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O acórdão do Tribunal da Relação de Coimbra aborda a responsabilidade civil extracontratual por factos ilícitos, destacando os pressupostos necessários para a obrigação de indemnizar, como a ilicitude e o nexo de causalidade. A decisão confirma que o ónus da prova recai sobre o lesado, exceto em casos de presunção legal, como em atividades perigosas. O tribunal decidiu manter a improcedência da ação, absolvendo a ré da responsabilidade pelo acidente da autora.

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O acórdão do Tribunal da Relação de Coimbra aborda a responsabilidade civil extracontratual por factos ilícitos, destacando os pressupostos necessários para a obrigação de indemnizar, como a ilicitude e o nexo de causalidade. A decisão confirma que o ónus da prova recai sobre o lesado, exceto em casos de presunção legal, como em atividades perigosas. O tribunal decidiu manter a improcedência da ação, absolvendo a ré da responsabilidade pelo acidente da autora.

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Acórdãos TRC Acórdão do Tribunal da Relação de Coimbra

Processo: 67/18.5T8GRD.C1
Nº Convencional: JTRC
Relator: ISAÍAS PÁDUA
Descritores: RESPONSABILIDADE CIVIL EXTRACONTRATUAL POR FACTOS ILÍCITOS
REQUISITOS
ÓNUS DA PROVA
Data do Acordão: 18/05/2021
Votação: UNANIMIDADE
Tribunal Recurso: TRIBUNAL JUDICIAL DA COMARCA DA GUARDA – JUÍZO L. CÍVEL DA GUARDA
– JUIZ 1
Texto Integral: S
Meio Processual: APELAÇÃO
Decisão: CONFIRMADA
Legislação Nacional: ARTºS 483º E 493º DO C. CIVIL.
Sumário: I- No domínio da responsabilidade extracontratual por factos
ilícitos são pressupostos, cumulativos, dessa responsabilidade
(que impõe ao lesante a obrigação de indemnizar): a existência de
um facto voluntário praticado pelo agente lesante, a ilicitude, a
culpa, o dano e o nexo de causalidade entre o facto e o dano.
II- Esse facto/conduta tanto pode resultar de uma ação como de
uma omissão.
III- Pressupostos esses cujos ónus de alegação e prova impende ao
lesado, a não ser que beneficie de uma presunção legal, o que a
acontecer transfere para o lesante o ónus de elidir essa presunção.
IV- Entre a situações que, no domínio dessa responsabilidade,
invertem tal ónus de prova, estabelecendo uma presunção de
culpa contra o lesante encontra-se aquela prevista no artº. 493º,
nº. 2, do C. Civil.
V- Na verdade, nesse normativo estabelece-se uma presunção
legal de culpa contra quem exerce uma atividade perigosa -
perigosidade que tanto pode resultar quer pela própria natureza
dessa atividade em si exercida, quer da natureza dos meios nela
utilizados -, com a correspondente inversão do ónus de prova,
tendo apenas a parte a favor de quem é estabelecida tal
presunção o ónus de provar o facto que serve de base à mesma.

VI- Não concretizando/definindo a lei o que deve entender-se por


“atividades perigosas” - limitando-se à admissão genérica de que
a perigosidade derive da própria natureza da atividade ou da
natureza dos meios nela utilizados -, deverá, assim, tal matéria
ser apreciada à luz de cada caso e segundo as circunstâncias
concretas da ocorrência do mesmo.
Decisão Texto Integral:
Acordam neste Tribunal da Relação de Coimbra
I- Relatório
1. No Tribunal Judicial da Comarca da Guarda
(Juízo Local Cível da Guarda) a autora, A...,
instaurou (em 02/02/2018) contra a ré, Z..., S.A.,
ambas melhor identificadas nos autos, a presente
ação declarativa, com forma de processo comum,
pedindo (no final) que a última seja condenada a
pagar-lhe a indemnização imediata no valor de
€10.000,00 (dez mil euros) e, num acerto futuro
indemnizatório em razão do tratamento médico-
hospital a que terá de ser submetida, na quantia
indemnizatória nunca inferior a €15.000,00 (quinze
mil euros).
Para o efeito, alegou, em síntese, o seguinte:
No dia 21/06/2017, quando tinha 82 anos de idade,
sofreu uma queda no estabelecimento de
supermercado denominado ..., sito na cidade da
Guarda, onde se tinha deslocado para fazer
compras.
Queda essa que foi provocada pela porta automática
de saída, quando se aprestava para abandonar o
referido estabelecimento com as compras ali feitas.
