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02 Eu

O artigo investiga a representação do sujeito diaspórico no romance 'Eu Tituba: bruxa negra de Salem' de Maryse Condé, destacando como a obra revisita criticamente a escravidão e os julgamentos por bruxaria em Salem. A narrativa mescla ficção e história para revelar o impacto da escravidão na identidade de negros escravizados, propondo uma reflexão sobre as lacunas e silêncios do arquivo da escravidão. A análise enfatiza a importância das neonarrativas como uma forma de reimaginar experiências históricas e dar voz a sujeitos subalternos.

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O artigo investiga a representação do sujeito diaspórico no romance 'Eu Tituba: bruxa negra de Salem' de Maryse Condé, destacando como a obra revisita criticamente a escravidão e os julgamentos por bruxaria em Salem. A narrativa mescla ficção e história para revelar o impacto da escravidão na identidade de negros escravizados, propondo uma reflexão sobre as lacunas e silêncios do arquivo da escravidão. A análise enfatiza a importância das neonarrativas como uma forma de reimaginar experiências históricas e dar voz a sujeitos subalternos.

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ARTIGO/DOSSIÊ

EU TITUBA: BRUXA NEGRA DE


SALEM, DE MARYSE CONDÉ:
REPRESENTAÇÕES DO SUJEITO
DIASPÓRICO EM NEONARRATIVAS
DA ESCRAVIDÃO
Leonardo Júnio Sobrinho Rosa

Leonardo Júnio Sobrinho Rosa


Mestrado em Letras, Teoria Literária e Crítica da Cultura,
pela Universidade Federal de São João del-Rei, em 2022.
Lattes: [Link]
ORCID iD: [Link]
E-mail: leonardo_junio@[Link].

Resumo: Este trabalho tem por objetivo investigar a


representação do sujeito diaspórico no romance Eu
Tituba: bruxa negra de Salem, da escritora Maryse Condé,
uma neonarrativa da escravidão contemporânea. A
obra revisita criticamente o passado e acontecimentos
históricos como os julgamentos por bruxaria ocorridos
em Salem, Massachusetts. Ao mesclar ficção e história, o
romance condeniano demonstra o impacto da escravidão
na configuração identitária de negros escravizados.
Palavras-chave: Neonarrativa da escravidão. Identidade.
Sujeito diaspórico. Eu Tituba: bruxa negra de Salem.
Maryse Condé.

Abstract: The present work aims at investigating the


representation of the diasporic subject in the novel I,
Tituba: Black Witch of Salem, by Maryse Condé, a
contemporary neo-slave narrative. The novel critically
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revisits the past and historical events such as the witch hunt
in Salem, Massachusetts. To the combine fiction and history,
Condé’s novel reveals the impact of slavery on the identity
formation of enslaved Black people.
Keywords: Neo-slaves narratives. Identity. Diasporic
Subject. I Tituba, Black Witch of Salem. Maryse Condé.

Quanto à imprecisão do lugar de origem de Tituba,


a ausência de fontes primárias sobre a origem dela
é um vazio que os sujeitos diaspóricos carregam na
reconstituição da árvore genealógica. Nesse sentido, a
ficção de Maryse Condé intervém na vida de Tituba. Cria
uma origem, uma história para ela. Fala inventiva, em
que a dor da personagem chega a ser quase redimida
pelo exercício da linguagem poética da escritora.
Conceição Evaristo

Eu sabia, eu estava condenada à vida.


Maryse Condé

Lembrar-se da escravidão é imaginar o passado

n54: Neonarrativas de escravidão: memória e representação nas literaturas contemporâneas


como o “tecido de nossa própria experiência” e
aproveitá-lo como “a chave da nossa identidade”.
Saidiya Hartman

A dedicatória que abre o romance Beloved (1987) faz referência ao


elevado número de homens, mulheres e crianças negras escravizadas.
Mesmo sendo uma estimativa, esse número detém uma espécie de
simbolismo, já que pode ser visto como uma forma de homenagear
esses indivíduos que tiveram suas histórias silenciadas pelos regimes
escravocratas, mas a ideia de estabelecer uma homenagem acaba
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sendo transcendida, pois essa inscrição também representa a


abertura do arquivo da escravidão por meio de uma narrativa que
mescla as discussões entre história e literatura, arquivo e imaginação,

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linguagem e sofrimento. Tudo isso demonstra que Beloved (1987) não
deve ser entendido somente como um romance sobre a escravidão,
mas sim como uma obra que aborda as possibilidades e limites do
amor em meio a um cenário de extrema violência. A mera abstração
da vida humana em dados, números e estatísticas é implodida por
meio da potente escrita de Morrison, e os mortos ganham corpo e voz
por meio de algo tecnicamente impossível: o amor.
A escritora afro-americana demonstra que as memórias,
lembranças, rastros e vestígios presentes nesse arquivo são o
subsolo de sua obra. Para ela, a “memória é sempre fresca, apesar
do fato de o objeto relembrado não mais existir” (Morrison,
2020, p. 418). O arquivo da escravidão é marcado por lacunas e
silêncios, entretanto, isso não interfere na sobrevivência daquilo
que foi guardado pelo arquivista. Apesar disso, sempre corremos
o risco de estar violentando algo porque esse arquivo é composto,
em sua maioria, por registros de venda, balanços contábeis de
mercadorias, inventários, listas de corpos vivos, enfermos e mortos,

n54: Neonarrativas de escravidão: memória e representação nas literaturas contemporâneas


apontamentos feitos por fazendeiros e empregados. Nesse caso, o
arquivo é uma “sentença de morte, um túmulo, uma exibição do
corpo violado, um inventário de propriedade, um tratado médico
sobre gonorreia, umas poucas linhas sobre a vida de uma prostituta,
um asterisco na grande narrativa da História”. Dado isso, é sem
dúvida “impossível apreender [essas vidas] de novo em si mesmas,
como se elas estivessem em um estado livre” (Hartman, 2020, p. 15).
Como podemos recuperar as vidas emaranhadas com os terrores da
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escravidão e dos enunciados que as afirmaram com uma propriedade


despojada de características humanas? É possível construir um
relato ou narrativa a partir de ruínas e vestígios?

