02 Eu
02 Eu
37
revisits the past and historical events such as the witch hunt
in Salem, Massachusetts. To the combine fiction and history,
Condé’s novel reveals the impact of slavery on the identity
formation of enslaved Black people.
Keywords: Neo-slaves narratives. Identity. Diasporic
Subject. I Tituba, Black Witch of Salem. Maryse Condé.
[Link]
ARTIGO/DOSSIÊ
38
linguagem e sofrimento. Tudo isso demonstra que Beloved (1987) não
deve ser entendido somente como um romance sobre a escravidão,
mas sim como uma obra que aborda as possibilidades e limites do
amor em meio a um cenário de extrema violência. A mera abstração
da vida humana em dados, números e estatísticas é implodida por
meio da potente escrita de Morrison, e os mortos ganham corpo e voz
por meio de algo tecnicamente impossível: o amor.
A escritora afro-americana demonstra que as memórias,
lembranças, rastros e vestígios presentes nesse arquivo são o
subsolo de sua obra. Para ela, a “memória é sempre fresca, apesar
do fato de o objeto relembrado não mais existir” (Morrison,
2020, p. 418). O arquivo da escravidão é marcado por lacunas e
silêncios, entretanto, isso não interfere na sobrevivência daquilo
que foi guardado pelo arquivista. Apesar disso, sempre corremos
o risco de estar violentando algo porque esse arquivo é composto,
em sua maioria, por registros de venda, balanços contábeis de
mercadorias, inventários, listas de corpos vivos, enfermos e mortos,
[Link]
ARTIGO/DOSSIÊ
39
A escravidão e os artifícios a ela relacionados demonstram
a crença fundamental de que qualquer coisa é possível, já que ela
atingiu o ápice – até então inimaginável – de degradação e atrocidades
com relação aos seres humanos. Não devemos pensar esse sistema
somente como símbolo do horror e crueldade que marcaram a
História. Ele representa a administração dos corpos e a gestão da
vida, bem como a experiência de total desproteção dos indivíduos de
qualquer estatuto político que assegure direitos básicos. Por isso, o
“arquivo da escravidão repousa sobre uma violência fundadora. Essa
violência determina, regula e organiza os tipos de afirmações que
podem ser formuladas sobre a escravidão e também cria sujeitos e
objetos de poder” (Hartman, 2020, p. 27). A economia pautada pelo
roubo e o poder sobre a vida foi crucial para definirem o tráfico
negreiro, pois fabricou, ao mesmo tempo, mercadorias e cadáveres.
À luz disso, Saidiya Hartman (2020, p. 15) afirma que a “raça
estabelecia uma hierarquia da vida humana, determinando quais
pessoas eram descartáveis e selecionando os corpos que poderiam
[Link]
ARTIGO/DOSSIÊ
40
sobre as pessoas catalogadas, embalsamadas e lacradas numa caixa
de pastas e fólios”. A História tende a ser fiel aos limites dos fatos,
das evidências e do arquivo, “ainda que tais certezas mortas sejam
produzidas pelo terror” (Hartman, 2020, p. 25). A teórica aponta
para a necessidade de escrevermos uma nova história que não fosse
limitada pelos constrangimentos dos documentos legais e pudesse
ir além da “reiteração e das transposições que constituíram minha
estratégia para desordenar e transgredir os protocolos do arquivo e
a autoridade de suas afirmações e que me permitiram aumentar e
intensificar suas ficções” (Hartman, 2020, p. 26).
A procura por um modo estético apropriado para retratar a vida
dos espoliados desloca do texto o seu prazer meramente especulativo
para uma atitude política que se concretiza na maneira como a escrita
vasculha e se apropria dessas vivências. Saidiya Hartman (2020) nos
mostra que a violência é um traço constituinte do registro da vida de
homens e mulheres escravizados, tornando uma tarefa árdua exceder
ou negociar os limites constitutivos do arquivo da escravidão. A
[Link]
ARTIGO/DOSSIÊ
41
de ultrapassar os limites ditados pelo arquivo daquilo que pode ser
dito, visto que ela “depende dos registros legais, dos diários dos
cirurgiões, dos livros de contabilidade, dos manifestos de carga dos
navios e dos diários de bordo” (Hartman, 2020, p. 30). E é justamente
neste aspecto que ela hesita frente ao silêncio do arquivo e acaba
reproduzindo suas omissões. A violência do tráfico de escravizados
reside precisamente em todas as histórias a que não temos acesso
na contemporaneidade e que jamais poderão ser recuperadas. Esses
obstáculos constituem os parâmetros do trabalho de intelectuais
da diáspora negra para reconstruir o passado e descrever de
maneira oblíqua as formas de violência autorizadas. Procurar por
rastros, vestígios e até mesmo vislumbres de vidas silenciadas nos
desafia a narrá-las sem reproduzir as violências que as vitimaram.
