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Sob A Lua

Helena e Lívia vivem uma vida comum até que uma lua de sangue provoca estranhas sensações em Helena. Após uma noite perturbadora, Helena descobre que a Lívia que conhece foi substituída por uma criatura que usa seu corpo, levando-a a um confronto aterrorizante. A criatura, que se apresenta como Mira, busca entender sua nova identidade enquanto Helena luta para encontrar sua esposa desaparecida.

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Sob A Lua

Helena e Lívia vivem uma vida comum até que uma lua de sangue provoca estranhas sensações em Helena. Após uma noite perturbadora, Helena descobre que a Lívia que conhece foi substituída por uma criatura que usa seu corpo, levando-a a um confronto aterrorizante. A criatura, que se apresenta como Mira, busca entender sua nova identidade enquanto Helena luta para encontrar sua esposa desaparecida.

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Sob a Lua Rubra

Capítulo 1 — A noite em que o mundo rachou


Helena sempre desconfiou de noites bonitas demais.

Havia algo de errado numa lua de sangue tão perfeita, tão vermelha, tão grande sobre os
telhados da cidade. Da janela da cozinha, ela observava o reflexo rubro no vidro enquanto
terminava de secar a louça. Atrás dela, Lívia falava sobre alguma promoção de passagens,
uma viagem que talvez elas finalmente fizessem nas férias, e o tom de sua voz
misturava-se ao ruído da torneira e ao zumbido baixo da geladeira.

Era uma vida comum. Quase banal.

Quatro anos juntas. Um apartamento pequeno, mas acolhedor. Dois empregos cansativos.
Discussões ocasionais sobre dinheiro, louça, atrasos, pequenas distrações. E, entre tudo
isso, a intimidade silenciosa de quem sabia o peso do corpo da outra na cama, o gosto do
café preferido, o jeito exato de pedir desculpa sem dizer a palavra.

Lívia apareceu na porta da cozinha ainda descalça, com uma taça de vinho na mão.

— Você tá ouvindo?

— Tô.

— Não tá, não. — Ela sorriu. — Eu disse que a gente devia ir pra algum lugar onde
ninguém conheça a gente.

Helena pendurou o pano no fogão e se virou.

— E você fugiria da civilização por quanto tempo? Dois dias? Três?

— Uma semana.

— Mentira.

— Quatro dias.

Helena riu. Lívia se aproximou, encostou o ombro no dela e olhou para a janela.

O céu parecia ferido. Vermelho escuro, pulsando sobre o mundo.

— Tá estranho hoje — Lívia murmurou.

— É só a lua.

— Não é só a lua.
Helena lançou-lhe um olhar rápido. Lívia estava séria, a taça esquecida entre os dedos.

— Desde que escureceu, eu tô com a sensação de que tem alguém olhando pra casa.

— Do quintal?

— Das árvores.

Helena suspirou.

— Amor, a gente mora no térreo. Sempre tem alguém passando na rua, gato, vizinho,
qualquer coisa.

— Não é isso.

Havia algo no jeito como ela disse aquilo que a fez parar.

Helena foi até a janela e afastou um pouco a cortina. O quintal dos fundos era pequeno,
cercado por muro alto, com algumas plantas malcuidadas e uma árvore antiga que
pertencia ao terreno vizinho e projetava galhos secos por cima do muro. Tudo estava
imóvel. Quieto demais.

— Não tem ninguém.

Quando virou de volta, Lívia continuava olhando para fora, mas agora parecia escutar outra
coisa. Uma coisa distante.

— Você já teve a sensação de que alguma coisa te encontra? — perguntou, baixo.

— Isso foi o vinho?

— Tô falando sério.

Helena apoiou as mãos nos ombros dela.

— Vem dormir. Amanhã você vai rir disso.

Lívia assentiu, mas não pareceu convencida.

Naquela madrugada, Helena acordou com os cachorros da rua uivando.

Levantou-se meio tonta, foi ao banheiro, bebeu água na cozinha e reparou que a luz do
corredor piscava. Por alguns segundos, a energia caiu por completo. O apartamento
mergulhou numa escuridão tão espessa que ela sentiu um frio estranho subir pelos braços.

Então a luz voltou.

E no reflexo preto da janela da sala, por um instante muito breve, Helena teve a impressão
de ver uma terceira silhueta dentro do apartamento.

Ela se virou num sobressalto.


Nada.

Voltou para o quarto, fechou a porta e se deitou. Lívia estava de costas para ela, imóvel, os
cabelos espalhados pelo travesseiro. Helena aproximou-se, encostou o rosto em sua nuca e
sentiu o perfume conhecido.

Normal. Quente. Vivo.

Ainda assim, demorou para dormir.

Na manhã seguinte, o sol entrou pálido pelas frestas da cortina.

Helena abriu os olhos devagar, sentindo o corpo pesado de quem não descansou direito.
Por um instante, não soube o que a havia despertado. O quarto estava silencioso, exceto
pelo ventilador lento no teto.

Então percebeu.

Lívia estava acordada.

Sentada na beira da cama, de costas para ela, muito ereta, muito quieta.

Helena franziu a testa.

— Você tá bem?

A cabeça de Lívia virou devagar.

O rosto era o mesmo. Os olhos castanhos, a boca cheia, a curva exata do queixo. Mas
alguma coisa não encaixava. Como um quadro familiar pendurado torto na parede.

— Tô — ela respondeu.

A voz também era a mesma.

Helena se sentou, os lençóis presos à cintura.

— Você não dormiu?

— Dormi.

— Parece que não.

Lívia sorriu.

Era o sorriso dela. E, ao mesmo tempo, não era.

