
dor, e abocanha meu peito com dureza, me deixando uma marca vermelha
que admira com orgulho.
Acompanho todas as veias que sobem pelo seu antebraço e começo a
me esfregar no vibrador que ele mantém em movimentos lentos, apenas
para manter meu orgasmo suspenso até que eu suplique. Molho os lábios
secos, com vontade de lamber cada uma das veias do braço forte que me
atormenta. Ele segura minha bunda para me impedir de me esfregar no
vibrador com rapidez, e eu luto contra a força do seu braço.
Rindo do meu desespero ele morde minha boca, puxando o lábio
inferior com força, me marcando de novo com os dentes, se afastando
rápido quando tento grudar meus lábios nos seus, ficando com a língua de
fora quando tentava lambê-lo.
Me diz que não com cabeça, meus gemidos angustiados se
transformando em rosnados e frustração.
Ele desabotoa a calça e abre o zíper, o pau se libertando com força,
tão angustiado pela restrição quanto eu. Adônis pega a minha outra perna,
se livrando do vibrador já colocando uma camisinha. Ele segura a cabeça do
pênis para baixo para me impedir de sentar completamente nele e me
concede apenas que roce completamente desvairada e sem ritmo com cada
célula do meu corpo vibrando com brutalidade, insanas pela libertação que
não chega nunca.
Uma lágrima grande, gorda e angustiada se junta ao suor escorrendo
do meu rosto e ele me limpa com a palma da mão. Adônis tenta me acalmar
segurando minha cintura e pincelando minha boceta com o pau e eu grito,
incapaz de receber qualquer outro estímulo que não seja seu pau me abrindo
rápido e estocando fundo para acabar com aquele tormento.
Quebro o silêncio com a súplica que faz seu personagem controlador
quebrar diante de mim:
— Por favor, me bate, me espanca, me chicoteia, faz a porra que você
quiser, mas me fode, eu não aguento mais, por favor, eu imploro — suplico
com sinceridade, mais lágrimas descendo pela minha bochecha, a voz rouca
e seca lutando para sair coerente.
— Eu vou te foder, Sabrina, mas isso — ele coloca a cabeça do pau
dentro de mim e o emaranhado de sensações condensadas no meu ventre
pulsa. — Não vai ser pra você, vai ser pra mim. — Ele passa os quatro
dedos pela coleira, agarrando-a com violência, forçando meu pescoço para
a frente, deixando a boca perto da minha e esticando meus braços a um
ponto quase impossível pela força das correntes. — Você não merece uma
recompensa hoje — sentencia antes de me atravessar completamente com
uma única investida arrasadora que faz todo meu corpo queimar, todas as
conexões nervosas em alvoroço ao mesmo tempo, um curto circuito que
percorre minha coluna e faz minha cabeça pender sem força para frente.
Eu estava rezando para ela me desobedecer e fui premiado logo na
primeira noite.
A sua pele branca toda marcada de vermelho, as pontas da chibata
tatuadas pelo corpo e o contorno dos meus dedos na sua bunda me deixam
com vontade de ajoelhar para ela por horas. Mas não hoje. Hoje ela será
apenas recompensada por ter durado até ao fim. Por ter cumprido todas as
etapas, por ter aguentado calada enquanto seu corpo se estilhaçava.
Minha cachorra é mais obstinada do que eu antecipei e isso me faz
sorrir. Me encanta descobrir seus limites junto com ela.
As lágrimas descendo do seu rosto com a intensidade do momento
me incomodam e me impressionam ao mesmo tempo. É preciso usar todas
as forças do meu ser para não a beijar e acabar com todo o jogo de manter
minha boca longe da dela.
Beijo seu rosto e lambo suas lágrimas insistentes enquanto ela ofega,
se recompondo do orgasmo explosivo. Sustento seu peso com ela enrolada
na minha cintura. Sei que está exausta pela espera e embora lhe tenha dito
exatamente o contrário, pretendo recompensá-la pelo esforço.
Apoio-a completamente em mim e abro as braçadeiras do bolero de
couro que a prende ao suporte para as correntes. Os braços se enroscam no
meu pescoço e ela me dirige um murmúrio de agradecimento, voltando a ter
controle dos movimentos, abrindo e fechando as mãos, testando a
circulação voltar ao normal.
Ela encosta a testa na minha respirando ainda com dificuldade. A
boceta encharcada molha minha pele e eu beijo seu queixo com carinho,
esfregando meu nariz no dela.
Ela choraminga toda dengosa e se esfrega de leve no meu abdômen.
— Calma. Eu ainda não acabei com você — prometo com o pau
doendo também.
Ando com ela até um banco que é feito especificamente para
espancamento, a coloco de bruços na superfície curvada, com o rabo
empinado na minha direção e ela segura nas patilhas de segurança, se
abrindo completamente para mim, já totalmente desperta do torpor inicial.
Minha mão desce pelas suas costas e estalo um tapa forte só para endireitar
sua postura e deixá-la alerta. Ela empurra os quadris para mim, pedindo
mais. Cachorra safada.
A boceta encharcada do próprio gozo pisca, como se soluçasse, de
alguma forma também implorando por um alívio maior.
— Se segura com força, ou você vai acabar no chão — aviso,
segurando-a apenas pelas nádegas e metendo de uma única vez com uma
pressão que seria dolorosa se ela não estivesse totalmente escorregadia do
orgasmo anterior.
Meu polegar percorre sua carne e para na entrada do cu,
massageando com cuidado enquanto estoco em movimentos curtos,
sentindo-a me esmagar. Ganho velocidade, vendo o impacto de cada
investida abri-la mais, sua boceta se contraindo ao redor do meu pau como
se me abraçasse com força a cada investida, querendo me prender lá dentro
a cada vez que me retiro.
Trinco os dentes, admirando as sombras vermelhas dos meus dedos
cravados na sua bunda e a pele inchando. Puxo seus quadris para trás,
encaixando-a total e profundamente, segurando a porra da coleira para
controlar sua respiração.
Permito que respire plenamente a cada vez que retiro o pau de dentro
dela e aperto quando estoco forte, ela tenta gritar, mas até o grito é
entrecortado pelo controle da coleira apertada no seu pescoço.
Sua boceta desliza com facilidade no meu pau palpitante que força
seus músculos internos a me darem um espaço que não está livre. O corpo
curvado sob o meu ondula ao ritmo alucinado em que a fodo até começar a
sentir as contrações me apertando duro.
Afrouxo o aperto e deixo que grite a plenos pulmões, que deguste de
outro orgasmo, mas não paro de meter. Pelo contrário, enfio meu polegar no
cu quente e aberto para mim e com a outra mão estimulo diretamente seu
clitóris, um orgasmo se encaixa no outro e toda ela se desfaz em sons
sufocados, o corpo convulsionando com violência, sem parar, sem
descanso, sem pausas, sendo fodida pelo meu pau e a minha mão ao mesmo
tempo.
Não tiro as mãos dela quando sua coluna contrai e ela grunhe com a
força do espasmo, seu corpo se desfazendo em gozo, totalmente rendido,
exausto e ainda pulando, como se cada uma das ondas menores de prazer
que continuam percorrendo seu corpo disparasse um pequeno choque,
obstinado em atravessá-lo de novo de de novo. Como se o prazer a tivesse
ligando e desligando da tomada.
Saio de dentro dela só para tirar a camisinha e encher sua bunda com
meu próprio gozo.
Ver o líquido branco manchando as marcas que deixei nela quase me
faz esporrar de novo.
— Sabrina — chamo novamente e seguro seu maxilar. Sentada na
cama com as pernas moles, ella reclama para abrir os olhos, mas insisto. —
Eu preciso que você fale comigo. Olha para mim — peço carinhosamente,
alisando seu rosto com adoração. Beijo a lateral do seu peito despido e sua
bochecha logo em seguida quando abre os olhos. — Eu preciso saber como
você está se sentindo.
A garrafa de água na minha mão está aberta e esperando que ela
beba. Sabrina assente, dando alguns goles que vejo descerem rasgando a
garganta extremamente desidratada. Ela franze os lábios e nega o líquido.
— Beba mais, por favor.
A palavrinha mágica que agora se confunde entre nós faz com que
me obedeça e beba, ela dá goladas grandes e espaçadas, enquanto eu apenas
observo.
Lhe passo uma maçã e duas bolachas de chocolate e ela olha para
mim como se eu estivesse louco.
— Eu não estou com fome.
— Eu preciso que você coma.
— Mas… — começa a discutir.
— Nem mas, nem meio mas, você precisa comer alguma coisa.
Ela estala a língua e dá uma mordida a contragosto na fruta, pegando
as duas bolachas sem muito interesse.
— Eu sei que a minha cara pode estar dizendo o contrário, mas eu
não estou passando mal. Eu só estou cansada.
— E a gente precisa conversar.
— Sobre o quê?
— Sabrina — repreendo-a.
— Eu juro que não entendo como você consegue usar meu nome
com carinho ou como um insulto com essa facilidade, é irritante sabia? —
me acusa apontando o dedo para mim e dando outra mordida barulhenta na
maçã.
— Como se sente?
— Bem.
— Eu espero um pouco mais de eloquência da sua parte. Foi muito
pesado? Foi muito tranquilo? Alguma coisa te deixou desconfortável?
Pensou em usar sua palavra de segurança alguma vez? Você está sentindo
alguma dor neste exato momento? — Tento orientar o discurso de forma a
que me responda o que preciso saber.
— Esse quarto é seu? — pergunta curiosa, esquadrinhando o lugar.
Apenas aceno em resposta. — Todo mundo que trabalha aqui tem direito a
um quarto? — Nego desta vez, começando a ficar irritado com o desvio de
assunto e ela percebe.
— Descansa, monstro, eu estou bem mesmo — responde fazendo
pouco caso das marcas inchadas na sua pele. — Claro que está doendo, mas
é uma dor gostosa, eu prometo — ela me garante e se ajoelha, engatinhando
até à beira da cama onde eu estou. — No que me diz respeito, Adônis, você
é o meu mais novo melhor amigo de infância — declara, enchendo a boca
com um sorriso escancarado que eu vi poucas vezes desde que a conheço.
— Seria profundamente perturbador se você fodesse assim seus
amigos na infância.
Ela revira os olhos e se joga de costas no colchão macio, abrindo os
braços e pernas, completamente nua, sem o mínimo pudor e me encara
ainda de braços cruzados, esperando um relatório.
— Eu adorei. Quando repetimos? — resume rindo e tenta fugir de
mim quando agarro seu calcanhar e a puxo até mim pela perna, virando-a
rápido e dando um tapa na sua bunda, um tapa leve, só para pontuar que
aquilo não é uma brincadeira.
Lambo a pele irritada pela sessão e decido que preciso arrumar outra
forma de conversarmos sobre as sessões. Uma em que ela não esteja
infectada pela vontade de dar aquela boceta gostosa para mim de novo e
ache tudo o máximo.
— Muito apressadinha a senhora. — Desisto de arrancar detalhes
dela por enquanto. — Eu preciso trabalhar, descanse que eu venho te buscar
para irmos para casa.
— A minha ou a sua?
— Você vai para a sua e eu vou para a minha, Sabrina — pontuo com
seriedade.
Ela sequer me responde, apenas dá de ombros e balança os dedos da
mão direita num adeus desleixado, abraçando o travesseiro, doida para
dormir.
— Oi, Oz! — Ouço a voz de Sabrina alegremente entrando na minha
casa sem bater, sem tocar a campainha, sem nem dar um comando de voz.
— Tudo bem? Como você está?
Oz? Que raio de intimidade é essa? Não saio do escritório e ela
continua sua conversa estranhamente normal com Ozzy.
— Trouxe uma piada nova para você.
— Por favor, me conte — Ozzy responde no tom de voz metálico e
modulado.
— Essa, de tão ruim, fica até boa. O que uma impressora falou para a
outra? Esse papel é seu ou é impressão minha?
Para minha eterna surpresa, Ozzy ri da piada.
“Aha, aha, aha”
Um riso completamente forçado e lento, mas ainda assim um riso.
— Pode rir mais um pouco, Oz, essa é legal.
“Quantos aha?”
— Experimenta 5.
“Aha, Aha, Aha, Aha, Aha”
— Não, 5 é demais. Acho que 4 é perfeito
“Aha, Aha, Aha, Aha”
— Perfeito, Oz. Arrasou.
— O que você responde quando te perguntam se você tem um animal
de estimação?
“Tenho um cachorrinho que chamei de bumerangue para garantir que
ele volte para casa.”
É a vez de Sabrina explodir em riso e eu sinto o cheiro do meu café
sendo feito, sem a minha autorização e sem que ninguém me oferecesse
nada, dentro da minha própria casa.
Me levanto e vou até à cozinha me sentindo usurpado na minha
própria invenção.
— Eu posso saber o que a senhorita está fazendo aqui? — pergunto a
Sabrina com as mãos nos quadris, enfezado.
— Vim te ver, namorado.
— Você jura? — comento debochado. — Porque parece que você
chegou tem quase uma hora e não deu um único passo na minha direção.
— Calma, seu ingrato, eu estava treinando a Oz.
— Desde quando você treina a Oz?
— Desde aquele dia em que você estava revendo as configurações
dela com a Lauren. Ela abriu uma janela de programação livre para mim, eu
posso interagir espontaneamente e ver no que dá.
— Pois pare de ensinar piadas horríveis para ela.
— Sim, Senhor.
“Aha, Aha, Aha, Aha”
Ozzy ri sem que ninguém se dirija a ela.
— Eu posso saber o que foi isso, Oz? Ozzy! — repito seu nome
inteiro, odiando como o apelido de Sabrina já grudou na minha cabeça.
“Eu achei que era uma piada.”
“Reconfigurando definição de piada.”
“Sim senhor não é piada.”
“Memorizado com sucesso.”
“Retirar Aha, Aha, Aha, Aha.”
“ Concluído.”
Me preparo para reclamar, mas noto em cima da mesa a caixa que
mandei entregar no escritório de Leona, endereçada a Sabrina, esta manhã.
— Você não abriu sua caixa.
— Fiquei com medo do que seria, você sabe que eu não trabalho
sozinha, não é?
— O que poderia ser?
— Vindo de você? Sério?
Balanço a cabeça sem acreditar na cara de pau desta mulher e volto
para o meu trabalho que foi rudemente interrompido.
Sabrina me dá 5 minutos e vem atrás de mim com a rosa vermelha na
mão.
— Para que é essa fita? — ela pergunta da porta do meu escritório,
balançando o longo pedaço de papel na frente do rosto.
— É para você escrever o que sentiu e o que achou de cada sessão,
todas as terças-feiras você vai receber uma dessas, quero que escreva e me
entregue a fita com o feedback.
— Mas eu já disse que está tudo bem, e eu adorei, ué.
— E eu já disse que isso é pouco. Apenas escreva o que passar pela
sua mente quando não estiver com fogo no rabo.
— Você está muito mal-humorado hoje. O que foi? Eu fiz alguma
coisa de errado? Além de desvirtuar a Oz, mandar tacar fogo em toda a
colheita de cereais que erradicaria a fome na África e chutar o seu cachorro
quando você estava distraído?
— Já que está aqui, com muito tempo livre, sente-se e escreva seu
feedback.
Ela abre e fecha a boca para reclamar.
— Calada, eu preciso de silêncio.
Ela se vira nos calcanhares e sai de cara amarrada, pisando fundo, do
escritório. Não a ouço conversar com Ozzy e acho que exagerei. Me senti
um pouco o Sebastian por um segundo.
Me concentro no trabalho até meus olhos começarem a arder, já perdi
a noção das horas quando me levanto com o estômago doendo e o trabalho
finalizado. Prometi a Sebastian que não faria mais nenhum trabalho assim,
mas não consigo me fingir de morto quando pessoas inocentes precisam de
ajuda e meu estômago está embrulhado com as atrocidades que acabei de
enviar no relatório de pesquisa.
O líder de uma organização de tráfico humano dando declarações aos
mercenários que trabalham para ele, ameaçando suas próprias famílias caso
a produção de espécie não aumentasse. Nojento. Completamente
desprezível. Respiro fundo e tento deixar aquele cenário dentro da tela do
meu computador e por 5 minutos inteiros tento pensar só em coisas boas.
Limpar a minha mente. Claro que Sabrina é a primeira a aparecer, fui
desnecessariamente rude com ela.
“Ozzy, liga para a minha cachorra”
Demora 3 segundos para começar a ouvir o meu toque no telefone de
Sabrina e me levanto, saindo do escritório e procurando por ela. Encontro-a
no meu sofá, vestida com meu moletom virado ao contrário e o capuz
servindo de balde de pipoca. Ela está de fones, claramente ignorando tudo
ao redor, incluindo a chamada que cai na caixa de mensagem.
Pulo em cima dela a derrubando no sofá e ela chega ficar branca com
o susto. Pego algumas pipocas com a boca de cima do seu rosto e penteio
algumas para fora do seu cabelo, agora todo sujo de açúcar enquanto ela
estapeia meus braços e me insulta de vários nomes pouco criativos.
— Sua dicção é impecável — elogio segurando seus braços em cima
da cabeça e beijando seu pescoço ainda mastigando pipoca. — Desculpa ter
te escorraçado mais cedo.
— Tudo bem, eu não fui.
A simplicidade com que me responde sem mágoa nem rancor é a
gota de água do meu controle para restrição de beijos. Seguro seu pescoço
com delicadeza e ela me olha com desconfiança.
— Estou vendo que não. — Suas mãos seguram meu punho, e eu
estalo um selinho rápido nos lábios, fugindo de perto dela e tapando seu
rosto surpreso com o capuz ainda com açúcar no fundo.
— Adônis, seu filho da puta!
— Presente — respondo abrindo a geladeira e usando a porta de
escudo para as almofadas que ela me atira do sofá.
— Você é um idiota. — Jogo um beijo na direção dela, pegando uma
vasilha de comida pronta e enfiando no microondas enquanto ela sacode os
cabelos irritada. — Babaca.
— Quer jantar?
— Não Adônis. Eu não quero jantar. São quase 10 da noite — me
responde chateada, e a intercepto quando tira o moletom e joga de qualquer
jeito, saindo da sala.
Seguro sua cintura e a puxo para mim, esperneando e a coloco de
volta deitada no sofá, montando em cima dela, segurando suas pernas com
as minhas, mas libertando suas mãos, que ela cruza sobre os seios com cara
de má.
— Você está chateada porque eu te tratei mal mais cedo, porque eu te
dei um susto ou, porque eu te dei um beijo e corri?
— Eu trabalho com a Leona, Adônis. Você acha que aturar um
rabugento de 174 anos por 2 minutos me afeta? Eu estou furiosa porque
você sujou a porra do meu cabelo inteiro! Eu lavei o meu cabelo ontem!
— E eu achando que era por causa do beijo — brinco.
— Quando você me der um beijo decente, a gente conversa. Até onde
eu sei, nunca fui beijada por você.
— Sua bunda, peito e coxas tem marcas que provam ocontrário. —
Puxo suas mãos para mim e as coloco no meu pescoço, deitando em cima
dela completamente.
— Desculpa. Mesmo. — Ela franze os lábios debochada. — Não
tenho por hábito tratar mal as mulheres da minha vida. — Forço a barra
para ver se ela ri, mas não funciona. — Se você quiser eu te dou um banho
— digo roçando os lábios no lóbulo da orelha dela, sentindo-a estremecer
por baixo de mim. — E seco seu cabelo.
— Está desculpado.
— Mais cedo você disse que tinha vindo me ver, mas a gente não
tinha combinado nada. Ficou com saudade?
— Eu vim te contar um problema que eu talvez tenha esquecido de
mencionar propositadamente quando a gente assinou o contrato de
iniciação.
— Sabrina… — repreendo-a, imaginando algo sério que ela possa ter
escondido.
— Eu não sei fazer boquete.
Esfrego meu rosto com as mãos respirando fundo para dissipar os
segundos nervosos que passei perdendo meu tempo, imaginando que talvez
ela tivesse transado com alguém sem se proteger depois da assinatura do
nosso contrato e da entrega de seus exames.
— Pois é, temos esse problema para resolver — ela comenta,
interpretando de forma errada minha reação.
Me dou uns segundos extras para admirar a sua expressão insegura,
claramente achando que temos uma grande questão nas mãos.
— Quem te disse que não sabe? Quando foi a última vez que tentou?
— Meu último quase namorado. Eu vomitei nele na faculdade, desde
então nenhum pau entrou na minha boca, mas eu imaginei que não vou
poder simplesmente virar para você que me chupa até do avesso e dizer que
não vai rolar.
— Em primeiro lugar: sim, você pode dizer que não a qualquer coisa
que te faça sentir desconfortável. Em segundo, você não trabalha com sexo,
logo não tem nenhuma obrigação de fazer um boquete profissional. E em
terceiro, se você quiser aprender, meu pau está totalmente disponível.
— Claro que quero aprender, não é como se eu pudesse pedir esse
tipo de coisa para qualquer pessoa e eu não sou egoísta ao ponto de querer
ficar só recebendo oral o tempo todo sem nunca oferecer nada em troca.
— Eu chuparia a tua boceta o resto da minha vida sem reclamar.
— Eu sei! E eu sinto isso em todas as vezes que você põe a boca em
mim. Eu quero poder sentir esse poder também. E não quero sentir
constrangimento se tiver que transar com um cara qualquer e ficar em
pânico pensando que posso vomitar nele a qualquer momento.
— Um cara qualquer é?
— Você entendeu.
— Entendi muito bem, sua safada, eu tô criando um pequeno
monstrinho tarado. Quer que eu te ensine a fazer o boquete perfeito para
sair chupando outros paus por aí? Muito bonito.
— Claro, porque eu vou sair daqui correndo e testar no primeiro
mendigo que aparecer. — Ela revira os olhos e sai do meu colo, se sentando
com as pernas cruzadas ao meu lado.
— Em que posição você estava quando vomitou seu ex babaca?
— Ajoelhada em cima da cama, ele estava deitado. — Ela fecha os
olhos com vergonha, provavelmente revivendo a cena.
— Você já forçou o vômito alguma vez?
— Já.
— E como você fez?
— Enfiei a escova de dente na garganta e vomitei.
— Você entende que seu problema pode não ser não saber fazer
boquete e sim não saber o limite do seu reflexo de engasgo e ter um
posicionamento péssimo?
— Sim, digníssimo representante do ministério do sexo oral. E como
eu controlo isso?
— Lubrificação, respiração, atenção e treino. Sua garganta não foi
feita pra trepar, ela foi feita para engolir coisas, ou expelir coisas. Quando
você coloca uma piroca dentro dela, o único trabalho desses músculos é
fazer você passar vergonha.
— Eu já tentei prender a respiração, não funcionou.
— Claro que não, seu cérebro deve ter assumido que você estava em
perigo de sufocar, o ideal é que você respire pelo nariz. — Seguro seu
maxilar e posiciono o seu pescoço ligeiramente para trás. — Você já viu
aqueles números de circo em que uns caras engolem espadas?
Ela olha para mim como se tivessem nascido dois brócolis nos meus
olhos.
— Sério?
— Presta atenção, se eles engolem espadas sem vomitar, você pode
engolir um pau sem problemas. E você nem mesmo precisa engolir, mas já
vamos testar essa parte. A melhor posição é essa daqui. Se a sua boca e a
garganta estiverem alinhadas, sem uma curvatura para o pau passar, fica
mais fácil. Claro que você não precisa estar que nem um manequim de loja,
mas quanto mais reto mais fácil vai ser controlar o reflexo de vômito.
— Posições que ninguém nunca na história do sexo oral usou,
portanto, esta me parecendo cada vez mais fácil.
Bato as mãos nas coxas e abro o botão da calça, trazendo meu pau
para fora e o massageio rápido, ficando duro em poucos segundos.
— Como é que é possível você ficar de pau duro em 3 segundos?
— Do mesmo jeito que é possível você estar toda melada mesmo que
a gente esteja conversando sobre a real possibilidade de você vomitar em
mim.
— Eu não estou nem um pouco excitada Adônis, sua autoestima
devia ser patenteada e vendida como antídoto nas farmácias.
Me ajoelho e colo a mão nas coxas dela, abrindo suas pernas, ela se
remexe tentando se desvencilhar de mim, mas sou mais rápido, enfiando a
mão na sua calcinha por dentro da calça de malha e esfregando meus dedos
na sua entrada ensopada.
Ela estapeia minha mão com força, mas o movimento funciona
contra ela, que dá uma gemidinha involuntária, me fazendo rir
instantaneamente.
— Você é tão safada quanto eu, aceite.
— Claro. Sabrina que deu para menos de 5 pessoas na vida inteira e
Adônis, putão treinado que transa diariamente há milênios, às vezes com
mais do que uma mulher, empatados no nível de sacanagem. Me parece um
placar coerente.
— Nós somos safados juntos. Você tá doida para engolir meu pau e
eu para enfiar ele na sua boca, não vamos fingir que não.
Ela sai do sofá e ajoelha na minha frente, eu me posiciono na beirada
do sofá, ainda masturbando meu pau, agora completamente duro na minha
mão.
— Sem dentes, linha reta, respira pelo nariz e reza — ela repete
minhas instruções com um adendo próprio.
— Tenho a certeza que Deus vai adorar saber que você está usando
um canal de oração para mamar um cara direito.
Ambos rimos e eu relaxo as mãos atrás das costas, tentando mantê-
las longe da cabeça dela para que Sabrina não se sinta pressionada.
Sabrina estica a língua para fora, lambendo toda a extensão da minha
ereção devagar, olhando nos meus olhos e me fazendo limpar a garganta
para me concentrar nas instruções e não na boca macia e hesitante me
explorando sem grande confiança.
Ela abocanha a cabeça do meu pau com ganância, agindo por
impulso como sempre e eu seguro seu cabelo, impedindo que exagere na
profundidade.
— Mantém só a cabeça na boca, use as mãos para a base, você não
precisa enfiar meu pau até ao talo para me fazer gozar na sua língua.
Ela suga minha glande para dizer que entendeu e minha concentração
começa a falhar um pouco. A boca preenchida de mim e os olhos decididos
a aprender a me dar prazer são mais afrodisíacos que uma garganta
profunda qualquer.
— Baba a minha rola, para diminuir o atrito.
— Eu odeio que cuspam em mim, não vou cuspir em você.
— Homens não precisam cuspir nas mulheres, vocês tem lubrificação
natural, a gente nem tanto, precisa ajudar com a saliva ou usar um
lubrificante.
Ela me ignora, e se concentra em tapar os dentes com os lábios para
abocanhar minha carne mais profundamente. A mão indo e voltando da
base até ao encontro com seus lábios, a saliva escorrendo da sua boca e os
sons deliciosos começando a se fazer ouvir.
Ela segura meu pau com firmeza, por conta própria, leva a língua até
minhas bolas e chupa. Com muito cuidado, lambe uma depois a outra,
sugando o meio entre elas e me arrancando um gemido profundo.
O som de prazer parece funcionar como incentivo, porque ela se
demora um pouco mais ali e eu começo a rebolar o quadril e a estocar
curtinho na sua mão, ela arranha a pele interna das minhas pernas, me
fazendo gemer quando se posiciona confortável, cravando os dedos nas
minhas coxas, me incentivando a foder a sua boca pequena e quente.
Seguro seu cabelo pela raiz sem forçar meu pau na sua boca, apenas
controlando a profundidade com que ela mesma o faz, guiando-a de volta
para cima quando acho que está exagerando, mas ela é ela e quer testar mais
profundidade.
— Me deixa tentar.
Permito que o faça e solto o cabelo dela, Sabrina volta para a ponta
do meu pau rodeando a língua ao redor da pele do meu prepúcio e sugando
o freio sensível da cabeça. Meus gemidos se intensificam e a ajudo com a
minha mão por cima da dela, deixando que chupe minha cabeça à vontade
enquanto demonstro a força com que gosto de ser segurado, masturbado.
— Se não quiser que eu goze na sua boca, pare, porque eu vou gozar.
Intensifico o movimento das nossas mãos, sentindo o prazer se
acumulando e atravessando cada vértebra da minha coluna até irradiar para
o pau, ela abre mais a boca e engole o mais profundo que consegue, se
engasgando apenas ligeiramente porque eu retiro logo que ouço, mas ela
não para e eu encontro um espaço contra a sua bochecha e rebolo devagar,
esfregando a cabeça do pau na pele quente e molhada.
O líquido pré ejaculatório se junta à saliva dela e escorre pela minha
ereção, os sons cada vez mais irresistíveis, estoco apenas mais 3 vezes
seguidas, sentindo o gozo subir e assisto Sabrina engolir tudo sem reclamar,
saboreando e marcando a minha pele, sentindo prazer com o meu prazer,
me olhando orgulhosa do seu momento.
— Eu acho que você me enganou para se aproveitar de mim —
comento, elogiando sua performance.
Ela me encara e abre um sorriso lindo que eu estou me viciando em
ver toda hora, os lábios brilhando de mim e inchados da fricção com a
minha pele.
— Eu acho que estou curada, mas só vou saber quando testar em
outros caras. Eu ainda quero treinar enfiar o pau na minha garganta e te
engolir completamente.
— Não hoje. Por hoje damos por encerrado nosso treinamento.
— Unhum — ela concorda, levando a mão para dentro da calça e se
tocando na minha frente, abrindo as pernas para se dar maior acesso, a mão
por baixo do tecido em movimentos circulares.
— Você precisa de ajuda? Porque eu estou bem disponível pela
próxima hora — recordo, olhando sarcasticamente para o relógio.
Seus murmúrios suaves se tornam gemidos e ela começa a rebolar
para si mesma, uma visão, apesar de completamente vestida, deliciosa.
— Eu estou bem. Posso fazer isso sozinha — responde sem me dar
abertura para lhe tocar.
Eu recuo no sofá e volto a me encostar no estofado, com o pau
voltando a ficar duro vendo-a se tocar daquele jeito gostoso e delicado.
Minha boca saliva com vontade de arrancar suas roupas e sentá-la na
minha cara para que rebole para mim, mas ela continua seu momento solo e
eu permito que o faça, acompanhando a ondulação do corpo e cada som
com atenção, até vê-la estremecer num orgasmo simpático.
Me aproximo, ajoelhando de frente quando ela retira a mão toda
melada de entre as pernas e seguro o seu pulso, querendo sentir seu gosto.
Quando levanto a sua mão para lamber seus dedos ela os abre, lambendo do
outro lado, fazendo sua língua se encontrar com a minha. Mordo a palma da
sua mão e beijo-a no canto da boca. Está ficando cada vez mais difícil não
beijá-la completamente.
— O banho ainda está de pé se quiser vir comigo.
— Você vive me perguntando se eu quero tomar banho, eu estou
fedendo por algum acaso?
— Está com um cheiro de cachorra no cio delicioso.
Acordo de manhã sem nenhum sinal de Sabrina por perto, mas na
cabeceira da minha cama tem a fita cuidadosamente posicionada e uma
pétala da rosa que enviei junto dela.
No papel tem escrito:
Sumário da primeira sessão de iniciação:
Venho por este meio, orgulhosamente declarar que no final da nossa
sessão o único pensamento que passava de mão em mão entre os
divertidamente que se debatiam dentro da minha cabeça era que eu queria
ter duas bocetas para continuar dando para você por mais tempo.
Beijo na bunda,
Bom dia.
— Oi Sabrina, tudo bem? — Lauren me cumprimenta quando saio do
elevador.
— Tudo, vai subir pro Adônis?
Ela levanta uma pasta e responde rindo.
— Só dois minutos, preciso deixar uns papéis pra ele assinar. Tem
dias que ele não põe os pés na empresa, mas está ficando difícil fazer o
meio de campo.
Empresa? Me pergunto confusa, mas não pergunto nada, apenas me
despeço.
— Bom, te vejo por aí então, vou chamar um uber.
— Se quiser esperar eu descer, te dou carona, é caminho para mim.
— Ah, obrigada. Aceito sim. Te espero aqui enquanto faço uma
ligação.
Na pasta, agora apertada no braço direito da loira, leio AlfaTech e a
curiosidade apenas espera que ela entre no elevador para me tomar por
inteiro.
Abro a aba do navegador de pesquisa e digito o nome da empresa, a
primeira linha já é o que procuro, mas aperto a aba de imagens para ter uma
panorama geral, antes de entrar no site oficial.
Passo os olhos por diversas publicações em jornais e revistas de
tecnologia, prêmios, workshops, cursos de iniciação à programação
gratuitos com validação universitária, um site com uma experiência visual
sensacional. As páginas não rolam, ela se fundem umas nas outras, como se
caíssem para dentro do nada, tudo é mais rápido e imersivo, a forma como
as palavras do texto são dispostas para leitura me permitem ler sem desviar
o olhar ao longo da linha e o pouco que vi já me deixa completamente
chocada por nunca ter ouvido falar disso.
Noah com certeza já ouviu falar, um dos prêmios que eles ganharam
é tipo os óscares da tecnologia para o meu irmão. Ele acompanha a
pontuação sendo dada ao vivo, já fui obrigada a assistir as lives com ele
uma vez ou outra.
Meu coração quase dá um pulo quando no final das páginas do curso
de iniciação, promovendo o estudo da programação aparece um vídeo com
Adônis convidando pessoalmente os jovens a conhecerem a Alfatech no dia
aberto que ocorrerá em algumas semanas e se repete uma vez a cada
estação.
Num primeiro momento, penso que obviamente ele trabalha para a
empresa como garoto propaganda, mas o quadro das premiações tem uma
biografia sua, e a cada linha que eu leio meu queixo cai mais um pouco, até
que Lauren, já na minha frente, balança a mão na linha do meu rosto,
tentando chamar minha atenção completamente drenada pelas informações
que estou lendo.
— O Adônis é o dono da Alfatech — murmuro mais para mim do
que para ela. Lauren apenas confirma que sim com a cabeça, não
entendendo onde eu quero chegar.
— Ele é milionário — continuo, me sentindo envergonhada por
como isso pode soar.
Mais uma vez confirma sem entender ou dar muita importância.
— Por que raios ele se prostitui? — disparo, agora o mais baixo que
meu tom de voz é capaz de produzir, só para ela. Sei que frequenta o Nox,
ela mesma me contou, então não poderia ser segredo.
Lauren ri e dá um tapa no meu ombro me obrigando a caminhar.
Vamos em direção ao carro dela, muito mal estacionado, já com o porteiro
do lado pronto para lhe dar uma bronca. Aparentemente ela sempre faz isso.
Lauren só pede desculpa e o homem se derrete, aceitando muito
rapidamente a garantia de que ela não fará mais isso.
— Entre. — Ela me indica a porta, já sentando ao volante. — Você
não sabia que o Adônis era um geniozinho prodígio?
Minha cabeça parece cheia de um ar muito pesado, as memórias das
coisas que ele obviamente já tinha me falado várias vezes e eu optei por
ignorar, achando que eram só besteiras, disputando espaço em meu crânio,
centímetro a centímetro, como meus nervos e neurônios.
— Sim, ele já tinha dito que fazia programas. Mas ele me disse isso
pela primeira vez no Nox, então eu assumi que eram programas sexuais e
não programas mesmo.
Ela espreme os lábios um no outro travando a vontade de rir da
minha cara, mas se recompõe rapidamente.
— A Ozzy não foi uma dica?
— Seria, mas eu achava que quem cuidava da Oz era você, das vezes
que eu vi vocês trabalhando nela era você trabalhando, Adônis estava só te
azucrinando. Caramba, eu não achei que ele tivesse desenvolvido o sistema.
E isso faz de mim no mínimo muito burra, por qual outra razão ela estaria
instalada na casa dele?
— Naquele dia eu só estava revisando o que ele fez para produzir o
arquivo do algoritmo. Ele cria as coisas, mas odeia a burocracia, então
quando está pronto ou precisa de ajuda em alguma coisa, eu venho. O
Adônis detesta trabalhar com muitas pessoas ao mesmo tempo, eu
sinceramente acho que a única razão pela qual eu consigo trabalhar com ele
é porque partilhamos uma vida e somos amigos desde então, ou seria
impossível. O trabalho dele na Alfatech é diferente do que ele faz no Nox,
embora seja fundador das duas, e Sebastian seja o cérebro organizador por
detrás, a verdade é que o Nox quase anda sozinho. A Alfatech não precisa
de atenção e vivemos sendo processados por conta de patentes, é um
inferno. E também tem… — Ela hesita em continuar. — Uns trabalhos de
analista que ele faz de vez em quando, que acabam com nosso cronograma
porque nunca tem hora pra acabar e normalmente quando terminam, ele fica
doente. Me admira que até hoje a úlcera não tenha explodido.
— Ele tem uma úlcera?
— Sim. De tanto passar nervoso.
— Você parece estar falando de uma pessoa completamente diferente
pra mim. Eu nunca o vi nervoso. Quer dizer, ontem ele estava rabugento e
chateado, foi a primeira vez que o vi não sendo divertido e bobo, mas nada
de outro mundo.
— Ele pode ficar pior, tente não ficar magoada quando acontecer, ele
realmente tem que lidar com muita coisa pesada na maioria dos dias. Essa
pose de tudo está bem em todos os momentos, às vezes é apenas ele
tentando convencer a si mesmo. Adônis tem mais responsabilidade nas
costas do que a maioria das pessoas que eu conheço juntas. E o fato de ele
fazer parecer fácil só prova que ele faz muito bem tudo a que se propõe.
— Eu acho que ele tem razão. Ele me disse que eu era preconceituosa
uma vez e só agora vejo que estava certo. Eu simplesmente decidi que
alguém que trabalha com sexo não podia ser muito mais que um prostituto
ou um stripper.
— Não diga isso na frente da Bia ou ela enche sua cara de porrada.
Adônis nem se apresenta no clube tantas vezes, só quando o Sebastian pede
ou quando o Markoz precisa de ajuda com as iniciadas. Normalmente ele
não se envolve tanto, pelo menos não além de fazer a manutenção de toda a
infraestrutura e criar tudo que se passa nos painéis infinitos. Cada uma
daquelas paredes é programada isoladamente e é tudo feito por ele,
manualmente, não é um trabalho da Alfatech, o Nox é o projeto pessoal do
Adônis, quase tanto quanto a Ozzy está se tornando. Vai ser difícil lembrá-
lo de que ela é uma encomenda no final.
— Bia me bater? Ela é gentil demais pra me agredir.
— Experimente falar mal da profissão dela e você vai vê-la dar uma
de Wolverine para cima de você em segundos.
— Eu contratei um CEO como meu garoto de programa particular.
Não acredito que a vida possa ficar mais estapafúrdia do que isso.
— Aproveita a ideia e escreve um livro. Mas assim, Adônis não é
nem nunca foi um garoto de programa.
— Meu contrato diz o contrário.
— Tem certeza?
Penso nas cláusulas e rapidamente lembro que, na verdade, não tem
absolutamente nada sobre pagamento ou serviços, acho que assumi que isso
seria por conta da Leona, mas agora fico apenas confusa. Indo e voltando
para nossas conversas e para todas as obviedades que abonam em favor do
Adônis. Ele me disse a verdade de todas as vezes que eu perguntei. Ele só
não insistiu quando percebeu que eu não acreditei.
Me disse que trabalhava com programas. Me disse que era dono do
Nox. E nem precisaria ter dito, se eu tivesse dois dedos de atenção teria
calculado que o quarto para onde ele me levou não podia ser um lugar para
funcionários, mas eu estava tão atordoada que sequer cogitei isso. Eu
sempre o vejo trabalhando no computador e eu não me lembro da última
vez que o vi fazer um show ou atender uma cliente.
Na primeira noite de iniciação quando ele disse que precisava
trabalhar eu assumi que desceria para uma apresentação. Depois, fiquei me
remoendo na cama, pensando se seria normal para ele sair da minha cama e
ir transar com outra, mas me recusei a sofrer por isso, nós temos um
contrato e por mais que ele brinque o tempo todo sobre isso e que tenhamos
desenvolvido uma intimidade absurda, ele não é meu namorado, no máximo
está se tornando um ótimo amigo.
O que faz de mim a amiga relapsa e nada dedicada. Preciso mudar
isso. Se há uma coisa que eu tenho certeza, é que pretendo mantê-lo na
minha vida quando o contrato acabar.
— Não. Na verdade, não tenho — respondo vários minutos depois,
quando ela estaciona mais uma vez, mal e porcamente, com carros
buzinando atrás de nós e eu me apresso a sair logo para que possa seguir.
— Vamos sair! — ela grita pelo vidro aberto. — Eu, você e as
minhas meninas. Você precisa ver gente. Na quinta às 8h, eu te mando o
endereço.
— Obrigada, eu acho — respondo de volta, querendo que saia logo
para que os motoristas parem de reclamar, mas ela não se intimida com as
buzinas e xingamentos.
— Prometo que não mordemos, quer dizer, talvez a Anya morda, mas
não se preocupe, não vai ficar marca.
— Adônis não vai fazer caso de eu sair com você?
— Adônis trabalha com duas ex-mulheres, você acha que ele se
importa com o politicamente correto?
— Duas? A Bia… — começo, procurando na minha mente.
Ela aponta para si mesma, como se fosse óbvio, rindo quando não
consigo disfarçar minha cara assombrada.
— Não se preocupe, nós somos amigos, sem benefícios. Garanto. Te
vejo na quinta — combina me deixando na calçada, olhando para a sombra
no lugar do seu carro.
Lauren e Bia. Quantas vezes o Adônis se casou, meu Deus? Ele é tão
novo e nada dado a compromissos. Eu acho.
Eu definitivamente não conheço nada daquele cara e preciso mudar
isso.
Fecho a porta atrás de mim e Leona me indica que espere um minuto
enquanto fala ao telefone. Quem quer que seja do outro lado está tendo um
dia muito pior do que o meu, porque ela está acabando com a vida do ser.
Espero com paciência até que desligue.
— O que precisa?
— Você paga o Adônis para ser meu facilitador? — pergunto sem
rodeios nem sutilezas.
— Claro que não — responde prontamente, arqueando a sobrancelha.
— Como não?
— Por que pagaria?
Me levanto, incapaz de lidar com o frenesi que começa a circular na
minha corrente sanguínea, gesticulando enquanto falo.
— Eu te pedi para financiar um prostituto para que eu pudesse passar
pela iniciação no Nox, você aceitou, fazia parte do orçamento de pesquisa
para a nova linha editorial, Leona!
— E só agora você percebeu que Adônis não é um prostituto? É
sério?
Apoio meu rosto nas mãos, cansada.
— Sim, só agora.
— Bom, ele não é. — Lhe dirijo um olhar fulminante. — É em todas
as células do seu ser, com certeza, mas não por profissão.
— Por que não me disse?
— Achei que vocês se entenderiam sem receber um roteiro da minha
parte, e achei engraçado que pensasse que estava pagando, não imaginei
que ele iria manter essa mentira.
— Ele não manteve, eu mantive.
— Bom, posto isso, o que precisa de mim? — resume, me
dispensando, como se a situação fosse irrelevante.
— Eu só precisava saber isso. Estou descobrindo muitas coisas hoje,
descobrindo várias coisas que eu já devia saber.
— Bom. Ainda bem que você não escreve como vive, seus textos
estão ótimos, enviei um feedback para o seu irmão ontem de madrugada.
Gostei das sugestões dele. Podemos seguir com aquela linha. Tudo certo
com a campanha?
Não consigo simplesmente seguir sua deixa e mudar de assunto.
— Nós ao menos pagamos a mensalidade de sócias do clube?
— Eu nem sabia que era sócia até você me mostrar o cartão. Isso foi
um truque do Adônis para me atrair ao Nox. Nós ficamos muitos anos sem
nos ver e ele tinha acabado de saber que eu estava em Londres, tentou a
sorte me mandando um cartão.
— E quando eu cheguei lá me fazendo passar por você, ele resolveu
brincar comigo.
— Esse é o Adônis. Mas não foi só ele que errou nesse caso.
— E, por que ele não me dispensou assim que teve oportunidade?
— Eu realmente espero que não seja uma novidade o que eu vou te
dizer agora — ela acrescenta entediada, apoiando as mãos na mesa. — Ele
gostou de você, Sabrina. Adônis não é o tipo de pessoa que espera para
sentir as coisas, ele sente livremente, ele se apaixona, ama e odeia em igual
medida, ele se entrega para tudo, para todos e para o mundo. Não se deixe
enganar, ele se apaixona por uma mulher a cada 5 minutos, mas
aparentemente, ele está doido por você, então apenas aproveite, ele é um
parceiro sensacional, seja pelo tempo que for.
Ela abre o computador sem me dar a chance de responder ou
continuar o assunto. Seus dedos voam no teclado e sei que já entrou no
modo robotizado, então nem tento. Queria poder tirar todas as informações
da minha cabeça e organizar no papel para poder lidar com elas uma de
cada vez, porque eu simplesmente não estou sabendo lidar com isso. Mas o
que eu escreveria? Uma lista de todas as vezes em que fui imbecil? Não sei
se o tempo de esperança média de vida que me resta seria o suficiente para
terminar essa.
Aperto as têmporas, me sentindo esquisita.
— Talvez eu precise tirar o resto do dia de folga, se estiver tudo bem
para você.
— Você sabe que você faz seu horário, Sabrina. Desde que o trabalho
esteja pronto a tempo e horas, não me importa quanto tempo ou de onde
você executa suas tarefas.
Aceno confirmando e de repente me bate uma saudade imensa dos
meus irmãos. Meu coração fica pequeno no peito lembrando do meu pai ao
telefone:
“Não se apaixone por um estrangeiro qualquer, ele vai querer roubar
minha menina para sempre e você sabe que eu não suporto frio, algum dia
você vai precisar voltar para casa ou eu vou aí te buscar à força!”
E se for tarde demais?
— Gael! — grito abrindo a porta do apartamento. — Você veio —
agradeço num gritinho histérico pulando no seu colo, já me sentindo melhor
com a sua presença, o abraçando forte com braços e pernas.
Ele me abraça de volta, esmagando meus ossos, mas reclama:
— E eu tive opção, Sabrina? Você fez uma chamada de vídeo em
grupo no meio da noite — me acusa exasperado. — Isso foi golpe baixo. O
Heitor esteve à beira de um infarto.
— “Isso claramente foi um pedido de ajuda, ela pode estar passando
por algum problema e não quer contar para não nos preocupar. Vá até ela ou
eu irei e vai ser pior porque se eu atravessar o oceano eu vou visitar você
também.” — Ele imita a voz de Heitor.
— Eu tenho trabalho para fazer!
Ele entra no apartamento e me joga no sofá, bagunçando meu cabelo
e fingindo me sufocar com uma almofada.
— E, porque veio então? — reclamo, rindo.
— Porque tenho medo de mentir pro doente do nosso irmão, e ele ter
um localizador escondido em algum lugar e saber que eu nunca pisei no
mesmo metro quadrado que você.
— Você podia ter dito a ele que estava trabalhando, Gael.
— Claro que podia, e ao invés de pegar um voo rápido e voltar no
mesmo dia, eu teria a visita do nosso digníssimo irmão durante uma semana
inteira andando atrás de mim no set e ameaçando meus patrões com todas
as regras de segurança que estão sendo quebradas nos estúdios de gravação,
de novo.
— Você já vai embora hoje? — Me desanimo ao perceber. Me
desvencilhando dele e sentando direito no sofá.
— Sim. — Ele penteia o cabelo com os dedos se encostando também
ao meu lado. — Vim só bater ponto, mas se estiver realmente precisando de
mim, você pode vir comigo, eu comprei um bilhete pra você também, para
o caso de realmente estar acontecendo alguma coisa. Está?
— Eu não estou precisando de você, mas estou feliz que veio. E eu
vou te visitar sim, assim que tiver férias.
— Você pode me visitar antes disso, eu vou passar os próximos dois
meses na Irlanda, é um voo mais rápido que a viagem de metrô do
aeroporto até esse muquifo que você chama de casa. Por que ainda não se
mudou?
— Não é fácil achar uma casa legal e pagável em Londres, Gael.
— Tenho certeza de que o Heitor já mapeou pelo menos umas 30
opções de residência diferentes para você, ele deve estar apenas esperando
você pedir ajuda.
— Será?
— Você duvida?
— Não. Vou pedir hoje mesmo — garanto animada. Realmente era
algo típico de Heitor.
— Aproveita e fala que você estava triste porque está menstruada e
ficou meio boiola ontem.
— Quê? Eu não vou falar nada disso.
Ele se levanta e começa a abrir as portas dos armários na cozinha,
uma a uma, não que haja muitas.
— Você não prefere que eu conte que você está de bode desse jeito
porque descobriu que seu gigolô não é gigolô, né?
Atiro uma almofada com força na sua cara, ele se desvia tarde demais
para um dublê.
— Você é um idiota.
— Um idiota com fome, não tem comida nessa casa não? Quando foi
a última vez que você arrumou esse cativeiro, Sabrina? Meu pai ficaria em
choque se entrasse aqui. Parece uma casa abandonada — reclama passando
o dedo pela prateleira lotada de pó.
Nem me defendo porque sei que ele tem razão.
— A que horas você vai embora?
— Já tá querendo me ver pelas costas, sua ingrata? Nem um café me
serviu!
— Claro que não, eu tenho um encontro.
— Com o gigolô?
— Para de chamar ele disso. — Me doo por Adônis. — Com umas
amigas, noite de meninas.
— E desde quando você tem amigas?
Finjo uma dor no coração e ele ri, despreocupado.
— Desde hoje. — Deixo de fora o fato de que uma delas é ex-mulher
do Adônis.
— To dentro. Meu voo é às 22h30, eu janto com vocês e vou direto
de lá pro aeroporto. Agora vamos ligar pra nossa digníssima família antes
que alguém cometa uma loucura e se enfie num avião pra nos ver.
— Eu não ia reclamar.
— Vá de retro satanás. — Se benze sério.
— Você deve estar aprontando todas pra estar com tanto medo assim
do Heitor.
— Pois é — confirma sem um pingo de remorso.

