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por
Orientador:
Piracicaba, 2022
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO FACULDADE SANTA MARCELINA
Pós Graduação em Violão: Pedagogia e Performance
Resumo
O presente trabalho busca analisar o acompanhamento violonístico de Jorge Geraldo do
Espírito Santo, o Jorge Santos, principal violonista do conjunto regional de Waldir
Azevedo, que foi um dos maiores cavaquinistas de todos os tempos. Membro do grupo
de 1945 a 1971, Jorge Santos foi o violonista que acompanhou e gravou os grandes
sucessos de Waldir Azevedo durante o período, como Brasileirinho, Carioquinha, Vê se
gostas, Delicado e Pedacinhos do céu, entre outros. Através da transcrição de seu
acompanhamento para o choro Vê se gostas, de Waldir Azevedo, buscaremos investigar,
compreender e descrever sua forma de tocar, em especial a levada e os contrapontos
ou baixarias, que auxiliaram a emoldurar o papel do violão brasileiro de
acompanhamento.
Palavras chave: Jorge Santos. Waldir Azevedo. Choro. Violão Brasileiro. Baixaria. Levada
Abstract
The present work seeks to analyze the guitar accompaniment of Jorge Geraldo do
Espírito Santo, Jorge Santos, the main guitarist of the Waldir Azevedo’s regional group,
who was one of the greatest cavaquinists of all times. Like member of the group from
1945 to 1971, Jorge Santos was the guitarist who accompanied and recorded the great
Waldir Azevedo’s hits during the period, such as Brasileirinho, Carioquinha, Vê se gostas,
Delicado and Pedacinhos do Céu, among others. Through the transcription of Jorge
Santos’ accompaniment for the choro Vê se gostas, by Waldir Azevedo, we will seek to
investigate, understand and describe his way of playing, especially the levadas (grooves)
and the counterpoints or baixarias (bass lines), which helped to frame the role of the
brazilian accompaniment guitar.
Keys words: Jorge Santos. Waldir Azevedo. Choro. Brazilian guitar. Bass lines. Grooves.
AGRADECIMENTOS
A meu orientador, professor e amigo Sidney Molina pelo carinho com que me conduziu
pelos caminhos da pesquisa, me mostrando que sempre é tempo de voltar a estudar.
Ao querido e saudoso amigo José Gomes de Oliveira, o Zé Moreno, violonista genial que
conhecia a fundo o estilo de Jorge Santos.
A Marly Azevedo, por dividir suas memórias afetivas ao falar do violonista Jorge Santos.
A todos os amigos músicos com quem tive boas conversas sobre o tema deste artigo,
em especial Danilo Brito, amigo querido, gênio do bandolim e cavaquinho, e que talvez
seja mais aficionado por Jorge Santos do que eu!
Ao querido amigo e grande violonista Zé Paulo Becker, pelo incentivo, ajuda e indicação
de pessoas que puderam me ajudar nessa empreitada, como Claudio Jorge e Henrique
Cazes.
Ao Zé Barbeiro 7 cordas pelas conversas sempre regadas a boas risadas, e pela sua
levada inconfundível que traz no cerne o vigoroso violão de Jorge Santos.
Ao querido Claudio Jorge, por dividir um pouco de sua convivência com Jorge Santos.
Ao Pedro Cantalice, amigo e cavaquinista do Rio de Janeiro que realiza um lindo trabalho
de divulgação do instrumento. Com muita generosidade, ele me enviou os fonogramas
do disco do Dudu do Cavaco, onde é possível ouvir o violão de Jorge Santos numa
gravação com muito mais qualidade.
Ao George Costa, amigo violonista de Brasília, que escreveu o único trabalho que
encontrei sobre os violões do regional de Waldir Azevedo.
À professora Gabriela Flor, pelo incentivo, pelo auxílio com as idéias e na formatação
deste artigo.
À professora Beatriz Raposo de Medeiros pela ajuda e paciência em ouvir minhas ideias.