Helena sentiu o estômago apertar.

— Você tá estranha.

A outra inclinou ligeiramente a cabeça, como quem estuda uma palavra nova.
— Estranha como?

As mãos de Helena ficaram frias.

Não havia nada de objetivo que ela pudesse apontar. Nada que justificasse o medo súbito,
irracional, quase infantil. E, no entanto, tudo nela gritava que havia alguma coisa
profundamente errada à sua frente.

Lívia sempre piscava mais quando acordava. Sempre passava os dedos pelo próprio pulso
antes de falar qualquer coisa de manhã. Sempre franzia o nariz antes de sorrir.

A mulher sentada na cama não fazia nada disso.

— Como se... — Helena engoliu em seco. — Como se você não fosse você.

O silêncio no quarto pareceu crescer.

Lívia a observou longamente.

Depois sorriu de novo, mais devagar, mais preciso.

— Ainda não — disse.

O sangue de Helena gelou.

Ela recuou na cama.

— O quê?

A criatura usando o rosto de sua esposa abaixou os olhos para as próprias mãos, como se
também as examinasse.

— Eu estou aprendendo.

Capítulo 2 — A casa ocupada


Helena não gritou.

Mais tarde, pensaria nisso com espanto. Em qualquer história razoável, aquela era a hora
do grito, da corrida, do desespero. Mas o medo que a invadiu foi tão profundo que a deixou
imóvel, como se um instinto mais antigo tivesse tomado controle de seu corpo e decidido
que o silêncio era a única chance de sobrevivência.

— Onde ela está? — perguntou, com a voz tão baixa que mal pareceu sua.

A coisa ergueu o olhar.

— Viva.

— Onde?
— Não posso mostrar ainda.

Helena saiu da cama num salto, procurando o celular na cômoda, qualquer objeto que
pudesse usar, qualquer saída. Mas antes que alcançasse o aparelho, a criatura já estava de
pé.

Não correu. Não avançou. Apenas se moveu.

E isso foi pior.

Porque, em um momento, estava ao lado da janela. No seguinte, estava entre Helena e a


porta.

Não como um corpo que atravessa um espaço. Como um reflexo deslizando sobre vidro.

— Eu não quero machucar você — disse.

Helena puxou o abajur e o ergueu com as duas mãos.

— Fica longe de mim.

A criatura baixou os olhos para o abajur com curiosidade sincera.

— Você vai me acertar com isso?

— Se eu precisar.

— Isso significa que você já acredita que eu posso sangrar?

Helena não respondeu. O coração parecia bater dentro da garganta.

A coisa permaneceu parada, usando o rosto de Lívia com uma serenidade obscena.

— Eu sei que isso é ruim para você — continuou. — Sei que eu sou a coisa errada dentro
da forma certa. Mas eu não vim por crueldade.

— Cala a boca.

— Você quer saber dela.

— Quero.

— Então precisa me ouvir.

Helena apertou mais o abajur.

— Você roubou a vida dela.

A expressão da criatura vacilou. Não culpa. Não exatamente. Um eco torto de dor.

— Sim.
A admissão a atingiu como um tapa.

— Então por que eu ouviria qualquer coisa que você disser?

— Porque sem mim você nunca vai encontrá-la.

Aquilo a atravessou num ponto que doía demais para nomear.

Helena pensou em correr para a sala, sair do apartamento, pedir ajuda, bater na porta dos
vizinhos, chamar a polícia. Mas que palavras usaria? Minha esposa foi substituída por uma
cópia? Havia um monstro na minha cama? Tudo soava absurdo demais até dentro da
própria cabeça.

A criatura deu um passo lento.

Helena ergueu o abajur mais alto.

— Eu disse pra não chegar perto.

Ela parou imediatamente.

Obedeceu.

Esse detalhe ficou preso na mente de Helena com uma força desconfortável.

— Se eu quisesse forçar alguma coisa — disse a criatura —, você não teria tempo de
levantar isso.

Helena odiou perceber que era verdade.

— Então por que não força?

A coisa a encarou por um longo momento.

Quando respondeu, a voz saiu mais baixa.

— Porque eu não quero que tudo entre nós comece como violência.

Entre nós.

A náusea e a raiva vieram juntas.

— Não existe nós.

— Existe agora.

Helena arremessou o abajur.

A criatura desviou sem esforço. O objeto bateu na parede e se espatifou no chão. O som
seco ecoou pelo apartamento.

As duas ficaram imóveis, ouvindo.


Ninguém bateu à porta. Nenhum vizinho apareceu. A manhã lá fora seguia normal,
indiferente, com o barulho distante de ônibus e passos na calçada.

Helena percebeu, então, o quanto o horror podia ser solitário.

— Me leva até ela — ordenou, respirando com dificuldade.

A criatura desviou o olhar para os cacos no chão.

— Ainda não.

— Ainda não? — Helena avançou um passo. — Você invade a minha casa, veste a cara
dela e acha que pode me dizer quando?

— Se você for agora, morre.

O quarto pareceu encolher.

— Tá mentindo.

— Não.

Helena viu os dedos dela se moverem uma vez, como se quisessem alcançar sua mão e se
proibissem no meio do gesto.

— A passagem abriu na lua de sangue. Ela não é estável. O lugar onde ela está... ainda
não suporta você.

— Que lugar?

A criatura demorou um pouco a responder.

— Entre reflexos.

Helena sentiu o estômago revirar.

— Eu não vou ficar aqui com você.

A resposta veio imediata demais.

— Vai.

Ela ergueu o queixo.

— Não me dá ordens.

— Não é uma ordem. É um fato.

