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Resumo

O Direito civil é a base do sistema jurídico português, refletindo a cultura e a história da nação. Ele é um campo complexo que evolui através da educação universitária e da influência de outras tradições jurídicas, especialmente a romano-germânica. A distinção entre Direito público e privado é fundamental, com o Direito civil atuando como um Direito comum que complementa e integra normas em diversas situações jurídicas.

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Resumo

O Direito civil é a base do sistema jurídico português, refletindo a cultura e a história da nação. Ele é um campo complexo que evolui através da educação universitária e da influência de outras tradições jurídicas, especialmente a romano-germânica. A distinção entre Direito público e privado é fundamental, com o Direito civil atuando como um Direito comum que complementa e integra normas em diversas situações jurídicas.

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Teoria Geral do Direito Civil

Tratado de Direito Civil Português


I
Parte Geral
Tomo I

Capitulo I
A cultura do Direito civil

1º Direito civil e parte geral

1. O Direito civil

 O Direito civil constitui o corpo fundamental do Direito português, na sua globalidade. Formado lenta e
continuamente através de um processo complicado, o Direito civil exprime, por excelência, o modo de viver
do povo que o criou e que o aplica.
O Direito civil exprime, em sínteses inovadoras, o lastro tradicional da nação a que pertença, o labor
quotidiano dos seus tribunais, as iniciativas dos seus legisladores e o produto da investigação e do ensino das
universidades.

 A relativa autonomia do Direito em relação às leis mas se acentua no caso do Direito civil, torna-se difícil,
perante qualquer “lei” civil, retirar dela um sentido, imediatamente útil. Em consequência do peso histórico-
cultural das proposições civis, cada termo pode implicar uma riqueza significativa apreensível, apenas,
através de um estudo alargado da matéria.
O Direito civil surge, por tudo isto, como um domínio reservado aos iniciados.

 O Direito civil traduz um conjunto sistematizado de normas e de princípios jurídicos, habitualmente, esse
conjunto é autonomizado com recurso à ideia de Direito privado comum: Direito que regula as relações que
se estabeleçam entre pessoas iguais e que, a esse nível, trata particularmente os níveis genéricos da
regulação.

 O Direito civil exprime uma área da Ciência do Direito: aquela que resolve casos concretos civis.

2. A experiência portuguesa

 O Direito – em especial o civil – para além da riqueza histórica advinda de toda a evolução, depende,
sempre, de uma aprendizagem especializada. Embora assente em códigos de conduta espontaneamente
transmitidos, o Direito requer instancias muito especializadas de ensino e de aplicação.
Apesar de já assim o ser na Antiguidade, na Idade Media o fenómeno agravou-se, pelo que a Ciência do
Direito passou a ser ensinada, apenas e na prática, nas Universidades.

 O ensino universitário do Direito tem consequências inabarcaveis em toda a sua conformação, pelo que as
universidades tiveram um papel decisivo na evolução do Direito civil.
O Direito civil evolui à medida que a elaboração científica permita novas composições. A Ciência não
tem fronteiras. E assim o Direito civil, fenómeno essencialmente próprio de cada nação, torna-se permeável
ao acolhimento de leituras, de articulações e mesmo de soluções, experimentadas por outros povos, da
mesma ou de diferentes épocas históricas. Técnicas jurídicas mais avançadas, surgidas em qualquer lugar,
podem ser adoptadas nas universidades. Com o tempo elas irão influenciar gerações de novos juristas que,
depois, lhes darão corpo na sociedade civil.

 O Direito civil português tem, hoje, uma feição romano-germânica. É um Direito vivo, reanimado por
gerações de magistrados e de estudiosos universitários e, dai, vertido nas mais recentes leis civis, com relevo
para o Código Civil em vigor. O labor universitário português, muito permeável a experiências estrangeiras,
permitiu que o nosso moderno Direito Civil se aproxime da pureza latina, precisamente com apoios na
Ciência Jurídica que mais aperfeiçoou o Direito românico: a alemã.

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Teoria Geral do Direito Civil

3. A parte geral do Direito civil

 O Direito civil tem um núcleo que adveio da Historia: o Direito romano. Sobre esse núcleo incidiram
séculos de estudo e de aperfeiçoamento.
Ao longo da Historia, não faltaram tentativas de substituir o Direito puramente histórico, de
racionalidade por vezes discutível, por um Direito racional: mais lógico e perfeito. Entre essas tentativas,
uma houve que teve consequências: a levada a cabo pelos racionalistas ou teóricos do Direito Natural, nos
séculos XVII e XVIII.
Os racionalistas intentaram substituir os esquemas tradicionais romanos por classificações e definições
lógicas. Daí resultou todo um corpo de matéria, com reflexos acentuados no domínio dos contratos.
O Direito civil é, hoje, um Direito codificado. O Direito civil incluiu-se em grandes diplomas
legislativos, elaborados de acordo com coordenadas jurídico-cientificas aprontadas nas universidades: os
códigos civis.
Em obediência à tradição jus racionalista, os códigos de tipo germânico apresentam, logo no inicio, uma
“parte geral” que antecede o subsequente tratamento civil – as “partes especiais”.
E, na tradição universitária, é por essa aparte geral que se inicia o Direito civil.

2º Direito público e Direito privado

4. As origens

 O Direito civil é Direito privado. A contraposição entre o Direito público e o Direito privado remonta às
compilações de Justiniano.

 A ideia de Direito civil é anterior à de Direito privado e, por maioria de razão, à sua contraposição ao
Direito público. O Direito civil é o Direito da cidade e dos cidadãos (cives), surgindo, no final da República
romana. Contrapunha-se ao ius gentium ou Direito das gentes.

Por seu turno, o Direito público surgiu não para se contrapor ao Direito civil, mas para designar o
Direito de base legal, aplicável a todos. Já o Direito privado seria o proveniente de contratos entre
particulares: apenas a estes diria respeito. Ou seja: o próprio Direito privado, quando legislado, seria público.

5. A evolução histórica; posições negativistas

 À partida e na linha do fragmento de Ulpiano, o Direito público ocupar-se-ia do Estado, enquanto o Direito
privado versaria os interesses dos particulares. Em termos de Direito romano, o Direito público perderia
qualquer significado com a queda do Império e o desaparecimento da organização politica clássica. Já o
Direito privado subsistiu.

 Idade Moderna: surgimento do Direito público, agora com um conteúdo efectivo. Ele agruparia as normas
novamente criadas para a consolidação e a disciplina do poder real.
Idade Contemporânea: desenvolveram-se as doutrinas do Estado e da Administração Pública. A
preocupação dos juristas passaria a ser a de conter o Estado, mantendo uma esfera livre dos cidadãos.
A diferença entre o Direito público e o Direito privado aprofunda-se: técnicas distintas; jurisdições
próprias; modos de ser diferentes.

Vertentes que negam a contraposição entre o Direito público e o Direito privado:

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Teoria Geral do Direito Civil

1. Orientações sócio-comunitárias: relevam, no Direito, o papel das organizações intermédias, das


colectividades e das associações. Todas elas dariam lugar a regras de actuação irredutíveis ao mundo
bipolar do público e do privado: as normas de ambos os sectores estariam interligadas.

2. Orientações normativistas analíticas: vêm dissecar, nas diversas instituições, regras estruturalmente
públicas, de acordo com o critério do interesse predominante e da presença de poderes de autoridade.
Chegam à conclusão de que, no seio do mais tradicional Direito privado, ocorrem situações publicas:
pense-se do Direito da Família. E também o Estado actual de acordo com esquemas privados.

3. Orientações anti-liberais de cariz totalitário: orientações totalitárias de extremos opostos vieram negar a
contraposição entre o Direito público e o Direito privado: modo cómodo de suprimir a defesa que este
ultimo representa, no tocante aos direitos das pessoas.

Prof. Menezes Cordeiro: a existência de uma contraposição entre o Direito público e o Direito privado é um
dado existência. Não pode ser negada. A explicação do fenómeno será, porventura difícil. Mas não se
encontre, ai, um pretexto para a fácil saída do negativismo.

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Doutrinas que explicam a contraposição entre o Direito público e o Direito privado:

1. Teorias materiais: fazem assentar a distinção na diversa natureza das próprias regras em si.

 Teoria do interesse: ao Direito privado caberiam os interesses dos particulares enquanto, por
simetria, o Direito público proporcionaria o interesse público. Por seu turno, o interesse público
respeitaria a uma generalidade de pessoas, podendo concretamente exigir o sacrifício dos
particulares.
O respeito pelas posições dos particulares é inevitável para a preservação da comunidade:
para o interesse público. Por outro lado, a tutela conveniente do interesse público acautela, em
ultima instância, a posição de cada cidadão.

 Teoria da importância: defende que o Direito público corresponde a um sector mais importante
do que o do privado – prevalece sobre ele, havendo concurso.
Baseia-se na ideia de que o interesse público suplanta o privado.

 Teoria da subordinação: diz-nos que, no Direito público, as relações jurídicas se pautam pela
superioridade de uma das partes sobre a outra; no Direito privado, os participantes estão, pelo
contrário, em pé de igualdade – o Direito privado é marcado pela igualdade; no Direito público
domina um vector de autoridade.

 Teoria da soberania: o Direito público funcionaria como um Direito especial, portador de


autoridade, não se esgotando, no entanto, nas normas concretas que comportassem os inerentes
poderes: haveria que prever regras de legitimação – que apelam para a soberania – e normas de
conflito.

 Teoria da tradição: na base de diversas orientações, certas regras vêm a ser considerados de
Direito público: outras de Direito privado. Na prática corrente, acolhem-se como de Direito
público aquelas que, como tal, já eram consideradas.

2. Teorias do sujeito: dirigem um apelo primordial ao tipo de sujeito da relação ou da situação jurídica.

 Teoria do sujeito formal: o Direito público é o Direito do Estado ou, em rigor, também de outros
organismo públicos.

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Teoria Geral do Direito Civil

 Teoria do sujeito material: haveria, no Direito público, uma actuação do Estado enquanto
Estado, isto é, dotado dos seus atributos próprios.

 Teoria da ordenação: vê no Direito público, um corpo especial de regras, isto é, um conjunto de


normas jurídicas que só legitimam ou obrigam os sujeitos de direito que se determinam
exclusivamente através de normas ou de actos do Estado.

 Teoria da competência: afirma que, no Direito privado, todos são competentes para agir. Já no
Direito público, apenas o poderiam fazer as pessoas indicadas por uma norma de legitimação;

 Teoria da Gestão Pública: o Direito público seria a soma das normas relativas a relações nas
quais um dos sujeitos, na base de uma situação legitimadora, actuaria como gestos do bem
comum;

 Teoria do Direito especial: o Direito privado continuaria a base aplicável a todos os sujeitos; o
Direito público diferenciar-se-ia pela sua especificidade, funcionando apenas perante
determinadas ocorrências ou em face de entidades especialmente legitimadas, por lei, para usar
as inerentes prerrogativas.

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8. a especialidade do Direito público; diferenciação sistemática

 Todas as relações susceptíveis de se estabelecerem entre os seres humanos, por iniciativa destes, são
objecto de Direito privado. A organização da sociedade e os princípios a ela relativos, são privados.
O Direito privado vale por si: adere estritamente às pessoas, não carecendo de se justificar pelos fins que
prossiga.
O Direito privado advém da Historia (ius romanum), estando menos dependente do legislador.

 O Direito público surge como um direito especial: o Direito que regula a Administração, ou as Finanças
Públicas ou quaisquer outros domínio do Estado – Direito especial do Estado.
O Direito público, enquanto Direito especial, atenderá ao denominado interesse público, dando corpo a
situações de soberania e de subordinação no seu âmbito de aplicação, prevalece sobre o Direito privado.

Direito público Direito privado



Nas situações públicas, as actuações Nas situações jurídicas privadas, as
desenrolam-se segundo a actuações pautam-se pela igualdade
autoridade e a competência: um e pela liberdade: as pessoas têm
dos intervenientes pode, iguais poderes e podem agir sempre
unilateralmente, provocar alterações que não deparem com uma
na esfera jurídica alheia e só lhe proibição.
cabe actuar quando a norma lho
permita.

4
Teoria Geral do Direito Civil

#3

O Direito civil como Direito comum

10. Generalidades

 Perante qualquer situação carecida de tratamento jurídico, na ausência de regras especiais – de Direito
público ou outras – quem tenha pretensão de aplicabilidade, há que recorrer ao Direito civil;

 A distinção entre o Direito comum e o Direito especial – ou um direito especial – é essencialmente


relativa: ambos se afirmam um perante o outro e, na medida em que um exista, consubstancia-se no outro.
Pode acontecer que um mesmo complexo normativo seja, em simultâneo, especial e comum: especial em
relação a um tecido mais vasto, do qual desinsira um subcomplexo normativo; geral perante áreas mais
restritas, que lhe retirem conjunções particularmente adaptadas a necessidades especificas.

 O Direito civil é o mais comum e o mais abstracto de todos os ramos do Direito. Constitui a base a partir
da qual se vão erguendo todos os demais ramos jurídicos normativos.

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11. Função jurídico-cientifica

 A elaboração geral de regras para a realização da internacionalidade normativa, o seu alcance e o seu
funcionamento são tarefa do Direito civil.

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12. Aplicação subsidiária no Direito público

 O Direito civil, enquanto Direito comum, tem aplicação subsidiária perante os diversos ramos jurídicos.
Dependendo da situação lacunosa considerada e da sindicância operada através dos princípios do Direito
público, o Direito civil pode ser chamado a complementar ou a integrar as mais diversas situações.

Fundamento da aplicabilidade subsidiária do Direito civil no campo público:

 Tese dos princípios gerais: o Direito civil daria corpo aos princípios gerais do ordenamento. Na falta
de normas específicas, eles tenderiam a prevalecer.

 Tese da analogia: o Direito civil seria chamado a depor quando regulasse um caso análogo ao
carecido de regras públicas.

As teses não se excluem – o recurso subsidiário ao Direito civil passa pela determinação de uma lacuna no
Direito público, pelo estabelecimento da analogia e pela ponderação dos princípios.

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Teoria Geral do Direito Civil

13. Papel cultural; importância

- Direito civil é Direito positivo – traduz normas jurídicas destinadas a facultar soluções de casos concretos
surgidos no seu vasto âmbito de aplicação;

- Direito civil é Ciência do Direito – fixa o caminho que vai das fontes às soluções concretas dos problemas,
fazendo-o em termos previsíveis, justificáveis e controláveis;

- Direito civil é cultura jurídica – comporta a linguagem, os conceitos, os institutos e as conexões presentes
em todas as disciplinas jurídicas e que foram elaboradas no seu seio.

- Direito civil tem um papel mediador, facultando, nas dimensões positiva e científica, a unidade e a
identidade de um determinado Direito.

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#4 DO IUS ROMANUM AO PANDECTÍSMO

Ius romanum; as recepções

 O Direito civil é Direito romano actual. Características do ius romanum:

o Direito histórico-cultural: surge como paulatina criação da Historia;


o Direito existencial: ele manifesta-se na repetição de fenómenos que legitima;
o Direito sistematizado: apenas em termos internos (preocupação regular o igual de modo
igual e o diferente de modo diferente). A arrumação externa das suas fontes surge caótica;
o Direito Prudencial: impõe-se pela excelência das suas soluções; não deriva da imposição
autoritária de qualquer poder;
o Direito problemático

 Noção de recepção: adopção, por uma comunidade jurídica, de elementos próprios de outra, presente ou
passada, independentemente de situações de dominação politica, económica ou social – não se trata de mera
transposição de normas, de um espaço para o outro – a recepção implica antes a aprendizagem, pelos juristas
de uma sociedade, da Ciência jurídica própria de outra sociedade.

 Recepções do Direito romano:


o Recepção do Direito comum medieval
 O Direito comum medieval subsequente à fundação das universidades, secs XIII e
XIV, implicou uma forte recepção do Direito romano;
 Precedido por uma elaboração canonística, o Direito romano medieval passou a
dominar a actividade de todos os juristas, sempre formados por universidades.

o Recepção da elaboração humanista


 Secs XVI e XVII – humanistas dirigem a sua atenção para a Antiguidade;
 Preocupação de reconstruir o verdadeiro Direito romano clássico (retorno a Platão, à
Antiguidade – aspirações universalistas).

o Recepção da pandectistica alemã


 Finais do séc. XVIII - intenção de facultar a aplicação actual do Direito romano,
respeitado nas suas formulas, mas enriquecido nos conteúdos, através de novas
conexões – retorno às problemáticas da época.

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Teoria Geral do Direito Civil

Tópica e Sistemática

Tópica: técnica de fundamentação das soluções jurídicas. Pressupõe que os problemas, desligados entre si,
encontrem uma solução extra científica, essa solução deveria, depois, ser fundamentada de modo a permitir
convencer outras pessoas e, designadamente, o adversário numa discussão.

O Direito civil teve origem na tópica. As soluções para os conflitos eram alcançados caso a caso,
com base em considerações de oportunidade e de bom senso: não existiam normas gerais e abstractas previas
que inculcassem vias de solução.
O decurso do tempo permitiu o apuramento de certas regularidades de solução. Esta regularidade
corresponde a uma certa lógica interna e faculta a formulação de regras que tornem previsíveis as soluções
para os litígios futuros. Assim, a tópica que levou ao nascimento do Direito civil, foi, a nível interno,
substituída por uma sistemática.

Sistemática: propõe-se a resolver os problemas recorrendo a princípios pré-elaborados. Apoia-se na


existência prévia de princípios assentes, que comportariam as soluções múltiplas para os problemas
possíveis. Colocada a questão restaria, por via dedutiva, obter uma saída justificada pelo modo da sua
obtenção.

O Direito não se esgota no sistema interno. Como fenómeno cultural, ele exprime-se e
consubstancia-se nas suas exteriorizações. O Direito depende da linguagem e das formulações utilizadas para
comunicar e para promover a sua aprendizagem. Tal linguagem e tais formulações dão lugar ao sistema
externo – sistema de exposição ou sistema de leccionação.

O Direito romano tinha uma particular configuração – um sistema interno evoluído, mas uma
ausência de um sistema externo ou de exposição. A aprendizagem e a exteriorização do Direito seguiam,
então. Moldes empíricos. Na forma, o Direito romano era tópico e, por ventura. No seu desenvolvimento, em
substância, surgira a sistemática mínima necessária para se falar em Ciência Jurídica.
A evolução posterior viria a permitir, mais tarde, o estabelecimento de um sistema externo – a
exteriorização do Direito passou, também, a seguir moldes racionais, concatenados entre si. Note-se que a
separação entre os dois sistemas, externo e interno, é uma operação meramente artificial.

Importância do sistema externo o sistema externo não é irrelevante para o interno, para a sua própria
materialidade das soluções a alcançar. O simples facto de se seguir, na exposição da matéria, uma certa
ordenação, permite, de imediato, localizar lacunas, detectar desvios, corrigir assimetrias.
As alterações introduzidas no sistema externo implicam e traduzem modificações de fundo, capazes
de promover novos tipos de soluções concretas.

Apreendido através de quadros linguístico-culturais, o Direito não mais se pode separar deles: tais
quadros são o Direito e o pensamento jurídico.

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Teoria evolutiva dos sistemas: da jurisprudência elegante à pandectistica

Teoria evolutiva dos sistemas: intenta explicar o essencial dos avanços jurídico-cientificos dos últimos
séculos através da adopção sucessiva de modeles sistemáticos diferentes na comunicação e na explicação do
Direito.

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Teoria Geral do Direito Civil

SISTEMÁTICA EMPIRICA, SISTEMATICA PERIFÉRICA OU PRIMEIRA SISTEMÁTICA

 O Direito encontrava-se nas compilações romanas – Corpus Iuris Civilis e nos Digesta – matérias
distribuíam-se ao sabor de clivagens histórico-culturais, sem uma preocupação científica, de tal forma que
eram frequentes as repetições e as contradições; metodologia marcadamente empírica.

 Humanismo Jurídico – séc. XVI – doutrina que pressupunha um pensamento centrado no Homem e
modelado pela Antiguidade, sem mediações. Apesar de ter surgido em Itália, o humanismo jurídico não
daria, aí, frutos intensos. A sua eficácia mais duradoura fez-se sentir em França - Jurisprudência elegante.

 A matéria dispersa pelo Corpus Iuris Civilis, através de cientistas marcantes como Cujacius e Danellus,
foi reagrupada já não ao sabor de meros acasos histórico-culturais, mas de acordo com preocupações globais.
A ordenação processou-se reunindo os temas de acordo com certas semelhanças exteriores por eles
aparentados.
Nasce a sistemática externas a sistemática humanista assumia uma feição empírica e periférica: ela
reagrupada os temas em função de aludidos traços superiores.

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SISTEMÁTICA JUSRACIONALISTA, SISTEMÁTICA CENTRAL OU SEGUNDA SISTEMÁTICA

 Insuficiências da primeira sistemática;

 Revolução cartesiana – Decartes explica a superioridade do conhecimento unitário que, desenvolvido a


partir de uma base bem determinada, seria conduzido por um só critério.
A metodologia cartesiana é transposta para as ciências humanas por Hobbes – surge a nova sistemática
ocidental.

 Segundo Hobbes, os diversos elementos como a sociedade, o Estado e o Poder orientam-se através de
postulados fundamentais: a sobrevivência dos homens, a guerra como estado natural reinante entre eles, a
insegurança daí derivada, a necessidade de a superar com recurso ao Estado e à Sociedade, o sacrifício da
liberdade que isso implica, etc.

 Principais juristas da segunda sistemática:


- Pufendorf (Alemanha);
- Domat (França);
- Pothier (França.

 A sistemática central é irrealista. Na verdade, não se pode esquecer a essência histórico-cultural do Direito,
deduzindo-o, por inteiro, do cadinho de princípios gerais arbitrariamente fixados – impõe-se uma nova
síntese, que foi levada a cabo por SAVIGNY.

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Teoria Geral do Direito Civil

SISTEMÁTICA INTEGRADA OU TERCEIRA SISTEMÁTICA

 Promovendo a autonomização do método jurídico, Savigny caracteriza a Ciência do Direito como:

o Filosófica – A Ciência do Direito deve na sua conexão interior, produzir uma unidade;
o Histórica – a Ciência do Direito limita o domínio do arbítrio de cada um através da Historia.

 Savigny propõe uma formação de conceitos através da contemplação intuitiva das instituições. Estas,
dados pelo “espírito do povo” eram, no fundo, Direito romano.
Savigny recebeu assim, a herança jus racionalista: conserva uma articulação logicista do sistema, recorre à
dedução e utiliza estruturas derivadas de postulados centrais.
Mas acolheu também a herança romanista da jurisprudência elegante: admite elementos jurídicos pré-
dados, anteriores a qualquer sistema e recebidos por via histórico-cultural, através do Direito romano.

Ocorre uma verdadeira síntese: os princípios escolhidos para o núcleo do sistema não se obtêm de modo
arbitrário, antes derivando da história e da cultura; os elementos existentes na periferia não têm mera origem
empírica, antes se ordenando e complementando em função dos princípios gerais presentes no centro.

- Junção entre cultura e racionalidade ou sistema interno e sistema externos – Sistemática integrada;
- Esta sistemática integrada foi utilizada ao longo do séc. XIX no espaço jurídico alemão, em trabalhos
desenvolvidos sobre os Digesta ou Pandekten – por isso conhece-se também por Pandectistica.

…………………………………………………………………………………………………………………...

 Tradicionalmente, a realização do Direito era feita com base em dois postulados:


o Compartimentação das operações da realização do Direito (várias operações isoladas);
o Natureza cognitiva do papel do intérprete – limita-se a conhecer as normas.

 Actualmente, a realização do Direito é feita com base nos dois postulados seguintes:
o Realização unitária do Direito: o intérprete/aplicador realiza o direito num grande conjunto;
o Natureza volitivo-cognitivo da realização do Direito – a solução para o problema é sempre
uma decisão humana. (ex.: no preenchimento de lacunas, conceitos indeterminados, nas
normas contraditórias, nas normas injustas…)

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#5 Codificações civis

O Código de Napoleão – 1804 (II Sistemática)

 1ª Codificação moderna – Código civil francês ou código de Napoleão;


 Surge na sequencia de um trabalho intenso realizado nos séc. XVII e XVIII, levado a cabo por
juristas como CUJACIUS, DONELLUS, DOMAT e POTHIER, e que ficou conhecido como Pré-
codificação francesa;
 A 1ª codificação traduz apenas o ponto de chegada de uma evolução complexa, iniciada com os
comentaristas, renovada pelo humanismo e pela primeira sistemática e inflectida pelo
jusracionalismo – não existiram evoluções no código, pelo contrário: o Código de Napoleão pôs
cobro a múltiplas inovações introduzidas durante o período revolucionário, adoptando soluções
anteriores;
 O Código de Napoleão veio acusar o influxo jusracionalista, apresentando-se como um produto
terminal da segunda sistemática. A sua sistematização é prova disso:

9
Teoria Geral do Direito Civil

Livro I – Das Pessoas


Livro II – Dos bens e das diversas modificações da propriedade
Livro III – Das diferentes formas por que se adquire a propriedade

Toda a matéria se desenvolve a partir de ideias centrais simples e claras: a pessoa, enquanto individuo,
carece de bens que movimenta para sobreviver e se expandir.

 O código de Napoleão surgiu como um momento legislativo de primeira grandeza, ele impôs-se para
além das suas fronteiras naturais, seja pela fora das armas napoleónicas, seja por livre adopção num
fenómeno de recepção dos interessados.
Nuns casos ele foi simplesmente traduzido e posto em vigor. Noutros ele serviu de modelo
inspirador a códigos dotados de grau variável de originalidade. Hoje o velho código civil continua
em vigor, embora muito alterado.

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O Código civil alemão – 1896-1900 (III Sistemática)

 Surge nos finais do séc. XIX, o Código civil alemão – BGB – assente em dados científicos mais
perfeitos e avançados. Corresponde ao ponto terminal de uma intensa actividade jurídico-cientifica
que se prolongou por todo o séc. XIX.

 Juristas que, em destaque, prepararam ou elaboraram o BGB


o Thibout
o Bismarck
o Windscheid

 Como qualquer codificação, o BGB traduz uma recolha do já existente e não uma criação de
novidades; sintetiza a Ciência Jurídica do séc. XIX, no que ela tinha de mais evoluído.

 Na linha da Pandectistica, o BGB apresenta uma sistematização em cinco livros:

Livro I – Parte Geral


Livro II – Direito das relações obrigacionais
Livro III – Direito das coisas Classificação Germânica
Livro IV – Direito da família
Livro V – Direito das sucessoes

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As codificações tardias

 Codificações tardias – códigos civis surgidos depôs do BGB – códigos do séc. XX.

 Características das codificações tardias:

o São fruto da III Sistemática;


o Correspondem à universalização do Direito e da sua Ciência (tiveram, na sua base, estudos
científicos alargados, que não se detiveram em fronteiras nacionais ou linguísticas, eles
correspondem a uma universalização do Direito e da sua Ciência, passando a actuar a uma
escala europeia);
o Têm conta as criticas sectoriais feitas à primeira codificação (Código de Napoleão) e à
segunda codificação (BGB), evitando erros de concepção e consagrando certos institutos
novos obtidos já depois delas;

10
Teoria Geral do Direito Civil

o Apresentam uma identidade própria, motivada pelas particularidades dos espaços em que
surgiram.

 Código civil suíço – Eugen Hober – não tem parte geral


 Código civil Grego – 1930 – tem parte geral
 Código civil Italiano – 1942 – unificação entre o Direito civil e o Direito comercial.

…………………………………………………………………………………………………………………...

Recodificações dos finais do séc. XX, inícios do séc. XXI

 Nos finais do séc. XX, inícios do séc. XXI, surgem três importantes códigos civis:
o Código civil do Quebeque (1991)
o Código civil da Holanda (1992)
o Código civil do Brasil (2002)

+
Reforma do Código civil alemão de 2001/2002

Estas codificações são consideradas “recodificações” na medida em que assentam, com técnicas similares,
em matéria já codificada e por codificar.

Características comum destas recodificações:

- Apoiam-se na terceira sistemática. Não precedida pela puta e simples recepção da pandectistitca,
mas alcançada através da evolução integrada do estilo napoleónico;
- Preocupação envolvendo, acolhendo no Código civil ora da matéria comercial (Brasil), ora da
matéria do consumo (Alemanha) ora de ambas (Quebeque e Holanda)

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#6 Classificação Germânica e Parte Geral

 A chamada classificação germânica do Direito civil é imputada a HUGO, HEISE e SAVIGNY:


o Parte geral
o Direito das obrigações
o Direitos reais
o Direito da família
o Direito das sucessões

 A classificação germânica do Código civil obteve um acolhimento total no civilismo português, a


sua recepção não foi obra do acaso, antes tendo acompanhado os progressos do Direito civil
nacional ao longo do séc. XIX.

11
Teoria Geral do Direito Civil

Parte Geral

 A parte geral tem o papel de abarcar em si tudo o que é comum às “partes especiais”.


Inconvenientes da parte geral:
o Por vezes omite aspectos que fazem parte da “parte geral”;
o Por vezes duplica aspectos já tratados nas “partes especiais”;
o Por vezes separa as matérias entre a “parte geral” e as “partes especiais”;
o Inconvenientes didácticos:
 As permanentes abstracções, a necessidade de antecipar matérias “especiais”, sob
pena de ininteligibilidade do discurso e a própria fatalidade de formar um
desenvolvimento incompleto tornam a parte geral pouco acolhedora para o estudo e
de difícil ensino.
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#7 Os códigos civis portugueses

O Código de Seabra – 1867

 Necessidade de elaboração de uma codificação que solucionasse a multiplicidade das fontes e


facultasse a ordenação das diversas normas, que já se sentia no séc. XVII e se intensificou no final
do séc. XVIII – várias tentativas de codificação que não surtiram efeito.

 É confiada então essa tarefa codificadora a António Luiz de Seabra (1789-1895). O diploma é
promulgado pelo rei a 1 de Junho de 1867.

 O Código de Seabra assenta na tradição românica, trave-mestra do civilismo português, por isso os
institutos nele consagrados são, em grande medida, os já prenunciados pelo Direito anterior.

 Assenta também no pensamento jusracionalista, moldado, teoreticamente, na filosofia de Krause e,


na forma jurídica, apoiado no texto napoleónico. A presença desta linha de influencia denota-se,
sobretudo, ao nível da sua sistemática da qual resulta uma clara preocupação racionalista – “o mais
racionalmente elaborado dos actuais” [códigos].

 Como qualquer codificação, o Código de Seabra traduzia a elaboração científica que o antecedeu,
com relevo para os grandes nomes da pré-codificação: Corrêa Telles e Coelho da Rocha. No
entanto, na sua base, teve o labor de um único jurista – Seabra.

 Em rigor, o velho diploma de 1867 poderia ter sido mantido até aos nossos dias: teria mesmo
prevenido um certo positivismo de teor exegético a que se regressou após 1966.

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O Código civil de Vaz Serra

 Contexto: recepção, nos meios universitários, a partir de 1900, da doutrina alemã, ou seja, da terceira
sistemática.

 A difusão do pensamento sistemático integrado foi progressiva e definitiva. O Direito português


operou uma transposição do grupo de Direitos de estilo napoleónico para o dos Direitos de tipo
germânico.

 Através do ensino ministrado nas Faculdades, na direcção iniciada por Guilherme Moreira e
intensificada por cientistas como Manuel de Andrade e Vaz Serra (Coimbra) e Paulo Cunha,
Galvão Telles e Gomes da Silva (Lisboa), a Ciência jurídica evoluída a partir da pandectistica, veio
a ser compartilhada por todos os juristas portugueses, formados pelas suas universidades.

12
Teoria Geral do Direito Civil

 A substituição do Código de Seabra por um novo Codigo de feição germânica teve um impulso
inicial dado por Vaz Serra (1903-1989) que foi, seguramente, a pessoa que mais contribuiu para o
conjunto valendo a designação do código como Código Vaz Serra.

