#Nitro
#Nitro
seus gestos e referências, mas minha mente ficaria vagando por algum outro
lugar fora dali. Porém como hoje não era um dia comum resolvi prestar atenção
a um carro preto, cujo motor estava roncando baixo e suave, aquilo me chamou
atenção, não que isso fosse normal para uma garota, mas eu não sou uma
garota normal. Eis o porquê de meus pais acharem que eu fui trocada na
maternidade ou algo assim... Meus atos não condiziam muito bem com o que
eles esperavam de uma menina da minha idade e ainda mais vindo da filha
deles.
Fui para a claridade que era jogada do poste da rua para a minha
varanda. – O que é Bruce? Acabei de chegar! Estava indo dormir! – Bruce, que
parecia mais que ia algum tipo de festa de halloween, vestido de preto da
cabeça aos pés, começou a falar:
Ok! Agora eu não entendi, Bruce sempre foi como um irmão para mim e
eu uma irmã para ele, sempre foi assim, mas odiava a postura que ele tinha de
irmão mais velho quando me via vestir roupas que eram curtas ou decotadas,
esse era um dos pequenos motivos pelos quais meus pais ainda achassem
Bruce aceitável. Isso me irritava. E muito mais quando ele fala coisas do tipo
“Quer que eu morra tentando te esconder das pessoas?”. Fala sério! Eu sou
apenas uma garota de 17 anos e 1,55 de altura, de corpo meio magro em
algumas partes e em outras cheias demais, que tem cabelos longos e negros
como a noite, mas quando estão no sol ficam castanhos claros, e olhos que de
desenhos animados japoneses, e comecei a fazer natação há apenas um mês,
mal comecei a definir o meu corpo! Cara, às vezes o Bruce passa da conta.
Mas, vi que isso nos causaria um atraso a sei lá onde iriamos a essa hora da
noite, mais resolvi não questionar mais, coloquei um short preto batido, uma
regata preta e minha botas de hipismo que, aliás, parei de fazer um mês após
ter começado, quando descobri que estava assada por conta da minha coxa
roçando na cela.
Enquanto “My life be like” do Grintz tocava, estávamos cada vez mais
nos afastando da cidade, passado pelos cruzamentos, estradas que interligam
a outras cidades, e o ponto mais afastado da cidade, o aeroporto. Só podia ter
uma coisa que poderíamos fazer às uma e quinze da manhã de um domingo
nessa estrada cheia de curvas e asfalto liso.
Corridas ilegais, mais conhecidos como rachas. Bruce sabia que teria
um hoje, êis o porquê de não me deixar usar o vestido e ter de usar a cor preta,
para camuflar. Já tínhamos ouvido falar dos rachas que aconteciam em
Mónaco, mas nunca tínhamos visto alguém falando abertamente sobre isso, ou
pessoas que estivessem envolvidas em um. Nossa cidade é muito grande, e
muito populosa, qualquer um com um carro potente poderia começar um racha,
com um simples pisar no acelerador e o levantar de um rolo de dinheiro.
– Escuta, eu não te trouxe aqui para nada, sei que nós estávamos
esperando isso já tem meses, porque temos essa paixão por carros,
velocidade, e coisas de garotos, mas Drica, aqui não é como nas pistas
normais que vamos de dia com os nossos amigos ou família, aqui a coisa pode
ficar séria de um segundo para o outro. Então, por favor, só me deixa fazer
isso, se não, voltamos agora! –. De novo, eu não respondi, simplesmente fiquei
de costas para Bruce, dançando sozinha no ritmo do swing latino, perto de um
Luxor prateado com desenhos azuis que pareciam 3D, quando senti uma mão
me meu cotovelo. Virei para dizer a Bruce que não iria fazer nada, quando
congelei alguns segundos.
É galera, duas vezes na mesma noite vou repetir o meu mantra, tudo
que é bom dura pouco. – Não vejo nenhuma placa simbolizando a entrada ou
saída por conta de idade de ninguém aqui, a não ser a marcação de giz no
asfalto para a corrida diga alguma coisa sobre isso. – Rebati, ficando irritada.
Logo eu, que já uma pessoa bem “calminha”.