Nessa altura, quando se encontrava já entre os
batentes dessa porta (com os pés assentes na zona
da soleira), que é de vidro e é comandada por uma
célula eletrónica, a mesma disparou o fechamento
(quando se deveria ter mantido aberta) projetando-a
no solo e para o lado de dentro do estabelecimento.
Em consequência dessa queda fraturou a sacroilíaca,
com tratamento hospitalar imediato nas urgências
do hospital da Guarda, para onde foi transportada de
ambulância. Apesar do decurso do tempo, a autora
continua com queixas, locomovendo-se com
canadianas, das quais nunca necessitou, sentindo
graves dores, pelo que irá necessitar de tratamentos
hospitalares e fármacos, tendo, com toda a
probabilidade, necessidade de vir a ser submetida a
uma operação cirúrgica ortopédica, em regime de
medicina particular, por não ser elegível como
doente do sistema de medicina pública.
Com tal, a autora sofreu danos de natureza não
patrimonial - que descreve -, os quais devem ser
avaliados em valor não inferior a €10.000,00.
Pela indemnização de tais danos está obrigada a ré,
dado que na altura a responsabilidade pelo sobredito
sinistro encontrava-se para ela transferida na
sequência de contrato de seguro que para o efeito a
sociedade proprietária do estabelecimento tinha com
ela celebrado.
2. Na sua contestação, e em síntese, a ré defendeu-
se, negando que a referida queda autora tenha sido
provocada pela porta automática de saída do dito
estabelecimento comercial e que tenha sido essa
porta a projetá-la ao chão, ficando antes a dever-se
ao facto de a mesma antes de ali ter chegado, e
quando se encontrava a subir o primeiro degrau dos
dois que dão acesso à mesma se ter desequilibrado,
devido a problemas de locomoção de que padece, e
caído ao solo.
De qualquer modo, e sem prescindir, defendeu-se
ainda alegando que a aludida porta de saída é
antecedida por dois degraus que têm 0,55m de
comprimento e 0,273m de altura, sendo que, no
cimo do segundo degrau, se encontra implantada a
porta automática, pelo que poderá, nessa hipótese,
ter sido a altura considerável e não regulamentar
destes degraus que, perante a dificuldade de
locomoção da autora, tenha provocado a sua queda,
estando então nesse caso, e à luz do contrato de
seguro invocado, excluída a sua responsabilidade
por desrespeito das condições de segurança
impostas pela legislação vigente.
Terminou pedindo a improcedência da ação, com a
sua absolvição do pedido.
3. A ré respondeu àquela matéria de exceção,
defendendo sua improcedência.
4. Realizou-se a audiência prévia, onde oi proferido
despacho saneador, que afirmou a validade e
regularidade da instância, fixando-se depois o
objeto do litígio e enunciando-se os temas de prova,
sem que tivesse sido formulada qualquer
reclamação.
5. Mais tarde - e após algumas vicissitudes
processuais relacionadas sobre a entidade que
deveria suportar os custos a despender com a
deslocação da A. ao IML para a realização de
exame pericial pela própria requerido, o qual acabou
por não ter sido efetuado pelos motivos exarados
nos autos, e que levaram que a questão tivesse sido
apreciada pela Relação, pelo STJ e pelo TC -,
realizou-se a audiência de discussão e julgamento
(tendo o tribunal se deslocado à residência da A., e
devido à doença que a mesma padece, para a ouvir
em declarações de parte), com a gravação da
mesma.
6. Seguiu-se a prolação da sentença que, no final,
julgou a ação improcedente, absolvendo a ré do
pedido contra si formulado pela autora.
7. Inconformada com tal sentença, dela apelou a
autora, tendo concluído as respetivas alegações
de recurso (naquelas que apresentou em
substituição das primeiras - substituição essa que foi
admitida por despacho judicial, de 26/02/2021, da
1.ª instância) nos seguintes termos:
...
8. Contra-alegou a ré, pugnando pela sua
improcedência total do recurso e pela manutenção
integral do julgado (defendendo ainda, no
requerimento de resposta à substituição das contra-
alegações inicialmente apresentadas pela
A./apelante, a rejeição da mesmo na parte referente
à impugnação da decisão de facto da matéria de
facto, por inobservância do disposto no artº. 640º,
nº. 2 al a), do CPC).
9. Corridos que foram os vistos legais, cumpre-nos,
agora, apreciar e decidir.
II- Fundamentação
1. Do objeto do recurso
É sabido que é pelas conclusões das alegações dos
recorrentes que se fixa e delimita o objeto dos
recursos, não podendo o tribunal de recurso
conhecer de matérias ou questões nelas não
incluídas, a não ser que sejam de conhecimento
oficioso (artºs. 635º, nº. 4, 639º, nº. 1, e 608º, nº. 2,
do CPC).