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A escravidão e os artifícios a ela relacionados demonstram
a crença fundamental de que qualquer coisa é possível, já que ela
atingiu o ápice – até então inimaginável – de degradação e atrocidades
com relação aos seres humanos. Não devemos pensar esse sistema
somente como símbolo do horror e crueldade que marcaram a
História. Ele representa a administração dos corpos e a gestão da
vida, bem como a experiência de total desproteção dos indivíduos de
qualquer estatuto político que assegure direitos básicos. Por isso, o
“arquivo da escravidão repousa sobre uma violência fundadora. Essa
violência determina, regula e organiza os tipos de afirmações que
podem ser formuladas sobre a escravidão e também cria sujeitos e
objetos de poder” (Hartman, 2020, p. 27). A economia pautada pelo
roubo e o poder sobre a vida foi crucial para definirem o tráfico
negreiro, pois fabricou, ao mesmo tempo, mercadorias e cadáveres.
À luz disso, Saidiya Hartman (2020, p. 15) afirma que a “raça
estabelecia uma hierarquia da vida humana, determinando quais
pessoas eram descartáveis e selecionando os corpos que poderiam

n54: Neonarrativas de escravidão: memória e representação nas literaturas contemporâneas


ser transformados em mercadorias”. Para aqueles “acorrentados nos
porões dos navios negreiros, a raça era tanto uma sentença de morte
quanto uma linguagem da solidariedade”.
A brutal violência presente no arquivo da escravidão nos impele
a questionar se seria possível não reproduzir essas violências quando
(re)contamos uma história. Quais seriam os tipos de histórias a serem
contadas? Romances? Tragédias? Autobiografias? Como podemos
revisitar as cenas de sujeição sem replicar a gramática da violência?
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Saidiya Hartman (2020, p. 33) responde esses a questionamentos,


mas é categórica ao afirmar que o arquivo “dita o que pode ser dito
sobre o passado e os tipos de histórias que podem ser contadas

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sobre as pessoas catalogadas, embalsamadas e lacradas numa caixa
de pastas e fólios”. A História tende a ser fiel aos limites dos fatos,
das evidências e do arquivo, “ainda que tais certezas mortas sejam
produzidas pelo terror” (Hartman, 2020, p. 25). A teórica aponta
para a necessidade de escrevermos uma nova história que não fosse
limitada pelos constrangimentos dos documentos legais e pudesse
ir além da “reiteração e das transposições que constituíram minha
estratégia para desordenar e transgredir os protocolos do arquivo e
a autoridade de suas afirmações e que me permitiram aumentar e
intensificar suas ficções” (Hartman, 2020, p. 26).
A procura por um modo estético apropriado para retratar a vida
dos espoliados desloca do texto o seu prazer meramente especulativo
para uma atitude política que se concretiza na maneira como a escrita
vasculha e se apropria dessas vivências. Saidiya Hartman (2020) nos
mostra que a violência é um traço constituinte do registro da vida de
homens e mulheres escravizados, tornando uma tarefa árdua exceder
ou negociar os limites constitutivos do arquivo da escravidão. A

n54: Neonarrativas de escravidão: memória e representação nas literaturas contemporâneas


intenção por trás disso não é tão “miraculosa como recuperar as vidas
das pessoas escravizadas ou redimir os mortos, mas em vez disso,
trabalhar para pintar o quadro mais completo possível das vidas de
cativos e cativas” (Hartman, 2020, p. 28). Este gesto duplo pode ser
compreendido como um esforço contra os “limites do arquivo para
escrever uma História cultural do cativeiro e, ao mesmo tempo, uma
encenação da impossibilidade de representar as vidas dos cativos e
cativas por meio do processo de narração” (Hartman, 2020, p. 28).
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A construção de uma narrativa é um processo fundamental


para que se possa conferir significado aos relatos e experiências
presentes no arquivo da escravidão. Por vezes, a escrita é incapaz

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de ultrapassar os limites ditados pelo arquivo daquilo que pode ser
dito, visto que ela “depende dos registros legais, dos diários dos
cirurgiões, dos livros de contabilidade, dos manifestos de carga dos
navios e dos diários de bordo” (Hartman, 2020, p. 30). E é justamente
neste aspecto que ela hesita frente ao silêncio do arquivo e acaba
reproduzindo suas omissões. A violência do tráfico de escravizados
reside precisamente em todas as histórias a que não temos acesso
na contemporaneidade e que jamais poderão ser recuperadas. Esses
obstáculos constituem os parâmetros do trabalho de intelectuais
da diáspora negra para reconstruir o passado e descrever de
maneira oblíqua as formas de violência autorizadas. Procurar por
rastros, vestígios e até mesmo vislumbres de vidas silenciadas nos
desafia a narrá-las sem reproduzir as violências que as vitimaram.
Esse exercício imaginativo torna-se necessário face ao arquivo da
escravidão, pois “abre possibilidades imaginativas e especulativas
que exigem um outro modo de fazer e escrever a história das pessoas
escravizadas” (Silva e Sousa, 2020, p. 446-447).

n54: Neonarrativas de escravidão: memória e representação nas literaturas contemporâneas


Nos últimos anos podemos presenciar um número crescente de
produções literárias conhecidas como neonarrativas de escravidão,
que retomam e reimaginam as experiências da escravidão,
utilizando uma perspectiva crítica e descolonizadora, ancorada
em vozes negras, dissidentes, femininas e nas vivências de sujeitos
subalternos. Essas obras não se limitam apenas ao contexto da
escravidão, mas também retratam o período da pós-abolição, que
não é mais entendido como um período de liberdade plena, mas
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sim como a continuidade da violência e desumanização. Isso nos


mostra que as marcas da escravidão ainda persistem nos corpos, nas
emoções e afetos, nas instituições de um país e nas relações sociais.

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As neonarrativas da escravidão mesclam fatos e ficção e utilizam
em sua composição estratégias narrativas pós-modernas como
a paródia, a ironia e a intertextualidade. Além disso, combinam
gêneros literários (romance, poesia, ensaio, teatro), mídias (texto,
imagem, som, performance) e elementos como a oralidade,
fabulação e a revisitação de documentos históricos, criando assim
uma escrita notadamente híbrida e até mesmo experimental, que
pode ser lida como uma estratégia estética e política.
Muitas dessas obras se movem entre o arquivo histórico e a
fabulação, pois buscam preencher lacunas, desafiar as verdades
tidas como oficiais e imaginar vidas que foram silenciadas. Nesse
sentido, é válido retomar o pensamento de Saidiya Hartman, que
estabelece o relevante conceito/método de fabulação crítica. A
fábula denota os elementos fundamentais da história, os blocos e a
construção da narrativa. A fabulação crítica joga com os elementos
da história para rearranjá-los, “re-apresentando a sequência de
eventos em histórias divergentes e de pontos de vista em disputa”.

n54: Neonarrativas de escravidão: memória e representação nas literaturas contemporâneas


