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#Nitro

Ândrica Thorine, uma jovem de Mónaco, sente-se deslocada em sua vida e busca se afirmar em um mundo dominado por estereótipos de gênero, especialmente em relação à sua paixão por mecânica e carros. Durante uma missa, ela é puxada para uma aventura noturna com seu melhor amigo Bruce, que a leva a um racha ilegal, onde ela se sente viva e livre. A narrativa explora sua luta interna entre as expectativas familiares e sua verdadeira identidade, enquanto ela se encanta por um misterioso motorista que a observa.

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#Nitro

Ândrica Thorine, uma jovem de Mónaco, sente-se deslocada em sua vida e busca se afirmar em um mundo dominado por estereótipos de gênero, especialmente em relação à sua paixão por mecânica e carros. Durante uma missa, ela é puxada para uma aventura noturna com seu melhor amigo Bruce, que a leva a um racha ilegal, onde ela se sente viva e livre. A narrativa explora sua luta interna entre as expectativas familiares e sua verdadeira identidade, enquanto ela se encanta por um misterioso motorista que a observa.

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Normalmente eu só seguiria meus pais para dentro da igreja e imitaria

seus gestos e referências, mas minha mente ficaria vagando por algum outro
lugar fora dali. Porém como hoje não era um dia comum resolvi prestar atenção
a um carro preto, cujo motor estava roncando baixo e suave, aquilo me chamou
atenção, não que isso fosse normal para uma garota, mas eu não sou uma
garota normal. Eis o porquê de meus pais acharem que eu fui trocada na
maternidade ou algo assim... Meus atos não condiziam muito bem com o que
eles esperavam de uma menina da minha idade e ainda mais vindo da filha
deles.

Meu nome é Ândrica Thorine ou Drica, sou de Mónaco, um


principado soberano situado ao sul da França, uma cidade realmente linda se
você quiser explorar, mas esse não é meu caso... Eu, por acaso, sou meio que
forçada a ficar em casa e estudar em todo o meu possível tempo livre para
passar nas minhas provas de definição de carreira, e nas minhas aulas de
direção, qualquer um que esteja com 18 anos incompletos e em seu último
período do colegial é predestinado a fazer isso.

Mesmo estudando em um colégio apropriado para quem quer fazer


essas coisas e ser bem-sucedido na vida, sinto que às vezes não me encaixo,
quero dizer, me dou bem com todos, mas não sou muito boa em criar vínculos
com pessoas que possivelmente vão me esfaquear assim que eu der as
costas; é mais ou menos assim que a roleta roda no Franklin Inst. E como já
suspeitam, eu tenho um melhor amigo, mas não preciso de mais ninguém além
dele, é claro. Bruce Chang é um menino alto e musculoso, cabelos entre uma
cor de mel e a oliva, e pele caucasiana, eu diria que Bruce teria chamado
minha atenção de primeira, assim como fazia com as garotas de todo o colégio,
se eu não o conhecesse desde que usávamos fraudas, e o fato de sermos
meio vizinhos também se aplica aqui. O fato de eu andar com mais meninos do
que meninas também era visto com outros olhos pelas pessoas que não
estavam acostumadas, praticamente meninos são mais legais e sinceros, disso
não tenho dúvidas, eles esclarecem logo e o que querem e o que pensam, e
podem até ensinar alguma coisa para você sobre carros ou esportes. O tempo
que passo com Bruce me deu isso como prova, e os amigos dele que viraram
colegas para mim, também confirmam essa teoria.
Mas como a vida era cruel demais, aqui estava eu, dentro do
estacionamento da igreja, olhando um carro preto, tentando ver sua marca para
associá-lo à alguma série de motores novos que mais tarde iria pedir para
Bruce me mostrar outro modelo. Minha prova de direção tinha acontecido no
estacionamento de um estádio onde aconteciam as maiores corridas da cidade,
e tenho bastante certeza que fiz tudo certo, logo só queria ter um bom carro,
que pudesse correr e impressionar, mas enquanto isso... ficava admirando o
grande fluxo de carros da cidade fingindo ser um catálogo em 3D. Mamãe
chamou minha atenção pelo que eu acho de ser a sétima ou oitava vez, virei
meu rosto para encará-la.

- Terra para Drica! Vamos querida, a missa já vai começar.

Com um aceno, a segui para dentro da igreja e fiquei flutuando entre


cada desenho de anjos e estrelas no céu até a hora de ir embora, tudo que eu
queria era chegar em casa e começar a estudar a parte de eletricidade e
mecânica automotivas, apesar de a única pessoa a me apoiar nessa minha
escolha de carreira ser o Bruce, eu não ligava muito, queria mais seguir esse
rumo e quando fosse milionária, esfregar na cara de quem disse que eu não
iria conseguir que eu estava simplesmente milionária. Certo que a escolha não
agradou nem um pouco os meus pais ou a qualquer um que eu conversasse
por mais de 15 minutos para descobrir que eu queria mexer com mecânica e
construir carros, isso é tremendamente estranho para qualquer garota e
intimidador para os garotos.

Quando a missa terminou, o que levou aproximadamente algumas boas


duas ou três horas, e também por conta de meus pais não pararem de
conversar com as outras pessoas frequentadoras da igreja, fomos para casa.
Chegar em casa era como um alívio, mesmo com uma noite tão bonita lá fora,
deitar-me, procurar e ler um pouco sobre aquele modelo de carro de hoje mais
cedo é reconfortante. Mas tudo que é bom, dura pouco.

Toc, toc, toc. Os barulhos de pedrinhas sendo atiradas na minha janela


faziam o som ecoar por todo o meu quarto, o que é irritante, mas eu sabia que
a única pessoa que faz isso era Bruce, jogando as benditas pedrinhas da sua
varanda que dá para frente da minha.
– Espera só um pouco, já estou indo! – Vesti um moletom por cima da
camisa fina e coloquei um short de ginástica que estava no chão. Bruce estava
tentando me encontrar no meio das sombras do meu quarto, cobrindo os olhos
com as mãos.

Fui para a claridade que era jogada do poste da rua para a minha
varanda. – O que é Bruce? Acabei de chegar! Estava indo dormir! – Bruce, que
parecia mais que ia algum tipo de festa de halloween, vestido de preto da
cabeça aos pés, começou a falar:

– Passei só para perguntar se você não ia querer sair, sabe, hoje é


sábado. – Como se eu estivesse realmente esperando que ele fosse falar isso,
seu olhar era de quem não se importava com as regras e que me arrastaria de
qualquer maneira, mesmo se eu dissesse “não”.

– Para onde você vai vestido assim? – Estávamos no meio de


novembro, o halloween já havia passado há muito tempo. – E sabe que horas
são? Meus pais vão me matar se eu sair, Bruce! – Sussurrei, virando para olhar
a porta.

Como eu disse, Bruce raramente ouve os que as pessoas falam, fez um


sinal para me afastar da varanda e como se fosse um acrobata pulou para
dentro do meu quarto, dizendo: – Hoje é sábado, acho bom você se vestir de
modo discreto, porque nós vamos dar um volta e nos divertir! Afinal, quando foi
a última vez que você saiu? – Decidi ignorar a pergunta e fui ao meu closet
atrás de roupas pretas, quando Bruce bisbilhotava a nossa página de carros
favorita no meu computador. Depois de alguns minutos, trocada de roupa,
passei perfume e voltei ao quarto.

– Ok, agora que já estou vestida apropriadamente para o evento, me diz,


para onde nós vamos? – Perguntei com um leve toque de desconfiança. Bruce
me olhou com cara de surpresa e balançou a cabeça em direção ao meu
vestido tubinho preto. – Vá se trocar, vamos, não temos muito tempo!

– Mas, eu já estou pronta! O que mais você quer que eu faça? –


Olhando meus pés para ver o que tinha de errado.
– Fala sério que você vai usar isso Drica! Quer que eu morra tentando te
esconder das pessoas? Que droga, vai logo se trocar! – Ele quase gritou.
Quase.