Ora, calcorreando as conclusões das alegações do
recurso da A./apelante delas resultas que as questões
que aqui nos cumpre apreciar e decidir serão as
seguintes:
a) Da impugnação/alteração da decisão da matéria
de facto;
b) Da obrigação da ré pagar à autora a quantia
indemnizatória que dela reclama nesta ação.
2. Pelo tribunal da 1ª. instância foram dados
como provados os seguintes factos (mantendo-se
na sua descrição a ortografia, a ordem e a
numeração que constam na sentença recorrida):
...
3. Quanto à 1ª. questão.
3.1 - Da impugnação/alteração da decisão da
matéria de facto.
3.1.1 Questão prévia.
[Link] Calcorreando as conclusões de recurso - que
se mostram em sintonia a esse respeito com o corpo
das alegações que as precedem -, importa, antes
demais, atentar no que se mostra vertido nas
conclusões, VII, e VIII, XVIII a XIX (e cujo teor
deixamos novamente transcrito, apesar de o mesmo
já constar da transcrição que acima já deixámos
exarado no que concerne à integralidade das
conclusões):
« (…) VII. Por conseguinte, a sentença recorrida, ao ter admitido
a exculpação da R., infringiu o disposto no já citado art.º 493.º/2 do
CC.
VIII. E infringiu esta disposição legal, considerando-se toda a
matéria de facto comprovada, que dá por assente o fato/fundamento
– queda da A. quando pretendia abandonar o estabelecimento da
segurada, com porta de vidro comandada por uma célula
electrónica..
(..:
XVII. Mas se porventura, Vossas Excelências considerarem por bem a inevitabilidade de uma
prova da queda da recorrente, por efeito do derrube pela porta de vidro automática e de saída
do supermercado, então, deverá ser corrigido o elenco dos factos provados, acrescendo este,
explicitamente, com base no depoimento da advogada A…, sem razão para ser afastado, como
foi, pela sentença recorrida.
XVIII. Afastamento pela sentença recorrida deste depoimento que, no entanto, transcreve no
que é fundamental e necessário para a verificação, estimativa e assentar do facto.
XIX. Deste modo, a recorrente está, neste particular, naturalmente dispensada de apresentar
transcrição e nota das rotações do depoimento gravado, aceita-se a referência que lhe foi feita

sublinhado e negrito nossos)


na recorrida. (...). » (

Da leitura conjugada de tais conclusões – que se


apresentam, a nosso ver, e salvo e sempre o devido
respeito, pouco claras, e mesmo confusas e
ambíguas – delas decorre que a apelante
entende/defende que o tribunal a quo incorreu em
erro no julgamento de direito, pois que perante a da
matéria de facto dada como provada (que considera
suficiente para o efeito) e do disposto no artº. 492º,
nº. 2, do CC (e da inversão do ónus de prova aí
estabelecido) tal deveria (e deverá agora) ter
conduzido à procedência da ação, com a
condenação da ré no pedido.
Todavia, se porventura este o tribunal ad quem
assim não entender e considerar
necessário/inevitável, para a procedência da ação, a
prova da queda da A./apelante, por efeito da porta
de vidro automática de saída do estabelecimento,
então, nesse caso, deverá ser alterada a matéria de
facto dada como provada pelo tribunal a quo,
aditando-lhe esse facto, com base no depoimento
prestado a esse respeito pela testemunha A… (cfr.
particularmente o vertido na transcrita conclusão
XVII, a qual, como se deixou já referido, está em
sintonia com o alegado a esse respeito no corpo das
alegações).
Ora, ressalta do exposto, que a apelante deixa ao
critério deste tribunal ad quem a impugnação da
decisão de facto, ou seja, e por outras palavras, a
referida impugnação da decisão de facto apenas é
feita no caso deste tribunal considerar
necessário/essencial para procedência da ação a
prova do aludido facto.
Porém, a impugnação da decisão/julgamento de
facto não tem que suscitar dúvidas, isto é, tem que
ser ab initio, desde logo, deduzida, e não ficar
dependente do entendimento que o tribunal ad quem
possa vir a ter sobre a suficiência ou insuficiência
da matéria de facto apurada com vista a dar guarida
à pretensão da tutela judiciária requerida pela
A./apelante.
E sendo, assim, não se toma conhecimento da
referida (eventual) impugnação deduzida pela
A./apelante.