Essa “nova” imaginação estabelece diferentes pontos de vista, por
deslocar os relatos preestabelecidos ou autorizados ao mesmo
tempo em que nos permite imaginar aquilo que poderia ser dito ou
realizado. Isso torna visível a “produção de vidas descartáveis (no
tráfico atlântico de escravos e também na disciplina da História)”,
descreve a “resistência do objeto”, mesmo que por “apenas
imaginá-lo primeiro e escutar os murmúrios e profanações e
gritos da mercadoria”. A fabulação ilumina o caráter contestado
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da História, eventos, fatos e narrativa; além disso, derruba a


hierarquia do discurso. O resultado “desse método é uma ‘narrativa
recombinante’, que ‘enlaça os fios’ de relatos incomensuráveis

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e que tece presente, passado e futuro, recontando a história
[...] e narrando o tempo da escravidão como o nosso presente”
(Hartman, 2020, p. 29).
Nos Estados Unidos e no Reino Unido, os relatos de ex-escravizados
escritos em primeira pessoa constituem um corpus literário de grande
importância histórica. As narrativas de escravos surgiram durante
o período da escravidão, sendo que essa vasta produção literária
consiste em textos de cunho (auto)biográfico de indivíduos como
Frederick Douglass e Harriet Jacobs, que conseguiram alcançar a
liberdade. A publicação do livro The Interesting Narrative of the Life of
Olaudah Equiano, or Gustavus Vassa, the African, Written by Himself,
de Olaudah Equiano, marca o início de uma série de publicações de
autobiografias, lembranças, memórias. Essas narrativas são uma
forma de testemunho, pois denotam o engajamento e o desejo de
seus escritores em transformar a realidade em que vivem. Diz Olaudah
Equiano: “Eu escrevo este para persuadir outras pessoas – você, o
leitor que provavelmente não é negro, que somos seres humanos

n54: Neonarrativas de escravidão: memória e representação nas literaturas contemporâneas


dignos da graça de Deus e do abandono imediato da escravidão”
(Equiano apud Morrison, 2020, p. 303).
As neonarrativas da escravidão são um tipo de gênero literário
que surgiu nos Estados Unidos durante as décadas de 60 e 70. Esses
romances possuem como objetivo primordial revisitar as narrativas
de escravos escritas durante o século XIX a partir de uma abordagem
contemporânea. Desse modo, essas narrativas promovem uma
releitura crítica da escravidão que “aponta para problemas sociais
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contemporâneos” (Antunes, 2023, p. 18).


A noção de neonarrativa da escravidão foi cunhada inicialmente
por Bernard Bell (1987) na obra The Afro-American Novel and Its

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Tradition. Segundo o autor, as neonarrativas da escravidão são
“narrativas modernas, residualmente orais, da fuga da escravidão
para a liberdade, que combinam elementos de fábula, lenda e
narrativa de escravos para protestar contra o racismo e justificar
os feitos, as lutas, migrações e o espírito dos negros” (Bell, 1987,
p. 289). Assim, as neonarrativas da escravidão se ambientam no
período escravagista e guardam traços das slaves narratives, como a
oralidade. As particularidades apresentadas por Bernard Bell em seu
estudo seminal constituem-se como uma relevante estrutura teórica
em virtude do empenho em delimitar as características essenciais que
caracterizam as neonarrativas da escravidão.
Ashraf Rushdy (1999), em Neo-Slave Narrative, chama atenção
para as características dessas obras, como o uso da primeira pessoa, a
linguagem utilizada pelos escravizados e suas transformações à medida
que aprendiam a língua do país que passaram a habitar. Para Rushdy
(1999), há três subgêneros de neonarrativas: o primeiro deles consiste
nas narrativas que se baseiam nos relatos de pessoas escravizadas

n54: Neonarrativas de escravidão: memória e representação nas literaturas contemporâneas


produzidas antes da Guerra da Secessão; o segundo constitui-se pelos
romances que demonstram os efeitos da escravidão vivenciados
pela população negra na contemporaneidade; já o terceiro e último
é voltado para as narrativas de cunho genealógico, que retratam as
histórias familiares de descendentes dos escravizados.
Por serem narradas a partir da perspectiva do escravizado, as
neonarrativas constituem-se como um mecanismo para revisar a
historiografia vista como oficial. Esse entendimento demonstra que
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a história não deve ser compreendida como um retrato exclusivo e


fiel dos acontecimentos passados. Documentos e relatos históricos
são elaborados com base em padrões narrativos aceitos em uma

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determinada cultura, que evidenciam as relações de poder
socialmente instituídas. Por isso, um acontecimentos histórico não
poderia ser descrito completamente, por possuir muitos eventos
interiores, o que torna quase impossível a tarefa de conhecê-lo de
forma completa. A atitude revisionista é algo fundamental para os
grupos tidos como subalternos, pois as neonarrativas da escravidão
dão voz a personagens silenciados e promove “uma reavaliação
crítica, um diálogo irônico com o passado da arte e da sociedade”
(Hutcheon, 1991, p. 20), além de permitirem a construção de novos
espaços enunciativos, já que permitem romper o silenciamento
imposto por discursos hegemônicos.
No ensaio “A representação do sujeito diaspórico em O livro dos
negros, de Lawrence Hill”, a professora e pesquisadora Shirley de
Souza Gomes Carreira (2021) destaca que houve uma espécie de boom
das neonarrativas de escravidão, que passam a não se restringirem ao
contexto afro-americano e aos países de língua inglesa. As obras se
expandiram e adotaram novos formatos e abordagens diferenciadas,

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“abrindo espaço à polifonia e ao hibridismo textual” (Carreira, 2021,
p. 387). É justamente nesse contexto que este trabalho se insere e
enquadra o romance Eu Tituba: bruxa negra de Salem, de Maryse
Condé. A obra reconta a história de Tituba, mulher negra, escravizada
e acusada de praticar bruxaria. Ela foi uma das primeiras vítimas
das perseguições por bruxaria, ocorridas em Salem, no século XVII.
A Tituba criada pela escritora caribenha constitui-se como uma
resposta ao vazio encontrado nos registros documentais sobre a
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personagem. Esse fato evidencia o caráter revisionista que a narrativa


possui, uma vez que ela foi elaborada a partir da visão do sujeito que
tem sua voz silenciada nos registros históricos.