Esse exercício imaginativo torna-se necessário face ao arquivo da
escravidão, pois “abre possibilidades imaginativas e especulativas
que exigem um outro modo de fazer e escrever a história das pessoas
escravizadas” (Silva e Sousa, 2020, p. 446-447).
[Link]
ARTIGO/DOSSIÊ
42
As neonarrativas da escravidão mesclam fatos e ficção e utilizam
em sua composição estratégias narrativas pós-modernas como
a paródia, a ironia e a intertextualidade. Além disso, combinam
gêneros literários (romance, poesia, ensaio, teatro), mídias (texto,
imagem, som, performance) e elementos como a oralidade,
fabulação e a revisitação de documentos históricos, criando assim
uma escrita notadamente híbrida e até mesmo experimental, que
pode ser lida como uma estratégia estética e política.
Muitas dessas obras se movem entre o arquivo histórico e a
fabulação, pois buscam preencher lacunas, desafiar as verdades
tidas como oficiais e imaginar vidas que foram silenciadas. Nesse
sentido, é válido retomar o pensamento de Saidiya Hartman, que
estabelece o relevante conceito/método de fabulação crítica. A
fábula denota os elementos fundamentais da história, os blocos e a
construção da narrativa. A fabulação crítica joga com os elementos
da história para rearranjá-los, “re-apresentando a sequência de
eventos em histórias divergentes e de pontos de vista em disputa”.
[Link]
ARTIGO/DOSSIÊ
43
e que tece presente, passado e futuro, recontando a história
[...] e narrando o tempo da escravidão como o nosso presente”
(Hartman, 2020, p. 29).
Nos Estados Unidos e no Reino Unido, os relatos de ex-escravizados
escritos em primeira pessoa constituem um corpus literário de grande
importância histórica. As narrativas de escravos surgiram durante
o período da escravidão, sendo que essa vasta produção literária
consiste em textos de cunho (auto)biográfico de indivíduos como
Frederick Douglass e Harriet Jacobs, que conseguiram alcançar a
liberdade. A publicação do livro The Interesting Narrative of the Life of
Olaudah Equiano, or Gustavus Vassa, the African, Written by Himself,
de Olaudah Equiano, marca o início de uma série de publicações de
autobiografias, lembranças, memórias. Essas narrativas são uma
forma de testemunho, pois denotam o engajamento e o desejo de
seus escritores em transformar a realidade em que vivem. Diz Olaudah
Equiano: “Eu escrevo este para persuadir outras pessoas – você, o
leitor que provavelmente não é negro, que somos seres humanos
[Link]
ARTIGO/DOSSIÊ
44
Tradition. Segundo o autor, as neonarrativas da escravidão são
“narrativas modernas, residualmente orais, da fuga da escravidão
para a liberdade, que combinam elementos de fábula, lenda e
narrativa de escravos para protestar contra o racismo e justificar
os feitos, as lutas, migrações e o espírito dos negros” (Bell, 1987,
p. 289). Assim, as neonarrativas da escravidão se ambientam no
período escravagista e guardam traços das slaves narratives, como a
oralidade. As particularidades apresentadas por Bernard Bell em seu
estudo seminal constituem-se como uma relevante estrutura teórica
em virtude do empenho em delimitar as características essenciais que
caracterizam as neonarrativas da escravidão.
Ashraf Rushdy (1999), em Neo-Slave Narrative, chama atenção
para as características dessas obras, como o uso da primeira pessoa, a
linguagem utilizada pelos escravizados e suas transformações à medida
que aprendiam a língua do país que passaram a habitar. Para Rushdy
(1999), há três subgêneros de neonarrativas: o primeiro deles consiste
nas narrativas que se baseiam nos relatos de pessoas escravizadas
[Link]
ARTIGO/DOSSIÊ
45
determinada cultura, que evidenciam as relações de poder
socialmente instituídas. Por isso, um acontecimentos histórico não
poderia ser descrito completamente, por possuir muitos eventos
interiores, o que torna quase impossível a tarefa de conhecê-lo de
forma completa. A atitude revisionista é algo fundamental para os
grupos tidos como subalternos, pois as neonarrativas da escravidão
dão voz a personagens silenciados e promove “uma reavaliação
crítica, um diálogo irônico com o passado da arte e da sociedade”
(Hutcheon, 1991, p. 20), além de permitirem a construção de novos
espaços enunciativos, já que permitem romper o silenciamento
imposto por discursos hegemônicos.