A música animada do bar vibra na minha pele e meu sorriso não cabe
no rosto. Adorei as amigas de Lauren e elas me fizeram sentir em casa. Eu
realmente estava precisando sair e ver gente, conversar com outras
mulheres, falar besteira, comer besteira. Meu Deus! Meu estômago ainda
está duro de tanta coisa que a gente comeu naquele restaurante.
A comida era servida em esteiras, me senti o próprio pacman
pegando cada um dos pratinhos minúsculos que passavam, misturando um
monte de coisa na mesa. Camarões, lagostins, saladas, bolinhos de arroz,
legumes empanados e muitos molhos para acompanhar cada um dos
sabores. Eu amei.
Anya segura minhas mãos na euforia de quem já bebeu um
pouquinho demais e faz de mim uma boneca de trapo, tentando guiar uma
dança lenta que ela mesma inventou e não tem nada a ver com a música. No
início da tarde, ela chegou toda séria e composta, falando com floreios e
sendo bem incisiva em tudo que dizia, ainda que não fosse antipática,
parecia alguém direta e reta, que não abria espaço para brincadeiras.
Três goles de saquê depois ela já estava me tratando como se eu fosse
uma amiga de longa data, marcando até outros encontros. Lauren a lembrou
de que ela trabalhava demais e não poderia ir a metade das coisas que
estava listando.
Emily me fez uma lista e ganhou meu coração para todo sempre.
Assim que percebeu que eu explorei muito pouco a cidade, ela desenhou
alguns círculos por áreas e foi traçando os lugares mais próximos de mim
onde o fluxo de turistas é menor para que eu finalmente comece a explorar.
Ela até mesmo me convidou para a peça de teatro da escola em que
trabalha, disse ser algo apenas para os pais das crianças, mas que
poderíamos bater perna depois e ela me mostraria suas livrarias preferidas.
Alisson conversou mais com Gael do que comigo. Ela estava
ativamente dando em cima do meu irmão e há meia hora, desapareceram
em algum lugar. O que me lembra que ele não tem muito mais tempo até o
seu voo. Talvez eu devesse ir procurá-lo.
Anya faz sinal em direção ao bar, avisando seu próximo destino e
Lauren decide que precisa de ar. Ela vai até a mesa que estávamos
ocupando e senta-se no banco estofado do canto, logo depois, começa a
abanar a pele corada de tanto pular, com o cardápio.
Estou prestes a me juntar a ela quando vejo um cara se aproximar e
paro de andar na sua direção para não interromper sua paquera.
— Você não tem um pingo de vergonha na cara? — Ouço o homem
com cara de poucos amigos segurando o braço de Lauren, levantando-a da
mesa à força. — Isso é um clube de vadias daquele desgraçado? — As
narinas dilatadas, os olhos cerrados e o maxilar tenso do homem alto e rude
são o suficiente para me fazer andar rápido em direção à mesa também.
Lauren abre e fecha a boca como se tivesse esquecido as palavras,
envergonhada.
— Solta ela, agora! — exijo tocando as costas do cara mal encarado.
— Não se mete, garota. Isso aqui é entre a minha mulher e eu!
— Ex-mulher! — Lauren grita, finalmente se recuperando do choque
inicial e reagindo. Ela se debate e consegue sair do agarre forte daquele
idiota.
Me posiciono ao seu lado, rapidamente mapeando a garrafa de
champanhe vazia a meio metro, o garfo perto da borda, os pratinhos de bolo
e definitivamente a minha taça vazia. Os bancos são presos ao chão, então
não podem ser considerados armas.
O pequeno alvoroço chama atenção das pessoas ao redor, mas o
homem não se intimida.
— Não satisfeita em me colocar um par de chifres com aquele
arrombado, você ainda tem a audácia de ficar se pavoneando por aí com
uma romaria de putas? — Ele a agarra de novo e sacode, como se tivesse
tentando expulsar algum gênio ruim de dentro dela.
Alcanço o garfo que está mais perto e me aproximo tocando seu
braço para que a largue. Ele me olha de cima a baixo e tenho a impressão,
agora olhando de frente, que já nos cruzamos em algum lugar.
— Essa aí não é a nova putinha dele? Vocês agora andam em
bandos? — Ele me empurra e eu caio sentada no banco atrás de mim.
Várias pessoas olhando, ninguém sabendo bem o que fazer, a maioria
tentando ignorar para seguir a sua noite em paz.
— Owen, para com isso — Lauren o adverte, confusa com a
situação. — Você está assustando a Sabrina.
— Sabrina. Você é a número o quê? Ele marca vocês que nem
cachorro, cada uma com uma coleira ou se dá ao menos ao trabalho de
decorar todos os nomes? — O seu olhar de nojo é claro, mas existe algo a
mais ali, ele olha para mim com pena e comete o erro de me tocar
novamente, agarrando minha blusa para me puxar para mais perto, como se
para me ver melhor. Apenas ouço seu grito quando afundo a porra do garfo
na mão grande e forte, rodando o ferro, provocando mais dor.
— Eu não sei com quem você acha que está falando, mas não volte a
colocar suas patas imundas nem em mim nem na Lauren — ameaço séria.
O tom de voz gélido que raramente uso. Meu pai dizia que nesses breves
momentos de raiva eu encarnava a minha mãe.
— Eu vou pegar você, sua put…
O ex de Lauren nem tem tempo de terminar a frase, porque Gael,
Alisson e Anya se encontraram voltando do bar com mais bebidas e se
aproximaram rápido por entre as pessoas ao ver o que estava acontecendo.
Eu sequer vi o soco que Gael deu nele, mas escutei o osso da sua cara
estalando e vi o sangue escorrer do seu nariz. Gael nunca foi de brigar,
mesmo em casa ele não era muito dado à violência, simplesmente tinha
preguiça. Mas quando se dava ao trabalho, sempre fazia questão de fazer
valer a bronca que levaria quando papai descobrisse.
— Você está querendo morrer, infeliz? — Meu irmão segura o tal
Owen pelo colarinho, levantando sua cara ensanguentada do chão e
suportando o peso dele nos punhos. O homem parece perder a força, mas
tenta dar uma cabeçada em Gael que se desvia fácil demais e o agarra,
cruelmente, com ainda mais força e torce o seu braço como se fosse um
pedaço de roupa. Owen se ajoelha e Gael explode outro soco forte em sua
cara. O babaca desmaia.
Lauren começa a choramingar e Anya pega um copo de água para
ela. Alisson e Emily se aproximam trazendo junto os seguranças do bar.
— Acabou o show, vamos dispersar. Circulando, por favor — eles
indicam aos que se aproximaram apenas para ver. Ainda estou meio
trêmula, mas me aproximo de Gael e sua mão já está inchando.
— Droga, Gael, você se machucou.
— Por favor, Sabrina! — Escolhe essas palavras para dizer que a
mão é a menor das preocupações. — Que caralho foi isso? Quem é esse
maluco?
Os seguranças recolhem Owen do chão e o arrastam para longe de
nós como se arrastar um homem sem sentidos fosse algo corriqueiro para
eles.
— Eu não sei. Lauren? — Me viro para ela, que está bebendo uma
taça de champanhe em apenas 3 goles para se acalmar.
— Meu ex-marido. Me desculpem, ele não tem o hábito de ser
violento, não sei o que deu nele. Ele sempre é desagradável, mas… — Ela
pausa, claramente revivendo aqueles últimos momentos. — Ele nunca
tentou me machucar antes. — Suas mãos tremem na taça vazia que ainda
segura entre os dedos.
— Vamos processá-lo e arrancar até as calças desse maldito, Lauren
— Anya garante, assumindo o que eu acredito ser sua pose de advogada.
— Me desculpe Sabrina, eu nem sei o que dizer, ele não costuma ser
assim, ele estava muito bêbado, não sei o que aconteceu, talvez eu devesse
falar com ele — diz já se levantando, atordoada, tentando beber mais um
gole da taça seca.
— Você não tem que se desculpar pelos maus atos de ninguém,
Lauren. Fica calma.
— Eu te trago para conhecer minhas amigas, se desestressar e você
acaba no meio de uma briga com meu ex-marido que resolveu enlouquecer
justo hoje. — Ela tapa o rosto com as mãos.
Gael me puxa para o lado e cochicha.
— Eu preciso ir embora, mas não quero te deixar aqui. Se acontecer
alguma coisa com você…
— Calma, Gael, sem pânico, não aconteceu nada. O cara estava
bêbado arrumando confusão. Bêbados serão bêbados.
— Ele me pareceu bem agressivo. Preferia te deixar em casa.
— Tudo bem. Eu vou pra casa, mas por favor, não conte nada disso
aos outros ou eles vão ficar preocupados.
— Caralho, Sabrina, até eu estou preocupado!
— Vamos, vou te deixar em casa. — Ele se vira para elas, falando
diretamente para Lauren. — Precisa que te acompanhe até sua casa? Você
mora sozinha? Tem alguém pra te receber?
— Casa? Ninguém aqui vai para casa! — Alisson o interrompe. —
Aquele babaca não vai estragar a nossa noite, nós ainda nem conseguirmos
reunir todas as cavaleiras do rodízio, Bianca vem aí e nós não vamos
embora antes dela chegar para a festa. Owen não vai estragar isso, e Sabrina
fica com a gente. — Decide sem dar espaço para que mais ninguém opine.
— Desculpa, Alisson, mas eu acho melhor não — Gael negocia por
mim, me envergonhando.
— A gente pode continuar lá em casa? — sugiro, querendo agradar a
todos sem causar mais atritos.
— Eu vou buscar mais bebida para levar — Alisson avisa já se
virando.
— Eu saí para dançar a noite toda e vou acabar numa festa do pijama.
É isso mesmo, gente? — Anya reclama, sem grande emoção e Emily dá um
tapa no seu ombro.
— Ai, me larga. — reclama e espana a mão da professora como se
fosse um inseto zunindo. — Vou ajudar a Alisson. Se vamos acabar a noite
em casa, vamos terminar lambendo o chão.
Gael olha para mim claramente desconfortável, mas não interfere.
Desde que eu esteja em casa, sã e salva no seu turno, ele não se importa.