Alessandro Penezzi
SUMÁRIO
1. Introdução ......................................................................................................... 1
2. O Regional de Waldir Azevedo ........................................................................... 2
3. Jorge Santos: grande acompanhador, grande solista ......................................... 5
4. Vê se gostas: análise da gravação de Jorge Santos ............................................. 7
4.1 - Levadas...................................................................................................................... 9
4.2 - Baixarias .................................................................................................................. 17
5. Considerações Finais ........................................................................................ 23
6. Bibliografia ...................................................................................................... 24
6.1 - Artigos, Livros e Sites ............................................................................................... 24
7. Depoimentos Concedidos ao Autor ................................................................... 25
8. Anexos ............................................................................................................. 26
8.1 - Transcrição Jorge Santos: ......................................................................................... 27
8.2 - Transcrição Waldir Azevedo: .................................................................................... 31
8.3 - Quadro informativo ................................................................................................. 35
1
1. Introdução
1
O regional poderia apresentar outros instrumentos como contrabaixo acústico e de percussão, mas em
geral somente o(s) solista(s), os violões, o cavaquinho e o pandeiro faziam parte do conjunto.
2
Horondino José da Silva (1918-2006), o Dino 7 cordas, reconhecido como maior influência do violão de
7 cordas. Fonte: [Link] Acessado em 30/05/2022.
3
Jayme Thomas Florence, o Meira (1909-1982), violonista, compositor e professor de violão que
participou do Regional do Canhoto. Foram seus alunos: Baden Powell, Raphael Rabello e Maurício
Carrilho. Fonte: [Link] Acessado em
30/05/2022
4
Era de Ouro do Rádio Brasileiro compreende o período que se estende de 1946 até meados da década
de 1950. (PINTO, 2012)
5
Os músicos do regional de Benedito Lacerda ficaram sem trabalho por dois meses após sua saída do
conjunto. Segundo Paulo Flores, no encarte de sua coletânea de 4 CDS intitulada Benê, o flautista –
Trilogia Musical da Obra do Polêmico (e genial) Benedito Lacerda, sua saída se deveu ao fato de
Benedito se compromissar em acompanhar a campanha política de Adhemar de Barros, e assim não ter
tido mais tempo para os trabalhos com o regional. O grupo, que era formado por Dino e Meira nos
violões, Canhoto (Waldyro Frederico Tramontano) no cavaquinho, Gilson de Freitas no pandeiro, para
não ficar desfalcado, convida os geniais Altamiro Carrilho na flauta e Orlando Silveira no acordeom para
serem os novos integrantes do conjunto. Depois disso, o regional passaria a levar o nome do
cavaquinista – Regional do Canhoto. (BITTAR, 2011, p. 91)
2
Dentre os regionais que tocavam nas gravações, havia um cuja sonoridade não
se assemelhava aos demais. Suas interpretações pareciam mais rústicas. O cavaquinho
era o instrumento solista, e a ausência de cavaquinho de centro deixava uma certa
lacuna no acompanhamento, mas esta era devidamente preenchida, e de maneira
peculiar - por um violão de 6 cordas de aço. A firmeza, criatividade e precisão rítmica
deste violonista ganhavam tanto destaque, que, às vezes, pareciam roubar a cena do
solista. Este mesmo violão também realizava contrapontos ou baixarias, feitas tanto nas
cordas graves quanto nas agudas.
Após algumas pesquisas, descobri que este violonista era Jorge Geraldo do
Espírito Santo, ou simplesmente Jorge Santos. Tio do internacionalmente famoso Bola
6
“Levadas são as conduções rítmico-harmônicas realizadas por uma das mãos do violonista, enquanto
simultaneamente, a outra mão, cujos dedos pressionam as cordas contra o braço do violão, monta os
acordes.” . (BITTAR, 2011, p. 3)
7
“Fraseado contrapontístico na linha do baixo.” (BECKER, 1996, p. 11)
3
8
Bola Sete (Djalma Andrade – 1923-1987), que foi brilhar nos Estados Unidos e chegou a integrar, em
1962, a banda de Dizzie Gillespie. (BECKER, 1996, p. 58)
9
Coleção Folha – Raízes da Música Popular Brasileira. Livro e CD. 2010. Texto de Henrique (CAZES,
2010). O texto também esta contido na pasta de Dropbox 100 X Waldir, criada por Henrique Cazes para
divulgar a música de Waldir Azevedo. Link de acesso:
<[Link]
10
MPB: Música Popular Brasileira
11
Dilermando Reis (1916-1977). Violonista e compositor, foi considerado o violonista mais influente do
Brasil. Gravou diversos discos de gêneros variados como choros, valsas, e repertório de violão clássico.