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Tituba, protagonista do romance Eu Tituba: bruxa negra de
Salem, é um sujeito diaspórico e se encontra desenraizada devido
as suas vivências de trânsito e deslocamentos. Por isso, partimos
da hipótese de que Tituba se encontra num espaço liminar entre
diferentes culturas, identidades, nações e temporalidades, pois sua
identidade é construída e (re)negociada em espaços fronteiriços.
Devido a esse fato, seu percurso diaspórico pode ser associado ao
espaço transnacional do Atlântico Negro e das zonas de contato
culturais. A necessidade de Tituba de reconfigurar sua identidade
evidencia que a mesma habita cotidianamente o espaço do
entrelugar. Viver na fronteira é estar inserido simultaneamente
em diferentes espacialidades e temporalidades no presente da
vida cotidiana; não é viver a partir de um princípio (origem como
destino fatal), nem visando a um fim como futuro previsível, numa
linearidade progressiva e evolutiva sem contratempos em que uma
etapa substituiria a outra.
O lugar enunciativo de Tituba é a fronteira, ou mais precisamente,

n54: Neonarrativas de escravidão: memória e representação nas literaturas contemporâneas


o entrelugar entre as fronteiras. A experiência da diáspora vivenciada
pela personagem resulta em uma forma de desterritorialização que
pode ser vista como uma posição estratégica devido a “seu caráter
múltiplo e deslizante”. Posto isso, ela não é “nem insider, nem outsider,
mas in between, num entrelugar, entre culturas e tradições”, pois o
“sujeito cultural híbrido fala a partir da fronteira [...] ou da passagem
entre espaços e tempos diferentes” (Reis, 2011, p. 60). A existência
fronteiriça do sujeito diaspórico, em especial a de Tituba, demonstra
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a fluidez das identidades híbridas que se desenvolvem por meio de


tensões e negociações características dos processos diaspóricos e
do devir em trânsito.

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Ocupar o lugar da fronteira permite ao sujeito diaspórico
exercer a capacidade de articular diferentes valores culturais. Ao
longo do romance condeniano, podemos observar que a voz da
narradora expressa o não pertencimento cultural e territorial e isso
exige continuamente que a personagem (re)articule sua cultura e
identidade. Viver na fronteira é visto como uma espécie de privilégio,
por permitir que Tituba veja todas as direções da existência, bem
como possibilita o contato com o novo. Com base nisso, podemos
afirmar que a protagonista de Eu Tituba: bruxa negra de Salem
detém uma identidade fronteiriça que expressa o habitar cotidiano
do entrelugar entre fronteiras. O caráter híbrido e multicultural
que sua identidade possui não é o fruto de uma simples adaptação
ou apropriação cultural, mas das constantes negociações com a
diferença. O espaço do entrelugar produz um hibridismo cultural
que acolhe a diferença sem o estabelecimento de uma hierarquia.
Dessa forma, podemos comprovar que o entrelugar é um espaço
de criação, de ressignificação e intervenção no qual há sempre

n54: Neonarrativas de escravidão: memória e representação nas literaturas contemporâneas


negociações entre as culturas e suas diferenças.
Os dilemas identitários são elementos recorrentes no romance
Eu Tituba: bruxa negra de Salem, por surgirem desde o início da
narrativa, quando a narradora-personagem descreve suas origens
e afirma que Abena, sua mãe, foi “violentada por um marinheiro
inglês no convés do Christ the King, num dia de 16**, quando o navio
zarpava para Barbados. Dessa agressão nasci. Desse ato de agressão
e desprezo” (Condé, 2020, p. 25). Essa digressão inicial demonstra a
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violência infligida à população negra, além de evidenciar que naquele


período vigorava o entendimento de que o corpo negro era tido como
“público” e, por isso, poderia ser desejado, abusado e violentado. Esse

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ato bárbaro descrito pela protagonista marca o Atlântico como um
espaço intersticial e cultural da diáspora africana. Assim, o Atlântico
Negro torna-se uma referência espacial para os fluxos entre culturas e
pessoas que cruzaram o oceano durante a colonização (Gilroy, 1993).
A mãe de Tituba acreditava que múltiplas tempestades se
“acumularam ao longo de sua vida: seu vilarejo incendiado, seus
pais estripados ao tentar se defender, sua violação e agora, a
separação brutal de um ser tão doce e tão desesperado quanto
ela mesma” (Condé, 2020, p. 27). Esses diferentes abusos sofridos
pela personagem confirmam que o “lar também pode ser um local
onde o corpo da mulher é alvo de violência, violência que muitas
vezes existe antes do deslocamento diaspórico e continua no novo
‘lar’” (Harris, 2009, p. 42). As diferentes experiências traumáticas
vivenciadas por Abena produziram um sentimento paradoxal, já
que ela não poderia deixar a tristeza e a angústia a consumirem,
mas havia sua filha que lhe lembrava diariamente das violências
sofridas. Tituba sempre fazia sua mãe rememorar o homem branco

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que a “tinha possuído no convés do Christ the King, no meio de um
círculo de marinheiros, observadores obscenos. Eu a lembrava a
todo instante de sua dor e humilhação” (Condé, 2020, p. 29). Por
essas razões, Abena instintivamente repelia sua filha, mas isso não
impedia o carinho e cuidado com relação a Tituba. Esse fato é melhor
esclarecido quando mãe e filha encontram Darnell Davis, o homem
que havia lhe comprado e que tenta violentá-la.
A escolha de Abena de defender a si mesma e sua filha tem
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um custo extremamente alto, pois machucar um homem branco era


considerado um crime hediondo nas sociedades em que vigorava o
sistema escravagista. Homens e mulheres escravizados, ao cometerem

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tal delito, eram severamente punidos, uma vez que predominava o
entendimento de que uma pessoa negra jamais poderia se voltar
contra o seu “senhor”. Com isso, a punição de Abena tornou-se um
espetáculo ao qual todos deveriam comparecer, pois era necessário
reafirmar quem detinha o poder e que qualquer transgressão seria
duramente punida. Yao, pai adotivo de Tituba, também foi punido
após o “delito” cometido por sua companheira. Darnell o “vendeu a
um fazendeiro de nome John Inglewood que vivia do outro lado dos
montes de Hillaby. Yao jamais chegou a esse destino. No caminho,
ele conseguiu se matar engolindo a própria língua” (Condé, 2020, p.
31). Logo após ser privada de conviver com sua família, Tituba foi
expulsa da plantação de Darnell.
Se não fosse pela solidariedade entre as pessoas escravizadas, ela
teria provavelmente morrido em pouco tempo. Uma mulher idosa a
acolheu; ela não “era uma axanti como minha mãe e Yao, mas uma
nagô, da costa, cujo nome, Yetunde, sofre uma transformação para
o crioulo, Man Yaya. As pessoas tinham medo dela. Mas vinham de

n54: Neonarrativas de escravidão: memória e representação nas literaturas contemporâneas


longe para vê-la por causa do seu poder” (Condé, 2020, p. 32). Man
Yaya assemelha-se à figura do griot e por isso assumiu a tarefa de
transmitir diferentes saberes à Tituba, como: canções, conhecimentos
medicinais e histórias e mitos dos povos negros.
Ser criada por Man Yaya permitiu que Tituba crescesse envolta
em uma aura de mistério e misticismo. O afastamento da sociedade
escravocrata e das culturas branca e negra permitiu a Tituba exercer
plenamente sua liberdade. Como ela não foi reivindicada como uma
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propriedade de Darnell Davis, Tituba não precisou vivenciar o triste


desfecho ocorrido com a plantação do homem que a privou do
convívio familiar. Devido ao estado de saúde de seu filho, Darnell