Criticas ao Código de Seabra que precederam ao Código Vaz Serra:

 Tendo 80 anos de vigência, provocara numerosas dúvidas que convinha esclarecer;


 Estava já alterado por diplomas extravagantes, perdendo em grande parte a característica
de verdadeiro Código;
 Não regulava institutos ou figuras relevantes necessários;
 Era de um individualismo extremo.
[…]
 Procedeu-se, então à elaboração de um projecto de revisão geral do código civil. As orientações
fundamentais que deviam enformar o novo código foram firmadas logo de inicio pela comissão de
reforma, constituída por:
o Vaz Serra (Presidente)
o Manuel de Andrade
o Pires Lima
o Paulo Cunha

 Adopção de uma sistematização germânica


o Parte geral – Manuel de Andrade
o Direito das Obrigações – Vaz Serra
o Direito das Coisas – Pires de Lima
o Direito da Família – Pires de Lima
o Direito das Sucessores – Paulo Cunha

 Colaboradores de Vaz Serra:


o Ferrer Correia: domínio do Direito Internacional Privado, das associações e das
sociedades;
o Rui de Alarcão: domínio do negocio jurídico
o Galvão Telles: incumbido dos contratos em especial e no domínio das sucessores;
o Pinto Coelho: certas áreas do Direito das coisas;
o Gomes da Silva: domínio do Direito da Família.

Trabalhos destes cientistas alterados por Pires de Lima e Antunes Varela.

 Aspectos positivos do Código Vaz Serra: consagrou, ao nível das fontes e no espaço português, o
pensamento da sistemática integrada, com todas as suas consequências, nos planos científicos e
culturais. Agitou, ainda, a doutrina nacional, facultando-lhe um salto qualitativo, acompanhado da
consagração definitiva de vários institutos.

 Apreciação critica do Código Vaz Serra:

o Não conseguiu obter uma unidade cabal – assimetrias (ex.: elevado nível alcançado no
Direito Internacional e contraste com o baixo nível alcançado em direitos reais)
o Nasceu, cientificamente, bastante antiquado, correspondendo ao estado da doutrina alemã
dos anos vinte e trinta;

13
Teoria Geral do Direito Civil

o Aceitou a classificação germânica, insensível às críticas que há muito lhe eram dirigidas
(manutenção de uma parte geral);
o Mostrou-se pouco de acordo com as preocupações do seu tempo em áreas sensíveis como a
da família e da mulher;
o Abusou de definições e de tomadas de posição doutrinais.

Aspecto positivo: consagração intensa de conceitos indeterminados, que tem permitido – e


permitirão, a descoberta de novas e mais adequadas soluções civis.

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#8 O Direito Civil e as concepções globais

Do naturalismo à analise económica

1. O pós-guerra de 1945 foi caracterizado pelo regresso ao jus naturalismo e pela tentativa de
encontrar referencias materiais – procurou-se exorcizar os excessos perpetuados pelo nazismo e
pelo estalinismo.

2. Recuperação do pensamento tópico-problemático

3. Influxo analítico, de tipo utilitarista, proveniente de Inglaterra e dos Estados Unidos

Todas estas orientações não tiveram êxito porque nos lograram influenciar a solução dos casos
concretos, consumando antes o divórcio que se instalou entre a Ciência do Direito e a metodologia
jurídica – Período de irrealismo metodológico.

4. Quebra do irrealismo metodológico: no ultimo quartel do séc. XX  novo pensamento


sistemático. Os problemas e as soluções podiam ser perspectivadas através dum horizonte
duplamente amplo: em dimensão histórico-valorativa e em dimensão interdisciplinar.

5. Guerra-fria (1945-1989): levou, a prazo, à difusão de uma postura defensiva, pouco motivada,
marcada pelo relativismo e pelo agnosticismo.

O termo da guerra fria e o colapso do comunismo soviético deixaram lacunas por preencher, o
pensamento sistemático, só por si, nada pode resolver – oferece uma ferramenta capaz de
estabelecer partes entre o método e a dogmática, mas não dá, por si, referencias materiais.

O positivismo relativista virou-se para as constituições – influxo dos direitos fundamentais e


multiplicação das inconstitucionalidades. Mas essa via não facultava um sistema de valores

Surge uma ética ingénua, baseada no sentimento moral mais imediato.

6. Análise económica do Direito (Law and Economics): ultimo acontecimento metodológico do séc.
XX. Com raízes em COASE e particularmente divulgada por Richard A. Posner, a análise
económica do Direito explica que a conduta humana é, no essencial das suas opções, enformada
por postulados de ordem económica (pensamento materialista norte-americano)

14
Teoria Geral do Direito Civil

Na celebração de um contrato, no exercício das faculdades de proprietário ou na decisão que pode


levar à prática de um crime, o agente determina-se em função da maior utilidade que possa retirar
desses bens escassos.

A análise económica pretende ter uma efectiva projecção dogmática. Ocupa-se dos problemas e
das soluções: não apenas de grandes princípios. Parece, no entanto, ter já passado de moda,
perdendo o impacto inicial.

Criticas à análise económica do Direito:


 Desconsideração pela especificidade da Ciência do Direito;
 Assume um papel destrutivo dos esquemas existente, sem estar à altura de os substituir;
 Prejudica os mais fracos adoptando atitudes associais, em nome de putos esquemas
económicos;
 Põe em causa a cultura jurídica.

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Irracionalismo, ética e predomínio da cultura

 Aguarda-se uma multiplicação de problemas climatéricos, ambientais, demográficos e sanitários.


Apesar de prevenidos, os Governos do Ocidente não se preocupam  a democracia, dobrada pelo
egoísmo dos cidadãos que apenas pensam no curto prazo, demora na reacção.
A febre do imediato tem provocado, em vários níveis e com reflexos no Direito, opções irracionais –
indiferença ambientar, terrorismo suicida, guerras sem projectos subsequentes e as opções voluntaristas e
impensadas.

Processo do desinteresse e do nihilismo, por todo o Ocidente e, em especial, pela Europa.

 A pesquisa genética e o tema complexo da dignidade humana e do respeito pela vida apelam à isenção
e à representatividade das figurações éticas.
Em suma: haverá que reconstruir um edifício de referências a partir de posições cuja bondade seja
pacífica e que se teça em torno da dignidade humana e dos valores naturais e ambientais.

 Francis Fukuyama – trabalho sobre o papel da confiança e as estruturas sociais que a ela conduzem:

o Sociedades em que dominem relações de confiança permitem a estruturação de entidades


intermédias consistentes, base de grandes empresas produtivas (como a sociedade norte-
americana tradicional)
o Sociedades pautadas pela desconfiança, as relações são lassas, mal ultrapassando a família
nuclear (como as sociedades italiana, francesas, portuguesa)

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Os problemas actuais

A civilística actual procura solucionar três questões fundamentais:

1. A efectiva assunção da Ciência do Direito

 A influencia real do discurso metodológico nos níveis aplicativos no Direito deteve-se, a partir dos
anos 30 do séc. XX – segue-se um período de letargia, durante o qual os desenvolvimentos
metodológicos não tiveram influxo visível nas soluções concretas e, logo, na Ciência do Direito.

15
Teoria Geral do Direito Civil

Inconvenientes:

- Na falta de uma Ciência do Direito efectiva, o discurso jurídico mantém-se no nível da


jurisprudência dos interesses, havendo mesmo regressões;
- Apenas a Ciência do Direito permite justificar e controlar as decisões, na sua falta ou
perante a sua insuficiência, manifesta-se o sentimento, o empirismo, o arbítrio ou a actuação
de cripto-fundamentação.

Conclusão: só a Ciência d o Direito faculta o desenvolvimento de soluções concretas, em


consonância com os níveis culturais da actualidade; só essa mesma Ciência permite, pelo combate ao
empirismo, ao arbítrio ou ao sentimento, afirmar o Direito, enquanto tal.

2. A adaptação dos códigos a situações novas

 As codificações representam um ponto de chegada: elas exprimem os aspectos essenciais em que se


atingiu relativo consenso, dentro dos quadros jurídico-cientificos que presidiram à sua elaboração.
Uma vez em vigor, elas deparam-se de imediato com novas realidades.
 Cabe aos codificadores evitar definições ou tomadas de posição doutrinárias e disseminar, com
cautelas bastantes, conceitos indeterminados que facultem áreas de crescimento futuro.

Meios disponíveis à Ciência do Direito para concretizar esta adaptação:


-interpretação actualista;
-conceitos indeterminados;
-lacunas ocultas.

3. Aprofundamento aperfeiçoado dos níveis interno e externo do sistema

 As soluções paradoxais, injustas ou contraditórias são sempre uma constante no Direito, obra humana
– consequente necessidade de aperfeiçoamento do sistema interno e, também, do sistema externo,
dele indissociável.

As melhorias na ordenação, na exposição e na comunicação do Direito facultam, directa ou


indirectamente progressos relevantes no conhecimento do sistema interno e na realização de todo o
Dto.

 Internacionalização da Ciência do Dto: através de fenómenos de recepção e de


transferência culturais, o Dto pode ser apreendido e divulgado para além das
fronteiras politicas e linguísticas – formação de grandes espaços jurídico-cientificos.
 Mobilidade da Terceira Sistemática: traduzindo apenas um modelo de interaccão
centro/periferia, a sistemática integrada pode evoluir nos seus princípios básicos,
sendo ainda capaz de, em qualquer momento, aceitar problemas inteiramente novos,
buscando para eles soluções.

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16
Teoria Geral do Direito Civil

#9 A REALIZAÇÃO DO DTO

Interpretação e aplicação

A leitura conceptual do processo de realização do Dto assenta em duas ideias fundamentais:

1. Compartimentação da realização do Dto – estrita separação entre:


 Feitura das leis (legislador);
 Interpretação (interprete-aplicador);
 Aplicação (interprete-aplicador) – puramente automática perante a norma obtida pela
interpretação.

2. Natureza cognitiva do papel do papel do intérprete-aplicador: juiz não cria nada, apenas executa a
mensagem legislativa, inteligindo-a e pondo-a em prática.

Clara insuficiência para resolver casos concretos; leitura puramente positivista = não reage a fenómenos
como os de conceitos indeterminados.

Leitura actual do processo de realização do Dto

1. É uma operação unitária: o interprete-aplicador realiza, em conjunto e de modo diferenciado, todas


as operações que constituem o processo de realização do Dto (localização da fonte, extracção da
norma, integração de possível lacuna, etc)
Quando procura a fonte, ele já tem em mente quais os factos relevantes e qual a sua
“qualificação”. A busca, pela interpretação, da norma aplicável é sindicada pela solução concreta pré-
apurada.

2. É uma operação alargada ao pré-entendimento e à ponderação das consequências (sinépica)

 Pré-entendimento: conjunto de representações que permitem ao interprete-aplicador


reconhecer o problema e apontar, de imediato, soluções provisórias que irá depois
aperfeiçoar na espiral da realização do Dto. O pré-entendimento engloba os
conhecimentos científicos do interprete-aplicador, a sua experiência, os casos
análogos ou semelhantes que ele já tenha enfrentado, as impressões subjectivas, as
valorações, as bitolas de decisão, com inclusão de elementos políticos, morais e
religiosos.
A capacidade de lidar com o processo de realização do Dto como um todo
unitário depende, justamente do pré-entendimento.

 Sinépica: o intérprete aplicador deve projectar as consequências do que vai decidir,


pode suceder que uma decisão, aparentemente correcta, tenha consequências
contrárias ao projecto normativo. Ao interprete-aplicador cabe a capacidade de
“pensar em consequências”.

3. é uma operação de tipo cognitivo-volitivo: uma solução jurídica não é automática: envolve, sempre,
uma decisão humana, num mar de elementos que enformam a decisão dum problema complexo,
nenhuma matemática permite graduar argumentos e aprontar soluções.
Apenas uma vontade livre, ponderada, a matéria gerida pelo pré-entendimento e pela
Ciência, poderá apontar uma solução, decidindo-a. O processo não é arbitrário, mas o passo final é
uma decisão humana.

17
Teoria Geral do Direito Civil

O papel da linguagem

 Os seres humanos são obrigados, pelas suas limitações, a operar através da linguagem, isto é, através
de figurações fonéticas com correspondência escrita e das subsequentes combinações estudadas pela
gramática e pela semântica. Um conceito jurídico é, assim, uma fórmula linguisticamente
condicionada.

1. Os conceitos são viabilizados ou potenciados pela linguagem;

2. As justificações podem ser meramente linguísticas: perante um problema, pode-se encontrar uma
efectiva solução material que o resolva, mas pode-se tudo deixar em aberto, recorrendo ao
subterfúgio de uma (simples) composição verbal.

Ex. de solução linguística: art. 9º/1 CC  remete para um ambíguo “pensamento


legislativo”, não querendo optar entre uma orientação objectivista (pensamento da lei) e uma
orientação subjectivista (pensamento do legislador), tudo ficou resolvido apenas na
linguagem.

3. É possível um discurso que não se reporte à realidade em si, mas, apenas, às locuções que a
descrevem – metadiscurso: por exemplo, uma discussão sobre “justiça” poderá fixar a complexa
realidade subjacente ou centrar-se, apenas, sobre o termo “justiça”. Teremos então um metadiscurso,
fonte de pseudo-soluções, todas elas meramente vocabulares.

A dogmática integrada

 A Ciência do Dto é a ciência das soluções dos casos concretos. A dogmática jurídica exprime a
Ciência do Dto em acção;

 O Dto civil é cultura jurídica. A decisão correcta deve integrar-se no seu tempo e no meio geográfico,
humano e social em que se vai tornar efectiva;

 A dogmática é verticalmente integrada: não há procedimentos isolados. Uma ponderação abstracta


não é Dto – a integração é necessária, abrangendo, através de esquemas apurados no domínio da
realização do Dto, todas as dimensões culturais relevantes;

 A dogmática é horizontalmente integrada: aos diversos problemas não se aplica uma norma isolada; é
smp o Dto, no seu conjunto, que é chamado a intervir.

18
Teoria Geral do Direito Civil

CAPITULO IV – O DIREITO CIVIL PORTUGUES VIGENTE

#10
O Dto comercial

Actividade empresarial
Historicamente verificou-se a sua autonomia pelas exigências da actividade mercantil. Abrange áreas da
actividade económica como a Banca, Industriais, etc. ainda que não autonomizado em termos legislativos é,
quanto às suas soluções, princípios e valores, dto civil.

#11
O Dto do trabalho

Relação individual/colectiva de trabalho. Condições de trabalho. É também Dto civil cuja autonomização se
justifica por razões pedagógicas.

#12
O Dto do consumo

Defesa do consumidor (destinatário final do circuito económico. Inclui dever geral de informação e dto ao
arrependimento. É também Dto civil.

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CAPITULO V

SITUAÇÕES JURIDICAS

#20
Noção e modalidades

Noção

 Situação jurídica: situação humana (logo, social) valorada pelo Dto. Mais precisamente, a situação
jurídica é o produto de uma decisão apropriada, correspondendo ao acto e ao efeito de realizar o Dto,
que resolve um caso concreto.
A situação jurídica surge como o culminar de todo o processo de realização do Dto,
integrando a localização das fontes, a interpretação e a aplicação.

Modalidades de situações jurídicas

o Situações simples: compostas por um único elemento. Quando este é retirado do seu
conteúdo, tornam-se ininteligíveis.
Ex.: pretensão (poder de exigir a outrem um comportamento).
o Situações complexas: compostas por vários elementos. Do seu conteúdo podem ser retiradas
realidades que, noutras circunstâncias, se arvorem em situações jurídicas autónomas.
Ex.: dto de propriedade sobre um bem imóvel: engloba faculdades de construir;
faculdades de cultivar; faculdades de vender  fazem sentido autonomizadas, podendo
consubstancias dtos autónomos.

19
Teoria Geral do Direito Civil

o Situações unisubjectivas: postula apenas um sujeito, isto é, uma única pessoa.


Ex.: dever de conduta
o Situações plurisubjectivas: assenta em mais de uma pessoa.
Ex.: obrigação completa (art. 397º CC) – credor e devedor
Co-propriedade (art. 1403º CC) – vários proprietários

o Situações absolutas: existe por si, sem dependência de uma outra situação de sinal
contrários. A situação absoluta não postula qualquer relação jurídica.
Ex.: dto de propriedade (art. 1305º CC): esgota-se numa pessoa e na coisa.
o Situações relativas: consubstancia-se na medida em que, frente a ela, se equacione uma
outra, de teor inverso.
A situação relativa “relaciona duas pessoas”: ela dá lugar a uma relação jurídica.
Ex.: dto de crédito (art. 397º CC): credor tem um dto de cobrar 100 porque o
devedor lhe deve 100.

Prof. Menezes Cordeiro: a relação jurídica é apenas uma das várias situações jurídicas possíveis, pretender
reduzir toda a realidade a relações jurídicas é irrealista e provoca distorções contínuas.

o Situações patrimoniais: tem conteúdo económico, podendo ser avaliadas em dinheiro ≠


situações regidas pelo Dto patrimonial (há situações sem conteúdo económico que são
objecto de regulação patrimonial).
o Situações não patrimoniais: não têm conteúdo económico e não são passíveis, à partida, de
terem uma equivalência monetária.

o Situações activas: colocam determinados efeitos sob a vontade do próprio sujeito a quem ela
assista.
Analiticamente, a situação activa deriva de permissões normativas ou de normas que
confiram poderes.
o Situações passivas: colocam determinados efeitos na dependência de uma pessoa que não o
sujeito.
A situação passiva é obra de normas proibitivas ou impositivas.

As situações activas e passivas podem combinar-se entre si em medidas diversas. Ex.: a


propriedade é essencialmente activa, mas no seu seio identificam-se várias posições
passivas, como por ex., as adstrições de vizinhança e proibições várias de Dto público.

o Situações analíticas: obtém-se através da redução, aos factores complementares, das


realidades jurídicas, apresentam-se como formular lógicas.
Ex.: poder de disposição; noção de dever.
Apresentam-se como excessivamente lógicas: na sua preocupação de retratar certas
conjunções idealizadas, elas simplificam, por vezes em termos redutores, aquilo que eram
suposto traduzir.

o Situações compreensivas: derivam da consideração autónoma, historicamente consagrada,


das mesmas realidades, abrangendo múltiplos elementos. Traduzem-se em esquemas
culturais.
Ex.: Dto de propriedade (art.1305º CC) – engloba múltiplos poderes e
deveres, ou seja, várias situações analíticas.
Noção de dto subjectivo.

20
Teoria Geral do Direito Civil

#21
O Conceito de Dto Subjectivo

 O dto subjectivo corresponde a uma situação jurídica compreensiva: dado pela Historia e pela
cultura do Dto, ele tem uma presença efectiva nos planos teórico e prático, englobando diversas
realidades menores.

Segundo Savigny

 Dto subjectivo seria um poder da vontade, tal poder deveria ser entendido como reconhecimento, ao
sujeito titular do dto de um âmbito da liberdade, independentemente de qualquer vontade estranha.

 O dto subjectivo não era, de forma alguma, um mero expediente técnico, destinado a exprimir
soluções pontuais. Antes se assumia como um vector significativo-ideológico, destinado a melhor
firmar as concepções liberais, protegendo-as contra investidas exteriores.

Segundo Rudolf von Jhering

 Foi retirada à concepção de Savigny o seu nível significativo-ideológico, tendo o dto subjectivo sido
remetido para o rol dos meros expedientes técnicos.

Critica à “teoria da vontade” de Savigny: um conceito de dto subjectivo assente na vontade


humana postula, por definição, que em todo o dto ela esteja presente. Ora as diversas ordens jurídicas
comportam dtos carecidos de qualquer vontade, e ainda a presença de dtos subjectivos em pessoas
totalmente privadas de vontade (bebes, dementes) e em pessoas que, por ignorarem a existência dos dtos
em causa, não podem assumir uma qualquer vontade que lhe sirva de suporte (ex.: por sorteio).

 Deste modo, “não é a vontade ou o poder que formam a substância do dto, mas sim o
aproveitamento”, “o conceito de dto (subjectivo) respeita à segurança jurídica do aproveitamento dos
bens; dtos são interesses juridicamente protegidos”.

 Interesse – 2 acepções:

o Interesse em sentido objectivo: o interesse traduz a virtualidade que determinados bens têm
para a satisfação de certos necessidades.
o Interesse em sentido subjectivo: o interesse exprime uma relação de apetência que se
estabelece entre o sujeito carente e as realidades aptas a satisfaze-lo.

 “Protecção jurídica”  o dto subjectivo confere, efectivamente, e ao seu titular, uma tutela jurídica,
pelo que a ideia de protecção surge convincente e acertada.

 O mais característico da posição de Jhering e da corrente de pensamento por ele simbolizada: o


privar do dto subjectivo do nível significativo-ideologico que os jusnaturalistas lhe tinham associado
e que Savigny introduzira nos quadros da III Sistemática.

Segundo Regelsberger

 A fórmula de Jhering – o dto é uma tutela de interesses – surgiu como demasiado frontal, reduzindo
um dos mais nobres instrumentos da Ciência jurídica à mera realidade subjacente.

 Para Regelsberger: “o dto subjectivo existe quando a ordem jurídica faculte à pessoa a realização de
um escopo reconhecido (= interesses protegido) e lhe reconhece, para isso, um poder jurídico (=
poder da vontade).

21
Teoria Geral do Direito Civil

 Assistiu-se, tão-somente a um somatório ou justaposição desses termos, bem presentes na definição


preconizada. Assim, a noção regelsbergiana não traduz um salto qualitativo, antes acumulando, em
si, os inconvenientes das proposições que utilizou.

Prof. Menezes Cordeiro

Critica a Savigny:
O dto subjectivo não pode se definido como um poder de vontade: há dtos sem vontade, enquanto o
termo “poder”, tendo um sentido técnico preciso não deve confundir-se com o “dto”.
Toda a juridificaçao é imposta, não resultando dos sujeitos entre si. O dogma da vontade não
corresponde à verdade antropológica e existencial.

Critica a Jhering
Não se deve identificar dto subjectivo e interesse. Em múltiplas situações, há dtos subjectivos, validos e
eficazes, que não correspondem a interesses objectivos ou subjectivos: o proprietário de coisa deteriorada
não deixa de ter esse dto e a correspondente protecção.

Critica a Regelsberger
Acumulando o essencial de Savigny e Jhering, sujeita-se às criticas a ambos dirigidas. Alem disso, deve-se-
-lhe censurar a natureza verbal do compromisso ensaiado e a nocividade dos desenvolvimentos linguísticos
com os quais se intentou ladear a critica em perspectiva.

Doutrinas do séc. XX:

 Negativistas: intentam proscrever o dto subjectivo, substituindo-o por outra ou outras figuras.
 Proteccionistas: procuram reduzir o dto subjectivo à tutela proporcionada pelo Dto.
 Neo-empiricas: pretendem reconhecer a impossibilidade de uma definição capaz, apelando, então, à
mera descrição das figuras susceptíveis de o integrar.

Criticas:

Posição negativita: o dto subjectivo não é uma simples construção técnica: ele tem um nível significativo-
ideologico profundo. No dto subjectivo joga-se um modo de pensar próprio do sistema cultural do Ocidente
e não, apenas, uma conjunção jurídica. O dto subjectivo deve ser preservado, na precisa medida em que a
cultura que o suporta o deva, também, ser.

Posição proteccionista: o proteccionista postula, no Dto, sempre ou em primeira linha, medidas de


protecção jurisdicional ou, pois disso no fundo se trata, de coacção. Ora, na grande maioria dos casos, tudo
se passa sem necessidade de intervenção dos tribunais e, menos ainda, sem qualquer aplicação, pela força, de
sanções.

Posição neo-empirista: o neo-empirismo traduz desde logo um retrocesso. Ainda que complexa, a situação,
no que toca ao dto subjectivo, não surge desesperada ao ponto de se deverem ignorar gerações de estudiosos
que dedicaram esforços à sua reformulação.

Solução preconizada

 Mais importante é descobrir o sentido de uma evolução, os seus factores e a sua concatenação,
passada, presente e futura.
 O dto subjectivo é sentido, na nossa cultura, não como uma mera instrumentação técnica, a
manipular pelos juristas, mas antes como uma vantagem pessoal, a conquistar, preservar e defender.

22
Teoria Geral do Direito Civil

 Dto subjectivo  permissão normativa específica de aproveitamento de um bem.

o O dto subjectivo é sempre técnico: traduz a presença, no seu âmbito, de uma linguagem clara
e eficiente, que permita percorrer a via que, à fonte, liga o caso concreto.
o O dto subjectivo é significativo-ideológico: traduz a projecção, também nesse âmbito, da
competente fenomenologia social subjuridica.

“permissão”  ideia de liberdade


“normativa”  resulta de uma norma permissiva
“especifica”  contrapõe-se com a genérica a que se aplicam as liberdade
genéricas
“aproveitamento de um bem”  todas as vantagens que se retiram de um bem

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# 22
As modalidades de dto subjectivo

 Dto subjectivo comum: traduz-se numa permissão específica de aproveitamento de um bem; deriva
da incidência de uma norma permissiva;
Ex.: dto de propriedade

 Dto potestativo: implica um poder de alterar, unilateralmente, através de uma manifestação de


vontade, a ordem jurídica; é fruto de uma norma que confere um poder;
Ex.: dto de aceitar proposta contratual

Modalidades quanto ao objecto (bem de cujo aproveitamento nele se trate):

 Bens patrimoniais: os que tendo natureza económica, sejam avaliáveis em dinheiro


o Corpóreos
o Incorporeaos
o Bens intelectuais
o Prestações
o Realidades jurídicas

 Bens não patrimoniais: quando não tenha natureza económica, nem se exprimam, à partida em
dinheiro.
o Pessoais
o Familiares

Modalidades quanto ao regime

 Dtos de crédito
 Dtos reais
 Dtos de família
 Dtos das sucessões

…………………………………………………………………………………………………………………...

#23
Outras situações activas

23
Teoria Geral do Direito Civil

 Permissões genéricas (liberdades)  permissão genérica de actuação (não há um bem para


aproveitar) ≠ dto subjectivo

 Poderes: Gomes da silva – disponibilidade de meios para a obtenção de fins. Realidade analítica.

 Faculdades: conjunto de poderes/outras posições activas unificadas sobre uma designação comum.
Realidade compreensível.
Ex.: art. 1305º CC – os “dtos” de uso, fruição e disposição são na verdade faculdades.

 Expectativas: factos jurídicos complexos de produção sucessiva (expectativa de produção final)


Têm protecção jurídica? Depende da expectativa. Nalgumas situações sim, correspondendo a dtos
subjectivos; noutras situações não, em que as expectativas assentam em meras eventualidades (ex.:
jogar na lotaria).

 Poderes funcionais (poderes-deveres)  obrigação especifica de aproveitamento de um bem (ex.:


poder paternal).

 Excepção: situação jurídica pela qual a pessoa adstrita a um dever pode, licitamente, recusar a
efectivação da pretensão correspondente. (ex.: excepção do não cumprimento do contrato civil).
o Excepções fortes
 Peremptória (ex.: prescrição)
 Dilatória (ex.: beneficio de discussão previa)
o Excepção fraca (ex.: art. 428º CC)

…………………………………………………………………………………………………………………...

#24
Situações passivas

 Obrigação: situação passiva de base, compreensiva, equivalente, de certo modo, ao dto subjectivo.
o Art. 397º CC – “a obrigação é o vínculo jurídico por virtude do qual uma pessoa fica
adstrita para com outra à realização de uma prestação”

 Dever de efectuar a prestação principal


 Dever de efectuar as prestações secundárias (prestações acordadas para
complementar a principal)
 Deveres acessórios

 Dever: situação analítica passiva de base, o dever traduz a incidência de normas de conduta:
impositivas ou proibitivas. A pessoa adstrita a um dever encontra-se na necessidade jurídica de
praticar ou de não praticar certo facto.
Em regras, uma obrigação pode decompor-se em múltiplos deveres.

 Obrigações e deveres quanto ao seu objecto (a conduta devida ou prestação)


o Obrigação de dare – o adstrito deve entregar uma coisa a outrem;
o Obrigação de facere – o adstrito deve desenvolver uma actividade em prol de outrem;
o Obrigação de non facere – deve-se abster de certa actuação;
o Obrigação de pati ou suportação – deve-se sofrer que alguém desenvolva, na sua esfera, uma
actividade que, em principio, não poderia ter lugar.

 Sujeições: situações jurídicas passivas correspondentes aos dtos potestativos. Esta numa sujeição a
pessoa que possa ver a sua posição alterada por outrem, unilateralmente.
Ex.: proponente contratual.

24
Teoria Geral do Direito Civil

 Ónus: situação na qual alguém deva adoptar certa atitude, caso pretenda obter certo efeito. O ónus
não é um dever: por via dele não há que adoptar uma certa conduta, porque o resultado por ele
propiciado é facultativo.
O ónus assenta numa permissão: permissão essa que, a não ser actuada num certo sentido, conduz a
consequências desagradáveis para o destinatário da mesma, ainda que não assimiláveis a sanções.

 Deveres genéricos: deveres genéricos são situações jurídicas passivas que se traduzem em posições
absolutas, isto é, sem relação jurídica.
O facto de o dever genérico não ter como correspectivo um dto subjectivo explica a sua
generalidade: elas não dão lugar a comportamentos que possa, exclusivamente, ser exigidos por um
sujeito a outro. Uma generalidade de pessoas pode, verificadas as competentes condições, exigir a
observância a uma generalidade de outras.

 Deveres funcionais: traduzem situações passivas nas quais uma pessoa que se encontre, por força
da sua presença, em determinada posição.
Os comportamentos que o dever funcional postule podem, directamente, ser exigidos por certas
pessoas.
Os deveres funcionais não tem, ou não tem necessariamente, uma especifica fonte, antes surgindo
com a simples ocorrência do condicionalismo funcional donde promanem.

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CAPITULO VI

#25
Institutos civis

 Institutos civis: conjunto de normas e princípios que permitem a formação típica de modelos de
decisão.

 Institutos civis mais relevantes do actual Dto positivo português:

o Personalidade e a sua tutela


o Autonomia privada
o Boa fé
o Imputação de danos
o A propriedade e a transmissão

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#26
A personalidade e a sua tutela

O Dto, enquanto fenómeno histórico e cultural, é uma criação humana, no mais largo sentido dessa
ideia, surge como obra humana, é utilizado por pessoas, serve os seus interesses e os seus fins e sofre as
vicissitudes que Humanidade lhe queira imprimir.

Pessoa = centro de imputação de normas jurídicas.

1. Eficácia civil dos dtos fundamentais


Os dtos fundamentais são posições jurídicas atribuídas pela Constituição, com particular solenidade
– critério da fonte da sua atribuição. Diferem dos:
 Dtos de personalidade (critério do objecto)
 Dtos originários (critério da pré-positividade)
 Dtos do homem (critério da titularidade)
 Dtos pessoalíssimos (critério da intransmissibilidade)

25
Teoria Geral do Direito Civil

 Dtos pessoas (critério da patrimonialidade)

Adequação axiológica: os dtos fundamentais não acautelam, somente, certos valores; antes o fazem por
forma adequada ou, noutro prisma, perante violações que eles consideram adequadas, apenas nessa dimensão
eles podem surtir efeitos civis. Apenas nessa dimensão eles podem surtir efeitos civis. Por exemplo, a recusa
em celebrar um contrato pode por em perigo a vida ou a integridade da outra parte; mas o dto à vida, como
fundamental que é, não exige, aqui, a celebração do contrato (em principio) por não haver adequação
axiológica em tal dimensão.

Adequação funcional: obriga a atinar as próprias violações em si: também estas podem situar-se no termo de
funções estranhas ao dto fundamental considerado, quer por conflitos de deveres em que este ceda (ex.:
soldade na guerra pode matar e, provavelmente, deverá mesmo faze-lo) quer por simples alheamento ou
desconexão (ex.: pessoa que professasse uma religião que proibisse o trabalho não poderia, legitimamente,
receber sem trabalhar, em nome da liberdade de consciência)

***

2. Responsabilidade patrimonial: conjunto de normas que levam que pelo incumprimento das obrigações
responda o património do devedor.
Nas sociedade primitivas, perante o incumprimento de deveres, a posição mais simples consistiria
em fazer sofrer o responsável, seja como modo de o levar a cumprir (efeito compulsório), seja a titulo de
mera retorção (efeito retributivo). Justiça privada e suportação pessoas das consequências do incumprimento
seriam pois as antigas regras vigentes na matéria.
Na actualidade prevalece o regime da responsabilidade patrimonial. O devedor que não cumpra as
suas obrigações apenas se sujeita a que sejam apreendidos bens seus – os bens penhoráveis – os quais serão
vendidos para satisfação dos credores. Se tais bens não existirem ou forem insuficientes, haverá rateio,
ficando todos prejudicados por igual.
Ninguém pode ser fisicamente obrigado a fazer seja o que for, no Dto civil, apenas o património de
cada um responde pela prevaricações – se existir e na medida das suas forças – Grande progresso histórico
no domínio do reconhecimento da personalidade humana e da sua tutela.