– Até que enfim te encontrei, porra Drica! Onde você estava? Tem noção
de quanta gente tem aqui? Que merda, vamos! Temos de subir a colina para
ver melhor os carros! –. Sem nem mesmo ver o que eu estava fazendo ou com
quem eu quem estava falando, Bruce começou a me puxar na direção oposta
do lado que estávamos. Virei-me rapidamente para olhar para trás, o cara
ainda estava lá, encostado tranquilamente em seu carro, me encarando, dando
tempo o suficiente para ouvi-lo dizer, “Até logo, Drica.” Ou pelo menos foi o que
eu acho que ouvi, mas tenho certeza de que ele falou algo.
Após o carro preto ter vencido o racha, Bruce me segurou nos braços e
andou comigo todo o caminho até o carro, quando me abaixou e me colocou no
banco. Levando-nos para casa, muito eletrizada pela noite que tinha
presenciado, virei para Bruce e falei:
– Olha, sei que fui uma tola hoje mais cedo, mas, mesmo assim,
obrigada, quero dizer, pela noite, por me fazer essa surpresa, sei que mesmo
depois de eu ter desistido de procurar por informações de rachas pela cidade,
você continuou, e ainda me carregou no colo! Obrigada, mesmo. – Eu disse,
ficando a cada palavra mais boba com a felicidade com que elas foram
tomando.
Com certeza, era a reportagem mais boba que eu já havia ouvido, porém
não deixei de me interessar, e não era de um jornal oficial, era um pequeno
jornal local de nossa comunidade colegial, mas mesmo assim, quando queriam
jogar bombas e indiretas o pessoal do jornal eram os primeiros a estarem lá. As
meninas, aos poucos foram saindo do vestiário, e uma última deixou o recorte
em um dos bancos, quando me aproximei para pegá-lo. A roupa que o rapaz
usava era idêntica a de quando o tinha visto, porém agora estava com a barba
feita, suas feições ainda eram de quem estava com raiva, mesmo que na
fotografia e ao seu lado um senhor, uma versão mais velha do rapaz vestido de
preto, porém de um terno cinza, os dois estavam em uma colagem de fotos
com uma terceira imagem, nela havia um carro preto, sem placa e nem marca.
O carro preto sem identificação. Rodrick Watys.
Percebi certa tensão no rosto de Bruce, mas não o perturbei até antes
de chegar em casa. – Bruce? –.
– Mas como vocês brigaram se ele é quase seis anos mais velho que
nós? Você só tem 18, e ele aparenta ter pelo menos 23. Como foi isso? –.
A sua evasão era algo novo para mim, Bruce que sempre estava
disposto a passar todo o tempo que estivesse à disposição comigo, que
sempre me aconselhava, ou queria me ajudar, nesse momento estava fugindo
de mim e era algo que eu, com certeza queria saber. – Ok, me avise quando
quiser conversar, ou fazer algo. – Falando um pouco mais alto que o normal.
Virei-me e andei até em casa, sentindo o olhar de Bruce perfurar as minhas
costas. Algo não estava bem, Rodrick tinha acabado de chegar à cidade, como
o recorte informava, e antes de eu mencioná-lo estava tudo normal, depois
disso, Bruce parece não passar de uma pessoa monossilábica. Só me resta
observar, e procurar o que aconteceu, mesmo que não seja Bruce a me contar.
– Mãe, vou à biblioteca! – Gritei enquanto saia pela porta da frente, sem
esperar alguma resposta. O carro de Bruce ainda estava no mesmo lugar do
dia anterior, mesmo já tendo se passado metade de sexta-feira, virei
rapidamente e segui na direção oposta, indo à parada de ônibus. Pegar um
ônibus e ir à biblioteca da cidade era a única ideia que me ocorria para procurar
sobre o que aconteceu entre os dois meninos, mas e quando eu chegasse lá?
Como iria procurar por isso? Não muito distante da parada, um carro preto se
aproximava, minha respiração parou quando me dei conta de que carro era
aquele e quem o dirigia. A menos de 10 metros de mim, o carro parou, tinha
certeza de que não podia me mexer, pois o motorista iria perceber que eu
estava dando meia volta.
