Professor Felipe C.
Ferrari
Disciplina de Geografia
Adaptado de MOREIRA, SENE. Geografia Geral e do Brasil. Espaço Geográfico e Globalização. São
Paulo: Editora Scipione. 2016.
A formação do Solo
Os diferentes conceitos de solo estão relacionados às atividades humanas que nele se desenvolvem e às ciências que
o estudam. Para a mineração, solo é um detrito que deve ser removido e separado dos minerais explorados. Para
algumas ciências, como a Ecologia, é um sistema vivo, composto de partículas minerais e orgânicas, que possibilita o
desenvolvimento de diversos ecossistemas.
Para a Geografia, em particular a Pedologia, o solo corresponde à parte natural e integrada à paisagem que dá suporte
às plantas que nele se desenvolvem.
Finalmente, a Agronomia define solo como um meio natural no
qual o ser humano cultiva plantas, interessando- se pelas
características ligadas à produção agrícola.
O solo é formado, num processo contínuo, pela desagregação física
e decomposição química das rochas. Quando expostas à atmosfera,
as rochas sofrem a ação direta do calor do Sol e da água da chuva,
entre outros fatores, que modificam os aspectos físicos delas e a
composição química dos minerais que as compõem.
Em outras palavras, as rochas sofrem a ação dos intemperismos
físico e químico, já trabalhados em aula. Em regiões tropicais
úmidas, são necessários, em média, cem anos para a formação de
uma camada de apenas 1 centímetro de solo. Em áreas de clima
frio e seco, esse período é ainda maior.
O solo se organiza em camadas com características diferentes,
denominadas horizontes, como se pode perceber ao observar a
figura ao lado. Essa figura representa, de forma bastante
esquemática, um perfil de solo bem desenvolvido, ou seja, a visão
que se obtém das diferentes camadas por meio de um corte vertical
no terreno. Observe que os horizontes são identificados por letras
e vão se diferenciando cada vez mais da rocha-mãe (camada R) à
medida que aumenta sua distância em relação a ela. Ao processo
que origina os solos e seus horizontes dá-se o nome de pedogênese
(do grego pedon, ‘solo’, e genesis, ‘origem’).
Os horizontes O, A, E e B são os mais importantes para a agricultura
dada a sua fertilidade: quanto mais equilibrada for a
disponibilidade de certos elementos químicos, como o potássio, o
nitrogênio, o sódio, o ferro e o magnésio, maior é sua fertilidade e
seu potencial de produtividade agrícola. Esses horizontes também
são importantes para o ecossistema, por causa da densidade e
variedade de vida em seu interior (por exemplo, minhocas, formigas e microrganismos).
O processo de formação dos solos é modelador do relevo, assim como outros fatores exógenos que estudamos, como
a erosão, e endógenos, como o movimento das placas tectônicas. Ao longo do tempo geológico, as rochas que sofreram
intemperismo vão se transformando em solo e a sua porosidade permite a penetração de ar e água, criando condições
favoráveis para o desenvolvimento de organismos vegetais e animais, bem como de microrganismos.
Com o tempo, esses organismos aceleram a ação de reações químicas, que também provocam intemperismo, e vão
fornecendo a matéria orgânica que participa da composição do solo, aumentando cada vez mais sua fertilidade.
O solo é, portanto, constituído de:
• Partículas minerais: apresentam composição e tamanhos diferentes, dependendo da rocha que lhe deu origem.
Quanto ao tamanho, as partículas podem ser classificadas em frações: argila, silte, areia fina, areia grossa e cascalho
(variando do menor ao maior tamanho).
• Matéria orgânica: formada por restos vegetais e animais não decompostos e pelo produto desses restos depois de
decompostos por microrganismos. O produto resultante dessa decomposição é o húmus.
• Água: fica retida por tempo determinado nos poros do solo. Sua reposição é feita, principalmente, pela chuva ou
pela irrigação. A água do solo contém sais minerais, oxigênio e gás carbônico, constituindo um importante meio para
fornecer nutrientes aos vegetais.