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acabou vendendo todas as suas terras e os escravos e retornou
para a Inglaterra. Com isso, a personagem escolheu um local nas
“margens do rio Ormonde, onde ninguém jamais ia, porque a terra
era pantanosa e pouco propícia para o cultivo de cana. Construí
sozinha, com a força dos meus punhos, uma cabana que consegui
empoleirar sobre estacas. Pacientemente, cerquei um pedaço
de terra” e delimitei um “jardim onde logo cresceriam toda sorte
de plantas que eu pudesse enfiar na terra para os meus rituais,
respeitando as vontades do sol e do ar”. Essas simples conquistas
foram os momentos de maior felicidade de sua vida: “[...] eu nunca
estava sozinha, porque meus invisíveis estavam ao meu redor,
sem jamais, no entanto, me oprimir com sua presença. [...] Eu estava
longe dos homens e, principalmente, dos homens brancos. Eu era feliz.
Pobre de mim!, tudo isso mudaria!” (Condé, 2020, p. 34-35). Mas viver
com Man Yaya na floresta, longe do convívio social e da agitação da
cidade, tem um preço alto, pois elas eram vistas como estranhas que
detinham poderes sobrenaturais.

n54: Neonarrativas de escravidão: memória e representação nas literaturas contemporâneas


Tituba não consegue romper com a imagem construída pela
comunidade devido ao seu isolamento. Aliado a isso, está o fato de
que a personagem não desempenha determinados papéis sociais e
de gênero, o que acaba corroborando para que ela seja vista como
uma bruxa. O romance de Maryse Condé demonstra a maneira
como determinados comportamentos e ações eram definidos como
socialmente aceitáveis em determinada época e território. John
Indien, quando vê Tituba pela primeira vez, zomba de sua aparência,
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do modo como se vestia e do seu cabelo que, nas palavras dele,


se assemelhava a uma moita. A maneira como ele descreve a
personagem enfatiza o fato de que ela não cumpria as exigências

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que se esperavam de uma mulher. Por isso, é relevante retomar as
palavras de Judith Butler, segundo as quais aqueles que falham em
performar de maneira correta o seu gênero são punidos, podendo o
mesmo ser dito com relação à etnia, já que, “os autores dos gêneros
entram em um transe de suas próprias ficções, e por meio dele, os
processos de construção impulsionam a crença na sua necessidade
e natureza” (Butler, 2019, p. 217).
O contato da personagem com esse epíteto ocorre somente
quando ela se encontra pela primeira vez com John Indien. Ser
chamada de bruxa provoca um misto de sentimentos em Tituba,
fazendo-a questionar o que estaria por trás dessa tão temida figura. A
palavra bruxa estava manchada de degradação, ódio e medo: “Como é
isso? Como? A faculdade de se comunicar com os invisíveis, de manter
um laço constante com os finados, de cuidar, de curar, não era uma
graça superior da natureza a inspirar respeito, admiração e gratidão?”.
A bruxa, se assim desejam “nomear aquela que possui essa graça, não
deveria ser adulada e reverenciada em vez de ser temida? Toda essa

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reflexão me deixou pesada, saí do salão depois de uma última polca”
(Condé, 2020, p. 42). Essa interação inicial deveria servir de alerta para
qualquer pessoa, entretanto, Tituba acaba se apaixonando por John
Indien, sentimento avassalador que a leva a se desfazer de seu bem
mais valioso: a liberdade. Para viver plenamente essa paixão, Tituba
opta por viver com John Indien. Com isso, ela acaba se tornando uma
mulher escravizada e, mesmo contra a sua vontade, executa as ordens
da proprietária de seu companheiro.
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A mudança para a residência dos Endicott é marcada por um


sentimento ambíguo e, por vezes, paradoxal, posto que, para vivenciar
sua felicidade, Tituba deveria abandonar a segurança e o conforto

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da vida que levava para alcançar algo que ela mesma almejava com
grande interesse. Habitar cotidianamente esse “novo” ambiente
reforça aquilo que ela aprendeu desde sua infância: a escravidão
era uma prática abusiva, cruel e desumana. Tituba percebe que sua
presença naquela casa era um incômodo que atrapalhava a ordem
local. A comunidade passa a “questionar Susanna Endicott acerca
da presença de Tituba em sua casa, como se a própria Tituba não
estivesse ali, dizendo à senhora que ela dava muita liberdade aos
seus negros e que devia providenciar o casamento dos dois”. A
protagonista sente a “invasão não somente à sua privacidade, mas à
sua existência entre aquelas pessoas” (Corrêa, 2014, p. 146), pois ela
era um não ser; alguém invisível. Mais “invisível que os invisíveis, pois
eles ao menos detinham um poder que todos temiam. Tituba, Tituba
não tinha mais que a realidade que aquelas mulheres queriam lhe
conceder. Era atroz. Tituba se tornava feia, grosseira, inferior porque
elas assim tinham decidido” (Condé, 2020, p. 51-52). Isso comprova a
certeza de que conviver com a Sra. Endicott não lhe faria bem devido

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à sua crença de que Tituba era uma bruxa.
Na tentativa de modificar essa situação, Tituba invoca Man
Yaya para auxiliá-la a se livrar de Susanna Endicott, posto que
seu futuro naquela comunidade estaria ameaçado em razão das
pessoas que a viam como praticante de bruxaria. Essa tentativa
de salvar a si própria traz em seu cerne um desfecho trágico, pois,
ao adoecer repentinamente, Susanna Endicott acredita que Tituba
seja a causadora do seu infortúnio. Como consequência, ela acaba
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vendendo John Indien e Tituba para o reverendo Samuel Parris.


