Capítulo 2
Heraclea era uma cidade linda. Eu costumava passar
tempo lá com minhas filhas, durante as férias, sabe?
Uma verdadeira tragédia o que aconteceu.
Hector Artemísia. Casisto da cadre Diana.
Arquivos de Cadre. Incidente "Lord of Allseas"
Ela preferia não sonhar. Odiava a sensação de simplesmente
fechar os olhos e então os abrir, como se não tivesse dormido um
segundo sequer, como se o tempo fosse apagado. Mas ainda
preferia isso a dar oportunidade para seus demônios encontrarem
um caminho para o fundo da sua alma.
Mas ainda sentia falta daqueles olhos.
— Garota. acorda.
Sentiu a mão morna no seu ombro. Seu corpo ligou todo de uma
vez enquanto ela se virava e saltava para fora da cama. Se virou
para ver Assad caindo de bunda no chão, xingamentos voando
para fora.
— Porra menina!
— Desculpa...
Seu corpo estava dolorido em todas as juntas. Sentia se
acumulando nas costas, axilas e palmas da mão. Sua boca estava
seca, e um filete de baba escorria por todo seu rosto.
Eca.
Passou o antebraço por cima. Percebendo tarde demais a crosta
de suor ali também.
— Você tem um pouco de...
— Acredita. Eu sei. Eu tô sentindo em todo lugar.
Seus sentidos ainda estavam nublados. Sentia um gosto esquisito
na boca, sua visão ainda estava enbaçada e sentia seu equilíbrio
vacilando. Ainda assim, conseguia sentir o cheiro inconfundível
de sal, rochas e esgoto.
— A gente já chegou.
Assad apenas assentiu.
— Que maravilha — deixou um leve ácido escorrer pelas
palavras.
Começou a se alongar na cabine. Suas juntas estalando com cada
movimento. Seus ferimentos já estavam fechados. Assad tinha
uma boa experiência costurando ela, e sua biologia de feiticeira
ajudava a acelerar a cura.
— Eu estou indo para o Cabaré. De lá eu vou pro meu
apartamento. Você consegue cuidar das coisas aqui?
Andou para o armário, pegando uma regata usada e a vestindo.
Pegou sua mochila e começou a enfiar os documentos ali. Então
seus dedos hesitaram na pasta Spidergate. Seu coração começou
a acelerar, e teve que resistir a vontade de olhar por cima do
ombro, só para garantir que ele não estava bisbilhotando.
Isso é estúpido. Pra ele é só mais uma pasta entre dezenas que eu
já roubei.
— Claro que consigo. Só preciso ajudar Khalia a se localizar na
cidade. Ela tem uma amiga aqui que vai ajudar eles a se assentar,
aparentemente...
Ele hesitou.
Suspeita. Decepção.
Captou as intenções agudas na fronteira da sua alma. Seus pelos
se eriçaram, e ela olhou por cima do ombro. Ele abriu a boca, e
então a fechou. A intenção foi abafada e desapareceu.
Ótimo pensou consigo mesma eu não estou no clima para mentir.
— Qualquer coisa, você sabe onde me encontrar.
Saiu da cabine antes dele se despedir.
Os refugiados já estavam acordando. Belíssima era um barco
médio. Nas viagens de ida ficava basicamente vazio com apenas
Assad e ela. Mas nas de volta, cada pequeno canto se tornava
uma cama. Ela passou por cima de alguns que foram forçados a
dormir no chão envelhecido dos corredores da Belíssima.
Khalia não era um desses. Aparentemente tinha sido a primeira a
acordar e estava coordenando o resto dos refugiados no deque
aberto da Belissima. Alaska a fitou por um instante enquanto ela
remediava uma discussão entre duas crianças.
Ela levantou a cabeça, e conectou seu olhar ao dela. Sua cara se
fechou de imediato, intenções afiadas e destrutivas ressoando
para fora.
— Nenhum de vocês morreu?
Dava para ver a mandíbula dela rangendo. Alaska deixou um leve
sorriso no rosto escapar.
— De nada. Cuidado quando descerem no caís. A madeira nessa
parte do porto costuma estar podre.
Saltou para fora do barco simultaneamente ao conselho.
Heraclea era uma cidade difícil de descrever. Era a maior cidade
do Mediterrâneo, a mais rica e o último bastião do Velho Mundo
fora das garras da Allseas. Fundada nos anos imediatos a queda
da União Europeia, quase um século atrás. E desde então, foi
capaz de manter sua independência em meio ao absoluto caos dos
Anos de Sangue.
