Guanda
Guanda
RIBEIRÃO PRETO – SP
2009
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
FACULDADE DE FILOSOFIA, CIÊNCIAS E LETRAS DE RIBEIRÃO PRETO
DEPARTAMENTO DE PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOBIOLOGIA
Ribeirão Preto – SP
2009
2
Guandolini, Gisele Cristina
Enriquecimento Ambiental para gatos domésticos (Felis
silvestris catus L.): A importância dos odores. Ribeirão Preto, 2009.
66 p.
3
DEDICATÓRIA
Adélia Prado
À minha mãe, por me gerar, assistir e partir deixando todo seu exemplo de vida.
Ao meu pai, por estar sempre por perto, principalmente nas horas mais difíceis.
Ao meu irmão, Ricardo, por estar comigo sempre, ouvindo e procurando a melhor forma
de me auxiliar.
Ao Petico, por fazer parte de minha vida e por construir outra ao meu lado.
À Dona Doca (Vó), pela oportunidade de retribuirmos todo o amor que ela já nos
dedicou.
4
Agradecimentos
À Deus pela oportunidade da vida e de expansão do conhecimento científico e espiritual
Aos gatos por existirem e nos proporcionarem o estudo
Á minha família por estar sempre ao meu lado
Ao Petico por compreender, aceitar e me amar perante a tanta dificuldade
Ao Prof. Gelson Genaro pela orientação e auxílio nos momentos mais difíceis
Aos meus grandes amigos e proprietários do Gatil Sr. José Arthur Berti e Maria
Imaculada Cárnio Berti, pessoas como vocês ficam pra sempre nas nossas vidas
Ao Sr. Orosimbo por muitas vezes fazer papel de irmão na minha vida
Ao Odamiro e ao Baiano por sempre atenderem e pela amizade
Á Conceição pela limpeza
Á eterna Dona Santa, pelos puxões de orelha, pelos lanches e pelos conselhos… obrigada por
existir
À Profa. Dra. Elisabeth Spinelli Oliveira pelo suporte e empréstimo de materiais para o
desenvolvimento do trabalho
Ao Prof. Dr. Wagner Ferreira dos Santos e ao Prof. Dr. Sílvio Morato de Carvalho pela
assessoria e pelo apoio
Ao Prof. Dr. José Carlos Barbosa da Universidade Estadual Paulista (UNESP) de
Jaboticabal, pela assessoria estatística
À Patrícia Consolo pela amizade, carinho, compreensão e auxilio
Ao Bruno e ao Leo por me aturarem nas aulas
Ao André Fermoseli pelo auxílio e orientação quanto às análises estatísticas
À Comissão do Curso de Verão pela oportunidade de participação
À secretária do Programa de Pós-graduação em Psicobiologia, Renata Beatriz Vicentini,
pelo apoio e pelos alertas quanto aos prazos
Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pelo
auxílio financeiro no desenvolvimento da pesquisa.
5
RESUMO
6
ABSTRACT
The transfer of the odors between the cats and the environment occurs through body
contacts, as well as by the disposal of excreta. For the environmental enrichment it is possible
to promote the exhibition of behaviors closer than the natural ones and to extinguish the
undesired behaviors, contributing, in this manner, to the physical and psychological health of
the animals. This project had as an objective to promote stimulus in the environment so that
the cats had performed peculiar behaviors of the species. It was used domestic cats (Felis
silvestris catus L.), castrated (around the first year of life) or not, in both of sexes. The
animals were kept together in a shelter for cats, wich population was approximately 110
individuals, with 41 males and 69 females. Five tests were done during sixteen months and it
was recorded the behaviors manifested in the areas of testing (grooming, urinate, defecate and
olfactory checks), the individuals that realized much more theses behaviors (females, males
and castrated males) and the animal category that presented a bigger contact number. It was
used the animal focal method and the behavior sampling. It was observed that there is
significant difference in the contacts between males and females (Fr=10,362; p=0,006), and it
was checked that this difference also occurs when the groups are aggregated (contacts F_M-
M_M e contacts F_F-F_M). Females and castrated males, when compared by the Wilcoxon
test, showed significant differences in the dedicated time to the grooming behavior (z=2,095;
p=0,036). The cats are quite curious individuals, wich facilitates the development of a cheaper
environmental enrichment with the range of appropriate behavioral answers.
7
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 Animal da categoria preto liso (PL), identificado por marcação artificial:
descoloração da pelagem da região lombar (3)......................................................... 32
Figura 2 Animal com cinco meses de idade (nascimento dos caninos definitivos
correspondendo à segunda dentição).........................................................................33
Figura 3 Gatos à sombra de uma árvore, dentro do abrigo onde se desenvolveu a
pesquisa......................................................................................................................34
Figura 4. Nesta foto, os gatos estão interagindo com parte do enriquecimento
ambiental realizado no abrigo.....................................................................................34
Figura 5. Mapa esquemático do abrigo, sendo que toda a área é cimentada, e os números
1A,1B, 2A e 2B correspondem aos dormitórios.......................................................35
Figura 6. Imagem dos dormitórios. Gata descansando na caixa de papelão Numerada ..........37
Figura 7. Contatos sociais entre gatos machos e fêmeas em uma prateleira de alimentação no
dormitório 1..............................................................................................................37
Figuras 8 e 9. Gatas da categoria preto liso (P/L) e preto e branco (P/B) eliminando suas fezes
..................................................................................................................................38
Figura 10. Média e desvio-padrão dos animais quanto à ocupação das caixas de descanso ...42
Figura 11. Diferenças observadas entre machos e fêmeas para enterrar (número de
movimentos) fezes e urina .......................................................................................45
Figura 12: Diferenças observadas entre machos e fêmeas para verificar (tempo em segundos)
fezes e urina..............................................................................................................45
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LISTA DE TABELAS
Tabela 1. Diferença observada no número de vezes em que as caixas foram ocupadas ..........43
Tabela 2. Resultados das comparações entre as diferentes situações para os contatos sociais
entre fêmeas (F_F), entre machos (M_M) e entre fêmeas e machos (F_M) .............44
Tabela 3. Diferenças observadas no número de movimentos e no tempo dedicado para
enterrar as fezes e a urina...........................................................................................46
Tabela 4. Desempenho dos animais quanto aos comportamentos realizados nos testes..........47
Tabela 5. Desempenho dos animais quanto aos comportamentos: grooming, verificação
olfativa e ocupação................................................................................................... 49
Tabela 6. Desempenho dos animais quanto aos comportamentos:
cavar, enterrar e urinar..............................................................................................50