No ensaio “A representação do sujeito diaspórico em O livro dos
negros, de Lawrence Hill”, a professora e pesquisadora Shirley de
Souza Gomes Carreira (2021) destaca que houve uma espécie de boom
das neonarrativas de escravidão, que passam a não se restringirem ao
contexto afro-americano e aos países de língua inglesa. As obras se
expandiram e adotaram novos formatos e abordagens diferenciadas,
[Link]
ARTIGO/DOSSIÊ
46
Tituba, protagonista do romance Eu Tituba: bruxa negra de
Salem, é um sujeito diaspórico e se encontra desenraizada devido
as suas vivências de trânsito e deslocamentos. Por isso, partimos
da hipótese de que Tituba se encontra num espaço liminar entre
diferentes culturas, identidades, nações e temporalidades, pois sua
identidade é construída e (re)negociada em espaços fronteiriços.
Devido a esse fato, seu percurso diaspórico pode ser associado ao
espaço transnacional do Atlântico Negro e das zonas de contato
culturais. A necessidade de Tituba de reconfigurar sua identidade
evidencia que a mesma habita cotidianamente o espaço do
entrelugar. Viver na fronteira é estar inserido simultaneamente
em diferentes espacialidades e temporalidades no presente da
vida cotidiana; não é viver a partir de um princípio (origem como
destino fatal), nem visando a um fim como futuro previsível, numa
linearidade progressiva e evolutiva sem contratempos em que uma
etapa substituiria a outra.
O lugar enunciativo de Tituba é a fronteira, ou mais precisamente,
[Link]
ARTIGO/DOSSIÊ
47
Ocupar o lugar da fronteira permite ao sujeito diaspórico
exercer a capacidade de articular diferentes valores culturais. Ao
longo do romance condeniano, podemos observar que a voz da
narradora expressa o não pertencimento cultural e territorial e isso
exige continuamente que a personagem (re)articule sua cultura e
identidade. Viver na fronteira é visto como uma espécie de privilégio,
por permitir que Tituba veja todas as direções da existência, bem
como possibilita o contato com o novo. Com base nisso, podemos
afirmar que a protagonista de Eu Tituba: bruxa negra de Salem
detém uma identidade fronteiriça que expressa o habitar cotidiano
do entrelugar entre fronteiras. O caráter híbrido e multicultural
que sua identidade possui não é o fruto de uma simples adaptação
ou apropriação cultural, mas das constantes negociações com a
diferença. O espaço do entrelugar produz um hibridismo cultural
que acolhe a diferença sem o estabelecimento de uma hierarquia.
Dessa forma, podemos comprovar que o entrelugar é um espaço
de criação, de ressignificação e intervenção no qual há sempre
[Link]
ARTIGO/DOSSIÊ
48
ato bárbaro descrito pela protagonista marca o Atlântico como um
espaço intersticial e cultural da diáspora africana. Assim, o Atlântico
Negro torna-se uma referência espacial para os fluxos entre culturas e
pessoas que cruzaram o oceano durante a colonização (Gilroy, 1993).
A mãe de Tituba acreditava que múltiplas tempestades se
“acumularam ao longo de sua vida: seu vilarejo incendiado, seus
pais estripados ao tentar se defender, sua violação e agora, a
separação brutal de um ser tão doce e tão desesperado quanto
ela mesma” (Condé, 2020, p. 27). Esses diferentes abusos sofridos
pela personagem confirmam que o “lar também pode ser um local
onde o corpo da mulher é alvo de violência, violência que muitas
vezes existe antes do deslocamento diaspórico e continua no novo
‘lar’” (Harris, 2009, p. 42). As diferentes experiências traumáticas
vivenciadas por Abena produziram um sentimento paradoxal, já
que ela não poderia deixar a tristeza e a angústia a consumirem,
mas havia sua filha que lhe lembrava diariamente das violências
sofridas. Tituba sempre fazia sua mãe rememorar o homem branco
[Link]
ARTIGO/DOSSIÊ
49
tal delito, eram severamente punidos, uma vez que predominava o
entendimento de que uma pessoa negra jamais poderia se voltar
contra o seu “senhor”. Com isso, a punição de Abena tornou-se um
espetáculo ao qual todos deveriam comparecer, pois era necessário
reafirmar quem detinha o poder e que qualquer transgressão seria
duramente punida. Yao, pai adotivo de Tituba, também foi punido
após o “delito” cometido por sua companheira. Darnell o “vendeu a
um fazendeiro de nome John Inglewood que vivia do outro lado dos
montes de Hillaby. Yao jamais chegou a esse destino. No caminho,
ele conseguiu se matar engolindo a própria língua” (Condé, 2020, p.