Para não ter que abdicar do convívio com seu esposo, ela escolhe ir
para a América com a família Parris, pois sabia que seria cruelmente

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separada de John Indien se afirmasse não ser uma escrava de
Susanna Endicott. Nas palavras da narradora-personagem, “Susanna
Endicott tinha mesmo excelência em sua crueldade; entre nós duas,
quem era a mais cruel? Afinal, a doença e a morte são inscritas na
existência humana e talvez eu apenas tenha precipitado sua irrupção
na vida de Susanna Endicott. Mas ela, o que ela faria dos meus dias?”
(Condé, 2020, p. 65-65). John Indien até tentou fazer com que sua
proprietária mudasse de ideia, mas ela estava inflexível, pois suas
ações tinham um alvo certo: prejudicar Tituba. Ela entendeu o
“plano horrível de Susanna Endicott. Era a mim, e somente a mim,
que ela mirava. Era a mim que ela queria exilar na América. A mim
que ela separava da minha terra natal, daqueles que eu amava e
cuja companhia me era necessária” (Condé, 2020, p. 65).
Tornar-se novamente uma mulher escravizada fez com que
ela vivenciasse mais uma vez a experiência de deslocar-se rumo a
uma nova terra. A ligação com a sua terra natal é cortada de forma
repentina e Tituba rapidamente vê-se inserida num país estranho,

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com costumes, hábitos e tradições completamente diferentes
daqueles a que ela conhecia e estava habituada. Observando essas
circunstâncias, Salman Rushdie (1991) argumenta que o sujeito
migrante, na acepção completa da palavra:
Sofre, tradicionalmente, uma tripla ruptura: perde o
seu lugar, adota uma língua estrangeira e encontra-se
rodeado de pessoas cujo comportamento e códigos
sociais são muito diferentes dos seus, e, por vezes, até
mesmo ofensivos. (Rushdie, 1991, p. 277-278)1
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1 No original: “A full migrant suffers. Traditionally, a triple disruption: he loses his place,
he enters into an alien language, and he finds himself surrounded by beings whose social
behavior and codes are very unlike, and sometimes even offensive to, his own” (Rushdie,
1991, p. 277-278).

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As rupturas vivenciadas pela narradora-personagem suscitam um
sentimento de desconfiança, todavia retornar para a terra natal não
é uma opção viável. Devido a essa impossibilidade de retornar, acaba
gerando uma fratura entre o indivíduo e sua terra natal. A viagem
para os Estados Unidos é descrita detalhadamente por Tituba.
Sua narração descreve a chegada ao porto com a família Parris, o
contato com a esposa do reverendo e sua filha e sobrinha, a relação
afetuosa que ela começou a desenvolver com a pequena Betty. Desde
a chegada aos Estados Unidos, eles vivem por cerca de um ano em
Boston, enquanto Samuel aguardava ansiosamente pela concessão de
uma paróquia pelos puritanos.
Como as propostas demoravam a chegar, todos passaram por
grandes dificuldades devido à escassez de recursos e dinheiro. Para
Tituba, essa demora se devia à personalidade cruel de Parris, que
acreditava que o mal estava presente em todas as coisas. Por mais
“fanáticos e sombrios que fossem aqueles que compartilhavam de
sua fé, ainda assim, eram menos do que ele, com sua alta figura

n54: Neonarrativas de escravidão: memória e representação nas literaturas contemporâneas


zangada, a reprimenda e a exortação à boca, assustador” (Condé,
2020, p. 79). Após um longo período de espera, Samuel Parris é
convidado a assumir as responsabilidades da paróquia do vilarejo de
Salem. A mudança para essa nova comunidade marca a introdução
de Tituba no contexto puritano, que a enxerga não como uma mulher
escravizada, mas como o sinônimo do mal. Tituba não via a América
como a “Terra Prometida” que os puritanos tanto acreditavam, mas
sim como local devastado que representa o exílio e a perda. A partir
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desse momento, podemos perceber o contraste e o entrelaçamento


entre história e ficção, devido à retomada do episódio de caça às
bruxas e ao desenrolar dos acontecimentos que envolvem Tituba.

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Em seguida, dá-se início a uma série de comportamentos estranhos,
vistos como sobrenaturais, por parte das garotas do vilarejo. Neste
caso, “o real e o sobrenatural passam a ser vistos no mesmo plano
e a questão da dúvida passa a ter o mesmo valor da acusação,
pelo menos quando se menciona que as garotas poderiam estar
enfeitiçadas e, neste caso, alguém seria culpado por isso” (Corrêa,
2014, p. 149). Apesar de se manter com essas garotas, Tituba negou
que fosse uma bruxa porque sabia que as pessoas de Salem a
condenariam pela menor suspeita de delito. Quando os ministros da
paróquia se reuniram, ela sabia que seria o alvo perfeito.
Além da acusação de bruxaria, Tituba é torturada e estuprada
para confessar seus crimes. A crueldade e a violência das ações dos
puritanos permitem a Tituba inferir que os sofrimentos vivenciados
eram possivelmente decorrentes do fato de ela ter abandonado
a relativa segurança de sua terra natal pelo amor de John Indien.
A consciência desse erro não traz arrependimento por parte da
narradora-personagem, visto que ela se encontra numa situação

n54: Neonarrativas de escravidão: memória e representação nas literaturas contemporâneas


difícil que exige sua própria força para encontrar uma resolução.
Tituba percebe que não “havia nada a fazer a não ser agir exatamente
como era esperado por todos que agisse – assumir o fato de que
havia conjurado com o demônio e acusar outras pessoas de terem
ligações com ele” (Corrêa, 2014, p. 149). A escolha de Tituba em
agir como as pessoas daquela comunidade esperavam representa a
busca pela sobrevivência frente a uma situação-limite. Além disso,
esse ato pode ser lido por meio do conceito de mímica desenvolvido
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por Homi Bhabha (2013) a partir da aproximação feita por Jacques


Lacan entre o mimetismo animal e as técnicas de camuflagem.
Tituba, ao se ver prestes a ser presa em virtude das acusações de

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praticar bruxaria, opta por se comportar da forma que os puritanos
esperavam, acusando qualquer pessoa para que conseguisse salvar
sua própria vida. Entretanto, essa prática não pode ser vista como
uma assimilação cultural, pois seus atos se situam no espaço entre a
mímica e o arremedo.
Os julgamentos marcam um momento de grande efervescência
em Salem. Com as primeiras acusações de bruxaria, instaurou-se um
clima persecutório por toda a região, que levou em torno de vinte
pessoas para a forca e outros incontáveis para as prisões. Grande
parte das acusações ocorridas nesse período eram de pessoas que
se conheciam e ocultavam os reais objetivos por trás de tantas
acusações. Apesar da ausência da legalidade durante o processo,
Tituba sobrevive ao julgamento, mas passa um longo período presa,
durante o qual precisou trabalhar de maneira árdua para ressarcir os
custos do cárcere.
Em maio de 1693, todo o caos instaurado é interrompido em
virtude do perdão geral dado pelo governador. As portas da “prisão

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se abriram diante dos acusados de Salem. Pais reencontraram suas
crianças; maridos, suas mulheres; mães, suas filhas”, mas a narradora-
personagem não reencontrou nada, pois “esse perdão mudava nada.
Ninguém se preocupava com a minha sorte” (Condé, 2020, p. 175).
Devido às dívidas provenientes do seu período na prisão, Tituba
permaneceu detida até que fosse encontrado um comprador que
pudesse arcar com todos os custos. Ela acaba sendo vendida para
Benjamin Cohen d’Azevedo, judeu e comerciante bem-sucedido.
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Essa nova “oportunidade” para Tituba é marcada pela repetição,


pois continuaria a ser uma mulher escravizada, mas que dessa vez
estava acompanhada nessa situação, pois Benjamim também era