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SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO.................................................................................................. 11
1.1 Família Felidae............................................................................................. 11
1.2 Domesticação dos gatos................................................................................ 15
1.3 Gatos – Comunicação química..................................................................... 18
1.4 Gatos – Comportamento social..................................................................... 23
1.5 Bem-estar animal.......................................................................................... 26
1.6 Enriquecimento ambiental............................................................................ 28
2. OBJETIVOS....................................................................................................... 30
3. MATERIAIS E MÉTODOS.............................................................................. 31
3.1 Animais......................................................................................................... 31
3.2 Local de estudo e manutenção dos animais.................................................. 33
3.3 Registros comportamentais........................................................................... 36
3.3.1 Ocupação de locais para descanso.................................................... 36
3.3.2 Contatos sociais................................................................................ 37
3.3.3 Processamento de excretas – Diferenças entre machos e fêmeas..... 38
3.3.4 Estímulo sensorial I: “caixa de odores”............................................ 38
3.3.5 Estímulo sensorial II: “caixa com granulado sanitário”................... 40
4. ANÁLISES ESTATÍSTICAS............................................................................ 41
5. RESULTADOS.................................................................................................. 42
5.1 Ocupação de locais para descanso................................................................ 42
5.2 Contatos sociais............................................................................................ 43
5.3 Processamento de excretas – Diferenças entre machos e fêmeas................. 44
5.4 Estímulo sensorial I: “caixa de odores”........................................................ 46
5.5 Estímulo sensorial II: “caixa com granulado sanitário”............................... 48
6. DISCUSSÃO...................................................................................................... 51
6.1 Organização social........................................................................................ 51
6.2 Processamento de excretas............................................................................ 53
7. CONCLUSÃO.................................................................................................... 58
REFERÊNCIAS....................................................................................................... 59
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11
1. INTRODUÇÃO
Os animais utilizam sua liberdade para interagir e para se mover do seu ambiente para um
A maneira como o animal se relaciona com o ambiente é uma das propriedades mais
importantes da sua vida, pois tem um papel fundamental nas adaptações das funções
A necessidade de saber e de aprender cada vez mais sobre esses seres que fazem parte
do nosso convívio muitas vezes nos envolve em questões curiosas e desperta em nós a
quais 10 se encontram na região Neotropical (OLIVEIRA, 1994). Destas, quase todas estão
ameaçadas de extinção, à exceção do gato doméstico (Felis silvestris catus L.), que está
adaptado ao ambiente urbano e à convivência com os seres humanos (GENARO et al., 2001;
NATOLI, 1985).
O gato doméstico (Felis silvestris catus L.) é considerado um modelo para o estudo da
11
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a castração. Também é utilizado porque ocorre em altas densidades por todo o mundo,
populacionais deste animal podem variar desde um até mais de 2.000 indivíduos por
desde os solitários até os que vivem em grupos grandes. Quando estão vivendo em grupos,
fêmeas adultas e suas crias formam outros núcleos, podendo ser territorialistas. Esses núcleos
podem ocupar uma área grande e formar uma colônia. Ocorrem competições por recursos e,
com isso, formam-se as classes sociais, determinando, assim, uma hierarquia no grupo onde
geral, o território de um macho é 3,5 vezes maior do que o território das fêmeas, vivendo nas
macho parece estar ligado à disponibilidade de fêmeas receptivas e ao grau de competição por
fêmeas, mas também depende da preferência da fêmea pelo parceiro (YAMANE, 1998).
redução dos custos para o pesquisador. Do mesmo modo, o cativeiro permite maiores
12
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condições de controle pelo pesquisador (ASA, 1993). Contudo, se os animais cativos não são
causando perda da diversidade genética, o que pode levar à extinção de algumas espécies.
Essas pequenas populações isoladas também estão mais suscetíveis a alguns eventos, como
Os felídeos selvagens correm alto risco de extinção, pois sofrem a ação predatória do ser
hábitats (GENARO et al., 2001). A destruição dos hábitats naturais para o desenvolvimento
O abate para o comércio de peles e a caça predatória em defesa dos animais de criação –
como gado e galinhas, que podem ser presas dos grandes e pequenos felinos respectivamente
al., 2001). A população de pequenos felinos em cativeiro, além de ser reduzida, é amplamente
13
14
desmatamento acelerado dessa região nos últimos anos tem causado impacto negativo nas
populações desses animais. A destruição dos hábitats também ocorre em regiões mais secas,
como no cerrado, que também é uma área importante para a conservação dos felinos, onde o
1994).
Muitos felinos neotropicais estão ameaçados de extinção; por isso, informações sobre
sua fisiologia são importantes para auxiliar na conservação das espécies. A reprodução desses
de espécies da fauna silvestre, tanto as nativas quanto as exóticas. Com o desaparecimento das
espécies selvagens de seus hábitats naturais, os zoológicos aumentam sua importância como
(Leopardus pardalis) a espécie que apresenta as melhores taxas reprodutivas entre estes
(OLIVEIRA, 1994). Entre os fatores que contribuem para a redução das taxas reprodutivas de
felídeos em cativeiro estão a nutrição inapropriada, a inadequação dos recintos em que são
14
15
animais têm seus alimentos fornecidos e são protegidos contra interações competitivas. Todos
esses cuidados são necessários para a manutenção desses animais em cativeiro, porém este
ambiente pode comprometer o bem-estar dos animais, por ser um ambiente previsível, onde
faltam desafios e imprevistos. O animal sem estímulos físicos e mentais ou em condições que
zoológicos no mundo todo, devido à facilidade das observações e à redução dos custos para o
pesquisador. Além disso, o cativeiro permite maiores condições de controle pelo pesquisador
animais estão confinados e sob a supervisão de pessoas que determinam o que e quanto
comem, quais são os locais disponíveis para dormir, entre outros fatores. Além disso, o abrigo
contribui para um conhecimento maior sobre os gatos domésticos, visto que pouco se conhece
1993).
