Unidade 1 - Princípios e finalidades do sistema de controle interno na gestão municipal
Palavra de origem inglesa que não apresenta uma correlação
para o português. Substantivo advindo do verbo to comply,
que significa obedecer, executar, cumprir, realizar, satisfazer
Compliance
imposições, agir de acordo com normas internas e externas,
políticas e procedimentos, contratos, leis, regulamentos,
valores éticos e morais de um órgão público.
Conjunto de mecanismos e procedimentos internos
tendentes a prevenir ou minimizar os riscos de violação às
Programa de normas afetas à Administração Pública, mediante a
Compliance implementação de ações que garantam o engajamento dos
agentes públicos na execução das funções, de forma correta e
ética.
Conjunto de mecanismos e procedimentos internos tendentes
Programa de
a prevenir ou minimizar os riscos de corrupção, que
Integridade
preservam a imagem e a reputação do governo.
Risco É o efeito da incerteza nos objetivos.
São as atividades coordenadas para dirigir e controlar os
Gestão de riscos
riscos.
É o dever do gestor público em prestar contas e ser
Accountability
responsável por elas.
Tratamento isonômico entre os agentes públicos, no que
Equidade
tange aos direitos e deveres.
Princípios do controle interno
Os princípios do controle interno são comandos gerais que trazem orientações fundamentais para que exista, de
fato, uma cultura consistente de controle interno (SILVA, 2020, p. 11).
Castro (2018, p. 281), afirma que “a preocupação com o controle interno está intimamente ligada a dois fatores
básicos: responsabilidade do administrador e risco para o patrimônio da entidade. Responsabilidade e risco são
os principais vetores da valorização do controle interno” e, segundo o autor, “baseados nesses fatos, as
estruturas, normas e processos administrativos que envolvem toda e qualquer ação dentro de uma entidade
devem atentar para princípios básicos”.
Segundo estudiosos do tema (GIUSTI, 2019, p. 138-140; SILVA, 2020, p. 11-14), para que o Sistema de Controle
Interno consiga desempenhar sua função, de forma satisfatória, é necessário observar algumas diretrizes. Veja
quais são:
Diretrizes
Relação custo-benefício
Esse é um princípio clássico do controle interno, e está, fortemente, ligado ao Princípio da Economicidade. De
acordo com esse princípio, o custo do controle não pode ser superior ao custo da atividade controlada. Consiste
na avaliação do custo de um controle, em relação aos benefícios que ele possa proporcionar, ou seja, a
avaliação do custo é sempre relativa, considerando as vantagens trazidas pela adição ou não de um novo tipo de
controle.
Qualificação adequada
Como em qualquer atividade profissional, a eficácia está relacionada com a qualificação e a competência de
quem a exerce. O órgão de controle interno deve ser dotado de uma equipe multidisciplinar, com conhecimento
suficiente para o desempenho das funções. Quem controla não pode ter menos qualificação que o controlado.
Capacitação e rodízio de agentes
A fim de assegurar o bom desempenho da equipe, é recomendável manter um programa de treinamento
frequente, garantir que os funcionários gozem de férias, regularmente, e realizar o rodízio de funções para
reduzir ou eliminar possibilidades de fraudes.
A capacitação continuada do corpo funcional, em todos os níveis, faz com que todos tenham conhecimento
adequado para exercer suas funções e contribuir para que os controles sejam efetivos. Quanto ao rodízio de
funcionários, essa prática evita que o conhecimento de um determinado processo ou atividade seja dominado
apenas por algumas pessoas.
Essa prática evita que a organização seja “refém” de poucas pessoas, que possuem o conhecimento a respeito
de determinadas tarefas.
Delegação de poderes e definição de responsabilidades
A delegação de poderes visa à descentralização administrativa e, com isso, assegura maior rapidez e
objetividade às decisões. Para tanto, é preciso haver clareza quanto às responsabilidades envolvidas, por meio
de regimento e de organograma adequados, bem como manuais de rotinas que considerem as funções de todos
os setores do órgão, a fim de evitar o comprometimento de sua eficiência.
Segregação de funções
Conhecida, também, como princípio de oposição de interesse, consiste no dever de zelar pela separação entre
as funções de autorização, execução, controle e contabilização das operações.
As funções administrativas devem ser parceladas entre vários agentes ou órgãos. Exemplo: quem recebe a
mercadoria, ou o serviço, não pode ser o responsável pelo pagamento.
O objetivo de segregar as funções é diminuir a probabilidade de fraudes, desvios e outras improbidades
realizadas por um ou vários agentes públicos.
Independência técnico-funcional
Os agentes de controle interno devem possuir e manter a sua independência funcional para realizar suas
funções (auditorias, inspeções, fiscalizações, dentre outras atividades de verificação). Por exemplo, não é
desejável que o agente de controle interno aprove o pagamento de determinada despesa, pois, dessa forma,
estaria envolvido no controle da execução orçamentária e, consequentemente, comprometeria a sua
independência funcional.