E apesar do que o governo da cidade gostava de dizer para o
eleitorado, todo o crédito por essa sobrevivência estava fora de
suas mãos. O Konsiliun, a coisa mais próxima de um governo
legítimo entre feiticeiros, fez sua cota de assassinatos e subornos
para impedir que a sua ponte para a Europa fosse afetada pela
guerra e caos.
Assim, a cidade se tornou o único lugar seguro para refugiados.
Por décadas a cidade cresceu com o fluxo interminável que vinha
do leste. A cidade foi de uma cem mil para quase dez milhões de
habitantes, sem contar as dezenas de milhões que usaram a
cidade apenas como um degrau para ir para o Novo Mundo em
buscas de novas vidas. O fluxo chegou a um ponto de boa parte
do mercado especulativo da cidade era afetada positivamente por
essas ondas de imigrações.
Mas esse fluxo estava sufocando. Desde a ascensão da Allseas as
guerras se tornaram menos frequentes e perderam sua brutalidade
característica. Os senhores da guerra se cagando de medo com a
ideia de suas dinastias recém nascidas serem exterminadas na
calada da noite por soldados vindos diretamente de seus
pesadelos.
Em troca dessa obediência, a Allseas os protegeria das potências
para além do atlântico. Distribuiria recursos para reconstruir suas
cidades, reviver seus campos e fazendas. E impediria que
refugiados escapassem de suas terras em direção para Heraclea e
OTAS.
De repente, uma das áreas mais importantes para uma cidade que
apostou seu futuro em um crescimento cancerígeno ficou
dependente em um pequeno mercado de barcos capitaneados por
marinheiros suicidas o suficiente para testarem sua sorte pelo
mediterrânea e resgatar refugiados de guerra em direção a cidade.
Eram terrivelmente mal pagos e beiravam o criminal, mas eram
ignorados pelas autoridades em prol do crescimento contínuo da
cidade.
Passou por um grupo de crianças quando chegou nos cortiços
marginais. Elas sorriam e riam em suas roupas largas e frescas.
Metade delas carregavam galhos e quase derrubaram um
vendedor de doces caseiros, uma delas batendo de costas em seu
carrinho repleto de paçocas. Parou por um instante, apenas para
ver o vendedor xingar, rir, e bagunças os cabelos da guria
Ele levantou a cabeça, e então seus olhos arregalaram quando a
viu. Ele tentou esconder, dando um sorriso e pedindo para as
crianças continuarem seu caminho para a escola. Mas Alaska
sentiu a intenção aguda.
Medo.
Devia ter se acostumado. Deu de ombros e continuou seu
caminho.
Duas horas depois, no limiar entre a periferia e o centro de
Heraclea, ela sentiu o cheiro azedo do Cabaré. O cheiro de álcool
e perfume que guiava as almas perdidas, especialmente aquelas
que procuravam afogar seus problemas em bebidas ou sexo
barato. Prontamente levantou barreiras ao redor do seu núcleo.
Existia poucas coisas piores do que se submeter as intenções
agudas daqueles que procuravam ficar bêbados já no começo do
dia. Especialmente em um lugar que era metade puteiro.
Caminhou entre eles sem fazer contato visual. As garotas e
garotos que trabalhavam para o MC andavam pelas mesas com
roupas que quase não se justificavam pelo calor. MC costumava
dizer, enquanto Alaska tentava sair de perto daquele esquisito,
que gente com tesão era mais disposta a gastar dinheiro,
especialmente se não podiam tocar ninguém.
E MC tinha contratado músculos o suficiente para que nenhum
bêbado tentasse a sorte.
— Alaska!!!
Echo gritou do balcão de bebidas. Era uma pessoa de cabelo
pintado de branco e azul turquesa, com piercings espalhados por
todo canto do corpo. Sua pele era leitosa com um toque de oliva.
Seus olhos eram grandes e de um castanho escuro, com uma
tatuagem de asas de borboletas no canto do olho esquerdo.
O barman tirou seu olhar do copo e se virou para ela. Golia era
um homem alto e barbudo, as partes laterais da sua cabeça
raspadas e o topo pendendo solto. Ele não se preocupou em dizer
nada, apenas acenando de leve com a cabeça.
Os dois eram feiticeiros, embora não fossem diretamente
associados ao Konsiliun. Apesar do que Alaska foi levada a
acreditar na sua infância, maior parte dos feiticeiros não eram
organizados nos clãs que compunham a organização. Ao redor do
mundo deveria existir alguns milhões de indivíduos com calibre o
suficiente para serem considerados um feiticeiro,. Se Alaska
tivesse que chutar, apenas o Konsiliun tinham um milhão.
O que eles tinham um monopólio em poder. Echo e Golia ambos
eram algo entre quinto e terceiro calibre — uma métrica
inventada e medida pelo Konsiliun — e eram alguns dos
feiticeiros clandestinos mais poderosos que tinha conhecido e não
teve que matar. Ainda assim, duvidava que Echo conseguiria
sequer passar nos exames de admissão para entrar em Lernejo.