15
16
Egito, há aproximadamente 4.000 anos. Os grãos utilizados para a alimentação nessa época
ocupação humana (BRADSHAW, 2000 e SERPELL, 2000). Alguns desses gatos devem ter
provavelmente, adotaram filhotes como animais de companhia. A relação era vantajosa para
ambos, pois os animais tinham alimento, ao mesmo tempo em que proporcionavam aos
humanos proteção contra roedores (SERPELL, 2000). Foi, também, proposto que os gatos se
(BRADSHAW, 2000).
domesticação dos gatos pode ter ocorrido antes do que se acreditava, há aproximadamente
elevação da deusa gata Bastet (BRADSHAW, 2000), que apresentava face de gata e corpo de
originaram gerações mais dóceis, sociáveis e mais tolerantes a altas densidades populacionais
Ao contrário das antigas religiões egípcias, o cristianismo, a partir do século XIII e até o
começo do século XX, acreditava que os gatos eram “produtos do diabo”, especialmente os
animais pretos, devido, principalmente, aos seus hábitos noturnos e aos sons estridentes
16
17
malevolentes, ligados à bruxaria (SERPELL, 2000), assim como outros animais (serpentes,
esses animais os tornam um modelo muito útil para estudos de como fatores ecológicos
ou são difíceis de serem estudados. Além disso, a sociabilidade do gato doméstico pode ser
interessante para o estudo dos processos e das consequências da domesticação, sendo possível
para o estudo das formas e das funções das marcações nos felídeos (FELDMAN, 1994). Os
gatos, assim como os cães (Canis familiaris), são os principais animais domesticados que
ou não. Porém, os gatos são mais independentes do que os cães, levando uma vida dupla,
entre doméstica e selvagem (SERPELL, 2000), principalmente aqueles sem raça definida
(BRADSHAW et al., 1999). Já os animais com raça definida são normalmente mantidos
presos como os cães, mas estes gatos são minoria, especialmente no Brasil. A falta de controle
dos humanos sobre os gatos domésticos, principalmente sobre o seu comportamento sexual,
17
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Os gatos comunicam-se uns com os outros por meio da visão, da audição e do olfato
(BRADSHAW, 2000 e MELLEN, 1993), mas a maioria dos mamíferos terrestres utiliza o
olfato como meio primário de comunicação (FELDMAN, 1994). A comunicação por meio do
olfato possui vantagens sobre outras formas de comunicação, podendo ser usada quando
sinais visuais ou auditivos são difíceis de serem detectados, como, por exemplo, à noite ou no
CAMERON-BEAUMONT, 2000 e MELLEN, 1993). Assim, suas funções ainda não estão
(FELDMAN, 1994). Estes estudos poderiam contribuir para o sucesso reprodutivo dos
animais em cativeiro, além de serem muito importantes para a reintrodução de animais cativos
necessidades impostas pelo hábitat ao seu ancestral Felis silvestris lybica, porém o processo
de domesticação pode ter alterado alguns desses mecanismos (BRADSHAW, 2000). Esta
alterações e evoluído para atender à vida social em altas densidades populacionais, tanto para
BEAUMONT, 2000).
A transferência de odores entre os gatos e o meio ambiente ocorre por meio de contatos
18
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SCOW, 1977). No entanto, ainda não se sabe se a liberação de odores quando ocorrem os
contatos corporais dos animais ao esfregarem as regiões periorais e as bochechas nos objetos
marcações por meio das secreções corporais e a posição social dos animais, tanto para machos
quanto para fêmeas (NATOLI et al., 2001). Os comportamentos esfregar e lamber são
utilizados nos outros gatos do grupo para que seja desenvolvido um odor comum do grupo,
delineando, assim, um sinal tátil que expressa ligações sociais (JENSEN, 2002). O sistema
olfativo dos gatos consiste de um grande epitélio protegido por fina camada de muco, por
onde passam, passivamente, as moléculas de substâncias odoríferas antes que elas atinjam os
receptores que irão até o bulbo olfativo. Eles dependem do olfato para a detecção de odores e
para a comunicação por sinais olfativos, o que se torna possível devido ao tamanho do bulbo e
muitos mamíferos, com exceção dos primatas, possuem um órgão olfativo acessório, o órgão
vomeronasal ou órgão de Jacobson, conectado tanto à cavidade oral quanto à cavidade nasal
por meio do canal nasopalatino. Este órgão pode ser associado ao comportamento social,
sendo que a resposta de flehmen indica quando ele está sendo utilizado. O flehmen ocorre em
resposta a odores de outros gatos, e o animal levanta o lábio superior e mantém a boca aberta
muitos mamíferos pelo comportamento social (MILLER et al., 2003). Existem poucos
reprodutivo dos animais em cativeiro, além de serem muito importantes para a reintrodução
19
20
de animais cativos selvagens em seus hábitats naturais e para auxiliar na conservação desses
SCOW, 1977), facilitando as interações sociais entre indivíduos, tanto os que vivem em
reprodutivos. Além disso, essa marcação também pode estar relacionada a situações de
comunicativa que possui nos canídeos, mas a urina é, sem dúvida, um importante carregador
A defecação é semelhante entre os sexos e entre as espécies da família Felidae, mas sua
associação com outros padrões de comportamento difere entre as espécies. Muitos pequenos
felídeos depositam suas fezes em locais em que estas poderão ser enterradas com os
movimentos das patas anteriores, enquanto que os grandes felídeos (do gênero Panthera) não
enterram suas fezes (WEMMER e SCOW, 1977). Estes grandes felídeos são observados
arranhando o solo com as patas traseiras após a eliminação de urina (MELLEN, 1993). Como
a urina e as fezes são utilizadas como marcadores odoríferos, a grande dificuldade é distinguir
mamíferos terrestres utilizam posturas diferentes para urinar, dependendo da ocasião em que o
animal se encontra (SWAISGOOD et al., 1999, WELLS e BEKOFF, 1981, GESE e RUFF,
1997 e WIRANT e McGUIRE, 2004). Nos felinos, a ação de eliminar a urina na forma de
20
21
eliminatórias (NATOLI, 1985a). A adoção de duas posturas diferentes para urinar sugere que
pelo menos uma destas tem uma função sinalizadora. Filhotes, fêmeas jovens e fêmeas adultas
A eliminação da urina na forma de spray ocorre quando o gato fica de costas para uma
superfície vertical, em direção da qual a urina é expelida com um jato, geralmente enquanto o
momento em que o gato realiza esse comportamento (spraying), a urina é espalhada por uma
área maior do que quando eliminada diretamente no solo, podendo ser cheirada no nível da
(BRADSHAW, 2000, FELDMAN, 1994, MELLEN, 1993 e SMITH et al., 1989), e ambos
solitárias, as marcações odoríferas realizadas pelas fêmeas informam aos machos o seu estado
A castração dos animais não evita a ocorrência de spraying (BRADSHAW, 2000), mas
mais destacada pelos proprietários de gatos nas clínicas veterinárias (GENARO, 2005). Os
21
22
podem estar relacionados com as interações sociais entre os gatos, pois, por exemplo, um
animal pode impedir o outro, com ataques agonísticos, de chegar ao local apropriado
(NEILSON, 2004).