– Você precisa de ajuda? – Uma voz vinda de dentro do carro soou mais
próximo de mim. Não havia percebido que ele estava tão perto. – Não, estou
bem aqui. – Murmurei quase inaudível. Rodrick encostou o carro na passagem
de pedestres e saiu dele, andando em minha direção. – Sério que você parece
bem aqui? Parece mais que você está perdida. – Suspirei, mas uma ideia veio
à minha mente. Se ele queria jogar, eu não sabia, mas eu, com certeza iria
jogar com ele. – Então, o que você faz por aqui? – Perguntei para dar algum
crédito sobre as futuras respostas que obteria.
– Eu moro não muito longe, estava dando uma volta, respirar ar fresco, e
você, o que faz por aqui? – Evitei a pergunta com outra pergunta.
– Os faróis do seu carro, e o seu carro, não me lembro de ter visto esse
modelo em canto algum. – Falei com inocência, sabia que ele mesmo o tinha
construído, mas quem quer jogar tem que começar por baixo. Deixá-lo se
vangloriar um pouco iria me ajudar mais tarde. Sim, eu sei ser suja quando eu
quero. Ele sorriu antes de me responder. Bingo. – Não o viu, porque eu o
construí depois que deixei a cidade há algum tempo, e bem, passo a maior
parte do tempo me dedicando a esse lado, mais do que as finanças que gasto
com a construção dele. – Agora sim, estávamos chegando a algum lugar.
– Então Rod, você deixou a cidade, porque o fez? Só para construir esse
lindo carro? – Elogiar também conta muito para conseguir o que você quer,
acredite.
– Mais ou menos, quero dizer, a maior parte sim, mas também quis
deixar um pouco essa cidade, motivos pessoais. – Estava mais do que na cara
que ele não iria me dizer, claro, se eu encontrasse uma pessoa na rua e só a
tivesse visto uma vez na vida e trocado menos de cinco frases com ela, eu não
sairia revelando meus segredos. Obvio né Drica! Dã!
Sentindo que o clima havia ficado pesado, resolvi que não era uma boa
hora para ficar papeando mais com “Rod”, e decidi começar uma despedida
breve, para que eu pudesse voltar para casa e tomar um par de aspirinas,
pensar demais havia me causado danos e com poucas horas de sono após
descobrir que Bruce havia ficado chateado com algo que eu não sabia o que
era, havia me resultado nisso. – Bom, espero que você consiga o que quer
Rod, te vejo por aí. – Começando a me afastar, mais chateada ainda por que
eu havia admitido que eu não havia conseguido o que eu queria.
– Você não parece muito que vai a rachas, estava dançando sozinha na
frente de um carro, e com música ruim. - Ele começou a sorrir um sorriso que
mostrava os dentes, claramente se divertindo. – E eu o conheço do colégio
Franklin. Ele era do primeiro ano enquanto eu estava me formando.
PUTA MERDA! Ele só era três anos mais velho que eu? Realmente eu era
péssima para palpites de idade. E além de não saber mais o que perguntar,
porque o que para ele era algo simples, para Bruce era irritante. – Hm, e não
vou mesmo, prefiro ficar a sós, construindo as coisas que eu gosto. E, aliás,
Bruce nunca me falou de você, e eu praticamente cresci no Franklin e não me
lembro de ter visto você por lá.
– Eu não era muito popular vamos dizer assim, e Bruce, bom, não sei
por que nunca me falou de você também..., mas, você disse que constrói
coisas, que coisas? –. O tom dele pareceu de real interesse, mas não podia
mais olhar para ele e nem falar com ele. Mas decidi lhe dar só uma parcela das
coisas que construí, ele me perguntou se poderia me acompanhar até em casa,
indo para o seu carro e estacionando ele para que pudesse me seguir, fiz um
gesto que confirmou que poderíamos ir, enquanto eu andava de volta para
minha casa, fui lhe mostrando o quanto sabia e ele também me contava coisas
sobre ele e as corridas que tinha participado na Alemanha e em nossa cidade.
Estava começando a achá-lo interessante. Muito.
Parte 02 – Bruce.