— Eu posso sair por aquela porta agora.

— Pode.
— Então sai da frente.

A criatura o fez.

Foi para o lado, deixando o caminho livre.

Helena ficou parada.

A própria hesitação a humilhou.

Ela podia correr. Podia fugir daquele apartamento, daquele rosto roubado, daquela coisa
impossível. Mas cada célula do seu corpo sabia que, no instante em que saísse, deixaria
Lívia para trás em algum lugar que não entendia, nas mãos de um ser que sim, a imitava,
mas também parecia conter a única ponte até ela.

— Você é um monstro — sussurrou.

A criatura não se defendeu.

Apenas respondeu:

— Eu sei.

Então, com uma calma quase terrível, acrescentou:

— E mesmo assim fui eu que fiquei quando o mundo rachou.

Capítulo 3 — O nome que não pertencia a ninguém


Os primeiros dias foram os piores.

Helena não saía sozinha de um cômodo sem antes olhar duas vezes. Mantinha facas
escondidas pela casa. Dormia com a porta do quarto encostada e uma cadeira travada na
maçaneta, embora a criatura pudesse atravessar o apartamento sem fazer som e
provavelmente entrasse se quisesse.

Mas não entrava.

Ficava do lado de fora.

Às vezes sentada no sofá da sala, imóvel, no escuro. Às vezes diante do espelho do


corredor, olhando o próprio reflexo com um fascínio que beirava o desconfortável. Às vezes
perto da janela, como se escutasse uma música que só ela podia ouvir.

Ela usava o corpo de Lívia com precisão quase perfeita durante o dia. As roupas dela. Os
gestos dela. A voz dela. Mas as falhas continuavam aparecendo em detalhes pequenos
demais para qualquer estranho notar e grandes demais para Helena ignorar.

Não tomava café, só observava o vapor subir da caneca. Não comia muito, apesar de fingir
o hábito. Não parecia piscar quando se distraía. E, vez ou outra, errava a própria sombra.
Era isso que mais perturbava Helena.

Às vezes, ao passar pelo corredor, via a criatura sob a luz da tarde com a sombra projetada
atrás de si... e a forma no chão não correspondia ao corpo. Longa demais. Alta demais.
Com membros extras que se encolhiam assim que eram percebidos.

Na terceira noite, Helena encontrou a criatura na cozinha, tentando descascar uma laranja.

A faca estava na tábua. A fruta, aberta de forma irregular. As mãos de Lívia — aquelas
mãos que Helena conhecia tão bem — estavam cobertas de sumo.

— O que você tá fazendo? — perguntou da porta.

A criatura levantou os olhos.

— Observando.

— Isso tem nome. Se chama destruir comida.

Ela olhou a laranja como se Helena tivesse revelado um segredo interessante.

— Ela gostava disso às vezes. Depois do jantar.

Helena se aproximou um passo.

— Não fala dela como se conhecesse.

— Eu conheço.

— Não. Você sabe. É diferente.

A criatura ficou em silêncio.

Helena odiava quando ela fazia isso, porque parecia pensar de verdade. Não como um eco
mecânico, não como uma imitação vazia. Havia algo ali processando, escolhendo,
aprendendo.

— Talvez — disse por fim.

Helena puxou a gaveta, pegou outra faca, tomou a laranja de suas mãos e começou a
descascar de forma firme, precisa.

A criatura observou.

— Você faz tudo como se estivesse brigando com o objeto — comentou.

— E você observa demais.

— Eu preciso.

— Pra quê?
A resposta veio sem hesitação.

— Pra existir direito.

Helena parou.

A casca de laranja se partiu entre seus dedos.

O silêncio se alongou entre elas até se tornar pesado demais.

— Para de chamar você de ela — disse Helena, de repente.

A criatura franziu levemente a testa.

— Como?

— Quando fala da Lívia. Você chama ela de ela, mas usa o rosto dela. Usa o corpo dela.
Fala com a voz dela. — Helena largou a faca na pia. — Eu não vou chamar você pelo nome
dela.

A criatura pareceu absorver aquilo com atenção incomum.

— Então me dê outro.

Helena ergueu os olhos.

— O quê?

— Um nome. Se eu não posso ficar com o que era dela, me dê um que seja meu.

O pedido a desarmou de um jeito que a raiva não conseguiu conter por completo.

Era absurdo. Cruel. Intolerável.

E, ainda assim, havia alguma coisa quase nua naquele pedido. Não inocência — Helena
não seria burra de chamar assim —, mas um desejo de ser delimitada, reconhecida,
separada da mulher que havia tomado.

— Eu não vou batizar você — disse, dura.

— Por quê?

— Porque isso pareceria... — ela respirou fundo — aceitação.

A criatura baixou o olhar.

— Entendo.

Helena voltou a descascar a fruta, mais para ocupar as mãos do que por qualquer fome.

— Mira — disse, depois de um tempo.


O silêncio respondeu primeiro.

A criatura levantou a cabeça.

— Mira?

Helena não sabia por que escolhera aquele nome. Talvez porque lembrasse espelho. Talvez
porque soasse curto, afiado, novo. Talvez porque fosse mais fácil odiar alguém que já não
se chamava Lívia.

— Não se empolga. Foi a primeira coisa que veio.

Mas a expressão da criatura — de Mira — mudou.

Foi discreto. Minúsculo. Ainda assim, real.

Como se alguma coisa dentro dela tivesse finalmente encontrado contorno.

— Mira — repetiu, experimentando a palavra na boca. — Eu gosto.

Helena mordeu a parte interna da bochecha, irritada consigo mesma.

— Não faz parecer importante.

— É importante.

