Resumo
Resumo
Capitulo I
A cultura do Direito civil
1. O Direito civil
O Direito civil constitui o corpo fundamental do Direito português, na sua globalidade. Formado lenta e
continuamente através de um processo complicado, o Direito civil exprime, por excelência, o modo de viver
do povo que o criou e que o aplica.
O Direito civil exprime, em sínteses inovadoras, o lastro tradicional da nação a que pertença, o labor
quotidiano dos seus tribunais, as iniciativas dos seus legisladores e o produto da investigação e do ensino das
universidades.
A relativa autonomia do Direito em relação às leis mas se acentua no caso do Direito civil, torna-se difícil,
perante qualquer “lei” civil, retirar dela um sentido, imediatamente útil. Em consequência do peso histórico-
cultural das proposições civis, cada termo pode implicar uma riqueza significativa apreensível, apenas,
através de um estudo alargado da matéria.
O Direito civil surge, por tudo isto, como um domínio reservado aos iniciados.
O Direito civil traduz um conjunto sistematizado de normas e de princípios jurídicos, habitualmente, esse
conjunto é autonomizado com recurso à ideia de Direito privado comum: Direito que regula as relações que
se estabeleçam entre pessoas iguais e que, a esse nível, trata particularmente os níveis genéricos da
regulação.
O Direito civil exprime uma área da Ciência do Direito: aquela que resolve casos concretos civis.
2. A experiência portuguesa
O Direito – em especial o civil – para além da riqueza histórica advinda de toda a evolução, depende,
sempre, de uma aprendizagem especializada. Embora assente em códigos de conduta espontaneamente
transmitidos, o Direito requer instancias muito especializadas de ensino e de aplicação.
Apesar de já assim o ser na Antiguidade, na Idade Media o fenómeno agravou-se, pelo que a Ciência do
Direito passou a ser ensinada, apenas e na prática, nas Universidades.
O ensino universitário do Direito tem consequências inabarcaveis em toda a sua conformação, pelo que as
universidades tiveram um papel decisivo na evolução do Direito civil.
O Direito civil evolui à medida que a elaboração científica permita novas composições. A Ciência não
tem fronteiras. E assim o Direito civil, fenómeno essencialmente próprio de cada nação, torna-se permeável
ao acolhimento de leituras, de articulações e mesmo de soluções, experimentadas por outros povos, da
mesma ou de diferentes épocas históricas. Técnicas jurídicas mais avançadas, surgidas em qualquer lugar,
podem ser adoptadas nas universidades. Com o tempo elas irão influenciar gerações de novos juristas que,
depois, lhes darão corpo na sociedade civil.
O Direito civil português tem, hoje, uma feição romano-germânica. É um Direito vivo, reanimado por
gerações de magistrados e de estudiosos universitários e, dai, vertido nas mais recentes leis civis, com relevo
para o Código Civil em vigor. O labor universitário português, muito permeável a experiências estrangeiras,
permitiu que o nosso moderno Direito Civil se aproxime da pureza latina, precisamente com apoios na
Ciência Jurídica que mais aperfeiçoou o Direito românico: a alemã.
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Teoria Geral do Direito Civil
O Direito civil tem um núcleo que adveio da Historia: o Direito romano. Sobre esse núcleo incidiram
séculos de estudo e de aperfeiçoamento.
Ao longo da Historia, não faltaram tentativas de substituir o Direito puramente histórico, de
racionalidade por vezes discutível, por um Direito racional: mais lógico e perfeito. Entre essas tentativas,
uma houve que teve consequências: a levada a cabo pelos racionalistas ou teóricos do Direito Natural, nos
séculos XVII e XVIII.
Os racionalistas intentaram substituir os esquemas tradicionais romanos por classificações e definições
lógicas. Daí resultou todo um corpo de matéria, com reflexos acentuados no domínio dos contratos.
O Direito civil é, hoje, um Direito codificado. O Direito civil incluiu-se em grandes diplomas
legislativos, elaborados de acordo com coordenadas jurídico-cientificas aprontadas nas universidades: os
códigos civis.
Em obediência à tradição jus racionalista, os códigos de tipo germânico apresentam, logo no inicio, uma
“parte geral” que antecede o subsequente tratamento civil – as “partes especiais”.
E, na tradição universitária, é por essa aparte geral que se inicia o Direito civil.
4. As origens
O Direito civil é Direito privado. A contraposição entre o Direito público e o Direito privado remonta às
compilações de Justiniano.
A ideia de Direito civil é anterior à de Direito privado e, por maioria de razão, à sua contraposição ao
Direito público. O Direito civil é o Direito da cidade e dos cidadãos (cives), surgindo, no final da República
romana. Contrapunha-se ao ius gentium ou Direito das gentes.
Por seu turno, o Direito público surgiu não para se contrapor ao Direito civil, mas para designar o
Direito de base legal, aplicável a todos. Já o Direito privado seria o proveniente de contratos entre
particulares: apenas a estes diria respeito. Ou seja: o próprio Direito privado, quando legislado, seria público.
À partida e na linha do fragmento de Ulpiano, o Direito público ocupar-se-ia do Estado, enquanto o Direito
privado versaria os interesses dos particulares. Em termos de Direito romano, o Direito público perderia
qualquer significado com a queda do Império e o desaparecimento da organização politica clássica. Já o
Direito privado subsistiu.
Idade Moderna: surgimento do Direito público, agora com um conteúdo efectivo. Ele agruparia as normas
novamente criadas para a consolidação e a disciplina do poder real.
Idade Contemporânea: desenvolveram-se as doutrinas do Estado e da Administração Pública. A
preocupação dos juristas passaria a ser a de conter o Estado, mantendo uma esfera livre dos cidadãos.
A diferença entre o Direito público e o Direito privado aprofunda-se: técnicas distintas; jurisdições
próprias; modos de ser diferentes.
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Teoria Geral do Direito Civil
2. Orientações normativistas analíticas: vêm dissecar, nas diversas instituições, regras estruturalmente
públicas, de acordo com o critério do interesse predominante e da presença de poderes de autoridade.
Chegam à conclusão de que, no seio do mais tradicional Direito privado, ocorrem situações publicas:
pense-se do Direito da Família. E também o Estado actual de acordo com esquemas privados.
3. Orientações anti-liberais de cariz totalitário: orientações totalitárias de extremos opostos vieram negar a
contraposição entre o Direito público e o Direito privado: modo cómodo de suprimir a defesa que este
ultimo representa, no tocante aos direitos das pessoas.
Prof. Menezes Cordeiro: a existência de uma contraposição entre o Direito público e o Direito privado é um
dado existência. Não pode ser negada. A explicação do fenómeno será, porventura difícil. Mas não se
encontre, ai, um pretexto para a fácil saída do negativismo.
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1. Teorias materiais: fazem assentar a distinção na diversa natureza das próprias regras em si.
Teoria do interesse: ao Direito privado caberiam os interesses dos particulares enquanto, por
simetria, o Direito público proporcionaria o interesse público. Por seu turno, o interesse público
respeitaria a uma generalidade de pessoas, podendo concretamente exigir o sacrifício dos
particulares.
O respeito pelas posições dos particulares é inevitável para a preservação da comunidade:
para o interesse público. Por outro lado, a tutela conveniente do interesse público acautela, em
ultima instância, a posição de cada cidadão.
Teoria da importância: defende que o Direito público corresponde a um sector mais importante
do que o do privado – prevalece sobre ele, havendo concurso.
Baseia-se na ideia de que o interesse público suplanta o privado.
Teoria da subordinação: diz-nos que, no Direito público, as relações jurídicas se pautam pela
superioridade de uma das partes sobre a outra; no Direito privado, os participantes estão, pelo
contrário, em pé de igualdade – o Direito privado é marcado pela igualdade; no Direito público
domina um vector de autoridade.
Teoria da tradição: na base de diversas orientações, certas regras vêm a ser considerados de
Direito público: outras de Direito privado. Na prática corrente, acolhem-se como de Direito
público aquelas que, como tal, já eram consideradas.
2. Teorias do sujeito: dirigem um apelo primordial ao tipo de sujeito da relação ou da situação jurídica.
Teoria do sujeito formal: o Direito público é o Direito do Estado ou, em rigor, também de outros
organismo públicos.
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Teoria Geral do Direito Civil
Teoria do sujeito material: haveria, no Direito público, uma actuação do Estado enquanto
Estado, isto é, dotado dos seus atributos próprios.
Teoria da competência: afirma que, no Direito privado, todos são competentes para agir. Já no
Direito público, apenas o poderiam fazer as pessoas indicadas por uma norma de legitimação;
Teoria da Gestão Pública: o Direito público seria a soma das normas relativas a relações nas
quais um dos sujeitos, na base de uma situação legitimadora, actuaria como gestos do bem
comum;
Teoria do Direito especial: o Direito privado continuaria a base aplicável a todos os sujeitos; o
Direito público diferenciar-se-ia pela sua especificidade, funcionando apenas perante
determinadas ocorrências ou em face de entidades especialmente legitimadas, por lei, para usar
as inerentes prerrogativas.
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Todas as relações susceptíveis de se estabelecerem entre os seres humanos, por iniciativa destes, são
objecto de Direito privado. A organização da sociedade e os princípios a ela relativos, são privados.
O Direito privado vale por si: adere estritamente às pessoas, não carecendo de se justificar pelos fins que
prossiga.
O Direito privado advém da Historia (ius romanum), estando menos dependente do legislador.
O Direito público surge como um direito especial: o Direito que regula a Administração, ou as Finanças
Públicas ou quaisquer outros domínio do Estado – Direito especial do Estado.
O Direito público, enquanto Direito especial, atenderá ao denominado interesse público, dando corpo a
situações de soberania e de subordinação no seu âmbito de aplicação, prevalece sobre o Direito privado.
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Teoria Geral do Direito Civil
#3
10. Generalidades
Perante qualquer situação carecida de tratamento jurídico, na ausência de regras especiais – de Direito
público ou outras – quem tenha pretensão de aplicabilidade, há que recorrer ao Direito civil;
O Direito civil é o mais comum e o mais abstracto de todos os ramos do Direito. Constitui a base a partir
da qual se vão erguendo todos os demais ramos jurídicos normativos.
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A elaboração geral de regras para a realização da internacionalidade normativa, o seu alcance e o seu
funcionamento são tarefa do Direito civil.
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O Direito civil, enquanto Direito comum, tem aplicação subsidiária perante os diversos ramos jurídicos.
Dependendo da situação lacunosa considerada e da sindicância operada através dos princípios do Direito
público, o Direito civil pode ser chamado a complementar ou a integrar as mais diversas situações.
Tese dos princípios gerais: o Direito civil daria corpo aos princípios gerais do ordenamento. Na falta
de normas específicas, eles tenderiam a prevalecer.
Tese da analogia: o Direito civil seria chamado a depor quando regulasse um caso análogo ao
carecido de regras públicas.
As teses não se excluem – o recurso subsidiário ao Direito civil passa pela determinação de uma lacuna no
Direito público, pelo estabelecimento da analogia e pela ponderação dos princípios.
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Teoria Geral do Direito Civil
- Direito civil é Direito positivo – traduz normas jurídicas destinadas a facultar soluções de casos concretos
surgidos no seu vasto âmbito de aplicação;
- Direito civil é Ciência do Direito – fixa o caminho que vai das fontes às soluções concretas dos problemas,
fazendo-o em termos previsíveis, justificáveis e controláveis;
- Direito civil é cultura jurídica – comporta a linguagem, os conceitos, os institutos e as conexões presentes
em todas as disciplinas jurídicas e que foram elaboradas no seu seio.
- Direito civil tem um papel mediador, facultando, nas dimensões positiva e científica, a unidade e a
identidade de um determinado Direito.
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Noção de recepção: adopção, por uma comunidade jurídica, de elementos próprios de outra, presente ou
passada, independentemente de situações de dominação politica, económica ou social – não se trata de mera
transposição de normas, de um espaço para o outro – a recepção implica antes a aprendizagem, pelos juristas
de uma sociedade, da Ciência jurídica própria de outra sociedade.
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Teoria Geral do Direito Civil
Tópica e Sistemática
Tópica: técnica de fundamentação das soluções jurídicas. Pressupõe que os problemas, desligados entre si,
encontrem uma solução extra científica, essa solução deveria, depois, ser fundamentada de modo a permitir
convencer outras pessoas e, designadamente, o adversário numa discussão.
O Direito civil teve origem na tópica. As soluções para os conflitos eram alcançados caso a caso,
com base em considerações de oportunidade e de bom senso: não existiam normas gerais e abstractas previas
que inculcassem vias de solução.
O decurso do tempo permitiu o apuramento de certas regularidades de solução. Esta regularidade
corresponde a uma certa lógica interna e faculta a formulação de regras que tornem previsíveis as soluções
para os litígios futuros. Assim, a tópica que levou ao nascimento do Direito civil, foi, a nível interno,
substituída por uma sistemática.
O Direito não se esgota no sistema interno. Como fenómeno cultural, ele exprime-se e
consubstancia-se nas suas exteriorizações. O Direito depende da linguagem e das formulações utilizadas para
comunicar e para promover a sua aprendizagem. Tal linguagem e tais formulações dão lugar ao sistema
externo – sistema de exposição ou sistema de leccionação.
O Direito romano tinha uma particular configuração – um sistema interno evoluído, mas uma
ausência de um sistema externo ou de exposição. A aprendizagem e a exteriorização do Direito seguiam,
então. Moldes empíricos. Na forma, o Direito romano era tópico e, por ventura. No seu desenvolvimento, em
substância, surgira a sistemática mínima necessária para se falar em Ciência Jurídica.
A evolução posterior viria a permitir, mais tarde, o estabelecimento de um sistema externo – a
exteriorização do Direito passou, também, a seguir moldes racionais, concatenados entre si. Note-se que a
separação entre os dois sistemas, externo e interno, é uma operação meramente artificial.
Importância do sistema externo o sistema externo não é irrelevante para o interno, para a sua própria
materialidade das soluções a alcançar. O simples facto de se seguir, na exposição da matéria, uma certa
ordenação, permite, de imediato, localizar lacunas, detectar desvios, corrigir assimetrias.
As alterações introduzidas no sistema externo implicam e traduzem modificações de fundo, capazes
de promover novos tipos de soluções concretas.
Apreendido através de quadros linguístico-culturais, o Direito não mais se pode separar deles: tais
quadros são o Direito e o pensamento jurídico.
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Teoria evolutiva dos sistemas: intenta explicar o essencial dos avanços jurídico-cientificos dos últimos
séculos através da adopção sucessiva de modeles sistemáticos diferentes na comunicação e na explicação do
Direito.
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Teoria Geral do Direito Civil
O Direito encontrava-se nas compilações romanas – Corpus Iuris Civilis e nos Digesta – matérias
distribuíam-se ao sabor de clivagens histórico-culturais, sem uma preocupação científica, de tal forma que
eram frequentes as repetições e as contradições; metodologia marcadamente empírica.
Humanismo Jurídico – séc. XVI – doutrina que pressupunha um pensamento centrado no Homem e
modelado pela Antiguidade, sem mediações. Apesar de ter surgido em Itália, o humanismo jurídico não
daria, aí, frutos intensos. A sua eficácia mais duradoura fez-se sentir em França - Jurisprudência elegante.
A matéria dispersa pelo Corpus Iuris Civilis, através de cientistas marcantes como Cujacius e Danellus,
foi reagrupada já não ao sabor de meros acasos histórico-culturais, mas de acordo com preocupações globais.
A ordenação processou-se reunindo os temas de acordo com certas semelhanças exteriores por eles
aparentados.
Nasce a sistemática externas a sistemática humanista assumia uma feição empírica e periférica: ela
reagrupada os temas em função de aludidos traços superiores.
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Segundo Hobbes, os diversos elementos como a sociedade, o Estado e o Poder orientam-se através de
postulados fundamentais: a sobrevivência dos homens, a guerra como estado natural reinante entre eles, a
insegurança daí derivada, a necessidade de a superar com recurso ao Estado e à Sociedade, o sacrifício da
liberdade que isso implica, etc.
A sistemática central é irrealista. Na verdade, não se pode esquecer a essência histórico-cultural do Direito,
deduzindo-o, por inteiro, do cadinho de princípios gerais arbitrariamente fixados – impõe-se uma nova
síntese, que foi levada a cabo por SAVIGNY.
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Teoria Geral do Direito Civil
o Filosófica – A Ciência do Direito deve na sua conexão interior, produzir uma unidade;
o Histórica – a Ciência do Direito limita o domínio do arbítrio de cada um através da Historia.
Savigny propõe uma formação de conceitos através da contemplação intuitiva das instituições. Estas,
dados pelo “espírito do povo” eram, no fundo, Direito romano.
Savigny recebeu assim, a herança jus racionalista: conserva uma articulação logicista do sistema, recorre à
dedução e utiliza estruturas derivadas de postulados centrais.
Mas acolheu também a herança romanista da jurisprudência elegante: admite elementos jurídicos pré-
dados, anteriores a qualquer sistema e recebidos por via histórico-cultural, através do Direito romano.
Ocorre uma verdadeira síntese: os princípios escolhidos para o núcleo do sistema não se obtêm de modo
arbitrário, antes derivando da história e da cultura; os elementos existentes na periferia não têm mera origem
empírica, antes se ordenando e complementando em função dos princípios gerais presentes no centro.
- Junção entre cultura e racionalidade ou sistema interno e sistema externos – Sistemática integrada;
- Esta sistemática integrada foi utilizada ao longo do séc. XIX no espaço jurídico alemão, em trabalhos
desenvolvidos sobre os Digesta ou Pandekten – por isso conhece-se também por Pandectistica.
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Actualmente, a realização do Direito é feita com base nos dois postulados seguintes:
o Realização unitária do Direito: o intérprete/aplicador realiza o direito num grande conjunto;
o Natureza volitivo-cognitivo da realização do Direito – a solução para o problema é sempre
uma decisão humana. (ex.: no preenchimento de lacunas, conceitos indeterminados, nas
normas contraditórias, nas normas injustas…)
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#5 Codificações civis
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Teoria Geral do Direito Civil
Toda a matéria se desenvolve a partir de ideias centrais simples e claras: a pessoa, enquanto individuo,
carece de bens que movimenta para sobreviver e se expandir.
O código de Napoleão surgiu como um momento legislativo de primeira grandeza, ele impôs-se para
além das suas fronteiras naturais, seja pela fora das armas napoleónicas, seja por livre adopção num
fenómeno de recepção dos interessados.
Nuns casos ele foi simplesmente traduzido e posto em vigor. Noutros ele serviu de modelo
inspirador a códigos dotados de grau variável de originalidade. Hoje o velho código civil continua
em vigor, embora muito alterado.
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Surge nos finais do séc. XIX, o Código civil alemão – BGB – assente em dados científicos mais
perfeitos e avançados. Corresponde ao ponto terminal de uma intensa actividade jurídico-cientifica
que se prolongou por todo o séc. XIX.
Como qualquer codificação, o BGB traduz uma recolha do já existente e não uma criação de
novidades; sintetiza a Ciência Jurídica do séc. XIX, no que ela tinha de mais evoluído.
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As codificações tardias
Codificações tardias – códigos civis surgidos depôs do BGB – códigos do séc. XX.
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Teoria Geral do Direito Civil
o Apresentam uma identidade própria, motivada pelas particularidades dos espaços em que
surgiram.
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Nos finais do séc. XX, inícios do séc. XXI, surgem três importantes códigos civis:
o Código civil do Quebeque (1991)
o Código civil da Holanda (1992)
o Código civil do Brasil (2002)
+
Reforma do Código civil alemão de 2001/2002
Estas codificações são consideradas “recodificações” na medida em que assentam, com técnicas similares,
em matéria já codificada e por codificar.
- Apoiam-se na terceira sistemática. Não precedida pela puta e simples recepção da pandectistitca,
mas alcançada através da evolução integrada do estilo napoleónico;
- Preocupação envolvendo, acolhendo no Código civil ora da matéria comercial (Brasil), ora da
matéria do consumo (Alemanha) ora de ambas (Quebeque e Holanda)
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Teoria Geral do Direito Civil
Parte Geral
A parte geral tem o papel de abarcar em si tudo o que é comum às “partes especiais”.
Inconvenientes da parte geral:
o Por vezes omite aspectos que fazem parte da “parte geral”;
o Por vezes duplica aspectos já tratados nas “partes especiais”;
o Por vezes separa as matérias entre a “parte geral” e as “partes especiais”;
o Inconvenientes didácticos:
As permanentes abstracções, a necessidade de antecipar matérias “especiais”, sob
pena de ininteligibilidade do discurso e a própria fatalidade de formar um
desenvolvimento incompleto tornam a parte geral pouco acolhedora para o estudo e
de difícil ensino.