• Ar: ocupa os poros do solo não preenchidos pela água. É essencial para as plantas, que absorvem oxigênio pelas
raízes; além disso, em abundância, favorece a produção de húmus.
Fatores na formação dos solos
O tipo de rocha matriz, o clima, o relevo, os organismos e a ação do tempo são os fatores determinantes para a origem
e evolução dos solos.
• Rocha matriz: sob as mesmas condições climáticas, cada tipo de rocha exposta ao intemperismo dá origem a um tipo
de solo diferente, dependendo de sua constituição mineralógica. Assim, os solos podem se desenvolver de rochas
ígneas ou metamórficas claras, como os granitos e os quartzitos; de rochas ígneas escuras, como o basalto; de
sedimentos consolidados, como os arenitos e as rochas calcárias; e de sedimentos não consolidados, como as dunas
de areia e cinzas vulcânicas. Se a rocha matriz for o arenito, por exemplo, podem surgir solos arenosos; se o arenito
tiver pouca concentração de calcário, o solo será quimicamente pobre.
• Clima: a temperatura e a umidade regulam a velocidade, a intensidade, o tipo de intemperismo das rochas, a
distribuição e o deslocamento de materiais ao
longo do perfil do solo. Quanto mais quente e
úmido for o clima, mais rápida e intensa será a
decomposição das rochas, pois o aumento da
temperatura e da umidade acelera a velocidade das
reações químicas. Solos de climas tropicais são mais
profundos que de climas temperados (menos
quentes) e áridos (menos úmidos).
• Relevo: com suas diferentes formas, proporciona
desigual distribuição de água da chuva, de luz e de
calor, além de favorecer ou não os processos de
erosão. As diferenças topográficas (ver imagem ao
lado) facilitam, por exemplo, o acúmulo de água das
chuvas em áreas mais baixas e côncavas e aceleram
a velocidade de escoamento dela em vertentes
íngremes. As vertentes mais expostas à insolação
tornam-se mais quentes e secas do que outras
faces menos iluminadas, que, no hemisfério sul,
estão voltadas predominantemente para a direção sul. Nas áreas de declividade acentuada, os solos são mais rasos
porque a alta velocidade de escoamento. das águas diminui a infiltração; assim, a água fica pouco tempo em contato
com as rochas, diminuindo a intensidade do intemperismo. Além disso, o material decomposto ou desagregado é
rapidamente transportado para as baixadas – por isso, no pico de serras e de montanhas, a rocha costuma ficar exposta,
sem nenhum recobrimento.
• Organismos: compreendem os microrganismos (bactérias, algas e fungos), que são decompositores, e os vegetais e
animais. Todos são agentes de conservação do solo.
• Sociedade: O ser humano pode degradar ou conservar o solo, dependendo do uso que faz dele.
• Tempo: período de exposição da rocha matriz às condições da atmosfera. Solos jovens são geralmente mais rasos
que os velhos
Conservação dos solos
A perda anual de milhares de toneladas de solos agricultáveis,
sobretudo em consequência da erosão, é um dos mais graves
problemas ambientais, que abrange as maiores áreas na superfície
terrestre. A principal causa da erosão, notadamente em países de
clima tropical, é a retirada total da vegetação (muitas vezes feita por
meio de queimadas) para implantação de culturas agrícolas e
pastagens. Porém, a quantidade de solo que se perde com a erosão
varia de acordo com o uso da terra, conforme o esquema ao lado, que
indica o tipo de cultura da terra e os efeitos em termos de erosão do
solo.
Caso predomine a erosão hídrica, quanto maiores a velocidade de
escoamento e o volume de água, maior a capacidade de transportar
material em suspensão; quanto menor a velocidade, mais intensa a
sedimentação e menor a intensidade da erosão. Por sua vez, a
velocidade e o volume do escoamento dependem da declividade do
relevo, da quantidade e intensidade das chuvas, da densidade da
cobertura vegetal e do tipo de solo – fatores que podem facilitar ou
dificultar a infiltração, conforme visto anteriormente.