— Não é.

— É a primeira coisa que é só minha.

Helena quis responder com aspereza, devolver aquela frase ao lugar de onde viera, impedir
que ela criasse raízes em algum canto frágil demais de seu peito.

Mas não conseguiu.

Em vez disso, estendeu metade da laranja sem olhar diretamente para ela.

— Toma.

Mira aceitou.

Os dedos das duas se tocaram por um segundo.

O frio atravessou a pele de Helena como água noturna.

E, ainda assim, ela não puxou a mão de imediato.

Capítulo 4 — Entre espelhos


Mira esperou a lua minguar antes de levá-la.
Disse que precisava do céu certo, do horário certo, do reflexo certo. Helena odiava
depender de explicações que soavam como delírio ritualístico, mas já aprendera que o
mundo deixara de ser confiável desde a noite da lua de sangue. A lógica que conhecia não
bastava mais.

Foram ao banheiro à meia-noite.

Não ao bosque, nem a um cemitério, nem a um lugar grandioso como Helena imaginara
quando pensava em portais monstruosos. Ao banheiro pequeno do apartamento, com
azulejo gasto e espelho embaçado acima da pia.

— É aqui? — perguntou, incrédula.

— Reflexos gostam de lugares onde as pessoas se veem sem atenção — respondeu Mira.
— Banheiros. Janelas de ônibus. Vidros de elevador. Poças de chuva.

A luz foi apagada.

Restou apenas a claridade da lua entrando pela janelinha alta e o brilho rubro muito
enfraquecido de velas que Mira havia disposto em torno da pia. Helena não perguntou de
onde vieram. Havia desistido de perguntar certas coisas quando entendera que algumas
respostas não melhoravam nada.

Mira ficou diante do espelho e pousou a mão sobre o vidro.

A superfície tremeu.

Não rachou. Não ondulou de forma dramática. Apenas deixou de parecer sólida, como se o
espelho tivesse se tornado pele de água sob luz morta.

Helena sentiu o corpo inteiro endurecer.

— Quando eu disser, não olha para trás — disse Mira. — Não importa o que ouvir.

— E se eu ouvir a voz dela?

Mira hesitou.

Mesmo na penumbra, Helena percebeu.

— Principalmente se ouvir a voz dela.

Isso doeu mais do que qualquer ameaça.

— Você tá escondendo coisa.

— Sim.

— E eu ainda tô aqui porque sou idiota.


— Não. — Mira virou o rosto para ela. — Você tá aqui porque ama alguém o suficiente para
atravessar o impossível.

A resposta a silenciou.

Mira estendeu a mão.

— Vem.

Helena olhou para aqueles dedos longos demais à luz vacilante. Ainda eram os dedos de
Lívia. Isso continuava ferindo de uma forma que talvez nunca deixasse de ferir.

Ela segurou.

O frio veio primeiro. Depois a sensação impossível de estar tocando algo que tinha textura
de pele e profundidade de água.

O espelho as engoliu sem esforço.

A travessia não parecia movimento. Parecia lembrança.

Helena teve a impressão de cair para dentro de milhares de versões ligeiramente erradas
do próprio corpo, do próprio rosto, do próprio medo. Viu reflexos de si mais velha, mais
jovem, chorando, sorrindo, sangrando, com os olhos vazios, com os lábios rachados, com
mãos que não eram suas. Ouviu risadas vindas de lugares impossíveis. Ouviu a própria voz
dizendo frases que nunca dissera.

Quando seus pés tocaram chão de novo, ela caiu de joelhos.

O lugar entre reflexos não tinha céu.

Ou tinha todos.

Acima delas, milhares de superfícies brilhavam como espelhos suspensos, cada uma
refletindo cenas diferentes: ruas vazias, quartos de hotel, salões de baile, corredores de
hospital, florestas que talvez nem existissem. O chão era negro e liso, como vidro escuro
sobre água profunda. A distância não obedecia a nenhuma lógica. Objetos surgiam mais
perto ou mais longe conforme o olhar insistia neles.

Helena respirou com dificuldade.

— Meu Deus.

— Não — disse Mira, observando ao redor com atenção tensa. — Aqui, não.

Então ouviu.

— Helena.

A voz de Lívia.
À esquerda.

Nítida. Viva. Desesperada.

Helena se virou no reflexo do impulso, mas Mira segurou seu pulso com força.

— Não.

— Solta.

— Não olha.

— É ela!

— Não do jeito que você pensa.

A voz veio de novo, agora atrás.

— Helena, por favor.

As lágrimas subiram aos olhos de Helena antes que pudesse impedi-las.

— Você mentiu pra mim.

— Não. Ela está aqui.

— Então me deixa ir até ela!

Mira a puxou para perto, firme, quase brutal.

— Se você seguir a primeira voz que encontrar, nunca mais volta.

Helena a encarou com ódio puro.

— E por que eu acreditaria em você agora?

Por um segundo, a forma de Mira vacilou.

O rosto de Lívia se rompeu como uma imagem perturbada na água. Sob ele, Helena viu
outra coisa. Alta demais. Elegante demais. Escura como vidro fumê e carne molhada de luz.
Membros longos, articulações erradas, um pescoço do qual surgiam reflexos de olhos que
abriam e fechavam em silêncio. A boca — se era uma boca — se alongava de forma
antinatural antes de voltar a ser o rosto roubado.

Helena recuou.

O medo veio total, primitivo.

Mira a soltou imediatamente, como se tivesse queimado a si mesma ao mostrar demais.


— Porque eu poderia ter deixado você acreditar no primeiro chamado — disse, a voz agora
mais baixa, mais áspera. — Porque monstros não costumam avisar quando a armadilha é
bonita.