“- Bruce desça aqui! – Gritou minha mãe para mim, já era a terceira vez
que ela me chamava e eu resistia o quanto fosse possível para não ter que
descer e encontrá-la na nossa sala de estar junto de suas amigas, no que elas
chamavam de hora do chá semanal. Até que ouvi a porta da frente bater e
soube que elas já haviam ido embora e resolvi descer. Um degrau de cada vez,
ouvindo a voz da minha mãe sussurrar da cozinha, ela não estava sozinha.
Mas a voz da outra pessoa era uma voz que eu reconhecia, era muito parecida
com a voz de Drica, porém com um tom de autoridade e experiência, sua mãe.
Elas conversavam baixinho encostadas no balcão segurando suas xícaras.
- Eu não sei mais o que eu faça Jasmim, tenho quase certeza que Juan
sabe que Drica não é sua filha, não consigo mentir por muito mais tempo, e
ainda tem Drica! Ela nem sonha com isso! – A mãe de Drica estava com a voz
estrangulada. Sabia que não poderia ouvir aquilo, era algo pessoal demais,
mas eu sou o melhor amigo de Drica, sempre dividimos tudo, em lealdade a ela
continuei ouvindo. – Uma hora eu sei que ela vai descobrir, mas eu não podia
deixar de me casar com Juan, ele era tudo que eu queria e naquela despedida
antes do nosso casamento eu encontrei aquele canalha na festa e meses
depois soube que estava grávida! Juan pensava que o bebê seria dele e eu
não o contradisse, simplesmente segui! –.
Naquele momento tive certeza de que eu não deveria estar ali, mas elas
estavam falando da minha melhor amiga! Não poderia deixar nada de ruim
acontecer a ela! Tínhamos uma promessa! E saber que Drica não era filha de
seu pai, doeu tanto em mim, era como se ela estivesse acreditando todo esse
tempo em uma mentira. Mas não poderia contar a ela, como se contar isso?
“Hei Drica, você não é filha do seu pai ok? Porque sua mãe antes de casar-se
com seu pai, deu uma rapidinha com um cara e você é filha dele.” Que ótimo.
Decidi que se ouvisse mais estaria traindo Drica, por que iria saber algo
dela que nem mesmo ela sabia, e não poderia lhe contar isso. Corri para o meu
quarto, com aquela conversa flutuando em minha cabeça.”
Acordei, de novo suando frio, havia se passado uma semana desde que
levei Drica para o racha, e desde que ouvi a conversa no mesmo dia mais
cedo. Queria poder dar a ela algo que pudesse se divertir sem mesmo saber o
porquê, talvez fosse eu quem precisava de algo para se distrair. Mas não
adiantou muito, ela havia sumido dois minutos da minha frente e quando a
encontrei ela estava conversando com um sujeito que nem de perto eu
gostava, seu nome era Rodrick, mas todos o chamavam de Rod, desde o
tempo do colégio, onde era paparicado por ser filho de um político, e por um
momento, se não a conhecesse bem diria que eu estava olhando para gêmeos,
Rodrick era magro, mas com certeza fazia academia, estava com os músculos
grandes, e Drica ao seu lado com um corpo de uma verdadeira atleta, sem
defeitos e definido, os dois tinham o cabelo da mesma cor e o mesmo tom de
pele. Droga. O fragmento da conversa daquele dia mais cedo dançou na frente
de meus olhos. “O filho dele chegou à cidade há alguns dias”. Droga de novo,
Rodrick era o bastardo irmão de Drica? Até que a conexão da conversa e da
situação foi feita. Naquele momento tudo que eu senti era raiva dela estar
conversando com ele sem nem ao menos saber quem ele era. Filho da... Argh!
Pelo menos quando chegamos ao carro ela havia revelado que tinha se
divertido comigo, e que eu era o melhor meio irmão. Mal ela sabia o que eu
tinha ouvido. Quis abraçá-la, mas estaria me entregando.
Passou quase uma semana, nos víamos quase em todas as aulas, mas
quase não nos falávamos, não iria contar a ela, mas estava determinado a não
deixar que ficasse sozinha para conversar com ele. Estava a esperando depois
do treino de natação na quinta, quando ela entrou no carro extasiada com algo,
e lhe questionei com a sobrancelha, ela me entregou um pequeno pedaço de
papel, era uma entrevista feita pelo jornal do campus, e o assunto era sobre
Rodrick, que merda. Li e a olhei de volta, sentia raiva, mas tentei me controlar,
enquanto ela falava que era o máximo que alguém construísse o próprio carro.