A comunicação química por meio das fezes e da urina é uma forma importante de
comunicação entre os gatos domésticos, sendo que as fezes parecem exercer um papel mais
importante, devido aos esforços físicos dos animais e ao tempo gasto para enterrar os bolos
fecais, na tentativa de omitir informações que estas possam transmitir ao meio (TRONCON,
2006).
As marcações odoríferas pela urina de coiotes (Canis latrans) de vida livre variam de
acordo com a condição hierárquica do indivíduo, a época do ano e a área do território, sendo
que os indivíduos dominantes marcam mais do que os de posição hierárquica mais baixa, os
odoríferas ocorrem nos períodos reprodutivos. Já os padrões de defecação para esses animais
não parecem ser influenciados por nenhum desses fatores, e as fezes parecem ter pouca
Os odores são depositados no meio e, geralmente, são detectados algum tempo depois,
quando o animal sinalizador não está mais presente (GOSLING e ROBERTS, 2001). Esses
RUFF, 1997), além de fornecer informações intraespecíficas nos carnívoros sociais, como nos
22
23
spray (também denominada de borrifos ou, ainda, em jato) por mais tempo do que a urina
marcações de urina por mais tempo do que as fêmeas; entretanto, quando em estro, estas
(BRADSHAW, 2000).
O sistema social e espacial de gatos apresenta uma grande variação, pois estes animais
vivem em hábitats diversos, desde em ilhas subantárticas até em cidades industriais, sendo
que a densidade populacional pode variar (KERBY e MACDONAL, 1994). Os felídeos são
considerados animais solitários, mas algumas espécies, como os leões (Panthera leo), vivem
LEYHAUSEN, 1994).
dominância é a prioridade na obtenção de recursos, como água, alimento, locais para descanso
23
24
Gatos domésticos são considerados animais com estrutura social semelhante à dos leões
(ALBERTS, 2002). Contudo, mesmo os animais mais sociais, como o leão e o gato, podem
apresentar um estilo de vida solitário, o que depende de fatores como tipo de hábitat,
disponibilidade de presas, densidade populacional, entre outros (ALBERTS, 2002). Por ser
dispersão de alimento permitem que dois ou mais indivíduos vivam em proximidade. Nas
sociedades dos mamíferos, alimento e abrigo são os recursos limitantes para a formação de
grupos para as fêmeas, e estas são os recursos limitantes para os machos (MACDONALD et
al., 2000). A densidade e o tamanho das presas também parecem ser determinantes na
formação de grupos. O tipo do hábitat parece ter importância neste aspecto, pois ambientes
geralmente aparentadas, com seus filhotes e jovens machos ainda imaturos. Esses machos
geralmente deixam o grupo natal com dois ou três anos de idade, evitando o contato com
outros gatos após a dispersão, e, aparentemente, os indivíduos que não migram não
24
25
membros de outros grupos que se aproximam, tanto machos quanto fêmeas, especialmente
quando estas estão com filhotes, e dificilmente ocorre migração de uma fêmea de um grupo
animal lamber a pelagem de outro (MELLEN et al., 1993). Os filhotes são muitos sociáveis,
1992). Até o filhote estar bem desenvolvido, é crucial que este receba cuidados da mãe e
proteção contra possíveis predadores (FELDMAN, 1993). O tamanho dos grupos varia muito
e pode ser determinado por disponibilidade de alimento, por mortalidade dos filhotes em
decorrência de viroses ou de outras doenças felinas e por morte de animais adultos pelo
Estudos reforçaram o fato de os gatos domésticos serem animais sociais, pois, dentro de
um grupo ou de uma colônia, formam relações amistosas com outros gatos esfregando,
realizando grooming uns nos outros e dormindo próximos ou até mesmo uns sobre os outros
geralmente são os que os animais escolhem para ficarem perto na hora do descanso, o que
indica que as interações são afiliativas, e não agonísticas (BRADSHAW, 2000). Os gatos
25
26
animal. A resposta de estresse tem dois componentes: o primeiro é uma rápida resposta de
durante um período mais longo, tendo como função permitir ao animal recompor-se da
não como causa, podendo ser definido como uma reação do organismo a uma alteração do
ambiente, numa tentativa de manter a homeostase. Sendo assim, o estresse passa a ser bom,
pois tem valor adaptativo. Entretanto, o estresse crônico leva a uma outra reação, conhecida
como “desistência aprendida”. O animal “aprende” que sua reação ao meio desfavorável não
resulta em adaptação, portanto deixa de reagir. Essa condição tem muitas consequências para
1999).
funcionais, as quais não são observadas nos animais selvagens (LYONS et al., 1997).