Helena ainda tremia.

Atrás delas, vozes continuavam chamando. Vozes conhecidas. Vozes amadas. Vozes
impossíveis.

No meio daquele horror cintilante, ela percebeu duas coisas ao mesmo tempo.

A primeira: Mira era mais monstruosa do que imaginara.

A segunda: ainda assim, estava tentando protegê-la.

Capítulo 5 — O que nasce do que é negado


Encontraram Lívia numa galeria de reflexos parados.

Parecia uma rua inteira feita de espelhos de corpo inteiro, dispostos como postes ou
lápides, formando corredores estreitos por onde era preciso passar de lado. Em cada
superfície, uma versão de Lívia surgia em posição diferente: dormindo, correndo, ajoelhada,
chorando, olhando diretamente para Helena com um reconhecimento tão intenso que feria.

— Qual delas é real? — Helena perguntou, já sem forças para esconder o desespero.

Mira não respondeu de imediato.

O lugar distorcia sua forma de tempos em tempos. Às vezes o rosto de Lívia surgia
completo. Às vezes falhava em partes, revelando a silhueta negra por baixo.

— Nenhuma inteiramente — disse por fim. — Ainda.

Helena voltou-se para ela.

— Você disse que ela estava viva.

— E está.

— Isso não é viver.

Mira recebeu a acusação sem se defender.

Helena queria odiá-la com toda a clareza possível, mas o cansaço, o medo e a presença
multiplicada de Lívia diante de seus olhos tornavam tudo mais difícil, mais viscoso, menos
absoluto.

Ela aproximou-se de um dos espelhos.

No reflexo, Lívia ergueu a mão do outro lado.


Helena fez o mesmo.

As palmas se encontraram sobre o vidro.

Frio. Intransponível.

— Amor — a imagem sussurrou. — Me tira daqui.

Helena fechou os olhos com força.

Quando os abriu, sentiu Mira observando.

— Foi você que fez isso com ela.

— Sim.

— Por quê?

Dessa vez, Mira levou tempo demais para responder.

Quando falou, a voz não saiu com a mesma precisão serena de antes.

— Porque eu nasci dela.

Helena franziu a testa.

— Não.

— Não do corpo. Não da carne. — Mira desviou os olhos para a floresta infinita de
espelhos. — Daquilo que ela nunca viveu inteiro. Daquilo que ficou retido. Desejo, medo,
fome, raiva, ternura. Tudo que a lua de sangue puxa quando encontra rachadura suficiente.

Helena quis chamar aquilo de mentira confortável, de manipulação, de desculpa


monstruosa. Mas havia alguma coisa profundamente triste no modo como Mira dizia.

— Você quer que eu tenha pena?

— Não.

— Então para de falar como se fosse vítima.

Mira aceitou o golpe em silêncio.

— Eu não sou vítima — disse depois. — Só não sou simples.

Helena riu sem humor.

— Não, você com certeza não é simples.

Mira levantou o olhar. Pela primeira vez desde que surgira, pareceu cansada.
— Quando eu atravessei, eu tinha tudo dela em mim. Memórias, afetos, padrões. Eu sabia
como ela tocava você, como olhava você, o que amava em você, o que escondia de você. E
também sabia o que ela engolia. O que ela deixava morrer por medo de mostrar. Eu não
queria ser ela. Eu queria... — A frase falhou. — Eu queria entender como alguém podia
amar tão pouco de si mesma e ainda assim ser amada por inteiro.

Helena sentiu a raiva vacilar, não porque concordasse, mas porque reconhecia a ferida.

Lívia, com toda sua doçura, sempre guardara partes de si em quartos trancados. Medos
antigos. Vontades incompletas. Silêncios que nunca sabia atravessar.

Helena amava aquilo nela. E às vezes sofria por aquilo também.

— Isso não te dá o direito de tomar nada — sussurrou.

— Eu sei.

— Então por que não devolveu logo?

Mira fechou os olhos por um instante.

— Porque, quando eu estava no mundo, com você, eu não queria desaparecer.

O ar pareceu sair de dentro de Helena.

Ali estava.

Não a justificativa. Não a absolvição. A verdade feia, inteira, vergonhosa.

Mira havia mantido Lívia presa não por estratégia, nem por pura maldade, mas porque
desejara continuar existindo. Continuar sendo tocada pela luz, pela casa, pela voz de
Helena. Continuar ocupando um lugar que nunca lhe pertenceu.

Era horrível.

E terrivelmente humano.

Helena recuou um passo, como se precisasse se afastar daquela revelação.

— Você é egoísta.

Mira sorriu sem alegria.

— Muito.

— Cruel.

— Sim.

— Invasora.
— Também.

Helena ergueu o queixo, tentando se firmar na indignação.

— Então não espera que eu veja outra coisa.

Mira a encarou com uma tristeza quase insuportável.

— O problema é que você já vê.

Capítulo 6 — A fome, a culpa e o toque


Na volta do lugar entre reflexos, Helena mal conseguia se manter de pé.

A travessia a deixara gelada por dentro, como se tivesse respirado inverno demais. Mira a
ajudou a atravessar o espelho de volta ao banheiro com uma cautela que Helena, em
condições normais, teria rejeitado. Mas o corpo falhava, e ela precisou aceitar o braço firme
em volta de sua cintura.

Quando chegaram ao quarto, Mira tentou se afastar.

Helena segurou seu pulso.

O gesto pareceu surpreender as duas.

— Espera — disse, sentando-se na cama.

Mira ficou imóvel, o rosto de Lívia meio escondido pela penumbra.