Ok! Agora eu não entendi, Bruce sempre foi como um irmão para mim e
eu uma irmã para ele, sempre foi assim, mas odiava a postura que ele tinha de
irmão mais velho quando me via vestir roupas que eram curtas ou decotadas,
esse era um dos pequenos motivos pelos quais meus pais ainda achassem
Bruce aceitável. Isso me irritava. E muito mais quando ele fala coisas do tipo
“Quer que eu morra tentando te esconder das pessoas?”. Fala sério! Eu sou
apenas uma garota de 17 anos e 1,55 de altura, de corpo meio magro em
algumas partes e em outras cheias demais, que tem cabelos longos e negros
como a noite, mas quando estão no sol ficam castanhos claros, e olhos que de
desenhos animados japoneses, e comecei a fazer natação há apenas um mês,
mal comecei a definir o meu corpo! Cara, às vezes o Bruce passa da conta.
Mas, vi que isso nos causaria um atraso a sei lá onde iriamos a essa hora da
noite, mais resolvi não questionar mais, coloquei um short preto batido, uma
regata preta e minha botas de hipismo que, aliás, parei de fazer um mês após
ter começado, quando descobri que estava assada por conta da minha coxa
roçando na cela.

Quando reapareci no quarto, Bruce olhou para mim, balançou a cabeça


frustrado, mas ainda sim não falou mais nada. Como nos velhos tempos, ele
me guiou para fora, na minha varanda, e me guiou a pular para a varanda dele,
como mil vezes antes, quando fugíamos, para ir a festas à noite, ou só ficar
olhando o céu deitados na estrada em cima do carro, ou na praia. Descemos
pela grade que separava as nossas casas e fui atrás de Bruce andando para o
carro. Entramos, e logo ele ligou o som, uma de nossas músicas favoritas
tocava bem alto no sistema de som de seu Toyota azul petróleo, o sistema que
eu mesma construí, e ajudei a instalar com Bruce em uma tarde de domingo,
logo depois de algumas aulas de eletricidade.

Enquanto “My life be like” do Grintz tocava, estávamos cada vez mais
nos afastando da cidade, passado pelos cruzamentos, estradas que interligam
a outras cidades, e o ponto mais afastado da cidade, o aeroporto. Só podia ter
uma coisa que poderíamos fazer às uma e quinze da manhã de um domingo
nessa estrada cheia de curvas e asfalto liso.

Corridas ilegais, mais conhecidos como rachas. Bruce sabia que teria
um hoje, êis o porquê de não me deixar usar o vestido e ter de usar a cor preta,
para camuflar. Já tínhamos ouvido falar dos rachas que aconteciam em
Mónaco, mas nunca tínhamos visto alguém falando abertamente sobre isso, ou
pessoas que estivessem envolvidas em um. Nossa cidade é muito grande, e
muito populosa, qualquer um com um carro potente poderia começar um racha,
com um simples pisar no acelerador e o levantar de um rolo de dinheiro.

Estacionamos não muito longe de onde estavam os carros que iriam


competir, havia vários, muitos deles coloridos, com luzes fortes, neons e
xênons, todos devidamente equipados para suportar até uma das maiores
batidas, e claro muitas meninas se esfregando em caras com bebidas nas
mãos e música latina bem alta. Olhei para Bruce em busca de uma resposta, a
única que obtive foi um aperto do meu ombro e um braço apoiado sobre a
minha cintura. É. Ele continuava me protegendo, mesmo eu não precisando.
Soltei de seu apoio, e seu olhar veio diretamente para mim. Agora sim
estávamos nos entendendo.

– Escuta, eu não te trouxe aqui para nada, sei que nós estávamos
esperando isso já tem meses, porque temos essa paixão por carros,
velocidade, e coisas de garotos, mas Drica, aqui não é como nas pistas
normais que vamos de dia com os nossos amigos ou família, aqui a coisa pode
ficar séria de um segundo para o outro. Então, por favor, só me deixa fazer
isso, se não, voltamos agora! –. De novo, eu não respondi, simplesmente fiquei
de costas para Bruce, dançando sozinha no ritmo do swing latino, perto de um
Luxor prateado com desenhos azuis que pareciam 3D, quando senti uma mão
me meu cotovelo. Virei para dizer a Bruce que não iria fazer nada, quando
congelei alguns segundos.

Um cara todo de preto como o resto das pessoas, estava encostado do


lado de um carro preto que eu não saberia dizer o nome, porque era o mesmo
carro que tinha visto pela tarde no estacionamento da igreja. Aquele carro
estava ronronando baixinho ao meu lado.
– Você está bem? – Ao ouvir isso congelei novamente e me virei para
olhar para o cara, que tinha uns 23 para 24 anos, barba por fazer, músculos
sobressaltando a blusa preta de gola V e cabelo alla modelos masculinos da
Calvin Klein, pele bronzeada, quadris estreitos, cara de anjo, lábios carnudos...
– Você está bem? Estou começando a ficar preocupado. – Ele falou
novamente, mas eu estava ocupada demais, suspostamente passando o raio-X
nele para disfarçar.

– Estou. Só não gostei muito dessa música... – Cara, eu disse isso


mesmo? Queria me espancar!

– Ah, essas músicas realmente não são boas, supostamente deveriam


tocar um pouco de tudo, mas é a maioria que vence. – Ele pareceu distraído
com alguma coisa, e voltou o foco para mim. – Nunca te vi por aqui, quer dizer,
você tem idade para estar aqui? – Falou olhando ao redor, como se esperasse
que algum responsável viesse me rebocar por falar com um estranho.

É galera, duas vezes na mesma noite vou repetir o meu mantra, tudo
que é bom dura pouco. – Não vejo nenhuma placa simbolizando a entrada ou
saída por conta de idade de ninguém aqui, a não ser a marcação de giz no
asfalto para a corrida diga alguma coisa sobre isso. – Rebati, ficando irritada.
Logo eu, que já uma pessoa bem “calminha”.

Quando ouvi um ronco alto de motor e me virei para ver um Chevy


totalmente tunado, logo atrás um jaguar igualmente tunado, e uns tantos outros
importados na mesma direção. A corrida iria começar, tinha que achar o Bruce.
Em menos de um segundo pensando no capeta, Bruce veio correndo na minha
direção saindo das sombras, com cara de quem estava encrencado.

– Até que enfim te encontrei, porra Drica! Onde você estava? Tem noção
de quanta gente tem aqui? Que merda, vamos! Temos de subir a colina para
ver melhor os carros! –. Sem nem mesmo ver o que eu estava fazendo ou com
quem eu quem estava falando, Bruce começou a me puxar na direção oposta
do lado que estávamos. Virei-me rapidamente para olhar para trás, o cara
ainda estava lá, encostado tranquilamente em seu carro, me encarando, dando
tempo o suficiente para ouvi-lo dizer, “Até logo, Drica.” Ou pelo menos foi o que
eu acho que ouvi, mas tenho certeza de que ele falou algo.

Minhas pernas já estavam cansadas, quando finalmente paramos em


um local na colina que não tinha muita gente e dava para ver a pista e o seu
alongamento por milhas à frente. Ouvimos o som de um disparo, e vários
roncos de motores explodiram abafando o som da música latina, eles
passavam tão rápidos que mal dava para distinguir quem era quem, e o vento
de poeira que levantaram fez uma enorme sombra atrás na pista. Esse é um
dos momentos que toda garota deveria viver, o vento batendo forte na noite
fria, assistindo carros turbinados correndo ilegalmente, dava uma ótima
sensação, a de ser livre! Menos de 40 segundos depois eles já tinham dado a
volta e agora seria a hora do primeiro que cruzar a linha levasse uma bolada de
dinheiro e mais alguns bônus. O carro que estava bem a frente na disputa, era
um carro preto, que eu não saberia dizer a marca, porque não a conhecia,
quando me dei conta de podia não conhecer a sua marca, mas conhecia e
tinha detalhes bem definidos de quem o estava dirigindo.

Após o carro preto ter vencido o racha, Bruce me segurou nos braços e
andou comigo todo o caminho até o carro, quando me abaixou e me colocou no
banco. Levando-nos para casa, muito eletrizada pela noite que tinha
presenciado, virei para Bruce e falei:

– Olha, sei que fui uma tola hoje mais cedo, mas, mesmo assim,
obrigada, quero dizer, pela noite, por me fazer essa surpresa, sei que mesmo
depois de eu ter desistido de procurar por informações de rachas pela cidade,
você continuou, e ainda me carregou no colo! Obrigada, mesmo. – Eu disse,
ficando a cada palavra mais boba com a felicidade com que elas foram
tomando.