3. Danos morais: o dano corresponde à supressão de uma vantagem, actual ou previsível, atribuída pelo Dto.
O dano moral corresponderia à supressão de vantagens não patrimoniais.
A ressarcibilidade dos danos morais provocou duvidas serias ao longo da Historia. Numa evolução
que pode ser seguida nas diversas ordens jurídicas, é hoje seguro que os danos morais dão lugar a
indemnização, ainda que com um alcance meramente compensatório. A tutela da pessoa assim o exige.

4. A família: traduz, em Dto, um conjunto de situações relativas a pessoas ligadas entre si por casamento,
parentesco, afinidade e adopção – art. 1576º CC.
A família constitui um alargamento primordial das esferas das pessoas. Um reconhecimento da
personalidade humana sem o da família não seria possível; impõe-se, pois, a conexão.

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# 27
A autonomia privada

Autonomia privada

o Em sentido amplo: espaço de liberdade reconhecido a cada um dentro da ordem jurídica:


engloba tudo quanto as pessoas podem fazer, num prisma material ou num prisma jurídico.
o Em sentido restrito: espaço de liberdade jurígena, isto é, área reservada na qual as pessoas
podem desenvolver as actividades jurídicas que entenderem.

- A autonomia privada corresponde assim a um espaço de liberdade jurígena atribuído, pelo Dto, às pessoas,
podendo definir-se como uma permissão genérica de produção de efeitos jurídicos.

26
Teoria Geral do Direito Civil

 O acto voluntário pode enquadrar-se perante duas situações permissivas distintas:

o Liberdade de celebração: autonomia privada permite praticar ou não praticar o acto e,


portanto, optar pela presença ou pela ausência de determinados efeitos de Dto, a ele
associados.
o Liberdade de estipulação: autonomia privada permite optar pela prática do acto e, ainda,
seleccionar, para além da sua presença, o tipo de efeitos que se irão produzir.

 Acto jurídico em sentido estrito – há liberdade de celebração; não há liberdade de estipulação;


 Negócio jurídico – há liberdade de celebração e há liberdade de estipulação.

 Autonomia privada em termos:

o Formais: corresponde à impossibilidade em que se encontra o Dto de prever todos os efeitos


concretos.
o Materiais: autonomia privada liga-se a certas liberdades económicas fundamentais, como
sejam a de trabalho e a de empresa

 Autonomia pela:

o Pela positiva: liberdade de agir


o Pela negativa: defesa contra intromissões exteriores.

 Áreas de incidência:
o Dto das Obrigações: domínio por excelência da autonomia privada – art 405º CC
o Dto da personalidade: dois limites: respeito pela ordem pública (art.81º/1), as limitações
voluntárias são smp revogáveis (art. 81º/2)
o Dtos Reais: há liberdade de celebração; não há liberdade de estipulação (art.1318º CC)
o Dto da Família: há liberdade de celebração; não há liberdade de estipulação
o Dto das Sucessões: menor influencia da autonomia privada.

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# 28
A Boa Fé

 O Dto romano assentava em acções. Nele, o protótipo da situação jurídica activida era protagonizado
não por um dto subjectivo, mas por uma actio: a pessoa que pretendesse uma tutela jurídica dirigia-
se ao pretor e solicitava uma acção. Em casos particulares o pretor veio conceder acções sem base
legal expressa, assentes, simplesmentes na fides, precedida do adjectivo Bom:a Bona fides ou boa fé.

 No Dto canónico era conferida á boa fé, tonalidades +éticas que se podem exprimir equiparando-a à
ausência de pecaso. A boa fé não implica só ignorância: exige ausência de censura.

 No espaço jurídico português, o Código de Vez Serra veio:


o Consagrar a boa fé subjectiva de feição românica e tradicional;
o Consagrar a boa fé objectiva, de origem românico-germanica, dinamizada pela III
sistemática e evolução subsequente;
o Referenciar, expressamente, vários institutos alcançados apenas por via cientifica e
jurisprudencial, assente na boa fé.

 A boa fé traduz, até aos confins da periferia jurídica, os valores fundamentais do sistema; e ela
carreia, para o núcleo do sistema, as necessidades e as soluções sentidas e encontradas naquela
mesma periferia.

27
Teoria Geral do Direito Civil

 Boa fé subjectiva: está em causa um estado do sujeito, esse estado é caracterizado, pela lei
portuguesa, ora como um mero desconhecimento ou ignorância de certos factos, ora como um seu
desconhecimento sem culpa ou uma ignorância desculpável, ora pela consciência de determinados
factores.

 Boa fé objectiva: remete para princípios, regras, ditames ou limites por ela comunicados ou,
simplesmente, para um modo de actuação dito de “boa fé”: arts 3º/1, 227º/1, 272º, 334º, 437º/1 e
762º/2, respectivamente. A boa fé actual como uma regra imposta do exterior e que as pessoas
devem observar.
Nalguns casos, a boa fé surge como um correctivo de normas susceptíveis de comportar uma
aplicação contrária ao sistema; noutros, ela surge como a única norma atendível. Em todos eles,
todavia, ela concretiza-se em regras de actuação.

A boa fé objectiva concretiza-se, essencialmente, em cinco institutos:

o Culpa in contrahendo: art. 227º/1 – Rudolf von Jhering – antes da formação do


contrato, as partes já têm diversos deveres a respeitar e, designadamente, deveres de
protecção, de lealdade e de informação. Tais deveres visam prevenir que, nessa fase
pré-contratual, alguma das partes possa atingir a confiança da outra, provocando-lhe
danos. Alem disso, eles recordam que a negociação contratual, embora livre, não deve
ser usada para fins danosos, alheios às finalidades em jogo: a de procurar a eventual
celebração de um contrato.

o Integração dos negócios: art., 239º - desenvolveu-se através de situação em que as


regras de interpretação negocial enfrentaram uma especial escassez
material expressamente subscrito pelas partes – o interprete-
aplicador devera ter em conta a lógica imanente ao negocio e as
exigências substanciais do sistema, de acordo com as expectativas
que as partes tenham, legitimamente, depositado no processo.
o Abuso do dto: art. 334

o Modificação dos contratos por alteração das circunstancias: art., 437º/1 – este instituto
permite, em certas condições, modificar ou resolver contratos que,
mercê de alterações registadas após a sua conclusão, venham a
assumir feições injustas para alguma das partes.

o Complexidade das obrigações: art., 762º/2 – advém da junção dos institutos da violação
positiva do contrato e a ideia da obrigação como uma estrutura complexa. A
complexidade das obrigações promove, a propósito de cada vinculo, um conjunto de
deveres de protecção, de lealdade e de informação que asseguram, nesse nível, a tutela
da confiança das partes e do principio de que, em qualquer caso, prevalecem os
interesses reais protegidos do credor.

Em todos estes institutos afloram dois princípios: o principio da tutela da confiança e o principio da
primazia da materialidade subjacente.

28
Teoria Geral do Direito Civil

1. A tutela da confiança

 No Dto português vigente a protecção da confiança efectiva-se por duas vias:

o Através de disposições legais especificas: surgem quando o Dto retrate situações típicas
nas quais uma pessoa que, legitimamente, acredita em certo estado de coisas – ou o
desconheça – receba uma vantagem que, de outro modo, não lhe seria reconhecida.

o Através de institutos gerais: os institutos gerais susceptíveis de proteger a confiança


aparecem ligados aos valores fundamentais da ordem jurídica e surgem associados a uma
regra objectiva da boa fé.

 Pressupostos da protecção jurídica da confiança:

o Uma situação de confiança: traduz-se na boa fé subjectiva e ética, própria da pessoa que,
sem violar os deveres de cuidado que ao caso caibam, ignore estar a lesar posições
alheias.
o Uma justificação para essa confiança: requer que esta se tenha alicerçado em elementos
razoáveis, susceptíveis de provocar a adesão de uma pessoa normal;
o Um investimento de confiança consistente: exige que a pessoa a proteger tenha
desenvolvido toda uma actuação baseada na própria confiança, actuação essa que não
possa ser desfeita sem prejuízos inadmissíveis; isto é: uma confiança puramente interior,
que não desse lugar a comportamentos, não requer protecção.
o A imputação da confiança: implica a existência de um autor a quem se deva a entrega
confiando do tutelado. Ao proteger-se a confiança de uma pessoa vai-se, em regra, onerar
outra; isso implica que esta outra seja, de algum modo, a responsável pela situação criada

Os requisitos para a protecção da confiança articulam-se entre si nos termos de um sistema móvel – não há
entre eles uma hierarquia e não são, em absoluto, indispensáveis falta de alguns deles pode ser compensada
pela intensidade especial que assumam alguns dos restantes.

2. A primazia da materialidade subjacente

O Dto visa, através dos seus preceitos, a obtenção de certas soluções efectivas; torna-se, assim,
insuficiente a adopção de condutas que apenas na forma correspondam aos objectivos jurídicos, descurando-
as, na realidade, num plano material. A boa fé exige que os exercícios jurídicos sejam avaliados em termos
materiais, de acordo com as efectivas consequências que acarretem.

Ex. de comportamento contrario á boa fé: devedor que, obrigado a colocar determinada quantidade de tijolos
num prédio do credor, os descarrega no fundo de um poço: ainda quando o local da entrega ficasse ao
critério do devedor, deve entender-se que a opção não poderia ser feita em termos danosamente inúteis.

 Três grandes vias de realização do principio da primazia da materialidade subjacente:


o Conformidade material: no exercício de posições jurídicas têm que se realizar,
efectivamente, os valores pretendidos pelo ordenamento: não, apenas, o ritualismo exterior.
o Idoneidade valorativa: sistema não admitiria qu alguém utilize a própria situações jurídica
que tenha violado para, em função do seu ilícito, tirar partido contra outrem (ex.: art. 1334º
CC).
o Equilíbrio no exercício das posições: permanente necessidade de sindicar, à luz da
globalidade do sistema, as diversas condutas, mesmo permitidas. Dois tipos de posturas
vedadas pela boa fé:
 Acto emulativo: actuação gratuitamente danosa para outrem (ex.: chaminé
falsa de Colmar);

29
Teoria Geral do Direito Civil

 Actuação gravemente desequilibrada: conduta que, para conseguir uma


vantagem mínima para o próprio, gere um dano máximo para outrem.

***

- arts. 437º, 239º, 762º, 227º CC – cabe ao sistema, as zonas jurídicas em que o atendimento a esses valores
é defensável. E fora dessas áreas? É atendível a Boa fé?  Em qualquer área do Dto civil/ Dto, é de atender
à Boa fé. Razoes:
- Os valores do sistema estão presentes em cada parcela do sistema;
- Carácter transversal do art. 334º CC (abuso do dto): aplica-se a qualquer situação jurídica activa e às
normas 6 proibitivas e impositivas – normas implicitamente permissivas (não se está a atribuir dtos
subjectivos)  Quaisquer normas jurídicas do dto português estão sujeitas ao art., 334º CC

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#29
A imputação de danos

 Dano: traduz-se na supressão ou diminuição duma situação favorável que estava protegida pelo
ordenamento.
o Danos morais e danos patrimoniais;
o Danos lícitos e danos ilícitos;
o Danos naturais e danos humanos;
o Danos ressarcíveis e danos compensáveis;
o Danos emergentes e lucros cessantes.

 Regra básica: suportação dos danos pela própria esfera onde ocorram. Cada um corre o risco de ver
suprimidas as vantagens que antes lhe coubessem. Porquê esta regra? Dupla justificação:
o Em termos práticos: corresponde á natureza das coisas e faculta uma solução rápida e eficaz
para a sua problemática;
o Em termos valorativos: corresponde, em geral, á solução mais justa. Qualquer dano
pressupõe a atribuição prévia de uma vantagem: fazer correr o risco por quem não tenha tido
o benefício das vantagens, enquanto elas existam, seria uma fórmula maior de injustiça.

 Vectores de alteração do instituto:


o Passou de indicação pontual de factos que acarretam responsabilidade civil para clausulas
gerais – art. 483º CC;
o Passou da associação entre responsabilidade civil e pratica de acto ilícito para a
responsabilidade civil por actos não exclusivamente ilícitos;
o Passou de responsabilidade civil com cariz punitivo para responsabilidade de cariz
substitutivo/reconstitutivo.

30
Teoria Geral do Direito Civil

Actuais títulos de imputação de danos

1. Imputação de danos por facto ilícito – responsabilidade subjectiva

a. Responsabilidade delitual: quando alguém, ilicitamente e com culpa, viole um direito


alheio ou uma disposição destinada a proteger os seus interesses – art. 483º/1 CC
b. Responsabilidade contratual/obrigacional/por incumprimento: quando o dto violado é um
dever de crédito – art. 798º CC

Ilicitude: o dano deve ser provocado em violação a normas jurídicas e sem que
ocorra uma causa de justificação (por ex. a legitima defesa);
Culpa: a acção deve assentar numa tal relação de meios-fins que o agente incorra
num juízo de censura:
- Seja por ter pretendido directa, necessária ou eventualmente atingir as
normas violadas – dolo;
- Seja por não ter pretendido pautar-se pelos deveres de cuidado que ao
caso caibam – negligência.

2. Imputação de danos pelo risco – responsabilidade objectiva


Tem lugar quando o Dto faça correr por determinada esfera a eventualidade de danos
registados em esferas diferentes; independentemente de qualquer facto ilícito, tal só sucederá em
situações previstas na lei com esse efeito – art. 483º/2
Em regra, as imputações pelo risco jogam contra o beneficiário de meios perigosos.
De natureza excepcional, no início, as imputações pelo risco devem hoje ser apresentadas
como desvios à regra de suportação dos danos nas esferas onde ocorram, e nada mais.

3. Imputação de danos por factos lícitos ou pelo sacrifício – art. 339º/2, 2ª parte CC
Ex.: art. 1322º CC

***

Pressupostos da responsabilidade civil

o Acto: positivo (acção) ou negativo (omissão);


o Ilicitude: desconformidade com a ordem jurídica;
o Culpa: juízo de censura pelo ordenamento;
o Nexo de causalidade
o Dano

Ilicitude pode resultar de:


o Violação de dtos subjectivos
o Violação de disposições legais com vista à protecção do interesse de terceiro;
o Abuso do dto – art. 334º CC

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# 30
A propriedade e a sua transmissão

 Noção de propriedade:
o Em sentido amplo: conjunto dos dtos patrimoniais privados (ex.: art. 62º/1 CRP)
o Em sentido estrito: permissão normativa plena e exclusiva de aproveitamento de uma coisa
corpórea.

31
Teoria Geral do Direito Civil

 Justificação da propriedade – 2 esquemas


o A ocupação: faculta a apropriação a quem se aposse de bens sem dono;
o O trabalho: permite-a àquele que, pelo seu labor, produza novos bens.

 Faculdades clássicas atribuídas ao proprietário – art. 1305º CC


o Faculdades de uso: utilização da coisa;
o Faculdades de fruição: possibilidade de, sobre ela, desenvolver actividades produtivas;
o Faculdades de disposição: natureza permissiva do conjunto e possibilidade da sua
transmissão.

 Aspectos marcantes do dto de propriedade


o Disponibilidade: o seu exercício fica na disponibilidade do sujeito, que pode renunciar à sua
posição, remitir a dívida, abandonar a coisa…nos limites ele poderá transformar o objecto
do seu dto ou mesmo destruí-lo;
o Transmissibilidade: a transmissão equivale à possibilidade de usar os bens enquanto valores
de troca, fazendo-os circular na sociedade, seja onerosa, seja gratuitamente.

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PARTE II

NEGÓCIO JURÍDICO

CAPITULO I

ACÇÕES E FACTOS JURIDICOS

# 31
Eficácia jurídica

 Eficácia jurídica: sempre que se verifiquem determinadas consequências nas quais, através de
critérios reconhecidos seja possível apontar as características da juridicidade. As consequências
juridicamente relevantes são sempre respeitantes a pessoas: sem Humanidade, não há Cultura, não há
Ciência e logo Direito.

 Situação jurídica: resulta de uma decisão jurídica, ou seja, assume-se como o acto e o efeitos de
realizar o Dto, solucionando um caso concreto.

 Decisão jurídica: é uma decisão humana, em sentido congnitivo-volitivo: implica Ciência – ou seria
arbitrária – implica opção – ou surgiria automática

A eficácia jurídica resulta de modelos de decisão, emergindo estes dos factores que componham um regime
jurídico-positivo aplicável – a eficácia jurídica é p produto da aplicação de regras jurídicas (normas ou
princípios)

 Eficácia pode ser:


o Constitutiva – art. 1263º/a) CC
o Transmissiva – art. 879º/a) CC
o Modificativa – art. 288º CC
o Extintiva

32
Teoria Geral do Direito Civil

Transmissão: verifica-se a passagem de uma situação jurídica da esfera de uma pessoas, para a de outra. Na
transmissão, a situação transferida poderia sofrer certas alterações de elementos circundantes.

Sucessão: ocorre a substituição de uma pessoas por outra, mantendo-se estática uma situação jurídica a qual,
por isso, estando inicialmente na esfera da pessoa, surge, depois da troca, na de outra. Na sucessão a situação
manter-se-ia totalmente idêntica.

 Natureza da eficácia
o Eficácia pessoal: quando a situação jurídica que se constitua, transmita, modifique ou
extinga não tenha natureza patrimonial;
o Eficácia obrigacional: sempre que alguma dessas quatro vicissitudes se reporte a situação
obrigacionais;
o Eficácia real: quando tal ocorra perante situações próprias de coisas corpóreas.

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#32
Factos, acções e negócios jurídicos

 Facto jurídico: evento ao qual o Dto associo determinados efeitos. O facto jurídico apresenta-se
como a realidade apta a, integrando uma previsão normativa, desencadear a sua estatuição – sentido
amplo.
 Facto jurídico stricto sensu: não tem intervenção do ser humano ou, pelo menos,
não voluntária (ex.: raio)

 Acto jurídico lato sensu: há vontade humana

o Acto stricto sensu: liberdade de celebração


o Negócio jurídico: há liberdade de celebração e há liberdade de
estipulação.

 Paulo cunha: as regras aplicáveis ao negócio e ao acto jurídico são diferentes, uma vez que a
liberdade de estipulação, simples no conteúdo e, sobretudo, nas consequências, conduz à aplicação
de múltiplas normas e princípios jurídico.

 Teoria de acção final ou finalismo: a acção humana não pode ser entendida como puramente
causal, no sentido do agente provocar, de forma mecânica, determinadas alterações no mundo
exterior: a acção é final porque o agente, consubstanciando previamente o fim que visa atingir põe,
na prossecução deste, as suas possibilidades.
Na acção humana, há uma prefiguração do fim que determina para o alcançar e os meios para tanto
seleccionados: o próprio fim é a ”causa”.

 Actos lícitos: o acto é licito quando se processe ao abrigo de uma permissão especifica, de uma
permissão genérica ou, simplesmente, quando seja irrelevante para o Dto (ex.: exercício de um dto
subjectivo)
O acto lícito acabará por ser aquele que não contrarie o Dto, isto é, que não seja proibido, directa ou
indirectamente.

 Actos ilícitos: correspondem a comportamentos humanos desconformes com o Dto, por implicarem
actuações proibidas ou por redundarem no não acatamento de atitudes prescritas.
A ilicitude pode provocar um juízo jurídico de censura: a culpa.

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33
Teoria Geral do Direito Civil

#33
Modalidades de negócios jurídicos

 A diferença entre negócios unilaterais e os negócios multilaterais, contratos, repousa nos efeitos
que venham a ser desencadeados:
o Nos negócios unilaterais, os efeitos não diferenciam as pessoas que, eventualmente neles
tenham intervindo; por isso tende, neles, a haver uma única pessoas, uma única declaração
ou um único interesse;
o Nos contratos, os efeitos diferenciam duas ou mais pessoas; tendem a surgir várias
declarações, varias pessoas e vários interesses.

Negócios unilaterais:
o Negocio conjunto: várias pessoas são titulares de posições jurídicas que só podem ser
actuadas no seu conjunto, por todas elas, em unanimidade;
o Deliberação: várias pessoas são titulares de posições jurídicas confluentes que não
têm que ser unânimes, prevalecendo a posição maioritária.

Contratos:
o Contratos sinalagmáticos ou não sinalagmáticos: consoante dêem lugar a obrigações
recíprocas, ficando as partes, em simultâneo, na situação de credores e devedores ou,
pelo contrário, apenas facultem uma prestação;
o Contratos monovinculantes (art. 411º CC) ou bivinculates: conforme apenas uma das
partes fique vinculada ou ambas sejam colocadas nessa situação.

 Negócios inter vivos: destinam-se a produzir efeitos em vida dos seus celebrantes
Negócios mortis causa: destinam-se a produzir efeitos depois da morte do seu autor.

 Negócios consensuais: negócios que, por não caírem sob a estatuiçao de normas cominadoras de
forma especial sejam susceptíveis de conclusão por simples consenso.
Negócios formais: negócios para cuja conclusão a lei exija determinado ritual na exteriorização da
vontade.

 Negócios reais quoad constitution: negócio so existe quando há entrega de uma coisa, quando há a
tradição dessa coisa (ex.: doação de um bem móvel, penhor, contrato de mutuo, contrato de
deposito…)
Negócios reais quoad effectum: negócios que produzem efeitos de dtos reais (ex.: contrato de
compra e venda).

 Negócios causais: quando tem de ser acompanhada da sua fonte


Negócios abstractos: não têm que ser acompanhados da sua fonte (ex.: no dto comercial – títulos de
credito)

 Negócios típicos: aqueles cujos aspectos fundamentais estão na lei;


Negócios atípicos: engendrados pelas partes

 Negócios nominados: têm nome na lei. Normalmente é típico, mas nem sempre (art. 755º CC, não
tem regime)
Negócios inominados: não têm nome na lei. Atípicos.

 Negócios onerosos: aqueles que implicam esforço económico para ambas as partes;
Negócios gratuitos: esforço económico só para uma das partes (ex.: doação)

 Negócios de administração: autor do negócio procede à modificação secundária de uma


determinada situação jurídica (ex.: arrendamento)
Negócios de disposição: põe em causa a situação jurídica (ex.: venda)

34
Teoria Geral do Direito Civil

#34
Actos jurídicos em sentido estrito

 Os actos jurídicos em sentido estrito correspondem a uma forma menos elevada do exercício da
autonomia privada – ausência de liberdade de estipulação.
 Aos actos jurídicos em sentido estrito aplicam-se, na medida do possível, as regras respeitantes ao
negócio jurídico; tal o regime defendido pela doutrina e consagrado no art. 295ºCC.

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#35
Elementos e pressupostos negociais

Orientações da escola de Lisboa

Paulo Cunha – quatro elementos dos negócio jurídico:

1. Elementos necessários: os que a lei exija para a validade de todo e qualquer acto jurídico.
i. Elementos essenciais: sem os quais não há negócio;
ii. Elementos habilitantes: requeridos para a total validade do negócio.

2. Elementos específicos: requeridos para cada tipo de acto;


3. Elementos naturais: a lei estabelece-os para, supletivamente, servirem os diversos tipos
negociais, de acordo com a sua natureza.
4. Elementos acidentais: abrangem os introduzidos, em cada caso, pela vontade das
partes
i. elementos típicos
ii. elementos variáveis.

Prof. Menezes Cordeiro: pressupostos (exteriores ao negocio) ≠ elementos (normas e princípios aplicáveis
mercê da existência de negocio jurídico)

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CAPITULO II

A FORMAÇÃO DO NEGOCIO JURIDICO

#36
O processo negocial

Formação dos negócios jurídicos


 Pressupõe uma declaração de vontade;
 Decorre como se fosse um processo – sequencia de actos necessários para a obtenção de um fim;
 Técnica de contratação – fases eventuais:
o Obtenção de informações
o Borrão “draft” de projecto de contrato;
o Aplicação hipotética do contrato;
o Concretização de critérios de decisão
o Superação de conflitos de objectivos;

35
Teoria Geral do Direito Civil

o Negociações contratuais;
o Instrução e aconselhamento;
o Elaboração do documento contratual

Processos típicos: procedimentos com sede legal e, ainda aqueles que são habitualmente adoptados pelas
partes interessadas (tipicidade social); são atípicos todos os demais.

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#37
Regras nas negociações e CULPA IN CONTRAHENDO

No período anterior à da efectiva conclusão do contrato existem já algumas regras a observar ou, pelo
contrário, as partes são totalmente livres?
A tendência actual vai no sentido de afirmar a existência de regras, ainda que mantendo a liberdade
fundamental das partes.

Regras jurídicas de negociação:

 Regras contratuais: resultantes do facto das partes terem decidido concluir pactos preparatórios –
perante pactos preparatórios, as partes ficam vinculadas.
 Regras legais específicas
 Regras legais gerais: o dever de proceder segundo as regras da boa fé – art., 227º/1 CC.

A descoberta de von Jhering: na presença de contratos nulos por anomalias ocorridas na sua formação,
podem ocorrer dados cujo não-ressarcimento seja injusto. Perante tal situação, o responsável, por via das
regras gerais sobre danos e culpa, deveria indemnizar pelo interesse contratual negativo, colocando o
prejudicado na situação em que ele se encontraria se nunca tivesse havido negociações e contrato nulo.

O papel do instituto da culpa in contrahendo

1. Destina-se a permitir o ressarcimento de danos causados, na fase pré-contratual, a pessoas ou a


bens:
 Deveres de segurança: as partes devem providenciar para que, nas negociações, ninguém
sofra danos, seja nas suas saúde ou integridade física, seja no seu património.

2. Visa a circulação, entre as partes, de todas as informações necessárias para a contratação:


 Deveres de informação pré-contratuais: as partes têm que trocas todas as informações
necessárias para a boa contratação.

3. Liga-se, de modo mais directo, à própria actuação das partes:


 Deveres de lealdade: as partes não pode, in contrahendo, adoptar comportamentos que se
desviem da procura, ainda que eventual, de um contrato, nem assumir atitudes que induzam em
erro ou provoquem danos injustificados.

4. Assume o papel de assegurar, nos preliminares contratuais, o respeito pelos valores gerais da
ordem jurídica que, no caso considerado, aspirem a uma concretização:
 Boa fé
a. Tutela da confiança: na fase de preparação dos contratos, as partes nam devem suscitar
situações de confiança que, depois, venham a frustrar;
b. Primazia da materialidade subjacente: a negociação emulativa, dilatória, chicaneira ou, a
qualquer outro titulo, estranha à autonomia privada é contraria à boa fé.

36
Teoria Geral do Direito Civil

5. Protecção da parte fraca – protecção do contratante débil: o contratante que, por razoes
económicas ou de conhecimento, se deva considerar inferiorizado, tem como que o dto, na fase
preliminar, a um esclarecimento e a uma lealdade acrescidos; quando os correspondentes deveres
não sejam acatados, há responsabilidade por inobservância da boa fé.

 A violação in contrahendo, no Dto português , tem natureza obrigacional – art. 227º/1 CC comina
concretos deveres de protecção, de lealdade e de informação – existe um dever especifico de
cumprimento, sendo justo que, não se verificando este, ao devedor caiba explicar como e porque.

Prof. Menezes Cordeiro: A indemnização a arbitrar por culpa in contrahendo deve abranger tanto o
interesse negativo (despesas e perdas provocadas pelas negociações malogradas) como o interesse
positivo em causa (ganho que derivaria do contrato)

…………………………………………………………………………………………………………………...

#38
Actos preparatórios

 Actos preparatórios: todos os actos que, inserindo-se pelo seu objectivo no processo de formação do
contrato, não possam reconduzir-se à proposta, à aceitação ou à rejeição.

a. Actos preparatórios materiais: implicam a alteração da realidade que nos rodeia


b. Actos preparatórios jurídicos: implicam actividades de puro significado jurídico.

c. Actos preparatórios típicos: definidos na lei (arts. 223º, 218º, 228º, 410º CC)
d. Actos preparatórios atípicos: estabelecidos pelas partes
 Pacto de opção: uma das partes, se quiser celebrar contrato, aceita e a outra
parte sujeita-se;
 Mediação: intervenção de terceiro, desinteressado – mediador – que promove
a aproximação de duas ou mais partes para a celebração do contrato;
 Existência de concurso (para celebrar contrato) – art. 369º PNJ

***

Concurso

Razoes de realização de concurso para celebração de um contracto:


 Escolha de parceiro mais idóneo – o concurso, normalmente acompanhado por publicidade alargada,
permite um fluxo de potenciais contratantes, facultando escolas adequadas;
 Aproveitamento dos mecanismo de concorrência – os potenciais contratantes, para arrematar o lugar,
vão oferecer melhores condições, procurando ultrapassar-se uns aos outros;
 Procura da melhor gestão: os interessados são levado a concorrer apresentando propostas globais;
 Legitimação da escolha: fica a ideia de que foi escolhido o melhor.

Concurso contratual: todos os envolvidos num processo contratual, directamente ou a titulo de


potenciais interessados, acordam previamente os termos a seguir na contratação, fixando as regras para
encontrar os contratantes definitivos.
Concurso unilateral: apenas o seu dono procede à competente abertura e aprova os seus termos.

37
Teoria Geral do Direito Civil

Concurso indicativo: tem como finalidade construir, apenas, uma fonte de informações para o autor do
concurso;
Concurso vinculativo: tem como finalidade o de se integrar efectivamente num processo tendente à
formação dum contrato

Contratos mitigados Eficácia jurídica: em regra as partes não se obrigam a


- Carta de intenção cumprir – neste caso não temos contratos definitivos, mas
- Acordo de base contratos mitigados  pode a parte faltosa ser coagida ao
- Acordo-quadro acatamento?  Tudo dependerá se o acordo mitigado tem
- Protocolo complementar um conteúdo suficientemente explícito ou se se limita a
obrigar as partes a prosseguir nas negociações.

Acordo de cortesia: recai sobre matéria não patrimonial; de trato social.


Acordo de cavalheiros: partes chegam a consenso, mas combinam manter acordo fora do campo do Dto
– Prof. Menezes Cordeiro: isto não é possível porque o Dto não admite que alguém previamente se
despoje da tutela jurídica pois estar-se-ia a despojar de um bem futuro – proibido pelo art. 809º CC

…………………………………………………………………………………………………………………...

#39
A declaração de Vontade

 Acção: actuação de um ser humano; acto de comunicação – reveste-se de conteúdo jurídico – acto
de validade;
o Posição objectivista: a vontade é aquilo que é exteriorizado, o que é dito e,
consequentemente, o que é ouvido;
o Posição subjectivista: a vontade é aquilo que realmente se quer, o que se quis dizer, a
vontade psicológica.

 Indícios na lei da importância da posição objectivista:


o Erro na declaração da vontade – art. 217º CC
o Lei admite, em certos casos, a anulabilidade da declaração de vontade – art. 257º CC
o Autonomia privada sem tutela da confiança não é possível – o que se declara é valido
porque foi dito, ouvido e tomado como certo, criando confiança. À tutela da confiança
aplica-se o regime negocial.

Declaração expressa: quando feita por palavras, escrito ou por qualquer outro meio directo de manifestação
de vontade – art. 217º/1 CC
Declaração tácita: quando se deduza de factos que, com toda a probabilidade, a revelem – art. 234º CC

Declaração formal: tem forma solene (não pode ser tácita – art. 217º/2 CC)
Declaração consensual ou não formal: não tem forma solene

Silencio: ausência de comunicação – não é declaração. Só pode ser considerado declaração quando o
significado do silêncio foi combinado. art. 218º CC

38
Teoria Geral do Direito Civil

Declaração recipienda: tem um destinatário – art. 224º CC


Declaração não recipienda: não tem destinatário

Declaração recipienda torna-se eficaz – art. 224º CC:


 Quando seja remetida e só por culpa do destinatário não tenha sido oportunamente recebida – teoria
da expedição;
 Logo que é recebida pelo destinatário – teoria da recepção;
 Logo que é conhecida pelo destinatário – teoria do conhecimento;

Em qualquer caso, a declaração é ineficaz quando seja recebida pelo destinatário em condições de, sem culpa
sua, não poder ser conhecida – relevância negativa da teoria do conhecimento – art. 224º/3 CC.