26
27
mecanismos para lidar com os problemas de seus hábitats naturais, como temperaturas
estresse, reduzindo seu potencial reprodutivo e sua expectativa de vida, além de provocar
percebe uma ameaça à sua homeostase. A dificuldade está em determinar o que constitui
exatamente o estresse, pois nem todos os estressores têm impactos negativos na saúde animal;
Para minimizar o estresse dos animais mantidos em abrigos, é importante que ocorra
boa socialização dos gatos com os humanos (bem como entre os animais), o que pode ser
obtido por manipulações diárias destes (ROCHLITZ, 2002). O contato próximo permite,
ainda, que alterações no comportamento do animal sejam percebidas, o que pode indicar
causam estresse nestes animais, como as relações individuais dentro do grupo, a estabilidade
(KESSLER, 1999).
27
28
cativeiro. Assim, surgem oportunidades para que os animais demonstrem uma disposição
mantêm animais em cativeiro. Por meio do enriquecimento ambiental, processo dinâmico que
contribuindo, assim, para a saúde física e psicológica dos animais (CIPRESTE e AZEVEDO,
2003).
ambiente para proporcionar um aumento do bem-estar para os animais que vivem naquele
local, por meio de abordagens físicas, sociais, sensoriais e nutricionais (ROCHLITZ, 2005).
Itens de enriquecimento ambiental também são muito utilizados para aumentar o bem-estar de
felinos silvestres mantidos em cativeiro, como, por exemplo, a apresentação de essências que
confinamento (SCHUETT e FRASE, 2001). Superfícies “para abrasão das unhas”, assim
como diversos tipos de brinquedos, também devem estar disponíveis para os gatos em
deixando pistas visuais e olfativas no ambiente, por meio da deposição de odores das
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glândulas interdigitais (ROCHLITZ, 2005). Brinquedos que se movem atraem em maior grau
o interesse dos animais (McCUNE, 1995), sendo que estes devem ser frequentemente
substituídos por outros (McCUNE, 1995 e ROCHLITZ, 2005). A qualidade do espaço pode
local onde o animal vive. À medida que os animais podem escolher o local para descansar e o
indivíduo com o qual querem manter contato, diminuem as formas de agressão, e os animais
que os animais trabalhem por alimento (MELLEN et al., 1998). Um abrigo de animais
permite que o espaço disponível seja separado em áreas funcionais. Por exemplo, as áreas
podem ser divididas em locais específicos: para alimentação, para eliminação das excretas,
para brincadeiras, para descanso (prateleiras) etc. Estas áreas podem ser modificadas para
poderá ser mudado por combinações diferentes (McCUNE, 1995). Recentemente, tem-se
direcionado mais atenção aos odores como enriquecimento ambiental para grandes felinos
29
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2. OBJETIVOS
Este trabalho teve como finalidade estudar as relações entre gatos domésticos e seu
relação ao processamento das excretas, aos contatos sociais e aos comportamentos diante de
30
31
3. MATERIAIS E MÉTODOS
3.1. Animais
Foram utilizados gatos domésticos (Felis silvestris catus) castrados (por volta do
primeiro ano de vida) de ambos os sexos, filhotes, juvenis e adultos. Os animais foram
animais, sendo 29 machos e 42 fêmeas. O plantel teve sua origem na doação de vários
animais por uma organização não governamental da cidade de Ribeirão Preto-SP e, a partir
daí, vários animais foram sendo agregados por meio de doações episódicas.
comprimento do pelo (longo ou curto, sendo este último denominado de “liso” neste estudo).
Os indivíduos foram também identificados pela cor dos olhos e por defeitos morfológicos,
Os animais foram agrupados nas categorias: preto peludo (PP); preto liso (PL); rajado
peludo (RP); rajado liso (RL); caramelo (Ca); padrão siamês (S); preto e amarelo (P/A); preto
e branco (P/B); branco e rajado (B/R); rajado e branco (R/B); cinza e amarelo (C/A); rajado-
amarelo e branco (RA-B); branco e preto (B/P); caramelo-claro e branco (CaC/B); cinza e
branco (C/B); branco, amarelo e rajado (B/A/R); rajado, branco e amarelo (R/B/A); cinza,
amarelo e branco (C/A/B); marrom (M); branco (B); branco e cinza (B/C); preto, amarelo e
branco (P/A/B); branco, amarelo e preto (B/A/P); preto, branco e amarelo (P/B/A); rajado
31
32
amarelo (RA); rajado, amarelo e branco (R/A/B); branco, preto e amarelo (B/P/A); e,
oxigenada cremosa (20 volumes), tomando-se o cuidado para evitar a intoxicação dos
após esse período, elas foram abandonadas. Foi utilizado o seguinte padrão numérico:
Figura 1. Animal da categoria preto liso (PL), identificado por marcação artificial:
descoloração da pelagem da região lombar (3).
32
33
Os animais foram também divididos em grupos conforme suas idades, sendo utilizado
o seguinte critério:
Filhote: até os cinco meses de idade, período em que ocorre a troca dos dentes
temporários para os dentes permanentes (caninos).
Figura 2. Animal com cinco meses de idade (nascimento dos caninos
definitivos correspondendo à segunda dentição).
Juvenil: dos cinco aos dez meses de idade, período proporcional ao período infantil de
cinco meses.
Adulto: após os dez meses de idade, quando normalmente os animais estão aptos à
reprodução.
O estudo foi realizado no abrigo ‘B’, na cidade de Ribeirão Preto-SP. Nesse local, os
animais dispõem de uma área total de aproximadamente 193 m2, inteiramente fechada por
grades e telas, com áreas de alvenaria, constituída por quatro dormitórios interconectados (25
m2), onde ficam disponíveis ad libitum ração e água, camas e prateleiras em espaço contíguo
(Figura 3). A área do abrigo é higienizada uma vez ao dia por uma funcionária.
33
34
Figura 3. Gatos à sombra de uma árvore, dentro do abrigo onde se desenvolveu a pesquisa.
Figura 4. Nesta foto, os gatos estão interagindo com parte do enriquecimento ambiental realizado no abrigo.
34
35
Figura 5. Mapa esquemático do abrigo, sendo que toda a área é cimentada, e os números 1A,1B, 2A e 2B
correspondem aos dormitórios.