Bruce desviou o olhar da estrada rapidamente, e voltou a olhá-la


falando. – Eu que digo obrigada, por me divertir, estressar, e mesmo assim, no
final fazer parte dessa noite incrível para nós! Minha mini irmã. – Falou com um
sorriso brincando no canto da boca. Ele tentou falar sério, mas já estava
ironizando novamente. Sabia que estava tudo bem.
Chegamos às nossas casas por volta das quatro e meia, não teríamos
muito tempo para dormir se nossos pais inventassem de fazer algo cedo, então
nos despedimos rapidamente, e cada um subiu para sua varanda. Depois de
tomar um banho e vestir roupas limpas, fui me deitar, parando apenas para
desejar boa noite para Bruce e agradecê-lo de novo em uma mensagem.

“Não tem de quê Drica, te vejo na escola amanhã?”

“Aqui está, Bruce sendo Bruce e fazendo minhas vontades, como um


irmão urso! Claro! Aula de automação!”

“Sua boba! Vai dormir logo!”

“Seu babão, já estou dormindo!”

Depois pensei em apenas alguns carros e revisei alguns afazeres


mentalmente para o amanhã, que seria segunda. E me permiti pensar, no cara
irresistível e no carro não identificado nem por mim e nem por Bruce.

A semana passou voando diante de mim, e dos meninos. Estávamos


perto demais de nossa formatura, todo e qualquer curso de verão à vista no
nosso ramo seria disputado sem piedade. Estudar na Franklin era sinônimo de
que ou seus pais guardaram bastante grana para você, ou você tinha recebido
bolsas estudantis para o colegial, que no meu caso não é nem um e nem outro,
estudo lá somente por uma questão de dívidas entre os meus pais e a escola,
que o meu pai livrou de um processo gigantesco, de um menino de ter sido
acusado de racismo por uma secretária. Então tinha de estar bem atenta à
todas as oportunidades para me garantir na faculdade.

Logo teria de escolher o meu curso no requerimento da faculdade, e sei


que não estarei sozinha, Bruce vai fazer o mesmo que eu. Então isso nos
garante mais tempo juntos, como sempre. Além de ser quinta, hoje é o
segundo dia da semana que tenho treino de natação, então tentei tirar tudo o
que tinha na mente e me concentrar na minha boa forma. E algumas horas
nadando, realmente pode fazer a diferença na sua mente quando está uma
bagunça. A menos, é claro, quando um monte de garotas entra gritando no
vestiário segurando o que devia ser um jornal, ou um pedaço específico de
uma matéria de um jornal. Uma delas falou mais alto que as outras e puxou o
papel da outras.

– Me deem aqui que eu irei ler! Atenção! – “O filho do governador Watys


está de volta à cidade, trazendo consigo a sua mais nova criação, seu protótipo
de carro de corrida feito todo a mão pelo jovem engenheiro e sua equipe”. –
Continue lendo! – Gritou uma delas. Mas não precisou de muito para chamar
minha atenção, a partir do momento que alguém constrói seu próprio carro,
essa pessoa tem minha admiração e respeito. “Tudo indica, de que ele voltou à
cidade não só em busca de apoio para lançar e detalhar seu mais novo projeto,
assim como em busca de uma namorada, informou uma fonte extraoficial do
governador Watys. Rodrick Watys está em Mónaco, vamos ajudá-lo meninas?”

Com certeza, era a reportagem mais boba que eu já havia ouvido, porém
não deixei de me interessar, e não era de um jornal oficial, era um pequeno
jornal local de nossa comunidade colegial, mas mesmo assim, quando queriam
jogar bombas e indiretas o pessoal do jornal eram os primeiros a estarem lá. As
meninas, aos poucos foram saindo do vestiário, e uma última deixou o recorte
em um dos bancos, quando me aproximei para pegá-lo. A roupa que o rapaz
usava era idêntica a de quando o tinha visto, porém agora estava com a barba
feita, suas feições ainda eram de quem estava com raiva, mesmo que na
fotografia e ao seu lado um senhor, uma versão mais velha do rapaz vestido de
preto, porém de um terno cinza, os dois estavam em uma colagem de fotos
com uma terceira imagem, nela havia um carro preto, sem placa e nem marca.
O carro preto sem identificação. Rodrick Watys.

Após chegar ao estacionamento, corri para o Toyota azul petróleo de


Bruce. Ele estava ouvindo os habituais raps, abri a porta do passageiro e me
sentei, ele pareceu ter percebido a minha euforia e levantou uma de suas
sobrancelhas em questionamento. Entreguei-lhe a nota do jornal estudantil, e
ele percebeu o que aquilo era.

– Onde você conseguiu isso? – Olhando para mim como se eu estivesse


acabado de assaltar um banco.
– Algumas meninas entraram no vestiário com isso, e depois de lerem o
artigo em voz alta, esqueceram de pega-lo lá dentro. Você o conhece? –.

– Sim, ele estudava aqui, antes de ir à Alemanha e inventar esses


protótipos idiotas, você deve lembrar que tive algumas brigas com ele, mas
agora já estamos bem resolvidos. –.

Percebi certa tensão no rosto de Bruce, mas não o perturbei até antes
de chegar em casa. – Bruce? –.

– Sim? – Monossílabo interessante.

– Mas como vocês brigaram se ele é quase seis anos mais velho que
nós? Você só tem 18, e ele aparenta ter pelo menos 23. Como foi isso? –.

Bruce se contraiu na defensiva, e sugestivamente abriu a porta do carro,


fazendo com que eu o imitasse, não olhou muito para mim quando me
respondeu, mas pelo seu tom, não era algo que quisesse compartilhar. –
Apenas, agora não ok? –.

A sua evasão era algo novo para mim, Bruce que sempre estava
disposto a passar todo o tempo que estivesse à disposição comigo, que
sempre me aconselhava, ou queria me ajudar, nesse momento estava fugindo
de mim e era algo que eu, com certeza queria saber. – Ok, me avise quando
quiser conversar, ou fazer algo. – Falando um pouco mais alto que o normal.
Virei-me e andei até em casa, sentindo o olhar de Bruce perfurar as minhas
costas. Algo não estava bem, Rodrick tinha acabado de chegar à cidade, como
o recorte informava, e antes de eu mencioná-lo estava tudo normal, depois
disso, Bruce parece não passar de uma pessoa monossilábica. Só me resta
observar, e procurar o que aconteceu, mesmo que não seja Bruce a me contar.

– Mãe, vou à biblioteca! – Gritei enquanto saia pela porta da frente, sem
esperar alguma resposta. O carro de Bruce ainda estava no mesmo lugar do
dia anterior, mesmo já tendo se passado metade de sexta-feira, virei
rapidamente e segui na direção oposta, indo à parada de ônibus. Pegar um
ônibus e ir à biblioteca da cidade era a única ideia que me ocorria para procurar
sobre o que aconteceu entre os dois meninos, mas e quando eu chegasse lá?
Como iria procurar por isso? Não muito distante da parada, um carro preto se
aproximava, minha respiração parou quando me dei conta de que carro era
aquele e quem o dirigia. A menos de 10 metros de mim, o carro parou, tinha
certeza de que não podia me mexer, pois o motorista iria perceber que eu
estava dando meia volta.

– Você precisa de ajuda? – Uma voz vinda de dentro do carro soou mais
próximo de mim. Não havia percebido que ele estava tão perto. – Não, estou
bem aqui. – Murmurei quase inaudível. Rodrick encostou o carro na passagem
de pedestres e saiu dele, andando em minha direção. – Sério que você parece
bem aqui? Parece mais que você está perdida. – Suspirei, mas uma ideia veio
à minha mente. Se ele queria jogar, eu não sabia, mas eu, com certeza iria
jogar com ele. – Então, o que você faz por aqui? – Perguntei para dar algum
crédito sobre as futuras respostas que obteria.

– Eu moro não muito longe, estava dando uma volta, respirar ar fresco, e
você, o que faz por aqui? – Evitei a pergunta com outra pergunta.

– Me desculpe, mas acho que não fomos devidamente apresentados,


me chamo Ândrica, qual é o seu nome? –.