Balancei a cabeça nas horas certas e quando chegamos a casa, ela me parou
e perguntou o que havia de errado comigo, logo após ela citar Rodrick, e eu a
disse que não era nada. Que merda, deveria ter dito a ela o que tinha ouvido,
mas ela acharia que eu tinha sonhado. Diria que era mais uma das minhas
estórias para descontrair. Ela se virou em foi embora, enquanto eu a fiquei
olhando, partir.
– Hei, senti a sua falta hoje, você não foi à aula, e quando fui vê-lo sua
mãe disse que estava dormindo, está tudo bem? – Ela falou de um jeito manso
e inocente, se eu não a conhecesse, saberia que aquilo era real, mas ela
estava jogando comigo. Drica tinha um jeito próprio de abordagem quando
queria algo, percebi isso muito cedo quando nos conhecemos.
– Uma pessoa me entregou isso hoje mais cedo, eu disse que não iria
sem você, então ganhei dois, você não precisa ir se não quiser, mas eu irei. –
Ela falou em um tom sério. Estava claro que quem deu os ingressos a ela.
Rodrick estava por trás disso.
►
Duas semanas se passam arrastando quando você quer algo. Sorte a
minha que eu mantinha um olho em Drica, que estava sempre perto de mim,
tantos nas aulas e no almoço. A Franklin era uma escola bem grande, onde
quase todos eram bem afortunados, um termo cujo eu odiava. E Drica parecia
perceber o quanto eu estava agoniado com alguma coisa, chegando a
perguntar várias vezes se eu estava bem, ou se precisava de algo. Esse
definitivamente não era eu.
– Você ainda vai comigo amanhã, não é? – Ela perguntou com uma
leve suspeita na voz. Eu apenas confirmei balançando a cabeça, então ela
tentou de novo. – Estou aliviada, pensei que iria que ter de ir sozinha, meus
pais ainda não me deram o carro e não há ninguém que eu realmente conheça
lá, além de Rod –. Ao dizer aquilo, senti minha pulsação nos meus ouvidos.
Ela havia falado com Rodrick essa semana? Quando foi a última vez em que
conversaram? Porque eu estava ficando tão puto com isso? Droga. – Quando
você falou com Rodrick? – Perguntei em um tom seco, o que a fez se encolher.
– Algumas horas atrás. – Mas ela não saiu do meu lado! Ah, merda, o
celular! Ela não parou de mexer nele um segundo sequer. Aliás, ela não parava
de mexer em seu celular havia dias, e eu me toquei somente nesse momento
disso. E perguntei já com o sangue fervendo. – E há quanto tempo vocês se
falam? – Falei sufocando. Eu tinha de protegê-la e eu não estava fazendo isso
direito!
– Bem, tem algumas semanas, desde o dia que ele me trouxe para casa
e me deu os ingressos. – Ela estava olhando fixo pra mim como se eu fosse
explodir com essas informações, o tempo que eu passava ao lado dela não foi
o suficiente para ela ficar longe dele, porque ela nunca esteve de fato longe
dele, sempre se falando ao telefone. Queria me espancar por isso. Tentei não
deixar mais transparecer minhas emoções enquanto ela falava de como
iriamos chegar à noite do racha, apenas fiquei confirmando enquanto ela falava
as instruções. A partir daquela noite Rodrick Watys nunca mais iria chegar
perto de Drica Thorine.
O sábado havia chego, e Drica tinha saído como de costume com seus
pais para ir à igreja, tive tempo de lavar o meu carro, escolher minhas roupas e
avisar a minha mãe que iria levar Drica para sair depois que ela chegasse à
noite. Não demorou muito para que ela chegasse e me mandasse uma
mensagem.
“Quando eu chegar em casa, espere pelo sinal na sua varanda, para que
eu possa sair.”
“Fale.”
“Idem.”