— Você tá tremendo — observou.

— Você também.

Foi então que Helena percebeu: o controle de Mira estava pior. A pele vacilava em
pequenas distorções, como imagem mal sintonizada. Em certos ângulos, os contornos
pareciam se alongar. As unhas escureciam por um segundo antes de voltar ao normal. Os
olhos refletiam vermelho onde não havia luz suficiente.

— O que tá acontecendo com você?

Mira desviou o rosto.

— Nada.

— Mentira.

Silêncio.

— Ficar muito tempo no mundo custa — admitiu ela. — E trazer você até lá custou mais.

Helena a observou.
Aquela criatura, aquele monstro, estava se desfazendo diante dela com o rosto de sua
esposa. A visão era insuportável em mais de um sentido.

— Senta — disse.

Mira hesitou.

— Helena...

— Eu mandei sentar.

Ela obedeceu.

Sentou-se na ponta da cama, distante, como se temesse contaminar o colchão apenas por
existir. Helena percebeu o absurdo da delicadeza e odiou perceber também a dor por trás
dela.

Por um tempo, nenhuma falou.

Do lado de fora, a cidade seguia viva. Um carro passou. Alguém riu na rua. Uma televisão
distante deixou escapar o som abafado de um programa qualquer. O mundo continuava
normal demais para comportar o que havia entre aquelas quatro paredes.

— Se eu trouxer ela de volta — perguntou Helena, sem olhar diretamente —, você morre?

Mira não respondeu de imediato.

— Talvez.

Helena fechou os olhos.

Era isso que tornava tudo insuportável. Se Mira fosse apenas um predador vazio, a escolha
seria simples. Se destruí-la significasse apenas corrigir uma invasão, não haveria culpa, só
necessidade. Mas ela sentia. Temia. Queria. Escolhia. Havia um ser ali, por mais errado que
fosse seu nascimento.

— Eu odeio você — Helena sussurrou.

— Eu sei.

— Você tornou tudo impossível.

— Eu sei.

— Eu amo ela.

A resposta veio tão baixa que quase se perdeu.

— Eu sei.

Helena virou o rosto, então, e olhou para ela de verdade.


Mira sustentou o olhar.

Naquele instante, Helena entendeu por que sua raiva nunca permanecia limpa: porque a
criatura jamais pedia perdão de um jeito fácil, jamais tentava se fingir inocente. Ela sabia o
que havia feito. Sabia que era injustificável. E, ainda assim, estava ali com uma devoção
quieta que parecia tanto fome quanto fé.

— E você? — Helena perguntou, antes de conseguir se impedir. — O que você sente?

Mira engoliu em seco.

— Não diga meu nome se não quiser ouvir a resposta.

— Responde.

A criatura inspirou devagar.

— Tudo.

A palavra caiu entre elas como vidro.

— Eu sinto tudo de um jeito pior. Mais intenso. Mais cru. Eu sinto você entrar num cômodo
antes de olhar. Sinto quando sua respiração muda. Sinto quando você me odeia e quando
quase não odeia. Sinto falta de coisas que nem vivi direito. Sinto ciúme da mulher que me
deu forma. Sinto vergonha de desejar existir às custas dela. Sinto... — ela interrompeu a si
mesma, a voz falhando. — E isso não torna nada melhor. Só torna mais difícil.

Helena percebeu, tarde demais, que chorava.

Uma lágrima escorreu sem alarde. Mira a viu e fez um movimento instintivo, como se fosse
enxugá-la, mas parou no meio do gesto.

— Posso? — perguntou.

Helena deveria ter dito não.

Deveria ter se afastado, reafirmado fronteiras, lembrado a si mesma que aquele rosto não
era de quem o usava. Deveria ter guardado a própria dor longe da criatura que a havia
criado.

Em vez disso, ficou imóvel.

Mira encostou os dedos em seu rosto com uma delicadeza devastadora.

Frios.

Cuidadosos.

Helena fechou os olhos por um segundo.

Quando os abriu, a distância entre elas tinha diminuído sem que percebesse.
— Isso é errado — murmurou.

— Muito.

— Eu devia odiar você mais.

— Devia.

— E por que não consigo?

Mira a fitou com uma tristeza terna e monstruosa.

— Porque eu não sou só o que fiz.

Helena respirou fundo, trêmula.

Talvez tenha sido cansaço. Talvez medo. Talvez a fratura moral finalmente cedendo sob
peso demais.

Talvez tenha sido desejo.

Ela puxou Mira pela nuca e a beijou.

O corpo da criatura estremeceu inteiro.

Foi um beijo curto, brusco, cheio de raiva e culpa, e ainda assim diferente de qualquer beijo
que Helena já conhecera. Não porque fosse perfeito — não era —, mas porque havia nele a
vertigem insuportável do impossível. Um monstro usando a boca da mulher amada,
recebendo aquele gesto como se fosse uma bênção e uma condenação ao mesmo tempo.

Quando Helena se afastou, as duas respiravam com dificuldade.

Mira não tentou avançar. Não pediu mais.

Apenas a olhou com o rosto parcialmente falho, olhos escuros demais, e algo em sua
expressão parecia beirar o sagrado e o faminto.

— Agora eu sou imperdoável — Helena sussurrou.

Mira respondeu com honestidade cruel:

— Não. Agora você só está dentro disso comigo.

Capítulo 7 — A mulher no vidro


A próxima lua cheia veio pálida, sem sangue, mas suficiente.

Mira disse que a passagem estava estável pela primeira vez desde a ruptura. Que poderiam
trazer Lívia de volta naquela noite. Que depois disso nada permaneceria como estava.