– Realmente, me desculpe me chamo Rodrick Ways, mas me chamam


de Rod, fique à vontade. Então o que faz por aqui? – Olhei para ele com
desconfiança, antes de continuar tendo a leve impressão de que ele já sabia
que eu sabia dessas informações, talvez pensasse que eu havia associado o
nome de seu pai com o dele, mas não consegui desviar da pergunta repetida.

– Estava passeando pela vizinhança, ar fresco também. – Parei de falar,


e percebi que estava olhando fixamente para os faróis do carro dele. Quando o
vi murmurar: – O que é tão interessante para você olhar tão direto? – Falou
com o um sorriso no canto da boca. Mesmo antes de pensar em uma resposta,
lembrei-me de Bruce, e o jeito que ele fazia aquilo com o canto da boca.
Parecia até que os dois tinham combinado de sorrir desse mesmo jeito.

– Os faróis do seu carro, e o seu carro, não me lembro de ter visto esse
modelo em canto algum. – Falei com inocência, sabia que ele mesmo o tinha
construído, mas quem quer jogar tem que começar por baixo. Deixá-lo se
vangloriar um pouco iria me ajudar mais tarde. Sim, eu sei ser suja quando eu
quero. Ele sorriu antes de me responder. Bingo. – Não o viu, porque eu o
construí depois que deixei a cidade há algum tempo, e bem, passo a maior
parte do tempo me dedicando a esse lado, mais do que as finanças que gasto
com a construção dele. – Agora sim, estávamos chegando a algum lugar.

– Então Rod, você deixou a cidade, porque o fez? Só para construir esse
lindo carro? – Elogiar também conta muito para conseguir o que você quer,
acredite.

– Mais ou menos, quero dizer, a maior parte sim, mas também quis
deixar um pouco essa cidade, motivos pessoais. – Estava mais do que na cara
que ele não iria me dizer, claro, se eu encontrasse uma pessoa na rua e só a
tivesse visto uma vez na vida e trocado menos de cinco frases com ela, eu não
sairia revelando meus segredos. Obvio né Drica! Dã!

Sentindo que o clima havia ficado pesado, resolvi que não era uma boa
hora para ficar papeando mais com “Rod”, e decidi começar uma despedida
breve, para que eu pudesse voltar para casa e tomar um par de aspirinas,
pensar demais havia me causado danos e com poucas horas de sono após
descobrir que Bruce havia ficado chateado com algo que eu não sabia o que
era, havia me resultado nisso. – Bom, espero que você consiga o que quer
Rod, te vejo por aí. – Começando a me afastar, mais chateada ainda por que
eu havia admitido que eu não havia conseguido o que eu queria.

– Aliás, o que você estava fazendo naquele racha? Não consegui te


encontrar depois que você foi arrastada por aquele sujeito, Bruce. – OOOOPA!
O que foi isso!? Como se não tivesse escutado minha despedida, ele abordou
um assunto que realmente me fez virar para olhá-lo, essa sim, merecia alguma
resposta minha. Porém ele também me assustou. Como ele se lembra do dia
do racha? E como diabos ele sabe o nome de Bruce? Estou realmente
começando a questionar a minha relação com Bruce sobre ele me contar as
coisas.
– Eu fui ao racha, por que o Bruce me levou, era algo que eu realmente
queria ver desde que soube que Mónaco era a capital dos rachas ilegais. E
como você sabe que aquele “sujeito” se chama Bruce? –. Ótima Drica, você
deu muita informação e recebeu pouquíssima, você é brilhante. Meu humor
estava começando a caçoar de mim. Quando ouvi uma resposta.

– Você não parece muito que vai a rachas, estava dançando sozinha na
frente de um carro, e com música ruim. - Ele começou a sorrir um sorriso que
mostrava os dentes, claramente se divertindo. – E eu o conheço do colégio
Franklin. Ele era do primeiro ano enquanto eu estava me formando.

PUTA MERDA! Ele só era três anos mais velho que eu? Realmente eu era
péssima para palpites de idade. E além de não saber mais o que perguntar,
porque o que para ele era algo simples, para Bruce era irritante. – Hm, e não
vou mesmo, prefiro ficar a sós, construindo as coisas que eu gosto. E, aliás,
Bruce nunca me falou de você, e eu praticamente cresci no Franklin e não me
lembro de ter visto você por lá.

– Eu não era muito popular vamos dizer assim, e Bruce, bom, não sei
por que nunca me falou de você também..., mas, você disse que constrói
coisas, que coisas? –. O tom dele pareceu de real interesse, mas não podia
mais olhar para ele e nem falar com ele. Mas decidi lhe dar só uma parcela das
coisas que construí, ele me perguntou se poderia me acompanhar até em casa,
indo para o seu carro e estacionando ele para que pudesse me seguir, fiz um
gesto que confirmou que poderíamos ir, enquanto eu andava de volta para
minha casa, fui lhe mostrando o quanto sabia e ele também me contava coisas
sobre ele e as corridas que tinha participado na Alemanha e em nossa cidade.
Estava começando a achá-lo interessante. Muito.

Parte 02 – Bruce.

Eu a vi chegando em sua casa no final da tarde, acompanhada. Dele.


Naquele momento me vi pulando pela varanda dela para que eu pudesse
assustá-la quando chegasse em seu quarto, porém se eu pulasse agora eles
me veriam. Drica parou na entrada da garagem da casa dela, olhando tanto
para Rodrick que suspeitei que ele estaria com uma minhoca saindo pelo nariz,
mas não, ela estava sorrindo também. Droga, ela nunca sorri assim, só quando
está comigo, eu a conheço tão bem! Puxei a cortina da minha janela e fui em
direção à cozinha, parando para perguntar a minha mãe onde estavam os
analgésicos. Peguei um par deles e um copo com água, e os tomei de uma
vez, voltei para o meu quarto e deitei na minha cama, esperando o remédio
fazer efeito, para tirar aquela imagem de Rodrick fazendo Drica rir, e bem na
frente da casa dela! Estava ficando com ódio dele, mal ela sabia o idiota que
ele era, e ela estava conversando com ele! Quando o sono chegou não me
incomodei em pensar em mais nada e só ficar à deriva, flutuando.

“- Bruce desça aqui! – Gritou minha mãe para mim, já era a terceira vez
que ela me chamava e eu resistia o quanto fosse possível para não ter que
descer e encontrá-la na nossa sala de estar junto de suas amigas, no que elas
chamavam de hora do chá semanal. Até que ouvi a porta da frente bater e
soube que elas já haviam ido embora e resolvi descer. Um degrau de cada vez,
ouvindo a voz da minha mãe sussurrar da cozinha, ela não estava sozinha.
Mas a voz da outra pessoa era uma voz que eu reconhecia, era muito parecida
com a voz de Drica, porém com um tom de autoridade e experiência, sua mãe.
Elas conversavam baixinho encostadas no balcão segurando suas xícaras.

- Eu não sei mais o que eu faça Jasmim, tenho quase certeza que Juan
sabe que Drica não é sua filha, não consigo mentir por muito mais tempo, e
ainda tem Drica! Ela nem sonha com isso! – A mãe de Drica estava com a voz
estrangulada. Sabia que não poderia ouvir aquilo, era algo pessoal demais,
mas eu sou o melhor amigo de Drica, sempre dividimos tudo, em lealdade a ela
continuei ouvindo. – Uma hora eu sei que ela vai descobrir, mas eu não podia
deixar de me casar com Juan, ele era tudo que eu queria e naquela despedida
antes do nosso casamento eu encontrei aquele canalha na festa e meses
depois soube que estava grávida! Juan pensava que o bebê seria dele e eu
não o contradisse, simplesmente segui! –.

Naquele momento tive certeza de que eu não deveria estar ali, mas elas
estavam falando da minha melhor amiga! Não poderia deixar nada de ruim
acontecer a ela! Tínhamos uma promessa! E saber que Drica não era filha de
seu pai, doeu tanto em mim, era como se ela estivesse acreditando todo esse
tempo em uma mentira. Mas não poderia contar a ela, como se contar isso?
“Hei Drica, você não é filha do seu pai ok? Porque sua mãe antes de casar-se
com seu pai, deu uma rapidinha com um cara e você é filha dele.” Que ótimo.