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É confiada então essa tarefa codificadora a António Luiz de Seabra (1789-1895). O diploma é
promulgado pelo rei a 1 de Junho de 1867.
O Código de Seabra assenta na tradição românica, trave-mestra do civilismo português, por isso os
institutos nele consagrados são, em grande medida, os já prenunciados pelo Direito anterior.
Como qualquer codificação, o Código de Seabra traduzia a elaboração científica que o antecedeu,
com relevo para os grandes nomes da pré-codificação: Corrêa Telles e Coelho da Rocha. No
entanto, na sua base, teve o labor de um único jurista – Seabra.
Em rigor, o velho diploma de 1867 poderia ter sido mantido até aos nossos dias: teria mesmo
prevenido um certo positivismo de teor exegético a que se regressou após 1966.
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Contexto: recepção, nos meios universitários, a partir de 1900, da doutrina alemã, ou seja, da terceira
sistemática.
Através do ensino ministrado nas Faculdades, na direcção iniciada por Guilherme Moreira e
intensificada por cientistas como Manuel de Andrade e Vaz Serra (Coimbra) e Paulo Cunha,
Galvão Telles e Gomes da Silva (Lisboa), a Ciência jurídica evoluída a partir da pandectistica, veio
a ser compartilhada por todos os juristas portugueses, formados pelas suas universidades.
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Teoria Geral do Direito Civil
A substituição do Código de Seabra por um novo Codigo de feição germânica teve um impulso
inicial dado por Vaz Serra (1903-1989) que foi, seguramente, a pessoa que mais contribuiu para o
conjunto valendo a designação do código como Código Vaz Serra.
Aspectos positivos do Código Vaz Serra: consagrou, ao nível das fontes e no espaço português, o
pensamento da sistemática integrada, com todas as suas consequências, nos planos científicos e
culturais. Agitou, ainda, a doutrina nacional, facultando-lhe um salto qualitativo, acompanhado da
consagração definitiva de vários institutos.
o Não conseguiu obter uma unidade cabal – assimetrias (ex.: elevado nível alcançado no
Direito Internacional e contraste com o baixo nível alcançado em direitos reais)
o Nasceu, cientificamente, bastante antiquado, correspondendo ao estado da doutrina alemã
dos anos vinte e trinta;
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Teoria Geral do Direito Civil
o Aceitou a classificação germânica, insensível às críticas que há muito lhe eram dirigidas
(manutenção de uma parte geral);
o Mostrou-se pouco de acordo com as preocupações do seu tempo em áreas sensíveis como a
da família e da mulher;
o Abusou de definições e de tomadas de posição doutrinais.
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1. O pós-guerra de 1945 foi caracterizado pelo regresso ao jus naturalismo e pela tentativa de
encontrar referencias materiais – procurou-se exorcizar os excessos perpetuados pelo nazismo e
pelo estalinismo.
Todas estas orientações não tiveram êxito porque nos lograram influenciar a solução dos casos
concretos, consumando antes o divórcio que se instalou entre a Ciência do Direito e a metodologia
jurídica – Período de irrealismo metodológico.
5. Guerra-fria (1945-1989): levou, a prazo, à difusão de uma postura defensiva, pouco motivada,
marcada pelo relativismo e pelo agnosticismo.
O termo da guerra fria e o colapso do comunismo soviético deixaram lacunas por preencher, o
pensamento sistemático, só por si, nada pode resolver – oferece uma ferramenta capaz de
estabelecer partes entre o método e a dogmática, mas não dá, por si, referencias materiais.
6. Análise económica do Direito (Law and Economics): ultimo acontecimento metodológico do séc.
XX. Com raízes em COASE e particularmente divulgada por Richard A. Posner, a análise
económica do Direito explica que a conduta humana é, no essencial das suas opções, enformada
por postulados de ordem económica (pensamento materialista norte-americano)
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Teoria Geral do Direito Civil
A análise económica pretende ter uma efectiva projecção dogmática. Ocupa-se dos problemas e
das soluções: não apenas de grandes princípios. Parece, no entanto, ter já passado de moda,
perdendo o impacto inicial.
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A pesquisa genética e o tema complexo da dignidade humana e do respeito pela vida apelam à isenção
e à representatividade das figurações éticas.
Em suma: haverá que reconstruir um edifício de referências a partir de posições cuja bondade seja
pacífica e que se teça em torno da dignidade humana e dos valores naturais e ambientais.
Francis Fukuyama – trabalho sobre o papel da confiança e as estruturas sociais que a ela conduzem:
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Os problemas actuais
A influencia real do discurso metodológico nos níveis aplicativos no Direito deteve-se, a partir dos
anos 30 do séc. XX – segue-se um período de letargia, durante o qual os desenvolvimentos
metodológicos não tiveram influxo visível nas soluções concretas e, logo, na Ciência do Direito.
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Teoria Geral do Direito Civil
Inconvenientes:
As soluções paradoxais, injustas ou contraditórias são sempre uma constante no Direito, obra humana
– consequente necessidade de aperfeiçoamento do sistema interno e, também, do sistema externo,
dele indissociável.
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Teoria Geral do Direito Civil
#9 A REALIZAÇÃO DO DTO
Interpretação e aplicação
2. Natureza cognitiva do papel do papel do intérprete-aplicador: juiz não cria nada, apenas executa a
mensagem legislativa, inteligindo-a e pondo-a em prática.
Clara insuficiência para resolver casos concretos; leitura puramente positivista = não reage a fenómenos
como os de conceitos indeterminados.
3. é uma operação de tipo cognitivo-volitivo: uma solução jurídica não é automática: envolve, sempre,
uma decisão humana, num mar de elementos que enformam a decisão dum problema complexo,
nenhuma matemática permite graduar argumentos e aprontar soluções.
Apenas uma vontade livre, ponderada, a matéria gerida pelo pré-entendimento e pela
Ciência, poderá apontar uma solução, decidindo-a. O processo não é arbitrário, mas o passo final é
uma decisão humana.
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Teoria Geral do Direito Civil
O papel da linguagem
Os seres humanos são obrigados, pelas suas limitações, a operar através da linguagem, isto é, através
de figurações fonéticas com correspondência escrita e das subsequentes combinações estudadas pela
gramática e pela semântica. Um conceito jurídico é, assim, uma fórmula linguisticamente
condicionada.
2. As justificações podem ser meramente linguísticas: perante um problema, pode-se encontrar uma
efectiva solução material que o resolva, mas pode-se tudo deixar em aberto, recorrendo ao
subterfúgio de uma (simples) composição verbal.
3. É possível um discurso que não se reporte à realidade em si, mas, apenas, às locuções que a
descrevem – metadiscurso: por exemplo, uma discussão sobre “justiça” poderá fixar a complexa
realidade subjacente ou centrar-se, apenas, sobre o termo “justiça”. Teremos então um metadiscurso,
fonte de pseudo-soluções, todas elas meramente vocabulares.
A dogmática integrada
A Ciência do Dto é a ciência das soluções dos casos concretos. A dogmática jurídica exprime a
Ciência do Dto em acção;
O Dto civil é cultura jurídica. A decisão correcta deve integrar-se no seu tempo e no meio geográfico,
humano e social em que se vai tornar efectiva;
A dogmática é horizontalmente integrada: aos diversos problemas não se aplica uma norma isolada; é
smp o Dto, no seu conjunto, que é chamado a intervir.
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Teoria Geral do Direito Civil
#10
O Dto comercial
Actividade empresarial
Historicamente verificou-se a sua autonomia pelas exigências da actividade mercantil. Abrange áreas da
actividade económica como a Banca, Industriais, etc. ainda que não autonomizado em termos legislativos é,
quanto às suas soluções, princípios e valores, dto civil.
#11
O Dto do trabalho
Relação individual/colectiva de trabalho. Condições de trabalho. É também Dto civil cuja autonomização se
justifica por razões pedagógicas.
#12
O Dto do consumo
Defesa do consumidor (destinatário final do circuito económico. Inclui dever geral de informação e dto ao
arrependimento. É também Dto civil.
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CAPITULO V
SITUAÇÕES JURIDICAS
#20
Noção e modalidades
Noção
Situação jurídica: situação humana (logo, social) valorada pelo Dto. Mais precisamente, a situação
jurídica é o produto de uma decisão apropriada, correspondendo ao acto e ao efeito de realizar o Dto,
que resolve um caso concreto.
A situação jurídica surge como o culminar de todo o processo de realização do Dto,
integrando a localização das fontes, a interpretação e a aplicação.
o Situações simples: compostas por um único elemento. Quando este é retirado do seu
conteúdo, tornam-se ininteligíveis.
Ex.: pretensão (poder de exigir a outrem um comportamento).
o Situações complexas: compostas por vários elementos. Do seu conteúdo podem ser retiradas
realidades que, noutras circunstâncias, se arvorem em situações jurídicas autónomas.
Ex.: dto de propriedade sobre um bem imóvel: engloba faculdades de construir;
faculdades de cultivar; faculdades de vender fazem sentido autonomizadas, podendo
consubstancias dtos autónomos.
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Teoria Geral do Direito Civil
o Situações absolutas: existe por si, sem dependência de uma outra situação de sinal
contrários. A situação absoluta não postula qualquer relação jurídica.
Ex.: dto de propriedade (art. 1305º CC): esgota-se numa pessoa e na coisa.
o Situações relativas: consubstancia-se na medida em que, frente a ela, se equacione uma
outra, de teor inverso.
A situação relativa “relaciona duas pessoas”: ela dá lugar a uma relação jurídica.
Ex.: dto de crédito (art. 397º CC): credor tem um dto de cobrar 100 porque o
devedor lhe deve 100.
Prof. Menezes Cordeiro: a relação jurídica é apenas uma das várias situações jurídicas possíveis, pretender
reduzir toda a realidade a relações jurídicas é irrealista e provoca distorções contínuas.
o Situações activas: colocam determinados efeitos sob a vontade do próprio sujeito a quem ela
assista.
Analiticamente, a situação activa deriva de permissões normativas ou de normas que
confiram poderes.
o Situações passivas: colocam determinados efeitos na dependência de uma pessoa que não o
sujeito.
A situação passiva é obra de normas proibitivas ou impositivas.
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Teoria Geral do Direito Civil
#21
O Conceito de Dto Subjectivo
O dto subjectivo corresponde a uma situação jurídica compreensiva: dado pela Historia e pela
cultura do Dto, ele tem uma presença efectiva nos planos teórico e prático, englobando diversas
realidades menores.
Segundo Savigny
Dto subjectivo seria um poder da vontade, tal poder deveria ser entendido como reconhecimento, ao
sujeito titular do dto de um âmbito da liberdade, independentemente de qualquer vontade estranha.
O dto subjectivo não era, de forma alguma, um mero expediente técnico, destinado a exprimir
soluções pontuais. Antes se assumia como um vector significativo-ideológico, destinado a melhor
firmar as concepções liberais, protegendo-as contra investidas exteriores.
Foi retirada à concepção de Savigny o seu nível significativo-ideológico, tendo o dto subjectivo sido
remetido para o rol dos meros expedientes técnicos.
Deste modo, “não é a vontade ou o poder que formam a substância do dto, mas sim o
aproveitamento”, “o conceito de dto (subjectivo) respeita à segurança jurídica do aproveitamento dos
bens; dtos são interesses juridicamente protegidos”.
Interesse – 2 acepções:
o Interesse em sentido objectivo: o interesse traduz a virtualidade que determinados bens têm
para a satisfação de certos necessidades.
o Interesse em sentido subjectivo: o interesse exprime uma relação de apetência que se
estabelece entre o sujeito carente e as realidades aptas a satisfaze-lo.
“Protecção jurídica” o dto subjectivo confere, efectivamente, e ao seu titular, uma tutela jurídica,
pelo que a ideia de protecção surge convincente e acertada.
Segundo Regelsberger
A fórmula de Jhering – o dto é uma tutela de interesses – surgiu como demasiado frontal, reduzindo
um dos mais nobres instrumentos da Ciência jurídica à mera realidade subjacente.
Para Regelsberger: “o dto subjectivo existe quando a ordem jurídica faculte à pessoa a realização de
um escopo reconhecido (= interesses protegido) e lhe reconhece, para isso, um poder jurídico (=
poder da vontade).
21
Teoria Geral do Direito Civil
Critica a Savigny:
O dto subjectivo não pode se definido como um poder de vontade: há dtos sem vontade, enquanto o
termo “poder”, tendo um sentido técnico preciso não deve confundir-se com o “dto”.
Toda a juridificaçao é imposta, não resultando dos sujeitos entre si. O dogma da vontade não
corresponde à verdade antropológica e existencial.
Critica a Jhering
Não se deve identificar dto subjectivo e interesse. Em múltiplas situações, há dtos subjectivos, validos e
eficazes, que não correspondem a interesses objectivos ou subjectivos: o proprietário de coisa deteriorada
não deixa de ter esse dto e a correspondente protecção.
Critica a Regelsberger
Acumulando o essencial de Savigny e Jhering, sujeita-se às criticas a ambos dirigidas. Alem disso, deve-se-
-lhe censurar a natureza verbal do compromisso ensaiado e a nocividade dos desenvolvimentos linguísticos
com os quais se intentou ladear a critica em perspectiva.
Negativistas: intentam proscrever o dto subjectivo, substituindo-o por outra ou outras figuras.
Proteccionistas: procuram reduzir o dto subjectivo à tutela proporcionada pelo Dto.
Neo-empiricas: pretendem reconhecer a impossibilidade de uma definição capaz, apelando, então, à
mera descrição das figuras susceptíveis de o integrar.
Criticas:
Posição negativita: o dto subjectivo não é uma simples construção técnica: ele tem um nível significativo-
ideologico profundo. No dto subjectivo joga-se um modo de pensar próprio do sistema cultural do Ocidente
e não, apenas, uma conjunção jurídica. O dto subjectivo deve ser preservado, na precisa medida em que a
cultura que o suporta o deva, também, ser.
Posição neo-empirista: o neo-empirismo traduz desde logo um retrocesso. Ainda que complexa, a situação,
no que toca ao dto subjectivo, não surge desesperada ao ponto de se deverem ignorar gerações de estudiosos
que dedicaram esforços à sua reformulação.
Solução preconizada
Mais importante é descobrir o sentido de uma evolução, os seus factores e a sua concatenação,
passada, presente e futura.
O dto subjectivo é sentido, na nossa cultura, não como uma mera instrumentação técnica, a
manipular pelos juristas, mas antes como uma vantagem pessoal, a conquistar, preservar e defender.
22
Teoria Geral do Direito Civil
o O dto subjectivo é sempre técnico: traduz a presença, no seu âmbito, de uma linguagem clara
e eficiente, que permita percorrer a via que, à fonte, liga o caso concreto.
o O dto subjectivo é significativo-ideológico: traduz a projecção, também nesse âmbito, da
competente fenomenologia social subjuridica.
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# 22
As modalidades de dto subjectivo
Dto subjectivo comum: traduz-se numa permissão específica de aproveitamento de um bem; deriva
da incidência de uma norma permissiva;
Ex.: dto de propriedade
Bens não patrimoniais: quando não tenha natureza económica, nem se exprimam, à partida em
dinheiro.
o Pessoais
o Familiares
Dtos de crédito
Dtos reais
Dtos de família
Dtos das sucessões
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#23
Outras situações activas
23
Teoria Geral do Direito Civil
Poderes: Gomes da silva – disponibilidade de meios para a obtenção de fins. Realidade analítica.
Faculdades: conjunto de poderes/outras posições activas unificadas sobre uma designação comum.
Realidade compreensível.
Ex.: art. 1305º CC – os “dtos” de uso, fruição e disposição são na verdade faculdades.
Excepção: situação jurídica pela qual a pessoa adstrita a um dever pode, licitamente, recusar a
efectivação da pretensão correspondente. (ex.: excepção do não cumprimento do contrato civil).
o Excepções fortes
Peremptória (ex.: prescrição)
Dilatória (ex.: beneficio de discussão previa)
o Excepção fraca (ex.: art. 428º CC)
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#24
Situações passivas
Obrigação: situação passiva de base, compreensiva, equivalente, de certo modo, ao dto subjectivo.
o Art. 397º CC – “a obrigação é o vínculo jurídico por virtude do qual uma pessoa fica
adstrita para com outra à realização de uma prestação”
Dever: situação analítica passiva de base, o dever traduz a incidência de normas de conduta:
impositivas ou proibitivas. A pessoa adstrita a um dever encontra-se na necessidade jurídica de
praticar ou de não praticar certo facto.
Em regras, uma obrigação pode decompor-se em múltiplos deveres.
Sujeições: situações jurídicas passivas correspondentes aos dtos potestativos. Esta numa sujeição a
pessoa que possa ver a sua posição alterada por outrem, unilateralmente.
Ex.: proponente contratual.
24
Teoria Geral do Direito Civil
Ónus: situação na qual alguém deva adoptar certa atitude, caso pretenda obter certo efeito. O ónus
não é um dever: por via dele não há que adoptar uma certa conduta, porque o resultado por ele
propiciado é facultativo.
O ónus assenta numa permissão: permissão essa que, a não ser actuada num certo sentido, conduz a
consequências desagradáveis para o destinatário da mesma, ainda que não assimiláveis a sanções.
Deveres genéricos: deveres genéricos são situações jurídicas passivas que se traduzem em posições
absolutas, isto é, sem relação jurídica.
O facto de o dever genérico não ter como correspectivo um dto subjectivo explica a sua
generalidade: elas não dão lugar a comportamentos que possa, exclusivamente, ser exigidos por um
sujeito a outro. Uma generalidade de pessoas pode, verificadas as competentes condições, exigir a
observância a uma generalidade de outras.
Deveres funcionais: traduzem situações passivas nas quais uma pessoa que se encontre, por força
da sua presença, em determinada posição.
Os comportamentos que o dever funcional postule podem, directamente, ser exigidos por certas
pessoas.
Os deveres funcionais não tem, ou não tem necessariamente, uma especifica fonte, antes surgindo
com a simples ocorrência do condicionalismo funcional donde promanem.
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CAPITULO VI
#25
Institutos civis
Institutos civis: conjunto de normas e princípios que permitem a formação típica de modelos de
decisão.
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#26
A personalidade e a sua tutela
O Dto, enquanto fenómeno histórico e cultural, é uma criação humana, no mais largo sentido dessa
ideia, surge como obra humana, é utilizado por pessoas, serve os seus interesses e os seus fins e sofre as
vicissitudes que Humanidade lhe queira imprimir.
25
Teoria Geral do Direito Civil
Adequação axiológica: os dtos fundamentais não acautelam, somente, certos valores; antes o fazem por
forma adequada ou, noutro prisma, perante violações que eles consideram adequadas, apenas nessa dimensão
eles podem surtir efeitos civis. Apenas nessa dimensão eles podem surtir efeitos civis. Por exemplo, a recusa
em celebrar um contrato pode por em perigo a vida ou a integridade da outra parte; mas o dto à vida, como
fundamental que é, não exige, aqui, a celebração do contrato (em principio) por não haver adequação
axiológica em tal dimensão.
Adequação funcional: obriga a atinar as próprias violações em si: também estas podem situar-se no termo de
funções estranhas ao dto fundamental considerado, quer por conflitos de deveres em que este ceda (ex.:
soldade na guerra pode matar e, provavelmente, deverá mesmo faze-lo) quer por simples alheamento ou
desconexão (ex.: pessoa que professasse uma religião que proibisse o trabalho não poderia, legitimamente,
receber sem trabalhar, em nome da liberdade de consciência)
***
2. Responsabilidade patrimonial: conjunto de normas que levam que pelo incumprimento das obrigações
responda o património do devedor.
Nas sociedade primitivas, perante o incumprimento de deveres, a posição mais simples consistiria
em fazer sofrer o responsável, seja como modo de o levar a cumprir (efeito compulsório), seja a titulo de
mera retorção (efeito retributivo). Justiça privada e suportação pessoas das consequências do incumprimento
seriam pois as antigas regras vigentes na matéria.
Na actualidade prevalece o regime da responsabilidade patrimonial. O devedor que não cumpra as
suas obrigações apenas se sujeita a que sejam apreendidos bens seus – os bens penhoráveis – os quais serão
vendidos para satisfação dos credores. Se tais bens não existirem ou forem insuficientes, haverá rateio,
ficando todos prejudicados por igual.