O editor da vida apaga as últimas três horas da minha existência do


meu cérebro e acho que cochilei. Sinto as pernas dormentes e a cabeça
pesada quando me levanto do chão onde eu estava derrubada de maneira tão
pouco graciosa quanto qualquer uma das mulheres ao meu redor. Os
copinhos de shots enfileirados como soldados em sentido pelo chão contam
uma história e eu claramente sou o final dela.
Olho para Emily, sentada no meu sofá, tentando acertar o cogumelo
de cartas que fizemos para jogar e falhando miseravelmente. Pisco, me
sentindo um pouco em câmera lenta e decidindo que é um ótimo momento
para beber um copo de coca cola e outro de água, receita dos gêmeos para
não ficar de ressaca.
Alisson está abraçada a uma garrafa de gin e há um pacote de
bolachas recheadas aberto em suas coxas, ouço vagamente quando ela
ameaça Anya, dizendo que a última garrafa é só dela e não vai dividir com
ninguém. Lauren tem o rosto apoiado na cadeira, como se tivesse encostado
por um instante que se fez longo demais e adormecido.
Essa foi a amizade relâmpago mais rápida que já fiz na minha vida.
Não consigo não sorrir, mesmo sem saber se é porque estou satisfeita ou
bêbada.
Dou de ombros e decido que posso analisar essa questão mais tarde.
Abro a geladeira fazendo bem mais força do que julgava necessário e
cambaleio para trás com a violência da abertura segundos antes de ouvir a
campainha tocar. Talvez seja algum vizinho reclamando do barulho. Será
que fizemos muito barulho? Respiro fundo e preparo a minha melhor cara
de garotinha inocente, pronta para dizer que estava dormindo e não sei do
que se tratam as reclamações, sejam elas quais forem.
Abro a porta e encontro Adônis me encarando do outro lado com
desconfiança. Eu não acho que ele alguma vez tenha estado na minha casa,
não é? Droga.
— Oi — digo não querendo forçar a língua na boca e parecer mais
bêbada do que já estou.
Ele me olha com ar divertido, espia por trás de mim e descobre as
meninas espalhadas. Sua cabeça balança, negando algo misterioso que ele
não faz questão de dizer em voz alta.
Adônis dá um passo em frente, segura meu rosto entre as mãos,
analisa meus olhos de perto e depois penteia meus cabelos para trás.
— Eu posso saber o que essas harpias do mal estão fazendo com
você? Isso é um sequestro relâmpago? Estão te mantendo em cativeiro?
Devo alertar a polícia?
— Como? Vocês se conhecem? — pergunto confusa, olhando por
cima do ombro para as meninas atrás de mim, ainda segurando a porta
aberta, sem convidar Adônis para entrar.
Atrás dele surge Bia, que revira os olhos assim que dá uma olhada
para o cenário dentro da minha casa.
— Eu não acredito que vocês me fizeram sair cedo do trabalho pra
ser a motorista do rolê.
Anya levanta a garrafa simulando um brinde para o que quer que
esteja sendo dito e Lauren se aproxima com cara de culpada.
— O que você está fazendo aqui, Bia? — pergunto, saindo da frente
dos dois para que entrem. Meu apartamento, que já era minúsculo, fica
parecendo um cubículo subitamente.
— Talvez eu tenha falhado em explicar que a minha amiga Bianca,
que chegaria mais tarde, é a Bia e vocês já se conheciam.
Meu raciocínio lento não computa exatamente o que está
acontecendo e encaro Adônis em busca de esclarecimentos.
— Todas essas ratazanas te sequestraram porque são umas
fofoqueiras ansiosas e não podiam esperar para te conhecer.
— Por quê? — Olho em volta, lembrando que todas frequentam o
Nox. — Você está iniciando elas também? — pergunto alarmada, engolindo
em seco.
— Não — ele garante olhando para Lauren, como se fosse a vez dela
de responder às minhas perguntas.
— Nós fomos casados — Lauren me lembra e ela também deve estar
confusa, porque já tinha me falado isso.
— Eu sei, você e Bia, mas e as outras? — Alisson, Anya e Emily
agora parecem recuperar subitamente da bebedeira se interessando mais
pela conversa que se desenrola. — Estão sendo iniciadas por você? —
repito a questão, já querendo arrumar confusão. Por alguma razão, eu
achava que meu relacionamento de iniciada era exclusivo até que o contrato
acabasse.
— Nós fomos casados — Adônis repete a fala de Lauren, agora um
pouco mais sério e olhando para trás de mim.
— Com qual delas? — Anya e Alisson se empertigam antes de ele
responder e Emily dá um passo atrás, envergonhada.
— Todas.
Eu não sei como na minha mente entorpecida, essa informação é
infinitamente menos preocupante do que a possibilidade delas também
serem iniciadas de Adônis. O fato é que procuro dentro de mim algo para
dizer, mas não encontro nenhum argumento desgostoso, talvez amanhã eu
consiga pensar em algo.
— Isso é engraçado — respondo simplesmente, me virando para as
meninas, Bia já recolhendo as coisas das outras espalhadas pela casa.
— Eu deveria foder com elas também? — Meu pensamento sai alto
sem que eu tenha dado permissão à minha boca para abrir. Tapo meus lábios
com força, tarde demais.
— Deus não permita, não. Absolutamente não — Adônis responde
apressado, me segurando pela cintura. — Embora eu saiba que Anya
adoraria você — ele se permite acrescentar e Anya retorce os lábios virando
o rosto de lado, como se pensando se ele tem razão ou não. Ela levanta os
ombros por fim, agarrando seus sapatos pelas tiras.
Eu inspiro todo o ar que cabe em meus pulmões para deixar claro
como a luz do dia:
— Nada contra vocês, garotas, mas eu realmente estou precisando de
amigas de verdade, até agora, Adônis é meu único amigo na cidade. —
Sinto-o se retesar contra minha pele, me apertando mais quando digo essa
palavra. — A minha patroa também, mas ela não conta, porque ela paga
meu salário.
Lauren alinha a própria roupa, tentando assumir uma expressão séria
diante de mim:
— Isso pode parecer uma emboscada das ex loucas do seu par, mas
eu juro que nós só queríamos te conhecer melhor. Eu realmente queria que
conhecesse minhas amigas, agora você já conhece. — Ela aponta com os
braços ao redor. — Cabe a você nos procurar da próxima vez, se se sentir
confortável com isso, claro.
— Que confortável coisa nenhuma — Anya reclama, empurrando
Lauren para fora do apartamento. — A maior vantagem de namorar o
Adônis é a possibilidade de se tornar nossa amiga. — Ela se volta para mim
com o dedo apontado em frente. — Não a desperdice, garota! — me avisa e
ameaça ao mesmo tempo.
Encosto meu corpo no de Adônis apoiando meu peso e bato uma
continência, sorrindo.
— Ligue quando quiser, vamos te adicionar ao nosso grupo do
WhatsApp mesmo que não queira — Emily decide e beija minha bochecha
ao sair.
Os braços de Alisson rodeiam Adônis e eu e ela também beija meu
rosto, fazendo carinho no rosto dele ao mesmo tempo e o que quer que seja
esse abraço no abraço, não é estranho. É legal, eu acho.
— Você está perdendo o jeito, amor — ela se dirige para Adônis. —
Sabrina estava comentando mais cedo que queria dormir de conchinha com
alguém menos inócuo que o irmão dela e ela quase te mandou uma
mensagem. Eu juro que vou tatuar menos inócuo embaixo do teu nome na
minha bunda. “Adônis, menos inócuo” foi absolutamente tudo para mim.
— Você tatuou Adônis na bunda?
Ela apenas levanta a saia e me mostra sem qualquer pudor e eu rio
com vontade.
Ela se vira saindo e segurando a porta atrás de si, mas cochicha antes
de fechar:
— Eu digo a todos os caras que namoro que é o nome do meu
cachorro que morreu. Pobrezinho.
A gargalhada que expulso do meu peito sai como um berro e me
engasgo. Adônis me agarra com força quando quase caio para a frente,
perdendo a força nas pernas.
— Em minha defesa, eu não sabia de nada disso até Bia ter vindo
espalhar as boas novas antes de sair.
— Eu não estou chateada. Eu gostei delas.
— Ótimo, mas eu prefiro que você me conte isso amanhã.
— Eu não estou tão bêbada assim, Adônis.
Ele me larga apenas por uns momentos em pé no chão e sou incapaz
de ficar parada, meu tronco flutua de um lado para o outro sem equilíbrio,
ainda que os pés estejam parados.
Levanto as mãos em sinal de desistência e ele me pega no colo.
— Onde é o banheiro?
— A única porta que você encontrar — indico fechando os olhos,
relaxando em seus braços.
Acordo sentada na borda da banheira, Adônis segurando meu rosto e
chamando meu nome.
— Desculpa, eu cochilei.
— Tudo bem, só preciso que fique acordada uns minutos, prometo.
Ele tira a minha roupa na velocidade da luz e liga o chuveiro,
temperando a água morna até deixá-la quase fria e me enfiar ali embaixo.
São apenas cinco minutos de ações perfeitamente calculadas, ele não troca
uma única palavra comigo enquanto lava meu cabelo e esfrega o meu
corpo, sem o mínimo interesse sexual, o que eu considero quase ofensivo já
que meu tesão, ao contrário de mim, não está nada bêbedo e está gritando
pro meu cérebro que dê o jeito dele e me acorde de vez.
Adônis desliga o chuveiro, me tira de dentro da banheira, me seca,
enrola a toalha no meu cabelo e me leva no colo até o sofá, procurando a
minha cama no caminho.
— É aqui que você dorme?
Respondo que sim com um sorriso não muito orgulhoso.
— Roupa de cama, cadê?
Aponto para uma caixa de arrumação num canto e ele cobre o sofá
com um lençol, dá um nó em cada canto para que fique seguro e esticado,
coisa que nunca me ocorreu fazer antes. Ele bate nos meus travesseiros para
deixá-los mais fofos e estica o edredom, mas deixa o cobertor de lado, no
braço do sofá.
Se aproxima, me posiciona como uma boneca no centro do sofá e me
cobre, beijando meu rosto, meu queixo e minha testa com um olhar infinito
de carinho que espreme meu coração dentro do peito de um jeito nada
gostoso.
Me enrolo no edredom e apenas observo enquanto ele pega as caixas
de petiscos espalhadas pelo chão. Adônis não joga fora o que restou, antes
pelo contrário, arruma dentro de uma travessa, organizada por fileiras:
batatinhas, frutos secos salgados, salgadinhos de queijo, biscoitos
recheados, e guarda no forno, com paciência, sem reclamar no processo.
As garrafas seguem a mesma linha. Não sobrou nenhuma cheia. Ele
pega num saco de lixo grande e junta tudo, amarra e encosta na porta antes
de lavar a louça, que não era de hoje, mas ainda estava na pia. Os copos e
taças que espalhamos e que eu nem sabia que tinha, porque já vieram com o
apartamento e nunca tinham sido usados até esta noite, seguem o mesmo
caminho.
Ele passa um pano na bancada, na mesa, decide que minha casa já
não parece um galinheiro e vai para o banheiro. Escuto o chuveiro sendo
ligado de novo e não sei quantos minutos ele passa lá, mas parecem vários,
embora tenha sono, agora já não consigo dormir.
— Está enjoada? Quer levantar? — me pergunta, checando minha
temperatura quando me vê acordada.
— Não. Eu tô bem, eu acho. Você vai dormir aqui?
— Vou, chega para lá. A gente precisa te arrumar uma cama decente,
ou você pode usar a minha, é sempre uma opção — diz me empurrando de
volta ao meio do sofá, roubando o lugar que esquentei com meu corpo
enquanto o observava.
Aliso os músculos do seu peito, reparando no corpo completamente
nu e delicioso deitado do meu lado.
— Sem safadeza. Pode me abraçar, e só. — Ele se vira de costas para
mim, puxando meus braços ao redor da sua cintura numa conchinha
invertida e eu o aperto rindo.
— Eu nunca dormi de conchinha com ninguém que não fosse meu
irmão.
— Eu nunca dormi de conchinha com ninguém com quem eu não
fosse casado.
— Isso é um pedido de casamento?
— Ainda não.
— Ainda bem, porque eu adorei minhas novas amigas, mas não
quero fazer parte da irmandade do anel.
Entrelaço minhas mãos nas dele enquanto ri de mim e me aconchego
ainda mais contra seu corpo quente, o cheiro do meu shampoo mais ativo na
pele dele que no meu cabelo.
— Você sabia que eu realmente achava que você se prostituía? —
Resolvo não adiar essa conversa nem mais um minuto.
— Sim.
— E você também sabia que eu achava que estava te pagando para
ser meu facilitador?
Ele confirma, se virando de frente para mim, me olhando nos olhos,
sem me tocar.
— Você me disse a verdade algumas vezes, mas só ontem percebi
que você estava falando sério — começo a dizer. — Mas depois eu me
peguei pensando que você não insistiu nenhuma vez. Você não mentiu, mas
você sabia que eu…
— Estava sendo uma cuzona preconceituosa comigo? — ele
completa com uma doçura que não combina com suas palavras.
— Mais ou menos isso — admito baixinho.
Ele me agarra e beija meu pescoço, roçando a pele nua na minha.
— Honestidade bruta ou meia verdade simpática?
Penso um segundo nas opções antes de responder.
— Honestidade bruta.
— Talvez eu quisesse ver até onde você se envolveria com um puto
como eu, mesmo com todos os seus preconceitos e limitações, eu queria
saber até onde você se entregaria. No fundo não me importava se você sabia
a verdade ou não, eu queria te ver de joelhos para mim apesar disso.
— Eu vou beijar sua boca agora e se você ousar me impedir eu vou te
bater — aviso com o coração aos saltos, decidindo que não vou passar mais
um único dia sem conhecer o gosto da boca dele na minha.
Meu coração bate em pânico no peito, como se estivesse se
preparando para o assalto do século e não para um simples beijo, meu
estômago se retrai de ansiedade e meu cérebro começa a apitar que nem
uma chaleira:
Perigo. Perigo. Perigo.
Nunca duvidei que estaria perdida quando finalmente o beijasse, mas
quando meus lábios tocam nos dele a certeza absoluta de que estou
completamente fodida e com os quatro pneus arriados por esse cara me
atinge como uma onda brava se debatendo na areia em busca do que é seu
por direito, sem pedir permissão a ninguém para destruir todos os castelos
montados por onde ela passar.
A boca na minha ativa, de alguma forma, um comando silencioso que
liga meu corpo ao seu toque e me acende completamente. Meus lábios se
afogam nos dele, demandando maior acesso, exigindo uma resposta da sua
língua que se movimenta lentamente, frustrando meu corpo sedento por
muito mais.
A mão aperta a minha cintura me mantendo firmemente no lugar, uso
minhas pernas para o obrigar a ficar mais perto, excitada pelo beijo úmido e
sensual. Seu pau se esfrega em mim involuntariamente e está claro que ele
também está se contorcendo de tesão, mas não tem pressa, o filho da mãe.
Meu corpo está prestes a entrar em combustão espontânea enquanto
ele simplesmente me beija demoradamente, permitindo apenas que eu enfie
minha língua entre seus lábios, exigindo mais espaço. Minhas mãos
escorregam dos seus ombros e as espalmo em seu peito, testando a força
dos seus músculos, apertando, provocando, me esfregando sem vergonha,
vendo sua respiração se descompassar e o controle ferrenho começar a ruir.
Ele segura meu pescoço, me obrigando a respirar, e me vejo
ofegando pela separação repentina. Ainda não estou pronta para ser
separada do meu objeto de desejo. O meu olhar arde na direção dele e
quando desce, sua boca está mais uma vez na minha e é outro beijo
completamente diferente, um aperto voraz do desejo escorrendo na mesma
velocidade e força que o meu.
A forma como nossos lábios se conversam é quase um atentado ao
pudor, ainda que estejamos entre quatro paredes, eu completamente vestida
e ambos cobertos pelo edredom, me sinto promíscua partilhando esses
momentos de intimidade explícita.
Lambo a boca gostosa e beijo seu rosto, descendo a língua pelo
desenho perfeito da mandíbula, paro no pescoço apenas para ouvir seu
gemido quando sugo sua pele. Umedeço uma trilha de volta para sua boca
sutilmente mais quente.
Adônis segura minha nuca com uma das mãos, minhas unhas
apertam sua pele quando me espreme num beijo bruto, com força, meu
gemido escapando alto como se toda minha pele estivesse sendo beijada e
lambida. Meu corpo perde totalmente a calma e começa a tremer nos braços
dele, pedindo mais, por favor.
Tento formular qualquer coisa para dizer, meus sentimentos se
atropelando dentro de mim, querendo transbordar em palavras, mas é mais
difícil do que parece, abandonar sua boca, parar de beijá-lo.
Nossos gostos se misturam num sabor completamente novo,
totalmente meu e me sinto ciumenta e possessiva por esse momento, me
ressentindo de outras bocas que possam ter acesso à sensação deliciosa de
ser possuída inteiramente e marcada por dentro. Adônis tem gosto de
champanhe, tem gosto de festa, tem gosto de brinde, quando você deposita
todas as suas esperanças num Deus superior e espera pelo melhor.
Cada vez que sua língua invade minha boca sinto seu pau pulsando
contra minha pele, me provocando, mas sou incapaz de me dedicar a ele
mais do que a sua boca.
Ele me dá uns segundos, segurando meus cabelos, a testa colada na
minha, a boca ainda grudada à minha pele, mas sem se mover. O ar sai entre
seus dentes repetidas vezes e eu nunca me senti tão cadela como quando
tento respirar seu fôlego, não querendo desperdiçar nada daquele momento.
Adônis sobe em cima de mim, deixando seu peso cair, entrelaçando
as mãos nas minhas por cima da minha cabeça, aspirando meu cheiro e me
dizendo milhares de palavras com o olhar absurdamente sexy inflamado
pelo desejo.
Claramente eu não era a única cozinhando a vontade de beijá-lo.
Sorrio satisfeita com a minha nova descoberta e ele morde meu lábio
inferior, chupando-o lentamente, umedecendo-o com meu novo sabor
preferido.
Ele tapa a minha boca com os dedos e sentencia ofegante:
— Eu não vou te foder hoje. Mas amanhã, quando você estiver no
seu juízo perfeito, que Deus tenha piedade de você, Sabrina.
— Eu odeio quando você me chama de Sabrina — reclamo no
impulso.
— Eu sei.
Levanto meu quadril, o esfregando no dele, sentindo a ereção grossa
e dura se revoltar com a provocação infame.
— Você tem um contrato que te permite abusar de mim — relembro-
o.
— Eu tenho escrúpulos, cachorra.
— Isso não estava no contrato — cantarolo, me remexendo.
— Você vai conseguir que eu dê entrada num hospício antes dos 40
anos — Adônis declara, beijando meu riso de volta, segurando minha
cabeça e puxando meu cabelo completamente para trás, puxando com força
num grunhido erótico.
O olhar intenso quebra a penumbra do ambiente brilhando na minha
frente, iluminando meu desejo, me deixando sem defesas, tremendo de
excitação, implorando com cada célula do meu corpo supersensível.
Adônis lambe a minha língua, e quando volta a me beijar imprime na
minha pele um toque lento e calmo, um beijo quente, mas apaziguante. Me
remexo recusando a calma com que me beija, caçando o frenesi de antes,
querendo o desespero de volta, mesmo que o sinta se esvaindo entre nós.
Os únicos sons que escuto são nossas respirações e o barulho das
nossas bocas se desgrudando para respirar. Seu toque no meu corpo não
para, mas também muda de ritmo, ditando o compasso para as batidas do
meu coração que estavam em alvoroço e agora também se acalmam
lentamente.
Bato com a cabeça contra o estofado e deixo escapar um gemido de
agonia e frustração, suas pernas prendem as minhas num casulo impossível
de recusar, mas sei que seus objetivos estão a anos luz dos meus. Ele
realmente não vai me foder esta noite e a forma como cada um dos seus
toques deixa isso claro sem me recusar, me faz querer chorar e implorar
pelo contrário.
A minha respiração demora a se estabilizar sob seu toque, agora
menos opressivo e firme, mais carinhoso e fluído. Nenhuma palavra é
trocada entre nós, mas sinto que nunca lhe disse tanta coisa em tão pouco
tempo. Nossos corpos definitivamente se comunicam melhor do que
alguma vez poderíamos fazer numa conversa verbal.
O cansaço começa a me pegar de jeito e o abraço do seu calor me
embala, ainda provando minha boca devagar, acariciando meus sentidos
lentamente.
Não sei se ele continua me beijando até dormir, mas se não
continuou, sonhei, porque o contato reverberou em mim até que eu perdesse
a consciência.
Eu tinha poucos vícios na vida, e Sabrina estava se tornando um
deles. Não conseguia afastar o meu olhar do corpo esparramado no sofá
surrado nem pela merda de um segundo. Estava há horas esperando que ela
acordasse, queria presenciar o exato momento em que abriria os olhos e se
lembraria da noite anterior, mas a filha de uma cadela estava dormindo tão
profundamente que nem mudava de posição para se fazer mais confortável.
Deitada de lado, usando apenas o braço como travesseiro, já que a
almofada estava servindo suas coxas para meu total despeito. Aquele saco
de espuma e algodão ocupava exatamente o espaço onde eu queria afundar
minha cara o mais rápido possível.
Alguma coisa mudou entre a gente na noite de ontem e eu quero
olhar nos olhos dela para ter a certeza que o que quer que tenha sido ainda
está lá tatuado na escuridão do seu olhar.
Observo seu corpo ansioso, e vejo o rosto se abrir num sorriso
comedido e um suspiro escapar da sua boca. Me aproximo percebendo que
está sonhando. Acaricio seu pescoço e congelo no lugar quando ela diz meu
nome, uma e outra vez, ainda sem abrir os olhos.
Está sonhando comigo e meu humor que já estava ótimo acaba de
melhorar 300 por cento.
Ela é gostosa de um jeito que poucas pessoas têm o privilégio de ser.
É algo no jeito de se mover, a modulação da voz, o contorno do sorriso, e
caralho, a porra daquele cheiro obsceno e delicioso, ela tem gosto de coisa
errada, depravada, que você só pode tocar uma vez na vida e nunca mais.
Aperto a sua cintura em meio aos seus murmúrios que ecoam
diretamente no meu pau e ela abre os olhos, alerta por um segundo, e se
deixando relaxar ao me perceber do seu lado.
— O que você está fazendo? — Pelo sorriso, não está de ressaca e
dormiu muito melhor do que eu, que fui torturado toda a noite com aquela
demônia grudada em mim toda tarada, até em sonhos.
— Cumprindo o que eu prometo — anuncio, montando-a sem o
menor cuidado, pegando suas mãos e jogando os braços para cima da
cabeça.
Ataco a sua boca sem perguntar nada, agora que ela abriu esse canal,
eu posso estar fodido, mas ela também está perdida. Não importa quão
fundo você foda uma mulher, ela só é inteiramente sua quando você a beija.
Você consegue saber tudo que importa sobre alguém pela forma de beijar.
Sabrina beija inteira, beija com a boca toda, os lábios são apenas a
chave para uma promessa maior que ela entrega com seu corpo. Eu sabia
que não ia ter volta quando a beijasse, e pelo bem da sanidade dela evitei
que isso acontecesse. Ela não me conhece o suficiente para saber que me
beijar é uma forma absoluta e incontestável de me dar acesso ilimitado a
todos os seus segredos.
Engraçado ela achar que um contrato poderia ser um problema,
ignorando totalmente que a sua boca na minha é a única assinatura que ela
deveria temer realmente.
Deixo os seus lábios de forma abrupta, mas chupo a língua que
abandonei sem aviso e me apoio em seus peitos enchendo minhas mãos da
sua carne macia num aperto grosseiro. Os mamilos despontam contra minha
pele e quero lambê-la inteira.
Meu olhar é sério e ameaçador quando aviso:
— Você vai querer gritar, não grite. Eu não vou parar de te foder
quando os vizinhos começarem a bater na sua porta. Eu não vou parar de
meter em você quando acharem que eu estou te machucando. Eu não vou
parar de comer essa boceta gostosa quando a polícia chegar. Entendeu?
— Já podia ter começado ontem se não fosse um…
Sua frase é interrompida pelo grito de surpresa ao sentir meu pau
entrar inteiro, sem um toque de preparação, sem aviso, sem preliminares,
castigando seu sexo com a aspereza da arremetida feroz.
Ela ofega alto, se mexendo, afundando a nuca no sofá, curvando o
quadril para mim, se abrindo mais, me cedendo mais espaço no seu interior.
Apoio a mão no seu baixo ventre, sentindo o contorno do meu pau a
preencher por dentro.
Começo a me mexer, sem tirar de dentro dela, apenas empurrando
mais, cravando sua carne com a minha, marcando a mulher que é minha
num gesto totalmente possessivo e completamente alucinado.
— Merda — reclamo, saindo do seu calor. Sabrina me segura pelo
antebraço para impedir que me afaste. — Camisinha — sussurro, quase um
pedido de desculpa por tê-la penetrado sem proteção.
Ela se ergue forçando as coxas ao meu redor, enlaça o meu pescoço
com os braços e beija minha boca sem paciência, mordendo meu lábio, se
encaixando no meu pau de novo e se sentando devagar.
— Eu quero. — Perco temporariamente o juízo com os dois olhos
pegando fogo na minha direção e seguro seu peso agarrando-a pelas
nádegas, jogando-a de costas de volta, suas pernas me esmagando
firmemente, trancadas em mim.
A pressão da boceta úmida no meu pau é uma delícia, enforca minha
ereção, me sugando com voracidade. Se eu pudesse escolher como morrer,
queria morrer enterrado até o talo nessa mulher.
Estoco curto apenas para testar sua lubrificação, mas deslizo tão
facilmente que gemo sem perceber. No segundo seguinte, estoco mais
profundamente, com mais força, e mais fundo, me sentindo encharcar dela.
Sorrio selvagem e pervertido quando suas mãos se fecham no lençol,
a boceta me aperta com igual desespero, me prendendo e me puxando a
cada estocada longa que me consome num prazer tão intenso que sei que
preciso gozar pra fazer meu cérebro funcionar normalmente.
Não paro de meter, e não acredito que conseguisse parar nem que
colocassem a porra de uma arma na minha cabeça. Os músculos internos
dela pulsam frenéticos ao meu redor, me ordenhando, mas é Sabrina que
perde o controle, salivando ao ponto de se engasgar, o cabelo totalmente
espalhado e embolado nos lençóis que ela puxa e morde para abafar seus
gemidos se tornando gritos abafados.
Tapo sua boca com a mão rude, metendo ainda mais forte, movendo
seu corpo pelo tecido do sofá com a força da investida, reclamando o que é
meu.
Ela murmura coisas desconexas desesperada, as unhas rasgando as
palmas das próprias mãos, os dedos retorcidos no tecido do edredom que
ela também puxou para perto, os gemidos cada vez mais incontroláveis,
cada vez mais entrecortados, ofegantes e roucos.
Meu pau entra e sai com facilidade, preenchendo seu corpo com
avidez, forçando seu interior a acomodar minha grossura cada vez um
pouco mais fundo, estocando num ritmo desmedido, sem pausas,
impossível de conter os sons dos nossos corpos molhados se chocando
rápido demais, totalmente agressivo, o desejo puro, cru e delirante
suplantando o senso de limite.
Sabrina saliva contra a palma da minha mão e a retiro para libertar o
gemido longo e atormentado que estava contendo. Me deixo cair sobre seu
corpo, sem abrandar nosso ritmo, mas fodendo também sua boca com a
minha, e quando procuro sua língua com a mesma ganância com que meu
pau fode a sua boceta completamente entregue, sinto-a se contrair além do
limite e me esmagar, se dissolvendo em vibrações descontroladas que me
engolem e reverberam pelo meu corpo, estremecendo cada ponto do meu
ser, completando o gozo dela com o meu, preenchendo-a de um jeito
completamente novo.
Rodo com ela no sofá, deixando seu corpo em cima do meu, ainda
respirando sem ritmo, acariciando o rosto vermelho, lambendo os lábios
inchados que fazem questão de me beijar toda vez que chego perto.
— Bom dia, namorada — sussurro no seu ouvido, mordiscando a
pele sensível do seu pescoço, respirando quente e pesado apenas para atiçar
aquela parte aparentemente inofensiva e fazê-la estremecer de novo.
Ela fecha os olhos para me beijar, sorrindo no meio do beijo sem
conseguir se conter.
— Você beija bem para caralho, por que fica regulando beijo por aí?
— O tom de voz ofendido é engraçado, como se não conseguisse pensar em
absolutamente nenhuma razão para eu não sair espalhando beijos por aí.
— Porque eu sou romântico e gosto de guardar meus beijos só para
as minhas namoradas. — Aperto a curva da sua bunda na minha mão,
beijando seus lábios para provar meu ponto.
— Segundo meus cálculos isso significa que você está me devendo
milhares, ou que não merecia nenhum, porque ou estamos namorando desde
que você se auto intitulou meu namorado, ou ainda não estamos namorando
e meus direitos podem ser revogados a qualquer momento. Qual vai ser,
Adônis?
Ela ergue o corpo para olhar nos meus olhos, os peitos balançando
com o movimento, implorando para serem chupados.
— Eu já estou te namorando desde o dia um, você que só me assumiu
recentemente. — Espalho minha língua no seu pescoço e ela geme.
— Então você está me devendo muitos beijos.
— Vou pagar todos, com juros e correção monetária, agora faz um
favor para nós dois e… — beijo sua boca sorridente e mordo o seu queixo
empinado. — Senta na minha cara e rebola. Eu quero te chupar.
Ela engole em seco e um rubor despropositado tinge suas bochechas,
mas isso não a impede de se mover para cima, se esfregando no meu corpo,
deixando um rastro de umidade dos nossos gozos combinados marcado no
meu abdômen, num trilho delicioso que atravessa meu peito e para na
minha boca.
Chupo toda a extensão da sua boceta com calma, sem desespero,
usando o queixo para roçar na pele sensível do cu aberto à exploração, ela
se contrai, se esfregando e deixando seu corpo pesar na minha boca,
melhorando o encaixe. Abraço as coxas macias e quentes para mantê-las no
lugar, ela se segura nas costas do sofá, que já viu dias melhores, mas tem
mais espaço do que seria de se esperar.
— Eu quero que você cavalgue para mim — ordeno contra sua pele,
mordiscando o grande lábio inchado e sugando os interiores juntos. Estico a
língua para fora e beijo a boceta arreganhada com lábios, dentes e língua,
explorando cada centímetro, provando nosso gosto junto e bebendo seu
calor.
Sabrina não consegue estabelecer um ritmo gostoso, seu corpo
ondula na minha boca sem direção, como se uma boca não fosse suficiente
para satisfazê-la, como se engoli-la um pedaço de cada vez fosse ofensivo,
como se quisesse me afogar nela.
Levanto um pouco suas coxas e ela segura as costas do sofá com
mais força quando lambo toda a pele do clitóris ao cu, ela se curva para trás,
e sou obrigado a segurar sua bunda e usar a boca para mantê-la equilibrada,
sua cabeça pende para trás e ela começa a cavalgar com um ritmo profundo,
se esfregando intensamente no meu rosto, fodendo a minha língua,
recebendo meu dedo sem hesitar no seu cu implorando por atenção.
Fodo sua boceta com a boca, e o cu com dois dedos e ela nem sabe o
que fazer e como responder a cada estímulo, seus gemidos são grunhidos
baixos e prolongados, suspiros desiguais e entrecortados, ela se contorce
enquanto a seguro firme no lugar, invadindo-a com a língua e retorcendo as
terminações nervosas com meus dedos.
O quadril incontrolável fode minha boca com vontade, cavalgando
um gemido atrás do outro, me premiando com a sensação deliciosa de sentir
sua mulher escorrendo para você. Meu pau completamente recuperado da
primeira foda rápida implora para entrar na brincadeira e a vez dele está
quase chegando de novo.
Traço beijos encharcados e mordidas apaziguadoras pela língua
esticada onde meus lábios alcançam e sinto Sabrina dissolver na minha
boca, sentada, completamente aberta no meu sorriso, e puta que pariu: que
gosto bom da porra.
Fecho os lábios no seu clitóris e chupo com o vácuo da minha
bochecha, embolando um orgasmo no outro, segurando seu corpo que cai
para trás completamente descontrolado, soltando as mãos do sofá, deitada,
largada sobre o meu corpo com as pernas abertas para mim.
Beijo o interior da sua coxa, traço círculos na sua pele, sem provocar,
só para sentir os espasmos que esqueceram de parar e ainda a sacodem sem
aviso. Lambo mais uma vez toda a extensão da sua pele, agora muito
inchada e vermelha, e ela se retrai, sensível.
Subo pelo seu corpo, fechando suas pernas só por dó, beijo seu
pescoço, seu queixo, sua boca, e ela não parece encontrar as palavras, abre e
fecha a boca sem dizer nada, apenas respondendo aos meus beijos,
acariciando meus braços, com os olhos ainda fechados.
— Eu ainda quero te comer de quatro — aviso baixinho, sem querer
estragar seu torpor sexual totalmente, mas ansioso por continuar. — Acha
que aguenta?
— Eu preciso de um copo de água — pede, com a voz arranhando a
garganta. Eu me levanto e ela olha para a porta como se tivesse medo que
realmente alguém batesse a qualquer momento. — Eu vou ser expulsa desse
prédio por sua causa. — Nenhum tom de acusação ou desgosto na voz,
apenas, consentimento, como se fosse algo impossível de evitar.
Deixo o copo de água na sua mão, e começo a revirar as gavetas de
roupa do armário. Numa delas encontro o que procuro e Sabrina apenas me
observa interessada, com o copo na mão. Não sei se não perguntou porque
não queria saber, ou porque não importava.
Volto para perto dela com um cinto na mão.
— Você vai me enforcar com isso? — A calma na sua voz e o olhar
ansioso espalham no meu corpo um tipo totalmente diferente de gozo, o da
confiança extrema e entrega absoluta. Minhas intenções piscando
intermitentes entre o possessivo e obscuro decidindo o que fazer com ela e
optando pela alternativa de menor impacto.
— Não. — Dobro o cinto em algumas partes transformando-o numa
contenção. — Morde. Você não vai conseguir não gritar sem ajuda dessa
vez. Eu ainda estou louco de tesão por você, amanhã você não vai conseguir
sentar, cachorra.
Viro o seu corpo de costas para mim e ela cai de quatro, empinando a
bunda alto, deitando a cabeça no lençol, completamente aberta, desperta e
exposta.
— Tudo bem, meu único compromisso é você, eu posso ficar de
joelhos a noite toda.
Estalo um tapa tão forte que minha mão arde e a desgraçada ri,
tarada, meu pau babando insaciável.
— Cachorra, safada.
— Sua cachorra safada — me corrige ainda empinada, rebolando,
preparada.
Me estico para beijar o topo das suas costas, a curva do pescoço e ela
me beija de volta, depois afunda a cara no sofá, me cedendo o controle
totalmente, e respirar se torna difícil para mim.
Espalho saliva na sua abertura e ela treme por antecipação, sem saber
quando será penetrada. Minhas mãos cravadas no seu quadril puxam a
bunda redonda e marcada na direção da minha ereção e quando meto, faço-
o o mais lentamente que nós dois podemos suportar. Pontuando minhas
palavras com estocadas torturantes.
— Você mal começou a descobrir tudo que seu corpo é capaz de
sentir e já está de joelhos, cachorra — comento com carinho, embora
minhas palavras estejam inflamadas de desejo. — Eu vou te mostrar cada
forma de prazer, te fazer cometer todos os pecados que eu conheço e você
vai implorar que eu continue destruindo cada uma das barreiras que você
ergueu ao seu redor. E quando eu acabar, eu vou simplesmente começar a
fazer tudo outra vez.
Agarro os fios dos seus cabelos com força e puxo sua cabeça para
trás para acomodar melhor meu pau e procuro o ângulo perfeito dentro dela.
Ela geme mais alto quando eu puxo com mais força.
— Você adora isso, né, ser fodida como a porra de uma cachorra.
— Não. Eu adoro ser fodida como a porra da sua cachorra.
A última palavra não sai completa, sai resfolegada porque encontro
meu ângulo e não espero que diga mais nada, apenas fixo minhas mãos
nela, cavando um orgasmo explosivo, um tipo de prazer mais incisivo, mais
desesperador.
Ela morde o cinto com força para não gritar, não adianta nada, eu já
sabia, mas gostei de vê-la tentar, o impacto dos nossos quadris é alto e
molhado, acompanhando os gritos arranhados e meus grunhidos. Sabrina
ondula enlouquecida em mim, basta um único tapa, desferido com violência
para a sentir vibrando, seu orgasmo potente e frenético varrendo a nós dois.
Deixo meu corpo esmagar o dela, abraçando-a e capturo a sua boca
num beijo possessivo que ela responde de imediato.
Na minha mente uma única pergunta:
Quando vou ter suficiente dessa mulher?
“Você está atrasada.” — Clico no enter para enviar a mensagem, já
vendo a silhueta dela entrando na ponte de Westminster, se misturando com
a horda de turistas que tentam tirar a foto perfeita com o Big Ben.
“Talvez seja porque você me obrigou a passar em casa para buscar
uma coleira.” — Recebo a resposta, curta, grossa e claramente furiosa.
Me encosto na mureta do píer, ao meu lado duas filas para comprar
bilhetes para as atrações londrinas com 30% de desconto. A fila para o
parque do Shrek está imensa, dezenas de crianças altamente agitadas
perguntando mil coisas na velocidade da luz e uma fila igualmente ridícula
para entrar no Aquário.
“Se andasse sempre com ela, não teria esse problema.” — Respondo
provocando e procurando-a na multidão novamente. Não a identifico até
que ela apareça no primeiro degrau da escadaria ao longe, tentando furar
por entre as pessoas para andar mais rápido.
“Teria que andar de mala de rodinha por aí para carregar todas as
coleiras que você me dá.”
O trailer de gelato artesanal parece a concentração em dia de escola
de samba. Lotado. Quase começo a me arrepender de ter chamado Sabrina
aqui. Não parece o ambiente mais romântico do mundo nesse exato
momento.
“Exagerada demais, acordou com a calcinha atolada? Estou sentindo
uma certa hostilidade despropositada.”
“Essa coleira coça, Adônis, e eu não estou no Nox, estou no meio da
rua, com milhares de pessoas ao meu redor, de coleira, indo encontrar você
no meio da tarde, como se eu não trabalhasse.”
“As pessoas te incomodam muito mesmo, não é, Sabrina? Por que
tem tanto medo delas?”
“É bom senso que chama, não é medo.”
— Por favor, desculpe, poderia tirar uma foto nossa? — Duas
meninas me interrompem, chamando minha atenção, atrás de mim. Quando
me viro encontro dois pares de olhos embevecidos me encarando.
As cabines de vidro da roda gigante passando lentas e instagramáveis
no meu campo de visão. O fim de tarde está lindo e ainda consigo subir
com Sabrina na última rodada e ver as luzes da cidade se acenderem numa
vista panorâmica de tirar o fôlego.
— A gente te segue no Instagram, fizemos o curso de verão da
AlfaTech, adoramos. Muito obrigada pela oportunidade, Sr. Etienne.
— Não tem de que! Em que turma vocês estavam? — Estendo a mão
e elas ficam um segundo sem reação, olhando para mim. — O celular, você
quer me passar o celular, querida?
A reação delas é a mesma que se eu tivesse arrancado suas roupas no
meio da multidão e pedido que gozassem juntas nos meus dedos. É
engraçado ver, porque parecem o espelho uma das outra. Não diria que
sejam gêmeas idênticas, mas facilmente confundíveis.
— Kimberly e Tiana, é um prazer o conhecer pessoalmente. Nós
estávamos na turma da série B — esclarece envergonhada, a série B é uma
turma com conteúdo adaptado para quem não entende nada da área. Sem
termos técnicos ou necessidade de conhecimentos pré-adquiridos.
A da esquerda dá um passo em frente, sorrindo com todos os dentes e
me passa o celular, prolongando muito mais do que o necessário o toque em
minha mão. A da direita se posiciona de costas para a roda gigante,
ajeitando as roupas de um jeito forçado, tentando ser sensual.
— É sempre uma grata surpresa ver mulheres entrando no mercado
de tecnologia, fico muito feliz por ter ajudado em alguma coisa. Os dias
abertos da Alfatech estão chegando, se quiserem conhecer um pouco mais
da nossa estrutura de trabalho, a oportunidade é essa.
Kimberly segue a irmã e as duas trocam de pose e partilham risinhos
histéricos tentando impressionar. Tiana tenta a sorte e se aproxima de mim,
falando muito perto do meu rosto:
— Você tiraria uma foto com a gente? — A mão repousa no meu
ombro de uma forma íntima e eu apenas sorrio educadamente.
— Claro, por que não? — Elas batem palmas excitadas e se
posicionam uma de cada lado do meu corpo me abraçando para uma selfie.
— Posso te marcar no Instagram? — pergunta, óbvia demais.
— Ele não tem Instagram — Sabrina responde, parada de braços
cruzados, vestida com um casaco super largo e longo, castanho, que
esconde seu corpo e principalmente, o pescoço encoleirado.
— Eu posso enviar por WhatsApp também, sem problemas, só me
dar seu número — Tiana desafia a paciência de Sabrina, que claramente
deixou seu estoque em casa.
Ela apenas perfura meu crânio com o olhar abrasador, ignorando
completamente as meninas me rodeando, consigo acompanhar a veia
saliente na sua testa inchando e seus olhos se contraindo ligeiramente,
tentando disfarçar o ódio.
— Vai ter que ficar para uma próxima oportunidade, querida —
aviso, ainda educado, para a Kimberly que resolveu que seria boa ideia se
apoiar em mim. Descolo o seu corpo do meu com cuidado e ela se
desanima.
Tiana é mais rápida e me aperta num abraço caloroso, beijando meu
rosto, e se Sabrina não me atirar no Rio Tâmisa, acho que o dia ainda não
estará perdido.
— Nos vemos em breve então — Tiana atira para o ar, se certificando
que Sabrina a ouça, sendo terminantemente ignorada, seus olhos ainda
colados em mim.
Exibo o meu melhor sorriso e abro os braços para ela, sabendo
perfeitamente que ela não virá até mim.
— Você é ridículo, Adônis. — Sabrina se vira de costas para mim, e
começa a caminhar na direção contrária.
Dou uma corrida rápida e a alcanço, abraçando-a por trás e
apertando. Ela parece uma lagartixa tentando se livrar de mim quando beijo
seu pescoço, e arrasto meus lábios na coleira, mas eu já restringi os
movimentos de demasiadas pessoas nesta vida para deixá-la escapar.
Aperto a sua cintura forte e a viro para mim, beijando sua boca à
força, seguro seu rosto para impedir que se afaste e continuo beijando,
impaciente, esfregando a língua nos seus dentes travados, impedindo a
minha entrada. Deposito pequenos e curtos selinhos nos seus lábios, rindo
na boca dela e ela rosna em resposta, resistindo bravamente, mas não a
solto. Esfrego meu rosto no dela e sussurro em seu ouvido:
— Você fica muito gostosa fervendo de ciúme. — Ela morde meu
queixo, raivosa, me atacando, e eu beijo seu nariz com gentileza.
— Eu tô com vontade de tirar sua roupa agora. — Minhas mãos
abrem caminho no casaco largo e descem até sua bunda, ela espalma as
mãos no meu peito me forçando para longe, não com muita força,
começando a se render. — E te foder aqui, na frente de todo mundo —
continuo falando. — Te fazer gritar meu nome, com todas essas pessoas
como testemunhas de como você goza alucinadamente na minha mão, de
como cada curva desse corpo gostoso obedece aos meus comandos como se
eu fosse uma espécie de religião.
Ela para de se contorcer e respira abafada, beijo a sua boca de novo,
sugando a língua com força, chocando algumas pessoas com o caminho que
traço com as mãos.
— Estou quase contratando aquelas garotas para irem na sua casa e
assistirem eu te foder, você acabou de desbloquear um novo fetiche para
mim. — Ela me olha enfezada, protegendo os seios do meu ataque,
cruzando os braços no meu abraço, tapando os mamilos que já gritam que
sim, antes mesmo de eu fazer qualquer proposta. — Te comer com raiva
deve ser a oitava maravilha do universo.
Ela revira os olhos e eu volto a beijá-la, sem força, só aproveitando
seu gosto, sentindo seus dentes roçando perigosamente na minha língua e
massageando a dela com carinho, com tesão, com um desejo renovado de
posse.
— Eu adoraria te dizer para não perder seu tempo sentindo ciúmes,
mas eu sou um filho da puta egoísta e exibicionista e eu prefiro que você
me marque como seu, enfie a mão na minha cara, grite e esperneie, para eu
poder te comer de novo, para te provar com meu corpo que não tem nada
com que se preocupar, mas fico feliz que se preocupe.
Lambo seus lábios e já tem uma porção considerável de pessoas
olhando a gente.
— Eu estou completamente louco por você, cachorra, não importa
onde eu esteja, com quem eu esteja, ainda que você me achasse em
qualquer lugar desse inferno de mundo enterrado nas pernas de alguma
mulher, eu te garanto que era só você latir que eu te dava a pata.
Levo a mão ao seu pescoço e ela geme, engolindo em seco contra
minha pele, seus olhos imersos nos meus, uma ponta de sorriso querendo
começar a desabrochar no canto da boca.
Dou um passo atrás, e falo alto, as pessoas pararam para olhar,
curiosas com a situação.
— Eu estou irrevogavelmente apaixonado por você, Sabrina. —
Algumas pessoas sustem a respiração e tapam a boca, envolvidas naquele
momento inusitado no meio da cidade mais frequentada da Inglaterra.
Turistas tiram fotos e eu não faço por menos e me ajoelho na frente dela.
Um sorriso maior que o mundo prometendo tudo que não posso colocar em
palavras com o olhar.
— Você quer namorar comigo?
A boca dela se abre em surpresa e ela fecha as mãos em punho,
tentando lidar com as emoções que vejo transbordar na sua pele, criando
coragem para responder. Ela desvia o olhar para mim e percebo a vergonha
se espalhar no rosto como uma brisa quente de verão.
Sabrina dá um passo atrás, levando os espectadores ao delírio. O cara
posando de estátua sai do palanque e se aproxima para ver qual a razão do
alvoroço. Eu dou alguns passos e subo no carrossel infantil que roda
devagar, quase parando. Caminho entre os unicórnios estáticos, tocando o
suporte de uma estátua de uma cachorra em gesso e grito para que todos
ouçam quando o carrossel dá uma volta inteira e volto a estar de frente para
ela, parada bem perto da plataforma.
— Você aceita, Sabrina? Ser a Dama para este Vagabundo? — Sorrio
alisando os dois cães, personagens da Disney, representados juntos, numa
xícara rotativa do carrossel colorido e fortemente iluminado.
Ela se enche de coragem, nem um pingo de ciúme travestindo o seu
olhar e grita de volta, ainda que eu esteja muito perto dela. Ela caminha
paralela à plataforma enquanto eu rodo em cima dela.
— Eu achei que a gente já namorava.
As pessoas riem da sua confusão.
— Dessa vez você pode dizer que não — respondo só para ela ouvir,
atiçando a curiosidade dos que acompanham e ela ri com gosto.
— Eu não posso — sussurra alarmada. — Eu tenho um contrato.
É a minha vez de gargalhar. Puxo-a para cima e ela roda comigo,
iluminada, feliz, sorridente, picante como só ela sabe ser.
— Diga sim para mim, Sabrina — peço novamente.
— Sim. Eu namoro você, Adônis. Eu faço tudo com você —
cochicha no meu ouvido. — Em qualquer lugar. E se eu te encontrar em
algum lugar desse mundo infernal enterrado nas pernas de alguma outra
mulher, eu arranco teu pau e namoro só com ele. Te jogo no rio e não
acontece nada comigo, porque eu sei esconder um corpo.
— Eu também amo você, cachorra — digo impulsivo, e o rosto dela
estilhaça na minha frente. Preocupação súbita manchando o sorriso aberto.
A respiração acelerada e a pulsação tresloucada. Acabo com seu sofrimento
a puxando para um beijo longo, possessivo e performático.
Palmas altas soam à nossa volta e algumas pessoas falam algumas
coisas, mas não os ouço porque estou ocupado expulsando com a boca
todas as preocupações da minha nova namorada.
— Desembucha. Eu consigo ouvir os gritos dos seus divertidamentes
daqui — Adônis exige, deitado ao meu lado, não conseguindo dormir,
porque eu posso estar quieta, mas minha mente está em polvorosa desde o
segundo em que ele disse: “Eu te amo”.
A opção foi não levar muito a sério, claro que ele estava sendo ele, e
sendo impulsivo, e atropelando etapas no nosso relacionamento que já
começou todo errado.
Para algumas pessoas, eu te amo é tipo bom dia, talvez Adônis seja
uma dessas pessoas, talvez ele não tenha noção do peso que essas palavras
têm para alguém como eu.
— Honestidade bruta ou meia verdade simpática? — pergunto,
usando suas próprias palavras.
Mordo os lábios por dentro, e com as palmas das mãos suando, me
sento na cama de qualquer jeito, de frente para ele, que permanece deitado
na paz de cristo.
Não importa quantas vezes Adônis me olhe, seu olhar sempre remexe
uma parte muito específica dentro de mim que me deixa nervosa, excitada,
constrangida e apaixonada. É quase um botão de liga e desliga acionado
diretamente pelos dois pedaços de mar que algumas pessoas insistem em
chamar de olhos.
— Se isso é sobre o eu te amo, pode ficar tranquila — diz levantando
uma mão e a levando à minha coxa, me encarando relaxado. — Não estou
esperando que diga de volta e não vou ficar magoadinho até você descobrir
que sente o mesmo.
Cruzo as pernas, encontrando um ponto de equilíbrio melhor e já
sinto o estômago querendo dar uma volta fora do corpo para espairecer.
— Como você pode dizer que me ama assim, Adônis? — Limpo o
suor da testa, preocupada.
Ele sabe exatamente o que está acontecendo, mas simplesmente se
comporta como se fosse um espectador passivo e não o protagonista dessa
história.
— Queria que eu fizesse o quê? — Cruza os braços sobre a cabeça,
se fazendo ainda mais confortável, a viva imagem de uma pessoa em paz,
contrastando com a minha tensão que explodiria qualquer medidor neste
momento. — Mandasse uma carta registrada? Qual o problema de eu
declarar meu amor?
As duas pulsações que eu demoro para responder, fazem parecer que
o meu sangue está correndo em câmera lenta e alguém está sentado em
cima dos meus pulmões, sequestrando todo o ar do quarto, me embalando a
vácuo.
— Adônis, você já se casou 5 vezes — enumero com minha melhor
cara de professora resumindo a matéria que já explicou 550 mil vezes e no
dia antes da prova descobre que os alunos não reconhecem sequer os títulos
da matéria. — Você não tem o melhor histórico no que diz respeito ao amor
— acrescento baixinho, morrendo de medo de que ele se retraia. — Acho
natural eu estar apreensiva.
— Eu amei e amo todas elas. — O sangue que antes corria lento
agora se embola nas minhas veias, fazendo meu corpo esfriar subitamente.
— O que você quer dizer? — Ele parece realmente confuso, mas nada
ofendido pela minha crítica disfarçada de constatação. — Só porque não
estamos mais juntos eu não tenho o direito de amá-las tanto quanto quando
estava apaixonado?
Sua pergunta é tão sentida que me faz questionar minha própria linha
de pensamento, mas isso é importante e precisa ficar esclarecido entre nós,
então insisto, jogando minhas preocupações para jogo da forma mais
simples que consigo.
— Então você ama, o quê? Cinco mulheres em simultâneo? Eu sou a
sexta? É isso que você está querendo dizer?
— Sim, você é a sexta — ele concorda como se não visse qualquer
problema com essa designação.
Rio sem graça, desprezando sua declaração e encosto a cabeça na
cabeceira, ainda mais confusa. Fujo do seu olhar que me abraça e me
aconchega mesmo quando ele está falando um monte de barbaridades.
Claro que já percebi que a relação que ele tem com as ex transcende a
amizade. Eles são comprometidos com a felicidade uns dos outros. Quem
não seria? Elas são mulheres incríveis, sorte a dele por poder fazer parte da
vida de cada uma delas.
Mas, caramba! Eu sou só mais uma na fila do pão? Embora eu não
tenha certeza dos meus sentimentos, não quero entrar numa relação já
fadada ao fracasso. Nem mesmo quero entrar numa relação fadada ao
sucesso, mas ele me confunde, me seduz, e quando vejo, já estou perdida
nele de novo, tentando resolver problemas que eu nem tenho de fato.
— Você não pode amar tantas mulheres ao mesmo tempo, Adônis —
explico condescendente. — Se amou a segunda, é porque não amava a
primeira. Essa é a regra.
Ele fica em silêncio por alguns segundos que me fazem sentir
deslocada, equivocada. Parece concentrado em algum filme que se
desenrola apenas para ele, para o qual não fui convidada.
Os contornos do seu rosto tensos, pensando, remoendo. Meu instinto
de abraçá-lo e acabar com essa conversa grita tão alto que eu cruzo os
braços para não ceder à tentação. É importante, repito para mim mesma. É
importante.
— A Bia foi o primeiro grande amor da minha vida. Ela era
novidade, intensidade, agressividade. Ela era toda dela e eu só queria um
pedacinho pra guardar pra mim. Ela me fazia lembrar todos os dias porque
eu deveria levantar da cama e ser alguém. Eu queria que alguma pessoa
sentisse orgulho de mim como eu sentia dela. A Bia é força, é colo, é
carinho e chicotada. Ela poderia atropelar qualquer um que me ameaçasse e
não sentir um pingo de remorso, mas seria a primeira a quebrar minhas
pernas quando eu vacilasse. Bia era a encarnação da honestidade crua e
plena e eu mergulhei nela profundamente, sem nunca olhar pra trás. Eu
nunca poderia deixar de amar algo que se tornou parte de mim. A Bia é
parte de quem eu sou.
Ela realmente parece uma pessoa excelente, mesmo a conhecendo tão
pouco já consigo ver traços do que ele enxerga. Gostaria que o meu coração
não tivesse encolhido no peito ao sentir a sinceridade daquele amor nas suas
palavras.
— Ela já era prostituta quando vocês se conheceram? — A
curiosidade matou o gato, e já que estou no topo da ladeira, por que não
descer de uma vez?
— Sim. Sebastian a contratou — ele conta fitando o teto,
gesticulando um pouco como se moldasse as palavras no espaço que paira
livre sobre seu corpo. — Eu me apaixonei em segundos, mas demorei um
tempo para conquistá-la. Bia era dura na queda e já tinha perdido muita
coisa na vida para entregar o coração para um conquistador barato.
— Era isso que você era? — Não resisto e toco seu cabelo, contorno
seu maxilar com a ponta do dedo e ele beija a palma da minha mão,
segurando-a contra seu peito logo depois, me obrigando a me aproximar
mais e me acomodar mais perto.
— Não, mas ela não sabia, nem eu. Eu nunca tinha amado antes.
Sempre fui de me apaixonar perdidamente, mas amor? Ela foi a primeira.
— E por que se separaram? — Minha voz calma não condiz com o
turbilhão de sensações se engalfinhando dentro de mim.
— Eu mudei. Os meus sentimentos também, e por muito que eu
ainda a amasse e a quisesse na minha vida para sempre, eu não era mais um
bom marido, eu não era mais sorridente, eu tinha começado a trilhar um
rumo profissional que ia ocupar um triplex na minha mente e quando eu
percebi, já tinha falhado e deixei que ela fosse embora. Ela não reclamou.
— Ele fecha os olhos com força e aperta os lábios antes de completar: —
Não muito, pelo menos, se considerarmos que ela tacou fogo no meu carro
e rasgou todas as minhas roupas na unha por puro entretenimento.
— Parece um pouco agressivo — comento num tom divertido, a
declaração inusitada me arrancando um sorriso.
— Bia é agressiva. Ela ama com violência e todo mundo deveria
amar uma pessoa como ela na vida para viver essa experiência. Constrói
caráter.
— Depois veio a Lauren? — indago querendo resumir a situação, já
era desconfortável o suficiente vê-lo se rasgando de elogios para a ex
deslumbrante que trabalha no clube de sexo que ele mesmo fundou.
— Não. Ali. Alisson era a encarnação de tudo aquilo que eu não
podia ter. Então, obviamente, eu a quis de imediato. Eu queria me esfregar
nela até que tudo passasse para mim por osmose. A inteligência emocional,
a dedicação, a generosidade, a elegância. Ali era impressionante e quando a
conheci, eu precisava desesperadamente de amor gratuito. Ela me deu tudo
isso e um pouco mais. Ela representava o sonho da família feliz; dois filhos
e um cachorro na casa de campo e uma aposentadoria antecipada.
— E por que não deu certo?
— Deu certo — ele discorda imediatamente, defendendo seu amor
com prontidão. — Deu muito certo. Deu certo enquanto durou, enquanto eu
cumpri o prometido.
— O que prometeu? — Minha curiosidade já era maior do que o
incômodo de saber mais detalhes.
— Uma vida que eu não podia manter. — Ele dá de ombros. — Uma
personalidade que eu não conseguia bancar. — Vira o rosto e olha no fundo
dos meus olhos, me prendendo de novo naquela teia estranha de poder que
exercia sobre mim. — Um caminho que eu não tinha a menor capacidade
de trilhar.
— Soa doloroso, mas vocês se dão bem. — O carinho óbvio na
minha voz, nos meus dedos se entrelaçando nos dele, no compartilhamento
do ritmo cardíaco cadenciado através das nossas peles unidas.
— Sim. Ali teve que me deixar para não cair no abismo comigo. Mas
ela se machucou tanto quanto eu quando me perdi. Quando me joguei no
escuro. — Ele faz uma pausa e vejo a névoa da memória se condensar na
expressão do seu rosto. — Nós dois caímos. Ela levou um tempo pra
perceber que precisava levantar. Quando tudo voltou a ficar bem, nossas
peças estavam muito quebradas para voltar a se encaixar, mas ainda faziam
parte da mesma caixa.
Tiro minha mão da dele e cruzo os braços sobre os joelhos, tentando
entender o trem de amores, sem querer saber mais do que ele está disposto a
contar, me preparando para as próximas histórias, mas incerta se quero
continuar escutando tudo o que ele tem para dizer agora.
Adônis está compartilhando suas memórias e eu não quero que se
retraia, realmente quero entender quem eu sou no final disso tudo, mas dói
ver a devoção nos seus olhos, escutar a emoção em cada sílaba que fala.
— Anya era tesão. Puro e duro. — Meus dedos dos pés reagem
inquietos. — A gente se odiava e ela vivia me processando por qualquer
razão que encontrasse, ela fazia da minha vida um verdadeiro inferno e
defendia qualquer bandido de beira de esquina contra mim só para me
irritar.
O riso escapa da minha boca sem que eu tenha chance de o parar.
— Se era tesão encubado, como você decidiu que era amor?
— Um dia ela não apareceu e eu me preocupei. Seu silêncio foi
ensurdecedor. Descobri que ela estava com problemas e fui atrás, até hoje
não entendo o porquê. Algumas coisas têm que ser, você só segue o roteiro,
mesmo que não entenda. Foi o que eu fiz e por trás daquela casca dura
havia uma gatinha assustada precisando de um ombro amigo.
— Não seria um pau amigo? — brinco aproveitando o momento
leve.
— Não. — Ele revira os olhos, como se eu não tivesse alcançado a
dimensão da coisa. — Ela cortaria meu pau e alimentaria as plantas
carnívoras durante meses se eu tentasse chegar perto dela nesse sentido.
Anya mal aceitou a mão que estendi para a ajudar. Arisca demais,
desconfiada demais, a humildade passou longe daquela ali. — Ele estala a
língua, julgando o comportamento da advogada depois de tantos anos.
— Mas alguma coisa mudou.
— Sim. Eu nem sei dizer quando, foi tão gradual que quando eu vi
ela já estava do meu lado, o ódio tinha se transformado em outro tipo de
coisa e não éramos capazes de ficar longe um do outro. E a gente tentou,
sabe? Nunca foi fácil a convivência entre nós. Nosso amor foi uma espécie
de trégua para um longo período de guerra declarada. Até hoje eu tenho
receio de que ela corte minha garganta durante o sono e diga que foi sem
querer. Anya é traiçoeira.
— Mas também acabou.
— Do mesmo jeito que começou, um dia eu olhei para o lado e ela
não estava mais lá. Nosso casamento foi o mais curto de todos, e o mais
celebrado. Milhares de apostas foram feitas sobre quanto tempo ia durar e
eu não recebi um único centavo.
— Por quê? — Rio de novo do seu desgosto.
— Eu sempre acredito que é pra sempre. — Engulo o riso que pesa
na minha garganta imediatamente, a declaração desce junto, me arranhando
até o estômago.
— Que seja eterno enquanto dure — consigo completar. Voltando a
fingir costume.
— Touché.
— Bia foi a primeira. Alisson a segunda. Anya a terceira. E …
— Emily a quarta.
— E qual foi o problema com ela? — Estico minhas pernas e me
encosto na cabeceira, minha coxa tocando seu ombro.
— A baixinha era uma florzinha de estufa que eu arranquei da raiz e
guardei num armário escuro. Quem não amaria a Em? Ela é toda
perfeitinha. A princesa dos contos de fadas. O total oposto de mim. Em foi
um amor na hora errada. Não era o nosso tempo, sabe? Não era o nosso
momento, mas eu queria mesmo assim, porque o que eu podia fazer? Eu
estava apaixonado.
— E então veio a Lauren — completo, vendo o sorriso genuíno de
Emily na minha memória de quando fomos apresentadas. Vejo também as
risadas de Lauren e minha dança com Anya àquela noite.
— Não. A Lauren sempre esteve lá. Ela já era minha amiga, minha
parceira. Na vida, no jogo, no trabalho. Ela esteve perto de mim em todos
os meus casamentos. Em todos os momentos. Ela esteve comigo em cada
contrato que eu assinei. E em todas as vezes que eu apareci dizendo que
estava perdidamente apaixonado. Ela nunca me jogou pela janela quando eu
batia na sua porta às tantas da madrugada dizendo que tinha feito tudo
errado. Lauren sempre esteve presente, um pouco mais a cada dia, me
vendo mudar e mudando comigo. Vivendo a vida dela enquanto eu vivia a
minha e eu já a amava muito antes de ter me apaixonado. Um dia ficamos
solteiros ao mesmo tempo e… Por que não tentar? Ela era toda eu, até nos
detalhes, personalidade, humor, gostos. Estava tudo ali, eu me via nela
como eu nunca tinha me reconhecido em ninguém, era um encontro de um
tempo muito antes que agora, eu tenho certeza.
— E por que acabou?
— Nunca acabou. — Adônis se levanta e remexe as pernas também,
se encostando na cabeceira ao meu lado, segurando minha mão de novo na
sua. — Nós só éramos iguais demais, era como um reflexo e não havia
espaço para dois de nós permanentemente nas nossas vidas. Foi difícil vê-la
ir, até porque ela nunca foi a lugar algum. Ela só voltou exatamente para o
lugar de onde nunca deveria ter saído e tivemos que lidar com a sombra do
fracasso, mas nunca saberíamos se não tentássemos. Embora Leona sempre
será Leona, Lauren é a minha melhor amiga.
— E eu sou a próxima, a sexta — relembro em tom de reclamação.
— Você é a sexta. E a última.
Dessa vez, dou dois tapas nele pela audácia. Minha mão estala na sua
perna, depois no seu braço.
— Como você pode dizer uma coisa dessas? — duvido exasperada.
Ele segura minhas mãos com delicadeza e monta meu colo, pesado,
alinhando nossos olhares, me aquecendo com seu calor.
— Todas as mulheres que eu amei e me apaixonei antes, não só as
com quem eu casei, não vou mentir, houve muitas outras, muitas mais.
Todas e cada uma delas me ensinaram a amar direito, a amar por completo,
a saber distinguir o impulso do perpétuo. Toda e cada uma delas era sobre
quem elas eram para mim, o que significavam. Com você é diferente, eu
sinto que é sobre quem eu posso ser pra você agora que tenho todas as
peças necessárias pra te amar completamente. E eu quero ser tudo, quero
ser todos, quero ocupar cada espaço dos amores da sua vida, mas eu não
tenho pressa. Não vou fingir que não te amo para fazer pose de machão. Eu
te amo. Não vou guardar para mim porque eu não tenho vergonha de nada e
o tempo acontece agora. — Suas mãos seguram o meu rosto. — Mas eu não
preciso que você me ame ainda. — O polegar se arrasta na minha boca. —
Você pode levar seu tempo para me encontrar no meio do caminho. —
Tenho a certeza que ele também pode ouvir meu coração martelando no
meu peito fazendo todo meu corpo vibrar sob ele. — Para descobrir o seu
jeito de amar. Não importa o tempo que você vai levar, eu ainda vou estar
por aqui te esperando, do seu lado. — As últimas palavras reverberam em
mim como um eco, sou incapaz de as deixar escapar, completamente
atordoada pela potência da sua declaração.
Ele beija meu rosto e me abraça como se me embalasse ao ritmo de
uma canção doce e leve que nossos corpos reconhecem no silêncio que nos
rodeia.
— Eu não sei o que dizer, Adônis. Eu…
— Não precisa dizer nada. Está tudo bem. — Ele me aperta
garantindo e eu acredito. Eu que estava sendo a pé frio e ele que me
consola.
— Por que eu? — Não quero quebrar esse momento com mais
dúvidas, mas é impossível de me conter. — Por que comigo é diferente?
Porq…
— Porque você é um pé no saco, minha cachorra — me interrompe e
ralha. — Você apareceu do nada, toda falsiane, tentando me enganar e
falhando rudemente. Meu Deus, como você mente mal, mulher. Era o rubor
no seu rosto e essa veia na testa… — Ele alisa o lugar onde costuma inchar
quando fico nervosa e o sangue parece se acumular ali, atravessando meu
rosto. — Que bradava: Eu estou mentindo, me pare, por favor! — A
vozinha ridícula que ele fez arranca uma risada alta do meu peito que treme
entre a gente. — E eu tomei a melhor decisão da minha vida: te atormentar.
Mas você é como uma erva daninha invadindo minha vida e meus
pensamentos. Você se enraizou em mim tão rápido que eu não tive como me
defender. Em poucos minutos, já estava viciado na porra desse seu sorriso
delicioso. — Ele me beija rápido, estalando seus lábios nos meus e segura
meu pescoço quando me inclino esperando mais. — Eu te dei um contrato,
porque eu não tinha nada pra usar e te manter do meu lado. Eu já tinha te
fodido e normalmente, convenhamos, isso é mais do que suficiente para as
mulheres caírem aos meus pés, mas você tinha que ser diferente — se
lamenta.
— Eu não era diferente — me defendo, mesmo que eu sinta que
minha fala é uma espécie de gol contra a minha dignidade.
— Era sim. Eu tive que me esforçar para conseguir uma coisa que eu
nem queria. Eu estava lindo, belo, moreno e sensual curtindo minha vida,
jurando que nunca mais ia me envolver com alguém, que agora eu tinha
aprendido e estava curado. Meu plano era levar uma vida tranquila, foder
umas mulheres pelo caminho e voltar pra casa sozinho, sem dramas, fácil.
Pente e rala. Mas você é uma espécie invasora e já tinha me tocado e
ocupado todo o espaço dentro de mim. Eu lembro de deitar na minha cama
e ouvir seu sorriso na minha cabeça até dormir. Nesse momento eu entendi
que não tinha alternativa, você tinha que ser minha, porque eu já era seu e já
sentia sua falta na porra da minha cama, mesmo sem que você alguma vez
tivesse entrado na minha casa. Você é como um vento bravo que me
atravessou sem pedir. Eu te fiz minha cadela, mas quem sempre esteve de
quatro foi eu. Cada uma das coleiras que eu te dei e continuo dando é um
pedido para que nunca saia de perto de mim e pense em mim tanto quanto
eu penso em você. Eu acho até perigoso o jeito que me sinto intoxicado pela
sua existência. Eu não preciso de coleira nenhuma adornando o meu
pescoço pra lembrar que eu pertenço a você. Eu não te escolhi. Não tive
opção. Mas se você deixar, quando você quiser, eu vou estar aqui, te
escolhendo todos os dias desse momento em diante.
As lágrimas correm como se ele tivesse me dado uma paulada e não
feito a declaração mais disparatada e perfeita do mundo. Ele beija meu
rosto, minha boca, lambe as lágrimas que insistem em se arrastar pela
minha bochecha como se elas também não quisessem perder a chance de
fazer parte dele, colando na sua pele pelo tempo que lhes é concedido.
Meu cérebro grita que é coisa demais, minha cabeça dói um pouco de
toda a tensão que eu estive contendo e agora deixo correr livre. Adônis
continua em cima de mim, me beijando, me acalmando, sem dizer nada.
Não que precise, já foi tudo dito, cada palavra uma chicotada nas
minhas certezas estilhaçadas, recuperando sonhos e expectativas tão
escondidas em mim que eu nem as reconheço como minhas, nem lembrava
que estavam guardadas.
Me descubro mais um pouco sob o seu toque calmo e carinhoso, uma
parte da menina inocente e sonhadora que eu prendi num canto escuro se
destrava e se abre querendo se entregar completamente para ele.
Mas há outras partes lutando ainda, se segurando na razão, na
possibilidade de que o para sempre inevitavelmente acaba e querendo se
proteger, se recusando a aceitar perder o que ainda nem entendo como meu
de verdade.
Não consigo parar de chorar, mas começo a rir intercalado,
parecendo uma paciente pronta para internação. Adônis cala meus soluços e
beija meus sorrisos com paciência, acariciando meu corpo quase com
inocência. Perco a noção do tempo que passamos ali, abraçados, nos
beijando, rindo, chorando, e quando me sinto pronta para dizer alguma
coisa, o relógio marca além da meia-noite.
— Que belo primeiro dia de namoro oficial, hein? — disparo.
De todas as coisas que poderia ter dito, a menos adequada, claro. Ele
ri, ciente do meu nervoso e seu olhar de luxúria substitui o de carinho e
calma.
Em um único segundo ele é todo tempestade prestes a se abater sobre
mim e me preparo, porque ele se aproxima no modo de caça, se enfiando
entre as minhas pernas e roçando o abdômen musculoso e definido na
minha pele exposta, acordando meu corpo dos sentimentos e recordando-o
da rendição a que nos submetemos a qualquer momento que ele decida que
nos quer.
— Você quer comemorar de verdade? — sussurra com a voz
arrastada, escorrendo imoralidade no meu ouvido. Estremeço em
antecipação, as preocupações soterradas pelo peso do desejo zunindo
alucinado.
— Um pouco tarde, não? — Pelo horário, nossa sessão no Nox está
mais que perdida.
— Esqueça a nossa lista. Vamos fazer uma nova. — Ele levanta,
segurando o peso do corpo nos antebraços, pairando sobre mim e lambe
meu pescoço antes de falar.
— Você quer escolher o que vamos fazer amanhã ou prefere que seja
surpresa?
— Depende. — Enrosco minhas pernas no seu quadril e me esfrego,
pedindo um maior contato. — Eu deveria me preocupar?
Ele parece pensar por um longo segundo agonizante e me responde
no seu tom mais sacana, perverso e safado. Muito longe do cara
estupidamente apaixonado que estava aqui ainda agora.
— Você lembra que me disse uma vez que gostaria de experimentar
dois homens se não fosse o caso de envolver sexo anal?
— Uhum. — Arrasto o som na minha garganta, entupida de tesão,
escandalizada com a mudança descarada das sensações borbulhando em
mim. Me sentindo devassa.
— Então, você não precisa disso para ter dois homens se servindo de
você.
A obscenidade das suas palavras pinga e escorre, se condensando
num acumular instantâneo de excitação líquida nas minhas coxas. A mão
rude volta ao meu pescoço, exigindo atenção.
— Não se engane. — Ele me dá um tapa, não na bunda, na cara, e me
espanto, porque gosto. — Eu ainda vou comer seu cu, e amanhã você vai
experimentar outros caras, mas agora… — Estica o meu pescoço para cima,
forçando minha cabeça para trás, mordendo minha pele, me marcando. —
Agora eu vou marcar seu corpo inteiro para que não esqueça quem é seu
dono.
Eu poderia implorar por isso, se fosse necessário.
Eles podem me ouvir. Eles podem me ver. A qualquer momento e em
qualquer posição, toda pessoa que cruze o olhar com as paredes do clube
esta noite pode estar me assistindo nessa sala.
Cada passo que dei para chegar até aqui foi impulsionado por
expectativa e ansiedade. Saber que os sons da sessão estariam sendo
compartilhados ao vivo com os sócios presentes já tinha deixado minhas
coxas escorregadias, mas descobrir que Adônis liberaria imagens de toda a
sessão, de forma não cronológica, e não simultânea por todos os painéis,
arrasou com a minha concentração e provocou um alvoroço descontrolado
no centro operacional de cada uma das minhas células.
O jeito como ele tinha dito: “Isso não é um presente para eles, é um
presente para você, desfrute”, tinha um tom imperativo de ameaça velada
que não me deixava outra alternativa senão me render ao doce suplício que
ele tinha preparado.
O ambiente de luzes tênues não disfarça os contornos do meu corpo
suado pendurado pelos pulsos se contorcendo, não porque tenho dificuldade
de me manter em pé, como tinha experimentado antes, já que minhas pernas
são habilmente suportadas pelos ombros musculosos do macho delicioso
que Adônis escolheu para mim, mas pela sua dedicação em me fazer gemer
alto. Para me agradar? Não. Para provar a Adônis que é capaz.
Esse senso de dever deturpado também intoxica os meus desejos e
mistura tudo em mim. Me divido entre impulsos de gritar com ele e gritar
para ele:
Pare de brincar comigo e venha aqui fazer seu trabalho você mesmo.
Mas cada uma dessas palavras é silenciada pelo olhar esmagador e
incontestável do meu dono antes mesmo que eu possa dizê-las. Porque é
isso que ele é hoje, meu dono. Talvez, sempre tenha sido desde a primeira
vez que me tocou, mas só agora admiti.
Sentado numa poltrona à nossa frente, Adônis julga cada abocanhar
da minha carne e analisa cada gota desperdiçada da minha excitação. Hoje,
ele se parece tudo, menos um namorado com fetiche de assistir sua mulher
tendo prazer.
Hoje, ele tem ares de um mafioso desagradado com o lacaio que
deveria se sentir grato apenas pelo fato de o servir. Me servir, no caso, mas
é a mesma coisa.
O jeito como ele descarta com um olhar entediado e um movimento
displicente da mão cada um dos caras se enfileirando para tentar
impressioná-lo me fazendo gozar é quase engraçado. Só não o é
inteiramente porque sou incapaz de me conter e gemo para todos eles, uns
melhores outros piores, todos sem exceção conseguem me arrancar
gemidos, mais modestos ou inflamados.
Adônis parece não se impressionar com nenhum e eu decido que se
ele pode brincar comigo, eu também posso brincar com ele. O que de pior
pode acontecer? Apanhar? Isso seria a cereja no topo do bolo.
Quando o seguinte se aproxima e toma seu lugar entre as minhas
pernas minha sensibilidade exacerbada me ajuda a fingir uma cara tão
entediada que espelha a de Adônis nos olhando. Ele vira a cabeça de lado e
se inclina com os cotovelos sobre os joelhos, suportando o peso da cabeça
apoiando o queixo sobre as mãos cruzadas.
O risinho abafado que ele sopra entre os dentes retorce as amarras do
meu desejo mais intensamente que a língua que me chupa, mas não vou
longe, claro que não, não posso brincar com um mestre. Ele se levanta
olhando apenas para mim, eletrizando meu corpo a cada passo e me
desafiando a dizer uma única palavra. Não sou capaz.
O homem sai das minhas pernas, a boca brilhando de mim, e sai sem
ser mandado, sabendo que desperdiçou sua chance. Adônis me desamarra
em silêncio me fazendo começar a ficar apreensiva por ter estragado a
brincadeira, não estava sensacional, mas estava gostoso.
Ele me guia até uma cadeira, muito parecida com a cadeira adutora
da academia, relaxando minhas costas no apoio, e mantendo minhas pernas
arreganhadas e as mãos livres.
Adônis toca apenas meu rosto, confirmando se está tudo bem. Um
aceno afirmativo é o suficiente para despertar um brilho escuro nos olhos
incandescentes, algo na sua voz me faz sentir subitamente mais vulnerável e
exposta do que quando estava amarrada e o sorriso ameaçador acende toda
a superfície da minha pele como uma rajada quando ele exige:
— Markoz, Romeu. Se aproximem. — E dois vultos que até agora
não tinha notado se desgrudam das paredes escuras onde se apoiavam, um
ao lado do outro. Reflexos simétricos de uma beleza insuportável e uma
fome que grita destruição se aproximam, lentamente, como felinos se
exibindo perante a caça, deixando claro seu domínio sem uma única
palavra.
Adônis fala para eles, olhando diretamente para mim:
— Eu já permiti que brincassem o suficiente, minha cachorra parece
entediada. — Ele se vira de costas, repousando a mão no ombro de um dos
homens e apertando com cumplicidade. — Quero ouvi-la ganir — anuncia
e eu respiro fundo tentando ignorar o efeito que o som da sua voz tem sobre
mim. — Daqui — completa, caminhando até ao ponto mais longe da sala, a
roupa escura se confundindo com a mesma parede onde os dois homens
antes estavam, apenas os olhos me perfurando à distância, deixando claro
que ainda está ali e que é bom que eu goste de gritar.
Sua mão desliza para o monitor que controla quais painéis recebem
nossas imagens por todo o clube, e é o canto dos seus lábios que fala
comigo antes de escutar suas palavras:
— Lembra quando eu disse que isso era um presente para você? —
Aceno que sim. — Agora é um presente pra eles — avisa rodeando o ar
com o dedo indicador, indicando que todos podem nos ver agora. — Faça
valer.