[Link] Diga-se ainda, em passant, que mesmo que,
porventura, assim não se entendesse, como se
entende, e se considerasse a referida impugnação, a
mesma sempre teria de ser rejeitada, e pelo
seguinte:
Naquilo que para aqui importa, dispõe o artigo 640º
do CPC, sob epígrafe “ónus a cargo do recorrente
que impugne a decisão relativa à matéria de facto”,
que:
1 - Quando seja impugnada a decisão sobre a
matéria de facto, deve o recorrente
obrigatoriamente especificar, sob pena de rejeição:
a) Os concretos pontos de facto que considera
incorretamente julgados;
b) Os concretos meios probatórios, constantes do
processo ou de registo ou gravação nele realizada,
que impunham decisão sobre os pontos da matéria
de facto impugnados diversa da recorrida;
c) A decisão que, no seu entender, deve ser
proferida sobre as questões de facto impugnadas.
2 - No caso previsto na alínea b) do número
anterior, observa-se o seguinte:
a) Quando os meios probatórios invocados como
fundamento do erro na apreciação das provas
tenham sido gravados, incumbe ao recorrente, sob
pena de imediata rejeição do recurso na respetiva
parte, indicar com exatidão as passagens da
gravação em que se funda o seu recurso, sem
prejuízo de poder proceder à transcrição dos
excertos que considere relevantes;
b) (…)
3- (…).” (sublinhado e negrito nossos)
Da leitura de tal preceito legal ressalta que que a lei
(adjetiva) impõe ao recorrente que pretenda
impugnar a decisão proferida sobre a matéria de
facto dois ónus, definindo uma hierarquia entre eles,
pois que enquanto no nº. 1 enuncia aqueles que vêm
sendo considerados/classificados de ónus principais,
já no nº. 2 estão aqueles considerados/classificados
por ónus secundários, dado que daqueles estão
subordinados ou dependentes.
A razão de ser da exigência desses ónus da
especificação, como ressalta do preâmbulo do Dec.-
Lei nº. 39/95 de 15/2, reside no visar afastar a
possibilidade de o recorrente se limitar “a atacar, de
forma genérica e global, a decisão de facto, pedindo
pura e simplesmente a reapreciação de toda a prova
produzida em 1ª. instância e manifestando genérica
discordância com o decidido”, decorrendo ainda dos
princípios estruturantes da cooperação, lealdade e
boa fé processuais.
No que concerne ao segundo ónus (imposto pelo nº.
2 do citado artº. 640º) o propósito do legislador ao
consagrá-lo parece ser claro: destina-se não tanto a
fundamentar e a delimitar o recurso mas, sobretudo,
a possibilitar um acesso mais ou menos facilitado
aos meios de prova gravados relevantes para a
apreciação da impugnação deduzida. Ou melhor
ainda, facilitar, por um lado, o exercício do
contraditório à parte contrária e o acesso, imediato
e direto, à prova pelo tribunal de recurso, sem
ter que ouvir a totalidade da gravação e, por
outro, prevenir as impugnações genéricas e não
concretizadas da decisão sobre a matéria de facto.
Ora, in casu, a apelante sustenta a sua (eventual)
impugnação da decisão de facto, ao pretender que
seja aditada aos factos provados a materialidade
factual a que acima se aludiu, no depoimento da
testemunha A… (cujo depoimento prestado em
audiência de julgamento, a par dos demais
depoimentos ali prestados por outras testemunhas e
até pelas declarações de parte da A., foi objeto de
gravação).
Mesmo que considerasse estarem preenchidos os
ónus impostos no nº. 1 do citado preceito legal
(embora sem deixar de se referir que tal conclusão é
bastante benigna, pois que, como ressalta do acima
exarado, a especificação do facto impugnado e do
concreto sentido da decisão a proferir mostra-se
feita, a nosso ver, de forma vaga e genérica), à
mesma conclusão não se poderá chegar no que
concerne ao segundo ónus (vg. o previsto na al. a)
do nº. 2 do citado preceito legal).
É que em relação ao depoimento da aludida
testemunha em que funda, em seu favor, a
impugnação a apelante faz tábua rasa do mesmo,
não indicando as passagens do registo gravação
desse depoimento, e nem menos indica o inicio e o
termo desse depoimento.
E nem se diga que fica a apelante dispensada de
cumprir esse ónus pelo facto de concordar com as
referências a ele feito pelo tribunal a quo na
motivação da sua decisão de facto (cfr. conclusão
XIX). É que, como acima se deixou expendido, um
dos fins visados com a imposição do referido ónus é
permitir o acesso, imediato e direto, à prova pelo
tribunal de recurso, sem ter que ouvir a totalidade
da gravação. Ora, o facto de a apelante aceitar as
referencias feitas (na motivação da sua decisão de
facto) de pelo tribunal a quo no que concerne ao
depoimento dessa testemunha, não dispensa este
tribunal ad quem, para formar a sua convicção, de
ouvir o depoimento (gravado) dessa testemunha, e
inclusive dos demais ali prestados, pois que, como é
sabido, na formação da convicção do julgador (neste
caso deste tribunal ad quem) não intervém apenas
elementos racionalmente demonstráveis, mas
também fatores não materializados - vg. através na
simples redação ou referencia escrita aos
depoimentos - (cfr., a propósito, Michele Taruffo, in
“La Prueba de Los Hechos, 2002, pág. 292 e segs.)