…………………………………………………………………………………………………………………...

#40
A formação dos contratos

Implicando duas ou mais declarações de vontade confluentes, o negócio contratual assenta num
processo formativo alongado: torna-se necessário procurar o ponto de consenso entre os celebrantes,
portadores, na normalidade dos casos, de interesses opostos, que cabe harmonizar.

Contrato entre presentes: não há, entre as declarações de vontade das partes, um intervalo de tempo
juridicamente relevante.
Contrato entre ausentes: as diversas declarações são separadas por intervalo de tempo donde emergem
consequências jurídicas.

***

PROPOSTA

Declaração feita por uma das partes e que, uma vez aceite pela outra ou pelas outras, dá lugar ao
aparecimento de um contrato – 3 requisitos essenciais:

 Deve ser completa – deve abranger todos os pontos a integrar no futuro contrato – ex.: identificação
das partes, objecto a vender, o preço…
 Deve ser firme – revelar uma intenção inequívoca de contratar
 Deve revestir a forma requerida para o negócio em jogo.

No fundo, a proposta deve surgir de tal modo que uma simples declaração de concordância do seu
destinatário faça, dela, um contrato. Quando faltar um dos requisitos, está-se perante um convite a
contratar.

A proposta contratual faz nascer na esfera jurídica do destinatário o dto potestativo de aceitar ou contrato,
encontrando-se o proponente numa posição de sujeição.

Duração da proposta – art. 228º CC:


 Ou existe um prazo fixado pelo proponente ou convencionado entre as partes;
 Não é fixado prazo, mas o proponente pede resposta imediata (dependera dos meios de
comunicação)
 Proposta a ausente, sem prazo – 5 dias depois do prazo do ponto anterior.

Desaparecimento da proposta
 Revogação: acto unilateral do proponente que suprime a proposta (se chegar ao destinatário antes ou
ao mesmo tempo que a proposta)

39
Teoria Geral do Direito Civil

 Na própria proposta, o proponente declara que se reserva do dto de extinguir a proposta (desde que
anterior à aceitação)
 Proposta extingue-se com a aceitação ou rejeição.

Oferta ao público: modalidade particular de proposta contratual, caracterizada por ser dirigida a uma
generalidade de pessoas.

40
TOMO II – COISAS

CAPITULO I

§ 2.º A experiência portuguesa

O Código civil
O CC logrou soluções originais. Aproxima-se do código alemão pela sistemática pandectística e pelo recurso
a “coisa”, e não a bens; conecta-se, todavia, com a linha napoleónica pela manutenção ao conceito amplo de
res.

Noção de coisa: art. 202º

Classificações de coisa – art. 203:


 Imóveis e moveis
 Simples e compostas
 Fungíveis e não fungíveis
 Consumíveis e não consumíveis
 Divisíveis e indivisíveis
 Principais e acessórias
 Presentes e futuras

Coisas ou Bens?
A designação tradicional, desde que se adoptou a língua portuguesa nos livros de Direito pátrio, retomada
pelos clássicos da pré-codificaçao, era a de “coisas”; referia-se, embora e por vezes com um sentido
semelhante a “bens”.

A doutrina, quando referia bens, citava as origens Romanas deste termo, acabando por fazer a
distinção correcta: o bem traduz a utilidade que a coisa pode proporcionar ao homem,
exprimindo as coisas efectivamente apropriadas.

No coração do Direito civil, as razoes estilístico-culturais apontam para “coisa”. “Bens” poderá ficar para as
áreas mais periféricas do Direito de família – “regime de bens”, art. 1717º e ss – e do Direito das sucessões –
“bens sujeitos à administração do cabeça de casal”, art. 2089º.

Nestas condições, o termo “coisa” é, tecnicamente, o mais adequado para traduzir a realidade em jogo nos
arts. 202º e ss.
Por razoes histórico-culturais e dogmáticas, o Direito português parte, neste domínio, da ideia de “coisa”;
não da de “bem”.

§ 3.º Noção e papel

Pires de Lima propôs a definição hoje inserida no art. 202º – “Diz-se coisa tudo aquilo que pode ser objecto
de relações jurídicas.”

Prof. Menezes Cordeiro: tecnicamente inaproveitável: basta ver que as pessoas não são
coisas, podendo, não obstante, ser objecto das tais relações jurídicas, enquanto os direitos
reais, sendo absolutos, não implicam quaisquer relações jurídicas, embora, por definição, se
reportem a coisas.

Sérgio Santos Página 1 02-12-2015


Características da Coisa:

 A coisa não é pessoa


o Permite excluir as realidades humanas; a pessoa singular, o corpo humano, as partes do
corpo humano, os sentimentos e diversos outros aspectos ligados à personalidade;
o Permite excluir realidades não-humanas mas às quais o Direito confira os atributos da
personalidade.

 A coisa não tem, necessariamente natureza económica: o Direito não admite que as pessoas
“monetarizem” ou “economizem” tudo aquilo em que toquem. Independentemente de tais
proibições, há coisas que, de facto, e nas condições reinantes, não têm teor económico.

 Há coisas que não são bens, por não terem qualquer utilidade. E há bens que não são coisas, por
terem natureza humana.

 As coisas não têm que ser permutáveis e ocupáveis


o Permutabilidade: possibilidade de, sobre a coisa, se tecerem relações de mercado;
o Ocupabilidade: possibilidade duma coisa ficar sobre o controlo exclusivo duma pessoa.

Características que podem ser afastadas pela natureza que ponha fora do alcance humano a
coisa ou coisas consideradas ou pelo próprio Direito, que proíba operações jurídicas sobre
certas coisas.

 A coisa não é, necessariamente, rara

 A coisa é delimitada: a delimitação corresponde a uma ideia subjacente a coisa. Esta, quando
considerada enquanto tal, evoca sempre uma porção delimitada da realidade, mas com significado
social.

 A coisa não tem que ser material (ex.: energia = coisa corpórea, não material.

……………………………………………………………………………………………………

CAPITULO III – MODALIDADES DAS COISAS

§ 9.º Classificações; coisas corpóreas e incorpóreas

Art. 203º CC  trata-se de um preceito não exaustivo. O poprio art. 202º/2 subentende uma contraposição
entre coisas no comércio e fora do comércio, apesar de não a inserir na enumeração do art. 203º. Outras
classificações basilares, como a que separa as coisas corpóreas das incorpóreas foram esquecidas.

 Coisas corpóreas: coisas que têm existência exterior, sendo perceptíveis pelos sentidos.

 Coisas incorpóreas: meras criações do espírito.

Coisas corpóreas

 Apesar de omitida no campo das classificações “oficiais” de coisas, o CC pressupõe a presente


classificação, nomeadamente no art. 1302º CC.

 Correspondem, ainda a uma autonomização requerida pela natureza. Enquanto realidades exteriores
perceptíveis pelos sentidos, as coisas corpóreas sofrem, ou podem sofrer, a actuação humana directa
no sentido mais imediato de actuação física. O ser humano pode controlá-las, com ou sem base
jurídica, excluindo os seus semelhantes de fazer outrotanto. Em suma: as coisas corpóreas são
susceptíveis de posse.

Sérgio Santos Página 2 02-12-2015


 as coisas corpóreas abrangem, desde logo, as porções limitadas de matéria em estado sólido. Mas são
coisas corpóreas, também, os líquidos e os gases.

 São ainda coisas corpóreas os documentos e os suportes materiais que contenham obras do espírito:
o papel onde de exare o escrito, a película que conserve cenas, o disco compacto que preserve o som
ou as imagens e o suporte magnético que contenha o programa e a sua utilização.

Coisas incorpóreas

 As coisas incorpóreas são criações do espírito humano. Elas podem ser comunicadas através da
linguagem e ser incorporadas em documentos.

 As coisas incorpóreas compreendem três grandes categorias:

o Bens intelectuais: abrangem as obras literárias e artísticas, os inventos e as marcas –


criações do espírito exteriorizadas por qualquer forma.
o Prestações: a prestação é uma conduta humana. O Direito pode atribuir a alguém – o credor
– o poder de exigir a outrem – o devedor – uma certa actuação: a prestação.
Como conduta virtual, a prestação apenas existe em abstracto: só no momento do
cumprimento passara a ter uma consistência no mundo dos factos.
o As realidades ou quia jurídicas:figuras técnicas e sociais.

Programação se computador (“software”)

 Para funcionar, o equipamento informático requer, depois, um conjunto de informações, de


sequências e de modos de proceder, devidamente articuladas, em ordem a permitir a recepção de
instruções, a sua elaboração e a execução das tarefas pretendidas. Esse conjunto será a programação
– “software” – ela própria comporta por diversos programas.

Actualmente, quer a doutrina, quer a jurisprudência defendem: os suportes seriam coisas


corpóreas; a própria programação em si seria, antes, uma coisa incorpórea. Todavia, seria
possível aplicar-se-lhe, quando a analogia das situações o justificasse e com as adaptações
necessárias, o regime das coisas corpóreas.  Protecção jurídica do software = tutela da
programação como obra literária – programação assimilada a um bem intelectual.

…………………………………………………………………………………………………….

§ 10.º Os Imóveis; Prédios, Aguas e partes integrantes

 No art. 204º CC, pergunta-se se o problema da sua limitação dos moveis ficou resolvido – a
resposta será afirmativa, caso a enumeração em causa se possa considerar taxativa.

Problema: no art. 204º/1, “prédio” tem um sentido técnico que não esgota todas as parcelas fixas do
planeta – surgiriam, assim, “imóveis” não contemplados no art. 204º: os monumentos, as estradas e
as minas, os poços, os aquedutos, as pontes e os pelourinhos e as auto-estradas.

Prof. Menezes Cordeiro: perante a dificuldade, há que sustentar que o art. 204º não é taxativo.
Fundamentos:
o Leis avulsas consideram imóveis coisas que, de todo em modo, é impossível reconduzir ao
art. 204º;

Sérgio Santos Página 3 02-12-2015


o O Direito civil é aplicável ao domínio público onde se multiplicam os imóveis que só com
violência semântica poderiam passar por prédios.

Os prédios: rústicos e urbanos

 Art. 204º/2 CC
o Prédio urbano – “ … qualquer edifício incorporado no solo com os terrenos que lhe sirvam
de logradouro.”
o Prédio rústico – “… uma parte delimitada do solo e as construções nele existentes que não
tenham autonomia económica.”

As duas definições parcelares daí resultantes não se articulam inteiramente. Na doutrina portuguesa
podemos apontar as seguintes teorias:

1. Teoria do valor  o prédio com elementos das duas naturezas será rústico ou urbano consoante a
parcela que represente maior valor.

2. Teoria da afectação económica  teríamos que apurar se o conjunto visa o aproveitamento do


terreno (agricultura) ou o da construção (habitações, serviços…) – no primeiro caso o prédio é
rústico, no segundo é urbano.

Prof. Menezes Cordeiro: dependendo o destino económico de um prédio da livre opção do


seu proprietário, um prédio poderia ser, sucessivamente rústico ou urbano, consoante
sucessivas e contraditórias opções do seu dono. Esta teoria sempre foi pouco praticável.

3. Teoria do fraccionamento  parte da afectação económica. Simplesmente, quando se apure que


quer o terreno, quer a construção têm autonomia económica opta pelo fraccionamento: haveria dois
prédios, sendo um rústico e outro urbano.

Prof. Menezes Cordeiro: parece colocar na autonomia privada o poder de fraccionar


prédios. Não é assim. O fraccionamento dum prédio implica autorizações administrativas,
seja das Câmaras Municipais, seja das Direcções-regionais de Agricultura.
Ninguém, por construir uma casa com autonomia económica numa herdade, consegue, por
isso, dois prédios juridicamente distintos.

4. Teoria da consideração social  os prédios são rústicos ou urbanos consoante, na comunidade


jurídica, sejam havidos por terrenos ou por construções.

Prof. Menezes Cordeiro: esta teoria é um pouco “naïf”. A comunidade jurídica pode na
verdade, ver num prédio uma realidade rústica ou urbana.

Solução proposta pelo Prof. Menezes Cordeiro: temos que ficar pela definição do art. 204º/2 – há que tomar
a teoria da afectação económica em termos amplos – não se provando factos que permitam uma qualificação
como urbano, o prédio é considerado rústico – noção dogmaticamente operacional.

Sérgio Santos Página 4 02-12-2015


Os limites dos prédios – art. 1344º CC

 O prédio é uma porção delimitada da crosta terrestre (o prédio pressupõe uma delimitação artificial,
feita pelo homem, de acordo com regras jurídicas, através de linhas reais ou ideais de separação –
caso contrario, todo o planeta seria um único prédio.)

o No plano da superfície: o prédio abrange a área comportada pelas suas extremas, isto é, por
linhas reais ou idealmente traçadas no terreno.
o Quanto à altura e à profundidade: a atribuição, aos particulares, de acordo com os
respectivos prédios, dos inerentes espaços aéreos e subterrâneos, obriga o Estado e os
próprios particulares incumbidos de certas tarefas a, pelo menos, ter de recorrer a leis de
excepção e a indemnizações para privar os particulares de parte do seus prédios. Alem da
defesa dos cidadãos, esta solução tem a vantagem de obrigar à procura das melhores
soluções teóricas, para não incomodar as pessoas e prejudicar o ambiente.

Os prédios urbanos
São, fundamentalmente, edifícios ou casas. O art. 204º/2 exige a “incorporação” no solo: ficam
excluídos barracões, tendas ou construções elementares, meramente assentes no terreno (prédios que só
podem ser demolidos, não meramente removidos).

As águas
 O art. 1385º distingue águas publicas e particulares;
 As águas podem estar em movimento: assim sucederá na hipótese de um rio ou de um curso de agua.
Quando isso suceda, elas são havidas como imóveis, porquanto delimitadas pelo leito e pelas
margens do curso considerado.
 As águas surgem como imóvel na medida em quem juridicamente, possam ser tratadas como coisas
autónomas. De outro modo, elas são partes componentes do prédio em que se integrem.

Arvores, arbustos, frutos e direitos


 O CC considera imóveis as arvores, os arbustos e os frutos naturais, enquanto estiverem ligados ao
solo, os direitos inerentes aos imóveis mencionados nas alíneas anteriores e as partes integrantes dos
prédios rústicos e urbanos – art. 204º/1/c,d,e CC.
Essas três realidades são partes integrantes dos prédios a que pertençam – não têm autonomia. Uma
vez separadas, essas coisas passam a ser móveis.

Partes integrantes
 Art. 204º/3 – “Toda a coisa móvel ligada materialmente ao prédio com carácter de permanência.” –
As partes integrantes não têm autonomia: elas inserem-se no imóvel a que pertencem.

 Noção de parte integrante:


o Teoria tradicional: para se falar de parte integrante, teria de haver uma ligação material: a
parte integrante deveria estar fixada, presa ou unida ao prédio, nas palavras de Manuel de
Andrade.
o Doutrina da destinação económica: o móvel passaria a imóvel quando, independentemente
duma definitiva ligação material ao prédio, ele estivesse ao seu serviço.

A lei dá primazia à ligação material, por natureza


– a ligação deve ser material, sendo compatível, em casos eventuais, com a separabilidade.

Sérgio Santos Página 5 02-12-2015


 Natureza dos negócios que se reportem a partes integrantes: á partida, e uma vez que estas não têm
uma identidade jurídica diferente da da coisa a que pertençam, tais negócios não podem eficácia real:
não atingem a titularidade da parte integrante.
o Hipótese do painel de azulejos
o Hipótese dos elevadores pag. 135/136 – Tomo II

O Regime
 Uma vez que os móveis constituem a categoria genérica donde, por força da lei, sobressaem os
imóveis, o regime destes últimos é apontado como especialidade.

 Os negócios relativos a imóveis estão, em princípio, sujeitos a forma solene e, designadamente, a


escritura pública:
o Compra e venda – art. 875º
o Doação – art. 947º/1
o Sociedade – 981º/1
o Tenda vitalícia – art. 1239º
[…]

Consequências: é um lugar comum a afirmação de um crescente valor dos móveis, em detrimento dos
imóveis.
Não obstante, os imóveis, embora batidos como riqueza absoluta, mantêm, pela natureza das coisas,
um elevado valor. Alem disso, eles correspondem a uma evidente realidade física e sociológica, dotada de
características inconfundíveis e à qual o Direito não pode deixar de dispensar um tratamento diferenciado.

…………………………………………………………………………………………………………………...

§ 11.º Os Móveis

 Nos termos do art. 205º/1, a categoria das coisas móveis é residual: abrange todas as coisas que o
Direito não considera imóveis. Em especial:
o Os objectos materiais
o A energia
o Os móveis sujeitos a matricula e registo
o Coisas representativas

 Os bens intelectuais são coisas incorpóreas, ficando fora da contraposição entre moveis e imóveis;
esta abrange apenas o universo das coisas corpóreas.
No entanto, na medida em que se deve fazer apelo Às regras gerais sobre as coisas, para
reger os bens intelectuais, relevam as relativas às coisas móveis: elas congregam as normas mais
gerais relativas aos objectos das situações jurídicas.

 Móveis sujeitos a matricula e a registo: em principio, os móveis, mesmo os de menor valor, são
reconhecíveis pelos seus donos e pelas pessoas que os circundem. Porém, certos móveis, em função
do seu valor económico, de razoes de polícia ou da facilidade com que mudam de localização,
requerem um esquema público de identificação. Isso consequente através da aposição duma
matricula e da sujeição do móvel a um registo público. Estão em causa, fundamentalmente, os
automóveis, os navios e as aeronaves.

 A energia: a energia não é uma mera criação do espírito humano. Não sendo um “objecto”, a
energia tem existência objectiva. Ela tende hoje a ser considerada como uma coisa corpórea móvel,
tanto pela doutrina como pela jurisprudência.

Sérgio Santos Página 6 02-12-2015


 Coisas representativas: especial categoria de móveis – coisas que, mercê de convenção sócio-
juridica, representam seja um valor que as transcende, seja uma determinada posição jurídica.
o Dinheiro: entendido como espécie monetária, o dinheiro é coisa móvel.
o Titulo de crédito: é um documento – coisa corpórea móvel. O seu sentido transcende-a; não
obstante: regras do seu regime básico advém-lhe da sua qualidade de coisa.
o Cartões: a sua posse permite o acesso a diversos bens e coisas, maxime, tratando-se de
cartões bancários, a operações de levantamento, de pagamento e de crédito. Também aqui
uma coisa móvel assume um sentido figurativo e operacional que em muito a transcende.

…………………………………………………………………………………………………………………...

§ 12.º Coisas fungíveis, consumíveis e deterioráveis

Coisas fungíveis e não fungíveis


 Art. 207º CC – São fungíveis as coisas que se determinem pelo seu género, qualidade e quantidade,
quando constituam objecto de relações jurídicas.
Às coisas fungíveis contrapor-se-iam as não fungíveis, isto é, coisas individualizadas peças
suas características próprias.

A tradição alemã apontava uma noção objectiva de “fungibilidade”;


 O CC português fez uma opção mais subjectiva: tudo depende da concreta situação verificada. O
código pretendeu dizer que são fungíveis as coisas que, na situação jurídica considerada, se
determinem pelo género, qualidade e quantidade. Isto é: apenas in concreto se poderá afirmar se há
ou não fungibilidade.
A fungibilidade, não sendo evidente, deve ser invocada e demonstrada.

 O CC português também diferente do BGB por não limitar esta distinção às coisas móveis – podem
as partes ter interesses atendíveis em considerar fungíveis determinados imóveis.

Contrato de mutuo: diz respeito a coisas fungíveis – art. 1142º - o beneficiário terá de restituir coisa
equivalente

Contrato de comodato – pressupõe coisas não fungíveis – art. 1129º - reporta-se à coisa emprestada.

Coisas consumíveis e não consumíveis


 Construção jurídica de consumo: este ocorre seja perante coisas efémeras, cujo uso envolve a sua
destruição, seja perante coisas duradouras, que se destinem, todavia, a ser alienadas.

Art. 208º - As coisas consumíveis são “aquelas cujo uso regular importa a sua destruição
ou a sua alienação” – conceito jurídico, não naturalístico.

Consumidor: elo final do circuito económico. Pode ser consumidor de coisas consumíveis e
de coisas não consumíveis.

Coisas deterioráveis e duradouras


 Coisas deterioráveis: coisas que, perante o seu uso, mesmo regrado e regular, vão perdendo
qualidades e valor. Ex.: vestuário ou automóveis.
A natureza deteriorável duma coisa não faz dela uma coisa consumível.

 Coisas duradouras: mantém-se como tais, mau grado o uso.

Sérgio Santos Página 7 02-12-2015


 Coisas “susceptíveis de deterioração”: art. 1889º/1/a – coisas que, independentemente do seu uso,
tenham uma duração limitada. Ex.: alimentos.

…………………………………………………………………………………………………………………...

§ 13.º Coisas divisíveis, futuras e principais

 Coisas divisíveis: art. 209º - coisas que podem ser fraccionadas sem alteração da sua substancia,
diminuição de valor ou prejuízo para o uso a que se destinam – clara dominância do segundo
critério: sem diminuição do seu valor

Tal critério não pode ser hipertrofiado: há muitas situações nas quais coisas
perfeitamente divisíveis vêm alterar o valor das parcelas com a separação: a soma
dos valores só por coincidência corresponderá ao valor global inicial – há que apelar
para a concreta situação considerada de modo a formular uma definitiva opção de
divisibilidade. As qualidades da coisa que permitem a divisibilidade devem ser
aferidas no momento em que se ponha o problema – haverão coisas que poderão ser
divisíveis no futuro, mas não o são ainda, no presente.

Coisas presentes e futuras

 Coisas futuras
o Coisas objectiva ou absolutamente futuras: coisas que não existem, ainda na facticidade, mas
que se espera que venham a surgir.
o Coisas subjectiva ou relativamente futuras: coisas que já existem, mas que não se encontram
no património do disponente.

 O Direito admite negócios relativos a coisas futuras, nessa altura, eles só produzem efeitos quando a
coisa seja adquirida pelo alienante – art. 408º/2.
Os negócios sobre coisas alheias podem ser havidos como sobre coisas futuras – art. 893º.

…………………………………………………………………………………………………………………...

§ 15.º Coisas acessórias, frutos e benfeitorias

 As coisas acessórias não se apresentam como meras partes integrantes; por isso, elas são objecto de
direitos autónomos

 Art. 210º/2 – “Os negócios jurídicos que têm por objecto a coisa principal não abrangem, salvo
declaração em contrario, as coisas acessórias.”

Prof. Menezes Cordeiro: trata-se de um erro histórico – desde o Dto romano, passando pelo Dto
intermédio, pelos Dtos francês e italiano e pelo Dto português clássico que a autonomização de coisas
acessórias e/ou pertenças sempre teve o sentido útil de aplicar, ainda que de modo mais ou menos
matizado, ao acessório, o regime do principal.
Na normalidade da vida social, o negócio relativo à coisa principal deveria abranger as acessórias ou,
pelo menos, aquelas que, de imediato, por todos são reconhecidos como tais.
Solução: o art. 210º/2 deve ser afeiçoado ao sistema. Perante problemas concretos, nunca nenhuma
regra de aplica sozinha: funciona, sim, o ordenamento no seu todo.
Não nos parece viável estabelecer uma diferença de regime entre coisas acessórias e pertenças: há
uma equiparação de regimes.

Sérgio Santos Página 8 02-12-2015


Instrumentos de normalização sistemática:
1. Alargamento das partes integrantes, em detrimento das coisas acessórias;
2. Aproveitamento das regras de interpretação e de integração dos negócios;
3. Deveres acessórios da boa fé: a coisa adquirida deve vir acompanhada dos acessórios necessários,
sob pena de violação do art. 762º/2;
4. Defesa do consumidor – art. 4º LDC

Frutos
 Fruto – art. 212º/1 – é o que a coisa produza periodicamente, sem prejuízo da sua substância;
o Naturais – provêm directamente da coisa
o Civis – correspondem a “rendas ou interesses” que a coisa produza “em consequência duma
relação jurídica” – art. 212º/2.

 Fruto de universalidade de animais – art, 212º/3

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CAPITULO IV

§ 16.º Teoria do património

 Construção clássica de património  conjunto de bens de uma pessoa, encarado como


universalidade de Direito, isto é, uma massa heterogénea unificada apenas pela ideia de pertença a
uma pessoa. O património seria uma emanação da personalidade humana e um prolongamento da
própria pessoa.

Doutrina de Paulo Cunha  o património traduziria um conjunto de bens ou de relações jurídicas com
carácter pecuniário, tendo entre si qualquer coisa de comum que dê, a essa pluralidade, uma coesão.
Os princípios da constância e da inerência do património seriam infundados: traduziriam, no fundo, a
ideia de capacidade, não a de património.
Paulo Cunha vem apresentar o património como um conjunto de bens unificado por uma identidade
de regime jurídico quanto à responsabilidade por dívidas – património = massas de responsabilidade.

Prof. Menezes Cordeiro: alarga a doutrina de Paulo Cunha – património é um conjunto de posições
activas patrimoniais, unificada em função de um determinado ponto de vista – conjunto de bens que têm
o mesmo tratamento jurídico unitário que advém da responsabilidade por dívidas ou por outras regras.

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CAPITULO V – OS ANIMAIS

 Na tradição romana, o animal era considerado coisa. Um juízo semelhante era, na época, feito em
relação ao escravo.
Não existe na lei civil qualquer norma especificamente destinada a protegê-los, com a excepção dos
interesses do dono do animal.
A protecção dos animais constitui, já hoje, um valor estruturante das modernas sociedades pós-
industriais, quer a nível interno, quer a nível internacional.

Sérgio Santos Página 9 02-12-2015


 Protecção civil dos animais  no seu conjunto, a ordem jurídica portuguesa dispõe de múltiplos
instrumentos de tutela dos animais.

Mas não sendo coisas, como classificá-los? Não se vislumbra qualquer intenção legislativa de os
equiparar Às pessoas: em sentido jurídico, só o ser racional pode ser destinatário de deveres – e,
logo, de direitos. A exacta qualificação dos animais ficou, pois, em aberto, sendo apenas seguro eu
desfrutam de protecção.

No direito português, a protecção existente permite:


 ou qualificar os animais como um tipo especifico de coisa;
 ou pôr em causa a estrita dicotomia pessoa/coisa.

Embora objectos de direitos, os animais têm uma protecção que faz deles “coisas” cada vez mais
diferenciadas.

Prof. Menezes Cordeiro: pode-se falar numa deontologia jurificada. A tutela dos animais integra,
pois, plenamente, a cláusula dos bons costumes e, por essa via, o coração do Direito civil.

Sérgio Santos Página 10 02-12-2015


Tomo III – Pessoas

CAPITULO II – O Direito de personalidade

§ 2.º Origem e evolução

 Direitos de personalidade: exprimem posições jurídicas protegidas pelo Direito objectivo com a
particularidade de se reportarem, directamente, à própria pessoa tutelada. Traduzem direitos virados
para o titular que deles beneficia (realidades como a vida, a integridade física e moral, o bom nome,
a honra e a privacidade do próprio sujeito).

Natureza histórica, cultural e cientificamente condicionada dos direitos de personalidade


Para quê reconhecer direitos Às pessoas sobre bens que, directamente lhe dizem respeito? Porque
não estabelecer um esquema de tutela directa?

Resposta de ordem histórica: a pessoa, em Direito, mormente por via da extensão feita às pessoas colectivas,
assume uma dimensão artificial, tornando-se insuficiente para protagonizar a competente tutela. O direito
subjectivo constitui o esquema historicamente mais conseguido para prosseguir tutelas normativas

Pessoa e direito subjectivo = conceitos exteriores aos direitos de personalidade, mas que os influenciam no
seu surgimento e configuração.

Evolução

 Direito Romano – Iniuria – traduzia ofensas corporais ligeiras  conceito foi progressivamente sendo
ampliado – as grandes compilações (sec. VI), justamente pela sua natureza, acabaram por, lado a lado,
consignar sentidos diversos para a iniuria: delitos em geral, a ilicitude e a própria “culpa”.

 Nas Institutiones de Justiniano (séc. VI) pode-se encontrar uma noção mais lata, mais precisa, de iniuria =
prevaricações contra as pessoas.

 Apenas muito mais tarde surgiria a figura do direito subjectivo; todavia, a tutela da personalidade estava já
consignada no Direito romano. O Direito – particularmente o civil – existe para defender as pessoas, sendo
sintomático que, desde cedo, os hoje ditos bens de personalidade tivessem obtido protecção.

 Humanismo francês – DONELLUS (1ª sistemática) – tipificou modalidades de ofensas à personalidade


que traduziam as manifestações essenciais seguintes a que fez referencia:
o A vida que existe é reconhecida;
o A integridade física que consiste em não se ser molestado ou atingido;
o A liberdade que se traduz em fazer o que se quiser;
o A reputação que corresponde a um estado de dignidade ilibada, comprovada pela lei e pelos
bons costumes.

 Jusracionalismo – 2ª sistemática – o seu esforço está na origem dos direitos inatos ou essenciais,
preexistentes ao próprio Estado e que se imporiam a este.
Nesta evolução, os direitos de personalidade traduziriam figuras derivadas de postulados jus
naturalistas, assentes no desenvolvimento da ideia de pessoa – vocação para se opor ou deter o Estado.

 Pandectística – 3ª sistemática

Savigny  duvidou da viabilidade dogmática dos direitos de personalidade – a construção de


direitos sobre a própria pessoa obscurecia a verdadeira natureza da tutla da pessoa humana.

1
O progressivo esforço dogmático da “periferia” da personalidade permitiu o esforço de abstracção
necessário para se alcançar a ideia de “bem de personalidade”, base de qualquer dogmática coerente
de direitos de personalidade.

Autores como Regelsberger e Otto von Gierke reportam-se aos direitos de personalidade como
direitos subjectivos privados e não patrimoniais.

Experiência francesa
A lei francesa só se reportaria aos direitos de personalidade a partir dos anos 70, séc. XX.
Ex.:
 lei 70- 643, de 17 de Julho de 1970 – proclamação do principio do respeito pela vida privada das
pessoas;
 lei 78-17, de 6 de Janeiro de 1978, relativa à protecção perante a informática;
 lei 94-653, de 29 de Julho de 1994 – direito ao respeito do ser humano e do seu corpo.

Experiência alemã

BGB  apesar de aprontado numa altura em que os direitos de personalidade já eram conhecidos, não lhes
deu consagração expressa. Fazia apenas uma referência ao direito ao nome.
Apesar da coerência legislativa, os direitos de personalidade foram largamente desenvolvidos,
especialmente pós-1945, pela doutrina alemã – surto de desenvolvimento de direitos fundamentais e de
personalidade.

A Jurisprudência veio a admitir um direito (subjectivo) geral de personalidade, cuja violação


obrigaria a indemnizar, em duas grandes decisões (ver pagina 46).

A doutrina defende esse direito geral, definindo-o como “o direito subjectivo absoluto à
manutenção, inviolabilidade, dignidade, reconhecimento e livre desenvolvimento da individualidade das
pessoas.” – funcionava como complemento dos direitos fundamentais inseridos na Constituição = direito-
quadro.

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§ 3.º Experiência portuguesa

 Ordenações: tutela das pessoas muito reduzida.

 Liberalismo: recepção das Constituições portuguesas dos enunciados relativos aos direitos do
Homem, de inspiração francesa.

 Código de Seabra: continha um título relativo a direitos originários – arts. 359º a 368º  direitos de
existência, de liberdade, de associação, de apropriação e de defesa.

Autores como Alexandre Herculano, Dias Ferreira, Abel de Andrade, consideravam estas disposições como
sendo inúteis.

Alexandre Herculano  disposições inúteis, que apenas teriam cabimento nas constituições
politicas, em épocas nas quais os direitos naturais do Homem não eram devidamente reconhecidos e
respeitados.