Helena já sabia.
Nos dias que antecederam o ritual, o apartamento se tornou um lugar de delicadezas
tensas. Nenhuma mencionou o beijo. Nenhuma fingiu que ele não existira. A culpa se movia
pela casa como um terceiro corpo. Às vezes, ao cruzarem o corredor, os olhos se
encontravam e se desviavam rápido demais. Às vezes, demoravam demais.

Helena continuava querendo Lívia de volta com toda a violência do amor e da lealdade. E,
ao mesmo tempo, carregava dentro de si a consciência terrível de que também não queria a
morte de Mira.

Era isso que a destruía.

Chegaram ao lugar entre reflexos em silêncio.

A galeria de espelhos parecia mais estreita daquela vez, como se as superfícies soubessem
o que estava prestes a ser perdido. As versões de Lívia ainda pulsavam em cada vidro, mas
uma delas brilhava mais nítida ao fundo.

Mira parou.

— É ali.

Helena deu um passo.

— E o que eu faço?

— Puxa ela de volta quando eu abrir.

— E você?

Mira não respondeu.

Helena virou-se para encará-la.

— Mira.

A criatura sustentou seu olhar.

Pela primeira vez desde que surgira, não usava o rosto de Lívia por completo. A imagem
oscilava entre o familiar e o estranho. O verdadeiro contorno de seu corpo aparecia na
periferia da visão: longo, escuro, belo de uma forma errada, quase régia. Os olhos múltiplos
abriam e fechavam lentamente na clavícula e no pescoço, como se também aguardassem.

— Você vai morrer? — Helena insistiu.

Mira sorriu de leve.

— Você sempre faz essa pergunta como se quisesse outra resposta.

— Porque eu quero.

A criatura se aproximou.
Não muito. O suficiente para que Helena sentisse o frio conhecido.

— Eu não sei o que vou me tornar sem o que peguei dela — disse Mira. — Talvez eu
desfaça. Talvez eu fique menos. Talvez eu permaneça, mas longe do seu mundo.

— Eu não aceito talvez.

— Eu sei.

Helena sentiu a raiva subir, mas ela já vinha misturada a coisas demais.

— Você fez eu me apaixonar por um problema impossível.

Mira a olhou com uma dor tão aberta que por um instante pareceu mais vulnerável do que
monstruosa.

— Não. Eu me tornei alguém no caminho e isso aconteceu com você olhando.

Antes que Helena pudesse responder, o vidro no fim da galeria começou a vibrar.

A imagem de Lívia pressionou as duas mãos contra a superfície e gritou o nome de Helena.

O som partiu alguma coisa nela.

Mira ergueu o braço.

A forma monstruosa surgiu por inteiro, arrancando-se do molde humano como noite líquida.
Os membros se estenderam, a pele tornou-se reflexiva como obsidiana molhada, os olhos
multiplicaram-se e a boca se abriu num desenho impossível. O lugar entre reflexos reagiu
com um lamento de vidro.

Helena sentiu medo.

Mesmo agora.

Talvez para sempre.

Mira lançou uma das mãos contra o espelho e a superfície rachou em linhas vermelhas de
luz.

— Agora! — rugiu, com uma voz que não cabia em garganta humana.

Helena correu.

O vidro rompeu-se como água sólida.

Do outro lado, Lívia caiu em seus braços.

Pesada. Quente. Real.


Helena segurou-a com força, lágrimas escorrendo sem qualquer controle, sentindo o rosto,
os cabelos, o cheiro familiar, o coração disparado contra o próprio peito.

— Lívia. Meu Deus. Lívia.

Ela estava chorando também, confusa, respirando em soluços.

— Helena? Helena, o que... o que aconteceu?

Atrás delas, o lugar começou a desabar.

Os espelhos rachavam um a um. A galeria inteira desmanchava-se em fragmentos de luz e


sombra.

Helena virou-se.

Mira ainda sustentava a abertura com o corpo monstruoso atravessado de fissuras


luminosas. Partes dela se desprendiam como estilhaços de vidro negro.

— Vem! — Helena gritou.

A criatura a olhou.

Havia ternura até naquela forma impossível.

— Ela precisa de você inteira — disse.

— Mira!

Pela primeira vez, o nome soou como súplica.

Os olhos múltiplos se fecharam lentamente, um a um.

— Foi a primeira coisa que foi minha — ela murmurou.

Então sorriu.

Um sorriso pequeno, triste, quase humano.

E soltou.

O corredor inteiro implodiu em luz.

Helena puxou Lívia e se lançou de volta pela passagem.

O espelho do banheiro se partiu atrás delas com um estrondo seco.

Quando o silêncio enfim caiu, restavam apenas cacos espalhados pelo chão e o reflexo
quebrado de duas mulheres abraçadas, vivas, ofegantes, devastadas.

Mira tinha desaparecido.


Capítulo 8 — O que permanece
Lívia voltou.

Fisicamente, estava intacta. Sem cortes, sem marcas, sem qualquer prova visível do tempo
que passara entre reflexos. Mas algo nela havia mudado. Não de forma monstruosa — não
como Helena temera em algum canto secreto de si —, e sim como quem retorna de uma
febre longa sabendo mais sobre si do que gostaria.

Nas semanas seguintes, elas reaprenderam a casa.

O sofá. A cozinha. A cama. Os horários. As pequenas rotinas. Tudo parecia familiar e, ao


mesmo tempo, deslocado. Como se o apartamento lembrasse que outra presença havia
cruzado aqueles cômodos e deixado vestígios difíceis de apagar.

