PERSONAGENS:
Mirabel: Karina
Abuela: Amanda / Ingrid
Luísa: Kim
Isabela: Yasmin
Bruno: Adriano
Julieta: Sandy
Camilo: Jeff
Som: Kid
Projeção: Pedro Kaio
Cena 01:
Apresentação da Família Madrigal
(Mirabel se apresenta e depois conta ao público um pouco sobre sua família.)
Mirabel: Aqui na nossa família, cada um tem um dom. Um talento único.
Quer conhecer melhor todo mundo? Vem comigo!
(Camilo surge imitando a Mirabel com cara de deboche e depois vira ele mesmo de novo.)
Mirabel: Começando com ele… o camaleão da família: CAMILO!
Ele muda de forma, muda de voz… e às vezes até muda de ideia no meio do caminho!
(Camilo fazendo pose de modelo, depois virando uma “velhinha”)
Camilo: Hoje eu sou o vovô…
(pisca)
Agora sou a Isabela!
(pisca)
Agora… sou só o Camilo mesmo. Ufa!
(Entra Isabela, fazendo passos dramáticos com flores nas mãos.)
Mirabel: A rainha da perfeição, das flores, da pose impecável... ISABELA!
Isabela: A natureza me ama. Eu sou a primavera em pessoa.
(Isabela olha para Mirabel com desprezo “divertido”)
Isabela: Você podia tentar um look floral, sabe? Tipo, para ontem... Enfim, assim como a
natureza é perfeita, eu deixo tudo perfeito. Não há espaço para falhas.
(Entra Luísa com um galão de água ou com uma cadeira grande.)
Mirabel: E ela... a muralha da Casita... LUISA! Se precisar carregar um armário, uma
geladeira, ou o peso das expectativas... chame ela.
(Luísa ofegante.)
Luísa: Dá licença que eu estou carregando o emocional da família toda desde 2010.
(Entra Julieta com uma toalhinha e uma cesta de remédios.)
Mirabel: Ela cura com comida! Julieta, minha mãe, a rainha do chá de boldo e do amor de
mãe.
Julieta: Quer um biscoitinho? Cura tristeza, dor de cabeça e até TPM.
(Entra Abuela com elegância, segurando uma bíblia.)
Mirabel: E, claro... a nossa guia, a que mantém a chama acesa: Abuela! Nem sempre ela
entende tudo, mas sempre quer proteger a todos.
Abuela: Organização. Honra. Disciplina. E… sim, pode usar glitter se for moderado.
(Mirabel dá um passo à frente.)
Mirabel: E eu? Bom… Eu ainda estou descobrindo meu dom. Mas posso te contar uma
coisa: Não tem como a casa ficar de pé... sem amor.
(A essa altura todos já saíram de cena e ficou apenas Abuela e Mirabel.)
Cena 02:
Mirabel e Abuela
(Abuela conta para Mirabel como estruturou a família unida e forte junto com o abuelo.)
Abuela: Nossa família foi constituída com muita oração e muito amor, e nossa família é a
coluna dessa cidade. Com a morte do seu avô, sofremos muito, mas não podemos ser
fracos nem vulneráveis. Aqui, todos tem um dom.
Mirabel: E qual é o meu dom, Abuela?
Abuela: Uma hora você vai descobrir. Veja, aqui na nossa família um completa o outro. A
Isabela, sua irmã, tem o dom da perfeição! A Isabela deixa tudo perfeito. Ela não pode
errar nada.
Mirabel: Mas não é muita pressão esperar que alguém nunca erre?
Abuela: Não!!! É isso que nos faz unidos, cada um faz a sua parte. Assim como Luísa e
Camilo. A Luísa, sua outra irmã, é a fortaleza da família, o dom dela é ser forte para
todos!
Mirabel: E quem dá força para ela?
Abuela: É disso que estou falando! Cada um tem seu papel, o importante é fazê-lo bem.
Veja seu primo Camilo tem a habilidade de se transformar no que cada uma precisa. Se
você estiver triste, ele te faz rir. Se está confusa, ele vai te orientar.
Mirabel: E será que ele sabe quem realmente é?
Abuela: Chega de conversa fiada! Vamos comemorar, finalmente 15 anos, em? A Isabela
já deve ter arrumado tudo direitinho.
Cena 03:
Aniversário de Mirabel
(Aniversário de Mirabel mostra que a família tem muitos problemas/pendências entre eles)
Camilo: Eu não quero e não vou falar com meu pai!
Abuela: Você precisa! É seu pai!