Toda atividade agrícola provoca a degradação dos solos ao longo do tempo, mas a intensidade varia, dependendo do
tipo de cultura e das técnicas utilizadas (uso de agroquímicos, espaçamento entre fileiras, cobertura do solo, prática
de queimadas, entre outras).
Algumas práticas possibilitam a quebra da velocidade de escoamento das águas das chuvas e consequentemente
diminuem a erosão. São elas:
• Terraceamento: consiste em fazer cortes nas superfícies íngremes para formar degraus – terraços. Esse procedimento
possibilita a expansão das áreas agrícolas em regiões montanhosas e populosas; por isso, é muito comum em países
asiáticos, como China, Japão, Tailândia e Filipinas.
• Curvas de nível: prática que consiste em arar o solo
e depois semeá-lo seguindo as cotas altimétricas (da
altura) do relevo, o que por si só já reduz a velocidade
de escoamento superficial da água da chuva. Para
reduzi-la ainda mais, é comum a construção de
obstáculos no terreno, espécie de lombadas, com
terra retirada dos próprios sulcos resultantes da
aração. Com esse método simples, a perda de solo
agricultável é sensivelmente reduzida. Veja a imagem
ao lado.
• Cultivo de árvores: em regiões onde os ventos são fortes e a erosão eólica é intensa, podem-se plantar árvores em
linha para formar uma barreira que quebre sua velocidade e, consequentemente, reduza sua capacidade erosiva.
• Associação de culturas: em cultivos que deixam boa parte do solo exposta à erosão (como algodão e café), é comum
plantar, entre uma fileira e outra, espécies leguminosas (feijão, por exemplo), que recobrem bem o terreno. Além de
reduzir a erosão, essa prática favorece o equilíbrio orgânico do solo.
Fertilidade do solo
Alguns cuidados podem manter ou até mesmo melhorar a fertilidade do solo, o que contribui para sua conservação.
Dentre os mais importantes, destacam-se:
• adequar as culturas aos tipos de solo, respeitando seu limite, sua possibilidade de uso;
• adubar o solo, tanto para corrigir uma deficiência de nutrientes como para repor o que o cultivo retira dele;
• revezar culturas, já que cada uma delas tem exigências diferentes em relação aos nutrientes do solo.
Voçorocas
As chuvas fortes, como as vivenciadas na catástrofe pela qual o Estado do RS passou em 2024, também podem originar
sulcos no terreno. Se não forem controlados, eles podem se aprofundar a cada nova chuva e, com o escoamento que
ocorre no subsolo, resultar em sulcos de enormes dimensões, chamados voçorocas (ou boçorocas). Em alguns casos
as voçorocas chegam a atingir dezenas de metros de largura e profundidade, além de centenas de metros de
comprimento, impossibilitando o uso do solo para atividades tanto agrícolas como urbanas.
Para impedir a formação das voçorocas, a primeira ação deve ser o desvio do fluxo de água. Se a topografia do relevo
não permitir esse desvio, deve-se controlar a velocidade e o volume da água que escoa sobre o sulco. Isso pode ser
feito com o plantio de grama (se a declividade das paredes do sulco não for muito acentuada) ou com a construção de
taludes – degraus responsáveis pela diminuição da velocidade de escoamento da água –, recurso usado em rodovias
brasileiras.
Outra solução bastante
utilizada e difundida é a
construção de uma
barragem e o
consequente
represamento da água
que escoa tanto pela
superfície quanto pelo
subsolo. Esse
represamento faz com
que a voçoroca fique
submersa e receba
sedimentos trazidos pela
água, que com o tempo a
estabilizam.