Trabalhou na Rádio Clube do Brasil e na Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Fonte: Wikipedia, acessado
<em 31/05/2022. [Link]
4
César Ayala foi brutalmente assassinado por motivo passional e sua vaga no
regional [seria] preenchida por um excelente violonista que já excursionara
pelo Brasil acompanhando grandes cantores, e realizava um
acompanhamento firme e de ritmo saboroso, caso singular em termos de
violão de conjunto regional. Tratava-se de Jorge Geraldo do Espírito Santo,
mais conhecido por Jorge Santos que, não obstante todas as suas credenciais,
era tio do também genial violonista Bola Sete, que faria uma longa carreira
nos Estados Unidos. (BERNARDO, 2004, p. 30)
É senso comum, ao menos entre os chorões, que Jorge Santos foi um violonista
fabuloso. É possível ouvir seu violão nas mais de 60 gravações do regional de Waldir
Azevedo12, no disco Aqui está o Bola Sete, de 195713, e também no disco Chora
cavaquinho - Dudu do cavaco e seu Conjunto de Azes , lançado em 1977, onde se
encontra todo o antigo regional de Waldir Azevedo14. Entretanto, infelizmente, as
referências, comentários e informações sobre Jorge Santos são raríssimas: ”com o
balanço característico de seu regional e principalmente do violonista pouco lembrado
Jorge Santos” (BENON, 2017, p. 34) .
(...) Eu gostava muito dele... eu era fã (...) daquela maneira dele tocar, né
rapaz... aquele balanço que ele tinha... aquela pegada (...) O Waldir sempre
me falava (...) O Jorge Santos sempre foi meu braço direito. (...) Ele
reconhecia. Porque ele foi tudo na carreira do Waldir (...) (BARBOSA, R.
depoimento concedido a mim em 31 de março de 2022)
12
As gravações que Jorge Santos participou junto do regional de Waldir Azevedo estão elencadas no
Quadro Informativo no final deste trabalho.
13
LP Aqui está o Bola Sete. Gravadora Odeon, catálogo MOCB 3005, ano 1957. Bola Sete e seu Conjunto.
14
Chora Cavaquinho – Dudu do Cavaco e seu Conjunto de Azes (1977). Donaldison de Oliveira. Natural
de Macaé, atuou como centrista e cantor, tendo participado do conjunto Anjos do Sol. Pôde conviver
com sua maior referência, Waldir Azevedo. O acompanhamento do LP é de Jorge Santos e Francisco Sá
nos violões, Risadinha do Pandeiro, entre outros. Fonte: canal do Youtube Memória do Cavaquinho
Brasileiro. Acessado em 24/05/2022.
<[Link]
15
Roberto Barbosa, conhecido como Canhotinho do cavaquinho (1938), foi considerado pelo próprio
Waldir Azevedo, o Rei do Cavaquinho, como seu legítimo sucessor. Fonte:
<[Link] acessado em 30/05/2022
16
O comentário de Canhotinho faz parte de seu depoimento concedido a mim em 31/03/2022 a
respeito de Jorge Santos.
6
(...) [ele] foi realmente o maior (...) foi Jorge Santos. Papai falava que no
violão, ele era tudo. Sem o Jorge, papai falava que não teria feito sucesso.
Porque ele era o violão, o contrabaixo... ele era tudo. (AZEVEDO, M.
depoimento coletado por Canhotinho e enviado a mim em 31/03/2022)
17
Depoimento de Marly Azevedo, filha caçula de Waldir Azevedo, sobre Jorge Santos. Csoletado por
Canhotinho e enviado a mim via WhatsApp em 31/03/2022.
18
Saudoso (Jorge Santos). Acessado pelo site do IMS, na seção Discografia Brasileira em 22 de maio de
2022. <[Link]
19
Cecília na folia (Jorge Santos). Acessado pelo site do IMS, na seção Discografia Brasileira em 22 de
maio de 2022. <[Link]
20
Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto.
7
Belo Horizonte publicou em seu blog, em homenagem aos 105 anos de Garoto,
informações sobre o lançamento do livro Choros de Garoto, do pesquisador Jorge Mello,
Henrique Gomide e Domingos Teixeira. No corpo do texto, havia a seguinte informação:
Como já foi dito, a maneira de Jorge Santos acompanhar era muito peculiar; sua
batida era diferente da de seus pares; e é possível que ele a tenha desenvolvido na
tentativa de suprir a ausência do cavaquinho de centro enquanto atuou no regional de
Waldir Azevedo.
Munido de um violão com 6 cordas de aço, Jorge Santos empregava seu forte e
veloz polegar direito com uma dedeira22 que tangia as cordas sempre do grave para o
agudo, isto é, de cima para baixo em relação à cabeça do violonista. Os movimentos de
seu polegar apresentavam gradações entre forte e piano, demonstrando que o
violonista sabia tanger as cordas em um amplo espectro de dinâmica. Daí inferirmos
firmeza e decisão em tais movimentos.