Camilo: Isso não dá o direito dele ser um babaca comigo! Esquece, Abuela!
(Mirabel vai se aproximando enquanto eles brigam.)
Abuela: Luísa, converse com ele! Ele precisa de força!
Camilo: Eu preciso que vocês me deixem em paz!
Isabela: Ei! Quem tirou a decoração do lugar?
Luísa: Ninguém liga para sua decoração!
Abuela: Foi eu, Isabela. Vai chover, vamos cantar parabéns e entrar.
(Julieta percebe a aproximação de Mirabel.)
Julieta: Pessoal...
(Todos param por um segundo e olham Mirabel.)
(Começam a cantar parabéns imediatamente.)
– Som de trovão –
Julieta: Parabéns, minha filha. Vamos para dentro antes que a chuva pegue a gente.
(Eles saem de cena parabenizando Mirabel.)
Cena 04:
Mirabel e Abuela II
(Abuela lendo.)
Mirabel: Abuela?
Abuela: Oi, querida.
Mirabel: Podemos dar uma palavrinha?
Abuela: Claro.
Mirabel: Sabe, Abuela... quando eu era pequena, a senhora me disse que não podíamos
deixar janelas e portas abertas à noite...
Abuela: Sim, pois o vento pode trazer coisas ruins, e que o mal aproveita qualquer brecha
para entrar.
Mirabel: Eu não entendi na hora, achei que era só sobre proteger a casa.
Mas hoje... Eu percebo que a senhora não estava falando só da casita. Estava falando do
coração. E talvez... talvez a gente tenha deixado portas abertas sem perceber. Quando a
gente deixou o medo falar mais alto que o amor? Quando a gente escondeu mágoas,
exigiu demais dos dons... e esqueceu da graça?
Abuela: Já sofremos demais, querida. Hoje entendo que preciso criar uma base familiar
resiliente, sem rachaduras nas paredes.
Mirabel: As rachaduras não começaram nas paredes, Abuela! Começaram aqui dentro. No
silêncio. No orgulho. Na dor que a gente não quis ver.
Abuela: Minha querida, não é para você se preocupar com esses pequenos problemas da
família. Estamos bem. Juntos, vamos vencer todas as dificuldades. Agora vá.
(Abuela fica sozinha e começa a orar.)
Abuela: Senhor, nos conduza. Me ajuda a manter essa família unida e forte. Me mostre o
que devo fazer para vencer nossas dificuldades. Se nossa família soubesse o quanto
somos vulneráveis... abre os meus olhos, não quero perder meu lar. Me ajude a proteger
nossa família.
Cena 05:
Julieta e Mirabel
(Mirabel está triste e pensativa...)
(Julieta se aproxima.)
Julieta: Acho que alguém está precisando de um carinho. O que foi?
Mirabel: A Abuela não me escuta. Sabe, eu posso não ter uma super força igual a Luísa, e
nem acordar com todos os fios de cabelo no lugar perfeito igual a Isabel, mas eu amo
essa família, e eu só estava tentando cuidar dela.
Julieta: Queria que você conseguisse se ver como eu vejo. Você é singular, e é especial
como todas as outras pessoas da família.
Mirabel: Mama, você tem o dom de curar. É fácil para você falar. Eu sei o que está
acontecendo nessa família, sei do que vi.
Julieta: Não quero que você acabe como meu irmão Bruno, que perdeu o rumo da nossa
família e agora vive sozinho e não tem relacionamento com a gente... filha. Vai procurar
suas irmãs e veja se elas precisam de ajuda com alguma coisa.
Cena 06:
Não falamos do Bruno
(Luísa nervosa, tentando carregar coisas para lá e para cá.)
(Isabela arrumando o tapete.)
Mirabel: Meninas, mamãe mandou vir ajudar.
Isabel: Se quer ajudar era melhor nem ter vindo.
Mirabel: há, há, há, que engraçadinha. Luísa, está tudo bem? Você parece estar meio
nervosa.
Luísa: está tudo ótimo!
Mirabel: Mas o seu olho está piscando, e isso só acontece quando você está nervosa.
Luísa: Agora não, Mirabel... eu estou ocupada. A casita está tremendo de novo e...
Isabel: Você está tremendo, não a casa.
Mirabel: Luísa, você sente que tem algo de diferente na família?
Luísa: Claro que sim! Mas preciso ser forte, todos esperam isso de mim.