Lívia não se lembrava de tudo com clareza. Havia fragmentos. Sensações. A impressão de
estar presa em muitas versões de si, ouvindo pensamentos antigos ecoarem sem parar. A
consciência dolorosa de partes da própria alma sendo olhadas por fora.

Helena não contou tudo de imediato.

Como contar?

Como dizer que trouxe a mulher amada de volta com ajuda da criatura que a substituíra?
Como confessar que a odiou, desejou, nomeou, beijou? Como pôr em palavras algo que
nem ela mesma conseguia organizar sem sentir vergonha, luto e uma saudade impossível
ao mesmo tempo?

O silêncio cresceu entre as duas até se tornar outro tipo de perigo.

Foi numa tarde chuvosa que Lívia enfim perguntou:

— Tem alguma coisa em você que não voltou comigo.

Helena estava na cozinha. A faca em sua mão parou no meio do corte.

— O que quer dizer?

Lívia aproximou-se devagar.

Havia mais firmeza nela agora. Mais inteireza. Como se o tempo entre reflexos tivesse
arrancado suas camadas mais defensivas e devolvido uma versão mais honesta, ainda
ferida, ainda assustada, mas menos escondida.

— Eu sinto — disse. — Como se alguém tivesse estado aqui no meu lugar. Não só na casa.
Em você.

Helena fechou os olhos.

Por um momento, pensou em mentir.


Mas mentira era o tipo de rachadura que já custara demais às duas.

Então contou.

Não todos os detalhes de uma vez, mas o suficiente. A manhã em que percebeu. O horror.
O pacto. O nome. O lugar entre reflexos. A escolha. O desaparecimento de Mira.

Lívia ouviu tudo sentada à mesa, sem interromper.

Quando Helena terminou, a chuva parecia mais forte lá fora.

— Você se apaixonou por ela? — perguntou Lívia, por fim.

Era a pior pergunta.

E talvez justamente por isso merecesse a verdade.

Helena demorou a responder.

— Eu não sei se essa é a palavra inteira — disse, a voz fraca. — Mas eu... senti alguma
coisa. Sinto ainda. E odeio isso. E também não odeio. E isso me faz sentir uma pessoa
horrível.

Lívia ficou em silêncio.

Helena mal conseguia respirar.

— Você quer que eu vá embora? — perguntou, quase num sussurro.

Lívia ergueu os olhos.

E, para espanto de Helena, não havia ali apenas dor. Havia dor, sim. Havia confusão. Havia
ciúme e luto e o choque inevitável de tudo aquilo. Mas também havia compreensão de um
tipo difícil, amargo, adulto.

— Não — respondeu.

Helena piscou, surpresa.

Lívia baixou o olhar para as próprias mãos.

— Lá dentro... entre os reflexos... eu sentia coisas. Partes minhas que eu nunca deixava
existir direito. Medos. Raiva. Desejos. Fome de ser mais do que eu deixava você ver. —
Sua voz falhou brevemente. — Acho que ela nasceu disso também. Não foi só um monstro
vindo de fora.

Helena se aproximou devagar.

— Isso não apaga o que ela fez.


— Eu sei. — Lívia respirou fundo. — Mas talvez explique por que dói como se eu tivesse
perdido alguém que eu nunca conheci e, ao mesmo tempo, conheci demais.

As duas choraram naquele dia.

Não uma pela outra apenas, mas pela terceira ausência sentada com elas à mesa. Pela
criatura que havia sido roubo, tentação, erro, espelho e pessoa ao mesmo tempo. Pela
violência do que aconteceu. Pela intimidade torta que nascera no meio da catástrofe. Pelo
fato de que algumas perdas não se encaixam em categorias confortáveis.

Os meses passaram.

A vida voltou em pedaços.

Lívia tornou-se mais direta, mais inteira, mais capaz de dizer o que queria sem encolher.
Helena aprendeu a escutar sem tentar preencher todos os silêncios. O amor delas mudou.
Ficou menos automático, mais consciente, talvez menos inocente, mas mais verdadeiro.

E ainda assim, certas noites permaneciam difíceis.

Em algumas, Helena acordava e ia até o banheiro beber água. Parava diante do espelho
rachado que nunca tiveram coragem de substituir. Olhava o próprio rosto cansado, a
sombra da casa atrás de si, e por um segundo sentia o ar mudar.

Numa dessas noites, já perto do amanhecer, percebeu algo no reflexo.

Não atrás dela.

Dentro do vidro.

Uma silhueta alta, elegante, escura como obsidiana sob água. Os olhos multiplicados
abrindo-se devagar na clavícula. O contorno da boca esboçando aquele pequeno sorriso
triste que ela conhecia bem demais.

Helena não se virou.

Sabia, sem saber como, que se o fizesse não haveria nada ali.

Permaneceu olhando o reflexo.

— Mira? — sussurrou.

A figura ergueu uma mão contra o vidro rachado.

Helena fez o mesmo.

As palmas não se tocaram. Havia apenas a superfície fria entre elas.

Ainda assim, algo passou.

Não uma promessa. Não uma despedida completa. Talvez só reconhecimento.


Quando piscou, a imagem havia sumido.

Helena ficou sozinha diante do espelho, o coração apertado de um jeito antigo e impossível
de explicar.

Voltou para o quarto.

Lívia dormia de lado, o rosto sereno na penumbra. Helena deitou-se junto dela, sentiu o
calor familiar, o peso conhecido, a respiração humana e falha e preciosa.

Fechou os olhos.

Lá fora, a lua já não era vermelha.

Mas algumas noites, ela sabia, não terminam de verdade.

Elas apenas aprendem a viver em silêncio dentro daquilo que sobra.

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