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visto como um estranho pela sociedade puritana em razão das suas
origens e história de vida. Por compartilharem a mesma exclusão,
ambos se compadecem e acabam se envolvendo romanticamente.
O desenrolar desse relacionamento coloca Tituba em uma situação
jamais experimentada: estranha situação de ser, ao mesmo tempo,
senhora e escravizada.
Apesar de se sentir feliz na nova casa, Tituba permanecia com
a sensação de que algo terrível aconteceria em breve. De fato, ela
estava certa, pois, em uma represália contra a presença de judeus
em Salem, a casa de Benjamim foi incendiada e seus filhos faleceram.
Traumatizado por essa situação, ele libertou Tituba e decidiu partir
para Rhode Island, onde amigos o aguardavam. A liberdade recém-
adquirida simboliza a chance que Tituba tinha de rever novamente
as belezas da região onde nasceu. Mas a necessidade de tornar a
terra natal mostra que nem sempre será marcada pela nostalgia
do retorno (Almeida, 2015). No caso de Tituba, ela é marcada por
grande alegria e expectativa. A viagem de volta não foi simples como

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a narradora-personagem imaginava. Ela consegue embarcar no
navio Bless the Lord, que retornava para Bridgetown em alguns dias.
Durante a viagem, ela é novamente colocada à prova, pois, ao ser
reconhecida, precisa tratar de um homem que estava muito doente,
além de influenciar o clima que atrasa o prazo de término da viagem.
O desembarque em Barbados traz um sentimento estranho e, por
vezes, paradoxal que ia totalmente contra todo o encantamento
e emoção que a personagem descreve. Esse desencantamento é
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expresso por Tituba da seguinte forma:


Fora isso, minha ilha não me celebrava! Chovia, e os
telhados molhados de Bridgetown se aglomeravam

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em torno da enorme silhueta de uma catedral. Nas
ruas, corria uma água barrenta na qual pisoteavam
animais e pessoas. Sem dúvida um navio negreiro
acabara de lançar âncora, pois, debaixo do toldo de
palha de um mercado, ingleses, homens e mulheres,
examinavam os dentes, a língua e o sexo dos boçais,
que tremiam de humilhação. Que cidade feia, a
minha! Pequena. Mesquinha. Um posto colonial
sem envergadura, com todo o fedor do lucro e do
sofrimento. (Condé, 2020, p. 203-204)

A viagem de Tituba para a terra natal deveria ser um aprendizado,


uma vez que se desviar de seu caminho somente lhe proporciona
dificuldades e tristeza. Ao chegar, porém, ao seu destino, ela, mais
uma vez, opta por ir contra os conselhos dos invisíveis e acaba se
desviando para Belleplaine – uma localidade que fica do outro
lado do país para lutar pela liberdade dos escravizados. Lá, ela se
envolve com Christopher, que via em Tituba a possibilidade de se
tornar invencível; em troca desse feito, ele se tornaria o esposo
que a personagem tanto almejava. Ao questioná-lo sobre as razões

n54: Neonarrativas de escravidão: memória e representação nas literaturas contemporâneas


desse desejo, a personagem conclui que ele buscava se tornar
um herói, uma lenda, mas sem se esforçar durante essa jornada.
Sentindo-se abusada, ela tenta conversar com sua mãe e Man Yaya.
Ao aparecerem, as mulheres a recriminam por ainda estarem presas
a um relacionamento fracassado. Com essa conversa, ela acaba
decidindo retornar para sua velha cabana que a estava esperando
como a personagem a havia deixado.
O retorno para seu lar é marcado pela constatação do quanto
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ela envelheceu por vivenciar tantas provações. Na segurança de sua


choupana, ela acaba percebendo que estava grávida de Christopher,
mas, devido ao tempo da gestação, não poderia realizar um aborto de

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maneira segura. Nesse ínterim, Tituba acaba ajudando Iphigene, um
jovem escravizado e açoitado à beira da morte. Com seus cuidados,
ele logo recobrou os sentidos e, posteriormente, veio a lhe pedir ajuda,
mesmo que, de alguma forma, na luta pela libertação da população
negra. Qualquer forma de auxílio implicaria no fato de que Tituba
precisaria se reencontrar com Christopher. Ela é aconselhada por Man
Yaya, Abena e Yao de que o confronto que eles planejavam não daria
o resultado esperado:
Alguma coisa em sua me indicava que eu ficasse
atenta, e eu disse secamente: – Bom, e como tudo
isso terminou? Ele se pôs a enrolar um cigarro de
folhas de tabaco, como se procurasse ganhar tempo,
depois me olhou bem na cara: – Com sangue, como
termina sempre. O tempo da nossa libertação não
chegou. Perguntei com um grito rouco: – E quando
vai chegar? Quanto sangue ainda, e por quê? Os três
espíritos permaneceram em silêncio como se mais
uma vez eu quisesse violar as regras e mergulhá-los
em desconforto. Yao retomou: – Será necessário que
nossa memória seja inundada de sangue. Que nossas

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lembranças boiem na sua superfície como nenúfares.
Eu insisti: – Seja claro, quanto tempo? Man Yaya sacode
a cabeça: – A aflição do negro não tem fim. (Condé,
2020, p. 233, grifo meu)

Apesar do claro aviso, a batalha ocorreu conforme as lideranças


planejaram. Mesmo com todo planejamento e esforço, a população
negra foi dizimada. A busca pela liberdade foi vista pelos fazendeiros
e demais pessoas como um ato de rebeldia que deveria ser punido de
forma exemplar. Eles decidiram dar um “bom exemplo”, porque em
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“três anos foi a segunda grande rebelião. Eles conseguiram o apoio


total das tropas inglesas que vieram defender a ilha dos ataques dos
vizinhos, e nada foi deixado ao acaso. Sistematicamente, as plantações

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foram revistadas e os escravizados, que inspiravam dúvida” (Condé,
2020, p. 241), foram postos debaixo de alguma mafumeira. Depois,
“baionetas na bunda, empurraram toda essa gente para uma vasta
clareira onde dezenas de forças tinham sido erguidas” (Condé, 2020,
p. 241). Tituba foi uma das últimas pessoas a serem executadas:
“Errim percorreu a cena de execuções. Ele veio até mim e disse com
desprezo: – Muito bem, bruxa! Você que a deveria ter conhecido em
Salem, vai conhecê-la aqui! E vai encontrar suas irmãs que partiram
antes de você. Tenha um bom sabá!” (Condé, 2020, p. 241). Tituba
sabia que não havia o que falar e aguardou sua morte com calma.
A morte física de Tituba permite seu renascimento no plano
espiritual. No epílogo de sua narrativa, a personagem afirma que
sua história não terá um fim, pois teve a possibilidade de escolher
uma descendente por morrer sem ter dado à luz ao filho que
esperava. A mulher por ela escolhida representa a chance de exercer
a maternidade, mesmo que de forma não convencional. Seu vasto
conhecimento não se perderia com o tempo, já que alguém estava