31). Logo após ser privada de conviver com sua família, Tituba foi
expulsa da plantação de Darnell.
Se não fosse pela solidariedade entre as pessoas escravizadas, ela
teria provavelmente morrido em pouco tempo. Uma mulher idosa a
acolheu; ela não “era uma axanti como minha mãe e Yao, mas uma
nagô, da costa, cujo nome, Yetunde, sofre uma transformação para
o crioulo, Man Yaya. As pessoas tinham medo dela. Mas vinham de
[Link]
ARTIGO/DOSSIÊ
50
acabou vendendo todas as suas terras e os escravos e retornou
para a Inglaterra. Com isso, a personagem escolheu um local nas
“margens do rio Ormonde, onde ninguém jamais ia, porque a terra
era pantanosa e pouco propícia para o cultivo de cana. Construí
sozinha, com a força dos meus punhos, uma cabana que consegui
empoleirar sobre estacas. Pacientemente, cerquei um pedaço
de terra” e delimitei um “jardim onde logo cresceriam toda sorte
de plantas que eu pudesse enfiar na terra para os meus rituais,
respeitando as vontades do sol e do ar”. Essas simples conquistas
foram os momentos de maior felicidade de sua vida: “[...] eu nunca
estava sozinha, porque meus invisíveis estavam ao meu redor,
sem jamais, no entanto, me oprimir com sua presença. [...] Eu estava
longe dos homens e, principalmente, dos homens brancos. Eu era feliz.
Pobre de mim!, tudo isso mudaria!” (Condé, 2020, p. 34-35). Mas viver
com Man Yaya na floresta, longe do convívio social e da agitação da
cidade, tem um preço alto, pois elas eram vistas como estranhas que
detinham poderes sobrenaturais.
[Link]
ARTIGO/DOSSIÊ
51
que se esperavam de uma mulher. Por isso, é relevante retomar as
palavras de Judith Butler, segundo as quais aqueles que falham em
performar de maneira correta o seu gênero são punidos, podendo o
mesmo ser dito com relação à etnia, já que, “os autores dos gêneros
entram em um transe de suas próprias ficções, e por meio dele, os
processos de construção impulsionam a crença na sua necessidade
e natureza” (Butler, 2019, p. 217).
O contato da personagem com esse epíteto ocorre somente
quando ela se encontra pela primeira vez com John Indien. Ser
chamada de bruxa provoca um misto de sentimentos em Tituba,
fazendo-a questionar o que estaria por trás dessa tão temida figura. A
palavra bruxa estava manchada de degradação, ódio e medo: “Como é
isso? Como? A faculdade de se comunicar com os invisíveis, de manter
um laço constante com os finados, de cuidar, de curar, não era uma
graça superior da natureza a inspirar respeito, admiração e gratidão?”.