Eu fingia não me importar demasiado com a forma como Adônis me


tratava após cada sessão. Como ele seguia um passo a passo metódico e
calculado de cuidados para garantir que estava tudo bem. Se certificar que
cada sensação experimentada não tinha sido pouco nem além, como ele
avaliava todos os sinais do meu corpo, além das minhas escassas palavras.
A verdade é que eu tinha tendência para dizer que estava tudo bem, de
forma sucinta e mais nada, porque afinal, estava.
Se eu fosse partilhar cada fio de pensamentos desconexos e dispersos
que flutuavam na minha cabeça depois de cada encontro planejado, ele
perderia muito tempo tentando calibrar algo que não precisa de medida nem
ajuste.
Eu quero sempre tudo que ele quiser me dar e muito mais. Mas dizer
isso não é suficiente, ele é um homem que precisa de palavras. Me faz
perguntas diretas, e me orienta por uma listagem de ações premeditadas.
E todas as terças-feiras a rosa com o pedaço de papel para que o
preencha com palavras estará na minha porta, na minha mesa, na minha
casa, ou na dele. O que faz sentido, para alguém viciado em casamentos e
contratos, Adônis encontrou seu jeito personalizado de dizer “Fale agora ou
cale-se para sempre.”
Eu sempre me calo, mas depois falo. Até isso ele me ensinou
certinho. E agora aqui, jogada na cama do seu quarto no Nox, me ressinto
de ele não estar aqui para que eu finja não me importar com cada toque e
palavra excessiva de cuidado.
Quando ele volta, ainda estou na posição que me deixou, preguiçosa.
Essa sessão não foi extenuante, mas os últimos minutos foram responsáveis
pela espécie de apito que ainda soa em meus ouvidos.
Ele se aproxima de mim e olha para o copo de água que ainda não
bebi, para a barrinha de cereais na qual não dei mais do que uma mordida.
— Ainda não estou pronta — aviso, sem me mexer, aproveitando o
torpor gostosinho que ainda abraça meu corpo. — Ele arqueia uma
sobrancelha. — Para ir embora — completo, e ele franze os lábios como se
me reprovasse. — Nossa, você é muito autoritário! — reclamo entendendo
errado sua expressão. — Mesmo lá embaixo, me exibindo para dezenas de
pessoas sendo fodida com a boca sabe-se lá por quantos caras, mesmo à
distância, sem me tocar, sem quase me dirigir nenhuma palavra você
consegue ser dominador, severo e autoritário. — Me sento na cama para
olhá-lo nos olhos, ainda sem me dirigir nenhuma palavra, degustando do
meu mini ataque despropositado. — Uma vez você me disse que não tinha
problemas em aceitar ordens. — Afundo as mãos nos seus cabelos, testando
a maciez dos fios na minha pele, sentindo seu cheiro de perto. — Mas você
seria capaz de se ajoelhar para mim alguma vez? De abrir mão do
comando? Cada vez mais me custa acreditar que você saiba não dominar.
— Não estou reclamando por não estar pronta para ir embora, estou
te julgando muito inocente por achar que essa noite está terminada. Eu disse
que tinha um presente e também disse que dois homens se serviriam de
você e isso não aconteceu ainda, não totalmente, não do jeito que eu
planejei e você esperava, ou não estaria com energia para esse tipo de
atitude petulante. Eu realmente vim checar se estava pronta, mas não para ir
embora, para começar de fato.
— O que você…
Sou interrompida pela encarnação da masculinidade primitiva
passando pela porta. Até hoje, eu o havia visto apenas uma vez, de relance,
mas a imagem ficou marcada e a memória imediatamente retorna, as portas
do elevador se fechando para os dois homens agora à minha frente.
Ele está completamente vestido e eu ainda estou completamente nua.
Nada faz sentido, porque a vontade que tenho de desviar o olhar da direção
do seu escrutínio indecente faz parecer que ele está se expondo e eu
constrangida de notar.
A beleza arrasadora está além da sua imagem, está no cheiro de sexo
que ele exala, na intenção libidinosa que marca cada inspiração e nos seus
passos determinados e implacáveis.
Adônis não precisa me mandar ajoelhar para o recém-chegado,
porque meu instinto grita que o faça antes que seja tarde, minhas pernas
obedecem a um comando silencioso do homem à minha frente. Como se
não fosse digna de estar em nenhuma posição perante ele que não seja de
subserviência.
Sinto o sorriso de escárnio de Adônis se formar perante a minha
reação imediata.
— Eu ajoelharia para você em qualquer situação, cachorra, mas hoje
eu te prometi outra coisa. — Ele se levanta da cama e para ao lado do outro.
Os dois frente a frente, ao meu lado. — Sebastian — cumprimenta
simplesmente.
— Sua cachorra é adestrada? — ele pergunta a Adônis sem me
dispensar um único olhar, percebo por não sentir aquela queimação na nuca
que é ser objeto da sua atenção temporária.
— Não ao seu gosto — Adônis responde e me retraio quando
Sebastian se abaixa, movendo uma lufada de ar que faz meus músculos se
retesarem. Nunca me senti tão alerta em toda a minha vida, nem tão
estupidamente excitada sem um único toque ou palavra.
— Ela adora fazer listas, tenho certeza de que vai desfrutar de você
listando toda e cada coisa que pretendemos fazer com ela essa noite.
Sebastian me indica que levante a minha cabeça do chão apenas com
o calor do seu dedo perto da minha pele, seu olhar é maquiavélico quando
me fala:
— Levante-se. Suba na cama e fique de pernas abertas, sentada. —
Simples e econômico em cada uma das palavras, ele observa eu me
posicionar, a intimidação do seu olhar fracamente controlada.
Ele afunda os braços no colchão macio, um ao lado da minha coxa e
o outro entre as minhas pernas, eu o olho alarmada.
— Calma — determina. — Você ainda não ganhou o direito de ser
tocada — me avisa, vendo minha reação de temor e interpretando como
medo ao invés do pedido de socorro porque sou capaz de gozar sem que ele
me toque, se não for rápido.
Adônis apenas nos observa com um sorriso enigmático, esperando
pelo próximo passo de Sebastian, me deixando suspensa nessa bruma de
lascívia e devassidão que inundou o quarto desde a sua entrada.
— Eu vou te dizer o que vai acontecer. Vou observar e você vai se
divertir. Quando você terminar, nós vamos nos juntar a você — ele enumera
como se fosse uma lista de supermercado. Meu corpo relaxa, e mexo
minhas mãos, atraindo sua atenção imediata. — E se você se mexer… —
Ele se aproxima mais do que posso suportar, me fazendo querer respirar o
ar direto da sua boca. — Se você sair dessa posição… — A minha
lubrificação ensopa o lençol e a constatação da minha umidade violenta
escorrendo antes mesmo de começar desconfigura algum parafuso no meu
cérebro que me leva a responder sem pensar, num tom divertido e
desafiador que quero engolir assim que as palavras me escapam:
— Vai fazer o quê? Me espancar?
A reação no rosto de Adônis revela hostilidade e não sei se é pelo
atrevimento ou pela intenção das minhas vontades.
— Não. — Sebastian deixa frio o lugar onde estava, se afastando.
Minhas pernas reclamam da sua ausência entre elas e me xingam pela
audácia.
Ele calmamente começa a tirar a roupa, como se eu não estivesse
prestes a ter uma síncope, e completa, olhando para mim apenas na última
palavra, usando-a como pontuação da sentença imediata: — Se você se
mexer — ele repete me provocando com uma pausa dramática. — Se não se
comportar. — Eu poderia gritar de aflição, se minhas funções cognitivas
não tivessem sido arruinadas pela presença da entidade rude e censurável
sendo totalmente liberta, como se tivesse contida pelo tecido das roupas, até
agora de algum modo comportada. — Eu paro.
Ela não tinha tanta coisa assim, até que a irmandade do anel e a Sra.
Collins resolveram que uma menina, sozinha em Londres, precisa ter um
shopping dentro de casa e o circo estava armado.
Mal Sabrina recebeu o aval para se mudar para o novo apartamento e
tirou alguns dias de folga do trabalho, a loucura tinha começado.
A nova residência era bem próxima da minha casa, podia ter se
mudado direto para o meu apartamento, pelo menos lá temos a Ozzy para
cuidar da gente, já que ela hackeou o sistema da minha assistente inteligente
com a ajuda de Lauren e agora Ozzy quase responde só a ela.
Obviamente eu poderia ter restaurado a programação original, mas na
verdade gosto de vê-la tomando seu espaço, reivindicando partes do
ambiente, se sentindo dona de mim como eu me sinto dela. Então, apenas
reclamo de todas as vezes que Ozzy aparece com piadas horrendas, ou me
responde com uma voz dissimulada da Sabrina, como se estivesse me
recordando o que a minha namorada pensa de determinado fato.
Tudo que ela tinha cabia em 7 singelas caixas, sendo uma delas
exclusiva para suas listas intermináveis. Na verdade, demoramos muito
mais tempo rindo das listagens estapafúrdias do que encaixotando o resto
das coisas.
Foi um dia de pouco trabalho e muito riso que terminou com ela
avisando às meninas e à Sra. Collins que tinha um novo endereço. E agora
estamos recebendo doações, presentes e ajuda para arrumar milhares de
coisas que ela não precisava há três dias.
Sabrina se sente querida a cada copo desconjuntado e prato
personalizado que recebe. Isso sem mencionar os colchões exagerados. Para
quê uma pessoa que vive sozinha precisa de 5 colchões de casal?
O apartamento é grande, é fato, duas suítes e um quarto, Heitor
enganou Sabrina sobre o preço do aluguel e pagou um contrato de 6 meses
adiantado. Claro que ele não faz ideia de que eu sei disso, nem pretendo que
descubra, mas se algum dia Sabrina sonhar que seu pai e irmão pagam bem
mais de dois terços da sua casa, eu acho que ela vai surtar.
A comida que a Sra. Collins envia todos os dias desde que
começamos as arrumações chega pontualmente ao meio dia. Strogonoff de
frango e macarrão desta vez. Abro as portas de cada um dos quartos até
encontrar Sabrina sentada no meio do chão, admirando a grande vidraça do
espaço que ela decidiu que seria seu escritório.
Ela nota minha presença e sorri para mim, feliz. Uma imagem
simples que enche meu peito de sentimentos exagerados.
— Vamos almoçar? A comida já está aí — convido, estendendo
minha mão para ajudá-la a levantar. — Pensativa? — pergunto beijando sua
boca de leve.
— Feliz. — Ela dá de ombros. — Eu acho. — Desenho seu lábio
inferior com o meu polegar num gesto de carinho e beijo seu nariz.
— Com um namorado desses, é ofensivo que não tenha certeza —
reclamo brincando e ela ri. Meu trabalho está feito.
— Vamos lá, namorado. — Ela aperta minha bunda, e beija meu
peito. — Eu tô com fome e não é de você.
— Nossa, você hoje acordou querendo destruir a minha autoestima
de verdade.
— Nem se eu fosse o Thanos[2] seria capaz desse milagre.
Finjo uma dor no peito, e ela beija minha mão.
A mudança nos aproximou de uma forma diferente, claro que
batizamos cada canto da casa enquanto estava vazia, e agora estávamos
confirmando nossa fé em cada parte finalizada, criando memórias entre
porcas e parafusos, tábuas e louça quebrada.
— Essa é a mesa que Anya mandou? — me questiona com as mãos
nos quadris, olhando para a caixa com a mesa alta e amarela que brotou na
casa.
Ela não deveria ter distribuído chaves pelas meninas, eu avisei, mas
não me deu ouvidos. A sala já parece uma garagem e todos os dias
aparecem mais coisas, para que ela decida se quer, se gosta, se vai usar, seja
permanente ou temporário e a mudança parece que não acaba nunca, porque
para cada caixa organizada, surgem outras 3 quando voltamos.
— Eu nem sei, achei que tinha sido a Emily.
— Não. A Em mandou as coisas do quarto. Você viu o papel de
parede que elas colaram? Gostei mais desse que dos outros.
— Já tem tanto papel de parede uns em cima dos outros que no dia
que você devolver para o apartamento pro dono, ele vai achar que era um
grande e insano cosplay de cebola, de tantas camadas.
— Essa é a última. Eu gostei. Aquele verde musgo era horrendo. E o
vermelho parecia um motel de quinta.
— Você foi pedir ajuda para Bia! O que queria? Você já esteve na
casa dela?
Sabrina parece perceber alguma coisa por um segundo e franze o
cenho, mordiscando o canto da boca.
— Eu nunca fui à casa de nenhuma delas, aquelas biscates.
— A casa da Bia parece um centro de práticas esotéricas, cheia de
penduricalhos pra tudo que é lado.
— Não me surpreende. Bia é sempre diferente.
— Diferente até demais.
— Falando mal de mim, seus ingratos? — Minha ex entra pela sala
com uma caixa de cerveja escorada entre a cintura e um braço, e uma Coca-
Cola no outro. — Vim ajudar.
— Quer almoçar? — Sabrina pergunta, já colocando um prato na
mesa de papelão improvisada. Já tem uma mesa normal na cozinha, mas
Sabrina prefere comer olhando a paisagem. Me ofereci para colocar uns
painéis na casa e ela quase gritou comigo. Aparentemente ela não é um
morcego, ou filhote de vampiro como eu, para ficar vivendo de luz artificial
ou escuro total.
— Eu não vim ajudar nisso. — Bia aponta para os sacos abertos e
caixas arregaçadas, transbordando coisas para o chão. — Eu vim ajudar,
nisto! — Tira uma caixa com plugs anais na mochila animada.
— Eu juro que não entendo porque acha que Bia pode te ensinar
melhor do que eu a dar o cu, Sabrina — reclamo enciumado.
— Você já deu o cu, Adônis? — ela pergunta debochada.
— Não, mas comi vários.
— Bia também.
— Verdade — ela confirma.
Me resigno a minha insignificância apenas por um momento e coloco
uma garfada mal-educada de macarrão encharcado no molho branco na
boca enquanto vejo Sabrina escolher um plug de metal com três bolas de
tamanhos nivelados. Balanço a cabeça, achando uma escolha errada e ela,
embora diga que não, acata.
Ela segura entre os dedos um plug com estimulador duplo, anal e
clitoriano com vibração e eu concordo.
Bia revira os olhos, tapando as opções ao entrar na minha frente, de
costas para mim, exibindo a bunda excelente que nunca é uma paisagem
ruim de apreciar. Me dedico ao meu prato enquanto elas se divertem
tentando me ignorar.
Sabrina decidiu tentar sexo anal no dia seguinte à nossa noite com
Sebastian. Desde então lhe dou uma tarefa todos os dias, para começar a se
abrir para mim. Não só anal, mas também de pompoarismo que ela adora e
faz mais do que o necessário.
No outro dia, cheguei ao apartamento e ela estava contando em voz
alta as contrações pélvicas com um plug pequeno enfiado no rabo e um ben
wa na boceta. Estava encostada de pé na parede enviando mensagens como
se nada se passasse.
— Lauren vai passar aqui hoje? — pergunto para o ar.
— Uhum, no fim da tarde, vai pegar carona com a Alisson. Ela disse
que não pode ficar muito tempo, mas vem descobrir o que a Emily vai
anunciar. Será que ela está grávida?
— A Em? — Bia se revolta. — Claro que não. Ela casa em alguns
meses.
— Eu não gosto daquele babaca.
— Claro que não. Você lá gosta dos homens de alguma de nós,
Adônis? Se manca.
— Ele é um idiota e você sabe. — Aponto com o garfo na direção
dela que dá de ombros debochada.
— Você também era e fomos felizes. Deixa ela.
— Em é diferente, Bia. Ela é…
— Uma flor de estufa frágil. — Revira os olhos pelas próprias
palavras. — Pois deixe que quebre a cara, nós vamos estar aqui para juntar
os pedacinhos se ela precisar, mas não incuta mais medo nela. A cabecinha
pensadora daquela ali já é um lugar de pura ansiedade.
— Tudo bem.
— Será que ela escolheu o lugar da despedida de solteira? Eu sugeri
uma viagem — Sabrina pondera.
— Vamos todos juntos? — Me convido imediatamente.
— Todos menos você — Bia alfineta.
— Vocês são muito chatas.
— É um programa de mulheres, Adônis — Sabrina se defende.
— Eu sei, eu amo mulheres.
— Ama é? — ela pergunta cáustica.
— Nenhuma mais que você — respondo rápido, deixando meu lugar
e abraçando sua cintura. Na sua mão um plug com controle wireless que
acho graça. Ela está levando a tarefa de estar preparada para outro patamar.
— Ele fala isso pra todas, Sabrina — Bia me dedura.
— Eu sei.
— E de todas era verdade, sua hárpia.
— Eu estou ajudando sua mulher a te dar o cu, tem certeza que quer
me insultar?
— Claro que não, Bianca, eu também amo você — respondo
sarcástico.
Ela apenas estala a língua em resposta, dispondo os acessórios
escolhidos por Sabrina em fila num pedaço de couro largo, com anéis para
organização.
Sabrina se levanta e pega uma garfada de comida do meu prato, o
dela e de Bia ainda intactos.
Alguém bate na porta, mas não entra e Sabrina se levanta para
atender. Sei que é meu irmão só de olhar para cara dela quando se vira
novamente, aquele é o tipo de vergonha espontânea e incontrolável que ela
só sente na presença de Sebastian.
— O que ele está fazendo aqui? — Ela articula os lábios sem nenhum
som.
Me dirijo até a porta e a abro de verdade, convidando-o a entrar.
— Eu acho que vocês ainda não foram apresentados formalmente:
Meu irmão, Sebastian.
O rosto de Sabrina parece sofrer de paralisia temporária, sua
expressão se desfaz de um ar aflito e constrangido para puro horror, como
se tivesse visto um fantasma.
— Irmão? — Ela pergunta numa voz esganiçada. — Mas Lenox, seu
sobrenome não… — Ela parece confusa ao recapitular as informações
básicas sobre nós dois.
— Não somos filhos do mesmo pai.
A realidade de que dormiu com dois irmãos parece se abater sobre
ela e de súbito me arrependo de não ter lhe explicado. Não imaginei que
fosse ser um problema, mas vendo o pânico no seu olhar e o nervoso se
espalhando pelo seu corpo é óbvio que me enganei.
— Não se preocupe querida — Bia a conforta. — Você não é a
primeira nem será a última impressionada pela dupla dinâmica.
— Está se sentindo bem? — Sebastian pergunta, incomodado com a
reação de Sabrina, me julgando em silêncio por não tê-la avisado. — Meu
irmão me pediu pra passar aqui, mas posso ir embora agora mesmo se
estiver desconfortável — ele oferece educado.
— Não. — Sabrina parece se recuperar do coma temporário. —
Entre, por favor — convida num fio de voz, imediatamente constrangida
num nível máximo por ter usado nossa palavra de forma leviana com
Sebastian.
— O quê exatamente eu estou fazendo aqui, Adônis? — ele pergunta
desagradado.
— Deixa de ser enfezado. Eu não posso ter saudades do meu irmão?
— Não quando deixa que ele seja soterrado pelo seu trabalho.
Inclusive, fui notificado de que vou te substituir na reunião de amanhã na
Alfatech, pela segunda vez consecutiva essa semana, mais algum pau que
você queira meter no meu rabo?
— Não que eu me recorde, mas vou anotar que ofereceu, tenho vários
interessados que pagariam um bom dinheiro pra comer você. Se é uma
habilidade, pode ser monetizado.
— Nossa, que engraçado, estou convulsionando de rir — me
responde apático.
Emily e Alisson entram cumprimentando a todos, inclusive ao
Sebastian, contrariado.
— Isso se parece como uma reunião de família — ele diz
massageando as têmporas de imediato. — Eu juro, Adônis, se você tiver me
chamado até aqui para testemunhar outro pedido de casamento, eu prometo
por tudo que é mais sagrado que saio dessa porta como filho único.
— Relaxa, do jeito que essa cachorra ajoelhou para você tão rápido,
eu ainda preciso bater muito nela até me comprometer com essa biscate.
— Eu agradeço se você não ofender sua mulher na minha frente,
obrigada. E guarde esse linguajar chulo para sessões em horas
determinadas.
As meninas riem atrás dele, tapando as mãos para abafarem as
risadas, Sabrina me fuzila com o olhar e meu irmão parece apenas cansado.
— Eu tive uma ideia e quero que vocês sejam os primeiros a vê-la.