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carregando seu legado. A protagonista sabia que não pertencia à
civilização daqueles que tanto a odiaram. É “dentro do coração que os
meus guardarão minha memória, sem necessidade de grafia alguma. É
dentro da cabeça. Em seu coração e em sua cabeça” (Condé, 2020, p.
244). Viva ou morta, visível ou invisível, Tituba permanece presente no
imaginário e na memória coletiva daquele povo, alentando o coração
dos homens e alimentando “seus sonhos de liberdade. De vitória.
Não há uma revolta que eu não tenha feito nascer. Uma insurreição
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sequer. Uma desobediência” (Condé, 2020, p. 244). Insuflando a


desobediência e os sonhos de liberdade, Tituba nos fala que: “desde
essa grande rebelião abortada de 17**, não há mês que se passe sem

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a eclosão do fogo. Sem que um envenenamento dizime uma Casa-
Grande ou outra” (Condé, 2020, p. 244). Errim, por exemplo, cruzou o
mar novamente depois que, sob seu comando, “os espíritos daqueles
aos quais havia infligido suplício vieram dançar a gwo-ka, noite após
noite, em volta de sua cama. Eu o acompanhei até a embarcação Faith
e o vi engolir a seco cada vã esperança de ter um sono sem sonhos”
(Condé, 2020, p. 244).
O romance de Maryse Condé descreve uma personagem que
desafia os papéis sociais e de gênero prescritos pela cultura caribenha
e estadunidense. O romance oferece uma visão distinta das lutas
culturais e sociais vividas pelas mulheres em sua terra natal e em
território estrangeiro. Entra em cena um embate entre sexo e gênero,
e este último, por ser uma definição cultural de comportamentos
socialmente definidos como aceitáveis em um determinado lugar
e época, se dá por meio da movimentação dos corpos e dos
comportamentos e ações dos personagens. Os conflitos presentes na
trama são provenientes do acirramento entre diferentes territórios,

n54: Neonarrativas de escravidão: memória e representação nas literaturas contemporâneas


culturas e as tensões entre sexo e gênero. Além disso, o romance
retrata a completa transformação da protagonista, que passa a se
perceber como mulher negra. A transformação da subjetividade de
Tituba é desenvolvida por meio da rejeição – mesmo que parcial –
de normas e convenções impostas às mulheres, visto que “alcançar a
igualdade de direitos é converter-se em um ser humano pleno e cheio
de possibilidades e oportunidades, além de sua condição de raça e de
gênero. Esse é o sentido final dessa luta” (Carneiro, 2019, p. 320).
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A representação identitária da protagonista do romance


condeniano ressalta os diferentes obstáculos impostos, como: o
racismo e a xenofobia, a violência contra a mulher, a perseguição e

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a falta de acesso à justiça e aos direitos básicos por parte da população
negra. Os múltiplos deslocamentos feitos pela personagem ao longo
de sua vida exigem que ela reconstrua seu lugar em outro espaço.
Essa reconstrução necessariamente implica em um processo de
reconfiguração identitária, no qual Tituba torna-se, pouco a pouco,
uma mulher independente, emancipada e dona de suas próprias
decisões. Chama a atenção o fato de que Tituba detém uma identidade
fronteiriça. Essa identidade ressalta que a experiência da diáspora
não revela somente o trânsito entre nações ou territórios, mas
também marca a ausência de um ponto de destino, remetendo a um
constante estado de deriva, que representa um devir sempre adiado.
A narrativa de Tituba é fortemente permeada pelo hibridismo, e a
personagem encontra-se inserida num entrelugar entre diferentes
culturas, identidades, espacialidades e temporalidades. Esse fato
demonstra seu constante tráfego entre a cultura branca e a negra,
entre a região de Barbados e as colônias inglesas da América. Esta
identidade destaca a complexa e, por vezes, dificultosa relação

n54: Neonarrativas de escravidão: memória e representação nas literaturas contemporâneas


do sujeito diaspórico com sua terra natal e reafirma o fato de a
construção – ou uma reconfiguração – identitária sempre ocorrer
por meio dos contínuos deslocamentos entre espaços afetivos,
discursivos, geográficos e identitários.
Angela Davis (2009), no prefácio da edição inglesa do romance
condeniano, afirma que a vingança impulsionou e resultou na
criação da personagem. Apesar disso, Maryse Condé permitiu que
a personagem fosse livre e tivesse a oportunidade de se reinventar.
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Apesar de Tituba ser a “personificação da figura feminina inferiorizada,


que historicamente sofreu e sofre todas as formas possíveis (às
vezes, também as inusitadas) de preconceito” (Corrêa, 2014, p. 192-

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193), ela mostra-se uma mulher comum, detentora de angústias,
desejos e sonhos. A apropriação e recriação feita por Condé resgata
Tituba das “margens da história estadunidense, permitindo que a
personagem ganhe voz e passe de objeto a sujeito de uma narrativa
que atravessa fronteiras geográficas, temporais e literárias” (Harris,
2016, p. 68). A narrativa escrita em primeira pessoa, que alude a
uma autobiografia, dramatiza, de forma poderosa e contundente,
o ciclo de violência que marca a região caribenha e foi investigada
por teóricos como: Carole Boyce Davies (2003, 2010), Édouard
Glissant (2005) e Stuart Hall (2013). Os processos de subjetivação e
construção identitária que marcam o romance comprovam o fato de
que as identidades não são fixas e imutáveis. Devido às constantes
mudanças e variações, elas vêm se apresentando cada vez mais
como fragmentadas e fraturadas.
Nas palavras de Edward Said (2011, p. 270), esse impulso
revisionista enfrenta a “cultura metropolitana, utilizando as
técnicas, discursos e armas do saber e da crítica antes reservados

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só aos europeus”. Essa argumentação propõe uma nova maneira de
enxergarmos a história sem nos atermos a uma visão única dos fatos;
além disso, demonstra como a experiência humana é diversificada
e multicultural. À luz dessas questões, o romance de Maryse Condé
mostra-se como um relevante instrumento para explorar, por meio de
diferentes ângulos, as lacunas e silenciamentos presentes na história
oficial. A narrativa condeniana incorpora o contexto estadunidense,
juntamente com uma visão do Caribe, para retratar uma história da
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escravidão, do genocídio, da violência física e das formas de oposição


e resistência frente a essas situações.

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