A bruxa, se assim desejam “nomear aquela que possui essa graça, não
deveria ser adulada e reverenciada em vez de ser temida? Toda essa
[Link]
ARTIGO/DOSSIÊ
52
da vida que levava para alcançar algo que ela mesma almejava com
grande interesse. Habitar cotidianamente esse “novo” ambiente
reforça aquilo que ela aprendeu desde sua infância: a escravidão
era uma prática abusiva, cruel e desumana. Tituba percebe que sua
presença naquela casa era um incômodo que atrapalhava a ordem
local. A comunidade passa a “questionar Susanna Endicott acerca
da presença de Tituba em sua casa, como se a própria Tituba não
estivesse ali, dizendo à senhora que ela dava muita liberdade aos
seus negros e que devia providenciar o casamento dos dois”. A
protagonista sente a “invasão não somente à sua privacidade, mas à
sua existência entre aquelas pessoas” (Corrêa, 2014, p. 146), pois ela
era um não ser; alguém invisível. Mais “invisível que os invisíveis, pois
eles ao menos detinham um poder que todos temiam. Tituba, Tituba
não tinha mais que a realidade que aquelas mulheres queriam lhe
conceder. Era atroz. Tituba se tornava feia, grosseira, inferior porque
elas assim tinham decidido” (Condé, 2020, p. 51-52). Isso comprova a
certeza de que conviver com a Sra. Endicott não lhe faria bem devido
[Link]
ARTIGO/DOSSIÊ
53
separada de John Indien se afirmasse não ser uma escrava de
Susanna Endicott. Nas palavras da narradora-personagem, “Susanna
Endicott tinha mesmo excelência em sua crueldade; entre nós duas,
quem era a mais cruel? Afinal, a doença e a morte são inscritas na
existência humana e talvez eu apenas tenha precipitado sua irrupção
na vida de Susanna Endicott. Mas ela, o que ela faria dos meus dias?”
(Condé, 2020, p. 65-65). John Indien até tentou fazer com que sua
proprietária mudasse de ideia, mas ela estava inflexível, pois suas
ações tinham um alvo certo: prejudicar Tituba. Ela entendeu o
“plano horrível de Susanna Endicott. Era a mim, e somente a mim,
que ela mirava. Era a mim que ela queria exilar na América. A mim
que ela separava da minha terra natal, daqueles que eu amava e
cuja companhia me era necessária” (Condé, 2020, p. 65).
Tornar-se novamente uma mulher escravizada fez com que
ela vivenciasse mais uma vez a experiência de deslocar-se rumo a
uma nova terra. A ligação com a sua terra natal é cortada de forma
repentina e Tituba rapidamente vê-se inserida num país estranho,
1 No original: “A full migrant suffers. Traditionally, a triple disruption: he loses his place,
he enters into an alien language, and he finds himself surrounded by beings whose social
behavior and codes are very unlike, and sometimes even offensive to, his own” (Rushdie,
1991, p. 277-278).
[Link]
ARTIGO/DOSSIÊ
54
As rupturas vivenciadas pela narradora-personagem suscitam um
sentimento de desconfiança, todavia retornar para a terra natal não
é uma opção viável. Devido a essa impossibilidade de retornar, acaba
gerando uma fratura entre o indivíduo e sua terra natal. A viagem
para os Estados Unidos é descrita detalhadamente por Tituba.
Sua narração descreve a chegada ao porto com a família Parris, o
contato com a esposa do reverendo e sua filha e sobrinha, a relação
afetuosa que ela começou a desenvolver com a pequena Betty. Desde
a chegada aos Estados Unidos, eles vivem por cerca de um ano em
Boston, enquanto Samuel aguardava ansiosamente pela concessão de
uma paróquia pelos puritanos.
Como as propostas demoravam a chegar, todos passaram por
grandes dificuldades devido à escassez de recursos e dinheiro. Para
Tituba, essa demora se devia à personalidade cruel de Parris, que
acreditava que o mal estava presente em todas as coisas. Por mais
“fanáticos e sombrios que fossem aqueles que compartilhavam de
sua fé, ainda assim, eram menos do que ele, com sua alta figura
[Link]
ARTIGO/DOSSIÊ
55
Em seguida, dá-se início a uma série de comportamentos estranhos,
vistos como sobrenaturais, por parte das garotas do vilarejo. Neste
caso, “o real e o sobrenatural passam a ser vistos no mesmo plano
e a questão da dúvida passa a ter o mesmo valor da acusação,
pelo menos quando se menciona que as garotas poderiam estar
enfeitiçadas e, neste caso, alguém seria culpado por isso” (Corrêa,
2014, p. 149). Apesar de se manter com essas garotas, Tituba negou
que fosse uma bruxa porque sabia que as pessoas de Salem a
condenariam pela menor suspeita de delito. Quando os ministros da
paróquia se reuniram, ela sabia que seria o alvo perfeito.
Além da acusação de bruxaria, Tituba é torturada e estuprada
para confessar seus crimes. A crueldade e a violência das ações dos
puritanos permitem a Tituba inferir que os sofrimentos vivenciados
eram possivelmente decorrentes do fato de ela ter abandonado
a relativa segurança de sua terra natal pelo amor de John Indien.