Outrossim, seu polegar poderia realizar movimentos amplos para tanger 5 ou 6
cordas; movimentos curtos para ferir apenas uma ou duas cordas, ou movimentos
médios, visando 3 ou 4 cordas. Ademais, muitas vezes Jorge Santos mesclava àqueles
toques de polegar, toques complementares feitos pelos dedos indicador e médio, ou
até o anelar para tanger as cordas agudas. Esses toques eram inseridos nos intervalos
entre um polegar e outro resultando num ritmo contínuo de semicolcheias sem pausas,
como é visto na Figura 1.
21
Blog do Clube do Choro de Belo Horizonte – Jorge do Fusa: Um choro de muitos nomes. 23 de julho de
2020. Acessado em 22 de maio de 2022. <[Link]
[Link]>
22
“Esse polegar do violonista chorão tradicional toca com um aparato chamado dedeira, semelhante a
uma palheta, que envolve o dedo como um anel”. (PESSOA. 2012, p.86)
8
Por meio da audição, foi possível auferir que a mão esquerda de Jorge Santos
seguia de perto a movimentação da direita. Através de reflexos velozes, as cordas eram
premidas com mais ou menos intensidade, gerando acordes em staccato, acordes com
maior ou menor duração e também acentuações rítmicas. Este emaranhado de variáveis
enriquecia bastante o acompanhamento do violonista fazendo de sua levada uma fonte
rica de suingue e molejo.
A peça analisada neste trabalho foi gravada por Waldir Azevedo e seu Regional
em 1950, em disco de 78 rpm. O sistema de reprodução ainda não era em estéreo, o
que dificulta bastante a audição dos dois violonistas separadamente (Jorge Santos e
Francisco Sá). Em boa parte das gravações ouvidas desse período prevalece a
sonoridade do primeiro violão, o de Jorge Santos. “Pela qualidade da gravação, o violão
que mais se escuta é o de Jorge Santos (...)”. (COSTA, 2013, p. 12)
Assim sendo, nos ocupamos de analisar somente o acompanhamento de Jorge
Santos sobre o choro Vê se gostas, de Waldir Azevedo e Otaviano Pitanga. Trata-se de
um samba-choro com duas partes, sendo a primeira em Sol maior e a segunda em Dó
maior. Com relação à sua forma, o choro foi gravado da seguinte maneira: uma
introdução de improváveis 11 compassos; exposição do tema A de 16 compassos,
reexposição do tema A; exposição do tema B de 32 compassos; retorno ao tema A e
final.
A melodia do choro, juntamente com as inflexões interpretativas de Waldir
Azevedo foram transcritas em partitura afim de demonstrar o mais fielmente possível
9
4.1 - Levadas
23
No final deste trabalho está a partitura da transcrição completa do acompanhamento de Jorge Santos,
e também a partitura da transcrição completa do solo de Waldir Azevedo.
24
Danilo Ezequiel Brito de Macedo, Danilo Brito (São Paulo, 1985). Músico e compositor brasileiro,
especialista em bandolim, cavaquinho e violão tenor. Fonte Wikipedia, acessada em 21/06/2022
<[Link]
25
Filme exposto no site do Youtube:< [Link]
Acessado em 21/05/2022
26
Hemíola é um termo da musicologia que descreve um padrão rítmico onde dois compassos ternários
são articulados como se houvesse três compassos binários. Fonte Wikipédia, acessado em 29/06/2022.
<[Link]
10
27
Levada de samba-choro utilizada por Toni 7 cordas (ex-integrante do grupo Época de Ouro) para o
choro Noites Cariocas, de Jacob do Bandolim (BECKER, 1996, 102).
11
28
(BITTAR, 2011)
12
Variação 1
Variação 2
Variação 3
A variação 3 (Figura 8), foi realizada sobre a parte B, nos compassos 76 e 77. O
acorde é de Dó Maior, sem nenhuma dissonância. O baixo se alterna entre a
fundamental e a 5ª. Aqui o trabalho do polegar mais uma vez se resumiu a 10 toques
para 4 tempos.