Algumas horas mais tarde ouvi as pedrinhas que atirava sendo atiradas
de volta na janela da minha varanda, era o sinal. Drica estava toda de preto,
igual da última vez que saímos a essa hora da noite para ir ao seu primeiro
racha, porém hoje estava de calças jeans e uma T-shirt. Afastei-me um pouco
para que ela pudesse aterrissar sem problemas, e a vi pular. Quando ela ficou
firme veio me deu um abraço apertado e um beijo na bochecha, essa com
certeza não era a minha menina, a Drica que eu conhecia apenas me daria um
soco no ombro e depois ficaria emburrada, mas em seguida riria de alguma
piada que fiz. Peguei sua mão e a conduzi para fora, abri a porta do carro para
que ela pudesse entrar e dei a volta, ela colocou “Many Man” do 50cent para
tocar, e ficou cantando a música junto com o vocalista, esse seria mais um
flash das tantas noites que fugimos e passamos a madrugada fora olhando o
céu de qualquer canto, falando besteiras.
Após sentar-me de novo pelo que pareceu a sexta vez depois de ver
Drica, senti um leve puxão na manga da minha camisa e me virei para olhar
uma loura olhando para mim com ar de quem não esperava me encontrar em
um local como aquele. Mas eu já a conhecia, ela era da minha antiga turma de
amigos, antes de eu repetir o ano na escola. Seu nome era Jenny, ela era o
que os meninos chamavam de “alvo-fácil”, tinha o corpo de uma deusa e
cabelos louros e longos como os da Rapunzel, mas infelizmente ela não valia
as coisas que tinha, antes de se formar havia passado o rodo em todo o
colégio. Ela se aproximou mais de mim e colocou a boca no pé da minha
orelha e disse:
– Ora, ora, o que o cavalheiro Bruce faz aqui? Pensei que você não
assistia mais os rachas depois que a jovem Drica cresceu. – O jeito que ela
falou de Drica me fez sentir enjoado, pedi mais um dose ao barman, e apenas
olhei para ela sem nenhuma resposta. – Oh, vejo que você não mudou muito
quando se fala dela não é mesmo? Ela está por aqui, não é? -.
– Olha Jenny, é realmente bom te ver, e não, Drica me pediu para vir
aqui, se não fosse por ela estaria em casa dormindo, você sabe que somos
melhores amigos e da promessa que fizemos, sabe que onde ela estiver eu
estarei. Simples assim. Pare com esse interrogatório. – Me senti um pouco
melhor, Jenny era uma vaca e todo mundo sabia disso, apenas nunca gostei
de papear com ela. Mas tudo que é bom, dura pouco.
– Aposto que ela não deixa você dançar, por isso está aqui sozinho. –
Ela continuou a me provocar, sabia que ela queria ver o quanto eu era
supostamente comandado por Drica, o que era mentira. Sem falar muito
levantei mais um dedo para o barman, que me deu outra bebida e a virei em
um gole só, puxei Jenny para pista e disse. – Era isso que você queria? Agora
conseguiu. – Falei alto para ela me ouvir.
Drica não estava muito longe de mim, eu ainda podia vê-la, e Jenny
estava dançando comigo, espera, se esfregando em mim era o termo mais
apropriado. Se foram duas músicas e eu já sentia vontade de me sentar, o
efeito do álcool estava começando a aparecer, mas Jenny me impediu, me
permiti olhar mais uma vez para onde Drica estava, senti o sangue sumir de
minhas veias, ela não estava mais lá. Olhei ao redor desesperado, empurrei
Jenny que bateu em um cara e ele a puxou para ele, me dando a oportunidade
de ir procurar Drica.
Um som de contagem regressiva estava tocando nos alto falantes junto
com a música, e eu me lembrei da corrida. Droga. Não me senti tão
desesperado assim havia anos desde que eu soube que meus pais iriam se
separar. Procurei Drica enquanto a contagem ainda soava, fui até o balcão e
perguntei ao barman se ele havia visto a menina que tinha chegado comigo na
festa, ele disse que a viu sair em direção a uma porta com grade de ferro que
estava atrás do palco onde o DJ tocava. Sem esperar muito passei correndo
pelos corpos das pessoas suadas que dançavam na batida da música levando
alguns empurrões, cheguei ao palco e comecei a rodeá-lo para chegar a tal
porta. Eu vi o seu brilho assim que cheguei ao corredor estreito que ficava atrás
do palco.