2
Séc. XX – primeiros contactos com a categoria pandectistica dos direitos de personalidade – a doutrina
dividiu-se:
 Autores como Guilherme Moreira, José Tavares, Cabral Moncada recusaram a figura
dos direitos de personalidade.
 Cunha Gonçalves, Manuel de Andrade, Paulo Cunha e Pires de lima/Antunes Varela
vieram aceitá-la.

O Código Civil
 Manuel de Andrade – anteprojecto com inspiração no Código Civil italiano, de 1942;
 1967 – Código civil português – “frieza” na recepção da temática dos direitos de personalidade – art. 70º =
formula muito vaga.
 Prof. Jorge Miranda, Gomes Canotilho = maiores contribuições para o desenvolvimento dos direitos
fundamentais.

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§ 4.º A jurisprudência Portuguesa

 A jurisprudência portuguesa só despertou lentamente para os direitos de personalidade – 4 grandes


fases de evolução:
o 1ª Fase anterior ao CC de 1967 – reconhecimento do direito ao repouso em situações de
obras nocturnas do metropolitano;
o 2ª Fase 1967-82 – reconhecimento pontual dos direitos de personalidade
 Protecção do direito à imagem
 Confidencialidade das cartas missivas
o 3ª Fase 1982-92 – implantação dos direitos de personalidade
o 4ª Fase 1993 em diante – aplicação corrente dos direitos de personalidade.

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§ 5.º Construção Dogmática

 Os direitos de personalidade foram contidos ou prejudicados por sucessivos pré-entendimentos


desfavoráveis:
o Impressão e dificuldade de arrumação entre as categorias tradicionais;
o Vieram defrontar o Estado, ao serviço do interesse público;
o Aparecem como desconforto para a comunicação social.

Contrabalançados por um pré-entendimento favorável: protecção da tutela da pessoa singular.

Desenvolvimento de conceitos

1. Bem de personalidade: realidade capaz de satisfazer necessidades (sentido objectivo) ou apetências


(sentido subjectivo) da pessoa.

Varias áreas de bens de personalidade:


i. Ser humano biológico: vida, integridade física, saúde, necessidades vitais (sono,
repouso, alimentação, vestuário, etc);
ii. Ser humano moral: integridade moral, identidade, nome, imagem, intimidade, etc;
iii. Ser humano social: família, bom-nome, reputação, respeito, etc.

3
2. Direito subjectivo: o direito de personalidade é um espaço de liberdade concedido ao sujeito: ou
não seria direito.
Teoricamente, ou não teríamos um direito subjectivo, o direito de personalidade implica uma norma
permissiva.
A permissão facultada pelo direito de personalidade é específica: não genérica. Excluímos do âmbito
de estudo as liberdades, ainda que fundamentais: liberdade de expressão não é um direito de
personalidade, por envolver mera permissão genérica; já o direito a uma determinada carta – à sua
confidencialidade – é um direito de personalidade: a permissão é específica.

3. Direito Geral de Personalidade

Prof. Menezes Cordeiro: defende que não há necessidade de recorrer a esta figura: o art. 70º,
enquanto regra geral de protecção, dá azo aos direitos de personalidade que correspondem aos bens
necessariamente existentes. Extrapolar para um “direito geral” seria extrapolar para um direito cujo
objecto seria indefinido, não se enquadrando na natureza específica que sempre acompanha qualquer
direito subjectivo.
O art. 70º dispensa uma tutela geral, podendo dar azo a diversos direitos subjectivos de
personalidade, sem sentido próprio.

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§ 6.º Direitos fundamentais e outras figuras afins

Os direitos do Homem: traduzem prerrogativas próprias de cada ser humano, que se prendem com a
dignidade da pessoa.
Os direitos do Homem desenvolveram-se como um esquema destinado a conter o Estado, evitando a
intromissão deste na vida e nos interesses das pessoas.
Internacionalização: passaram a constar de declarações universais, acordados entre os Estados, atingindo a
universalização.

Direitos fundamentais: correspondem à juspositivação, nas ordens internas do tipo continental, dos direitos
do Homem.

Direitos subjectivos proprio sensu: verdadeiros direitos subjectivos



Restantes direitos fundamentais: traduzem posições favoráveis que se traduzem em permissões genéricas ou
liberdades.

Direitos fundamentais privados: regras materialmente civis ou privadas – regras que, embora
constitucionalizadas, se podem considerar como de Direito privado, através de critérios histórico-
sistemáticos.

Direitos fundamentais públicos: regras administrativas, pessoais ou processuais (ex.: arts. 20º,21º,28º e 33º
CRP)

 Art. 18º/1 CRP  eficácia civil dos direitos fundamentais

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4
§ 7.º Características dos direitos de personalidade

1. A Absolutidade – 3 acepções:

o Eficácia em relação a todos – “erga omnes”: o direitos de personalidade permitiria ao seu


titular exigir a qualquer pessoa o acatamento de condutas necessárias à sua efectivação –
nem sempre os direitos de personalidade têm esta eficácia (ex.: direito à confidencialidade
de cartas missivas; direito de confidencialidade das relações médico/paciente, etc).
o Não estar compreendido numa relação jurídica: certos direitos de personalidade são
estruturalmente relativos: embora reportados a bens de personalidade, eles concretizam-se
em situações pedido/cumprimento, com sujeitos activo e passivo (ex.: confidencialidade).
o Deveriam ser sempre respeitantes por todos: nesta acepção, os direitos de personalidade são
absolutos.

2. A natureza não-patrimonial – Prof. Menezes Cordeiro: há que considerar que alguns direitos de
personalidade têm componentes comerciais (ex.: direito à imagem de uma modelo).

o Direitos de personalidade não-patrimoniais em sentido forte: o Direito não admite que os


correspondentes bens sejam permutados por dinheiro – direito à vida, à saúde, à integridade
corporal…
o Direitos de personalidade não-patrimoniais em sentido fraco: eles não podem ser abdicados
por dinheiro embora, dentro de certas regras, se admita que surjam como objecto de
negócios patrimoniais ou com algum alcance patrimonial – direito à saudade ou integridade
física, desde que não sejam irreversivelmente atingidos.
o Direitos de personalidade patrimoniais: são avaliáveis em dinheiro e podem ser negociados
no mercado – nome, imagem e fruto da actividade intelectual.

3. A dupla inerência: direitos de personalidade intimamente ligados à pessoa e intimamente ligados ao


seu objecto.

4. Prevalência: no tocante ao conflito de direitos de personalidade com quaisquer outros, há uma


evidente apetência de princípio para reconhecer prevalência aos direitos de personalidade. Todavia,
nenhuma regra jurídica a tanto obrigada – há que recorrer às regras gerais do art. 335º e do conflito
de direitos, ponderando, perante o caso concreto, qual deve prevalecer.
Prof. Menezes Cordeiro: prevalência não é característica.

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§ 8.º Modalidades e regime geral

Direitos necessários: estão presentes, desde que exista uma pessoa singular (ex.: direito à vida, direito à
integridade física e direito à integridade moral).

Direitos eventuais: dependem da existência dos respectivos bens de personalidade (ex.: direito ao nome
depende do facto de já ter sido atribuído um nome à pessoa).

Segundo os bens a que se reportem:


Direitos biológicos

Direitos morais – intocabilidade espiritual das pessoas

Direitos sociais – relações entre o sujeito e os seus semelhantes.

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Direitos limitáveis: retratam direitos que, em certas condições, admitem limitações (ex.: direito à imagem)

Direitos não limitáveis (ex.: direito à vida)

Direitos patrimoniais: facultam ou podem facultar ao seu titular, vantagens de tipo económico.

Direitos não patrimoniais

Direitos nominados: são referidos na lei. Normalmente típicos – têm regime consignado na lei.

Direitos inominados: tendencialmente atípicos.

Direitos típicos

Direitos atípicos

Nota: este universo de direitos de personalidade não é específico das pessoas singulares; é também
pertinente quanto às pessoas colectivas. No entanto, só caso a caso se poderá concluir acerca da pertinência
de determinado direito de personalidade em especial, quanto às pessoas colectivas.

- art. 160º  há que atender à específica natureza da pessoa colectiva.

- Esta solução até é “conveniente” – pessoas colectivas são verdadeiros entes no mundo do Direito e muitas
vezes, através da tutela das pessoas colectivas se consegue a tutela das pessoas singulares nelas integradas.

Direitos de personalidade – MODO COLECTIVO

***

Regime geral

1. Negociabilidade limitada: é possível haver negócios relativos a direitos de personalidade, mas com
limitações – justificadas pela não.-patrimonialidade de vários deles e pela inerência de todos.

Limitações:
i. Consubstanciadas na Ordem Pública (conjunto de princípios injuntivos do sistema
jurídico português) – art. 81º;
ii. Consubstanciadas pelos Bons Costumes – conteúdo do negócio jurídico sobre
direitos de personalidade tem de ser definido evitando limitações-surpresa para o
titular do direito de personalidade – art. 280º;
iii. Carácter temporário – art. 81º/2.

2. Carácter imprescritível e não sujeição à caducidade


 Não caducidade: as partes não podem apor prazos ou condições em direitos de
personalidade. Consequentemente, não se lhes pode aplicar qualquer regime de caducidade.
 Carácter imprescritível: visto o art. 298º/1, os direitos de personalidade são, também,
imprescritíveis. Um exercício tardio nunca poderia obstar à sua eficácia.

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3. Ressarcibilidade dos danos presentes na violação de um direito de personalidade
 No passado, os direitos de personalidade não acarretavam direito de indemnizar. Ainda hoje,
socialmente, se associa a indemnização de danos não patrimoniais como algo de “chocante”
– ideia de trocar vidas, integridade física, bom-nome, por dinheiro.

 - Admitida no art. 70º/2


- Responsabilidade aquiliana nos termos do art. 483º e ss.

Argumentos
 Se estes são mais graves, para o lesado, do que os danos patrimoniais, estranho é
que estes sejam indemnizáveis e outros não;
 A responsabilidade civil tem um papel punitivo: visa ressarcir o mal feito e
desincentivar, quer junto do agente, quer junto de outros elementos da
comunidade, a repetição das práticas prevaricadoras.

Prof. Menezes Cordeiro: defende que a bitola de indemnização por violação de direitos de personalidade
esta extremamente baixa e que deve ser feito um esforço para que esta seja aumentada.

Tese da Responsabilidade Civil Punitiva – “Punity Damages” – Em Portugal vai-se admitindo este
instituto, mas é difícil encontrar regime que o justifique – a lei admite que, por vezes, a indemnização pode
ficar aquém do dano; não quer dizer que permite que a indemnização possa exceder o dano.

Prof. Menezes Cordeiro: doutrinalmente este instituto é admissível.


Art. 496º - Por esta via admite-se o “punity damages”.

“Gravidade”  quando o dano não patrimonial consubstancia a


violação de um direito de personalidade, é sempre possível a
indemnização – a gravidade está sempre implícita ao acto.

 Os direitos de personalidade rodeiam-se de deveres acessórios destinados a assegurar a sua integridade e a


manter os seus bens dentro de um aproveitamento ético.
Ex.: deveres de informação que precedem o acto médico.

 Os direitos de personalidade reportam-se a bens que, muitas vezes, se interpenetram. Daí resultam, com
frequência conflitos de direitos: seja de personalidade entre si, seja de direitos de personalidade com direitos
de diversa natureza. A jurisprudência tem resolvido tais conflitos com recurso ao dispositivo do art. 335º –
colisão de direitos.

 Tutela penal  princípio da tipicidade: a lei tipifica como crimes as violações marcantes aos mais
ponderosos direitos de personalidade. Os bens tutelados penalmente são-no, também, no plano civil; já os
tutelados civilmente poderão sê-lo ou não pelo direito penal, de acordo com a política criminal que haja
logrado consagração na lei.

Os direitos de personalidade em especial

 Direito à vida e à integridade física;


 Direito à integridade moral, ao bom-nome e à reputação;
 Direito ao nome;
 Cartas missivas e confidenciais;

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 Direito à imagem;
 Direito à intimidade.

O direito à vida e à integridade física

O direito à vida, a inviolabilidade

Direito à vida: assegura a preservação das funções vitais do organismo biológico humano – art. 70º/1
(implicitamente).
Um atentado à integridade desse organismo ou qualquer outro esquema que provoque sofrimento
físico, mas que não ponha em causa imediata a sobrevivência, atingira outros direitos de personalidade, não o
direito à vida.

 O regime do direito à vida não admite compressão. O direito civil não aceita a supressão de uma vida
humana: nunca, definitivamente e em caso algum, salvo quando o conflito seja entre um direito à
vida e outros direitos à vida.

Ilicitude do suicido, do duelo e do comportamento de risco

 O direito à vida é indisponível: o seu titular não pode aliena-lo ou, de modo directo, necessário ou
eventual, proceder, de propósito, à sua supressão, pedindo a morte ou praticando suicídio.
O auxilio ao suicídio é civilmente ilícito, sendo nulos todos os actos que ele envolva.
Quando o próprio, sem auxílio, perpetrar suicídio, actuou ilicitamente já que dispôs de um direito
indisponível. O direito civil nada pode fazer: não se pode sancionar um falecido.
Tentativa de suicídio: todos os danos colaterais, incluindo tratamentos médicos e outras despesas,
caberão ao suicida tentado.

 Duelo: o titular não pode por a vida na dependência de factos futuros e incertos: seria como que
condicioná-la. O duelo é assim ilícito.

 Comportamentos de risco: são ilícitas todas as práticas de risco (ex.: roleta russa). É ilícito atentar
contra a vida humana, ainda que própria, submetendo-a a riscos que, sem necessidade, ultrapassam a
área normal e razoável. A ilicitude mais de acentua quando tais praticas ponham em causa a vida de
terceiros ou quando incitem os jovens a imitá-las.

Prof. Menezes Cordeiro – 4 argumentos:

1. Argumento ético: a inteligência é uma forma de vida, há que incentivá-la e preservá-la. Não o fazer
equivale à autonegaçao;
2. Argumento social: todo o direito existe pelo Homem e para o Homem. A ordenação normativa vida
o funcionamento da sociedade, assentando na salvaguarda e na contribuição de todos os seus
membros – supressão de uma pessoa = acto gravemente anti-social que põe em causa os
fundamentos da organização humana.
3. Argumento cultural: Portugal foi dos primeiros países a suprimir a pena de morte em 1867.
pertence à sensibilidade profunda do Direito português e ao sentir da nossa gente, a ideia de
inviolabilidade da vida humana.
4. Argumento técnico-jurídico: a exigência do sistema e da sua harmonia interna. Poder dispõe da
vida não joga com a coerência do sistema.

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 Eutanásia: pretende justificar a supressão da vida de uma pessoa como modo de suprimir o seu
sofrimento.
Não é admissível pelo Direito civil – havendo eutanásia, estaremos perante um ilícito civil: os seus
autores deverão suportar todos os danos, incluindo o da supressão da vida, nos termos legais.

Prof. Menezes Cordeiro – argumentos:


 A ciência médica suprime, actualmente, qualquer sofrimento físico;
 Não é possível determinar o “quantum” de sofrimento justificativo da morte, sendo
questionável o modo de determinar o grau de consciência de quem pretende sofrer
eutanásia;
 A morte é irreversível – qualquer erro de avaliação clínica ou psíquica não poderá
ser corrigido;
 A vida é sempre preferível à morte.

 O direito à integridade física: assegura a protecção do ser biológico e das suas diversas funções, nos
casos em que não esteja em causa a sua imediata sobrevivência.

Indemnizações – a morte de uma pessoa provoca:


 Danos patrimoniais – art. 495º/1 e2
 Lucros cessantes – art. 495º/3
 Danos morais – art. 496º
 Dano consequente da privação do direito à vida

2. O direito à integridade moral, ao Bom-nome e à Reputação

Honra:
 Honra social ou exterior: conjunto de apreciações valorativas ou de respeito e deferência de que cada
um desfruta na sociedade;
 Honra pessoal ou interior: auto-estima ou imagem que cada um faz das suas própria qualidade

Tudo isto dá corpo à integridade moral – art. 70º/1 – Honra em sentido objectivo.

Tem-se por justificado o atentado à honra quando o agente logre provar a veracidade do que afirmou ou,
até e porventura, provar que pôs, na averiguação do facto, todo o cuidado necessário e exigível?

Jurisprudência: defende quem para efeitos do art, 484º, não é necessário que os factos imputados sejam
verídicos. A lei não exige como pressuposto de funcionamento deste artigo, a falsidade de quaisquer
afirmação; limita-se a remeter, ainda que implicitamente, para os direitos de personalidade.

Prof. Menezes Cordeiro: a afirmação totalmente verdadeira pode atentar contra a honra das pessoas. Nem
tudo o que se faz tem de ser revelado. A afirmação falsa, tendenciosa ou incompleta é particularmente
indicada para atingir a honra. Todavia, a afirmação verdadeira também pode sê-lo: a exceptio veritatis, só por
si, não é justificativa.

O conflito com a liberdade de infirmação: direito prevalece sobre a liberdade genérica – o que é especial
prevalece sobre o geral.

Requisitos da existência de liberdade de informação:


- Absoluta veracidade;
- Ter subjacente um interesse político-social.

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 Em Portugal não há problema de falta de informação. O civilista tem de se preocupar é com o que
está em falta. O que há em Portugal são problemas de protecção da esfera das pessoas.

 A ofensa à honra dá origem a indemnizações, determinado tanto danos patrimoniais como não
patrimoniais. A indemnização deve ser suficientemente pesada, para exprimir a reprovação do
Direito e ter efeitos no futuro.
A tutela indemnizatória prevista no art. 484º é insuficiente. Em regra, mais importante do que a
compensação monetária é a reposição da verdade ou a reparação da ofensa feita.

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O direito ao nome

O nome da pessoa é formalmente fixado no registo de nascimento. A partir daí qualquer alteração
exige requisitos muito especiais, previstos na lei.

Código do Registo Civil (extractos a propósito):

ARTIGO 103º

(Composição do nome)

2 - O nome completo deve compor-se, no máximo, de seis vocábulos gramaticais, simples ou compostos,
dos quais só dois podem corresponder ao nome próprio e quatro a apelidos, devendo observar-se, na sua
composição, as regras seguintes:

a) Os nomes próprios devem ser portugueses, de entre os constantes da onomástica nacional ou adaptados,
gráfica e foneticamente, à língua portuguesa, não devendo suscitar dúvidas sobre o sexo do registando;

b) São admitidos os nomes próprios estrangeiros sob a forma originária se o registando for estrangeiro,
houver nascido no estrangeiro ou tiver outra nacionalidade além da portuguesa;

4 - As dúvidas sobre a composição do nome são esclarecidas por despacho do director-geral dos Registos e
do Notariado, por intermédio da Conservatória dos Registos Centrais

Uma vez constituído, o nome submete-se ao princípio da estabilidade. Assim, qualquer


modificação só é possível dentro de estrito condicionalismo legal:
 Rectificações e alterações de pormenor;
 Alterações resultantes de regras de Direito da família;
 Alteração por autorização do Ministro da Justiça;
 Alteração por naturalização.

Conteúdo do direito ao nome – art. 72º CC - o direito ao nome tem um conteúdo que se traduz nos
seguintes poderes ou pretensões:
 O poder de usar o nome completo;
 O poder de abreviar o nome;
 O poder de usar o nome abreviado;
 O poder de opor-se a que outrem o use ilicitamente, para a sua identificação ou outros fins;
 O poder de, perante nomes total ou parcialmente idênticos, requerer ao tribunal providências
conciliatórias.

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Figura semelhante ao nome – art. 74º – Pseudónimo: é, etimologicamente, um nome não exacto. Todavia,
ele pode estar de tal modo ligado a uma pessoa, que passe a designá-la, em termos sociais. O formalismo
jurídico não pode ir tão longe que o ignore.

A natureza do direito ao nome


 Começou por ser tomado como um verdadeiro direito de propriedade – Cunha Gonçalves e Pedro
Chaves – teoria rejeitada perante a vitória da concepção Pandectistica que só admite direitos reais
sobre coisas corpóreas.
 Depois, o nome foi tomado como uma instituição de Direito publico, de tipo policial – teoria
rejeitada: direito por excelência de cada um, o nome não poderia descer ao nível das regras policiais
e fiscais.
 Finalmente, o direito ao nome é apresentado como um direito de personalidade.

Prof. Menezes Cordeiro: o direito ao nome submete-se, em primeira linha, ao regime dos direitos
de personalidade, particularmente no tocante à defesa. O nome tem que ser apresentado como um
instituto autónomo, dotado de regras próprias, talhadas pela Historia, e envolvendo aspectos privados
e públicos.

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Cartas-Missivas confidenciais

 Uma carta traduz-se num texto, exarado em papel e com um destinatário. Será confidencial quando
contenha matéria que não possa ser comunicada fora do círculo entre o remetente e o destinatário.
 Em termos jurídicos temos:
o Um direito real de propriedade sobre a carta, que se transmite para o destinatário por doação,
assim que a carta seja fechada e endereçada ou quando, independentemente do endereço,
seja entregue em mão ao destinatário;
o Os direitos de autor, patrimonial e moral, sobre o texto da carta: pertencem ao autor, se da
própria carta outra solução não resultar; seguem o regime do Direito de autor;
o Os direitos de personalidade que tutelam bens íntimos eventualmente patentes na carta: são
do autor e seguem o regime do Direito de personalidade.

A confidencialidade

O que faz, de uma carta, um “documento confidencial”? – art. 75º/1:


 O destinatário deve guardar reserva sobre o seu conteúdo;
 O destinatário não pode aproveitar os elementos de informação que ela tenha levado ao seu
conhecimento.

Teoria subjectivista: a natureza confidencial de uma carta resultará da vontade do seu autor, devidamente
declarada – teoria rejeitada: a protecção da personalidade aplica-se a bens de personalidade que o seja,
efectivamente; não está na disponibilidade das partes o criar bens de personalidade onde, por lei ou pela
natureza das coisas, eles não existam.

Teoria objectivista: a confidencialidade teria de resultar do próprio teor da carta, independentemente da


vontade do remetente:
 Por se tratar de carta sobre matéria coberta por segredo profissional;
 Por se tratar de carta sobre assuntos de intimidade privada;
 Por se tratar de carta relativa a assunto que, já anteriormente, emitente e destinatário
tivessem acordado.

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Teoria do direito de personalidade: a confidencialidade resultará do próprio teor da carta, embora o seu autor,
dentro das regras do Direito de personalidade, possa interferir, em certos limites – teoria mista:
 A confidencialidade é objectiva, resultando de lei especial, da boa fé ou de estar, em
causa, um bem de personalidade;
 Apenas neste ultimo caso estaremos perante o regime dos arts. 75º e ss, regime que,
todavia, se poderá aplicar, por analogia, a outras situações;
 A vontade do remetente releva na decisão de incluir, em carta, matéria de personalidade
que só a ele próprio diga respeito e no não abdicar da tutela de personalidade.

Fora destes casos, um pedido de confidencialidade é uma proposta, que o destinatário


aceitara ou não.

Verificados os pressupostos da confidencialidade, o destinatário deve guardar segredo e não pode pautar a
sua actuação pelo que tenha passado a saber. Caso viole estes deveres:
 Incorre em responsabilidade civil por todos os danos patrimoniais que cause;
 Idem, quanto aos danos morais;
 Podendo ainda ser empreendidas diligências para fazer cessa o ilícito (apreensão da carta e a sua
destruição ou a sua entrega ao remetente; a publicação de complementos de informação que
+permitam situar a carta num contexto que minore o seu significado; a divulgação da ilicitude
cometida e da infidelidade do destinatário.

Publicação de uma carta-missiva confidencial: forma agradava de violação da confidencialidade. A carta só


pode ser publicada com o consentimento do seu autor ou com suprimento judicial – art. 76º/1 – há que ser
submetido a interpretação restritiva.
O consentimento para a publicação de uma carta-missiva confidencial equivale a um negocio pelo
qual o autor se despoja, para todo o sempre, de um bem da sua personalidade. Uma vez publicada, a carta
passará a ser do conhecimento geral. Caso a caso, haverá que ponderar a admissibilidade da autorização, à
luz do art. 81º/1.

[Link] não confidenciais – art. 78º - o destinatário de carta-missiva não confidencial só pode
usar dela em termos que não contrariem a expectativa do autor  surge uma relação de confiança. A
remessa de uma carta a uma pessoa é acompanhada pela ideia, socialmente consistente e que o Direito não
pode ignorar, de que se trata de assunto a não usar contra o próprio. É a relação de confiança, de base legal,
que o Direito, em nome da paz social, tutela de certa forma – regra de cavalheirismo.

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Direito à Imagem

 A imagem materializada de uma pessoa é um bem de personalidade fortemente objectivado. Nela


recaem direitos reais, normalmente o direito de propriedade: sobre a tela, a película ou o suporte
magnético onde a imagem esteja reproduzida.
Sob a tutela da imagem podem encobrir-se valores diversos, todos eles respeitáveis e
merecedores de tutela.

1.º Valor: Valor do resguardo ou da intimidade privada – tutela da intimidade e


tranquilidade de cada um.
2.º Valor: Valor do bom-nome e reputação
3º Valor: Capacidade lucrativa que determinada imagem possa assumir.

Esta variedade de valores não põe em causa a unidade do direito à imagem.

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Direito à palavra  a palavra humana também pode ser gravada e reproduzida. Ela tem características que
permitem reportá-la a uma determinada pessoa e, apenas, a ela. Dada a inexistência de uma tipicidade dos
direitos de personalidade, nenhuma dificuldade existe em extrapolar, com base no art. 70º ou, se necessário,
do art. 79º, por analogia, um direito à palavra.

O regime civil vigente: a autorização

 O art. 79º/1 consagra a regra básica: o retrato de uma pessoa não pode ser exposto, reproduzido ou
lançado no comércio sem o consentimento dela. O direito é pós-eficaz: depois da morte da pessoa
retratada, a autorização compete e pela ordem nele indicada, Às pessoas referidas no art. 71º/2.

 A autorização pode tomar corpo num contrato ou pode, simplesmente, surgir como um acto
unilateral.

 Enquanto direito de personalidade, é-lhe aplicável o art. 81º:


o Sindicando a limitação voluntária, perante o principio da ordem publica;
o Permitindo a livre revogação da limitação, ainda que com o dever de indemnizar.

Delimitação em função das circunstancias – teoria das esferas – art. 79º/2

 Esfera pública: própria de políticos, actores, desportistas ou outras celebridades, ela implicaria uma
área de condutas propositadamente acessível ao público, independentemente de concretas
autorizações;
 Esfera individual-social: reporta-se ao relacionamento social norma que as diversas pessoas
estabelecem com amigos, colegas e conhecidos; a reprodução de imagens seria aí possível, salvo
proibição, mas apenas para circular nesse mesmo meio;
 Esfera privada: tem a ver com a vida privada comum da pessoa: apenas acessível ao circulo da
família ou dos amigos mais estreitos, equiparáveis a familiares;
 Esfera secreta: abrange o âmbito que o próprio tenha decidido não revelar a ninguém; desde o
momento em que ele observe a discrição compatível com tal decisão, esta esfera tem absoluta tutela;
 Esfera intima: reporta-se à vida sentimental ou familiar no sentido mais estrito (cônjuge e filhos);
tem uma tutela absoluta, independentemente de quaisquer decisões, nesse sentido, do titular
considerado; elas são dispensáveis.

 Esferas privada, secreta e intima: nunca são acessíveis sem autorização. Além disso, só são
admissíveis autorizações na esfera privada: as esferas secreta e íntima deixariam de o ser se surgirem
autorizações de ingerência, o que nunca pode ser presumido.
 Esferas publica e individual-social: permitem retratar sem autorização, consoante as circunstancias
e os objectivos, mas apenas para documentar o que se lá passa: não, por exemplo, para obter imagens
para uma campanha publicitaria.

A lei excepciona, à autorização, os retratos tirados em lugares públicos, de factos de interesse geral o que
hajam decorrido publicamente. Nas “condições públicas” a lei presume que o interessado esta a agir no
âmbito das esferas pública ou individual-social ou está a autorizar retratos.

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O direito à reserva sobre a intimidade da vida privada

Bem em causa  a concreta vida privada do sujeito. Em rigor, a vida abrangera tudo o que não seja publico
e profissional ou social

O regime vigente

Art. 80º/1  dever genérico de respeito da reserva quanto à intimidade da vida privada (violação –
responsabilidade aquiliana art. 483º)

Art. 80º/2  Delimita a protecção em função de dois elementos:


 Um dado objectivo – a natureza do caso: tem a ver com os especiais valores que, in concreto,
possam conduzir à intromissão na esfera privada. Terão de ter uma cobertura legal e
constitucional e deverão revelar-se, no caso a decidir, mais ponderosos do que os valores
subjacentes à privacidade.
 Um dado subjectivo – a condição das pessoas: reporta-se à notoriedade ou ao cargo da pessoa
considerada ou à própria postura que a mesma adopte.
Tendo em conta a presença destes elementos subjectivos, na delimitação do âmbito protegido,
um mesmo acto pode ser lícito perante uma pessoa e ilícito perante outra.

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PESSOAS SINGULARES

O INICIO DA PERSONALIDADE

O PROBLEMA DA TUTELA PRÉ-NATAL

Tutela civil do nascituro

Tem direito à vida?


 Argumento de direito positivo – art. 24º CRP
 Argumento de harmonia de sistema – sistema civil na sua globalidade exige a
tutela da vida humana.

 Direito à vida do nascituro não pode ceder perante outras circunstâncias?  Todos os direitos podem se
estiverem em causa direitos equivalentes (ex.: saúde da mãe, direito da mãe.)

Possíveis argumentos:
 Liberdade da mulher
 Nascituro não tem direito a usar corpo da mãe

 Pode o nascituro ser indemnizado por danos causados quando ainda era nascituro?  Prof. Menezes
Cordeiro: tem dificuldade em reconhecer direitos ao nascituro para além do direito à vida: os restantes
direitos do nascituro dependem do seu nascimento.

 Danos de ter nascido? Não existe quando a alternativa seria não estar vivo. Quando exista má prestação
médica, quem tem direito à indemnização são os pais (incumprimento de contrato de prestações
medicas.)

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Aquisição de personalidade e de capacidade

Personalidade jurídica  qualidade de destinatário de normas jurídicas



Capacidade jurídica  medida concreta de direitos e de deveres de que se possa, respectivamente, ser
titular e destinatário.
 Capacidade de gozo: medida das posições jurídicas que se possam encabeçar;
 Capacidade de exercício: medida das posições jurídicas a exercer pessoal e livremente.

O começo da personalidade

Art. 66º/1 – “Nascimento completo e com vida” – a partir do momento em que haja exposição da criança ao
exterior.

Direitos específicos dos nascituros


O CC trata a matéria dos nascituros de forma predominantemente técnica. O termo tem uma acepção ampla,
de modo a abranger:
 O nascituro em sentido próprio ou estrito: ser humano concebido e ainda não nascido;
 O concepturo: entidade abstracta ainda não concebida.

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O art. 66º/2 admite direitos reconhecidos, por lei aos nascituros (em sentido amplo) – referências expressas
no CC: arts. 952º, 1855º, 1878º, 2033º, 2240º

Todos estão dependentes do nascimento – sujeitos a uma condição suspensiva.

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ELEMENTOS DOS ESTADOS E DAS PESSOAS

Estado e registo

Estados das pessoas  qualidades ou prerrogativas que impliquem ou que condicionem uma massa
predeterminada de situações jurídicas; factos ou situações fácticas que acarretem moldes, conjuntos grandes
de situações jurídicas (direitos e deveres).

 Estados globais: quando condicionem uma generalidade de posições de uma pessoa (ex.: estado
civil);
 Estados parcelares: se se reportarem a determinada faceta da pessoa em causa (ex.: estado
profissional).

Estados:
 Quando à nacionalidade: nacional, estrangeiros apátrida e plurinacional;
 Quando à família: parente ou estranho; solteiro, casado, viúvo ou divorciado; pai, mãe, filho ou
adoptado;
 Quando à posição sucessória: herdeiro ou legatário;
 Quando ao sexo: masculino ou feminino;
 Quando à idade: nascido ou nascituro e menor ou maior;
 Quando à deficiência: comum, interdito ou inabilitado;
 Quanto à situação patrimonial: comum ou insolvente.