Mirabel: Não tem como você ser forte o tempo todo! E Isabel, também não tem como ser
perfeita sempre! Sei que você está cansada de atender pedidos e mais pedidos para não
dizer não, precisamos encarar a realidade, estamos rachados, deixamos as portas e
janelas abertas, o amor saiu e a frieza entrou na casita.
Isabela: Foi o que o Bruno tentou avisar...
Mirabel: O Bruno da Didis?
Isabela: O tio Bruno, Mirabel.
Luísa: Isabel! Não falamos do Bruno!
Mirabel: E por que não?!
Isabela: Ele tentou resolver algumas coisas na família e a Abuela não gostou e agora ele
virou um tabu.
Mirabel: Como eu faço para falar com ele?
Luísa: Por que você iria querer falar com ele?
Mirabel: Talvez... ele entenda de rachaduras.
Isabel: Bom, não sabemos muito sobre ele. O Camilo deve saber, mas não se meta em
confusão!
Cena 07:
Falamos do Bruno – Camilo e Mirabel
Mirabel: Camilo, Camilo!
Camilo: Oi prima. Parece aflita, deixa eu contar uma piada para você ficar de boa. Qual
animal come com orelha?
Mirabel (sem paciência, mas jogando o jogo): ... Qual?
Camilo: Todos, né? Ninguém vai tirar a orelha para comer! Hahaha!
(Mirabel força um sorriso, mas logo muda de tom.)
Mirabel: Camilo... e o tio Bruno?
Camilo: Ah… O tio Bruno.
(Suspira e olha para os lados, como se “checando” se alguém ouve.)
Você sabe que a gente não fala muito sobre ele…
Mirabel: É justamente isso que me assusta. Ninguém fala, mas todo mundo carrega algo.
Você se lembra dele?
Camilo: Lembro sim. Ele tinha umas conversas estranhas, queria resolver conflitos e às
vezes isso assustava as pessoas..., mas ele era legal. Meio esquisito, mas do bem.
Acho que o que doeu mesmo foi quando pararam de acreditar nele.
Mirabel: Você sabe onde ele está?
Camilo: Sei. Mas olha, Mirabel… não espere encontrar um vilão. Ele só está... machucado.
E sozinho há tempo demais.
Mirabel: Eu não vim procurar um vilão. Vim procurar a verdade.
Camilo: Você sempre foi a corajosa da família. Talvez seja esse o seu dom.
Mirabel: Onde posso encontrá-lo?
Camilo: Se eu te contar, você promete não se meter em confusão?
Mirabel: Prometo. Só quero ouvi-lo. Se a gente vai reconstruir essa casa, precisa começar
escutando quem foi deixado de fora.
Cena 08:
Encontro com o Bruno - Mirabel e Bruno
Mirabel: Oi? Tem alguém aí?
Bruno: N-n-não tem ninguém aqui! Você está ouvindo coisas! É só… vento! Ou rato! Ratos
falam agora…?
Mirabel: Tio Bruno.
Bruno: Ai, ai, ai... você é de verdade? Espera, deixa eu ver… é, você é de verdade. Hum.
Isso é um problema.
Mirabel: Você está... morando aqui?
Bruno: Morar é uma palavra forte. Eu diria… “me escondendo com estilo”!
Quer um chá? Não tem, mas a gente pode fingir. Você não devia estar aqui, Mirabel.
Mirabel: E você não devia estar sozinho.
Bruno: Sozinho é melhor. Sozinho eu não atrapalho. Depois que comecei a falar o que
sentia… todo mundo ficou com medo. E com raiva. E com... mais medo. A casita começou
a rachar, a Abuela ficou mais rígida, e eu... fui embora. Mais fácil.
Mirabel: Mas a casa não rachou por sua causa, tio. Ela rachou porque a gente parou de
ouvir, de amar, de perdoar.
Bruno: Eu sei disso. Mas ninguém queria ouvir... E aí eu pensei: “talvez o problema seja
eu”.
Mirabel: Não. O problema é o silêncio. É fingir que está tudo bem quando não está.
Bruno: Você não tem dom, né?
Mirabel: Não. Mas acho que... talvez meu dom seja tentar unir o que está quebrado.
Bruno: Então... você é a cola?
Mirabel: Mais ou menos isso.
Bruno: Você quer que eu volte?
Mirabel: Eu quero que a verdade volte. E que você seja parte da nossa história de novo.
Bruno: Mirabel, é muito bom ver que você está lutando pela sua família.
Mirabel: Nossa família.
Bruno: Enfim..., mas muita coisa aconteceu, tem muita gente machucada...
(Mirabel pega uma bíblia dentro da bolsa, e lê o seguinte versículo.)