– Mas você ao menos já tentou entrar em contato com o pai de Drica,


Lize? – Minha mãe falou em uma voz suave, como se estivesse perto de
encontrar uma solução para sua amiga. – Não, mas eu estava atrás dele, iria
entrar em contato com ele assim que ela completasse 18 anos, mas agora não
tem muito jeito, vou esperar mais um tempo, o outro filho dele chegou à cidade
há alguns dias, me aproximar agora não seria bom para nenhum dos dois –.

Decidi que se ouvisse mais estaria traindo Drica, por que iria saber algo
dela que nem mesmo ela sabia, e não poderia lhe contar isso. Corri para o meu
quarto, com aquela conversa flutuando em minha cabeça.”

Acordei, de novo suando frio, havia se passado uma semana desde que
levei Drica para o racha, e desde que ouvi a conversa no mesmo dia mais
cedo. Queria poder dar a ela algo que pudesse se divertir sem mesmo saber o
porquê, talvez fosse eu quem precisava de algo para se distrair. Mas não
adiantou muito, ela havia sumido dois minutos da minha frente e quando a
encontrei ela estava conversando com um sujeito que nem de perto eu
gostava, seu nome era Rodrick, mas todos o chamavam de Rod, desde o
tempo do colégio, onde era paparicado por ser filho de um político, e por um
momento, se não a conhecesse bem diria que eu estava olhando para gêmeos,
Rodrick era magro, mas com certeza fazia academia, estava com os músculos
grandes, e Drica ao seu lado com um corpo de uma verdadeira atleta, sem
defeitos e definido, os dois tinham o cabelo da mesma cor e o mesmo tom de
pele. Droga. O fragmento da conversa daquele dia mais cedo dançou na frente
de meus olhos. “O filho dele chegou à cidade há alguns dias”. Droga de novo,
Rodrick era o bastardo irmão de Drica? Até que a conexão da conversa e da
situação foi feita. Naquele momento tudo que eu senti era raiva dela estar
conversando com ele sem nem ao menos saber quem ele era. Filho da... Argh!
Pelo menos quando chegamos ao carro ela havia revelado que tinha se
divertido comigo, e que eu era o melhor meio irmão. Mal ela sabia o que eu
tinha ouvido. Quis abraçá-la, mas estaria me entregando.

Passou quase uma semana, nos víamos quase em todas as aulas, mas
quase não nos falávamos, não iria contar a ela, mas estava determinado a não
deixar que ficasse sozinha para conversar com ele. Estava a esperando depois
do treino de natação na quinta, quando ela entrou no carro extasiada com algo,
e lhe questionei com a sobrancelha, ela me entregou um pequeno pedaço de
papel, era uma entrevista feita pelo jornal do campus, e o assunto era sobre
Rodrick, que merda. Li e a olhei de volta, sentia raiva, mas tentei me controlar,
enquanto ela falava que era o máximo que alguém construísse o próprio carro.
Balancei a cabeça nas horas certas e quando chegamos a casa, ela me parou
e perguntou o que havia de errado comigo, logo após ela citar Rodrick, e eu a
disse que não era nada. Que merda, deveria ter dito a ela o que tinha ouvido,
mas ela acharia que eu tinha sonhado. Diria que era mais uma das minhas
estórias para descontrair. Ela se virou em foi embora, enquanto eu a fiquei
olhando, partir.

No dia seguinte não consegui ir à aula, tramando um jeito de fazê-la


entender o que eu tinha ouvido sem que se assustasse, mas eu não sabia
como! Sei que no colégio ela estaria segura, pois ele já havia se formado, há
dois anos antes de nós, assim como deveria ter me formado ano passado, mas
eu repeti um ano do ginásio, para ficar na mesma sala de Drica, quando um dia
a vi chorando perto da cerca da nossa varanda, e perguntei o que havia
acontecido, e ela tinha me dito que não conseguia fazer a tarefa de ciências.
Eu pulei para sua varanda e a ajudei a fazer a tarefa em seu quarto, eu vi o
quanto ela se esforçava para entender o que eu dizia, e o quão era
determinada para aprender. Passei a ir todas as tardes para o seu quarto
ajudá-la nas tarefas, quando decidi que iria fazer aquilo por ela. Sim, e eu fiz.
Desde então raramente nos separávamos, e os poucos namoradinhos que ela
teve, eu os afastei, para que eu a pudesse ter só para mim. Senti-me tão
egoísta, mas naquele tempo parecia certo, cuidar dela, ensinar a ela coisas
que não entendia e tê-la só para mim.
Então a vi chegar a sua casa acompanhada dele, já tinham se passado
algumas horas desde que isso acontecera e eu havia sonhado de novo com
aquela maldita conversa entre as nossas mães. Tudo que eu queria era ir de
encontro a ela e fazê-la sorrir, com qualquer piada estúpida que eu sabia.
Precisava cuidar da minha meia irmã. Joguei algumas pedrinhas em sua
janela, quando a vi, ela estava com a mesma roupa de antes, e já estava
abrindo a janela para eu poder passar.

Quando eu passei, ela me puxou para um abraço e me falou:

– Hei, senti a sua falta hoje, você não foi à aula, e quando fui vê-lo sua
mãe disse que estava dormindo, está tudo bem? – Ela falou de um jeito manso
e inocente, se eu não a conhecesse, saberia que aquilo era real, mas ela
estava jogando comigo. Drica tinha um jeito próprio de abordagem quando
queria algo, percebi isso muito cedo quando nos conhecemos.

– Estava cansado, precisava de uma folga, você deve ter passado na


hora que eu estava apagado com os analgésicos, e o que você quer? Sei que
você está jogando comigo, pode parar. – Quando terminei de falar, ela me
olhou como um gato que fora pego tentando agarrar o peixinho do aquário.
Comecei rir, pela sua expressão desconfiada. Ela virou-se e voltou com um
pequeno envelope negro e me entregou. Não olhei para seus olhos, algo me
dizia que eu não iria gostar. Abri o envelope e dentro tinha dois convites para
um racha que iria ter em duas semanas, depois da corrida iria ter uma festa de
comemoração privada, estávamos sendo convidados.

– Uma pessoa me entregou isso hoje mais cedo, eu disse que não iria
sem você, então ganhei dois, você não precisa ir se não quiser, mas eu irei. –
Ela falou em um tom sério. Estava claro que quem deu os ingressos a ela.
Rodrick estava por trás disso.

– Eu irei. – Foi tudo o que eu disse a ela, pegando meu ingresso e


saindo pela varanda. Não iria deixar ele sequer chegar perto dela, não comigo
vivo.


Duas semanas se passam arrastando quando você quer algo. Sorte a
minha que eu mantinha um olho em Drica, que estava sempre perto de mim,
tantos nas aulas e no almoço. A Franklin era uma escola bem grande, onde
quase todos eram bem afortunados, um termo cujo eu odiava. E Drica parecia
perceber o quanto eu estava agoniado com alguma coisa, chegando a
perguntar várias vezes se eu estava bem, ou se precisava de algo. Esse
definitivamente não era eu.

Na sexta, faltando um dia para o evento, estávamos no meu carro


voltando para casa depois de um longo dia fazendo nossas provas finais do
colégio, Drica ficou o caminho todo calada. Suspeitava que quando
entrássemos na nossa rua ela finalmente me diria no que estava pensando.
Dito e feito. Ela pigarreou um pouco e falou em uma voz suave, que nem sua
mãe fazia às vezes quando fazíamos algo errado.

– Você ainda vai comigo amanhã, não é? – Ela perguntou com uma
leve suspeita na voz. Eu apenas confirmei balançando a cabeça, então ela
tentou de novo. – Estou aliviada, pensei que iria que ter de ir sozinha, meus
pais ainda não me deram o carro e não há ninguém que eu realmente conheça
lá, além de Rod –. Ao dizer aquilo, senti minha pulsação nos meus ouvidos.
Ela havia falado com Rodrick essa semana? Quando foi a última vez em que
conversaram? Porque eu estava ficando tão puto com isso? Droga. – Quando
você falou com Rodrick? – Perguntei em um tom seco, o que a fez se encolher.