Movimentos de massa
Em encostas que apresentam declividade acentuada, os movimentos de massa são fenômenos naturais, ou seja, fazem
parte da dinâmica externa da crosta terrestre e são agentes que participam da modelagem do relevo ao longo do
tempo.
Os movimentos de massa devem ser analisados considerando-se basicamente dois fatores: a natureza do material
movimentado (solo, detritos ou rocha) e a velocidade do movimento (desde alguns centímetros por ano até mais de 5
km/hora). Nos extremos, podem ocorrer quedas ou rolamentos de grandes blocos de rocha montanha abaixo ou
escoamento lento de solo em vertentes de baixa declividade, mas os movimentos mais frequentes e que mais causam
impactos sociais e ambientais são os escorregamentos de solo em encostas.
No Brasil, onde existem muitas regiões serranas sujeitas a
elevados índices pluviométricos, os escorregamentos de
solos nas encostas são muito frequentes, principalmente
no verão, quando as chuvas são abundantes e tornam o
solo mais saturado e pesado. Esse fenômeno faz parte da
dinâmica da natureza e acontece independentemente da
intervenção humana. Há, entretanto, um grande número
de movimentos de massa provocados pela ação antrópica
(humana). Geralmente, estão associados ao
desmatamento; ao peso acumulado sobre o solo (tanto
em áreas urbanas quanto agrícolas), como pedreiras e
depósitos de lixo; e à ocupação irregular de encostas,
sobretudo em grandes cidades e regiões metropolitanas.
Para tentar evitar esse problema, é necessário adotar uma
série de medidas de caráter preventivo, por exemplo:
fazer campanhas de esclarecimento para impedir novas ocupações em áreas de encosta e acionar a Defesa Civil em
dias de elevado índice pluviométrico.
Conservação dos solos em florestas
Em uma floresta, as árvores servem de anteparo para as gotas de chuva que escorrem pelos seus troncos, infiltrando-
se no subsolo. Além de diminuir a velocidade de escoamento superficial, as árvores evitam o impacto direto da chuva
no solo. Como vimos, a retirada da cobertura vegetal prejudica o solo, expondo-o aos fatores de intemperismo e
erosão, cujas consequências são graves.
Veja alguns exemplos:
• aumento do processo erosivo e empobrecimento do solo;
• assoreamento de rios e lagos, resultante do aumento no volume de sedimentos, o que provoca desequilíbrio nos
ecossistemas aquáticos, enchentes e, muitas vezes, prejudica a navegação;
• extinção de nascentes: o rebaixamento do lençol freático, resultante da menor infiltração da água das chuvas no
subsolo, pode provocar problemas de abastecimento de água nas cidades e na agricultura;
• possível diminuição dos índices pluviométricos e da evapotranspiração. Estima-se que metade das chuvas caídas
sobre as florestas tropicais seja resultante da evapotranspiração, ou seja, troca de água da floresta com a atmosfera;
• elevação das temperaturas locais e regionais, como consequência da maior irradiação de calor para a atmosfera por
causa do solo exposto. A floresta absorve boa parte da energia solar pelos processos de fotossíntese e de transpiração.
Sem a floresta, quase toda essa energia é devolvida para a atmosfera em forma de calor, elevando as temperaturas
médias;
• agravamento dos processos de desertificação e arenização devido à combinação dos fenômenos até agora descritos:
diminuição das chuvas, elevação das temperaturas, empobrecimento dos solos e acentuada diminuição da
biodiversidade;
• redução ou fim das atividades extrativas vegetais e inviabilização do turismo ecológico. É importante destacar que,
nas esferas ambiental e socioeconômica, pode ser mais vantajoso conservar uma floresta: a exploração sustentável
pode garantir empregos, gerar lucro e preservar o bioma;
• proliferação de pragas e doenças em razão de desequilíbrios nas cadeias alimentares. Algumas espécies, antes sem
nenhuma nocividade, passam a proliferar com a eliminação de seus predadores, podendo causar graves prejuízos
econômicos e ambientais.