Segurando cada um os seus óculos de realidade virtual, os cinco


estão calados, Sebastian parece impressionado. A nova experiência
imersiva em ambiente computadorizado que desenvolvi para o aniversário
do clube pode levar o Nox a outro patamar de consumo e revolucionar a
forma como prazer é experimentado no mundo inteiro.
Sei que Sebastian vai dizer que o lema do Nox é exclusividade, mas
fiz questão de apresentar um recorte diferente daquilo que já oferecemos.
Algo novo e arbitrário, irresistível e inaceitável.
Afinal, quantos milhares de pessoas adorariam poder desfrutar de
seus fetiches e fantasias na segurança da sua casa? E como eles se sentiriam
visitando finalmente um andar, construído especialmente para utilização de
recursos de realidade aumentada?
Depois que eu acabar o meu projeto, será difícil dizer o que é
realidade e o que é montado. A forma intrínseca como estou desenvolvendo
os programas e o cenário, é pensada nos mínimos detalhes para provocar
uma confusão agradável. Até os processos de luminosidade estão sendo
definidos para manter os reflexos cerebrais alerta e super estimulados
durante as sessões de imersão.
O novo andar de realidade virtual e aumentada vai tornar os nossos
painéis obsoletos e a exclusividade apenas um detalhe. Não estaremos
vendendo apenas um lugar para explorar segredos. Estaremos oferecendo
novos segredos a serem revelados e mantidos a sete chaves, guardados com
requinte.
Não seremos nós a impor cláusulas de sigilo e confidencialidade.
Serão as pessoas, ao abrir as portas da sua intimidade que se sentirão
obrigadas.
Eles começam todos falando ao mesmo tempo, as perguntas e
parabéns chovendo na minha direção fazem parecer que tenho mais que
uma mini plateia e é o grito histérico de Sabrina, ao ver algo atrás de mim
que me tira da sensação de estar dando uma palestra para a minha própria
família e me faz virar, curioso, e dar de cara com a dela, que conhecia
apenas das minhas pesquisas.
Cinco homens com sorrisos gigantes se acotovelam do lado de fora,
lutando por um lugar na linha de frente à porta.
— Alguém precisa de uma mãozinha? Eu trouxe dez para ajudar,
minha menina — o pai de Sabrina anuncia, abrindo os braços largos e
pesados. Ela se levanta mais rápido que a luz e se joga em seus braços.
— Surpresa! — os outros gritam num coro ensaiado.
— Aqui, meu filho. — Senhor Antônio me passa mais uma argola da
cortina, e Miguel aperta minha bunda, em cima dos seus ombros. O filho da
mãe está tentando me constranger desde que chegou. O pai olha para ele de
canto e o gêmeo ri, me sacolejando. Aperto sua cabeça entre as minhas
pernas e mantenho uma expressão neutra.
— As madames ainda vão demorar? Tem mais 8 cortinas para
colocar. — Noah chega carregando o cortinado espesso e pesado nos
ombros, parecendo uma noiva estranha. — Ô Heitor, não tinha uma casa
com mais janelas para alugar? A porra do apartamento tem mais janela que
chão! — ele reclama irritado.
— Olha a língua, garoto — Sr. Antônio vocifera em direção ao nada
garoto, de 28 anos, e o atinge com um sapato no meio da cara, que Noah
falha em desviar. — Boca suja.
Mais uma vez, Miguel ri, me sacolejando.
Davi, o outro gêmeo, que aprendi a distinguir em menos de 30
segundos, impressionando-os de cara, se oferece para ajudar.
— A Barbiezinha está cansada? Quer trocar com um homem de
verdade? — ele questiona. E a pergunta pode ter sido tanto para mim
quanto para Miguel, na verdade.
Essa é provavelmente a situação mais inusitada na qual eu estive nos
últimos anos. São duas da manhã e estamos pendurando cortinas e
montando os últimos móveis escolhidos, Heitor limpando tudo atrás,
quando fica pronto. O jetlag atingiu a família que nem uma bigorna e
ninguém consegue dormir de noite, o resultado é que estamos há quatro
noites na função de terminar de organizar o apartamento.
Quando eles disseram que iriam terminar tudo até sábado, eu não
imaginei que era hoje à noite. Perder mais um fim de semana no Nox com
Sabrina não estava nos meus planos, mas depois do seu pedido desesperado,
nem tentei tirá-la de casa.
Ela me apresentou como amigo e eu me apresentei como seu
namorado, desde então estou tentando não contrariá-la ou fazer nada
remotamente depravado na frente da família.
Ela parece outra pessoa. Introspectiva e pouco risonha, não parece a
minha Sabrina, quanto mais dias passam, mais vezes me deparo com ela me
encarando em silêncio, remoendo alguma coisa na cabeça.
Embora nunca tenha saído fisicamente do lado dela, existe uma
distância que nos separa e temos nos falado maioritariamente por whatsapp,
mesmo dentro de casa.
Ela quase teve um colapso, no outro dia quando a encurralei no
banheiro, de porta trancada, para perguntar se estava tudo bem com a gente.
Ela se sentiu acuada e preocupada que alguém pudesse notar e se perguntar
o que estávamos fazendo lá dentro.
A Sabrina que conheci agora, parece um reflexo da menina
encastelada que sempre foi, não a mulher que se tornou. Mas eu não disse
nada, nem pressionei, sei como é quando seus mundos colidem do nada. As
meninas também acamparam aqui.
Na primeira noite eu fui levado para longe com o pai e os irmãos de
Sabrina, achei que receberia uma prensa de uma família de machos
ciumentos. Pelo olhar de leve desespero de Sabrina me pareceu que poderia
ser uma situação problemática. Mas não, eu era apenas uma ferramenta, no
meio deles.
Sr. Antônio organizou as tarefas como se fosse uma missão militar, e
aparentemente, você sai do exército, mas o exército não sai de você, e nós
éramos apenas soldados às suas ordens. Claro que me sinto avaliado até
pela forma como seguro o martelo, mas tirando isso, todos são amigáveis,
excluindo o mais velho, o único fisicamente parecido com Sabrina.
Heitor olha para mim como se eu fosse um grande e complexo
enigma a ser revelado. Não tem hostilidade em seu olhar, apenas uma
curiosidade profunda. Parece que ele sabe algo que ninguém sabe, o tempo
inteiro. Ele exala uma quietude violenta, é intimidante do mesmo jeito que
Sebastian é dominante.
Enquanto meu irmão tem o dom de fazer com que todos queiram
obedecer a qualquer desejo seu para se livrar da energia opressiva e
exagerada que ele exala, Heitor parece do tipo que levaria seu tempo, com
paciência, arrancando suas camadas até que você cedesse por não te restar
nenhuma alternativa a não ser estar vulnerável na sua presença.
Os dois como Doms numa exibição seriam a viva imagem de uma
casa a arder. Eu não fui o único a sentir o poder dessa imagem. Bia foi a
primeira a notar, quando foi apresentada a Heitor eu percebi a respiração
dela se alterar. Nos comunicamos em silêncio e eu sei que ela ficou
impactada. Os dois juntos conseguiram criar um alvoroço instantâneo, ainda
que só entre a gente.
Talvez seja uma coisa de irmãos mais velhos. Uma sabedoria que só
os primogênitos são capazes de ter. Afinal foram os únicos a quem um dia,
foi dado tudo, sem restrições e, por isso tem esse ar de que o mundo lhes
deve alguma coisa, o tempo inteiro.
Como oficial da agência brasileira, não duvido que Heitor tenha
investigado tudo que rodeava a sua irmã. Não que ele fosse encontrar algo
sobre mim que não estivesse estampado em todas as redes sociais da
AlfaTech. Definitivamente nada sobre o Nox, mas é claro que ele sabe que
alguma coisa não está certa. Instinto, hábito, não sei. Mas finjo costume e
me faço de doido inocente, querendo ser aprovado pela família.
Sebastian fez questão de frisar que pareço uma putinha em busca de
aprovação, o que me deixa agradado, é exatamente isso que eu pretendo.
Termino de encaixar a última argola da cortina e Miguel
simplesmente me joga no chão como um saco de batatas, Sr. Antônio dá um
chute nele e reclama da má educação, eu rio.
Olho ao redor e realmente, já parece uma casa, até as caixas vazias
estão organizadas por tamanhos, umas dentro das outras para seguirem para
a reciclagem.
Sr. Antônio praticamente expulsou todas as mulheres do recinto, que
agora dormem na suíte principal. Todos três colchões uns ao lado do outro,
como um tatame, junto com Gael.
Ele também tinha sido surpreendido pela família, mas com uma
chamada de vídeo e a numeração da sua passagem. Chegou já bem perto da
meia-noite, no mesmo dia em que eles chegaram, com cara de doente e todo
machucado.
Alisson não arredou o pé desde que ele chegou e ainda se ofereceu
para cuidar de uns ferimentos do cara que foi dispensado do serviço militar
por invalidez, segundo o Sargento Marino, vulgo Sr. Antônio.
Nossas pizzas chegam. Heitor tira as luvas cor de neon e abandona o
balde e o pano, nós esperamos já sentados à mesa. Deus nos livre sentar no
chão. O Sr. Antônio parece achar que estar à mesa é um momento sagrado.
Inclusive, ontem eu fui o responsável pela oração e senti minhas entranhas
ardendo por dentro pela audácia. Deus devia estar se contorcendo no céu.
— E esse frio desgraçado? — Sr. Antônio entra reclamando. Ele
reclama do frio a cada 5 minutos, como se estivesse no Alasca e com o
tronco nu, mesmo que o aquecimento esteja ligado 100% do tempo e
estejam 24 graus aqui dentro. Acho que o frio é psicológico.
Não me atrevo a dizer que não está tão frio assim, porque ele coloca
as caixas na mesa e Noah joga uma latinha de cerveja para cada um de nós,
da geladeira.
— Você vai dormir na sua casa, rapaz? — ele pergunta olhando para
o breu lá fora e eu confirmo. — Um pouco perigoso sair sozinho a essa
hora, não?
— Que nada, eu estou acostumado.
— Por quê?
O silêncio que recai sobre mim é brutal, os irmãos esperando eu
vacilar para rir da minha cara, Heitor esperando que eu minta para
estabelecer minha linha de base e poder me analisar melhor e Sr. Antônio
me desafiando a dar uma resposta que ele não goste.
— Eu trabalho com computadores, a internet não dorme, e quando
dorme, as pessoas perdem dinheiro. Eu não tenho horário — respondo
pacífico.
— Compreendo. De qualquer forma, um dos meninos pode te
acompanhar até sua casa — ele fala como se tivesse organizando uma saída
de crianças de 7 anos de idade voltando da escola a primeira vez sozinhos.
— Eu posso ir. Assim você pode me mostrar aquele lance lá! —
Noah se oferece. Ele trabalha como tagger[3] para um serviço de streaming
global, ajudando a construir bases de algoritmos que permitem que as
indicações do que o cliente vai assistir sejam baseadas em coisas que ele já
mostrou ao sistema que gosta. É uma programação simples e eficaz e
quando lhe falei de Ozzy, o rapaz parecia ter encontrado uma mina de
diamante em mim.
— Então eu vou também — Miguel decide e se oferece. — Também
quero ver.
O gêmeo pegou umas dicas comigo esses dias para desenvolver
jogos, ele além de estar trabalhando para Leona junto com Sabrina no
projeto da nova linha editorial, faz parte de uma equipe de desenvolvimento
de jogos. Escreve os roteiros, mas entende pouco da dinâmica de
funcionamento técnico e parece bem interessado em aprender.
Nós três nos demos bem de cara, ninguém diria que os conheci há
poucos dias, de longe parecemos uma família, disfuncional, como qualquer
uma que se preze, mas uma unidade, como não poderia deixar de ser.
— Muito bem — Sr. Antônio decide. — Vocês podem dormir lá. —
Ele oferece minha casa como se fosse a dele e eu não o corrijo, achando
engraçado. — Não precisam voltar em tempo para o almoço, eu vou levar
as meninas ao shopping de tarde. Vocês podem dispersar e descansar.
Depois de amanhã… — Ele olha o relógio vendo que hoje já é manhã de
sábado. — Amanhã é domingo. Já está tudo organizado — se refere à casa.
— E nós vamos mostrar ao rapaz, um almoço de domingo da família
Marino. Se ele vai fazer parte da família… — Ele me olha desafiador. — É
melhor que se acostume desde já.
Todos batemos uma continência debochada.
— Traga seu irmão e seus pais, rapaz.
Se eles já não tivessem conhecido Sebastian, eu me sentiria tentado a
dizer que morreram todos num acidente de carro. Sebastian me matará por
precisar vir e imaginar Louise Etienne interagindo com os Marino faz os
pelos da minha nuca gritarem.
— A minha mãe está fora do país, mas meu irmão será convidado,
claro.
Sr. Antônio acena apenas, concordando. Deixando de lado o fato de
que não mencionei um pai. Meu irmão vai me esganar pelo menos umas
três vezes quando descobrir que sua presença é requisitada em um evento
familiar.
Ontem, Sr. Antônio o convidou para lanchar quando veio trazer um
armário, por livre e espontânea pressão e ele respondeu firmemente que
ficaria para a próxima, mas completou apenas para que eu ouvisse “próxima
encarnação”.
— O que há de errado com você hoje? Tá com a cara emburrada.
Adônis aprontou alguma coisa? — Lauren pergunta, segurando um vestido
amarelo em frente ao corpo e verificando o tamanho pelo espelho.
— Eu não sei, tô me sentindo, sei lá… — respondo realmente
confusa e Lauren se aproxima.
Me sento num puff e ela senta ao meu lado. Esfrego as mãos no rosto
me sentindo cansada, consciente do seu olhar cauteloso sobre mim.
— Falta de sexo — Bia sugere, espreitando sobre a cortina, ouvindo
a conversa. — Você estava num processo de iniciação que foi interrompido.
É normal que fique toda irritada.
— Ou isso… — Lauren aponta para Bia. — Ou ela está se sentindo
oprimida pela quantidade exacerbada de machos alfa por metro quadrado
pelo apartamento que ela recém ocupou e ainda não teve um segundo de
privacidade. E ainda tem a gente — completa franzindo os lábios. — Que
não estamos ajudando, aparecendo lá todos os dias. Ela precisa de espaço.
Era isso. Eu preciso de espaço. É um fato.
Preciso de espaço para me encontrar sozinha com essa sensação
estranha de ver Adônis amigo dos meus irmãos, aprovado pelo meu pai, que
me disse que ainda bem que eu encontrei um cara aceitável.
Ele decidiu isso quando? Como? A vida toda ninguém era bom
suficiente, aí eu me mudo para o outro lado do oceano e de repente aparece
Adônis, montando meia dúzia de paus e parafusos e já é considerado o
príncipe encantado?
— Eu me sinto como a tocha olímpica, uma responsabilidade passada
de mão em mão. Tinha tempo que eu não me sentia assim, e não gosto. —
Sou o mais sincera possível.
— Quando eles forem embora tudo vai voltar ao normal, relaxa. —
Lauren tenta me apoiar.
— O Adônis se sentiu muito confortável, sabe? Meu pai já nem
pergunta as coisas para mim, pergunta para ele, e só passaram uns dias, ele
nem sequer mora comigo! É tanto machismo junto que me dá urticária. —
Mostro os antebraços empolados, da alergia nervosa que já não aparecia na
minha pele desde que eu era criança.
— Você não acha que está exagerando um pouquinho? — Bia me
olha de lado, satisfeita com o reflexo no espelho.
— Meninas! — Meu pai fala lá de fora, atrás da cortina de entrada e
eu respondo para que fale. — Eu vou tomar um café no quiosque aqui ao
lado e ligar pros meninos para começarem a fazer o jantar. Mais uma hora e
vamos embora, ok? — ele ordena, como se fossemos meninas levadas a
passear numa tarde sem aulas, e eu amo meu pai, mas odeio essa
condescendência com que ele me trata.
— Não, eu não acho que esteja exagerando nem um pouco, Lauren.
Nem um pouco — repito, cansada, sentindo um gosto amargo na boca,
porque sei como reajo quando algo me intimida. Eu fujo. E minhas pernas
já estão com a roupa de sair correndo.
“Preciso conversar com você” envio a mensagem para Adônis que
me responde no imediato.
“Seu pai já me avisou, daqui a uma hora jantar. Estarei lá :)”
“Não. Eu não quero que você vá hoje, Adônis. Quero ficar sozinha
com a minha família.”
“E eu estou sendo expulso da família, por quê?”
“Não faça isso mais difícil do que já está sendo. Eu preciso pensar.”
“Mas você quer conversar ou pensar? Não que você não possa fazer
os dois ao mesmo tempo. Estamos com problemas? Isso ainda é sobre o
Sebastian?”
“Ainda não acredito que dormi com seu irmão.“
“Se teve uma coisa que você não fez aquela noite, foi dormir.”
“Não tem graça.”
“Ok. Eu tô de castigo então, é isso? Colocado no banco de reserva
familiar até você parar de se sentir ameaçada enquanto finge que não está
acontecendo nada e evita conversar comigo como uma pessoa normal.”
“Isso.”
“Tá bem.”
Meu coração se afunda um pouquinho no peito, mas não respondo
mais nada. Dois minutos depois chega mais uma mensagem:
“Já acabou o castigo e podemos conversar? Porque eu já tô ficando
preocupado.”
“Eu te encontro hoje de noite. Vou até sua casa.”
“Você está escondendo algum gogoboy de mim? Por que eu não
posso ir à sua casa?”
“Porque eu quero te ver sozinha, Adônis.”
“Você está ficando uma ninfomaníaca bizarra, não consegue ficar
nem uns dias sem transar que já fica desesperada.”
“Não tem graça.”
“Te espero.”
Mais uma vez não respondo e ele manda outra mensagem.
“Quer que eu te espere nu, ou prefere tirar minhas roupas você
mesma?”
Ao não receber nenhuma resposta ele mesmo se responde.
“Ok, sua tarada, te espero pelado. Até mais.”
Meu silêncio o incomoda e ele tenta ser engraçado:
“Se precisar de ajuda, pisque duas vezes.”
“Ok. Ok. Piscar não é bom. Me envie sua palavra de segurança
seguido de jogo da velha.”
“Você está me deixando angustiado.”
“Te vejo mais tarde, Adônis.”
Envio e desligo o celular.
— Você vai terminar com ele? — Lauren pergunta alarmada,
seguindo toda a conversa, mesmo que a tela do meu celular estivesse de
cabeça para baixo.
Não respondo porque tenho receio de dizer em voz alta, as palavras
que vão desfazer esse nó, cada vez mais apertado na boca do meu
estômago, e grita todos os tipos de alerta na minha direção.
Eu vou terminar com o Adônis?
A verdade é que só vou descobrir quando o encontrar.
A caixa preta em minhas mãos quer dizer duas coisas. Que eu
consegui, e que eu fracassei. Consegui que Sabrina colocasse finalmente
seus pensamentos em palavras, fracassei em ver o rumo que nossa relação
estava tomando.
Nenhum dos papéis escritos com letras redondas e desenhadas que
ela me entregou é sobre nossas sessões no Nox, como combinado. Ela
escolheu essa forma para narrar cada um dos seus medos. De todas as vezes
que sentiu e eu não vi.
Eu a abraçaria, se seus olhos já não estivessem inchados e chorosos.
Eu a beijaria, se seus lábios não estivessem tremendo. Eu treparia com ela
até que esquecêssemos de nossos próprios nomes e os problemas e medos
não passassem de uma realidade distante, se ela tivesse um único olhar de
dúvida. Mas ela não tem e está quebrando por dentro.
Eu viveria mil e uma vidas ao seu lado, mas nessa, ela está
escolhendo o caminho contrário e as lágrimas que escorrem dos meus olhos
não são extensão dos meus sentimentos, são reflexos do dela, porque não
importa que eu sinta que ela está se arrancando de mim com força bruta,
importa que nela também está doendo.
Eu sei lidar com a dor, ela tem sido uma boa companheira durante
anos. A dor é gentil e agradável, às vezes ela é a única coisa que te diz se
você está vivo ou morto. E sempre que eu me perdia, ela me dizia “Você
ainda está aqui” e isso era tudo que eu precisava saber naquele dia.
Hoje, vendo a dor contraindo os olhos de Sabrina, tensionando seus
músculos e perturbando sua cabeça, eu sei que vai passar, mas apagaria
todos os dias que passamos juntos das nossas memórias para evitar ser
apresentado à dor como uma desconhecida. Essa dor não é minha amiga,
ela não me diz que eu estou vivo, ela me faz ter vontade de morrer.
Continuo lendo uma a uma, notando as palavras manchadas por suas
lágrimas, as pernas de Sabrina balançando ansiosas, quebrando o silêncio
ao nosso redor.
Eu não falei nada, não comentei, não respondi, algumas respostas não
se imprimem em palavras e eu sinto que qualquer coisa que possa dizer vai
apenas afundá-la ainda mais em dúvidas e incertezas.
Algumas batalhas nós temos que lutar sozinhos e a luta contra a
covardia cabe apenas a Sabrina. Ela quer que eu lhe peça que fique, que
prometa que vai ser bom, mas eu não posso fazer isso, provavelmente
estaria mentindo.
— Eu entendo — digo apenas. E ela se levanta do sofá.
— Entende mesmo? — O fio de voz rouca tem dificuldade em sair da
sua garganta, como se cada uma das palavras precisasse ser forçada através
das cordas vocais. — Me desculpe, por favor — ela pede, mais lágrimas
escorrendo, marcando seu rosto lindo e triste.
— Eu desculpo. — Seus olhos piscam rápido. Ela definitivamente
não esperava pela minha reação ou falta dela.
— Eu não sou a pessoa que você procura, Adônis.
— Não é. — O olhar magoado e ofendido diz mais sobre ela do que
todos os papéis que eu acabei de ler. Ela precisa desesperadamente que eu
lhe dê razões para ficar, mas não entende que nunca lhe dei nenhuma para
ir.
— Eu pensei que você me amava — me desafia, desgostosa, como se
a ficha tivesse caído e sei que por uns segundos ela pensou: “Sempre soube
que era tudo mentira”.
— Ninguém ama sozinho, Sabrina. E por mais certo que seja meu
amor por você eu não posso amar por dois para sempre. Se vai me deixar
sozinho, fazer de mim um estranho todas as vezes que não tiver a coragem
de colocar a mão na minha e conversar… Você está certa. Você não é a
pessoa que eu procuro. Eu quero alguém que me transborde, não que me
esvazie na primeira oportunidade.
— Eu te amo, droga! — Suas mãos estalam nas coxas. — Eu tô
completamente apaixonada por você — ela me acusa, apertando os dedos
em punho, como se não pudesse suportar aquela verdade. — Mas eu não
posso. — Ela ganha fôlego, como se ar nenhum fosse suficiente para o que
precisa dizer. — Eu não quero outra corrente na minha vida. — Ela começa
a andar em círculos, incapaz de me encarar. — Te ver com a minha família
me fez perceber o quanto eu procurei em você, justo você, o conforto do
conhecido. — Seus dedos aflitos alcançam às raízes dos cabelos. — Eu
reclamava de ser presa, de ser protegida, mas essa era a vida que eu
conhecia, e na primeira oportunidade que eu vi de manter a normalidade, eu
fui logo assinando um contrato.
Ela se aproxima incapaz de manter a distância, cada metro entre nós
cobrando seu preço.
— Você se entranhou em mim de um jeito que eu acho impossível de
tirar, mas tem tanta coisa que eu quero fazer antes de me dedicar a uma
pessoa, a uma família. Não me entenda mal, eu quero isso tudo com você,
mas não agora, nunca agora. E seu forte não é esperar. — Uma de suas
sentenças mais injustas. Me levanto, para que ela seja obrigada a falar
olhando nos meus olhos. — Daqui a um ano, se tudo correr como o previsto
você já vai ter me esquecido e eu vou continuar perdidamente apaixonada
por você.
Mordo a língua para não comentar as habilidades de vidência que não
constam no seu currículo.
— Hoje, só hoje, eu escolho o mundo, Adônis. — Ela dá um passo
para trás quando eu me aproximo demais. — Me desculpa.
Apenas o som das nossas respirações fica entre nós e o meu desejo de
esganá-la, claro. Mas trinco os dentes impedindo meus pensamentos de
passarem pela boca.
— O que foi? — pergunto, sabendo perfeitamente que ela espera que
eu diga alguma coisa.
— Nada — responde desgostosa.
— Se você está esperando que eu te convença a ficar comigo, você
está muito enganada — digo sério, e ela se retrai, magoada. — Eu amo
você. Eu quero que você seja minha mulher. Eu quero dividir a vida com
você e eu também estou perdidamente apaixonado. Eu tenho certeza que eu
te amo e vou te amar pra sempre, porque eu só sei amar desse jeito.
Enlaço minhas mãos no seu pescoço, os polegares apoiados no
desenho do maxilar delicado.
— Eu amo trepar com você, claro, mas você sabe que eu posso
conseguir sexo em qualquer lugar, e muito bom, diga-se de passagem. —
Ela desvia o olhar, como se renegasse essa imagem. — É sobre você. Sobre
a sua companhia. Sobre a sua voz. Sobre seu gozo, sobre seu cheiro.
Sinceramente? É até sobre a sua capacidade ridícula de ficar envergonhada
por qualquer coisa idiota. Eu amo tudo sobre você e queria viver isso pra
sempre. Se isso não é amor, eu acho que talvez meu sistema esteja com as
configurações erradas. — O peito dela incha, não sei se de coragem ou
pesar. — E essa certeza que eu tenho, é absoluta, não cabe nada entre mim e
ela. Você também vai saber quando acontecer com você. Não vão restar
dúvidas. Só a convicção de que você pode pular e errar, mas vai valer a dor
da queda.
Tiro as mãos dela porque o toque da sua pele me desconcentra. E
esfrego as mãos nas calças querendo me livrar do seu calor.
— Eu amo todas as minhas ex-mulheres, Sabrina — recordo-a,
irritado. — O amor nunca acabou, somos amigos, o sentimento está aqui.
Mas você? Eu sinto que quando você me virar as costas eu não vou lembrar
como voltar pra casa. Eu não vou saber qual o meu lugar na cama. Eu nunca
mais vou me sentir confortável num sofá sem seu corpo enroscado do meu.
Sem sentir seu cheiro na minha roupa. Sem poder dar uns tapas nesse rabo
quando você me desafia e eu adoro. Sem nunca ter me ajoelhado para você.
Me dói saber que você vai fazer tudo isso com outras pessoas, mas eu
também entendo o que é querer o mundo. Ver. Conhecer. Explorar. Nós
poderíamos fazer isso tudo juntos, você sabe, mas você me disse que não
com essa consciência e há poucas coisas debaixo deste céu que são tão
sagradas para mim quanto um não. O não não exige explicação. Ele apenas
é. E eu aceito. Eu te amo, e eu ainda vou te amar quando quiser voltar. Se
você precisa que o tempo passe pra ter essa convicção … Esperemos.
Meu olhar é terminante, mas queria que ela gritasse, que reclamasse,
que fizesse alguma coisa, tivesse alguma reação, mas não, o medo é maior e
vence. Sabrina se aproxima de mim por puro hábito e chega a se inclinar
para me beijar, mas se retrai como se eu desse choque, consternada pelo
impulso.
Você pode querer ir embora, mas seu corpo quer ficar.
Com movimentos lentos, a cabeça cozinhando nas palavras que
foram ditas, e os olhos levemente assustados, Sabrina me dá as costas, fecha
a porta e sai.
E eu deveria ser o cara maduro que entende a jovem mulher com
problemas de cabeça que arrumou, mas assim que o clique da porta se faz
ouvir, encaro o chão e respiro fundo, tentando conter meu temperamento a
ponto de se alterar.
O espaço infinito que ela deixa com a sua ausência comprova cada
uma das minhas palavras. E quer saber? Maturidade de cu é rola.
Minha energia se renova e vou até a porta com raiva, pisando fundo,
e soprando o ar entre os dentes. Minhas células começam a vibrar diferente
com o toque de violência brotando.
Ela foi embora depois de eu me partir ao meio e me arrastar pelo
chão da vulnerabilidade. E se diz apaixonada? Eu vou mostrar para ela, o
que é apaixonado.
Essa…
Mal puxo a porta para trás, Sabrina tropeça para dentro de casa, como
se estivesse de costas lá, se mantendo conectada ao único pedaço de mim
que ainda sobrava. O lado de fora da porra da porta. Ela quer se obrigar a ir
embora, e ela pode ir, se conseguir. Mas eu não vou facilitar. Ela devia ter
corrido enquanto era tempo.
Ela inspira com força e sem um pingo de gentileza a empurro contra
a porta aberta. Engulo qualquer que seja a reclamação que sua boca ensaia
antes que seja capaz de falar. Meus lábios imprimem angústia na sua boca,
seu beijo tem um gosto estranho de última vez e pressa para acontecer.
O pensamento de que posso nunca mais beijá-la de novo arranha meu
peito por dentro e esmago a sua boca, aprofundando o beijo, procurando
espaço, chupando sua língua. Minha mão se entranha nos cabelos soltos e
domina seus movimentos. Presa. Minha. Agora e sempre. Filha da puta. Eu
odeio essa cachorra.
— Você deveria apanhar — sussurro, meia boca ainda na dela, os
dentes repousando em seu sorriso, impedindo-a de falar.
Não quero ouvir mais merda nenhuma que não sejam gemidos e é
isso que ela me dá.
— Mas eu não vou fazer isso — explico, chupando sua língua,
lambendo a sua boca, mordendo seu sorriso. Uma arrogância irredutível
brota nas minhas palavras. — Você não merece. — É tão mais fácil
conversar com ela quando são nossos corpos que se falam. Afundo o rosto
no pescoço quente, a pulsação latejando na minha língua. — Você merece
ser usada, reivindicada, estragada para todos os que vierem depois de mim.
— Sim. — É sua resposta e seu pedido, que eu aceito e acato, como
um animal ferido e faminto.
O sangue corre no meu corpo na mesma velocidade com que arranco
as suas roupas e jogo as minhas longe. Alucinado. Cada um dos meus
toques densos, procurando se saciar e mitigar a sensação fantasma de
privação com voracidade. Ela ainda nem saiu daqui e eu já estou em crise
de abstinência.
Seguro seu corpo pela nuca e pela coxa macia que se enrosca na
minha cintura. Levo-a até à mesa, com os olhos grudados nos meus,
hipnotizados, me dizendo todas as formas de adeus. Eu poderia levá-la para
a cama, mas não me permito ser generoso o suficiente para que se despeça
de mim com conforto.
Mordo o topo do seu seio direito, arrancando um gritinho
desarticulado que se quebra quando lambo minha marca logo em seguida. A
língua quente e mesquinha desenhando seus traços com impaciência.
Descanso o peso da minha mão em seu quadril e os olhos escuros me
queimam, fervendo minhas entranhas, acompanhando a outra mão que sobe
pelo abdômen liso e percorre o vale entre seus seios inchados até apertar o
pescoço frágil.
O arquejo delicioso dilata meu desejo. A ondulação impaciente e
maligna do corpo sob o meu faz pedidos a que não tem direito. Raspo a
virilha na sua pele escorregadia, rebolando devagar contra sua entrada. A
lubrificação antecipando a resposta à pergunta que mesmo assim faço:
— Você está pronta para mim, cachorra? — Meu tom é
intencionalmente erótico e raivoso. Quero que ela exploda de desejo antes
de conseguir articular outro não hoje.
Sua resposta é rápida e impetuosa, Sabrina agarra a beirada da mesa
com as duas mãos e se enterra em mim com força, provocando um calafrio
que começa no meu pau e se espalha por todo meu corpo. Filha da puta.
Filha de uma grandessíssima puta. Mil vezes puta.
Ela brinca com a ponta da minha rigidez, perfeita nos exercícios de
pompoarismo, me engolindo e me expulsando, do jeito exato que eu
ensinei, me mantendo seguro pela cabeça volumosa e dilatada, rebolando,
se exibindo, me provocando orgulhosa.
Uma visão que me faz efervescer de tesão e ser atravessado por um
nível de desejo tão esmagador que deixo que arranque de mim seu próprio
orgasmo, desfrutando da vista com uma paciência imaculada que apenas
muitos anos mantendo o controle podem proporcionar.
Com segundas intenções, permito que ela me use como o prostituto
que um dia achou que eu fosse, que talvez ainda ache. Gotículas de saliva
estalam da boca aberta, tentando em vão não gritar. Ela trinca os dentes uns
nos outros, estrangulando os gemidos conforme a sensação intensa a
domina.
Empurro fundo, rápido e curto depois das suas pernas afrouxarem o
aperto, apenas para prolongar seu tormento e dessa vez ela geme alto,
descontrolada, seu corpo ainda se satisfazendo do orgasmo que se espalha
pelo corpo inteiro. Memorizo o efeito de cada um dos seus tremores, como
se nunca mais fosse vê-la.
— Eu quero que você me foda devagar dessa vez — pede com os
olhos vidrados e cansados, ameaçando se fecharem.
Um desejo sadista e corrosivo se apodera de mim e a giro sem pausas
para recuperar, ela pode fazê-lo em casa, quando me abandonar.
Coloco-a de bruços na mesa, segurando sua bunda com força e
abrindo-a para mim. As pernas contraídas e esticadas no limite, apenas os
sapatos ainda em seus pés, as únicas peças que não arranquei do seu corpo.
Com dois dedos penetro a boceta gozada sem aviso e sinto seu corpo
tentando emendar um orgasmo no outro, ameaçando convulsionar. Empurro
suas costas, forçando-a contra a superfície dura e escorregadia com seu
suor, a bunda se empinando por reflexo, completamente à minha disposição.
Minha voz transborda de malícia:
— Para quem não queria dar o rabo por nada, você está suplicando
para ser preenchida. Você é sempre assim, não é? Negando prazer aos
outros e a si mesma até não poder aguentar mais um segundo da própria
hipocrisia.
Com o polegar, testo suas terminações nervosas numa massagem
sórdida e vulgar enquanto ela rebola na outra mão com apetite.
— Pessoas fariam filas pra te comer desse jeito. Mas você não ia
deixar, não é? — Ela apenas arfa em resposta, parece estar procurando
sinais da sua consciência por um segundo ou dois para conseguir falar.
— Não.
— Porque você é uma cachorra egoísta.
— Sou — confirma com dificuldade, e tenho a impressão de que
concordaria com qualquer merda que eu dissesse nesse momento.
— Mas é minha. — Retiro meus dedos de dentro dela, e estalo um
tapa na boceta encharcada, mantendo um ritmo lento e relaxado na mão
direita, que gira o polegar naquele ponto pouco explorado.
— Até o último fio de cabelo.
— Muito bem, cachorra.
Tiro as mãos dela e aperto a minha ereção antes de pressionar a
glande no seu cu. Com o rosto pressionado no tampo da mesa, a boca aberta
gemendo sem pausas, afundo novamente meus dedos na sua boceta e me
enterro completamente no seu núcleo de prazer, admirando a visão visceral
de vê-la ser duplamente penetrada, numa lentidão desesperadora, mas sem
parar um único segundo. Ela pode aguentar. Ela vai aguentar.
Seus gemidos se convertem em gritos entrecortados, ecoando um
prazer primordial que vibra caótico entre a gente. A bunda e as coxas
molhadas de uma mistura inebriante de suor e gozo molhando a minha pele.
Cada investida uma despedida conturbada. Cada estocada impiedosa,
um atentado imoral à minha própria sanidade.
Eu poderia fodê-la por horas até conseguir expurgar minha
necessidade cáustica de possuí-la de todas as formas. Mas eu ainda amo
essa cachorra e quando ela cruza a linha tênue entre o prazer e a dor,
desesperada por libertação, permito que a tempestade sexual nos
envolvendo se dissolva num gozo intenso, sincronizado e prolongado.
— Todas as vezes que outro filho da puta estiver dentro de você, é
um eco de mim que você vai sentir — declaro, ciumento e possessivo,
como nunca me vi ser.
Sentada num copo de coquetel gigante cheio de bolas de espuma
macia imitando o champanhe, já há 3 minutos que me pergunto que raios eu
estou fazendo aqui.
Descanso a cabeça na extremidade do copo, me deitando
completamente como se fosse um sofá, admirando a decoração da festa:
cadeiras dos mais diversos tamanhos e formatos imitando bebidas variadas,
desde pequenas xícaras que nada mais são do que bancos até divãs luxuosos
que comportam várias pessoas disfarçado de grandes tigelas.
Copos altos como o meu, proporcionam uma visão privilegiada do
ambiente e faço uma nota mental de convidar as meninas para virmos juntas
numa noite mais relaxada como essa.
Eu não conhecia esse andar. É diferente dos outros. Praticamente um
salão de chá erótico. Não perde a identidade do clube, mas parece uma
versão mais suave de tudo que ele tem para oferecer.
Fugi de Adônis assim que pude e ele permitiu. Saí pela porta, mas o
olhar magoado e o tom das suas palavras veio comigo por todo o caminho
até aqui.
Eu podia ter voltado para trás quando ainda estava saindo do
elevador, quando entrei no metrô, quando sai na rua. Já estava me
arrependendo de ir desde o momento em que me levantei da nossa cama.
Porque era isso, não era? Por muito que eu dissesse que queria fazer e
acontecer, nada era maior que a realidade.
O fato era que eu estava enredada. E era presa no meio dos seus
braços que eu queria estar de verdade. Precisava de um lugar neutro para
pensar. Não queria simplesmente ir para casa descansar e deixá-lo lá
remoendo minhas palavras, nossa conversa, nossa transa.
Sentia que no mínimo tinha que ficar me sentindo tão mal quanto ele
por prolongar essa perturbação mais do que o necessário. No fundo eu sei
que se ele quisesse me manipular para ficar, teria conseguido sem esforço,
mas como sempre, ele só foi honesto comigo e me deixou escolher o que
fazer, deixando sempre claro tudo que eu estava abrindo mão, como não
podia deixar de ser.
Meus pés me trouxeram até o Nox e não havia nenhum lugar menos
neutro que esse. Por alguma razão me sentia confortável aqui, segura.
Sempre que pisava no clube tinha a sensação de que guardava um segredo
da sociedade.
Cada canto do lugar fazia minha vontade de correr de volta para ele
aumentar. Eu ainda estava com medo de abdicar dos meus sonhos por uma
relação que podia acabar a qualquer momento. Que podia acabar quando a
paixão passasse. Mas se fosse para ser, não deveria estar doendo.
Ainda não era hora de estar sofrendo. Todas as coisas que achava que
fossem escolhas que queria fazer, agora se empilhavam numa lista
interminável que eu estava fazendo de passo a passo de contenção de surto,
para não repetir.
Desde as palavras do meu pai, basicamente me entregando no colo de
Adônis como se passasse o bastão da responsabilidade em frente. A forma
como meus irmãos o acolheram, e no fundo, agora entendo que senti
ciúmes.
Eles sempre me amaram, mas aquela irmandade, o senso de
igualdade e camaradagem que os vi ter com Adônis que era um completo
desconhecido até então, ocupando um lugar que eu nunca tive, mexeu
comigo.
Talvez eu tenha chegado perto de algo parecido com Gael, mas Gael
sempre foi um forasteiro na família, talvez por isso nos entendêssemos tão
bem. Também me ressenti por Heitor, ele sempre me fez sentir como se eu
não pudesse fazer coisas erradas, como se não pudéssemos reclamar.
Honrar meu pai e sua escolha de nos manter, mesmo sabendo que
éramos filhos de traições da minha mãe, foi um peso que partilhamos desde
cedo. E de alguma forma sempre tive medo de decepcionar, me escolher
primeiro, medo de ser mimada, depois perder, de ser criança, de ser rebelde.
Eu não podia, não é? Não tinha esse direito. Não era culpa dele ser o
filho perfeito e querer que eu fosse igual. Era seu jeito de reconhecer amor,
fazer tudo certo.
Mas Adônis fazia tudo errado. Desde as coisas que falava, o modo
malandro como se comunicava e como fazia todo mundo se sentir
demasiado à vontade. Nada disso incomodou Heitor. Eu tinha que me
esforçar para fazer parte da minha própria família, meus irmãos e meus pais
precisavam ser impressionados, mas Adônis, que tinha acabado de chegar,
não. Ele ficaria comigo, porque deveria ser mais fácil?
Eu não merecia que ele se esforçasse por agradar como eu me
esforçava?
Claro que eu sei que isso foi tudo surto, fruto das vozes incoerentes
da minha cabeça e não faz o menor sentido. Eu sei que meu irmão deve
estar revirando até o tipo de calcinha que Adônis pode ter comprado para
mim e eu estou torcendo que ele não seja tão bom assim e tenha descoberto
o Nox, embora no fundo eu saiba que ele sabe. Por isso seu olhar estava
diferente, curioso, enigmático.
Eu sei que o Adônis é simplesmente uma pessoa apaixonante e
agradável, minha família apenas descobriu o que eu já tinha comprovado, e
verdade seja dita, demoraram mais do que eu a se render a ele.
E meu pai viu uma oportunidade de ter alguém para azucrinar sobre
cuidar de mim, porque passasse o tempo que passasse, eu sempre seria sua
menininha. E o Adônis, coitado, foi pego no fogo cruzado das minhas
inseguranças infantis e enraizadas quando eu surtei não sabendo lidar com
elas.
Agora estou aqui, assistindo o show da noite, sem de fato ver nada,
balançando as pernas na borda do copo, sentada, entretida, arrependida, me
sentindo patética por nos fazer passar por isso. Mando uma mensagem para
Gael dizendo que vou passar a noite com Adônis e chego com ele para o
almoço de Domingo.
Sinto alguém tocar na minha mão e é Owen, o idiota do ex-marido de
Lauren. Retiro a mão com força, me reposicionando no copo, tentando sair
com elegância e ficar em pé. Se esse estafermo me irritar hoje, enfio um
soco na cara dele. Olho ao redor já procurando os seguranças e encontro
três sem me esforçar, ele não seria maluco de tentar alguma coisa aqui
dentro.
— Passeando sozinha, princesa? — ele pergunta, segurando meu
braço. — Seu dono já te chutou? Já pegou a próxima cadela para chamar de
dele? — A voz se arrasta com asco, a cara de nojo evidente, o tom
venenoso.
— Seu caso é de hospício, Owen. Supera! Me larga — aviso,
puxando o braço.
Na minha visão periférica vejo Leona e me distraio. Primeiro acho
estranho, depois vou em sua direção. Chamando-a. Ela anda apressada.
— Leona! — Deixo Owen para trás e a sigo. — Leona! — repito
algo, tentando me fazer ouvir ainda que a música esteja alta. Ela se vira e
me vê, sorri para mim.
— Sabrina — me cumprimenta, como se nos encontrássemos ali
todos os dias.
— O que você está fazendo aqui? — pergunto de súbito porque a
curiosidade vence a boa educação.
Sebastian aparece pela porta imediatamente atrás dela e me retraio,
como sempre na sua presença. Engulo em seco e minhas pupilas dilatam.
Leona analisa a minha reação com cuidado e franze os lábios.
— A que devo a honra de receber a visita da minha mulher, depois de
5 anos fora de casa? — Sebastian anuncia, e as minhas costas se retesando
são apenas um reflexo da reação de Leona, que se vira para ele com uma
fúria contida.
— Você mandou os papéis de volta, sem assinar — o acusa,
simplesmente.
— Se acha que eu vou assinar aquele monte de merda, só pode estar
louca. Procure um terapeuta, eu mesmo pago.
Meu cérebro apita que nem uma chaleira observando a interação
inusitada. Mulher? 5 anos? Meus Deus. Mulher? As frases já se atropelam
na minha boca querendo saber tudo que está acontecendo.
Mulher? Que nem em marido e mulher? Não pode…. Um
entendimento me pega de surpresa. Eu dormi com irmão do meu namorado
que é marido da minha patroa? Tapo a boca escandalizada, querendo matar
o Adônis. Ele me paga.
Leona e Sebastian se afastam juntos, brigando num tom amigável
como se discutir fizesse parte da sua rotina e eu ainda estou de boca aberta
quando eles fecham outra porta atrás de si e me deixam para trás
completamente embasbacada.
Me viro nos calcanhares em direção ao elevador, vou voltar para
casa, reatar com Adônis, pedir desculpa e arranhar a cara dele depois de me
explicar essa história direito.
Mulher? Leona e Sebastian são casados? A curiosidade move minhas
pernas mais rápido que a ansiedade de resolver minha situação logo. Deixo
o clube sem passar pelo bengaleiro para recolher a minha bolsa, apenas o
celular no bolso.
Me adianto procurando um táxi e vejo Owen caminhando rápido na
minha direção, olhando além de mim.
— Droga, Owen, quantas vezes eu vou ter que…
Um golpe rápido atinge a minha cabeça com brutalidade. Tropeço em
cima de Owen que me segura com os braços firmemente, não consigo ver
quem me atacou, porque me sinto tonta e levo a mão ao cabelo num
impulso de sentir o estrago. Quando abro a boca para falar com Owen que
parece sereno, o som fica preso na minha garganta. Meus lábios e nariz são
tapados por um pano fedido que me deixa ainda mais zonza quando ele me
vira em seus braços.
Uma vida inteira rodeada de homens e sua impulsividade agressiva
atravessa minha mente como um raio. De frente para o meu primeiro
agressor, enfio meu salto na sua garganta enquanto debato, o topo da minha
cabeça acerta o maxilar de Owen que me mantém apertada.
Sinto a dor latejar em mim.
“É recomendado que você use o máximo de violência possível e o
mais rápido para neutralizar essa ameaça” a voz de Heitor soa calma na
minha mente, uma memória do workshop de violência contra a mulher que
ele me obrigou a fazer e claro, discordava de quase tudo que os orientadores
falavam. Principalmente a parte do: Na dúvida, não reaja.
Eu podia suster a respiração por mais alguns segundos. O
desconhecido segura o pescoço ensanguentado tossindo sangue para todos
os lados, dizendo coisas inteligíveis.
Levanto as pernas fazendo força e peso para cair no chão, e quando
consigo escorregar tento acertar Owen. Meus músculos estão ficando
presos, minhas mãos parecendo inchadas. Me apoio para levantar, e dou
impulso, mas ele me monta com violência e tenho apenas a oportunidade de
sentir um segundo de pânico cortando a adrenalina exacerbada ao ver a
seringa que ele afunda no meu pescoço.
Owen puxa meus cabelos com força quando tento sem sucesso me
soltar, reagir. O estalar da minha cabeça no chão frio e sujo é o último som
que ouço antes de apagar.
Meu telefone toca e é Miguel. Atendo na mesma hora.
— Meu pai vai ter um chilique se vocês se atrasarem mais um minuto
pro almoço. — Ouço a voz do Sr. Antônio no fundo, reclamando que as
batatas vão ficar macilentas, seja lá que diabo isso queira dizer. “Eu vou
conversar direitinho com esse rapaz sobre ficar sequestrando minha filha
noite adentro”.
— Sabrina não está aí?
— Não. Ela não estava com você?
— Esteve, mas saiu tem muito tempo.
— Quanto tempo?
— Perto das 11 da noite. Ela não me avisou que tinha chegado, mas
achei que fosse pirraça, não respondeu a nenhuma das minhas mensagens
hoje também. A sua irmã terminou comigo ontem — me queixo, amuado.
— Não sabia se tinha sido desconvidado para o almoço ou não, preferi não
arriscar ser expulso.
— Peraí. — Ele fica mudo uns segundos e depois grita no meu
ouvido. — Gael! Que horas que a Sabrina te mandou mensagem? — Mais
uns segundos e meu coração já começa a ficar apertado. — Quatro e quinze.
— Gael responde e eu ouço. — Ela ainda não voltou para casa. Falou que ia
passar a noite com você. Esse tempo todo achamos que estavam juntos.
— Miguel. Eu vou desligar o telefone e rastrear o celular dela, te ligo
em minuto — indico sem me preocupar em mentir. Miguel chama Heitor e
ainda o ouço dizer antes de desligar: “Acho que estamos com problemas,
Sabrina sumiu.”
Flashes de dezenas de imagens abomináveis surgem na minha mente
e a angústia me domina enquanto mecanicamente procuro o rastro do GPS
em seu celular. Meus dedos tremem no teclado e o suor frio desce pelas
minhas costas.
Nox e depois nada. O que ela foi fazer no Nox sozinha? Acesso às
câmeras do clube rápido, introduzo os códigos das camadas de segurança e
a sigo quando encontro, descendo os andares. Marco seu rosto da gravação
e isolo suas imagens numa linha cronológica, passando com velocidade de
5 vezes mais rápido, até vê-la com Leona e Sebastian.
Isso explica o humor tenebroso do meu irmão quando liguei hoje
cedo. Sigo Sabrina para fora do Nox e sou obrigado a invadir as gravações
de segurança pública para continuar acompanhando seus passos na rua.
Agradeço por viver em Londres, a capital mais vigiada do mundo. É
impossível andar pelas ruas londrinas sem ser mapeado pelo menos 300
vezes pelas quase um milhão de câmeras espalhadas. O sistema de CCTV é
fechado, mas não demoro mais que alguns minutos para hackear, não é uma
programação nova para mim de qualquer forma.
Ao contrário do meu sistema interno, o reconhecimento biométrico
não é uma opção, então sigo pelo mapeamento das mediações do Nox, até
chegar à gravação da hora em que ela colocou os pés para fora do clube.
O nó na minha garganta me engasga quando a vejo ser atacada a
poucos metros da nossa calçada. Centralizo a imagem, com o coração
batendo tão acelerado que posso estar perto de sofrer um infarto e identifico
Owen, a segurando, depois de um homem loiro e alto a atacar por trás.
Sabrina não se rende, se defende com garra. O homem ferido pelo seu salto
é levado junto com ela numa van branca que aparece de repente.
Minha reação é rápida, mesmo que esteja aterrorizado e com as mãos
tremendo. Abro o sistema de imagem e divido as linhas de tempo
organizando os painéis das câmeras por ordem cronológica, abrindo na sala
a linha de tempo que segue Sabrina mais de perto.
A perco e a encontro, diversas vezes, o celular não para de tocar, sua
família, seus irmãos, seu pai. Preciso me forçar a largar o computador,
preciso parar de a perder no meio no trânsito, de a procurar na próxima
filmagem, de não a encontrar numa câmera com foco adequado e lhes
telefonar. Informar que ela foi raptada.
Raptada. Essa palavra me deixa zonzo. A memória da minha primeira
missão voltando traumática, me empurrando de volta para o dia em que
mais estive vulnerável na vida. Também me lembro da última e fecho meus
olhos inflamados de ódio, como se pudesse apagar aquilo da mente por um
segundo.
Eu deixei de trabalhar em campo por isso e agora estava tudo
voltando. O ondular do desespero é uma força densa e estática, não consigo
reagir, levo a mão ao peito em pânico. Eu não posso infartar agora. Tenho
que encontrar Sabrina. Preciso encontrar Sabrina. Eu já cheguei tarde
muitas vezes, não posso chegar tarde para ela.
Respiro fundo duas vezes e mando uma mensagem automática para
Sebastian. Um pedido de socorro combinado. Ele vai chegar aqui como um
raio.
Aciono o sistema de alerta vermelho que entra em contato com todas
as minhas equipes de resgate virtual e dezenas de cabeças recebem a missão
ao mesmo tempo. Todos eles, dos mais experientes aos mais novatos, os
recorrentes e os pontuais.
Há alguns mais inteligentes que já ligaram os pontos e sabem que
nosso trabalho é muito mais do que um jogo e há aqueles que não fazem
ideia, protegidos, achando que estão brincando de salvar pessoas, de dentro
das suas casas.
As luzes dos jogadores se conectando ao meu painel de roteiro e
instruções para a sessão começam a se acender como um céu estrelado.
Jogadores ao redor de todo mundo se juntam, despertados pelo valor da
recompensa enquanto eu massageio meu peito e tento acalmar o fluxo
nervoso percorrendo meu corpo, ameaçando explodir meu coração na
paulada.
Volto a ouvir meu telefone que não parou de tocar um único segundo,
apenas me desliguei completamente para o que era externo. As chamadas
perdidas se acumulam na tela, apenas respondo a Sebastian me ameaçando
se estiver brincando com coisa séria.
Envio o recorte do vídeo de Sabrina sendo levada. Preciso que ele
entenda a gravidade da situação e rápido.
Seus irmãos estão claramente preocupados e tenho que reunir toda a
força e calma que não tenho, nem estou perto de ter, para cumprir o
protocolo esperado e me fazer de inocente. Indicar que precisamos procurá-
la nos hospitais, que pode ter se envolvido num acidente, já que nunca
chegou a voltar para minha casa como disse na mensagem.
Preciso evitar ter que ir lá e decido que talvez o melhor seja dividir as
cabeças pelos hospitais da cidade.
Heitor atende no primeiro toque e coloco minha máscara de
neutralidade no rosto e na voz. De todos, ele é o único que não pode
entender o que está acontecendo antes que eu possa alcançá-la. Ele avisaria
a polícia, como oficial bem treinado que é, e estragaria nossas chances de a
encontrar sem alarde.
— Heitor, Sabrina foi vista a última vez por Bia — minto. — Há
mais de 8 horas, desde então ninguém sabe onde ela está. Vou mandar uma
lista dos hospitais mais próximos para… — Ele me interrompe com uma
frieza cortante:
— O que você vai fazer — ele pausa colérico. — É me esperar na sua
casa, eu já estou chegando e vai me explicar essa história pessoalmente.
Não tenho tempo para esse tipo de merda, Sebastian aparece no escritório
sobressaltado com Leona no seu enlaço.
— O que está acontecendo? — ela quase grita, a roupa desalinhada,
de quem veio às pressas.
— Sabrina foi sequestrada.
Cada uma das sílabas que digo é martelada na minha cabeça e escava
um buraco profundo que deixa espaço a ser preenchido por todo o tipo de
atrocidades que meu cérebro é capaz de produzir. Estou perdendo tempo
demais.
Me concentro na nuvem de estrelas que parece ter invadido os
painéis de todo o meu escritório e volto a me focar na única coisa que tenho
que fazer agora, encontrá-la.
O barulho de uma cadeira se arrastando no chão de cimento machuca
meus ouvidos e arrepios sobem pela minha coluna. Já não estou sozinha.
— Você parece desconfortável. — A voz de Owen me desperta a
atenção.
Os olhos vendados são mais restritivos que ter os pés e as mãos
amarrados. Sem ver, sinto que o tempo parece inerte, apático. Cada minuto
uma pequena eternidade do mais puro medo que não para de aumentar
numa velocidade galopante.
Owen segura minha nuca e eu me encolho, me retraindo e revirando
na cadeira.
— Tem nojo de mim? — ele diz com a voz perdida, acho que está
drogado. — De mim? Um homem de bem? Tem medo de mim e se entrega
nas mãos daquele cão sarnento? — me acusa com raiva. — Não vê que
estou só te ajudando? — Sua voz desce rasgando meus ouvidos. O sangue é
drenado do meu rosto, revelando um ódio puro que me deixa com a cabeça
pesada. — Te salvando? Você vai ter uma vida melhor com ele. Eu garanto.
Ele quem, meu Deus?
Não interajo, não digo nada, e Owen continua falando sozinho. Me
contando a mesma história repetida, como se eu pudesse esquecer de
alguma palavra.
— Adônis te usaria e deixaria, você ia ser só mais uma na fila de
coisas usadas por ele.
As lágrimas teimosas se rebelam às minhas ordens e molham a venda
apertada. Fico feliz porque pelo menos ele não pode ver como cada uma de
suas palavras me afeta. O ar quente e seco permeia meus pulmões
descoordenadamente.
— Isso não é pessoal, entende? Eu não quero te machucar. Vou só te
mandar para longe. Tirar dele o que ele tirou de mim. E tem que ser rápido.
Do contrário ele não sentiria a dor. Você tem que ir enquanto ainda é
importante para ele. Elas nunca duram muito tempo, sabe? — Owen esfrega
o rosto no meu, como se estivesse tentando me acalmar de uma forma
doentia e continua sussurrando suas promessas peçonhentas. — Você vai
ser eternizada, Sabrina. Aquela que ele nunca abandonou, porque não teve
oportunidade.
Seu riso é desumano. Cada uma de suas frases, dramáticas,
desvairadas. Ele está completamente fora de si e não diz coisa com coisa.
Eu só preciso aguentar um tempo, alguém vai me achar, Heitor vai
perceber minha falta, alguém vai me socorrer, eu só preciso ficar calma e
tentar não surtar. Ele é apenas um, vai dormir em algum momento, sair, não
escutei mais ninguém entrando ou saindo desde que acordei aqui.
O ar é seco e o cheiro nauseabundo, mas os sons que vêm de fora são
apenas normais. Não estamos muito longe da cidade, consigo ouvir os
carros passando e pessoas andando, vivendo, rindo, brigando.
Sinto ânsia de vômito de pensar que a vida segue lá fora
normalmente para milhares de pessoas enquanto eu estou aqui, nas mãos
desse doente, tentando me usar numa vingança que não tem nada a ver
comigo. Temo por Lauren. Será que eu fui a única que ele levou, as outras
meninas, será que fez alguma coisa com elas?
— Ah, a sua acomodação chegou, princesa. — Ele alisa meus
cabelos com ternura e o gosto da bile atinge minha língua. Sustenho a
respiração ou vou me desfazer em vômito. — Quer ver? Se prometer não
gritar, até tiro sua focinheira, pra pegar um ar.
É minha oportunidade. Aceno em concordância. É minha
oportunidade.
— Linda — ele elogia e tira a venda grossa dos meus olhos. A luz
forte me faz fechá-los de imediato e arde como nunca. Os dedos gelados
afrouxam minha focinheira atrás do pescoço e libertam minha boca.
Ouço portas se abrindo e fechando e alguns homens falando alto.
Meu estômago se revira de ansiedade. É a minha oportunidade. É a minha
oportunidade. Testo a garganta tossindo, querendo ver se sou capaz de gritar
alto o suficiente sem que minha voz falhe.
Dois homens entram pelo portão, consigo ver o rio de relance e o
cheiro pungente não era apenas de água parada, era peixe podre. Estamos
junto ao cais, reparo, frustrada.
Mais dois homens entram, segurando um saco preto gigante, grande
demais para ter uma pessoa dentro.
— Ah, perfeita. — O último homem, vestido formalmente me
admira, com sotaque marcado me cumprimenta, simpático. A voz irritante
combina com a alma decrépita. Um sorriso hediondo se espalha em seu
rosto. — Bom trabalho, Owen. Ela está pronta para ser transportada? —
questiona educado e eu me desespero, forçando as amarras, me
machucando no processo.
Quando os homens que entraram antes retiram o saco preto percebo o
que escondia. Um caixão, simples e elegante, de madeira. Eles o abrem e
percebo que é para mim, amarras para me conter, penduradas nas
extremidades.
O meu grito simplesmente brota da garganta e não para. Owen me
estapeia para que me cale, mas não consigo, é incontrolável, grito até ficar
sem ar, até suas mãos apertarem meu pescoço e a focinheira voltar
rapidamente ao seu lugar, a mão grande do homem medonho e bem vestido
descendo pesada na minha cara.
— Prefiro quando estão caladas, quietas, dopadas — ele reclama.
Não para mim, para Owen. — Vim apenas experimentá-la, mas parece
agitada demais. Cuide disso. Quero levá-la ainda hoje. Vai aprender a se
comportar em casa — ele promete, desagradado.
Owen parece ter um lampejo de consciência, confuso, e desafia o
homem.
— Prometeu não machucá-la. Vai levá-la para seu país e honrá-la
como sua mulher, verdade? — confirma com o desconhecido, me fazendo
tremer e chorar abafada.
— Claro, Owen. Ela vai ser muito bem cuidada. Não pretendo
estragá-la. Se ela é importante para ele, é preciosa para mim — Ele
completa num tom escarnecedor, sem sequer desviar os olhos na minha
direção. — Vai ser bom, roubar alguma coisa daquele puto pelo menos uma
vez.
Owen concorda, satisfeito.
— Mantenha-a calma até que eu volte para buscá-la. Acomode-a. —
Ele aponta para o caixão e lamento em silêncio, completamente lívida,
exausta, chocada. — Estejam prontos, temos que ser rápidos. Aquele puto
já deve estar revirando a cidade atrás dela. Não vai demorar muito até nos
encontrar.
— Ele é assim tão bom? — Owen questiona, duvidoso.
— O melhor. Fosse ele um nadinha pior eu tomaria meu tempo
esfregando-a na cara dele. Exibindo-a em público. Brincando de caça ao
tesouro. Mas é mais seguro levá-la e jogar com ele de lá. Adônis não vai
poder fazer nada. Vai pagar por todos os carregamentos que me fez perder.
Ele se vira para mim antes de sair e me fala:
— Uma joia rara. Eu sempre quis uma senhora Etienne na minha
coleção, mas nunca tive coragem de me aproximar tanto. Você vai ser muito
bem recompensado pelo presente, Owen. E você — Ele firma os olhos nos
meus. — Não perde por esperar, carinho.
Lágrimas se acumulam no canto dos meus olhos, escorrendo
imediatamente pelo meu rosto machucado. Tudo que arde, cura. Será?
Ele dá um passo em frente, tapando a luz com seu corpo. Se
agigantando diante de mim.
— O fruto proibido é sempre o mais apetecido, criança, — Em seus
olhos uma promessa de perigo com alguns tons de desejo grotesco. — Você,
com certeza, foi o fruto mais aguardado do meu pomar. Seja bem-vinda.
O vômito explode da minha boca, em jatos quentes que se acumulam
na focinheira, e empoçam antes de escoar pelos lados, me engasgando,
sufocando. Ele faz um esgar de nojo, e Owen vem me soltar.
— Faça com que se acalme antes do transporte, eu detesto quando
elas gritam.
Fecho meus olhos, aceitando a realidade grotesca. Uma tremedeira
descontrolada toma conta do meu corpo. Um infarto fulminante viria a
calhar. Sinto cada gota de medo se unir às outras no meu sangue, se
expandindo, comunicando, formando uma rede maior que me engole e
paralisa.
Meu coração bate forte ao ritmo do medo. Duvido que meu peito seja
capaz de conter a violência do meu terror por muito tempo.
Owen limpa minha boca, e molha meu cabelo com um pano imundo.
Cuspo, chorando e soluçando uma última tentativa de trazê-lo à realidade.
— Ele vai me estuprar, me agredir, o que você pensa que está
fazendo? — suplico com a voz fraca.
— Ele me tirou tudo que eu tinha, é a vez dele.
— Ele vai acabar com a minha vida! — grito alucinada. — O que eu
tenho a ver com isso? O quê?
— O preço do amor é alto, alguém terá que o pagar. Ele prometeu
fazer de você a melhor do seu harém, a primeira esposa. Você vai se
adaptar, talvez um dia ele te liberte, se se comportar bem. Seja dócil, seja
boa, você vai ficar bem.
O colecionador.
No fundo eu sabia, sempre soube que um dia ele viria atrás de mim,
atrás dos meus, que não me deixaria sair do circuito, estragar suas colheitas
e viver em paz.
O som sinistro que sai da minha boca imita um sorriso, mas está
longe de ter o mesmo efeito. Eu sempre soube e por isso corria. Corria dele
e de mim mesmo, de tudo que ele representava e daquele dia que ainda
tento noite após noite esquecer, apagar da minha memória celular, reverter,
compensar. Mas meus receptores de dor estão intrinsecamente ligados
àquele evento que me marcou muito mais que as cicatrizes perfeitamente
apagadas pelos lasers.
A minha pele imaculada não representa a carne marcada para sempre,
a memória estilhaçada por lembranças suspensas e engavetadas que me
hostilizam de forma recorrente. Elas não querem ser esquecidas, e hoje,
mais do que nunca, estão vivas ao meu lado. Presenças quase corpóreas de
tão reais. Posso sentir o cheiro de cada uma das vidas que ele ceifou aquele
dia, perto de mim.
O colecionador tem Sabrina e eu poderia ajoelhar agora e pedir a
qualquer Deus que me valesse para acabar com meu tormento e me levar de
uma vez. Mas eu não creio, não mais. Se Deus existe para além da tradição
e piadas ocasionais deve estar havendo uma briga desgraçada onde ele
mora, e seja lá pelo que estão lutando, o diabo está batendo mais forte.
Eu sobrevivi, mas todos os outros não tiveram a mesma sorte que eu.
Sorte.
Se algum dia duvidei se ter conseguido sair daquele contêiner vivo
foi sorte ou castigo, hoje tenho a certeza, isso só pode ter sido um plano
cruel e vil de uma entidade vingativa que nunca me perdoou por tê-la
driblado quando já tinha sido marcado.
Eu nunca soube seu nome. O Colecionador era tudo que eu tinha.
Persegui suas colheitas durantes meses, até que perdi o juízo. Eu merecia,
sabia, mas ela não. Ela não tinha nada a ver com isso.
Nem sequer tinha sido difícil ligar o desaparecimento dela à ele. O
cretino deixou as migalhas para que eu as encontrasse. Nem mesmo se
esforçou por me atrasar. Ele queria me escarnecer e humilhar, mostrar que
podia brincar comigo de novo e ir além, me marcar além das memórias,
além da história.
Fecho meus olhos por alguns longos segundos e respiro fundo, tento
focar em Sabrina. As listas, os sonhos, o sorriso e nada disso é suficiente
para conter o ódio quase doentio que corre em minhas veias e me
transborda.
Quando abro os olhos, é o reflexo da morte que vejo na tela do meu
computador. É aquele dia começando de novo, com a chance de ter um final
diferente.
— Adônis — Sebastian me chama, tocando meu ombro sem obter
resposta. Meu irmão sempre foi bom em compreender mudanças no ar. Ele
sentiu que algo mudou em mim e quando olhou no meus olhos,
compreendeu.
Sabrina voltaria comigo, mas talvez ele nunca mais me encontrasse
de novo. Ele repudia a ideia e se abaixa para falar comigo, de perto, como
quando éramos crianças, como quando minha mente estava perdida e ele a
trouxe de volta na marra.
— Eu não posso perdê-la, Sebastian — falo primeiro, desprovido de
emoção.
— Não vai — ele garante. — Você não está sozinho — tenta me
tranquilizar. — Nós vamos encontrá-la. Vamos trazê-la pra casa. Você vai
enfiar um anel no dedo dela e eu vou ser o seu maldito padrinho pela sexta
vez consecutiva. Suas 5 ex-mulheres entrarão com flores pelo tapete
vermelho e eu vou ficar a cerimônia inteira reclamando da sua cara de
idiota como sempre faço. É a nossa tradição e nada vai mudar isso.
— Adônis. — A voz de Kyle Thorne soa nas colunas de som, Ozzy
atendendo no automático
— Kyle — respondo apenas para assinalar que estou aqui.
— Podemos falar? — O líder da Hades’ Men pergunta, indicando
que precisamos estar sozinhos.
Tento expulsar Sebastian do escritório, mas ele se recusa a arredar o
pé, sem dizer uma única palavra, permito que fique. Não tenho tempo para
impedi-lo, ou poupá-lo. Se quiser ficar, que fique.
— Liberado, Thorne.
— Eu adoraria te acompanhar nessa missão, meu amigo, meus
irmãos já estariam dentro da van armados e prontos, mas não estamos perto
o suficiente para ser eficientes. Não temos nenhuma equipe em Londres
preparada para você — ele lamenta com pesar. — Vai precisar de outra
pessoa, Adônis. E o único com recursos o suficiente para te apoiar nesse
momento, — Kyle faz uma pausa antes de dizer o nome, como se a simples
menção pudesse fazê-lo incorporar na nossa frente — é Morthe.
— Magnus não pode ser propriamente considerado um recurso. Ele é