A consciência desse erro não traz arrependimento por parte da
narradora-personagem, visto que ela se encontra numa situação
[Link]
ARTIGO/DOSSIÊ
56
praticar bruxaria, opta por se comportar da forma que os puritanos
esperavam, acusando qualquer pessoa para que conseguisse salvar
sua própria vida. Entretanto, essa prática não pode ser vista como
uma assimilação cultural, pois seus atos se situam no espaço entre a
mímica e o arremedo.
Os julgamentos marcam um momento de grande efervescência
em Salem. Com as primeiras acusações de bruxaria, instaurou-se um
clima persecutório por toda a região, que levou em torno de vinte
pessoas para a forca e outros incontáveis para as prisões. Grande
parte das acusações ocorridas nesse período eram de pessoas que
se conheciam e ocultavam os reais objetivos por trás de tantas
acusações. Apesar da ausência da legalidade durante o processo,
Tituba sobrevive ao julgamento, mas passa um longo período presa,
durante o qual precisou trabalhar de maneira árdua para ressarcir os
custos do cárcere.
Em maio de 1693, todo o caos instaurado é interrompido em
virtude do perdão geral dado pelo governador. As portas da “prisão
[Link]
ARTIGO/DOSSIÊ
57
visto como um estranho pela sociedade puritana em razão das suas
origens e história de vida. Por compartilharem a mesma exclusão,
ambos se compadecem e acabam se envolvendo romanticamente.
O desenrolar desse relacionamento coloca Tituba em uma situação
jamais experimentada: estranha situação de ser, ao mesmo tempo,
senhora e escravizada.
Apesar de se sentir feliz na nova casa, Tituba permanecia com
a sensação de que algo terrível aconteceria em breve. De fato, ela
estava certa, pois, em uma represália contra a presença de judeus
em Salem, a casa de Benjamim foi incendiada e seus filhos faleceram.
Traumatizado por essa situação, ele libertou Tituba e decidiu partir
para Rhode Island, onde amigos o aguardavam. A liberdade recém-
adquirida simboliza a chance que Tituba tinha de rever novamente
as belezas da região onde nasceu. Mas a necessidade de tornar a
terra natal mostra que nem sempre será marcada pela nostalgia
do retorno (Almeida, 2015). No caso de Tituba, ela é marcada por
grande alegria e expectativa. A viagem de volta não foi simples como
[Link]
ARTIGO/DOSSIÊ
58
em torno da enorme silhueta de uma catedral. Nas
ruas, corria uma água barrenta na qual pisoteavam
animais e pessoas. Sem dúvida um navio negreiro
acabara de lançar âncora, pois, debaixo do toldo de
palha de um mercado, ingleses, homens e mulheres,
examinavam os dentes, a língua e o sexo dos boçais,
que tremiam de humilhação. Que cidade feia, a
minha! Pequena. Mesquinha. Um posto colonial
sem envergadura, com todo o fedor do lucro e do
sofrimento. (Condé, 2020, p. 203-204)
[Link]
ARTIGO/DOSSIÊ
59
maneira segura. Nesse ínterim, Tituba acaba ajudando Iphigene, um
jovem escravizado e açoitado à beira da morte. Com seus cuidados,
ele logo recobrou os sentidos e, posteriormente, veio a lhe pedir ajuda,
mesmo que, de alguma forma, na luta pela libertação da população
negra. Qualquer forma de auxílio implicaria no fato de que Tituba
precisaria se reencontrar com Christopher. Ela é aconselhada por Man
Yaya, Abena e Yao de que o confronto que eles planejavam não daria
o resultado esperado:
Alguma coisa em sua me indicava que eu ficasse
atenta, e eu disse secamente: – Bom, e como tudo
isso terminou? Ele se pôs a enrolar um cigarro de
folhas de tabaco, como se procurasse ganhar tempo,
depois me olhou bem na cara: – Com sangue, como
termina sempre. O tempo da nossa libertação não
chegou. Perguntei com um grito rouco: – E quando
vai chegar? Quanto sangue ainda, e por quê? Os três
espíritos permaneceram em silêncio como se mais
uma vez eu quisesse violar as regras e mergulhá-los
em desconforto. Yao retomou: – Será necessário que
nossa memória seja inundada de sangue. Que nossas
[Link]
ARTIGO/DOSSIÊ
60
foram revistadas e os escravizados, que inspiravam dúvida” (Condé,
2020, p. 241), foram postos debaixo de alguma mafumeira. Depois,
“baionetas na bunda, empurraram toda essa gente para uma vasta
clareira onde dezenas de forças tinham sido erguidas” (Condé, 2020,
p. 241). Tituba foi uma das últimas pessoas a serem executadas:
“Errim percorreu a cena de execuções. Ele veio até mim e disse com
desprezo: – Muito bem, bruxa! Você que a deveria ter conhecido em
Salem, vai conhecê-la aqui! E vai encontrar suas irmãs que partiram
antes de você. Tenha um bom sabá!” (Condé, 2020, p. 241). Tituba
sabia que não havia o que falar e aguardou sua morte com calma.