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Registo Civil

Papel do registo civil: vantagem de dispor de um serviço público que contenha os elementos relativos à
identidade das pessoas e que, a propósito de cada uma delas, permita conhecer e comprovar os estados em
que se encontrem.

Princípios do Registo civil

 Principio da tipicidade: apenas estão sujeitos ao registo civil os actos legalmente referenciados com
esse fito.
 Principio da obrigatoriedade: o registo dos factos a ele sujeitos constitui um dever de certas
pessoas.
 Principio da compleitude: determina que os diversos assentos ou averbamentos reportados à
mesma pessoa disponham de quotas de referência que permitam conhecer, em permanência, os
efectivos estados civis do visado.
 Principio da oficiosidade supletiva: implica que, havendo omissão ou incorrecção do registo, as
mesmas sejam supridas pelo próprio conservador.
 Principio da autenticidade: conduz a que do registo apenas devam resultar factos efectivamente
ocorridos.

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 Principio da legalidade: decorre da inclusão dos órgãos do registo na Administração Pública.
Consequência directa deste princípio é, aqui, a ausência de discricionariedade: a lei do registo civil
deve ser aplicada como resulta da sua interpretação.
 Principio da responsabilidade: o incumprimento, pelos agentes do registo, dos deveres resultantes
do Código obriga-os a responder pelos danos a que derem causa.

Efeitos do registo civil


1. Papel condicionante absoluto de eficácia;
2. Eficácia probatória plena (só posta em causa por sentença judicial);
3. Eficácia probatória exclusiva dos meios do registo

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A Identidade

 A identidade de uma pessoa singular é o conjunto dos elementos que permitem diferenciá-la dos
seus semelhantes.
 A identificação civil e a emissão do bilhete de identidade são hoje reguladas pela lei n.º 33/99, de 18
de Maio.
 O BI visa comprovar a identidade civil do seu titular. A identidade é estabelecida pela identificação
civil, a qual tem por objecto a recolha, tratamento, e conservação dos dados pessoais
individualizadores de cada cidadão.
 Princípios da identificação civil: legalidade, autenticidade, veracidade, univocidade (n ambiguidade
dos dados) e segurança dos dados.

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O domicilio

 O CC não define domicílio. Limita-se, nos seus arts. 82º e ss, a indicar diversos domicílios. Não
obstante, podemos inferir dessas indicações que o domicilio é um lugar no qual, juridicamente e para
diversos efeitos, é suposto encontrar-se determinada pessoa.

 Na regulação que veio introduzir, o CC trabalha com as noções de paradeiro, residência e


domicílio.
 Domicílio: está em causa a determinação de um local a que se associa, em termos
jurídicos, determinada pessoa singular. As pessoas colectivas não têm “domicílio”:
antes sede, conceito equivalente, com determinadas adaptações. O domicilio releva
em 4 áreas:
o Na individualização da pessoa: complemento de identificação;
o Na determinação de regras aplicáveis
o Na explicitação do lugar do cumprimento das obrigações (art. 772º e
ss; art. 885º/2 e 1039º CC)
o Na fixação do tribunal competente, para a propositura de acções e
para a pratica de diversos actos.

 Paradeiro: conceito puramente fáctico. Dependerá da vontade da pessoa que tenha


optado por se encontrar em determinado sítio: mas de modo indirecto. Relevante é,
aqui, a ligação exterior e aparente, de uma pessoa ao local onde esteja – facto jurídico
stricto sensu.

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 Residência: exprime o lugar onde determinada pessoa habitualmente viva, aí
organizando a sua vida. Também a residência é uma noção de facto; assim se opõe ao
domicílio, noção jurídica. Esta característica leva a que, regra geral, se peça às
pessoas, a indicação da residência; retirar daí o domicílio será, depois, uma tarefa de
aplicação do Dto.

 Domicílios civis:

o Quanto aos efeitos:


 Domicílio geral: releva para uma generalidade de situações jurídicas;
 Domicílio especial ou particular: opera para situações jurídicas especificas (ex.:
domicílio profissional).

o Quanto á escolha
 Domicilio voluntário: dependente da opção do sujeito;
 Domicilio legal: correspondente a uma estatuição da lei.

Estas distinções podem intercruzar-se: teremos domicílios gerais voluntários e legais e domicílios especiais
também voluntários e legais.

 Complementando os critérios do art. 82º/1 e 2, pode-se avançar que o domicílio vai, sucessivamente,
corresponder aos seguintes factores:
o À residência permanente: quando o sujeito se encontre, sem interrupção, num determinado
local;
o À residência habitual: quando, circulando por vários locais, ele tenha, todavia, um de
presença claramente predominante;
o A alguma das residências alternativas: na hipótese de ser esse o figurino habitacional do
sujeito;
o À residência ocasional: quando não seja possível apontar ao sujeito uma residência mais
estável;
o Ao paradeiro: na falta de outro critério.

Domicílio electivo – art. 84º – é permitido estipular domicílio particular para determinados negócios,
contanto que a estipulação seja reduzida a escrito.
Quando as partes façam uso desta possibilidade teremos domicílio voluntário e especial: deriva da libré
escolha dos interessados e vale, apenas, para determinados actos.

Domicílio profissional – art. 83º – o papel do domicílio profissional é reportado às relações referidas à
profissão em jogo. Trata-se de domicílio especial.
O domicílio profissional é voluntário ou necessário? O exercício de qualquer profissão é voluntário. A
escolha do local do exercício cabe, também e formalmente, ao interessado.

Domicílios legais – a lei fixa os domicílios das pessoas. Trata-se em regra de domicílios gerais.
o Domicilio legal dos menores e dos interditos – art. 85º
o Domicilio legal dos funcionários públicos – art. 87º
o Domicílio legal dos agentes diplomáticos portugueses – art. 88º

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Ausência e Morte Presumida

 O Instituto da Ausência implica um desaparecimento prolongado e sem noticias e visa providenciar,


no essencial, quando aos bens do desaparecido.

 O instituto da ausência engloba diversos subintitutos:

o Curadoria provisória – arts. 89º-98º CC


o Curadoria definitiva – arts. 99º-113º CC
o Morte presumida – arts. 114º-119º CC
o Direitos eventuais do ausente – arts. 120º e 121º CC

Curadoria Provisória
 Art. 89º1 – Requisitos:
o Situação de ausência
o Que o ausente não tenha deixado representante legal ou voluntário
o Existência de património ao abandono

Curadoria Definitiva
Segue-se à fase da curadoria provisória. Ela é constituída por decisão do tribunal, denominada “justificação
da ausência”. Depende – art. 99º:
 De terem corrido 2 anos sem se saber do ausente ou 5, quando tenha deixado
representante legal ou voluntário bastante;
 De o Ministério Público ou algum interessado (art. 100º) o terem requerido.

Morte Presumida
Surge como a última fase do processo de ausência. De todo o modo, ela não depende da prévia instalação das
curadoras provisória ou definitiva, podendo ser requerida directamente, desde que se verifiquem os requisitos
legais – art. 114º:
 10 anos sobre a data das ultimas noticias ou 5 anos se, entretanto o ausente tiver completado 80 anos
de idade;
 5 anos sobre a data da maioridade do ausente, se fosse vivo;
 Requerimento dos interessados referidos no art. 100º

Direitos eventuais do ausente


O CC regula os denominados direitos eventuais do ausente, isto é, aqueles que sobrevieram ao ausente
depois do desaparecimento sem noticias e que sejam dependentes da condição da sua existência: eles passam
às pessoas que seriam chamadas à titularidade deles se o ausente fosse falecido – art. 120º. Não opera a
presunção de que o ausente está vivo.
A lei tempera esta regra mandando aplicar o regime da curadoria provisória e da definitiva – art. 121º/1.
os que seriam chamados à titularidade dos “direitos eventuais” em causa são havidos, perante eles, como
curadores definitivos.
Entendemos que também tem aplicação o art. 119º: demonstrando-se a sobrevida do ausente, os “direitos
eventuais” revertem para ele, com observância do disposto nesse preceito.

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A Menoridade

Pelo nascimento, a pessoa adquire uma capacidade de gozo tendencialmente plena – e isso sem prejuízo
da tutela pré-natal. Não pode, porém, agir pessoal e livremente: trata-se de uma incapacidade de exercício,
ditada pela natureza das coisas – Incapacidade automática dos menores – art. 123º

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Segundo o art. 128º, os menores carecem de capacidade para o exercício de direitos. Tratar-se-ia de uma
incapacidade geral de exercício, a suprir pelo poder paternal ou pela tutela – art. 124º. Apesar disso, o art.
127º estabelece termos tão amplos que inverte, de certo modo, o dispositivo legal, acabando por admitir uma
lata capacidade de tal modo que a “incapacidade” não é, em rigor, geral.

Art. 127º CC – O menor pode celebrar:


 Os negócios jurídicos próprios da sua vida corrente, ao alcance da sua capacidade natural e que
impliquem despesas ou disposições de bens de pequena importância ( a “pequena importancia” deve
ser prudentemente ponderada pelo julgador, de acordo com o caso concreto e, particularmente, com
a condição económica do menor em jogo) – art. 127º/1/b
 Os negócios jurídicos relativos à profissão, arte ou oficio que tenha sido autorizado a exercer e os
praticados no exercício dessa profissão, arte ou oficio – art. 127º/1/c
 Os negócios relativos à administração ou disposição de bens que o menor de dezasseis anos tenha
adquirido pelo seu trabalho – art. 127º/1/a

Situações para além das previstas no art. 127 perante as quais os menores têm capacidade de exercício –
exemplos: arts. 263º; 488º/2 a contrario; 1266º; 1601º/1 a contrario, 1886º a contrario; 616º/1 CPC…

Preceitos que prevêem a intervenção de menores – exemplos: arts. 1901º/2; 1931º

Não se trata de verdadeiros desvios Às regras “gerais” de capacidade. Antes se verifica que o dispositivo
dos arts. 122º e ss, aparentemente relativo a incapacidades de âmbito genérico, só tem aplicação no domínio
do Direito das obrigações e, mesmo aí, no campo dos negócios mais significativos. As obrigações vão traçar
os limites da acção futura, obrigando a um planeamento. Para serem devidamente assumidas, requerem
experiência, amadurecimento e um mínimo de estabilidade.

O poder paternal

Art. 124º - A incapacidade dos menores é suprida pelo poder paternal e, subsidiariamente, pela tutela.

O poder paternal corresponde a um conjunto multifacetado de direitos e poderes funcionais, todos a exercer
no interesse dos filhos – art. 1878º/1.

Poder de representação – art. 1881º/1 – o grosso da representação legal tem a ver com a administração dos
bens dos filhos. Além disso, ela inclui-se na lógica global do poder paternal, como um todo.

Ler: Arts. 1901º/1; 1902º/1; 1903º; 1904; 1905º; 1908º.

Inibição ou limitação do poder paternal: a inibição opera automaticamente nas hipóteses do art. 1913º/1 e
pode ocorrer por acção específica a tanto destinada no caso do art. 1915º.

Tutela
A tutela é subsidiária em relação ao poder paternal – art. 124º.
O menor está, obrigatoriamente, sujeito a tutela nos casos do art. 1921º/1

Regime de administração de bens – meio destinado a suprir o poder paternal quando os pais estejam
excluídos de o fazer ou quando a entidade que designar tutor indique outra pessoa para o fazer – art. 1922º.

O tutor tem os direitos e as obrigações dos pais, com determinadas modificações e restrições – art. 1935º/1;
deve exercer o encargo com a diligência do bom pai de família.

Anulabilidade
- Os actos jurídicos praticados pelos menores são anuláveis. Os arts. 125º e 126º estabelecem um regime
especial de anulabilidade.

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- A anulabilidade em causa é estabelecida no interesse do menor. Por isso, ela só pode ser invocada pelo
próprio menor ou pelo representante – nunca pela contraparte.

- A anulabilidade pode ser alegada:


 Pelo progenitor que exerça o poder paternal, pelo tutor ou pelo administrador de bens – art. 125º/1/a:
o Dentro do prazo de 1 ano a contar do conhecimento que o requerente haja tido do negócio;
o Nunca depois de o menor atingir a maioridade ou ser emancipado, altura, naturalmente, em
que ao próprio caberá agir, salvo se estiver pendente acção de interdição.

 Pelo próprio menor – art. 125º/1/b: no prazo de 1 ano a contar da maioridade ou da emancipação

 Por qualquer herdeiro do menor, no prazo de 1 ano a contar da morte desde, desde que ocorrida antes
de expirado o prazo para o próprio menor a poder invocar – art. 125º/1/c

- O menor não pode invocar a anulabilidade quando tenha usado de dolo (art. 253º) para se fazer passar por
maior ou emancipado – art. 126º. Quando esta situação ocorra, os seus herdeiros também não poderão alegar
a anulabilidade.
Já nenhuma razão existe para que o representante legal do menor doloso não possa invocar a
anulabilidade, nos prazos que lhe competem.

- A anulabilidade em causa é sanável mediante confirmação – art. 125º/2:


 Confirmação pode ser feita pelo menor, depois de atingir a maioridade ou ser emancipado;
 Pode ser levada a cabo pelo seu representante legal que tivesse podido praticar o próprio acto em
jogo.

No fundo os actos praticados pelos menores tendem para a validade. Apenas, em virtude da preocupação
que o Dto, como produto das sociedades humanas revela pelos jovens, se permite um esquema de certa
“impunidade”: se o negócio se revelar desfavorável, o menor (ou o seu representante) pode alijá-lo. Quem
contrate com um menor assume, pois, o risco do negócio.

A maioridade e a emancipação
A denominada “incapacidade” dos menores cessa quando atinjam a maioridade ou sejam emancipados,
salvas as restrições da lei.

- Art. 122º e 130º - a maioridade atinge-se aos 18 anos.

- A incapacidade do menor cessa, também, pela emancipação. A pessoa emancipada conserva-se menor:
“menor emancipado”, conquanto que, em principio, com capacidade de exercício de direitos.
O casamento de menores requer a autorização dos pais que exerçam o poder paternal ou do tutor – art.
1612º/1. Casando, dá-se a emancipação (art. 132º) se, porem, o menor casar sem autorização ou sem o seu
suprimento, o casamento é válido: simplesmente “continua a ser considerado menor quanto à administração
de bens que leve para o casal ou que posteriormente lhe advenham por título gratuito até à maioridade” – art.
1649º.

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A Interdição e a Inabilitação

Interdição

Interdição ≠ Inabilitação
(arts. 138º-151º CC) (arts. 152-156º CC)

Instituto aplicável a maiores que, por Considera as mesmas “anomalia psíquica,


anomalia psíquica, surdez-mudez ou surdez-mudez ou cegueira” permanentes,
cegueira, se mostrem incapazes de mas não tão graves que justifiquem a
governar suas pessoas e bens, equiparando- interdição.
o com as necessárias alterações, ao menor.
(lista meramente exemplificativa que aqui
surge por razoes de tradição histórica, que
remonta aos romanos).

Elemento decisivo

a pedra de toque está na gravidade da deficiência e nas suas consequências. Em regra, a surdez-mudez e a
cegueira não conduzem, hoje em dia, à interdição, uma vez que não implicam, em regra, a incapacidade para
reger a sua pessoa e bens.

- art. 141º - legitimidade para requerer interdição (defesa do património e defesa da própria pessoa.
- art. 142º - providências provisórias
- art. 143º - indica a ordem por que a tutela é diferida. Prof. Menezes Cordeiro: aparentemente e dado o
corpo do artigo, esta ordenação é vinculativa para o tribunal: situação estranha, que entra em conflito
valorativo com as regras sobre a designação da tutela dos menores – art. 1931º/1. Afirma uma certa
descoordenação na revisão final do Código. De todo o modo, o art. 143º/2, ao permitir, ao juiz, por “razoes
ponderosas”, afastar-se da ordenação anterior, retira-lhe o cunho vinculativo.
- art. 145º - dever especial do tutor

Os actos do interdito
Art. 148º - São anuláveis os negócios jurídicos celebrados pelo interdito depois do registo da sentença
de interdição definitiva. No entanto, o art. 139º remete para a incapacidade dos menores. Assim, as
excepções que a lei contempla para os menores (art. 127º) são aplicáveis aos interditos? – Prof. Menezes
Cordeiro defende que sim. Dependendo do concreto estado do interdito, não há razão para não o admitir e a
celebrar negócios da vida corrente, que estejam ao seu alcance.
Seguindo esta lógica, deve entender-se que a anulabilidade dos actos do interdito equivale à
“anulabilidade especial” dos menores – art. 125º. Ela só pode ser invocada pelo representante legal do
interdito ou, teoricamente, pelo próprio interdito, no prazo de um ano contanto do levantamento da
interdição.

Ler arts. 149º e 150º.

Inabilitação
- art. 152º/1ª parte – definição de inabilitação

- art. 156º: ao pedido de inabilitação e ao decurso do processo, aplicam-se, subsidiariamente, as regras da


interdição.

22
- A inabilitação não conduz a uma incapacidade geral: antes de reporta a determinados actos ou categorias de
actos. Por isso, a sentença que a decrete deve especificar os negócios que devam ser autorizados ou
praticados pelo curador (art. 153º).

- Na falta de autorização, os actos praticados pelo inabilitado são anuláveis – art. 148º ex vi art. 156º.

- O sistema de inabilitação é, todavia, especialmente flexível: ele permite que o juiz coloque a administração
do património do inabilitado, no todo ou em parte, sob o curador – art. 154º/1 – representação pelo curador.
A especial diferença entre a interdição e a inabilitação mantém-se, nessa altura, no domínio das situações
de natureza pessoa: o curador, ao contrário do tutor, não pode tomar quaisquer medidas no tocante ao
inabilitado, o qual se conserva livre, na esfera pessoal.

- A inabilitação é levantada quando cesse a causa que a determinou – art. 151º ex vi art. 156º.
No caso de inabilitação que advenha de prodigalidade ou abuso de bebidas alcoólicas ou de
estupefacientes: art. 155º

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O TERMO DA PERSONALIDADE

A Morte

- Diversos efeitos derivam da morte de uma pessoa: a morte opera, assim, como um facto jurídico em sentido
estrito  morte natural: cessação das diversas funções vitais, seguindo-se a decomposição do organismo.

Lei m.º 141/99, de 28 de Agosto veio estabelecer os princípios em que se baseia a verificação da morte.
Art. 2º - A morte corresponde à cessação irreversível das funções do tronco cerebral.

Comoriência – art. 68º/2 CC - tem como efeito pratico o impedir quaisquer transmissões entre os falecidos
que ela envolva.

Morte declarada: segundo o art. 68º/3, tem-se por falecida a pessoa cujo cadáver não foi encontrado ou
reconhecido, quando o desaparecimento se tiver dado em circunstancias que não permitam duvidar da morte
dela. A morte terá de ser declarada por uma entidade judicial.

Morte presumida – arts 114º e ss – o indicio da morte advem apenas de uma ausência prolongada e sem
noticias, do visado.

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As consequências da morte

- Podemos considerar a morte como um facto jurídico stricto sensu: um evento não humano – ou no qual a
vontade humana, a nível de eficácia, não é tratada como tal pelo Direito – a que o ordenamento associa
resultados jurídicos.

Efeitos que a morte produz no quanto ao Direito Privado:


 Cessação da personalidade – art. 68º/1
 Extinção dos direitos de personalidade, dos direitos pessoais e de certos direitos patrimoniais: o
termo da personalidade envolve a extinção de direitos de personalidade do falecido. Desde logo
cessam os direitos à vida e à integridade física por falta de objecto. Também os restantes deixam de
se poder reportar a uma pessoa e à especial dignidade que ela envolve.

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A morte faz cessar os direitos pessoais do falecido, com especial relevância no âmbito do Direito da
família. Assim, o casamento dissolve-se por morte – art. 1788º - o que conduz à cessação das
relações patrimoniais e pessoais entre os cônjuges – art. 1688º.
 Abertura das sucessões: arts. 2024º a 2334º.

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Tutela Post Mortem

A tutela do cadáver, independentemente da sua leitura dogmática, pertence ao acervo milenário do


Direito civil. No último século, todavia, desenhou-se um problema novo, mercê da autonomização dos
direitos de personalidade: a hipótese de estes manterem uma protecção mesmo depois da morte do seu titular.
Seria um fenómeno de eficácia póstuma ou pós-eficácia: extintos pela morte do seu titular, os direitos de
personalidade (ou alguns deles) Ainda produziriam efeitos.

Prof. Capelo de Sousa Defendem que o art. 71º tutela direitos de pessoas já falecidas.
Prof. Diogo Leite Campos Fazem uma remissão para o art. 71º/2  não há lugar a
Prof. Oliveira Ascensão indemnização por responsabilidade civil, mas apenas providências.
Esta posição assenta em 2 pressupostos:
 o de que está em jogo a personalidade do falecido, que já
nada pode compensar;
 o de que o dinheiro é inadequado para resolver a situação.

Defendem que o art. 71º tutela direitos de personalidade dos


Prof. Carlos Alberto vivos. Fazem uma remissão para o art. 70º/2 – direito a
Prof. Mota Pinto indemnização e providências.
Prof. Carvalho Fernandes
Prof. Pedro Paes de Vasconcelos
Prof. Menezes Cordeiro

Prof. Menezes Cordeiro: a tutela post mortem é, necessariamente, uma defesa dos vivos. Não se trata de
atribuir indemnizações ao falecido: antes, iure próprio, aos familiares legitimados para agir. Propende para
uma remissão, em bloco do art. 71º/2 para o art. 70º/2: as “providências adequadas” são sempre possíveis
“independentemente da responsabilidade civil a que haja lugar”.

Critérios para aferir da ofensa dos direitos de personalidade dos mortos – 4 teorias:

 Teoria da sensibilidade do falecido: a determinação da violação dos seus direitos de personalidade


deveria procurar restituir o que o próprio falecido sentiria, se fosse vivo (crítica: o falecido já não
doe ser incomodado por actuações terrenas. Apelar para o que ele sentiria se fosse vivo não serve,
assim, valores reais);
 Teoria da sensibilidade dos familiares vivos: apela para o atentado aos sentimentos destes, mercê
da ofensa feita ao ente querido desaparecido (crítica: esta teoria é de excluir porque apela a um
critério exclusivamente subjectivo).
 Teoria da ofensa da memoria in abstracto: explica que não estão propriamente em causa os
direitos de personalidade do falecido mas, antes, o respeito devido à sua memoria, respeito esse que
é quebrado com atentados formais àquilo que seriam (se fosse vivo) os seus bens de personalidade.
 Teoria da memoria in concreto: aceita a ideia do respeito devido à memória dos mortos, como
valor em jogo. Todavia, as quebras a esse respeito são sentidas pelos familiares sobrevivos mais
chegados. Apenas eles podem inteligir e sentir a inveracidade ou a injustiça das violações, sofrendo a

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inerente mágoa. A bitola de violação residirá no respeito concreto pela memória daquele morto, tal
como ele é sentido e sofrido pelos seus familiares sobrevivos.

Prof. Menezes Cordeiro: a base da construção da tutela post mortem será sempre constituída pela defesa in
abstracto, da memoria do falecido, mas ela terá de ser complementada com a ponderação in concreto da
situação efectivamente registada. Preconiza uma síntese das 3ª e 4ª teorias.

A natureza da tutela post mortem


- Art. 68º/1 e art. 71º/1 contraditórios? – 3 Teorias explicam a sua articulação:
 Teoria do prolongamento da personalidade: a personalidade não se extinguiria (totalmente) com a
morte: haveria um desvio ao art. 68º/1, sendo a personalidade do defunto “empurrada” para depois
da morte;
 Teoria da memória do falecido como bem autónomo: a personalidade cessa com a morte; o
dispositivo não visa, portanto a tutela dos direitos de personalidade do falecido mas, antes, um bem
diferente: a sua memória;
 Teoria do direito dos vivos: a tutela em jogo visaria a protecção das pessoas enumeradas no art.
71º/2, afectadas por actos ofensivos à memória do falecido; elas teriam direito à indemnização por
danos morais e patrimoniais sofridos. (Prof. Menezes Cordeiro)

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PESSOAS COLECTIVAS EM GERAL

A PERSONALIDADE COLECTIVA

Prof. Menezes Cordeiro: em Direito, pessoa é um centro de imputação de normas jurídicas. A pessoa é
singular, quando esse centro corresponda a um ser humano; é colectiva em todos os outros casos.

Porque é que existe a pessoa colectiva? Nem tudo se reconduz à pessoa singular?  O que interessa ao
Direito é a pessoa humana, mas frequentemente, para satisfazer necessidades dos seres humanos é preciso
abstrair-mo-nos deles. A pessoa colectiva é uma das formas de abstracção que melhor satisfaz necessidades
de pessoas singulares.

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Pessoas rudimentares e figuras afins

Pessoas rudimentares

Prof. Paulo Cunha – propor que ao lado das pessoas colectivas propriamente ditas, haveria que apontar a
categoria das pessoas rudimentares. Tratar-se-ia de realidade a quem a lei recusaria a titularidade de
direitos civis, admitindo-lhes, todavia, direito processuais – tinham personalidade judiciária mas não tinha
personalidade jurídica. Esta figura pode ser generalizada a outras situações parcelares de personalidade
jurídica.

Às pessoas rudimentares podem aplicar-se regras próprias da personalidade colectiva. Mas apenas
aquelas que surjam, expressamente, com essa dimensão. Fora do que a lei preveja, a pessoa rudimentar é
substituída pelos titulares efectivos dos bens em presença. O modo colectivo deve ser apurado caso a caso.

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Personalidade económica – traduz a aptidão que determinadas entidades tenham de ser destinatárias de
regras de Direito da economia ou, mais latamente, de regras de Direito patrimonial.
Personalidades laboral – também no campo do trabalho aparecem entidades personalizadas, apenas, para
certos efeitos. As comissões de trabalhadores não podem deixar de ser consideradas como pessoas
colectivas. Como, todavia, as suas aptidões estão limitadas para regras estritamente laborais, poderemos
enquadra-las na ideia de pessoa rudimentar

Personalidade tributária – qualidade de se ser sujeito passivo da obrigação de importo, com todas as posições
instrumentais que isso implica.

São pessoas rudimentares:


- Associações não reconhecidas
- Comissões
- Sociedades civis
- Sociedades irregulares
- esferas jurídicas e os patrimónios de afectação – conjuntos de direitos e de obrigações que, em vez de
estarem unificados em função de uma titularidade unitária, o estejam por força da afectação que os una.

Figuras afins

 Quando o modo colectivo atinja toda a entidade considerada, teremos uma pessoa colectiva. Quando
ele apenas a atinja parcialmente, falaremos, na tradição de Paulo Cunha, em pessoa rudimentar. Mas
pode-se encontrar uma terceira categoria:

Situações em que o Direito trata, em conjunto, realidades atinentes a várias pessoas, sem todavia, nem total
nem parcialmente, o fazer como se de uma única se tratasse. Falaremos, então, em modo colectivo
imperfeito. E as entidades daí decorrentes constituirão figuras afins às pessoas colectivas.

Ex. de figuras afins de pessoa colectiva:

Comunhão em mão comum: duas ou mais pessoas detêm um direito – ou um acervo de direitos – em
conjunto, podendo exercer actuações restritas enquanto membros do grupo. Não podem dispor da sua
“parcela” e não podem pedir a divisão da situação. Além disso, toda a sua actuação sobre a coisa passa pela
mediação do grupo.

Comunhão simples: duas ou mais pessoas são titulares de direitos sobre o mesmo objecto, direitos esses
representados por quotas. Embora haja direitos que só em conjunto podem ser usados, cada titular mantém
uma individualidade, podendo alienar a sua quota ou pedir a divisão da coisa.

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Classificações de pessoas colectivas

Pessoas colectivas publicas ≠ pessoas colectivas privadas  distinguem-se em função da sua


configuração jurídica: sociedades, cooperativas, associações e fundações e outras entidades equivalentes a
associações e aprovadas por diplomas extravagantes são privadas; as restantes entidades são públicas.

Pessoas colectivas de utilidade pública


 Algumas pessoas colectivas de tipo associativo prosseguem fins de interesse público que deviam ser
cometidos ao Estado. Sem prejuízo para a sua natureza de pessoas privadas, é-lhes dispensado um
estatuto de “utilidade pública”, com consequências no seu regime;
 Instituições privadas de solidariedade social;

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 O Dto português vigente prevê numerosas categorias de associações (de estudantes, de pais, de
mulheres, etc) a que dispensa um tratamento diferenciado.

O interesse colectivo é prosseguido com recurso às técnicas privatísticas.

Pessoas colectivas nacionais e estrangeiras: são consideradas nacionais quando tenham a sua sede
principal e efectiva em território português – art. 33º/1 CC e art.3º/1 Código das Sociedades Comerciais.
Caso contrário, as pessoas colectivas são consideradas estrangeiras.

Pessoas colectivas internacionais: sempre que retirem a sua personalidade de fontes internacionais,
maxime, de tratados ou convenções internacionais.

Pessoas colectivas comunitárias: retiram a sua personalidade de fontes de Dto Comunitário.

Pessoas colectivas associativas: o substrato é constituído por uma agremiação de pessoas, que juntam os
seus esforços para um objectivo comum.

Pessoas colectivas fundacionais: o substrato redunda num valor ou num acervo de bens, que potenciará a
actuação da pessoa considerada.

Pessoas colectivas com e sem fins lucrativos  quando os objectivos das pessoas colectivas se analise na
busca de lucros, a pessoa colectiva tem fins lucrativos e, tendo base associativa, surge como sociedade.
Quando não assuma tal fim lucrativo, será uma associação ou, não tendo natureza associativa, uma
fundação.

Prof. Menezes Cordeiro: o fim lucrativo ou não lucrativo não dita, de modo fatal, a posição assumida pela
pessoa colectiva em jogo. Isto não obsta a que, de facto, as associações tenham um perfil “solto”, perante o
das sociedades; aí, a busca oficializada de lucro leva a prever esquemas de fiscalização mais marcados e uma
tutela especial para minorias, que não é requerida nas associações.

Pessoas colectivas comuns e especiais


 Comuns: à partida, a pessoa colectiva comum rege-se pelo regime mais genérico, disponível na
ordem jurídica considerada. Assim, será comum a associação que se reja, de modo directo, pelo CC.
 Especiais: dependem de regras diferenciadas, previstas para a categoria que elas integrem, será
especial, por exemplo, a associação de estudantes que, além do código em causa, se irá reger pela
legislação específica relativa a associações de estudantes.

Uma mesma pessoa colectiva poderá ser “comum” ou “especial”, consoante o ângulo por que seja abordada.

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Tipologia de pessoas colectivas públicas

Tipicidade: principio segundo o qual, as pessoas colectivas devem obededer a uma das formas – dos “tipos”
– previstas na lei. Os tipos legais de pessoas colectivas contêm aspectos fundamentais do ente considerado e,
designadamente:
 Os órgãos essenciais;
 O modo de representação;
 O regime da responsabilidade por dívidas;

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 Os elementos que devam constar dos estatutos.

A tipicidade aqui em causa não é fechada – não é obrigatório conter, de modo exaustivo, todos os
elementos atinentes ao tipo considerado. Terá, no entanto, de compor contornos mínimos, sob pena de
facultar às pessoas interessadas a constituição das mais díspares e inesperadas figuras.

Consequências práticas:
 Existência de um numerus clausus de figuras relevantes
 Impossibilidade de, por analogia, construir novos tipos de pessoas colectivas (não há lacuna).

Associações, fundações e sociedades civis


 Associações: art. 167º e ss CC  dão corpo a uma manifestação civil básica do principio da
liberdade de associação;
 Fundações: art. 185º e ss CC  têm o sentido de entregas em vida ou de deixas por morte do
interessado;
 Sociedades civis: art. 980º e ss CC  correspondem ao produto da celebração de contratos de
sociedade, podendo apresentar formas muito multifacetadas.

Sociedades comerciais: cooperativas


 As sociedades comerciais dão, hoje, lugar a um ramo diferenciado do Dto: o Dto das Sociedades
Comerciais.