Mirabel: Suportem-se uns aos outros e perdoem as queixas que tiverem uns contra os
outros. Perdoem como o Senhor lhes perdoou. Acima de tudo, porém, revistam-se do
amor, que é o elo perfeito. Tio Bruno, o elo perfeito...
Bruno: É o amor.
Mirabel: Isso, é o amor. Nossa casita esfriou, vivemos em exercer dons perfeitos, manter
as aparências, mas não nós amamos. É hora de voltar. Vamos?
Bruno: Mirabel, eu sei o caminho da casita. Mas me dá um tempo, ok?
(Mirabel concorda e vai embora.)
Cena 09:
O peso de ser o que esperam que sejamos
Luísa: Essas caixas não param de aparecer... quanto mais eu tiro, mais tem. Como se
esperassem que eu fosse uma máquina!
(Suspira e se senta no chão, deixando cair uma caixa imaginária.), mas eu estou cansada.
Isabela: (Nervosa, mexendo em tudo.) A decoração não está boa! Não está perfeita! A
família precisa que tudo seja perfeito. Sempre. (Suspira.) Mas será que alguém se importa
com o que eu quero?
Camilo: (Tenta se transformar, faz uma piada sem graça, ninguém ri.) Sabe... às vezes acho
que nem sei mais quem eu sou. Sou só o que os outros precisam. Mas e o que eu
preciso? (Respira fundo) Talvez eu só quisesse ser o Camilo. Só isso.
(Silêncio. O ambiente está pesado. Entra Mirabel, devagar.)
Mirabel: Eu… eu ouvi vocês. Ninguém deveria carregar tanto peso sozinho. O dom de
vocês não é para escravizar… é para abençoar. Mas a gente esqueceu disso. A Casita não
está rachando por causa dos dons…, mas por causa do que a gente faz com eles.
(Julieta entra discretamente, escutando a conversa. Ela se aproxima com cuidado.)
Julieta: Vocês não precisam carregar esse peso sozinhos. Deus nunca pediu perfeição. Ele
pediu entrega. Nosso valor não vem dos dons… vem do amor dEle.
(O amor de Deus sustenta. Ele consola. Ele restaura.)
(Silêncio tenso. Camilo abaixa a cabeça, depois a levanta com dor nos olhos.)
Camilo: Mas... onde Ele estava quando eu fui abandonado? Quando meu pai me deixou?
(Luísa baixa os olhos, então Isabela fala com voz embargada.)
Isabela: E quando o papai morreu? Por que Ele não nos protegeu daquela dor?
Luísa: A senhora fala de consolo, mãe…, mas quem consola a gente?
(Julieta se emociona, respira fundo e responde com amor firme.)
Julieta: Eu também chorei a morte do seu pai. Eu também me perguntei onde Deus
estava. Mas Ele estava lá. Quando eu não suportava me levantar, Ele me sustentou.
Quando vocês tinham medo, Ele me dava força para continuar. E hoje… Ele está aqui.
Nessa conversa. Vocês acham que o amor foi embora…, mas foi o medo que fez a gente
esquecer como é amar.
(Abuela observando o grupo reunido.)
Abuela: Essa é... a minha família? Tão dividida… tão ferida…
(Todos olham para ela. Um silêncio tenso toma conta. Mirabel dá um passo à frente.)
Mirabel: Abuela... a gente não quer lutar com a senhora. Só queremos parar de fingir que
está tudo bem. A Casita está rachando porque o amor foi deixado de lado. Porque... nós
deixamos Jesus do lado de fora.
Abuela: Eu só queria proteger vocês. Fazer do dom de cada um uma muralha contra a
dor…, mas talvez... eu tenha construído muros demais.
(Ela olha para os netos. Julieta se aproxima e segura sua mão.)
Julieta: Mãe… não precisamos de muros. Precisamos de diálogos, de abraços. Precisamos
de perdão
Cena 10:
A volta de Bruno
Bruno: Ei... não briguem com ela. É culpa minha. Ela só estava tentando proteger todos
nós…
(Todos se viram. Silêncio. Ele tenta continuar, mas é interrompido.)
Abuela: (Com emoção nos olhos, atravessa a cena e o abraça sem dizer nada.)
(Bruno congela, surpreso. Depois, corresponde ao abraço. Os outros observam com
emoção.
Narração de Mirabel: Naquele dia, entendemos que dons são bênçãos…
Mas o verdadeiro milagre... É o amor. E que, mesmo com rachaduras, ainda dá tempo de
reconstruir.