Instruções devidamente formalizadas
Todas as ações, procedimentos e instruções devem ser disciplinados e formalizados por meio de instrumentos
claros e objetivos.
Controle sobre as transações
O acompanhamento dos fatos contábeis, financeiros e operacionais é de suma importância para garantir que
sejam realizados em conformidade com a legislação vigente.
A informação contábil só tem utilidade quando representa, fielmente, os fenômenos econômicos, a posição
patrimonial, bem como a situação financeira da entidade.
Além disso, o registro deve ser verificável, ou seja, a informação contida nos relatórios contábeis deve
possibilitar os trabalhos de asseguração, especialmente, o de auditoria interna.
Aderência a diretrizes e normas legais
O controle interno deve assegurar que todos os atos e fatos da gestão estejam de acordo com o que é
determinado por todas as suas normas e diretrizes e pela legislação vigente.
Documentação
Na administração pública, os atos devem ser precedidos de motivação. Assim, todos os processos devem ser
documentados e fazer referência a cada etapa do processo. O princípio da documentação é importante para o
registro dos fatos e posterior auditagem.
Objetivos e finalidades do controle interno
Conforme Macedo e Corbari (2012, p. 49) “o controle na administração pública tem a finalidade de garantir as
pessoas que estejam exercendo a função administrativa do Estado de acordo com os princípios e regras,
constitucionais e legais, que norteiam ou liminar a atuação do Poder Público”.
Castro (2018, p 282-284) destaca cinco principais finalidades do controle interno. Veja:
Principais finalidades do controle interno
Segurança ao ato praticado e obtenção de informação adequada
Todo gestor deve ter cautela, para que os atos praticados e sujeitos a julgamento externo estejam cobertos por
controles prévios seguros, suportados por documentos que os comprovem, dentro da legislação pertinente e
com responsabilidade bem definida.
Promover a eficiência operacional da entidade
O estímulo à eficiência operacional consiste em prover os meios necessários à execução das tarefas, para obter
desempenho operacional satisfatório da entidade. A eficiência operacional implica no estabelecimento de
padrões e métodos adequados, que permitam que todas as áreas desenvolvam suas funções, de forma racional,
harmônica, integradas entre si e voltadas para os objetivos globais.
Estimular a obediência e o respeito às políticas traçadas
O processo de aderência às políticas constitui-se muito mais em um fator psicológico, que em um fator objetivo.
As pessoas são convencidas a aceitarem as diretrizes fixadas e utilizarem linguajar e técnicas comuns na casa. O
objetivo do estímulo à obediência das políticas existentes é assegurar que os propósitos da administração,
estabelecidos por meio de suas políticas e procedimentos, sejam adequadamente seguidos pelos servidores.
Proteger os ativos, incluindo pessoas
Existem três interpretações atribuídas ao conceito de proteção de ativos. A primeira, e mais abrangente,
entende que os ativos devem ser resguardados de qualquer situação indesejável. Compreende-se, nesse caso,
que a proteção dos ativos na área privada constitui uma das ações principais da administração.
A segunda interpretação de proteção de ativos trata da proteção contra erros involuntários (não intencionais).
Por fim, as irregularidades intencionais. A mais restrita das interpretações entende que a proteção dos ativos se
refere aos erros intencionais.
Inibir a corrupção
Ao estabelecer controles internos, consequentemente, previne-se e combate-se a corrupção. No setor público,
há uma preocupação recorrente de se criarem controles, como forma de inibição da corrupção ou de apuração
mais rápida de desvios.
De modo geral, pode-se afirmar que, para atingir os resultados esperados pela administração pública, o controle
interno deve garantir aspectos como eficácia e eficiência operacional, mensuração de desempenho e proteção
do patrimônio (GIUSTI, 2019).
Veja, na figura, a seguir, os principais objetivos e instrumentos de controle interno administrativo.
Objetivos e instrumento de controle interno administrativo
De acordo com Castro (2018, p. 284), a finalidade dos controles internos administrativos é garantir o
cumprimento das metas, proteger as ações e evitar a ocorrência de impropriedades e irregularidades, por meio
dos princípios, técnicas e instrumentos próprios, com destaque para as seguintes:
Observar as normas legais, instruções normativas, estatutos e regimentos.
Assegurar, nas informações orçamentárias, contábeis, financeiras, administrativas e operacionais, sua exatidão,
confiabilidade, integridade e oportunidade.
Evitar o cometimento de erros, desperdícios, abusos, práticas antieconômicas e fraudes.
Propiciar informações oportunas e confiáveis, inclusive de caráter administrativo ou operacional, a respeito das
metas realizadas e dos resultados atingidos.
Salvaguardar os ativos financeiros e físicos, quanto à sua boa e regular utilização.
Permitir a implementação de ações, programas, projetos, atividades, sistemas e operações, com vistas à
eficácia, eficiência e economicidade na utilização dos recursos.