A morte física de Tituba permite seu renascimento no plano
espiritual. No epílogo de sua narrativa, a personagem afirma que
sua história não terá um fim, pois teve a possibilidade de escolher
uma descendente por morrer sem ter dado à luz ao filho que
esperava. A mulher por ela escolhida representa a chance de exercer
a maternidade, mesmo que de forma não convencional. Seu vasto
conhecimento não se perderia com o tempo, já que alguém estava
[Link]
ARTIGO/DOSSIÊ
61
a eclosão do fogo. Sem que um envenenamento dizime uma Casa-
Grande ou outra” (Condé, 2020, p. 244). Errim, por exemplo, cruzou o
mar novamente depois que, sob seu comando, “os espíritos daqueles
aos quais havia infligido suplício vieram dançar a gwo-ka, noite após
noite, em volta de sua cama. Eu o acompanhei até a embarcação Faith
e o vi engolir a seco cada vã esperança de ter um sono sem sonhos”
(Condé, 2020, p. 244).
O romance de Maryse Condé descreve uma personagem que
desafia os papéis sociais e de gênero prescritos pela cultura caribenha
e estadunidense. O romance oferece uma visão distinta das lutas
culturais e sociais vividas pelas mulheres em sua terra natal e em
território estrangeiro. Entra em cena um embate entre sexo e gênero,
e este último, por ser uma definição cultural de comportamentos
socialmente definidos como aceitáveis em um determinado lugar
e época, se dá por meio da movimentação dos corpos e dos
comportamentos e ações dos personagens. Os conflitos presentes na
trama são provenientes do acirramento entre diferentes territórios,
[Link]
ARTIGO/DOSSIÊ
62
a falta de acesso à justiça e aos direitos básicos por parte da população
negra. Os múltiplos deslocamentos feitos pela personagem ao longo
de sua vida exigem que ela reconstrua seu lugar em outro espaço.
Essa reconstrução necessariamente implica em um processo de
reconfiguração identitária, no qual Tituba torna-se, pouco a pouco,
uma mulher independente, emancipada e dona de suas próprias
decisões. Chama a atenção o fato de que Tituba detém uma identidade
fronteiriça. Essa identidade ressalta que a experiência da diáspora
não revela somente o trânsito entre nações ou territórios, mas
também marca a ausência de um ponto de destino, remetendo a um
constante estado de deriva, que representa um devir sempre adiado.
A narrativa de Tituba é fortemente permeada pelo hibridismo, e a
personagem encontra-se inserida num entrelugar entre diferentes
culturas, identidades, espacialidades e temporalidades. Esse fato
demonstra seu constante tráfego entre a cultura branca e a negra,
entre a região de Barbados e as colônias inglesas da América. Esta
identidade destaca a complexa e, por vezes, dificultosa relação
[Link]
ARTIGO/DOSSIÊ
63
193), ela mostra-se uma mulher comum, detentora de angústias,
desejos e sonhos. A apropriação e recriação feita por Condé resgata
Tituba das “margens da história estadunidense, permitindo que a
personagem ganhe voz e passe de objeto a sujeito de uma narrativa
que atravessa fronteiras geográficas, temporais e literárias” (Harris,
2016, p. 68). A narrativa escrita em primeira pessoa, que alude a
uma autobiografia, dramatiza, de forma poderosa e contundente,
o ciclo de violência que marca a região caribenha e foi investigada
por teóricos como: Carole Boyce Davies (2003, 2010), Édouard
Glissant (2005) e Stuart Hall (2013). Os processos de subjetivação e
construção identitária que marcam o romance comprovam o fato de
que as identidades não são fixas e imutáveis. Devido às constantes
mudanças e variações, elas vêm se apresentando cada vez mais
como fragmentadas e fraturadas.