– Algumas horas atrás. – Mas ela não saiu do meu lado! Ah, merda, o
celular! Ela não parou de mexer nele um segundo sequer. Aliás, ela não parava
de mexer em seu celular havia dias, e eu me toquei somente nesse momento
disso. E perguntei já com o sangue fervendo. – E há quanto tempo vocês se
falam? – Falei sufocando. Eu tinha de protegê-la e eu não estava fazendo isso
direito!

– Bem, tem algumas semanas, desde o dia que ele me trouxe para casa
e me deu os ingressos. – Ela estava olhando fixo pra mim como se eu fosse
explodir com essas informações, o tempo que eu passava ao lado dela não foi
o suficiente para ela ficar longe dele, porque ela nunca esteve de fato longe
dele, sempre se falando ao telefone. Queria me espancar por isso. Tentei não
deixar mais transparecer minhas emoções enquanto ela falava de como
iriamos chegar à noite do racha, apenas fiquei confirmando enquanto ela falava
as instruções. A partir daquela noite Rodrick Watys nunca mais iria chegar
perto de Drica Thorine.

O sábado havia chego, e Drica tinha saído como de costume com seus
pais para ir à igreja, tive tempo de lavar o meu carro, escolher minhas roupas e
avisar a minha mãe que iria levar Drica para sair depois que ela chegasse à
noite. Não demorou muito para que ela chegasse e me mandasse uma
mensagem.

“Quando eu chegar em casa, espere pelo sinal na sua varanda, para que
eu possa sair.”

“Ok, estarei de vigília.”

“Hei, mais uma coisa.”

“Fale.”

“Eu te adoro, não se esqueça disso.”

“Idem.”

Nossa breve conversa me deu um momento de alívio, ainda não havia


perdido a minha menina. E estava disposto a levá-la e esfregar na cara de
Rodrick que eu conheço Drica melhor do que ele e que ela é minha.

Algumas horas mais tarde ouvi as pedrinhas que atirava sendo atiradas
de volta na janela da minha varanda, era o sinal. Drica estava toda de preto,
igual da última vez que saímos a essa hora da noite para ir ao seu primeiro
racha, porém hoje estava de calças jeans e uma T-shirt. Afastei-me um pouco
para que ela pudesse aterrissar sem problemas, e a vi pular. Quando ela ficou
firme veio me deu um abraço apertado e um beijo na bochecha, essa com
certeza não era a minha menina, a Drica que eu conhecia apenas me daria um
soco no ombro e depois ficaria emburrada, mas em seguida riria de alguma
piada que fiz. Peguei sua mão e a conduzi para fora, abri a porta do carro para
que ela pudesse entrar e dei a volta, ela colocou “Many Man” do 50cent para
tocar, e ficou cantando a música junto com o vocalista, esse seria mais um
flash das tantas noites que fugimos e passamos a madrugada fora olhando o
céu de qualquer canto, falando besteiras.

Após alguns minutos chegamos ao local onde aconteceria a corrida, era


um local igualmente afastado de fronteiras e da cidade. Era algum tipo de
propriedade privada, Drica saiu do carro sem nem mesmo saber se tínhamos
vindo ao lugar certo. E foi de encontro a um galpão onde dava para ouvir
músicas latinas abafadas. Entramos depois de nos identificarmos e
apresentarmos os ingressos para uma menina que não aparentava ter mais de
16 anos com cabelos azuis e maquiagem exagerada. Assim que passamos
pela entrada, mais duas meninas vieram com bandejas nos servir, elas usavam
apenas biquínis, sei que o tempo estava quente, mas aquilo era um exagero.
Assim como Drica peguei um dos copos neons de uma das bandejas e dei um
gole, o gosto era de limão, mas ao fundo dava para sentir que havia vodca,
segui Drica para um das cadeiras altas de um bar improvisado do lado
esquerdo do galpão comprido. Ela sentou-se ao meu lado quando se virou e
falou alto ao pé do meu ouvido que iria dançar. Concordei e fiquei observando-
a se misturar com as pessoas que dançavam loucamente na pista, apenas
levantando brevemente do meu banco para ver se ela ainda estava ali no
mesmo lugar.

Após sentar-me de novo pelo que pareceu a sexta vez depois de ver
Drica, senti um leve puxão na manga da minha camisa e me virei para olhar
uma loura olhando para mim com ar de quem não esperava me encontrar em
um local como aquele. Mas eu já a conhecia, ela era da minha antiga turma de
amigos, antes de eu repetir o ano na escola. Seu nome era Jenny, ela era o
que os meninos chamavam de “alvo-fácil”, tinha o corpo de uma deusa e
cabelos louros e longos como os da Rapunzel, mas infelizmente ela não valia
as coisas que tinha, antes de se formar havia passado o rodo em todo o
colégio. Ela se aproximou mais de mim e colocou a boca no pé da minha
orelha e disse:
– Ora, ora, o que o cavalheiro Bruce faz aqui? Pensei que você não
assistia mais os rachas depois que a jovem Drica cresceu. – O jeito que ela
falou de Drica me fez sentir enjoado, pedi mais um dose ao barman, e apenas
olhei para ela sem nenhuma resposta. – Oh, vejo que você não mudou muito
quando se fala dela não é mesmo? Ela está por aqui, não é? -.

Institivamente meus olhos voaram para onde Drica estava dançando


sozinha na pista, e Jenny também a olhou. – Ela está bem grandinha, já se
passou um ano desde que não a vejo. – Ela pediu uma bebida do balcão e
sentou no lugar onde Drica estava. – Então Bruce, porque você está aqui e ela
está lá? Não me diga que vocês brigaram. – Ela sorriu maliciosamente para
mim. Mas não lhe dei resposta alguma. Esse jogo estava me cansando.

– Olha Jenny, é realmente bom te ver, e não, Drica me pediu para vir
aqui, se não fosse por ela estaria em casa dormindo, você sabe que somos
melhores amigos e da promessa que fizemos, sabe que onde ela estiver eu
estarei. Simples assim. Pare com esse interrogatório. – Me senti um pouco
melhor, Jenny era uma vaca e todo mundo sabia disso, apenas nunca gostei
de papear com ela. Mas tudo que é bom, dura pouco.

– Aposto que ela não deixa você dançar, por isso está aqui sozinho. –
Ela continuou a me provocar, sabia que ela queria ver o quanto eu era
supostamente comandado por Drica, o que era mentira. Sem falar muito
levantei mais um dedo para o barman, que me deu outra bebida e a virei em
um gole só, puxei Jenny para pista e disse. – Era isso que você queria? Agora
conseguiu. – Falei alto para ela me ouvir.

Drica não estava muito longe de mim, eu ainda podia vê-la, e Jenny
estava dançando comigo, espera, se esfregando em mim era o termo mais
apropriado. Se foram duas músicas e eu já sentia vontade de me sentar, o
efeito do álcool estava começando a aparecer, mas Jenny me impediu, me
permiti olhar mais uma vez para onde Drica estava, senti o sangue sumir de
minhas veias, ela não estava mais lá. Olhei ao redor desesperado, empurrei
Jenny que bateu em um cara e ele a puxou para ele, me dando a oportunidade
de ir procurar Drica.
Um som de contagem regressiva estava tocando nos alto falantes junto
com a música, e eu me lembrei da corrida. Droga. Não me senti tão
desesperado assim havia anos desde que eu soube que meus pais iriam se
separar. Procurei Drica enquanto a contagem ainda soava, fui até o balcão e
perguntei ao barman se ele havia visto a menina que tinha chegado comigo na
festa, ele disse que a viu sair em direção a uma porta com grade de ferro que
estava atrás do palco onde o DJ tocava. Sem esperar muito passei correndo
pelos corpos das pessoas suadas que dançavam na batida da música levando
alguns empurrões, cheguei ao palco e comecei a rodeá-lo para chegar a tal
porta. Eu vi o seu brilho assim que cheguei ao corredor estreito que ficava atrás
do palco.

A grade que sobrepunha a porta estava aberta, e a porta também, mas


estava com problemas na fechadura, com um chute nela, consegui fazer com
que se abrisse e eu passei, um corredor mal iluminado com goteiras e
infiltrações se seguia por uns três metros antes de chegar a outra porta,
igualmente danificada, dando mais um chute irrompi pela passagem para o
interior, o que deveria ser o resto do galpão abandonado, ele estava cheio de
equipamentos de carros, maquinas suspensórias, e todo aparato para se
construir ou concertar carros. Fui andando entre os fios, minha mão suava
enquanto procurava por Drica e seja lá quem a trouxe aqui. Ouvi um barulho e
uma risada baixa, cambaleei um pouco por conta das bebidas e da tensão que
eu estava. Uma luz estava ligada ao fundo da câmera, corri para lá, quando a
vi.