— Eu sei, mas precisa dele. Tenho certeza que pode desenterrar um
ou dois favores por cobrar. Não perca tempo.
— Ninguém cobra favores de Magnus, Kyle.
— Não, mas você está desesperado o suficiente pra tentar.
— Você sabe algo que eu não sei?
— Digamos que ele pode estar bem receptivo a te ajudar nessa
situação específica.
— Entendido.
— Me mantenha atualizado, vou estar te seguindo de perto.
Desligo sem avisar. E me sento novamente, invadindo outro tipo de
sistema, muito melhor que todos os outros até agora, mais complexo, mais
denso, mais difícil. Um sistema que eu criei para ser à prova de mim
mesmo, mas foi uma versão de mim que ainda não sabia o que eu sei.
Gemidos fortes e graves invadem as colunas e Sebastian arqueia uma
sobrancelha quando vemos um homem afundando o pau dentro de uma
mulher morena. Ele nota a minha presença nem meio segundo depois, se
virando para as câmeras ativadas em sua sala, e se aproximando de pau
duro para me ameaçar com um requinte esmagador.
— Preciso te cobrar um favor — anuncio de uma vez.
— É bom que ele valha a sua vida, Etienne, porque é ela que está em
jogo a partir do momento que você invade a minha casa.
— Minha mulher foi levada.
— Hum. E eu com isso?
— Pelo Colecionador.
— Prossiga.
— Numa questão de minutos terei a localização exata deles, preciso
de uma equipe de apoio para ir buscá-la.
— Você é um vagabundo de sorte, Etienne.
Ele dá um tapa na coxa da mulher, ainda nua e sem o mínimo pudor
pelos nossos olhares intrusivos nas câmeras e ela se levanta saindo do nosso
campo de visão.
— Não existe sorte com você, Magnus. Eu não sabia que precisaria
da sua ajuda, mas você sim. E se já está preparado, não me faça perder
tempo, apenas diga o que vai me custar.
— Eu pensei que era você que vinha cobrar um favor, não negociar
uma barganha — ele me recorda, cínico. — Qual vai ser afinal? — pergunta
descontraído, acendendo um cigarro, enevoando a câmera.
— Ninguém cobra favores de você.
— Correto. — Ele pisca para mim, como se aprovasse a minha
resposta. — Como eu disse e repito, você está com sorte. Eu te ajudo a
pegar sua garota, — ele oferece. — Mas o Colecionador é meu. Você o
encontra, não toca num único fio de cabelo dele, eu quero que ele venha
intacto.
— Por quê? — me rebelo, mas não é como se tivesse alternativa.
— Você não precisa dessa resposta, mas vou descansar seu coração
dizendo que ele será servido como um presente a Morena. E vai servir de
exemplo. Sabe como aprecio esse tipo de — sua voz adquire um tom
macabro. — Entretenimento — completa perverso.
E se ele escapar? Minha mente martela a pergunta na minha cabeça.
— Temos um acordo, Etienne?
Concordo com a cabeça, os braços cruzados, tensos.
— Você entende que se tocar nele vou dar ordens a minha equipe pra
que enfie uma bala no meio do seu crânio e outra no da sua namorada pela
desobediência?
— Sim.
— Ótimo. — Ele bate uma palma. — É uma pena que eu não esteja
perto o suficiente.
— Quando pode disponibilizar a equipe?
— Elas já estão a caminho.
Me questiono como ele adivinha.
— Você não é a única Sombra da minha equipe.
— Por que me fazer concordar se já tinha ordenado que viessem?
— Etienne, o Colecionador seria meu de qualquer jeito, do seu jeito é
apenas mais emocionante. Romântico. Você sabe como eu sou um dono
orgulhoso de um coração emocionado. A vida seria entediante se cada coisa
não tivesse seu valor, não acha? — ele avisa sem um pingo de emoção no
olhar nefasto. — Se infiltre no meu sistema de novo e será a última vez que
seus dedos estarão unidos ao resto do corpo.
Concordo novamente em silêncio.
— Algo está diferente em você. Seus olhos. O que fez eles mudarem?
Eles costumavam ser… Gentis. — Magnus arrasta as sílabas da palavra,
como se elas o ofendessem pessoalmente. — Ah! — Ele compreende. — O
ódio assenta bem em você, Etienne. Se algum dia desistir dessa vida de
mocinho, eu tenho o lugar perfeito para você ocupar. E, Lenox? — Ele se
dirige a Sebastian pela primeira vez. — Dos filhos de Louise você continua
sendo o meu preferido.
O que está levando tanto tempo?
— Patrão, nós precisamos ir. Não podemos mais adiar. — Meu
capacho avisa nervoso.
— Inferno. Tragam-na para o barco. Rápido! — ordeno vendo o
galpão ser invadido. — Anda logo. Vamos.
O marinheiro liga o motor e o caixão com a mulher de Etienne dentro
é carregado, as cordas que nos ligam à margem são rapidamente cortadas e
sons de tiros começam a soar, perto demais.
Que bom que ele chegou em tempo de me ver dizer adeus. — Sorrio
satisfeito. — Aquele vira-lata vai poder olhar na minha cara enquanto eu
venço.
Acaricio a madeira do caixão de Sabrina olhando, esperando que ele
saia do galpão, esperando que olhe para mim. Dou um tiro para o alto,
querendo chamar atenção. Quero que me veja. Quero meu rosto estampado
na sua memória. Mais uma falha.
O barco começa a se afastar do cais e ele ainda não saiu dali, algo
está errado, não demoraria tanto tempo, ele nunca demora muito tempo.
— Filho da puta! Mais rápido. — Grito. — Atirem em tudo que se
move à nossa volta. — Vocifero vendo os jets skis se aproximarem, nos
cercando. — Dois. Cinco. Oito. Onze. E não param de chegar.
Uma granada voa até ao barco, caindo bem no meio dele, e não posso
acreditar que explodiria a própria mulher. Não! Algo está errado. Droga. O
que é?
A resposta vem num som fininho que me atravessa e faz meus
tímpanos incharem, os globos oculares vibrarem e a confusão se instalar.
Não consigo ver nada, há sangue em meus olhos, impedindo minha
visão, barulho, pessoas sendo arremessadas no mar, pisco e esfrego meu
rosto tentando entender o que está acontecendo quando recebo um chute no
rosto.
— Etienne! — Ouço a voz de uma mulher. — Não toque nele. — Ela
ordena.
Sou jogado de cara no chão, ainda sem ver nada, alguém atira um
balde de água em mim, clareando o que está acontecendo.
Não sei quem são a maioria dessas pessoas, mas quando me viro,
tentando levantar, sei que está tudo acabado.
Os M´s marcados nos uniformes pretos das 5 mulheres protegendo
meus arredores anunciam que eu me distraí demais tentando atingir Adônis
e acabei sendo pego por Magnus Morthe.
Adônis e o irmão usam um pé de cabra para abrir as dobradiças do
caixão. Outro homem se junta a eles e os três recuperam a garota.
Adormecida. Desmaiada. Adônis verifica os sinais vitais dela, e finalmente
me encara.
Gemo agradado. Eu sabia. Aquele olhar era tudo que eu queria.
Perdido, não tem como voltar daquilo.
— Heitor. — A mesma mulher de antes, avisa, quando o homem
moreno avança com uma arma na minha direção. Pelos movimentos tem
treino militar, não é um amador. Não me lembro dele, mas o ódio em seu
olhar quer dizer que o conheço.
— Heitor. — É a vez de Adônis o repreender. — Eu prometi não o
matar.
— Problema seu. Eu não prometi nada.
A mulher que até agora não reconheci puxa uma arma para a cabeça
dele, e duas outras se juntam a ela. Ele não titubeia, não reage, apenas me
observa como se eu já fosse um pedaço de carne morta.
— Esse não, bonitinho. — Finalmente reconheço a mulher que dá as
ordens. — Se você atirar nele, serei obrigada a atirar em você, no Adônis e
na sua irmã. — Ela faz uma pausa quando ele desvia o olhar para o dela. —
E eu preferiria não fazer isso.
— Heitor, largue a arma, vamos levar Sabrina para casa. — Adônis
parece apenas uma casca. Não consigo identificar emoção nele. É como se
tivesse ligado no piloto automático e sinto um prazer estonteante de ver o
que eu ainda sou capaz de fazer com ele.
— Leve sua mulher para casa. Cuide dela. — aconselho com a voz
baixa — Lide com ela gritando meu nome de noite como você ainda faz.
Um menino você era. — Provoco, mas não o alcanço, ele já está além de
reparo. Bom.
— Cérbera, — o irmão de Adônis chama atenção — tire-o daqui,
senão quem vai enfiar uma bala na cabeça dele sou eu e vamos todos
morrer, porque eu prefiro o silêncio da morte a escutar mais uma palavra
desse miserável.
— Cérbera? É assim que eles te chamam agora, pequena? —
Pergunto provocando. — Eu me lembro de você.
Adônis não se afeta por nenhuma das minhas palavras, mas esta
mulher pode ser o elo mais fraco. Pressiono-a sob o olhar de todos.
— Lembro do som dos seus gritos. — Ela me encara. — Um prazer
delicioso. Todas que vieram depois de você foram apenas… insípidas. Eu
não podia saborear os gritos delas como os seus. Você era especial, Diana.
Sim, me lembro do seu nome.
Ela é a razão pela qual Magnus me caça há anos. Deveria ter ficado
escondido. Ele vivia em meu encalço, não podia ter facilitado para que
finalmente me encontrasse.
Ela se aproxima em silêncio e não me iludo, sei que poderia me
esquartejar aqui mesmo, em segundos. Mas o esquadrão de Magnus é
treinado de forma diferente. Ela não vai ceder, mas nada me impede de
continuar tentando.
— Se fechar os olhos, posso sentir o sabor do seu medo. Posso
escutar o som da sua alma se quebrando. Você gostou, não foi? Sonhou
comigo por anos? Ainda sonha? Admita, ficou com saudades e me quer de
novo — provoco.
— Você é patético, “colecionador”. — Ela usa meu codinome com
displicência, sem medo, não se intimida, nem se retrai. — Acha mesmo que
pode me manipular pra enfiar um tiro na sua cara e acabar com a sua dor?
— Seu olhar é quase de pena. — Você não terá o direito a uma morte fácil.
Antes pelo contrário. Não estamos te protegendo porque precisamos de
você, se é esse o delírio que te toma. Eu também vou te ouvir gritar. — Ela
promete. — Vou ouvir seus ossos se separando da carne, sua alma
implorando para morrer.
Engulo em seco, sabendo que é verdade. Conheço o modus operandi
de Magnus.
— E sabe o que vai acontecer depois? — Ela diz tão perto de mim
que me sinto humilhado pelo sua ousadia. — Nada. Vai apenas continuar.
Morena é paciente, ela vai levar seu tempo te caçando, te fazendo suplicar.
Eu só tenho pena de uma coisa. — Ela volta a olhar para mim de cima,
altiva, o preto de seu uniforme contrastando com a pele clara e os olhos
ardentes. — Você só pode morrer uma vez. Uma pena, de verdade. Muito
em breve eu vou ouvir minha música preferida. — Uma das outras
mulheres aperta as correntes que me amarram antes que ela complete. — O
choro dos covardes.
— Adônis? — Sebastian pergunta em voz alta, atraindo a atenção
para si. — Vamos entregar Owen à polícia?
Ele desvia a atenção do corpo dormente de Sabrina, recebendo já
cuidados médicos antes de ser levada.
— Claro. — responde desatento, antes de subir na van com ela
deitada numa maca. — Num saco preto e etiquetado.
— Eu ainda venci! — Grito para ele, numa última tentativa, quando
sua mão se move para fechar a porta e me deixar para trás. — Eu te mudei.
Você ainda nem se deu conta, Adônis, mas essa coisa que nasceu dentro de
você precisa ser alimentada. Uma vez. Várias vezes. Você vai precisar
perseguir alguma coisa para se sentir vivo, garoto. Vai descer cada vez mais
baixo e nunca será suficiente. Você já conhece o gosto da barbárie e não
consegue se afastar. Confesse! — Grito descontrolado e rio. Desgraçado. —
Nós vamos nos encontrar de novo, Adônis, o vício por sangue é impossível
de curar.
— Eu nunca mais vou te ver de novo. — Ele me diz calmo demais.
— Eu vou viver pra sempre, — recordo-o — Dentro de você, na sua
mente. Nunca vai ser capaz de me esquecer. Serei eterno até que o coração
das minhas vítimas pare de bater. Eu marquei gerações, nem você pode
apagar isso.
Seu olhar apático me frustra, nenhuma das minhas palavras se crava
nele como deveria.
— Ela foi a primeira, mas não será a última. — apelo. — Eu não sou
o único atrás de você, garoto — rio tripudiando. — Você nunca mais vai ter
paz! — prometo antes de Cérbera quebrar minha garganta com um único
golpe, e me emudecer.
Sinto uma bota esmagar meu pulmão e meu rosto bate no chão,
Cérbera me arrasta com tranquilidade pelo tornozelo, assobiando.
Acabou. Eu sei que sim, mas meu trabalho está feito.
Saio da enfermaria e me junto ao paredão de homens esperando que
Sabrina acorde. Tirando algumas leves escoriações, “ela não se machucou
muito”, poderá ter alta e ir para casa hoje mesmo, apenas com remédios
para dor e umas poucas orientações médicas.
Por dentro levarão uns dias para ter noção da dimensão do estrago.
Me encosto entre Heitor e Sebastian. Sr. Antônio me cumprimenta
cabisbaixo. A versão oficial é que Sabrina sofreu um sequestro relâmpago
para me extorquirem dinheiro, eu paguei o resgate e ela foi devolvida sã e
salva.
Além de Sebastian e Heitor, nenhum dos outros irmãos sabe o que
realmente aconteceu, embora Gael não tenha acreditado em uma única
palavra do que saiu de nossas bocas desde que chegamos, não insistiu, se
deu por satisfeito de ter a irmã de volta.
— Uma das suas amiguinhas deixou um bilhete para você. —
Sebastian me entrega um papel pardo dobrado.
— Amiguinhas? Sério, Sebastian? — reviro meus olhos com
infantilidade.
— Pelo menos não são suas ex, isso complicaria um pouco as coisas.
— Ele me provoca e meu olhar denuncia que há controvérsia nas suas
palavras. Sebastian fecha a cara entendendo minha expressão debochada. —
Você não tem limites, Adônis.
— Eu sou um cara dado ao convívio, vou fazer o quê se minha mãe
me ensinou o dom da partilha?
— Você simplesmente… — Ele sai de perto de mim — Não tem
limites. — Repete se afastando. — Dou de ombros e leio o bilhete.
“O presente do seu próximo casamento está dado, não me importune
mais. Da próxima vez que alguém invadir o meu sistema de segurança eu te
mato.”
M&M
— Eu vou querer saber mais sobre o seu amigo com nome de
chocolate? — Heitor pergunta ao meu lado, lendo também o recado.
— Não. — Respondo exausto de me sentir cansado.
— O seu próximo casamento vai ser com a minha irmã? — Ele
insiste.
— Se ela aceitar, sim. Alguma coisa contra? — Acredito que
milhões, se formos honestos aqui.
— Não, quero só ver de camarote você pedir e ela enfiar uma
voadora na sua cara.

— Adônis — Sabrina me chama, mesmo que esteja deitado ao seu


lado. Me viro a tempo de ver seus olhos se abrindo, percebendo que o que
quer que tenha visto não estava realmente acontecendo.
— Foi só um sonho ruim — garanto com a voz calma. — Está tudo
bem. — Me lembro exatamente como me senti anos atrás e como é
aterrorizante acordar e não ter certeza se ainda estava no pesadelo. — Nós
estamos na sua casa. Toda a sua família está do lado de fora dessa porta. —
Aponto para a porta aberta, trazendo sua atenção para os detalhes do
presente. Uma técnica que a minha psicóloga me ensinou para conseguir
conter os ataques de pânico. — As luzes vão ficar acesas até que você
queira o contrário. Se quiser beber ou comer alguma coisa é só pedir, se não
quiser nada, não se preocupe, pode apenas descansar.
Me mantenho a uma distância segura mesmo que toda a minha pele
implore para sentir a dela, para abraçá-la, mas sei como se sente agora e a
dor de a ver rejeitando o meu toque, ainda que por reflexo do trauma, é uma
que não pretendo viver. Tento manter o semblante calmo, mas por dentro
estou ruindo, revivendo o passado através dela, me sentindo impotente,
como se a tivesse traído. Falhado.
— Está tudo bem, — ela me olha preocupada. — Como você está se
sentindo? — Me pergunta e eu sou obrigado a rir.
Um riso de nervoso, de choro e de alívio. Um riso de poder dizer que
estou vivo, única e simplesmente porque ela está comigo. Eu não teria
voltado daquele lugar se ela não tivesse viva. Não seria possível.
— Você está bem, Sabrina. É tudo que importa.
— Está triste comigo? — Ela morde o lábio machucado, apreensiva.
— Eu? Claro que não — respondo rápido, quase com medo do que
ela pode estar pensando.
— Está evitando me tocar — explica e meu coração cresce e
esquenta no peito, como um balão.
— Eu posso te tocar?
— Precisa. — A voz embargada me responde. — Eu preciso — Me
pede.
Quase me jogo em cima dela sem o menor cuidado, ansioso,
desesperado, incapaz de me conter.
— Desculpa. Desculpa — repito porque não consigo não a apertar
em meus braços. A necessidade de contato arde, o seu cheiro queima as
imagens aterradoras de que poderia tê-la perdido para sempre, uma a uma.
— Eu estava voltando pra você quando eles me levaram. Eu já tinha
me arrependido — Ela confessa, apoia as mãos no meu peito e me empurra
devagar querendo olhar nos meus olhos. — Você entendeu? Eu estava
voltando pra você. Eu nunca deveria ter saído do seu lado. Me desculpa.
Beijo seus lábios molhados e volto a apertá-la ao ponto de machucar.
Ela não reclama, apenas retribui, a necessidade primitiva que sentimos um
do outro se fundindo entre nós. Se acomodando. Pulsando como um
organismo vivo.
— Não importa. Nada disso importa. Você está aqui. Eu amo você.
— Eu tenho um mundo de coisas para lhe dizer, para contar. Ela precisa
saber tanto da minha vida, precisa entender tantas coisas, me conhecer
direito, se preparar. Mas nada disso vai ser agora, agora posso apenas
segurá-la como se nunca mais fosse ser capaz de abrir meu abraço para
soltá-la.
— Eu também amo você. E nunca mais vou sair do seu lado.
— Nem que você quisesse, Sabrina. Nem que você quisesse.
— Ah, para! — Emily joga uma almofada direto no meu rosto e se
joga de costas na cama rindo com o resto das meninas.
— Eu te juro — confirmo a fofoca do século. — Também fiquei
surtada na hora.
— Surtada com o quê? — Leona entra no meu quarto e eu me
endireito. Ela pode estar frequentando a minha casa desde o sequestro para
me entregar trabalho pessoalmente, como uma neandertal.
Não sei quem ela vem checar realmente, a mim ou Adônis, mas todos
parecem preocupados e muito presentes ainda que, dadas as óbvias
ressalvas, estejamos bem, ou o mais próximo disso quanto é possível no
momento.
— Eu estava contando como descobri que você ainda estava
envolvida com Sebastian naquela noite. Tanta coisa aconteceu que eu
esqueci de espalhar esse babado. — Anuncio corajosa querendo estender a
fofoca usando a própria fonte.
Leona revira os olhos e todas a encaramos com expectativa. As mãos
de escrever fanfics variadas já tremendo.
— Você acabou nunca me contando o que estava fazendo lá —
comento fingindo inocência, como quem não quer a coisa. Meu segundo
estômago que se alimenta só de fofoca gritando sedento.
— Fui pedir o divórcio.
Nossa reação faria inveja a qualquer uma dessas plateias pagas de
programa de televisão.
— Pela segunda vez — ela completa para nossa total comoção e acha
os gritos engraçados.
— Vocês são mesmo casados? — Bia questiona desconfiadíssima.
Leona confirma com a cabeça e acrescenta:
— De papel passado e lavrado em cartório.
Minha boca se abre para comentar essa informação dramática, mas
meu pai bate na porta do quarto.
— Filha?
— Entra, pai. Já vamos? — pergunto me levantando.
— Eu acho melhor você não ir até o aeroporto. Você sabe como seu
velho é, eu ainda fico ansioso com você zanzando por aí, seus irmãos já
desceram. Pegaram o carro primeiro. Por mim te levava comigo dentro da
mala.
Eu sorrio e o abraço, meus olhos já marejando. Meu pai e meus
irmãos foram ficando e me acostumei com a presença deles, vai ser difícil
vê-los voltar para casa sem mim. Sei que já fiz isso antes, mas dessa vez é
diferente. Eu também fico ansiosa.
— Isso soou um pouco psicopático, né? — Meu pai pergunta.
Inventando uma nova palavra que possa remeter a qualquer evento
traumatizante a cada dia que passa.
— Eu te amo, paizinho. Vou sentir muito a sua falta.
As garotas se dispersam e nos deixam sozinhos. Sigo até a porta e a
fecho atrás de mim.
— Pai, eu quero falar uma coisa com você e eu quero só falar de uma
vez, não precisa responder nada, eu só preciso tirar isso do meu peito. Tá
bom?
Ele se senta alarmado com o olhar atento e zeloso que me faz querer
chorar de novo e me indica que continue.
— Eu queria te pedir desculpa, pai. — Levanto as mãos para que não
me interrompa, ou não vou conseguir terminar. Ele se cala, apenas ouve, em
silêncio. — Eu, — gaguejo um pouco, e a voz fraqueja. — Eu sempre achei
que vocês me prendiam demais, me protegiam demais e me privavam de ter
uma vida normal, como todas as meninas da minha idade. — As lágrimas
começam a acumular nos cantos dos olhos. — Eu sempre me comparei a
todo mundo por tudo que perdi. Nunca fui ingrata, ou pelo menos tentei não
ser. — Me defendo rápido de algo que nunca fui acusada. — Mas eu
sempre achei que, no fundo, aqui dentro — reforço apontando para o
coração — Que a minha vida ia começar mesmo quando eu saísse de casa.
Eu seria livre para fazer tudo que eu queria, realizar todos os meus sonhos,
fazer as besteiras que eu nunca pude e …
Meu pai se levanta e me abraça, desbloqueando o pranto e começo a
chorar sem me conter, soluçando em seus braços.
— O que eu quero dizer é que eu nunca pensei que você tivesse
razão, paizinho. Que na primeira vez que eu ficasse sozinha eu seria aquilo
que você me protegeu de ser a vida inteira e eu nunca dei valor: Uma
vítima. E não foi por falta de aviso ou preparação. Eu só fui burra, boba,
teimosa e irresponsável e eu queria pedir desculpa, não só por todas as
vezes que me rebelei em silêncio e te culpei por me proteger demais. Mas
também por ter colocado toda a nossa família nessa situação, pai. Eu …
Não consigo dizer mais nada porque ele me cala. Beija meu rosto e
me aperta no abraço, me sinto pequena em seu peito forte e eu acho que
queria nunca mais sair daqui.
— Você é uma mulher linda, livre, cheia de sonhos e desejos. Você é
adulta, maior e vacinada. Foi bem criada e eu confio na educação que te dei
para tomar as melhores decisões para sua vida. — Ele pega as minhas mãos
e fala sério. — Nada, absolutamente nada do que fizeram com você é culpa
sua, minha menina. Você não pode se culpar por existir. Isso foi a única
coisa que você fez para merecer algo assim. Simplesmente existir e isso não
tinha como ser evitado. A culpa nunca é da vítima. E você ainda vai voar
muito, — Ele enxuga minhas lágrimas. — Vai me dar muitas preocupações,
provavelmente me provocar o tal do infarto, mas nunca, nunca mais me
peça desculpa pelos maus atos de outras pessoas que fizeram mal a você.
Eu amo você. Nunca se desculpe por nada, muito menos por tentar ser feliz.
— Vamos, sogrão? Estamos quase ficando atrasados! — Adônis
entra no quarto e ri da minha cara de choro. — Por favor, Sr. Antônio me
diga que descobriu que estou me aproveitando da sua filha e vai me obrigar
a casar com ela, porque eu tô ficando sem opções aqui. — Ele faz graça. —
Vou levar as malas pro carro. — Avisa, nos deixando de novo.
— Você vai se casar com ele, minha filha? — Meu pai pergunta
calmo. — Ele parece ansioso. Confesso que ficaria mais descansado de não
te ver sozinha, mas não quero que se case por isso.
— Talvez eu case, pai, mas não agora. Meu futuro marido tem
histórico de se divorciar depois de um ano de casado — recordo-o honesta.
— É mesmo. Talvez eu precise ter uma conversinha com ele. Casar
com um Marino é para sempre. Os Marino não se divorciam. Se casou é
para sempre.
— Ele é um Etienne, pai.
— Pois que mude de sobrenome que minha filha não é bagunça.
— Vamos, pai, não quero que se atrase.
Ele se levanta e seguimos de braços dados. Meus irmãos não ficaram
nada afetados com as despedidas, já planejando a próxima visita. Heitor foi
o único que saiu preocupado, dois dias atrás, uma emergência no trabalho.
— Cuide da minha menina, rapaz — Meu pai avisa a Adônis,
abraçando-o também.
— Sempre — Ele responde com um tom solene. — Espero que nosso
próximo encontro seja no casamento.
— Espero que seja antes disso, rapaz. Tudo indica que isso pode
levar um tempo.
— Sr. Antônio, se a sua filha não me fizer um homem de respeito nos
próximos tempos, eu vou ser obrigado a chamar a polícia. Manter um noivo
pronto, esperando uma resposta para um pedido deve configurar algum
crime nesse país. Em vários. Vou soterrá-la em processos e ela vai ter que se
casar comigo para pagar a própria fiança.
— A quantidade de besteiras que você diz por minuto sempre me
impressiona. — Meu pai comenta.
— É um dom, Sr. Antônio.
— Se cuidem os dois. Cuidem um do outro — Aconselha por fim
com o olhar meigo e satisfeito.
— Vou cuidar, Sr. Antônio. Nem que seja da cadeia. Ou do hospício,
tem sempre essa hipótese.
— Adônis! — reclamo, saindo pela porta e chamando o elevador.
— O que foi? Você quer me enlouquecer. Não menti.
As portas se abrem ecoando nossas gargalhadas se misturando, um
som que há algumas semanas pensei que nunca mais ia ouvir.
— Oz, o quê que está acontecendo aqui? — Pergunto ao entrar em
casa e me deparar com uma camada grossa de pétalas de rosas espalhadas
por toda a parte.
Elas se acumulam sob os meus pés, conforme eu caminho para
dentro. Todos os painéis ficam brancos e as luzes se apagam.
Num deles, imediatamente à minha frente aparecem os seguintes
dizeres:
— Nós vamos jogar um jogo. — Sorrio entusiasmado, Sabrina vive
tentando me ultrapassar nas surpresas e nos presentes, ela sempre diz que
não é justo competir com um gênio, então tem direito a usar todas as
cabeças que conhecemos. Vamos ver o que ela aprontou agora.
Deixo a mochila que trago nas costas na entrada, e tiro os sapatos,
pisando no tapete de um vermelho profundo que espero que alguém vá
ajudar a limpar.
Desde que ela se mudou para o meu apartamento, nunca mais
consegui deixar de viver na bagunça. E como todo bagunceiro, Sabrina acha
importante que a arrumação seja sempre por nossa conta.
Os painéis se apagam e apenas um pisca, revelando o layout do
aplicativo de listas que desenvolvi para o seu aniversário. Vários
quadradinhos de verificação com números surgem e recebo a ordem de
procurar uma rosa.
Sorrio não lembrando se estamos comemorando alguma data
importante. Nosso aniversário de um ano de namoro já foi anteontem e
Sabrina esqueceu a data. Talvez eu a tenha inventado, mas ainda assim, eu
lembrei, ela não.
Contabilizo dias de namoro desde o dia em que a vi pela primeira vez
no Nox, e ela conta desde o dia que assinou o contrato. Então, temos alguns
dias de defasagem na comemoração, essa foi a desculpa dela por ter
esquecido e não estar preparada.
Remexendo entre as pétalas encontro uma rosa, no caule muito bem
cortado, uma etiqueta está colada. Leio em voz alta o número trinta e oito.
O painel da listagem adiciona um visto num nos items, e outro
quadrado atrás de mim se acende, me viro a tempo de ver, numa letra
manuscrita a mensagem surgindo:
“Não é pelo que você é para mim, você sabe, é pelo que eu sou
quando estou contigo. Muito clichê?” Um coraçãozinho colorido pontua o
final da mensagem e eu sorrio. Que bonitinha.
Procuro outra rosa entendendo a mensagem e como sou ansioso,
começo a juntá-las em cima da mesa da sala, para ler todas de uma vez,
encontro a número um e leio para Oz, que me mostra no painel principal o
título das mensagens.
“Uma vez eu fui embora e escrevi todas as razões pelas quais eu não
podia ficar com você, achei justo te dizer todos os motivos que fizeram com
que eu nunca tivesse chance de ser bem sucedida, desde o momento que
coloquei os pés para fora daquela porta. Eu amo você.” Mais um coração
pontua o fim da mensagem. Desta vez com um pontinho em baixo, como
uma exclamação.
— Onde está Sabrina, Oz? — pergunto, esperando que a localização
por gps apareça num dos painéis. Ela nunca mais andou sem um localizador
e eu vivo olhando seu mapa como se fosse os ponteiros de um relógio.
Oz, apenas me mostra a mensagem como resposta:
“Esperando por você, jogue o jogo, Adônis.”
— Você é muito traidora, sinceramente — reclamo e ela responde
piscando um painel, como se me apressando.
Leio outro número e as frases vão aparecendo. Umas depois das
outras, enchendo as paredes da minha casa e do meu coração. Duas, Cinco,
Nove, Vinte e Quatro. Sabrina selecionou mais de cem rosas para me dizer
o quanto me ama e se essa não é a lista mais idiota e mais sensacional que
eu já vi, não sei do que se trata. Nunca mais vou querer que as palavras se
apaguem, nem os corações ridículos, piscando no fim das mensagens.
Todos os quadrados se tornam verdes e aparece mais uma mensagem.
“Dirija-se até o meu quarto” e eu vou, como um cãozinho bem mandado,
com um sorriso idiota na cara a cada passo.
Quando ela separou um quarto foi uma briga, mas não deu o braço a
torcer, disse que precisava de um espaço para quando brigássemos. Era a
Suíça. Rio lembrando. E logo me vem a memória de todas as vezes que
realmente brigamos e ela bateu aquela porta na minha cara. Nunca durava
muito tempo, mas a mulher é enfezada.
Entro no quarto e na sua cama tem uma caixa que eu abro depressa e
dou uma gargalhada.
Uma coleira, simples, de couro matizado, nada parecida com
nenhuma das dela, bordado na frente com cores que lembram carvão
ardendo as palavras:
“PROPRIEDADE DE SABRINA MARINO”
Viro-a para colocar no meu pescoço e mandar uma foto, e vejo as
palavras que são de fato o presente pelo qual eu esperava. O melhor de
todos. E as mais incríveis das palavras.
“Quer casar comigo? Porque se quiser, dessa vez, vou dizer sim!”
Saio do quarto procurando meu celular e todos os painéis estão
mudados, agora um mapa e uma localização aparece em todas as paredes,
me mostrando onde ela está me esperando.
Acho que nunca fui tão rápido. E ela está perto. Vou tentando ligar
todo o caminho em que desço até ao carro e dirijo pelas ruas lotadas por ser
hora do almoço.