35
36
(gatos presentes ou não nas caixas) e aos “contatos sociais” foi realizada por meio de
observação direta dos animais, utilizando-se o método amostral “animal focal” (Altmann,
em estudo. Para as coletas dos testes com estímulos sensoriais I (foi inserida uma caixa de
transporte na qual foram fixados odores com os quais os gatos interagiram) e II (foi inserida
uma bandeja com granulado sanitário e, posteriormente, fezes de outros gatos para verificar o
comportamento dos indivíduos) e com “processamento de excretas” (os gatos foram filmados
observador presta atenção no grupo inteiro e grava cada ocorrência de um tipo particular de
BATESON, 1993).
papelão numeradas e presas às prateleiras na posição vertical (em relação ao solo), dispostas
nos quatro dormitórios do abrigo. As caixas altas ficaram entre 1,60 m e 2 m acima do solo, e
as caixas baixas ficaram entre 0,60 m e 1,60 m do solo. Os animais foram observados 3 vezes
por semana (às segundas, às quartas e às sextas-feiras), nos períodos da manhã (9h15, 9h45,
10h15, 10h45, 11h15 e 11h45) e da tarde (14h15, 14h45, 15h15, 15h45, 16h15 e 16h45).
Foi registrada a média de ocupação das caixas (altas ou baixas) nas categorias machos
e fêmeas castradas.
36
37
De hora em hora, nos períodos da manhã (9h, 10h e 11h) e da tarde (14h, 15h e 16h),
Os contatos entre os animais foram registrados de acordo com sua categoria, sendo
elas: contatos entre fêmea e fêmea (F/F), entre fêmea e macho (F/M) e entre macho e macho
(M/M).
Figura 7. Contatos sociais entre gatos machos e fêmeas em uma prateleira de alimentação no dormitório 1.
37
38
enterrar, o tempo gasto durante os movimentos para enterrar (t_ent) e o tempo de verificação
olfativa (t_ver) das excretas. O tempo de verificação olfativa corresponde ao tempo no qual o
gato cheira suas fezes/urina, realizando, assim, a verificação do odor deixado no local.
Figuras 8 e 9. Gatas da categoria preto liso (P/L) e preto e branco (P/B) eliminando suas fezes.
foi utilizada uma caixa de transporte de tamanho padrão número 2, limpa (água, detergente e
álcool 70%) e seca (com papel toalha) antes de cada fase do experimento. A caixa foi
colocada em uma área circular de 1 metro de diâmetro. Doze gatos domésticos, divididos em
três grupos – grupo 1: quatro machos castrados; grupo 2: quatro machos não castrados e
38
39
O experimento foi dividido em quatro testes: sem odor (A), com odor de gaze nova
(B), com odor corporal de gato macho castrado conhecido (C) e com odor corporal de gato
animal. A gaze foi passada na caixa imediatamente após ser preparada – esfregando-a por
todo o corpo do gato durante dois minutos, principalmente na região pélvica, coxins, boca,
olhos e orelhas.
Para a coleta desses odores, utilizou-se luva livre de odores, para evitar alteração no
odor do material retirado do gato. Durante 15 minutos, a caixa foi filmada e, ao término desse
tempo, foi registrado, de minuto em minuto, quais animais estavam próximos (considerando-
39
40
foi introduzida uma caixa (bandeja) com granulado sanitário em uma área circular de 1 m de
O experimento foi dividido em quatro testes: bandeja vazia (A), bandeja com
granulado sanitário (B), bandeja com granulado sanitário e fezes de gato macho castrado
conhecido (C) e bandeja com granulado sanitário e fezes de gato macho castrado
desconhecido (D).
No início dos testes, um frasco plástico foi aferido e preenchido com fezes, e seu peso
foi anotado. Após essa padronização, as fezes utilizadas nos testes III e IV foram adicionadas
à marca do frasco. As fezes eram coletadas e mantidas em geladeira por um período de três
dias.
segundos.
40
41
4. ANÁLISES ESTATÍSTICAS
observados nos testes, com finalidade de avaliar a dispersão estatística dos animais.
Os dados foram analisados com o auxilio do SPSS 12.0. Foram utilizados os testes não
41
42
5. RESULTADOS
Na distribuição das categorias para ocupação dos locais de descanso, foi realizado o
teste de Friedman, que comparou machos nas caixas altas e baixas (Fr = 0, 001, p=1) e fêmeas
nas caixas altas e baixas (Fr = 0, 485, p=0, 47). Para determinar a diferença de ocupação entre
caixa alta e baixa quando agrupados “macho-fêmea” em caixa alta (z= 3, 693, p= 0, 001)
versus “macho-fêmea” em caixa baixa (z=0,7, p=0,5), utilizou-se o teste Wilcoxon, que está
apresentado na tabela 1. Observou-se que ambos os sexos têm preferência pela utilização de
caixas altas.
Média de 100
ocupação 80
(nº de vezes
observado) 60
40
20
0
Média macho Média macho Média fêmea Média fêmea
[Link] [Link] [Link] [Link]
Figura 10. Média e desvio-padrão dos animais quanto à ocupação das caixas de descanso – [Link] = média de
vezes em que o gato foi observado presente na caixa alta; [Link] = média de vezes em que o gato foi observado
na caixa baixa. Média de machos em caixas altas: 46,540, 308; média de machos em caixas baixas:
39,490,308; média de fêmeas em caixas altas: 42,690,308; média de fêmeas em caixas baixas: 44,190,308.