Ninguém pode ser fisicamente obrigado a fazer seja o que for, no Dto civil, apenas o património de
cada um responde pela prevaricações – se existir e na medida das suas forças – Grande progresso histórico
no domínio do reconhecimento da personalidade humana e da sua tutela.
3. Danos morais: o dano corresponde à supressão de uma vantagem, actual ou previsível, atribuída pelo Dto.
O dano moral corresponderia à supressão de vantagens não patrimoniais.
A ressarcibilidade dos danos morais provocou duvidas serias ao longo da Historia. Numa evolução
que pode ser seguida nas diversas ordens jurídicas, é hoje seguro que os danos morais dão lugar a
indemnização, ainda que com um alcance meramente compensatório. A tutela da pessoa assim o exige.
4. A família: traduz, em Dto, um conjunto de situações relativas a pessoas ligadas entre si por casamento,
parentesco, afinidade e adopção – art. 1576º CC.
A família constitui um alargamento primordial das esferas das pessoas. Um reconhecimento da
personalidade humana sem o da família não seria possível; impõe-se, pois, a conexão.
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# 27
A autonomia privada
Autonomia privada
- A autonomia privada corresponde assim a um espaço de liberdade jurígena atribuído, pelo Dto, às pessoas,
podendo definir-se como uma permissão genérica de produção de efeitos jurídicos.
26
Teoria Geral do Direito Civil
Autonomia pela:
Áreas de incidência:
o Dto das Obrigações: domínio por excelência da autonomia privada – art 405º CC
o Dto da personalidade: dois limites: respeito pela ordem pública (art.81º/1), as limitações
voluntárias são smp revogáveis (art. 81º/2)
o Dtos Reais: há liberdade de celebração; não há liberdade de estipulação (art.1318º CC)
o Dto da Família: há liberdade de celebração; não há liberdade de estipulação
o Dto das Sucessões: menor influencia da autonomia privada.
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# 28
A Boa Fé
O Dto romano assentava em acções. Nele, o protótipo da situação jurídica activida era protagonizado
não por um dto subjectivo, mas por uma actio: a pessoa que pretendesse uma tutela jurídica dirigia-
se ao pretor e solicitava uma acção. Em casos particulares o pretor veio conceder acções sem base
legal expressa, assentes, simplesmentes na fides, precedida do adjectivo Bom:a Bona fides ou boa fé.
No Dto canónico era conferida á boa fé, tonalidades +éticas que se podem exprimir equiparando-a à
ausência de pecaso. A boa fé não implica só ignorância: exige ausência de censura.
A boa fé traduz, até aos confins da periferia jurídica, os valores fundamentais do sistema; e ela
carreia, para o núcleo do sistema, as necessidades e as soluções sentidas e encontradas naquela
mesma periferia.
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Teoria Geral do Direito Civil
Boa fé subjectiva: está em causa um estado do sujeito, esse estado é caracterizado, pela lei
portuguesa, ora como um mero desconhecimento ou ignorância de certos factos, ora como um seu
desconhecimento sem culpa ou uma ignorância desculpável, ora pela consciência de determinados
factores.
Boa fé objectiva: remete para princípios, regras, ditames ou limites por ela comunicados ou,
simplesmente, para um modo de actuação dito de “boa fé”: arts 3º/1, 227º/1, 272º, 334º, 437º/1 e
762º/2, respectivamente. A boa fé actual como uma regra imposta do exterior e que as pessoas
devem observar.
Nalguns casos, a boa fé surge como um correctivo de normas susceptíveis de comportar uma
aplicação contrária ao sistema; noutros, ela surge como a única norma atendível. Em todos eles,
todavia, ela concretiza-se em regras de actuação.
o Modificação dos contratos por alteração das circunstancias: art., 437º/1 – este instituto
permite, em certas condições, modificar ou resolver contratos que,
mercê de alterações registadas após a sua conclusão, venham a
assumir feições injustas para alguma das partes.
o Complexidade das obrigações: art., 762º/2 – advém da junção dos institutos da violação
positiva do contrato e a ideia da obrigação como uma estrutura complexa. A
complexidade das obrigações promove, a propósito de cada vinculo, um conjunto de
deveres de protecção, de lealdade e de informação que asseguram, nesse nível, a tutela
da confiança das partes e do principio de que, em qualquer caso, prevalecem os
interesses reais protegidos do credor.
Em todos estes institutos afloram dois princípios: o principio da tutela da confiança e o principio da
primazia da materialidade subjacente.
28
Teoria Geral do Direito Civil
1. A tutela da confiança
o Através de disposições legais especificas: surgem quando o Dto retrate situações típicas
nas quais uma pessoa que, legitimamente, acredita em certo estado de coisas – ou o
desconheça – receba uma vantagem que, de outro modo, não lhe seria reconhecida.
o Uma situação de confiança: traduz-se na boa fé subjectiva e ética, própria da pessoa que,
sem violar os deveres de cuidado que ao caso caibam, ignore estar a lesar posições
alheias.
o Uma justificação para essa confiança: requer que esta se tenha alicerçado em elementos
razoáveis, susceptíveis de provocar a adesão de uma pessoa normal;
o Um investimento de confiança consistente: exige que a pessoa a proteger tenha
desenvolvido toda uma actuação baseada na própria confiança, actuação essa que não
possa ser desfeita sem prejuízos inadmissíveis; isto é: uma confiança puramente interior,
que não desse lugar a comportamentos, não requer protecção.
o A imputação da confiança: implica a existência de um autor a quem se deva a entrega
confiando do tutelado. Ao proteger-se a confiança de uma pessoa vai-se, em regra, onerar
outra; isso implica que esta outra seja, de algum modo, a responsável pela situação criada
Os requisitos para a protecção da confiança articulam-se entre si nos termos de um sistema móvel – não há
entre eles uma hierarquia e não são, em absoluto, indispensáveis falta de alguns deles pode ser compensada
pela intensidade especial que assumam alguns dos restantes.
O Dto visa, através dos seus preceitos, a obtenção de certas soluções efectivas; torna-se, assim,
insuficiente a adopção de condutas que apenas na forma correspondam aos objectivos jurídicos, descurando-
as, na realidade, num plano material. A boa fé exige que os exercícios jurídicos sejam avaliados em termos
materiais, de acordo com as efectivas consequências que acarretem.
Ex. de comportamento contrario á boa fé: devedor que, obrigado a colocar determinada quantidade de tijolos
num prédio do credor, os descarrega no fundo de um poço: ainda quando o local da entrega ficasse ao
critério do devedor, deve entender-se que a opção não poderia ser feita em termos danosamente inúteis.
29
Teoria Geral do Direito Civil
***
- arts. 437º, 239º, 762º, 227º CC – cabe ao sistema, as zonas jurídicas em que o atendimento a esses valores
é defensável. E fora dessas áreas? É atendível a Boa fé? Em qualquer área do Dto civil/ Dto, é de atender
à Boa fé. Razoes:
- Os valores do sistema estão presentes em cada parcela do sistema;
- Carácter transversal do art. 334º CC (abuso do dto): aplica-se a qualquer situação jurídica activa e às
normas 6 proibitivas e impositivas – normas implicitamente permissivas (não se está a atribuir dtos
subjectivos) Quaisquer normas jurídicas do dto português estão sujeitas ao art., 334º CC
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#29
A imputação de danos
Dano: traduz-se na supressão ou diminuição duma situação favorável que estava protegida pelo
ordenamento.
o Danos morais e danos patrimoniais;
o Danos lícitos e danos ilícitos;
o Danos naturais e danos humanos;
o Danos ressarcíveis e danos compensáveis;
o Danos emergentes e lucros cessantes.
Regra básica: suportação dos danos pela própria esfera onde ocorram. Cada um corre o risco de ver
suprimidas as vantagens que antes lhe coubessem. Porquê esta regra? Dupla justificação:
o Em termos práticos: corresponde á natureza das coisas e faculta uma solução rápida e eficaz
para a sua problemática;
o Em termos valorativos: corresponde, em geral, á solução mais justa. Qualquer dano
pressupõe a atribuição prévia de uma vantagem: fazer correr o risco por quem não tenha tido
o benefício das vantagens, enquanto elas existam, seria uma fórmula maior de injustiça.
30
Teoria Geral do Direito Civil
Ilicitude: o dano deve ser provocado em violação a normas jurídicas e sem que
ocorra uma causa de justificação (por ex. a legitima defesa);
Culpa: a acção deve assentar numa tal relação de meios-fins que o agente incorra
num juízo de censura:
- Seja por ter pretendido directa, necessária ou eventualmente atingir as
normas violadas – dolo;
- Seja por não ter pretendido pautar-se pelos deveres de cuidado que ao
caso caibam – negligência.
3. Imputação de danos por factos lícitos ou pelo sacrifício – art. 339º/2, 2ª parte CC
Ex.: art. 1322º CC
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# 30
A propriedade e a sua transmissão
Noção de propriedade:
o Em sentido amplo: conjunto dos dtos patrimoniais privados (ex.: art. 62º/1 CRP)
o Em sentido estrito: permissão normativa plena e exclusiva de aproveitamento de uma coisa
corpórea.
31
Teoria Geral do Direito Civil
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PARTE II
NEGÓCIO JURÍDICO
CAPITULO I
# 31
Eficácia jurídica
Eficácia jurídica: sempre que se verifiquem determinadas consequências nas quais, através de
critérios reconhecidos seja possível apontar as características da juridicidade. As consequências
juridicamente relevantes são sempre respeitantes a pessoas: sem Humanidade, não há Cultura, não há
Ciência e logo Direito.
Situação jurídica: resulta de uma decisão jurídica, ou seja, assume-se como o acto e o efeitos de
realizar o Dto, solucionando um caso concreto.
Decisão jurídica: é uma decisão humana, em sentido congnitivo-volitivo: implica Ciência – ou seria
arbitrária – implica opção – ou surgiria automática
A eficácia jurídica resulta de modelos de decisão, emergindo estes dos factores que componham um regime
jurídico-positivo aplicável – a eficácia jurídica é p produto da aplicação de regras jurídicas (normas ou
princípios)
32
Teoria Geral do Direito Civil
Transmissão: verifica-se a passagem de uma situação jurídica da esfera de uma pessoas, para a de outra. Na
transmissão, a situação transferida poderia sofrer certas alterações de elementos circundantes.
≠
Sucessão: ocorre a substituição de uma pessoas por outra, mantendo-se estática uma situação jurídica a qual,
por isso, estando inicialmente na esfera da pessoa, surge, depois da troca, na de outra. Na sucessão a situação
manter-se-ia totalmente idêntica.
Natureza da eficácia
o Eficácia pessoal: quando a situação jurídica que se constitua, transmita, modifique ou
extinga não tenha natureza patrimonial;
o Eficácia obrigacional: sempre que alguma dessas quatro vicissitudes se reporte a situação
obrigacionais;
o Eficácia real: quando tal ocorra perante situações próprias de coisas corpóreas.
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#32
Factos, acções e negócios jurídicos
Facto jurídico: evento ao qual o Dto associo determinados efeitos. O facto jurídico apresenta-se
como a realidade apta a, integrando uma previsão normativa, desencadear a sua estatuição – sentido
amplo.
Facto jurídico stricto sensu: não tem intervenção do ser humano ou, pelo menos,
não voluntária (ex.: raio)
Paulo cunha: as regras aplicáveis ao negócio e ao acto jurídico são diferentes, uma vez que a
liberdade de estipulação, simples no conteúdo e, sobretudo, nas consequências, conduz à aplicação
de múltiplas normas e princípios jurídico.
Teoria de acção final ou finalismo: a acção humana não pode ser entendida como puramente
causal, no sentido do agente provocar, de forma mecânica, determinadas alterações no mundo
exterior: a acção é final porque o agente, consubstanciando previamente o fim que visa atingir põe,
na prossecução deste, as suas possibilidades.
Na acção humana, há uma prefiguração do fim que determina para o alcançar e os meios para tanto
seleccionados: o próprio fim é a ”causa”.
Actos lícitos: o acto é licito quando se processe ao abrigo de uma permissão especifica, de uma
permissão genérica ou, simplesmente, quando seja irrelevante para o Dto (ex.: exercício de um dto
subjectivo)
O acto lícito acabará por ser aquele que não contrarie o Dto, isto é, que não seja proibido, directa ou
indirectamente.
Actos ilícitos: correspondem a comportamentos humanos desconformes com o Dto, por implicarem
actuações proibidas ou por redundarem no não acatamento de atitudes prescritas.
A ilicitude pode provocar um juízo jurídico de censura: a culpa.
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33
Teoria Geral do Direito Civil
#33
Modalidades de negócios jurídicos
A diferença entre negócios unilaterais e os negócios multilaterais, contratos, repousa nos efeitos
que venham a ser desencadeados:
o Nos negócios unilaterais, os efeitos não diferenciam as pessoas que, eventualmente neles
tenham intervindo; por isso tende, neles, a haver uma única pessoas, uma única declaração
ou um único interesse;
o Nos contratos, os efeitos diferenciam duas ou mais pessoas; tendem a surgir várias
declarações, varias pessoas e vários interesses.
Negócios unilaterais:
o Negocio conjunto: várias pessoas são titulares de posições jurídicas que só podem ser
actuadas no seu conjunto, por todas elas, em unanimidade;
o Deliberação: várias pessoas são titulares de posições jurídicas confluentes que não
têm que ser unânimes, prevalecendo a posição maioritária.
Contratos:
o Contratos sinalagmáticos ou não sinalagmáticos: consoante dêem lugar a obrigações
recíprocas, ficando as partes, em simultâneo, na situação de credores e devedores ou,
pelo contrário, apenas facultem uma prestação;
o Contratos monovinculantes (art. 411º CC) ou bivinculates: conforme apenas uma das
partes fique vinculada ou ambas sejam colocadas nessa situação.
Negócios inter vivos: destinam-se a produzir efeitos em vida dos seus celebrantes
Negócios mortis causa: destinam-se a produzir efeitos depois da morte do seu autor.
Negócios consensuais: negócios que, por não caírem sob a estatuiçao de normas cominadoras de
forma especial sejam susceptíveis de conclusão por simples consenso.
Negócios formais: negócios para cuja conclusão a lei exija determinado ritual na exteriorização da
vontade.
Negócios reais quoad constitution: negócio so existe quando há entrega de uma coisa, quando há a
tradição dessa coisa (ex.: doação de um bem móvel, penhor, contrato de mutuo, contrato de
deposito…)
Negócios reais quoad effectum: negócios que produzem efeitos de dtos reais (ex.: contrato de
compra e venda).
Negócios nominados: têm nome na lei. Normalmente é típico, mas nem sempre (art. 755º CC, não
tem regime)
Negócios inominados: não têm nome na lei. Atípicos.
Negócios onerosos: aqueles que implicam esforço económico para ambas as partes;
Negócios gratuitos: esforço económico só para uma das partes (ex.: doação)
34
Teoria Geral do Direito Civil
#34
Actos jurídicos em sentido estrito
Os actos jurídicos em sentido estrito correspondem a uma forma menos elevada do exercício da
autonomia privada – ausência de liberdade de estipulação.
Aos actos jurídicos em sentido estrito aplicam-se, na medida do possível, as regras respeitantes ao
negócio jurídico; tal o regime defendido pela doutrina e consagrado no art. 295ºCC.
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#35
Elementos e pressupostos negociais
1. Elementos necessários: os que a lei exija para a validade de todo e qualquer acto jurídico.
i. Elementos essenciais: sem os quais não há negócio;
ii. Elementos habilitantes: requeridos para a total validade do negócio.
Prof. Menezes Cordeiro: pressupostos (exteriores ao negocio) ≠ elementos (normas e princípios aplicáveis
mercê da existência de negocio jurídico)
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CAPITULO II
#36
O processo negocial
35
Teoria Geral do Direito Civil
o Negociações contratuais;
o Instrução e aconselhamento;
o Elaboração do documento contratual
Processos típicos: procedimentos com sede legal e, ainda aqueles que são habitualmente adoptados pelas
partes interessadas (tipicidade social); são atípicos todos os demais.
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#37
Regras nas negociações e CULPA IN CONTRAHENDO
No período anterior à da efectiva conclusão do contrato existem já algumas regras a observar ou, pelo
contrário, as partes são totalmente livres?
A tendência actual vai no sentido de afirmar a existência de regras, ainda que mantendo a liberdade
fundamental das partes.
Regras contratuais: resultantes do facto das partes terem decidido concluir pactos preparatórios –
perante pactos preparatórios, as partes ficam vinculadas.
Regras legais específicas
Regras legais gerais: o dever de proceder segundo as regras da boa fé – art., 227º/1 CC.
A descoberta de von Jhering: na presença de contratos nulos por anomalias ocorridas na sua formação,
podem ocorrer dados cujo não-ressarcimento seja injusto. Perante tal situação, o responsável, por via das
regras gerais sobre danos e culpa, deveria indemnizar pelo interesse contratual negativo, colocando o
prejudicado na situação em que ele se encontraria se nunca tivesse havido negociações e contrato nulo.
4. Assume o papel de assegurar, nos preliminares contratuais, o respeito pelos valores gerais da
ordem jurídica que, no caso considerado, aspirem a uma concretização:
Boa fé
a. Tutela da confiança: na fase de preparação dos contratos, as partes nam devem suscitar
situações de confiança que, depois, venham a frustrar;
b. Primazia da materialidade subjacente: a negociação emulativa, dilatória, chicaneira ou, a
qualquer outro titulo, estranha à autonomia privada é contraria à boa fé.
36
Teoria Geral do Direito Civil
5. Protecção da parte fraca – protecção do contratante débil: o contratante que, por razoes
económicas ou de conhecimento, se deva considerar inferiorizado, tem como que o dto, na fase
preliminar, a um esclarecimento e a uma lealdade acrescidos; quando os correspondentes deveres
não sejam acatados, há responsabilidade por inobservância da boa fé.
A violação in contrahendo, no Dto português , tem natureza obrigacional – art. 227º/1 CC comina
concretos deveres de protecção, de lealdade e de informação – existe um dever especifico de
cumprimento, sendo justo que, não se verificando este, ao devedor caiba explicar como e porque.
Prof. Menezes Cordeiro: A indemnização a arbitrar por culpa in contrahendo deve abranger tanto o
interesse negativo (despesas e perdas provocadas pelas negociações malogradas) como o interesse
positivo em causa (ganho que derivaria do contrato)
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#38
Actos preparatórios
Actos preparatórios: todos os actos que, inserindo-se pelo seu objectivo no processo de formação do
contrato, não possam reconduzir-se à proposta, à aceitação ou à rejeição.
c. Actos preparatórios típicos: definidos na lei (arts. 223º, 218º, 228º, 410º CC)
d. Actos preparatórios atípicos: estabelecidos pelas partes
Pacto de opção: uma das partes, se quiser celebrar contrato, aceita e a outra
parte sujeita-se;
Mediação: intervenção de terceiro, desinteressado – mediador – que promove
a aproximação de duas ou mais partes para a celebração do contrato;
Existência de concurso (para celebrar contrato) – art. 369º PNJ
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Concurso
37
Teoria Geral do Direito Civil
Concurso indicativo: tem como finalidade construir, apenas, uma fonte de informações para o autor do
concurso;
Concurso vinculativo: tem como finalidade o de se integrar efectivamente num processo tendente à
formação dum contrato
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#39
A declaração de Vontade
Acção: actuação de um ser humano; acto de comunicação – reveste-se de conteúdo jurídico – acto
de validade;
o Posição objectivista: a vontade é aquilo que é exteriorizado, o que é dito e,
consequentemente, o que é ouvido;
o Posição subjectivista: a vontade é aquilo que realmente se quer, o que se quis dizer, a
vontade psicológica.
Declaração expressa: quando feita por palavras, escrito ou por qualquer outro meio directo de manifestação
de vontade – art. 217º/1 CC
Declaração tácita: quando se deduza de factos que, com toda a probabilidade, a revelem – art. 234º CC
Declaração formal: tem forma solene (não pode ser tácita – art. 217º/2 CC)
Declaração consensual ou não formal: não tem forma solene
Silencio: ausência de comunicação – não é declaração. Só pode ser considerado declaração quando o
significado do silêncio foi combinado. art. 218º CC
38
Teoria Geral do Direito Civil
Em qualquer caso, a declaração é ineficaz quando seja recebida pelo destinatário em condições de, sem culpa
sua, não poder ser conhecida – relevância negativa da teoria do conhecimento – art. 224º/3 CC.
…………………………………………………………………………………………………………………...