Diga-se, por fim, que se assim não fosse, isto é, se
este tribunal não tivesse de também formar a sua
convicção, e dado que estamos, in casu, perante
factos que não estão sujeitos a prova vinculada,
bastaria olhar para a decisão de facto proferida pelo
tribunal a quo para se verificar, como se verifica,
que a mesma se encontra minuciosamente
fundamentada, com uma bem estruturada análise
critica da prova produzida nos autos (vg. a
documental e a ouvida em audiência de julgamento
final), com rigoroso cumprimento do disposto no
artº. 607º, nº. 4, do CPC, e confirmar a referida
decisão em respeito do princípio da livre apreciação
das provas pelo julgador (neste caso da 1ª.
instância) e da formação da sua convicção (nº. 5 do
citado artº. 607º).
Termos, pois, em que perante o que se deixou
supra exposto se mantém intangível a matéria de
facto, acima descrita, fixada pelo tribunal a quo .
***
4. Quanto à 2ª. questão.
- Da obrigação da ré pagar à autora a quantia
indemnizatória que dela reclama nesta ação.
A 2ª. questão acima elencada tem a ver com o
julgamento do mérito da causa, e traduz-se, no final,
em saber se a ré se constituiu, ou não, na obrigação
de indemnizar a autora (e, no caso de resposta
afirmativa, em que medida) pelos danos
(patrimoniais e não patrimoniais) que sofreu na
sequência de uma queda que sofreu no interior do
estabelecimento comercial de denominado “...”?
A autora/ora apelante alicerçou, em termos de causa
de pedir, essa sua pretensão indemnizatória (no
âmbito da responsabilidade) no facto de ter sofrido
uma queda no interior do referido estabelecimento
comercial (no qual entrara para fazer compras), a
qual foi provocada pelo mau/deficiente
funcionamento da porta de vidro automática de
saída, pois que, quando se aprestava para abandonar
o referido estabelecimento com as compras ali
feitas, e numa altura em que se encontrava já entre
os batentes dessa porta (com os pés assentes na zona
da soleira), a referida porta, que é comandada por
uma célula eletrónica, disparou o fechamento
(quando deveria ter mantido a mesma aberta)
projetando-a no solo e para o lado de dentro do
estabelecimento.
E foi em razão desse mau/deficiente funcionamento
da referida porta que sofreu a aludida queda, e os
consequentes danos que descrimina e cuja
indemnização reclama agora da ré, em virtude
responsabilidade desse sinistro se encontrar
transferida para esta à luz do contrato de seguro que
a tomadora do mesmo (a sociedade proprietária do
dito estabelecimento) com ela celebrara e se
encontrava então válido.
A essa questão tribunal a quo respondeu/decidiu que
não, louvando-se na seguinte fundamentação que se
deixa transcrita:
« (…) Decorre do disposto no art.º 483.º do Código Civil que a obrigação de indemnizar com
origem na responsabilidade civil subjectiva depende da verificação cumulativa de determinados
pressupostos, a saber: a existência de facto voluntário pelo agente, a ilicitude, a culpa, o dano e
o nexo de causalidade entre o facto e o dano.
Primeiro dos enunciados pressupostos é a existência de um comportamento -que não tem de
consistir necessariamente numa acção, podendo traduzir-se numa omissão- posto que seja
dominável pela vontade. Todavia, no caso das omissões, e como resulta do disposto no art.º
486.º, a imputação ao agente da conduta omissiva exige que sobre ele recaia o dever de praticar
o acto omitido, uma vez que inexiste um dever genérico de evitar a ocorrência de danos. “Daí
que para alguém ser responsável por omissão pelos danos sofridos por outrem se exija, para
além dos outros pressupostos da responsabilidade delitual, um dever específico, que torne um
particular sujeito garante da não ocorrência desses danos”. Tal específico dever pode resultar
de contrato ou ser imposto por lei, como ocorre na previsão dos art.ºs 491.º, 492.º e 493.º,
havendo que ter em consideração, neste domínio, os denominados deveres de prevenção do
perigo (ou, noutra terminologia, deveres de segurança no tráfico), cujo acolhimento permite
estender a responsabilidade delitual por omissão a todo aquele que, exercendo o domínio de
facto sobre uma coisa, móvel ou imóvel, ou determinada actividade, sendo aquela e esta
susceptíveis de causar danos a terceiro, não tome as providências destinadas a evitá-los.