42
43
Tabela 1. Diferença observada no número de vezes em que as caixas foram ocupadas. Caixa
alta: número médio observado de vezes em que as caixas entre 1,60 m e 2 m foram ocupadas;
caixa baixa: número médio de vezes em que as caixas entre 0,6 m e 1,60 m foram ocupadas;
fêmeas: números médios de ocupação da categoria dentro das caixas; machos: números
médios de ocupação da categoria dentro das caixas. *p < 0,05.
contatos M_M (macho-macho) e 146 contatos F_F (fêmea-fêmea). Os contatos sociais foram
avaliados pelo teste de Friedman e comparados pelo teste Wilcoxon. Observou-se que existe
diferença significativa nos contatos entre machos e fêmeas (Fr= 10, 362, p= 0, 006) e
averiguou-se que essa diferença também ocorre quando os grupos são agregados (contatos
43
44
Tabela 2. Resultados das comparações entre as diferentes situações para os contatos sociais
entre fêmeas (F_F), entre machos (M_M) e entre fêmeas e machos (F_M). *p<0,05.
significativa quando se comparou o desempenho de machos (Fr = 15,20, p=0, 001) com o de
fêmeas (Fr = 12,56, p=0, 01) em relação ao número de movimentos para enterrar as fezes e a
urina e em relação ao tempo de verificação dos excretas, como se pode observar na tabela 3.
movimentos para enterrar fezes (Fr= 0, 533, p= 0,46) e urina (Fr= 0, 250, p= 0, 617) (figura
11) e o tempo dedicado à verificação olfativa: fezes (Fr= 0, 0001, p= 1), urina (Fr= 1, 313, p=
44
45
10
Média de
movimentos 8 mov_fezes
(nº) 6 mov_urina
4
2
0
♂ ♀
Figura 11. Diferenças observadas entre machos e fêmeas para enterrar (número de movimentos) fezes e urina.
Mov_urina: número de movimentos realizados para enterrar urina. Mov_fezes: número de movimentos
realizados para enterrar fezes. ♂: gatos castrados; ♀: gatas castradas.
8
7
Média 6
de 5 t_fezes
tempo 4 t_urina
(s) 3
2
1
0
♂ ♀
Figura 12: Diferenças observadas entre machos e fêmeas para verificar (tempo em segundos) fezes e urina.
T_urina: média de tempo gasto em segundos para verificação olfativa da urina. T_fezes: média de tempo gasto
em segundos para verificação olfativa das fezes. ♂: gatos castrados; ♀: gatas castradas.
45
46
Fr
15,20 17,28
(p)
0, 001* 0, 001*
O comportamento mais observado durante os testes foi o grooming, porém ele não
representou diferença significativa entre fêmeas (Fr= 0, 704 p= 0, 872), machos (Fr= 1, 912,
p= 0, 591) e machos castrados (Fr= 5,33, p= 0, 149) quando avaliados pelo teste de Friedman.
Quando comparados pelo teste Wilcoxon, fêmeas e machos castrados apresentaram diferenças
durante o teste II (após a lavagem da caixa, foi friccionada uma gaze nova sem odor em
46
47
pontos específicos da caixa – em cima, nos lados, atrás, por dentro e por fora). A figura 13
Tabela 4. Desempenho dos animais quanto aos comportamentos realizados nos testes durante
as repetições (ver página 30). Grooming: comportamento de autolimpeza medida em
segundos durante o teste. Ocupação: tempo durante o qual o indivíduo ficou em contato direto
com a caixa. Verificação: tempo durante o qual o animal cheirou a caixa. *p< 0,05.
47
48
(quando o gato urinou e/ou defecou e, após tal comportamento, cobriu suas excretas) ou
cavando (o gato realizou ou não verificação olfativa e cavou antes de eliminar as excretas) na
respectivos desvios-padrão.
As fêmeas (Fr= 8, 067, p=0, 045) e os machos castrados (Fr=8, 647, p=0, 034)
categoria animal foi observada diferença significativa quanto a urinar durante a apresentação
dos diferentes estímulos: fêmeas Fr=3,00 e p=0,39; machos Fr=4,00 e p=0,26; machos
Por meio do teste Wilcoxon, pudemos identificar que, quando pareados, fêmeas e
042) durante o teste 1 (estímulo sensorial II), machos não castrados e castrados apresentaram
significância quando foram pareadas as verificações olfativas (z=2, 201, p=0, 028) do teste 4
(estímulo sensorial II) e o comportamento de grooming (z= 2,0, p=0,03) no teste 1 (estímulo
sensorial II).
48
49
49
50
Tabela 6. Desempenho dos animais quanto aos comportamentos: cavar, enterrar e urinar,
realizados nos testes durante as repetições (estímulo sensorial II). Cavar: o gato realizou ou
não verificação olfativa e cavou antes de eliminar as excretas. Enterrar: o gato urinou e/ou
defecou e, após tal comportamento, cobriu suas excretas. Urina: número médio de vezes em
que o animal urinou durante o teste. *p< 0,05
50
51
6. DISCUSSÃO
que alguns indivíduos são muito mais próximos do que outros, o que indica melhor adaptação
ao ambiente e aos outros indivíduos do abrigo. Entre as fêmeas, o desvio-padrão é menor que
respostas são diferentes, pois o desvio é maior que a média. Esses resultados confirmam a
hipótese de Troncon (2006), a qual observou que viver em locais que apresentam baixa
densidade populacional prejudica o contato social entre os animais (contatos físicos diretos
ocupam áreas maiores da colônia, movimentam-se mais e passam mais tempo no chão do que
comportamentos relacionados, sendo que os animais que passam mais tempo próximos
realizam, também, mais grooming uns para os outros. O grooming é um dos comportamentos
associados à dominância em gatos domésticos, pois os animais dominantes realizam mais esse
comportamental desenvolvido nos animais com estilo de vida social para evitar conflitos,
como, por exemplo, na competição por recursos (VAN DER BOS, BUNING, 1994 e
51
52
em que o dominante é o animal que se aproxima; e postura dos animais no encontro, em que o
agressão do outro animal. Este estudo verificou que os machos dominantes exibem mais
grupo é estudar o grupo como um todo, e não pares isolados (BOER, 1977).
estrutura do recinto em que são mantidos e a idade dos animais (VAN DER BOS e BUNING,
1994).
primatas e canídeos), embora a maioria dos animais felinos seja de vida solitária (YAMANE
et al., 1997). Ainda que os gatos sejam considerados, ao menos em parte, seres solitários,
existem diversos argumentos a favor de uma vida mais social – por exemplo, um jogo
completo de posturas do corpo e as expressões faciais que podem ser exibidas quando um
gato se encontra com outro. Pode haver uma ordem de ranking relativa dependente da posição
e da época da reunião entre dois ou mais gatos, indicando que provavelmente eles sejam
territoriais. Foi encontrada uma hierarquia absoluta quando, em uma situação experimental,
mais gatos tiveram que viver em uma área menor (BOER, 1977).
de Roma, foi demonstrado que existe preferência individual, entre os domésticos, pela
ocupação de determinadas áreas, sendo que, em seu estudo, a colônia de gatos vivia em um
52
53
jardim no centro de Roma. Verificou-se que as fêmeas ocupavam os locais centrais da área,
onde encontravam alimento, fonte de água e locais para se esconderem, condições ideais para
as fêmeas parirem e criarem os seus filhotes. Esse local era compartilhado por diversas
fêmeas com seus filhotes, não havendo competições severas entre elas. Já os machos
ocupavam locais mais afastados das áreas centrais, para evitarem possíveis ataques das
fêmeas com filhotes, além de escolherem locais com grande quantidade de “esconderijos”. Os
juvenis não se afastavam muito das áreas centrais, preferindo as subunidades onde nasceram.