– Esse sujeito não é quem você pensa que é Drica! Fique longe dele! –
Ela instantaneamente se afastou de Rodrick e soltou às mãos dele, ele ficou no
mesmo lugar. – Você pode não saber, mas ele é o culpado de você não saber
toda a verdade! –.
A essa altura não tinha mais como voltar, Drica estava assustada, nunca
tinha me visto bêbado, e ela não fazia ideia do que eu estava falando. Resolvi
acabar logo com isso. – Drica, você não é quem pensa que é. Você não é filha
de seu pai. Você ainda não sacou? Você não é nem um pouco parecida com a
sua família, é porque você não tem o gene deles. – Certo, admito que não saiu
como eu pensei que sairia. Mas aquilo teve um puta efeito.
– Que merda você está falando? Você bebeu muito, está alucinado
Bruce! – Gritou Rodrick espumando para mim. – Cale a sua boca! – Que otário.
– Do que você está falando porra? – Gritou Rodrick chegando mais perto
de mim.
Olhei para Drica, ela estava imóvel, parecia que ia desmaiar, eu sabia
que ela não iria, ela já tinha provado muito mais vezes que era bem mais forte
do que eu. Mas mesmo assim Rodrick foi ao encontro dela e a segurou pelos
ombros. Como um burro que sou, comecei a andar na direção deles. Quando
tudo se apagou.
Parte 03 – Drica.
Eu sabia que Bruce estava diferente comigo, sabia que era por conta de
Rod, e estava disposta a fazer os dois se entenderem no dia do racha.
Assim que chegamos disse à Bruce que iria dançar, sabia que ele
estava me vigiando o tempo inteiro, até que uma de suas amigas e ex-aluna da
Franklin o colocou em uma conversa, vi que ele estava ficando com raiva, ao
levantar-se ele a puxou para a pista, e eles começaram a dançar, logo no
começo da nova música senti uma mão em meu ombro e me virei para encarar
Rod, dei-lhe um sorriso e senti que ele me puxava para uma área isolada, atrás
do palco havia uma porta com uma grade enferrujada na frente. Passamos por
ela e por um curto corredor, quando ouvi a sua voz.
– Eu não trago quase ninguém aqui, por ter materiais que eu não teria
como explicar como consegui e por não querer dividi-los. – Sua voz estava
rouca por haver passado tanto tempo sem falar nada. Ele se se encostou ao
capô de uma BMW azul turquesa, rodas de liga leve e freios ABS, havia
também garrafas de nitro pelos cantos da sala mal iluminada, parecia ser como
uma oficina para carros de corrida, com materiais para reposições e para
velocidade. Tudo ali se encaixava com o que Rod havia dito sobre como
construía seus carros. Percebi que sua risada era leve e que sempre mantinha
o foco de seus olhos nos meus. Não havia se passado nem meia hora quando
um grito irrompeu pela sala, após um segundo percebi que era o meu nome
que tinha sido gritado, e então Bruce estava parado ao lado de um carro prata
que estava na direção da porta por onde entramos.
– O que você está dizendo Bruce? Ficou louco! – Gritei de volta a ele. –
Mas que porra é essa? – Gritou Rod depois de mim. – O que você pensa que
está dizendo Bruce? –.
Sem palavras Rod levantou Bruce e começou a levá-lo para fora da sala,
eu o segui sem saber o que fazer, a corrida já tinha acabado e estavam todos
do lado de fora para receber o vencedor. Passamos por todos e fomos à lateral
do galpão, onde o carro de Bruce estava estacionado, Rod pegou as chaves e
destravou o alarme, abriu a porta traseira e colocou Bruce deitado e a fechou.
Virou-se para mim e me perguntou olhando para o chão.
– Você acha que o que ele falou é verdade? – Aquilo me deu arrepios,
com Bruce apagado não seria possível descobrir até que estivéssemos em
casa com ele lúcido, não sabia de onde tinha surgido aquilo, mas Bruce sabia
de mais coisas, mentira não estava no DNA dele, ele tinha que me responder
assim que acordasse.