A existência de um dever genérico de prevenção impõe assim ao criador ou mantenedor de uma
situação especial de perigo que proceda à sua remoção, sob pena de responder pelos danos
provenientes da omissão. Os deveres em causa têm a ver com a prevenção dos perigos em locais
privados ou públicos (estradas, edifícios), relacionados com coisas ou actividades perigosas,
deles sendo projecção, entre outras, as citadas disposições legais -art.ºs 492.º e 493.º-, nelas
surgindo a posição do lesante agravada pela presunção de culpa.
Do n.º 1 do art.º 483.º extraem-se portanto com clareza as modalidades que a ilicitude pode
revestir: violação de direitos subjectivos alheios ou de disposições legais destinadas a proteger
interesses alheios, incluindo os assinalados deveres de segurança no tráfico, que terão todavia
de corresponder a uma norma de conduta cujo desrespeito seja havido como ilícito e cujo
conteúdo dependerá da ponderação de diversos factores, como a probabilidade da ocorrência
do acidente e efeitos danosos a evitar, das medidas preventivas exigíveis e possibilidade de auto-
protecção do lesado, sob pena de “uma ampla construção e admissão de deveres de prevenção
do perigo equivaler na realidade à consagração de uma verdadeira responsabilidade pelo risco,
que apenas formalmente se ampara nos esquemas da responsabilidade por culpa”.
A culpa exprime-se através de um juízo de reprovabilidade pessoal da conduta do agente que,
em face das circunstâncias concretas do caso, podia e devia ter agido de modo a evitar o facto
ilícito, e a sua apreciação, na ausência de outro critério legal, afere-se pela diligência de um
bom pai de família, em face das circunstâncias de cada caso, por força do princípio consagrado
no art.º 487.º, n.º 2, do CC.
Finalmente, é necessário que do facto ilícito e culposo resulte um dano – o prejuízo, a perda “in
natura” que o lesado sofreu, como consequência do facto, nos seus interesses (materiais,
espirituais ou morais) – e que interceda um nexo de causalidade entre o facto e o dano.
No presente caso, ficou demonstrado que no dia 21 de Junho de 2017, pelas 15:45, a Autora
sofreu uma queda no estabelecimento do “...”.
Mais ficou provado que esta empresa é tomadora do seguro credenciado pela apólice n.º ...,
transferindo assim a sua responsabilidade extracontratual para a Ré.
Ficou ainda demonstrado que na sequência da queda, a Autora foi transportada de ambulância
para as Urgências do Hospital da Guarda, tendo continuado com queixas nos dias seguintes e
sido assistida por mais duas vezes, nestas mesmas urgências.
No dia da queda, a Autora sofreu dores, angústia, preocupação e stress.
Todavia, não ficou demonstrado que esta queda tenha sido provocada por mau funcionamento
da porta de vidro automática do estabelecimento comercial, por falha na supervisão técnica e
manutenção ordinária da mesma, por parte da Ré (ou da sua tomadora de seguro), conforme a
Autora alega, nem que tenha sido provocada pela altura dos degraus do estabelecimento
comercial, conforme alegado pela Ré.
Ora, conforme referido, não existe obrigação de indemnizar sem a imputação ao agente de um
acto ou omissão ilícitos, recaindo sobre a Autora o ónus da prova respectiva.
Assim, não tendo ficado demonstrada que a causa da queda é imputável à tomadora do seguro
da Ré, não será esta condenada a pagar qualquer valor indemnizatório à Autora, seja por danos
patrimoniais, seja por danos não patrimoniais.
Do mesmo modo e sem serem necessárias demais considerações, não será apreciada a excepção

»
peremptória suscitada pela Ré.

Contra tal entendimento do tribunal a quo (que é


também sufragado pela R./apelada) que conduziu à
decisão que julgou improcedente a ação, se insurge
a A./apelante, defendendo, se bem percebemos, que
caindo o caso na previsão do nº. 2 do artº. 493º do
CC, e estando provada a sua queda no dito
estabelecimento comercial, era sobre a ré que
impedia o ónus de prova (por força da presunção de
culpa ali estatuída sobre si incidia) de que a
proprietária/exploradora do referido
estabelecimento comercial tomou todos os
procedimentos adequados para evitar a sua queda, e
particularmente no que diz respeito ao controle dos
dispositivos elétricos que comandam o correto
funcionamento da abertura e fecho da porta que
provocou a essa queda; prova essa que, no sem
entender, que não logrou fazer e daí que tenha que
ser responsabilizada pelo evento.