Drica estava sentada no capô de um carro esporte azul turquesa, que


parecia ser uma BMW, e Rodrick segurando suas mãos, aos pés deles haviam
garrafas azuis de nitro cheias, os dois se viraram para mim, estavam de olhos
arregalados, quando me dei conta de que havia gritado o nome dela. Não havia
mais porque esperar, aquele era o momento perfeito para lhe contar o que eu
sabia e ainda desmascarar o queridinho do Rodrick. Como em uma enxurrada
eu falei.

– Esse sujeito não é quem você pensa que é Drica! Fique longe dele! –
Ela instantaneamente se afastou de Rodrick e soltou às mãos dele, ele ficou no
mesmo lugar. – Você pode não saber, mas ele é o culpado de você não saber
toda a verdade! –.

A essa altura não tinha mais como voltar, Drica estava assustada, nunca
tinha me visto bêbado, e ela não fazia ideia do que eu estava falando. Resolvi
acabar logo com isso. – Drica, você não é quem pensa que é. Você não é filha
de seu pai. Você ainda não sacou? Você não é nem um pouco parecida com a
sua família, é porque você não tem o gene deles. – Certo, admito que não saiu
como eu pensei que sairia. Mas aquilo teve um puta efeito.

– Que merda você está falando? Você bebeu muito, está alucinado
Bruce! – Gritou Rodrick espumando para mim. – Cale a sua boca! – Que otário.

– Eu não vou me calar, porque a merda já está feita! –.

– Do que você está falando porra? – Gritou Rodrick chegando mais perto
de mim.

– DRICA É SUA IRMÃ! ESSA É A PORRA! – Depois que falei isso,


parece que o silêncio havia se instalado no galpão, o único som que dava para
ouvir era o roncar dos carros lá fora saindo em disparada na corrida.

Olhei para Drica, ela estava imóvel, parecia que ia desmaiar, eu sabia
que ela não iria, ela já tinha provado muito mais vezes que era bem mais forte
do que eu. Mas mesmo assim Rodrick foi ao encontro dela e a segurou pelos
ombros. Como um burro que sou, comecei a andar na direção deles. Quando
tudo se apagou.

Parte 03 – Drica.

– “Drica, vamos, está quase na hora!” – Gritava a minha mãe enquanto


nos arrumávamos para ir à igreja em um sábado, quando paramos em frente a
um espelho e eu notei que o meu rosto era idêntico ao da minha mãe, porém
meus cabelos eram de um castanho mais escuro do que o céu à meia noite, e
que nenhum dos meus pais tinha aquela cor de cabelo, nem o tom da minha
pele, eu era mais alta que a minha mãe, e tinha um corpo atlético, mais uma
vez me peguei pensando nessas características que não condiziam com a
minha família.-“Mãe, porque eu sou diferente da senhora ou do papai?” –
Lembro-me tão bem de minha inocência ao perguntar isso a ela, mas sua
resposta foi tão vaga! – “Porque você ainda está em fase de crescimento, meu
anjo, logo você irá se parecer conosco”.

Eu sabia que Bruce estava diferente comigo, sabia que era por conta de
Rod, e estava disposta a fazer os dois se entenderem no dia do racha.

Assim que chegamos disse à Bruce que iria dançar, sabia que ele
estava me vigiando o tempo inteiro, até que uma de suas amigas e ex-aluna da
Franklin o colocou em uma conversa, vi que ele estava ficando com raiva, ao
levantar-se ele a puxou para a pista, e eles começaram a dançar, logo no
começo da nova música senti uma mão em meu ombro e me virei para encarar
Rod, dei-lhe um sorriso e senti que ele me puxava para uma área isolada, atrás
do palco havia uma porta com uma grade enferrujada na frente. Passamos por
ela e por um curto corredor, quando ouvi a sua voz.

– Eu não trago quase ninguém aqui, por ter materiais que eu não teria
como explicar como consegui e por não querer dividi-los. – Sua voz estava
rouca por haver passado tanto tempo sem falar nada. Ele se se encostou ao
capô de uma BMW azul turquesa, rodas de liga leve e freios ABS, havia
também garrafas de nitro pelos cantos da sala mal iluminada, parecia ser como
uma oficina para carros de corrida, com materiais para reposições e para
velocidade. Tudo ali se encaixava com o que Rod havia dito sobre como
construía seus carros. Percebi que sua risada era leve e que sempre mantinha
o foco de seus olhos nos meus. Não havia se passado nem meia hora quando
um grito irrompeu pela sala, após um segundo percebi que era o meu nome
que tinha sido gritado, e então Bruce estava parado ao lado de um carro prata
que estava na direção da porta por onde entramos.

Ele estava com a aparência de um bêbado, o corpo estava todo suado e


suas mãos tremiam. Ele estava parado diante de nós com o olhar fixo em
minhas mãos, quando percebi que eu e Rod estávamos de mãos dadas. O
silencio estava tão extenso que quando falou sua voz parecia amplificada.
– Ele não é quem você pensa que é Drica! E nem você é quem pensa
que é! Afaste-se dele, agora! – Bruce estava me assustando, o álcool deveria
estar fazendo o efeito agora, não estava falando coisa com coisa, mas desfiz
rapidamente nossas mãos dadas e fiquei entre Bruce e Rod, não dando a
opção de nenhum dos dois tomar partido.

– O que você está dizendo Bruce? Ficou louco! – Gritei de volta a ele. –
Mas que porra é essa? – Gritou Rod depois de mim. – O que você pensa que
está dizendo Bruce? –.

– DRICA É SUA IRMÃ! ESSA É A PORRA! – Essas foram às exatas


palavras que fizeram meu coração parar. Logo após Bruce ter falado aquilo, me
deu vontade de vomitar. Senti minha cabeça pulsar, senti uma onda de
náuseas e câimbras pelo meu corpo. Bruce estava bêbado, eu nunca o via
assim, mas sei quando falava a verdade, eu sabia por que ele não olhava nos
olhos. Sabia tão bem disso que não havia como esconder, ele estava olhando
para o chão em sua frente. Quando Rod se moveu tão rápido que nem o vi
passar para segurar Bruce que desmaiou.

Suas palavras ficaram fazendo eco em minha mente, eu via o que


estava acontecendo, mas não conseguia me mexer. Vi o álcool derrubar Bruce,
logo após Rod o segurando, ouvi o som dos carros fazendo a terceira volta da
corrida, a batida da música eletrônica tocando no galpão, de pessoas
conversando, e principalmente meu coração em meus ouvidos. Tudo que é
bom, dura pouco.

Mas, eu sabia, soube desde o momento em que mamãe dizia que eu


ainda estava em fase de crescimento, mas que isso nem de perto fez com que
eu ficasse mais parecida com ela ou com papai. Soube quando mencionei Rod
para Bruce, quando Rod perguntou se o meu pai era realmente meu pai
quando viu as nossas fotos, quando notei que o tom de nossa pele era
semelhante, assim como o jeito que sorrimos, ou quando ele acelera o carro,
como se soubesse a vontade de pisar no acelerador que tenho, como a cor do
nosso cabelo, tudo fazia sentido para mim, apenas ignorava os fatos.
Rod parecia mais incrédulo do que eu, estava pálido como uma folha e
com Bruce em seus braços parecia não entender que aquilo realmente tinha
acontecido. Toda aquela tensão de Bruce quanto à Rod fazia sentido, toda
aversão dele. Ele estava tentando me manter afastada de algo que não era
bom para mim, tentando me deixar no escuro. E eu querendo que ele e Rod se
aproximassem. Que idiota eu fui.

Sem palavras Rod levantou Bruce e começou a levá-lo para fora da sala,
eu o segui sem saber o que fazer, a corrida já tinha acabado e estavam todos
do lado de fora para receber o vencedor. Passamos por todos e fomos à lateral
do galpão, onde o carro de Bruce estava estacionado, Rod pegou as chaves e
destravou o alarme, abriu a porta traseira e colocou Bruce deitado e a fechou.
Virou-se para mim e me perguntou olhando para o chão.