Golia era mais talentoso, mas ainda assim não se formaria com
graças em Lernejo.
Alaska tentou ignorar os dois e continuar seu caminho.
— Como foi a viagem, querida?
Echo perguntou. Ela tomou um copo de cerveja de uma das
mesas por ali. A dona do copo pareceu se incomodar, mas
manteve o bico fechado.
— Não foi uma viagem.
Deu um paso para esquerda como finta e então passou pelo
bloqueio de Echo.
— Vamos lá, não seja assim! Você deve ter alguma coisa
divertida para contar, né? Alguma luta super empolgante contra
algum Triton? Talvez você tenha entrado no navio do próprio
Sinclair e quebrado a coluna do velho?
Fincou seu pé no chão e se virou para Echo. Olhos cinzentos
endurecendo.
— Eu vi um homem explodir enquanto tentava salvar uma
criança. Ou talvez prefira ouvir de outra morte grotesca eu tive
que ver e, ainda assim, ter que lidar com você enchendo a porra
do meu saco?
Echo ficou parada. E então um assobio saiu dos seus lábios.
— Every party has a popper and that's why they invited you.
Party popper, party popper.
A canção continuou a ressoar em seus lábios enquanto voltava
para sua cerveja. Golia arqueou sua sobrancelha e voltou sua
atenção para os copos que estava limpando.
— Você vai querer café?
Seu sotaque entregava sua origem ao norte do mar negro. Seja lá
de onde ele fosse, sua antiga casa provavelmente tinha sido
devastada por exércitos paramilitares neo-fascistas. Não que ele
se importasse, tinha feito sua vida em Heraclea muito antes da
região se tornar uma desolação de miséria. Alaska hesitou por um
momento, o fitando com os ombros caídos e sua coluna pendendo
para frente. Ela estava exausta, mas o sono não estava pesando
suas retinas. De toda forma, ela tinha coisas demais para fazer.
Não podia só se forçar a dormir agora.
— Tenho que me encontrar com o seu chefe.
Golia acenou com a cabeça, seus olhos voltando
despretensiosamente para os copos.
Continuou seu caminho cabaré adentro. O interior do prédio deu
lugar a mais mesas. Feitas de madeira e cobertas com panos que
cheiravam a perfume agressivo, reservadas a clientes recorrentes.
Ao invés de serem servidos por qualquer garçom ou garçonete
que passasse por perto, cada uma tinha seu próprio troféu para ser
exibido. A essa hora do dia estavam vazias, mas o cheiro
desconfortável permanecia lá.
— Senha?
Uma mão encontrou seu ombro quando tentou passar por uma
porta de madeira maciça. Virou seu rosto para o segurança. Um
homem alto, um palmo ou dois mais alto que ela. Tatuagens por
todo o rosto para contribuir para a intimidação junto de músculos
saltando veias. Por curiosidade, Alaska enfraqueceu a barreira ao
redor do seu núcleo. Não sentiu nenhuma intenção vinda do
homem.
Feiticeiro.
— Você é novo aqui?
Olhou para o corpo dele. A tinta encravada na pele se
contorcendo em palhaços de rostos distorcidos e versos da Bíblia.
Alaska quase riu do clichê. Não conseguiria ser mais
performática do que aquilo nem se tentasse.
— Senha. Ou não passa.
Os olhos de Alaska se levantaram para o dele.
Ótimo, o idiota também escureceu a própria esclera. Nenhuma
originalidade.
Alaska deu um passo para frente. Sentiu a mão no seu ombro. Em
um instante, seu núcleo se atiçou. A energia negativa alterou seu
corpo, reduzindo a distribuição de seu peso e seu centro de
gravidade. O segurança tentou dar um empurrão, mas encontrou
resistência alguma enquanto ela deslizava para além dele, o
deixando cair de cara no chão enquanto abria a porta.
MC estava em algum tipo de reunião. Vestido em suas roupas
elegantes repletas de roxo com joias decorando cada canto entre
os dedos dos pés até seu bigode pontudo. O homem parecia ter
por volta de sessenta anos, mas sua verdadeira identidade era
escondida por múltiplas cirurgias estéticas e os efeitos benéficos
que a sintropia fornecia ao corpo. Mas ao invés de parecer jovem,
ele parecia um boneco de plástico.
Seus olhos viajaram pelas outras pessoas na mesa. Reconheceu
alguns como líderes de comunidades locais.
Não, líderes era a palavra errada. Eram parasitas do submundo da
cidade que sugavam o sangue por baixo dos panos. Casa de
apostas, agiotagem, drogas e outros negócios que eram
convenientemente ignorados.