Nas palavras de Edward Said (2011, p. 270), esse impulso
revisionista enfrenta a “cultura metropolitana, utilizando as
técnicas, discursos e armas do saber e da crítica antes reservados
[Link]
ARTIGO/DOSSIÊ
64
Referências
ALMEIDA, Sandra Regina Goulart. Cartografias contemporâneas: espaço, corpo, escrita.
Rio de Janeiro: 7Letras, 2015.
ANTUNES, Gabriella Gargalhão. Um defeito de cor e O caminho de casa: a representação
do sujeito diaspórico em neonarrativas de escravidão contemporâneas. 2023.
119f. Dissertação (Mestrado em Letras e Linguística) – Faculdade de Formação de
Professores, Universidade Estadual do Rio de Janeiro, São Gonçalo-RJ, 2023.
BELL, Bernard W. The Afro-American Novel and Its Tradition. Amherst:
University of Massachusetts Press, 1987.
BHABHA, Homi K. O local da cultura. Tradução de Myriam Ávila, Eliana Lourenço
de Lima Reis e Gláucia Renate Gonçalves. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2013.
BUTLER, Judith. Atos performáticos e a formação dos gêneros: um ensaio sobre
a fenomenologia e teoria feminista. In: HOLANDA, Heloísa Buarque de (Org.). In:
Pensamento feminista: conceitos fundamentais. Tradução de Ana Cecília Acioli
Lima et al. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, p. 213-230, 2019.
CARNEIRO, Sueli. Enegrecer o feminismo: a situação da mulher negra na América
Latina a partir de uma perspectiva de gênero. In: HOLLANDA, HeloÍsa Buarque (Org).
Pensamento feminista – conceitos fundamentais. Rio de Janeiro: Bazar do tempo,
p. 325-333, 2019.
DAVIES, Angela. Foreword. In: CONDÉ, Maryse. I, Tituba, Black Witch of Salem.
Tradução de Richard Philcox. New York: Ballantine Books, p. xi-xiii, 2009.
DAVIES, Carole Boyce. Black Women, Writing and Identity: Migrations of the
Subject. London; New York: Routledge, 2003.
[Link]
ARTIGO/DOSSIÊ
65
DAVIES, Carole Boyce. Mulheres caribenhas escrevem a migração e a diáspora.
Tradução de Leila Assumpção Harris e Peônia Viana Guedes. Estudos Feministas,
Florianópolis, n. 3, v. 18, p. 747-630, 2010.
EVARISTO, Conceição. Prefácio: Tituba, um evocar das águas que ainda nos atormenta!
In: CONDÉ, Maryse. Eu, Tituba: bruxa negra de Salem. Tradução de Natália Borges Polesso.
Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2020.
GILROY, Paul. The Black Atlantic: Modernity and Double Consciousness.
Cambridge, MA: Harvard University Press, 1993.
GLISSANT, Édouard. Introdução a uma poética da diversidade. Tradução de
Enilce Albergaria Rocha. Juiz de Fora: Editora UFJF, 2005.
HALL, Stuart; SOVIK, Liv (Orgs.). Da diáspora: identidades e mediações culturais.
Tradução de Adelaine La Guardia Resende et al. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2013.
HARRIS, Leila Assumpção. Espaços discursivos, geográficos e afetivos na literatura
diaspórica contemporânea. In: HARRIS, Leila Assumpção (Org.). A voz e o olhar
do outro. Rio de Janeiro: Letra Capital, 2009.
HARRIS, Leila Assumpção. Uma representação literária das zonas de contato do
Atlântico Negro: I, Tituba, Black Witch of Salem, de Maryse Condé. In: ZINANI,
Cecil Jeanine Albert, SANTOS, Salete Rosa Pezzi dos (Orgs.). Trajetórias de
literatura e gênero. Caxias do Sul, EDUCS, p. 67-80, 2016.
[Link]
ARTIGO/DOSSIÊ
66
SAID, Edward W. Cultura e imperialismo. Tradução de Denise Botmann. São Paulo:
Companhia das Letras, 2011.
SILVA e SOUSA, Fernanda. Os ancestrais que não podem ser esquecidos. In:
HARTMAN, Saidiya. Perder a mãe: uma jornada pela rota atlântica da escravidão.
Tradução de José Luiz Pereira da Costa. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, p. 341-352,
2020.
[Link]