– Você acha que o que ele falou é verdade? – Aquilo me deu arrepios,
com Bruce apagado não seria possível descobrir até que estivéssemos em
casa com ele lúcido, não sabia de onde tinha surgido aquilo, mas Bruce sabia
de mais coisas, mentira não estava no DNA dele, ele tinha que me responder
assim que acordasse.

– Uma coisa eu sei, Bruce não estava mentindo. Ele não olha para a
pessoa quando conta uma verdade sobre ela. – Essa foi à única resposta
coerente que encontrei para Rod naquele momento.

– Quer dizer então que alguém está escondendo algo de nós, se o que
ele falou é verdade, nós somos irmãos. – Olhei para Rod que estava de cabeça
baixa olhando pelo vidro do carro de Bruce. Resolvi não falar mais nada,
apenas observá-lo. Ele pegou seu celular e discou um número, falou que
precisaria da pessoa em um lugar cerca de daqui há uma hora, então falou
meu endereço e desligou.

– Entre no carro, vou te levar para casa. – Assim que ele falou isso não
me senti tão à vontade. Voltar para aquele lugar sabendo que você era
enganada não era algo que eu quisesse agora. Mas entrei no carro e ficamos
em silêncio enquanto ele dirigia em direção a minha casa. Olhei algumas vezes
para trás em busca de algum sinal de vida de Bruce, mas o único retorno que
tinha era sua respiração estável.

Quando chegamos em frente a casa de Bruce, Rod desligou o motor, e


me ajudou com as chaves da casa de Bruce, subimos as escadas o mais
silenciosamente que podíamos e o colocamos em sua cama, e depois
descemos para o jardim da casa de Bruce.

– Sei que não era isso que esperávamos hoje a noite, foi uma grande
notícia, não sei se tanto para você quanto para mim, mas isso me assustou
bastante, não sei o que você está pensando agora, mas você deveria pensar
um pouco sobre o que ele falou hoje lá no galpão, e perguntar como ele soube
de tudo isso, quer dizer, como não pudemos saber de algo que Bruce sabe?!
Entende? – Com isso Rod foi abaixando o tom da sua voz, perdido em
pensamentos, eu estava igualmente perdida, mas teria que resolver tudo isso
somente quando Bruce acordasse.

– Sei que isso tudo é loucura, não sei nem por onde começar, mas vou
tentar falar com Bruce quando estiver de pé amanhã, sei que ele irá me contar
agora que já começou, enquanto isso quero te pedir duas coisas. – Fui falando
com suavidade, esperando que ele aceitasse o meu pedido.

– Sim, pode pedir. – Ele falou tão sem dúvidas ou desconfiança que
suspeitei que ele realmente estivesse ouvindo o que eu estava falando. – Eu
quero que você mantenha segredo do que aconteceu hoje, de tudo, até que eu
tenha certeza do que aconteceu. – Ele concordou levemente olhando para o
céu atrás da árvore na frente da casa de Bruce. – E a outra é que você não
apareça mais por aqui, ou me encontre em qualquer lugar, eu falo sério
Rodrick, eu vou entrar em contato com você para lhe contar das coisas quando
eu souber, mas espero que não haja mais contato entre nós.

Isso o fez virar o rosto para mim, com os olhos arregalados, cheios de
confusão, por termos uma coisa tão grande entre nós e ao mesmo tempo eu
não querer compartilhar isso com ele. Eu acho que estava certo, aquele era o
momento em que eu queria ficar sozinha, para pensar nas coisas. Minha
cabeça estava em um turbilhão de coisas, tudo que eu queria agora era
descansar um pouco de depois tomar as decisões que precisariam ser
tomadas. O silêncio tomou conta de nossa conversa, a madrugada estava
silenciosa, quando ouvimos um zumbido de carro aproximando-se, os faróis
estavam com a luz fraca, quando ele parou perto de nós e a porta da frente
abriu-se, Rod entrou sem nenhuma palavra e com isso o carro seguiu em
frente.

Fiquei mais alguns minutos ali parada, pegando a garoa que descia,
criando coragem para ir para casa com tantas coisas me cercando, com uma
vida de mentira no meu passado. Subi pela grade de samambaias da varanda
de Bruce para pular para a minha, do jeito que estava deitei na cama e sem
nem pensar duas vezes deixei o restante do álcool me invadir, então adormeci.

A vida tem um jeito estranho de te passar informações às vezes, e às


vezes a mensagem ainda chega codificada. A vida é uma puta irritada.

A primeira coisa que pensei foi que estava sonhando, a porcaria de um


sonho confuso, nublado e acelerado. Até eu tentar abrir os olhos e perceber
que estavam pesados demais e que a minha boca estava com um gosto
estranho, minha roupa apertava de um jeito que nenhum pijama deveria fazer e
meus braços igualmente mortos quando tentei levantá-los para tirar o pijama. O
que diabos estava acontecendo comigo?

Os primeiros pensamentos foram inúteis para tentar lembrar o que tinha


acontecido comigo e como eu fiquei gripada tão rápido. Então um primeiro flash
do meu sonho passou na minha cabeça, um Bruce bêbado e um Rodrick
calado entrando em um carro indo para longe. Eu preciso seriamente de
Xanax. Quando tentei levantar senti um braço se mexer por cima da minha
cabeça, tudo começou a rodar. Segundo pensamento: preciso vomitar. Apenas
colocando a cabeça para fora da cama foi tudo o que eu consegui antes de
colocar para fora tudo o que eu comi ontem e mais alguma coisa. Uma mão
segurando meus cabelos para trás enquanto eu seriamente fazia a limpeza no
meu estômago.
Quando finalmente senti o enjoou diminuir, respirei fundo e me virei para
olhar quem era que estava me segurando, e dei um sorriso meio enjoado
quando vi que Bruce estava me segurando e me dando espaço para vomitar
mais se precisasse. Quando levantei o polegar para sinalizar que estava O.K.
ele lentamente me puxou de volta à cama. Bruce parecia não ter dormido por
um tempo, havia bolsas embaixo de seus olhos, fiquei me perguntando o que
havia acontecido com ele e suspostamente comigo.

– Quando você passou pela varanda? – Foi tudo que consegui dizer
antes de sentir uma onda de enjoou voltando, fechei os olhos e respirei fundo
novamente, quando ele falou:

– Depois da festa, eu acordei ainda de madrugada e estava totalmente


vestido, então vim te dar uma conferida. Não lembro muito bem como
chegamos, mas parece tudo dentro do normal. – Ele falou com a voz rouca.
Então vagos flashs de uma festa e de um racha passaram na minha cabeça,
como um vídeo em loop, mas nada muito além, até esse mesmo loop estava
um pouco embaçado e escurecido.

– Acho que acabei de saber porque eu vomitei, se você não tivesse


falado, acho que eu nem lembraria dessa festa, não lembro de nada além de
um loop infinito da contagem para a corrida começar e estar dançando em um
galpão. E você? – Perguntei na esperança de que Bruce soubesse mais
apenas para não me sentir culpada de ter passado a noite com ele e não estar
lembrando que tivemos um bom tempo.

– Para falar a verdade, eu também não lembro de muito mais. Não


lembro nem se vimos quem venceu a corrida, mas estamos aqui e não vejo
nada quebrado, então acho que passamos no quesito segurança. – Rimos
meio tontos pelos dois não lembrarem de nada até mesmo de como chegamos
em casa. Pelo menos não estávamos com encrencas.

– Você tem certeza que não se lembra de mais nada? – Perguntei


tentando ajustar as coisas na minha cabeça. – Porque eu realmente queria
saber que carro ganhou aquela corrida, uma droga que eu não lembre de nada.
– Hm. Eu realmente estou por fora. – Ele falou fazendo uma cara
pensativa.

– Então vamos comer alguma coisa e ver alguns analgésicos, não sei se
vou conseguir fazer muita coisa hoje me sentindo como um espantalho, dura e
malvestida. Te encontro daqui a pouco para terminar o projeto? – Falei na
esperança de tentar salvar o dia e não terminar com uma ressaca ainda pior.

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