— Um casamento surpresa? — grito para que me ouça do outro lado,


a propriedade de inverno da minha mãe completamente decorada e nossas
famílias me olhando na ponta do tapete vermelho.
Minhas ex estão cada uma segurando uma flor, espalhadas pelo
caminho reto até Sabrina que me espera, vestida de noiva no altar
improvisado.
Meus olhos enchem de água e meu irmão revira os dele para mim.
Minha mãe bate palminhas silenciosas e os gêmeos se esforçam para não
rir.
Dona Louise Etienne vem até mim e a marcha nupcial começa a
tocar, não consigo parar de rir, o coração cheio de sentimentos variados e
martelando de surpresa, realmente impressionado.
Recolho a flor de Lauren, Emily, Anya, Alisson e Bia, que me
entrega a última flor com uma fita, fechando meu bouquê. Minha mãe
parece extasiada.
— Preferia que tivesse se vestido para a ocasião, mas com certeza
esse será um dia para ser lembrado — Ela comenta, pura altivez e o olhar
brilhando espelhando o meu.
— Eu casaria nu, mas não sairia daqui solteiro, mãe.
Ela ri ao ler as palavras da minha coleira, me entrega a Sabrina e nem
sequer a deixo dizer nada. A puxo para um abraço esmagador na frente de
todo mundo, num amasso no mínimo depravado. Sou incapaz de deixar sua
boca até que Sebastian diz alto, representando a todos.
— Pode largar a noiva! — Ele avisa irritado. Não realmente, ele está
feliz.
— Um casamento surpresa? Que ousada — elogio. — O que ia fazer
se eu não viesse? — pergunto segurando sua mão e me virando para
Sebastian, já rindo do fato de ele ser o celebrante da cerimônia. Eu tenho a
certeza de que Deus deve estar nos olhando lá de cima e adicionando mais
uma ofensa na imensa lista dessa família.
— Uma vez você disse que ia esperar por mim, não importava o
tempo que levasse. Achei de bom tom retribuir o favor. — Beijo sua boca e
chupo a língua dela, incapaz de resistir a sentir sua pele na minha por mais
de alguns segundos.
— Estamos aqui reunidos, — Sebastian fala pelo microfone. — Pela
sexta vez. — Todos riem e ele levanta as mãos quando o pai de Sabrina diz
que ele não, nem os irmãos. — Alguns de nós, os castigados pelos deuses
nascendo na sua família — ele completa olhando para mim. — Para
celebrar a união de Adônis e Sabrina. — Mais uma rodada de risos se segue
e ele continua. — Todos sabemos que a maior causa de divórcio em
Londres é casar com Adônis, então antes de mais nada, desejo boa sorte à
noiva.
— Os Marino não se divorciam. — Sr. Antônio se levanta me
recordando sua frase preferida.
— Sabrina Marino, você aceita Adônis como seu esposo, para amar e
respeitar até o dia em que você precise de ajuda para enfiar uma marretada
na cabeça dele?
— Sim — Ela responde como se fosse uma pergunta séria.
— Então, sob o poder em mim concedido pelo curso que fiz online
para participar nesta presepada por livre e espontânea pressão, eu vos
declaro, a dama e o vagabundo. — Ele faz uma pausa, esperando o cessar
dos risos e limpa a garganta — Quero dizer, marido e mulher.
— E eu não preciso dizer que sim?
— Adônis, não seja iludido. Você nunca teve opção — Meu irmão
responde, debochado, e levanta a mão indicando. — Pode beijar a noiva,
mas lembre-se que o pai dela está apenas a 3 metros de você.
Me perco em Sabrina que ri e chora ao mesmo tempo, emocionada.
Todos se aproximam querendo nos cumprimentar e rir da nossa cara e
abraço um de cada vez, querendo pegar minha noiva e sair dali o mais
depressa possível.
— Eu amo você — ela grita para mim, abraçando Lauren.
— É bom que ame, porque os Marino não se divorciam — grito de
volta sentindo meu coração agitado dentro do peito, o sangue correndo
acelerado, pulsando felicidade num ritmo desenfreado.
Meus olhos no seu sorriso, são a única certeza que preciso de que
será para sempre.
Chego em casa querendo celebrar, paro no escritório, mas não vejo
Adônis.
— Adônis! — grito sem resposta.
Tiro os tênis e deixo no caminho, ele tem tendência a brotar quase do
chão quando eu começo a fazer bagunça depois do dia de faxina. Ouço Oz
rindo e suprimindo o alarme que deveria tocar quando eu deixo as coisas
espalhadas, alertando Adônis.
Deixo a bolsa no sofá e estico o blazer na cadeira da cozinha indo até
ao quarto. Abro a porta do quarto dele, achando estranho que esteja
dormindo uma hora dessas. Segundo Oz, ele estava em casa quando eu saí
do trabalho.
— Adônis — chamo abrindo a porta do seu quarto, que tem mais
coisas minhas que o meu próprio. A verdade é que nunca mais dormimos
separados, mas ainda mantemos os dois quartos. Adônis vive me
ameaçando de que vai me soterrar na bagunça que eu espalho e cimentar a
porta do meu quarto com tudo lá dentro.
Abro a minha porta, suspirando e levo as mãos ao peito. Impecável.
Tudo arrumado nos mínimos detalhes. Entro sem acreditar e Adônis sai do
meu banheiro completamente nu. Não sei que jogo estamos jogando, mas
aprovo e sorrio me aproximando dele.
Beijo-o de leve e ele se ajoelha, estende uma chibata à sua frente e
coloca as mãos apoiadas nas coxas, com as palmas viradas para cima,
desvia o olhar para o chão e me diz:
— Eu estava lhe devendo isso há algum tempo. Espero poder servi-la
de todas as formas que considerar apropriado, minha imperatriz.
— Você está me cedendo o controle? — Confirmo, a euforia já se
espalhando em meu corpo.
— Inteiramente — ele responde ainda olhando para baixo.
— É muito fácil fazer isso aqui em casa, Vassalo, quero ver ceder
diante do Nox inteiro.
— Estou à sua disposição agora e sempre, Imperatriz.
Nós falamos sobre eu dominar tantas vezes, sobre o que poderia
fazer, e o que achava que não seria capaz e agora, diante de Adônis
prostrado aos meus pés, apenas fico sem palavras, sem saber o que dizer ou
por onde começar a acomodar as emoções fervendo mim.
— Qual o seu fetiche preferido, Vassalo? — pergunto, lembrando as
orientações de Markoz.
— Você, Imperatriz. Meu fetiche preferido é você.
Toco seu rosto e o levanto para mim.
— Eu sou a sua realidade, carne, osso e nenhum ponto final
Ei, Você aí!
Tudo bem?
Antes de ler os agradecimentos, e rir comigo, saiba que me ajuda
muito se você avaliar esse livro aqui mesmo, na amazon, e eu agradeço
imensamente se você o fizer. Inclusive, preparei duas ilustrações
exclusivamente para você que deixar suas estrelinhas e uma avaliação
escrita para nosso querido Namorado de Aluguel. Me procure no instagram
(Link para me encontrar: [Link] ou no grupo de leitoras
(Link para entrar: [Link] para receber esse brinde e muitos
mais.
E não deixe de conferir a amostra do meu outro romance no final
desse livro, Herdeiro Real.
Espero que goste.
Um beijo gigante e obrigada.
SOCORRO DEUS, SOCORRO DEUS!
Essa música foi trilha sonora quase constante enquanto eu escrevia
esse livro.
Namorado de Aluguel veio a este mundo pra me fazer pagar a língua.
Eu sempre disse que nunca escreveria um calhamaço. Vos apresento:
meu primeiro calhamaço.
Eu sempre disse que um romance com mais de 80 mil palavras era
coisa de maluco. Aqui vos fala a pessoa que deixou de contar quando
passou a marca das 100 mil pra não surtar.
Eu sempre disse que não gostava de personagens que pensavam
demais, e veio Sabrina pisando na minha cara com salto 20.
Namorado começou como um conto de natal, era pra ser só uma
introdução ao livro da Leona e do Sebastian, apresentar o Nox, o cenário e
DEU! Mas aí passou o natal, virou uma noveleta porque eu "tava com
tempo", de noveleta passou pra novela e de novela pra um livro normal.
Não satisfeito foi de normal pra grande e do grande pro enorme, do enorme
pro desespero e do desespero pra: será que vai ter um livro dois? O.o
Meu deus, me faça parar. SOCORRO! Eu não aguento mais.
Foram 4 meses de atrasos e surtos. E durante esses meses algumas
pessoas me ajudaram a manter o resquício de sanidade mental que me
permitiu estar aqui escrevendo agradecimentos depois do tão esperado final.
Em primeiro lugar, queria agradecer à Bruna, minha social mídia que
entrou na minha vida de gaiata e já se ferrou de cara. Datas alteradas sem
nunca ver a luz do fim do túnel ela seguiu firme sem me demitir. Por isso, e
por todos os vídeos sensacionais, obrigada.
À Hay, meu post it ambulante, secretária, beta e o caralho, obrigada
por ser sempre os primeiros olhos a ver meu texto. Sério vocês não tem
noção das atrocidades que ela é obrigada a ler quando o texto foi acabado
de escrever. Por nunca desistir de mim, obrigada.
À Lola que recebeu a função de preparadora contra a vontade,
acumulou com a de consultora de imagem e gerente de marketing e nunca
me bloqueou no WhatsApp. Muito obrigada! Não só por isso, você sabe.
À Kah, minha revisora, que até agora não deve ter entendido se o
livro já acabou ou se eu tirei mais um capítulo do rabo. Obrigada.
À Pê que está diagramando esse livro enquanto escrevo essas
palavras. Obrigada.
E hoje, amanhã e sempre, à minha irmã, que acredita em mim mesmo
quando eu já desisti e à minha mãe que perguntou todos os dias quantos
capítulos faltavam e quase teve um infarto quando viu as ilustrações mais
de +18 que eu mandei fazer, mas apoiou.
Obrigada a todos vocês que esperaram e não me abandonaram.
Obrigada a cada um de vocês que chegou até aqui.
Obrigada Larissa que sempre me salva e faz meus banners mais
lindos do nada, me atura gritando de noite e elogia todos os capítulos
mesmo quando eles estão uma palhaçada.
Obrigada Mery pelas ilustrações pros brindes, eu nunca mais te largo.
Obrigada às meninas das parcerias que ainda estão esperando a
Amazon liberar meu bebê.
E por fim, mas não menos importante:
Adônis, muito obrigada. Obrigada por surgir e me permitir escrever
esse grande surto.
Obrigada pela oportunidade de investir um tempo pesquisando
informações inúteis e poder dizer que estava trabalhando. Obrigada por não
ser nada daquilo que eu esperava e ao mesmo tempo ser do jeito que eu
sonhava. Sério, você me deixou perturbada. Obrigada por partilhar sua
história comigo e abrir suas portas pra mim.
Ah, e à minha prima Inês que está esperando eu aparecer na casa dela
para jantar desde que eu cheguei do Brasil e ainda não me deserdou.
Obrigada.
A todos os amigos e familiares a quem eu rosnei, xinguei ou ignorei
enquanto estava drogada de energético na veia e extremamente irritada.
Obrigada.
Um beijo na bunda de cada um de vocês.
A gente se encontra no instagram.
Tenho muitas surpresas preparadas!
Sinopse:
Afonso Monti Ferrara e seu gêmeo Santiago sempre partilharam
tudo, inclusive as mulheres. O que o príncipe não imaginava era que depois
de se despedir da vida de solteiro em grande estilo, nas vésperas de
oficializar o compromisso de casamento com a princesa do reino de
Corsella, ia se deparar com a possibilidade de uma mulher esperar um filho
seu do outro lado do globo.
Definitivamente dividir a sua noiva com o irmão não estava na lista
de planos cuidadosamente traçada pelo príncipe herdeiro, mas não restavam
muitas alternativas. Enquanto seu irmão assume o maior compromisso da
vida em seu lugar, o príncipe, acostumado a distribuir ordens e ser atendido
prontamente, terá que bater na porta do inesperado e pedir por favor para
entrar.
Verona Moraes tem dois sonhos na vida: assinar uma coleção de jóias
exclusiva para a marca Encanto e ser mãe. Depois de anos se dedicando
àquele que dizia respeito à sua carreira até lo alcançá-lo, ela decide que é
hora de viver o outro. No dia em que seu nome é assinado na coleção
Acquaria, ela descobre que seu maior tesouro também fez parte desse
momento.
Nada poderia estragar sua felicidade, até que a personificação do
pecado bate à sua porta e ela permite que ele entre e revire completamente a
sua vida, reivindicando não só a paternidade do bebê, mas também um
lugar em sua cama.
A situação entre os dois se torna insustentável, com seu raciocínio
sendo constantemente desafiado pelo tesão explosivo e incontornável que
ambos fingem não sentir e falham em resistir.
Será possível manter uma relação de sexo casual com o pai do seu
filho? Esse é um questionamento que a designer de jóias nunca terá a
chance de responder, afinal, casar com o príncipe herdeiro não é um
convite, e sim, um DECRETO REAL.
— Tudo certo — Confirmo secando as palmas das mãos suadas na lateral
da calça jeans.
A bancada estreita da cozinha americana, decorada com um único cupcake,
uma vela e um sapatinho de bebê, vermelho, - que é a coisa mais linda que eu já
vi na vida - perfeitamente arrumados num ninho de bolinhas de algodão colorido.
Um enorme cartão de papel florescente, quase maior do que a nossa
televisão, desce do teto, seguro apenas por dois longos fios dourados que filtram
a luz forte da janela e refletem nas paredes brancas do apartamento.
Meu coração bate tão descompassado que consigo sentir o gosto da minha
ansiedade misturada na saliva. Eu sempre tive uma sensibilidade para os sabores
das emoções. Algumas pessoas sentem nos olhos, no rosto ou na pele: o calor da
raiva, a tremedeira do nervoso, o ardor da irritação, o esmagar da tristeza. Eu
sinto sabores. Sei o gosto de cada uma das minhas emoções, e é na língua que
elas se manifestam primeiro.
Sinto o celular vibrando no bolso de trás das calças e atendo com um
sorriso no rosto.
— Eu não vou te contar, vai ter que esperar pelo jantar como todo mundo,
Luana — aviso, antecipando exatamente o que ela quer.
Aperto o celular entre a orelha e o pescoço e dou uma checada rápida no
espelho procurando o batom na bolsa.
— Você sabe que eu sou cardíaca, né? — A voz entusiasmada me ameaça.
— Eu sempre sei das fofocas primeiro, Verona! Você não me respeita. Eu já estou
aqui fazendo bife de cutícula à milanesa por sua causa.
— É uma surpresa. Por uma vez na vida, tenha paciência. — Sorrio para o
meu reflexo, o batom retocado com perfeição. — Eu quero contar para as três
juntas — acrescento, recebendo um bufar de impaciência como resposta.
— Da próxima vez que eu tiver uma novidade, também não vou te contar
nada. Você vai ver só.
— Você não aguenta nem dois minutos com uma novidade, Lu, deixa de
ser doida — rebato, rindo.
— É, não aguento mesmo — ela confessa, revoltada, como se fosse culpa
minha. — Você perdeu dez pontos na escala da amizade. É bom que essa notícia
seja um escândalo, porque se ela não valer a úlcera que eu vou ganhar, você está
ferrada na minha mão.
— Vai valer — garanto emocionada, tentando não deixar a emoção
transparecer na voz ou é bem capaz dela brotar aqui na minha porta e só sair
depois que eu contar. — Eu prometo.
— A campainha está tocando, Lu, eu te vejo mais tarde. Beijo.
Desligo sem esperar resposta.
Rodrigo sempre esquece as chaves, mas hoje eu não vou abrir apenas a
porta de casa, mas também a porta do primeiro dia do resto das nossas vidas.
Coloco a mão no ventre e cumprimento meu bebê que ainda é só um grãozinho
de arroz e já significa um mundo e meio para mim. E abro a porta, com a
expectativa da reação dele se inundando em mim.
Um grito é a primeira coisa que eu ouço, estridente, depois o riso
estapafúrdio e mais gritos e Luana me abraça apertado entendendo tudo
imediatamente.
— Eu vou ser titia! — Ela pula comigo e não me controlo, pulo pela sala
com ela, feliz ao som da música que ela acabou de inventar sobre ser a melhor tia
preferida de todos os tempos. — Mais alguém sabe? — ela para e pergunta,
desconfiada.
— Não. Eu ia contar para o Rodrigo primeiro e para vocês à noite, sua
ridícula. Você estragou a minha surpresa. Eu devia ter olhado antes de abrir e
deixado você lá fora — reclamo, lembrando que ela estragou meus planos.
— Ah para de drama, Verona, eu tenho a chave. Eu não estava nem
conseguindo dormir pensando nisso.
— São duas e meia da tarde, é claro que você não estava conseguindo
dormir.
— Detalhes. — Ela afunda no sofá, olhando para o teto e cruzando as
mãos sobre a barriga, pensativa.
— Luana, você precisa ir embora — aviso, antes que se acomode de vez.
— Você já estragou a sua surpresa, não vai estragar a do pai também.
Seus olhos crescem de tamanho, enquanto ela se senta num pulo só.
— Eu vou filmar a reação dele para você — anuncia, batendo uma palma
solitária e pegando o celular em busca dos melhores ângulos.
— Claro que não, você vai para sua casa, se vestir, que logo à noite nós
temos um jantar no nosso lugar preferido e vamos contar para a Helena e Raquel
que eu vou ser mãe.
— Eu vou ser a madrinha?
— Luana... Pelo amor de Deus, conversar com você é igual conversar com
um bêbado. Sua linha de raciocínio é totalmente paralela à realidade. — Estalo os
dedos na frente dela. — Acorda. E vaza. Por favor.
Imploro sabendo que ela é bem capaz de querer ficar escondida atrás de
uma cortina até Rodrigo chegar.
Ela revira os olhos, contrariada.
— Está bem. Pronto. Se eu vou ser a madrinha, tenho que aprender a ser
paciente mesmo. Porque se você morrer, eu vou ter que criar o meu sobrinho.
Vou começar a treinar hoje, o Rio de Janeiro é muito perigoso. É melhor estar
preparada para qualquer eventualidade.
— Você é uma idiota. E você não vai ser a madrinha — decido e
comunico.
— Claro que vou.
— Não vai. Eu ainda não decidi.
— Pois eu vou sair daqui e comprar uma roupinha combinando com a dele
para vocês saírem da maternidade e vou mandar bordar madrinha na minha e não
se fala mais nisso.
Ela me abraça, me aperta e faz cosquinha, tudo ao mesmo tempo. E beija
meu rosto feliz.
— Eu te amo — declaro, sabendo que ninguém cuidaria melhor do meu
filho, caso fosse necessário.
Luana é a pessoa mais alegre que eu conheço e ela contagia. Ele seria feliz
se ficasse aos cuidados dela, mas nunca vou dizer isso em voz alta ou é capaz
dela sequestrar o afilhado na maternidade e eu que vou ter que visitar a criança na
casa dela.
— Claro que ama. Eu sou a madrinha do seu filho. Você não escolheria
alguém que não amasse.
— Ridícula — acuso, negando com a cabeça.
Ela me joga um beijo e fecha a porta atrás de si.
Nem um minuto se passa e ela volta a bater na porta. Giro a maçaneta
pressionando os lábios para não rir.
— O que foi? Esqueceu que tem chave? — brinco, meu sorriso morrendo
em meu rosto imediatamente.
Mal posso reconhecer as feições de Rodrigo, os contornos do rosto todos
machucados como se tivesse sido chutado várias vezes, algumas áreas sem pele e
outras profundamente negras dos hematomas.
— O que aconteceu com você? — pergunto, o medo estampado no meu
rosto.
Por favor, que não seja o que eu estou pensando. Por favor, rogo baixinho.
— Nós precisamos sair do país, arrume as suas coisas, nós estamos saindo.
— Ele entra sem sequer olhar em volta, ignorando minha surpresa totalmente e
me grita do quarto. — Na verdade, não arruma nada, pega só o essencial,
passaporte, cartões de crédito e vamos embora. A gente compra tudo lá.
— Lá aonde, Rodrigo? O que aconteceu? Você apanhou na rua, Rodrigo?
— pergunto já sabendo a resposta. Ele nem sequer se digna a confirmar.
— Foi uma recaída, querida, não se preocupe. Eu nunca mais vou jogar. Eu
prometo.
Nem preciso olhar para o seu rosto para saber que ele diz essas palavras de
ânimo leve e sem comprometimento.
— Nós combinamos que você ia parar, que ia dar prioridade à nossa
família, que ia largar esse vício.
— Sim. E eu larguei. Eu só joguei uma vez, mas tive azar. Essa gente é
barra pesada, eu sabia, fui inocente.
A mochila em suas mãos vai se enchendo, assim como as lágrimas nos
meus olhos, e o gosto salgado na minha boca se amargando lentamente enquanto
pisco rapidamente para não chorar.
O gosto da decepção é um dos piores que eu já senti. Ele fica com você por
dias. Nenhuma fruta doce e suculenta consegue apagar o rastro que a decepção
deixa em minha boca toda a vez que a sinto.
— Eu vou precisar de um dinheiro emprestado para pagar essa gente. Não
é seguro dever a eles. Mas, mesmo pagando, é melhor a gente se afastar por uns
tempos.
— O nosso casamento é em quinze dias, Rodrigo — relembro-o em voz
baixa, tentando lidar com a avalanche de apatia que lentamente percorre meu
corpo tentando me proteger dos meus sentimentos.
— A gente casa em Las Vegas, vai ser lindo. E adia tudo aqui. Vai ser
ótimo. Como nos filmes.
Obrigo meus pés a se moverem sem rumo, descrente de cada uma das
palavras que ouço saindo da boca dele.
— Se mexe, Verona, a gente não tem o dia todo. Eu vou pedir um Uber
para nos levar ao aeroporto.
Ele volta para a sala para pegar o celular e finalmente nota a minha
surpresa totalmente arruinada pela sua chegada catastrófica.
— Que porra é essa? Você está grávida? — quase grita, incrédulo.
— Sim — respondo apenas debilitada pelos pensamentos mesquinhos e
egoístas se engalfinhando em minha mente para ver quem se liberta primeiro e
possui minha boca para se revelar em grande estilo.
Sinto a mão dele apertar meu queixo me machucando e empurrando para
trás, os olhos semicerrados, a voz baixa e cruel:
— Você está me traindo há quanto tempo?
Seguro sua mão com as minhas tentando me afastar do seu aperto
opressivo e por um segundo fico confusa com a pergunta completamente
inesperada.
— Traindo? Você está doido? — seu aperto me larga e ele me empurra,
afastando minha cabeça do seu olhar, me obrigando a dar um grande passo atrás.
— Eu sou infértil. Como você pode estar grávida? Vadia!
E é nesse momento que meu mundo se abre, rasgando um portal para uma
nuvem densa e escura que me aperta e me ofende mais que seus gestos e palavras
agressivas e cruéis.
— Eu fiz uma fertilização in vitro. Você disse que não se incomodava de
não ter filhos biológicos, Rodrigo. A gente conversou sobre isso mil vezes! Nós
planejamos uma família há mais de cinco anos.
As palavras saem atropeladas. As milhares de conversas sobre filhos
passando em "flashes" na minha mente. Eu não sou doida, não tinha como
interpretar errado algo desse nível.
— Ah! Mas é claro. E você acreditou que ia emprenhar de um maluco
qualquer e que eu bateria palmas e criaria o seu bastardo como se fosse meu? —
os gestos acusatórios de suas mãos se tornam frenéticos conforme me atira
acusação atrás de acusação.
— Mas a gente conversou.
Me sinto um disco riscado, mas as palavras estão além das minhas
capacidades, todas as energias do meu cérebro estão concentradas em não surtar.
Não posso exigir que ainda lidem com essa situação com inteligência e elegância.
— Eu dizia que não me importava em ter filhos biológicos porque eu
nunca quis filho nenhum. Nem com você, nem com ninguém. Olha bem para a
minha cara, Verona, vê se está escrito limpa fralda de bosta. Eu fiz uma
vasectomia há cinco anos.
— Por que você está falando assim comigo? Meu Deus o que está
acontecendo? Você já me pediu em casamento mil vezes, eu nunca aceitei. Nós
conversamos, combinamos, eu sempre quis ter um filho. Eu nunca me incomodei
em casar. Nós íamos nos casar para formar a nossa família. Eu não sou doida. Por
que raios você nunca me disse isso?
— Nós íamos nos casar para ter uma família de nós dois. Eu não vou
dividir mulher com criança nenhuma, muito menos uma que nem minha é.
Cada uma das palavras me atinge como tapas que me queimam como se
uma luva de brasas me acertasse sem cessar.
Todos os tratamentos hormonais a que me submeti, toda a preocupação
sobre se conseguiria gerar meu próprio filho ou não. As dezenas de decisões de
vida que tomei em detrimento dele ser meu companheiro e o futuro pai dos meus
filhos. Tudo isso não valeu nada. Uma vasectomia. Ele permitiu que eu me
iludisse mês após mês com a esperança, sabendo que eu nunca engravidaria.
— Você vem ou fica? — A pergunta seca apaga algo em mim, endureço o
olhar e apenas o observo em silêncio, sem reconhecer o homem que partilhou o
meu teto por tantos anos.
Dou alguns passos calmos, passando por ele sem olhar no seu rosto ou lhe
dirigir a palavra e abro a porta.
— Saia. Agora — ordeno, determinada.
— Se livra disso, — ele aponta para a minha barriga num tom venenoso,
— antes de eu voltar.
Antes de sair, como se nada fosse, ele vasculha minha bolsa e leva meu
livro de cheques.
Não digo nada, apenas viro a cara quando ele tenta me beijar na saída,
força do hábito eu diria. E quando a porta bate atrás de mim, tenho duas certezas:
Ele nunca mais vai colocar os pés na minha casa.
A criança que cresce dentro de mim, é apenas minha.
Termino de fechar a terceira caixa de coisas de Rodrigo que fui
metodicamente retirando dos lugares onde ele as deixou, empilhando uma em
cima da outra para me ver livre dos seus rastros e pela terceira vez atendo a porta,
desta vez num total desânimo.
As meninas vieram me buscar para jantar, vejo Helena pelo olho mágico
balançando uma garrafa de champanhe. Claro que Luana não aguentou esperar e
contou para as outras qual era a surpresa.
O urso enorme que traz nos braços rivalizando com seu próprio tamanho,
tem cara de pedido de desculpas por não conseguir guardar nenhum segredo por
mais de algumas horas. Raquel tem as mãos cruzadas em frente ao corpo, numa
posição quase solene, sempre tão elegante e desconfiada.
— Anda logo, abre essa porta mulher. No contrato de madrinha diz que ela
não pode ficar esperando na porta que nem um dois de paus — Luana pede,
ansiosa por pedir logo desculpas e seguir vida, como sempre.
Abro a porta devagar, sonoros desejos de parabéns explodem e um abraço
triplo me recebe. E ali, nos braços das pessoas que eu mais confio na vida,
permito que o gosto da decepção escorra salgado pelos meus olhos e me desfaço
em lágrimas.
O cheiro de álcool que exala do meu corpo é enjoativo e a sensação
de entorpecimento torna meus golpes mais lentos à medida que insisto. O
suor me escorre da pele e pinga no chão. Sinto as faixas de tecido que
protegem minhas mãos, completamente encharcadas, fazendo com que
alguns socos escorreguem ligeiramente no saco de pancadas.
Respiro fundo, parando para beber mais água, minha língua parece
feita de papel.
— Quem perde a noite, perde o dia. Você está um lixo, Afonso. —
Meu irmão entra, repetindo uma das célebres frases da rainha Katarina
Ferrara, intimamente conhecida como senhora dona nossa mãe.
Seu rosto descansado e jovial — embora idêntico ao meu em todos
os centímetros expostos — não representa meu estado de espírito.
— Afinal, o que você queria que não podia explicar por telefone? —
ele me questiona mencionando a ligação em estado de semi desespero que
fiz algumas horas atrás quando recebi a notícia que me deixou com essa
cara de merda. — Você nem sequer dormiu? — me pressiona exigindo uma
reação.
Uso outra garrafa de água para refrescar meu corpo, e ele dá um
passo atrás evitando se molhar.
— Não me diga que você decidiu fugir da megera da sua noiva e quer
ajuda para traçar um plano de fuga? — o risinho debochado encontra meu
olhar sério. — Porque se for esse o caso, a gente precisa falar com o Heron.
Uso a toalha para secar meu rosto e trinco os dentes antes de falar,
forçando meu maxilar ao limite e alertando meu irmão para o meu mau-
humor.
— Vou precisar que você encontre minha noiva por mim. Eu preciso
viajar. Hoje, o mais rápido possível. Vou precisar que me substitua na
apresentação do noivado.
O rosto de Santiago é todo olhos. As palavras se formando em sua
mente como um turbilhão que posso sentir chegando. Não há ninguém que
eu conheça melhor do que ele. Juntos desde o primeiro momento de vida,
— e até antes disso — posso prever sua reação e cada uma de suas palavras
contidas para não socar minha cara.
— E a que devo esse presente celestial que estou recebendo? De
todas as mulheres que partilhamos, não imaginei que a sua noiva, futura
rainha, fosse entrar para a nossa lista. Eu achei que tínhamos te aposentado
na sua última despedida de solteiro.
Santiago encosta na parede e cruza um pé no outro relaxando de
braços cruzados.
— Em primeiro lugar, mais respeito com Ariana — enumero me
levantando.
O seu olhar cínico é tão flagrante que nego com a cabeça as palavras
que ele nem precisa dizer antes que eu responda.
— Em segundo lugar, você precisa parar de pensar nela como um
inimigo — ele vira a cabeça para cima e enfia as mãos nos bolsos, prevendo
o sermão. — Ela está neste acordo pelos mesmos motivos que eu, Santiago.
Uma aliança entre os nossos reinos, um procedimento arcaico
promovido pelos nossos pais. Penso, mas não digo, ele não precisa saber
que eu concordo com o fundamento básico da sua revolta quanto ao meu
casamento.
— Talvez ela também não esteja saltitante de alegria por ter que se
casar com um estranho com quem ela esteve comprometida por anos sem
nem sequer terem se dado ao trabalho de nos apresentar até agora.
A convicção de Santiago falha sob as minhas palavras, refletindo
sobre Ariana por um momento, ainda que continue sem dizer nada.
Santiago é um jogador paciente, vai esperar que eu tenha apostado
todas as minhas fichas antes de se mover, ele gosta de terminar o jogo com
um golpe só. E para ele, todas as conversas são um jogo. É assim que gosta
de viver. E não posso julgá-lo. Sua rebeldia sempre foi meu norte, minha
régua.
Passei grande parte da vida equilibrando seus excessos até perceber
que foi neles que ele se tornou a pessoa que eu mais admiro: honesto e leal.
E eu não poderia pedir nenhuma outra pessoa para ter ao meu lado.
Quando entendi que não precisava disfarçar quem ele era, sendo o
exato contrário, me permiti ser simplesmente eu e descobri que somos
iguais em tudo que importa, e diferentes em tudo que se nota, menos na
aparência.
— Eu não sou o maior dos românticos, mas acredito que para uma
mulher, as expectativas de um casamento real sejam altas. Eu preferia que
você não visse a minha futura esposa como uma ameaça. — Me aproximo
colocando a mão em seu ombro, apaziguador. — Você é parte intrínseca da
minha vida e da minha felicidade, e ela também se tornará muito em breve,
então lide com esse sentimento que te faz pensar nela como uma dose de
veneno.
Termino minha defesa puxando uma grande quantidade de ar, antes
de falar de novo.
— E por último, e mais importante, eu recebi uma ligação da equipe
de inteligência. Houve um problema com a amostra recolhida do meu
material genético pela Nativitti. De alguma forma, o meu esperma foi parar
ao Brasil e existe a possibilidade dele ter sido tratado como uma doação
para um banco de inseminação.
O corpo do meu irmão deixa a parede imediatamente como se fosse
uma mola e seus olhos buscam nos meus o pânico que ele espera que eu
esteja sentindo, mas apenas encontra a personificação do cansaço na cara de
alguém que passou a noite bebendo e trepando como um animal, boa parte
da manhã tentando lidar com um possível incidente diplomático
internacional e a tarde esperando para saber mais informações.
Tudo que eu precisava era socar algumas caras até que elas
explodissem, mas sequer sei quem são os responsáveis pela situação em que
me encontro. Toda a riqueza do meu reino não parece ser suficiente para
acelerar certas burocracias.
— Você pode ter filhos espalhados pelo mundo? — ele ri de nervoso
— Eu já vi um filme sobre isso. Era patético, quase tão patético quanto o
que você está dizendo.
— Eu preciso ir ao Brasil — comunico, retomando o foco da
conversa e começo a tirar a roupa seguindo para o chuveiro com Santiago
atrás de mim. Seu cérebro fervilhando.
— Eu tenho a certeza de que a equipe de inteligência e seu conselho
podem resolver esse problema sozinhos. Estou certo de que está dentro das
capacidades deles lidar com isso.
— A clínica que recebeu a minha amostra se recusa a responder
perguntas, a não ser com o doador em pessoa — esclareço, ligando a água
quente no máximo.
— Você usou o seu cartão de visitas? Eu acredito que, sua alteza real
Afonso Monti Ferrara deva abrir algumas portas de uma clínica qualquer no
Brasil.
— Eu não posso fazer isso sem arriscar prejudicar a reputação da
Nativitti.
— Ah, claro — sua indignação clara no riso de escárnio. — Proteger
a futura rainha a todos os custos. O irmão, que se foda. — Santiago
gesticula no ar com as mãos. — Mas a rainha temos que pegar e colocar
numa redoma. A empresa da família deve ser protegida da humilhação
embora não passem de um bando de incompetentes.
Santiago cruza as mãos em frente ao corpo e se aproxima do vidro do
box. Antes que fale, eu o interrompo abrindo a água fria por alguns
segundos antes de sair do chuveiro. Uma prática que meu irmão abomina,
mas preciso de algo que me mantenha acordado já que os litros de café
estão servindo apenas como uma confortável piscininha para o meu sono.
— Eu posso contar com você ou não?
Minha expressão séria o desarma, enrolo uma toalha ao redor do
quadril e alcanço minhas roupas arrumadas no armário.
— Como se eu alguma vez te dissesse que não a algo, Afonso. Mas
isso não vai te sair barato — promete, ameaçando. O maxilar travado com
força e as mãos cerradas ao lado do corpo.
— Nunca pensei que fosse — aceito, sem reclamar.
Algo passa rapidamente pela cabeça dele e faz um sorriso começar a
aparecer no canto do seu rosto.
— Talvez quando você voltar do Brasil, a pobre princesa do reino de
Corsella tenha desistido do casamento com o príncipe cruel.
O riso predador se instala e sei que está maquinando várias coisas em
sua mente.
— Eu vou me casar com ela, Santiago. Se eu quisesse desfazer esse
compromisso, teria pelo menos tentado. Eu fiz um acordo com o reino de
Corsella e um com você. E pretendo cumprir os dois.
— Se existir por aí uma mulher grávida de você, não conte comigo
para ficar triste. Eu vou comemorar que essa presepada de casamento
arranjado terá terminado. Então, meu caro irmão, eu desejo que dê tudo
errado na sua viagem.
— Cuidado com o que deseja, Santiago. — Ouvimos a voz alta,
porém rouca. — Seus desejos podem ser atendidos, nem sempre da forma
que você pensa que quer.
Minha avó entra no salão de treino trajando um pijama em plena luz
do dia e nos cumprimenta com um beijo nas bochechas que temos que nos
agachar para receber.
— Vim saber como foi a despedida de solteiro, mas já vejo que vocês
se meteram em mais confusão do que eu previ. Então você vai atrás das
brasileiras. Muito bem, Afonso, queime todos os cartuchos antes do
noivado. Você merece, meu filho.
— Hei, e eu não?
— Claro que não, Santiago, você é um galinha, Afonso é um homem
de família.
— Eu conheço uma lista inenarrável de mulheres que discordam de
você, vó.
— Tudo na vida é intenção, meu filho.
— A senhora precisa parar de ouvir atrás das portas, sabe?
— E ter que ficar perguntando tudo a todo mundo? Nunca! Me
respeite. Eu sou a razão pela qual todos dizem que as paredes deste castelo
têm ouvidos. — Ela aponta para as laterais da cabeça, como se fosse óbvio.
— Olhe bem, são os meus. Nada acontece aqui sem eu saber.
— Você já avisou a mamãe? Ela vai ter uma síncope — Santi se
dirige à mim.
— Ainda não, pretendo contar quando a situação estiver solucionada.
Com um pouco de sorte eu consigo ir e vir antes de você precisar realmente
se passar por mim na festa de noivado.
— Eu estarei aqui esperando tudo dar errado, como deve ser.
— Sua graça, tomei conhecimento de uma oportunidade que envolve
o príncipe Santiago, porém ele se recusa a me oferecer a gentileza de
explicar a proposta.
Levanto a cabeça fitando o conselheiro Aquino que invade a minha
sala sem ser anunciado.
— E o que está fazendo aqui, então? — questiono, deixando-o alerta
pelo meu tom ríspido. — A palavra do meu irmão é lei. Quando ele lhe der
uma ordem, o senhor obedece. Ele é seu superior hierárquico. Não é de
bom-tom desrespeitá-lo recorrendo a mim. Isso é mesquinho e baixo.
Acredito que já tenha tomado conhecimento de como eu lido com pessoas
com esse tipo de personalidade defeituosa, correto? — Minhas mãos se
cruzam sobre a mesa, numa postura confrontadora.
Meu rompante o faz engolir quadrado, ficando automaticamente
desconfortável em sua própria pele diante de mim. Hoje definitivamente
não é um bom dia para vir falar mal da conduta do meu irmão. Ele teve
azar.
— Eu sempre tenho em consideração os interesses de Calanthe em
primeiro lugar. Os interesses do Estado, acima de qualquer coisa. —
Aquino tenta se defender do meu ataque com a postura altiva e o nariz
empinado.
— Há quanto tempo trabalha para a minha família, conselheiro? —
questiono apenas para enforcá-lo devagar.
— Desde antes do seu nascimento — declara com orgulho, tentando
suplantar minha autoridade com arrogância, como sempre fez diante dos
meus pais.
— Talvez devêssemos repensar essa situação se é incapaz de usar o
bom senso para me poupar da perda de tempo que é a sua presença —
declaro, ofendendo-o terminantemente.
Ele dá um passo atrás, ultrajado com a minha reação despropositada.
E antes que diga mais alguma coisa, meu chefe de segurança entra, se
posicionando em frente à porta aberta com uma expressão indecifrável,
percorrendo o corpo do conselheiro com o olhar como se ele fosse um alvo
a ser abatido.
Heron se comporta como se todos representassem perigo para a
minha existência. Só relaxa quando estamos sozinhos. Nunca em público. E
para ele, eu, ele e outra pessoa já é considerado uma multidão.
Perante a abordagem silenciosa e ameaçadora de Heron, Aquino
apenas acena com a cabeça e se retira, aparentemente dando por encerrado
o assunto, mas eu sei bem que o verme vai apenas recorrer a minha mãe —
como de costume — para defender sua ideia, seja ela qual for.
Ele já se comportava dessa forma quando meu pai era vivo, nunca
mudou. A única razão pela qual ainda trabalha conosco é porque minha mãe
o tem em grande conta. Para mim e meu irmão, não passa de um rato
aproveitador que tenta nos manipular a seu bel-prazer sempre que tem a
mínima oportunidade.
Meu segurança se aproxima com o semblante preocupado.
— Ele veio a propósito do casamento de Santiago?
— Como?
— Ele encontrou uma princesa para Santiago e está tentando fazer
com que seu irmão aceite um casamento arranjado também.
— A sorte dele foi que eu sequer lhe dei oportunidade de abrir a boca
para me contar essa ideia estapafúrdia ou o teria tratado ainda pior.
— Afonso, quanto à viagem, se o plano que traçou não der certo,
precisamos de uma opção.
A porta ainda aberta indica que está na hora de irmos. Levanto-me e
o sigo.
— Fecharemos a clínica e apreenderemos todas as amostras que
encontrarmos.
— Isso não seria um procedimento legal.
— Eu tenho a certeza de que a produção não autorizada de um
herdeiro bastardo do trono de Calanthe também não será propriamente
aprovada pela lei.
— Esse é o nosso plano B?
— Não. O plano B é fazer o plano A dar certo. Será como eu digo de
uma forma ou de outra, não há opções. Estamos falando da minha
linhagem, Heron, opções não cabem nesta situação.
— Eu requisitei uma equipe da Hades’ MenCorp para nos receber e
acompanhar no Brasil, tenho certeza de que serão úteis caso tenhamos
necessidade de recorrer a medidas mais drásticas.
— Ótimo. Eles são de confiança?
O seu tom de voz baixa de uma forma quase inaudível conforme
atravessamos os corredores em direção a plataforma de voo.
— Eu fui treinado por eles, e posso dizer que eu sequer sou o melhor
da minha turma.
— Você é excelente no seu trabalho, sua postura irretratável. Eu não
poderia estar mais satisfeito. Não seja modesto.
Minha mala é entregue ao comissário de bordo e a pequena equipe de
13 pessoas se encaminha para a plataforma de embarque. Nunca é nada
discreto mover um príncipe, ainda que seja segredo. Naturalmente, um total
de umas cem pessoas acabam por ser informadas de qualquer passo que eu
dê.
— Não estou sendo. Mas há certas coisas que eu não consigo fazer,
nem por você, nem por ninguém. E caso fosse necessário, eles cobririam
esse tipo de serviço também.
— Que tipo de coisas estamos falando?
— Eu espero que nunca chegue a descobrir. Caso seja necessário, a
nossa equipe cuidará de tudo sem alarde — garante.
Um segurança nos dá sinal, informando que é hora de embarcarmos
também. Olho para o retrato dos meus pais antes de sair do corredor
principal.
“Você não quer o que eles têm?”, recordo a pergunta do meu irmão.
Apesar de todos os nãos que lhe dei, às vezes penso no que me afasta tanto
daquela imagem de puro amor, o que me distancia de querer para mim a
realização de um sonho para muitos.
Nunca seria capaz. Se você se torna cativo de um sentimento como
meus pais eram, você é escravo da sua permanência. Ninguém vive para
sempre, meu pai não viveu, não é possível depositar sua esperança de
felicidade nas mãos de alguém, porque basta que os seus dedos se abram
para que tudo se esvaia em segundos.
Eu quero um amor tranquilo. Uma companheira. Uma amiga.
Alguém que partilha dos meus compromissos e honra a minha presença
com a sua. Paixão eu deixo para quem a deseja, para quem a procura. De
preferência, longe de mim.
Anos se passaram e ainda vejo minha mãe reconhecendo a presença
do meu pai pelo castelo. Em nós dois vejo como ainda dói e como essa
ferida nunca fechará, não importa quanto tempo passe. Meu pai morreu
levando um pedaço dela consigo e eu acredito que era o pedaço de si
mesma que ela mais gostava.
A Rainha se forçou a seguir o caminho da vida, se tornou a melhor
regente que podíamos ter, mas aquela pequena sombra nunca deixou seus
olhos, é como se a todo momento algo lhe faltasse, algo falhasse.
Amor completo e paixão avassaladora. A maior fraqueza que um ser
humano pode ter.
Nunca foi uma opção para mim.
Nem nunca será.
Eu nunca quis ser livre para sofrer.
Ser esmagado por uma imensidão de sentimentos dos quais você não
tem controle. Algo que tem potencial de durar além da morte. É sinistro e
aterrador.
Eu vou me tornar rei, minhas decisões não podem se pautar em
sentimentos vãos. Minha avó sempre diz que encontrar o amor da sua vida é
como ganhar na loteria, eu concordo, é totalmente um jogo de azar, aonde
apenas um sai vencedor entre dezenas de milhares de feridos.
Eu não serei um deles.
— E teve boatos de que eu ainda estava na pior. Se isso é estar na pior,
porra, o que é você estar bem, né? — me engasgo com o champanhe, que explode
da minha boca para fora, escorrendo efervescente do meu rosto ao ver Luana
recriar um meme se apoiando na beirada da piscina e jogando o cabelo molhado
para a câmera, estrategicamente posicionada que grava a cena.
Pego a toalha para secar meu rosto ainda rindo e desvio o olhar para a
bandeja que surge ao meu lado.
— Champanhe, senhorita? — O garçom questiona.
— Não, obrigada — Dispenso.
Ele segue até Luana que enche sua taça sem sequer questionar. Ela aceitou
todas as ofertas até agora, embora nada em seu olhar sugira a mais leve
embriaguez.
Ela quase me obrigou a colocar distância física entre mim e a badvibe que
eu estava chocando no apartamento que dividi com Rodrigo por tanto tempo e
adaptei para ter a nossa cara, o nosso gosto. Agora tudo me lembrava daquele
babaca.
Eu quase fiquei surda até ceder às loucuras de Luana e me enfiar num
avião rumo à minha lua de mel no hotel cinco estrelas mais bem cotado de toda a
Suíça. A viagem estava paga e Luana achou a epítome do desperdício se não
aproveitássemos.
Eu ignorei a ideia por algumas horas, até que Raquel e Helena
concordaram com a ideia e a verdade é que não me arrependo. Foi bom colocar
em perspectiva tudo que aconteceu. Realmente a distância ajuda a escoar a
humilhação que eu sinto por permitir que a situação chegasse ao ponto que
chegou.
— Por favor, senhoritas, quando lhes for confortável podem seguir para a
sala de massagens— outro funcionário sugere, nos fazendo virar em sua direção.
Luana se aproxima e sai da piscina vestindo um robe rosa que o
funcionário lhe oferece com um sorriso contido e educado. Mal ele se vira, ela
está fazendo caretas esnobes imitando o ar altivo dos funcionários pelas suas
costas.
Ainda rindo, o seguimos pelo chão de ladrilhos que acendem a cada passo
que damos em sua superfície.
— Isso precisa virar uma tradição! — Luana vira, gritando como se
estivéssemos sozinhas no hotel.
Eu faço um sinal de abaixar o volume com as mãos e ela revira os olhos
em resposta.
— O quê? Viajarmos juntas? A gente já faz isso, uma vez por ano, todos os
anos.
— Sim, também. Mas eu estou falando da celebração do divórcio — ela
explica com uma dancinha discreta.
Minha atenção é sequestrada pelo absurdo que sei que ela vai dizer,
interrompo-a antes que os funcionários nos tomem por loucas.
— Eu nem cheguei a casar — sugiro, num murmúrio de alerta, agarrando
seu braço de uma forma aparentemente amigável para beliscá-la com força,
escondida dos olhares atentos.
— Ah, pronto. — ela retira seu braço com força, esfregando o local
dolorido, e leva as mãos à cintura parando no corredor e fazendo com que todos
paremos também. — Esteve quase uma década com aquele traste, esperou por ele
para ter uma família, brincou de casinha por mais tempo do que eu gosto de
lembrar, está grávida, o que mais falta para ser um divórcio? Um papel? — O
questionamento vem acompanhado de uma olhada para os lados.
Numa mesa, ela pega o primeiro guardanapo que encontra e joga na minha
direção.
— Pega esse aqui e assina!
Fecho os olhos, deixando que o guardanapo caia no chão e a fuzilo com o
olhar apertando os lábios para conter o palavrão que se forma com força e vibra
em minha língua.
Luana percebe o auê que provocou e levanta as mãos em sinal de desculpa
e rendição, se voltando de costas e voltando a caminhar como se nada tivesse se
passado.
Entramos no SPA e somos recebidas por sofás gigantescos do átrio de
entrada. Me acomodo, deixando que o momento lá fora se dilua no ar como um
cheiro ruim.
Os passos da recepcionista cortam o silêncio que se instalou entre nós. Ela
traz mais petiscos e bebidas e os deixa num aparador à nossa disposição. Tão
sorridente e simpática que beira um nível de exagero caricato, como se estivesse
servindo celebridades.
Luana volta à carga, com seus pensamentos aleatórios que é incapaz de
manter para si mesma por mais que se esforce e Deus sabe que ela não se esforça.
— Eu acho que agora, haja casamentos ou não, a despedida de solteira
deve ser proporcional à lua de mel. Sério. Eu me recuso a frequentar mais um
barzinho que seja nas próximas despedidas de solteira. Agora só quero hotéis de
luxo no estrangeiro — decide e me comunica, como se eu fosse ser a próxima
louca a programar outro casamento.
Nem em um milhão de anos vão me ver me metendo nesse tipo de
encruzilhada.
Luana beija a taça de champanhe, que sequestra do aparador, e faz uma
prece baixinho agradecendo o álcool nosso, todo incluso, open bar, de cada dia,
repondo o ambiente relaxado e divertido de antes com maestria e simplicidade.
— Por que você escolheu a Suíça? — A expressão de curiosidade sincera
me faz querer responder por impulso, mas me contenho lembrando do dia em que
escolhemos o destino.
Eu queria calor, Rodrigo queria frio. Eu queria praia, ele queria montanha.
Eu queria cidade, ele queria campo. Eu queria um apartamento com privacidade,
ele queria um hotel de luxo. E como quase tudo o que dizia respeito à nossa
relação, eu cedi. Tentando agradar, sempre entendendo seus desejos e celebrando
suas vitórias, ainda que ele nunca fizesse o mesmo por mim. Acabamos optando
por uma lua de mel num hotel extremamente badalado no meio do nada em plena
estação de neve na Suíça.
Eu era tão tapada que não via minhas decisões e vontades sendo minadas
em sua grande maioria e nem posso dizer que fosse totalmente culpa dele. Eu
tinha criado, alimentado, dado casa, comida e roupa lavada a todas as altas
expectativas de como eu acreditava que um relacionamento deveria ser, nada
mais justo que eu me adaptasse para alcançar aquilo que só eu tinha visão de
futuro suficiente para sonhar. Que besteira!
O meu longo e cansado suspiro responde por mim e Luana simula um
brinde ao que quer que tenha passado pela minha cabeça.
— Aqui, vou te falar na humildade mesmo, ainda bem que essa criança
tem uma madrinha com juízo, porque se ela fosse contar só com você… —
Luana dispara num tom sério e pensativo. — Você faz péssimas escolhas, miga,
sem a menor condição. O próximo homem que aparecer na sua vida tem que ser,
no mínimo, um príncipe, senão não aceito ele como pai do meu afilhado.
— Você treina para falar essa quantidade de besteira ou você é assim o
tempo inteiro?
— Você deve saber melhor que eu, eu vivo enfiada na sua casa, ué.
Desconcertante.
— Às vezes eu me pergunto como que eu ainda sou sua amiga, sabe?
— Ah, para de drama, sabe que me ama. Para de show. E fique você