Apreciando.
Importa dizer que, à luz dos factos apurados/dados
como provados, nos revemos, na sua essência, no
percurso lógico-dedutivo seguido pelo tribunal a
quo, feito, a nosso ver, através de uma bem
estruturada argumentação esgrimida para o efeito, e
que conduziu à solução expressa na decisão final,
com uma correta subsunção do direito aos factos
apurados.
Todavia, em seu reforço, adiantaremos, ainda que de
forma perfunctória, o seguinte:
É inolvidável que nos encontramos no domínio da
responsabilidade extracontratual por factos ilícitos,
também conhecida por responsabilidade subjetiva
ou delitual (prevista no artº. 483º e ss. do Cód.
Civil, diploma esse ao qual nos referiremos sempre
que doravante mencionarmos somente o normativo
sem a indicação da sua fonte).
Como constitui entendimento pacífico, são
pressupostos, cumulativos, dessa responsabilidade
(que impõe ao lesante a obrigação de indemnizar): a
existência de facto voluntário pelo agente, a
ilicitude, a culpa, o dano e o nexo de causalidade
entre o facto e o dano.
Esse facto/conduta tanto pode resultar de uma ação
como de uma omissão (artº. 486º).
Pressupostos esses cujos ónus de alegação e prova
impende ao lesado (artº. 342º, nº. 1), a não ser que
beneficie de uma presunção legal (artº. 350º, nº. 1),
o que a acontecer transfere para o lesante o ónus de
ilidir essa presunção (artº. 350º, nº. 2).
No que concerne à culpa, ou seja, no que diz
respeito pressuposto do nexo de imputação do facto
ao agente, esse ónus de prova imposto ao lesado é
ainda especificamente reforçado pelo artº. 487º.
Acontece que, no domínio daquela
responsabilidade, nas situações previstas no artºs.
491º a 493º, e no que concerne ao pressuposto da
culpa, abre-se uma exceção àquela regra
estabelecida no citado artº. 487º, no sentido de
inverter o seu ónus de prova, dele dispensando o
lesado.
Entre essas situações importa aqui destacar a
prevista no artº. 493º, nº. 2, (por ser este o
normativo que a apelante invoca ter sido violado
pelo tribunal a quo), onde se dispõe que “quem
causar danos a outrem no exercício de uma
atividade perigosa por sua própria natureza ou pela
natureza dos meios utilizados, é obrigado a repará-
los, exceto se mostrar que empregou todas as
providências exigidas pelas circunstâncias com o
fim de os prevenir”.
Resulta, assim, desse normativo, que se estabelece
nele uma presunção legal de culpa contra quem
exerce uma atividade perigosa - perigosidade que
tanto pode resultar quer pela própria natureza dessa
atividade em si exercida, quer da natureza dos
meios nela utilizados -, com a correspondente
inversão do ónus de prova, tendo apenas a parte a
favor de quem é estabelecida tal presunção que
provar o facto que serve de base à mesma (vide, a
propósito, Ac. do STJ de 18/1/2000, in “CJ, Acs do
STJ, Ano VIII, T1- 39”, os profs. Pires de Lima e
Antunes Varela in “Código Civil Anotado, Vol. I,
3ª ed., nota 1, pág. 468”, e o prof, A. Varela, in
“Das Obrigações em Geral, Vol. I., 4ª. ed.,
Almedina, págs. 519/521”).
Nada se diz/define, porém, em tal normativo, o que
deve entender-se por “atividades perigosas” – a não
ser a admissão, genérica, que a perigosidade derive
da própria natureza da atividade ou da natureza dos
meios nela utilizados.
Pelo que se nos afigura que a melhor doutrina é que
defende que tal matéria terá que ser apreciada à luz
de cada caso e segundo as circunstâncias concretas,
muito embora se deva partir do conceito abstrato de
perigosidade (vide, entre outros, os profs. Pires de
Lima e Antunes Varela in “Ob. cit., pág. 469, nota
3”).
Tendo presente o que que se deixou exposto, e
respondendo, de forma mais incisiva, à questão
acima colocada, diremos:
Afigura-se-nos ser patente que atividade exercida
por quem explora estabelecimento comercial (um
supermercado - que se dedica, infere-se, da matéria
factual, à venda de produtos alimentares a
consumidores) onde ocorreu a queda da autora não é
em si, isto é, pela sua natureza, perigosa.