#40
A formação dos contratos
Implicando duas ou mais declarações de vontade confluentes, o negócio contratual assenta num
processo formativo alongado: torna-se necessário procurar o ponto de consenso entre os celebrantes,
portadores, na normalidade dos casos, de interesses opostos, que cabe harmonizar.
Contrato entre presentes: não há, entre as declarações de vontade das partes, um intervalo de tempo
juridicamente relevante.
Contrato entre ausentes: as diversas declarações são separadas por intervalo de tempo donde emergem
consequências jurídicas.
***
PROPOSTA
Declaração feita por uma das partes e que, uma vez aceite pela outra ou pelas outras, dá lugar ao
aparecimento de um contrato – 3 requisitos essenciais:
Deve ser completa – deve abranger todos os pontos a integrar no futuro contrato – ex.: identificação
das partes, objecto a vender, o preço…
Deve ser firme – revelar uma intenção inequívoca de contratar
Deve revestir a forma requerida para o negócio em jogo.
No fundo, a proposta deve surgir de tal modo que uma simples declaração de concordância do seu
destinatário faça, dela, um contrato. Quando faltar um dos requisitos, está-se perante um convite a
contratar.
A proposta contratual faz nascer na esfera jurídica do destinatário o dto potestativo de aceitar ou contrato,
encontrando-se o proponente numa posição de sujeição.
Desaparecimento da proposta
Revogação: acto unilateral do proponente que suprime a proposta (se chegar ao destinatário antes ou
ao mesmo tempo que a proposta)
39
Teoria Geral do Direito Civil
Na própria proposta, o proponente declara que se reserva do dto de extinguir a proposta (desde que
anterior à aceitação)
Proposta extingue-se com a aceitação ou rejeição.
Oferta ao público: modalidade particular de proposta contratual, caracterizada por ser dirigida a uma
generalidade de pessoas.
40
TOMO II – COISAS
CAPITULO I
O Código civil
O CC logrou soluções originais. Aproxima-se do código alemão pela sistemática pandectística e pelo recurso
a “coisa”, e não a bens; conecta-se, todavia, com a linha napoleónica pela manutenção ao conceito amplo de
res.
Coisas ou Bens?
A designação tradicional, desde que se adoptou a língua portuguesa nos livros de Direito pátrio, retomada
pelos clássicos da pré-codificaçao, era a de “coisas”; referia-se, embora e por vezes com um sentido
semelhante a “bens”.
A doutrina, quando referia bens, citava as origens Romanas deste termo, acabando por fazer a
distinção correcta: o bem traduz a utilidade que a coisa pode proporcionar ao homem,
exprimindo as coisas efectivamente apropriadas.
No coração do Direito civil, as razoes estilístico-culturais apontam para “coisa”. “Bens” poderá ficar para as
áreas mais periféricas do Direito de família – “regime de bens”, art. 1717º e ss – e do Direito das sucessões –
“bens sujeitos à administração do cabeça de casal”, art. 2089º.
Nestas condições, o termo “coisa” é, tecnicamente, o mais adequado para traduzir a realidade em jogo nos
arts. 202º e ss.
Por razoes histórico-culturais e dogmáticas, o Direito português parte, neste domínio, da ideia de “coisa”;
não da de “bem”.
Pires de Lima propôs a definição hoje inserida no art. 202º – “Diz-se coisa tudo aquilo que pode ser objecto
de relações jurídicas.”
Prof. Menezes Cordeiro: tecnicamente inaproveitável: basta ver que as pessoas não são
coisas, podendo, não obstante, ser objecto das tais relações jurídicas, enquanto os direitos
reais, sendo absolutos, não implicam quaisquer relações jurídicas, embora, por definição, se
reportem a coisas.
A coisa não tem, necessariamente natureza económica: o Direito não admite que as pessoas
“monetarizem” ou “economizem” tudo aquilo em que toquem. Independentemente de tais
proibições, há coisas que, de facto, e nas condições reinantes, não têm teor económico.
Há coisas que não são bens, por não terem qualquer utilidade. E há bens que não são coisas, por
terem natureza humana.
Características que podem ser afastadas pela natureza que ponha fora do alcance humano a
coisa ou coisas consideradas ou pelo próprio Direito, que proíba operações jurídicas sobre
certas coisas.
A coisa é delimitada: a delimitação corresponde a uma ideia subjacente a coisa. Esta, quando
considerada enquanto tal, evoca sempre uma porção delimitada da realidade, mas com significado
social.
A coisa não tem que ser material (ex.: energia = coisa corpórea, não material.
……………………………………………………………………………………………………
Art. 203º CC trata-se de um preceito não exaustivo. O poprio art. 202º/2 subentende uma contraposição
entre coisas no comércio e fora do comércio, apesar de não a inserir na enumeração do art. 203º. Outras
classificações basilares, como a que separa as coisas corpóreas das incorpóreas foram esquecidas.
Coisas corpóreas: coisas que têm existência exterior, sendo perceptíveis pelos sentidos.
Coisas corpóreas
Correspondem, ainda a uma autonomização requerida pela natureza. Enquanto realidades exteriores
perceptíveis pelos sentidos, as coisas corpóreas sofrem, ou podem sofrer, a actuação humana directa
no sentido mais imediato de actuação física. O ser humano pode controlá-las, com ou sem base
jurídica, excluindo os seus semelhantes de fazer outrotanto. Em suma: as coisas corpóreas são
susceptíveis de posse.
São ainda coisas corpóreas os documentos e os suportes materiais que contenham obras do espírito:
o papel onde de exare o escrito, a película que conserve cenas, o disco compacto que preserve o som
ou as imagens e o suporte magnético que contenha o programa e a sua utilização.
Coisas incorpóreas
As coisas incorpóreas são criações do espírito humano. Elas podem ser comunicadas através da
linguagem e ser incorporadas em documentos.
…………………………………………………………………………………………………….
No art. 204º CC, pergunta-se se o problema da sua limitação dos moveis ficou resolvido – a
resposta será afirmativa, caso a enumeração em causa se possa considerar taxativa.
Problema: no art. 204º/1, “prédio” tem um sentido técnico que não esgota todas as parcelas fixas do
planeta – surgiriam, assim, “imóveis” não contemplados no art. 204º: os monumentos, as estradas e
as minas, os poços, os aquedutos, as pontes e os pelourinhos e as auto-estradas.
Prof. Menezes Cordeiro: perante a dificuldade, há que sustentar que o art. 204º não é taxativo.
Fundamentos:
o Leis avulsas consideram imóveis coisas que, de todo em modo, é impossível reconduzir ao
art. 204º;
Art. 204º/2 CC
o Prédio urbano – “ … qualquer edifício incorporado no solo com os terrenos que lhe sirvam
de logradouro.”
o Prédio rústico – “… uma parte delimitada do solo e as construções nele existentes que não
tenham autonomia económica.”
As duas definições parcelares daí resultantes não se articulam inteiramente. Na doutrina portuguesa
podemos apontar as seguintes teorias:
1. Teoria do valor o prédio com elementos das duas naturezas será rústico ou urbano consoante a
parcela que represente maior valor.
Prof. Menezes Cordeiro: esta teoria é um pouco “naïf”. A comunidade jurídica pode na
verdade, ver num prédio uma realidade rústica ou urbana.
Solução proposta pelo Prof. Menezes Cordeiro: temos que ficar pela definição do art. 204º/2 – há que tomar
a teoria da afectação económica em termos amplos – não se provando factos que permitam uma qualificação
como urbano, o prédio é considerado rústico – noção dogmaticamente operacional.
O prédio é uma porção delimitada da crosta terrestre (o prédio pressupõe uma delimitação artificial,
feita pelo homem, de acordo com regras jurídicas, através de linhas reais ou ideais de separação –
caso contrario, todo o planeta seria um único prédio.)
o No plano da superfície: o prédio abrange a área comportada pelas suas extremas, isto é, por
linhas reais ou idealmente traçadas no terreno.
o Quanto à altura e à profundidade: a atribuição, aos particulares, de acordo com os
respectivos prédios, dos inerentes espaços aéreos e subterrâneos, obriga o Estado e os
próprios particulares incumbidos de certas tarefas a, pelo menos, ter de recorrer a leis de
excepção e a indemnizações para privar os particulares de parte do seus prédios. Alem da
defesa dos cidadãos, esta solução tem a vantagem de obrigar à procura das melhores
soluções teóricas, para não incomodar as pessoas e prejudicar o ambiente.
Os prédios urbanos
São, fundamentalmente, edifícios ou casas. O art. 204º/2 exige a “incorporação” no solo: ficam
excluídos barracões, tendas ou construções elementares, meramente assentes no terreno (prédios que só
podem ser demolidos, não meramente removidos).
As águas
O art. 1385º distingue águas publicas e particulares;
As águas podem estar em movimento: assim sucederá na hipótese de um rio ou de um curso de agua.
Quando isso suceda, elas são havidas como imóveis, porquanto delimitadas pelo leito e pelas
margens do curso considerado.
As águas surgem como imóvel na medida em quem juridicamente, possam ser tratadas como coisas
autónomas. De outro modo, elas são partes componentes do prédio em que se integrem.
Partes integrantes
Art. 204º/3 – “Toda a coisa móvel ligada materialmente ao prédio com carácter de permanência.” –
As partes integrantes não têm autonomia: elas inserem-se no imóvel a que pertencem.
O Regime
Uma vez que os móveis constituem a categoria genérica donde, por força da lei, sobressaem os
imóveis, o regime destes últimos é apontado como especialidade.
Consequências: é um lugar comum a afirmação de um crescente valor dos móveis, em detrimento dos
imóveis.
Não obstante, os imóveis, embora batidos como riqueza absoluta, mantêm, pela natureza das coisas,
um elevado valor. Alem disso, eles correspondem a uma evidente realidade física e sociológica, dotada de
características inconfundíveis e à qual o Direito não pode deixar de dispensar um tratamento diferenciado.
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§ 11.º Os Móveis
Nos termos do art. 205º/1, a categoria das coisas móveis é residual: abrange todas as coisas que o
Direito não considera imóveis. Em especial:
o Os objectos materiais
o A energia
o Os móveis sujeitos a matricula e registo
o Coisas representativas
Os bens intelectuais são coisas incorpóreas, ficando fora da contraposição entre moveis e imóveis;
esta abrange apenas o universo das coisas corpóreas.
No entanto, na medida em que se deve fazer apelo Às regras gerais sobre as coisas, para
reger os bens intelectuais, relevam as relativas às coisas móveis: elas congregam as normas mais
gerais relativas aos objectos das situações jurídicas.
Móveis sujeitos a matricula e a registo: em principio, os móveis, mesmo os de menor valor, são
reconhecíveis pelos seus donos e pelas pessoas que os circundem. Porém, certos móveis, em função
do seu valor económico, de razoes de polícia ou da facilidade com que mudam de localização,
requerem um esquema público de identificação. Isso consequente através da aposição duma
matricula e da sujeição do móvel a um registo público. Estão em causa, fundamentalmente, os
automóveis, os navios e as aeronaves.
A energia: a energia não é uma mera criação do espírito humano. Não sendo um “objecto”, a
energia tem existência objectiva. Ela tende hoje a ser considerada como uma coisa corpórea móvel,
tanto pela doutrina como pela jurisprudência.
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O CC português também diferente do BGB por não limitar esta distinção às coisas móveis – podem
as partes ter interesses atendíveis em considerar fungíveis determinados imóveis.
Contrato de mutuo: diz respeito a coisas fungíveis – art. 1142º - o beneficiário terá de restituir coisa
equivalente
Contrato de comodato – pressupõe coisas não fungíveis – art. 1129º - reporta-se à coisa emprestada.
Art. 208º - As coisas consumíveis são “aquelas cujo uso regular importa a sua destruição
ou a sua alienação” – conceito jurídico, não naturalístico.
Consumidor: elo final do circuito económico. Pode ser consumidor de coisas consumíveis e
de coisas não consumíveis.
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Coisas divisíveis: art. 209º - coisas que podem ser fraccionadas sem alteração da sua substancia,
diminuição de valor ou prejuízo para o uso a que se destinam – clara dominância do segundo
critério: sem diminuição do seu valor
Tal critério não pode ser hipertrofiado: há muitas situações nas quais coisas
perfeitamente divisíveis vêm alterar o valor das parcelas com a separação: a soma
dos valores só por coincidência corresponderá ao valor global inicial – há que apelar
para a concreta situação considerada de modo a formular uma definitiva opção de
divisibilidade. As qualidades da coisa que permitem a divisibilidade devem ser
aferidas no momento em que se ponha o problema – haverão coisas que poderão ser
divisíveis no futuro, mas não o são ainda, no presente.
Coisas futuras
o Coisas objectiva ou absolutamente futuras: coisas que não existem, ainda na facticidade, mas
que se espera que venham a surgir.
o Coisas subjectiva ou relativamente futuras: coisas que já existem, mas que não se encontram
no património do disponente.
O Direito admite negócios relativos a coisas futuras, nessa altura, eles só produzem efeitos quando a
coisa seja adquirida pelo alienante – art. 408º/2.
Os negócios sobre coisas alheias podem ser havidos como sobre coisas futuras – art. 893º.
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As coisas acessórias não se apresentam como meras partes integrantes; por isso, elas são objecto de
direitos autónomos
Art. 210º/2 – “Os negócios jurídicos que têm por objecto a coisa principal não abrangem, salvo
declaração em contrario, as coisas acessórias.”
Prof. Menezes Cordeiro: trata-se de um erro histórico – desde o Dto romano, passando pelo Dto
intermédio, pelos Dtos francês e italiano e pelo Dto português clássico que a autonomização de coisas
acessórias e/ou pertenças sempre teve o sentido útil de aplicar, ainda que de modo mais ou menos
matizado, ao acessório, o regime do principal.
Na normalidade da vida social, o negócio relativo à coisa principal deveria abranger as acessórias ou,
pelo menos, aquelas que, de imediato, por todos são reconhecidos como tais.
Solução: o art. 210º/2 deve ser afeiçoado ao sistema. Perante problemas concretos, nunca nenhuma
regra de aplica sozinha: funciona, sim, o ordenamento no seu todo.
Não nos parece viável estabelecer uma diferença de regime entre coisas acessórias e pertenças: há
uma equiparação de regimes.
Frutos
Fruto – art. 212º/1 – é o que a coisa produza periodicamente, sem prejuízo da sua substância;
o Naturais – provêm directamente da coisa
o Civis – correspondem a “rendas ou interesses” que a coisa produza “em consequência duma
relação jurídica” – art. 212º/2.
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CAPITULO IV
Doutrina de Paulo Cunha o património traduziria um conjunto de bens ou de relações jurídicas com
carácter pecuniário, tendo entre si qualquer coisa de comum que dê, a essa pluralidade, uma coesão.
Os princípios da constância e da inerência do património seriam infundados: traduziriam, no fundo, a
ideia de capacidade, não a de património.
Paulo Cunha vem apresentar o património como um conjunto de bens unificado por uma identidade
de regime jurídico quanto à responsabilidade por dívidas – património = massas de responsabilidade.
Prof. Menezes Cordeiro: alarga a doutrina de Paulo Cunha – património é um conjunto de posições
activas patrimoniais, unificada em função de um determinado ponto de vista – conjunto de bens que têm
o mesmo tratamento jurídico unitário que advém da responsabilidade por dívidas ou por outras regras.
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CAPITULO V – OS ANIMAIS
Na tradição romana, o animal era considerado coisa. Um juízo semelhante era, na época, feito em
relação ao escravo.
Não existe na lei civil qualquer norma especificamente destinada a protegê-los, com a excepção dos
interesses do dono do animal.
A protecção dos animais constitui, já hoje, um valor estruturante das modernas sociedades pós-
industriais, quer a nível interno, quer a nível internacional.
Mas não sendo coisas, como classificá-los? Não se vislumbra qualquer intenção legislativa de os
equiparar Às pessoas: em sentido jurídico, só o ser racional pode ser destinatário de deveres – e,
logo, de direitos. A exacta qualificação dos animais ficou, pois, em aberto, sendo apenas seguro eu
desfrutam de protecção.
Embora objectos de direitos, os animais têm uma protecção que faz deles “coisas” cada vez mais
diferenciadas.
Prof. Menezes Cordeiro: pode-se falar numa deontologia jurificada. A tutela dos animais integra,
pois, plenamente, a cláusula dos bons costumes e, por essa via, o coração do Direito civil.
Direitos de personalidade: exprimem posições jurídicas protegidas pelo Direito objectivo com a
particularidade de se reportarem, directamente, à própria pessoa tutelada. Traduzem direitos virados
para o titular que deles beneficia (realidades como a vida, a integridade física e moral, o bom nome,
a honra e a privacidade do próprio sujeito).
Resposta de ordem histórica: a pessoa, em Direito, mormente por via da extensão feita às pessoas colectivas,
assume uma dimensão artificial, tornando-se insuficiente para protagonizar a competente tutela. O direito
subjectivo constitui o esquema historicamente mais conseguido para prosseguir tutelas normativas
Pessoa e direito subjectivo = conceitos exteriores aos direitos de personalidade, mas que os influenciam no
seu surgimento e configuração.
Evolução
Direito Romano – Iniuria – traduzia ofensas corporais ligeiras conceito foi progressivamente sendo
ampliado – as grandes compilações (sec. VI), justamente pela sua natureza, acabaram por, lado a lado,
consignar sentidos diversos para a iniuria: delitos em geral, a ilicitude e a própria “culpa”.
Nas Institutiones de Justiniano (séc. VI) pode-se encontrar uma noção mais lata, mais precisa, de iniuria =
prevaricações contra as pessoas.
Apenas muito mais tarde surgiria a figura do direito subjectivo; todavia, a tutela da personalidade estava já
consignada no Direito romano. O Direito – particularmente o civil – existe para defender as pessoas, sendo
sintomático que, desde cedo, os hoje ditos bens de personalidade tivessem obtido protecção.
Jusracionalismo – 2ª sistemática – o seu esforço está na origem dos direitos inatos ou essenciais,
preexistentes ao próprio Estado e que se imporiam a este.
Nesta evolução, os direitos de personalidade traduziriam figuras derivadas de postulados jus
naturalistas, assentes no desenvolvimento da ideia de pessoa – vocação para se opor ou deter o Estado.
Pandectística – 3ª sistemática
1
O progressivo esforço dogmático da “periferia” da personalidade permitiu o esforço de abstracção
necessário para se alcançar a ideia de “bem de personalidade”, base de qualquer dogmática coerente
de direitos de personalidade.
Autores como Regelsberger e Otto von Gierke reportam-se aos direitos de personalidade como
direitos subjectivos privados e não patrimoniais.
Experiência francesa
A lei francesa só se reportaria aos direitos de personalidade a partir dos anos 70, séc. XX.
Ex.:
lei 70- 643, de 17 de Julho de 1970 – proclamação do principio do respeito pela vida privada das
pessoas;
lei 78-17, de 6 de Janeiro de 1978, relativa à protecção perante a informática;
lei 94-653, de 29 de Julho de 1994 – direito ao respeito do ser humano e do seu corpo.
Experiência alemã
BGB apesar de aprontado numa altura em que os direitos de personalidade já eram conhecidos, não lhes
deu consagração expressa. Fazia apenas uma referência ao direito ao nome.
Apesar da coerência legislativa, os direitos de personalidade foram largamente desenvolvidos,
especialmente pós-1945, pela doutrina alemã – surto de desenvolvimento de direitos fundamentais e de
personalidade.
A doutrina defende esse direito geral, definindo-o como “o direito subjectivo absoluto à
manutenção, inviolabilidade, dignidade, reconhecimento e livre desenvolvimento da individualidade das
pessoas.” – funcionava como complemento dos direitos fundamentais inseridos na Constituição = direito-
quadro.
…………………………………………………………………………………………………………………...
Liberalismo: recepção das Constituições portuguesas dos enunciados relativos aos direitos do
Homem, de inspiração francesa.
Código de Seabra: continha um título relativo a direitos originários – arts. 359º a 368º direitos de
existência, de liberdade, de associação, de apropriação e de defesa.
Autores como Alexandre Herculano, Dias Ferreira, Abel de Andrade, consideravam estas disposições como
sendo inúteis.
Alexandre Herculano disposições inúteis, que apenas teriam cabimento nas constituições
politicas, em épocas nas quais os direitos naturais do Homem não eram devidamente reconhecidos e
respeitados.
2
Séc. XX – primeiros contactos com a categoria pandectistica dos direitos de personalidade – a doutrina
dividiu-se:
Autores como Guilherme Moreira, José Tavares, Cabral Moncada recusaram a figura
dos direitos de personalidade.