Art. 1º/2 Código das Sociedades Comerciais: “… aquelas que tenham por objecto a prática de actos de
comércio e adoptem o tipo de sociedade em nome colectivo, de sociedade por quotas, de sociedade anónima,
de sociedade em comandita simples ou de sociedade em comandita por acções.”  Sociedade comercial
pura.

 Todavia, a entidade que adopte a forma de sociedade comercial, mas tenha, como objecto exclusivo,
a prática de actos não comerciais, rege-se igualmente pelo CSC  sociedades civis sob forma
comercial.

Art. 2º/1 Código Cooperativo: “ As cooperativas são pessoas colectivas autónomas, de livre constituição, de
capital e de composição variáveis que, através da cooperação e entreajuda dos seus membros, com
obediência aos princípios cooperativos, visam, sem fins lucrativos, a satisfação das necessidades e
aspirações económicas, sociais ou culturais daqueles.”

 O direito subsidiário aplicável Às cooperativas é o CSC. As cooperativas, embora não distribuam


lucros formais, devem ser geridas em termos empresariais. O Dto europeu considera-as sociedades.
Toda a ambiência que as rodeia é de tipo societário.

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Fontes

- art. 46º CRP: livre constituição de sociedades = liberdade de associação é relevante para a satisfação de
necessidades colectivas - actividade económica.

- art. 157º e ss CC + art. 195º e ss CC – também têm personalidade jurídica.

- antecedentes: Código de Seabra (incipiente) + influencia italiana e da legislação comercial.

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- art. 157º CC – aplica-se a todas as pessoas colectivas, incluindo sociedades – apesar disso, o regime em
causa é minimalista; frequentemente o regime a aplicar, mesmo fora das sociedades comerciais, é o regime
das sociedades comerciais.

Função subsidiária bi-direcional: CC é o regime subsidiário das Sociedades Comerciais; o regime das
Sociedades Comerciais é subsidiário do CC em matéria de pessoas colectivas.

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Elementos essenciais

 Os elementos essenciais da pessoa colectiva são aqueles cuja presença é necessária para o seu
surgimento.

Acto de constituição – pressuposto pelos art. 158º/1, 158º-A, 161º/1; 168º/1; 185º/1 CC.

Como qualificá-lo?
 Teoria da norma: via no acto constitutivo uma fonte autónoma e própria. Na
constituição de uma pessoa colectiva não haveria uma negociação na qual duas
partes procurem harmonizar os seus interesses, antes uma fixação de regras para o
futuro.
 Teoria do contrato: vê, na constituição de uma associação, um contrato de
constituição, de tipo organizatório; na de uma fundação: um negocio (unilateral) de
tipo fundacional.

Art. 158º-A CC: aplicabilidade do regime dos negócios juridicos – afasta


a teoria da norma: o acto constitutivo tem caracter heterogeno – radica numa
vontade exterior aos destinatarios  esta tese não tem lugar no regime
juridico portugues actual; a tese do contrato é a que vinga.

Acto constitutivo e estatutos: forma e interpretação

 Acto constitutivo  corresponde a uma ou mais declarações de vontade, nas quais o ou os


fundadores se identificam, nos termos da lei notarial quando aplicável, e dão conta da vontade de
constituir determinada pessoa colectiva, aprovando os seus estatutos. Estes, por seu turno, analisam-
se num documento eventualmente autónomo, que regula as características e o funcionamento da
pessoa colectiva criada.

 Estatutos  trata-se de um negócio fonte de situações jurídicas, contratual ou unilateral. A sua


autonomia deriva do seu conteúdo puramente organizatório – interpretados à luz dos arts. 9º e10º do
CC.

Conteúdo necessário dos estatutos


 Art. 167º e art. 186º CC
 Dos estatutos deverão constar as regras que, para o futuro, vão reger o ente colectivo, as suas
relações com os associados e as relações destes entre si, quando os haja, e as relações com terceiros.

Associações
 Elementos necessários – art. 167º/1 CC
o Bens ou serviços com que os associados concorram para o património social;
o Denominação;
o Fim;
o Forma do seu funcionamento;
o Duração, quando não se constitua por tempo indeterminado.

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 Elementos eventuais – art. 167º/2 CC
o Direitos e deveres dos associados;
o Condições da sua admissão, saída e exclusão;
o Termos da extinção da pessoa colectiva e consequente devolução do seu património.

Fundações – art. 186º CC:


 Elementos necessários – art. 186º/1 CC:
o Fim da fundação
o Bens que lhe são destinados
o Designação – elementos necessário omitido na lei.

 Elementos eventuais – art. 186º/2 CC


o Sede
o Organização e funcionamento
o Transformação ou extinção
o Destino dos seus bens

As regras relativas às fundações não pode deixar de ser completadas com recurso ao disposto sobre
as associações.

Sistematização de elementos

 Elemento pessoal ou patrimonial: tem a ver com a necessidade de associados – ou da indicação de


como reuni-los –, nas associações e de bens, nas fundações.
o Associações: art. 182º/1/d CC
o Fundações: art. 188º/2 e art. 192º/1/c CC

 Elementos teleológico: fim da pessoa colectiva – tende a ser considerado o seu facto fundamental,
ditando a sua idoneidade, a sua capacidade em função do principio da especialidade, o eventual
reconhecimento de utilidade publica, o tipo de actuação requerido aos titulares dos seus órgãos e as
coordenadas de interpretação dos estatutos – arts. 167º/1 e 186º/1 CC.

 Elemento organizacional: conjunto de factores: denominação, sede, orgânica e forma do seu


funcionamento – arts. 162º-165º, 167º/1 e 186º/2 CC.

 Elemento voluntário? Não. Não é necessária especifica intenção de constituir uma pessoa
colectiva: se várias pessoas singulares praticam actos que criam uma pessoa colectiva nos termos da
lei, isto basta para se dar a sua criação

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Organização e funcionamento

Denominação da pessoa colectiva: representação vocabular da pessoa considerada, sendo, em principio,


necessária e suficiente para a identificar. Tem aqui cabimento a protecção geral dispensada ao nome,
enquanto direito de personalidade regras relativas à denominação das associações e das fundações
encontram-se no Registo Nacional de Pessoas Colectivas).

Sede: ela deve ser fixada nos estatutos da pessoa colectiva. Na sua falta, ela será havida no local em que
funcione habitualmente a administração principal – art. 159º CC.

Órgãos: órgãos das pessoas colectivas são as estruturas de organização humana permanentes, que permitem
à pessoa colectiva autodeterminar-se, exercer os seus direitos e cumprir as suas obrigações.
Cumpre aos estatutos da pessoa colectiva determinar quais os seus órgãos e qual a sua composição –
arts. 162º, 167º/1 e 186º/2.

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Art. 162º - conteúdo mínimo obrigatório.
Art. 170º - Obrigatório uma assembleia geral de associados, no caso das associações.

Princípios referentes aos órgãos


 Divisão de poderes: art. 162º - a ideia é a de cindir posições, dotando, em especial, o órgão de
fiscalização de um distanciamento mínimo, para ser eficaz.
 Colegiabilidade: previne-se a administração ou a fiscalização por uma única pessoa: poderiam gerar-
se situações de menor atenção, de compadrio ou de má imagem pública.
 Livre aceitação: salvo disposição em contrario (ex.: art. 146º/1) não há obrigatoriedade jurídica de
aceitação de quaisquer cargos.
 Responsabilidade: titulares dos órgãos são responsáveis, perante a pessoa colectiva. Eles tem, para
com ela, obrigações que resultem da lei e dos estatutos – art. 164º/1 – sendo responsáveis pela sua
violação. Aplicam-se subsidiariamente as regras do mandato.

Natureza do vinculo entre os órgãos e a pessoa colectiva:


 Teoria orgânica: os órgãos seriam parte da pessoa colectiva, constituindo um dos seus elementos. A
pessoa colectiva responderia pelos actos dos titulares dos órgãos.
 Teoria da representação: os órgãos operariam como uma realidade exterior, dotada de poderes de
representação, em função de um vínculo a tanto direccionado. A pessoa colectiva só responderia
pelos actos dos titulares dos órgãos quando a qualidade de representante fosse actuada.
Hoje ganha corpo uma ideia de responsabilidade que transcende a mera representação – art. 165º CC

A administração: gestão e representação

Poder de gestão: poder de dirigir os assuntos próprios da pessoa colectiva, tomando todas as decisões
concretas necessárias e orientando a actividade para a prossecução dos fins da pessoa colectiva considerada.
Abrange a possibilidade de praticar actos materiais da mais diversa natureza, de dar instruções internas e de
praticar actos jurídicos, internos e externos.

Poder de representação: trata-se de uma representação orgânica, porquanto lhe advêm da simples pertença
ao órgão colectivo que esteja em causa.

Até onde vão os poderes de representação? As limitações introduzidas no poder de representação dos
administradores ou de qualquer representante ad hoc só são oponíveis a terceiros que as conheçam ou, numa
formula que retome o conteúdo ético da boa fé, sempre presente: são inoponiveis a terceiros de boa fé, ou
seja, a terceiros que, sem culpa, a desconheçam.

Como funcionam a representação e a gestão?


 Exercícios conjunto: quando se requeira para a pratica de acto a intervenção de mais do que um
administrador;
 Exercício isolado: quando um administrador, sozinho, possa agir.
Quando os estatutos nada digam, o exercício é conjunto.

A fiscalização

Arts. 162º - Conselho fiscal


Art. 171º
A lei civil nada mais diz sobre o tema. A lacuna será colmatada pelos estatutos. No silêncio destes, há que
recorrer às disposições aplicáveis no domínio das sociedades anónimas.

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A Capacidade e a actuação

As pessoas têm capacidade jurídica: será a concreta medida de direitos e obrigações de que sejam
susceptíveis.
Quando às pessoas colectivas, uma orientação com certa tradição, entre nós, pretende que a sua
capacidade é limitada pelo principio da especialidade: ela apenas abrangeria os direitos e obrigações
necessários ou convenientes à prossecução dos seus fins, segundo a fórmula do art. 160º/1 CC.
Este principio não tem, hoje, alcance dogmático. O denominado princípio da especialidade não
restringe, hoje, a capacidade das pessoas colectivas: tal como emerge do art. 160º/1, ele diz-nos, no fundo,
que todos os direitos e obrigações são, salvo excepções abaixo referidas, acessíveis às pessoas colectivas.

As limitações especificas: naturais, legais e estatutárias

 Limitações ditadas pela natureza das coisas – art. 160º/2


o Situações jurídicas familiares ou sucessórias que visam apenas pessoas singulares;
o Situações de personalidade também centradas nas pessoas singulares
o Situações patrimoniais, mas que pressupõem a intervenção de uma pessoa singular
o Diversas situações de Dto público, também destinadas a contemplar pessoas singulares
A violação destas limitações implica a nulidade do negócio, por impossibilidade legal – art.
280º/1 CC.

 Limitações legais: não há um problema de (in)capacidade, há sim uma proibição legal. Pode
acontecer que a pratica de determinado negócio se inscreva, perfeitamente, nas finalidade coerentes
de certa pessoa colectiva mas que, não obstante, o legislador proíba a sua celebração. Pode ainda
suceder que o legislador proíba um acto e, depois o venha a permitir e a proibir de novo: não se pode
considerar que a capacidade de gozo de certa sociedade se modificou, sucessivamente, ao abrigo de
alterações legislativas.
A violação destas limitações legais conduz à nulidade do acto por violação de lei expressa (art.
294º) ou por ilicitude (art. 280º/1).

 Limitações estatutárias: podem os estatutos limitar, pela positiva, a actuação da pessoa colectiva a
que respeitem à prática de certos actos ou, pela negativa, vedar-lhe a prática de determinados actos.
Estas disposições estatutárias não limitam a capacidade de gozo da pessoa colectiva: são meras
regras de conduta internas. Elas adstringem os órgãos da pessoa colectiva a não praticar os actos
vedados, sem, contudo, limitarem a capacidade da sociedade.
A violação dos limites estatutários conduz à anulabilidade prevista nos arts. 177º e 178º
e com ressalva dos direitos de terceiros de boa fé.

 Limitações deliberativas: limitações que deliberações internas da própria pessoa colectiva ponham
à pratica, por ela, de certos actos. O seu desrespeito responsabiliza o seu autor. Aplica-se o regime
das limitações estatutárias.

Responsabilidade civil das pessoas colectivas


 Por factos ilícitos contratuais: aplica-se o art. 798º e ss CC
 Por factos ilícitos extracontratuais:
o Art. 165º: “representantes” = representantes voluntários
o Art. 483º: “aqueles” = qualquer pessoa jurídica, abrangendo as pessoas colectivas. Aplica-se
aos representantes orgânicos da pessoa, aos titulares dos órgãos.

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Aquisição de Personalidade

Modos de aquisição:
 Outorga do Estado: sistema que pressupõe uma actividade legislativa especifica e a obtenção de uma
pessoa colectiva que obedece a um ordenamento diferenciado.
 Concessão estadual: opera num pano de fundo em que existe já um dto comum das pessoas
colectivas. Todavia, apenas um acto legislativo permite aceder a esse patamar.
 Reconhecimento individual: pressupõe a aquisição por acto administrativo da entidade competente.
 Reconhecimento automático ou normativo: postura do executivo de não intervir na constituição de
pessoas colectivas. Ele vem consagrar a liberdade de associação e a liberdade de iniciativa
económica, consoante se reporte a associações ou a sociedades.
 Aquisição espontânea da personalidade jurídica: constituição de pessoas colectivas por pura
iniciativa dos particulares interessados.

Multiplicidade de actos de constituição  as pessoas colectivas não se deixam surpreender pelas formas
da sua constituição. Trata-se de conjunções complexas de situações jurídicas, às quais se pode aceder por
diversas fontes, a matriz contratual impera nas sociedades. Nas restantes pessoas colectivas, haverá que ver,
caso a caso.

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O levantamento da personalidade colectiva

A existência de pessoas colectivas permite limitar a responsabilidade patrimonial e isentar os


administradores e agentes das consequências dos actos imputáveis do ente colectivo. A presença dos limites
específicos implica que, por dívidas do ente colectivo, sejam chamadas a responder outras pessoas ou que
certos actos não se repercutam totalmente na pessoa colectiva a que sejam formalmente imputados.
Considerando limites genéricos à personalidade: eventualidade de, sem normas especificas, e por
exigência do sistema, o Direito, em certas situações, passar do modo colectivo ao modo singular, ignorando a
presença formal de uma pessoa colectiva. As diversas regras de fundo vão aplicar-se, de forma directa, ao
substrato pessoal ou patrimonial, da pessoa colectiva em causa.

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Situações típicas de levantamento

1. Confusão das esferas jurídicas: verifica-se quando, por inobservância de certas regras societárias
ou, mesmo, por decorrências puramente objectivas, não fique clara, a separação entre o património
da sociedade e a do sócio ou sócios.

2. Subcapitalizaçao: sempre que uma sociedade tenha sido constituída com um capital insuficiente. A
insuficiente é aferida em função do seu próprio objecto ou da sua actuação surgindo, assim, como
tecnicamente abusiva.
a. Subcapitalização nominal: a sociedade considerada tem um capital formalmente insuficiente
para o objecto ou para os actos a que se destina. Todavia, ela pode acudir com capitais
alheios.
b. Subcapitalização material: há uma efectiva insuficiência de fundos próprios ou alheios.

3. Atentando a terceiros e abuso de personalidade


a. Atentado a terceiros: verifica-se sempre que a personalidade colectiva seja usada, de modo
ilícito ou abusivo, para os prejudicar. Não basta a ocorrência de prejuízo, causada a terceiros
através da pessoa colectiva: para haver levantamento será necessário que se assista a uma
utilização contrária a normas ou princípios gerais, incluindo a ética dos negócios.
b. Abuso do institutos da personalidade jurídica: é uma situação de abuso do direito ou de
exercício inadmissível de posições jurídicas verificada a propósito da actuação do visado,

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através de uma pessoa colectiva. O comportamento atenta contra a confiança legitima ou
defronta a regra da primazia da materialidade subjacente.

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As teorias do levantamento

Teoria subjectiva – SERICK – a autonomia da pessoa colectiva deveria ser afastada quando houvesse um
abuso da sua forma jurídica, com vista a fins não permitidos. O levantamento exigiria um abuso consciente
da pessoa colectiva, não bastando, em principio, a não obtenção do escopo objectivo de uma norma ou de um
negócio. – Esta teoria tem sido rejeitada.

Teoria objectiva – resulta, à partida, da rejeição de elementos subjectivos para fazer actuar o levantamento.
Abandonada a intenção, o levantamento exigiria a ponderação dos institutos em jogo. Quando, contra a
intencionalidade normativa, eles fossem afastados pela invocação da personalidade, esta deveria ser
levantada.

Teoria da aplicação das normas: haveria levantamento sempre que, por exigência de uma norma
concretamente prevalente, não tivesse aplicação uma norma própria da personalidade colectiva.

Teorias negativistas: negam, directa ou indirectamente, a autonomia ao levantamento da personalidade,


enquanto instituto. O levantamento lidaria com proposições vagas, conduzindo à insegurança.

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Posição adoptada  há muitas situações que podem ser reconduzidas a outros mecanismos que não o
levantamento – carácter subsidiário da figura do levantamento. Quando, concretamente, os valores
fundamentais do sistema jurídico exigem que haja levantamento, há levantamento

Prof. Menezes Cordeiro:


 A pessoa colectiva não é um dado absoluto, pode ser relativizada;
 Existem 2 tipos de levantamento:
o Em sentido amplo: abrange todas as situações de levantamento;
o Em sentido estrito: reporta-se apenas àquelas situações em que isso ocorra por exigência da
boa fé.

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PESSOAS COLECTIVAS EM ESPECIAL


ASSOCIAÇOES

Características gerais e constituição das associações

 Organização das associações:


o Assembleia-geral
o Administração
o Conselho Fiscal

 A associação personalizada responde, com o seu património, pelas dívidas próprias: não responde
pelas dos associados, assim como estes não respondem pelas da associação.

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 Art. 157º
o Embora a associação possa desenvolver actividades lucrativas, praticando actos de comércio,
ela não pode visar lucros para os distribuir.
o Se se constituir uma associação que vise distribuir lucros aos associados, estaríamos perante
uma sociedade civil pura – art. 980º e ss CC – não abrangida pelas regalias próprias das
associações:
 Total separação de patrimónios, com subsequente irresponsabilidade dos
associados pelas dividas da associação;
 Natureza não-patrimonial da posição de associado, com a sua consequente
impenhorabilidade.

A constituição
A constituição das associações opera por contrato entre os associados fundadores. Tal contrato deve ser
celebrado por escritura pública – a58º/2 e 168º/1 CC.

O acto de constituição e os estatutos deverão constar de documentos formalmente autónomos? Nada impede
que o acto constitutivo e os estatutos constem de um único documento: basta que se mostrem reunidos os
requisitos de forma e de substância para que o Direito nada tenha a objectar.

Pré-associaçao: antes da formalização da associação e da decorrente aquisição de personalidade jurídica,


podem os associados iniciar diversas actividades, praticando actos jurídicos – associação sem personalidade
jurídica.

A invalidade da constituição
O acto constitutivo e os estatutos têm natureza contratual. Quais são as consequências da sua eventual
invalidade?
Art. 158º-A - é nula a constituição de uma associação cujo objecto será física ou legalmente impossível,
contrário à lei ou indeterminável ou, ainda, contrário à ordem pública ou ofensivo dos bons costumes. Pode a
invalidade reportar-se, apenas, a um ponto sectorial dos estatutos ou do acto de constituição, que não ponham
em causa a subsistência coerente do conjunto. Aplicam-se as regras do art. 292º.
Quando a reduçao não seja possível, deveria assistir-se, nos termos gerais, à destruição retroactiva
dos actos praticados e de todos aqueles que, destes, derivassem. No caso de uma pessoa colectiva, que tem
um património, que pode gerar resultados e que tem relações com terceiros, isso é impossível. Assim. A
declaração de nulidade pode ter uma de 2 consequências:
 Ou deriva de vicio de forma, que ponham em crise a aquisição da personalidade – art. 195º e ss
 Ou emerge de qualquer outro vício e cabe recorrer às regras da extinção e da liquidação das
associações.

Quid iuris quando a vícios que afectem, apenas, algum ou alguns dos associados outorgantes na escritura? O
vício atingiria apenas a presença do associado na agremiação. A invalidação da declaração de vontade da
pessoa em causa apenas ditaria a sua exclusão: não determinaria a invalidade de toda a constituição da
associação.

A interpretação dos estatutos das associações deve ser feita de acordo com as regras de interpretação da lei –
arts. 9º e 10º CC.

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A posição dos associados

Direitos próprios da classe dos associados


 Direitos gerais: surgem globalmente, para quem se encontre em certas circunstancias, dependendo da
manutenção dos estatutos.
o Direitos participativos (direito de participar na Assembleia-geral, de voto, de solicitar
informações, de ser eleito para os órgãos sociais, etc.)

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o Direitos de disfruto de benefícios associativos
o Direitos honoríficos e designativos

 Direitos especiais: emergem de especificas disposições dirigidas a certos associados, que apenas com
o consentimento dos próprios podem ser modificadas ou suprimidas.

Obrigações dos associados


 Obrigações contributivas: não é um elemento essencial contribuir para o património social. Em
regra, porém, os associados devem contribuir;
 Obrigações participativas: imposições estatutárias de participação: nos órgãos associativos, nas
actividades correntes ou em certas eventualidades;
 Deveres acessórios: decorrem da boa fé. Adstringem os associados a manter uma postura conforme
com a sua posição, não prejudicando a imagem ou os interesses da associação e não atentando contra
os outros associados, nessa qualidade.

Numero mínimo de associados: a lei portuguesa não revê um número mínimo de associados. Terá de haver
mais do que um para se poder outorgar o contrato constitutivo. No entanto admite-se a unipessoalidade
superveniente, até com base no art. 182º/1/d.

A adesão: tem natureza contratual – depende de uma proposta, feita pelo próprio interessado, pela
associação através da administração ou da assembleia-geral ou por iniciativa de algum ou alguns associados,
conforme o previsto nos estatutos. As condições de admissão constam dos estatutos – art. 167º/2.

A saída de um associado corresponde à sua retirada voluntária de determinada associação. Em principio, tal
retirada é livre, ainda que com as consequências do art. 181º: o desistente não tem o direito a reaver as
quotizações que haja pago e perde o direito ao património social. A saída é uma manifestação da liberdade de
associação.

A exclusão de um associado equivale à extinção dos seus direitos associativos por decisão da associação:
seja da administração, seja da assembleia-geral.

O poder disciplinar associativo: art. 180º prevê a eventualidade da exclusão – a exclusão constitui a sanção
mais grave que pode ser aplicada por entidades privadas. Infere-se daqui, que outras sanções menos graves,
são possíveis – quem pode o mais pode o menos.  Poder disciplinar: a faculdade que as associações
tenham de aplicar sanções aos seus associados. o poder disciplinar deve estar previsto nos estatutos e não
pode ser exercido em termos arbitrários: uma decorrência do principio de igual tratamento.
A proibição de arbítrio leva a que as sanções disciplinares devam ser aplicadas dentro de certas
regras. Designadamente: antes de qualquer sanção, deverá ser comunicado ao visado o facto ou factos de que
ele é acusado, dando-se oportunidade de se defender. No fim, qualquer decisão terá de ser justificada.

Natureza do poder disciplinar associativo:


 Teoria da pena: o poder disciplinar das associações derivaria da efectiva assunção, por estas, do
poder de punir os seus membros, como forma de melhor realizar os seus fins – a própria instituição
poderia aplicar sanções aos seus associados.
 Teoria negocial: a associação não pode usurpar o poder do juiz. O poder disciplinar analisar-se-ia
numa articulação entre cláusulas penais e o poder de denunciar a relação duradoura em que se
traduzem os direitos associativos.

A natureza dos direitos associativos: o status de associado


Os direitos associativos tratam-se de um conjunto complexo que transcende largamente a figura dos
direitos subjectivos. Assim, teremos que recorrer à ideia de “condição ou estado de associado” ou status: o
conjunto das posições complexas que integram a situação jurídica do associado.

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A assembleia-geral das associações

 A assembleia-geral surge como o órgão que detém as competências básicas da associação.


Tendencialmente, ele deverá corresponder à reunião de todos os associados
 Ver art. 173º e 174º

Funcionamento: art. 175º


 Art 175º/1 (quórum necessário ≠ quórum deliberativo)
 Art. 176º/1 – o associado pode fazer-se representar na assembleia seja através de outro associado,
seja através de um terceiro.

Competência
 Competência legal: temas que, por disposição de lei, devem necessariamente ser atribuídos à
assembleia – art. 172º/2
 Competência estatutária: toda aquela que lhe seja conferida pelos estatutos
 Competência subsidiária ou residual: assuntos que, por lei ou pelos estatutos, não sejam atribuídos a
outros órgãos – art, 172º/1

Invalidade das deliberações associativas


 Art. 177 – Anulabilidade fixada nos termos do art. 178º.

Prof. Menezes Cordeiro: é evidente que uma deliberação contrária à lei expressa ou de objecto
impossível nunca poderia ser meramente anulável, sob pena de se consolidar com o decurso do
prazo; outro tanto será óbvio no que toca a deliberações contrárias aos bons costumes ou à ordem
pública. Temos de admitir, ao lado das deliberações anuláveis, deliberações verdadeiramente nulas.

Art. 158º-A em remissão para o art. 280º  daí resulta que as deliberações físicas ou legalmente
impossíveis, contrárias à lei ou indetermináveis são nulas, tal como nulas sãos as que contradigam a
ordem pública ou que ofendam os bons costumes.

Conclusão: deliberação contraria à lei meramente anulável? Consolida-se com o decorrer do tempo?
 art. 177º tem que ser restritivamente interpretado  estas deliberações conduzem à anulabilidade quando
não conduzam à nulidade.

 Art. 179º - “Terceiro de boa fé” = 3º que desconheça, sem culpa, a anulabilidade da deliberação –
boa fé subjectiva ética.

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Administração

 Arts. 162º, 163 º, 171º

Invalidade das deliberações


 O desvalor das deliberações da Administração segue o regime da Assembleia Geral.
 A invalidade das deliberações do conselho de administração só pode ser invocada dentro do próprio
conselho ou da assembleia-geral ou pode qualquer interessado particular interessado faze-lo
directamente para os tribunais?

Prof. Menezes Cordeiro: de uma deliberação da administração cabe recurso directo para um tribunal –
corolário do facto da administração, pela lei e pelos estatutos, representar a pessoa colectiva.

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A Modificação e a extinção das associações

Modificação
 Transformação: arts. 175º/3 e 168º/1
 Fusão
 Cisão não há regime no CC  aplica-se subsidiariamente o CSC

Extinção: art. 182º


 Art. 182º/1 – Não é preciso decisão judicial – efeito normativo automático
 Art. 182º/2 – Decisão judicial necessária – lista é taxativa (prende-se com a lógica de liberdade de
associação)

Efeitos da extinção – art. 184º CC


Os órgãos da associação extinta mantêm-se em funções. Todavia, os seus poderes ficam limitados à
prática dos actos meramente conservatórios e dos necessários, quer à liquidação do património social, quer à
ultimação dos negócios pendentes – art. 184º/1,1ª parte
Mantém-se a sua personalidade jurídica: mas apenas na medida do necessário como se infere do
facto de não ficarem vinculadas, perante 3ºs, por novos actos dos administradores e salvo boa fé e falta de
publicidade da extinção – art. 184º/2. Podemos consideradas pessoas rudimentares.

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Fundações

Características
Pessoa colectiva cujo substrato é um património (conjunto de bens ou projecto de bens) ao serviço de um fim
de utilidade social, cabendo a uma autoridade pública atestar o que foi dito  art. 157º + 188º/1 e 2

Formação – 3 fases
 A instituição
 A elaboração dos estatutos
 O reconhecimento

Instituição: negocio jurídico unilateral, entre vivos ou mortis causa. Através desse negocio, uma pessoa – o
instituidor – afecta um património a uma pessoa colectiva a criar, com determinados objectos de tipo social.
O acto de instituição quando celebrado entre vivos segue a forma prescrita para as doações: escritura
pública quando envolva imóveis (art. 947º/1) e forma escrita nos restantes casos (947º/2)
Quando celebrado mortis causa – trata-se de instituição por testamento (art. 2204º).

O acto de instituição deve indicar, necessariamente, o fim da fundação e os bens que lhe são
destinados (186º/1) ou, pelo menos, deve dar indícios bastantes que permitam, pelas regras da interpretação,
reconstituir esses dois elementos. De outra forma o negócio será nulo por indeterminabilidade do objecto
(280º/1)

Elaboração dos estatutos: devem deles constar todos os elementos que n constem do acto de instituição –
art. 186º/2.
Podem ser elaborados pelo próprio instituidor – 186º/2. Quando não o seja – art. 187º
Art. 185º/5 em remissão para o 168º - necessidade de publicidade.

O reconhecimento – art. 188º - 2 parâmetros


 A idoneidade do fim: ele deve ser considerado de interesse social, pela entidade competente;
 A suficiência patrimonial: os bens afectos devem ser bastantes para a prossecução do fim visado, não
havendo fundadas expectativas de suprimento da insuficiência

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Modificação e extinção das fundações

Modificação:
 Modificação dos estatutos  art. 189º
 Modificação do fim – art. 190º

 Fusão aplicação subsidiária do CSC


 Cisão

Extinção: art. 192º

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Associações sem personalidade jurídica

 Realidade com um elemento pessoal e com organização, mas que não preenchem requisitos para a
personalidade jurídica do art. 158º/167º

Regime
 Constituídas por contrato – art. 405º e 406º
 Génese contratual explica o que consta do art. 195º/3  181º
 Organização é prevista nos estatutos e o funcionamento regulado pelos estatutos e pela lei.
 No que as regras adoptadas pelos associados sejam omissas, são aplicáveis as disposições legais
relativas Às associações, exceptuadas as que pressuponham a personalidade – 195º/1,2ª parte.
 Poderes dos administradores – art. 196º
 Responsabilidade por dividas – art. 198º

Estas pessoas não se tratam de pessoas rudimentares – antes de verdadeiras pessoas colectivas, às quais tudo
é permitido, excepto a limitação da responsabilidade dos associados e o acesso ao quadro de vantagens
administrativas, fiscais e económicas que o Direito pode conceder a determinadas associações.

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Comissões especiais

 Arts. 199º, 200º e 201º CC


 Não têm substrato pessoal e organizativo suficientes para se aplicar o art. 195º
 Para garantir uma boa gestão dos fundos, os responsáveis são os elementos integrantes da comissão
ou um terceiro que tenha sido encarregado da administração dos fundos.

Natureza das comissões especiais


 Teoria associativa: a comissão traduziria uma associação específica entre os seus membros. –
letra do art. 199º
 Teoria da fundação: vê, nas comissões, fundações não reconhecidas ou não personalizadas. Elas
assentariam num negócio fiduciário concluído entre os membros da comissão e os subscritores.
 Teoria dualista: a comissão, em si, teria, inicialmente, a qualidade de uma associação.
Recolhidos os fundos, estaríamos perante uma realidade de tipo fundacional.
o Prof. Menezes Cordeiro – concorda com a tese dualista com dominante fundacional:
donde o regime legal.

Em termos de personalidade colectiva, as comissões especiais ficam claramente aquém das associações “sem
personalidade”. Resta concluir que não têm personalidade jurídica plena; poderão, apenas, para certos fins
limitados surgir como pessoas rudimentares.

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Sociedades Civis Puras

Constituição
 Contrato – art.980º CC
 Forma – art. 981º CC – escritura pública
 Designação no Registo Nacional de Pessoas Colectivas

Modificação – art. 982º + CSC

Extinção
 Art. 1007º CC
 Art. 1010º CC

40
CAPITULO IV - VICIOS DA VONTADE E DA DECLARAÇÃO

§ 56.º Quadro dos vícios

O negocio jurídico vale enquanto manifestação da autonomia privada, que corresponde a uma
determinada vontade, isto é, a uma decisão assumida na sequencia de toda uma ponderação imputável a um
sujeito. A decisão terá de ser exteriorizada, para produzir os seus efeitos.
Sendo este processo fruto da obra humana, vários vícios podem interferir neste, nomeadamente no
plano:

 Da própria vontade em si: o processo que leva à tomada de decisão do sujeito autónomo é
perturbado: há um vício na formação da vontade. Este vício pode ir desde a pura e simples falta de
vontade até à ausência de liberdade ou à liberdade que não seja verdadeiramente autónoma.