Variação 4
14
Variação 5
A variação 5, feita nos compassos 24 e 25 (Figura 10) nos traz Jorge Santos
utilizando uma forma tradicional de usar os dedos da mão direita: baixos tocados com
polegar (5ª e 6ª cordas), e o restante do acorde puxado pelos dedos indicador e médio
- notas Fá# e Dó sobre as cordas 4 e 3, respectivamente. É interessante notar que ele
15
utilizou somente duas notas para o complemento do acorde de D7, a 3ª e a 7ª, Fá# e Dó,
respectivamente.
Essa foi a variação rítmica mais alterada do acompanhamento, pois a partir do
2º tempo surgem hemíolas. Ele emprega três toques que vão se repetindo por quatro
vezes, dando a sensação de tempo ternário dentro do compasso original – que é binário.
Na Figura 11, há dois pentagramas. No superior está contida a transcrição original dos
compassos 24 e 25, e no inferior, o mesmo trecho transcrito de maneira simplificada
para ressaltar as hemíolas.
Figura 11: No pentagrama superior está contida a transcrição original dos compassos 24 e 25, e no inferior,
o mesmo trecho transcrito de maneira simplificada para ressaltar as hemíolas.
Variação 6
Figura 13: Compassos 84 e 85 da transcrição do solo de Waldir Azevedo, onde ele realiza o efeito de 2ª
menor abaixo.
Variação 7
4.2 - Baixarias
Baixaria 1
A primeira baixaria realizada que Jorge Santos realiza nesta gravação está na
introdução. Trata-se de contrapontos sincopados em resposta ao pequeno arpejo feito
pelo cavaquinho a partir do compasso 6. Todo o trecho é tocado na 3ª posição do braço
do violão29 e, no compasso 10, há um arpejo de Sol maior ascendente com
aproximações de um semitom abaixo precedendo cada nota do arpejo. A articulação
desse trecho é feita com ligados.
Baixaria 2
29
A 3ª posição se refere ao setor do braço do violão que corresponde às casas 3, 4, 5 e 6.
18
Esta baixaria, que se inicia no compasso 17 (Figura 16), está inserida sobre os
acordes G E7 | Am E7 | Am E7 e tem o interessante detalhe de sempre preparar a
chegada do próximo acorde através de uma antecipação. Na Figura 17, podemos ver as
antecipações em vermelho preparando seus respectivos acordes:
Baixaria 3
Baixaria 4
19
Baixaria 5
Realizada no compasso 40, final da parte A (Figura 20), temos uma baixaria
arpejada sobre os acordes Am, Am7 e D7, calcada sobre as notas Lá , Sol e Fá#,
respectivamente 8ª e 7ª de Am e 3ª de D7. O suingue inicial da baixaria se caracteriza
pela antecipação da primeira nota, o Lá que é tocado no final do compasso 39.
Baixaria-Campanella
Esta baixaria, indicada na Figura 21, é bastante curiosa dada a sua construção
peculiar. Em vez de escala, arpejo ou mesmo frase, Jorge Santos utiliza seis notas Sol
20
Baixaria 6
Baixaria 7
a 7ª menor (Mib). Como essa baixaria é toda construída em graus conjuntos que
configuram uma escala maior com 4ª aumentada e 7ª menor, podemos dizer que esta
escala é o Modo Lídio com 7a menor (também conhecido como Lídio bemol 7), que é o
quarto modo da Escala Menor Melódica. Infelizmente não há como saber se Jorge
Santos utilizou esse tipo de raciocínio para compor a baixaria.
Ainda no compasso 83, ele chega ao 2º tempo aterrissando sobre a inusitada 9ª
de F7 (Sol), fazendo na sequência uma passagem cromática ascendente a partir da nota
Si, para atingir o 5º grau de G7, a nota Ré no compasso 84.
Baixaria 8
Baixaria 9
5. Considerações Finais
Minha busca pessoal por informações e materiais sobre Jorge Santos é antiga,
praticamente desde quando ouvi seu violão em ação pela primeira vez – por volta dos
12 anos. Porém somente agora, ao me debruçar sobre a realização deste trabalho é que
pude ter uma noção mais justa da importância deste violonista. Ao repousar a lupa da
análise melódica, harmônica e rítmica sobre os diversos fragmentos de seu toque, foi
possível revelar o mar de possibilidades que está contido em sua obra.
Algumas vezes ouvi as suas levadas serem tocadas por músicos como Zé Barbeiro
7 cordas (que me confessou ser grande fã de Jorge Santos), Danilo Brito, em seus
momentos de violonista, e Zé Moreno, grande violonista piracicabano com quem tive a
honra de conviver por décadas e que era especialista em Jorge Santos. Infelizmente,
estas são coisas que vejo cada vez menos no meio musical, inclusive entre os chorões.