Mas mesmo que porventura se possa considerar a
porta de saída (também de entrada, deduz-se) do
referido estabelecimento comercial - dada sua
natureza e modo de funcionamento (porta de vidro,
automática e comandada por uma célula eletrónica –
cfr. pontos 5) e 13) - um meio de utilização
perigoso, sempre a ação estaria condenada a
soçobrar pelas razões que se passam a adiantar.
A autora, como vimos, alegou que a sua queda (que
lhe veio a provocar os invocados danos cujo
ressarcimento reclama) foi causada pela referida
porta do estabelecimento e devido ao mau/deficiente
funcionamento da mesma.
Sendo assim, não bastava à autora provar a referida
queda no estabelecimento, necessário se tornava a
prova também de que a mesma foi provocada pela
dita porta.
Feita a essa prova - e face à inversão do ónus de
prova decorrente da presunção de culpa derivada do
citado artº. 493º, nº. 2 – competia e então à ré
demonstrar/provar que a referida porta se
encontrava em perfeitas condições de
funcionamento ou então que a sua segurada
(proprietária/exploradora do estabelecimento)
tomou todas providências para que tal acontecesse,
não lhe sendo exigível, no caso, outro
comportamento.
Ora, cotejando a materialidade factual apurada, dela
resulta não só que a autora não logrou fazer a prova
de tal facto, ou seja, de que a sua queda foi causada
pelo funcionamento da dita porta, como inclusive
dela ressalta, por um lado, que a ré fez prova do
contrário, ou seja, de que a referida queda não foi
provocada por essa porta mas antes se ficou a dever
a uma causa natural exclusivamente a ela própria
ligada, isto é, ao facto de (antes de ter chegado
sequer junto dessa porta) se ter desequilibrado (por
motivos relacionados com a sua elevada idade, com
as dificuldades de locomoção que sentia e com os
antecedentes que determinaram a colocação de uma
prótese na sua anca), e, por um outro lado, fez prova
ainda que a dita porta não padecia de anomalias no
seu funcionamento, sendo certo ainda que (muito
embora nem sequer ficasse provado que a queda
ocorre nelas ou por causa delas) os degraus que
antecedem essa porta tem as medidas legais
regulamentares, elidindo assim, desse modo, a ré
qualquer presunção de culpa que sobre ela pudesse
porventura derivar acima citado artº. 493º, nº. 2,
(cfr., nomeadamente, os pontos 12), 11), 13, e ainda
as als. A) a D) dos factos não provados).
Fica, assim patente, que que não se mostram, desde
logo, preenchidos os pressupostos legais do facto
(neste caso, por omissão de conduta), da ilicitude,
da culpa e do nexo de causalidade entre esse facto e
os danos de que atrás demos conta e que
pressupunham à imposição à ré da obrigação de
indemnizar à A. pelos danos sofridos com a dita
queda.
Termos, pois, em que, perante tudo o que se deixou
exposto, se decide julgar improcedente o recurso e
confirmar a sentença recorrida.
III- Decisão
Assim, em face do exposto, acorda-se em negar
provimento ao recurso, confirmando-se a sentença
da 1ª. instância.
Custas pela A./apelante.
Sumário
I- No domínio da responsabilidade extracontratual por factos ilícitos são pressupostos,
cumulativos, dessa responsabilidade (que impõe ao lesante a obrigação de indemnizar): a
existência de um facto voluntário praticado pelo agente lesante, a ilicitude, a culpa, o dano e o
nexo de causalidade entre o facto e o dano.
II- Esse facto/conduta tanto pode resultar de uma ação como de uma omissão.
III- Pressupostos esses cujos ónus de alegação e prova impende ao lesado, a não ser que
beneficie de uma presunção legal, o que a acontecer transfere para o lesante o ónus de elidir essa
presunção.
IV- Entre a situações que, no domínio dessa responsabilidade, invertem tal ónus de prova,
estabelecendo uma presunção de culpa contra o lesante encontra-se aquela prevista no artº. 493º,
nº. 2, do C. Civil.
V- Na verdade, nesse normativo estabelece-se uma presunção legal de culpa contra quem exerce
uma atividade perigosa - perigosidade que tanto pode resultar quer pela própria natureza dessa
atividade em si exercida, quer da natureza dos meios nela utilizados -, com a correspondente
inversão do ónus de prova, tendo apenas a parte a favor de quem é estabelecida tal presunção o
ónus de provar o facto que serve de base à mesma.
VI- Não concretizando/definindo a lei o que deve entender-se por “atividades perigosas” -
limitando-se à admissão genérica de que a perigosidade derive da própria natureza da atividade
ou da natureza dos meios nela utilizados -, deverá, assim, tal matéria ser apreciada à luz de cada
caso e segundo as circunstâncias concretas da ocorrência do mesmo.
Coimbra, 18/05/2021

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