Neste estudo não foram observadas disputas territoriais entre fêmeas adultas, porém foram
observados diversos ataques das fêmeas contra machos adultos (NATOLI, 1985b).
tornou mais complexo, ou seja, quando os animais passaram a identificar odores diferentes
aos seus habituais, como no teste III, em que as fezes apresentadas eram de um gato
desconhecido ao abrigo em estudo. Entretanto, também foi observado que, mesmo com a
de eliminar o odor ao qual elas estavam sendo expostas, para não levá-lo ao resto do abrigo.
Já os machos ocuparam a caixa por mais tempo, deixando seu odor como forma de marcação
53
54
territorial. Esses resultados estão de acordo com dados obtidos por Troncon (2006), o qual
apontou que as fêmeas são mais cuidadosas no processamento das fezes do que os machos, o
que pode ser um meio de proteção aos filhotes. As fezes deixadas no meio sem serem
animais que vivem em altas densidades populacionais dedicam também esforço maior e
tempo maior para o processamento das fezes do que os animais que vivem em baixas
informações transmitidas pelas fezes, pois, em baixas densidades, os animais vivem mais
dispersos na área, sendo essas informações mais difíceis de serem detectadas (TRONCON,
2006).
foram observados, não havia substrato para enterrar as excretas. Já em um ambiente com
material (terra e folhas) para esconder as fezes, observou-se que, quanto ao sexo dos animais,
as fêmeas se dedicam mais ao processamento das fezes do que os machos. A diferença entre o
maior número de movimentos para enterrar as fezes exercidos pelas fêmeas, comparando-se
com os machos, leva à hipótese de que estes poderiam ser atraídos pelo odor se as fezes
fossem deixadas expostas no meio. A tendência das fêmeas de enterrarem mais suas excretas
latrinas. Os machos dos grupos vizinhos aproximam-se frequentemente dos grupos residentes,
mas, em razão dos níveis elevados do enviesamento reprodutivo, dos custos da aptidão do
potencial e dos benefícios, estes machos variam de acordo com o sexo e o status reprodutivo
dos residentes. Embora todos os indivíduos visitassem latrinas por tempo similar, a
54
55
Ambos os sexos dedicaram tempo maior às fezes do que à urina. Isso indica que os
odores característicos das fezes são um importante marcador territorial e, como consequência,
estas devem ser mais bem enterradas, para que os indivíduos não sejam encontrados. Além
disso, deve-se ressaltar o instinto do animal de evitar os riscos à saúde, já que enterrar as fezes
para enterrar suas fezes, gastando também tempo maior para esse ato na área de alta
densidade populacional (AD), em relação à área de baixa densidade (BD) (AD: =18,89; BD:
=8,69; p=0, 0052). Provavelmente, essa diferença deve-se ao fato de os animais tentarem, ao
enterrar as excretas, omitir as informações químicas transmitidas pelas fezes na área de maior
densidade, onde estas informações seriam mais facilmente detectadas pelos outros animais
que vivem na mesma área. Pode-se supor que, nas áreas de baixa densidade, os animais vivem
Após o nascimento, os gatinhos permanecem com a mãe por diversas semanas, até que
aprendam a caçar sozinhos. A tendência das fêmeas de enterrarem suas excretas mais
as fezes feitos pelas fêmeas, quando comparadas com os machos, conduz à hipótese de que
esse tipo de estratégia poderia servir como meio de diminuir a probabilidade de os gatinhos
(quando ainda no ninho) serem alvo de predadores, pois estes poderiam ser atraídos pelo odor
Em um estudo sobre uma fêmea selvagem africana da espécie Felis nigripes, observou-
se que ela não elimina sua urina na forma de spray quando está com filhotes, e os filhotes
55
56
Por meio das secreções glandulares, muitos mamíferos deixam seus odores no
ambiente. Os gatos machos marcaram o ambiente da caixa de odores com urina e odor
corporal, este último como consequência da maior permanência dentro da caixa. A marcação
também pode estar relacionada a situações de estresse ou de ansiedade, como, por exemplo,
dos animais, principalmente se realizada antes da maturidade sexual, isto é, se for realizada
entre a idade de seis e de sete meses, sendo um procedimento muito usado para eliminar ou
organização social, que ocorre em diversas espécies de carnívoros (ROSTAIN et al., 2004).
A comunicação olfatória por meio das fezes e da urina é uma maneira importante de
comunicação entre os gatos domésticos, e as fezes exercem o papel mais definido, devido aos
esforços físicos e ao tempo dedicado para enterrar, o que caracteriza uma tentativa de omitir a
56
57
pode criar uma situação em que o animal reage de maneira não característica (mordendo,
arranhando etc.), influenciando negativamente sua oportunidade de uma adoção bem sucedida
abrigados estéreis eram menos ativos, mostrando menos exploração, brincando menos e
gastando mais tempo nas atividades orais dirigidas em acasalamentos do que os porcos com
transmitidas por fezes e urina do que as fêmeas, a menos que a fêmea esteja na fase de estro.
distinguir a urina de machos estranhos da emitida por machos familiares (NATOLI, 1985a).
57
58
7. CONCLUSÃO
sua qualidade de vida causa melhora nos comportamentos não naturais (estereotipados). Além
disso, o risco de possíveis doenças relacionadas ao estresse de animais confinados pode ser
facilmente aos estímulos propostos, exigindo dos pesquisadores mudanças rotineiras nos
58
59
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