Assegurar a aderência das atividades às diretrizes, planos, normas e procedimentos da unidade/entidade.
Assim, o controle interno objetiva avaliar o desempenho (eficiência e eficácia) das atividades da gestão pública,
ao mesmo tempo em que aprecia a conformidade dos atos com as leis e os regulamentos, e assegura a precisão
e a confiabilidade das informações. (MACEDO; CORBARI, 2012, p. 47).
As finalidades do controle interno e os respectivos controles
Segundo Di Pietro (2005, p. 636 apud CORBARI; MACEDO, 2012, p. 79)
a finalidade do controle é a de assegurar que a Administração atue em consonância com os princípios que lhe
são impostos pelo ordenamento jurídico como os da legalidade, moralidade, finalidade pública, publicidade,
motivação, impessoalidade; em determinadas circunstâncias, abrange também o controle chamado de mérito e
que diz respeito aos aspectos discricionários da atuação administrativa.
De modo bastante direto, alguns comandos podem ser identificados em ações, verbos que, por assim dizer,
configuram a atividade do controle interno, a exemplo de promover a integridade, zelar pelo cumprimento das
normas e princípios vigentes, regular, acompanhar, fiscalizar, orientar e exarar pareceres e relatórios acerca de
determinada atividade praticada no âmbito da administração pública.
No que diz respeito às garantias básicas, é necessário frisar a importância da autonomia dos atos, haja vista que
um órgão de controle, precisa ter liberdade para propor soluções e melhorias, sem que haja eventual
retaliações e/ou perseguições. A independência funcional, nesse caso, seria uma das garantias necessárias ao
regular o funcionamento da atividade do controle interno. Sabe-se, portanto, que para a execução da atividade
de controle, é necessário garantir, ao agente responsável, ampla liberdade de atuação.
Noções gerais de compliance aplicado no âmbito do controle interno da gestão pública municipal
Compliance é o conjunto de medidas que permite prevenir ou minimizar os riscos de violação às leis e à
reputação, decorrentes da atividade praticada por um agente público, no exercício de suas funções.
O que é compliance?
A palavra compliance tem origem inglesa, e deriva do verbo to comply, to comply with, que significa estar de
acordo com algum comando. Em outras palavras, é estar em conformidade com as normas internas e externas
afetas à organização.
Segundo Silva, W. (2020, p. 7) “a cada dia a sociedade exige mais dos governantes, consequentemente, surge a
necessidade de se implementar novas técnicas para a gestão dos recursos públicos, sejam estes financeiros ou
não”.
Para a administração pública, o termo preferido é integridade, de modo a ser implementado mecanismos que
estimulem o comportamento ético dos servidores e não apenas o cumprimento às leis.
O compliance aplicado a partir controle interno tem o papel fundamental para estabelecer uma boa governança
ao município e conduzir o alinhamento para uma integridade pública. A busca pela integridade pública consiste
na adesão de valores, princípios e normas éticas comuns para sustentar e priorizar o interesse público sobre os
interesses privados no setor público (GOMES, 2021, p. 301).
Por ser uma palavra de origem estrangeira, que não possui uma tradução direta para o português, sua
compreensão aplicada à administração pública, por vezes, provoca equívocos. De todo o modo, estar em
compliance é agir de acordo com os padrões éticos esperados pela sociedade, também, atuar de acordo com a
lei.
Integridade e compliance: realidade ou ficção na administração pública e privada? Disponível em:
[Link]
Notadamente à administração pública ela já está obrigada a atuar de acordo com os princípios e leis,
especialmente, da legalidade e da moralidade. Contudo, seguir apenas as leis não basta.
O dever de honestidade deve prevalecer nos atos dos gestores públicos. Enquanto a lei impõe comportamentos,
o programa de compliance constrói a forma do comportamento, o método, o passo a passo.
📚Saiba Mais
Leia O mito do “quanto mais controle, melhor” na administração pública.
Disponível em: [Link]
Leia A (in)devida divisão do compliance à luz da ABNT NBR ISO 37301:2021.
Disponível em: [Link]
Tendo em vista que o ordenamento jurídico brasileiro não foi capaz de, isoladamente, frear as ondas de
corrupção, fez surgir, consequentemente, novas formas de promover a boa gestão pública.
Nesse aspecto, o compliance mostra-se como uma grande ferramenta inovadora no Brasil, que garante
integridade e que pode fortalecer os municípios e, coaduna a outras leis, fortalecer a gestão. O controle interno
atua como uma estrutura responsável pelas verificações das avaliações, no âmbito do desenvolvimento do
trabalho proporcionado pelas práticas de compliance, e torna-se um grande aliado por representar a sociedade,
por intermédio de uma conduta ética e de transparência (GOMES, 2021, p. 304).
Chegamos ao fim deste módulo. Para encerrarmos nosso estudo, assista ao vídeo em que o Professor Rodrigo
Janssen apresenta as noções básicas do compliance aplicado à gestão pública municipal.