– Uma coisa eu sei, Bruce não estava mentindo. Ele não olha para a
pessoa quando conta uma verdade sobre ela. – Essa foi à única resposta
coerente que encontrei para Rod naquele momento.
– Quer dizer então que alguém está escondendo algo de nós, se o que
ele falou é verdade, nós somos irmãos. – Olhei para Rod que estava de cabeça
baixa olhando pelo vidro do carro de Bruce. Resolvi não falar mais nada,
apenas observá-lo. Ele pegou seu celular e discou um número, falou que
precisaria da pessoa em um lugar cerca de daqui há uma hora, então falou
meu endereço e desligou.
– Entre no carro, vou te levar para casa. – Assim que ele falou isso não
me senti tão à vontade. Voltar para aquele lugar sabendo que você era
enganada não era algo que eu quisesse agora. Mas entrei no carro e ficamos
em silêncio enquanto ele dirigia em direção a minha casa. Olhei algumas vezes
para trás em busca de algum sinal de vida de Bruce, mas o único retorno que
tinha era sua respiração estável.
– Sei que não era isso que esperávamos hoje a noite, foi uma grande
notícia, não sei se tanto para você quanto para mim, mas isso me assustou
bastante, não sei o que você está pensando agora, mas você deveria pensar
um pouco sobre o que ele falou hoje lá no galpão, e perguntar como ele soube
de tudo isso, quer dizer, como não pudemos saber de algo que Bruce sabe?!
Entende? – Com isso Rod foi abaixando o tom da sua voz, perdido em
pensamentos, eu estava igualmente perdida, mas teria que resolver tudo isso
somente quando Bruce acordasse.
– Sei que isso tudo é loucura, não sei nem por onde começar, mas vou
tentar falar com Bruce quando estiver de pé amanhã, sei que ele irá me contar
agora que já começou, enquanto isso quero te pedir duas coisas. – Fui falando
com suavidade, esperando que ele aceitasse o meu pedido.
– Sim, pode pedir. – Ele falou tão sem dúvidas ou desconfiança que
suspeitei que ele realmente estivesse ouvindo o que eu estava falando. – Eu
quero que você mantenha segredo do que aconteceu hoje, de tudo, até que eu
tenha certeza do que aconteceu. – Ele concordou levemente olhando para o
céu atrás da árvore na frente da casa de Bruce. – E a outra é que você não
apareça mais por aqui, ou me encontre em qualquer lugar, eu falo sério
Rodrick, eu vou entrar em contato com você para lhe contar das coisas quando
eu souber, mas espero que não haja mais contato entre nós.
Isso o fez virar o rosto para mim, com os olhos arregalados, cheios de
confusão, por termos uma coisa tão grande entre nós e ao mesmo tempo eu
não querer compartilhar isso com ele. Eu acho que estava certo, aquele era o
momento em que eu queria ficar sozinha, para pensar nas coisas. Minha
cabeça estava em um turbilhão de coisas, tudo que eu queria agora era
descansar um pouco de depois tomar as decisões que precisariam ser
tomadas. O silêncio tomou conta de nossa conversa, a madrugada estava
silenciosa, quando ouvimos um zumbido de carro aproximando-se, os faróis
estavam com a luz fraca, quando ele parou perto de nós e a porta da frente
abriu-se, Rod entrou sem nenhuma palavra e com isso o carro seguiu em
frente.
Fiquei mais alguns minutos ali parada, pegando a garoa que descia,
criando coragem para ir para casa com tantas coisas me cercando, com uma
vida de mentira no meu passado. Subi pela grade de samambaias da varanda
de Bruce para pular para a minha, do jeito que estava deitei na cama e sem
nem pensar duas vezes deixei o restante do álcool me invadir, então adormeci.
– Quando você passou pela varanda? – Foi tudo que consegui dizer
antes de sentir uma onda de enjoou voltando, fechei os olhos e respirei fundo
novamente, quando ele falou:
– Então vamos comer alguma coisa e ver alguns analgésicos, não sei se
vou conseguir fazer muita coisa hoje me sentindo como um espantalho, dura e
malvestida. Te encontro daqui a pouco para terminar o projeto? – Falei na
esperança de tentar salvar o dia e não terminar com uma ressaca ainda pior.