sabendo que você é minha amiga porque eu organizo tudo que você precisa na
sua vida.
Só rindo da cara de pau mesmo.
— O que você organiza para mim, Luana? Você já roubou minhas
calcinhas porque não conseguia achar as suas. Quem perde as próprias calcinhas,
Luana?
— Aff, a pessoa comete um deslize uma vez em milênios e você fica
jogando na minha cara. Olha, sinceramente, eu acho que essa amizade está
desnivelada mesmo. E fique você sabendo que eu sabia muito bem onde estavam
as minhas calcinhas, eu só esqueci que a moça que cuida da minha roupa não ia
lá em casa nessa semana.
— Você não tem uma moça que cuida das suas roupas, Luana!
— É, eu estava passando tanto tempo na sua casa, te dando apoio, que eu
esqueci disso também. A pessoa não pode se confundir que você já vem com 7
pedras na mão. Uma triste calcinha.
— Sete! Sete calcinhas.
— E você queria que eu usasse a mesma a semana toda?
— Eu queria que você lavasse as suas e parasse de achar que o meu
guarda-roupa é a extensão do seu.
— Até parece que suas roupas cabem em mim, magrela desse jeito, me
respeita. Olha para mim, que roupa sua que cabe em mim?
— Esse é exatamente o meu ponto. Você experimenta e depois eu não
posso mais usar. Fora meus lençóis, que volta e meia vão parar na sua casa.
— Ah, Verona, não dá para conversar com você não! Parece testemunha de
Jeová batendo na minha porta e me lembrando de todos os meus pecados, eu
hein?
— Você precisa ter vergonha na cara, Luana, pelo amor de Deus —
reclamo, cruzando os braços.
— Você é muito ingrata, te trago para uma viagem de sonhos, em um lugar
incrível, te entretenho, te faço companhia, não fico dando em cima de todo
macho gostoso que eu encontro em cada metro quadrado, não fico bêbada,
arrumo uma sessão de tarot para saber do seu futuro e você fica fazendo questão
de ninharia de calcinha, cara.
— Às vezes eu me pego pensando se você só não entende a organização do
mundo como ela é ou se você precisa de ajuda médica — sentencio, descrente.
— Bom, o que importa é que Helena vai jogar as cartas para você quando a
gente sair daqui — ela promete animada.
— Luana, a Helena odeia o lado místico dela e faz de tudo para ignorar a
existência dele, eu tenho sérias dúvidas que ela tenha se oferecido para jogar
cartas para mim.
— Talvez eu tenha dito que você estava chorando todas as noites sofrendo
de insônias porque não conseguia dormir.
— Ela com certeza não acreditou nisso, elas jantam conosco todas as
noites. E elas me veem dormindo pela tela do tablet bem antes do filme da noite
acabar.
— Ela não acreditou, mas concordou. Isso que importa. Se eu tiver sorte,
consigo que ela jogue para mim também.
Eu não quero ficar paranóica com o que ela interpretar nas cartas. Antes,
pelo contrário, eu preciso de uma folha em branco para recuperar completamente
as rédeas da minha vida.
Meu filho está a caminho e eu tenho mil coisas com que me preocupar, os
desdobramentos do afastamento de Rodrigo da minha vida e possíveis
consequências disso são a última coisa que eu pretendo dar atenção nesse
momento.
— Obrigada, mas eu não preciso. Daqui para a frente as coisas vão ser
diferentes. O Rodrigo fodeu com todos os meus planos de vida, mas eu ainda
tenho uma vida para cuidar. Aliás, duas. Três com a sua que vive se metendo em
confusão. — Ela concorda em silêncio arrumando a alça do biquíni de forma
despreocupada. — E o assunto Rodrigo será enterrado aqui. Eu não quero ouvir a
voz dele, eu não quero ouvir falar no nome dele, eu não quero pensar nele, eu não
quero sequer dividir a mesma calçada que ele.
Mais uma vez a taça de champanhe em sua mão se ergue para brindar a
isso.
— Nada pode dar mais errado do que já deu, então agora será só ladeira
acima. — O aperto no meu peito prova que eu não acredito nas minhas próprias
palavras, mas pretendo dizê-las até se tornarem verdade.
— Prontas? — a voz da recepcionista nos chama atenção indicando a porta
da sala de banhos, previamente preparada com duas grandes banheiras de ofurô,
cheias do mais caro desperdício de recursos que o dinheiro pode comprar.
Luana faz uma dancinha de Cleópatra ao se aproximar da sua banheira,
coberta de champanhe espumante e rosas. Ela pega uma coroa decorativa, que
descansa numa cadeira, aparando uma pequena montanha organizada de toalhas e
se deita colocando a coroa na cabeça e a perninha para fora como se posando
para uma foto de revista.
Eu rio da piscadinha sexy que ela dá para o que seria o nosso mordomo
durante a experiência dos banhos especiais que antecedem a benditas massagens
que escolhemos. Parece que estamos em um jogo de labirinto por etapas e o
prêmio final será de fato as massagens que contratamos.
Eu me aproximo da borda da minha banheira, um banho simples de sal
rosa, camomila e hortelã me convida, adornado das mais finas fatias de frutas
cítricas, que salpicam vida e cor ao fundo do ofurô. Deixo-me afundar, pedindo
baixinho para que esse tombo que a minha vida deu nas últimas semanas seja o
último.
Não consigo lidar com mais drama.
Morangos ao molho de chocolate derretido são trazidos pelo mordomo e
tiras de cetim com elástico entregues para que tapemos os olhos.
A música que começa a tocar é aconchegante como um abraço e o vapor
picante e delicado expulso em jatos das paredes, uma carícia da tecnologia.
Completamente envolvida pela atmosfera, me permito desfrutar daquele
momento, consciente que estamos gastando os últimos cartuchos de tempo eque a
realidade em breve baterá à minha porta, mas eu não preciso permitir que ela
entre. Não ainda.
— Grávida? — pergunto numa voz muito mais controlada do que sinto. —
Como assim, grávida? — A médica me olha com ar complacente.
Consigo ver o empalidecer das minhas feições no reflexo do espelho atrás
dela. Pareço um bloco de mármore em exposição. Eu sabia que existia essa
possibilidade quando voei até aqui, mas em momento algum me ocorreu que, de
todos os cenários possíveis, eu deveria esperar apenas encontrar o pior de todos
eles.
— Eu não sei o que dizer para melhorar essa situação, senhor Afonso. Nós
trabalhamos apenas com doações e vendas, majoritariamente doações de
hospitais universitários. Não trabalhamos com clínicas privadas de recolha ou de
armazenamento, a não ser que esse seja o protocolo exigido pelo plano de saúde
do paciente. Nós somos uma filial semi-independente de um hospital público,
financiado em grande parte por doadores, é verdade, mas nossos protocolos são
os mesmos desde a nossa fundação. Eu posso garantir que um erro desse tipo
nunca aconteceu antes.
Suas palavras soam mudas. Sei que está falando, ouço o som da sua voz,
mas não consigo computar o significado das frases proferidas. Apenas pisco com
uma atenção sobre-humana, tentando fazer com que minha alma volte para o
corpo no processo.
— O senhor precisa de um copo de água? — ela oferece já largando os
documentos em cima da mesa e me deixando sozinho por um minuto.
Afrouxo o nó da gravata e decido tirá-la, enrolando-a metodicamente e
enfiando-a no bolso das calças. Retiro também o casaco e me sento na cadeira
gelada do escritório. Fecho os olhos por apenas dez segundos de foco completo e
absoluto e quando os abro novamente sou eu de novo, no controle de todas as
minhas funções corporais e pronto para lidar com o que quer que seja que atirem
na minha cara hoje.
A médica entra toda pomposa e noto que desabotoou não um, mas três
botões da blusa, e aparentemente, seus seios parecem mais cheios agora do que
estavam da primeira vez que pousei os olhos nela. O batom retocado e a saia
estrategicamente subida também não me passam despercebidos. Ela só pode estar
de brincadeira.
— Sua água, por favor — me oferece se debruçando muito mais do que
seria estritamente necessário para me passar o copo. Foco apenas em seus olhos,
evitando olhar para qualquer outro centímetro de seu corpo e ela nota o desdém
estampado na altivez esnobe que demonstro propositalmente.
Molho os lábios com a água estupidamente gelada do copo de plástico
barato que dança na minha mão de tão fraca qualidade que é, mas não engulo
uma gota sequer. Heron entraria em colapso se me visse bebendo qualquer coisa
das mãos de um desconhecido.
Ela sequer parece notar, satisfeita em me lamber com os olhos e manipular
seus gestos de forma a exibir seu corpo.
— Eu preciso saber onde encontrá-la — requisito, num tom neutro.
— Eu saio às 19h00, moro a alguns poucos quarteirões daqui.
— Perdão, eu não me expliquei direito — recuso sua resposta com as
mãos, engolindo com facilidade a risada que ameaçou se formar na minha boca.
— Eu preciso saber onde encontrar a mulher que está grávida.
É a vez dela empalidecer com o constrangimento. Vejo a vergonha se
espalhar no seu rosto num sopro rápido e permaneço quieto, como se a
indiscrição nunca tivesse ocorrido.
— Eu não posso partilhar essa informação. A paciente assinou um termo
de confidencialidade que me impede de fazer qualquer tipo de contato entre ela e
o doador, até poucas horas atrás, anônimo.
Olho para o chão, e quando volto a olhar para cima é o príncipe de
Calanthe em frente a ela, aquele que nunca teve seus pedidos negados, aquele que
raramente pede, apenas ordena. Dou um passo em sua direção e ela abre os olhos
surpresa, não a toco como ela antecipa, mas digo da forma mais ameaçadora que
consigo imprimir:
— Se eu não sair daqui com as informações da mãe do meu filho, eu vou
soterrar a sua clínica, a sua equipe médica, os seus auxiliares e até esse prédio,
em tantos processos que quando vocês conseguirem voltar a trabalhar, meu filho
já será maior de idade.
Seus olhos piscam rápido e param pensando no que fazer. Ela sente que
minha ameaça não é em vão. O passo que dá atrás, demonstra que vai ceder. É
um movimento clássico de um perdedor: recuar.
— Eu vou precisar consultar algumas pessoas. Eu não posso arcar com a
responsabilidade de tomar essa decisão sozinha.
— A senhora tem uma hora — sentencio, e saio. Cortante.
A porta trancada por dentro me surpreende, mas não teço comentário
algum. O olhar com que Heron me recebe quando chego à recepção vazia, me diz
sem palavra alguma que pensou o mesmo que a mulher. Que eu, no mínimo,
demoraria mais “obtendo informações”.
Meu segurança não diz nada até chegarmos ao carro, aonde abre a porta do
motorista para mim, sabendo, pela quantidade de anos ao meu lado, que preciso
de uma atividade mecânica o suficiente para me distrair da confusão que vai na
minha mente.
Ele conhece todas as minhas fachadas e consegue ver através de cada uma
delas. Por mais que o meu rosto seja a pura imagem da plenitude, ele entende que
por dentro sou todo alvoroço.
— Voltaremos em, — olho o relógio — 53 minutos — completo, passando
a marcha e saindo do estacionamento.
Não suporto um único minuto de silêncio até disparar:
— Ela está grávida, Heron.
Mais alguém precisa ficar chocado além de mim.
— Eu sei.
— Como?
— A recepcionista me deixou ouvir a conversa de vocês pelo interfone.
Desvio minha atenção por tempo suficiente para quase provocar um
pequeno acidente.
— E a recepcionista cometeu mais algum crime que você queira partilhar?
— Que tenha interesse para você, só isso aqui. — Heron puxa um papel do
seu bolso e o lê em voz alta: — Verona Moraes.
— Quem é essa?
— A mãe do seu filho.
— Como raios você conseguiu isso? — bato a mão levemente no volante,
misturando surpresa com indignação, embora totalmente controladas.
— Por incrível que pareça, eu não consegui nada. A garota estava em
apuros e viu em você uma forma de ganhar uns trocados. Eu dei umas notas a ela,
que foi mais do que solícita.
— Não sei se fico feliz por ter a informação que preciso ou furioso por ter
sido tão fácil quebrar a segurança que envolve a vida de alguém que está prestes
a entrar na minha rotina.
— Já estou cuidando disso. E os minions estão trabalhando na ficha
completa da moça. Talvez demore algumas horas, mas saberemos onde encontrá-
la e com quem estamos lidando em breve.
— E eu posso saber por que você não interrompeu a minha conversa e me
tirou de lá? — pergunto percebendo o tempo que ele permitiu que eu
desperdiçasse no escritório da médica assanhada.
— Eu achei que vocês iam transar. Deus sabe que você está precisando.
Inclusive, se me permite, Alteza, — Heron usa o tom jocoso que nunca usaria na
presença de nenhuma outra pessoa, seja ela do meu círculo íntimo ou não, — eu
aconselharia que fodesse uma mulher ou duas antes de lidar com esse assunto
pessoalmente.
— Quase me ofende que você ache que eu resolvo meu temperamento com
sexo, Heron.
— Quase — murmura. — Porque eu tenho razão. — completa rindo.
E eu aceno concordando.
Quando o som da chamada de vídeo pede atenção, eu estaciono num lugar
qualquer.
— Seus minions são mais rápidos do que eu sou capaz de reconhecer. —
ele anuncia atendendo meus assistentes pessoais.
— Oi — Laura cumprimenta, com seu sorriso gigante e extravagante.
O mundo pode estar desabando e ela ainda estará sorrindo.
— Você é pai do filho de uma subcelebridade, Afonso — Henrique
completa, sua voz soando longe, com certeza sentado na minha cadeira em frente
ao computador.
— Desenvolvam! — ordeno, ansioso, ignorando o fato deles já saberem
mais do que eu sobre a minha vida.
A ficha de Verona é debitada cuidadosamente e presto uma atenção
infinita, memorizando cada dado, considerando todos urgentes até engolir em
seco ao escutar “lua de mel na Suíça”.
— Ela é casada?
— Parece que sim, recém-casada. Em seis dias retornará ao Brasil. Ela vai
comparecer ao evento de lançamento da coleção que ela desenhou para a marca
Encanto, na semana que vem — Laura lê interagindo com as folhas de papel em
suas mãos como se fossem amigas e estas estivessem lhe contando um segredo.
— Já estou te conseguindo convites para comparecer — Henrique
acrescenta, ainda fora do meu campo de visão.
— E porque eu iria a uma festa, Henrique? — questiono para vê-lo surgir
confuso na tela, sentando-se em minha mesa com os pés descalços. Um dia ainda
demito esses dois.
— Você não está pensando em abordar uma mulher casada e grávida
dizendo: “Oi, tudo bem? Eu estava aqui dando umas voltas e, que bom te
encontrar! Afinal, não é todos os dias que se conhece a mãe do herdeiro de
Calanthe sem tê-lo colocado fisicamente dentro dela. Prazer, Afonso, Príncipe
Herdeiro. Certo?”
O teatro que ele fez ao imitar como seria esse encontro faz com que Laura
suprima seu riso a duras penas, pressionando os lábios até ficarem brancos.
— Heron, me lembra de novo porque esses dois trabalham para mim?
Mas é Laura que responde prontamente:
— Você, na verdade já nos demitiu mais de 32 vezes só esse mês chefe,
nós que não fomos embora — admite, sem um pingo de vergonha na cara.
— É, a gente gosta da mobília — Henrique completa, sem se ofender com
a situação corriqueira que se transformou a demissão dos dois.
— Enviem todas as informações para o meu e-mail o mais depressa
possível.
— Já estão lá, sublinhadas por ordem de importância. — Laura responde,
orgulhosa. — E é por isso, vossa Alteza, que Sua graça ainda paga nossos
salários. — Ela sempre usa meus títulos de forma completamente aleatória
quando quer parecer formal, mas se recusa a ser. — Porque quando Vossa
Excelência pensa em precisar de alguma coisa, nós já estamos executando.
Henrique roda na cadeira, exibindo um cartaz invisível de vitória e eu
desligo a chamada sem avisar.
— Eles são loucos, mas são extremamente competentes — Heron comenta,
de olho no trânsito infernal se formando.
— Eu tenho a certeza de que encontraria alguém igualmente competente e
menos louco se tentasse.
— Muito possivelmente. Mas quem te chamaria de chefinho, patrãozinho,
super boss, e ainda assim seria a epítome do respeito de toda e qualquer regra da
hierarquia e bons modos quando está em público?
— Eu gosto de ser tratado com deferência em todos os momentos, Heron.
— Será, Alteza?
— Não por você, obviamente. Já abolimos o tratamento formal há anos.
— E os minions aboliram no primeiro encontro. Você sabe que foi a
irreverência dos dois que te conquistou.
— Eu queria saber por que nunca os defende quando eles estão presentes.
— Eu não sou do tipo que dá esse tipo de confiança a qualquer um.
— E eu sou?
— Não, mas às vezes você precisa ser tratado como gente para quebrar a
tensão.
— Não vou discutir com isso.
— Seria inútil.
Saio do volante e devolvo a condução a Heron, assumindo o banco do
carona. Preciso pensar. Casada e com meu filho no ventre. Preciso de um plano e
rápido.
— Heron, — chamo como se ele não estivesse do meu lado. — enquanto
estivermos aqui, as informações que chegarem a você, por mim ou por terceiros,
não deverão ser partilhadas com a minha assessoria a não ser que eu te oriente
dessa forma.
— Isso inclui os minions?
— Sim.
— Posso perguntar por quê?
— Eu não quero interferências até eu decidir o que será feito.
— Sim, senhor.
Revejo as informações em voz alta. Qualquer pessoa que nos ouvisse
imaginaria que estávamos estudando uma vítima de um crime hediondo, dado o
tipo de dissecação e quantidade de informação que continua chegando a cada
atualização da página de e-mail.
Henrique e Laura estavam a todo vapor.
— O que acontece se essa mulher for uma alpinista social?
— Sinceramente? Espero que ela seja, Heron.
Sua sobrancelha arqueada questiona quando sua boca cala esperando a
resposta para a pergunta que apenas seus olhos me fizeram.
— Dinheiro eu tenho muito… Já paciência, nenhuma. — explico
calmamente, esfregando os olhos, sentindo a exaustão me convidar para dar uma
volta e recusando.
O segurança concorda com um aceno e acelera finalmente no trânsito
enlouquecedor da cidade.
— Eu vou ser pai. É oficial. — anuncio, talvez para mim mesmo, testando
como soa.
— Eu não sei se te dou parabéns ou ofereço minhas condolências.
— Acredito que os dois.
— Horroroso. — Luana decide, desgostosa com o meu look, se jogando no
sofá da sala como se há muito não o visse.
— Eu gosto — replico, tirando o vestido de corte clássico e simples, mas
com tecido extravagante e acetinado, adicionando-o à já imensa pilha do “sim”.
Eu não vejo a roupa como um adorno, ela deve apenas completar seu
estado de espírito. Falar antes de você se apresentar em silêncio. A roupa não
mente, as pessoas sim. E muito.
— Claro que você gosta, combina com seu humor ultimamente. Negro e
ácido, como um dia de ressaca pós-bebedeira.
Não preciso me virar para exibir minha cara de desgosto com a
dramatização excessiva de Luana, já que 6 grandes espelhos verticais foram
espalhados pelo cômodo do apartamento para facilitar a escolha.
— Você tem andado intratável, Verona, pelo amor de Deus — Luana
continua, embora eu não tenha respondido de fato. — Parece que adotou a nuvem
cinza que carrega todas as mazelas do mundo. Ninguém diria que acabou de
voltar de lua de mel. Sinceramente.
Reviro meus olhos ignorando, não querendo lhe dar razão, mas sabendo
que realmente os últimos três dias foram de puro surto.
Mal chegamos, o gerente do meu banco me recebeu com a bomba de que
Rodrigo estava fazendo saques altos e consecutivos da nossa conta conjunta, a
qual ele nunca ajudou a abastecer com um centavo sequer. O cartão de crédito
estourado e o pedido de um livro de cheques em meu nome foram a gota d’água
para mim. O meu sistema hormonal, que já estava alvoroçado, abraçou a causa e
me deixou reativa como há muito tempo não me lembrava de me comportar.
Rodrigo tinha ultrapassado todos os limites do bom senso.
Ele não tinha sequer entrado em contato comigo até ter seu acesso ao meu
dinheiro negado. Desde então, um infindável número de mensagens e pedidos de
perdão começaram a chegar quase tão certos e ritmados como o bater dos
ponteiros de um relógio.
Alguém tinha que me trazer o troféu de imbecil da década. Me custa
acreditar que eu tenha convencido a mim mesma que aquele traste poderia ser o
pai dos meus filhos.
O desgosto que eu já sentia ganhou uma nova nuance e se transformou em
puro suco de veneno — que eu estava bebendo em goladas fartas e gulosas — me
afundando no gosto amargo que a mera existência do meu ex deixava em minha
boca.
Já não existia rastro dele no meu apartamento, fechaduras trocadas, aviso
na portaria para que não o deixassem entrar, caso o engraçadinho tentasse quando
eu não estivesse aqui. Ele sempre foi engenhoso e seria fácil fingir que esqueceu
da chave e pedir entrada ao porteiro.
Cada uma das boas memórias que eu guardava com carinho iam se
estilhaçando por terra a cada momento que passava e eu nem sequer me dava ao
trabalho de varrer os caquinhos que ele deixou. Espero que virem pó e sejam
levados pelo vento, como todo o lixo que ninguém limpa e que se desintegre aos
poucos!
— Você tem quase tantos vestidos na pilha do “sim”, quanto na pilha do
“não”, caso não tenha reparado — Luana interrompe meus pensamentos de
comiseração. — Os reforços estão chegando, mas o elevador não está
funcionando. Elas já estão subindo as escadas — me avisa, com o celular na mão,
enviando fotos com certeza com diversos emojis de vômitos para Helena e
Raquel.
Olho para ambas as poltronas totalmente cobertas por diversos vestidos
que experimentei sem dizer um sim definitivo para nenhum.
— Bom, já são bem menos do que quando começamos. — Dou de ombros
sabendo que escolher o vestido para o lançamento da minha coleção nunca seria
algo simples.
Eu me preparei para isso a vida inteira, tinha que me vestir à altura do
evento.
— Elas pediram para eu ajudar a subir com o almoço. Será que elas estão
ligadas que para ajudar, eu vou ter que descer e subir de novo?
— Mas você quer comer? — pergunto séria, julgando seu raciocínio
preguiçoso.
— Ah, elas vão chegar aqui eventualmente — Luana descarta minha
reprimenda facilmente com a cara mais deslavada do mundo.
Fecho o vestido rosa pálido e ajeito as copas do sutiã. Gosto do que vejo,
me viro de lado procurando encontrar alguma sugestão no formato da minha
barriga de que estou grávida. Tirando o carrossel hormonal, está tudo nos
mesmos lugares que antes, nenhuma diferença sequer.
Passo as mãos pelo corpete elegantemente iluminado por ínfimas contas de
cristal, que dão o brilho de uma noite estrelada ao decote longo, exibindo a minha
pele e abraçando minha cintura num aperto que se desfaz ao chegar na saia que
cai com a leveza que só o tule consegue ter.
Desço do banquinho querendo experimentar a sensação de andar com o
vestido e dou um tapão na coxa de Luana, que se assusta e reclama.
— Vai colocar a mesa, eu vou descer para ajudá-las.
— Não podemos comer dos pacotes?
— Não. Não somos quatro indigentes. Levanta logo! — exijo, jogando
uma almofada nela com toda a força, mas ela desvia sem o mínimo esforço.
— Ah, coitada. Você teria que comer três bois com feijão para conseguir
me machucar, amiga, se orienta — ela me zoa se levantando.
Realmente, força bruta nunca foi o meu forte. Sempre fui chamada de
maria palito, magrela, espeto de churrasco. Sou feliz com meu corpo, mas tenho
noção que aparento uma certa fragilidade física.
Deixo a porta encostada atrás de mim ao sair para o corredor e apenas
alguns passos barulhentos do meu chinelo de madeira japonês ecoam nos degraus
da escada, até que passos rápidos se juntam aos meus.
Ouço a respiração entrecortada de quem sobe com a fúria de dois titãs e
sinto seu cheiro antes de o ver. Inspiro profundamente o aroma gostoso e
masculino, poucos são os homens que sabem combinar um bom perfume com a
pele, continuo descendo com a curiosidade crescente de saber quem é e não
demora muito até que eu leve um soco de pura força bruta e beleza masculina,
surgindo rapidamente dois lances de escadas abaixo dos meus.
Violência. É tudo que consigo pensar para descrever o homem que ainda
não me notou. Violentamente perfeito. Suas feições são de pura masculinidade,
marcadas como uma escultura em granito. O corpo poderoso, uma massa de
músculos trabalhados e suados que nunca souberam o significado da palavra
fragilidade, e as mãos — meu ponto fraco — lindas, limpas, grosseiras de um
jeito que apenas mãos com veias saltadas podem ser. Um conjunto arrasador que
para abruptamente ao me notar, sem perceber que eu já tinha parado para
apreciar.
— Bom dia! — ele arfa carrancudo e sou recebida por outro ataque
inesperado.
O olhar que esmagaria qualquer diamante bruto que alguma vez pudesse
ter passado pelas minhas mãos. Seu corpo grita calor, mas seus olhos são de um
azul congelante que envia um arrepio de incômodo para a minha coluna, que se
espalha por todo o meu corpo completamente alerta pela sua presença opressora.
Suspiro discretamente antes de responder, sentindo uma leve falta de ar
quando puxo as palavras. De repente, as escadas me fazem sentir confinada num
espaço demasiado pequeno e debilmente ventilado.
— Bom dia! — respondo com um aceno educado que em nada representa a
forma como queria cumprimentar este ser.
— Afonso — ele se apresenta rápido e direto, ainda vestindo a capa da
seriedade que me faz imaginar como será quando seus lábios se rasgarem num
sorriso. Ele estende a mão e a retira quase imediatamente ao exibir o suor que sua
pele carrega, se desculpando com um gesto.
O tecido do vestido pesa em meu corpo, me fazendo absolutamente
consciente da força do seu olhar, que sinto reverberar em mim como um grito de
quem lamenta ter me tombado sem querer.
— Verona. Moraes — pontuo delicadamente. — Muito prazer, Afonso.
Fica claro no tom líquido da minha voz ao saborear seu nome, que foi de
fato um prazer encontrá-lo. E o meio sorrisinho sacana em seus lábios me diz que
ele percebeu exatamente o quanto. Torço para que a bendita boca termine de se
abrir, mas o sorriso morre muito antes de revelar o show completo.
— Se me permite — ele pede passagem como se eu fosse algum tipo de
barreira física na escada de mais de dois metros de largura, mas dançando a
mesma música, me desvio do seu caminho indicando a passagem livre.
— Toda sua — indico a escada sugestivamente, querendo provar
novamente o efeito que o leve esticar de seus lábios teve em mim.
Decido que ele é do tipo provocador, quando sobe as duas escadas até estar
imediatamente diante de mim, ainda mais alto do que eu, embora eu esteja no
degrau imediatamente acima do dele e apesar de não me tocar de todo, posso
sentir o calor da sua boca sem que me toque, entregue puramente pelo seu hálito
abrasador quando murmura um “Obrigado” mais perto da minha pele do que
deveria ser permitido por lei sem me beijar.
Balanço a cabeça e apenas pisco em resposta tentando recuperar a
compostura, mas ali está a pequena fissura na sua fachada sombria e aterradora
que nada mais é do que seus lábios se espremendo em aprovação que me faz
desejar de novo que sorria para mim.
Respiro fundo ao mesmo tempo que ele se desvia e sobe as escadas,
voltando ao ritmo rápido de antes de se deparar comigo. Levo a mão ao pescoço
sentindo as batidas do meu coração na garganta. Desço uns poucos degraus
sentindo a umidade vergonhosa entre as minhas pernas me chamar de vadia. Ele
não colocou um dedo sequer em mim. E eu era comprometida até poucos dias
atrás.
— Grande ajuda, dona Verona, nos esperando subir tudo até aqui, né? — A
voz de Raquel me cumprimenta levantando as sacolas em repreensão.
— Desculpa, estava ocupada babando — respondo, ainda impressionada
com a minha reação.
— Quê?
— Vizinho novo, rudemente delicioso, estou palpitando até agora. E estou
sentindo a minha pulsação em lugares bem longe do meu coração, devo
acrescentar.
— Gente, essa escada tinha apenas uma função, como que não vimos isso?
— Era muito deuso? — Helena pergunta me passando algumas sacolas.
— Violento de gostoso. Irretocável. Graças a Deus que não foi Luana que
desceu para ajudar ou vocês teriam se deparado com no mínimo um atentado ao
pudor, porque ela teria acidentalmente se jogado da escada para cair sentada na
cara dele.
Subimos partilhando risinhos bobos e chegando à conclusão que minha
reação exagerada se deve à gravidez e às mudanças hormonais que já eram de
esperar. Do lado de fora do apartamento, encontramos Luana aguardando na
porta, tal e qual a fofoqueira profissional que ela é.
— Entrem logo que eu tenho um babado fortíssimo para contar para vocês.
— Suas mãos gesticulam para que entremos depressa com o olhar cravado na
porta ao lado do corredor. — Nossa, como vocês demoraram, hein? — ela
reclama ansiosa se sentando na mesinha de centro, que ela está terminantemente
proibida de usar como cadeira.
— Eu acabei de ver um macho, que vocês vão achar que é exagero e eu
vou entender por quê. Até eu achei que era delírio. Pensa num puta gostoso com
cara de mau.
Ela se levanta para gesticular com mais liberdade, apresentando-o como se
fosse um produto à venda ou um cartão de loja que a vendedora insiste em te dar.
— Todo certo, sabe? Olhos claros, um corpo criminoso e a voz… Meu
Deus… a voz de quem manda e desmanda e eu juro que se ele dissesse “ajoelha”,
eu não esperaria nem para saber onde. Eu estou apaixonada.
Ela se joga no sofá com toda a força, despenteando os cabelos, simulando
o efeito que ele teve nela, nos fazendo rir.
— Verona também cruzou com ele e agora eu estou morrendo de
curiosidade para conhecer esse deus grego personificado — Raquel anuncia
cruzando os braços e batendo o pé direito em descrença.
A única que se mantém dura na queda é Helena, talvez a única que poderia
rivalizar com o ar de altivez sensual e perigosa de Afonso. Ela não se afeta por
beleza alheia, eu também não me afetaria se visse uma deusa, todos os dias,
sempre que olho no espelho.
— Pois nem vem que eu vi primeiro — Luana reclama, levantando atenta.
— Quem disse?
— Você está grávida, meu amor, me respeita. A única livre para ter um
romance tórrido com seu vizinho gostoso sou eu.
— Até onde eu sei eu estou solteira, mas você tem razão. Não está nos
meus planos sair por aí transando com vizinhos desconhecidos — digo, mentindo
com todos os dentes que tenho.
Luana se levanta e coloca um vaso na porta entreaberta.
— O que você está fazendo?
— Quero escutar quando a porta abrir, para casualmente correr até lá.
Preciso que vocês conheçam o meu futuro marido.
— O delírio, meu pai, ele não pode ser do jeito que vocês duas estão
descrevendo, vocês têm gostos totalmente diferentes, é fisicamente impossível
que um mesmo homem tenha deixado vocês duas nesse estado. Isso deve ser
fome — Helena sentencia, espalhando os pacotes de comida na mesa que Luana
arrumou igual a cara dela.
— Você está se arrumando para um velório ou é impressão minha? —
Raquel interrompe a primeira garfada de frango com castanhas que eu ia colocar
na boca, alcançando a pilha de vestidos “sim” na poltrona ao seu lado. — Por que
tanto preto?
— Ela está de luto, pelo traste perdido — Luana responde já comendo da
sua caixinha e roubando batatas fritas, que ela frisou não querer.
— Deixa de ser doida, preto faz sobressair a jóia, gente. É um desfile de
joias, não de modelos, todo mundo que estiver usando uma peça da minha
coleção, vai usar preto.
— Sim, para não roubarem atenção do produto. Mas não é o seu caso.
Você é a criadora da coleção, precisa ser notada antes da luz da ribalta chegar
sequer perto de você.
— Não. — Um vestido é jogado para escanteio. — Nossa. — Outro se
junta a ele. — Não. — E mais um. — Também não. — E outro. — Nunca
enquanto eu viver… — Helena elimina uns atrás dos outros, os vestidos de cores
“fúnebres”, segundo ela.
Ela levanta um de corte particularmente decotado que eu não amei, mas
achei que me assentava muito bem.
— Sério? — questiona com cara de nojo.
— Eu avisei — Luana acrescenta.
— Muito melhor — Helena anuncia, espalhando os sete filhos de mãe
solteira que sobraram para que eu experimente.
Luana se levanta rápido ainda mastigando e corre para a porta, antes que
eu perceba que ela está fazendo exatamente o que ameaçou fazer.
A porta escancarada exibe a figura de Afonso e eu olho para o chão
prevendo a cena constrangedora que será Luana dando em cima dele.
Como aquele homem tomou banho e se arrumou no tempo recorde eu não
sei, mas o impacto de vê-lo de terno em nada deixa a desejar à visão pecaminosa
que ele é em roupas de corrida. Mas não é com ele que Luana tagarela e... Espera,
ela está convidando quem para o lançamento?
Acontece mais rápido do que sou capaz de associar. Ela entra, pega dois
convites na escrivaninha e descaradamente convida Afonso e o seu
acompanhante para o meu lançamento, sem sequer trocar uma palavra comigo ou
um único olhar que fosse em busca de aprovação.
O homem sai das sombras e vejo um cara bem mais velho, careca, de olhos
claros e corpo de fato robusto e cara de delinquente nos mirando rapidamente.
— Parece que nos encontramos novamente, Verona. — As palavras de
Afonso cortam a distância entre nós com uma facilidade incrível.
— Seja bem-vindo, vizinho.
A interação levemente desconfortável não passa despercebida a nenhuma
das minhas amigas, que ficam caladas observando a tensão subir e se instalar
entre as camadas de silêncio que só Luana se atreve a cortar.
— Nos vemos na festa, Heron. Afonso. — Ela cumprimenta os dois como
se fossem amigos, com um beijo em cada bochecha e Deus sabe que ela se
esfregou no Heron, que a olha pálido com a efusividade da minha amiga.
Eles descem e Luana tem a audácia de ficar dando tchauzinho para eles.
— Eu sabia que não podia ser o mesmo cara — Helena conclui certa em
suas apostas iniciais.
— O meu é o Heron, eu nem tinha visto o Afonso. Conheci agora também
— Luana anuncia, fechando a porta e se sentando, aguardando a análise do seu
futuro marido, como ela mesma apelidou Heron dois segundos depois de o
conhecer.
— Você tem noção que ele tem idade para ser seu pai, né? — Helena
alfineta.
— Bom, mas não é. Próxima! — Ela se vira então para Raquel, como se
cada uma tivesse apenas uma chance para criticar o romance imaginário.
— Gostoso. Coroão, mas gostoso. Só não me pareceu muito interessado,
Lu.
— Veremos. — Ela bate as mãos nas coxas em desafio. — Agora quem
precisa de ajuda para escolher uma roupa sou eu. Eu preciso arrasar, porque
Verona já tá com o macho na porta e querendo entrar, vocês repararam? Eu até
me arrepiei com a secada que ele te deu, amiga.
— Delírio seu. Ele mal trocou duas palavras comigo, estava apenas sendo
simpático e tentando se livrar da sua inconveniência de forma educada —
respondo me defendendo de acusação nenhuma, mas me sentindo lisonjeada pela
situação.
— Uhum, sei. Oferece um chá a ele e depois a gente conversa.
— Até uns minutos atrás estava me acusando de estar grávida e querendo
pegar vizinhos incautos, agora está me jogando nos braços dele?
— Ai, mulher, se orienta. Você não podia pegar o meu, o seu pode.
Inclusive dei um convite a ele também, então não reclama, porque eu faço tudo e
só recebo ingratidão!
Luana abre meu notebook sem pedir e fica concentrada enquanto eu,
Raquel e Helena nos concentramos na tarefa: look do lançamento. Até que sua
dedicação e atenção, ao que quer que seja que está fazendo, nos deixa curiosa.
— Eu sei que vou me arrepender de perguntar isso, Lu, mas o que você
está fazendo aí?
— Vendo a planta do local do evento — ela responde simplesmente,
roendo a pontinha de uma unha.
— Para quê? — Raquel pergunta ajeitando seus cachos grossos atrás da
orelha e se aproximando do computador por detrás do sofá onde Luana se
instalou, ignorando completamente o resto do seu almoço.
— Procurando os melhores lugares para sentar — ela responde tão
inocente quanto o demônio e todas explodimos em risadas. Mas a curiosidade é
uma velha tarada e nos juntamos a ela para saber, hipoteticamente, quais seriam.
— Aquela mocinha é perigosa — Heron murmura desconcertado com
Luana, que o recebeu na entrada do evento vestida com muito pouca roupa e
bastante entusiasmo.
Vê-lo tentando se equilibrar entre não recuar do avanço da garota e não a
tocar ao mesmo tempo, foi quase tão divertido quanto ver Santiago levando as
culpas por algo que eu fiz quando éramos mais novos.
— Nunca pensei que presenciaria o dia em que te veria com medo de
mulher, Heron — Minha mão procura o ombro dele num aperto firme que
termina num debochado tapinha de leve nas costas.
— Não seja babaca, vossa Alteza — responde soturno e mostrando os
dentes, perdendo a linha por um segundo, mas percebe imediatamente a pequena
explosão e a contém coçando a cabeça e acertando a gravata, trazendo o controle
habitual para a palma das suas mãos. — Foi constrangedor. Ela é uma menina!
Heron entra no corredor escuro antes de mim e tira a gravata bufando. Eu
rio por dentro porque sei que é para evitar o cheiro de Luana impregnado nela.
Ele resmunga algo inteligível e começa a andar depressa, sequer notando a
decoração ao nosso redor.
Eu não esperava ver um desfile numa gruta funcionar, mas agora
caminhando pelas longas galerias desenhadas por pedras de calcário alteradas
apenas pelo tempo, entendo o charme da coisa. Pequenos pedestais de pedra de
sal nas mais diversas cores, suportam grandes redomas de vidro, que exibem num
contraste intimista da pouca luz do ambiente, as joias mais caras da coleção.
Modelos vestindo apenas preto, parecendo sombras pairando ao nosso
redor, desfilam pelas galerias exibindo combinações de joias menores.
— Você estava todo cheio de amizades pra cima da Verona, vulgo mãe do
seu filho. Eu vi o jeito que você olhou para ela. Qual o seu problema, Afonso?
Também queria entender. Meu plano era simples: conhecê-la, descobrir se
pretendia levar a gravidez a frente e negociar um contrato para a entrega do meu
filho. Era uma transação comercial e nada mais. Afinal, a mulher estava casada.
Mas, depois de horas analisando todas as suas redes sociais e de todas as pessoas
da sua vida, descobri que o casamento não tinha se realizado e ela continuava
solteira. Logo, uma proposta de casamento para tornar meu filho legítimo e não
um bastardo, era a prioridade e me dediquei a estudar todo o seu passado, com
olhos de selecionar uma rainha.
O ex-namorado era uma pessoa simplória e da pior espécie, viciado em
jogo e aproveitador de carteirinha. Viveu às custas de Verona por anos, suas
contas dizem que todo o dinheiro que ele gastava vinha das contas dela, e as dela
confirmam que ela suportava todas as despesas da casa e do namorado.
Primeiro pensei que ela fosse apenas uma burguesa infantil, — como
muitas do meu círculo de convívio — dada a quantidade de dinheiro com tão
pouca idade. Hoje em dia, ser rico com 29 anos não é algo comum, então
imaginei que ela fosse uma dessas meninas ricas que paga para ter um homem na
coleira, depois, cavando mais fundo, descobri que não. Verona é uma mulher
forte, que cresceu pelo seu esforço, inteligência e muita sorte, mas acima de tudo
insistência e estratégia.
Ela foi criada por uma família de acolhimento que tinha histórico de
agressão das diversas crianças que acolhia, aparentemente demasiadas crianças
para gestão de afeto. A família tratava as crianças como um negócio. Além do
apoio do governo, recebiam diversas doações de caridade de várias instituições e
até pessoas em privado que se comoviam com sua bondade em acolher tantas
crianças com necessidades.
Verona havia surgido literalmente do lixo. Encontrada na rua ainda bebê,
ela tinha apenas 3 anos quando foi tirada das ruas e 7 quando foi realocada no
cativeiro familiar que eles chamam de família de acolhimento.
Fugiu diversas vezes, algumas foi encontrada e devolvida e outras voltou
por conta própria. Sempre limitada pela pouca idade e necessidade. Aos 13 anos,
já trabalhava com ilustrações clandestinas na internet — se fazendo passar por
mais velha nos sites de internet — com o suporte das mesmas amigas que tem
hoje. Todas bem melhor do que ela financeiramente, que a ajudavam
emprestando seus recursos para que pudesse trabalhar escondido.
Verona se tornou uma ilustradora conhecida que usava um pseudônimo,
fazia desde design de personagens e cenários a ilustração de retratos de pessoas
para datas comemorativas. Com isso, conseguiu juntar o dinheiro que a levou,
aos 18 anos, para a melhor faculdade de Belas Artes da Itália. Verona fez 18 anos
num dia e viajou no dia seguinte, sem dar tchau ou sequer indicação de que não
voltaria, como os registros de desaparecimento indicam. E no segundo ano, já era
bolsista por mérito próprio e assumia seu nome verdadeiro nas artes que
produzia.
Os profissionais de produção de joias eram procurados na Itália com
frequência. O país sempre foi referência, conhecido como o berço do design nas
mais diversas categorias da palavra. Ela só deixou o país, recém-formada,
retornando ao Brasil já empregada na empresa onde está hoje e com contrato de
estudos continuados garantidos. A empresa suportaria os custos de todas as
formações que ela desejasse fazer. Ela começou como estagiária e teve uma
ascensão meteórica, nos últimos 3 anos se tornou financeiramente independente
podendo viver de juros de bons investimentos que deram ótimos resultados.
Quanto mais eu lia sobre ela, mais me impressionava, e se antes eu estava
com uma curiosidade natural, agora queria ouvir tudo da boca dela, da vida dela
no seu ponto de vista, porque do meu ela já era uma das mulheres mais
interessantes e inteligentes que eu conheço. E eu mal a conhecia. E eu conheço
muita gente.
A admiração crescente que sinto por ela me fez mudar de planos
ligeiramente, e é por isso que deixei meus advogados a postos para quando a hora
da derradeira conversa chegar.
Eu quero essa mulher para mim, para o meu reino, ela é, em toda sua
simplicidade extravagante, perfeita. Seu passado e presente se unem para mostrar
mais do que ela alguma vez poderia me dizer em palavras. Suas ações e atitudes,
quem ela se tornou por mérito próprio, é alguém que eu gostaria de ter por perto.
O meu problema se tornou parte da sua própria solução, agora bastava
convencer a solução disso. E se tudo desse certo, — e daria — conquistá-la
ajudaria a amortizar o choque que seria descobrir quem eu sou e o que pretendo
fazer com ela.
A atração inegável que sentimos um pelo outro é apenas um bônus. Não
mudaria em nada meus planos se não me sentisse atraído por ela. Mas, se os
deuses quiseram me presentear, só posso ser agradecido pelo fato de: além de ter
um uma personalidade rica e valores admiráveis, ela ainda ser linda, delicada e
feminina.
Olhar para ela é leve, e você a aprecia em camadas. A pinta em cima do
lábio é a primeira coisa que chama atenção, é sexy e charmosa. Os lábios finos de
boneca emolduram seus traços delicados e marcantes, e os olhos dizem que nada
daquilo representa sua força interior. Seus olhos são puro fogo e gritam para
quem quiser ouvir que ela está pronta, para o que quer que seja, e isso seria o
suficiente para que eu a quisesse de joelhos me chamando de senhor e esperando
alguma ordem. Mas o corpo esguio e as pernas extremamente longas desenham
uma linha graciosa que eu gostaria de provar. Ela é a viva imagem da elegância
clássica e régia. E, eu sempre achei que gostava de seios grandes até ver os dela e
decidir que aqueles eram o tamanho perfeito: de tamanho modesto, perfeitamente
emoldurados naquele vestido rosa com um bojo simples que imitava mãos. Ela
era perfeita. E seria minha. Já era minha na verdade, só ainda não tinha sido
comunicada.
— Você está escutando o que eu estou dizendo?
— Sim, Heron, eu escutei das três primeiras vezes que você repetiu, mas
não tenho uma resposta honesta para te dar. Ou pelo menos não uma definitiva.
Assim que eu souber, você será o primeiro a notificado.
— Afonso, pra cima de mim? Você monitora os passos dela desde o
momento em que ela colocou os pés para fora daquele avião e aterrissou no
Brasil. Você sabia perfeitamente que o elevador estava estragado. Não duvido
nada que tenha sido você mesmo a cuidar para que estivesse, para poder
encurralar a moça na escada. Você faz planos quase militares até para o tipo de
treino que vai fazer durante o dia, você quer que eu acredite que não sabe o que
está aprontando aqui?
— Você fala como se eu fosse algum gangster perigoso à caça de virgens
indefesas para sacrificar.
— Eu não gosto quando você se desvia dos planos protocolados. Olha esse
lugar. Você tem noção da quantidade de coisas que podem dar errado com você
nesse país? — Eu concordo com um aceno. — Pois é. E não satisfeito, você nos
enfia num lugar fechado, com uma planta estudada às pressas, cheio de
jornalistas e fotógrafos, com pouca iluminação e a equipe de segurança reduzida
apenas a mim. Eu não gosto nem um pouco disso.
— Heron, eu só estou tentando conhecer a mãe do meu filho. Talvez nós
possamos ser amigos, ou amantes. Não tem que ser um drama se ela não quiser
que o seja, mas eu preciso me aproximar dela, e rápido.
— Claro que vão ser amigos, ninguém transa com inimigos. Sua
displicência é revoltante.
— Várias pessoas transam com inimigos, Heron.
— Talvez no seu círculo de amizades, não no meu.
— O nosso círculo de amizades é exatamente o mesmo. — A boca de
Heron abre e fecha em silêncio sem saber o que dizer.
— Você já falou com seu irmão?
Que golpe baixo. Ele mencionar meu irmão só para me recordar da
confusão que deixei em casa enquanto estou no Brasil brincando de gato e rato.
— Sim, tenho falado com frequência, ele está entretido torturando a minha
noiva. — Ele me repreende negando com a cabeça e torcendo os lábios,
claramente nos chamando de farinha do mesmo saco. E somos de fato. — Espero
que não de forma irreversível — completo subitamente sério.
— E se você pretende ser “amigo” da mãe do seu filho, como você
pretende seguir com esse noivado?
— Isso é um problema para o conselho resolver. Estamos falando de algo
em grande escala que afeta a vida de muitas pessoas, não devo tomar uma
decisão sobre isso sozinho. Mas, acho que está claro que eu não vou me casar
com Ariana. Não posso fazer isso, simplesmente. Teremos que arranjar uma
alternativa que não ative todos os gatilhos de contenção de crise do país.
— E quem vai se casar com ela?
— Espero que alguém que ela aprove dessa vez. Preciso livrar meu irmão
dela e livrá-la dele antes que aconteça algum constrangimento diplomático. Do
jeito que o Santiago fala dela, das duas uma: ou ele ou ela estão destilando
veneno e eu me arrisco a dizer que seja meu irmão. Mas não o pressionei sobre
isso, não havia nada que eu pudesse fazer, então, deixei nas mãos dele. Mas será
algo que não poderei adiar por muito tempo. Santiago não tem a mesma paciência
que eu. E Ariana não tem culpa de ter sido deixada temporariamente nas mãos
dele.
Nos acomodamos nas cadeiras para o desfile. Uma longa passarela, não
preta, mas de um azul profundamente escuro e fortemente iluminada, se estende
para os lados. Várias pessoas começam a se posicionar, se acomodando nas
cadeiras ao nosso lado.
Heron se cala, concentrado em todas as ameaças que só seus olhos capazes
e treinados têm habilidade de encontrar num evento que não oferece perigo
algum.
— Meus advogados estão de sobreaviso. No caso da Verona se tornar um
problema maior, ela precisa entender que neste caso específico, enquanto ela
carregar meu filho no ventre, ela não será uma mulher livre. Se para isso eu
precisar soterrá-la em burocracias da lei, assim será.
— Um pouco cruel para quem há dois minutos queria ser amigo da moça.
— Eu não quero ter que recorrer a isso, mas se preciso for, Verona pode até
procurar alternativas, mas todas a levarão até mim. Ela tem outras opções, claro,
mas eu analisei uma a uma para garantir que ela não possa recorrer a nenhuma
delas.
Instagram: [Link]
Wattpad: jennifferffogos
TikTok: manuscritus
Twitter: fanfikeirabraba
[1]
Na mitologia grega, Caronte (em grego: Χάρων, transl.: Chárōn) é o barqueiro de Hades, que carrega as almas dos recém-
mortos sobre as águas do rio Estige e Aqueronte, que dividiam o mundo dos vivos do mundo dos mortos.
Thanos foi um personagem fictício, um supervilão das histórias em
[2]

quadrinhos publicadas pela Marvel Comics, inspirado em Thanatos.


[3]
Os taggers são responsáveis por customizar seleções de conteúdo como “Comédias com Mulheres
Fortes”, “Desenhos com Animais Falantes” ou “Dramas Emocionantes”. Eles também ajudam a
identificar exatamente o que cada um irá querer assistir em seguida modulando o algoritmo de
recomendações.

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