Cunha Gonçalves, Manuel de Andrade, Paulo Cunha e Pires de lima/Antunes Varela
vieram aceitá-la.
O Código Civil
Manuel de Andrade – anteprojecto com inspiração no Código Civil italiano, de 1942;
1967 – Código civil português – “frieza” na recepção da temática dos direitos de personalidade – art. 70º =
formula muito vaga.
Prof. Jorge Miranda, Gomes Canotilho = maiores contribuições para o desenvolvimento dos direitos
fundamentais.
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Desenvolvimento de conceitos
3
2. Direito subjectivo: o direito de personalidade é um espaço de liberdade concedido ao sujeito: ou
não seria direito.
Teoricamente, ou não teríamos um direito subjectivo, o direito de personalidade implica uma norma
permissiva.
A permissão facultada pelo direito de personalidade é específica: não genérica. Excluímos do âmbito
de estudo as liberdades, ainda que fundamentais: liberdade de expressão não é um direito de
personalidade, por envolver mera permissão genérica; já o direito a uma determinada carta – à sua
confidencialidade – é um direito de personalidade: a permissão é específica.
Prof. Menezes Cordeiro: defende que não há necessidade de recorrer a esta figura: o art. 70º,
enquanto regra geral de protecção, dá azo aos direitos de personalidade que correspondem aos bens
necessariamente existentes. Extrapolar para um “direito geral” seria extrapolar para um direito cujo
objecto seria indefinido, não se enquadrando na natureza específica que sempre acompanha qualquer
direito subjectivo.
O art. 70º dispensa uma tutela geral, podendo dar azo a diversos direitos subjectivos de
personalidade, sem sentido próprio.
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Os direitos do Homem: traduzem prerrogativas próprias de cada ser humano, que se prendem com a
dignidade da pessoa.
Os direitos do Homem desenvolveram-se como um esquema destinado a conter o Estado, evitando a
intromissão deste na vida e nos interesses das pessoas.
Internacionalização: passaram a constar de declarações universais, acordados entre os Estados, atingindo a
universalização.
Direitos fundamentais: correspondem à juspositivação, nas ordens internas do tipo continental, dos direitos
do Homem.
Direitos fundamentais privados: regras materialmente civis ou privadas – regras que, embora
constitucionalizadas, se podem considerar como de Direito privado, através de critérios histórico-
sistemáticos.
≠
Direitos fundamentais públicos: regras administrativas, pessoais ou processuais (ex.: arts. 20º,21º,28º e 33º
CRP)
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4
§ 7.º Características dos direitos de personalidade
1. A Absolutidade – 3 acepções:
2. A natureza não-patrimonial – Prof. Menezes Cordeiro: há que considerar que alguns direitos de
personalidade têm componentes comerciais (ex.: direito à imagem de uma modelo).
…………………………………………………………………………………………………………………...
Direitos necessários: estão presentes, desde que exista uma pessoa singular (ex.: direito à vida, direito à
integridade física e direito à integridade moral).
≠
Direitos eventuais: dependem da existência dos respectivos bens de personalidade (ex.: direito ao nome
depende do facto de já ter sido atribuído um nome à pessoa).
5
Direitos limitáveis: retratam direitos que, em certas condições, admitem limitações (ex.: direito à imagem)
≠
Direitos não limitáveis (ex.: direito à vida)
Direitos patrimoniais: facultam ou podem facultar ao seu titular, vantagens de tipo económico.
≠
Direitos não patrimoniais
Direitos nominados: são referidos na lei. Normalmente típicos – têm regime consignado na lei.
≠
Direitos inominados: tendencialmente atípicos.
Direitos típicos
≠
Direitos atípicos
Nota: este universo de direitos de personalidade não é específico das pessoas singulares; é também
pertinente quanto às pessoas colectivas. No entanto, só caso a caso se poderá concluir acerca da pertinência
de determinado direito de personalidade em especial, quanto às pessoas colectivas.
- Esta solução até é “conveniente” – pessoas colectivas são verdadeiros entes no mundo do Direito e muitas
vezes, através da tutela das pessoas colectivas se consegue a tutela das pessoas singulares nelas integradas.
***
Regime geral
1. Negociabilidade limitada: é possível haver negócios relativos a direitos de personalidade, mas com
limitações – justificadas pela não.-patrimonialidade de vários deles e pela inerência de todos.
Limitações:
i. Consubstanciadas na Ordem Pública (conjunto de princípios injuntivos do sistema
jurídico português) – art. 81º;
ii. Consubstanciadas pelos Bons Costumes – conteúdo do negócio jurídico sobre
direitos de personalidade tem de ser definido evitando limitações-surpresa para o
titular do direito de personalidade – art. 280º;
iii. Carácter temporário – art. 81º/2.
6
3. Ressarcibilidade dos danos presentes na violação de um direito de personalidade
No passado, os direitos de personalidade não acarretavam direito de indemnizar. Ainda hoje,
socialmente, se associa a indemnização de danos não patrimoniais como algo de “chocante”
– ideia de trocar vidas, integridade física, bom-nome, por dinheiro.
Argumentos
Se estes são mais graves, para o lesado, do que os danos patrimoniais, estranho é
que estes sejam indemnizáveis e outros não;
A responsabilidade civil tem um papel punitivo: visa ressarcir o mal feito e
desincentivar, quer junto do agente, quer junto de outros elementos da
comunidade, a repetição das práticas prevaricadoras.
Prof. Menezes Cordeiro: defende que a bitola de indemnização por violação de direitos de personalidade
esta extremamente baixa e que deve ser feito um esforço para que esta seja aumentada.
Tese da Responsabilidade Civil Punitiva – “Punity Damages” – Em Portugal vai-se admitindo este
instituto, mas é difícil encontrar regime que o justifique – a lei admite que, por vezes, a indemnização pode
ficar aquém do dano; não quer dizer que permite que a indemnização possa exceder o dano.
Os direitos de personalidade reportam-se a bens que, muitas vezes, se interpenetram. Daí resultam, com
frequência conflitos de direitos: seja de personalidade entre si, seja de direitos de personalidade com direitos
de diversa natureza. A jurisprudência tem resolvido tais conflitos com recurso ao dispositivo do art. 335º –
colisão de direitos.
Tutela penal princípio da tipicidade: a lei tipifica como crimes as violações marcantes aos mais
ponderosos direitos de personalidade. Os bens tutelados penalmente são-no, também, no plano civil; já os
tutelados civilmente poderão sê-lo ou não pelo direito penal, de acordo com a política criminal que haja
logrado consagração na lei.
7
Direito à imagem;
Direito à intimidade.
Direito à vida: assegura a preservação das funções vitais do organismo biológico humano – art. 70º/1
(implicitamente).
Um atentado à integridade desse organismo ou qualquer outro esquema que provoque sofrimento
físico, mas que não ponha em causa imediata a sobrevivência, atingira outros direitos de personalidade, não o
direito à vida.
O regime do direito à vida não admite compressão. O direito civil não aceita a supressão de uma vida
humana: nunca, definitivamente e em caso algum, salvo quando o conflito seja entre um direito à
vida e outros direitos à vida.
O direito à vida é indisponível: o seu titular não pode aliena-lo ou, de modo directo, necessário ou
eventual, proceder, de propósito, à sua supressão, pedindo a morte ou praticando suicídio.
O auxilio ao suicídio é civilmente ilícito, sendo nulos todos os actos que ele envolva.
Quando o próprio, sem auxílio, perpetrar suicídio, actuou ilicitamente já que dispôs de um direito
indisponível. O direito civil nada pode fazer: não se pode sancionar um falecido.
Tentativa de suicídio: todos os danos colaterais, incluindo tratamentos médicos e outras despesas,
caberão ao suicida tentado.
Duelo: o titular não pode por a vida na dependência de factos futuros e incertos: seria como que
condicioná-la. O duelo é assim ilícito.
Comportamentos de risco: são ilícitas todas as práticas de risco (ex.: roleta russa). É ilícito atentar
contra a vida humana, ainda que própria, submetendo-a a riscos que, sem necessidade, ultrapassam a
área normal e razoável. A ilicitude mais de acentua quando tais praticas ponham em causa a vida de
terceiros ou quando incitem os jovens a imitá-las.
1. Argumento ético: a inteligência é uma forma de vida, há que incentivá-la e preservá-la. Não o fazer
equivale à autonegaçao;
2. Argumento social: todo o direito existe pelo Homem e para o Homem. A ordenação normativa vida
o funcionamento da sociedade, assentando na salvaguarda e na contribuição de todos os seus
membros – supressão de uma pessoa = acto gravemente anti-social que põe em causa os
fundamentos da organização humana.
3. Argumento cultural: Portugal foi dos primeiros países a suprimir a pena de morte em 1867.
pertence à sensibilidade profunda do Direito português e ao sentir da nossa gente, a ideia de
inviolabilidade da vida humana.
4. Argumento técnico-jurídico: a exigência do sistema e da sua harmonia interna. Poder dispõe da
vida não joga com a coerência do sistema.
8
Eutanásia: pretende justificar a supressão da vida de uma pessoa como modo de suprimir o seu
sofrimento.
Não é admissível pelo Direito civil – havendo eutanásia, estaremos perante um ilícito civil: os seus
autores deverão suportar todos os danos, incluindo o da supressão da vida, nos termos legais.
O direito à integridade física: assegura a protecção do ser biológico e das suas diversas funções, nos
casos em que não esteja em causa a sua imediata sobrevivência.
Honra:
Honra social ou exterior: conjunto de apreciações valorativas ou de respeito e deferência de que cada
um desfruta na sociedade;
Honra pessoal ou interior: auto-estima ou imagem que cada um faz das suas própria qualidade
Tudo isto dá corpo à integridade moral – art. 70º/1 – Honra em sentido objectivo.
Tem-se por justificado o atentado à honra quando o agente logre provar a veracidade do que afirmou ou,
até e porventura, provar que pôs, na averiguação do facto, todo o cuidado necessário e exigível?
Jurisprudência: defende quem para efeitos do art, 484º, não é necessário que os factos imputados sejam
verídicos. A lei não exige como pressuposto de funcionamento deste artigo, a falsidade de quaisquer
afirmação; limita-se a remeter, ainda que implicitamente, para os direitos de personalidade.
Prof. Menezes Cordeiro: a afirmação totalmente verdadeira pode atentar contra a honra das pessoas. Nem
tudo o que se faz tem de ser revelado. A afirmação falsa, tendenciosa ou incompleta é particularmente
indicada para atingir a honra. Todavia, a afirmação verdadeira também pode sê-lo: a exceptio veritatis, só por
si, não é justificativa.
O conflito com a liberdade de infirmação: direito prevalece sobre a liberdade genérica – o que é especial
prevalece sobre o geral.
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Em Portugal não há problema de falta de informação. O civilista tem de se preocupar é com o que
está em falta. O que há em Portugal são problemas de protecção da esfera das pessoas.
A ofensa à honra dá origem a indemnizações, determinado tanto danos patrimoniais como não
patrimoniais. A indemnização deve ser suficientemente pesada, para exprimir a reprovação do
Direito e ter efeitos no futuro.
A tutela indemnizatória prevista no art. 484º é insuficiente. Em regra, mais importante do que a
compensação monetária é a reposição da verdade ou a reparação da ofensa feita.
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O direito ao nome
O nome da pessoa é formalmente fixado no registo de nascimento. A partir daí qualquer alteração
exige requisitos muito especiais, previstos na lei.
ARTIGO 103º
(Composição do nome)
2 - O nome completo deve compor-se, no máximo, de seis vocábulos gramaticais, simples ou compostos,
dos quais só dois podem corresponder ao nome próprio e quatro a apelidos, devendo observar-se, na sua
composição, as regras seguintes:
a) Os nomes próprios devem ser portugueses, de entre os constantes da onomástica nacional ou adaptados,
gráfica e foneticamente, à língua portuguesa, não devendo suscitar dúvidas sobre o sexo do registando;
b) São admitidos os nomes próprios estrangeiros sob a forma originária se o registando for estrangeiro,
houver nascido no estrangeiro ou tiver outra nacionalidade além da portuguesa;
4 - As dúvidas sobre a composição do nome são esclarecidas por despacho do director-geral dos Registos e
do Notariado, por intermédio da Conservatória dos Registos Centrais
Conteúdo do direito ao nome – art. 72º CC - o direito ao nome tem um conteúdo que se traduz nos
seguintes poderes ou pretensões:
O poder de usar o nome completo;
O poder de abreviar o nome;
O poder de usar o nome abreviado;
O poder de opor-se a que outrem o use ilicitamente, para a sua identificação ou outros fins;
O poder de, perante nomes total ou parcialmente idênticos, requerer ao tribunal providências
conciliatórias.
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Figura semelhante ao nome – art. 74º – Pseudónimo: é, etimologicamente, um nome não exacto. Todavia,
ele pode estar de tal modo ligado a uma pessoa, que passe a designá-la, em termos sociais. O formalismo
jurídico não pode ir tão longe que o ignore.
Prof. Menezes Cordeiro: o direito ao nome submete-se, em primeira linha, ao regime dos direitos
de personalidade, particularmente no tocante à defesa. O nome tem que ser apresentado como um
instituto autónomo, dotado de regras próprias, talhadas pela Historia, e envolvendo aspectos privados
e públicos.
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Cartas-Missivas confidenciais
Uma carta traduz-se num texto, exarado em papel e com um destinatário. Será confidencial quando
contenha matéria que não possa ser comunicada fora do círculo entre o remetente e o destinatário.
Em termos jurídicos temos:
o Um direito real de propriedade sobre a carta, que se transmite para o destinatário por doação,
assim que a carta seja fechada e endereçada ou quando, independentemente do endereço,
seja entregue em mão ao destinatário;
o Os direitos de autor, patrimonial e moral, sobre o texto da carta: pertencem ao autor, se da
própria carta outra solução não resultar; seguem o regime do Direito de autor;
o Os direitos de personalidade que tutelam bens íntimos eventualmente patentes na carta: são
do autor e seguem o regime do Direito de personalidade.
A confidencialidade
Teoria subjectivista: a natureza confidencial de uma carta resultará da vontade do seu autor, devidamente
declarada – teoria rejeitada: a protecção da personalidade aplica-se a bens de personalidade que o seja,
efectivamente; não está na disponibilidade das partes o criar bens de personalidade onde, por lei ou pela
natureza das coisas, eles não existam.
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Teoria do direito de personalidade: a confidencialidade resultará do próprio teor da carta, embora o seu autor,
dentro das regras do Direito de personalidade, possa interferir, em certos limites – teoria mista:
A confidencialidade é objectiva, resultando de lei especial, da boa fé ou de estar, em
causa, um bem de personalidade;
Apenas neste ultimo caso estaremos perante o regime dos arts. 75º e ss, regime que,
todavia, se poderá aplicar, por analogia, a outras situações;
A vontade do remetente releva na decisão de incluir, em carta, matéria de personalidade
que só a ele próprio diga respeito e no não abdicar da tutela de personalidade.
Verificados os pressupostos da confidencialidade, o destinatário deve guardar segredo e não pode pautar a
sua actuação pelo que tenha passado a saber. Caso viole estes deveres:
Incorre em responsabilidade civil por todos os danos patrimoniais que cause;
Idem, quanto aos danos morais;
Podendo ainda ser empreendidas diligências para fazer cessa o ilícito (apreensão da carta e a sua
destruição ou a sua entrega ao remetente; a publicação de complementos de informação que
+permitam situar a carta num contexto que minore o seu significado; a divulgação da ilicitude
cometida e da infidelidade do destinatário.
[Link] não confidenciais – art. 78º - o destinatário de carta-missiva não confidencial só pode
usar dela em termos que não contrariem a expectativa do autor surge uma relação de confiança. A
remessa de uma carta a uma pessoa é acompanhada pela ideia, socialmente consistente e que o Direito não
pode ignorar, de que se trata de assunto a não usar contra o próprio. É a relação de confiança, de base legal,
que o Direito, em nome da paz social, tutela de certa forma – regra de cavalheirismo.
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Direito à Imagem
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Direito à palavra a palavra humana também pode ser gravada e reproduzida. Ela tem características que
permitem reportá-la a uma determinada pessoa e, apenas, a ela. Dada a inexistência de uma tipicidade dos
direitos de personalidade, nenhuma dificuldade existe em extrapolar, com base no art. 70º ou, se necessário,
do art. 79º, por analogia, um direito à palavra.
O art. 79º/1 consagra a regra básica: o retrato de uma pessoa não pode ser exposto, reproduzido ou
lançado no comércio sem o consentimento dela. O direito é pós-eficaz: depois da morte da pessoa
retratada, a autorização compete e pela ordem nele indicada, Às pessoas referidas no art. 71º/2.
A autorização pode tomar corpo num contrato ou pode, simplesmente, surgir como um acto
unilateral.
Esfera pública: própria de políticos, actores, desportistas ou outras celebridades, ela implicaria uma
área de condutas propositadamente acessível ao público, independentemente de concretas
autorizações;
Esfera individual-social: reporta-se ao relacionamento social norma que as diversas pessoas
estabelecem com amigos, colegas e conhecidos; a reprodução de imagens seria aí possível, salvo
proibição, mas apenas para circular nesse mesmo meio;
Esfera privada: tem a ver com a vida privada comum da pessoa: apenas acessível ao circulo da
família ou dos amigos mais estreitos, equiparáveis a familiares;
Esfera secreta: abrange o âmbito que o próprio tenha decidido não revelar a ninguém; desde o
momento em que ele observe a discrição compatível com tal decisão, esta esfera tem absoluta tutela;
Esfera intima: reporta-se à vida sentimental ou familiar no sentido mais estrito (cônjuge e filhos);
tem uma tutela absoluta, independentemente de quaisquer decisões, nesse sentido, do titular
considerado; elas são dispensáveis.
Esferas privada, secreta e intima: nunca são acessíveis sem autorização. Além disso, só são
admissíveis autorizações na esfera privada: as esferas secreta e íntima deixariam de o ser se surgirem
autorizações de ingerência, o que nunca pode ser presumido.
Esferas publica e individual-social: permitem retratar sem autorização, consoante as circunstancias
e os objectivos, mas apenas para documentar o que se lá passa: não, por exemplo, para obter imagens
para uma campanha publicitaria.
A lei excepciona, à autorização, os retratos tirados em lugares públicos, de factos de interesse geral o que
hajam decorrido publicamente. Nas “condições públicas” a lei presume que o interessado esta a agir no
âmbito das esferas pública ou individual-social ou está a autorizar retratos.
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O direito à reserva sobre a intimidade da vida privada
Bem em causa a concreta vida privada do sujeito. Em rigor, a vida abrangera tudo o que não seja publico
e profissional ou social
O regime vigente
Art. 80º/1 dever genérico de respeito da reserva quanto à intimidade da vida privada (violação –
responsabilidade aquiliana art. 483º)
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PESSOAS SINGULARES
O INICIO DA PERSONALIDADE
Direito à vida do nascituro não pode ceder perante outras circunstâncias? Todos os direitos podem se
estiverem em causa direitos equivalentes (ex.: saúde da mãe, direito da mãe.)
Possíveis argumentos:
Liberdade da mulher
Nascituro não tem direito a usar corpo da mãe
Pode o nascituro ser indemnizado por danos causados quando ainda era nascituro? Prof. Menezes
Cordeiro: tem dificuldade em reconhecer direitos ao nascituro para além do direito à vida: os restantes
direitos do nascituro dependem do seu nascimento.
Danos de ter nascido? Não existe quando a alternativa seria não estar vivo. Quando exista má prestação
médica, quem tem direito à indemnização são os pais (incumprimento de contrato de prestações
medicas.)
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O começo da personalidade
Art. 66º/1 – “Nascimento completo e com vida” – a partir do momento em que haja exposição da criança ao
exterior.
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O art. 66º/2 admite direitos reconhecidos, por lei aos nascituros (em sentido amplo) – referências expressas
no CC: arts. 952º, 1855º, 1878º, 2033º, 2240º
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Estado e registo
Estados das pessoas qualidades ou prerrogativas que impliquem ou que condicionem uma massa
predeterminada de situações jurídicas; factos ou situações fácticas que acarretem moldes, conjuntos grandes
de situações jurídicas (direitos e deveres).
Estados globais: quando condicionem uma generalidade de posições de uma pessoa (ex.: estado
civil);
Estados parcelares: se se reportarem a determinada faceta da pessoa em causa (ex.: estado
profissional).