 Da declaração: a vontade, em si, formou-se devidamente; no entanto, algo interfere aquando da sua
exteriorização, de tal modo que a declaração não corresponda à vontade real do sujeito: há
divergência entre a vontade e a declaração. Esta divergência pode ser intencional ou não-intencional
(quando deriva de lapsos ou dificuldades ocorridas na exteriorização.

 Coacção física – art. 246º


 Ausência de vontade  Falta de consciência da declaração – art. 246º
 Incapacidade acidental – parte do art. 257º
Vícios da vontade
 Falta de liberdade (coacção moral, arts. 258 e ss)
 Falta de conhecimentos (erro-vicio, arts. 251º, 252º
 Vontade deficiente
e dolo)
 Ambos (incapacidade acidental, art. 257º em parte

 Simulação – arts. 240º e ss


 Reserva mental – art. 244º
 Intencionais
Divergência entre  Declarações não serias – art. 245º
a vontade e a
declaração  Erro-obstáculo – art. 247º
 Não intencionais  Erro de calculo ou de escrita – art. 249º
 Erro na transmissão – art. 250º

As soluções que o Direito faz corresponder a estes vícios baseiam-se em dois princípios fundamentais:
1. Autonomia privada: exige que a vontade juridicamente relevante corresponda à vontade real, livre
e esclarecida, do declarante.
2. Tutela da confiança: requer a protecção da pessoa que tenha dado crédito à declaração de outrem,
mesmo quando esta não reúna todos os requisitos que um puro esquema de autonomia privada
exigiria.
Consoante a relevância relativa que assumam, assim as soluções jurídicas para os problemas registados.
§ 57.º AUSENCIA DA VONTADE

1. Falta de consciência da declaração: o declarante emitiu, na verdade, a declaração negocial, mas


não sabia que o estava a fazer.

Existe uma polémica antiga quanto a saber se, para a presença de uma declaração de vontade negocial, é
necessária a consciência da declaração.
O legislador português assumiu uma defesa completa da autonomia privada: o erro dá sempre lugar à
anulação, desde que recaia sobre um elemento essencial constatável pela outra parte – art. 247º – e a
consciência da declaração é exigida, sob pena de não haver produção de quaisquer efeitos – art. 246º

Prof. Menezes Cordeiro: recuperando a “consciência”, o declarante pode pretender salvar o negocio, pelo
que a solução residira, tão-só, na anulabilidade – há que fazer uma interpretação restritiva do art. 246º/1, na
parte relativa à falta de consciência da declaração.

O declarante, ao emitir uma proposta ou outra declaração, em boa e devida forma, sem ter a
consciência do que faça, esta vai-lhe ser imputada com o sentido que lhe daria o declaratário normal.
Só assim não será quando a falta de consciência seja de tal modo aparente que, perante o declaratario
normal, ela lhe não possa ser imputada. Nessa altura, o acto será nulo. Se a falta de consciência puder ser
censurada ao declarante (se violou deveres de lealdade ou de informação), ele fica obrigado a indemnizar o
declaratário.

2. Incapacidade acidental – art. 257º/1


Corresponde a um tipo particular de falta de vontade na declaração, desenvolvido à margem da teoria do
negócio jurídico. Apenas por razoes contingentes ela surge no sector da declaração. Com requisitos estreitos
de funcionamento e um regime benevolente – a mera anulabilidade, ela opera, contudo, como figura de
rectaguarda apta a enfrentar situações particulares

3. Declarações não serias – art. 245º


“Falta de seriedade” – ficam abrangidas todas as situações nas quais o declarante não tenha a intenção de
formular uma verdadeira declaração negocial, esperando que o “declaratário” disso se aperceba e tenha
consciência. – Abrange as declarações jocosas, as didácticas, as cénicas, as jactanciosas e as publicitárias.

4. Reserva mental – art. 244º


Há declaração com um mero intuito interior de enganar o declaratário, não pretendendo o declarante aquilo
que declara querer.
Reserva absoluta: o declarante não pretende nenhum negócio.
Reserva relativa: o declarante quer um negócio diferente.
Reserva inocente: não visa prejudicar ninguém.
Reserva fraudulenta: visa prejudicar alguém.
Na reserva conhecida pelo declaratário, não há acordo, nem, logicamente, o comum intuito de
enganar terceiros. Há uma remissão para a simulação in totum: esta só se aplicará se encontrarem reunidos os
seus diversos requisitos.
Caso o declaratário conheça a vontade real – portanto: a reserva do declarante e com ela concorde -,
funciona o regime do art. 236º/2 – o art. 144º/2 interpreta-se em termos restritivos e integrados.

§ 58.º COACÇÃO

Coacção física: alguém é levado, pela força, a emitir uma declaração, sem ter qualquer vontade de o fazer –
não há uma verdadeira manifestação de vontade. Mas uma tão-só aparência.
Consequência: nulidade.
Prof. Menezes Cordeiro: qualquer situação de coacção implica, á partida, o regime da coacção moral –
vontade coagida é vontade. Todavia, quando a situação seja de tal modo significativa que não possa falar-se
de vontade, por o coagido não ter, em termos de normalidade, margem de escolha, caímos na coacção física.

Havendo coacção moral: o negocio é anulável – art. 256º – o coagido poderá invocar o vicio mas não, em
principio, qualquer terceiro. Assim, supervenientemente, tornando-se o negocio favorável, o coagido pode
escolher mantê-lo.
Havendo coacção física: o negócio é nulo – art. 246º – o coagido, mesmo a querer conservar o negócio por,
subsequentemente, se ter tornado favorável, já não o poderá fazer.

§ 59.º ERRO

Dada a natureza falível da actuação humana, o grande óbice que sempre pode surgir em qualquer
negocio reside no engano de quem o celebre. O erro implica uma avaliação falta da realidade: seja por
carência de elementos, seja por má formação destes e, num caso e noutro, por actuação própria ou por
intervenção, maldosa ou inocente, da contraparte ou de terceiros.

O sistema português do erro :


 É marcadamente doutrinário: na sua elaboração jogaram múltiplos estudos teóricos, aprofundados
mas alheios á pratica jurisprudencial;
 Distingue o erro na declaração (erro-obstaculo – art. 247º) do erro na formação da vontade (erro-
vício – arts 251º e 252º;
 Coloca a relevância do erro na cognoscibilidade, pelo declaratário, da essencialidade do elemento
sobre que recai;
 Mantém a categoria do erro residual que exige acordo sobre a essencialidade de motivos periféricos
– art. 252º/1;
 Introduz a categoria única do erro sobre a base do negócio, para o submeter ao regime da alteração
das circunstâncias – art. 252º/2.

1. Erro na declaração – erro-obstáculo – art. 247º

A vontade formou-se correctamente; porem, aquando da exteriorização, houve uma falha, de tal modo que a
declaração não retrata a vontade.

Requisitos da anulabilidade do art. 247º


 Essencialidade, para o declarante, do elemento sobre que recaiu o erro – a bitola da
essencialidade é subjectiva: cada um determina, livremente, os factores que o possam levar a
contratar;
 Conhecimento dessa essencialidade, pelo declaratário ou o dever de a conhecer – é também um
dado subjectivo: ou conhece ou não conhece. Em regra o conhecimento derivará duma
comunicação expressa, nesse sentido; todavia, ele poderá advir do conjunto das circunstâncias
que rodeiem o negócio.

A desculpabilidade do erro não é requisito; no entanto, parece claro que, perante um erro indesculpável, será
mais difícil exigir à contraparte o dever de conhecer a essencialidade do elemento.

A anulação do contrato, por erro na declaração, pode provocar danos ao declaratário. Assim, o declarante
poderá responder por culpa in contrahendo: verificados os requisitos, ele deverá indemnizar o declaratário de
todos os danos.

Dissenso: modalidade particular de erro na declaração. Este ocorre quando as partes formulem declarações
não coincidentes, convictas de que concluíam um contrato. Nessa eventualidade, não há contrato. Qualquer
das partes que se aperceba do qui pro quo tem o dever de prevenir a outra de que nada se concluiu: não foi
formulada nenhuma proposta que obtivesse aceitação. O que temos são duas declarações de vontade distintas
que poderão ser anuladas, caso se verifiquem os requisitos e nisso haja interesse.
O dissenso nem sequer envolve rejeição, pelo que a proposta – ou propostas – permanece valida e
eficaz até que caduque, seja rejeitada ou aceite.

Erro na transmissão da declaração – art. 250º e 247º


250º/1 - Caso o destinatário conheça a essencialidade, para o mandante, do elemento deturpado na
transmissão ou não deva ignorá-lo, o negócio é anulável. Tudo se passa como se a declaração tivesse sido
directamente transmitida.

250º/2 – Casos em que o intermediário altere propositadamente a declaração. Aí, no conflito entre a
autonomia privada e a tutela da confiança, a lei entendeu dar primazia à autonomia privada: a declaração é
sempre anulável. O dolo deve ser provado por quem o invoque, havendo, contra o autor do feito e verificados
os pressupostos legais, um direito à indemnização, a favor de todos os lesados.

Validação do negócio – art. 248º


O declarante comete erro na declaração; o declaratário, ao conhecer a vontade real do declarante, pode
aceitar o negócio com o conteúdo dela resultante: o contrato forma-se apenas nessa ocasião.

Erro de calculo ou de escrita – art. 249º


Lapsos de escrita e lapsos de língua.
O erro é de tal modo ostensivo, que resulta do próprio contexto do documento ou das circunstancias da
declaração.
Não se verificando a imediata aparência do erro, haverá que aplicar o regime geral do art. 247º ou outro
qualquer, previsto por lei específica.

2. Erro da vontade – erro-vicio

Verdadeiro erro: o que vicia a própria formação da vontade. Fala-se, a tal propósito, em erro-vício ou,
simplesmente, erro da vontade.

Abarca dois grandes regimes:


 Erro simples
o Erro sobre a pessoa/objecto negocial – art. 251º
o Erro sobre os motivos – art. 252º/1
o Erro sobre a base do negócio – art. 252º/2
 Erro qualificado por dolo – Art. 253º

Erro sobre a pessoa/objecto negocial


No tocante à pessoa do declaratário: o erro pode reportar-se à sua identidade ou às suas qualidades. O erro so
será relevante quando atinja um elemento concretamente essencial, sendo – ou devendo ser – essa
essencialidade conhecida pelo declaratário, pela aplicação do art. 247º.
Erro relativo ao objecto: não esta em causa apenas a identidade do objecto, mas as suas qualidades e,
particularmente o seu valor.

Nestes casos, o erro da vontade segue o regime do art. 247º - o “dever de conhecer” introduz um factor de
objectivação que dá consistência ao sistema, tutelando a confiança.

O regime do erro da vontade é aplicável, com adaptações, a actos não contratuais.


Erro sobre os motivos – art. 252º/1
 Art. 252º/1 é um erro sobre motivos que não os do art. 251º
 Carácter não objectivo do erro – lei especialmente tuteladora do declaratário – por mais erro que haja
e por mais que o declaratário conheça e deva conhecer a essencialidade do motivo sobre o qual o
erro incidiu, não há anulabilidade do negocio – esta só tem lugar se houver acordo, adesão do
declaratário à justificação apresentada pelo declarante – assume o risco de aquilo não corresponder à
verdade – este acordo pode ser tácito – art. 217º

Condição resolutiva – art. 272º e ss não se aplicam

Erro sobre a base do negócio – art. 252º/2


Integram a “base do negócio” os elementos essenciais para a formação da vontade do declarante e
conhecidos pela outra parte, os quais, por não corresponderem à realidade, tornam a exigência do
cumprimento do negocio concluído gravemente contrário aos princípios da boa fé.

Impõe-se uma interpretação restritiva da remissão feita pelo art. 252º/2, para a alteração das circunstâncias.
No erro sobre a base do negócio há que aplicar o regime comum do erro: a anulabilidade. A situação ocorre
já no momento da celebração do negócio. Não se verificam valores que requeiram consequências diferentes
das normais para o erro. Assim. A consequência de se manter o negócio é a anulabilidade, não abrangendo a
modificabilidade.
Prof. Menezes Cordeiro: numa hipótese de erro o que temos é o início contemporâneo da formação do
negócio, pelo que se tem de atacar o negócio na sua génese – art. 287º

Erro qualificado por dolo


Acepção de dolo neste caso: sugestão ou artificio usados com o fim de enganar o autor da declaração e
previstos no art. 253º/1.

Castro Mendes: a relevância do dolo depende duma dupla causalidade: é preciso que o dolo seja
determinante do erro e o erro determinante do negócio.

Consequência: art. 254º/1 = anulabilidade


No erro qualificado por dolo, a anulabilidade surge se for determinante da vontade: não tem de ser essencial,
pois bastará que, por qualquer razão tenha dado lugar à vontade e não se põe o problema do conhecimento
uma vez que, neste caso, ele foi pura e simplesmente causado pelo declaratário.

A anulação por dolo pode ser cumulada com a indemnização dos danos causados. Por fazer-se, em
simultâneo, apelo as regras da culpa in contrahendo.
§ 60.º Simulação

 Na simulação, as partes acordam em emitir declarações não correspondentes à vontade real, para
enganar terceiros.

 A simulação é uma operação complexa que postula três acordos:


o Acordo simulatório: visa a montagem da operação e dá corpo à intenção de enganar
terceiros;
o Acordo dissimulado: exprime a vontade real de ambas as partes;
o Acordo simulado: traduz uma aparência de contrato, destinado a enganar a comunidade
jurídica.

 A tradição portuguesa, no tocante à simulação, era bastante severa. Eça não parte do dogma da
vontade, mas da pura e simples rebelião, contra o Estado e o Direito, traduzida pelo acordo
simulatório. Por isso, já as Ordenações prescreviam a sanção da nulidade, tomando uma particular
cautela com a fraude aos credores e com a fraude fiscal.
Foi Guilherme Moreira que reconduziu o tema da simulação ao da manifestação da
vontade.

O CC postula:
* Recondução da simulação à área dos vícios da vontade e da declaração;
* Principio básico da nulidade do negocio simulado;
* Possibilidade de aproveitar o negócio dissimulado, desde que ressalvados os competentes requisitos;
* Protecção dos terceiros de Boa fé.

Requisitos da simulação – art. 240º


 Acordo entre o declarante e o declaratário;
 Divergência entre a declaração e a vontade das partes;
 Intuito de enganar terceiros;

Modalidades da simulação

 Simulação fraudulenta  visa prejudicar terceiro


 Simulação Inocente  não visa prejudicar terceiro

 Simulação absoluta  quando as partes não pretendam celebrar qualquer negócio


 Simulação relativa  esconde um negócio verdadeiramente pretendido: o negocio dissimulado.

 Simulação objectiva  divergência voluntária recai sobre o objecto do negocio ou sobre o seu
conteúdo.
 Simulação subjectiva  divergência voluntária recai sobre as próprias partes – interposição fictícia
de pessoas.

A simulação diverge das seguintes figuras afins:

 Falsidade: na simulação, o documento que registe o contrato não é falso ou forjado, apenas exprime
uma declaração divergente da vontade.

 Negocio indirecto: recorre-se a um tipo contratual fora da sua função normal ou habitual.
 Fidúcia: um contrato tem ínsita cláusula pela qual o beneficiário só poderá exercer a sua posição
num determinado sentido.

 Interposição real de pessoas: uma pessoa contrata com outra apenas para que esta, depois, transfira
para o verdadeiro destinatário da operação aquilo que adquiriu – não há divergência.

Regime da Simulação

 O art. 240º/2 considera o negócio simulado como nulo – não se trata de uma verdadeira nulidade,
uma vez que, segundo os arts. 242º e 243º, ela não pode (contra o art.280º) ser invocada por qualquer
interessado nem ser declarada oficiosamente pelo tribunal.

 O negócio simulado não produz efeitos entre as partes e perante terceiros que conheçam ou
devessem conhecer a simulação: os terceiros de “má fé”.

 Art. 241º/1 dá legitimidade aos próprios simuladores, mesmo em situação fraudulenta, para
arguírem a simulação. Trata-se de um preceito que visa ladear a eventual invocação do tu quoque.

 Art. 243º/1 impede a invocação de simulação perante terceiros de boa fé: terceiros que
desconheçam, sem culpa, a simulação.

Art. 243º/2 – Prof. Menezes Cordeiro: esta é uma definição incompleta de boa fé subjectiva. Trata-
se aqui de uma noção de boa fé subjectiva ética – não faz sentido tutelar a confiança de uma pessoa
que, com culpa, desconheça ou que devia conhecer.

Art, 243º/3 – Havendo registo, qualquer interessado em conhecer a realidade tem o dever de se
inteirar do seu teor.

Âmbito da aplicação do preceito

O problema da inoponibilidade da simulação a terceiros de boa fé no confronto com as preferências legais

 Preferência: quando alguém (o preferente) tenha o direito de, perante outra pessoa (o obrigado à
preferência) e querendo esta celebrar certo negocio, surgir como contraparte, desde que acompanhe
as condições por ela pretendidas.
Havendo violação de um direito de preferência, pode o preferente, através de uma acção de
preferência – art. 1410º – fazer o seu negócio preferível.

Se os terceiros forem beneficiados, em vez de prejudicados, o disposto no art. 243º/1 continua a aplicar-se?

o Castro Mendes, Antunes Varela: defendiam que a simulação era, em qualquer caso,
inoponivel a terceiros de boa fé.
o Carvalho Fernandes, Menezes Cordeiro: defendem que o objectivo da lei, perante os
interesses em presença, nunca poderia ser o de facultar o enriquecimento do preferente. Não
se aplica o art. 243º/1 quando os terceiros de boa fé sejam beneficiados.
A prova da simulação

 O art. 394º/2 parece proibir a prova testemunhal do acordo simulatório e do negócio dissimulado,
quando invocado pelos simuladores. Mas impedir a prova testemunhal equivale, muitas vezes, a
restringir de modo indirecto a prescrição do art. 240º/2, quanto à nulidade da simulação.
Tem vindo a ser defendido um entendimento restritivo do art. 394º/2: visa-se, no fundo, fazer
prevalecer a verdade dos factos.
A jurisprudência acolhe esta interpretação restritiva – havendo um princípio de prova escrita, é
admissível complementá-la através de testemunhos. Em termos práticos, admite-se como princípio
de prova escrita uma escritura de rectificação.

…………………………………………………………………………………………………………………...

CAPITULO V – INEFICÁCIA DO NEGOCIO JURIDICO

§ 61.º Invalidades e ineficácia

 Traduz a situação na qual os negócios jurídicos se encontram quando não produzam todos os efeitos
que, dado o seu teor, se destinariam a desencadear – Ineficácia em sentido amplo.

 Duas causas que levam à ineficácia de um negócio jurídico:

o A lei não permite  a autonomia privada cede perante a lei, que apenas reconhece dentro de
determinadas fronteiras;
o Falhas genéticas na celebração do negócio  a autonomia privada pode ser deficientemente
exercida pelas partes que por vezes falham na tentativa de configurar situações jurídicas.

Quadro geral das ineficácias

 Ineficácia em sentido amplo

o Invalidade: presença de vícios ou desconformidades com a ordem jurídica no negócio


celebrado.
 Nulidade – negocio não produz efeitos
 Anulabilidade – negocio produz efeitos, mas uma das partes tem o direito
potestativo de impugnar o negócio.
 Figuras mistas

o Ineficácia stricto sensu: o negócio, em si, não tem vícios; apenas se verifica uma conjunção
de factores extrínsecos que conduz à referida não-produçao.

Nulidade
 Arts. 220º; 240º/2; 242º/2; 245º/1; 246º; 280º/1 e 2; 294º.

 Dois grandes fundamentos para a nulidade:


o Falta um elemento essencial do negócio como, por exemplo, a vontade ou o objecto;
o A contrariedade à lei imperativa ou, mais latamente, ao Direito.

 A nulidade é o tipo residual de ineficácia: perante uma falha negocial, quando a lei não determine
outra saída, a consequência é a nulidade (art. 280º).
Na anulabilidade, o que surge é o direito potestativo de impugnar e, por isso, tem de haver
uma regra que diga que esse direito existe.
 A invocação da nulidade opera independentemente de qualquer vontade a desencadear. A invocação
da nulidade não depende de uma permissão normativa específica de o fazer: a permissão é genérica.
Não há, pois, um direito potestativo de actuar a nulidade. O tribunal não constitui a nulidade
do negócio: limita-se a declará-la, de modo a que não restem duvidas.

Anulabilidade

 Diz-nos que o interesse de uma determinada pessoa não foi suficientemente atendido, aquando da
celebração do negócio – a lei concede ao interessado o direito potestativo de impugnar o negócio –
art. 287º/1

Invocação das invalidades – Prof. Menezes Cordeiro: não há nenhuma regra que imponha a invocação
judicial por isso a invocação também pode ser extrajudicial.

Em especial: a nulidade e anulabilidade; invalidades mistas

1. Nulidade: quer por razoes históricas, quer pelo esquema vigente, ela ergue-se como tipo-matriz no
seio da matéria das ineficácias.

 Dois grandes fundamentos da nulidade:


- A falta de algum elementos essencial do negócio como, por exemplo, a falta de vontade ou o objecto;
- A contrariedade á lei imperativa ou, mais latamente, ao Direito.

Dado o silêncio da lei, e ainda que por via interpretativa, pode concluir-se que a nulidade é p tipo
residual da ineficácia: perante uma falha negocial, quando a lei não determine outra saída, a consequência é a
nulidade

 A nulidade atinge o negócio em si – art., 286º


- A nulidade é invocável a todo o tempo
- Por qualquer interessado
- Podendo ser declarada oficiosamente pelo tribunal

 Opera ipso iuri – opera independentemente de qualquer vontade a desencadear. O tribunal não
constitui a nulidade do negócio: limita-se a declará-la.

2. Anulabilidade: não traduz uma falha estrutural do negócio. Ela apenas nos diz que o interesse duma
determinada pessoa não foi suficientemente atendido, quando da celebração do negócio – lei concede
ao interessado o direito potestativo de impugnar o negócio.

 Só pode ser invocada pelas “pessoas em cujo interesse a lei estabelece…”


Art. 287º/1
 E no prazo de um ano subsequente à cessação do vicio
Art, 288º  Admitindo a confirmação

3. Invalidades mistas: hipóteses de invalidade que não se podem reconduzir aos modelos puros da
nulidade e da anulabilidade – invalidades atípicas.
Ex.: invalidade por simulação – invalidade com restrições á sua inoponibilidade – art. 243º
Contrato-promessa – art. 410º/3
Totais
Ineficácias
Parciais

Originárias
Ineficácias
Supervenientes

A invocação das invalidades – dois grandes sistemas


 Sistema dos Direitos latinos: exige uma invocação judicial
 Sistema do Direito alemão: admite uma anulação por mera declaração extrajudicial dirigida á
contraparte.

No direito português: aquando da preparação do Código Civil, Rui de Alarcão propôs, para a anulabilidade, a
possibilidade de invocação extrajudicial. Tal proposta foi suprimida nas revisões ministeriais, sem que, no
entanto, se introduzisse qualquer preceito de sinal contrário.
De todo o modo, a supressão foi suficientemente incisiva para levar alguma doutrina a defender a
necessidade de invocação extrajudicial, seja para a anulação, seja para as invalidades em geral.

Prof. Menezes Cordeiro: o CC não contém qualquer norma que obrigue à invocação
judicial. Pelo contrario: os arts. 286º e 287º falam em invocar a nulidade e arguir a anulabilidade sem
inserirem qualquer rasto duma necessidade de invocação judicial. Não parece viável, na falta de base legal,
exigir tal procedimento.
Excepto nos casos abrangidos pelo art. 291º/1 – invalidades que atinjam situações registadas – há
uma directriz que impõe o recurso a juízo.

Ex.: invocação das invalidades relativas a contratos celebrados por mero consenso não exige
forma solene para a invocação de invalidade. É evidente que se a declaração de nulidade ou a anulação
“informais” não forem aceites, como tais, pelos destinatários, há litígio, a dirimir em juízo.
Conclusão: pode-se invocar extra judicialmente a invalidade, excepto nos casos registados e
nas situações de litigio.

O problema da inexistência

 A inexistência constitui uma categoria controversa, dentro do universo da ineficácia dos negócios
jurídicos. Ela surge em termos conjunturais, na doutrina napoleónica, para resolver uma questão de
interpretação suscitada pelo CC francês e pela doutrina subsequente.

 Em Portugal:

o Guilherme Moreira: considerava a nulidade e a inexistência a mesma coisa; só no Direito da


família admitiria, a titulo excepcional, a possibilidade da inexistência como vicio, mais
grave do que a nulidade;

o Pires de Lima: mesmo no casamento, a nulidade seria suficiente para enquadrar todas as
falhas;

o Raul Ventura: votou contra a inexistência, que equipara á nulidade;

o Manuel de Andrade: votou a favor da inexistência, limitando-a, no entanto, ao domínio do


casamento.
o Galvão Telles: os casos pretensamente apresentados como de inexistência legal, ou são de
inexistência material – não há nada – ou de nulidade (absoluta).

O surto exegético que se seguiria à publicação do CC seria favorável à inexistência dada a sua consagração
verbal no domínio do casamento.

Prof. Menezes Cordeiro

 Inexistência material  não haveria nada – faltariam os próprios elementos materiais de que
depende um negócio jurídico (por exemplo, as declarações).
É puramente descritiva: em qualquer momento, o número de negócios que nunca chegaram a
existir é infinito – é impensável tomá-los um por um para, daí, fazer uma categoria jurídica operacional.

 Inexistência jurídica  surgiria ainda uma configuração negocial, a que o Direito retiraria, no
entanto, qualquer tipo de eficácia.

O Prof. Defende uma não autonomização da inexistência jurídica que, a se verificar


autonomizada, resultaria da impossibilidade de aplicar os seguintes regimes – arts. 1259º/1; 1260º/2;
1270º/1 CC e 17º/2 do Código do Registo Predial.
Mesmo no Direito da família deve-se restringir p art. 1630º - “aparência de casamento” que
justifica a tutela da confiança de terceiros de boa fé.

As ineficácias em sentido estrito

 A ineficácia stricto sensu traduz a situação do negocio jurídico que, não tendo, em si, quaisquer
vícios não produza, todavia, todos os seus efeitos, por força de factores extrínsecos.

 As ineficácias deste tipo só surgem nos casos específicos previstos pela lei.
Ex.: art. 81º/1 – Código de insolvência e recuperação de empresas
Art. 192º/1 – Código dos valores imobiliários

 A eficácia do negócio jurídico depende do seu enquadramento dentro da autonomia privada. Pode,
no entanto, suceder que, perante um negócio, tenham aplicação, alem das da autonomia privada,
outras regras muito diversas. A inobservância dessas regras provoca a irregularidade do negócio
atingido, sem prejudicar a sua eficácia.
Ex.: art. 1649º – o menor que casar sem autorização dos pais ou do tutor celebra um casamento
eficaz, mas sujeita-se a certas sanções quanto aos bens.
Art. 1650º - o casamento celebrado com impedimento é válido, mas dá lugar a determinadas
consequências, também no domínio dos bens.

§ 62.º O regime

Consequências das invalidades; a restituição

 Os efeitos das invalidades não se fundamentam na autónoma privada.


 A declaração de nulidade e a anulação do negócio têm efeito retroactivo, segundo o art. 289º/1

Destruição retroactiva de efeitos através da obrigação de restituição: deve ser restituído


tudo o que tiver sido prestado ou, se a restituição em espécie não for possível, o valore
correspondente – ex.: contratos de execução continuada.
O dever de restituição predisposto no art. 289º/1 tem natureza legal. Ele prevalece sobre a
obrigação de restituir o enriquecimento, meramente subsidiário.

 Por vezes, pode haver limitações ao direito de restituição – art. 289º – 1269º – caso a caso será
necessário indagar a boa ou a má fé do obrigado à restituição.
 Pode a parte obrigada à restituição ter alienado gratuitamente a coisa que devesse restituir: ficará
obrigada a devolver o seu valor – art. 289º/2
 O dever de restituir é recíproco – art, 290º.
Outros institutos, como o direito de retenção, podem ter aplicação, desde que se verifiquem os
respectivos requisitos. A nulidade ou a anulação dum negócio são, ainda, susceptíveis de causar
danos ilícitos. Podem intervir institutos de responsabilidade civil e a culpa in contrahendo.

 A invalidade dum negócio não pode prejudicar a manutenção dos deveres de segurança, de
informação e de lealdade que acompanham qualquer obrigação, por força da boa fé.

A tutela de terceiros

 A declaração de nulidade ou a anulação dum negócio jurídico envolve a nulidade dos negócios
subsequentes, que dependam do primeiro – art. 892º

 Quid iuris se alguém, acreditando na validade de negócios antecedentes, celebra um contrato na base
do qual efectue um investimento de confiança considerável?

O Dto português conhece uma especial tutela de terceiros, quando estejam em causa
direitos reais.
No caso de bens imóveis – art. 291º
No caso de bens moveis – art. 1301º

 O art. 291º não se aplica ao caso das preferências legais pela simples razão de elas não estarem
sujeitas a registo.
Consequentemente, não só os preferentes não têm modo de as publicitar, como os próprios
terceiros adquirentes não têm especial fundamento para clamar a ignorância da sua existência, de resto, e
na generalidade dos casos, a preferência legal deduz-se da situação de fundo pelo que – visto o art.
291º/3 – não há, sequer, boa fé.

Aproveitamento de negócios jurídicos

 A invalidação dos negócios jurídicos não impede, ainda, a produção de efeitos – ou de alguns efeitos
– nas hipóteses de redução ou de reconversão – arts. 292º e 293º. (estes são preceitos que têm que
ser articulados com os arts. 236º e 239º

 REDUÇÃO dos negócios jurídicos – art. 292 – requisitos:

1. Nulidade ou anulação meramente parciais: Prof. Menezes Cordeiro: não há qualquer


regra de divisibilidade dos negócios, a lei não permite que a prestação seja realizada por
partes, havendo pois um principio da integralidade do cumprimento.
2. Vontade das partes no tocante ao ponto de redução: esta não opera quando se mostre que
o negócio não teria sido concluído sem a parte viciada.

Prof. Menezes Cordeiro acrescenta 3 requisitos aos expressos no art. 292º:


1. Respeito pela Boa fé: não há redução quando ela atente contra a confiança legítima das partes ou
contra a materialidade subjacente;
2. O respeito pelas regras formais: não pode, pela redução, chegar-se a um tipo negocial com
exigências de forma não satisfeitas no negócio a reduzir.
3. O respeito por outras normas imperativas.

 Ver polémica dos contratos-promessa – pag. 880, Tomo I

CONVERSÃO: pela conversão, um negócio jurídico nulo ou anulado pode aproveitar-se, como negócio
diverso, desde que reunidos determinados requisitos legais.

 Na construção jurídica da conversão encontrou-se duas orientações


o Tese dualista: passagem dum primeiro para um segundo negógio, através do
aproveitamento de alguns elementos naquele contidos.
o Tese monista: há apenas um negócio; simplesmente, verificada uma falha que
impeça a sua validade e eficácia plenas, impõe-se pela interpretação, um conteúdo
que não suscite tais óbices.

Prof. Menezes Cordeiro: a conversão exprime, no fundo, uma interpretação melhorada do negócio, de
modo a, dele, fazer uma leitura sistemática e cientificamente correcta – não há conversão de “negócios”;
convertem-se, sim, meras declarações.

 Condicionalismos da conversão – art. 293:


o Manutenção dos requisitos essenciais de substancia e de forma – arts. 326º/2 e
238º/2
o Respeito pela vontade hipotética das partes.

CONFIRMAÇÃO: é específica dos negócios anuláveis. Trata-se de um acto unilateral, a praticar pelo
beneficiário da anulabilidade e que põe termo á invalidade – art. 288º/1 e 2.
Só é eficaz quando posterior à cessão do vicio que conduziu á anulabilidade e, anda, desde que o seu
autor tenha conhecimento do vicio e do direito à anulação.

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