— Oh! Alaska, você chegou. Espero que sua missão tenha sido…
— Vocês três — ela apontou por cima do ombro. — Fora.
Dois deles a reconheceram e imediatamente se levantaram. O
terceiro devia ser novo, ocupando algum lugar nas intermináveis
brigas mesquinhas de criminosos de terceira categoria de
Heraclea. Não precisou sentir intenção para adivinhar que ele
estava prestes a chamar de puta.
Arqueou a sobrancelha para MC. Ele sorriu, ou ao menos tentou.
As cirurgias plásticas tinham tornado seu rosto uma pedra.
— Por favor Lil B. Não faz nada estúpido. Podem sair, a gente
continua essa conversa amanhã.
A porta se fechou junto do último criminoso.
— Você gosta de fazer uma cena, né garota?
Andou até a mesa sem falar nada. Abriu sua mochila e pegou
todos os documentos que tinha coletada na última viagem, por
exceção do Spidergate. Jogou os papéis na mesa e fechou a
mochila.
— Algum empecilho no caminho?
— Nada que você deva se preocupar.
Ele arqueou suas sobrancelhas perfeitamente aparadas e
pontudas.
— Certeza? Eu ouvi falar de uma explosão. Talvez você tenha
visto algo na viagem?
merda.
— Eu não vi nada.
Ele estalou a língua e passou os dedos pelos papéis em cima da
mesa. Seus olhos castanha vasculhando por nomes reconhecidos.
— E quantas pessoas vocês conseguiram trazer dessa vez?
— Quarenta.
— Menos do que a sua última viagem.
Simplesmente deu de ombros.
— Acontece. Quando eu posso receber meu pagamento?
— Me sinto ofendido, Alaska. Achei que poderia colocar nossa
conversa em dia, talvez te chamar para tomar um café?
O rosto de Alaska se manteve seco. Mas seus olhos começaram a
endurecer. Atiçou de leve seu núcleo, apenas o suficiente para
MC perceber.
— Claro, claro. Um momento.
MC andou até um cofre no fundo da sua sala, colocou a senha e
abriu. Ele ficou um instante contando as notas e então voltou,
deixando um pacote em cima da mesa.
— Deve ter uns três mil aí dentro. Eu já descontei qualquer coisa
que você me devia.
— Claro que descontou…
Não se deu o esforço de contar. MC era muitas coisas, mas ele
não era de passar a perna em um parceiro de negócios lucrativo, e
poderosa, como ela.
— Então, o que você vai fazer essa semana?
Ele se sentou na mesa, apoiando o rosto nas dobras dos dedos.
— Dormir.
Ele deu uma leve risada.
— Ah por favor. Você deveria aliviar um pouco desse estresse de
vez em quando, não é?
— Aqui?
Alaska quase riu. Já tinha mais do que problemas o suficiente
para lidar. Definitivamente não ia adicionar sexo e drogas a essa
cada vez mais longa lista de problemas na sua vida.
— Onde mais, Princesa?
O sorriso voltou a deformar seu rosto. Parecia um babuíno
derretido
— Eu prefiro cortar meus próprios pulsos.
— Estou ofendido.
— Foi a intenção.
Ela colocou a bolsa sobre os ombros e girou os calcanhares.
— Uma mulher perguntou de você esses dias…
Ela parou no mesmo instante.
— Qual era o nome dela?
— Minerva. Mas provavelmente era um nome falso.
— Como ela era?
— Coxas definidas, peitos…
MC soltou um gemido enquanto era puxado pela gola por cima
da mesa. Copos de se estilhaçaram no chão e alguns dos
documentos na mesa se mancharam com whisky barato. Alaska
conseguia sentir o cheiro da bebida no bafo descompassado de
MC enquanto o magnata lentamente apagava o brilho de medo
dos olhos.
— Foi só uma brincadeira…
A gola ficou um pouco mais apertada ao redor do seu pescoço.
— Ela era bonita, cabelo castanho escuro, olhos verdes. Um
pouco mais baixa que você.
Soltou a gola.
— O que ela queria?
— Ela não me disse, só me perguntou onde você morava.
— E o que você disse?
Ele ficou em silêncio.
— Bem, ela ofereceu dinheiro pela informação. Algo que, devo
ressaltar, você não fez.
Deixou uma imagem surgir na sua mente. Os dedos de seu pé
colidindo perfeitamente com aqueles dentes brancos. A sensação
deles rachando, o impacto se espalhando pelo seu corpo e a
imagem de alguém desprezível como ele caído no chão e
sangrando.
Infelizmente, Alaska não era o tipo de feiticeira com o luxo de
conjurar qualquer realidade que desejasse.