Estados:
Quando à nacionalidade: nacional, estrangeiros apátrida e plurinacional;
Quando à família: parente ou estranho; solteiro, casado, viúvo ou divorciado; pai, mãe, filho ou
adoptado;
Quando à posição sucessória: herdeiro ou legatário;
Quando ao sexo: masculino ou feminino;
Quando à idade: nascido ou nascituro e menor ou maior;
Quando à deficiência: comum, interdito ou inabilitado;
Quanto à situação patrimonial: comum ou insolvente.
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Registo Civil
Papel do registo civil: vantagem de dispor de um serviço público que contenha os elementos relativos à
identidade das pessoas e que, a propósito de cada uma delas, permita conhecer e comprovar os estados em
que se encontrem.
Principio da tipicidade: apenas estão sujeitos ao registo civil os actos legalmente referenciados com
esse fito.
Principio da obrigatoriedade: o registo dos factos a ele sujeitos constitui um dever de certas
pessoas.
Principio da compleitude: determina que os diversos assentos ou averbamentos reportados à
mesma pessoa disponham de quotas de referência que permitam conhecer, em permanência, os
efectivos estados civis do visado.
Principio da oficiosidade supletiva: implica que, havendo omissão ou incorrecção do registo, as
mesmas sejam supridas pelo próprio conservador.
Principio da autenticidade: conduz a que do registo apenas devam resultar factos efectivamente
ocorridos.
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Principio da legalidade: decorre da inclusão dos órgãos do registo na Administração Pública.
Consequência directa deste princípio é, aqui, a ausência de discricionariedade: a lei do registo civil
deve ser aplicada como resulta da sua interpretação.
Principio da responsabilidade: o incumprimento, pelos agentes do registo, dos deveres resultantes
do Código obriga-os a responder pelos danos a que derem causa.
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A Identidade
A identidade de uma pessoa singular é o conjunto dos elementos que permitem diferenciá-la dos
seus semelhantes.
A identificação civil e a emissão do bilhete de identidade são hoje reguladas pela lei n.º 33/99, de 18
de Maio.
O BI visa comprovar a identidade civil do seu titular. A identidade é estabelecida pela identificação
civil, a qual tem por objecto a recolha, tratamento, e conservação dos dados pessoais
individualizadores de cada cidadão.
Princípios da identificação civil: legalidade, autenticidade, veracidade, univocidade (n ambiguidade
dos dados) e segurança dos dados.
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O domicilio
O CC não define domicílio. Limita-se, nos seus arts. 82º e ss, a indicar diversos domicílios. Não
obstante, podemos inferir dessas indicações que o domicilio é um lugar no qual, juridicamente e para
diversos efeitos, é suposto encontrar-se determinada pessoa.
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Residência: exprime o lugar onde determinada pessoa habitualmente viva, aí
organizando a sua vida. Também a residência é uma noção de facto; assim se opõe ao
domicílio, noção jurídica. Esta característica leva a que, regra geral, se peça às
pessoas, a indicação da residência; retirar daí o domicílio será, depois, uma tarefa de
aplicação do Dto.
Domicílios civis:
o Quanto á escolha
Domicilio voluntário: dependente da opção do sujeito;
Domicilio legal: correspondente a uma estatuição da lei.
Estas distinções podem intercruzar-se: teremos domicílios gerais voluntários e legais e domicílios especiais
também voluntários e legais.
Complementando os critérios do art. 82º/1 e 2, pode-se avançar que o domicílio vai, sucessivamente,
corresponder aos seguintes factores:
o À residência permanente: quando o sujeito se encontre, sem interrupção, num determinado
local;
o À residência habitual: quando, circulando por vários locais, ele tenha, todavia, um de
presença claramente predominante;
o A alguma das residências alternativas: na hipótese de ser esse o figurino habitacional do
sujeito;
o À residência ocasional: quando não seja possível apontar ao sujeito uma residência mais
estável;
o Ao paradeiro: na falta de outro critério.
Domicílio electivo – art. 84º – é permitido estipular domicílio particular para determinados negócios,
contanto que a estipulação seja reduzida a escrito.
Quando as partes façam uso desta possibilidade teremos domicílio voluntário e especial: deriva da libré
escolha dos interessados e vale, apenas, para determinados actos.
Domicílio profissional – art. 83º – o papel do domicílio profissional é reportado às relações referidas à
profissão em jogo. Trata-se de domicílio especial.
O domicílio profissional é voluntário ou necessário? O exercício de qualquer profissão é voluntário. A
escolha do local do exercício cabe, também e formalmente, ao interessado.
Domicílios legais – a lei fixa os domicílios das pessoas. Trata-se em regra de domicílios gerais.
o Domicilio legal dos menores e dos interditos – art. 85º
o Domicilio legal dos funcionários públicos – art. 87º
o Domicílio legal dos agentes diplomáticos portugueses – art. 88º
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Ausência e Morte Presumida
Curadoria Provisória
Art. 89º1 – Requisitos:
o Situação de ausência
o Que o ausente não tenha deixado representante legal ou voluntário
o Existência de património ao abandono
Curadoria Definitiva
Segue-se à fase da curadoria provisória. Ela é constituída por decisão do tribunal, denominada “justificação
da ausência”. Depende – art. 99º:
De terem corrido 2 anos sem se saber do ausente ou 5, quando tenha deixado
representante legal ou voluntário bastante;
De o Ministério Público ou algum interessado (art. 100º) o terem requerido.
Morte Presumida
Surge como a última fase do processo de ausência. De todo o modo, ela não depende da prévia instalação das
curadoras provisória ou definitiva, podendo ser requerida directamente, desde que se verifiquem os requisitos
legais – art. 114º:
10 anos sobre a data das ultimas noticias ou 5 anos se, entretanto o ausente tiver completado 80 anos
de idade;
5 anos sobre a data da maioridade do ausente, se fosse vivo;
Requerimento dos interessados referidos no art. 100º
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A Menoridade
Pelo nascimento, a pessoa adquire uma capacidade de gozo tendencialmente plena – e isso sem prejuízo
da tutela pré-natal. Não pode, porém, agir pessoal e livremente: trata-se de uma incapacidade de exercício,
ditada pela natureza das coisas – Incapacidade automática dos menores – art. 123º
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Segundo o art. 128º, os menores carecem de capacidade para o exercício de direitos. Tratar-se-ia de uma
incapacidade geral de exercício, a suprir pelo poder paternal ou pela tutela – art. 124º. Apesar disso, o art.
127º estabelece termos tão amplos que inverte, de certo modo, o dispositivo legal, acabando por admitir uma
lata capacidade de tal modo que a “incapacidade” não é, em rigor, geral.
Situações para além das previstas no art. 127 perante as quais os menores têm capacidade de exercício –
exemplos: arts. 263º; 488º/2 a contrario; 1266º; 1601º/1 a contrario, 1886º a contrario; 616º/1 CPC…
Não se trata de verdadeiros desvios Às regras “gerais” de capacidade. Antes se verifica que o dispositivo
dos arts. 122º e ss, aparentemente relativo a incapacidades de âmbito genérico, só tem aplicação no domínio
do Direito das obrigações e, mesmo aí, no campo dos negócios mais significativos. As obrigações vão traçar
os limites da acção futura, obrigando a um planeamento. Para serem devidamente assumidas, requerem
experiência, amadurecimento e um mínimo de estabilidade.
O poder paternal
Art. 124º - A incapacidade dos menores é suprida pelo poder paternal e, subsidiariamente, pela tutela.
O poder paternal corresponde a um conjunto multifacetado de direitos e poderes funcionais, todos a exercer
no interesse dos filhos – art. 1878º/1.
Poder de representação – art. 1881º/1 – o grosso da representação legal tem a ver com a administração dos
bens dos filhos. Além disso, ela inclui-se na lógica global do poder paternal, como um todo.
Inibição ou limitação do poder paternal: a inibição opera automaticamente nas hipóteses do art. 1913º/1 e
pode ocorrer por acção específica a tanto destinada no caso do art. 1915º.
Tutela
A tutela é subsidiária em relação ao poder paternal – art. 124º.
O menor está, obrigatoriamente, sujeito a tutela nos casos do art. 1921º/1
Regime de administração de bens – meio destinado a suprir o poder paternal quando os pais estejam
excluídos de o fazer ou quando a entidade que designar tutor indique outra pessoa para o fazer – art. 1922º.
O tutor tem os direitos e as obrigações dos pais, com determinadas modificações e restrições – art. 1935º/1;
deve exercer o encargo com a diligência do bom pai de família.
Anulabilidade
- Os actos jurídicos praticados pelos menores são anuláveis. Os arts. 125º e 126º estabelecem um regime
especial de anulabilidade.
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- A anulabilidade em causa é estabelecida no interesse do menor. Por isso, ela só pode ser invocada pelo
próprio menor ou pelo representante – nunca pela contraparte.
Pelo próprio menor – art. 125º/1/b: no prazo de 1 ano a contar da maioridade ou da emancipação
Por qualquer herdeiro do menor, no prazo de 1 ano a contar da morte desde, desde que ocorrida antes
de expirado o prazo para o próprio menor a poder invocar – art. 125º/1/c
- O menor não pode invocar a anulabilidade quando tenha usado de dolo (art. 253º) para se fazer passar por
maior ou emancipado – art. 126º. Quando esta situação ocorra, os seus herdeiros também não poderão alegar
a anulabilidade.
Já nenhuma razão existe para que o representante legal do menor doloso não possa invocar a
anulabilidade, nos prazos que lhe competem.
No fundo os actos praticados pelos menores tendem para a validade. Apenas, em virtude da preocupação
que o Dto, como produto das sociedades humanas revela pelos jovens, se permite um esquema de certa
“impunidade”: se o negócio se revelar desfavorável, o menor (ou o seu representante) pode alijá-lo. Quem
contrate com um menor assume, pois, o risco do negócio.
A maioridade e a emancipação
A denominada “incapacidade” dos menores cessa quando atinjam a maioridade ou sejam emancipados,
salvas as restrições da lei.
- A incapacidade do menor cessa, também, pela emancipação. A pessoa emancipada conserva-se menor:
“menor emancipado”, conquanto que, em principio, com capacidade de exercício de direitos.
O casamento de menores requer a autorização dos pais que exerçam o poder paternal ou do tutor – art.
1612º/1. Casando, dá-se a emancipação (art. 132º) se, porem, o menor casar sem autorização ou sem o seu
suprimento, o casamento é válido: simplesmente “continua a ser considerado menor quanto à administração
de bens que leve para o casal ou que posteriormente lhe advenham por título gratuito até à maioridade” – art.
1649º.
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A Interdição e a Inabilitação
Interdição
Interdição ≠ Inabilitação
(arts. 138º-151º CC) (arts. 152-156º CC)
Elemento decisivo
a pedra de toque está na gravidade da deficiência e nas suas consequências. Em regra, a surdez-mudez e a
cegueira não conduzem, hoje em dia, à interdição, uma vez que não implicam, em regra, a incapacidade para
reger a sua pessoa e bens.
- art. 141º - legitimidade para requerer interdição (defesa do património e defesa da própria pessoa.
- art. 142º - providências provisórias
- art. 143º - indica a ordem por que a tutela é diferida. Prof. Menezes Cordeiro: aparentemente e dado o
corpo do artigo, esta ordenação é vinculativa para o tribunal: situação estranha, que entra em conflito
valorativo com as regras sobre a designação da tutela dos menores – art. 1931º/1. Afirma uma certa
descoordenação na revisão final do Código. De todo o modo, o art. 143º/2, ao permitir, ao juiz, por “razoes
ponderosas”, afastar-se da ordenação anterior, retira-lhe o cunho vinculativo.
- art. 145º - dever especial do tutor
Os actos do interdito
Art. 148º - São anuláveis os negócios jurídicos celebrados pelo interdito depois do registo da sentença
de interdição definitiva. No entanto, o art. 139º remete para a incapacidade dos menores. Assim, as
excepções que a lei contempla para os menores (art. 127º) são aplicáveis aos interditos? – Prof. Menezes
Cordeiro defende que sim. Dependendo do concreto estado do interdito, não há razão para não o admitir e a
celebrar negócios da vida corrente, que estejam ao seu alcance.
Seguindo esta lógica, deve entender-se que a anulabilidade dos actos do interdito equivale à
“anulabilidade especial” dos menores – art. 125º. Ela só pode ser invocada pelo representante legal do
interdito ou, teoricamente, pelo próprio interdito, no prazo de um ano contanto do levantamento da
interdição.
Inabilitação
- art. 152º/1ª parte – definição de inabilitação
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- A inabilitação não conduz a uma incapacidade geral: antes de reporta a determinados actos ou categorias de
actos. Por isso, a sentença que a decrete deve especificar os negócios que devam ser autorizados ou
praticados pelo curador (art. 153º).
- Na falta de autorização, os actos praticados pelo inabilitado são anuláveis – art. 148º ex vi art. 156º.
- O sistema de inabilitação é, todavia, especialmente flexível: ele permite que o juiz coloque a administração
do património do inabilitado, no todo ou em parte, sob o curador – art. 154º/1 – representação pelo curador.
A especial diferença entre a interdição e a inabilitação mantém-se, nessa altura, no domínio das situações
de natureza pessoa: o curador, ao contrário do tutor, não pode tomar quaisquer medidas no tocante ao
inabilitado, o qual se conserva livre, na esfera pessoal.
- A inabilitação é levantada quando cesse a causa que a determinou – art. 151º ex vi art. 156º.
No caso de inabilitação que advenha de prodigalidade ou abuso de bebidas alcoólicas ou de
estupefacientes: art. 155º
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O TERMO DA PERSONALIDADE
A Morte
- Diversos efeitos derivam da morte de uma pessoa: a morte opera, assim, como um facto jurídico em sentido
estrito morte natural: cessação das diversas funções vitais, seguindo-se a decomposição do organismo.
Lei m.º 141/99, de 28 de Agosto veio estabelecer os princípios em que se baseia a verificação da morte.
Art. 2º - A morte corresponde à cessação irreversível das funções do tronco cerebral.
Comoriência – art. 68º/2 CC - tem como efeito pratico o impedir quaisquer transmissões entre os falecidos
que ela envolva.
Morte declarada: segundo o art. 68º/3, tem-se por falecida a pessoa cujo cadáver não foi encontrado ou
reconhecido, quando o desaparecimento se tiver dado em circunstancias que não permitam duvidar da morte
dela. A morte terá de ser declarada por uma entidade judicial.
≠
Morte presumida – arts 114º e ss – o indicio da morte advem apenas de uma ausência prolongada e sem
noticias, do visado.
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As consequências da morte
- Podemos considerar a morte como um facto jurídico stricto sensu: um evento não humano – ou no qual a
vontade humana, a nível de eficácia, não é tratada como tal pelo Direito – a que o ordenamento associa
resultados jurídicos.
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A morte faz cessar os direitos pessoais do falecido, com especial relevância no âmbito do Direito da
família. Assim, o casamento dissolve-se por morte – art. 1788º - o que conduz à cessação das
relações patrimoniais e pessoais entre os cônjuges – art. 1688º.
Abertura das sucessões: arts. 2024º a 2334º.
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Prof. Capelo de Sousa Defendem que o art. 71º tutela direitos de pessoas já falecidas.
Prof. Diogo Leite Campos Fazem uma remissão para o art. 71º/2 não há lugar a
Prof. Oliveira Ascensão indemnização por responsabilidade civil, mas apenas providências.
Esta posição assenta em 2 pressupostos:
o de que está em jogo a personalidade do falecido, que já
nada pode compensar;
o de que o dinheiro é inadequado para resolver a situação.
Prof. Menezes Cordeiro: a tutela post mortem é, necessariamente, uma defesa dos vivos. Não se trata de
atribuir indemnizações ao falecido: antes, iure próprio, aos familiares legitimados para agir. Propende para
uma remissão, em bloco do art. 71º/2 para o art. 70º/2: as “providências adequadas” são sempre possíveis
“independentemente da responsabilidade civil a que haja lugar”.
Critérios para aferir da ofensa dos direitos de personalidade dos mortos – 4 teorias:
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inerente mágoa. A bitola de violação residirá no respeito concreto pela memória daquele morto, tal
como ele é sentido e sofrido pelos seus familiares sobrevivos.
Prof. Menezes Cordeiro: a base da construção da tutela post mortem será sempre constituída pela defesa in
abstracto, da memoria do falecido, mas ela terá de ser complementada com a ponderação in concreto da
situação efectivamente registada. Preconiza uma síntese das 3ª e 4ª teorias.
…………………………………………………………………………………………………………………
A PERSONALIDADE COLECTIVA
Prof. Menezes Cordeiro: em Direito, pessoa é um centro de imputação de normas jurídicas. A pessoa é
singular, quando esse centro corresponda a um ser humano; é colectiva em todos os outros casos.
Porque é que existe a pessoa colectiva? Nem tudo se reconduz à pessoa singular? O que interessa ao
Direito é a pessoa humana, mas frequentemente, para satisfazer necessidades dos seres humanos é preciso
abstrair-mo-nos deles. A pessoa colectiva é uma das formas de abstracção que melhor satisfaz necessidades
de pessoas singulares.
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Pessoas rudimentares
Prof. Paulo Cunha – propor que ao lado das pessoas colectivas propriamente ditas, haveria que apontar a
categoria das pessoas rudimentares. Tratar-se-ia de realidade a quem a lei recusaria a titularidade de
direitos civis, admitindo-lhes, todavia, direito processuais – tinham personalidade judiciária mas não tinha
personalidade jurídica. Esta figura pode ser generalizada a outras situações parcelares de personalidade
jurídica.
Às pessoas rudimentares podem aplicar-se regras próprias da personalidade colectiva. Mas apenas
aquelas que surjam, expressamente, com essa dimensão. Fora do que a lei preveja, a pessoa rudimentar é
substituída pelos titulares efectivos dos bens em presença. O modo colectivo deve ser apurado caso a caso.
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Personalidade económica – traduz a aptidão que determinadas entidades tenham de ser destinatárias de
regras de Direito da economia ou, mais latamente, de regras de Direito patrimonial.
Personalidades laboral – também no campo do trabalho aparecem entidades personalizadas, apenas, para
certos efeitos. As comissões de trabalhadores não podem deixar de ser consideradas como pessoas
colectivas. Como, todavia, as suas aptidões estão limitadas para regras estritamente laborais, poderemos
enquadra-las na ideia de pessoa rudimentar
Personalidade tributária – qualidade de se ser sujeito passivo da obrigação de importo, com todas as posições
instrumentais que isso implica.
Figuras afins
Quando o modo colectivo atinja toda a entidade considerada, teremos uma pessoa colectiva. Quando
ele apenas a atinja parcialmente, falaremos, na tradição de Paulo Cunha, em pessoa rudimentar. Mas
pode-se encontrar uma terceira categoria:
Situações em que o Direito trata, em conjunto, realidades atinentes a várias pessoas, sem todavia, nem total
nem parcialmente, o fazer como se de uma única se tratasse. Falaremos, então, em modo colectivo
imperfeito. E as entidades daí decorrentes constituirão figuras afins às pessoas colectivas.
Comunhão em mão comum: duas ou mais pessoas detêm um direito – ou um acervo de direitos – em
conjunto, podendo exercer actuações restritas enquanto membros do grupo. Não podem dispor da sua
“parcela” e não podem pedir a divisão da situação. Além disso, toda a sua actuação sobre a coisa passa pela
mediação do grupo.
Comunhão simples: duas ou mais pessoas são titulares de direitos sobre o mesmo objecto, direitos esses
representados por quotas. Embora haja direitos que só em conjunto podem ser usados, cada titular mantém
uma individualidade, podendo alienar a sua quota ou pedir a divisão da coisa.
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O Dto português vigente prevê numerosas categorias de associações (de estudantes, de pais, de
mulheres, etc) a que dispensa um tratamento diferenciado.
Pessoas colectivas nacionais e estrangeiras: são consideradas nacionais quando tenham a sua sede
principal e efectiva em território português – art. 33º/1 CC e art.3º/1 Código das Sociedades Comerciais.
Caso contrário, as pessoas colectivas são consideradas estrangeiras.
Pessoas colectivas internacionais: sempre que retirem a sua personalidade de fontes internacionais,
maxime, de tratados ou convenções internacionais.
Pessoas colectivas associativas: o substrato é constituído por uma agremiação de pessoas, que juntam os
seus esforços para um objectivo comum.
Pessoas colectivas fundacionais: o substrato redunda num valor ou num acervo de bens, que potenciará a
actuação da pessoa considerada.
Pessoas colectivas com e sem fins lucrativos quando os objectivos das pessoas colectivas se analise na
busca de lucros, a pessoa colectiva tem fins lucrativos e, tendo base associativa, surge como sociedade.