Um pouco desse desconhecimento atrelado ao nome de Jorge Santos se dá em virtude
da sabida antipatia que Jacob do Bandolim alimentava em relação à Waldir Azevedo.
Talvez inconscientemente, grande parte dos seguidores de Jacob, tomando partido do
bandolinista em sua contenda desmedida, acabaram por “preterir” os choros de Waldir
e até mesmo suas gravações.
Mas o quadro está bem mais promissor do que parece, dada a quantidade de
teses e materiais escritos sobre Waldir Azevedo, e até mesmo sobre os violões de seis
cordas do seu regional, caso do projeto de pesquisa do violonista George Costa.
Nada obstante, acredito que meu intuito de buscar mais informações e
descrever com o mínimo de profundidade algo sobre o legado violonístico de Jorge
Santos tenha sido realizado.
Como dito anteriormente, as informações sobre ele são demasiado escassas e
mesmo após dois meses de pesquisa intensa ainda não me foi possível conseguir
informações biográficas mínimas como sua cidade natal, data de nascimento e morte,
além de não ter sido possível o contato com quaisquer familiares.
Minha intenção é transformar o legado de Jorge Santos em um projeto de
pesquisa para poder analisar aprofundadamente, catalogar, comparar e, finalmente
divulgar de maneira ostensiva o trabalho de um de nossos grandes nomes do violão
brasileiro.
24
6. Bibliografia
BITTAR, I. L. Fixando uma gramática: Jayme Flocence (Meira) e sua atividade artística
nos grupos Voz do Sertão, Regional de Benedito Lacerda e Regional do Canhoto. Rio de
Janeiro: Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, 2011.
CAZES, H. Coleção Folha - Raízes da Música Popular Brasileira. Rio de Janeiro: [s.n.],
2010.
________. 100 X Waldir. Pasta de Dropbox criada por Henrique Cazes para divulgar a
música de Waldir Azevedo. Link de acesso:
<[Link]
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FARIA, N. The Brazilian Guitar Book. Petaluma, CA, USA: Sher Music CO., 1995.
8. Anexos
Intro
G6
p i p i i
p
p p p p p
5
G
A i m m i m m a
12
p
p
p p
p
p
p p p
p
p
16 G E7 Am E7 Am E7
Am6 Am6
Am7M m
Am7 Am Am7M Am7
i
Am
20
p p
D7 C♯ο7 C♯ο7
24
G
28
C
G7 C
G7
32
gliss.
C F7 G F♯ F E7
36
G
Am Am7 D7
40
28
A
44
48 G E7 Am E7 Am E7
Am7M Am7 Am Am7M
Am Am6 Am7 Am6
52
D7 C♯ο7 C♯ο7
56
G
60
G7 C
G7 C
64
G
C F7 F♯ F E7
68
G
Am Am7 D7 G7
72
3
3
3
4
4 4
29
B
a
76 m
i
p
F7
80
G7 C
84
5
D7
88
C
92
F7
96
G7 C
100
p
D7 G7 C C♯7 D7 D5♯
104
30
4 G
A''
108
G E7 Am E7 Am E7
112
Am6
Am7M Am7 Am7M Am7
Am Am Am6
116
m
D7 C♯ο7 C♯ο7
120 i
p
0
p
G
124
G7 C
128
gliss.
G F♯ F
E7
F7
132
G
Am Am7 D7
136
31
Vê se gostas
Transcrição do solo de Waldir Azevedo
Disco Continental (1950) Waldir Azevedo/Otaviano Pitanga
choro
Intro
G6
5
A
G
12
G E7 Am E7 Am E7
16
Am Am7M Am7 Am6 Am Am7M Am7 Am6
20
C♯ο7
D7 C♯ο7
24
G
28
C
G7 G7 C
32
C F7 G F♯ F E7
36
Am Am7 D7 G
40
32
A
G
44
G E7
Am E7 Am E7
48
Am Am7M Am7 Am6 Am Am7M Am7 Am6
52
D7 C♯ο7 C♯ο7
56
G
60
G7
C
G7 C
64
68
Am7
Am D7 G G7
72
33
B 3
C
76
F7
80
G7 C
84
88 D7
C
92
F7
96
G7 C
100
104 D7 G7 C C♯7 D7 D5♯
34
A'' G
108
G E7
Am E7 Am E7
112
Am Am7M Am7 Am6 Am Am7M Am7 Am6
116
120 pizz. abrir
124
128
132
136
35