Quando não assuma tal fim lucrativo, será uma associação ou, não tendo natureza associativa, uma
fundação.
Prof. Menezes Cordeiro: o fim lucrativo ou não lucrativo não dita, de modo fatal, a posição assumida pela
pessoa colectiva em jogo. Isto não obsta a que, de facto, as associações tenham um perfil “solto”, perante o
das sociedades; aí, a busca oficializada de lucro leva a prever esquemas de fiscalização mais marcados e uma
tutela especial para minorias, que não é requerida nas associações.
Uma mesma pessoa colectiva poderá ser “comum” ou “especial”, consoante o ângulo por que seja abordada.
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Tipicidade: principio segundo o qual, as pessoas colectivas devem obededer a uma das formas – dos “tipos”
– previstas na lei. Os tipos legais de pessoas colectivas contêm aspectos fundamentais do ente considerado e,
designadamente:
Os órgãos essenciais;
O modo de representação;
O regime da responsabilidade por dívidas;
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Os elementos que devam constar dos estatutos.
A tipicidade aqui em causa não é fechada – não é obrigatório conter, de modo exaustivo, todos os
elementos atinentes ao tipo considerado. Terá, no entanto, de compor contornos mínimos, sob pena de
facultar às pessoas interessadas a constituição das mais díspares e inesperadas figuras.
Consequências práticas:
Existência de um numerus clausus de figuras relevantes
Impossibilidade de, por analogia, construir novos tipos de pessoas colectivas (não há lacuna).
Art. 1º/2 Código das Sociedades Comerciais: “… aquelas que tenham por objecto a prática de actos de
comércio e adoptem o tipo de sociedade em nome colectivo, de sociedade por quotas, de sociedade anónima,
de sociedade em comandita simples ou de sociedade em comandita por acções.” Sociedade comercial
pura.
Todavia, a entidade que adopte a forma de sociedade comercial, mas tenha, como objecto exclusivo,
a prática de actos não comerciais, rege-se igualmente pelo CSC sociedades civis sob forma
comercial.
Art. 2º/1 Código Cooperativo: “ As cooperativas são pessoas colectivas autónomas, de livre constituição, de
capital e de composição variáveis que, através da cooperação e entreajuda dos seus membros, com
obediência aos princípios cooperativos, visam, sem fins lucrativos, a satisfação das necessidades e
aspirações económicas, sociais ou culturais daqueles.”
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Fontes
- art. 46º CRP: livre constituição de sociedades = liberdade de associação é relevante para a satisfação de
necessidades colectivas - actividade económica.
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- art. 157º CC – aplica-se a todas as pessoas colectivas, incluindo sociedades – apesar disso, o regime em
causa é minimalista; frequentemente o regime a aplicar, mesmo fora das sociedades comerciais, é o regime
das sociedades comerciais.
Função subsidiária bi-direcional: CC é o regime subsidiário das Sociedades Comerciais; o regime das
Sociedades Comerciais é subsidiário do CC em matéria de pessoas colectivas.
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Elementos essenciais
Os elementos essenciais da pessoa colectiva são aqueles cuja presença é necessária para o seu
surgimento.
Acto de constituição – pressuposto pelos art. 158º/1, 158º-A, 161º/1; 168º/1; 185º/1 CC.
Como qualificá-lo?
Teoria da norma: via no acto constitutivo uma fonte autónoma e própria. Na
constituição de uma pessoa colectiva não haveria uma negociação na qual duas
partes procurem harmonizar os seus interesses, antes uma fixação de regras para o
futuro.
Teoria do contrato: vê, na constituição de uma associação, um contrato de
constituição, de tipo organizatório; na de uma fundação: um negocio (unilateral) de
tipo fundacional.
Associações
Elementos necessários – art. 167º/1 CC
o Bens ou serviços com que os associados concorram para o património social;
o Denominação;
o Fim;
o Forma do seu funcionamento;
o Duração, quando não se constitua por tempo indeterminado.
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Elementos eventuais – art. 167º/2 CC
o Direitos e deveres dos associados;
o Condições da sua admissão, saída e exclusão;
o Termos da extinção da pessoa colectiva e consequente devolução do seu património.
As regras relativas às fundações não pode deixar de ser completadas com recurso ao disposto sobre
as associações.
Sistematização de elementos
Elementos teleológico: fim da pessoa colectiva – tende a ser considerado o seu facto fundamental,
ditando a sua idoneidade, a sua capacidade em função do principio da especialidade, o eventual
reconhecimento de utilidade publica, o tipo de actuação requerido aos titulares dos seus órgãos e as
coordenadas de interpretação dos estatutos – arts. 167º/1 e 186º/1 CC.
Elemento voluntário? Não. Não é necessária especifica intenção de constituir uma pessoa
colectiva: se várias pessoas singulares praticam actos que criam uma pessoa colectiva nos termos da
lei, isto basta para se dar a sua criação
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Organização e funcionamento
Sede: ela deve ser fixada nos estatutos da pessoa colectiva. Na sua falta, ela será havida no local em que
funcione habitualmente a administração principal – art. 159º CC.
Órgãos: órgãos das pessoas colectivas são as estruturas de organização humana permanentes, que permitem
à pessoa colectiva autodeterminar-se, exercer os seus direitos e cumprir as suas obrigações.
Cumpre aos estatutos da pessoa colectiva determinar quais os seus órgãos e qual a sua composição –
arts. 162º, 167º/1 e 186º/2.
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Art. 162º - conteúdo mínimo obrigatório.
Art. 170º - Obrigatório uma assembleia geral de associados, no caso das associações.
Poder de gestão: poder de dirigir os assuntos próprios da pessoa colectiva, tomando todas as decisões
concretas necessárias e orientando a actividade para a prossecução dos fins da pessoa colectiva considerada.
Abrange a possibilidade de praticar actos materiais da mais diversa natureza, de dar instruções internas e de
praticar actos jurídicos, internos e externos.
Poder de representação: trata-se de uma representação orgânica, porquanto lhe advêm da simples pertença
ao órgão colectivo que esteja em causa.
Até onde vão os poderes de representação? As limitações introduzidas no poder de representação dos
administradores ou de qualquer representante ad hoc só são oponíveis a terceiros que as conheçam ou, numa
formula que retome o conteúdo ético da boa fé, sempre presente: são inoponiveis a terceiros de boa fé, ou
seja, a terceiros que, sem culpa, a desconheçam.
A fiscalização
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A Capacidade e a actuação
As pessoas têm capacidade jurídica: será a concreta medida de direitos e obrigações de que sejam
susceptíveis.
Quando às pessoas colectivas, uma orientação com certa tradição, entre nós, pretende que a sua
capacidade é limitada pelo principio da especialidade: ela apenas abrangeria os direitos e obrigações
necessários ou convenientes à prossecução dos seus fins, segundo a fórmula do art. 160º/1 CC.
Este principio não tem, hoje, alcance dogmático. O denominado princípio da especialidade não
restringe, hoje, a capacidade das pessoas colectivas: tal como emerge do art. 160º/1, ele diz-nos, no fundo,
que todos os direitos e obrigações são, salvo excepções abaixo referidas, acessíveis às pessoas colectivas.
Limitações legais: não há um problema de (in)capacidade, há sim uma proibição legal. Pode
acontecer que a pratica de determinado negócio se inscreva, perfeitamente, nas finalidade coerentes
de certa pessoa colectiva mas que, não obstante, o legislador proíba a sua celebração. Pode ainda
suceder que o legislador proíba um acto e, depois o venha a permitir e a proibir de novo: não se pode
considerar que a capacidade de gozo de certa sociedade se modificou, sucessivamente, ao abrigo de
alterações legislativas.
A violação destas limitações legais conduz à nulidade do acto por violação de lei expressa (art.
294º) ou por ilicitude (art. 280º/1).
Limitações estatutárias: podem os estatutos limitar, pela positiva, a actuação da pessoa colectiva a
que respeitem à prática de certos actos ou, pela negativa, vedar-lhe a prática de determinados actos.
Estas disposições estatutárias não limitam a capacidade de gozo da pessoa colectiva: são meras
regras de conduta internas. Elas adstringem os órgãos da pessoa colectiva a não praticar os actos
vedados, sem, contudo, limitarem a capacidade da sociedade.
A violação dos limites estatutários conduz à anulabilidade prevista nos arts. 177º e 178º
e com ressalva dos direitos de terceiros de boa fé.
Limitações deliberativas: limitações que deliberações internas da própria pessoa colectiva ponham
à pratica, por ela, de certos actos. O seu desrespeito responsabiliza o seu autor. Aplica-se o regime
das limitações estatutárias.
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Aquisição de Personalidade
Modos de aquisição:
Outorga do Estado: sistema que pressupõe uma actividade legislativa especifica e a obtenção de uma
pessoa colectiva que obedece a um ordenamento diferenciado.
Concessão estadual: opera num pano de fundo em que existe já um dto comum das pessoas
colectivas. Todavia, apenas um acto legislativo permite aceder a esse patamar.
Reconhecimento individual: pressupõe a aquisição por acto administrativo da entidade competente.
Reconhecimento automático ou normativo: postura do executivo de não intervir na constituição de
pessoas colectivas. Ele vem consagrar a liberdade de associação e a liberdade de iniciativa
económica, consoante se reporte a associações ou a sociedades.
Aquisição espontânea da personalidade jurídica: constituição de pessoas colectivas por pura
iniciativa dos particulares interessados.
Multiplicidade de actos de constituição as pessoas colectivas não se deixam surpreender pelas formas
da sua constituição. Trata-se de conjunções complexas de situações jurídicas, às quais se pode aceder por
diversas fontes, a matriz contratual impera nas sociedades. Nas restantes pessoas colectivas, haverá que ver,
caso a caso.
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1. Confusão das esferas jurídicas: verifica-se quando, por inobservância de certas regras societárias
ou, mesmo, por decorrências puramente objectivas, não fique clara, a separação entre o património
da sociedade e a do sócio ou sócios.
2. Subcapitalizaçao: sempre que uma sociedade tenha sido constituída com um capital insuficiente. A
insuficiente é aferida em função do seu próprio objecto ou da sua actuação surgindo, assim, como
tecnicamente abusiva.
a. Subcapitalização nominal: a sociedade considerada tem um capital formalmente insuficiente
para o objecto ou para os actos a que se destina. Todavia, ela pode acudir com capitais
alheios.
b. Subcapitalização material: há uma efectiva insuficiência de fundos próprios ou alheios.
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através de uma pessoa colectiva. O comportamento atenta contra a confiança legitima ou
defronta a regra da primazia da materialidade subjacente.
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As teorias do levantamento
Teoria subjectiva – SERICK – a autonomia da pessoa colectiva deveria ser afastada quando houvesse um
abuso da sua forma jurídica, com vista a fins não permitidos. O levantamento exigiria um abuso consciente
da pessoa colectiva, não bastando, em principio, a não obtenção do escopo objectivo de uma norma ou de um
negócio. – Esta teoria tem sido rejeitada.
Teoria objectiva – resulta, à partida, da rejeição de elementos subjectivos para fazer actuar o levantamento.
Abandonada a intenção, o levantamento exigiria a ponderação dos institutos em jogo. Quando, contra a
intencionalidade normativa, eles fossem afastados pela invocação da personalidade, esta deveria ser
levantada.
Teoria da aplicação das normas: haveria levantamento sempre que, por exigência de uma norma
concretamente prevalente, não tivesse aplicação uma norma própria da personalidade colectiva.
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Posição adoptada há muitas situações que podem ser reconduzidas a outros mecanismos que não o
levantamento – carácter subsidiário da figura do levantamento. Quando, concretamente, os valores
fundamentais do sistema jurídico exigem que haja levantamento, há levantamento
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A associação personalizada responde, com o seu património, pelas dívidas próprias: não responde
pelas dos associados, assim como estes não respondem pelas da associação.
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Art. 157º
o Embora a associação possa desenvolver actividades lucrativas, praticando actos de comércio,
ela não pode visar lucros para os distribuir.
o Se se constituir uma associação que vise distribuir lucros aos associados, estaríamos perante
uma sociedade civil pura – art. 980º e ss CC – não abrangida pelas regalias próprias das
associações:
Total separação de patrimónios, com subsequente irresponsabilidade dos
associados pelas dividas da associação;
Natureza não-patrimonial da posição de associado, com a sua consequente
impenhorabilidade.
A constituição
A constituição das associações opera por contrato entre os associados fundadores. Tal contrato deve ser
celebrado por escritura pública – a58º/2 e 168º/1 CC.
O acto de constituição e os estatutos deverão constar de documentos formalmente autónomos? Nada impede
que o acto constitutivo e os estatutos constem de um único documento: basta que se mostrem reunidos os
requisitos de forma e de substância para que o Direito nada tenha a objectar.
A invalidade da constituição
O acto constitutivo e os estatutos têm natureza contratual. Quais são as consequências da sua eventual
invalidade?
Art. 158º-A - é nula a constituição de uma associação cujo objecto será física ou legalmente impossível,
contrário à lei ou indeterminável ou, ainda, contrário à ordem pública ou ofensivo dos bons costumes. Pode a
invalidade reportar-se, apenas, a um ponto sectorial dos estatutos ou do acto de constituição, que não ponham
em causa a subsistência coerente do conjunto. Aplicam-se as regras do art. 292º.
Quando a reduçao não seja possível, deveria assistir-se, nos termos gerais, à destruição retroactiva
dos actos praticados e de todos aqueles que, destes, derivassem. No caso de uma pessoa colectiva, que tem
um património, que pode gerar resultados e que tem relações com terceiros, isso é impossível. Assim. A
declaração de nulidade pode ter uma de 2 consequências:
Ou deriva de vicio de forma, que ponham em crise a aquisição da personalidade – art. 195º e ss
Ou emerge de qualquer outro vício e cabe recorrer às regras da extinção e da liquidação das
associações.
Quid iuris quando a vícios que afectem, apenas, algum ou alguns dos associados outorgantes na escritura? O
vício atingiria apenas a presença do associado na agremiação. A invalidação da declaração de vontade da
pessoa em causa apenas ditaria a sua exclusão: não determinaria a invalidade de toda a constituição da
associação.
A interpretação dos estatutos das associações deve ser feita de acordo com as regras de interpretação da lei –
arts. 9º e 10º CC.
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o Direitos de disfruto de benefícios associativos
o Direitos honoríficos e designativos
Direitos especiais: emergem de especificas disposições dirigidas a certos associados, que apenas com
o consentimento dos próprios podem ser modificadas ou suprimidas.
Numero mínimo de associados: a lei portuguesa não revê um número mínimo de associados. Terá de haver
mais do que um para se poder outorgar o contrato constitutivo. No entanto admite-se a unipessoalidade
superveniente, até com base no art. 182º/1/d.
A adesão: tem natureza contratual – depende de uma proposta, feita pelo próprio interessado, pela
associação através da administração ou da assembleia-geral ou por iniciativa de algum ou alguns associados,
conforme o previsto nos estatutos. As condições de admissão constam dos estatutos – art. 167º/2.
A saída de um associado corresponde à sua retirada voluntária de determinada associação. Em principio, tal
retirada é livre, ainda que com as consequências do art. 181º: o desistente não tem o direito a reaver as
quotizações que haja pago e perde o direito ao património social. A saída é uma manifestação da liberdade de
associação.
A exclusão de um associado equivale à extinção dos seus direitos associativos por decisão da associação:
seja da administração, seja da assembleia-geral.
O poder disciplinar associativo: art. 180º prevê a eventualidade da exclusão – a exclusão constitui a sanção
mais grave que pode ser aplicada por entidades privadas. Infere-se daqui, que outras sanções menos graves,
são possíveis – quem pode o mais pode o menos. Poder disciplinar: a faculdade que as associações
tenham de aplicar sanções aos seus associados. o poder disciplinar deve estar previsto nos estatutos e não
pode ser exercido em termos arbitrários: uma decorrência do principio de igual tratamento.
A proibição de arbítrio leva a que as sanções disciplinares devam ser aplicadas dentro de certas
regras. Designadamente: antes de qualquer sanção, deverá ser comunicado ao visado o facto ou factos de que
ele é acusado, dando-se oportunidade de se defender. No fim, qualquer decisão terá de ser justificada.
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A assembleia-geral das associações
Competência
Competência legal: temas que, por disposição de lei, devem necessariamente ser atribuídos à
assembleia – art. 172º/2
Competência estatutária: toda aquela que lhe seja conferida pelos estatutos
Competência subsidiária ou residual: assuntos que, por lei ou pelos estatutos, não sejam atribuídos a
outros órgãos – art, 172º/1
Prof. Menezes Cordeiro: é evidente que uma deliberação contrária à lei expressa ou de objecto
impossível nunca poderia ser meramente anulável, sob pena de se consolidar com o decurso do
prazo; outro tanto será óbvio no que toca a deliberações contrárias aos bons costumes ou à ordem
pública. Temos de admitir, ao lado das deliberações anuláveis, deliberações verdadeiramente nulas.
Art. 158º-A em remissão para o art. 280º daí resulta que as deliberações físicas ou legalmente
impossíveis, contrárias à lei ou indetermináveis são nulas, tal como nulas sãos as que contradigam a
ordem pública ou que ofendam os bons costumes.
Conclusão: deliberação contraria à lei meramente anulável? Consolida-se com o decorrer do tempo?
art. 177º tem que ser restritivamente interpretado estas deliberações conduzem à anulabilidade quando
não conduzam à nulidade.
Art. 179º - “Terceiro de boa fé” = 3º que desconheça, sem culpa, a anulabilidade da deliberação –
boa fé subjectiva ética.
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Administração
Prof. Menezes Cordeiro: de uma deliberação da administração cabe recurso directo para um tribunal –
corolário do facto da administração, pela lei e pelos estatutos, representar a pessoa colectiva.
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A Modificação e a extinção das associações
Modificação
Transformação: arts. 175º/3 e 168º/1
Fusão
Cisão não há regime no CC aplica-se subsidiariamente o CSC
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Fundações
Características
Pessoa colectiva cujo substrato é um património (conjunto de bens ou projecto de bens) ao serviço de um fim
de utilidade social, cabendo a uma autoridade pública atestar o que foi dito art. 157º + 188º/1 e 2
Formação – 3 fases
A instituição
A elaboração dos estatutos
O reconhecimento
Instituição: negocio jurídico unilateral, entre vivos ou mortis causa. Através desse negocio, uma pessoa – o
instituidor – afecta um património a uma pessoa colectiva a criar, com determinados objectos de tipo social.
O acto de instituição quando celebrado entre vivos segue a forma prescrita para as doações: escritura
pública quando envolva imóveis (art. 947º/1) e forma escrita nos restantes casos (947º/2)
Quando celebrado mortis causa – trata-se de instituição por testamento (art. 2204º).
O acto de instituição deve indicar, necessariamente, o fim da fundação e os bens que lhe são
destinados (186º/1) ou, pelo menos, deve dar indícios bastantes que permitam, pelas regras da interpretação,
reconstituir esses dois elementos. De outra forma o negócio será nulo por indeterminabilidade do objecto
(280º/1)
Elaboração dos estatutos: devem deles constar todos os elementos que n constem do acto de instituição –
art. 186º/2.
Podem ser elaborados pelo próprio instituidor – 186º/2. Quando não o seja – art. 187º
Art. 185º/5 em remissão para o 168º - necessidade de publicidade.
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Modificação e extinção das fundações
Modificação:
Modificação dos estatutos art. 189º
Modificação do fim – art. 190º
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Realidade com um elemento pessoal e com organização, mas que não preenchem requisitos para a
personalidade jurídica do art. 158º/167º
Regime
Constituídas por contrato – art. 405º e 406º
Génese contratual explica o que consta do art. 195º/3 181º
Organização é prevista nos estatutos e o funcionamento regulado pelos estatutos e pela lei.
No que as regras adoptadas pelos associados sejam omissas, são aplicáveis as disposições legais
relativas Às associações, exceptuadas as que pressuponham a personalidade – 195º/1,2ª parte.
Poderes dos administradores – art. 196º
Responsabilidade por dividas – art. 198º
Estas pessoas não se tratam de pessoas rudimentares – antes de verdadeiras pessoas colectivas, às quais tudo
é permitido, excepto a limitação da responsabilidade dos associados e o acesso ao quadro de vantagens
administrativas, fiscais e económicas que o Direito pode conceder a determinadas associações.
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Comissões especiais
Em termos de personalidade colectiva, as comissões especiais ficam claramente aquém das associações “sem
personalidade”. Resta concluir que não têm personalidade jurídica plena; poderão, apenas, para certos fins
limitados surgir como pessoas rudimentares.
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Sociedades Civis Puras
Constituição
Contrato – art.980º CC
Forma – art. 981º CC – escritura pública
Designação no Registo Nacional de Pessoas Colectivas
Extinção
Art. 1007º CC
Art. 1010º CC
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CAPITULO IV - VICIOS DA VONTADE E DA DECLARAÇÃO
O negocio jurídico vale enquanto manifestação da autonomia privada, que corresponde a uma
determinada vontade, isto é, a uma decisão assumida na sequencia de toda uma ponderação imputável a um
sujeito. A decisão terá de ser exteriorizada, para produzir os seus efeitos.
Sendo este processo fruto da obra humana, vários vícios podem interferir neste, nomeadamente no
plano:
Da própria vontade em si: o processo que leva à tomada de decisão do sujeito autónomo é
perturbado: há um vício na formação da vontade. Este vício pode ir desde a pura e simples falta de
vontade até à ausência de liberdade ou à liberdade que não seja verdadeiramente autónoma.
Da declaração: a vontade, em si, formou-se devidamente; no entanto, algo interfere aquando da sua
exteriorização, de tal modo que a declaração não corresponda à vontade real do sujeito: há
divergência entre a vontade e a declaração. Esta divergência pode ser intencional ou não-intencional
(quando deriva de lapsos ou dificuldades ocorridas na exteriorização.
As soluções que o Direito faz corresponder a estes vícios baseiam-se em dois princípios fundamentais:
1. Autonomia privada: exige que a vontade juridicamente relevante corresponda à vontade real, livre
e esclarecida, do declarante.
2. Tutela da confiança: requer a protecção da pessoa que tenha dado crédito à declaração de outrem,
mesmo quando esta não reúna todos os requisitos que um puro esquema de autonomia privada
exigiria.
Consoante a relevância relativa que assumam, assim as soluções jurídicas para os problemas registados.
§ 57.º AUSENCIA DA VONTADE
Existe uma polémica antiga quanto a saber se, para a presença de uma declaração de vontade negocial, é
necessária a consciência da declaração.
O legislador português assumiu uma defesa completa da autonomia privada: o erro dá sempre lugar à
anulação, desde que recaia sobre um elemento essencial constatável pela outra parte – art. 247º – e a
consciência da declaração é exigida, sob pena de não haver produção de quaisquer efeitos – art. 246º
Prof. Menezes Cordeiro: recuperando a “consciência”, o declarante pode pretender salvar o negocio, pelo
que a solução residira, tão-só, na anulabilidade – há que fazer uma interpretação restritiva do art. 246º/1, na
parte relativa à falta de consciência da declaração.
O declarante, ao emitir uma proposta ou outra declaração, em boa e devida forma, sem ter a
consciência do que faça, esta vai-lhe ser imputada com o sentido que lhe daria o declaratário normal.
Só assim não será quando a falta de consciência seja de tal modo aparente que, perante o declaratario
normal, ela lhe não possa ser imputada. Nessa altura, o acto será nulo. Se a falta de consciência puder ser
censurada ao declarante (se violou deveres de lealdade ou de informação), ele fica obrigado a indemnizar o
declaratário.
§ 58.º COACÇÃO
Coacção física: alguém é levado, pela força, a emitir uma declaração, sem ter qualquer vontade de o fazer –
não há uma verdadeira manifestação de vontade. Mas uma tão-só aparência.
Consequência: nulidade.
Prof. Menezes Cordeiro: qualquer situação de coacção implica, á partida, o regime da coacção moral –
vontade coagida é vontade. Todavia, quando a situação seja de tal modo significativa que não possa falar-se
de vontade, por o coagido não ter, em termos de normalidade, margem de escolha, caímos na coacção física.
Havendo coacção moral: o negocio é anulável – art. 256º – o coagido poderá invocar o vicio mas não, em
principio, qualquer terceiro. Assim, supervenientemente, tornando-se o negocio favorável, o coagido pode
escolher mantê-lo.
Havendo coacção física: o negócio é nulo – art. 246º – o coagido, mesmo a querer conservar o negócio por,
subsequentemente, se ter tornado favorável, já não o poderá fazer.
§ 59.º ERRO
Dada a natureza falível da actuação humana, o grande óbice que sempre pode surgir em qualquer
negocio reside no engano de quem o celebre. O erro implica uma avaliação falta da realidade: seja por
carência de elementos, seja por má formação destes e, num caso e noutro, por actuação própria ou por
intervenção, maldosa ou inocente, da contraparte ou de terceiros.
A vontade formou-se correctamente; porem, aquando da exteriorização, houve uma falha, de tal modo que a
declaração não retrata a vontade.
A desculpabilidade do erro não é requisito; no entanto, parece claro que, perante um erro indesculpável, será
mais difícil exigir à contraparte o dever de conhecer a essencialidade do elemento.
A anulação do contrato, por erro na declaração, pode provocar danos ao declaratário. Assim, o declarante
poderá responder por culpa in contrahendo: verificados os requisitos, ele deverá indemnizar o declaratário de
todos os danos.
Dissenso: modalidade particular de erro na declaração. Este ocorre quando as partes formulem declarações
não coincidentes, convictas de que concluíam um contrato. Nessa eventualidade, não há contrato. Qualquer
das partes que se aperceba do qui pro quo tem o dever de prevenir a outra de que nada se concluiu: não foi
formulada nenhuma proposta que obtivesse aceitação. O que temos são duas declarações de vontade distintas
que poderão ser anuladas, caso se verifiquem os requisitos e nisso haja interesse.
O dissenso nem sequer envolve rejeição, pelo que a proposta – ou propostas – permanece valida e
eficaz até que caduque, seja rejeitada ou aceite.
250º/2 – Casos em que o intermediário altere propositadamente a declaração. Aí, no conflito entre a
autonomia privada e a tutela da confiança, a lei entendeu dar primazia à autonomia privada: a declaração é
sempre anulável. O dolo deve ser provado por quem o invoque, havendo, contra o autor do feito e verificados
os pressupostos legais, um direito à indemnização, a favor de todos os lesados.
Verdadeiro erro: o que vicia a própria formação da vontade. Fala-se, a tal propósito, em erro-vício ou,
simplesmente, erro da vontade.
Nestes casos, o erro da vontade segue o regime do art. 247º - o “dever de conhecer” introduz um factor de
objectivação que dá consistência ao sistema, tutelando a confiança.
Impõe-se uma interpretação restritiva da remissão feita pelo art. 252º/2, para a alteração das circunstâncias.
No erro sobre a base do negócio há que aplicar o regime comum do erro: a anulabilidade. A situação ocorre
já no momento da celebração do negócio. Não se verificam valores que requeiram consequências diferentes
das normais para o erro. Assim. A consequência de se manter o negócio é a anulabilidade, não abrangendo a
modificabilidade.
Prof. Menezes Cordeiro: numa hipótese de erro o que temos é o início contemporâneo da formação do
negócio, pelo que se tem de atacar o negócio na sua génese – art. 287º
Castro Mendes: a relevância do dolo depende duma dupla causalidade: é preciso que o dolo seja
determinante do erro e o erro determinante do negócio.
A anulação por dolo pode ser cumulada com a indemnização dos danos causados. Por fazer-se, em
simultâneo, apelo as regras da culpa in contrahendo.
§ 60.º Simulação
Na simulação, as partes acordam em emitir declarações não correspondentes à vontade real, para
enganar terceiros.
A tradição portuguesa, no tocante à simulação, era bastante severa. Eça não parte do dogma da
vontade, mas da pura e simples rebelião, contra o Estado e o Direito, traduzida pelo acordo
simulatório. Por isso, já as Ordenações prescreviam a sanção da nulidade, tomando uma particular
cautela com a fraude aos credores e com a fraude fiscal.
Foi Guilherme Moreira que reconduziu o tema da simulação ao da manifestação da
vontade.
O CC postula:
* Recondução da simulação à área dos vícios da vontade e da declaração;
* Principio básico da nulidade do negocio simulado;
* Possibilidade de aproveitar o negócio dissimulado, desde que ressalvados os competentes requisitos;
* Protecção dos terceiros de Boa fé.
Modalidades da simulação
Simulação objectiva divergência voluntária recai sobre o objecto do negocio ou sobre o seu
conteúdo.
Simulação subjectiva divergência voluntária recai sobre as próprias partes – interposição fictícia
de pessoas.
Falsidade: na simulação, o documento que registe o contrato não é falso ou forjado, apenas exprime
uma declaração divergente da vontade.
Negocio indirecto: recorre-se a um tipo contratual fora da sua função normal ou habitual.
Fidúcia: um contrato tem ínsita cláusula pela qual o beneficiário só poderá exercer a sua posição
num determinado sentido.
Interposição real de pessoas: uma pessoa contrata com outra apenas para que esta, depois, transfira
para o verdadeiro destinatário da operação aquilo que adquiriu – não há divergência.
Regime da Simulação
O art. 240º/2 considera o negócio simulado como nulo – não se trata de uma verdadeira nulidade,
uma vez que, segundo os arts. 242º e 243º, ela não pode (contra o art.280º) ser invocada por qualquer
interessado nem ser declarada oficiosamente pelo tribunal.
O negócio simulado não produz efeitos entre as partes e perante terceiros que conheçam ou
devessem conhecer a simulação: os terceiros de “má fé”.
Art. 241º/1 dá legitimidade aos próprios simuladores, mesmo em situação fraudulenta, para
arguírem a simulação. Trata-se de um preceito que visa ladear a eventual invocação do tu quoque.
Art. 243º/1 impede a invocação de simulação perante terceiros de boa fé: terceiros que
desconheçam, sem culpa, a simulação.
Art. 243º/2 – Prof. Menezes Cordeiro: esta é uma definição incompleta de boa fé subjectiva. Trata-
se aqui de uma noção de boa fé subjectiva ética – não faz sentido tutelar a confiança de uma pessoa
que, com culpa, desconheça ou que devia conhecer.
Art, 243º/3 – Havendo registo, qualquer interessado em conhecer a realidade tem o dever de se
inteirar do seu teor.
Preferência: quando alguém (o preferente) tenha o direito de, perante outra pessoa (o obrigado à
preferência) e querendo esta celebrar certo negocio, surgir como contraparte, desde que acompanhe
as condições por ela pretendidas.
Havendo violação de um direito de preferência, pode o preferente, através de uma acção de
preferência – art. 1410º – fazer o seu negócio preferível.
Se os terceiros forem beneficiados, em vez de prejudicados, o disposto no art. 243º/1 continua a aplicar-se?
o Castro Mendes, Antunes Varela: defendiam que a simulação era, em qualquer caso,
inoponivel a terceiros de boa fé.
o Carvalho Fernandes, Menezes Cordeiro: defendem que o objectivo da lei, perante os
interesses em presença, nunca poderia ser o de facultar o enriquecimento do preferente. Não
se aplica o art. 243º/1 quando os terceiros de boa fé sejam beneficiados.
A prova da simulação
O art. 394º/2 parece proibir a prova testemunhal do acordo simulatório e do negócio dissimulado,
quando invocado pelos simuladores. Mas impedir a prova testemunhal equivale, muitas vezes, a
restringir de modo indirecto a prescrição do art. 240º/2, quanto à nulidade da simulação.
Tem vindo a ser defendido um entendimento restritivo do art. 394º/2: visa-se, no fundo, fazer
prevalecer a verdade dos factos.
A jurisprudência acolhe esta interpretação restritiva – havendo um princípio de prova escrita, é
admissível complementá-la através de testemunhos. Em termos práticos, admite-se como princípio
de prova escrita uma escritura de rectificação.
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Traduz a situação na qual os negócios jurídicos se encontram quando não produzam todos os efeitos
que, dado o seu teor, se destinariam a desencadear – Ineficácia em sentido amplo.
o A lei não permite a autonomia privada cede perante a lei, que apenas reconhece dentro de
determinadas fronteiras;
o Falhas genéticas na celebração do negócio a autonomia privada pode ser deficientemente
exercida pelas partes que por vezes falham na tentativa de configurar situações jurídicas.
o Ineficácia stricto sensu: o negócio, em si, não tem vícios; apenas se verifica uma conjunção
de factores extrínsecos que conduz à referida não-produçao.
Nulidade
Arts. 220º; 240º/2; 242º/2; 245º/1; 246º; 280º/1 e 2; 294º.
A nulidade é o tipo residual de ineficácia: perante uma falha negocial, quando a lei não determine
outra saída, a consequência é a nulidade (art. 280º).
Na anulabilidade, o que surge é o direito potestativo de impugnar e, por isso, tem de haver
uma regra que diga que esse direito existe.
A invocação da nulidade opera independentemente de qualquer vontade a desencadear. A invocação
da nulidade não depende de uma permissão normativa específica de o fazer: a permissão é genérica.
Não há, pois, um direito potestativo de actuar a nulidade. O tribunal não constitui a nulidade
do negócio: limita-se a declará-la, de modo a que não restem duvidas.
Anulabilidade
Diz-nos que o interesse de uma determinada pessoa não foi suficientemente atendido, aquando da
celebração do negócio – a lei concede ao interessado o direito potestativo de impugnar o negócio –
art. 287º/1
Invocação das invalidades – Prof. Menezes Cordeiro: não há nenhuma regra que imponha a invocação
judicial por isso a invocação também pode ser extrajudicial.
1. Nulidade: quer por razoes históricas, quer pelo esquema vigente, ela ergue-se como tipo-matriz no
seio da matéria das ineficácias.
Dado o silêncio da lei, e ainda que por via interpretativa, pode concluir-se que a nulidade é p tipo
residual da ineficácia: perante uma falha negocial, quando a lei não determine outra saída, a consequência é a
nulidade
Opera ipso iuri – opera independentemente de qualquer vontade a desencadear. O tribunal não
constitui a nulidade do negócio: limita-se a declará-la.
2. Anulabilidade: não traduz uma falha estrutural do negócio. Ela apenas nos diz que o interesse duma
determinada pessoa não foi suficientemente atendido, quando da celebração do negócio – lei concede
ao interessado o direito potestativo de impugnar o negócio.
3. Invalidades mistas: hipóteses de invalidade que não se podem reconduzir aos modelos puros da
nulidade e da anulabilidade – invalidades atípicas.
Ex.: invalidade por simulação – invalidade com restrições á sua inoponibilidade – art. 243º
Contrato-promessa – art. 410º/3
Totais
Ineficácias
Parciais
Originárias
Ineficácias
Supervenientes
No direito português: aquando da preparação do Código Civil, Rui de Alarcão propôs, para a anulabilidade, a
possibilidade de invocação extrajudicial. Tal proposta foi suprimida nas revisões ministeriais, sem que, no
entanto, se introduzisse qualquer preceito de sinal contrário.
De todo o modo, a supressão foi suficientemente incisiva para levar alguma doutrina a defender a
necessidade de invocação extrajudicial, seja para a anulação, seja para as invalidades em geral.
Prof. Menezes Cordeiro: o CC não contém qualquer norma que obrigue à invocação
judicial. Pelo contrario: os arts. 286º e 287º falam em invocar a nulidade e arguir a anulabilidade sem
inserirem qualquer rasto duma necessidade de invocação judicial. Não parece viável, na falta de base legal,
exigir tal procedimento.
Excepto nos casos abrangidos pelo art. 291º/1 – invalidades que atinjam situações registadas – há
uma directriz que impõe o recurso a juízo.
Ex.: invocação das invalidades relativas a contratos celebrados por mero consenso não exige
forma solene para a invocação de invalidade. É evidente que se a declaração de nulidade ou a anulação
“informais” não forem aceites, como tais, pelos destinatários, há litígio, a dirimir em juízo.
Conclusão: pode-se invocar extra judicialmente a invalidade, excepto nos casos registados e
nas situações de litigio.
O problema da inexistência
A inexistência constitui uma categoria controversa, dentro do universo da ineficácia dos negócios
jurídicos. Ela surge em termos conjunturais, na doutrina napoleónica, para resolver uma questão de
interpretação suscitada pelo CC francês e pela doutrina subsequente.
Em Portugal:
o Pires de Lima: mesmo no casamento, a nulidade seria suficiente para enquadrar todas as
falhas;
O surto exegético que se seguiria à publicação do CC seria favorável à inexistência dada a sua consagração
verbal no domínio do casamento.
Inexistência material não haveria nada – faltariam os próprios elementos materiais de que
depende um negócio jurídico (por exemplo, as declarações).
É puramente descritiva: em qualquer momento, o número de negócios que nunca chegaram a
existir é infinito – é impensável tomá-los um por um para, daí, fazer uma categoria jurídica operacional.
≠
Inexistência jurídica surgiria ainda uma configuração negocial, a que o Direito retiraria, no
entanto, qualquer tipo de eficácia.
A ineficácia stricto sensu traduz a situação do negocio jurídico que, não tendo, em si, quaisquer
vícios não produza, todavia, todos os seus efeitos, por força de factores extrínsecos.
As ineficácias deste tipo só surgem nos casos específicos previstos pela lei.
Ex.: art. 81º/1 – Código de insolvência e recuperação de empresas
Art. 192º/1 – Código dos valores imobiliários
A eficácia do negócio jurídico depende do seu enquadramento dentro da autonomia privada. Pode,
no entanto, suceder que, perante um negócio, tenham aplicação, alem das da autonomia privada,
outras regras muito diversas. A inobservância dessas regras provoca a irregularidade do negócio
atingido, sem prejudicar a sua eficácia.
Ex.: art. 1649º – o menor que casar sem autorização dos pais ou do tutor celebra um casamento
eficaz, mas sujeita-se a certas sanções quanto aos bens.
Art. 1650º - o casamento celebrado com impedimento é válido, mas dá lugar a determinadas
consequências, também no domínio dos bens.
§ 62.º O regime
Por vezes, pode haver limitações ao direito de restituição – art. 289º – 1269º – caso a caso será
necessário indagar a boa ou a má fé do obrigado à restituição.
Pode a parte obrigada à restituição ter alienado gratuitamente a coisa que devesse restituir: ficará
obrigada a devolver o seu valor – art. 289º/2
O dever de restituir é recíproco – art, 290º.
Outros institutos, como o direito de retenção, podem ter aplicação, desde que se verifiquem os
respectivos requisitos. A nulidade ou a anulação dum negócio são, ainda, susceptíveis de causar
danos ilícitos. Podem intervir institutos de responsabilidade civil e a culpa in contrahendo.
A invalidade dum negócio não pode prejudicar a manutenção dos deveres de segurança, de
informação e de lealdade que acompanham qualquer obrigação, por força da boa fé.
A tutela de terceiros
A declaração de nulidade ou a anulação dum negócio jurídico envolve a nulidade dos negócios
subsequentes, que dependam do primeiro – art. 892º
Quid iuris se alguém, acreditando na validade de negócios antecedentes, celebra um contrato na base
do qual efectue um investimento de confiança considerável?
O Dto português conhece uma especial tutela de terceiros, quando estejam em causa
direitos reais.
No caso de bens imóveis – art. 291º
No caso de bens moveis – art. 1301º
O art. 291º não se aplica ao caso das preferências legais pela simples razão de elas não estarem
sujeitas a registo.
Consequentemente, não só os preferentes não têm modo de as publicitar, como os próprios
terceiros adquirentes não têm especial fundamento para clamar a ignorância da sua existência, de resto, e
na generalidade dos casos, a preferência legal deduz-se da situação de fundo pelo que – visto o art.
291º/3 – não há, sequer, boa fé.
A invalidação dos negócios jurídicos não impede, ainda, a produção de efeitos – ou de alguns efeitos
– nas hipóteses de redução ou de reconversão – arts. 292º e 293º. (estes são preceitos que têm que
ser articulados com os arts. 236º e 239º
CONVERSÃO: pela conversão, um negócio jurídico nulo ou anulado pode aproveitar-se, como negócio
diverso, desde que reunidos determinados requisitos legais.
Prof. Menezes Cordeiro: a conversão exprime, no fundo, uma interpretação melhorada do negócio, de
modo a, dele, fazer uma leitura sistemática e cientificamente correcta – não há conversão de “negócios”;
convertem-se, sim, meras declarações.
CONFIRMAÇÃO: é específica dos negócios anuláveis. Trata-se de um acto unilateral, a praticar pelo
beneficiário da anulabilidade e que põe termo á invalidade – art. 288º/1 e 2.
Só é eficaz quando posterior à cessão do vicio que conduziu á anulabilidade e, anda, desde que o seu
autor tenha conhecimento do vicio e do direito à anulação.